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O caminho para uma nova fase O trabalho dos agentes socioeducadores ajuda na reestruturação de jovens infratores Katherine D’Ávila

Adolescentes que cometem atos infracionais no Estado têm um destino: a Fundação de Atendimento Sócio-Educativo, a Fase, responsável pela execução das medidas sócio-educativas de internação e semiliberdade, determinadas pelo Poder Judiciário. Seis unidades trabalham com a mesma finalidade em Porto Alegre, além de sete no interior do Rio Grande do Sul, e em todas elas um profissional tem grande importância: os agentes socioeducadores, antigamente chamados de monitores, fundamentais na reestruturação dos meninos. Com o advento do Estatuto da Criança e Adolescente, o ECA, no ano de 1990, ocorreram mudanças legais nas instituições que atendiam os jovens. O juiz João Batista Saraiva explica que passou a ter distinção no tratamento entre vitimizadores e vitimizados. “Originaram-se programas que estimulam a educação, a condição de se profissionalizar e o apoio na vida dos meninos”, relata. Ele ressalta que, atualmente, há uma dupla dimensão neste trabalho: a punitiva e a promotora de cidadania, na qual socioeducadores são base para um bom desenvolvimento. Na presidência da fundação desde janeiro de 2011, Joelza Mesquita Andrade Pires compara o trabalho dos servidores com o papel de pais numa família. A atividade básica desse profissional é conduzir e acompanhar o adolescente em todas suas necessidades e obrigações diárias. Devido ao grande contato com os infratores, uma relação mais íntima cria raízes e se fortalece entre eles. “O agente socioeducador vai passar para eles o que sabe de melhor. Se o profissional for uma pessoa cruel e desumana, é isso que os meninos vão absorver. Então, o papel dele é maior do que de qualquer outro aqui dentro”, explica. Para a presidente, é necessário ter sentimento para desempenhar essa profissão, pois ao deparar com um menino agressivo ou deprimido, será preciso um jeito especial para lidar com a situação. “O socioeducador deve gostar do que faz”, completa. Muitas vezes, quando um dos internos volta a ser livre, o vínculo com os profissionais continua. Em situações de necessidade da família dos jovens, os agentes se juntam e ajudam na compra de cestas básicas, atitude que foge de suas tarefas. A servidora Maristela Farias entrou na fundação há dez anos. Ela tinha muita vontade de fazer parte da equipe e realizou o concurso. Mesmo sabendo que existe um lado violento da profissão, ela mantém o gosto pelo que exerce na unidade. “Nunca recebi nenhum empurrão, nem tapas”, enfatiza.


O adolescente F.M., 17 anos, está na fundação desde novembro do ano passado. Entrou lá por um ato infracional, assalto a mão armada, mas hoje trabalha no setor de comunicação e já enxerga a vida de outra forma. “Aqui conhecemos um mundo melhor”, explica. Sua unidade é a POA I, onde afirma ter servidores que se preocupam com os meninos mais do que a obrigação. “Tem uma senhora lá que nos trata como se fôssemos seus filhos”, comenta. Ele também diz que alguns desses profissionais não dão abertura para conversas, piadas e momentos íntimos.

A época dos monitores Na unidade POA II, localizada na Vila Cruzeiro, vivem 130 meninos. Uma das pessoas que ajuda nas tarefas diárias e no convívio com os internos do local é Rafael Souza, 49 anos, 21 de fundação. O agente socioeducador conhece todos os adolescentes e tem um bom relacionamento com o Judiciário. Por esses motivos, é o encarregado de participar das audiências. Souza admite ser este um trabalho estressante, no qual só é possível continuar se tiver gosto e coragem. “Precisa ter um fundo de loucura para ficar. Isso aqui se torna um vício”, acrescenta o profissional que, de dezembro de 2012 até março deste ano, teve apenas um fim de semana de folga. Muitos meninos contam para os profissionais histórias de suas vidas que nem os pais e namoradas têm conhecimento. “Alguns chegam aqui por um delito não muito grave, como roubo, e, com o passar do tempo, expõem crimes piores já cometidos, como homicídios”, ressalta. Outro episódio citado por ele é o de um menino de aparência mais fechada que, após adquirir confiança no agente, desabafou que sofria abuso sexual do próprio pai. “Dentro da Fase, esses meninos recebem a atenção que, muitas vezes, não tiveram dos familiares”, explica. Nos últimos anos, as mulheres dominaram os concursos para ingressar na profissão. E hoje, são a maioria na fundação. Ainda na época da Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor (Febem), uma delas já auxiliava nas funções dos monitores, como eram chamados naquele período. Leda Perin, 49 anos, trabalha na fundação há 28 anos, mas apenas quatro deles foram na monitoria, durante 1985 e 1989. O pouco tempo não mudou as transformações que a convivência com os garotos fez em sua vida. “Eu vi um mundo que não conhecia. Uma coisa é ver nos noticiários, outra é enxergar isso no dia a dia”, conta. Hoje, Leda trabalha como assistente de direção e, da época em que vivia entre portas e grades dos dormitórios, guarda um vínculo importante. Durante dois anos como monitora, ajudou uma menina internada no local dando dinheiro, roupa e comida. Após 15 anos, encontrou a moça trabalhando como guardadora de carros em uma rua do bairro Bom Fim e voltou a ajudá-la financeiramente e a vê-la todos os meses.


Servidores como Leda e Rafael, dos tempos da Febem, quando as medidas socioeducativas eram diferentes, com menos limites e restrições, viram grandes conflitos e motins dos internos. “As situações de tumulto de hoje não são nada comparadas às de 15 anos atrás”, ressalta Souza, que já passou por casos difíceis durante o expediente. Em 1995, ele ficou amarrado durante seis horas em oito botijões de gás, seu corpo molhado com álcool e sofrendo ameaças. Outra vez, furaram sua barriga com o cabo de uma escova de dente afiada. Mesmo com a maior tranquilidade dos dias atuais, ainda são recolhidos objetos pontiagudos dos dormitórios dos meninos e também ouvidos muitos barulhos de pontapés nas portas dos quartos. Souza define o seu trabalho como algo fascinante. “Se fosse tão ruim, eu não estaria aqui durante esse tempo todo”, conclui. Ilisana Bavaresco, 26 anos, iniciou seu trabalho como agente socioeducadora em março deste ano. Os primeiros dias foram mais difíceis, já que não conhecia os adolescentes e ficava complicado dirigir-se a eles. Atualmente, conhece os nomes e também as regras da casa. “Está sendo mais gratificante do que eu esperava. É uma grande experiência de vida”, conta. Para Ilisana, não é possível ter ideia de como funciona o trabalho antes de ingressar na instituição. “Estou falando para todos que eu conheço que deveriam passar pelo menos um dia aqui na Fase”, completa.


O caminho para uma nova fase  

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