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KAUAN ALMEIDA 2018


Oxum er Na mĂŁo di O seu espelh A se m


ra rainha, ireita tinha ho onde vivia mirar.


A(FÉ)TO

A(FÉ)TO é uma série fotográfica que objetiva inscrever o corpo negro em um espaço diaspórico através de uma geopoética. Ao deslocar as narrativas contruídas pelo colonialismo, o ensaio joga com as possibilidades de aquilobamentos e reinvenções da sensibilidade negra. O corpo que, via de regra, é sobredeterminado pelas imagens coloniais é aqui visto como locus de uma reinterpretação das relações assimétricas de poder, por isso, ao fugir das narrativas hegemônicas ensaia novas arenas de resistências através do afeto e da fé como cuidado de si. A série conta com 15 retratos. Modelos: Bruna Loundersann, Mário Teixeira e Renata Gouveia Maquiagem: Joana Alves


O VISÍVEL NEGRO

O Visível Negro nasceu a partir de um projeto sob encomenda do Centro de Cultura Porto Seguro para o Novembro Negro. O ensaio também marca o espaço das Ocupações das Universidades e Escolas Públicas ocorridas em 2016, por isso, na ocasião, a tarefa era produzir fotografias que indicassem a visibilidade pré-datada de negros e negras. Corpos lidos apenas à luz das mascaras da exterioridade, do essencialismo e da redução das diferenças à categoria de identidade fixa e imutável. O Visível Negro questiona a possibilidade do corpo se despreender da realidade social e se tornar uma constelação de transatlântica de significados para além da negritude. Modelos: Carleane Nunes, Aldenice Oliveira, Natália Fróes, Tamiris David, Thaís Gusmão e Renata Gouveia Produção: Kauan Almeida, Vitória Barreto, Vinícius Santos, Edilson de Jesus, Sofia Junqueira Fotografia: Kauan Almeida e Vitória Barreto


ELEMENTO


CINZAS corpos sĂŁo brasas que depois viram


ARTES GR


RÁFICAS


quando o amor nĂŁo ĂŠ mais amor


I

VII

O signo, o CPF, o RG, a carteira do SUS não te definem muito bem. Os remédios e remorsos não sabem de ti um trisco mas a luz já se apaga em mim e sinto que tudo já é noite

II o amor que nunca escrevi começa a morrer em posição fetal. Aborto a possibilidade de amar a árvore sem ver os frutos e procuro em tudo um rótulo para dizer como o amor morre

III morre por falta, mas, também, por excesso por espírito e por matéria (que dá no mesmo) morre a esmo, largado à míngua morre, o amor, como peixe, pela língua e quando deixa de ser amor o amor tudo é ferida e toda sorte de rima

IV sublimado que é, às vezes orgulhoso, parte sem notar em quantas partes está. Quando humilde, ajoelha-se e pede sem noção da humilhação que é mas quando morto, quando mutação o amor é adorno em jazigo florido

V então de todo o mar seca-se o sal de toda carícia anula-se o carinho e a distância aumenta o caminho fazendo normal o que era especial e desce pelas beiradas as palavras de desamor; a poesia não cessa

VI refugia-se no crepúsculo da paixão os versos que como o sol vai se pondo ao ponto de sumir no mar de nós feito de mim. O amor quando morre agoniza pede para não morrer, pobre que é

após tanto matar tantas civilizações o déspota desce de seu trono para ser reles perto do insano medo de não ser correspondido mas começo a não amar teu modo como outrora o amei de todo

VIII dizem que é assim, que foge ao controle e não se pode querer amar tal como doma uma bicho selvagem. o amor é dos bichos o mais indomável se inflama por qualquer toque e se não há toque, ele imagina e se ilude

IX e na moenda entre sentimento e razão sobram clichês, poemas e canções mas sei que já não amo e, confesso, um alívio infame em repudiar seu nome o nome não é o objeto de amor mas rotula muito aquilo que se ama


3

Equipar meu corpo com o que de mim sobra. Foram 3 pipocos e depois 1 oco dentro de dentro de mim como 1 vazio. Foi a primeira vez q vi um corpo ñ sei se ainda vivo ou se morto mas o sangue cobria de paixão a vida. Minha tia ajoelhada c/ suas mãos marcadas de rugas erguidas aos céus “me leva, oh deus. Eu já sofri d+”

Pip ocos

Na favela q morei, o céu era de 1 azul q dava inveja ao litoral de SP. Era bonito o jeito c/ q garotos passavam a bola como se eu quisesse chutá-la, eu forçava meu corpo ao chute por medo d parecer viadinho d+ como aquele menino da escola q d tanto desmunhecar apanhou na frente d todos e ngm fez nada. Ngm faz nada. Eu não fiz nada, mas chorei 1 pouco à noite antes do pipoco e ver as mãos marcadas de minha tia. Depois q entendi alguma lógica da dor, aprendi q equipar meu corpo c/ uma prótese era fundamental p/ q minha mãe ñ levantasse suas mãos.

A gente sempre vive mais pelos outros do q pra gente msm. Viver é exterior, pq às vezes, antes msm d nascer, já estamos abortados. Acho q é por isso q minha mãe ri quando me vê voltar p/ casa pq quando vivo, algo nela permanece perene. Algo diferente daquele galpão de costura q fazia seus pés inchar a ponto de ñ caber nos saltos q ela tanto gostava de usar. Mas então, somos próteses eu dela e ela de mim, ambos esperando a volta 1 do outro p/ sorrir sem precisar levantar as mãos marcadas aos céus. e nem sequer, como Conceição Evaristo, “a gente combinamos de ñ morrer”, não falamos em morte pq sabemos q ela está por aqui dormindo no silêncio das nossas dores.


Penso mais em suicídio que em reencarnações


5 FRAGMENTOS DE UM CORPO QUE SE DESINTEGRA


Admitir os interstícios, acoplar-me a eles como algo túmido e incolor movendo-se por entre f ibras de carne e delírio. Há dias escrevo sobre o corpo, o corpo tem me atraído magneticamente como a solidão dos anf íbios risos de cores mescladas. Corpoética é uma tessitura lenta e incompleta, semelhante à minha vó cosendo uma manta para quando viesse algum tempo esgueiro por entre as fazendas, vacas e pedra-de-três-pontas. Daí que vou me inscrevendo nesta dimensão à margem, a arte não pode poder aquilo que se tende a produzir não no c o r p o , m a s f o r a d e l e . Fo r a d o c o r p o há uma corporação de exaustões a a g e n c i a r m o d o s v i s í v e i s e i nv i s í v e i s d e s e e s t a r. O u t r o d i a m e s m o teimei em adentrar nas formas vis í v e i s d e e s t a r, é d o l o r o s o s e r v i s to, por isso admito os interstícios. Fa l o s o b r e a e s c r i t a d o i m p o s s í v e l , esta que não se escreve, que não é gráf ica, mas que nos é inscrita a ord e n s va r i a d a s d e e x i s t ê n c i a s , m u i t a s si tuadas em dimensões de coisas inút e i s , m a s p r o d u t i v a s , c o m o o p o d e r.

A corpoética ainda admite que se cosa a memória à álcool e maconha, pois só se lembra aquilo que se esquece, memória muito longa é a admissibilidade de uma existência que pode, se não tornada margem, tornar-se o p o d e r. A co r p o ét i c a e n s a i a u m a irritabilidade com as formas e as cores, a justaposição das regras das mãos como mãos. Irritar-se com isso é saber que se utilizo mais as mãos que as pernas, minhas mãos se repetirão infinitamente maiores que minhas p e r n a s . C o r p o ét i c a é p ra ze r, é foder os poros até cegar em um orgasmo de lirismo e explodir em gozo de neblina, mas tamb é m , é f u d e r, f i s i c a m e nt e at é não sentir as pernas e um arrepio transformar seus ossos em moléculas esparsas e possivelmente transitória entre a matéria e a loucura, pois esta última é metacorpoética, não por haver cisão entre corpo e mente, mas por justamente se unirem até que não reste dúvida.


A corpoética não deve servir ao imperialismo, pois não coloniza aquilo que já se possui. Mas desenha-se subjacente às minhas retinas uma pele de cimento forjada à lava, por isso, meu corpo é frágil como um vidro, transparente como um vidro e, ainda assim, há os que duvidam daquilo que veem. Como posso fazer-me a mim se quando me surjo insurge a eles todo o meu ódio pelo amor patético da humanidade. A corpoética carece de sinceridade, entretanto, só se é sincero, como escreveu Clarice, quando se está só. Mas quem escreveu: Clarice ou a retirante nordestina? Personagem e criadora se confundem, afinal, corpoética é extensão, assim todo homem e toda mulher são deuses e deusas, da mesma forma, deusas e deuses são mulheres e homens. Mas por que, então, se cansam da existência? Não sei, ninguém sabe sobre a sombra subjetiva dos nossos santos, pois conhecemos mais as faces do diabo.

A corpoética deve, não... não deve, mas pode brotar da solidão. Um detrito de insustentável placidez que ao escorrer pelo caos ganha forma. Só se é pleno ao se estar sozinho, outras constelações produzem luzes enigmáticas que fazem com que o pensamento gire em torno dos seus mist é r i o s . Fa ze r- s e s ó , re p ro d u t í ve l em si como uma criatura hermafrodita, monozigótica e plena.


Portfólio  

Trabalhos realizados entre 2016 e 2017

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