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como eu faria. Se Sheridan não estivesse tão amargurada e triste, teria rido. Com o tempo, aprendeu a rir de novo, assim como aprendeu latim e a se comportar como uma senhorita. Cornelia era uma professora incansável, determinada a ensinar à sobrinha tudo o que sabia, e logo Sheridan descobriu que, sob a formal rigidez da tia, havia uma grande preocupação e uma profunda afeição pela obstinada sobrinha. Tornou-se uma excelente estudante, assim que venceu o ressentimento. Saber ler, descobriu, ajudava a diminuir o tédio daquela vida, que não lhe oferecia mais cavalgadas selvagens com cavalos malhados, nem o som de violão, canções e risos sob as estrelas. Trocar qualquer tipo de olhar direto com alguém do sexo oposto era prova de costumes fáceis e, portanto, proibido; conversar com um desconhecido era o equivalente a um crime. Cantar só era permitido na igreja, e nunca, nunca se devia aceitar nenhuma forma de pagamento por isso. Em lugar das atividades empolgantes que ela conhecia, via-se ante o duvidoso desafio de aprender a servir chá com o bule colocado no ângulo certo, ajeitar garfo e faca da maneira correta no prato ao terminar de comer coisas triviais, claro, mas, como tia Cornelia dizia: —Saber comportar-se é um predicado valioso… aliás, o único, na nossa situação. Quando Sheridan chegou aos dezessete anos, ficou evidente que Cornelia tinha razão: usando um simples vestido marrom, com os cabelos reunidos em um perfeito coque meio oculto pela touca de croché que ela mesma fizera, Miss Sheridan Bromleigh foi apresentada a Mrs. Adley Raeburn, diretora da escola onde tia Cornelia lecionava. Mrs. Raeburn, que fora convidada para ir à casa delas, observou por um segundo o rosto e os cabelos de Sheridan reação peculiar das pessoas da cidade, que havia se tornado mais forte ultimamente. Poucos anos antes, uma Sheridan Bromleigh mais jovem, menos educada e menos tranquila teria acintosamente baixado os olhos para as próprias botas ou puxado o chapéu para cobrir o rosto, ou, ainda, perguntaria à estranha o que ela estava olhando. Mas esta era uma nova Sheridan, uma jovem consciente de que havia sido um ónus financeiro. Estava determinada a ganhar para viver, não apenas para ajudar a tia, nem para resolver problemas atuais, mas sim para garantir seu futuro. Na cidade, ela ficara sabendo o que era pobreza e fome, coisas muito raras no campo. Agora era uma habitante da cidade e provavelmente o seria pelo resto de sua vida. Nos últimos dois anos, as cartas do pai, que antes chegavam constantemente, tinham rareado até cessar. Ele não teria simplesmente se

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Até Você Chegar - Judith McNaught  

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