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Fassade


K. S. Broetto

Fassade 1ª Edição

Vitória 2015


© K. S. Broetto, 2015 Todos os direitos reservados. Nenhuma parte deste livro pode ser utilizada ou reproduzida sob quaisquer meios existentes sem autorização por escrito do autor. Capa: K. S. Broetto Foto da Capa: Chris Bradshaw/ Shutterstock Diagramação: K. S. Broetto Revisão e Leitura Crítica: Roque Aloisio Weschenfelder e Mainá Loureiro Ferreira __________________________________________________ B865f Broetto, K. S. Fassade / K. S. Broetto. 1ª ed. – Vitória: Edição do Autor, 2015.

208p. ISBN: 978-85-919391-0-7 1. Romance Brasileiro

I. Título.

CDU: 821.134.3(81)-31 __________________________________________________ Catalogação na Fonte: Kelly M. Bernini – CRB-10/1541 Todos os direitos reservados à K. S. Broetto Caixa Postal nº 635 CEP: 29.075-010 Vitória/ES E-mail: ksbroetto@gmail.com Site: https://ksbroetto.com


À banda Lacrimosa pela inspiração e M.A.D. pelo amor e apoio.


Por que a fachada? Já não há egoísmo suficiente no mundo? Suficiente auto­obsessão acobertando auto rancor? Já não é suficiente que todo mundo esteja fora de si mesmo? E que ninguém entenda que as paredes da solidão são as paredes do egoísmo? Lacrimosa Fassade –­1. Staz


Capítulo 1

Fachada 1º Movimento

15 de Dezembro de 1875 – Portsmouth, Inglaterra. O jovem observava o corpo afundando lentamente nas águas negras. O homem desaparecia na escuridão com seus olhos castanhos ainda abertos, vidrados. Os lábios roxos estavam entreabertos fazendo com que a água do mar entrasse por eles, onde pequeninas bolhas saíam do orifício, criando a ilusão de que ainda havia ar em seus pulmões. Não era possível ver o sangue que abandonava sua nuca, pois a massa líquida que o envolvia era tão preta que mal se podia enxergar o corpo que submergia, mas, ainda assim, ele via o sangue, como se aquela cor borrasse sua visão incessantemente. Virou-se, deixando para trás a imagem do falecido. No caminho de volta à taverna passou ao lado do obelisco de pedra em memória à guerra da Crimeia e viu, de relance, as inscrições cravadas em sua face frontal.

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Erigido em mem贸ria dos bravos. Pensou em todas aquelas pessoas mortas e esquecidas, e que, um dia, assim como eles, ele estaria morto e esquecido, no entanto n茫o haveria um monumento em sua homenagem, pois ele apenas desapareceria, assim como o homem que agora jazia no fundo do mar.

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16 de Dezembro de 1875 – Portsmouth, Inglaterra. Johan Wells sentia o corpo frio pela noite gélida, fazendo com que se cobrisse como podia com sua capa negra enquanto caminhava pela costa de Portsmouth. A brisa invernal percorria o local, arrefecendo sua face e, mesmo que o capuz lhe tapasse quase todo rosto, ainda podia sentir os lábios ressecando pela friagem. Pensou consigo mesmo que, por mais que o mar lhe fosse de grande agrado, Portsmouth não era uma de suas cidades favoritas. O lugar lhe repelia pelo excessivo número de navios ancorados e por suas várias fortificações, os chamados Fortes Palmerston, que circundavam toda a costa e contornavam a ilha ao longo de Portsdown Hill e Gosport. E, como se não bastasse tamanho exagero de fortes, ainda havia mais quatro em construção no estreito de Solent. O receio de que a França pudesse atacar o Reino Unido era tamanho que Portsmouth estava cercada por todos os lados, mas, depois do fim da Guerra franco-prussiana não mais havia ameaças e Johan se perguntava se, de fato, um dia houvera alguma. O jovem havia concluído sua missão na ilha e preparava-se para retornar ao seu apartamento em Londres, mas, ao encontrar seu mediatário, naquela manhã, recebera junto com o pagamento uma carta de seu preceptor incumbindo-o de uma nova missão a ser executada em Brighton. Apesar de pouco detalhado, o texto revelava que o 14


novo serviço deveria ser realizado no máximo em três dias a contar daquela data e que, após esse período, haveria dificuldades em cumpri-lo. Devido à urgência de sua ida a cidade, Johan tentava visualizar as possibilidades que possuía, e as opções tornavam-se escassas com o fechamento, para manutenção, da ferrovia que deixava a ilha, provocado pela expansão da estrada de ferro até o porto de Portsmouth. Foi então que, ao coletar informações nos arredores da costa, descobriu que um barco, que estava de passagem, partiria na manhã seguinte para Brighton. O capitão dessa embarcação possuía certa fama e, apesar de ser conhecido como Siegfried, o Pirata, suas atividades não eram consideradas ilegais pela Coroa que aparentemente o via apenas como um aventureiro e comerciante, já que tanto a pirataria quanto o corso eram considerados meios de vida ilegais e severamente punidos. Enquanto caminhava pela região do Ponto, famoso por suas tavernas e bordéis, à procura do lugar onde encontraria a única pessoa que partiria para o destino que necessitava alcançar, pensou em tudo que lhe levara àquele local. Lembrou-se do quanto desgostava de receber missões com prazos tão curtos, pois suas escolhas e, consequentemente, seus atos estariam mais propensos a falhas. Johan repassava, em sua mente, as informações que sabia sobre o capitão. Siegfried era um homem alto e forte, de aproximadamente trinta anos, com cabelos loiros e olhos azuis. Sua origem era alemã e alguns bêbados tinham lhe confidenciado que seu barco era uma herança de um pirata desaparecido. A tripulação era formada por alguns marinheiros, por corsários do passado e por desgarrados 15


em busca de fama e dinheiro, e, pelo que ouvira, graças a Siegfried, haviam alcançado seus objetivos. Soube, também, que o capitão era famoso em seu meio por feitos improváveis e por sua coragem inabalável, aceitava trabalhos ditos impossíveis e sempre estava à procura de um novo desafio que o levasse a um tesouro. Muitos o chamavam de destemido, mas a maioria o titulava de suicida e acreditava que ele logo encontraria o fim que tanto procurava. Johan não se importava com as histórias do Pirata, muito menos se ele buscava uma morte memorável, pois tudo que desejava era chegar, o mais breve possível, a Brighton e o capitão seria seu melhor caminho. Devido ao seu desgosto por Portsmouth, Johan não conhecia bem o local, tendo dificuldade em encontrar a taverna que lhe tinham indicado onde Siegfried poderia estar. Apesar de ser lua cheia, percebia o quão difícil era se mover pelas construções e docas no escuro e, embora o Ponto fosse um local público, não conseguia encontrar nenhuma alma viva por suas ruas. Enquanto caminhava por uma série de lojas similares em sua arquitetura, avistou um pequeno armazém, construído com tábuas de madeira de várias tonalidades e tamanhos, todas empilhadas e pregadas uma a uma de maneira quase desajeitada. Mesmo com sua aparência destoante em comparação ao conjunto de lojas padronizadas, a pequena mercearia parecia esquecida no canto de uma rua. O jovem se aproximou e viu que, à porta, sentado sobre uma cadeira de madeira inclinada sobre duas de suas pernas, de forma que suas costas se apoiavam nas tábuas do 16


armazém, jazia um pequeno homem sonolento. Os olhos entreabertos teimavam em se fechar, o nariz grande e largo estava vermelho pela bebida e pelo o frio da noite e, em sua boca, pendia um cachimbo marrom lustroso de onde saíam círculos de fumaça. Em uma das pequenas e enrugadas mãos descaía uma garrafa de bebida quase vazia, enquanto a outra mão repousava sobre a longa barba castanha com vários pedaços de ervas, que lhe embaraçavam o comprimento. Uma placa de madeira, encostada na parede da loja, com letras pintadas em branco de forma cursiva e enfeitada, nomeava o local: Bearden – Ervas para Encantamentos e Poções. Johan se postou em frente ao homem, examinando-o. Para qualquer outro, ele seria apenas uma pessoa pequena e deformada, mas, para os olhos treinados do jovem, bastavam alguns momentos de análise para constatar que, na verdade, se tratava de um gnomo. Quase riu ao entender que um ser mágico vendia encantamentos e poções de forma tão descarada, fazendo-o refletir o quanto de sua mercadoria poderia ser autêntica, ou se, no fim, não passavam de ilusões para os desavisados e tolos. – Hoi! – chamou Johan. O gnomo quase tombou ao ser surpreendido, arregalando seus olhos acastanhados quando percebeu a presença do estranho. Segurou com firmeza a garrafa, ajeitou-se sobre todas as pernas da cadeira e moveu o cachimbo para o canto dos lábios. – Que tipo de erva você deseja, meu jovem? – perguntou com sua voz rouca. Apesar do sono, o homem conseguia perceber que a capa pouco revelava do rapaz. Podia17


-se apenas notar sua estatura mediana para um humano, o corpo magro sob o manto grosso e parte do rosto pálido descoberto pelo capuz. – Não desejo erva alguma, senhor – respondeu calmamente. – Procuro a taverna O Arlequim. O senhor sabe me indicar a direção que devo tomar? Mordendo o cachimbo num misto de desapontamento e raiva, o gnomo voltou a inclinar a cadeira para trás, apoiando-se na parede da loja, enquanto abaixava a fronte como se fosse retornar ao seu descanso. Johan estava desistindo de obter informações do homem, quando viu que o mesmo erguera a mão livre indicando uma direção. Logo após, seu braço retornou a sua antiga posição e, aparentemente, o gnomo voltara ao estado de quase sono. O jovem observou o caminho que lhe fora indicado. Era uma ruela escura e úmida. Ele soltou um suspiro pensando que, se o capitão, de fato, frequentava aquele tipo de lugar, provavelmente, sua ida à taverna não terminaria de forma tranquila. Atravessou a rua e ingressou na viela abandonada e imunda, encontrando uma casa de três andares, velha e mal cuidada, feita de alvenaria, cuja porta era de madeira e, em sua soleira, haviam cavado, com certo esmero, o nome O Arlequim. Ao adentrar o local. Johan deparou-se com um grande salão, repleto de mesas e cadeiras de madeira surradas, onde as velas e lamparinas iluminavam pouco o recinto que cheirava a bebida e sexo. Era certamente um lugar de baixo nível, analisava Johan enquanto se aproximava do balcão do bar. Bêbados, que insistiam em se embriagar, mercená18


rios, que estampavam os crimes de seus atos em seus rostos e mulheres caídas, que deixavam seus vestidos desalinhados lascivamente, ocupavam o salão, misturando-se com a podridão do ar e o forte cheiro de álcool. Enquanto sentava no banco próximo ao balcão, Johan percebera que havia alguns anões e fadas entre os humanos, todos se embebedando e se vendendo. Era mais comum ver tais raças entre as pessoas, uma vez que os anões pareciam homens troncudos, com baixa estatura e a maioria tinha a obsessão de nunca cortar suas barbas. Já as diferenças entre as fadas e as mulheres humanas não eram tão nítidas, visto que, em sua maioria, eram mais belas e delicadas, mas o detalhe quase irreconhecível, que as destacava, eram as orelhas levemente pontudas. Achou interessante como era quase comum encontrar seres mágicos em tais lugares. As classes baixas não conseguiam perceber (ou não se importavam) que aquelas pessoas não se adaptavam no que era considerado normal, ou sob outra perspectiva, humanal. Mas, isso não era causa para se assombrar, afinal, muitos dos próprios humanos, ali encontrados, não se ajustavam aos padrões da sociedade. Johan reconhecia que poderiam existir outras raças no local, além de fadas e anões, mas ele não saberia reconhecer todas e, se tentasse, poderia chamar muita atenção para si, ação esta que preferia evitar. O jovem encapuzado pousou a mão vestida com luvas de couro sobre o balcão ao passo que uma moça jovem de cabelos e olhos amendoados se aproximava sorridente. – O que deseja nesta noite fria, meu senhor? Uma 19


bebida para esquentar os ossos, ou, talvez... Uma companhia para lhe aquecer a carne? – perguntou sorrindo, inclinando-se levemente, exaltando os seios fartos que saltavam do decote generoso proporcionado pelo corpete. – Minha querida, você pode me fazer duas coisas... A primeira é trazer a bebida mais forte que vocês possuem – respondeu ele, sorrindo, revelando os dentes brancos e por relance os olhos de um azul claro quase verde. – E, a segunda, é dizer-me onde posso encontrar Siegfried, o Pirata. A jovem riu ruborizada pelo sorriso do homem e por sua voz calma e macia, suas mãos finas alcançaram uma garrafa com um líquido marrom e um copo grande, preenchendo-o até a metade. A mulher empurrou o recipiente para Johan, aproximando perigosamente seus lábios da face do rapaz. – Esta é a bebida mais forte que nós temos aqui, meu senhor – disse ela, sussurrante. – E aquele... – falou enquanto movia a face com o olhar lânguido para o canto esquerdo do salão. – Aquele é o Pirata que procura... Agora, quando acabar com sua bebida e os assuntos que tem a tratar com aquele homem, me procure... Adoraria aquecê-lo esta noite... – sussurrou com o prazer estampado em sua voz. Johan sorriu singelamente, agradecendo à mulher com um meneio de sua cabeça. Enquanto ela se afastava, tomou sua bebida, que era realmente forte. Sentiu-a descendo por sua garganta, abrasando como ácido. Cerrou os olhos na tentativa de superar a ardência que subia para sua cabeça e aquecia todo seu corpo em questão de segundos. O jovem tinha grande inclinação pelas bebidas for20


tes, pois a sensação que proviam o lembrava de que ainda estava vivo, que ainda havia sangue em suas veias e carne em volta de seus ossos. Após outro gole, voltou sua atenção para a direção que a mulher lhe mostrara. Havia cinco homens ao redor de uma mesa repleta de copos e garrafas, dentre eles, dois tinham mulheres sobre seus colos; outro fitava a bebida de seu copo com os olhos distantes e avermelhados, obviamente bêbado (não que os outros quatro também não estivessem); o quarto conversava alegremente com o quinto homem que se mantinha calado, com as costas voltadas para o balcão, os pés sobre a mesa e os braços cruzados sobre o peito. O tricórnio de feltro preto fizera Johan não reconhecê-lo de imediato, pois tapava quase todo seu cabelo loiro, mas aquele era, sem dúvida, o homem que Johan procurava. Os rapazes estavam contentes com o pagamento que receberiam em Brighton. Haviam executado um serviço que consistia em retomar uma mercadoria encaixotada de alguns ladrões que pareciam ser de origem árabe, e o resgate rendera belas lutas banhadas a sangue e morte, para os mouros, felizmente. O grupo de Siegfried ainda estava extasiado pela batalha e já gastavam parte do dinheiro que haviam recebido no início do contrato, pensando animados no restante que ainda embolsariam. Jack e Ryan que, apesar de serem irmãos, não se pareciam fisicamente, haviam comprado prostitutas para toda a noite, certos de que só poderia existir comemoração completa se houvesse sexo. Jack era o irmão mais velho, com pouco mais de trinta anos, alto, olhos castanhos, cabelos curtos negros e uma 21


barba por fazer, crescendo selvagemente. Tinha uma feição séria e uma cicatriz que lhe cortava a testa, rente ao olho esquerdo. Sobre seu colo estava sentada uma prostituta loira, corpulenta e seminua. Ryan tinha quatro anos a menos, era um pouco franzino, se comparado a Jack, seus cabelos eram castanho-cacheados e ele possuía olhos cor de mel. Ryan era bem mais claro que o irmão e seu rosto estampava uma feição de zombaria. Ao abraçar a prostituta de cabelos ruivos e olhos verdes que, certamente, tinha sangue de fada, pois se destacava por sua beleza delicada e as orelhas levemente pontudas, podia-se perceber que o rapaz não possuía mais a mão esquerda, seu braço terminava no pulso fino. Ao lado dos irmãos, sentava-se Joe, um rapaz de pele negra e próximo dos seus vinte e oito anos. Seu cabelo era raspado e os olhos castanhos escuros teimavam em fitar a garrafa de absinto com um olhar bêbado e distante e, apesar de estar de olhos abertos, sua mente jazia presa num sonho onde ele e a fada verde (que se assemelhava à voluptuosa mulher que adornava o rótulo do vidro) se divertiam nus pela ravina de uma floresta encantada e psicodélica. Conversando e gargalhando com seu capitão estava Allen, que aparentava ter em torno de trinta anos, possuía cabelos de um castanho claro com comprimento até a altura de seus ombros, era dono de olhos verdes e tinha uma feição divertida ao narrar seus feitos contra seus pobres inimigos. O capitão sorria, enquanto bebia, e a descrição que haviam feito dele era exata, não havia dúvida que aquele era Siegfried, o Pirata. Johan finalizou sua bebida, deixando, ao lado do 22


vidro vazio, três moedas de um pence cada, levantou-se e caminhou em direção ao local onde o grupo estava reunido. Abaixou o capuz da capa, revelando o cabelo curto castanho com franjas que lhe caíam aos olhos, de um raro tom de azul. Sua face impassível era muito jovem e de certa beleza, com traços levemente delicados. Enquanto se aproximava, circulando a mesa para postar-se próximo ao Pirata, pôde notar o quão alto o mesmo era. Os traços fortes de seu rosto eram emoldurados pelos cabelos loiros ondulados que lhe caíam na altura dos ombros, em seus lábios residia um sorriso arrogante e cínico. Seus ombros eram largos e, apesar de sua roupa ser escura e possuir várias camadas, certamente escondiam os músculos que aquele homem possuía. – O senhor é Siegfried, o Pirata? – perguntou Johan, enquanto se aproximava da mesa. Allen e Ryan o olharam atentamente, já Joe e Jack estavam ocupados demais, um pela bebida e o outro pelos beijos da mulher que comprara. – Depende de quem quer saber – respondeu Siegfried, com sua voz grave, sem se importar em olhar para o jovem que lhe falava. – Johan Wells o procura. – O que quer de Siegfried, o Pirata, Johan Wells? – indagou o capitão num tom irônico, sem abandonar sua postura imóvel. – Preciso ir à Brighton, senhor. Seu barco é o único que irá partir para tal destino – respondeu, com seriedade. – Peço que me permita fazer esta viagem com você, em troca o recompensarei – disse enquanto tocava em um saco pesado preso em seu cinto que tilintou com o som de me23


tal. O Pirata ergueu os olhos pela primeira vez, mostrando o quanto eram de um azul profundo e singular, olhou para o saco de moedas e depois mirou Johan com tranquilidade. Apesar da escuridão do local, ele pôde perceber que era um rapaz muito jovem, com não mais de dezesseis anos. – Deve estar bem desesperado para pedir viagem a um homem como eu. Certamente é um louco ou um tolo – disse, com sua voz forte, sorrindo com descaso. – Mas, não me importa o que é... O dinheiro não basta! – Siegfried descruzou os braços do peito e retirou os pés da mesa. – Por acaso, acha que levo em meu barco qualquer um que me paga? – salientou, enquanto se levantava e se postava na frente de Johan, revelando a óbvia diferença em sua altura e estrutura física em comparação ao jovem que lhe parecia extremamente franzino. – Meu barco já está cheio, e se quiser mesmo ir terá de matar um de nós – completou, com um sorriso desdenhoso, divertindo-se com a ideia de ver uma criança como aquela arriscar-se a enfrentá-lo. Johan deu um passo para trás, criando uma distância segura o suficiente para reagir caso fosse necessário, olhou para Siegfried e percebeu uma pistola trabalhada e uma rapieira com punho de arame, ambas presas em bainhas nos cintos grossos e pesados. – Que assim seja. Em que lugar e com quem? – perguntou demonstrando frieza. – Ou será você meu oponente? – disse, olhando para o capitão com indiferença. O Pirata riu enquanto tirava o chapéu, revelando toda sua cabeleira ondulada loira. 24


– Essa ideia me diverte... Realmente... Seria interessante... – respondeu vagamente, enquanto fitava Johan por inteiro. O Pirata via um rapaz jovem demais, frágil demais e com uma beleza quase feminina e ele imaginava que certamente duelava como tal. Mesmo que a luta não durasse o suficiente, ele poderia se distrair com alguém como ele. – Não capitão, deixe-me lutar – interrompeu Allen, antes que Johan pudesse responder ao Pirata. – Não pode guardar todo o divertimento apenas para você! – gracejou. – E, já que você me roubou aquela jovem em Poole, roubarei o seu divertimento aqui em Pompey! – disse, ao se levantar, rindo, batendo a palma de sua mão nas costas largas de Siegfried. O Pirata olhou para seu companheiro com o cenho franzido, sorrindo com arrogância logo depois. – Meu caro Allen, não existe roubo quando se toma algo que não lhe pertence... – falou, enquanto envolvia os ombros do homem com seu braço direito. – E, se você também não conquistar mais este desafio, serei forçado a mais uma vez cumprir com o que você não foi capaz... O homem se desvencilhou do abraço de seu capitão e, irritado, olhou para Johan, intimando-o. – Vamos garoto, sua luta será comigo e agora. Siga-me se deseja tanto seu bilhete de ida para Brighton. – Enquanto falava, agarrou uma lamparina da mesa e começou a caminhar com passos largos para a porta do salão. Johan virou-se para Siegfried, fitando-o, enquanto o homem observava seu companheiro com um sorriso de divertimento desenhado em sua face. – Você ouviu o homem, efebo? – perguntou, sorrin25


do. – Vamos – completou, seguindo o caminho que Allen fizera. Ryan levantou a prostituta de seu colo, dando-lhe tapinhas em seu quadril e nádegas, exigindo que ela o acompanhasse, pois ainda havia muitas horas pagas. A mulher seminua riu, postando-se ao lado dele enquanto os dois caminhavam cambaleantes para a saída. Johan seguiu logo atrás e, ao passar pela porta, encontrou Allen que já tirava a camisa, expondo o torso nu ao frio da noite. A ruela da taverna era parcamente iluminada por uma lamparina posta no chão, próxima ao marujo, que começava a gingar para aquecer os músculos. O imediato aparentava ser muito ágil e habilidoso, tinha a pele marcada por uma cicatriz que rasgava parte de seu peito largo e uma tatuagem de dragão – com o corpo sinuoso como de uma cobra – que tomava praticamente todo o lado direito de suas costas, subindo por seus ombros e despontando a cabeça bestial em seu peito, próximo ao coração, o que chamava ainda mais a atenção para seu torso definido por músculos. O cabelo caía-lhe no rosto, enquanto os olhos fitavam o alfanje na mão direita como se contemplasse sua beleza mortal. Certo de que a luta logo se iniciaria, Johan retirou a capa, revelando suas roupas que seguiam as tendências entre os jovens aventureiros. Sobre a calça negra, usava uma bota de couro robusta e resistente, em sua cintura havia dois cintos que se enroscavam, e preso a eles havia dois anéis de suspensão da bainha reforçada, toda negra e com detalhes em prata em sua trava e ponteira; nela repousava um sabre de cabo preto e guarda prateada com três linhas 26


sinuosas que se uniam na guarda da mão. Usava uma blusa branca sob um colete grosso de brim também negro; uma gravata tipo ascot de seda branca envolvia sua garganta com delicadeza e, sobre todas as peças, descaía um sobretudo marrom-escuro, que retirou com cuidado, guardando-o junto à capa. Siegfried observava os dois homens frente a frente, posicionando-se para o embate quando percebeu que havia algo de curioso no rapaz. A posição que seu corpo esguio tomava era de defesa. Seus pés estavam perfeitamente posicionados, a mão direita jazia tranquila sobre a bainha da espada, os olhos glaucos fitavam com desapego e frieza o homem a sua frente, analisando-o calmamente. O Pirata percebia os olhos do rapaz lendo cada parte do corpo de Allen como se escolhesse o melhor lugar para atacar e teve certeza, ao ver o olhar do rapaz, que ele não era um garoto comum e, acima de tudo, não era um oponente a ser desmerecido. Havia algo nele, algo que não conseguia quantificar. Ryan, ao contrário de Siegfried, sequer olhava para os homens que lutariam. Ele agarrara a cintura de sua companhia e lhe oferecia beijos lascivos em seus lábios e pescoço, enquanto sua única mão apalpava a coxa esquerda da mulher. Os dois pareciam cobiçar algum divertimento antes que o espetáculo começasse. O homem facilitara a Johan na escolha do local que acertaria seu primeiro golpe, ao fazer questão de mostrar seu corpo forte, como se isso pudesse intimidá-lo, mas não tinha pressa em atacá-lo, certo de que logo, o imediato o faria. 27


Ao perceber que o rapaz permanecia parado fitando-o, Allen partiu para cima do garoto desferindo um golpe violento e poderoso em sua direção. Johan moveu-se rapidamente para o lado, desviando do golpe da lâmina curva, enquanto soltava a bainha de seu cinto e batia sua ponteira com força e precisão bem abaixo do peito esquerdo do homem, acertando com exatidão seu rim. Allen recuou encolhendo-se com a dor do impacto, enquanto Johan retornava calmamente a sua posição de defesa, agora com a bainha da espada em suas mãos. O Pirata não acreditava no que seus olhos haviam presenciado. Em questão de segundos, ele vira um rapaz que mal se movera, desviando-se de um golpe certeiro e intenso, sem sequer ficar abalado e, tão rápido quanto desviara, sacou a bainha de sua espada e acertara com exatidão o rim de um de seus melhores combatentes. Já Ryan e sua prostituta olhavam aturdidos para a cena, seus olhos não tinham conseguido acompanhar o que havia acontecido. Allen se reergueu com ódio, disposto a dar uma lição no rapaz insolente. Recompôs-se como pôde e partiu mais uma vez para o ataque. Johan percebia que por mais forte que o golpe do homem pudesse ser, desta vez seus movimentos haviam se tornado mais imprecisos e desengonçados, provavelmente pela dor do rim ferido, e assim, mais uma vez, antes que a lâmina pudesse acertar seu corpo, Johan se esquivou movendo-se para o lado direito do homem e com perfeição cirúrgica acertou o outro rim de Allen que, com o impacto, mordeu a língua e agora cuspia saliva e sangue. A dor o fez cair de joelhos e se curvar com as mãos na barriga. 28


Os olhos de Siegfried acompanhavam a cena como se pudesse percebê-la lentamente em cada detalhe. Como se dançasse um balé mortal, Johan se moveu para as costas do imediato, e com apuro e graça retirou o sabre da bainha com a mão direita e mal a esquerda deixara o estojo da arma cair, segurou os cabelos do homem ajoelhado puxando sua cabeça para trás, revelando seu pescoço totalmente desprotegido. Antes que o Pirata pudesse gritar para que o rapaz parasse, a espada já havia se movido no pescoço de seu companheiro. Sentiu-se desesperado ao imaginar que veria o sangue jorrar do corte, mas percebeu apenas uma linha fina quase imperceptível. Seu imediato estava vivo. Johan libertou os cabelos de Allen e com o olhar frio e calmo fitou o capitão. – Eu venci. Creio que não haja necessidade de fatalidades, você concorda? – perguntou, enquanto tocava a lâmina fria. Siegfried estava atônito pelo jovem que o fitava, pensou que o rapaz possuía a aparência de um anjo e o talento de um assassino. Era certo que a morte caminhava ao lado do efebo, mas antes que pudesse raciocinar sobre o desfecho do embate, percebeu Ryan empurrando a prostituta para tirá-la de seu caminho, fazendo-a cair com a violência de seu ato, e sacando a longa adaga que carregava consigo, convencido de que deveria vingar a derrota de seu amigo. Johan permaneceu imóvel, olhando-o com apatia, fazendo com que o rapaz ficasse ainda mais enraivecido. Antes que Ryan pudesse investir contra o jovem que derro29


tara seu companheiro, viu Siegfried levantar a mão, compelindo-o a se deter, caso contrário ele compreendia que, no final, quem o deteria seria seu capitão. Convicto que acatar a ordem do homem seria o mais sensato, Ryan interrompera seu assalto. O Pirata caminhou até Johan, e seu sorriso demonstrava malícia e curiosidade, enquanto o rapaz o encarou, com desconfiança, em resposta à aproximação. – Perdoe a má educação de meus companheiros. Boas maneiras não são virtudes de tais – disse sem tirar os olhos de Johan, que se sentia incomodado por um olhar tão penetrante a lhe fitar. – Eu sou educado, capitão! – falou Ryan, enquanto ajudava sua prostituta a se levantar – Não é, meu bem? – perguntou, com um sorriso que mostrava os dentes mal cuidados. – Um pouco sem jeito, mas um verdadeiro cavalheiro, sir – respondeu a mulher, beijando-o logo em seguida. – Eu também sou, capitão... – respondeu Allen, com dificuldade, sentado no chão na tentativa de se recompor, sorrindo com os dentes e a gengiva, sujos de sangue. Siegfried riu e balançou a cabeça em afirmativa, sabia que, ao parar Ryan, impedira que, ao invés de apenas um, dois de seus companheiros fossem derrotados de forma tão simplória. O rapaz possuía uma habilidade que surpreendera o Pirata, uma serenidade que beirava a frieza, mas, no entanto, sequer ferira Allen ao ponto de incapacitá-lo. Apenas causara uma dor que lhe incomodaria no máximo por um ou dois dias e, acima de tudo, somente utilizara a lâmi30


na de sua espada como um aviso. O capitão compreendera com perfeição a advertência de que, se o jovem quisesse, Allen estaria morto. E, Siegfried sabia que, por suas palavras, concedera o direito de o vencedor matar o perdedor, no entanto, Johan apenas dera um lembrete e demonstrara algo que parecia ser um gesto de boa vontade, gesto este que ele conseguia reconhecer. Mas, ainda assim, o capitão percebia que deveria determinar a posição do jovem naquela viagem. Fitando-o, Siegfried sentiu-se estranhamente fascinado pelo garoto surpreendente, que se postava a sua frente. Ele sabia que havia encontrado alguém único. – Se ainda quiser ir, acabou de comprar seu bilhete – falou a Johan, ainda sorrindo, mas com certo ar de gozação em seu olhar. – Mas, logo aviso, se quiser chegar vivo e intocado ao seu destino, sugiro que não pisque os olhos, efebo, afinal meu barco não é um transatlântico a passeio. Somos homens a serviço dos nossos próprios interesses – finalizou, com deleite, enquanto fitava o rapaz por completo. Johan abaixou a fronte, enquanto pegava a bainha de sua espada. Havia algo no olhar do capitão que o incomodava, fazendo com que não o conseguisse encarar. Caminhou até seu casaco e capa e os vestiu calmamente e, apesar de não o ver, podia sentir, em suas costas, o olhar do Pirata, e toda aquela contemplação fixa e destemida o perturbava. Era como se ele pudesse ver através dele, enxergar além de suas roupas, além de seu corpo e isso era algo que nublava suas leituras acerca do homem. Deveria ele temê31


-lo? Vê-lo como uma ameaça ou apenas como alguém que lhe permitiria viajar em seu barco? De qualquer maneira, Johan não abaixaria a guarda para ele ou qualquer outro de sua tripulação. – Creio que nos veremos pela manhã, efebo – falou Siegfried, rompendo com o silêncio. Ao ouvir novamente a palavra efebo, Johan não sabia se sentia-se irritado ou preocupado pelo substantivo com o qual estava sendo, repetidamente, nomeado, pois, apesar de ser uma palavra incomum, quando utilizada referia-se a jovens rapazes, mas, também a rapazes efeminados. Respirou fundo e se virou, encontrando novamente aqueles olhos azuis fitando-o. Havia um sorriso agradável na face de traços fortes do Pirata que Johan não conseguiu não retribuir. Um gesto assim, direcionado a ele, era algo tão incomum que, por instantes, ficou perdido, sem saber o que dizer. – Saímos às cinco horas em ponto da Doca Curva. Não se atrase ou ficará para trás – falou Siegfried, enquanto ajeitava o casaco, fechando-o na tentativa de conter o frio que parecia só aumentar. Allen já se erguera e batia a poeira das calças. Ao terminar, alcançou a blusa e o casaco que jogara no chão e caminhou desajeitado para a porta da taverna. Ao passar por Siegfried, bateu em seus ombros sorrindo com óbvio desgosto. – Malditos sejam seus olhos! Seu agourento... – rosnou, enquanto andava segurando suas roupas com uma mão, e a outra pressionando parte de sua barriga em dúvida de qual lado doía mais. Logo atrás, Ryan e sua prostituta também retornavam, sendo que a mulher cochichava algo 32


no ouvido do rapaz que ria de seus comentários. Siegfried permanecia imóvel, fitando Johan, ignorando completamente a reclamação de seu imediato. – Até breve, senhor – disse o jovem, sorrindo com educação ao ver a porta sendo fechada, ofereceu um singelo meneio com a cabeça e se virou, movendo-se em direção à saída da ruela. – Onde vai passar a noite? – perguntou Siegfried de sobressalto. – Estou hospedado em outra taverna... – respondeu Johan, detendo seus passos por alguns segundos com a súbita indagação. – Hum... O rapaz virou o rosto em direção ao Pirata, confuso pela pergunta, encontrando-o fitando as próprias botas com um olhar indistinto. – Até logo... – falou Johan, despedindo-se em definitivo, receoso que a conversa continuasse. – Sim. Até logo, Johan Wells – falou Siegfried, vagamente e, sem olhar para o jovem, adentrou a taverna e fechou a porta atrás de si. Johan permaneceu imóvel por alguns segundos, olhando pensativo para o local. Era estranho para o rapaz conhecer alguém como o Pirata. Ele nunca encontrara uma pessoa que o olhasse daquela maneira, refletiu que nem mesmo William o contemplara de forma tão intensa em momento algum. O jovem balançou a cabeça com raiva, não era hora nem lugar para se permitir a tais pensamentos e lembranças. Aquele homem fazia parte de um passado perdido e 33


abandonado, e assim deveria permanecer. Voltou a caminhar, agora, a passos largos, pois a madrugada estava fria demais para se continuar desabrigado.

Siegfried retornara para o lugar em que estivera sentado, enquanto Joe se encontrava desmaiado sobre a mesa onde sua mente vagava em êxtase com a fada verde. Allen estava apoiado no balcão contando à atendente o quão formidavelmente lutara e como o garoto correra fugido de sua força e virilidade. Jack ainda estava com a prostituta em seu colo, mas pelos sons que a mesma deixava escapar, ficara evidente que o mesmo iniciara a relação ali mesmo. Já Ryan subia as escadas com sua fada em busca de um quarto para mostrar a sua dama todo seu cavalheirismo. O Pirata balançava gentilmente um copo de rum, o líquido marrom dançava no vidro com os movimentos que causava, enquanto o homem fitava distraído o ir e vir da bebida. Num ato repentino virou todo o líquido em sua boca, largando o copo vazio. Com o ardor na garganta, Siegfried levantou-se, jogando sobre a mesa um pagamento extra pela noite, e em seguida, abandonou a taverna a caminho da praia. O frio era intenso, mas ele estava acostumado a climas diversos, não seria a temperatura negativa que o impediria de sair e pensar. Caminhou por alguns minutos até alcançar a praia, sentou-se na areia repleta de pequeninos seixos e voltou-se para o mar, fitando a imensidão.

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A lua cheia coloria de prata o negrume do mar, transformando-o belamente. Siegfried refletiu que era como se o deus Mani desejasse transformar as águas num gigantesco espelho prateado e, enquanto deixava sua mente navegar naquela perfeita superfície espelhada, viu-se pensando no rapaz que acabara de conhecer. Seus movimentos e sua aparência o haviam impressionado e ficaram registrados em sua mente, mas o Pirata sabia que, o que realmente não conseguia esquecer, nem parar de pensar, eram seus olhos. Apesar da pouca luz, ele pôde perceber o tom de azul esverdeado, uma tonalidade incomum que ele a pensara jamais encontrar novamente. E, aqueles olhos desenterraram lembranças que ele tentara esquecer por tanto tempo e, juntamente, ressuscitaram um sentimento intenso nele, uma fascinação que não sabia definir se era pelos olhos, pela aparência que neles residia ou se pela dança tão perfeita que aquele corpo realizara. O homem sorriu sozinho, não tinha a certeza se de desgosto ou de deleite, mas Siegfried tinha a convicção de que estava encantado pelo rapaz e, em sua viagem a Brighton, teria a chance de descobrir o que, de fato, o fascinava nele. Ele descobriria se aqueles olhos poderiam pertencer a um anjo como o que habitava as suas memórias, ou se eram olhos de um demônio, de um engodo anunciado para lhe perturbar e levá-lo mais uma vez à beira da insanidade.

Johan estava sentado em um dos bancos do salão

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da estalagem em que passaria a noite, comendo uma pequena porção de frango assado e pão fresco. Apesar de não ter se alimentado o dia inteiro, a quantidade era mais do que suficiente para o jovem que estava acostumado a comer pouco. Sentara-se próximo à lareira, pois o frio da noite lhe tirara o calor do corpo, observando, distraído, as chamas que pintavam as paredes rústicas de pedra com tons avermelhados, enquanto, próximo de si, outros homens ceavam e conversavam. A estalagem ficava nas proximidades do Ponto e, apesar de simples, era grande e repleta de quartos. Possuía um primeiro andar amplo com algumas mesas onde as pessoas jantavam refeições como sopas, carnes assadas, pães e vegetais e bebiam cerveja e rum. Marujos e trabalhadores do porto se espalhavam pelo salão, que era iluminado pelas dezenas de velas postas nos vários braços de madeira de dois candelabros suspensos que ficavam presos ao teto por correntes. O fogo crepitante da lareira aquecia o local, transformando o frio do exterior em apenas uma lembrança desagradável. O jovem sentia-se disperso e desatento demais, seus pensamentos voltavam a todo o momento ao Arlequim. Impressões da luta, dos homens de Siegfried e do próprio Pirata convertiam confusas em sua mente. Concluiu que o conflito com o imediato não fora difícil, mas o talento do homem deveria ser reconhecido, pois, provavelmente, se ele não o tivesse subestimado, o duelo teria sido de igual para igual, mas, há anos, Johan via os homens cometendo o mesmo erro, julgando-o por sua aparência. 36


Já dos outros companheiros do Pirata não soube dizer o que poderia esperar. Encontrá-los num momento de distração não revelava muito sobre os mesmos. Poderiam ser desde fanfarrões a assassinos, em segundos, e, diferentemente do que faziam com ele, não cairia no erro de julgá-los pelo breve momento que compartilharam. No entanto, era difícil não ter uma forte impressão do capitão. A postura imponente e o olhar inquietante o haviam deixado preocupado. Não que ele temesse pela própria vida, pois tinha confiança em suas habilidades, mas tinha receio daqueles olhos, que pareciam desvendá-lo apenas ao mirá-lo. Já havia conhecido muitas pessoas em sua vida e os olhos delas o observaram de tantas formas. Ele vira olhares de ódio, desejo, posse, indiferença, vingança, superioridade, raiva, medo, repulsa... Mas, nunca encontrara alguém que o olhasse daquela maneira. O olhar de Siegfried o despira, não de suas roupas, mas dele mesmo. Atormentado, afastou o prato com o restante de sua comida de perto de si, uma viagem o esperava e ele tinha de descansar. Assim, subiu as escadas de madeira e adentrou o cômodo alugado. O local era pequeno e havia apenas uma cama de metal com um colchão duro e uma janela diminuta que dava vista para uma rua escura, onde dois homens fumavam enquanto conversavam de forma suspeita. Puxou sua bolsa, que deixara sob a cama, e colocou-a ao seu lado, enfiando a mão em um bolso oculto, retirou a carta que recebera de seu empregador. Observou mais uma vez a letra perfeita e a tocou, sentindo a pressão que 37


a pena fizera sobre o papel de pele de carneiro. Os dedos deslizaram até a frase ao fim da carta, enquanto cerrava os olhos e a sussurrava com a voz baixa e macia. Repetiu-a como quem reza e, assim, adormeceu pensando em pecado, morte e profundos olhos azuis.

“Então, esse desejo, tendo concebido, dá à luz o pecado, e o pecado, após ser consumado, gera a morte.”

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Fassade 1º Capítulo  

Em um mundo de aparências, entre mentiras veladas e segredos obscuros, descubra na Inglaterra, da Era Vitoriana, um mundo oculto que poucos...

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