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Pages S E Õ Ç A L RE NOVEMBRO, edição nº0

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Gostaríamos de iniciar este periódico desconstruindo sua esperança de ler matérias sobre cura ou encontrar a fórmula mágica de convivência com o paciente bipolar. A intenção desta publicação é exatamente o contrário. Queremos mostrar nosso mundo por trás dos remédios, das terapias e dos surtos; propomos a imersão na nossa mente descontrolada e inconstante, pois acreditamos que apenas assim seremos verdadeiros com aqueles dos quais mais exigimos

C O M P R E E N S Ã O


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cultura LITHIUM (Nirvana)

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depoimento Dandara

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opinião profissional

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fama bipolar Marilyn Monroe

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dificuldades & preconceito não sou inválido!

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terapias yoga

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cultura

HOT AND COLD (Katy Perry)

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inclusão social

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associações ADEB


CULTURA

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ILUSTRAÇÃO POR TOV MAUZER


lithium

KURT COBAIN (NIRVANA) I'M SO HAPPY 'CAUSE TODAY

I FOUND MY FRIENDS

THEY'RE IN MY HEAD I'M SO UGLY BUT THAT'S OK , 'CAUSE SO ARE YOU WE'VE BROKE OUR MIRRORS SUNDAY MORNING IS EVERYDAY FOR ALL I CARE I'M NOT SCARED LIGHT MY CANDLES IN A DAZE 'CAUSE I'VE FOUND GOD I'M SO LONELY THAT'S OK , I SHAVED MY HEAD NO, I'M NOT SAD AND JUST MAYBE I'M TO BLAME FOR ALL I'VE HEARD I'M NOT SURE, I'M SO EXCITED I CAN'T WAIT TO MEET YOU THERE AND I DON'T CARE, I'M SO HORNY THAT'S OK , MY WILL IS GOOD I LIKE IT, I'M NOT GONNA CRACK I MISS YOU, I'M NOT GONNA CRACK I LOVE YOU, I'M NOT GONNA CRACK I KILLED YOU, I'M NOT GONNA CRACK

ESTOU TÃO FELIZ PORQUE HOJE ACHEI MEUS AMIGOS ELES ESTÃO EM MINHA CABEÇA

SOU TÃO FEIO MAS TUDO BEM , PORQUE VOCÊ TAMBÉM É

QUEBRAMOS NOSSOS ESPELHOS MANHÃ DE DOMINGO É TODO DIA POR MIM NÃO ESTOU ASSUSTADO ACENDO MINHAS VELAS EM TRANSE PORQUE ACHEI DEUS

DIAGNOSTICADO BIPOLAR DESDE A INFÂNCIA, KURT EXPÕE EFEITOS DO LITIO EM UMA DE SUAS MÚSICAS DE MAIOR SUCESSO

ESTOU TÃO SOLITÁRIO

TÁ TUDO BEM , RASPEI MINHA CABEÇA NÃO , NÃO ESTOU TRISTE

E TALVEZ EU SEJA O CULPADO POR TUDO QUE OUVI

EU NÃO TENHO CERTEZA , ESTOU TÃO ANIMADO MAL POSSO ESPERAR PARA TE ENCONTRAR LÁ E EU NÃO ME IMPORTO , ESTOU TÃO EXCITADO

ESTÁ TUDO BEM , MINHA VONTADE É BOA

EU GOSTO DISSO , EU NÃO VOU ENLOQUECER

EU SINTO SUA FALTA , EU NÃO VOU ENLOUQUECER EU TE AMO , EU NÃO VOU ENLOUQUECER

EU TE MATEI , EU NÃO VOU ENLOQUECER


DEPOIMENTO

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“NÃO POSSO E NÃO DEVO CONVIVER COM A SOCIEDADE, ELA ME FAZ MAL E EU FAÇO UM MAL AINDA MAIOR A ELA” ILUSTRAÇÃO POR STEVE DELAMARE


dandara dandara DEPOIMENTO LÚCIDO SOBRE CRISES

Dificilmente eu poderia escrever ou falar com alguém sobre esta doença que fui diagnósticada há 8 anos; desde então, minha vida é uma grande incógnita e evidentemente este depoimento está sendo enviado com pseudônimo. Acho que muitos diagnósticos são errados, não compreendo quando as pessoas atestam que estão curadas ou que convivem com a doença... já passei por cerca de 14 psiquiatras, perdi trabalho, família, casa, absolutamente tudo, não tenho contato com qualquer pessoa além de um filho que talvez tenha ficado ao meu lado por falta de opção, ou mesmo para me proteger – isso não me importa. Não existe um único medicamento que eu não tenha tomado e, por isso mesmo, há um ano, não tomo mais nenhum. Mesmo medicada, nas fases de euforia, que foram muitas, sei que fiz muitas coisas consideradas moralmente erradas... não matei ou roubei, mas de resto, fiz de tudo, sem a menor empatia com qualquer pessoa, não me sinto incluida nesta sociedade e não faço a menor questão de viver nela. Esta doença é grave, dilacerante... sei que sua intenção é publicar depoimentos de superação, mas no meu caso a doença venceu. Minha vida se resume a viver um dia de cada vez, absolutamente isolada, por opção. Não posso

De brilhante executiva de uma multinacional, hoje sou um ser que apenas vaga entre a cama e o banheiro, durante horas, durante dias, durante meses, durante anos. Não, eu não estou deprimida, estou apenas relatando como consegui sobreviver. Esta é minha saída, a única que a doença me oferta: o isolamento. Se não viver assim, acredite, é muito pior... Evidentemente que nestes anos já tentei me matar e evidente que penso em fazer isto de novo mas não agora, não quero que meu filho tenha esta imagem, enquanto viver comigo. Meu depoimento não deve ser encarado com tristeza ou comiseração, ou eu vivo assim ou seria internada. As coisas que fiz foram graves, não posso relatar até porque muitas não me lembro, mas sei que foram graves e foram muitas. Compulsões? Todas. Desvarios? Todos. Ruptura com a realidade? Radical. Tive delírios, ouvi vozes, mas principalmente me desliguei (com um click) da realidade. Dói, claro que dói! Daria meus dois braços para receber um abraço, mas sei que isso nunca mais vai ocorrer... O mundo é minha cela e estou nele cumprindo uma pena. Portanto, vamos ter bom senso e parar de minimizar esta doença, é tão devastadora e grave que merece ser respeitada.

e não devo conviver com a sociedade, ela me faz mal e eu faço um mal ainda maior a ela. Todas as minhas relações foram destruidas por mim mesma, minha memória é vaga, lembro de poucas situações, muito poucas e sei que amanhã não lembrarei de hoje.

Muitos psiquiatras a consideram uma patologia comum, não é. Aliás, como um médico que tem uma vida estabilizada, vai de casa para o consultório há 34 anos, pode entender a imensidão que é isso?


DR. VALENTIM GENTIL FILHO FALA SOBRE A BIPOLARIDADE E SEUS TRATAMENTOS

POR QUE A ANTIGA PSICOSE MANÍACO -DEPRESSIVA PASSOU A CHAMAR-SE TRANSTORNO BIPOLAR?

COMO DIFERENCIAR O QUADRO NORMAL DO PATOLÓGICO, QUANDO SE TRATA DE ALEGRIAS E TRISTEZAS?

Analisando separadamente os elementos que compõem esse nome, pode-se dizer que a palavra psicose soa vergonhoso, infame. Maníaco, por sua vez, é um termo técnico derivado do grego e significa loucura. Depressivo era o termo mais brando dos três e que menos impacto causava. Por isso, considerou-se que a expressão psicose maníaco-depressiva era pesada demais para designar uma doença que, de certa forma, não era tão terrível quanto o nome fazia supor. De qualquer modo, a palavra psicose não era de todo descabida porque, durante a crise, algumas pessoas ficam realmente psicóticas, com alucinações e delírios no grau extremo desse transtorno de humor. A partir do momento, porém, em que recebe tratamento eficaz e adequado, é possível conviver com pessoas portadoras de transtorno bipolar de humor sem identificar o problema. A mudança de nomenclatura ocorreu, então, para diminuir o estigma e para estabelecer distinção entre esse tipo de transtorno e as depressões unipolares que nunca evoluem para a fase de euforia. Além disso, essa distinção foi importante para verificar se biologicamente as patologias eram diferentes e, portanto, exigiam condutas especiais de tratamento.

Se o indivíduo está eufórico no carnaval, no dia do aniversário ou porque ganhou um prêmio ou um campeonato, isso nada tem de anormal nem de patológico. O que chama a atenção é a desproporção entre as circunstâncias e as reações, ou seja, o comportamento é desproporcional aos fatos ou inadequado ao ambiente. A pessoa está alegre e eufórica, quando nada ao redor justifica tais sentimentos. Como sua autocrítica está comprometida, age como se estivesse (e não está) sob o efeito do álcool ou de drogas. Seu pensamento fica acelerado e desorganiza-se de tal modo, que os assuntos surgem em tumulto e é difícil acompanhar sua linha de raciocínio. O QUE DEVE FAZER A FAMÍLIA DIANTE DE UM CASO COMO ESSES?

Antes de tudo é preciso combater o medo, porque é ele que aparece primeiro. Depois, é tentar não agir agressivamente contra a pessoa. Se os familiares não estiverem inseguros e temerosos, poderão convencê-la a procurar atendimento para um diagnóstico diferencial, a fim de eliminar possíveis causas imediatas da doença. Se a intervenção ocorrer em 48 ou

OPINIÃO PROFISSIONAL

opinião profissional

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OPINIÃO PROFISSIONAL

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72 horas, praticamente não haverá prejuízo. O primeiro remédio que se receita hoje é uma visita a sites da internet especializados em informar as pessoas sobre a regulação do humor, porque isso é fundamental na manutenção do tratamento. FILHOS DE PESSOAS COM TRANSTORNO

dos gêmeos ela encontrou as condições necessárias para o desenvolvimento da patologia que certamente depende da interação de tais fatores com o ambiente. Não se pode deixar de considerar também que, além da predisposição e vulnerabilidade geneticamente determinadas, certas situações contribuem para a eclosão ou precipitação do problema.

BIPOLAR APRESENTAM POSSIBILIDADE MAIOR DE DESENVOLVER ESSA PATOLOGIA?

Sabe-se, desde a Antiguidade, que a existência de um caso de transtorno bipolar numa família aumenta a possibilidade de que a enfermidade se manifeste em outros membros da mesma família. O desenvolvimento da genética permitiu analisar grande número de gêmeos nos quais a patologia torna-se mais evidente. Gêmeos idênticos, ou monozigóticos, possuem genoma absolutamente igual, mas apenas em 80% dos casos os dois irmãos apresentam quadros de euforia e depressão. Embora a porcentagem seja elevada, 20% não manifestam o problema. Cabe perguntar, então, se fatores extragenéticos interferem nesse resultado. Sim e não. Uma vez que ninguém expressa seu genoma completamente, pode-se deduzir que, apesar da carga genética idêntica, só num dos gêmeos ela encontrou as condições necessárias para o desenvolvimento da patologia que certamente depende da interação de tais fatores com o ambiente. Não se pode deixar de considerar também que, além da predisposição e vulnerabilidade geneticamente determinadas, certas situações contribuem para a eclosão ou precipitação do problema. QUAIS OS FATORES AMBIENTAIS MAIS IMPORTANTES?

Sabe-se, desde a Antiguidade, que a existência de um caso de transtorno bipolar numa família aumenta a possibilidade de que a enfermidade se manifeste em outros membros da mesma família. O desenvolvimento da genética permitiu analisar grande número de gêmeos nos quais a patologia torna-se mais evidente. Gêmeos idênticos, ou monozigóticos, possuem genoma absolutamente igual, mas apenas em 80% dos casos os dois irmãos apresentam quadros de euforia e depressão. Embora a porcentagem seja elevada, 20% não manifestam o problema. Cabe perguntar, então, se fatores extragenéticos interferem nesse resultado. Sim e não. Uma vez que ninguém expressa seu genoma completamente, pode-se deduzir que, apesar da carga genética idêntica, só num

EXISTE RELAÇÃO CLARA ENTRE O USO DE CAFEÍNA E O TRANSTORNO BIPOLAR?

O uso excessivo de cafeína pode produzir convulsão e algumas pessoas ingerem, todos os dias, quantidades absurdas dessa substância. Cheguei a conhecer uma que tomava 14 litros de coca-cola num único dia e era difícil distinguir seu comportamento do de um indivíduo com transtorno bipolar. E para que as pessoas usam cafeína? Para ficarem acordadas, com mais energia e ânimo, mais alerta. Trata-se, então, de um agente externo, consumido como se fosse alimento, que estimula o humor. No que se refere às drogas ilícitas (cocaína, crack, anfetaminas), seu uso aumenta o risco de desenvolver a primeira crise, assim como aumenta a frequência das recorrências, que tendem a tornar-se autônomas, fenômeno já apontado na Antiguidade. O DIAGNÓSTICO DE TRANSTORNO BIPOLAR EM CRIANÇAS E ADOLESCENTES, POUCO FREQUENTE NO PASSADO, CRESCEU BASTANTE NOS ÚLTIMOS TEMPOS.

O QUE

JUSTIFICA ESSA MUDANÇA?

Trabalho com transtorno do humor desde que me formei, há 32 anos, e só me dei conta de que ele pode manifestar-se na infância há cerca de 10 anos. Por circunstâncias diversas, os psiquiatras de adultos receberam menor treinamento em psiquiatria infantil, uma área na qual ainda predominam conceitos talvez já superados. Por isso, os casos de transtorno bipolar ficavam mais evidentes na adolescência quando, em geral, era feito o diagnóstico. No entanto, se enfocarmos a história desses adolescentes e ouvirmos seus pais, encontraremos evidências muito precoces de alteração de humor, irritabilidade, distúrbio do sono e hiperatividade. Hoje, está em voga atribuir tais sintomas apenas aos distúrbios de atenção e à hiperatividade (TDAH) e existem programas inteiros dedicados ao reconhecimento e tratamento dessas manifestações.


13 Sess達o da revista


“SOZINHA!!! EU ESTOU SOZINHA. EU ESTOU SEMPRE SOZINHA, NÃO IMPORTA O QUE ACONTEÇA” TRECHO DE SEU DIÁRIO

ILUSTRAÇÃO POR SAHABIHA


15 FAMA BIPOLAR

MAIS QUE UM SÍMBOLO SEXY, UMA MULHER TRANSTORNADA Por Ludmila Vilar

Do camarim dava para ouvir a plateia entre aplausos e risadas. Mas na sala a poucos metros do palco, Marilyn Monroe estava sentada, em pânico, embora minutos antes tivesse atravessado os bastidores do Madison Square Garden e sorrido com glamour inabalável para os técnicos de bastidores. Por trás da porta ela era um desastre emocional. Naquele maio de 1962, sua vida estava caótica: ela havia perdido peso, faltava muito às gravações de Something´s Got to Give e vivia doente. Depois de fazer o público esperar por quatro horas, pisou no palco com um vestido que a fazia parecer nua: branco, justo, decotado, transparente. Marilyn fez um movimento com os ombros, suspirou e não esperou a plateia sair do êxtase. Então embalou com voz sexy a homenagem ao presidente John Kennedy, seu amante havia meses: “Happy birthday, Mr. President. Happy birthday… to you”. Assim, cumpriu o papel da loira fatal ao qual estava acostumada — e também o da celebridade temperamental, ao qual estava acostumado o público. Mas o atraso não era um capricho. Marilyn tinha certeza de que todos lá fora zombavam dela e custou a entrar. Em seu íntimo era perturbada, insegura e medrosa. “Por que me sinto menos ser humano do que os outros?”, escreveu em um de seus diários. Isso a acompanhou por toda a vida, mas não a impediu de se tornar — e continuar sendo — a maior estrela de todos os tempos. “Ela representava o sonho e o pesadelo americanos e reunia características extrema-

mente importantes para a recordação eterna”, diz a professora Denise Sant´anna, da PUC-SP, especialista em história do corpo. Segundo ela, Marilyn era a estrela mais híbrida que Hollywood poderia ter naquele momento. “Tinha corpo de mãe e jeito de adolescente. Era a mulher para casar ao mesmo tempo em que a maneira de se comportar a tornava inacessível.” Sua sensualidade não tinha nada a ver com a de atrizes de outras décadas, como Ava Gardner, que encarnava apenas a devoradora de homens. Marilyn tinha doçura, era engraçada. Mesmo sua insatisfação estava em conformidade com o espírito daqueles tempos. Ela exalava já nos anos 50 o que viria a confirmar-se na década seguinte. O que não foi a contracultura americana senão os sintomas de uma grande insatisfação? Meio século depois da sua morte, Marilyn Monroe ainda rende milhões de dólares a cada ano. A imagem lucrativa da atriz resulta em toda forma de produto para abastecer a “Marilyn mania”. Sobretudo, neste ano de cinquentenário da sua morte. A MAC deve lançar uma linha de maquiagem inspirada na diva. No Brasil, além da estreia do filme Minha Semana com Marilyn, a exposição Quero Ser Marilyn! fica em cartaz na Cinemateca Brasileira, em São Paulo, de 4 de março a 1º de abril. A mostra traz 125 de retratos da atriz feitos por artistas como Andy Wahrol e Henri Cartier-Bresson. Recentemente, a editora Taschen lançou Norman Mailer, Bert Stern: Marilyn Monroe (em inglês). A obra traz um ma-


FAMA BIPOALR

16

terial precioso e teve apenas 1962 impressões, a mil dólares cada. Mailer, considerado um dos maiores escritores americanos, escreveu uma biografia da vida da atriz em 1973. Stern fez o último ensaio fotográfico dela no hotel Bel-Air, em Los Angeles, em 1962. São imagens da atriz nua cobrindo-se apenas com um lenço de seda transparente. Estava magérrima. “Ainda mais linda do que quando era mais cheinha e tinha sido, até então, a atriz mais volup¬tuosa que eu já havia visto”, diz Stern numa entrevista publicada no livro. Pouco tempo depois, no dia 5 de agosto daquele ano, ele ouviu a notícia de sua morte na TV. “De alguma forma não foi surpresa. Não que ela tenha me parecido deprimida ou suicida. Mas alguma coisa me cheirava a problema.” No livro Marilyn — Últimas Sessões, em que o autor Michel Schnei¬der descreve a relação da atriz com o terapeuta dela, há um diálogo da paciente com seu médico sobre essa sessão de fotos. “Estava bêbada e nua”, teria dito. Segundo consta, ela estava abastecida pela mistura de Dom Pérignon e vodca. “Não é isso que me incomoda. É a música enjoativa que ainda ouço quando as vejo (as fotos).” Eram seus últimos meses de vida e, de acordo com Schnei¬der, àquela altura ela já estava oscilando entre “uma estrela cintilante e uma boneca murcha”. Apesar de ter sido cultuada em vida e permanecer assim meio século depois da morte, Marilyn ainda continua sendo, de certa forma, um mistério para os fãs e para a mídia. Por isso talvez o mais importante dos livros recém-lançados sobre a atriz seja o que de fato conseguiu entrar na mente dela. Fragmentos (Tordesilhas, 269 págs.) traz algo realmente inédito: os diários. Trata-se de um extraordi-

nário arquivo que contém poemas, cartas, receitas e notas escritos por ela. São textos que jogam luz sobre a intimidade da mulher mais desejada e invejada do mundo naquela época e mostram que a vida não parecia nada fácil quando Marilyn estava sozinha. Muitas coisas doíam: o medo de herdar a doença mental da mãe, a busca por uma família, os casamentos fracassados (ela se casou três vezes) a insegurança no trabalho e o esforço para se tornar uma atriz respeitada. O precioso arquivo foi encontrado por Anna Strasberg, a terceira mulher de Lee Strasberg, professor de teatro de Marilyn para quem ela deixou os direitos da sua imagem e objetos pessoais. Lee morreu em 1982 e somente há alguns Ana encontrou as caixas com os escritos. O mundo ganhou um olhar sem filtro sobre a atriz. Marilyn matriculou-se no curso de Lee em março de 1955. Fazia um ano, havia se separado de Joe DiMaggio, lenda do beisebol daqueles tempos, com quem ficou casada por apenas dez meses — o relacionamento sucumbiu ao ciúmes do jogador, que não lidava bem com a superexposição da mulher. Frequentava o curso e a terapia, obrigatória para os alunos. O método de estudos apoiava-se principalmente nas memórias pessoais dos alunos. Aos 29 anos, estava colocando os demônios para fora. Uma reportagem publicada pela edição americana da revista Vanity Fair em outubro de 2010 afirma que ela fazia de tudo para passar despercebida na sala. Sentava no fundo, cobria os cabelos com um lenço, abria mão da maquiagem. De nada adiantava. Certa vez, na sua hora do exercício, o professor pediu que lembrasse de um momento em sua vida. Era preciso ir fundo, buscar a roupa que vestia, o cheiro, as palavras que ouvira. Marilyn descreveu uma cena, supos-


17 FAMA BIPOLAR

tamente de um abuso sexual, em que estava sozinha num quarto quando um homem, não identificado por ela, entrou. À medida que lembrava, desabava em lágrimas. Estavam ali a alma atormentada e a atriz em busca de ser reconhecida além de sua beleza. A mesma que a eternizou na memorável foto com o vestido branco voando com o vento vindo direto do túnel do metrô. Lee Strasberg tonou-se mentor e substituiu de certa forma o pai que ela nunca teve. A mãe dela, Gladys Pearl Baker, sofria de graves problemas mentais e não vivia com o pai da atriz quando ela nasceu. A busca por esse homem foi uma das maiores dores de Marilyn por toda a sua vida. Ainda bebê, a atriz ficou sob os cuidados de uma família e depois teve a infância marcada por uma série de idas e vindas entre a casa da mãe e outros lares até ser enviada para um orfanato. O desamparo nunca deixou Marilyn. Definiu muitas das suas angústias e também comprometeu sua formação intelectual — pela qual sempre se esforçou. Strasberg a ajudou a chegar mais próximo da artista que queria ser. Com ele, tornou-se mais confiante diante das piadas que faziam a seu respeito em Hollywood. Ninguém acreditava nela como atriz — só como uma a loira estonteante. É nessa fase que ela conhece Arthur Miller, um dos maiores escritores do país, com quem se casou em 1956. Ficaram juntos até 1960, após dois abortos espontâneos e uma relação em que se sentia muito só — ela achava que teria nele o marido e o mentor intelectual com que sonhava. O período seguinte foi regado a mais champanhe (o álcool¬ sempre foi constante companheiro), remédios e a deterioração física e psicológica que culminou em episódios como a crise de pânico no camarim do Madi-

son Square. Ela morreu menos de dois anos depois da separação, mas não sem antes viver o mais famoso e polêmico de todos os seus casos, com o então presidente Kennedy. Com ele sofreu, de novo, por estar com um homem que queria só a diva. Ele a teria descartado após passar a noite com ela na suíte presidencial do Hotel Carlyle, para onde foram depois da festa que se seguiu à homenagem no Madison Square Garden. É dessa noite a única foto da atriz com o presidente. A hipótese de que tenha sido assassinada por sua ligação com o poder sempre rondou sua morte. Oficialmente, ela se suicidou em agosto de 1962. Um fim incompreendido como ela foi.

“SOU EGOÍSTA, IMPACIENTE E UM POUCO INSEGURA. COMETO ERROS, SOU UM POUCO FORA DO CONTROLE E ÀS VEZES DIFÍCIL DE LIDAR”


Sessão da revista

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ILUSTRAÇÃO POR AGNES GREEN


DIFICULDADES & PRECONCEITOS

não sou inválido!

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ROSS GELLER CONTA COMO VENCEU O PRECONCEITO

Vim fora isso, eu ainda realmente não quero que eles me colocar em qualquer outra coisa . Passei duas semanas no hospital, eo médico disse que eu poderia sair após esse tempo. Então ele me assinou fora e eu passei uma semana na casa dos meus pais. Eu estava dirigindo de forma imprudente - eu ainda estava completamente fora de controle - e uma querida amiga da família que tinha passado por um episódio semelhante me convenceu a procurar ajuda. Ela tinha alguém escorregar PCP em seu coquetel em seus 20 anos e que desarmou-a em um episódio maníaco . Ela sugeriu que eu ver um médico em outro hospital. Naquela época eu era apenas um garoto jovem, que não era capaz de lidar com o que estava acontecendo , e eu disse OK. O médico me disse : “Eu vou colocar você em lítio, e você vai ter que levar isso para o resto de sua vida. “ Esse pensamento era difícil de aceitar. Mas ele não parou por aí . Lembro-me de forma tão clara. Ele me disse : “Não espere para fazer nada muito especial com sua vida, porque agora você está com deficiência mental“ Isso foi tão horrível de se ouvir. Eu tinha 21 anos de idade. E, apesar de sua certeza , eu sei que essa não era a vida que eu estava destinado a viver . Ele me colocou em lítio, e eu podia sentir os efeitos da droga imediatamente. Eu estava no hospital por cerca de três semanas. E quando eu saí , que é quando a minha viagem realmente começou. Eu gastei

cada centavo que eu tenho que fazer uma pesquisa sobre isso, até o ano passado quando vim para a causa do que aconteceu comigo. E eu não trocaria nada, porque isso me levou até onde estou agora. Quinze anos mais tarde , eu estou fora das drogas psicotrópicas e sintoma livre , que tem sido o meu objetivo para toda a minha vida. Tantas crianças de hoje estão recebendo esses rótulos . Nós estamos tomando os mais talentosos , crianças talentosas e drogar -los. Estou orando para que com este projeto, nós podemos ajudar a lançar alguma luz sobre os caminhos que estamos manipulação de transtornos mentais hoje. Todos os rótulos estão errados. Mas os sintomas são muito reais. E é realmente trágico que estamos simplesmente drogando as pessoas em vez de encontrar as causas desses problemas. Se eu puder ter um pequeno pedaço de trazer isso à vida, eu me sinto como se eu tivesse feito alguma coisa.

“NÃO ESPERE FAZER NADA ESPECIAL NA SUA VIDA, PORQUE VOCÊ É MENTALMENTE INVÁLIDO”


EXERCÍCIO TERAPÊUTICO

Yoga, quando combinado com medicação e terapia, pode estabilizar o humor de pacientes que sofrem de transtornos bipolares. Embora a medicação controla mania, yoga ajuda a controlar a ansiedade. Vários estudos têm mostrado que a escolha de yoga como um tratamento complementar pode reduzir a depressão, ansiedade, raiva e sintomas neuróticos. Ajuda os pacientes a entrarem em contato com seus próprios corpos, forna-os mais conscientes de suas oscilações de humor e ajuda a controlar algumas das suas tendências maníacos. Ela também gerencia o stress e ajuda a relaxar a mente. Meditação, yoga asanas/posturas e exercícios de respiração podem diminuir os níveis de ansiedade e melhora o humor.

Todo paciente que sofre de transtorno bipolar exige tratamento diferenciado, por exemplo, um paciente que sofre de agitação excessiva e ansiedade pode precisar de exercícios que foquem na respiração. Assim, é importante que cada paciente trabalhe com instrutores de ioga profissionais, que podem orientá-los através do conjunto certo de atividades. “Os resultados estão atrelados à prática regular e disciplinada do paciente, sendo fundamental que ele tome consciência de sua participação no processo de estabilização”, adverte o médico radiologista e professor de Kundalini Yoga Rodrigo Yacubian Fernandes.

TERAPIAS

yoga

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A MÚSICA FOI ESCRITA PARA O BIPOLAR EX-MARIDO DE KATY PERRY, RUSSEL BRAND ILUSTRAÇÃO POR CRYSTAL


hot and cold

23 CULTURA

Katy Perry

YOU CHANGE YOUR MIND LIKE A GIRL CHANGES CLOTHES YEAH, YOU

PMS LIKE A BITCH

I WOULD KNOW AND YOU OVER THINK ALWAYS SPEAK CRYPTICALLY I SHOULD KNOW THAT YOU’RE NO GOOD FOR ME CAUSE YOU’RE HOT THEN YOU’RE COLD YOU’RE YES THEN YOU’RE NO

VOCÊ MUDA DE IDEIA COMO UMA MENINA MUDA DE ROUPA

É , VOCÊ FICA COMO UMA CADELA DE TPM

EU DEVERIA SABER E VOCÊ PENSA EXCESSIVAMENTE SEMPRE FALA ENIGMATICAMENTE EU DEVERIA SABER QUE VOCÊ NÃO É BOM PRA MIM PORQUE VOCÊ É QUENTE E ENTÃO FRIO VOCÊ É SIM E ENTÃO NÃO

YOU’RE IN AND YOU’RE OUT

VOCÊ É DENTRO E ENTÃO FORA

YOU’RE UP AND YOU’RE DOWN

VOCÊ É ANIMADO E DEPRESSIVO

YOU’RE WRONG WHEN IT ’S RIGHT IT ’S BLACK AND IT ’S WHITE WE FIGHT, WE BREAK UP WE KISS, WE MAKE UP YOU DON’T REALLY WANT TO STAY, NO BUT YOU DON’T REALLY WANT TO GO WE USED TO BE JUST LIKE TWINS, SO IN SYNC THE SAME ENERGY NOW ’S A DEAD BATTERY USED TO LAUGH ABOUT NOTHING NOW YOU’RE PLAIN BORING I SHOULD KNOW THAT YOU’RE NOT GONNA CHANGE SOMEONE CALL THE DOCTOR GOT A CASE OF A LOVE BIPOLAR

STUCK ON A ROLLER COASTER C AN’T GET OFF THIS RIDE

VOCÊ ESTÁ ERRADO QUANDO É CERTO É PRETO E É BRANCO NÓS BRIGAMOS E TERMINAMOS BEIJAMOS E NOS PEGAMOS

VOCÊ NÃO QUER REALMENTE FICAR , NÃO MAS VOCÊ REALMENTE NÃO QUER IR NÓS COSTUMÁVAMOS SER

COMO GÊMEOS , TÃO SINCRONIZADOS A MESMA ENERGIA AGORA UMA BATERIA MORTA COSTUMÁVAMOS GARGALHAR SOBRE NADA AGORA VOCÊ É CLARAMENTE CHATO EU DEVERIA SABER QUE VOCÊ NÃO IRIA MUDAR ALGUÉM CHAME O MÉDICO TEMOS UM CASO BIPOLAR DE AMOR PRESO EM UMA MONTANHA RUSSA NÃO POSSO SAIR DESSA CORRIDA


25 INCLUSÃO SOCIAL

inclusão social A IMPORTÂNCIA DA VIDA EM SOCIEDADE Por Telma Gomes

A equipe do Centro de Atenção Diária-CAPS II implantou em 2009 o projeto Saúde Mental: Um Olhar no Território, Inclusão Social e Cidadania, com o objetivo de criar uma rede integrada de atenção em saúde mental no território. Ucienti quam quibus quidis ut es endis verspie nimenda erorem expelecae aute enducia delignimus. Dusant autem rempor solorro blaboribus, te conetur magnist la diae latio. To volorat. Corporibea volorercit aditatur, ut reriatur sit harcid ut re volupta ssusanditi con pereper spitatin post, occus moluptaest voluptate earum re eium est faccaecte sum quisi nonsequos dis entur asperum ipsam fuga. Et exped escit aciis mollent. Moluptaerio. Temolupta ducid et re custo teniminum ut volorporem rerum sinvendus dolorerume ped maximus doluptat prat doluptur sandit officium faceprem il magnati assunt. Vid magnis isciunt. Uptatem poribeatur? Rum saerum, sequia doles eost, eaquibusam que is et volora vitatus is asperch iliquatem incimin plantib uscimen dandem sequam corro ex experro doluptate con reiur as et que et evenet vent fuga. Corum rem laborem. Nam expliquossed miniendebit quibusa picilliamet exero ma volest autas et inctaeprem nusam eturiae ma sequis ex estem eum il mod moloria am simusto rporrovitias mosamus sum.

Fugiaepu dandebit dolupis doloratemqui totas aut repe dolest quam, nobisti to to debit hil invelibus aut magni rem accae. Uptates aut aborem fugia nulluptas aruptaq uatinctem facculpa quas etur accuptatur sedis saessit iorestotaque pratur, il idesti omnis et fugiae velectecerum vento optiunt re moditas prorrovid mosam abores dellaut laccum ipidunt aute essi ut fugitatibus moloria dolest ex eaquis eum namendit occusae pe nit et everectio volor sum aut quia que ium quodis quuntur re sae sequi tota corerum in nitatio nseraectota ius estio id ut abo. Ici doluta volorum ipic tem voluptam, culparit res molupis exeri dolum ressint et, ipis consequia dolorum volore rest voluptae voloreceate nat voluptae. Eveliquae everspidese volupitas simus, suntibu sdaerit iaeptatem et ditat mo beatur? Onsed que sit lit fuga. Itaeribus eumet exceatur, sitintio quid eaquam, simus, quae alit, tecum faceaqu iaspernatias mos ut mos es dolesed quaectio. Itatio blandi nempos modicie niasperes undi odicit lam est mo omnihit dolor sunt. Udi offic tem ullum et quatae rem ipsa ne molum reriam eicipiendant eosserum dolorer umquate pa corum que iunti blabo. Nullest explaces doluptu remporp orpora volorum abo. Undae pa que magnam eiunt minctia tioreiur? Qui dentur audigent fugite voluptate cones moloruptas aut voluptatem faccus pre volectate ratemped magnam, sequiant doluptati deb.


Sessão ASSOCIAÇÕES da revista

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A.D.E.B. ASSOCIAÇÃO DE APOIO AOS DOENTES DEPRESSIVOS E BIPOLARES

Desde 1991, na educação e reabilitação das pessoas com a Doença Unipolar e Bipolar, em Portugal. A Associação de Apoio aos Doentes Depressivos e Maníaco-Depressivos (ADEB) foi fundada em 5 de Junho de 1991 tendo a escritura notarial sido lavrada em 21 de Agosto de 1991. Está registada na Direção Geral de Ação Social, com o n.º 18/93, em 19 de Fevereiro de 1993, como Instituição Particular de Solidariedade Social, de utilidade pública, com fins de saúde. A ADEB tem Sede Nacional em Lisboa, Delegação na Região Norte (Porto), Delegação na Região Centro (Coimbra), Núcleo do Alentejo (Évora) e o propósito de criar, a médio prazo, o Núcleo do Algarve (Faro).

A Associação tem como âmbito todo o território nacional, abrange doentes, familiares, médicos, psicólogos, enfermeiros, técnicos de serviço social e outros profissionais, e tem como objectivos nomeadamente:a reabilitação psicossocial com vista a desenvolver e conservar o equilíbrio da pessoa com doença mental; Promover a ação médica especializada junto da comunidade, e divulgando conhecimentos sobre as doenças mentais; Apoiar a célula familiar, facultando informações para a justa integração social do paciente bem como a sua estabilidade.


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Black Pages edição 0  

Revista de apoio a amigos e familiares de pacientes com transtorno bipolar, com conteúdo cultural e profissional.