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O Sé7imo Exemplar – por Lucas Monteiro

“Momentos bons e ruins fazem parte da vida. A diferença é que um marca e outro ensina”.

Cap. I - Folhas de Outono

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avid Louis Gaspar, sim este é o meu nome completo, tenho 15 anos e estudo no colégio Morgana Dalatrusti, estou no primeiro grau, e digamos que sou rotulado como o nerd da minha sala. Rotulo intensificado pela minha aparência, pois uso um óculos com lentes pequenas e quadradas, sem armação ao redor do vidro. Minha mãe sempre disse que meus olhos azuis claros eram os do meu pai, assim como o meu cabelo liso e negro. Naquela época usava um penteado desarrumado, uma franja que ia até os cílios. Pele clara e não era muito alto. Tudo começa no dia 23 de Setembro, numa segunda-feira, saí de minha casa rumo ao colégio e alguns passos, quando estava passando sub uma árvore de folhas estreladas amareladas e avermelhadas, um forte vento sopra em todo o meu corpo fazendo com que as folhas farfalhassem e se desprendessem com fácil esforço, uma rajada de folhas e vento me atinge. Atrapalho-me cuspindo uma folha em minha boca e acabo tropeçando na calçada, mas no último instante consigo readquirir o equilíbrio. Respiro aliviado, e prossigo o meu trajeto. Cheguei ao colégio subindo as escadas até o saguão central, vou ao segundo andar e pego a direção de minha sala, assim como é a minha rotina, sento em minha carteira do lado esquerdo da sala. Sempre sou uns dos primeiros a chegar; ficava esperando o restante vendo pela janela o pátio, as pessoas, as árvores, os pássaros... – Bom dia, alunos! – comprimento a professora de história com um sorriso. Ela era jovem, se comparar com o restante das professoras. – Vamos começar hoje com um aluno novo!

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O Sé7imo Exemplar – por Lucas Monteiro

Murmurinhos começaram ao fim da sala. – Menos barulho! – pronunciou a professora colocando um livro em cima de sua mesa de madeira. Ela gesticula em direção à porta. – Entre Vitor. Um garoto entra na sala; de cabelos mais claros que a cor de trigo e olhos mais verdes que esmeraldas. Seu corpo era um pouco alto, se comparado a mim, e magro. Segurava sua mochila preta na mão direita e com a esquerda dava os toques finais em sua camisa branca. As meninas sorriram vislumbrando a beleza do novo “concorrente” dos meninos populares, pois certamente adicionariam o rotulo de popular nele, caso ele fosse social. – Olá, meu nome é Vitor Raphael, morava em Montes Belos, muito prazer! As meninas mais populares trocavam olhares e sorrisos enquanto os garotos reviravam os olhos por desdém. – Ótimo – concluiu a professora – pode se sentar agora, Vitor. Eu abaixo o meu olhar para meu caderno já em cima da mesa e ouço o roçagar dos outros pegando seus materiais, e em adicional, os passos do novo aluno, rumo ao lado esquerdo da sala. Uma carteira atrás de mim… sim… ele sentara nesta onde havia um lugar vago. Fiquei com a respiração acelerada e resolvi pegar um lápis para me distrair. – Vamos dar continuação aos exercícios 22 e 23 da página 50, turma. Vários minutos passam, e a aula de história chega ao fim, o sinal toca avisando que era hora do intervalo e todos começam a se levantarem para irem ao saguão ou ao pátio comerem seus lanches trazidos de casa. Sinto alguém mexendo suavemente, por alguns instantes, em meu capuz e olho sobre meus ombros. – Outono, gosto desta estação! – exclamou Vitor, a segurar uma folha amarela estrelada, estava a gira-la entre o polegar e o indicador. Provavelmente se alojou em meu capuz mais sedo, na ventania com aquelas folhas. – Isso estava em seu capuz! – Ah, – sorri sem jeito – o… obrigado! O garoto em minhas costas se levanta, e passa ao meu lado com uma das mãos no bolso e com a outra joga a folha sobre meu caderno. Eu, com o olhar baixo, apenas vi com o canto do olho, ele sair da sala. Pensativo, fecho o caderno com a folha ao meio. Então ele gostava do outono? Bem… eu também. Pego uma maçã verde em minha mochila, me levanto e ajudo a professora com seus materiais até na sala dos professores, já era no caminho do pátio, então, eu sempre a ajudara. Quando acabo de ajuda-la vou ao pátio; temperatura por volta dos 20º graus Celsius, mas uma brisa mais fresca percorria por todo o lugar e não poderiam faltar, as folhas amarelas sendo arrastadas. O céu, por sua vez, começava a ficar mais escuro e pesado. Antes ele estava tão claro, agora temia que chovesse, e por azar, nem trouxera guarda-chuva. – Ei, quatro olhos! – chamou em minhas costas, uma voz com tom de brincadeira. Olho, e vejo Michelly sorrindo, vindo ao meu encontro. Ela era uma das únicas a ser tão querida, contudo estudava na outra classe do 1º grau. – Bom dia, David. – parou ofegante em minha frente. – Bom dia, mas o que aconteceu? – Aula de Educação Física, – disse enquanto arrumava os cabelos ruivos e cacheados – mas só lhe digo uma coisa: não suporto mais aquelas meninas metidas à riquinha da minha sala! – O que elas fizeram dessa vez? – perguntei acompanhando-a pelo corredor. – Aquela retardada da Melissa, quase me fez cair de boca na quadra de basquete. – ela coloca uma de suas mãos em meu ombro – Mas e com você? – Ah – olhei para o piso do pátio – estou bem, só tirando o fato de o inverno estar chegando. Não gosto desse clima. Ela anui com a cabeça a colocar as mãos em sua cintura. Viramos rumo aos balanços e a caixa de areia onde as crianças menores se divertiam.

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– Fiquei sabendo que o 1ºA tem um novo aluno! Concordei com a cabeça. – Se não me engano, se chama Vitor. E é alto. – E a Clara? Deu suas aulas chatas para vocês novamente? – Ah, não acho chatas. Chatas para você, só porque odeia história, certo? Ela riu enquanto sentávamos em um banco de concreto para lancharmos. – Vai à biblioteca depois, Michelly? – perguntei antes de dar uma mordida na minha maçã. – Humm… hoje não, tenho que voltar um pouco antes para começar uns exercícios que era para fazer em casa; acabei não fazendo. Ergui as sobrancelhas e depois anui. – Vou devolver este livro. – mostrei-o a ela e depois coloquei novamente debaixo do meu braço. – E o Jofrey? – perguntou ela com brilho nos olhos – Está em suspenção? – Sim, graças a Deus – dei uma gargalhada – Por uma semana estarei livre dele aqui no colégio, semana passada ele não parava de incomodar as minhas costas. – Você tem muita sorte do Jofrey sentar uma carteira atrás da sua! – exclamou ela irônica. – Nem me diga, mas estou crente que o Vitor vai começar a sentar atrás de mim. – Por quê? – ela ergue uma sobrancelha curiosa. – Hoje foi o primeiro dia dele, e sentou na carteira de Jofrey. – Vamos ver isso semana que vem. – disse ela passando a mão na boca suja de bolachas que acabara de devorar. – Tudo bem, agora tenho que ir, antes que a aquela Melissa passe em minha frente. – Só não bata nela! – brinquei vendo ela se distanciar. Eu me direcionei a biblioteca e Michelly à sua sala. Entrando na sala com as paredes cobertas de livros e sorri para a bibliotecária, ela era uma senhora baixinha, um pouco tanto rabugenta, mas era só ser querido com ela que conquistava o seu coração, assim como indicações de bons livros. – Bom dia, Dona Carmélia! – Bom dia, David! – Gostaria de devolver este livro hoje! – exclamei tirando-o de baixo do meu braço. – Gostou da leitura? – ela perguntou arrumando os óculos para ver o nome do livro. Balancei a cabeça confirmando a minha satisfação. Depois de alguns segundos ela anui e prossigo para entre as estantes. Congelo, e olho para o chão instantaneamente. A presença dele a alguns passos era forte, eu suava frio, droga, porque eu sou assim? Fico nervoso com pessoas que não conheço, não sou social e não sei muito me comunicar, ainda mais com pessoas de minha idade. Vitor estava ali na prateleira de história, certamente buscando o livro que a professora pedisse que olhasse para fazer um trabalho: o mesmo livro que eu estava procurando. Cheguei ao seu lado buscando com os olhos cerrados, o número do livro: 307.0. Ele passava os dedos gentilmente nas lombadas dos livros em sua frente, fazendo o mesmo que eu: buscando o número. Vitor nem me notara, até que ele olha ao lado esquerdo e do alto, me avista. – Ah, é você! – disse ele sorrindo e me olhando nos olhos. Eu também sorri, porém continuava a olhar os números e rapidamente meu coração acelera. Isso era estranho, o fato do meu coração se acelerar, eu me sentia incomodado ao lado dele, reprimido, eu sentia isso na maior parte das vezes com alguém novo, mas com ele era diferente. – Sou novo por aqui, então, poderia me ajudar a achar o livro que a professora de história pediu? Anui com a cabeça e não ousava olhá-lo. Acho que ele estava pensando que eu não fui com a “cara” dele, por não ter respondido, mas não saiu nada dos meus lábios, não consegui. Com o olhar afiado, vi-o conferindo as lombadas mais do alto e eu era um tanto baixo se comparado com ele. Olhei para as lombadas que ele as fitava e achei o que ambos queríamos.

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– Ahn… – gemi sem conseguir olhá-lo. – O que foi? – perguntou ele com as mãos no bolso. – Achei! – apontei a parte da prateleira mais alta. Como ele não tinha visto? Estava na frente dele o tempo todo. Vitor da um passo para trás e eu tento alcançar com um esforço os livros, fico me equilibrando com a ponta dos pés e os dedos das mãos esticados o máximo, mas apenas encostava-os na lombada, sem sucesso, soltei um suspiro. Uma mão clara aparece em minha vista, pega um livro de capa vermelha acima de mim, o livro que tentava, sem sucesso, pegar. Viro sobre os calcanhares e Vitor estende o livro a mim. – Aqui. É esse? Sinto minhas bochechas pegarem fogo, e apenas confirmo com a cabeça. – Vai fazer com quem o trabalho? – perguntou ele passando a mão em seus cabelos loiros e lisos com movimento. A professora Clara pedira para fazer um trabalho em um trio para entregar na sexta-feira. Eu geralmente fazia sozinho, esses trabalhos em grupos, pelo menos o concluía bem feito e conseguia, na maioria das vezes, uma nota elevada. – Geralmente faço sozinho. – Ah. – Ele iria falar mais alguma coisa, mas resolver não falar e olhou para a capa vermelha do livro que ainda me estendia. Peguei-o livro e abracei-o no peito. – História! – exclamou ele. – Ah? – É!… Os homens morrem, as civilizações acabam… e os livros sobrevivem. – ele sorri para mim e olha para a prateleira alta para apanhar outra obra. Olhei para o chão e estava me retirando, abraçado forte ao livro, cheirando-o. – Ah, droga! – disse Vitor decepcionado atrás de mim. Virei-me novamente em direção a ele. – Algum problema? – Acabou, se eu estivesse vindo antes! Como assim, acabaram os exemplares? A professora disse que tinha 12 cópias deste livro. – Ah… bem… se não tem mais… não daria para você fazer comigo o trabalho? – perguntei todo desajeitado, olhando no chão e movimentando meu calcanhar direito para ambos os lados. Ele sorriu e se aproximou estendendo sua mão rumo a minha cabeça. Pousou-a e fez um cafune gentil. Acho que isso foi um “sim”! – Vamos! – exclamou ele dando passos em minha frente e olhando sobre os ombros para mim. O sétimo exemplar! – falou a bibliotecária a sorrir quando coloquei o livro sobre a mesa para emprestá-lo. – O último a sair da biblioteca. Não sei o que os alunos desta cidade têm com o número sete! – Por quê? – perguntou Vitor apoiando-se sobre a mesa com os cotovelos. – Geralmente são os sétimos exemplares que são emprestados por último. – Superstição! – respondi – nessa cidade o número sete é considerado o último de todas as atividades, chega a ser até um exagero, uma cultura dos fundadores da cidade que se enraizou. – Estranho! Este é meu número favorito! – falou Vitor olhando para o grande relógio antigo de parede acima da cabeça da Dona Carmélia. – Aqui está! – disse ela, empurrando na mesa, o livro até minhas mãos. Agradecemos e nos retiramos. Voltamos até a sala, pois estava a alguns minutos de soar o sinal para o retorno às salas de aula. Matemática no quadro e no caderno até o último soar de sinal. Para alguns apenas no quadro, mas realmente, neste dia, eu estava impaciente, querendo sair

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correndo para casa, o estranho deste dia é que eu não consigo decifrar o que realmente eu sinto: se é alegria, tristeza, ou seja, estou bem confuso. O sinal toca aos quatro cantos e todos saem apressados. Ao voltar para casa, fiquei parado alguns segundos olhando a árvore que passara de manhã. Lembrei-me da folha amarela entre o meu material. O sol se põe, e a ascensão da lua cheia deixa o céu tenebroso, como um filme de terror, só faltava aqueles lobos uivando ao longe ou os barulhos fantasmagóricos no forro. Deito-me em minha cama com cobertas azuis, coloco meus óculos sobre o criado mudo, rezo, e fecho os olhos com fé que amanhã seja um dia ainda melhor, e também, um pouco menos estranho! Boa noite!

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Cap. II – O Grito aos Céus

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erça-feira, dia nublado e atarefado, fui ao colégio e como a rotina era prevista, voltei são e salvo, sem o Jofrey para me atormentar. Michelly, na hora do intervalo, me indagou mais uma vez sobre o novo aludo da minha sala, estava me acostumando com a ideia de que ela estava se interessando pelo Vitor. Contei que vou fazer o trabalho de história com ele e Michelly ficou com brilho nos olhos e sorria, e no final, combinamos de ajuda-la, marcamos em minha casa, agora, era só falar com minha mãe, pois o Vitor já confirmara a presença. E adivinha? Mais um trabalho! Agora é de artes, fazer algum instrumento por conta própria e testar em meio à sala toda! Eu nem sei, se irei conseguir me levantar para ir lá à frente. Com todos aqueles olhares me fitando, me criticando. Já com Vitor, já estava falando com ele sem aquele aperto no coração, mas continuava acelerado, em todas as vezes que eu olhava para ele, naqueles olhos verdes e em seu sorriso simetricamente perfeito. Incrivelmente, não tinha notado um pequeno alargador preto em sua orelha esquerda, parecia que minha percepção de detalhes não funcionava muito bem ao lado dele, até porque, eu estava preocupado com o que sentia dentro de mim: calores e frios percorrendo o meu corpo, desde os pés até os fios de cabelo. O último sinal soa e me levanto para me retirar, mas sinto uma mão em meu ombro. – Porque você não utiliza o ônibus? – questionou Vitor segurando a mochila em suas costas. – Ah… minha casa não é tão longe, e prefiro voltar andando, melhor para o corpo. – respondi-o olhando ao chão e sentindo o calor que ele emanava de suas mãos pálidas. – Ótimo, também preciso dar uma caminhada! – ele passa em minha frente olhando sobre os seus ombros, com o intuito de que o seguisse. – O que? – especulei, seguindo-o. – Isso mesmo que você ouviu! Vou com você, assim já conheço onde você mora. – Mas você tem que voltar para casa, não avisou ninguém! – Minha casa fica na mesma direção que a sua, ontem e hoje vim no ônibus, e pelas duas vezes, vi você andando na rua. Vi aquela hora que o vento soprou coma s folhas. Apenas notei que uma folha se alojou em seu capuz. – Ele sorri envolvendo-me com seu braço esquerdo enquanto nós andávamos. – Apenas foi o destino, te encontrar na mesma sala. Pisamos na calçada cinza, viramos para a direita e passamos entre a árvore e o muro pintado de azul com a faixa horizontal branca, que se estendia até o fim dele. Atravessamos a rua com passos rápidos. Percorremos até a metade do caminho sem nos pronunciarmos. Até que… – Ahnn… David? – Sim? – retruquei olhando ele chutar uma pedra no chão fazendo-a nos acompanhar. – Falei pouco com ela, mas eu acho que a Michelly gosta de você! – Eu sei, somos bons amigos. – respondi olhando os seus cabelos loiros, esvoaçarem com o leve vento. – Não, você não me entendeu! Eu quis dizer, um sentimento além de bons amigos! Semicerrei os olhos e as sobrancelhas se contraíram. – Ahh, nunca tinha pensado nisso! – quase tropecei, mais uma vez, na calçada elevada. Ele me segura pelo braço e consigo o equilíbrio novamente. – Responda-me: você já namorou alguma vez? – perguntou ele me olhando do alto. – N… não! Bem… acho que, por sua vez, já namorou muitas meninas, certo? Ele sorriu olhando para o horizonte.

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– Namorar é para beijar e ser feliz! Se for discutir e brigar, fico em casa com a minha mãe. – ele me olha com um brilho nos olhos – Sabe… gosto de conversar com você! Eu desvio o olhar. – Ahh… – coço a cabeça, envergonhado – mas por quê? Sou tão simples! – Simplicidade! Essa pode ser a chave. E também, cansei de perder saliva com mentes que não processavam. Isso foi um elogio? Apenas sorri e olhei ao chão. – A Michelly gosta mesmo é de você, Vitor! – retrocedi a aquele assunto. Ele ficou com a face levemente avermelhada. Vergonha? Acho que sim, pois ele não se atreveu a me responder, e continuamos a andar até na frente de minha casa. – Bem, aqui é a minha casa! – pronunciei. – Legal, não é longe da minha! – Se esqueceu de que isso é uma cidade pequena? Ele riu colocando suas mãos nos bolsos da calça. – Prometo que vou me acostumar! Ele fita dentro dos meus olhos e eu nos dele. Eu sem mover nenhum músculo, assim como ele. Aquele silêncio era tenso. Eu não conseguia parar de olhar para ele, não querendo que ele fosse embora. Droga! O que acontecia comigo? Levantei as sobrancelhas. – Bem… tenho que ir agora! – falei dando um passo de costas. – Ah! Claro! Tenha um bom dia! Virei de costas e entrei em minha casa. Almocei, lavei a louça, peguei um livro e li algumas paginas até as 01h40min da tarde quando batem na porta. Era Michelly, tínhamos combinado de ela vir até minha casa para passarmos à tarde. Assistimos a um filme, jogamos algumas brincadeiras estratégicas até quase o sol se pôr, onde ela foi embora. Meus passos eram rápidos no escuro, mas mesmo assim não me mexia. Atrás de mim, tinha alguma coisa negra, maléfica. Eu suava e tentava correr ainda mais, contudo não adiantava. Até que me deparo, em minha frente, um precipício. Desespero-me, até que uma luz branca se emana em minhas costas. Viro-me e vejo uma porta aberta e dela saía uma silhueta de uma pessoa, que esticava sua mão a mim. – Corra até mim! – pediu a silhueta. Fiz o que mandara, corri o máximo e abracei-a sem ao menos saber quem o que ou quem era. Tudo fica branco, e olho para cima. Arregalo os olhos e a pessoa me beija. – Ahh! – sentei ofegante e suado em minha cama. Foi apenas um sonho! Ou um pesadelo? Aquilo não podia acontecer, e porque diabos eu fui sonhar que estava beijando… uma pessoa? Sem mais delongas, levantei, me arrumei, comi um bom café da manhã preparado pela minha maravilhosa mamãe, escovei os dentes e saí rumo ao colégio. Quarta-feira. Está sendo uma semana esquisita. Hoje, será o dia em que Michelly e Vitor iriam vir em minha casa para fazermos aquele trabalho de história. Cheguei ao colégio, Michelly e Vitor conversando em um canto do pátio, mas apenas acenei e entrei nos corredores rumo à sala. Não queria incomodá-los, poderia interromper alguma conversa mais íntima, ou coisa do gênero. As primeiras aulas, antes do intervalo passaram rapidamente, Vitor saiu rápido da sala, e eu, fiquei resolvendo algumas contas de matemática que o professor tinha passado outrora. Depois de terminado, quando faltavam alguns minutos para começar as últimas aulas, fui beber um pouco de água e ir ao banheiro. Quando fui tocar meus lábios na água do bebedouro, vejo Vitor beijando Michelly. Um selinho.

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Perdi a sede, perdi a vontade de ir ao banheiro, perdi o gosto de estudar, perdi as forças, perdi o chão, mas ganhei, em meu peito, uma dor forte, um anseio gigantesco de correr dali. Que merda acontecera comigo? Parecia que alguém estava apertando meu coração, sentia falta de ar, porém, olhei ao chão quase sem forças. – Eu sabia. – falei a mim mesmo decepcionado. Mas me perguntava, com um desejo ardente como um fogo de dragão: Por que eu estava sentindo aquilo? De fato, eu amava Michelly sem perceber? Volto à sala correndo e me sento, apoio minha cabeça sobre meus braços trançados sobre a carteira e fecho os olhos. Tentando, desesperadamente, decifrar-me, tentar colocar alguma coisa do que sentia em palavras, mas sem êxito, desisti quando Vitor entrava na sala, depois de todos. Nas suas costas, o professor das últimas aulas. Eu nem prestava atenção no que falavam, para mim, o tempo parara. O céu escurece, e finos pingos tilintavam na janela. Nem trouxera guarda-chuva, mas acredito que até no final da aula a fina chuva sessara. Em minhas costas, um leve cutuque, era ele, olhei sobre os ombros e Vitor me alcançara um papel dobrado, peguei e o abri em meu colo. “Não trouxe guarda-chuva, correto? Eu sabia que ia chover, então… se quiser voltar comigo para casa, eu te levo, meu guarda-chuva é grande”. Vitor. Não queria que ele me levasse para lugar nenhum! Agora eu estava com ódio? Respondi: “Não precisa, gosto de me molhar!” E entreguei a ele. Ele consentiu, mas acho que me estranhou. Ao fim da aula, pego minha mochila mais rápido que todos e saio correndo, rumo a minha casa, ouvia meus passos na água, e a chuva começara a ficar cada vez mais forte, o cheiro da terra molhada invadia meus sentidos, apenas fechava os olhos e queria esquecer, e sem eu perceber, lágrimas começam a escorrer de meus olhos. Corria o máximo que podia, nem pensava em meus materiais, dane-se também! Ninguém na rua, apenas eu. Meus pulmões não aguentavam mais… parei, olhando a chuva no chão. Ajoelheime deixando meus materiais de lado. Uma agonia que não mais suportava. – TIRA ISSO DE MIM! – gritei com o máximo de força que consegui com minha face em direção ao céu. – Eu te imploro! – agora, sussurrei. Um raio se alastra ao céu, depois o trovão ecoa. Coloquei minha face em minhas mãos em forma de concha e não tinha como me segurar, chorei; sim… chorei muito. Joguei, sem pensar, meus óculos na grama ao lado direito. Via agora, uma mancha vermelha em minhas mãos, me assustei, levando-as para longe da minha face. – Sangue! – sussurrei. – Melhor morrer do que sentir isso. Ainda de joelhos na calçada, apoio-me com as mãos e sem forças apenas esperava que alguma coisa acontecesse. Algum milagre, ou um raio me atingisse. Ouço passos apressados, mas os ignoro completamente. O concreto estava vermelho, sangue saía do meu nariz, em vasta quantidade. Sinto um envolver em meus braços que me levantou com força. – DAVID! – gritou quem eu menos queria que estivesse ali. – está louco? Poderia ter sido atropelado! Já não sentia mais a chuva no meu corpo, apenas ela escorrendo, estava de baixo de um guarda-chuva. – Me deixa Vitor! – tentei tirar o meu braço de sua posse, mas não consegui. – O que aconteceu? Responda-me! Ele puxa meu braço para perto dele e eu, por instinto, o abraço chorando ainda mais com toda a minha força. Ele me envolvia com um braço e beijava-me minha cabeça com intuito de me tranquilizar.

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– Escute-me: Vai ficar tudo bem, mas me diga o que aconteceu? – E… eu te… te vi com Michelly! – sussurrei aos soluços. Ele joga o guarda-chuva na grama, e me envolvem fortemente com seus dois braços. – A verdade é que chegamos ao mundo, sozinhos, e saímos exatamente do mesmo modo. – Vitor pronuncia lentamente com um tom triste em sua voz. – Vamos garoto, vou te levar para casa. Depois de alguns minutos me abraçando, pegou seu guarda-chuva e meus óculos, quando o coloquei, reparei sua camisa toda suja de sangue, assim como a minha. Pegou em minha mão, depois de colocar minha mochila em um de seus ombros. Andávamos rápidos, e Vitor, estava pensativo. – O que você sente por mim? – perguntou ele engolindo seco, sem olhar para mim, apenas a sua frente. Eu, de olhar baixo vendo o meu sangue misturado com agua cair no solo, não consigo respondê-lo, pois nem mesmo eu sabia o que sentia. – Não sei. – depois de minutos, respondi baixinho com meus cabelos a escorrer colados na testa. Segurando ainda a minha mão, ele a aperta em resposta. Não forte ao ponto de doer, mas para me mostrar outra coisa. Coisa que não decifrei. Em frente a minha casa, ele se despede dando um beijo em minha testa. – Vá, seu nariz ainda está saindo sangue. Entregou-me meus pertences e me leva até a porta, passando pelo jardim. Ao entrar na residência, minha mãe me espera. – Meu filho! O que aconteceu? – abraça-me – você demorou e o que é esse sangue? Alguém te bateu? Eu apenas sorri. Ainda sentia o calor do beijo de Vitor em minha testa. O tapete começava a ficar molhado e meu gato cinza de olhos muito amarelos, a ronronar fitando-me. O cheiro da refeição pairava e minha barriga roncava. Sorri novamente, fui ao banheiro rapidamente me trocar de roupa e me lavar para tirar todo o sangue em minhas vestes. Secava meu cabelo quando o Felix – nome do meu gatinho – se esfregava em meus pés. Minha mãe me especulou, mas não consegui falar, mas realmente, gostaria de tentar, para ver se aquilo saída do meu peito. Ainda estava lá, mas amenizou por algumas horas depois daquele berro que dei à chuva. Comida deliciosa que mamãe fizera, recuperei minhas energias e meu psicológico, mas ainda assim, sentia um resquício de dor. A tarde passa, juntamente com a chuva, no céu, apenas o arco-íris que nos fitavam, pássaros brancos sobrevoavam aos céus, e tudo estava calmo. Michelly me liga, me informando que não poderia ir a tarde a minha casa, estaria ocupada com outras tarefas que sua mãe as dera. Esperava, com receio, a vinda de Vitor. Ele não apareceu. Sentia-me aliviado, mas ao mesmo tempo, decepcionado. Será que ele nunca mais falaria comigo depois de hoje?

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Cap. III – O Sétimo Decai

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u estava lá fora sentado na grama abraçando minhas pernas, agora, as nuvens se dissiparam, e o sol já se pôs, as estrelas estavam cintilando, não as via com total poder, pelo fato das luzes da cidade, mas pelo menos, observava as belas estrelas cadentes que rasgavam ao céu com rapidez. – David! – chamou minha mãe – venha para dentro, já está noite, tens que dormir! Obedeci: escovei os dentes e fui para a cama. Meu gato pula em cima da minha cama e começa a ronronar, eu, me sentindo um pouco mais péssimo agora, envolvo-o com meu cobertor e trago-o para perto de mim. Durmo assim: com o calor do meu animal de estimação. Sem pesadelos esta noite, amanhece e o tempo voa. Quinta-feira. Amanhã, a apresentação do trabalho com Vitor, mas, nem ao menos abrimos o livro de história. Nem ao menos ele veio em aqui em casa, assim como Michelly. Entro na sala de aula, me sento, e depois de poucos minutos Vitor senta na carteira atrás de minhas costas, sem me olhar, ou me cumprimentar. Eu também, não tinha coragem de olha-lo. É, seria aquilo de agora em diante: apenas seremos estranhos. Na hora do intervalo converso com Michelly, e combinamos de hoje, sem falta, fazermos o trabalho em minha casa. Era agonizante o fato de estar sentado na frente de alguém que te salvou de um colapso psicológico. Com Michelly, tinha um pouco de receio em falar livremente com ela, mas isso com o tempo sessa. Voltei para casa, sozinho e ao abrir a porta principal, suspiro aliviado. Almoço com mamãe enquanto conversávamos e riamos sobre fatos inusitados e engraçados que contara a ela. Estava melhorando, apenas doía quando encarava Vitor. A tarde chega rapidamente, e na porta, alguém bate. Vou abrir prevendo a chegada de Michelly. – Olá David! – cumprimenta ela. – Oi Michelly, entre! Vejo um vulto atrás dela e paraliso. Uns segundos se passam e ela me fitava. – O que foi David? – perguntou Vitor a sorrir atrás da menina. A dor se alastrou em meu peito. Para entrar em casa deveria subir dois degraus, então o corpo de Vitor se escondera atrás do de Michelly. Mas o que ele fazia aqui? Como tinha coragem de vir até mim? E parecia, para ele pelo menos, que nada acontecera. Eles entraram e os acomodei em meu quarto. Se comparado a ontem, hoje estava calor. Vitor tira seu casaco branco de capuz e o coloca envolvido em minha cadeira da escrivaninha. E Michelly, eu achava-a friorenta. Existem dias bons, dias ruins e os dias em que eu apenas espero ele acabar. Esse era um dia que o esperava acabar, o mais rápido possível. Só queria a paz de um rizo sem razão. Mas no fim, eu tinha sorte, pois sabia que a dor que machuca é a mesma que ensina. – Vamos começar agora? – sugeriu minha amiga sentando na cama. Anui e peguei o livro de capa vermelha sobre a escrivaninha. – Aqui, peguei o último livro da biblioteca, e adivinha? – Sétimo exemplar? – provisionou Michelly a sorrir. Balancei a cabeça. – Eu o peguei se lembra? – pergunta Vitor me desconcentrando para achar a pagina. – Você não alcançou. Não mexi um músculo da minha face e continuei a folhear. – Achei! – sorri mostrando para Michelly o conteúdo do livro na página certa. – Feudalismo! – anuiu ela.

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– David! – chamou mamãe entrando no meu quarto. – Oi jovens, só vim avisar que estarei na vizinha e se sentirem fome tem uma sobremesa de morango na geladeira. – Tudo bem, mãe. – Eu volto logo – se despediu ela fechando a porta principal. – Então… vamos começar? – sugestionei. Fomos até a mesa da cozinha levando todos os materiais Papeis, canetas e escritas não tão legíveis nos rascunhos amassados; e finalmente: ambos os trabalhos prontos. Passava a mão na testa pensando que consegui ignorar Vitor uma boa parte, mas nada iria mudar o fato dele se apresentar ao meu lado amanhã. Se eu pudesse escolher, pediria nunca mais ver ele, não pelo fato de vê-lo beijando outro alguém, mas sim pelo que sinto, nunca tivera sentido isso antes, por ninguém. Apenas não queria sentir, nunca mais, isso dentro do meu peito. Mas também tinha aquela vontade de contar o que sentia ao Vitor, mas eu não conseguia colocar em palavras o que sentia; como poderia contar a ele? – Ufa… terminamos! – exclamei me levantando para pegar um copo d’água. Ambos na mesa conversavam e eu, abri a geladeira com um olhar calculista, afiado tentando achar a sobremesa de morango. Achei! Era um bolo com uma cobertura maravilhosa que mamãe fizera. – Depois de um trabalho duro, que tal a recompensa? – alvitrei colocando o bolo sobre a mesa da cozinha. Peguei três recipientes de vidro colorido e três colheres. – Servidos? Sorriram e se levantaram. Michelly sabia o quanto mamãe fazia tudo gostoso e não recusou. – Que delicioso! – elogiou Vitor já sentado a mesa novamente. Comemos e colocamos os talheres e recipientes sujos na pia. Despediram-se e eu, consegui sorrir à Vitor e a Michelly, se foi verdadeiro eu não sei. Abri a porta para eles e já ao longe, acenaram; eu os retribuí. Fechei a porta, girei os calcanhares e apoiei minhas costas na porta fechando os olhos com força. Respirei e pensei: “agora vai ficar tudo bem. Vou lavar a louça e tirar os materiais de cima da mesa”. Como tinha mentalizado, lavei a pouca louça do bolo; peguei todos os cadernos, canetas e o sétimo exemplar e levei ao meu quarto. Quando dei o primeiro passo no me cômodo eu paro. Via aquele casaco branco envolvido em minha cadeira. Era a do Vitor? Coloquei o material sobre a escrivaninha e suavemente, com resquício, passei a mão no tecido do casaco. Senti a textura macia do algodão. Peguei-o e envolvi com meus braços, levando parte do casado ao meu nariz. Fechei os olhos e decaí sentado na minha cama. “Deus, que cheiro bom” – pensei depois de um minuto ainda daquele modo. Ouço, vindo da porta entreaberta do meu quarto, um pigarrear. Olho assustado e vejo os olhos serenos de Vitor a me fitar. Escondo o casaco dele em minhas costas, mas adiantaria? Quanto tempo ele estava ali me observando? Levantei-me sem jeito e ele abriu mais a porta. – Bem… vim buscar o meu casaco que esqueci. Sentia minha cara pegar fogo, mas com muita coragem e sem dizer nada, estendi o pertence dele. Olhava ao fundo dos olhos dele, e ele, aos meus. Vitor pega seu casaco suavemente e lentamente sem parar de me fitar com o brilho nos olhos. – De… desculpa! – me redimi ao saber que ele me observara. Vitor apenas sorri. – Senta na cama. – pediu ele se movendo.

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Íamos conversar, será que eu estava pronto e ele iria fazer aquela pergunta novamente? A que eu não sabia responder… mas eu queria a resposta mais do que ele: O que eu sentira? Sentei como pedido e me apoiei colocando ambos os braços para trás e me inclinei um pouco, já Vitor, colocou suas mãos entre as pernas. – Aquilo que aconteceu ontem – Vitor fez uma pausa por vários segundos olhando ao chão – foi estranho. Eu consenti com a cabeça, o que poderia dizer? Só escutava o bater rápido do meu coração, o calor percorrendo o meu corpo e depois o frio. Só com a presença dele já me sentia estranho, imagine assim… tão perto de mim? – Andei pensando… Ele não prosseguia com a fala. Vamos!! Não era pelo fato que eu não conseguia dizer nada por causa do nó em minha garganta que ele iria tremer também. Queria que ele fosse embora rápido e não me encontrasse mais! Ou era apenas um sentimento que eu criei para esconder a dor que sentia ao estar ao lado dele? Ele se inclina ficando na mesma posição que a minha, tirando o fato de que ele colocara levemente uma de suas mãos sobre a minha pequena. Nós trocávamos os olhares, eu sentia o coração dele batendo, a respiração, a adrenalina no meu corpo e no dele. O tempo parara completamente para ambos. Sentia as minhas lágrimas gritando para transbordarem, saírem da prisão do meu peito apertado, do meu sangue nas veias que velejavam na velocidade da luz. De todo o meu mundo mental. Cada vez mais ele se aproximava de mim, seu rosto cada vez mais próximo, sua respiração paralisada e seus olhos brilhantes não paravam de me admirar. Cada milímetro a menos, os nossos lábios se preparavam, para sentir o mais doce das emoções, a explosão de adrenalina, o tocar gentil de dois corpos. Iria me sentir nas nuvens? Flutuando no universo? Vejo os lábios de Vitor falando e tento escutar com esforço, ele sussurrava o mais baixo possível as seguintes palavras: – Desde quando eu te vi, naquela hora do vento, eu tinha me apaixonado por ti. Eu te amo. Faltavam poucos segundos, e muito lentamente, eu me aproximava dele. Sentia a mão de Vitor como se fosse um fogo ardente que não me queimava, meu corpo estava como se fosse um iceberg em meio a um oceano gigantesco… e o oceano… era Vitor. Sentia borboletas em meu estômago, arrepios em minha coluna e a primeira lágrima a escorrer. Chorei ao ouvir aquilo, a lágrima apenas escorreu lentamente em minha face corada. – David! – mamãe abre a porta principal me chamando – voltei filho! Levanto-me atrapalhado enxugando as lagrimas e saio do quarto. – Oi mamãe. Vitor também se retira do quarto e olha para mim, chega perto dos meus ouvidos e sussurra: – Adeus, vou te proteger, sempre. Fiquei estarrecido, mas anui com a cabeça. – Vou ir Senhora Gaspar! – se despediu com o casaco branco nas mãos. – O.K. – sorriu ela – volte quando quiser, é bem vindo. Trocamos olhares pela última vez, apenas por poucos segundos, mas já era o suficiente para toda aquela dor voltar, ainda mais forte. Respiro finalmente com alívio, mas no fundo, queria ao máximo que aquilo acontecesse, pois meu corpo não mente, ele se aproximava com desejo de beijá-lo. Na minha mente, o que acontecera hoje a tarde, não saia da minha mente. A noite chega e eu não consigo dormir bem, me viro na cama para todos os lados pensando e lacrimejando. Sentia a falta dele. De repente, uma dor em meu peito, sem comparação com a outra, me atingiu abruptamente. Era uma dor diferente, que aos berros comecei a chorar, olhei ao relógio eletrônico

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sobre o meu criado mudo e marcava 00h07min (meia noite e sete). Mamãe acorda desesperada e vem ao meu quarto. – O que aconteceu meu filho? – perguntava ela desesperada e sem saber o que fazer apenas me acolheu em seus braços e me apertava. Pedia incessantemente para aquilo parar, não conhecia aquela dor, eu gritava, meu peito doía e eu não sabia o que fazer. – Deite aqui, vou ligar para o médico! Mamãe colocou-me na cama e correu ao telefone. Eu sentia uma coisa me tocar no peito e minha visão ficava escura, isso durou cerca de dez minutos, depois disso ia se dissipando. Parei de chorar aos berros e apenas lacrimejava. – Melhorou filho? – perguntou mamãe chorando ao meu lado. Anui. Já estava passando. Mamãe me levou dormir com ela o resto da noite, mas mesmo assim quase não preguei o olho. De manhã, acordei e fui esquentar a água para o café daquele dia. Eu estava estranho e me perguntava: O que tinha acontecido naquela noite? Um turbilhão de alguma coisa me atingiu e não sabia explicar. Fiz a rotina e hoje era a tão temida Sexta-feira, pelo menos para mim. Teria que apresentar, com Vitor, o trabalho para toda a sala. Qual seria a minha reação ou a dele em nos fitarmos? Eu gostaria de dar um abraço muito forte nele, sem nenhuma explicação. Entrei na sala e fiquei esperando ansioso por ele. O sinal soa e ele não aparece. A professora Clara entra na classe e começa a aula. Ficava fitando a entrada desejando que ele aparecesse. O primeiro trio estava se apresentando e o próximo seria eu e Vitor, mas nada dele aparecer até então. – Agora, o trio que vai abordar o tema Feudalismo! – anunciou a professora. Abaixei o olhar, peguei o livro que era o sétimo exemplar e me pus, tremendo, em frente à sala toda. – Pode começar! – pediu Clara me fitando a sorrir. Não saía uma palavra de minha boca, eu estava mudo, se Vitor estivesse ao meu lado eu conseguiria, teria em quem me assegurar, mas ele não estava lá. De repente, em meu ombro direito, sinto algo quente, como se fosse um toque, achei estranho de início, mas me acostumei em poucos segundos. Sem ao menos eu perceber levanto o olhar e fito toda a sala, engulo seco e depois pigarreio. Abro o sétimo exemplar na parte do feudalismo e começo a falar livremente, me surpreendi, nunca falara tão bem, claro e com o tom de certeza e confiança na minha vida. Concluo a apresentação, sozinho, e todos se levantam para aplaudirem de pé. – Maravilhoso David, você se superou, nos surpreendeu. – elogiou a professora. Contudo, uma mulher para na porta ofegante e chama a professora. Ela se perguntando o que acontecera vai até a mulher. Eu ainda estava na frente da sala e todos fitavam a porta. Víamos a professora com um olhar triste, seus ombros decaem e ela se volta para a sala depois de ficar em frente a ela e ao meu lado. – Turma! Temo trazer uma notícia a vocês! Franzi o cenho. – Vitor, infelizmente morreu esta noite ás meia-noite e sete. Por causa de uma doença que ele carregava desde sua infância. Deixei o livro que estava em minhas mãos a mercê do chão. O sétimo decai. Saí da sala correndo, rumo a qualquer lugar. Nada tinha mais a mesma cor, eu estava fraco, sem forças alguma, além de não parar de chorar, fechei os olhos e corria o máximo que meu corpo aguentava. Parei ofegante frente à praça que eu frequentava de vez em quando e corri para baixo de uma árvore de folhas amarelas de frente ao lago cristalino. Sentei e me encostei ao tronco da árvore,

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fiz minhas pernas chegarem perto do meu peito e as envolvi com meus braços. Não conseguia parar de chorar, queria que Vitor estivesse ali para pegar em meu braço novamente, para passar a mão em meus cabelos, pegar os livros das estantes altas, me levar para casa com um guarda-chuva, rir com ele, o ver tirando de meu capuz mais folhas amareladas, sentir o seu calor em minhas mãos, ver novamente o brilho verde em seus olhos, escuta-lo pronunciar suas frases que eu amava escutar. Não parava de me culpar. Eu fizera isso? Desejei com minhas forças não ver ele nunca mais, e isso se concretizou. Desejava agora, com mais força do que antes, abraça-lo, tocar na face pálida dele, nos cabelos loiros e macios e sentir o seu cheiro no casaco branco. Fiquei ali, sentado, por horas, e certamente, já estariam me procurando, pois não voltara para casa almoçar. A noite cai e eu com sede, fome e ainda a chorar. O reflexo da lua no lago cristalino me hipnotizava. Levanto-me com meu coração quase pulando pela boca, e dando passos lentos, me aproximo da água sem movimento e com folhas amarelas a boiar, no barranco, me inclino e caio na água. “Quero morrer! Tire-me essa dor do meu peito que não consigo decifrar”! Fecho os olhos e caio lentamente para o fundo do lago. Sentia uma vontade gigantesca de obter oxigênio, mas a ignorava com raiva de mim. A água estava escura e gelada, mas sinto uma presença dentro da água. “Um peixe” – pensei. Abro os olhos e com a visão já turva vejo uma luz ao longe, uma silhueta brilhante que me lembrava de meu sonho. “David” – ouvi em minha cabeça me chamarem, era a voz de Vitor. Comecei a perceber que aquela luz se aproximava e ao meu espanto era a face de Vitor. “Não morra, eu disse que vou te proteger”. Eu sentia que chorava ainda debaixo da água. Minha visão ficava escura a cada segundo amais sem oxigênio. “Quero que você viva e triunfe na sua vida, meu amor” – ouvia em minha mente. A silhueta de luz se aproximava, a ponto de tocar com uma de suas mãos meu queixo. “Sempre vou te proteger esteja onde estiver, quero ver você sorrindo, e quando você completar a sua missão aqui, estarei lhe esperando para me abraçar deste lado”. Minha visão se escurece, mas ouço o movimento da água em minha cabeça. “Agora vá, e viva! Eu te amo!” Sorrio e sinto a vida se esvair de meu corpo como as bolhas de ar que saiam de meu nariz. De repente, sinto uma força pegar em meu braço e me puxar. Saio para a superfície e respiro alto, enchendo meus pulmões de oxigênio. – VOCÊ ESTÁ LOUCO? – gritou Michelly a colocar-me na grama ao lado da árvore. Eu tossia e respirava quase sem forças, mas mesmo assim consegui sussurrar algumas palavras: – A verdade é que chegamos ao mundo, sozinhos, e saímos exatamente do mesmo modo. – depois disso fechei os olhos e só lembro-me de já estar dentro da ambulância. Os médicos chegam me colocam dentro da ambulância e me levam ao hospital, no balançar do automóvel, relembrava todos os momentos que passara com Vitor e me agarrava com todas as minhas forças o que o espírito dele me dissera na água. Poderia ser uma ilusão pela falta de oxigênio no cérebro, mas eu não queria acreditar nisso. Em uma semana, Vitor mudara a minha vida. E nesse exato momento decifrei qual era o sentimento que sentia desde a primeira vez que eu o vi: Eu o amava e ele sabia disso.

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