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S umário

Prólogo...............................................................................................9 Os Cantrell.......................................................................................10 Na noite anterior............................................................................23 A casa da praia..............................................................................32 Uma reunião....................................................................................41 Harque e Wolf................................................................................53 É Natal.............................................................................................66 Bem-vindos a Akilis.........................................................................79 Yggdrasil..........................................................................................91 Ien e a profecia..............................................................................99 Croker.............................................................................................122 Os irmãos reis..............................................................................134 A viagem........................................................................................145 O reino dos gnomos.....................................................................157 Batraquius......................................................................................167 Poe e os postes............................................................................182 Cruciare.........................................................................................192 Um reencontro...............................................................................197 As trevas estão a caminho...........................................................205 O Grande Livro das Primeiras Palavras......................................211 Sobre decisões...............................................................................220 As Terras Livres do Oeste.............................................................225 A Grande Batalha..........................................................................232 A cobra e o elixir........................................................................242 Epílogo...........................................................................................250


P r ó logo

Um sonho de outro mundo O lugar era lindo e, tamanha a sua evidente grandeza, só poderia estar situado no infinito. Animais que pareciam ter sido retirados de livros de histórias para crianças brincavam felizes, enquanto algumas pessoas de feitios estranhos cantarolavam alegres. No alto de um majestoso morro encontrava-se um belo castelo, feito de torrinhas e torreões. O céu – cortado de lado a lado por um arco-íris – era tal qual algodão. O ar, sendo uma fumaça enevoada e colorida, ficava visível aos olhos de todos. Não seria possível existir, nos vários mundos, ambiente em mais perfeita harmonia do que aquele. Inesperadamente, um lampejo amarelado e ofuscante cortou céu e chão, alterando o cenário por completo. O que antes era grama (tão verde quanto a mais perfeita das folhas em um dia de primavera) transformouse em cinzas sobre as quais, agora, jaziam corpos desacordados. Os sóis foram extintos e tudo nublou: o dia passou a ser iluminado apenas por finos feixes de luz prateada, provenientes de uma fonte desconhecida. Alguém havia roubado as cores e a vida daquele lugar, e não era provável que ambas retornariam tão cedo. Então o espaço enegreceu: para além da profunda e dolorosa escuridão, não se avistava mais nada. Escutava-se, porém, uma voz fraca, embora nítida, que demonstrava certo nervosismo e hesitação ao implorar por socorro. “Venha até mim, venha nos salvar. O fim dos Mundos se aproxima e há forças cruéis que pretendem dominar as terras. Venha e salve o meu Mundo, venha e salve o seu Mundo. A passagem para o Reino do Inimigo foi aberta, rompendo a barreira que nos separava dos mortos. O macabro – Ele – está por vir. Você deve procurar a Grande Árvore, porque quando o sino do Reino dos Mortos anunciar a primeira madrugada do novo ano, algo muito maior e mais cruel do que o fim de nossas vidas começará. Tenha pressa, mas tenha cuidado.”

E, com isso, o mundo (o nosso) entrou novamente em foco aos olhos de nove crianças que, uma a uma, levantavam-se extasiadas, pondo-se a pensar no significado daquele horroroso sonho. 9


Os Cant rell A família Cantrell, em sua maioria, residia no bairro Jardim das Figueiras, localizado em uma das menores capitais do Mundo dos Homens. Não fazia nada o estilo longínquo e respeitável clã tradicional, apesar de sua imensa árvore genealógica. Os avós, Leda e Casimiro, eram os seus principais representantes. Sempre bem quistos por todos, fossem estes familiares ou desconhecidos, não permitiam que seus corpos debilitados pela idade avançada enfraquecessem a sua vontade de viver. Dona Leda era uma mulher roliça, de baixa estatura e longos cabelos surpreendentemente escuros para os sessenta e poucos anos que trazia de bagagem. Poderia ser caracterizada como uma pessoa objetiva, a quem faltava o hábito de medir palavras: dizia sempre a verdade, independente do quão inconveniente ou indesejada esta fosse. Trajava-se com vestes largas, antigas e simplórias. Os olhos atentos e miúdos da senhorinha pareciam triplicar de tamanho quando ela colocava seus óculos de lentes grossas e aro de tartaruga. Cozinheira excepcional, sentia um prazer visível ao agradar o restante da família. Por meio de reuniões regadas a pratos deliciosos, realizadas aos sábados em sua casa, mantinha os Cantrell conectados. Era na sala de estar de Leda e Casimiro que os familiares ficavam a par das semanas uns dos outros, compartilhando desde histórias banais do cotidiano a revelações importantes. Já avô Casimiro, conhecido por Bisico – apelido este de porquê desconhecido –, era um homem de altura mediana, magro e quase sem cabelos. Tinha como passatempos tocar violão, estudar eletrônica e contar histórias elaboradas aos netos. Nelas, transformava-os em cavaleiros e amazonas, feiticeiros e feiticeiras ou príncipes e princesas. Fazia o necessário para prolongar ao máximo as infâncias e imaginações dos pequenos, consciente que estava da importância desempenhada pela inocência em nosso mundo. Um dos seres mais iluminados que qualquer criatura teria a oportunidade de conhecer, nunca havia colocado o pé em uma instituição de ensino. Desta forma, sofreu a vida inteira por não se enquadrar no conceito ultrapassado e limitado que os humanos há tempos haviam atribuído à palavra “inteligência”.

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De acordo com as regras da sociedade, Bisico carecia de uma formação acadêmica. Assim, jamais desfrutara de bons empregos e dinheiro em abundância. Faltaram oportunidades em sua existência árdua e repleta de intempéries dos mais diversos tipos. Contudo, nenhuma dessas condições conseguiu torná-lo menos feliz. Ao lado da esposa amada, superou o que havia de ser superado e fez de sua jornada um eterno aprendizado. Casimiro tornou-se um sábio – no sentido universal e puro da palavra. Além dos avós, a família Cantrell compunha-se pelos seus muitos tios, pais, filhos e agregados. Em se tratando de crianças, eram apenas nove: Daniel, Olívio, Tiago, André, Clara, Débora, Gabriela, Ágata e Eduardo. Os jovens, talvez por terem morado perto uns dos outros desde que nasceram, mantinham um admirável laço de amizade. A dor de um era a dor dos demais, e a fortuna também se dava em grupo. Este sentimento de doçura, força e grandeza descomunal – impossível de ser descrito em palavras – estendia-se a todos os membros da família. Era um tipo de relação que, nestes tempos sombrios de superficialidade, orgulho, inveja e interesses obscuros, havia se tornado tão escassa a ponto de ser considerada rara. Se você saísse às ruas do bairro Jardim das Figueiras abordando moradores aleatórios, mesmo o mais contraditório deles reconheceria a dificuldade de encontrar um grupo tão unido quanto o dos Cantrell.

* O Sol nascera em algum lugar, iluminando a primeira manhã do mês de dezembro. Junto a ele, vieram os passarinhos que pousavam nos parapeitos das janelas e acordavam, com suas cantilenas, os moradores do bairro Jardim das Figueiras. O céu, de um azul miosótis, convidava a todos para mais um lindo dia de primavera. À exceção do som da natureza, o silêncio reinava. Quem por acaso passasse naquele momento pela Rua das Rocas não saberia que nela viviam as crianças mais hiperativas, irritantes e barulhentas da capital. Pouco tempo depois do amanhecer, o cenário já era outro. Carros e ônibus percorriam as ruas do bairro, adultos apressados e carrancudos dirigiam-se aos 11


seus locais de trabalho e cachorros de rua perseguiam os carros, os ônibus e os adultos carrancudos – são poucos os que sabem como se divertir e aproveitar a vida. O período era de férias escolares, logo, as crianças ainda dormiam. Afora isto, o dia se desenrolava como qualquer outro. Na Rua da Pedreira encontravam-se as duas únicas pessoas (realmente) acordadas no bairro. Dona Leda, após abrir a porta da frente da casa intencionando cumprimentar os vizinhos, dirigiu-se à cozinha para preparar o café, como de costume. Entrementes, Seu Bisico caminhava com lentidão até a sala a fim de assistir ao jornal matutino. O trato entre os dois era de que a avó cozinhava e o avô se encarregava da limpeza, o que ambos faziam com gosto e sem grandes atritos. Viviam assim: em harmonia, livres de brigas ou maiores exaltações. O amor que sentiam um pelo outro equiparava-se somente ao demonstrado pelo restante da família. A casa era composta por três quartos, sala de estar, cozinha e banheiro. No cômodo principal, uma única fotografia sobre o console da lareira exibia com orgulho os nove menores netos de Dona Leda e Seu Bisico. A imagem mostrava uma enorme árvore e, encarrapitados nela, Daniel, Olívio, Tiago, André, Clara, Débora, Gabriela, Ágata e Eduardo. Daniel tinha uma cabeça achatada, pernas e braços muito magros, pouca altura, cabelos cor de palha e olhos neste mesmo tom. Com seus quatro anos, era o mais novo entre os primos e sentava-se no galho mais baixo da árvore. Olívio estava logo ao seu lado. Sendo roliço e menor que Daniel, tinha nove anos, mas não aparentava ter. Seus cabelos e olhos eram castanhos e, a pele, caramelo – tal qual as balas que tanto adorava. Tiago e André, com a mesma idade de Olívio, faziam perfeito jus a esta. Ambos altos e magros – um moreno e outro loiro –, a pele de Tiago aparentava ser queimada pelo sol, enquanto a de André era rosada. Todavia, estas características iniciais pouco condiziam com as suas personalidades: Tiago, em situações normais, sempre optaria por ficar em casa lendo ou desenhando; André, não fossem as ordens dos pais, passaria o resto da vida correndo e brincando na rua. Estavam em extremos horizontalmente opostos da árvore, dependurados em galhos de suficiente altura para deixarem seus pés a poucos centímetros do chão.

Clara era magra, loira e tinha onze anos. Seu aspecto desengonçado e risonho a transformava em uma criança belíssima e peculiar. Recostava-se nada graciosa ao tronco da árvore, seus braços abertos e cabelos ao vento. Débora era uma garota baixa, morena e de olhos castanhos. Deitada nas raízes, transmitia uma sensação de leveza e tranquilidade. Contudo, qualquer um que assim pensasse estaria equivocado: a menina costuma ser ríspida e irritável. Gabriela era alta e esguia, ostentando uma beleza nada infantil. Com seus cabelos loiros e ondulados, olhos cor de mel e um corpo precocemente desenvolvido, sentava-se de pernas cruzadas próximo ao topo da árvore. Ágata tinha doze anos e era doze dias mais velha que Gabriela. Possuía pele branca, olhos escuros e um longo cabelo negro e cacheado que lhe caía à cintura. Situava-se acima dos demais, em um galho distante. Eduardo ficava, na imagem, entre as duas meninas mais velhas, fazendo um esforço aparente para esconder o pavor que sentia de grandes altitudes. Provavelmente, estava nesta posição apenas por ter sido intimidado pelos primos – leia-se: Gabriela e Ágata. Era um menino de cabelo escuro, corpo magricela, pouca altura, rosto repleto de sardas e treze anos de idade. As nove crianças viviam no mesmo bairro, mas apenas Olívio, Gabriela e Eduardo dividiam um pátio com os avós. Gabriela morava aos fundos, em uma pequenina casa, acompanhada pela mãe e três irmãos mais velhos. Também na parte traseira do terreno uma escadaria espiralada pendia do que parecia ser um segundo andar da casa de Leda e Casimiro. Era, entretanto, o lar de Olívio e Eduardo. O tumulto no bairro, outrora deveras silencioso, tornou-se absoluto. A música em seu volume máximo, proveniente da casa de Daniel, Tiago e Clara, anunciava que o primeiro dia de férias dos pequenos havia começado. Ao som da canção dançava tia Daniela, uma mulher elegante, magra, pequena e de cabelos curtos, que tinha uma compulsão incontrolável por varrer o chão (o que, no momento, ela fazia). Os três Cantrell, aproveitando-se da distração da mãe com a limpeza, saíram de casa para encontrar os primos. Logo estavam quase todos juntos, sentados à sombra de uma majestosa árvore. A Árvore Monstro, como era conhecida nas redondezas, localizava-se na praça da Rua da Pedreira. Nela

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fora batida a foto que ficava sobre o console da lareira da casa dos avós. O apelido era uma referência óbvia ao seu tamanho – o qual, na realidade, não era tão abismal quanto a alcunha poderia sugerir. Para a maior parte dos transeuntes, as proporções da árvore eram perfeitamente comuns; mas as crianças do bairro sempre a enxergaram como um gigante possuidor de certa vitalidade, capaz de respirar e pensar. Os imaginativos em excesso diziam já tê-la visto caminhar e, em dias agradáveis de primavera, cantar. Os nove pequenos passavam mais tempo naquela praça do que em suas próprias casas. Brincavam, corriam, cansavam e, em seguida, colocavam-se a correr novamente. Apenas um acontecimento, entre todas as alternativas do universo, possibilitava que deixassem o local sem reclamações. – Vamos almoçar na casa da vó hoje. Os adultos mandaram eu chamar vocês – Olívio, antes ausente do grupo, juntava-se aos demais. – Pediram também para irmos acordar Ágata ou ela vai dormir as férias inteiras. – Ótimo – ironizou Débora. – Porque nossos tios não fazem o trabalho deles direito, nós temos que acordá-la? Ágata tem pais, até onde eu consigo lembrar. – Sim, ela tem pais – afirmou André. – Com esse seu cabeção, pensei que você lembraria, mas deixa eu reforçar: os pais dela e os meus são os mesmos. Não vou deixar você sair falando mal deles assim. Ágata sempre foi um poço infinito de preguiça, você sabe disso. – Não falei mal, falei a verdade. E se eles não têm culpa, imagina eu? A única culpada aqui é a Ágata. – Culpada de quê? – protestou Gabriela, indignada. – Não sei qual é o problema de vocês. Deixem a menina dormir. – Meu Deus, chega! Vocês discutem demais – Clara suspirou, cansada. – Clara tem razão – apoiou Eduardo. – Se já se estressam com coisas pequenas agora, imagina quando forem adultos. – Vamos só acordar a Ágata de uma vez e ir almoçar, estou morrendo de fome! A vó prometeu que teria macarrão – sugeriu Olívio com um sorriso no rosto faminto. – Quem você acha que é para dar alguma ordem aqui, Olívio? – indagou Débora com frieza.

– Mas eu não dei ordem… – Pare de reclamar de tudo, Débora, por favor! – pediu Tiago, tão exausto quanto a irmã. Após mais alguns repetitivos e insistentes protestos de “Como raios a Ágata consegue dormir tanto?” e “Por que somos nós que temos que acordá-la?” oriundos especialmente de Débora, os oito primos escolheram dirigir-se até a casa da menina. Débora e Ágata mantinham uma rivalidade sem sentido, motivada por fatores misteriosos. Era de conhecimento geral que Débora começara com as discussões, das quais Ágata adorava participar. Débora era facilmente importunável, o que divertia os primos em demasia. Porém, apesar das brigas constantes, as meninas gostavam uma da outra de sua forma única e distorcida. Muito esforço – e uma quantidade incontável de objetos lançados em sua direção – depois, Ágata estava em pé. – A delicadeza mandou lembranças – dizia ela saindo da cama, relutante, seu rosto marcado pelos fones de ouvido com os quais adormecera. – E aquela última travesseirada doeu, Débora. Vai ter volta. – Legal, mal agradecida. Da próxima vez não viremos te chamar nem que implorem – Débora retornou, ríspida. – Ei, fala por você – intrometeu-se André. – Atirar coisas na Ágata sem ela me bater é a melhor parte do meu dia. – Eu nunca garanti isso, maninho. Lembra que eles não dormem aqui, mas você, sim. Só espera. – A ideia foi toda da Débora. Eu não teria jogado coisas, se ela não tivesse insistido – simulando uma expressão chorosa, André continuou. – Ela… Ela ameaçou nossa família! Você sabe como Débora é… As crianças riram. Ágata só fez revirar os olhos e foi se arrumar. Vestia-se com a camiseta de uma de suas bandas preferidas, um jeans velho e os tênis surrados que usava todos os dias. Fazia um estilo um pouco moleque (ou, por que não, os moleques é que faziam seu estilo). Assim como Clara, mas diferente de Débora e Gabriela, não tinha interesse em meninos, fofocas, maquiagem e no corpo perfeito – embora respeitasse os gostos das primas. Amava brincar, ler e escrever. Andava sempre bagunçada, seu cabelo volumoso, negro e cacheado preso no topo da cabeça em um rabo-de-cavalo.

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Com a menina pronta, os Cantrell encaminharam-se à casa dos avós. Ainda no portão de Dona Leda e Seu Bisico, já era possível ouvir o chiado da panela de pressão e sentir o cheiro de carne cozida. Os adultos conversavam em altos brados: compartilhavam atualizações de notícias da vida alheia, debatiam sobre futebol, trocavam receitas e tratavam de outros assuntos que só nos parecem interessantes depois que crescemos. Assim que as crianças entraram na casa, Dona Leda anunciou o almoço, fazendo a família inteira colocar-se de pé e dirigir-se à cozinha. Serviam-se e acomodavam-se onde podiam: a mesa da copa era pequena para o gigantesco grupo. Desta forma, tornara-se costumeiro as pessoas se distribuírem pelos vários assentos da casa, dando prioridade à mesa aos mais velhos e àqueles que necessitavam do auxílio dos pais para comer, como Daniel. As opções de alimentos eram diversas, tornando o almoço do agrado de todos. Por mais que os adultos insistissem, Dona Leda não se contentava em preparar uma refeição única, sabendo das preferências dos netos. Para uma Ágata vegetariana que não gostava de vegetais, havia purê de batatas, feijão e arroz. André, por outro lado, comeria tudo o que estivesse a seu alcance, bem como Eduardo. Olívio também não era muito exigente, apesar de sua predileção por massas. Os irmãos Clara e Tiago, crianças incomuns, gostavam de disporem de uma grande variedade de saladas verdes. Débora e Gabriela, tomando cuidado com suas figuras, começavam pelas saladas para acabarem saboreando o primeiro alimento com mais carboidratos que encontrassem pela frente. Daniel não gostava de comer: alimentava-se rápido daquilo que colocassem em seu prato, apenas para se ver livre. Se possível, continuaria brincando enquanto os Cantrell almoçavam. Odiava ter de sentar ao lado da mãe e assistir a esta cortar sua carne em pequenos pedaços. Era um menino crescido. Poderia dar conta, sozinho, de uma atividade simples como aquela. Findado o almoço, com o grupo muito bem alimentado, o clima serenava – exceto para as nove crianças. Não se deixando abater pelos adultos fartos e cansados, iam para a rua conversar e divertir-se, fazendo valer aquele magnífico dia de sol. Sentados no pequeno banco de madeira tosca situado em frente à residência dos avós, o tempo passou em meio a risadas, brincadeiras e planos para as

férias. Horas depois, foram interrompidos por seus pais com um alerta: viajariam para a praia dentro de poucos minutos e precisavam arrumar as malas. – Esperem! Antes de irmos para casa, gostaria de falar com vocês sobre um sonho estranho que tive. – Por Deus, Ágata, não existe coisa mais irritante do que ouvir os sonhos dos outros. Ainda mais os seus, que são sempre bizarros (e tenho quase certeza que inventados). Também sonhei algo esquisito essa noite, e não é por isso que vou torturar o resto com esse tipo de coisa – Débora resmungava. Nos últimos tempos, de fato, Ágata experienciara uma série de pesadelos singulares. O seu sonho recente não fora o único em que tivera a impressão de alguém estar tentando lhe passar uma mensagem. Evitava compartilhar informações deste teor com os primos por não ter paciência para reações como a de Débora. Será que era tão difícil assim para as pessoas acreditarem em algo além daquilo a que estão acostumadas? Não conseguia entender. Afinal, se o universo é maior do que as nossas rotinas mundanas, por que não poderíamos ser também? – Eu quero ouvir! – exclamou Daniel com sua voz aguda, sempre leal à prima. – Adoro as histórias da Ágata! – Não sei se é apenas uma história desta vez, Dan… Pareceu real, por isso queria dividir com vocês. Como aqueles sonhos que te fazem acordar cansado. Tenho certeza que eu estava lá. Não me lembro de muita coisa. Primeiro, existia um lugar maravilhoso. Vocês podem achar meio estúpido, mas havia magia. Eu sei que havia porque sentia todo o meu corpo vibrar de uma forma diferente. O próprio ar era diferente. – Acredito que os livros começaram a mexer com sua cabeça, Ágata, e não de uma maneira boa – concluiu Gabriela, descrente. – Vou ter que concordar com a Débora. Nós crescemos. Não somos mais as mesmas crianças entretidas por suas histórias malucas. – Lembram quando ela nos fez passar a noite toda olhando para uma mancha branca na floresta porque jurou que era o coelho da Páscoa? – riu Eduardo. – Eu nunca fiquei tão triste quanto quando vi aquela sacola de plástico na manhã seguinte. – Acho que vocês três estão muito cínicos para quem até o ano passado acreditava em Papai Noel – André retrucou.

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– Como assim? O que aconteceu com o Papai Noel, André? – questionou Daniel em desespero. – Nada, Dan. Papai Noel está bem – garantiu Ágata, encarando André, repreensiva. – E ninguém está forçando vocês a continuarem aqui. Não são obrigados a me ouvir. Para mim, o sonho foi real. Fiquei horas me sentindo estranha depois e gostaria de contar. Mas, por favor, sintam-se à vontade para irem embora. – Hei, não me inclua nesse xingamento! Eu só comentei do negócio do coelho da Páscoa. Vocês me conhecem, nunca ficaria do lado de Débora em uma discussão – defendeu-se Eduardo, divertido. – Quero ouvir o sonho, juro. Débora e Gabriela não fizeram menção de se mover, o que levou Ágata a prosseguir. – Sonhei com um lugar lindo, que do nada virava pavoroso. E o que me assustou foi que, no final… – … havia alguém pedindo ajuda – Tiago interrompeu a prima, incerto. – Era isso? Se não for, preciso contar o meu sonho. Não gosto de fazer isso, mas esse caso é diferente. – Eu andei falando enquanto dormia de novo? – Ágata aparentava confusão. – Tenho que descobrir como parar com isso. – É, você tem mesmo – concordou um André assustado. – Não existe nada mais aterrorizante no mundo do que eu levantar para comer alguma coisa de noite e você estar sentada sozinha no sofá da sala conversando com a televisão. – Não, Ágata. Dessa vez você não falou dormindo – Clara disse, a apreensão a tomar conta de seu rosto delicado. – Tiago sabia porque ele sonhou a mesma coisa, assim como eu. E tenho quase certeza que Daniel também. – Expliquem melhor essa história – o interesse de Gabriela cresceu. – Acordei no meio da noite e fui para o quarto do Tiago porque estava com, hum, medo, digamos – Clara prosseguia. – Conversamos sobre e achamos muito esquisito. Estávamos nos preparando para contar pra vocês de uma forma que soubéssemos que ninguém riria… Mas com Débora no grupo, fica complicado ser levado a sério. – Por que a culpa é sempre minha? – protestou Débora. – Eu não sou má pessoa.

– É claro que você não é má, Débora – riu Ágata. – Você é tão inofensiva quanto filhotes de labrador. Só gosta de encher o nosso saco e acaba atrapalhando. Mas agora não é o momento para discutir o alcance da sua chatice. Clara, Tiago, me digam o que mais sabem do sonho. Talvez com a ajuda de vocês eu consiga pensar em outras coisas. – Fiz um desenho das partes que lembro – Tiago retirou um papel do bolso de sua calça e, desdobrando-o, entregou a ilustração detalhada à Ágata. – Não é muito, eu sei, mas é melhor do que nada. – Não é muito? – Eduardo olhava o papel por trás dos ombros de Ágata, impressionado. – Isso está perfeito, cara! – Comecem a abrir seus corações, pessoal, porque não faz sentido apenas quatro de nós termos tido o sonho. Tem mais gente nessa conta. – Na verdade, os nove tendo o mesmo sonho também não faz sentido – acrescentou Tiago. – Ué, é claro que um sonho importantíssimo desses só você poderia ter, Ágata – Débora comentava, irônica. – Afinal, você não é a pessoa mais especial do mundo e a rainha do universo? – Esse posto ainda é seu, Deb, querida. E para de frescuras! Eu sei quando você está escondendo algo. Sonhou com isso ou não? – Talvez algo parecido tenha surgido de passagem em minha cabeça na noite anterior – a menina afirmava em um muxoxo. – Talvez. – Mais alguém? – Eu não lembro de sentir magia nem nada – garantiu André, empertigando-se. – Mas sonhei com um lugar horrível e alguém que falava coisas difíceis de entender. Parecia uma estação de rádio mal sintonizada. – É, comigo foi assim – afirmou Eduardo, surpreso. – Bem difícil de escutar. Cheguei a pensar que fosse um sonho comum. – Era horrível – os olhos pequeninos de Daniel estavam arregalados. – Eu vi tudo, tudinho… Primeiro tinha sol e gente, depois não tinha nada. Só a voz… As palavras de Daniel alarmaram os demais. Os Cantrell haviam esquecido que o primo de quatro anos estava entre eles. – Dan, por que você não entra na casa da vó? – Clara, doce, perguntou ao irmão. – Ela estava preparando a sobremesa, já deve ter terminado! Se

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não tiver, você pode ficar fazendo companhia a ela. É o bebê da família, sabe que ela adora! – Não sou um bebê e vou ficar aqui! Quero saber quando vamos ir lá, quero saber dos assuntos de gente grande. – Ir lá aonde, Daniel? – questionou Gabriela, arqueando as sobrancelhas. – Não fale besteiras. Foi só um pesadelo, nós não temos que ir em lugar nenhum. – Um pesadelo coletivo? – indagou Eduardo, incrédulo. – Ah, não. Todo o ceticismo tem um limite, não acha? – Discordo muito do que você acabou de dizer, Gabriela, mas vou deixar a minha opinião para depois – falou Ágata. – Temos que focar em lembrar do sonho. Não é fácil recordar sonhos inteiros uma vez que acordamos. Entretanto, os pedaços memorizados por cada um encaixavam-se com os dos demais, possibilitando a reconstituição integral do sonho. – A coisa é séria… – disse um André pensativo. – Eu é que não quero me envolver com isso – bradou Olívio. – E mesmo se quisesse… Como descobriríamos onde fica aquele lugar em que precisamos chegar? – A Grande Árvore? – indagou Eduardo. – Essa mesma. – Olha, me parece idiota de tão óbvio, mas acredito que essa pergunta só tenha uma resposta. A Grande Árvore só pode ser… – …a Árvore Monstro – complementaram os demais em uníssono, alguns incertos, outros determinados. – Sim, Eduardo, foi o que eu pensei – reforçou Tiago. – Mas se é a Árvore Monstro, o que devemos fazer? – Mantenho o que disse antes: nada – respondeu Gabriela. – Não conseguiríamos resolver um problema deste tamanho. – Nada? Mesmo? – perguntou Ágata, incrédula. – Você assiste à destruição de um mundo inteiro, alguém o alerta de que o seu é o próximo, mas ainda assim não deseja fazer nada? Precisamos ir até a árvore e encontrar a pessoa da mensagem o mais rápido possível. Descobrir como ajudar.

– Temos a viagem hoje, Ágata. Ficaria meio suspeito sumir agora – alertou Tiago. – É necessário um planejamento, tempo para preparações. Talvez uma noite de sono… Podemos ter mais sonhos. Temos muito a organizar, questões a serem respondidas. A comida do outro mundo é saudável para nós? O homem da mensagem vai conseguir nos proteger? Aliás, será que dá para confiar neste cara? Não adianta só correr em direção à morte certa e desperdiçar nossa chance de ajudar. – Nos apressar seria uma bobagem gigantesca – concordou Clara, sensata. – Acho que o melhor agora é ir para casa, arrumar as malas e pensar nisso direito. Afinal, não é algo que acontece todo o dia – complementou Tiago. – Não é algo que acontece em nenhum dia. Não nos meus e nos das pessoas que conheço, ao menos – lamentou Olívio. – Você está certo. Temos que pensar melhor – disse Ágata. – Mas não por tanto tempo. O homem estava com pressa e já é dezembro. Ele falou sobre o final do ano… Não falta muito. – A não ser que vocês pretendam ir até a Árvore Monstro dentro da próxima meia hora, nós só vamos poder dar um jeito nisso ao voltarmos da praia – lembrou André. – Conversamos melhor depois. – Depois não: assim que chegarmos à praia – corrigiu Ágata. – Quando retornarmos, precisamos estar preparados para partir. – Ainda acho loucura vocês falarem sobre partir como se fosse algo simples de se fazer! – exclamou Débora, impassível. – “Tchau, família. Vou para um mundo estranho porque um cara louco me mandou uma mensagem telepática”. Não sejam estúpidos! A única pessoa sã aqui é Gabriela. Ela está certa, não temos que fazer nada. Foi só um sonho idiota. – E se a gente ao menos contar para alguém? – ponderou Olívio. – Polícia, bombeiros, minha mãe… Não sei. – Sim! Não seria melhor contarmos aos adultos? – uma Clara amedrontada choramingava. – Isso tudo é estranho demais para nós sozinhos. Não podemos envolver o Daniel em uma coisa dessas. Ele é muito pequeno! – Daniel está nisso tanto quanto nós, Clara. Seu medo é natural, ele é nosso irmão. Mas não há nada que possamos fazer – consolou Tiago. – Siga meu exemplo. Ágata está envolvida e eu estou tranquilo – André brincou, sorrindo.

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– Agradeço a preocupação, maninho. Continue iluminando meus dias com todo esse amor. Se hoje à noite você acordar com um travesseiro sobre o seu rosto, não se preocupe. É o meu jeito especial de te dar um abraço. – Eu quero ir com vocês! – queixou-se Daniel. – Posso ser pequeno, mas sou mais esperto que André e Olívio juntos! – Ei! – esbravejou Olívio de forma meio incompreensível, sua boca cheia de biscoitos preparados pela avó. – Boa contra-argumentação, Olívio – riu Ágata. – Parem de besteira, vocês.... Nossos pais não vão ficar felizes se souberem que ainda não arrumamos as malas – disse Clara. – Se vocês preferem não ir até a Árvore Monstro hoje, está na hora de voltar para a casa – reconheceu Ágata. – Fica combinado que nenhum adulto saberá dessa pequena, bem, aventura. É isso? – indagou Eduardo. – Sim. Conversamos melhor na praia – afirmou Ágata. – É o que eu mais queria – Gabriela dizia, irônica. – Sol, mar, areia e discutir o fim do mundo. Pensativos, ansiosos e amedrontados, os pequenos Cantrell retornaram a suas moradias. Envolvidos em um misto de emoções, experimentavam sentimentos até então desconhecidos. Em suas curtas vidas, jamais haviam se deparado com algo remotamente parecido. Eram crianças diferentes e fortes, escolhidas a dedo e preparadas para quaisquer adversidades. Contudo, eram, ainda assim, crianças.

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Na noite anter io r Daniel acordara. “Uou! Esse pessoal precisa de ajuda”, fora a única coisa que sua mente infantil havia sido capaz de formular. Ele viu um lugar muito bonito sendo destruído. Por que alguém teria feito aquilo? Uma vez, voltando da escola com Tiago, avistara alguns adolescentes que se divertiam machucando um cachorro de rua, um vira-lata. Tiago tentou intervir e acabou apanhando. Mas foi bom: ele comprou tempo para Daniel retirar o indefeso animalzinho daquele lugar. A criança nunca conseguiria entender o porquê de desejarem ferir um cachorro, uma pessoa, uma árvore, ou, pior, um mundo inteiro. E isso que ele não estava a par de metade da maldade conscientemente glorificada por muitos; ao menos não ainda, não agora. O momento em que a inocência de Daniel seria arrancada de seu pequeno corpo aproximava-se com uma velocidade alarmante. Aqueles seres todos de seu sonho pareciam tão felizes antes do ocorrido. E como eram bonitos! A diversidade de corpos, rostos, espécies, identidades de gênero, roupas e estilos era encantadora aos olhos puros do menino. O tal Senhor dos Mortos que impingira tanta dor às criaturas do outro mundo deveria ser mal. Muito mal – tanto quanto alguns personagens das histórias que Ágata inventava e Daniel escutava com atenção. Era quase como se a menina tivesse tido um contato prévio com esse vilão específico, tal era a maneira que retratava uma maldade similar a dele em seus contos ficcionais. Daniel subitamente reparou na escuridão de seu quarto e optou por passar o resto da noite no de Clara. Se a pessoa cruel de seu sonho estivesse por perto, ficaria mais seguro na companhia da irmã. Clara era superprotetora. Apesar de, em diversas ocasiões, o pequeno odiar que ela não o deixasse fazer nada, tratando-o como um bebê ingênuo, Daniel acreditava que aquele momento exigia uma autopreservação maior. Oras, ele não era estúpido! Sabia reconhecer o perigo. Ao procurar por Clara, porém, teve uma surpresa: o quarto desta estava vazio. Encaminhou-se ao de Tiago, temeroso de que algo ruim pudesse ter

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O Velho Mundo  

Este é o primeiro capítulo do livro "O Velho Mundo - Abrem-se os portões de Erebo", uma obra infantojuvenil de literatura fantástica escrita...