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O Arqueiro GERALDO JORDÃO PEREIRA (1938-2008) começou sua carreira aos 17 anos, quando foi trabalhar com seu pai, o célebre editor José Olympio, publicando obras marcantes como O menino do dedo verde, de Maurice Druon, e Minha vida, de Charles Chaplin. Em 1976, fundou a Editora Salamandra com o propósito de formar uma nova geração de leitores e acabou criando um dos catálogos infantis mais premiados do Brasil. Em 1992, fugindo de sua linha editorial, lançou Muitas vidas, muitos mestres, de Brian Weiss, livro que deu origem à Editora Sextante. Fã de histórias de suspense, Geraldo descobriu O Código Da Vinci antes mesmo de ele ser lançado nos Estados Unidos. A aposta em ficção, que não era o foco da Sextante, foi certeira: o título se transformou em um dos maiores fenômenos editoriais de todos os tempos. Mas não foi só aos livros que se dedicou. Com seu desejo de ajudar o próximo, Geraldo desenvolveu diversos projetos sociais que se tornaram sua grande paixão. Com a missão de publicar histórias empolgantes, tornar os livros cada vez mais acessíveis e despertar o amor pela leitura, a Editora Arqueiro é uma homenagem a esta figura extraordinária, capaz de enxergar mais além, mirar nas coisas verdadeiramente importantes e não perder o idealismo e a esperança diante dos desafios e contratempos da vida.


Título original: Silk is for seduction "MEB" Copyright © 2011 by Loretta Chekani Copyright da tradução © 2016 por Editora Arqueiro Ltda. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte deste livro pode ser utilizada ou reproduzida sob quaisquer meios existentes sem autorização por escrito dos editores. tradução: Simone Reisner preparo de originais: Victor Almeida revisão: Carolina Rodrigues e Suelen Lopes projeto gráfico e diagramação: Valéria Teixeira capa: DuatDesign imagem de capa: Lee Avison/ Trevillion Images adaptação para e-book: Marcelo Morais CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ C436s Chase, Loretta Sedução da seda [recurso eletrônico]/ Loretta Chase; tradução de Simone Reisner. São Paulo: Arqueiro, 2016. recurso digital (As modistas; 1) Tradução de: Silk is for seduction Continua com: Escândalo de cetim Formato: ePub Requisitos do sistema: Adobe Digital Editions Modo de acesso: World Wide Web ISBN 978-85-8041-570-4 (recurso eletrônico) 1. Romance americano. 2. Livros eletrônicos. I. Reisner, Simone. II. Título. III. Série. CDD: 813 CDU: 821.111(73)-3

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Em memรณria da princesa Irelynn.


Prólogo No verão de 1810, o Sr. Edward Noirot fugiu para a vila de Gretna Green, no sul da Escócia, famosa por permitir o casamento de jovens sem o consentimento dos pais, levando consigo a Srta. Catherine DeLucey. O Sr. Noirot estava convencido de que sua companheira era uma legítima herdeira inglesa, cuja fortuna, como resultado desse ato impetuoso, acabaria caindo exclusivamente em suas mãos. Uma fuga eliminaria toda a burocracia cansativa, sob a forma de contratos de casamento elaborados por pais e advogados. Ao se evadir com uma jovem rica, de sangue nobre, Edward Noirot dava seguimento a uma antiga tradição familiar: sua mãe e avó eram inglesas. Infelizmente, o Sr. Noirot havia sido ludibriado por sua futura esposa, que, da maneira mais encantadora possível, era tão dedicada a mentir e a enganar quanto ele. Sim, existiu uma fortuna. Pertencera à mãe da jovem, que John DeLucey seduziu e levou para a Escócia, seguindo a sua venerável tradição familiar. A essa altura, a suposta fortuna desaparecera e a Srta. DeLucey tentava melhorar sua situação financeira da mesma maneira que todas as mulheres de sua família: casando-se com um ingênuo cavalheiro de sangue azul, com bolsos cheios e um coração ardente. Mas ela também havia sido enganada, pois Edward Noirot não detinha nenhuma fortuna. Ele era, de fato, descendente de um conde francês. Mas a riqueza de seus antepassados se extinguira havia anos, durante a Revolução, junto com as cabeças de vários membros de sua família. Graças a essa comédia de erros, o braço mais infame de uma das mais nobres famílias da França uniu-se à sua contraparte inglesa, mais conhecida – e odiada – nas Ilhas Britânicas como os Terríveis DeLuceys. O leitor deve estar imaginando o desgosto do casal quando a verdade veio à tona, logo após a cerimônia do casamento. Sem dúvida, imagina que houve gritos, berros e recriminações. Engana-se. Sendo tão patifes – e realmente apaixonados –, eles riram até não poder mais. Em seguida, juntaram suas forças. E decidiram seduzir e enganar todo e qualquer incauto que cruzasse seu caminho. Foi um percurso longo e cheio de curvas que os levou de um canto a outro da Europa, mudandose sempre que um desses locais se tornava desconfortável para o casal. Nessas idas e vindas, Catherine e Edward Noirot geraram três filhas.


Capítulo um A MODISTA. Sob essa denominação, devemos incluir não apenas o trabalho da criadora de vestidos e da chapeleira, mas também o da costureira… Bom gosto e imaginação são necessários, além de rapidez, discernimento e aprimoramento de vários estilos de moda, que estão sempre mudando nos mais altos círculos. Guia do comércio inglês, 1818.

Londres, março de 1835. Marcelline, Sophia e Leonie Noirot, irmãs e proprietárias da Maison Noirot, na rua Fleet, em West Chancery Lane, estavam presentes quando lady Renfrew, esposa de sir Joseph Renfrew, lançou a bomba. Marcelline, com seus cabelos negros, moldava um laço em forma de borboleta, com o objetivo de seduzir a senhora para que comprasse sua mais recente criação. A loura Sophia recolocava em ordem uma gaveta, que havia sido desarrumada mais cedo para uma de suas clientes mais exigentes. Leonie, a ruiva, começava a ajustar a bainha da roupa da Sra. Sharp, amiga íntima de lady Renfrew. Embora fosse apenas um mexerico que surgiu casualmente na conversa, a Sra. Sharp deu um grito estridente – quase como se uma bomba realmente tivesse explodido –, tropeçou e pisou na mão de Leonie. Leonie não rogou pragas em voz alta, mas Marcelline viu os lábios da irmã formarem uma palavra que ela duvidava que suas clientes estivessem acostumadas a ouvir. Sem demonstrar nenhuma emoção pela dor causada à insignificante costureira, a Sra. Sharp perguntou: – O duque de Clevedon está voltando? – Sim – respondeu lady Renfrew, demonstrando uma boa dose de presunção. – Soube de fontes seguras. – O que aconteceu? Lorde Longmore ameaçou lhe dar um tiro? Qualquer modista que tivesse a ambição de vestir as mulheres da alta classe mantinha-se sempre atualizada sobre os últimos acontecimentos. Assim sendo, Marcelline e as irmãs já estavam familiarizadas com todos os detalhes daquela história. Sabiam que Gervaise Angier, o sétimo duque de Clevedon, estivera sob a guarda do marquês de Warford, o pai do conde de Longmore. Estavam cientes de que Longmore e Clevedon eram grandes amigos e que Clevedon e lady Clara Fairfax, a mais velha entre as três irmãs de Longmore, estavam prometidos um para o outro. Clevedon era apaixonado por ela desde a infância e jamais demonstrara nenhuma inclinação para fazer a corte a quem quer que fosse, embora por certo mantivesse vários relacionamentos de outra


natureza, em especial durante os três anos que passara no exterior. Apesar de o casal jamais ter noivado oficialmente, o fato era considerado mera formalidade. Todos sabiam que o duque se casaria com ela tão logo retornasse com Longmore de sua tradicional viagem pela Europa. Toda a sociedade ficou chocada quando, cerca de um ano antes, Longmore voltou e Clevedon continuou levando uma vida de devassidão. Aparentemente alguém da família perdera a paciência, pois, de acordo com os boatos, lorde Longmore viajara para Paris havia duas semanas e confrontara o amigo sobre as tão aguardadas núpcias. – Acho que ele ameaçou chicoteá-lo, mas não há como saber – comentou lady Renfrew. – Tudo o que me disseram foi que lorde Longmore foi a Paris e fez uma ameaça, o que resultou em uma promessa do amigo de que voltaria a Londres antes do aniversário do rei. Embora Sua Majestade tivesse nascido em agosto, seu aniversário seria comemorado no dia 28 de maio daquele ano. Como nenhuma das irmãs Noirot fez nada tão óbvio quanto gritar ou tropeçar, ou mesmo erguer uma sobrancelha, ninguém que estivesse observando poderia ter imaginado que elas consideravam aquela notícia de extrema importância. Elas continuaram com suas tarefas, servindo às duas damas e a outras pessoas que adentrassem seu estabelecimento. Naquela noite, mandaram a costureira para casa e fecharam a loja. Subiram as escadas para seus humildes aposentos e fizeram uma leve refeição, como de costume. Marcelline contou uma história para a filha de 6 anos, Lucie Cordelia, antes de colocá-la na cama. Lucie dormia o sono dos inocentes – ou o mais inocente possível para uma criança nascida em uma família em ruínas – quando as três irmãs desceram as escadas que levavam até o ateliê da loja. Todos os dias, um menino de roupas imundas levava para elas o jornal que trazia os mais recentes escândalos tão logo era impresso –, em geral, antes que a tinta estivesse seca – e o entregava na porta dos fundos da loja. Leonie pegou o lote do dia e espalhou as folhas pela mesa de trabalho. As irmãs começaram a vasculhar as colunas. – Está aqui – disse Marcelline depois de alguns instantes. – “O conde de L. voltou de Paris ontem à noite… Fomos informados de que certo duque, que atualmente reside na capital francesa, foi avisado, em termos inequívocos, que lady C. estava cansada de esperar pelo prazer… Sua Graça deve voltar a Londres antes das celebrações do aniversário do rei… Noivado a ser anunciado durante um baile na Residência Warford, no fim da estação… Casamento antes do fim do verão.” Ela passou a página para Leonie, que prosseguiu a leitura: – “Se o tal cavalheiro não cumprir seu compromisso, a dama considerará o ‘entendimento’ como um mal-entendido.” – Ela riu. – “Seguem algumas conjecturas interessantes sobre qual cavalheiro será favorecido em seu lugar.” Empurrou o jornal na direção de Sophia, que balançava a cabeça. – Ela seria uma tola em abrir mão dele. Um ducado, pelo amor de Deus. E um duque solteiro, jovem, bonito e saudável? Posso contar, em um único dedo, quantos desses há por aí. – Ela enfiou o dedo indicador na coluna do jornal. – Ele. – Fico me perguntando qual o motivo da pressa – disse Marcelline. – Ela só tem 21 anos.


– E o que ela tem para fazer, além de ir a festas, óperas, bailes, jantares, passeios etc.? – comentou Leonie. – Uma moça da aristocracia que tem beleza, nível e um dote respeitável não devia se preocupar em atrair candidatos. Essa moça… Nem precisou completar a frase. Elas já tinham visto lady Clara Fairfax em várias ocasiões. Sua beleza era impressionante: cabelos louros, olhos azuis, pele clara. Suas numerosas qualidades incluíam alta classe, uma linhagem impecável e um dote esplêndido; os homens se jogavam a seus pés por onde quer que ela passasse. – Nunca mais na vida aquela moça será capaz de exercer tanto poder sobre os homens como agora – comentou Marcelline. – Ela devia esperar chegar mais perto dos 30 anos para se casar. – Imagino que lorde Warford jamais pudesse esperar que o duque ficasse longe por tanto tempo – afirmou Sophia. – Dizem que ele sempre obedeceu ao marquês – respondeu Leonie. – Desde que o pai dele morreu de tanto beber. Não se pode culpar Sua Graça por fugir. – Talvez lady Clara tenha ficado ansiosa – argumentou Sophia. – Ninguém parecia preocupado com a ausência de Clevedon, mesmo quando lorde Longmore voltou para casa sem ele. – Por que se preocupariam? – perguntou Marcelline. – Todos os consideram noivos. Quebrar o compromisso com lady Clara seria o mesmo que romper com toda a família. – Talvez exista outro pretendente… Um que lorde Longmore não aprovaria – arriscou Leonie. – Lady Warford não deixaria um ducado lhe escapar – disse Sophia. – Que ameaça lorde Longmore teria usado? – indagou Sophia. – Ambos têm fama de serem desvairados e violentos. Ele não poderia tê-lo ameaçado com um duelo. Matar o duque iria contra todos os seus objetivos. Talvez tenha ameaçado apenas espancá-lo até ele perder os sentidos. – Isso eu gostaria de ver – disse Marcelline. – Eu também – concordou Sophia. – E eu – acrescentou Leonie. – Dois homens aristocráticos e bonitos lutando – disse Marcelline, com um sorriso nos lábios. Como Clevedon havia partido de Londres várias semanas antes de ela e as irmãs voltarem de Paris, até aquele momento elas ainda não o haviam conhecido. Entretanto, sabiam que o mundo inteiro o considerava um homem bonito. – Essa é uma cena que eu não perderia por nada. Que pena que não acontecerá. – Por outro lado, não se vê o casamento de um duque todos os dias. Eu já estava começando a achar que esse não aconteceria tão cedo – disse Sophia. – Será o casamento do ano, talvez o da década – comentou Leonie. – O vestido da noiva é apenas o começo. Ela vai exigir um enxoval e um guarda-roupa novo completo, à altura de seu título. Tudo será da melhor qualidade. Quilômetros de renda. As melhores sedas. Musselina leve como o ar. Ela vai gastar uma verdadeira fortuna. Por um instante, as três irmãs permaneceram em silêncio, contemplando aquela visão, parecendo almas piedosas admirando o paraíso. Marcelline sabia que Leonie estava calculando aquela fortuna até a última libra. Sob a indomável cabeleira ruiva da irmã escondia-se uma incansável mulher de negócios. Ela amava o dinheiro e


todas as maquinações que o envolviam. Trabalhava apaixonadamente em seu livro de contabilidade. Marcelline, por outro lado, preferia limpar vasos sanitários a analisar uma coluna de números. Cada uma das irmãs tinha seu ponto forte. Marcelline, a mais velha, se parecia com o pai. Era a única das três que poderia ser verdadeiramente filha do Sr. Edward Noirot. Não havia dúvidas de que herdara seu senso de moda, além de sua imaginação e habilidade para o desenho. Ela também herdara a paixão do pai por objetos de valor, mas, graças aos anos passados em Paris aprendendo costura com a prima Emma, seus sentimentos quanto a essa atividade, assim como o de suas irmãs, tornaram-se mais profundos. O que começara como um trabalho enfadonho – um ofício aprendido na infância, por pura necessidade de sobrevivência – havia se transformado no maior prazer e alegria da vida de Marcelline. Ela não era apenas a desenhista da Maison Noirot, mas também sua alma. Sophia tinha talento para o drama, que ela transformou em habilidade lucrativa. Na aparência, uma loura inocente de olhos azuis; por dentro, uma raposa. Era capaz de vender areia para beduínos, já fizera chorar os agiotas mais frios e convencera as senhoras mais mesquinhas a comprar as criações mais caras da loja. – Pense no prestígio – disse Sophia. – A duquesa de Clevedon será uma líder, ditará moda. O que ela usar, todas irão querer. – Ela será uma líder da moda nas mãos certas – ponderou Marcelline. – Mas, por enquanto… Suspiros encheram aquela pausa. – O gosto dela é terrível – disse Leonie. – Culpa da mãe dela – acrescentou Sophia. – Da modista da mãe dela, para ser mais precisa – corrigiu Leonie. – Hortence, a Horrorosa – repetiram as três em divertido uníssono. Hortence Downes era a proprietária da loja Downes, o maior obstáculo das irmãs ao domínio total do comércio de moda de Londres. Na Maison Noirot, a odiada loja da rival era apelidada carinhosamente de “Trapos”. – Roubá-la da Trapos seria um ato de caridade – disse Marcelline. Seguiu-se um instante de silêncio, enquanto elas se perdiam em devaneios. No minuto em que roubassem uma cliente, outras a seguiriam. As mulheres da alta sociedade agiam como ovelhas. Isso poderia se tornar uma vantagem para quem fosse capaz de conduzir o rebanho para a direção certa. O problema era que não eram muitas as damas da alta sociedade que compravam na Maison Noirot, pois as amigas não o faziam. Poucas delas se mostravam dispostas a experimentar algo diferente. Nos quase três anos de existência da loja, porém, elas haviam conquistado algumas clientes, como lady Renfrew. Mas ela era apenas a mulher de um cavalheiro recentemente condecorado; suas outras clientes eram membros da pequena nobreza ou novos ricos. As mulheres mais nobres – duquesas, marquesas e semelhantes – ainda davam preferência a estabelecimentos mais consolidados, como a Trapos. Embora apresentasse um trabalho superior a qualquer peça que as rivais londrinas pudessem produzir, a Maison Noirot ainda não conquistara prestígio suficiente para atrair as damas para a sua lista de clientes. – Levamos dez meses para livrar Lady Renfrew das garras da Trapos – disse Sophia.


Elas conseguiram esse feito porque lady Renfrew ouvira, sem querer, uma funcionária da Trapos, a Srta. Oakes, dizer que os corpetes de sua filha mais velha eram difíceis de produzir porque seus seios eram de tamanhos diferentes. Indignada, lady Renfrew cancelou um enorme pedido de roupas de luto e foi diretamente à Maison Noirot, recomendada por sua amiga lady Sharp. Durante a prova, Sophia dissera à filha mais velha, que não parava de chorar, que nenhuma mulher no mundo tinha seios perfeitamente iguais. Ela também comentou que a pele de lady Renfrew era como cetim e que metade das damas da alta sociedade invejava seu colo. Quando as irmãs Noirot terminaram de vestir a jovem, ela quase desmaiou de alegria. Houve comentários de que sua silhueta também fizera vários rapazes quererem desmaiar. – Não temos dez meses desta vez – disse Leonie. – Não podemos esperar aquela palerma da Trapos insultar lady Warford. Afinal, ela é uma marquesa, não é a mulher de um cavaleiro qualquer. – Precisamos atraí-la depressa ou a chance será perdida para sempre – disse Sophia. – Se a Trapos pegar a encomenda do vestido de noiva da duquesa de Clevedon, pegará todo o resto também. – Não se eu chegar primeiro – declarou Marcelline.


Capítulo dois ÓPERA ITALIANA, PLACE DES ITALIENS. Os amantes da língua e da música italianas sentir-se-ão deleitados pelos talentosos cantores. Este teatro dedica-se exclusivamente à apresentação de óperas cômicas italianas; é patrocinado pelo governo e associado à grande ópera francesa. As apresentações acontecem às terças, quintas e sábados. Francis Coghlan, Um guia da França, explicando cada aspecto e gastos de Londres a Paris, 1830.

Paris, Ópera Italiana. 14 de abril de 1835. Clevedon tentou ignorá-la. A linda morena se preparara para chamar sua atenção. Aparecera com uma amiga atriz no camarote em frente ao dele no último minuto. O momento não foi muito conveniente. Ele havia prometido escrever uma carta para Clara, contendo uma descrição detalhada da apresentação daquela noite de O barbeiro de Sevilha. Sabia que Clara ansiava por visitar Paris, embora se contentasse com as cartas do noivo. Ele voltaria a Londres em mais ou menos um mês, retomando o que abandonara. Já havia decidido agir com integridade, pelo bem de Clara. Não pretendia ser o tipo de marido que seu pai fora. Depois do casamento, ele a levaria para outros países. Por enquanto, apenas se correspondiam, como faziam desde a época em que ela aprendera a usar a pena. No momento, entretanto, a intenção dele era aproveitar cada minuto de suas últimas semanas de liberdade. Assim, a carta para Clara não era sua única preocupação da noite. Ele viera atrás de madame St. Pierre, que estava sentada em um camarote próximo, com amigos, e que lançava ocasionais olhares de interesse em sua direção. Ele havia apostado 200 libras com Gaspard Aronduille que madame o convidaria para sua festa depois da ópera, ocasião em que Clevedon esperava encontrar um caminho até a cama dela. Mas a morena misteriosa… Todos os homens no teatro notavam a presença dela. Nenhum deles prestava atenção na ópera. O público francês, diferentemente do inglês ou do italiano, assistia às apresentações no mais respeitoso silêncio. Mas os amigos de Clevedon sussurravam sem parar, querendo saber quem era “aquela magnífica criatura” sentada ao lado da atriz Sylvie Fontenay. Ele olhou de relance para madame St. Pierre e, em seguida, olhou para a morena, do outro lado do teatro. Pouco tempo depois, enquanto os amigos continuavam a fazer especulações e perguntas, o


duque de Clevedon levantou-se e saiu.

– Foi um trabalho rápido – murmurou Sylvie por detrás do leque. – A pesquisa foi bem-sucedida – disse Marcelline. Ela havia passado a semana inteira aprendendo sobre os hábitos e interesses do duque de Clevedon. Invisível a ele e a todo o resto, embora estivesse à vista de todos, ela o seguira por toda Paris, noite e dia. Como o restante de sua abominável família, ela era capaz de se fazer notar ou de não ser notada. Naquela noite, Marcelline saíra dos bastidores. Todos os olhos no teatro estavam voltados para ela. Isso era ruim para os atores, mas ela não se importava. Ao contrário dela, eles não haviam se esforçado ao máximo. Rosina estava cambaleante nas notas altas e Fígaro não demonstrava nenhuma exuberância ou prazer de viver. – Ele não perde um segundo – comentou Sylvie, mantendo o olhar propositalmente no que acontecia no palco. – Quer ser apresentado, então o que faz? Vai direto ao camarote dos maiores fofoqueiros de Paris, meus velhos amigos, o comte d’Orefeur e sua amante, madame Ironde. Esse, minha cara, é um especialista na arte de caçar mulheres. Marcelline tinha plena consciência disso. Sua Graça não era apenas especialista em sedução, mas um homem de fino gosto. Não corria atrás de qualquer mulher atraente que cruzasse seu caminho. Não frequentava bordéis – nem mesmo o mais elegantes –, como tantos estrangeiros faziam. Não corria atrás de serviçais ou costureiras. Apesar de sua reputação, não era um típico libertino. Só perseguia as belezas mais aristocráticas de Paris e o crème de la crème do submundo. Embora isso significasse que a virtude dela – ainda que não intocada – estava protegida, também representava o desafio de manter a atenção dele por tempo suficiente para conseguir o que queria. Por isso, o coração de Marcelline bateu mais rápido, do mesmo jeito que batia quando esperava a roleta da mesa de jogos. Desta vez, entretanto, as apostas eram muito mais altas do que mero dinheiro. O resultado do jogo determinaria o futuro de sua família. Seu semblante estava calmo e confiante. – Quanto você aposta que o conde e ele entrarão neste camarote no exato momento em que o intervalo começar? – Nem uma moeda. Eu sei que está certa – disse Sylvie.

Assim que o intervalo começou – e antes que outros membros da plateia tivessem se levantado de


seus lugares –, Clevedon entrou no camarote de mademoiselle Fontenay, acompanhando do comte d’Orefeur. A primeira coisa que vislumbrou foram as costas da morena: ombros suavemente expostos alguns milímetros além do que as parisienses se atreviam a mostrar, e a pele leitosa e macia. Os cachos em desalinho balançavam de modo sedutor. Ele olhou para aquele pescoço e se esqueceu totalmente de Clara, de madame St. Pierre ou qualquer outra mulher na face da Terra. Uma vida inteira pareceu ter transcorrido antes que ele estivesse de pé, diante dela, observando seus notáveis olhos escuros, o cintilar do sorriso… o olhar descendo para a curva madura dos lábios da jovem, uma risada, mais uma vez, querendo surgir nos cantos. Então ela se moveu um pouco, e foi mesmo só um pouquinho – o mais leve mexer de ombros –, mas ela o fez como uma amante que se vira na cama, ou pelo menos foi o que o corpo dele sentiu, provocando-lhe uma sensação entre as pernas. A luz bateu nos cabelos dela, lançando um brilho dourado em sua pele, dançando naqueles olhos risonhos. O olhar dele deslizou mais para baixo, para o volume dos seios sob a seda do decote… a curva elegante da cintura… Ele tinha uma vaga consciência das pessoas conversando ao seu redor, mas não conseguia concentrar-se em mais ninguém. A voz dela era baixa, um contralto com um sombreado de rouquidão. Seu sobrenome, ele ficou sabendo, era Noirot. Tendo dito à mademoiselle Fontenay tudo o que as boas maneiras exigiam, ele se voltou para a mulher que havia perturbado toda aquela plateia. Com o coração disparado, ele se curvou sobre a mão enluvada da jovem. – Madame Noirot. Enchanté. Ele tocou a pelica macia com os lábios. Um aroma leve, porém exótico, lhe subiu às narinas. Seria jasmim? Ao levantar a cabeça, encontrou um olhar profundo como a meia-noite. Por um longo e palpitante momento, seus olhos se encontraram. Ela apontou o leque para o assento vazio ao seu lado. – É um pouco desconfortável conversar dessa maneira, Vossa Graça. – Perdão. – Ele se sentou. – Quão rude de minha parte irromper sobre a senhora dessa maneira. Mas a vista aqui do alto era… Ele se interrompeu de repente, ao perceber algo: ela havia falado em inglês, com o mesmo sotaque dos de sua classe social, nada inferior a isso. Ele respondera de forma automática, pois aprendera ainda na infância a oferecer ao seu parceiro de conversa a cortesia de responder em seu idioma. – Curioso – disse ele. – Eu apostaria qualquer coisa que a senhorita era francesa. Francesa e sem nenhuma nobreza. Tinha que ser. Ele a ouvira falar com Orefeur em um francês parisiense perfeito, certamente superior ao dele próprio. O sotaque era refinado, mas sua amiga, que devia ter cerca de 40 anos, era atriz. As damas da alta sociedade não se misturavam com atrizes. Ele a tomara por atriz ou cortesã. Todavia, se fechasse os olhos, podia jurar que estava conversando com uma aristocrata inglesa.


– Apostaria qualquer coisa? – perguntou ela. Seus olhos se elevaram até a cabeça dele e desceram lentamente, deixando um rastro de calor pelo caminho, descansando sobre o lenço ao redor do pescoço. – Esse belo alfinete, por exemplo? O cheiro, a voz e o corpo estavam deixando lento o cérebro de Clevedon. – Uma aposta? – disse ele, sem refletir. – Ou poderíamos discutir os méritos de Fígaro, ou debater se Rosina deveria ser contralto ou mezzosoprano – prosseguiu ela. – Mas acho que o senhor não estava prestando muita atenção na ópera. – Ela movimentou o leque lentamente. – Por que será que eu tive essa impressão? Ele recuperou a concentração. – Como alguém pode prestar atenção em uma ópera quando a senhora está no mesmo ambiente? – O público é francês – retrucou ela. – Eles levam a arte a sério. – E a senhora não é francesa? Ela sorriu. – Não era exatamente essa a questão? – Francesa. A senhora imita brilhantemente, mas é francesa. – O senhor tem muita certeza. – Sou apenas um inglês obstinado, eu sei – confessou ele. – Mas sou capaz de diferenciar uma inglesa de uma francesa. Uma inglesa pode se vestir como uma francesa dos pés à cabeça, mas ainda parecerá inglesa. A senhora… Ele se interrompeu, permitindo que seu olhar passeasse sobre ela. Analisou o penteado. Era elegante, com a precisão dos cabelos das outras francesas… mas não exatamente igual. O dela era… diferente. Era como se tivesse saído da cama e se arrumado com pressa. Mas não estava despenteada. Estava… diferente. – A senhora é francesa – declarou ele. – Se estiver enganado, o alfinete é seu. – E se estiver certo? – inquiriu ela. Ele pensou depressa. – Se eu estiver certo, a senhora me dará a honra de cavalgar comigo amanhã. No Bois de Boulogne. – Só isso? – perguntou ela, dessa vez em francês. – Para mim, é um prêmio de grande valor. Ela se levantou abruptamente, fazendo a seda farfalhar. Surpreso – mais uma vez –, ele se levantou também. – Preciso de ar – disse ela. – Está ficando quente aqui. Ele abriu a porta que dava para o corredor e ela passou apressada porta afora. Ele a seguiu, o pulso acelerado.


Marcelline já o vira inúmeras vezes, até mesmo de perto, mas ainda estava vacilante. Primeiro, o corpo. Sem dar na vista, ela estudou o corpo dele enquanto o homem conversava educadamente com Sylvie. Aquele físico esplêndido não era, como ela pensava, fruto de um bom corte de roupa, embora o corte fosse primoroso. Os ombros largos do cavalheiro não estavam cobertos por enchimentos e seu torso afilado não era sustentado por nada que não fossem músculos. Músculos por toda parte – nos braços e nas longas pernas. Nenhum alfaiate teria conseguido criar o poder que emanava daquela figura. Está ficando quente aqui, aquele fora seu primeiro pensamento coerente. Logo ele estava diante de Marcelline, inclinando-se sobre sua mão, e o lugar ficou ainda mais quente. Ela sentia os cabelos dele, os cachos negros cintilando como seda, artisticamente despenteados. Ele levantou a cabeça. Ela viu uma boca que deveria ter pertencido ao rosto de uma mulher, tão sensual que era. Ao mesmo tempo, era totalmente masculina e carnal. Um instante depois, ela olhava para cima, dentro dos olhos de uma cor rara – verdes como jade –, enquanto uma voz masculina afagava seu ouvido e parecia acariciar partes de seu corpo que não eram visíveis. Santo Deus! Ela caminhou com rapidez enquanto saíam do camarote. Percebeu os grupos de frequentadores da ópera abrindo caminho para sua passagem. Isso a divertiu, mesmo ciente do problema inesperado que caminhava ao seu lado. Ela sabia que o duque de Clevedon não era fácil de controlar. Ela o havia subestimado. E muito. Entretanto, ela era uma Noirot e os riscos só serviam para excitá-la. Por fim, parou em uma parte menos movimentada do corredor, perto de uma janela. Por algum tempo, ficou olhando para fora. O vidro mostrava seu reflexo: uma mulher maravilhosamente vestida, atraente, um anúncio vivo do que um dia – em breve, com um pouquinho da ajuda dele – seria o melhor estabelecimento de Londres quando se tratava de vestimentas femininas. Assim que conquistassem a duquesa de Clevedon, o patrocínio real viria como consequência natural: a lua e as estrelas, quase ao alcance de suas mãos. – Espero que não esteja se sentindo mal – comentou Clevedon, em um francês com sotaque inglês. – Não, mas percebi que agi de maneira absurda. Que aposta mais ridícula! Ele sorriu. – A senhora não está desistindo, está? Cavalgar ao meu lado no Bois de Boulogne seria um castigo assim tão terrível? Era um sorriso de menino e ele falou com um chame autodepreciativo que já devia ter destruído as virtudes de centenas de mulheres. – Em qualquer das hipóteses, a vencedora sou eu. Por mais que eu a analise, considero essa aposta uma tolice. Pense bem, quando eu lhe disser se está certo ou errado, como vai saber se estou dizendo a verdade? – A senhora acha que eu exigiria ver o seu passaporte? – O senhor planeja acreditar em minha palavra?


– É claro que sim. – Isso pode ser um galanteio ou uma prova de ingenuidade. Não tenho certeza de qual dos dois. – A senhora não mentiria para mim – argumentou ele. Se as irmãs de Marcelline estivessem presentes, teriam desmaiado de tanto rir. – O diamante em seu alfinete é extraordinário – ponderou ela. – Se o senhor acha que uma mulher não mentiria para tê-lo, posso dizer que é ingênuo. Os acusadores olhos verdes percorreram o rosto dela. – Eu estava errado – disse ele em inglês. – Totalmente errado. A senhora é inglesa. Ela sorriu. – O que me denunciou? A conversa? – Mais ou menos – respondeu ele. – Se fosse francesa, estaríamos debatendo o sentido de verdade. Eles não deixam passar nada. Precisam sempre colocar as coisas sob as lentes da filosofia. É um tanto cativante, mas, ao mesmo tempo, previsível. Tudo deve ser dissecado e classificado. Regras. Eles precisam de regras. E criam tantas… – Esse não seria um discurso muito sábio se eu fosse francesa. – Mas a senhora não é. Já sabemos disso. – Será? Ele assentiu. – O senhor apostou depressa demais. Age sempre assim? – Algumas vezes, sim. Mas a senhora me deixou em desvantagem. É diferente de qualquer pessoa que eu já tenha conhecido. – E, de alguma forma, sou mesmo – concordou ela. – Meus pais eram ingleses. – E um pouco franceses. O humor era visível em seus olhos verdes e o coração frio e calculista dela deu um pequeno salto. Por Deus, ele era esperto. – Bem pouquinho – respondeu ela. – Um bisavô francês. Mas ele e os filhos gostavam das inglesas. – Um bisavô é muito pouco e não conta – declarou ele. – Estou cercado de nomes franceses por todos os lados, mas sou inglês até a alma… e tipicamente lerdo, a não ser na hora de tirar conclusões precipitadas. Ah, muito bem. Adeus, meu lindo alfinete. Ele levantou as mãos para removê-lo. Embora usasse luvas, Marcelline tinha certeza de que elas não escondiam calos ou unhas quebradas. As mãos daquele homem seriam típicas dos de sua classe: macias e com as unhas bem cuidadas. Entretanto, eram maiores do que o normal, os dedos longos e graciosos. Bem, não tão graciosos naquele momento. Seu camareiro havia prendido o alfinete com firmeza e precisão no meio das dobras do lenço. Ele precisava lutar para retirá-lo. Ou era o que parecia. – É melhor que eu faça isso – disse ela. – O senhor não sabe o que está fazendo. Ela afastou as mãos dele, tocando-as levemente. Luva contra luva, nada mais. Mesmo assim, ela sentiu como se suas peles tivessem se tocado e a sensação percorreu todo o seu corpo. Marcelline tinha bastante consciência do tórax largo sob as ricas camadas do lenço, do colete e


da camisa. Mas suas mãos não hesitaram ou tremeram. Sua experiência falou mais alto. Anos e anos segurando as cartas com firmeza, enquanto o coração batia forte. Anos de blefes, nunca permitindo que um piscar de olhos, um músculo facial retorcido, fossem capazes de traí-la. O alfinete saiu com facilidade, cintilando diante da luz. Ela observou o tecido branco como a neve que acabara de amassar. – Parece que ficou nu – disse ela. – Seu lenço. – O que é isso? – indagou ele. – Remorso? – Jamais – retrucou ela, e aquela era a verdade mais cristalina. – Mas esse vazio ofende minhas sensibilidades estéticas. – Nesse caso, devo ir correndo até o meu hotel e pedir ao meu camareiro que coloque outro. – O senhor gosta de agradar – comentou ela. – Não há nada estranho nisso. – Fique calmo, Vossa Graça. Tenho uma solução primorosa. Ela tirou um alfinete de seu próprio corpete e substituiu-o pelo dele. Em seguida, colocou nele o que estava usando. O dela não era tão extraordinário, não passava de uma pequena pérola. Mas era uma pérola bonita, de bom brilho. A peça se encaixou suavemente em seu lugar, por entre as dobras do tecido. Ela estava consciente do olhar atento que ele lhe lançou e do silêncio absoluto que fez enquanto esperava. Ela alisou levemente o tecido, deu um passo para trás e analisou seu trabalho com olhar crítico. – Vai servir muito bem – concluiu. – Vai mesmo? Ele estava olhando para ela, não para a pérola. – Deixe que a janela lhe sirva de espelho. Ele continuava olhando para ela. – O vidro, Vossa Graça. O senhor deveria pelo menos admirar o trabalho que realizei. – Eu admiro. Muito. Ele se virou, com um leve sorriso, e estudou a própria imagem no vidro. – A senhora tem um olhar tão bom quanto o do meu camareiro. E esse é um elogio que não faço a qualquer um. – Meu olho tem que ser bom – disse ela. – Sou a melhor modista do mundo.

O coração dele batia erraticamente. De ansiedade, de que mais? E por que não? Ela era, sem dúvida, diferente de qualquer mulher que conhecia. Paris era outro mundo, se comparada a Londres, e as mulheres francesas eram de uma espécie diferente. Mesmo assim, ele já estava acostumado à sofisticação das parisienses, o bastante para


prever o virar de um pulso, o movimento de um leque, o ângulo da cabeça, em qualquer situação. Regras, como ele havia mencionado. Os franceses viviam de acordo com regras. Aquela mulher criava as próprias regras. – Uma modista modesta – brincou ele. Ela achou graça, mas não era aquela risada ressonante, com a qual ele estava acostumado. Era baixa e íntima, não era para ouvidos alheios. Ela não estava tentando fazer cabeças se virarem em sua direção, como as outras mulheres faziam. Somente a dele. E ele se afastou da janela para olhá-la de frente. – Talvez, ao contrário de todas as outras pessoas no teatro, o senhor não tenha percebido – disse ela, fazendo um movimento brusco com o leque fechado sobre o vestido. Ele passeou os olhos por ela. Antes, prestara atenção apenas superficialmente ao que ela vestia. Estava mais consciente das características físicas da moça: as audaciosas curvas do corpo, a brancura da pele, o brilho dos olhos, a delicada desarrumação dos cabelos. Agora, observava como aquele corpo sedutor estava enfeitado: a renda preta da capa, ou túnica, ou o que quer que fosse, sobre uma delicada seda cor-de-rosa, o estupendo arranjo de cores e detalhes e pedrarias, o… o… – Estilo – disse ela. Dentro dele, fez-se uma pausa, uma dúvida, um momento de desconforto. Sua mente parecia ser um livro aberto para aquela mulher, que já havia passado pelo sumário e a introdução, indo diretamente ao primeiro capítulo. Mas que importância tinha aquilo? Ela, que deixava claro não ser nenhuma inocente, sabia muito bem o que ele desejava. – Não, madame. Não percebi. Só tive olhos para a senhora. – Isso é exatamente a coisa certa para se dizer a uma mulher. E a coisa errada para se dizer a uma modista. – Eu imploro que seja apenas uma mulher neste momento – rogou ele. – Como modista, a senhora desperdiça seus talentos comigo. – De jeito nenhum – retrucou ela. – Se eu estivesse malvestida, o senhor não teria entrado no camarote de mademoiselle Fontenay. Ainda que o senhor tivesse sido rude e deixasse de lado os ditames da elegância, o comte d’Orefeur o teria salvado do erro suicida e se recusado a nos apresentar. – Suicida? Estou detectando certa tendência ao exagero. – Quanto às boas maneiras? Permita-me lembrá-lo de que estamos em Paris. – No momento, não me importa onde estou – confessou ele. Mais uma vez, a risada baixa. Ele sentiu o som como se a respiração dela tocasse sua nuca. – Preciso tomar cuidado – retrucou ela. – O senhor está determinado a me conquistar. – Foi a senhora quem começou. A senhora me conquistou. – Se está tentando me abrandar para ter de volta o seu diamante, saiba que não vai dar certo. – Se a senhora acha que vou devolver sua pérola, recomendo que pense duas vezes – disse ele. – Não diga esse absurdo. O senhor pode ser romântico o suficiente para não se importar com o


fato de que seu diamante vale cinquenta pérolas destas, mas eu não sou. Pode ficar com a pérola, com a minha bênção. Mas preciso retornar para perto de mademoiselle Fontenay. E aqui está seu bom amigo, Monsieur le comte, que veio evitar que o senhor cometa o disparate de retornar comigo. Sei que o senhor está encantado, devastado, Vossa Graça, e sim, estou désolé por perder sua companhia. É tão agradável conhecer um homem com cérebro. Mas não vai acontecer. Não posso ser vista favorecendo um cavalheiro. É ruim para os negócios. Devo apenas ter a esperança de revê-lo algum dia. Quem sabe amanhã, em Longchamp, onde, naturalmente, vou exibir minhas criações. Orefeur juntou-se a eles assim que o sinal tocou para avisar que o intervalo chegara ao fim. Uma jovem acenou para ela e madame Noirot se retirou, fazendo uma rápida e graciosa mesura – apenas para Clevedon perceber –, lançando um olhar provocante por cima do leque. Tão logo ficou impossível que ela ouvisse, Orefeur disse: – Tome cuidado. Essa aí é perigosa. – Eu sei – respondeu Clevedon, observando-a abrir caminho pela multidão, como se fosse da realeza, embora estivesse bem longe de sê-lo. Ela era uma lojista, nada mais. E contara esse fato sem nenhum constrangimento, mas ele não conseguia acreditar. Observou a maneira como ela se movia, tão diferente da amiga francesa que as duas pareciam ser de espécies diferentes. – Sim – respondeu ele. – Eu sei.

Enquanto isso, em Londres, lady Clara Fairfax ansiava por jogar um vaso de porcelana na cabeça dura de seu irmão. Mas o barulho atrairia a atenção e a última coisa que ela queria era que a mãe adentrasse a biblioteca. Ela o arrastara para lá porque era um cômodo onde a mãe raramente entrava. – Harry, como você foi capaz de fazer uma coisa dessas? – gritou ela. – Todos estão comentando. Estou arrasada. O conde de Longmore dobrou o corpo cautelosamente, sentou-se no sofá e fechou os olhos. – Não precisa berrar. Minha cabeça… – Posso imaginar como você conseguiu essa dor de cabeça. E não me compadeço de você. Sombras rodeavam os olhos de Harry e seu rosto estava pálido. Vincos e amassados indicavam que ele não havia trocado de roupa desde a noite anterior. Os cabelos negros em desalinho deixavam claro que nenhum pente os tocara durante todo esse tempo. Ele tinha passado a noite na cama de uma de suas amantes, não havia a menor dúvida, e nem se dera ao trabalho de se trocar quando a irmã mandara chamá-lo. – Sua mensagem dizia que era uma questão urgente. Só vim porque achei que você precisava de ajuda. Não vim para ouvir você berrar nos meus ouvidos. – Ir correndo a Paris para dar um ultimato a Clevedon? “Case-se com a minha irmã, senão…”


Essa sua ideia era para me ajudar? Ele abriu os olhos e encarou a irmã. – Quem contou isso? – O mundo inteiro está falando sobre isso – garantiu ela. – Durante semanas, como fiquei sabendo. Ia acabar chegando aos meus ouvidos. – O mundo inteiro está louco. Não foi um ultimato. Só perguntei a ele se queria você ou não. – Oh, não! Ela afundou o corpo na cadeira ao lado e colocou a mão sobre a boca. Seu rosto estava pegando fogo. Como pôde? Mas que pergunta. É claro que ele podia. Harry nunca fora conhecido por seu tato ou sensibilidade. – Melhor eu que papai – ponderou ele. Ela fechou os olhos. Ele estava certo. Papai teria escrito uma carta. Teria sido muito mais discreto e muito mais devastador para Clevedon do que qualquer coisa que Harry pudesse dizer. Papai teria envolvido o duque em sentimentos de culpa e obrigação – e isso, ela suspeitava, era provavelmente o que levara Sua Graça ao continente, para início de conversa. Ela retirou a mão da boca, abriu os olhos e seu olhar encontrou o do irmão. – Você acha mesmo que chegamos a esse ponto? – Minha querida irmãzinha, mamãe está me deixando louco e eu não moro com ela. Passei a ter medo de parar em casa porque sei que ela vai tocar nesse assunto sempre. Até papai tentou ignorá-la, mas desistiu. Você sabe que, desde o início, ele nunca quis que Clevedon e eu viajássemos. Bom, pelo menos não Clevedon. Quanto a mim, ficou feliz por me ver pelas costas. Era verdade que mamãe andava cada vez mais estridente nos últimos meses. As filhas de suas amigas, que haviam debutado junto com Clara, estavam casadas. Enquanto isso, a mãe temia que Clara se esquecesse de Clevedon e se apaixonasse por algum sujeito que não fosse digno dela – ou seja, alguém que não fosse um duque. Por que você encoraja lorde Adderley, quando sabe que ele está praticamente falido? E aquele detestável Sr. Bates, que não tem um centavo para herdar, com dois homens separando-o do título. Você sabe que a propriedade de lorde Geddings está caindo aos pedaços. E sir Henry Jaspers – minha filha? Encorajando as atenções de um baronete? Você está tentando me matar aos poucos, Clara? Qual é o seu problema, que não consegue prender um homem que a ama desde o berço e que tem mais dinheiro do que todos esses juntos? Quantas vezes Clara ouviu aquele discurso desde que haviam retornado a Londres? – Sei que você teve a melhor das intenções, meu irmão, mas gostaria que não o tivesse feito. – Ele está fora há três anos – justificou Harry. – A situação começa a ficar um tanto ridícula, até mesmo para mim. Ou ele tem a intenção de se casar com você, ou não tem. Ou ele quer morar no exterior, ou quer morar na Inglaterra. Acho que ele já teve tempo suficiente para tomar uma decisão. Ela pestanejou. Três anos? Não parecia tanto tempo. Clara passara o primeiro desses anos de luto pela morte da avó, a quem adorava. Na época, não teve desejo de debutar. Aquele ano e os dois que se seguiram foram preenchidos com as extraordinárias cartas de Clevedon. – Não me dei conta de que tanto tempo já se passou. Ele escreve com tanta lealdade que parece


estar aqui. Ela vinha escrevendo para ele desde que aprendera a rabiscar futilidades do tipo “Espero que esta carta o encontre com saúde. O que você está achando da escola? Eu estou aprendendo francês. É difícil. E você? O que está aprendendo?”. Mesmo quando criança, ele fora um correspondente agradável. Era um observador atento e tinha um dom natural para descrições, além de um humor afiado. Ela o conhecia muito bem, melhor do que a maioria das pessoas poderia conhecê-lo, mas esse conhecimento vinha quase todo por meio de cartas. Agora, ela começava a perceber que não tinham passado muito tempo juntos. Enquanto Clara era educada em casa, ele estava na escola e, depois, na universidade. Quando ela passou a frequentar a sociedade, Clevedon já estava no exterior. – Tenho que confessar que também não tinha me dado conta disso – disse Harry. – Quando perguntei a ele quais eram suas intenções, Clevedon riu e disse que fiz bem em ir ao seu encontro. Disse que achava que talvez devesse ter retornado mais cedo, mas que suas cartas lhe diziam que você estava gostando de ser a moça mais procurada da sociedade londrina e que ele não queria estragar a sua festa. Ela também não queria estragar a dele. A infância de Clevedon não fora das mais felizes. Perdera pai, mãe e irmã no decorrer de um ano. Papai esforçara-se para ser um bom guardião, mas suas ideias sobre dever e responsabilidade eram rígidas demais e Clevedon, ao contrário dos irmãos de Clara, tentara viver de acordo com os próprios valores. Quando Clevedon e Harry decidiram viajar para o exterior, ela ficara feliz por ambos. Harry adquiriria cultura e Clevedon, longe de papai, encontraria a si mesmo. – Ele não deve voltar enquanto não estiver pronto – afirmou Clara. As sobrancelhas negras de Harry se ergueram. – Você não está pronta? – Não seja ridículo. É claro que ela estava pronta para receber Clevedon de volta. Ela o amava. Amava-o desde que era apenas uma menina. – Não precisa se preocupar em ser mandada às pressas para o altar – disse Harry. – Sugeri que ele esperasse até o fim de maio. Isso dará a seus pretendentes tempo suficiente para se matarem ou se exilarem na Itália. Recomendei a ele dar mais um mês para você se acostumar a ter aquela figura desajeitada andando de novo por aqui. Isso nos levaria ao fim da temporada. Depois, sugeri que fizesse uma proposta de casamento formal, belamente redigida, com muitas promessas de amor eterno, acompanhada de um anel de noivado com um diamante dos mais esplendorosos. – Harry, você é mesmo ridículo. – Sou? Ele achou que era uma excelente ideia e nós comemoramos com três, quatro ou cinco garrafas de champanhe, se me lembro bem.


Paris, 15 de abril. Sedução era um jogo que Clevedon apreciava muito. Ele se deliciava com a caça tanto quanto apreciava a conquista – e, ultimamente, até preferia caçar. Perseguir madame Noirot tinha tudo para ser um jogo mais divertido do que o normal. Tudo isso traria alguma mudança e um final prazeroso para sua permanência no exterior. Ele não estava com muita vontade de retornar à Inglaterra e às responsabilidades, mas estava na hora. Paris começara a perder o brilho e, sem a companhia divertida de Longmore, ele não via muita graça em passear pelo continente. Seu plano era voltar a Longchamp, de qualquer maneira, para observar e escrever para Clara um relato espirituoso sobre o lugar. Estava devendo a ela um relato sobre a ópera. Longchamp seria uma fonte mais rica para seus comentários sagazes. Os passeios anuais na Champs-Élysées e no Bois de Boulogne ocorriam na quarta, quinta e sextafeiras da semana que antecedia a Páscoa. O tempo, que parecera tão promissor no início da semana, havia mudado, trazendo um vento frio. Mesmo assim, todas as pessoas importantes de Paris apareceram, vestidas na última moda, exibindo seus belos cavalos e carruagens, que subiam por um lado da rua e desciam pelo outro. O centro pertencia às carruagens reais e aos que possuíam os mais altos títulos de nobreza. Muitos dos participantes, tanto os mais nobres quanto os menos, passeavam a pé, que foi o que Clevedon decidiu fazer. Essa era a melhor maneira de observar as pessoas e ouvir os comentários do público. Entretanto, ele se esquecera do quanto a multidão era densa, muito maior do que em Hyde Park nos horários mais frequentados. Durante algum tempo, ele se pôs a imaginar como seria possível encontrar madame Noirot. Parecia que o mundo inteiro viera a Longchamp. Poucos minutos depois, perguntava-se de que modo teria sido possível deixar de vê-la. Como na ópera, ela criara uma comoção. Tudo que precisou fazer foi desviar o olhar para a direção onde havia um tumulto e lá estava ela. As pessoas viraram o pescoço para olhá-la. Homens dirigiam suas carruagens umas de encontro às outras. Os que estavam a pé batiam a cabeça nos postes, ou uns nos outros. E ela se divertia bastante com tudo aquilo, disso ele não tinha a menor dúvida. Desta vez, como a viu de longe, sem se distrair com seus olhos e a voz atraente, pôde assimilar a visão completa: o vestido, o chapéu… e a maneira de falar. De longe, notou o chapéu de palha debruado com fita verde-clara e renda branca, o casaco lilás aberto abaixo da cintura e que revelava uma esvoaçante mistura de pálidos tons de verde. Ele viu homens se aproximarem dela, um após o outro. Ela parava por alguns segundos, sorria, dizia algumas palavras e continuava caminhando, deixando os sujeitos para trás, todos com o mesmo olhar de espanto e admiração. Na noite anterior, ele devia ter ficado com a mesma expressão no rosto, após ela ir embora. Ele abriu caminho por entre a multidão e foi até ela. – Madame Noirot. – Ah, aqui está ele! – exclamou Marcelline. – Exatamente o cavalheiro que eu queria encontrar.


– Espero mesmo que sim – respondeu ele –, levando-se em consideração o fato de que a senhora me convidou. – Aquilo foi um convite? Pensei que fosse apenas uma ideia. – Eu me pergunto se a senhora deu a mesma ideia a todos os que estavam no teatro. Todos parecem estar aqui. – Oh, não. Eu só queria o senhor. Eles estão aqui porque é um lugar para quem deseja ser visto. Longchamp. Semana Santa. Todos vêm em peregrinação para ver e serem vistos. E aqui estou eu, na vitrine. – Uma bela vitrine – arrematou ele. – E inteiramente na última moda, julgando pelas expressões de inveja nos rostos das mulheres. Os homens estão maravilhados, naturalmente… mas eles não lhe são de nenhuma utilidade, imagino. – É uma situação delicada. Devo ser agradável com os homens, que pagam as contas. Mas são as mulheres que desejam minhas roupas. Elas não terão vontade de dar preferência à minha loja se me virem como uma rival na disputa pela atenção de seus maridos. – Mesmo assim, a senhora insinuou que eu viesse procurá-la no meio da multidão. – É verdade. Quero que o senhor pague algumas contas. Essa resposta era, mais uma vez, a que ele menos esperava. Dessa vez, não achou graça. Seu corpo ficou tenso, a temperatura subiu e não tinha nada a ver com desejo. – As contas de quem? – Das mulheres de sua família – revelou ela. Ele não podia acreditar no que estava ouvindo. E acrescentou, de queixo caído: – Minhas tias lhe devem dinheiro e a senhora veio a Paris para me cobrar? – Suas tias jamais puseram os pés em minha loja. E é esse o problema. Bem, um dos problemas. Mas elas não são a questão principal. A questão principal é a sua esposa. – Eu não tenho esposa – retrucou ele. – Mas terá. E eu devo ser a pessoa que irá vesti-la. Espero que isso já esteja bem claro para o senhor. Ele precisou de um instante para absorver aquelas palavras. Então, precisou de mais um instante para controlar a indignação. – A senhora está me dizendo que fez toda uma viagem até Paris para me convencer a deixá-la fazer os vestidos da futura duquesa de Clevedon? – Por certo que não. Eu venho a Paris duas vezes por ano, por dois motivos. – Ela levantou um dedo indicador da mão enluvada. – Primeiro, para atrair a atenção dos correspondentes que levam informações para as revistas femininas que trazem as novidades sobre a última moda em Paris. Foi uma admirável descrição de um vestido que usei na primavera passada que atraiu a Sra. Sharp para a Maison Noirot. Por sua vez, ela nos recomendou à querida amiga, lady Renfrew. Aos poucos, as amigas dela passarão a fazer parte de nossa ilustre clientela. – E o segundo motivo? Não precisa levantar dois dedos. Sou perfeitamente capaz de fazer contas. – O segundo motivo é inspiração. O coração da moda bate em Paris. Vou aonde as pessoas que estão na moda vão, e elas me dão ideias.


– Entendo – disse ele, embora, na verdade, não entendesse. Era sua punição, concluiu, por procurar relacionar-se com uma lojista, uma pessoa vulgar, que faz tudo por dinheiro. Ele devia ter levado para cama madame St. Pierre na noite passada, mas estragou sua chance correndo atrás daquela… criatura. E ele já estava ficando sem tempo de levar quem quer que fosse para a cama. – Meu papel é meramente incidental. – Esperava que o senhor fosse inteligente o bastante para não entender dessa maneira. Meu grande desejo é o de servi-lo. Ele franziu o cenho. Ela achou que poderia fazê-lo de tolo. Como o atraíra do teatro até a multidão de Longchamp, imaginou que o havia escravizado. Ela não seria a primeira mulher nem a última a brincar com sua imaginação daquela maneira. – Só peço que pense – disse ela. – O senhor deseja que sua esposa seja a mulher mais bemvestida de Londres? Quer que ela seja uma líder da moda? Quer que ela pare de usar aqueles vestidos horrorosos? É claro que sim. – Eu não me importo com o que Clara veste – respondeu ele, com a voz tensa. – Gosto dela pelo que ela é. – Que lindo. Mas o senhor se esquece de considerar a posição dela. Se não fosse assim, todos nós andaríamos por aí usando túnicas, lençóis e peles de animais, como faziam nossos ancestrais. E é uma bobagem vocês, homens, acharem que roupas não são importantes. Olhe para si mesmo. A raiva dançava no peito dele. Que ousadia a dela de falar sobre Clara daquela forma! Que ousadia tratá-lo com falsas gentilezas! Ele queria pegá-la e… e… Que o diabo a carregue! Ele não se lembrava de quando fora a última vez que permitira a uma mulher – uma lojista, diga-se de passagem – provocar-lhe tamanha ira. – Olhe ao seu redor. Estou em Paris. Onde o coração da moda bate, como a senhora disse. – E o senhor usa qualquer roupa velha em Londres? Ele estava tão ocupado tentando não estrangulá-la que não pensou em uma reposta adequada. O máximo que conseguiu fazer foi encará-la. – Não adianta fazer cara feia para mim. Se eu fosse intimidada com facilidade, jamais sobreviveria no ramo em que trabalho. – Madame Noirot, acho que a senhora me confundiu com outra pessoa. Com algum parvo, acredito. Tenha um bom dia. Clevedon começou a se virar para ir embora. – Sim, sim. – Ela fez um leve aceno com a mão. – O senhor vai sair batendo os pés. Faça isso. Eu o verei no Frascati, imagino.


Capítulo três HOTEL FRASCATI, No 108, Rue de Richelieu. Essa é uma casa de jogos que pode ser considerada a segunda em Paris no que se refere à respeitabilidade, uma vez que a frequência é seleta. As mulheres também podem frequentá-la. Novo guia de Paris, de Galignani, 1930.

Clevedon parou, virou-se e olhou para ela. Seus olhos eram duas fendas verdes. Sua boca sensual estava paralisada. Um músculo se mexeu na mandíbula, perto da orelha direita. Ele era um homem grande e poderoso. Ele era um duque inglês, uma espécie conhecida por sua tendência a esmigalhar qualquer coisa pequenina que a perturbe. Sua postura e expressão teriam deixado um ser humano apavorado. Marcelline não era um ser humano comum. Ela sabia que havia mostrado uma capa vermelha para um touro. E o fizera deliberadamente, como faria um experiente matador. Agora, como o touro, ele não percebia mais a presença de ninguém, a não ser a dela. – Que diabo! Agora não posso sair batendo os pés. – Eu não o culparia se o fizesse – afirmou ela. – O senhor foi provocado. Só quero que saiba que sou a mulher mais ambiciosa que já conheceu e estou determinada a vestir a sua duquesa. – Estou tentado a dizer “Sobre o meu cadáver” – retrucou ele –, mas tenho uma suspeita de que sua resposta será “Se for necessário…”. Ela sorriu. A expressão do rosto dele suavizou-se um pouco e um brilho malicioso apareceu em seus olhos. – Isso significa que a senhora faria qualquer coisa? – Sei o que está pensando e isso não será necessário. Eu peço que reflita, Vossa Graça. Que mulher respeitável apadrinharia uma modista especializada em seduzir os homens que são mais caros a ela? – Ah, então é uma especialidade? – O senhor, entre todos os homens, sabe que a sedução é uma arte e que alguns de seus praticantes são mais talentosos que outros. Optei por aplicar meus talentos na costura de belos vestidos para as damas. As mulheres são caprichosas e difíceis de agradar, é verdade. Os homens, por sua vez, são mais fáceis, porém têm muito mais caprichos. Para uma mulher com discernimento, o lindo rosto dele era maravilhosamente expressivo. Ela observou, fascinada, enquanto uma expressão de dúvida apagou os sinais de raiva de seu rosto. Ele a estava avaliando, revendo o julgamento que fizera de início e, portanto, as próprias táticas.


Esse era um homem inteligente. Era melhor ter bastante cuidado. – A senhora disse Frascati – afirmou ele. – É uma jogadora? – O jogo de azar é meu esporte favorito – disse ela. Apostar dinheiro, pessoas, futuros… essa era uma forma de vida para a família de Marcelline. – Principalmente a roleta. – Isso explica os riscos que a senhora corre com homens que não conhece. – A criação de roupas não é um trabalho para os fracos de coração – explicou ela. O bom humor voltou aos olhos verdes do duque e os cantos de sua boca se levantaram. Em qualquer outro homem, isso seria charmoso. Nele, era devastador. Os olhos, o lindo sorriso ligeiro… eram uma facada bem no coração das mulheres. – Estou percebendo. É uma profissão muito mais arriscada do que eu poderia supor. – O senhor não tem ideia – enfatizou ela. – Isso promete ser muito interessante. Eu a verei no Frascati. Ele fez uma mesura, constituída de pura graça masculina, o movimento delicado e confiante de um homem que se sente à vontade com seu corpo poderoso. Ele se retirou e ela o observou enquanto se afastava. Percebeu também inúmeros chapéus elegantes mudarem de direção quando as mulheres o viram passar. Ela havia lançado a isca e ele a engolira, como planejado. Agora, só precisava dar um jeito de não acabar deitada em uma cama com aquele corpo esplêndido no meio das pernas. Isso não ia ser fácil. Enfim, se fosse fácil, não seria tão divertido.

Londres, quarta-feira à noite. A Sra. Downes esperou na carruagem, a pouca distância do alojamento das costureiras. Logo depois da meia-noite, uma delas passou pelo veículo. Olhou para cima, mas não parou de caminhar. Um momento depois, a Sra. Downes desceu da carruagem, seguiu em frente e cumprimentou a jovem, como se aquele fosse um encontro acidental de duas velhas conhecidas. Perguntaram sobre a saúde uma da outra. Em seguida, andaram mais alguns passos até a porta da casa onde a costureira morava. Depois de alguns instantes de conversa, a costureira tirou do bolso um pedaço de papel dobrado. A Sra. Downes ergueu a mão para pegá-lo. – Primeiro, o dinheiro – disse a costureira. – Primeiro eu quero ver o que é – retrucou ela. – Pelo que eu sei, não é nada de mais. A costureira se aproximou da luz do poste e abriu a folha de papel dobrado. A Sra. Downes deu um pequeno suspiro, que logo fez questão de despistar com uma fungada de desdém. – É só isso? Minhas meninas podem conseguir uma coisa dessas em uma hora. Não vale nem meia coroa, quanto mais um soberano.


A costureira dobrou o papel. – Bem, então vamos deixar que elas consigam, se puderem. Fiz algumas anotações nas costas sobre como é feito, mas tenho certeza de que suas espertas funcionárias não precisam de nenhuma informação para descobrir como manter essas dobraduras fixas do jeito que quiserem nem como fazer esses laços. E a senhora não precisa saber qual fita ela usa e de onde ela as traz. Não, na verdade, a senhora não precisa de nada disso. Portanto, vou levar tudo comigo e jogar no fogo. Eu sei como é feito, e madame sabe como é feito, e uma ou duas de nossas meninas menos desajeitadas conhecem o truque. Aquela costureira em particular falava com desprezo das outras, mostrando considerar-se superior e insatisfeita com o reconhecimento obtido. Caso contrário, não estaria de pé, no meio da rua, já bem tarde da noite, apesar de estar com fome e desejar ir para casa jantar. Por certo ela não estaria conversando com a concorrência se “certas pessoas” a valorizassem como ela achava que merecia. – Não, madame, a senhora não precisa de nada disso – prosseguiu ela – e eu me pergunto por que está aqui a essa hora da noite, perdendo seu tempo tão valioso. – É verdade, já perdi bastante tempo. – A Sra. Downes enfiou a mão na bolsa. – Aqui está o seu dinheiro. Entretanto, se quiser mais, é melhor me trazer algo melhor. – Melhor quanto? – indagou a costureira, enquanto enfiava o dinheiro no bolso. – Não dá para fazer muita coisa com um simples desenho. Um vestido de cada vez. Mas o caderno de croquis, bem, isso valeria alguma coisa. – Por certo que valeria – concordou a costureira. – Valeria o meu emprego. Uma coisa é copiar um desenho, mas o caderno de croquis… Ela daria falta dele na mesma hora e a senhora sabe como são espertas aquelas três. – Se ela perdesse o caderno de croquis, perderia tudo – acrescentou a Sra. Downes. – Você teria que conseguir outro lugar para trabalhar. Mas garanto que procurar um novo emprego seria uma experiência muito mais agradável se você tivesse 20 guinéus para facilitar a sua busca. Uma camareira na casa de um nobre ganhava cerca de 20 guinéus por ano. Era muito mais do que uma costureira experiente poderia ganhar. – Cinquenta – argumentou a costureira. – A senhora sabe que tirá-la do seu caminho vale 50 e eu não me arriscaria por menos. A Sra. Downes suspirou profunda e lentamente, enquanto fazia alguns cálculos. – Cinquenta, então. Mas tem que ser tudo. É melhor você prestar atenção nos mínimos detalhes. Eu saberei na hora e, se não puder fazer uma cópia exata, você não receberá nada. Ela se afastou a passos largos. A costureira a observou indo embora. – Como se a senhora fosse capaz de fazer uma cópia, sua bruxa idiota – disse para si mesma. Ela balançou as moedas no bolso e entrou na casa.


Paris, na mesma noite. Como a Ópera Italiana fechava às quartas-feiras, Clevedon foi ao Théâtre des Variétés, onde tinha certeza de que se divertiria e veria uma grande apresentação. E havia a possibilidade, quem sabe, de encontrar madame Noirot ali. Quando ela não apareceu, ele se sentiu entediado, ficando na dúvida se deveria sair mais cedo da apresentação e ir direto ao Frascati. Mas Clara ansiava por seus relatos e ele não lhe enviara nada sobre a apresentação de O barbeiro de Sevilha, na terça-feira, e essa era uma das óperas que ela mais apreciava. Agora, ele se lembrou de que não escrevera nada sobre Longchamp – ou seja, nada que ele desejasse contar a Clara. Ele ficou e resolveu, obedientemente, fazer algumas anotações em seu pequeno caderno de bolso. As páginas do caderno não traziam nenhum dos comentários de madame Noirot sobre o estilo de Clara – ou da falta dele. Clevedon optou por tirá-los de sua mente. Ou, pelo menos, foi o que pensou, pois eles continuavam ali, como se a modista os tivesse costurado em seu cérebro. Na última vez que vira Clara, ela estava de luto pela morte da avó. Talvez as cores do luto não lhe caíssem bem. O estilo… Mas, que diabo, ela estava de luto! Por que ela se importaria em usar a última moda? Era uma linda jovem, disse a si mesmo, e podia vestir qualquer coisa – não que ele se importasse com isso, porque a amava pelo que ela era e a amava desde a infância. Mesmo assim, se Clara se vestisse como aquela modista provocante… O pensamento veio e se instalou em sua mente, junto com as últimas cenas da apresentação. Ele viu Clara, magnificamente vestida, fazendo as cabeças se virarem para admirá-la. Ele se viu orgulhoso, como o dono dessa obra-prima, causando inveja aos outros homens. Então se deu conta do que estava pensando. – Que o diabo a carregue! – praguejou em silêncio. – Ela envenenou a minha mente, aquela bruxa. – O que foi, meu amigo? Clevedon virou-se e percebeu a presença de Gaspard Aronduille observando-o com preocupação. – A roupa de uma mulher é mesmo tão importante? – perguntou Clevedon. Os olhos do francês se arregalaram e ele gargalhou. – Isso é uma piada? – Preciso saber – explicou Clevedon. – É importante mesmo? Aronduille olhou para ele sem entender. – Só mesmo um inglês faria uma pergunta dessas. – É importante? – Mas claro que é. – Só mesmo um francês para dar uma resposta dessas – rebateu Clevedon. – Nós temos razão e vou explicar o motivo. E se iniciou o debate. Aronduille chamou os reforços de seu círculo de amizades. Os franceses discutiram o assunto sob todos os pontos de vista filosóficos durante o percurso até o hotel Frascati.


Ali, o grupo se separou, cada um se dirigindo à sua mesa favorita. A mesa da roleta estava, como sempre, repleta de jogadores, com três fileiras de homens ao seu redor. Clevedon não viu sinal de nenhuma mulher. Mas, ao circular a mesa, a parede de homens foi ficando mais estreita. E o mundo se transformou. A visão de uma nuca estonteantemente familiar revelou-se aos seus olhos. Mais uma vez, o penteado desarrumado com suavidade, como se tivesse acabado de sair do abraço de um amante. Um cacho estava se desfazendo e caía um pouco sobre a nuca. Aquela onda rebelde atraía o olhar para lá e o fazia descer pela suave curva dos ombros, indo até o ponto onde as mangas criavam uma prega e se tornavam bufantes. O vestido era vermelho-rubi, supreendentemente simples e com um decote ousado. Ele desejou, por um instante, que pudesse tê-la capturado daquela forma em uma pintura. Ele chamaria a tela de Pecado encarnado. Sentiu-se tentado a ficar ao lado dela, perto o suficiente para inalar seu perfume e sentir a seda de seu vestido roçar suas pernas. Mas uma mesa de jogo não era lugar para casos amorosos – e, pelo que podia perceber, ela estava tão envolvida no girar da roleta quanto os outros jogadores. Ele se colocou em uma posição do outro lado da mesa, ficando frente a frente com madame Noirot. Foi então que reconheceu o homem que estava de pé ao lado dela: o marquis d’Émilien, um conhecido libertino. – Vinte e um. Vermelho. Ímpar – disse um dos crupiês. Com um rodo, outro crupiê arrastou uma pilha de moedas na direção dela. Émilien baixou a cabeça para dizer algo no ouvido da mulher. A mandíbula de Clevedon se enrijeceu. Ele olhou para a mesa. Diante dela, havia pilhas de moedas de ouro. – Cavalheiros, façam suas apostas – convocou o crupiê. Ele jogou a bolinha de marfim na roleta e a fez rodar. E ela girou e girou, parando aos poucos. Dessa vez, ela perdeu. Embora o rodo levasse embora uma boa quantidade de ouro, ela não se mostrou perturbada, mas riu e apostou outra vez. Dessa vez, Clevedon também apostou, no vermelho. A bolinha girou. Preto. Par. Perdeu. Ela ganhou. Ele viu o rodo de Marcelline puxar suas moedas e as dos outros na direção dela. O marquês riu e se abaixou de novo para dizer algo a ela, a boca bem perto de sua orelha. Ela respondeu com um sorriso. Clevedon saiu da roleta e foi para outra mesa de jogo. Disse a si mesmo que teria ido ali caso ela estivesse ou não. Convenceu-se de que ela estava à caça das mulheres e amantes de outros homens e que ele não era o único ricaço em Paris. Émilien também tinha muito dinheiro, sem mencionar esposa, amante e três cortesãs favoritas. Clevedon jogou por cerca de meia hora. Ganhou mais do que perdeu e, talvez por isso mesmo, logo ficou entediado. Saiu da mesa e procurou Aronduille. – Este lugar está muito monótono hoje. Vou ao Palais Royal. – Vou com você – respondeu Aronduille. – Vamos perguntar se os outros querem se juntar a nós. Os outros haviam se mudado para a mesa da roleta. Ela ainda estava lá, naquele vestido de seda carmesim que não era possível ignorar. O marquês


continuava ao seu lado. No mesmo instante em que Clevedon ia desviar o olhar, ela levantou os olhos. Seus olhares de cruzaram. Um momento infinito se passou antes que ela acenasse para ele com o leque. Ele teria vindo mesmo se não tivesse esperança de encontrá-la ali, assegurou a si mesmo. Viera e encontrara outro homem grudado nela. Isso não significava nada para ele. Paris estava repleta de mulheres fascinantes. Ele poderia ter apenas balançado a cabeça, ou feito uma reverência, ou sorrido e ter saído do hotel. Mas ali estava ela, o Pecado encarnado, provocando-o. E ali estava Émilien. O duque de Clevedon jamais havia cedido a outro homem uma mulher a quem desejava. Ele se juntou ao casal. – Ah, Clevedon, você conhece madame Noirot, não conhece? – perguntou Émilien. – Sim, já tive essa honra – respondeu Clevedon, com seu sorriso mais gentil. – Ela esvaziou meus bolsos – disse Émilien. – A roleta esvaziou seus bolsos – disse ela. – Não, foi a senhora. É só a senhora olhar para a roleta e ela para à sua ordem. Marcelline descartou aquelas palavras com um aceno do leque. – Não adianta discutir com ele – disse ela a Clevedon. – Prometi dar a ele a chance de recuperar seu dinheiro. Vamos jogar cartas. – Talvez queira nos dar o prazer de se juntar a nós – ofereceu Émilien. – E também seus amigos?

Eles foram a um dos salões mais discretos e exclusivos de Paris, localizado em uma propriedade particular. Quando Clevedon chegou com o grupo do marquês, vários jogos aconteciam no amplo salão. Perto das três horas da manhã, a maior parte do grupo já se fora. Na pequena e luxuosa antecâmara para onde o marquês ia com um seleto grupo de amigos, só estavam Émilien, uma bela loura chamada Jolivel, madame Noirot e Clevedon. No meio deles, estavam os corpos dos que haviam sucumbido à bebida e ao cansaço. Alguns jogavam havia vários dias e noites sem parar. Na roleta, onde habilidade e experiência não significavam nada, Noirot costumava ganhar mais que perder. Nas cartas, onde a habilidade era importante, sua sorte, por incrível que pareça, estava longe de ser boa. A sorte do marquês também o abandonara na última meia hora. Clevedon ganhava uma atrás da outra. – Chega por hoje – decretou madame Jolivel. – Para mim também – disse Émilien entre dentes. Ele empurrou as cartas para o centro da mesa e se arrastou para fora da sala atrás da loura. Clevedon permaneceu de pé, esperando que a modista se levantasse. Enfim, ele a tinha para si e


estava ansioso para acompanhá-la a algum lugar. Qualquer lugar. – Parece que a festa acabou – disse ele. Noirot levantou o olhar e o fitou, os olhos negros brilhando. – Pensei que estivesse apenas começando – disse ela, pegando as cartas e embaralhando-as. Ele se sentou outra vez.

Eles jogaram vinte e um. Era um dos jogos favoritos de Clevedon. Ele gostava de sua simplicidade. Com duas pessoas, descobriu, era muito mais divertido do que com várias. Por outro lado, ele não conseguia ler as expressões dela. Não havia nenhuma curva irônica em sua boca quando as cartas a desagradavam. Não havia dedos agitados batendo na mesa ao puxar uma carta boa. Quando jogavam com mais pessoas, ela havia exibido pequenos sinais e sua maneira de jogar parecera descuidada aos olhos dele. Mas, dessa vez, tudo era diferente. Algumas jogadas depois, ele sentiu que estava diante de uma mulher completamente diferente. Ele ganhou a primeira, a segunda e a terceira. Depois disso, ela passou a ganhar com constância, a pilha de moedas crescendo à sua frente, enquanto a dele só diminuía. Quando ela passou as cartas para que ele as desse, Clevedon comentou: – Minha sorte está terminando. – Está mesmo – concordou ela. – Ou talvez a senhora tenha jogado comigo de mais de uma maneira. – Estou prestando mais atenção no jogo. O senhor ganhou bastante de mim antes. Meus recursos, ao contrário dos seus, são limitados. Só quero recuperar o que perdi. Ele deu as cartas. Ela olhou para a sua e empurrou uma pilha de moedas para um lado. Ele olhou para a carta que recebeu. Nove de copas. – Dobro – apostou. Ela balançou a cabeça para pedir mais uma carta e olhou para ele. Nada. Nenhum sinal que indicasse se a carta era boa ou ruim. Ele havia treinado muito para aprender a esconder os sinais mais sutis de suas emoções durante o jogo. Como ela conseguira aprender a revelar ou esconder o dela com tanta facilidade? Ou será que a Senhora Sorte simplesmente decidira sorrir para ela naquela noite? Ela ganhara na roleta, um jogo de pura sorte, como ela mesma afirmara, embora os homens jamais desistissem de criar sistemas para vencer. Ela ganhou de novo. E de novo. Mas, dessa vez, depois de mais uma rodada, ela puxou as moedas que ganhara em sua direção. – Não estou acostumada a ficar na rua até tão tarde. Está na hora de ir embora. – A senhora joga comigo de uma maneira diferente da que jogou com os outros – observou ele. – É mesmo? Ela empurrou para o lado um cacho escuro que encontrava-se sobre um dos olhos.


– Não consigo decidir se a senhora tem uma sorte dos diabos, ou se tem algum segredo que ainda não descobri. Ela se ajeitou de novo na cadeira e sorriu. – Sou boa observadora. Já o vi jogar antes. – Mas a senhora perdeu. – Sua beleza deve ter me distraído – retrucou ela. – Já me acostumei a ela. Agora, sou capaz de discernir as maneiras como o senhor sinaliza se as coisas vão bem ou não com suas cartas. – Achei que não desse nenhum sinal – respondeu ele. Ela levantou uma das mãos. – O senhor quase não os dá. Tive muita dificuldade para decifrá-lo. E eu jogo cartas desde que era criança. – É mesmo? Sempre achei que lojistas fossem cidadãos respeitáveis, não muito dados a vícios, principalmente a jogos de azar. – Então o senhor não prestou muita atenção. O Frascati estava repleto de pessoas comuns, que trabalham em diferentes ofícios. Mas, para homens como o senhor e Émilien, eles são invisíveis. – A senhora está bem longe de ser invisível. – Pois está muito enganado – retrucou ela. – Já passei a poucos metros do senhor, em mais de uma ocasião, e o senhor não prestou atenção. Ele se ajeitou na cadeira. – Isso é impossível. Ela pegou as cartas e embaralhou-as, as mãos rápidas, leves e experientes. – Vejamos. No domingo, mais ou menos às quatro horas, o senhor estava andando a cavalo com uma bela jovem no Bois de Boulogne. Na segunda-feira, às sete horas, o senhor estava em um dos camarotes da Académie Royale de Musique. Na terça-feira, logo depois do meio-dia, o senhor estava caminhando pelas galerias do Palais Royal. – A senhora afirmou que eu não era o único motivo pelo qual veio a Paris. Entretanto, tem me seguido. Ou devo dizer que tem me espionado? – Eu espiono as pessoas elegantes. Elas sempre vão aos mesmos lugares e o senhor chama a atenção. – A senhora também. – Isso depende se quero ou não chamar a atenção. Quando não quero, não me visto desta maneira. Uma graciosa mão indicou um lugar do corpete do vestido carmesim. O alfinete de diamante de Clevedon brilhou para ele do centro do decote. Ela colocou as cartas na mesa, agora empilhadas com perfeição, e cruzou os braços. – Uma boa modista pode vestir qualquer pessoa – explicou Marcelline. – Algumas vezes, precisamos vestir mulheres que preferem não atrair a atenção para si mesmas. – Ela levantou os braços cruzados e descansou os cotovelos na mesa, pousando o queixo nos dedos entrelaçados. – O fato de o senhor não ter notado a minha presença em nenhum desses lugares deve lhe provar que sou a maior modista do mundo. – Tudo na sua cabeça tem a ver com negócios?


– Eu trabalho para viver. Ela virou a cabeça e ele percebeu os olhos dela varrerem os vários corpos deitados em cadeiras e sofás, ou espalhados pelo chão. Aquele olhar revelou tudo o que a boca não disse. Ele estava irritado; mais do que deveria. Se não estivesse, teria fingido não entender. Mas aquelas eram as pessoas com quem ele costumava se associar e o meio sorriso zombeteiro nos lábios dela era enervante. Provocado, ele falou sem pensar: – Diferentemente de mim e desses aristocratas devassos, a senhora quer dizer. A burguesia é tediosamente hipócrita. Ela deu de ombros, chamando a atenção para a suavidade de sua pele, e descruzou os braços. – Sim, somos muito tediosos, sempre pensando em dinheiro e sucesso. Ela pegou a bolsa e guardou as moedas que ganhara, um sinal claro de que a noite terminara. Ele se levantou e deu a volta na mesa para puxar a cadeira. Pegou o xale, que escorregara pelo braço dela. Ao fazer isso, seus dedos roçaram os ombros nus de Marcelline. Ele ouviu o som abafado da respiração dela e um lampejo de prazer varreu sua irritação. A sensação era ardente, mais do que deveria ser depois de um toque tão leve e de uma armadilha tão óbvia. Entretanto, ela revelava tão pouco de si que alcançar isso já era um grande feito. Embora não houvesse ninguém consciente por perto, ele se abaixou e disse no ouvido dela, em voz baixa: – A senhora ainda não me disse quando a verei novamente. Longchamp na primeira vez. Frascati esta noite. E a próxima? – Não sei direito – respondeu ela, afastando-se um pouco. – Amanhã eu… na verdade, hoje à noite… preciso estar presente no baile da comtesse de Chirac. Imagino que essa festa seja muito monótona para o senhor. Por um instante, ele só conseguia olhar para ela. Foi então que percebeu que estava boquiaberto, como um caipira assistindo a um circo. Assim que apagou qualquer sinal de surpresa, ele se perguntou por que se importava. Que diferença faria se ele fingisse que nada o surpreendia quando tudo nela era uma surpresa? Ela era a mulher menos previsível que conhecera. E, naquele momento, sentia-se como um daqueles homens que haviam dado de cara com o poste. – A senhora foi convidada para o baile da comtesse de Chirac? – perguntou ele, lenta e cuidadosamente, porque, sem dúvida, não havia entendido. Ela fez um pequeno ajuste na posição do xale. – Eu não disse que fui convidada. – Mas vai assim mesmo. Sem ser convidada? Ela se virou para ele, com um brilho nos olhos negros. – E de que outra forma? – E que tal não ir aonde não foi convidada? – Não seja tolo. É o evento mais importante da temporada. – É também o evento mais exclusivo da temporada – acrescentou ele. – O rei estará lá. As pessoas negociam, tramam e chantageiam durante meses para conseguir um convite. Não lhe ocorreu que uma pessoa que não tenha sido convidada será, inevitavelmente, notada? – Eu não passei pelo senhor uma dúzia de vezes sem ser percebida? Acha que não sou capaz de ir


a um baile sem chamar a atenção? – Não a esse baile. A menos que seu plano seja disfarçar-se de serviçal. – E qual seria a graça em fazer isso? – A senhora jamais passará por aquela porta. Se o fizer, será descoberta de imediato. Se tiver sorte, apenas a jogarão no meio da rua. Madame de Chirac não é alguém com quem se possa brincar. Se ela não estiver de bom humor, e ela quase nunca está, dirá que a senhora é uma assassina. – A acusação poderia ser levada a sério, pois o ambiente na França andava inquieto e ouviam-se rumores de uma nova revolução. – Na melhor das hipóteses, a senhora terminará presa e ela providenciará para que seja esquecida para sempre. Na pior das hipóteses, a senhora conhecerá madame Guilhotina. Não vejo qual é a graça disso. – Não serei descoberta. – A senhora é louca – concluiu Clevedon. – As mulheres mais ricas de Paris estarão lá. Estarão vestindo criações das maiores modistas da cidade. É a mais importante competição de moda do ano, um nível acima de Longchamp. Preciso ver esses vestidos. – A senhora não pode ficar do lado de fora com o resto da multidão e vê-las entrar? Ela levantou o queixo e franziu o cenho. Os grandes olhos escuros exalavam forte emoção, mas, quando ela falou, sua voz era tão fria e altiva quanto a da condessa. – Como uma criança, com o nariz espremido contra a vitrine da padaria? Acho que não. Pretendo examinar aqueles vestidos de perto, assim como os penteados e joias. Essas oportunidades não aparecem todos os dias. Planejo isso há semanas. Ela dissera que era uma mulher determinada. Ele havia entendido – até certo ponto – o seu desejo de vestir Clara. Vestir uma duquesa seria bastante lucrativo. Mas correr o risco com a condessa de Chirac, mulher de extrema arrogância, uma das mais temíveis de Paris? E fazer isso em um momento como aquele, quando a cidade estava em estado de ebulição devido à proximidade do julgamento de alguns supostos traidores? Os nobres, como a condessa, enxergavam assassinos espreitando em qualquer esquina escura. Era um risco muito grande a ser assumido só por causa de uma pequena loja. Entretanto, madame Noirot anunciara seu plano delirante com a maior naturalidade e um brilho nos olhos. E por que isso deveria surpreendê-lo? Ela era uma jogadora. Esse jogo, claramente, era de grande importância para ela. – A senhora pode ter invadido outras festas sem ter sido notada, mas não entrará nessa. – O senhor acha que eles saberão que sou uma simples lojista? Acha que não consigo enganá-los? Acha que não posso fazê-los enxergar o que quero que enxerguem? – Outros, talvez. Mas não madame de Chirac. Não existe essa possibilidade. Ele cogitou que talvez ela tivesse alguma carta na manga e resolveu incitá-la, para ver o que mais ela revelaria sobre si mesma. – Então, terá que ver por si mesmo. Quer dizer, imagino que tenha sido convidado, não? Clevedon olhou para o alfinete de diamante, que piscava para ele, mergulhado nas profundezas do decote daquele vestido vermelho. Os seios dela subiam e desciam em um ritmo mais acelerado.


– Por mais estranho que pareça, fui. Sob o ponto de vista de madame de Chirac, nós, ingleses, somos uma espécie inferior, mas, por algum motivo, ela sempre abre uma exceção para mim. Deve ser por causa de meus enganadores nomes franceses. – Então eu o verei lá. Ela começou a se virar. – Espero que não. Eu ficaria muito triste ao vê-la ser maltratada pelos gendarmes, ainda que isso animasse uma noite extremamente maçante. – Sua imaginação é dramática. Se acontecer, o que não acredito, de eles não me deixarem entrar, apenas me mandarão embora. Não vão querer fazer um escândalo com uma multidão do lado de fora. Afinal, pode ser que a multidão me apoie. – É um risco tolo. Tudo isso por causa de sua lojinha. – Tolo? – repetiu ela, em voz baixa. – Minha lojinha. Ela olhou para cima, para os semideuses e sátiros brincando maliciosamente no teto. Quando seu olhar retornou para o rosto de Clevedon, ele era frio e firme, contradizendo o ritmo de sua respiração. Ela estava com raiva, mas controlou-a com magnificência. Ele se perguntou como seria aquela raiva, caso ela a soltasse. – Aquela lojinha é o meu meio de vida. E não só meu. O senhor não faz a mínima ideia de como foi difícil conseguir colocar o pé em Londres. Não tem noção do que é preciso para competir com as lojas já estabelecidas. Não pode imaginar o que precisamos enfrentar: não apenas as outras modistas, mas o conservadorismo da sua classe. As avós francesas se vestem com mais elegância do que as suas compatriotas. É como uma guerra algumas vezes e, sim, eu só penso nisso e farei o que for necessário para elevar a reputação de minha loja. Se eu for jogada no meio da rua ou na cadeia, só vou pensar em tirar vantagem de toda a divulgação. – Por roupas? – Ele se indignou. – A senhora não acha absurdo chegar a esse ponto quando as mulheres inglesas, como a senhora mesma disse, não ligam para estilo? Por que não dar a elas o que desejam? – Porque eu posso deixá-las mais belas do que desejam. Posso deixá-las inesquecíveis. Será que o senhor se deixou levar para tão longe das preocupações cotidianas da vida que não consegue nem entender? Não há nada neste mundo que seja realmente importante em sua vida, importante o suficiente para que deseje conquistá-lo, apesar dos obstáculos? Mas… que pergunta tola. Se o senhor tivesse um propósito na vida, estaria se entregando a ele, em vez de desperdiçar seus dias em Paris. Ele devia ter percebido que ela iria retrucar, mas estava tão envolvido na paixão dela que se deixou pegar desprevenido. Uma imagem do mundo que ele havia deixado de lado lhe veio à mente: um mundo pequeno, chato, com seus dias e noites vazios, e as diversões inúteis com as quais tentou preenchê-lo. Lembrou-se de lorde Warford lhe dizendo: “Você parece determinado a desperdiçar a sua vida.” Ele sentiu vergonha e raiva, pois ela o havia atingido. Reagindo de maneira instintiva, disse: – De fato, tudo isso é um esporte para mim. Tanto que vou propor uma aposta. Mais uma rodada de cartas, madame. Vinte e um. Se eu perder, eu mesmo a levarei ao baile da comtesse de Chirac. Os olhos dela brilharam – de raiva ou orgulho, ou, talvez, de simples desagrado. Ele não saberia


dizer e, naquele momento, não importava. – Uma aposta impetuosa após a outra. Eu me pergunto o que o senhor pensa que irá provar. Mas o senhor não pensa, certo? É claro que não parou para perguntar a si mesmo o que seus amigos iriam pensar. Ele mal ouviu o que ela disse. Estava bebendo naqueles sinais de emoção – a cor indo e voltando no rosto dela, o brilho de seus olhos, o subir e descer dos seios. Ao mesmo tempo, estava completamente consciente do lugar onde ela o havia ferido com sua pequenina e afiada agulha. – Nada a provar. Quero apenas que a senhora perca. E, quando perder, a senhora admitirá sua derrota com um beijo. – Um beijo! – Ela riu. – Um mero beijo de uma lojista. Uma aposta insignificante, de fato, comparada à sua nobreza. – Um beijo de verdade não seria mero, madame, nem insignificante. A senhora não poderá me pagar com um beijinho no rosto. Terá que pagar com o tipo de beijo que daria em um homem a quem se rendeu. – Caso ele não conseguisse fazê-la se render com um beijo, seria melhor voltar para Londres na mesma noite. – Considerando-se a sua preciosa respeitabilidade, sei que essa é uma aposta alta. Um lampejo faiscou nos olhos dela, antes de seu rosto se transformar em uma bela máscara, fria e impenetrável. Mas ele conseguiu ter uma rápida visão da turbulência interna e, agora, não poderia dar para trás, nem que sua vida dependesse disso. – Isso não é nada para mim. Não tem prestado atenção, Vossa Graça? O senhor não tem nenhuma chance de me vencer. – Então a senhora terá uma entrada fácil no baile mais exclusivo e maçante de Paris. Ela balançou a cabeça, demonstrando compaixão. – Muito bem. Não diga que não avisei. Ela voltou ao seu lugar e sentou-se. Ele se sentou na cadeira oposta. – Qualquer jogo que preferir. Do jeito que preferir. Não importa. Vou ganhar e será muito divertido. Ela empurrou o baralho na direção de Clevedon. – Dê as cartas – disse ela.

Na época da Revolução Francesa, o aristocrático avô de Marcelline não fora decapitado apenas porque não perdera a cabeça. Gerações de Noirots, o nome que ele assumira após fugir da França, haviam herdado o mesmo autocontrole frio, além da implacável praticidade. De fato, as paixões de Marcelline eram sombrias e profundas, como era típico de sua família, de ambos os lados. Como eles, ela era muito boa em esconder os sentimentos. Fora obrigada a ensinar essa habilidade às irmãs. Mas, ao que tudo indicava, ela já nascera pronta.


No entanto, a maneira casualmente depreciativa com a qual Clevedon se referira à loja e a sua profissão fez ferver o sangue de Marcelline Noirot. Em suas veias, também corria sangue nobre – não importava que o dela fosse o sangue azul mais corrupto de toda a Europa. Mas Noirot era um nome comum, tão comum quanto a poeira, motivo pelo qual o avô o escolhera. Agora, a maior parte da família já se fora, levando com ela a infâmia. Conhecida ou não, sua família era tão antiga quanto a de Clevedon – e ela duvidava de que os ancestrais dele tivessem sido santos. A única diferença no momento era que ele era rico e não precisava trabalhar, ao passo que ela precisava se esforçar por cada moeda, por mais ínfima que fosse. Ela sabia que era absurdo permitir que ele a provocasse. Sabia que suas clientes a consideravam inferior. Todas se comportavam como lady Renfrew e a Sra. Sharp no dia da prova, falando como se elas fossem invisíveis. Para as classes mais altas, as lojistas não passavam de outra variedade de serviçais. Marcelline sempre achara essa postura útil e, algumas vezes, divertida. Mas ele… A questão agora era se deveria deixá-lo perder ou ganhar. Seu orgulho não poderia deixá-lo ganhar. Ela queria triturá-lo, junto com sua vaidade e sua superioridade. Mas, se ele perdesse, haveria um sério inconveniente. Seria quase impossível entrar em um baile de braços dados com o duque de Clevedon sem causar um incêndio em forma de mexerico – exatamente o que ela não queria fazer. Por outro lado, ela não podia deixá-lo ganhar. – Jogaremos baralho – propôs ele –, mas com uma diferença: só mostramos nossas cartas no final. Então, quem tiver vencido mais rodadas ganha o jogo. O fato de não poder ver as cartas enquanto jogavam dificultaria o cálculo de probabilidades. Mas ela conseguia ler as expressões dele, ao passo que ele não conseguia ler as dela. Além disso, o jogo proposto poderia ser jogado depressa. Em pouco tempo, ela seria capaz de dizer se ele estava jogando com imprudência. Primeira rodada. Duas cartas para cada um. Ele lhe deu um ás de ouros e valete de copas, e não pediu mais cartas, algo que jamais fazia quando elas totalizavam menos que dezessete. Na mão seguinte, ela recebeu um ás de copas, um quatro e um três. Na seguinte, ficou com dezessete, com paus. Em seguida, ás de espadas e rei de copas. E, na rodada seguinte, rainha de copas e nove de ouros. E assim foi. Na maior parte das vezes, ele pediu três cartas e ela, duas. Mas Clevedon estava bastante concentrado, como não estivera antes. Marcelline não conseguia detectar o leve tremor nos olhos verdes dele, que revelavam se ele tinha gostado ou não das cartas recebidas. Ela percebia as batidas do próprio coração, que se aceleravam a cada mão, embora suas cartas fossem boas na maioria das vezes. Deu 21 uma, duas, três vezes. Grande parte das mãos era boa. Mas ele jogava com calma, concentrado, e ela não podia ter certeza se a sorte dele era pior. Dez mãos depois, o jogo acabou. Então, viraram as cartas, fazendo-o de maneira elegante, enquanto sorriam com frieza um para o outro, ambos demonstrando confiança. Uma olhada nas cartas abertas na mesa revelou a Marcelline que ela só não o vencera quatro


vezes, sendo que, em uma delas, ficaram empatados. Não que precisasse ver as cartas abertas para saber quem vencera. Só precisava sentir o silêncio dele e o olhar vazio que ele lançava à mesa. Clevedon parecia totalmente perplexo. Poucos segundos depois, ele já se mostrava de novo o homem mais entediado do mundo. Mas ela enxergou o menino que ele um dia fora naquele olhar e, por um instante, arrependeu-se de tudo: de que tivessem se conhecido daquela maneira, de que vivessem em mundos diferentes, de que não o tivesse conhecido antes que ele perdesse a inocência… Seus olhares se encontraram e, naqueles olhos verdes, ela percebeu a tomada de consciência do problema que ele criara para si mesmo. Mais uma vez, ele se recuperou em um instante. Se estava perdido, não havia mais nenhum sinal. Como ela, Clevedon estava acostumado a disfarçar os sentimentos. Marcelline também deveria tê-los disfarçado. Ele devia estar reconsiderando. Ela já esperava por isso. A consternação dele, por menos evidente que estivesse, continuava a machucá-lo, muito mais do que deveria. – O senhor foi precipitado, Vossa Graça – provocou ela. – De novo. Outra aposta tola. Mas, dessa vez, há muito mais em jogo. Seu orgulho, a parte mais sensível de um cavalheiro. Ele deu de ombros e juntou as cartas, mas ela sabia o que aquele gesto mascarava. Os amigos de Clevedon o viram na ópera, no camarote de uma atriz mais velha, procurando ser apresentado à amiga dela. Émilien sabia que ela era uma modista de Londres e, até a noite do dia seguinte, pelo menos metade de Paris saberia que era uma joão-ninguém: não era nenhuma excitante atriz estrangeira ou cortesã e, por certo, não uma dama de nenhuma nacionalidade. O que seus amigos pensariam quando o vissem adentrar uma festa à qual ele não costumava comparecer trazendo uma lojista? – Como vocês, aristocratas, são hipócritas. Está tudo bem correr atrás de mulheres que estão abaixo de seu nível, apenas para colocá-las debaixo de seus corpos… mas tentar levá-las para perto dos amigos? Impensável. Eles vão achar que o senhor perdeu o juízo. Acreditarão que permitiu que eu o fizesse de tolo. Escravizado, eles dirão. O grande duque inglês foi escravizado por uma ostentosa burguesinha. Ele deu de ombros. – Pensarão? Bem, então ver os queixos deles caírem será um grande divertimento. A senhora vai usar vermelho? Ela se levantou e ele fez o mesmo. Um perfeito cavalheiro, em qualquer situação. – O senhor demonstra coragem. Não posso deixar de reconhecer isso. Mas sei que está refletindo melhor. E como sou uma mulher generosa e porque tudo o que desejo é vestir a sua mulher, vou liberá-lo de uma aposta que jamais deveria ter sido feita. Faço isso porque o senhor é homem e sei que há momentos em que os homens usam um órgão diferente do cérebro para pensar. Ela pegou sua bolsa, ajeitou o xale e logo se lembrou do roçar dos dedos dele em sua pele. Reprimindo essa lembrança, ela foi até a saída. – Adieu – disse ela. – Espero que algumas horas de sono lhe tragam de volta o bom senso e que possamos ser amigos. Nesse caso, estarei ansiosa para vê-lo na sexta-feira. Quem sabe nos


encontremos no Quai Voltaire. Ele a seguiu até aporta. – A senhora é a mulher mais execrável que já conheci. Não estou acostumado a receber ordens de mulheres. – Nós, da burguesia, somos assim. Sem finesse ou tato. Tão controladores. Ela continuou a andar pelo corredor deserto. Ouviu murmúrios vindos de um dos cômodos. Algumas pessoas ainda jogavam. De outras direções, ouviu roncos. Entretanto, o barulho que ela constatava com mais emoção era o dos passos dele, primeiro atrás, depois ao lado dela. – Feri seus sentimentos – reconheceu ele. – Sou uma modista. Minhas clientes são mulheres. Se quiser ferir meus sentimentos, precisará de um esforço tão grande que acabará por deixá-lo mental e fisicamente debilitado. – Eu feri alguma coisa. A senhora estava determinada a vestir a minha duquesa e nada parecia ser capaz de impedi-la, mas parou. Está preparada para desistir. – O senhor está me subestimando. Eu nunca desisto. – Então, por que está me mandando para o inferno? – Não fiz isso. Eu perdoei a sua aposta, o que é uma prerrogativa do vencedor. Se estivesse pensando com clareza, o senhor jamais a teria feito. E se eu não tivesse permitido que o senhor me provocasse, jamais teria concordado. É isso. Ambos erramos. Agora, vá procurar seus amigos e dê um jeito para que sejam carregados para casa. Tenho um longo dia pela frente e, ao contrário do senhor, não posso passar a maior parte dele me recuperando desta noite. – A senhora está com medo – disse ele. Ela parou na mesma hora e olhou bem nos olhos dele. Clevedon sorria, a boca sensual fazendo uma curva de autossatisfação. – Estou o quê? – perguntou ela, em voz baixa. – Está com medo. É a senhora quem está com medo do que as pessoas vão dizer… da senhora… e como elas irão se comportar… em relação à senhora. Percebo que está pronta para entrar escondida, como uma ladra, esperando que ninguém a note, mas que tem medo de entrar comigo, com todos os olhares voltados para a senhora. – Aflige-me destruir suas ilusões, Vossa Graça – contra-atacou ela –, mas o que o senhor e seus amigos pensam e dizem não tem a mesma importância para as outras pessoas quanto para o senhor. Espero que ninguém me note pelo mesmo motivo que um espião prefere não ser notado. E me parece que o senhor não percebe que a sensação de ir a um lugar onde não se é desejado, ou convidado, e safar-se, fará com que a festa seja muito mais divertida para mim do que para qualquer outra pessoa. Ela seguiu em frente, a respiração acelerada, os sentimentos à beira da explosão. Seu autocontrole era admirável, até mesmo para o seu tipo de pessoa, mas ela permitira que ele a provocasse. Tudo o que Marcelline queria era vestir a futura esposa do duque, mas, de alguma maneira, ela fora arrastada para o jogo errado. Agora, imaginava se havia atrapalhado tudo, se ele a arrastara para a lama com seus sorrisos lindos e falsamente inocentes e os dedos roçando sua pele. A voz dele veio de trás. – Covarde – disparou Clevedon.


A palavra pareceu ecoar no corredor vazio. Covarde. Ela, que com apenas 21 anos fora a Londres com um punhado de moedas na bolsa e sufocantes responsabilidades sobre os ombros: uma criança doente e duas irmãs mais novas – e apostara tudo em um sonho e na coragem de correr atrás dele. Marcelline parou, virou-se e caminhou com raiva de volta até ele. – Covarde – repetiu ele, em voz baixa. Ela deixou cair a bolsinha, agarrou o lenço do pescoço dele e puxou. Ele abaixou a cabeça. Ela levantou a mão, pegou o rosto dele, puxou a boca de Clevedon de encontro à sua e o beijou.


Capítulo quatro A Sra. Clark, como é de costume, está constantemente recebendo modelos de algumas das costureiras mais importantes de Paris, o que lhe permite produzir os vestidos na última moda para cada mês, tendo certeza de que sua peculiaridade nos negócios terá a aprovação indubitável das damas que a honrarem com a sua preferência. Revistas La Belle Assemblée e Bell’s Court and Fashionable Magazine, anúncios de junho de 1807.

Não foi um beijo de rendição, mas do tipo tapa na cara. A boca de Marcelline tocou a dele e se abriu corajosamente. A colisão fez o corpo dele vacilar. Era como se tivessem sido amantes muitos anos antes e agora se odiassem, e as duas paixões se fundiram em uma só: poderiam lutar ou se amar, pois seria a mesma coisa. Ela segurou com força a mandíbula de Clevedon. Se tivesse enfiado os dedos no rosto dele, teria sido uma consequência quase natural: era esse o tipo de beijo. Em vez disso, ela o feriu com sua boca suave, a pressão dos lábios, o movimento da língua, como se fosse um duelo. Acima de tudo, ela o machucou com o sabor de sua presença. Um sabor como conhaque, rico, profundo e secreto. Um sabor de fruto proibido. Em resumo, Marcelline tinha um sabor de encrenca. Por um instante, ele reagiu levado pelo instinto, devolvendo a investida com o mesmo ímpeto, apesar de sentir o corpo ficar tenso e os joelhos cederem. Mas ela era incrivelmente abrasadora e curvilínea e, enquanto o corpo dele se dissolvia, sua consciência ficava mais aguçada: o gosto da boca feminina, o cheiro da pele, o peso dos seios sobre o casaco e o som do vestido roçando em suas calças. O coração de Clevedon bateu depressa, com muita força; um calor subiu, inundou suas veias e desceu com rapidez. Ele passou os braços ao redor dela e espalmou as mãos sobre suas costas, sobre a seda, a renda ao redor do decote, e a pele aveludada logo acima. Escorregou a mão, descendo a linha das costas, passando pela curva da cintura e para a parte inferior. Camadas de roupa frustravam suas intenções, mas ele a puxou de encontro à própria virilha e ela fez um barulho gutural que tinha um som de prazer. As mãos dela soltaram o rosto dele e escorregaram para baixo, passando pelo lenço do pescoço, o colete e ainda mais abaixo. Clevedon prendeu a respiração e seu corpo ficou tenso de expectativa. Ela o empurrou com toda sua força. Mesmo assim, era um empurrão que não seria capaz de movê-lo normalmente; mas a força e a brusquidão o assustaram e ele a soltou. Ela o afastou e saiu de seus braços, enquanto ele perdia o


equilíbrio e batia contra a parede. Ela deu uma gargalhada rápida, inclinou-se e recolheu a bolsa jogada no chão. Afastou do rosto um cacho de cabelos e, com graça e tranquilidade, ajeitou o xale sobre os ombros. – Isso vai ser muito divertido – disse ela. – Mal posso esperar. Isso mesmo, agora que pensei bem, não há nada que me deixaria mais alegre do que entrar a seu lado no baile da comtesse de Chirac. O senhor pode ir me buscar no hotel Fontaine às nove horas em ponto. Adieu. Marcelline foi embora, caminhando descontraída pelo corredor que levava até a porta de saída. Ele não a seguiu. Aquela fora uma saída irretocável e ele não queria estragá-la. Pelo menos, foi o que disse a si mesmo. Entretanto, ficou parado algum tempo, colocando os pensamentos em ordem e recuperando o equilíbrio, tentando ignorar o tremor que tomou seu corpo, como se tivesse corrido até a beira de um precipício e parado a poucos centímetros de um salto no abismo. Mas, é claro, não havia nenhum abismo. Que situação absurda. Ela era apenas uma mulher tempestuosa e ele estava ligeiramente… confuso… porque havia muito tempo não encontrava uma desse tipo. Ele caminhou na direção oposta, para encontrar os amigos – ou melhor, seus corpos caídos. Enquanto acordava formas de transportá-los até seus respectivos alojamentos e domicílios, Clevedon tinha consciência, em algum canto da mente, de uma vozinha ridícula que dizia que ele não tinha nada mais importante a fazer naquele instante do que coletar e distribuir um grupo de aristocratas que beberam até perder os sentidos. Mais tarde, quando estava sozinho no hotel tentando escrever uma carta para Clara, descobriu que não conseguia. Mal podia se lembrar da ópera. Parecia que já se passara toda uma vida desde o dia em que se sentara no teatro, na expectativa do próximo encontro com madame Noirot. Suas anotações sobre a apresentação da ópera dançavam diante de seus olhos, sem nenhum nexo. Seu pensamento estava focado apenas no baile de madame de Chirac, que aconteceria em poucas horas, na tola barganha que havia feito e no enigma impossível que insistia em resolver: como levar a maldita costureira à festa sem sacrificar a própria dignidade, vaidade ou reputação?

Quando Marcelline voltou ao hotel, encontrou Selina Jeffreys adormecida em uma poltrona, perto da lareira. Embora a delgada loura fosse a costureira mais jovem, trazida havia pouco tempo de um estabelecimento de caridade para “mulheres desafortunadas”, ela era a mais sensível do grupo. Esse foi o motivo que levara Marcelline a escolhê-la para bancar a dama de companhia na viagem. Uma mulher viajando com uma acompanhante era tratada com mais respeito do que uma viajante desacompanhada. Frances Pritchett, a mais velha das costureiras, ainda devia estar de cara amarrada por ter sido deixada para trás. Mas ela fora a acompanhante da última vez e não pareceu gostar de brincar de


dama de companhia. Ela não teria ficado sentada, como Selina, esperando pelo retorno da patroa, a não ser que fosse para reclamar dos franceses em geral e dos funcionários do hotel, em particular. Selina acordou com um sobressalto quando Marcelline tocou de leve em seu ombro. – Sua menina tola – disse Marcelline. – Eu disse para você não ficar esperando acordada. – Mas quem iria ajudá-la a tirar o vestido, madame? – Eu poderia dormir vestida. Não seria a primeira vez. – Oh, não, madame! Um vestido tão lindo! – Não tão lindo agora – assinalou ela. – Não está apenas amassado, mas cheira a charuto, além dos perfumes e colônias de outras pessoas. – Vamos tirá-lo, então. A senhora deve estar exausta. O passeio… e a noite inteira fora. Ela a havia acompanhado durante o passeio em Longchamp e desaparecera sem deixar traços tão logo Marcelline dera um sinal. Diferentemente de Frances, Seline nunca se importava em ficar “invisível”. Ela estava feliz só de poder ver tantas pessoas ricas usando roupas finas, desfilando montadas em seus vistosos cavalos ou em suas elegantes carruagens. – Temos que ir aonde os aristocratas vão – explicara Marcelline. – Não sei como eles não se cansam. – Eles não são obrigados a trabalhar todos os dias, às nove da manhã. A jovem achou graça. – Isso é bem verdade. Ela era rápida e eficiente. Num instante, já havia tirado Marcelline do vestido vermelho. Em pouco tempo, a água quente já estava preparada. Um banho completo teria que esperar até mais tarde, depois de algumas horas de sono. Enquanto isso, Marcelline precisava livrar-se do cheiro das casas de jogos. Isso foi bem fácil. Já o gosto e o cheiro de certo cavalheiro não seriam erradicados com tanta facilidade. Ela poderia lavar o rosto e escovar os dentes, mas seu corpo e mente se lembrariam: a surpresa de Clevedon, o coração dele acelerado, a reação imprudente de sua boca e língua e a necessidade pulsante que ele havia despertado nela com o simples movimento da mão descendo-lhe pelas costas. Aquele beijo não fora a jogada mais inteligente, mas qual seria a alternativa? Dar-lhe um tapa? Clichê. Dar-lhe um soco? Naquele corpo musculoso? Naquele queixo obstinado? Ela apenas machucaria a própria mão e o faria gargalhar. Duvidava de que ele estivesse rindo agora. Devia estar pensando, e muito. Mais do que jamais pensara em toda a vida. Marcelline tinha certeza de que ele não desistiria do desafio. Era orgulhoso e estava determinado demais a obter o controle – dela, sem dúvida, talvez do mundo. Seria divertido ver como Clevedon faria para entrar na festa da condessa. Se tudo terminasse em humilhação para ele, talvez aprendesse com a experiência. Por outro lado, ele acabaria odiando Marcelline e proibiria sua mulher de chegar perto da Maison Noirot. Os instintos de Marcelline lhe diziam o contrário. Quaisquer que fossem os defeitos dele – e não eram poucos –, aquele não era um homem mesquinho, do tipo que guarda rancor. – Vá dormir – disse a Selina. – Temos muito trabalho pela frente, nos preparando para a festa.


Tudo precisa estar perfeito. E tudo ficaria perfeito. Ela não pouparia esforços, de um jeito ou de outro. Esperando por ela estava uma oportunidade única na vida: roubar a futura duquesa de Clevedon da Trapos. Clevedon havia complicado algo que era para ser um negócio simples. Sozinha, entrar na festa teria exigido apenas uma boa camuflagem, manobras evasivas e, é claro, autoconfiança. Mas tudo bem. A vida sempre encontrava um jeito de atrapalhar seus cuidadosos planos, várias e várias vezes. A roleta era mais previsível que a vida. Não era de admirar que Marcelline fosse tão boa nesse jogo. A vida não era uma roda que girava sem parar. Nunca voltava ao mesmo ponto. Não se limitava a um simples vermelho e preto e um leque de números. A vida ria da lógica. Sob o manto de ordem imposta pelo homem, a vida era uma total anarquia. Mesmo assim, toda vez que ela atrapalhava seus planos, Marcelline fazia outros e recuperava alguma coisa. Algumas vezes, até triunfava. Sua grande caraterística era a resiliência. Independentemente do que acontecesse naquela noite, ela tiraria o maior proveito possível.

Naquela noite… Teria sido um bom castigo para aquela costureira insolente se Clevedon a deixasse esperando. Ele não estava acostumado a receber ordens de ninguém, muito menos de uma mera lojista. “Nove horas em ponto”, dissera ela, como se ele fosse seu lacaio. Mas aquela era uma reação infantil e ele não gostaria que ela acrescentasse infantilidade à lista de distorções do caráter dele que ela parecia colecionar. Por certo, aquela mulher atribuiria qualquer atraso à covardia. Ela até já o havia chamado de covarde quando ofereceu liberá-lo da aposta. Clevedon chegou exatamente às nove horas. Quando a porta da carruagem se abriu, ele a viu do lado de fora, sentada a uma das mesas sob o pórtico. Um cavalheiro, cuja maneira de se portar e vestir revelavam ser inglês, estava inclinado na direção dela, conversando. Clevedon planejara tudo com muito cuidado: o que vestir no baile, o que dizer à anfitriã e a expressão do rosto quando o fizesse. Ele havia testado e descartado meia dúzia de coletes e deixara para Saunders, o valete, uma pilha de lenços de pescoço amassados para guardar. Havia montado e rejeitado dezenas de discursos inteligentes. Em resumo, estava profundamente tenso. Ela, por sua vez, não poderia parecer mais à vontade, descansando sob o pórtico, flertando com qualquer sujeito que aparecesse por ali. Parecia não ter mais nada com que se preocupar, além de uma conversa ociosa com outro potencial pagador de vestidos. E por que ela deveria estar preocupada? Não seriam os amigos dela a sussurrar pelas suas costas e a balançar as cabeças, compadecidos. Ele já podia imaginar o que os amigos diriam: a flecha do Cupido finalmente acertou o duque de


Clevedon – e ela não é a mulher mais bela de Paris, a mais irresistível cortesã ou a dama mais elegante e cobiçada. Não, a tal mulher que escravizara o coração de Sua Graça não passava de uma simples lojista inglesa. Em voz baixa, ele amaldiçoou os amigos e a própria estupidez, desceu da carruagem e encaminhou-se à mesa de Marcelline. Ao aproximar-se, o olhar da moça atraiu sua atenção. Ela disse algo ao sujeito, que não parava de falar. Ele aquiesceu com a cabeça e, sem prestar atenção em Clevedon, fez uma reverência e entrou no hotel. Quando Clevedon chegou à mesa, ela o encarou. Para sua grande surpresa, Marcelline sorriu; um adocicado e afetuoso movimento dos lábios que quase o deixou de quatro. – O senhor é pontual. – Nunca deixo uma dama esperando. – Mas eu não sou uma dama. – Ah, não é? Bem, então a senhora é um enigma. Está pronta? Ou prefere tomar alguma coisa para enfrentar toda essa provação? – Estou tão forte quanto preciso estar – garantiu ela. Em seguida, levantou-se e fez um gesto com a mão, chamando a atenção para seu traje. Clevedon imaginou que as mulheres teriam um nome para aquilo. Para ele, era um vestido. Sabia que as mangas teriam um nome especial – à la Taglioni ou à la Clotilde, ou qualquer apelido igualmente sem sentido, a não ser para as mulheres. Os vestidos eram sempre os mesmos para ele: cheios nas mangas, mais cheios ainda nas saias e apertados no meio. O dela era feito de seda, em uma cor estranha, parecida com areia, que ele acharia desinteressante se visse em uma loja. Mas tinha um acabamento de grandes laços vermelhos, que mais pareciam flores nascidas em pleno deserto. E havia a renda preta, metros e metros dela, descendo como uma cachoeira sobre seus delicados ombros e também na frente, sob uma faixa, cobrindo-lhe a barriga. Ele fez um gesto para que ela rodasse. Marcelline obedeceu e fez uma volta completa. Movia-se com a suavidade e a leveza da água e a renda sobre os ombros flutuou no ar com o movimento. Quando terminou, porém, ela não parou, mas caminhou em direção à carruagem. Ele a acompanhou. – Que cor esquisita é essa? – indagou ele. – Poussière – respondeu ela. – Poeira – traduziu ele. – Eu a parabenizo, madame. A senhora trouxe sedução à poeira. – Não é uma cor fácil de usar – explicou ela. – Principalmente para pessoas com a minha cor de pele. A verdadeira poussière me faria parecer estar sofrendo de algum mal do fígado. Mas esta seda tem um meio-tom cor-de-rosa, como o senhor pode observar. – Eu não enxergo essas coisas. – Enxerga, sim. O que lhe falta é o vocabulário. O senhor disse que é sedutora. Esse é o meiotom, que cai bem com minha cor de pele, e a maravilhosa renda blonde, perto do meu rosto, é ainda mais lisonjeira, além de acrescentar um tom dramático. – A renda é preta – replicou ele. – Noir, não blonde.


– Renda blonde é uma renda de seda de qualidade superior. Blonde não se refere à cor. A conversa terminou quando chegaram à carruagem. Ele havia se preparado para uma continuação da batalha da noite anterior, mas Marcelline se comportava como se fossem amigos, o que o desarmou e o aborreceu ao mesmo tempo. Além disso, ele estava tão confuso com a informação de que blonde poderia não se referir à cor que quase se esqueceu de olhar para os tornozelos dela. Mas o instinto o salvou e ele logo recuperou o bom senso. Quando ela subiu os degraus e se sentou, ele pôde ver alguns bons centímetros da parte mais baixa de uma perna elegante e curvilínea, embora coberta por uma meia. A noite anterior voltou em uma obscura onda de lembranças, mais em termos de sensações do que de pensamento. Ele se imaginou inclinando o corpo, segurando a canela da moça, trazendo o pé dela para seu colo, enfiando a mão enluvada perna acima, acima e acima… Mais tarde, prometeu a si mesmo. E subiu na carruagem.

– Gostaria que me fizesse a gentileza de me permitir lhe apresentar madame Noirot, uma amiga, que é modista em Londres – disse o duque de Clevedon à anfitriã. Por algum tempo, o barulho ao redor deles prosseguiu. Mas, no instante em que a comtesse de Chirac percebeu que não havia entendido errado e que o duque, em seu não muito perfeito francês, realmente dissera as palavras modista de Londres em sua presença, referindo-se à pessoa que não fora convidada e que estava ao seu lado, a notícia atravessou o salão de baile, fazendo com que um silêncio se espalhasse como ondas crescentes, vindas do lugar onde uma imensa pedra acabara de cair em um lago. A postura de madame de Chirac tornou-se ainda mais tensa – como se isso fosse anatomicamente possível – e seu gélido olhar acinzentado tornou-se duro como aço. – Não entendo muito bem o humor inglês – disse ela. – Isso é uma brincadeira? – De maneira alguma – respondeu Clevedon. – Eu vos trago uma curiosidade, da mesma forma que, uma vez, os sábios trouxeram notáveis objetos de suas viagens ao Egito. Conheci esta exótica criatura há duas noites, na ópera, e ela foi o assunto de ontem, no passeio. Peço que me perdoe e, no interesse das pesquisas científicas, releve essa tão grande imposição à vossa bondade. Veja bem, madame, eu me sinto como um naturalista que descobriu uma nova espécie de orquídea e a tirou dos locais ocultos de seu hábitat nativo, trazendo-a para o mundo, para que outros naturalistas a observem. Ele olhou para Noirot, cujos olhos furiosos demonstravam que ela não estava achando a menor graça. As cores do vestido areia e preto a faziam parecer uma tigresa e as explosões de vermelho poderiam ser o sangue de sua vítima. – Talvez, pensando bem, uma flor não seja a melhor analogia – acrescentou ele. – E,


considerando-se todos os aspectos, talvez fosse melhor se eu a tivesse amarrado a uma coleira. A tigresa lhe lançou um sorriso torto, que prometia problemas para breve. Em seguida, curvou a cabeça para a condessa e fez uma reverência tão graciosa e bela – a renda flutuando suavemente no ar, os laços de borboleta batendo as asas, o tecido tremeluzindo – que o deixou sem fôlego. Ao seu redor, Clevedon ouviu as pessoas arquejarem. Eram franceses e não podiam fazer outra coisa senão perceber: ali estavam graça, beleza e estilo combinados em uma obra-prima tempestuosa e inesquecível. A condessa também ouviu a reação dos espectadores. Ela avaliou Marcelline. Todos no salão estavam voltados para a cena, prendendo a respiração. Aquele espetáculo seria comentado por dias e dias, cada palavra que ela dissesse seria repetida, cada gesto, dissecado. Seria o assunto mais interessante que já acontecera em seu baile anual. Ela sabia disso tão bem quanto Clevedon. A questão era se ela quebraria a tradição e permitiria tamanho frenesi. A condessa fez uma pausa, com o ar de um juiz prestes a dar uma sentença. O salão estava em silêncio, quase paralisado. – Jolie – disse ela, exatamente como se Clevedon realmente tivesse trazido uma orquídea. Meneando a cabeça, em um gesto de condescendência, e fazendo um quase imperceptível movimento com a mão, ela deu à modista permissão para se levantar, o que Marcelline fez com a graça de uma bailarina, gerando outro suspiro coletivo. E foi só isso. Uma palavra e o salão voltou a respirar. Clevedon e sua “descoberta” tiveram permissão para seguir em frente e entrar na pequena fila da recepção e dali para a festa propriamente dita.

– Uma modista? De Londres? Mas é impossível. A senhora não pode ser inglesa. Os homens tentaram cercá-la, mas as mulheres os empurraram com os cotovelos para o lado e, agora, a interrogavam. O vestido de Marcelline havia despertado curiosidade e inveja. As cores não eram comuns. Eram cores de moda. O estilo não era muito diferente da última moda desfilada em Longchamp. Mas a maneira como ela combinara estilo e cor e os pequeninos toques acrescentados – tudo isso era claramente próprio daquela jovem. Sendo francesas, as damas observaram os detalhes e ficaram intrigadas, querendo se aproximar dela, embora a mulher fosse uma anomalia social: não um ser humano, mas um animal de estimação exótico. O animal de estimação exótico de Clevedon. Ela ainda estava fervendo de raiva pelo acontecido, embora uma parte dela não pudesse deixar de admirar a esperteza dele. Era o tipo de disparate desavergonhado que os membros da família dela costumavam empregar quando se viam em situações difíceis. Lidaria com Sua Arrogância mais tarde.


– Sou inglesa e modista – disse Marcelline. Ela abriu a bolsinha de festa, de onde tirou um estojo de prata. Desse estojo, retirou seus cartões de visita: simples e elegantes, como os de um cavalheiro. – Vim a Paris em busca de inspiração. – Mas sua loja deveria ser aqui! – disse uma das damas. Marcelline lançou um olhar que passeou lentamente pelas roupas delas. – As senhoras não precisam de mim. As damas inglesas precisam. – Ela fez uma pausa e acrescentou, num sussurro: – Desesperadamente. As mulheres sorriram e se afastaram, todas satisfeitas, algumas delas, encantadas. Então os homens se aproximaram, como um enxame de abelhas.

– Isso é um mistério – disse Aronduille. – Todas as mulheres são mistérios – reconheceu Clevedon. Eles estavam na beirada da pista de dança, observando o marquis d’Émilien dançar uma valsa com madame Noirot. – Não, eu não estava me referindo a isso – explicou Aronduille. – Quando é que uma modista encontra tempo para aprender a dançar de maneira tão bela? Como é que uma lojista inglesa aprende a falar um francês igual ao da condessa? E que tal a reverência que ela fez para nossa anfitriã? – Ele olhou para cima e beijou as pontas dos dedos. – Jamais me esquecerei dessa visão. “Eu não sou uma dama”, dissera ela. – Admito que ela é mesmo um enigma – concordou Clevedon. – É o que a torna tão… interessante. – As mulheres foram falar com ela – comentou Aronduille. – Você viu? – Vi. Clevedon não poderia imaginar que as damas se aproximassem de Marcelline. Os homens, sim, é claro. Mas as mulheres? Uma coisa era a anfitriã aceitar a presença dela no baile, fazer vista grossa para a falta de modos ou a excentricidade de seus convidados da alta sociedade. Outra coisa era o fato de as convidadas se aproximarem do “animal de estimação” de Clevedon e conversar com ele. Se madame Noirot fosse uma atriz, cortesã ou qualquer outra modista, elas a teriam esnobado. Em vez disso, as mulheres afastaram os homens para chegar até ela. O encontro fora breve, mas, quando se afastaram, todas pareciam satisfeitas consigo mesmas. – Ela é uma costureira – disse ele. – Essa é a função dela: deixar as mulheres satisfeitas. Mas a reverência ele não conseguia explicar, nem a maneira como conversava, andava e dançava. Quantas vezes Émilien dançara com ela? Isso não era nada para Clevedon. Ele jamais faria algo tão pouco sofisticado quanto dançar com ela a noite inteira. Mas, levando-se em consideração que fora ele a se arriscar a ser humilhado por causa dela, por certo teria direito a uma dança.


Embora Marcelline parecesse prestar atenção na festa, ela sempre sabia onde Clevedon estava. Isso era muito fácil, já que ele era uma cabeça mais alto do que a maioria dos homens presentes e aquela cabeça era bastante diferente: o perfil que faria chorar os melhores escultores da Grécia Antiga, a cabeleira negra brilhante, com cachos despenteados, como os de um menino. E havia os ombros. Ninguém tinha ombros como aqueles. Na verdade, ninguém tinha um corpo como aquele. Muito provavelmente, ele teria jogado qualquer coisa que quisesse na cara da anfitriã e ela aceitaria o que ele dissesse, apenas por sua beleza. Talvez até as mais lascivas. A condessa era velha e fria, mas não estava morta. Ele dançou por algum tempo e, de vez em quando, os passos da dança os levaram a ficar a centímetros de distância um do outro. Mas ele sempre se mostrava tão atencioso com sua parceira quanto Marcelline se mostrava atenciosa com o seu. Quem os visse, acreditaria que ele não se importava nem um pouco com as atitudes dela. Conseguira trazê-la à festa e qualquer coisa além disso ficaria por conta de madame Noirot. Mas seria preciso ser muito tola ou ingênua para acreditar numa coisa dessas e Marcelline não era nenhuma das duas coisas. Ela sabia que ele a observava, embora tentasse não demonstrar. Naquela última hora, porém, havia se esquecido de fingir. Rodara todo o salão, o amigo o seguindo como uma sombra – uma sombra faladeira, pelo que parecia. Então, finalmente, os passos casuais do duque de Clevedon o levaram até ela. Os homens a cercavam, como haviam feito desde o instante em que ela satisfizera a curiosidade das mulheres. Ela parecia não notá-los. Ele simplesmente caminhou até ela e foi como se um enorme navio tivesse entrado no porto. Os homens não ofereceram resistência. Apenas abriram caminho, como se não passassem de água sob aquele casco gigantesco. Ela se perguntou se, um dia, o mesmo acontecera a seu avô quando ele era jovem e bonito, um poderoso nobre de uma família tradicional. Será que o mundo se abrira para ele, e será que ele algum dia pensou que o mundo agiria diferente? – Ah, aí está senhora – disse Clevedon, como se tivesse tropeçado nela por acidente. – Como pode ver, não estraguei as cortinas nem arranhei os móveis. – Não, imagino que esteja guardando suas garras para mim. E então, vamos dançar? – Mas madame me prometeu a próxima dança – disse Monsieur Tournadre. Clevedon virou-se e encarou o homem. – Ou talvez eu tenha entendido mal – corrigiu-se o pobre Monsieur Tournadre. – Talvez tenha sido outra dança. Ele se retirou, como um lobo de menor posição se retira quando o líder da alcateia se aproxima. Oh, ela não deveria estar emocionada. Só uma menininha frívola ficaria emocionada diante de um homem rosnando por causa dela. Mesmo assim, ele era o homem mais desejável do salão e sua pequena demonstração de posse


teria excitado qualquer mulher. Ela também era uma mulher e, durante toda a sua experiência mundana, jamais tivera a visão de um homem ameaçando outro para que se afastasse dela. Antes que pudesse dizer a si mesma para não ser tão simplória, ele a levou à pista de dança. As mãos dele apertavam sua cintura e as dela pousaram nos ombros dele. E o mundo parou. O olhar de Marcelline encontrou o dele e ela viu, naqueles olhos verdes, a mesma comoção que a fez perder o fôlego e parar de se mover. Ela havia dançado com uma dúzia de homens. Todos a seguraram da mesma maneira. Agora, porém, o toque da mão de Clevedon era uma presença tão acentuada que era sentida por toda a sua pele. Havia uma sensação diferente por dentro também, uma quietude estranha. O rosto de Marcelline se suavizou. As mãos que estavam livres se juntaram ao mesmo tempo e ele a conduziu por todo o salão.

Durante algum tempo, dançaram em silêncio. Ele não estava pronto para falar. Sentia-se ainda impactado pelo que acontecera no início da dança, ainda que não soubesse bem o que era. Tinha certeza de que ela sentira o mesmo – embora não pudesse dizer o que era aquilo. No momento, a atenção dela estava em outro lugar, longe dele. Marcelline olhava por cima dos ombros. Ela não era, na verdade, uma mulher de extraordinária beleza, mas dava essa impressão. Era bonita, marcante e diferente. Seus cabelos escuros estavam penteados de acordo com a moda, mas de uma forma ligeiramente casual. Se estivessem em outro lugar, ele teria enfiado as mãos no meio deles, espalhando os prendedores pelo chão. Um leve virar de cabeça revelou uma orelha pequenina, perfeita, de cujo lóbulo pendia um brinco de granada. Longe dali, ele teria se inclinado e passado a língua por aquela curva tão delicada. Mas eles não estavam em outro lugar. Assim, dançaram dando inúmeras voltas e, a cada uma delas, a valsa conhecida ia se tornando mais inextricável, insólita e ardente. A cada rodada, ele ia tomando consciência, cada vez mais veemente, do calor da cintura dela sob a sua mão enluvada, da maneira como o calor ressaltava o tom de rosa sedutor de sua pele sedosa e orvalhada, da maneira como o calor reforçava seu cheiro: um aroma de pele feminina misturado ao leve jasmim que ela usava. Era um mero indício de perfume, em pleno salão quente e lotado, onde outros cheiros se misturavam. Mas ele só percebia, conscientemente, o cheiro dela. Da mesma forma, só estava parcialmente consciente dos outros casais dançando ao seu redor, um turbilhão de cores formado pelo preto, cinza e branco das roupas dos homens. Mas todas essas cores gloriosas se desbotavam, transformando-se em um simples borrão, enquanto, abaixo dele e a sua volta, havia um redemoinho de ouro pálido, manchado de vermelho, como as areias do deserto ao


alvorecer, pontilhado de laços vermelhos oscilando como papoulas sob a brisa do verão. Ainda mais perto estava a renda negra, flutuando no ar a cada movimento. Finalmente, ela levantou o rosto e olhou para ele. Clevedon viu o calor brilhando no rosto dela, o pulsar em seu pescoço, e sentiu o rápido subir e descer de seus seios. – Sou obrigada a reconhecer – disse ela, a voz rouca, um pouco sem ar. – De todas as artimanhas que o senhor poderia ter usado, aquela foi algo que jamais me passou pela cabeça. Deve ser porque nunca pensei em mim como o “animal de estimação”. – Eu a apresentei como exótica. – Confesso que não gostei muito da parte da coleira. – Seria uma correia elegante, pode ter certeza. Cravejada de diamantes. – Não, obrigada. Também não gostei do seu comportamento, como se fosse o meu dono, como se tivesse me ganhado em uma aposta quando, na verdade, o senhor a perdeu… e não pela primeira vez. – Os olhos negros analisaram o rosto dele, de cima a baixo, parando no lenço de pescoço e deixando um rastro de calor. – Essa é uma bela esmeralda. – Que a senhora não terá – respondeu ele. – Hoje não vamos fazer apostas. Podemos ser expulsos. A vicomtesse de Montpellier me mostrou o cartão de visitas que recebeu de suas mãos. Ninguém lhe explicou a diferença entre um evento social e um evento de negócios? Isso aqui não é um banquete institucional da Companhia dos Alfaiates e Comerciantes. – Eu percebi. Os alfaiates estariam mais bem-vestidos. – Está cega? – Ele se espantou. – Olhe ao seu redor. Ela lançou um olhar entediado pela sala. – Já vi isso antes. – Estamos em Paris. – Estou falando dos homens, não das mulheres. – Seu olhar se voltou para Clevedon. – De todos os homens aqui, o senhor é o único que um alfaiate londrino não teria vergonha de assumir como cliente. – Que alívio eu sinto por receber a sua aprovação. – Eu não disse que o aprovo como um todo… – rebateu ela. – É mesmo. Eu me esqueci. Sou um aristocrata inútil. – O senhor tem algumas utilidades – disse ela. – Se não fosse assim, não o estaria cortejando. – É assim que chama isso? – O senhor sempre se esquece. Esta festa. O senhor mesmo. Tudo isso são negócios para mim. Ele havia esquecido. Ela queria vir ao baile para observar. Teria vindo sem ele, caso não existisse a aposta – embora aquilo fosse menos uma aposta e mais uma guerra de vontades. – Como eu poderia me esquecer disso? Mal pude acreditar quando minhas amigas me mostraram o cartão de visitas que a senhora entregou, como se fossem brindes da festa. – Seu exótico animal de estimação o deixou constrangido, Monsieur le duc? O odor da loja ofende as suas narinas? Que curioso. Se bem me lembro, foi o senhor quem insistiu em me trazer. O senhor me provocou com covardia. Entretanto… – Seria vulgar estrangulá-la na pista de dança. Mesmo assim, estou altamente tentado – confessou


ele. – Não seja tolo! – alfinetou ela. – O senhor não se diverte assim há muito tempo. Ou não foi o senhor mesmo quem comentou sobre as maquinações que os nobres e poderosos empregam para serem convidados para este tediosíssimo baile? O senhor conseguiu o que centenas de parisienses dariam um órgão vital para alcançar. O senhor deu o golpe social da década. Ao escoltar-me, passou por cima de um grupo de regras antigas e inquebrantáveis. O senhor está desafiando a sociedade, tanto a inglesa quanto a francesa. E está dançando com a mulher mais exuberante do salão. O coração dele batia forte. Era devido à dança, tão furiosa, à conversa e à tentativa de manter o mesmo ritmo de sagacidade que ela demonstrava. Mas, por dentro, ele tinha consciência de um malestar, o mesmo que sentira com ela antes – porque era verdade, tudo verdade, e ele não a havia percebido antes de Marcelline tê-la pronunciado. – A senhora tem uma opinião forte sobre si mesma. – Meu caro duque, olhe bem para a competição. – Eu olharia, mas a senhora é tão irritante que não consigo desviar o olhar. Eles estavam girando, girando, ambos sem fôlego de tanto dançar e conversar ao mesmo tempo. Ela olhava para o rosto dele. Os olhos negros dela cintilavam, a boca – a boca que o deixara de pernas bambas – insinuava um sorriso. – Fascinante. O senhor quer dizer fascinante. – É verdade que a senhora deixou fascinado o meu amigo Aronduille. Ele está se perguntando onde a senhora aprendeu a fazer reverência, dançar e falar tão bem. Houve uma ínfima pausa antes que ela respondesse. – Como uma dama, o senhor quer dizer? Ora, estou apenas imitando os que estão acima de mim. – E onde aprendeu a imitá-los? A senhora não trabalha desde o amanhecer até o anoitecer? As costureiras não começam como aprendizes, ainda crianças? – Nove anos. Como, de repente, o senhor parece conhecer tanto sobre o meu trabalho? – Perguntei ao meu camareiro. Ela riu. – Seu camareiro! – exclamou ela. – Ah, essa foi uma resposta suntuosa. – Mas a senhora também tem uma criada – contra-atacou ele. – Uma mocinha de cabelos claros. No mesmo instante, a risada sumiu de seu rosto. – O senhor prestou atenção em minha criada? – Sim, no passeio. – O senhor é um observador acima da média. – Madame, eu observo tudo a seu respeito, puramente no interesse de me preservar. – Pode me chamar de sarcástica, mas suspeito que não haja nada de puro nessa atitude. A dança estava chegando ao fim. Ele percebia a música diminuindo, mas sua atenção maior estava nela: o calor entre ambos, físico e mental, e a turbulência que ela causava. – Contudo, a senhora me provoca. – Apenas pelo interesse comercial – disparou ela. – Interessante. Fico impressionando com seus métodos de atrair negócios. A senhora afirma que


quer vestir minha duquesa… e começa tomando para si meu alfinete. – Eu o ganhei honestamente. A dança terminou, mas ele ainda a tinha nos braços. – A senhora me importuna, me provoca e ainda ousa me deixar furioso. – Ah, isso eu faço pelo divertimento – bravateou ela. – Por divertimento? Está brincando com fogo, madame. – Como o senhor. Tensos segundos se passaram até ele perceber que a música havia parado e as pessoas os observavam, embora fingissem que não. Ele a soltou, fazendo uma cena ao suavizar a renda do vestido e ajeitar Marcelline como se ela fosse uma criança. Ele sorriu, um ligeiro sorriso condescendente que, tinha certeza, iria deixá-la furiosa, e fez uma reverência educada. Ela repetiu a reverência, abriu o leque e levou-o ao rosto, escondendo-o, mas deixando de fora os negros olhos zombeteiros. – Se o senhor queria um animalzinho domesticado, Vossa Graça, deveria ter escolhido outra mulher. Ela se enfiou no meio da multidão, a renda preta e os laços vermelhos flutuando sobre a cintilante mistura de ouro e rosa do vestido.


Capítulo cinco Os bailes de máscara da temporada já terminaram, mas os bailes comuns continuam tão frequentes quanto no início do inverno. Alguns dos mais notáveis vestidos de baile são feitos com tecidos finos, em diferentes misturas de cores, como narciso e lilás, branco e verde-esmeralda, ou rosa, ocre e cereja. Revistas The Court Magazine e Belle Assemblée, 1835.

Com agilidade, Marcelline abriu caminho até a saída do salão, entrando no corredor. Estava prestes a descer a escada quando ouviu uma voz baixa, familiar, bem atrás dela. – Eu escolhi a senhora? Surpresa, ela se virou e colidiu com Clevedon. Ela tropeçou e ele a segurou pelos ombros, evitando uma queda. – Ainda não terminamos o nosso assunto. – Acho que terminamos, sim. Cheguei ao meu limite nesta noite. Meu cartão estará nas mãos de pelo menos um repórter amanhã, junto com uma detalhada descrição do meu vestido. Várias damas escreverão para as amigas e familiares em Londres, falando sobre a minha loja. O senhor e eu já causamos mais mexericos do que seria desejável. No momento, não tenho certeza se nossa conversa vai valer a pena. E a sua maneira primitiva de apertar meu braço não melhora a situação. Além do mais, o senhor está amassando a minha renda. Ele a soltou e, por um instante de loucura, ela sentiu falta do calor e da pressão das mãos dele. – Eu não a escolhi. A senhora foi ao teatro, se exibiu e fez o maior espalhafato para chamar a minha atenção. – Se o senhor acha que esse é o meu maior espalhafato, está completamente enganado – retrucou ela. Ele estudou o rosto da jovem por um instante, com os olhos verdes cintilando de raiva. Se ele a agarrasse de novo e a chacoalhasse, Marcelline não ficaria surpresa. Ela o provocava e essa não era a mais sábia das atitudes, mas também estava sendo provocada. – Eu a trouxe até aqui – disse ele, entre dentes. – Vou levá-la de volta ao seu hotel. – Não há motivo para o senhor ir embora da festa. Encontrarei um fiacre para me levar de volta. – A festa está entediante. A senhora é a única coisa interessante nela. Um segundo após sua partida, a festa esvaziou, como se fosse um balão furado. Ouvi o suspiro de desânimo atrás de mim assim que pisei no corredor. – Não lhe ocorreu que o esvaziamento era devido à sua partida? – indagou ela. – Não. E não tente me bajular. Isso faz seu rosto ficar ligeiramente verde. Eu me pergunto como a


senhora lida com suas clientes. Por certo precisa bajulá-las e adulá-las. – Eu bajulo do mesmo jeito que faço todo o resto. Maravilhosamente. Se fiquei verde, foi por causa do choque ao vê-lo bajulando a mim. – Então, acalme-se antes de descermos as escadas. Se a senhora cair e quebrar o pescoço, todos suspeitarão de mim. Ela precisava mesmo se acalmar. Ainda não se recuperara da valsa dançada com ele: o calor, a vertigem, a avassaladora consciência física – e, o mais assustador, o anseio que corria em suas veias, batendo em seu coração e enfraquecendo sua mente, como se tivesse ingerido alguma substância venenosa. Ela começou a descer as escadas. À medida que o burburinho da festa foi se distanciando, percebeu os passos dele e a ambientação desértica da parte inferior da casa. Assumir riscos era algo que estava em seu sangue e a moralidade convencional não fizera parte de sua educação. Se fosse outro homem, não teria hesitado. Ela o teria levado a um canto mais escuro, ou para debaixo da escada, e se entregaria a ele. Teria levantado as saias e sentido prazer – apoiada em uma parede, porta ou parapeito de janela –, aliviando todas as tensões. Mas aquele não era apenas mais um homem, e ela já havia permitido que seu temperamento e orgulho atrapalhassem seu juízo. Leonie a havia aconselhado, antes de sair de Londres: – Jamais teremos outra chance como essa. Não estrague tudo. Mas o grande problema era que Marcelline só saberia se tinha estragado ou não a oportunidade quando já fosse tarde demais. Ele não disse nada por algum tempo e ela se perguntou se Clevedon também estaria refletindo sobre as histórias que estavam prestes a correr por toda Londres e decidindo qual seria a melhor maneira de lidar com elas. Mas por que ele se preocuparia com mexericos? Era um homem e todos esperavam que os homens corressem atrás das mulheres, principalmente em Paris. Era quase um dever patriótico. Lady Clara, por certo, jamais criara caso em relação às conquistas dele. Todos saberiam, caso ela o fizesse. Como Longmore se comportava da mesma maneira que o amigo, Marcelline tinha certeza de que o conde nem sequer mencionara o assunto quando fizera o tal ultimato, ou o que quer que fosse. Ainda assim, todas as outras relações do duque em Paris haviam sido com damas, ou com mulheres famosas do submundo. Esse tipo de conquista significava prestígio. Mas uma costureira? Uma lojista qualquer não era o habitual para Clevedon e qualquer coisa incomum poderia dar um tom diferente aos mexericos. Com esses pensamentos, ela chegou ao andar térreo. Não fizeram nada para acalmar a agitação que sentiam. Ela esperou, enquanto ele avisava ao porteiro para chamar sua carruagem. Quando Clevedon virou-se de novo para ela, Marcelline perguntou: – Como o senhor pretende explicar esta noite a lady Clara? Ou o senhor nunca dá explicações a ela? – Não a mencione.


– Que ridículo. O senhor diz isso como se o fato de eu pronunciar o nome dela pudesse, de alguma maneira, contaminá-la. Deve ser a sua consciência pesada. O senhor sabe que meu objetivo é ela. Foi por causa dela que eu vim a Paris. “Não a mencione.” É isso o que o senhor faz com tudo que o incomoda? Finge que não está ali? Pois ela está bem ali, seu teimoso. A mulher com que o senhor vai se casar no fim do verão. O senhor devia falar nela. Devia me lembrar o tempo todo da vasta superioridade que ela tem sobre mim… a não ser quando se trata de vestir-se. – Eu havia planejado escrever para Clara, como sempre faço – explicou ele, sem alterar a voz. – Tinha planejado repetir a mais ridícula das conversas a qual me submeti durante a noite e relatar minhas impressões da companhia teatral, um tédio que passei para oferecer a ela algum entretenimento. – Quanta nobreza de sua parte. Algo brilhou nos olhos dele e foi como o brilho de um farol visto no meio de uma tempestade. Ela sabia que se aproximara de águas perigosas e, se não o pusesse sob controle, arriscava-se a acabar com o próprio negócio. – E o senhor me deixaria completamente de lado? – questionou Marcelline. – Mas que pergunta tola. Não é muito bom mencionar as mulheres de caráter duvidoso que o senhor encontra no curso de suas viagens e prazeres. Entretanto, eu recomendaria que o senhor adotasse essa abordagem. As notícias sobre a sua excitante chegada à festa logo estarão atravessando o canal e chegando a Londres, no máximo até terça-feira. Sugiro que mencione o assunto sem demora. Diga que me trouxe para ganhar uma aposta. Ou que o fez de brincadeira com os outros convidados. – Meu Deus, a senhora é a mulher mais controladora que já vi. – Só estou tentando controlar meu próprio futuro. Ela ouviu uma ligeira oscilação na própria voz. Alarmada, deu um suspiro para se acalmar. O olhar dele tornou-se pesado e viajou para o decote do vestido de Marcelline. Ele é quem deveria estar em uma coleira. Ela se dirigiu ao portão. O porteiro o abriu, de imediato. – A carruagem ainda não chegou – disse Clevedon. – Pretende aguardar na rua, como se fosse um caixeiro esperando o transporte público? – Não vou entrar nessa ou em qualquer outra carruagem com o senhor. Vamos embora separados esta noite. – Não posso permitir que vá sozinha. Isso é querer arranjar problemas. E viajar com ele em uma carruagem fechada, no meio da noite, no estado de espírito em que ela se encontrava, não era perigoso? Marcelline precisava se livrar do duque, não apenas por causa das aparências, mas para poder pensar. Tinha que haver uma maneira de se safar daquela situação. – Não sou uma mocinha desprotegida. Viajo a Paris sozinha há vários anos. – Sem uma criada? Ela desejaria ter algo pesado para jogar naquela cabeça dura. Ela crescera nas ruas de Paris, Londres e outras cidades. Viera de uma família que vivia de artimanhas. Os tolos ou ingênuos não sobreviviam. O único inimigo que não conseguiram vencer foi a cólera. – Sim, sem uma criada – respondeu ela. – Chocante, eu sei. Fazer qualquer coisa sem criados é


algo impensável na sua vida. – Não é verdade. Posso pensar em várias coisas que faço e que não requerem criados. – Quanta criatividade de sua parte – ironizou ela. – De qualquer maneira, não adianta discutir. Aí está a minha carruagem. Enquanto ela estava tentando não pensar nas várias atividades que ele poderia fazer sem a ajuda de um criado, a carruagem chegou à entrada. – Então, adieu – disse ela. – Acharei um fiacre na próxima rua. – Está chovendo – observou ele. – Não está… Ela sentiu um ploc no ombro. Outro ploc na cabeça. Um criado saltou da parte de trás da carruagem, abriu um guarda-chuva e correu na direção do casal. Quando os alcançou, o ploc ocasional já se transformara em um tamborilar acelerado. Ela sentiu a mão de Clevedon em suas costas, trazendo-a para debaixo do guarda-chuva, guiando-a pelos degraus da carruagem. Foi o toque da mão dele, o gesto de posse. Foi o que a desmontou. Ela disse a si mesma que não era feita de açúcar, portanto, não derreteria e que já havia andado na chuva inúmeras vezes. Mas seu eu interior não a ouviu, preso em sentimentos: a mão enorme em suas costas, o corpo grande perto do seu. Escurecia e esfriava enquanto a chuva aumentava. Ela era forte e independente e vivera nas ruas, embora sempre ansiasse, como qualquer animal, por abrigo e proteção. Marcelline era fraca nesse sentido. A abnegação não era instintiva. Ela não conseguia afastar-se dele, ou negar-se a subir na carruagem. Não queria ficar com frio e encharcada, caminhando sozinha na noite de Paris. Assim, sentou-se, aliviada, no banco acolchoado, dizendo a si mesma que pegar um resfriado fatal ou ser atacada e estuprada em um beco escuro não faria qualquer bem à filha e às irmãs. Ele se sentou no banco, de frente para ela. A porta foi fechada. Ela sentiu o leve balançar quando o criado retornou ao seu posto. Ouviu Clevedon bater no teto, sinalizando que podiam avançar. Apesar das molas e do acolchoamento dos bancos, ela sentia o chacoalhar da carruagem. O silêncio ali era como aquele que precede uma tempestade. Marcelline sentia cada movimento das rodas tocando as pedras, a chuva tamborilando no teto da carruagem… e, em seu interior, as ferozes batidas de seu coração. – “Acharei um fiacre” – repetiu ele. – Realmente, a senhora é ridícula. Ela era mesmo. Devia ter se arriscado no escuro, no frio e na chuva. Seria por poucos minutos. Em um fiacre, ela teria a capacidade de pensar. A noite estava sombria, uma chuva forte bloqueava a pouca luz que vinha da rua e da própria carruagem. Dentro do veículo, a escuridão era ainda maior. Ela mal podia enxergar a silhueta dele no assento à sua frente. Mas estava sufocando, consciente das longas pernas dele, esticadas e colocadas no espaço que se formara entre os dois. Clevedon parecia estar com os braços esticados no topo do assento. A pose relaxada não a enganava. Ele se acomodou no assento como uma pantera se acomoda


nos galhos de uma árvore para espionar a presa se movendo pela floresta, lá embaixo. Se tivesse um rabo, ele o teria abanado. – Fui uma idiota por vir a essa festa com o senhor. – A senhora parecia estar se divertido bastante. Por certo não lhe faltaram parceiros com quem dançar. – É verdade, eu estava me saindo muito bem, obrigada, até o senhor virar um homem medieval. – Medieval? – “Saiam do meu caminho, camponeses. A meretriz é minha!” – Ela imitou o duque de Clevedon no auge de sua altivez. – Achei que Monsieur Tournadre ia molhar as calças quando o senhor lhe mostrou as presas. – Mas que imaginação grotesca! – O senhor é grandalhão e arrogante e acho que tem consciência do quanto consegue ser intimidador. – Infelizmente, não para a senhora. – Todavia, talvez nem tudo esteja perdido – retrucou ela. – Esse tipo de comportamento possessivo é típico dos de sua espécie. Além disso, sou o seu animal de estimação. Fui trazida à festa para o seu entretenimento. E deixei bem claro para todos que vim para angariar negócios e que o estava usando com esse objetivo. – Mas não foi o que aconteceu – retrucou ele. – Foi exatamente o que aconteceu. – O que aconteceu foi que dançamos as valsas e o que estávamos fazendo ficou claro para todos, embora estivéssemos vestidos. – Ah, aquilo. Exerço esses efeitos em todos os homens com quem danço. – Não finja que também não estava sensibilizada. – É claro que eu estava sensibilizada. Foi a primeira vez que dancei com um duque. Foi a coisa mais animada que aconteceu em minha medíocre e insignificante vida burguesa. – Que pena que não sou medieval – disse ele. – Se fosse, não hesitaria em fazer de sua inexpressiva e insignificante vida algo ainda mais excitante e muito menos medíocre. – Talvez eu devesse colocar isso na propaganda. “Damas distintas e que apreciam a moda estão convidadas a visitar a loja da Sra. Noirot, na rua Fleet, em West Chancery Lane, para conhecer um conjunto de artigos de grande elegância, como vestidos, casacos e chapelaria, uma vez que, em se tratando de excelência, gosto e esplendor, nenhuma outra loja lhe chega aos pés. Sempre imitada, mas nunca superada, a Sra. Noirot pode reivindicar a distinção de ter valsado com um duque.” A carruagem parou. – Já chegamos ao hotel? – indagou ela. – Como o tempo passa rápido em sua companhia, Vossa Graça. Ela começou a se levantar. – Não estamos nem perto de seu hotel, madame. Paramos devido a um acidente, um bêbado no meio da rua ou qualquer coisa do gênero. Marcelline se inclinou para a frente, de modo a olhar para fora. Era difícil enxergar qualquer


coisa, a não ser o reflexo da chuva passando na frente das luzes dos postes. – Não estou enxergando… Mais do que vê-lo, ela o sentiu mover-se, mas foi um movimento tão rápido e leve que a pegou de surpresa. Num segundo, ela estava se inclinando na direção da janela da porta. No segundo seguinte, as mãos dele estavam sob os seus braços, levantando-a, com a mesma facilidade com que levantaria uma caixa de chapéus, e sentando-a em seu colo. Por um instante, ela ficou assustada demais para reagir. Mas foi um momento breve, um piscar de olhos. Quando começou a empurrá-lo para afastar-se, ele levantou uma das mãos e colocou-a atrás da cabeça dela, trazendo seu rosto para perto do dele. – Por falar em negócios, algo que a senhora faz sem parar, nós temos um inacabado para resolver – disse o duque, com a voz baixa e sombria. – Um negócio que não terminou, madame. Que nem sequer começou. – Não seja idiota – reagiu ela, com a voz trêmula. O coração da jovem batia forte e descompassado, como se estivesse caminhando pela beira de um precipício. Marcelline disse a si mesma que ele era apenas um homem e que ela entendia muito bem como esses seres funcionavam. Mas seu lado racional não tinha a mínima chance de ser levado em consideração. Clevedon era forte, pesado e fervoroso. Seu tamanho a excitava. A beleza dele a excitava. O poder e a arrogância dele a excitavam. Esse era o perigo. Ela era fraca nesse sentido, sua força de vontade e sua mente eram vencidas pela devassidão que corria em suas veias. Sentiu o calor das coxas dele atravessar as camadas de anáguas, um calor que se espalhou por seu corpo, subindo e descendo, despertando desejos que ela não conseguia esconder. – Eu não o quero – mentiu. – Quero a sua duqu… A boca de Clevedon não a deixou terminar. Era uma boca ardente, firme e determinada. Séculos antes, os ancestrais dele tomavam o que queriam: terras, riquezas, mulheres. Se diziam “é meu”, era mesmo. A boca de Clevedon tomou a dela da mesma maneira, a investida de um beijo com um único objetivo, insistente, potente. Aquela boca era o sonho de qualquer hedonista, um delicioso pecado. A sensação dela, a pressão obstinada – uma santa poderia tê-la rejeitado, mas ela não tinha uma única gota de santidade no corpo. Marcelline se entregou de imediato. Sua boca se abriu para receber a dele, para saboreá-lo, como não se permitira fazer da outra vez. Era um gosto de mil pecados e esses pecados tinham sabor de mel. As mãos dela, ainda apoiadas no peito dele para afastá-lo, deslizaram para cima, passando pelo alfinete de esmeralda, o tecido quebradiço do lenço de pescoço e mais para cima. Ela tirou o chapéu que ele usava e deixou seus dedos emaranharem-se nos grossos cachos, algo que desejava fazer desde o instante em que ele se inclinou para cumprimentá-la na ópera. O beijo anterior também fora turbulento, mas diferente. Havia muito mais do que raiva entre eles agora. Desta vez, ela não tinha o controle. Afundava em sentimentos, no sabor dele, no cheiro de sua pele, na sensação de seu corpo rígido sob o dela, e em suas mãos, possessivas, apertando seus cabelos.


Marcelline não se lembrava de ter sido abraçada daquela maneira. Ela sabia que precisava afastar-se dele. Mas primeiro… ah, um pouquinho mais; ela esfregou o corpo contra o dele, deliciando-se com o ardor daquele homem, sentindo um solavanco de triunfo porque a excitação dele era óbvia, mesmo sob as camadas do vestido e as anáguas entre eles. Quando a rigidez pressionou seus quadris, um prazer intenso passeou pelo corpo dela, como um desvario. Clevedon soltou um som rouco e interrompeu o beijo. Ela deveria tê-lo empurrado, mas ainda não estava pronta para parar. Então, a boca dele deslizou por seu pescoço, descendo pelo colo, pelos ombros. Ela soltou um gemido de prazer, a cabeça pendeu para trás e ela se entregou às sensações: a boca dançando pelo seu corpo, criando uma trilha de beijos como pequenas fogueiras que ateavam fogo dentro dela, no mais profundo de seu ser. Marcelline não era a única em chamas. Ela ouviu a respiração do duque ficar mais agressiva e, quando aquela mão enluvada passou pelos seus seios, ela arfou. Os sons baixos que faziam misturavam-se na escuridão e ela imaginou panteras copulando nas sombras. E quase achou graça, porque a imagem cabia perfeitamente na situação. Ele era um predador. Ela também era. As duas bocas se encontraram mais uma vez, enquanto ele movia as mãos pelo corpo dela, tomando posse. Ela também tomava posse dele, passeando as mãos pelos musculosos braços e o tronco retesado. Cada sinal de que ele perdia o controle a excitava, mesmo quando o controle dela também lhe escorregava pelas mãos. Ela mudou de posição e moveu a mão para a parte da frente das calças dele, sentindo o pulsar e o calor de seu membro – que era grande e digno de um duque. Deus do Céu, como ela o desejava! Sua mente embriagada encheu-se de imagens: corpos nus e suados… ela sendo penetrada e tremendo de prazer. Sem interromper o beijo, mas aprofundando-o, a língua dela brincando com a dele, Marcelline se levantou e se acomodou por cima. No espaço fechado da carruagem, o farfalhar da saia e das anáguas soou como um trovão. Clevedon passou as mãos pelos ombros dela e começou a descer seu vestido. Ela sentiu a seda se rasgar, mas não se importou. Ele arrastou o vestido para baixo e abaixou também o corselete. Ela sentiu o ar tocar os seios expostos, antes que ele interrompesse o beijo e levasse a boca até lá. Ao sentir a língua dele em seu mamilo, Marcelline gemeu, jogou a cabeça para trás e riu. Depois, colocou as mãos no cabelo dele e beijou o topo de sua cabeça, muitas e muitas vezes. Mas o ímpeto com que ele a sugava ficou mais forte, profundo, provocando-lhe sensações na barriga, o que a fez se contorcer de impaciência. Ela o soltou e segurou as saias e anáguas. Puxou-as para cima e a mão enorme dele escorregou pela coxa dela… Um facho de luz preencheu o interior da carruagem. Só durou um instante, mas foi uma luz clara demais. Isso a sobressaltou e a despertou do sonho louco no qual havia caído, mesmo antes que um crac ensurdecedor balançasse a carruagem. Marcelline afastou a mão do duque, abaixou a saia, levantou o corpete e saiu do colo dele.


– Maldição! – exclamou ele, a voz densa. – Bem quando estava ficando interessante. Outro ofuscante clarão de luz. Uma pausa, mais trovões. Ela voltou ao seu assento e tentou ajeitar o vestido. – Não era para ter ficado interessante! Eu sabia que não devia ter entrado em uma carruagem com o senhor, não quando estava tão desequilibrada. Pare a carruagem. O senhor precisa me deixar sair. Raios e relâmpagos rasgaram o céu outra vez. E mais outra. Um trovão ecoou, parecendo um canhão em um campo de batalha. – A senhora não vai sair com um tempo desses. – Pode ter certeza de que vou – afirmou ela, levantando-se para lutar com a janela. Precisava abaixá-la para alcançar a maçaneta do lado de fora. Antes que pudesse fazê-lo, a carruagem deu uma guinada, parou e ela perdeu o equilíbrio. Ele a segurou, mas ela enfiou as unhas nas mãos dele. O duque não a soltou. – Foi apenas um beijo – disse ele. – Foi mais do que apenas – retrucou ela. – Se não fosse pelo relâmpago, teríamos feito exatamente aquilo que eu disse que não faríamos, não deveríamos fazer e não poderíamos fazer. – Não foi isso o que a senhora me disse. – Por acaso o senhor estava ouvindo? – Eu não ouvi nada sobre não faria, não devia ou não podia fazer. Não exatamente. O que a senhora disse, bem claramente, foi que seus futuros clientes londrinos não deveriam saber. Ela se afastou dele, ao mesmo tempo que a carruagem se moveu novamente. Desta vez, ela caiu em cima do duque. Queria ficar ali, ah, como queria. Queria subir nele e submergir em seu calor e na força de seu toque. Ela se forçou a se afastar, empurrando as mãos dele e voltando ao lugar onde estava sentada. Uma tarefa que durou alguns segundos, mas que, para ela, pareceu toda uma vida de esforços. Resistir à tentação era terrível. – O senhor se prende aos detalhes com muita facilidade – disse ela, sem fôlego. – E a senhora achando que eu não ouço com atenção. – O senhor escolheu ouvir o que um homem escolheria ouvir. – Eu sou um homem. Um homem, apenas um homem, disse ela a si mesma. Mas olhe só o que fizeram. Nada deveria ter acontecido daquele jeito: o beijo incendiário, a velocidade com a qual razão e autocontrole se desintegraram. Isso fora extremo até para ela. Marcelline o havia subestimado, ou superestimado a si mesma, e agora tinha vontade de matar porque não podia pensar em uma maneira de ter aquele homem sem estragar seus planos. Se é que já não os havia estragado. Pense. Pense. Pense. A carruagem parou e ela teve vontade de gritar. A viagem parecia não ter fim. A porta se abriu. Um guarda-chuva apareceu, segurado pela mão enluvada de um lacaio encharcado. Clevedon fez menção de se levantar.


– Não – disse ela. – Não estou acostumado a jogar mulheres para fora da carruagem e permitir que andem sozinhas até a porta de casa. – Não duvido de que existam mesmo muitas coisas com a qual não esteja acostumado. Mas ele já estava descendo os degraus e discutir com ele não faria o lacaio ficar nem uma gota mais seco. Ignorando a mão que Clevedon lhe estendia, ela desceu da carruagem e correu em meio à chuva até o abrigo do pórtico do hotel. Ele correu atrás dela. Suas pernas eram mais compridas. Ele logo a alcançou e jogou um braço protetor sobre ela, nos últimos passos que faltavam. – Precisamos conversar – disse ele. – Agora, não. Seus lacaios vão morrer afogados. Ele a encarou e havia luz suficiente na entrada do hotel para que ela enxergasse o olhar surpreso no lindo rosto do duque. – O senhor não pode deixá-los no meio de uma chuva dessas enquanto discutimos – argumentou ela. Sem dúvida, ele devia fazer isso o tempo todo. Para ele, criados não passavam de móveis que se mexiam. – Eu não pretendia discutir, mas me esqueci. Conversar com a senhora, em geral, acaba em discussão. – Podemos conversar no domingo – sugeriu ela. – Hoje, mais tarde. – Tenho um compromisso com Sylvie. – Desmarque. – Só estarei livre no domingo. O senhor pode me levar para um passeio de carruagem no Bois de Boulogne, quando o lugar não estiver cheio de aristocratas ostentando suas roupas e acessórios. Depois de Longchamp, tudo ali estará relativamente sossegado. – Eu estava pensando em um lugar menos público – ponderou ele. – Pois eu, não. Mas não vamos discutir agora. Mande-me uma mensagem no sábado e eu o encontrarei no domingo, onde o senhor escolher, desde que não seja demasiadamente mal conceituado. Há lugares que até uma simples costureira evita. – Onde eu escolher? – Para conversar. – Sim, é claro. Temos negócios para discutir. Marcelline tinha plena consciência de que os negócios que ele queria discutir não eram as encomendas que lady Clara faria dali em diante. Ela fora tola em imaginar-se capaz de manipular aquele homem. Devia ter percebido que um duque está acostumado a ter tudo do seu jeito, em um nível que as pessoas comuns não podem imaginar. Já devia saber que o fato de conseguir tudo do jeito que quis durante toda a vida afetaria o cérebro dele e o tornaria totalmente diferente dos outros homens. Em suma, ela devia ter se mantido fora do caminho dele e enviado Sophia para conversar com a futura noiva dele. Entretanto, Marcelline não se dera conta de nada disso e, agora, tinha que salvar a


situação da melhor maneira possível. E só conhecia uma forma de fazê-lo. – Sei que seus lacaios são meros instrumentos mecânicos para o senhor – observou ela –, mas não posso deixar de pensar que pelo menos um deles pegará um resfriado e desenvolverá uma dolorosa dor de garganta ou uma doença nos pulmões. Sei que é extremamente burguês de minha parte, mas não posso evitar. Mais uma vez, ele olhou para trás. Um dos lacaios estava parado a uma pequena distância do casal, segurando um guarda-chuva, aguardando para satisfazer Sua Graça. O outro estava em seu posto, na traseira da carruagem. Ambos usavam capas que, naquele momento, estavam encharcadas. – Até domingo – disse ela. O olhar de Clevedon voltou-se para Marcelline, impenetrável. – Então, nos veremos no domingo. Ela sorriu, desejou boa-noite e se forçou a caminhar calmamente até a porta, que o porteiro do hotel segurava aberta.

Clevedon voltou para a carruagem a passos largos, sob o guarda-chuva segurado por Joseph. Ele tinha que tirar aquela mulher da cabeça. Precisava recuperar a sanidade. – Noite horrível. – Ele se forçou a comentar. – Sim, Vossa Graça. – Paris não é bonita quando chove – acrescentou Clevedon. – Não, Vossa Graça. – Por que demoramos tanto? – Um acidente, Vossa Graça – explicou Joseph. – Dois veículos colidiram. Não me pareceu nada grave, mas os cocheiros estavam gritando um com o outro e algumas pessoas se meteram na confusão. Mas, quando os relâmpagos começaram, todos foram embora. Se não fosse isso, poderíamos estar presos lá até agora. Da maneira como Noirot havia comentado sobre os pobres e encharcados lacaios, Clevedon esperava encontrá-los caídos no chão, prontos para o enterro. Mas, quando olhou para trás, Thomas conversava animadamente por cima da carruagem com Hayes, o cocheiro. E ali estava Joseph, cheio da energia dos jovens, embora fossem quase duas horas da manhã. Os três criados teriam gostado muito de ver os parisienses se agredindo a socos. Teriam dado altas gargalhadas se os relâmpagos não tivessem feito os combatentes fugirem. Hayes era um sujeito cauteloso e astuto, que só se importava com a maneira como as circunstâncias poderiam afetar seus cavalos e como mantê-los calmos. Os lacaios eram jovens e não se importavam com roupas molhadas. Todos os criados de Clevedon eram bem pagos, bem-vestidos e bem alimentados. Eram levados ao médico quando ficavam doentes e recebiam uma pensão generosa quando se aposentavam.


O duque sabia que não era assim em todas as casas, e uma lojista não tinha como saber de que modo os criados dele eram tratados. Como também era uma prestadora de serviços, Noirot era suscetível a ataques de comiseração. Mesmo assim… Ele subiu na carruagem. A porta se fechou. Clevedon não confiava nela. Não confiava nela pelo que conhecia da jovem até o momento. Ela trapaceava nas cartas. Ainda que não trapaceasse, não era de todo honesta. Ela disse que não seduzia os homens de suas clientes, mas… – Por Deus – murmurou ele. O cheiro dela permanecia na carruagem e ele quase podia sentir seu sabor, a pele feminina sob seus dedos. Só um beijo. Ela fora do desejo à loucura em menos de uma batida do coração. Eles deviam terminar o que começaram. Ele a tiraria da cabeça e terminaria em paz suas últimas semanas de liberdade. Correr atrás de uma mulher provocante por toda Paris não fazia parte de seus planos e, por certo, não era seu estilo. Clevedon estava acostumado a jogar com as mulheres. Apreciava o jogo e as preliminares. Mas era diferente dançar ao ritmo de uma costureira imprudente, que não parava de falar de seu maldito negócio – ainda que lhe provocasse vontade de rir e ânsias de enforcá-la –, e apesar do fato de ela beijar como uma amante do diabo, treinada por Mefistófeles em pessoa, que ajudara a desenhar seu corpo… os seios perfeitos… o leve arco do pescoço… a magnífica curva da orelhas… Sua língua imoral. Sua língua mentirosa. Que compromisso ela teria com Sylvie Fontenay, que ocuparia toda a sexta-feira e o sábado?

Enquanto isso, no hotel Fontaine… – Fazer as malas? – repetiu Selina. Enquanto esperava Marcelline voltar, a criada adormecera. Mas, naquele momento, estava completamente desperta. Assim como Marcelline, que estava alerta devido ao pânico. – Precisamos partir amanhã o mais cedo possível. Hoje! – ponderou ela. Eram apenas duas da manhã de sexta-feira. Se conseguissem assentos em um navio para Londres no sábado, chegariam em casa ainda no domingo. Os convidados do baile só escreveriam suas cartas mais tarde, o que significava que não seriam postadas antes de sábado. E o correio de Londres ficava fechado aos domingos. Com um pouco de sorte, Selina e ela estariam em Londres antes da chegada de qualquer correspondência de Paris. Isso daria tempo a Sophia para encontrar uma forma de capitalizar os rumores sobre a Sra. Noirot e o duque de Clevedon.


– Não temos um minuto a perder – avisou Marcelline. – Os rumores começarão na terça ou quarta-feira. Teremos que dar um jeito de administrá-los. Selina não perguntou “Que rumores?”. Ela não era ingênua nem idiota. Sabia que Marcelline fora ao baile com o duque de Clevedon. Percebera o vestido rasgado. Até mesmo erguera uma sobrancelha – de interesse, não de choque ou censura. Selina não era inocente. Já se envolvera com pessoas da alta classe, principalmente do sexo masculino. Foi assim que acabou como uma “mulher desafortunada”. Ninguém precisava contar a ela como o vestido fora danificado. Sua preocupação era se o estrago poderia ser reparado. – É tudo uma questão de interpretação – explicou Marcelline. – Nós apenas reinterpretamos. Algo como… deixe-me pensar… “o duque de C., cativado pelo vestido de seda poussière da Sra. Noirot exibido com magnífica primazia durante uma valsa” – disse Marcelline, pensando em voz alta. – Não, precisamos de mais detalhes. “Vestido de seda poussière, enfeitado com laços carmim, do tipo borboleta, uma pelerine de renda preta completando o traje… foi altamente aprovado por um dos mais altos membros da nobreza.” Sim, isso ficou ótimo. – Posso consertá-lo sem nenhuma dificuldade – garantiu Selina. – Todo mundo vai querer vê-lo. – E todos o verão, se lidarmos com isso da maneira adequada. Mas isso significa que precisamos assumir o controle da história antes que qualquer outra pessoa o faça. Sophia pode dar ao seu contato na Foxe’s Morning Spectacle um relato exclusivo. Ele dirá que o duque de Clevedon me levou à festa como uma de suas brincadeiras. Ou para ganhar uma aposta. – Acho que uma brincadeira ficaria melhor – opinou Selina. – Para algumas pessoas, uma aposta pode soar como algo desonroso. – Tem razão. Minha estada lá começou como uma brincadeira, mas o vestido cativou a atenção dos outros convidados… – Precisamos mencionar algo sobre o efeito da combinação de cores quando o vestido se mexia… – Exatamente – concordou Marcelline. – Depois, alguma coisa sobre uma valsa, a maneira perfeita de descrever o efeito singular do vestido. Impressionado com minha aparência, até o duque de Clevedon dançou comigo. – Madame, como eu gostaria de ter estado lá. Qualquer dama que ler uma história como essa vai sentir o mesmo. Todas ficarão loucas para ver o vestido… e a loja de onde ele veio. – Teremos tempo suficiente para elaborar os detalhes enquanto estivermos no navio – raciocinou Marcelline. – Mas precisamos pegá-lo primeiro. Faça as malas como se sua vida dependesse disso. Eu já fiz isso tantas vezes que perdi a conta. – Claro, madame. Mas e os passaportes? – Qual é o problema com os passaportes? – Não se lembra de que o secretário do embaixador nos disse que, antes de sair, precisávamos enviar os passaportes para serem rubricados? Depois, precisamos levá-los à sede da polícia. Depois ao… – Não temos tempo.


– Mas madame… – Isso levaria o dia inteiro, talvez até dois dias – explicou Marcelline. Ela repetia esse ritual duas vezes por ano, na primavera e no outono, quando visitava Paris. Sabia de cor a entediante rotina. – Todos esses escritórios abrem em diferentes horários. O embaixador britânico só coloca o nome nos passaportes entre as onze e as treze horas. Em seguida, precisamos esperar na sede da polícia. Depois disso, vem todo aquele contrassenso com o ministro das relações exteriores… que, mais uma vez, só trabalha por duas horas e exige 10 francos só para pegar na pena. Você sabe que tudo isso é ridículo. Eles precisam de regras. Criam tantas. Ela podia ouvir a voz baixa de Clevedon, o tom sugerindo uma piada sobre os franceses e suas regras. A primeira noite, na ópera, voltou à mente dela junto a uma onda de sensações: sua mão sobre o caríssimo lenço de pescoço, trocando o alfinete dele pelo seu… a maneira como ele a olhava, imóvel como um felino: a pantera esperando a hora de atacar. Ela o forçou para fora de suas lembranças. Não tinha tempo para pensar nele. – Sei que tudo isso é um absurdo, madame, mas o secretário disse que poderíamos ser detidas se nossos documentos não estivessem em ordem. – Cuide das malas – ordenou Marcelline. – Deixe os passaportes e os oficiais por minha conta.

Sábado à tarde. – Não acredito! – exclamou Selina, quando olhou para a minúscula cabine. Elas não arrumaram uma cabine dupla; todavia, não podiam reclamar da sorte de terem embarcado, levando-se em consideração todas as regras que deixaram de cumprir. – Pelo menos a senhora conseguiu. – Com determinação, tudo é possível – disse Marcelline. Principalmente quando a determinação vem da parte de um Noirot. Era impressionante tudo que podia ser obtido com uma pitada de mentira, um pouco de suborno, uma dose de encanto e um decote revelador. Nada surpreendente, na verdade, considerando-se que todos os oficiais eram homens. Embora Selina não soubesse de alguns detalhes – as habilidades de Marcelline para enganar, por exemplo, não deviam ser mencionadas –, ela já conhecia os outros métodos e havia ajudado na aplicação de alguns deles. Como o secretário do embaixador avisara, foram feitas várias tentativas para detê-las. A última parte, com os oficiais da alfândega, fora a mais difícil. – Conseguimos – regozijou-se Marcelline. – E com tempo de sobra, graças ao seu eficiente estratagema. – Foi uma loucura, madame. Teria sido horrível chegar ao ponto de enxergar o navio, mas não poder entrar nele. – E eu quase perdi as estribeiras e estraguei tudo – lembrou Marcelline.


– A senhora estava cansada, madame. Acho que não pregou os olhos durante todo o percurso de Paris até aqui. – Tirei uma soneca aqui e ali. Embora tivessem melhorado, as estradas francesas ainda estavam longe de serem perfeitas. Entre os safanões da carruagem, os planos de como vencer a fase seguinte da burocracia e a insistência de Clevedon em não sair de seus pensamentos, as sonecas irregulares lhe forneceram um precioso descanso. Ela se obrigara a comer, mas as duas não tiveram tempo de fazer uma boa refeição. Pegaram o que puderam. Não foi a melhor comida que já haviam saboreado. A dispepsia também não ajudou no processo do raciocínio. Selina, porém, viera em seu socorro. Um de seus cadarços se rompera “acidentalmente” e ela começara a chorar. Dois oficiais a ajudaram com o reparo. Era difícil saber se os belos tornozelos da jovem haviam amolecido seus corações, se eles temiam outra crise de choro ou se estavam com pressa e atrapalhados, graças ao tumulto causado por outra pessoa que também chegou tarde. Fosse qual fosse o motivo, os homens as deixaram passar. Se Marcelline tivesse trazido Frances com ela, as duas ainda estariam em Paris. Ela examinou o relógio. – Devemos partir em breve. Vou subir e dar uma volta pelo deque. – Achei que a senhora fosse querer cair na cama. Eu sem dúvida quero e sei que dormi muito mais que a senhora. – Preciso respirar o ar marinho para me acalmar. Além disso, é muito bonito à noite, ver as luzes da cidade desaparecerem. Você devia vir. Chegamos de Londres durante o dia. É bem diferente à noite. Selina tremeu. – A senhora é uma viajante melhor do que eu. Espero estar dormindo antes que o navio parta. Fiquei enjoada quase o tempo todo na viagem até aqui. Prefiro não me sentir assim na volta. – Coitadinha – disse Marcelline. – Eu me esqueci. Foi realmente horrível para você. – Mas valeu a pena, madame – respondeu Selina, com firmeza. – E faria isso de novo. Na verdade, vou rezar para fazer de novo. – Ela riu. – Mas vá a senhora e divirta-se. Marcelline saiu da cabine e foi em direção ao deque. Os oficiais e a tripulação estavam se preparando para partir, enquanto os passageiros se acomodavam, após o tumulto gerado pela necessidade de localizar suas cabines e cuidar de seus pertences. Havia muito barulho e um grande número de pessoas. A noite caíra, cheia de estrelas, acompanhadas de uma lua brilhante. Ela não teve nenhuma dificuldade para perceber a figura alta na amurada e, antes mesmo que ele se virasse e a luz revelasse seus traços, o coração dela já estava acelerado.


Capítulo seis Entre a primeira semana de abril e a última semana de novembro, os navios da Steam-Packets saem diariamente – se o tempo assim o permitir – do ancoradouro perto da Torre de Londres até Calais, em uma viagem de cerca de doze horas. Carruagens, cavalos e bagagens transportados pela Steam-Packets são embarcados e desembarcados sem custo adicional. Mariana Starke, Viagens pela Europa, 1883.

Ela permaneceu imóvel, só as penas e rendas de seu chapéu balançavam ao vento. Exteriormente, Clevedon estava tão imóvel quanto ela, embora seu coração saltasse com uma excitação crescente. Ele caminhou na direção de Marcelline. – Surpresa – disse ele. Os olhos dela se estreitaram. Clevedon duvidou que aquela reação fosse apenas o efeito da luz da lua. Ela se sentia fatigada, é claro. Ele estava impressionado com a velocidade com que Marcelline deixara Paris. A jovem não devia ter dormido nada depois da festa. E, para chegar tão cedo a Calais, não devia ter parado para mais do que uma mudança de cavalos durante todo o percurso. Ele se perguntou como ela chegara ali. Conseguir ter todos os documentos assinados no meio da noite devia ter custado uma fortuna em propinas – pagas, sem dúvida, com o dinheiro que ela ganhara da roleta e nas cartas. Até para ele, com toda a sua nobreza, fora difícil passar por toda a burocracia. E ele havia partido horas depois dela, quando os burocratas estavam pelo menos acordados, embora nem todos os escritórios estivessem abertos. Se ele não fosse o duque de Clevedon, o navio teria partido havia uma hora e ele estaria em Calais, observando-o desaparecer pelo canal, enquanto brigava consigo mesmo por ser tão tolo. Bem, ele era um tolo e estava brigando consigo mesmo, mas sem muito efeito. De qualquer maneira, ela estava zangada o suficiente pelos dois. – Surpresa? – disse ela. – O senhor perdeu o juízo? Sim. – Estava preocupado com a senhora. Quando deixou Paris tão repentinamente, achei que uma catástrofe havia acontecido. Ou um assassinato. Por falar nisso, a senhora assassinou alguém? Não que eu fosse criticá-la, mas… – Fui embora de Paris para fugir do senhor. – Bem, parece que não funcionou. – Como foi que o senhor conseguiu? Como soube? Como…? Não vou perguntar como o senhor


passou pela burocracia francesa. O senhor é um duque e eles ainda não cortaram a cabeça de nobres nesta era. Mesmo assim, achei que já tinham percebido o quanto os aristocratas são inúteis, o quanto não vale a pena favorecê-los. Ele sorriu. – Mas a senhora precisa de minha nobre cabeça, madame Noirot. Precisa de mim para pagar as contas. – Como soube que eu ia embora? – indagou ela. – Percebi o quanto é obstinada. – Como o senhor soube que eu ia embora? – insistiu ela, as mãos crispadas. Embora sentisse um calor em seu rosto, ele respondeu como se não se importasse. – Enviei meu mensageiro para espioná-la. Ele estava vigiando o seu hotel de madrugada, quando a senhora e sua criada partiram em um fiacre. Primeiro, achou que seu encontro com mademoiselle Fontenay fosse incrivelmente cedo. Mas, quando contou o número de malas que estavam sendo colocadas no veículo, ficou curioso. Por meio de um dos criados do hotel, ele ficou sabendo que a senhora estava de partida. Depois, descobriu que seu destino eram os correios e que a senhora iria “encontrar um parente”. Na verdade, eu é que deveria perguntar como conseguiu sair da França. A senhora partiu horas antes de os oficiais que devem aprovar a saída estarem acordados. – Não lhe ocorreu que eu poderia ter feito planos com antecedência? – A senhora fez? – Ah, seu espião não descobriu isso? Uma pena, porque não vou satisfazer a sua curiosidade. Viajei um dia e meio pelas horrorosas estradas francesas e estou cansada. Boa noite, Vossa Graça. Ela fez uma mesura ligeira e afastou-se dele. Clevedon lutou contra o desejo de segui-la. Ele já havia se comportado de maneira mais do que absurda até o momento. Para quê? O que ele estava pensando que conseguiria a bordo de um navio a vapor cheio de viajantes? Sua sorte era que aquele era um navio inglês, ou não teriam atrasado a partida por sua causa. Ele pagara uma boa propina para trocar de lugar com outros passageiros. Se fosse um homem sem nobreza, estaria esperando pelo próximo navio em Calais. Ficar em Calais era o que devia ter feito. Não, ele não devia ter saído de Paris. Mais seis semanas de liberdade, e ele as jogara fora. Para quê? Mas já estava feito e, tendo passado um dia e meio correndo por estradas abomináveis, ele não pretendia ficar de pé na doca, esperando o navio partir. Seu comportamento fora impensado. Na verdade, Paris estava ficando tediosa e uma corrida enlouquecida até Calais seria mais excitante do que qualquer coisa que fizera nos últimos dias, talvez meses. Por certo que valera a pena, pelo simples prazer de ver a expressão de surpresa de madame Noirot ao perceber sua presença. Realmente surpresa. Ele duvidava de que ela tivesse se surpreendido com alguém ou com algo havia muito tempo. Clevedon permaneceu no deque até o navio deixar o porto e entrar no canal. Ele percebeu as nuvens flutuando pelo céu, escurecendo a luz das estrelas e da lua, mas não se preocupou. O céu sobre o Canal da Mancha nunca ficava totalmente aberto.


Ele desceu e deixou que Saunders tirasse seu casaco e o livrasse do lenço do pescoço, do colete e das botas. Em seguida, Sua Graça caiu na cama, adormecendo no mesmo instante. Em menos de uma hora, a tempestade começou.

Marcelline cambaleava pela passagem estreita. O cheiro era sórdido: inúmeros passageiros vomitando, em pânico. Até o estômago de Marcelline, que não costumava se acovardar nos mares mais bravios, agitou-se. Ela fez uma pausa, respirando pela boca, desejando que suas entranhas se acalmassem. O navio inclinou-se para a direita e ela bateu com o corpo em uma porta. Do outro lado vieram gritos e berros, iguais aos que ouvira de outras cabines. A madeira da embarcação gemia quando as ondas a chicoteavam por todos os lados. A tripulação fechou as escotilhas, mas a água entrava assim mesmo. Sob seus pés, o deque estava molhado e escorregadio. Perto dali, alguém chorava. – Arrependam-se! – gritou um homem. – Nossa hora chegou! – Vá para o inferno – sussurrou ela. Sim, Marcelline estava com medo, como qualquer um estaria. Mas sua hora ainda não chegara e ela não morreria. O navio não ia afundar. A filha e as irmãs a esperavam em Londres. Mas ela tremia assim mesmo e seu estômago revirava. Marcelline jamais ficava enjoada. Não podia enjoar. Não tinha tempo para isso. Selina estava passando mal, muito mal, e precisava de sua ajuda. Mas, oh, ela não se sentia nada bem. Mais tarde. Mais tarde ela poderia se dar ao luxo de ficar enjoada. Uma coisa de cada vez. Foi até a porta que imaginou ser a certa, onde, horas antes, vira os criados se movimentando. No caminho de volta, ouvira dizer que o duque de Clevedon exigira a melhor cabine para si e duas inferiores para seu séquito. Ela bateu à porta, que se abriu de repente, no instante em que o navio deu uma poderosa guinada. Ela deslizou, tropeçou e caiu diretamente dentro da cabine. Duas mãos enormes a seguraram e a puxaram para cima. – Cuidado, Noirot. Poderia ter quebrado o pescoço. As mãos que a seguravam eram quentes e firmes e ela desejou apoiar-se no duque. Ele era grandioso e forte, assim como sua personalidade. Uma imagem passou pela cabeça de Marcelline: cavaleiros medievais protegendo seus castelos e suas mulheres. Por um segundo de loucura, ela desejou se colocar nas mãos dele. Mas não podia fazê-lo. Ela não ousaria apoiar-se nele. Por certo, ela também não ousaria olhar para cima. Não se sentia bem. Nem um pouquinho. – Tive… que… vir. – Eu estava saindo para procurá-la, para ver se precisava… Noirot, a senhora está bem? Ela olhava para baixo, para os pés dele, pensando que, a qualquer instante, vomitaria em seus


valiosos chinelos. Mas o mar já os havia arruinado. Uma pena. Chinelos tão bonitos. Os pés dele eram grandes. Engraçados. – Sim – respondeu ela, engasgando. – Saunders, conhaque! Depressa! Sim, era isso mesmo. Conhaque. Esse era o motivo de sua visita. Conhaque. Selina precisava de conhaque. E ela, que Deus se apiedasse dela, também. – Aqui está. – Ele colocou um frasco nos lábios de Marcelline. – Beba. – Eu nu-nunca fico enjoada – disse ela. – Beba – ordenou ele. Ela bebeu, recebendo com prazer o fogo que lhe descia pela garganta. Se lhe esfolasse as entranhas, ótimo. Pensou que fosse melhorar, mas o chão se inclinou, ela deslizou e tropeçou. Desta vez, os braços dele já estavam ao redor dela. – Não – disse ela. – Eu vou… eu vou… – Saunders! Alguma coisa foi colocada na frente dela. Um balde. Ótimo. E então ela vomitou, o corpo dobrado, tão enjoada que não enxergava direito. A cabeça tombou e os joelhos lhe faltaram. Enjoada, tão enjoada. Alguém a segurava. Homens falavam acima de sua cabeça. A voz dele. A de outro homem. Ela foi colocada sobre algo macio. Uma cama. Oh, que sensação gostosa. Deitar-se. Ficaria ali só por um instante, enquanto o navio subia e descia, balançando de um lado para o outro. Mas não. Ela não tinha tempo para isso. Alguém enfiou um travesseiro sob sua cabeça e a cobriu com um cobertor. Uma sensação maravilhosa. Mas ela não podia se sentir bem. Precisava se levantar. Era Selina quem precisava de ajuda. Mas, se ela se movesse, ficaria enjoada outra vez. Preciso ficar bem quietinha. Impossível, com o navio oscilando daquele jeito. Lentamente, a embarcação se inclinou para cima e, logo em seguida, inclinou-se para baixo. Durante todo esse tempo, os terríveis sons; cordas, madeiras rangendo e chiando, como se todas as almas dos afogados estivessem subindo para cumprimentá-los. De longe, vinham os sons dos passageiros chorando e gritando. E, por cima de todo o barulho do navio, ela ouvia o som furioso da tempestade e do vento uivante. O inferno, pensou ela. O Inferno de Dante. Ou aquela outra coisa. Não era um poema, mas um quadro com o inferno. Maldição, o que havia de errado com ela? Não podia ficar deitada ali, pensando em quadros. – Não. – Ela mal conseguia formar as palavras. – Eu não. Minha… minha… co-costureira. – Sua criada? – A voz dele era tão calma. Passava tanta segurança. – Selina. Ela está muito mal. Conhaque. Vim buscar… conhaque. Mais vozes, acima dela, por todos os lados. Ao longe, ouviu gritos e clamores. O mundo subiu, desceu, e desceu, e desceu. Não me deixe ficar enjoada de novo. Não me deixe ficar enjoada de novo.


Alguma coisa gelada e úmida tocou seu rosto. – Saunders vai cuidar de sua criada – disse a voz conhecida. – Não a deixe morrer – implorou. Ou, talvez, não. Sua voz soava tão distante, tão fraca, diante do clamor infernal ao redor. Inferno, pensou mais uma vez. Era o inferno que os justos tanto proclamavam. O Inferno das pinturas. – As pessoas não costumam morrer por causa de enjoos – afirmou ele. – Elas apenas desejam morrer – disse ela. Um barulho diferente. Uma risada? Era a voz dele, baixa e próxima. Atrás, em volta e acima dela, sons terríveis como a morte. Um gemido longo e prolongado, algo se quebrando, um crac. O navio… se abrindo… – Não podemos afundar – disse uma voz. Teria sido ela mesma? Não fale. Fique deitada, em silêncio. Não se mexa. Não respire. – Não vamos afundar – garantiu ele. – Está difícil, mas não vamos afundar. Olhe aqui, engula isso. Ela moveu a cabeça de um lado para outro. Foi um erro. A bile subiu. – Não consigo. – Só uma gota. – Ele tentou persuadi-la. – É láudano. Vai ajudar. Juro. Ela não conseguia levantar a mão, não podia sequer abrir os olhos. O mundo girava e girava, subindo e descendo, jogando-se de um lado para outro. Onde estou? Clevedon levantou a cabeça de Marcelline com cuidado. Seria mesmo ele? Ou seria ela dando remédio para Lucie? Lucie, Lucie. Mas Lucie estava longe de tudo aquilo. Estava segura, em Londres, com as carinhosas tias, que só a mimavam. Lucie estava em segurança, pois sua mãe e tias haviam se transformado em três bruxas, que preparavam poções para mantê-la viva. Elas não haviam lutado tanto para, no fim, Lucie ficar órfã só porque a mãe dela cometera um erro idiota. Um erro em forma de homem. Mais de um 1,80 metro e selvagemente arrogante… Ah, aquelas mãos lindas e enormes. – Um pouquinho mais – disse ele. – Mais uma gota. Tome seu remédio. Melhore. Volte para Lucie. Ela engoliu o remédio. Tão amargo… – Horrível – disse ela. – Horrível. – Eu sei, mas ajuda. Confie em mim. – Confiar no senhor? Ha-ha. – Estou vendo que a senhora não está morrendo. – Não. O diabo não vai me levar. De novo, a risada abafada. – Então estamos todos salvos. Ela não estava salva. A tempestade se enfureceu e o navio subiu, desceu e foi levado de onda em onda. Ela já estivera em mares bravios. Sabia que aquela tempestade era das piores e que não estava nem um pouco a salvo. Entretanto, embora sua mente soubesse disso, seu coração entendia as coisas


de outra maneira: a voz dele, seu surpreendente toque macio e a calma de sua presença. Reconfortante. Quanta ironia! – Ah, e está sorrindo – acrescentou ele. – O ópio já está começando a fazer efeito. Já? Teria ela adormecido? Marcelline perdera a noção do tempo. – Não, é o senhor – disse ela. Sua própria voz parecia distante, como se tivesse viajado para Londres antes dela. – A sua autoconfiança ducal. Tudo vai dar certo em sua vida. Até a chuva provocada por Satã em pessoa. – A senhora, sem dúvida alguma, está melhorando. Frases completas de escárnio. – Sim. Melhor. As entranhas dela pareciam estar se acalmando. Mas sentia a cabeça muito pesada. Ela abriu os olhos, o que foi uma tarefa difícil. Ele estava inclinado sobre ela. A luz era fraca demais para a identificação de detalhes e nada parecia ficar parado. Os olhos dele eram profundas sombras no rosto. Mas ela sabia que eram verdes. Verdes como jade. Ou seria como o mar? Uma cor que poucas mulheres usariam com sucesso. Uma cor a que poucas mulheres resistiriam… nos olhos de um homem. Ela fechou os olhos outra vez. Sentiu um pano frio tocar a testa. Tão suave. Uma sensação que ela não conseguia identificar a invadiu. Então, ela se deu conta: estava protegida. Abrigada. Segura. Que piada! – Estranho – disse ela. – Sim – respondeu ele. – Sim. O mundo ficou mais pesado e mais escuro. Então, tudo desapareceu.

Clevedon não sabia quanto tempo tinha durado a tempestade. Ele acordou em um quarto que balançava de um lado para outro e ouviu um clamor de vozes, uma tempestade estrondosa e uma embarcação que rangia. Também se sentira um pouco enjoado, mas seu estômago era forte – como inúmeras bebedeiras poderiam comprovar. A primeira coisa que lhe veio à mente fora Noirot, em algum lugar daquele navio. Estava prestes a ir até a cabine dela, com um remédio na mão, quando ela cruzou a porta. Desde então, não tivera tempo para se sentir mal nem de se preocupar com quem quer que fosse. Marcelline estivera bastante doente e delirante. Tão diferente de seu estado normal. Ela era forte, até em excesso, e a mudança quase o fizera entrar em pânico, antes que sua mente inquieta percebesse. Aquilo não passava de enjoo, disse ele a si mesmo. O delírio devia fazer parte do quadro – ou podia ser consequência do pouco sono e das refeições corridas, graças à sua louca pressa de fugir dele.


Clevedon não era médico e não estava acostumado a servir de enfermeiro. Lembrou-se de que Longmore e ele haviam sobrevivido à epidemia de cólera no continente e que ele aprendera alguns princípios básicos observando os médicos que tiveram algum sucesso combatendo a doença. Mas aquilo não era cólera. Era apenas enjoo e não havia nada com que se preocupar. Quando a tempestade cedesse, ela ficaria melhor. Se o navio não afundasse. Por outro lado, ele precisava que Marcelline se alimentasse e, principalmente, ingerisse líquidos – algo difícil de ser feito, uma vez que ela não conseguia manter nada no estômago. O conhaque deve ter ajudado um pouco, mas o láudano foi mais eficaz. Ela ficou fora de si parte do tempo, sussurrando coisas sobre bruxas, MacBeth, anjos e demônios, até que se calou. Quando enfim adormeceu, Clevedon se permitiu suspirar aliviado. Sentado na beira da cama, ele lavava o rosto dela de vez em quando com um pano molhado. Não sabia se era realmente uma boa medida, mas precisava fazer alguma coisa. Sem dúvida, Saunders saberia o que fazer, mas ele estava cuidando da criada – ou costureira –, ou o que quer que fosse. Tramoia, seu nome é Noirot. Manipuladora e ardilosa, indigna de confiança. Se ele tivesse confiado nela, não teria colocado um espião para vigiá-la, não a teria seguido desde Paris e não estaria naquela maldita embarcação, naquela chuva dos infernos. A falta de confiança, porém, não justificava seu comportamento descuidado. Ele não tinha desculpas. Marcelline não era uma mulher linda, principalmente agora. À luz sombria, parecia mais um fantasma. Ele mal acreditava que aquela era a mesma criatura vibrante e impetuosa que havia montado nele na carruagem e o beijado feito uma louca. Clevedon afastou a mecha de cabelos molhada da testa dela. Terrível, uma mulher terrível.

Marcelline acordou e percebeu que a luz era fraca. Primeiro, pensou que havia morrido e flutuava em direção a outro mundo. Aos poucos, percebeu que o navio balançava, mas não da maneira descontrolada de antes. Acabou. A chuva havia passado. Eles sobreviveram. Então, percebeu o peso e o calor que pressionavam suas costas. Seus olhos se arregalaram. Diante dela, só o vazio. De repente, ela se lembrou: a visita desesperada à cabine de Clevedon, o enjoo insuportável que tomara conta dela… conhaque… láudano… as mãos dele. Aquela não era sua cabine, não era sua cama. Estava na cama dele. E, julgando pelo tamanho do corpo esticado ao lado dela, no beliche estreito, Clevedon estava deitado ao seu lado. Oh, perfeito. Ela tentou se virar, mas ele estava deitado sobre a saia do vestido, prendendo-a.


– Clevedon. Ele murmurou algo e se moveu, passando um braço por cima de Marcelline. – Vossa Graça. Ele a apertou, trazendo-a para mais perto. Como ela gostaria de poder se acomodar ali, com as costas moldadas àquele corpo forte e quente, um braço forte abraçando-a com segurança. Mas ela não estava segura. Quando ele acordasse, estaria no mesmo estado que os homens ficam quando acordam, e ela não confiava em sua própria força de vontade para resistir à tamanha tentação. Com o cotovelo, ela cutucou as costelas dele. – Hã? – A voz dele ficou baixa e grossa de sono. – O senhor está me amassando. – Verdade – disse ele, acomodando a cabeça no pescoço dela. Marcelline estava desesperadamente consciente da ereção dele, o grande falo ducal acordado antes de o cérebro despertar. – Saia – ordenou ela. – Saia. Agora. Antes que seja tarde demais e eu decida comemorar, da maneira tradicional de nossa espécie, o fato de termos escapado da morte. – Noirot? – Sim. – Então, não foi um sonho. – Não. Saia. Ele murmurou alguma coisa em um tom de voz baixo demais para ela entender, mas se afastou. Ela se virou. A cabeça girava. Teve que lutar para não perder o equilíbrio. Clevedon ficou de pé, ao lado do beliche, olhando para ela. A sombra de uma barba escurecia seu rosto e ele estava com uma expressão zangada. Ela se levantou da cama. E caiu de novo sobre ela, segurando a cabeça. – Isso não foi muito esperto de sua parte. A senhora esteve doente. Só ingeriu uma sopa de aveia fria e um pouco de vinho. – Eu comi? – Não se lembra? Ela balançou a cabeça, negando. – Não sei o que era real ou não. Sonhei que estava em Londres. Depois, não estava mais. Encontrava-me no fundo do mar, olhando para cima, para o fundo do navio. – Por um instante, ela reviveu todo o desespero da noite anterior. Eu me afoguei. Jamais voltarei a ver Lucie. Por que saí de Londres? – As pessoas se debruçavam na amurada para me ver. Faziam gestos e pareciam dizer alguma coisa, mas eu não conseguia entender. O senhor estava lá… muito zangado. Por mais estranho que parecesse, aquela fora a parte mais reconfortante do sonho. – Essa parte é bem real. A senhora testou a minha paciência até o limite. Não estou acostumado a bancar o enfermeiro e seu comportamento não facilitou em nada a minha função, movendo-se de um lado para o outro como uma louca.


– É por isso que estava deitado em cima de mim? – Eu não estava deitado em cima de ninguém. Pelo menos não de propósito. Eu peguei no sono. Quase não dormi antes de a tempestade começar. Aí, a senhora entrou de repente e decidiu passar mal em minha cabine. – Eu não decidi passar mal… embora, pensando bem, fosse uma boa ideia. Queria ter pensado nisso. Vim pedir ajuda… para Selina. Só estava um pouco tonta… mas então… alguma coisa aconteceu. – Ela balançou a cabeça. – Eu nunca enjoo. Eu não devia ter enjoado. – Sua sorte foi eu estar aqui. A senhora tem muita sorte por eu ser um homem paciente, pois é uma doente muito difícil. Eu a teria jogado para fora do navio, mas a tripulação fechou as escotilhas. Ela se forçou a se sentar, dessa vez com mais calma e mais devagar. Sua cabeça latejava. Ela a segurou. – É melhor não se levantar – avisou ele. Ela se lembrou da paciência de Clevedon, de seu toque suave. Lembrou-se da sensação, tão rara que mal pôde reconhecê-la: a sensação de estar abrigada, protegida e cuidada. Quando fora a última vez que alguém cuidara dela? Por certo os pais não o fizeram. Eles jamais hesitavam em abandonar as filhas quando elas se tornavam inconvenientes. Voltavam, meses depois, esperando que aquelas mesmas crianças os recebessem de braços abertos. E nós o fazíamos, lembrou Marcelline. Ingênuas e tolas, nós o fazíamos. Se mamãe e papai estivessem ou não por perto, era sempre Marcelline, a mais velha, quem cuidava de todos, pois não se podia confiar em mais ninguém. Até depois que se casara. Mas o que ela poderia esperar, tendo se casado com alguém de sua própria espécie? Pobre e imprestável Charlie! Clevedon não era o tipo de pessoa com a qual ela convivia. Era de uma espécie totalmente diferente. Ela se lembrou das mãos dele em suas costas, guiando-a para o abrigo de sua bem provida carruagem. Uma mulher poderia ser facilmente mimada por um homem rico e poderoso. Muitas eram. Mas ela não podia se dar a esse luxo. – Eu… sinceramente agradeço por enfrentar esta terrível situação de cuidar de mim. Mas preciso voltar, antes que alguém perceba onde eu estava. – Quem a senhora acha que notaria ou se importaria? – indagou ele. – Atravessamos uma tempestade bestial. As pessoas passaram horas vomitando, correndo e gritando. Duvido que a maioria delas, mesmo agora, saiba onde esteve esta noite. – Ele olhou ao redor. – Esta manhã, na verdade. A essa hora todos estarão morrendo de fome, pensando apenas em achar algo para comer. Sua cabeça está doendo porque a senhora deve estar com fome. – Ele fez uma careta. – Ou talvez eu tenha lhe dado láudano em excesso. Não tinha certeza de qual era a dose certa para uma mulher. Que sorte a sua eu não tê-la envenenado. – Clevedon… Ela estremeceu. O ato de falar lhe provocava dor. – Não se mexa. Vai ficar enjoada outra vez e estou cansado disso. – Ele se afastou do beliche. – Vou mandar um dos criados pegar alguma coisa para alimentá-la. – Pare de tomar conta de mim! Ele se virou para olhar Marcelline de frente.


– Deixe de agir como criança. Está com medo de que eu faça algo com a sua comida para seduzila? Pense bem. Já se olhou no espelho ultimamente? E me permita lembrar-lhe de que fui eu quem ficou segurando a sua cabeça quando estava passando mal na noite passada. Essa não foi a situação mais excitante que vivi. Na verdade, nem sei mais o que vi na senhora. Só quero alimentá-la para que esteja bem e saia da minha cabine e da minha vida. – Eu também desejo estar fora de sua vida. – Claro – respondeu ele. – Até chegar a hora de eu pagar as contas dos vestidos da minha duquesa. – Sim – disse ela. – Exatamente. – Ótimo. Para mim está bom assim. Ele abriu a porta e saiu, batendo-a com força.

Quando o navio ancorou, Marcelline teve vontade de gritar. A tempestade tirara a embarcação do rumo. Assim, uma viagem de doze horas havia durado mais de vinte. As anunciadas refeições tinham terminado, os funcionários do navio estavam exaustos e o humor dos passageiros era terrível, assim como o cheiro. Mesmo acima do convés, em plena brisa marítima, era impossível não perceber as evidências de que muitas pessoas haviam estado confinadas em uma área pequena demais, por tempo longo demais. Casais discutiam uns com os outros e brigavam com os filhos, que choravam sem parar e provocavam brigas com os irmãos. Naturalmente, todos estavam loucos para desembarcar e tentavam fazê-lo ao mesmo tempo, empurrando, gritando e até mesmo chutando. Embora ansiasse por sair do navio, Marcelline resolveu esperar. Ela declinou da ajuda dos funcionários, que estavam loucos para auxiliá-la com seus pertences, convencendo-os a voltar mais tarde. Embora se sentisse muito melhor, ainda não se recuperara por completo. Além disso, Selina continuava enfraquecida, pois sua onda de enjoo fora muito mais intensa. Não fazia sentido suportar o empurra-empurra, a pressa, o mau humor e, acima de tudo, as crianças choronas. Marcelline queria sua filha. Lucie não era nenhum anjo, mas não choramingava. E quando a mãe a surpreendesse, voltando para casa uma semana antes, essa mãe estaria sorridente e feliz. Ela estaria sorridente e feliz, Marcelline prometeu a si mesma, assim que a multidão se dissipasse e ela pudesse ter um momento de paz para se aprumar. Clevedon já devia estar longe. Ele não teria que tirar ninguém de seu caminho. Seus criados fariam isso em seu lugar – não que fosse necessário. Quando ele aparecia, as pessoas simplesmente abriam passagem. – Abram caminho, abram caminho! Ela olhou para cima. Um lacaio alto e corpulento vinha em sua direção, seguido por um segundo lacaio. O uniforme que usavam lhe era bem familiar.


O primeiro deu uma cotovelada em um indignado funcionário da embarcação, caminhou a passos largos até ela e fez uma reverência. – Sua Graça gostaria que permitisse levá-la em casa, junto com a Srta. Selina. Ele sabe que a Srta. Selina está bastante doente e não gostaria de deixá-la usar um transporte público, muito menos ser empurrada por esse infern… essa multidão. Se as damas, por favor, puderem nos seguir, Joseph e eu as levaremos até o oficial da alfândega e, em pouco tempo, ambas estarão na carruagem que se encontra logo ali, na esquina. Enquanto falava, ele ia pegando os pertences delas, colocando uma das malas sob um dos braços e outra sob o outro. Seu colega carregou os outros objetos, ignorando os protestos dos funcionários do navio, a quem substituíram e impediram que ganhassem gorjetas. Tudo aconteceu tão depressa que Marcelline não teve tempo para decidir se deveria recusar. Ela mal entendera o que eles queriam quando Thomas e Joseph já se afastavam com sua bagagem.

O caminho até a loja, na rua Fleet, silencioso durante a maior parte do tempo, parecia interminável. A primeira coisa que Selina fez quando se acomodou na carruagem, ao lado de Marcelline, de frente para o duque, foi agradecer a ele por enviar Saunders para cuidar dela quando passou mal. Ele deu de ombros. – Saunders gosta de bancar o médico. Não há nada de que goste mais do que preparar poções repugnantes para curar os efeitos dos prazeres excessivos. Sem dúvida, essa é sua maneira sutil de nos punir por manchar de vinho as nossas roupas. – Ele foi muito gentil – disse Selina. – Isso é uma novidade – comentou Clevedon. – Em geral, ele não é. E nada mais foi dito, do porto até o alojamento de Selina. Uma curta caminhada separava aquele ponto da loja. De carruagem, o caminho era mais complicado. A cabeça de Marcelline estava funcionando a mil, procurando, como sempre, uma maneira de virar a situação a seu favor. O que ele havia dito antes de bater à porta da cabine? Dissera algo sobre pagar as contas da costureira. Que para ele estava bom assim. Mas parecia tão zangado. O camareiro aparecera com uma garrafa de vinho e algumas carnes frias, além de queijo, que deviam ter custado os olhos da cara. Uma mulher poderia, sem dificuldades, acostumar-se a tamanho luxo. Mas não ela. – Não consigo decidir – disse Marcelline – se o senhor está exercitando a paciência ou apenas curioso para ver onde eu moro. – Por que eu faria qualquer uma dessas coisas? – indagou ele.


Querendo demonstrar o quanto estava à vontade, Clevedon esticou as longas pernas, apoiou um braço nas costas do assento ricamente decorado e olhou para fora da janela, cujas persianas permitiam que ele enxergasse o que se passava sem ser visto. Não que a identidade dele fosse um segredo, pois o brasão talhado na porta gritava-a para o mundo inteiro. A luz do fim de tarde tracejava as linhas suavemente esculpidas do perfil do duque. O desejo foi aceso. Tocar o rosto lindo dele. Sentir aquele braço pousar em seus ombros. Esconder-se naquele corpo grande e quente. Mas Marcelline se controlou. – Ou talvez o senhor tenha sentido pena de nós duas. – Foi sua criada, ou costureira, ou o que quer que ela seja, que me deu pena – disse ele. – A senhora sabe cuidar de si mesma. Não tenho a menor dúvida quanto a isso. Mas Saunders me disse que a moça estava muito mal. Houve um momento em que ele não teve certeza de que ela chegaria viva ao fim da viagem. Mesmo agora, ela não está com uma aparência muito boa. – Ele fez uma pausa breve. – Ela não mora na sua casa? – Morou por algum tempo. Mal posso acomodar minhas costureiras. Em primeiro lugar, não é bom para elas ficarem sem fazer nada, apenas comendo, bebendo e não tendo uma vida fora da loja. Em segundo lugar, não há espaço. Não que eu precise de meia dúzia de costureiras dia e noite. As horas de trabalho já são árduas demais, e ainda há o ciúme entre elas e… – Meia dúzia? – Ele se espantou, inclinando-se para a frente. – Meia dúzia?

Ele estava surpreso demais para fingir o contrário. Sim, é claro que ela havia mencionado que sua loja ficava na esquina da rua Fleet, em Chancery Lane, e aquela era a direção que ela dera ao cocheiro, mas isso não queria dizer que a loja ficava apertada em alguma passagem ou adega. – Meia dúzia de moças no momento. Mas é claro que vou ter que contratar mais num futuro próximo. Do jeito que está, já precisamos de mais ajudantes. – Meia du… Que diabo há de errado com a senhora? – Vossa Graça já enumerou muitas falhas do meu caráter. A qual delas está se referindo no momento? – Eu pensei que… Noirot, a senhora é a mulher mais detestável que já conheci. Sua perseguição obstinada a mim me levou a pensar que estivesse em uma situação desesperadora. – Por que cargas-d’água o senhor chegou a essa conclusão? Eu disse que era a maior modista do mundo. O senhor viu o meu trabalho. – Imaginei uma lojinha escura em um porão. Fiquei até me perguntando como conseguia fazer vestidos tão luxuosos em um lugar desses. – Tenho certeza de que o senhor não se preocupou com isso o tempo todo. Sua maior


preocupação era me levar para a cama. – É verdade, mas essa fase já passou. E passara mesmo. De verdade. Ele já estava cansado dela. Estava cansado de si mesmo, de persegui-la. Como um cachorrinho, como um menino tolo. – Fico feliz em ouvir isso – disse ela. – Só estou pensando em Clara – afirmou Clevedon. – Por mais que me doa contribuir com a sua presunção, ficou claro, até mesmo para mim, que as mulheres de Paris ficaram embevecidas com seu trabalho. A senhora é a pessoa mais desagradável que conheci, mas percebi que se torna agradável às mulheres e ouso dizer que é mesmo fundamental ter roupas bonitas e elegantes. Não vou guardar nenhuma mágoa. O rosto cansado de Marcelline se iluminou, seus olhos brilharam. – Eu sabia. Sabia que o senhor enxergaria. – Mesmo assim, não confio na senhora. Algo brilhou nos olhos dela, mas Marcelline não disse nada. Apenas esperou, fixando a atenção nele. Ela estava fixada nele – por causa da loja. Era apenas um meio para alcançar um objetivo. Mas ele menosprezava ressentimentos, principalmente por um motivo bem fútil: sua vaidade! – Eu queria ver o lugar por mim mesmo. Para ter certeza de que realmente existe e ver que tipo de lugar é esse. Pelo que eu sabia, a senhora estava labutando sozinha em um porão escuro. – Meu Deus, como é a cabeça de um homem – alfinetou ela. – Como o senhor acha que eu poderia produzir aquelas criações num…? Bem, não importa. A Maison Noirot é uma loja muito requintada. Tudo é, à primeira vista, extremamente elegante, claro e arejado. É muito mais limpo e elegante do que o covil daquela incompetente e tediosa… mas não, não vou manchar o ar com o nome dela. Clevedon não tinha mais nada a ver com ela. Precisava não ter mais nada a ver com ela. Mas agora, quando ela falava de sua loja, parecia tão animada. Tão apaixonada. – Sinto o cheiro de uma rival. Ela se ajeitou no assento. – Por certo que não. Não tenho rivais, Vossa Graça. Sou a maior modista do mundo. – Ela inclinou o corpo para olhar pela janela aberta. – Estamos quase lá. Logo o senhor verá por si mesmo. Não foi tão logo quanto deveria ter sido, uma vez que a rua era um emaranhado de carruagens, cavaleiros e pedestres. Mas acabaram chegando e ali estava o lugar, uma loja bonita e moderna, com uma vitrine em arco e o nome em letras douradas, acima da porta: Noirot. A carruagem parou, a porta se abriu. Os degraus foram desdobrados. Clevedon saiu primeiro e estendeu a mão para ajudá-la. No instante em que pegou na mão dele, Marcelline ouviu um grito. Ela olhou para cima, para adiante dele, e a luz que ele vira em seu rosto não era nada comparada à que o iluminava agora. Seu semblante era o sol, derramando felicidade e iluminando o mundo. – Mamãe! – gritou uma voz. Noirot praticamente pulou do último degrau e pareceu se esquecer dele completamente. Ela se agachou no passeio, abriu os braços e uma linda menininha de cabelos escuros correu para aquele


abraço. – Mamãe! – gritou a criança. – Você voltou!


Capítulo sete A modista deve ser uma especialista em anatomia; e deve, se escolhido com prudência, ter um nome de terminação francesa; ela deve saber como esconder todo e qualquer defeito das proporções do corpo e deve ser capaz de moldar a forma através do corselete e, ao mesmo tempo que corrige o corpo, ela não pode interferir nos prazeres do paladar. Guia do comércio inglês, 1818.

Uma filha. Ela era mãe. Uma menininha de cabelos escuros e cacheados que correu até ela, rindo. Os braços de Noirot a rodearam, para que ela ficasse bem perto. – Meu amor, meu amor – dizia ela e a maneira como o fez criou um nó no peito do duque. Ele percebia ao longe outras vozes femininas, mas sua atenção estava presa àquela cena: Noirot agachada na calçada, apertando a menina, trazendo-a para bem perto. A criança, cujo rosto ele podia ver claramente por cima dos ombros da mãe, estava de olhos fechados, o brilho da face rosada, a felicidade irradiando-se em ondas quase visíveis. Clevedon não poderia precisar quanto tempo ficou ali, parado, ignorando tudo ao redor: a rua movimentada, as pessoas desviando de mãe e filha abraçadas. Ele pouco notou seus próprios criados carregando os pertences para a loja e, em seguida, retornando para a carruagem. Teve uma vaga ideia da presença de duas mulheres, que saíram da loja atrás da menina. Ele permaneceu ali, observando mãe e filha, porque não conseguia ir embora, porque não entendia e tampouco acreditava no que seus sentidos lhe diziam. Depois de algum tempo, talvez um tempo bem curto, Noirot se levantou e, segurando a mão da filha, começou a caminhar em direção à loja. – Quem é aquele, mamãe? – perguntou a menina. Noirot virou-se e viu o duque parado, como um homem na vitrine de um espetáculo erótico, em êxtase diante de um mundo estranho, incapaz de desviar o olhar. Ele se recuperou e deu um passo na direção delas. – Sra. Noirot, talvez queira ter a gentileza de me apresentar à pequenina dama. A menina olhou para ele, os olhos arregalados. Não eram iguais aos da mãe, mas azuis, vivamente azuis. Pareciam ligeiramente familiares e ele tentou se lembrar do lugar onde poderia ter visto aqueles mesmos olhos. Onde poderia ter sido? Em qualquer lugar. Em nenhum lugar. Não era importante. Noirot olhou para a menina, para ele e de volta para a menina, que perguntou:


– Quem é ele? É o rei? – Não, não é o rei. A menina inclinou a cabeça para um lado, olhando para a carruagem. – Que carruagem grande – disse ela. – Eu ia adorar andar nela. – Não duvido disso – respondeu a mãe. – Vossa Graça, permita-me apresentar-lhe minha filha, a Srta. Lucie Cordelia Noirot. – Me desculpe, mamãe. Esse não é o meu nome. Noirot olhou para a menina: – Não é? – Meu nome é Erroll agora. E-R-R-O-L-L. – Entendi… – recomeçou Noirot. – Vossa Graça, permita-me apresentar-lhe minha filha… – Ela se interrompeu e olhou para a menina, com uma expressão de dúvida. – Você continua sendo minha filha, certo? – Certo – disse Erroll. – É claro que sim, mamãe. – Que alívio saber disso. Já tinha me acostumado com você. Vossa Graça, permita-me apresentarlhe minha filha Erroll. Erroll, o duque de Clevedon. – Senhorita… hum… Erroll – disse ele, fazendo uma reverência solene. – Vossa Graça – disse a menina. Ela também fez uma reverência. Nada tão impressionante quanto o estilo de reverência da mãe, mas gracioso. Ele se admirou com a postura e a serenidade da criança. Então se lembrou de quem era a mãe dela e se perguntou por que se admirara. Uma filha! Marcelline tinha uma filha! Como ela deixara de mencionar uma coisa dessas? Mas o que havia de errado com ele, por estar tão surpreso? A senhora Noirot – e, embora o título de “senhora” fosse usado, cavalheirescamente, por mulheres descasadas donas de lojas, além de atrizes e prostitutas, ele não deveria ter tido como certo que ela não era casada, que não tivesse uma família… um marido… que não parecia estar por perto. Morto? Ou talvez não existisse nenhum marido? Talvez o pai fosse um mero vagabundo, que fez uma filha e a abandonou. – O senhor leva crianças para andar na sua carruagem? – perguntou Erroll, chamando-o de volta à realidade. – Não crianças pequenas. Só as grandes, as que se sentam quietinhas, sem subir nos assentos e estragar as almofadas e sem colocar os dedinhos sujos no vidro. Essas eu não levo, mas as que se comportam bem, que mantêm as mãos no colo e só olham para fora pela janela, sim. Os grandes olhos azuis o examinaram com firmeza. – Eu… – Não, ele não pode – decidiu a mãe. – Sua Graça tem muitas coisas para fazer. Na verdade, tenho certeza de que tem um compromisso em algum lugar, a qualquer minuto. – Tenho? Noirot lançou um olhar de aviso na direção dele. – Sim, é claro. – Ele tirou o relógio do bolso e verificou as horas. Não tinha ideia de que


números os ponteiros marcavam. Estava muito concentrado na menina de grandes olhos azuis, que o olhava com tanta intensidade. – Quase me esqueci. Ele guardou o relógio. – Muito bem, Erroll, foi um prazer enorme conhecê-la. – Sim, eu também gostei de conhecê-lo – respondeu a menina. – Por favor, volte um dia, quando não estiver tão ocupado. Clevedon respondeu de maneira educada e evasiva e foi embora. Em seguida, subiu na carruagem e se sentou. Quando o veículo começou a se mover, ele olhou pela janela. Foi então que, finalmente, tomou consciência da presença de duas outras mulheres, uma loura e uma ruiva. Mesmo a distância através das persianas, percebeu a semelhança familiar, especialmente na maneira como se comportavam. Ele a julgara mal. Havia formado uma ideia errada a seu respeito. A loja não era um buraco em uma esquina, mas um estabelecimento adequado e bonito. A jovem tinha família. Era mãe. Ele não devia confiar nela. Disso tinha certeza. Quanto a todo o resto… Ele a julgara errado, a entendera mal e, agora, sentia-se outra vez no mar. Um mar bem agitado.

– Parabéns! – disse Sophia, quando a porta da loja se fechou às suas costas. – É claro que, conhecendo você, não poderia subestimá-la… – Minha querida – comentou Leoni –, você poderia ter me derrubado com um sopro quando vi o símbolo na porta da carruagem. – E vê-lo surgir de lá de dentro… – … as fotos nos jornais não lhe fazem justiça… – … e quando ele lhe deu a mão para descer… – … por um minuto, pensei que estava sonhando… – … foi como uma visão… – Eu vi primeiro, mamãe. – Lucie, agora Erroll, se intrometeu na conversa das tias. – Estava sentada perto da janela, lendo as minhas lições, quando ouvi um barulho e olhei para fora… e achei que o rei estava passando por aqui. – O rei, com apenas dois criados? – disse Marcelline. – Não poderia ser. – Ah, podia sim, mamãe. Todo mundo sabe que o rei William não gosta de se exibir. Eu fico com pena, também, porque dizem que o rei velho, o rei antes desse… – Ela franziu a testa. – O rei George IV – completou Leonie. – Isso mesmo, esse aí – disse Lucie. – Todo mundo diz que ele era muito mais maravilhoso. A gente sempre sabia quem ele era quando passeava fora do palácio. Mas um duque também é


importante. Ele é muito bonito, como os príncipes das histórias dos livros. Não sabíamos que você ia voltar tão cedo, mas estou feliz porque chegou. Foi muito agradável andar naquela carruagem rica? Os estofados deviam ser altos e macios. – Eram mesmo – confirmou Marcelline. Pelo canto do olho, ela viu dois homens se aproximando da loja. Não seria bom para ela que Lucie a interrogasse sobre o duque de Clevedon na frente dos clientes, mas não era fácil distrair a menina quando se tratava de um assunto fascinante. – Depois vou lhe contar tudo, com todos os detalhes, mas estou louca por uma xícara de chá. Que tal subirmos e você prepara um chá para a mamãe? – Vamos, vamos! – Lucie pulava de alegria. – Vou pedir a Millie que vá até a confeitaria. Estamos tão felizes que você está em casa que vamos fazer uma festa, uma festa maravilhosa, com bolos!

Horas depois, quando Lucie já estava na cama, as irmãs se juntaram no ateliê. Ali, beberam champanhe, para celebrar a volta de Marcelline. Enquanto bebiam, ela descreveu suas experiências com o duque de Clevedon em todos os detalhes mais melodramáticos. Embora as irmãs fossem virgens, pelo menos até onde ela sabia – e Marcelline não podia imaginar por que não lhe teriam contado, caso não fossem –, não tinham uma gota de inocência. De qualquer maneira, seria muito difícil que elas a ajudassem a lidar com as complicações se não compreendessem, integralmente, os acontecimentos de Paris. – Eu sinto muito – disse Marcelline. – Eu havia prometido que não iria misturar as coisas… – E misturou bastante – concordou Leonie. – Mas nenhuma de nós esperaria que ele fosse tão… tão… – Todos diziam que ele era bonito – concordou Sophia. – Mas ele é lindíssimo. Fiquei sem ar. Fico triste por você ter sido obrigada a se conter. Não sei se eu conseguiria. – Mas não é a beleza dele – explicou Marcelline. As duas irmãs a olharam com incredulidade. – É aquele maldito jeito de duque – disse ela. – Esses sujeitos são o diabo em pessoa para serem manipulados. Não estão apenas acostumados a terem tudo o que querem: a possibilidade de qualquer coisa diferente disso não passa por suas cabeças. Eles não pensam do mesmo jeito que as pessoas normais. Além disso, eu não imaginava que fosse tão esperto e sagaz. Mas que tipo de desculpa é essa? Eu devia ter ajustado os meus métodos, mas, por motivos que ainda me deixam perplexa, não o fiz. O fato é que não joguei muito bem minhas cartas e, agora, Sophia vai ter que levar esse erro em consideração. Ela continuou explicando sobre a propaganda que ela e Selina haviam imaginado, logo após a festa da comtesse – que parecia ter acontecido havia um século… antes da chuva… quando ele cuidou dela.


As mãos dele, as mãos… – Vou plantar uma história no Morning Spectacle – disse Sophia. – Mas pode ser tarde demais para sair na edição de amanhã. Valha-me Deus, você não nos deixou com muito tempo. – Vim o mais cedo que pude. O navio quase afundou! – Sophia, seja razoável – disse Leonie. – E pense que, se a tempestade fez o navio deles se atrasar, outros também se atrasaram. O correio chegará tarde. Isso lhe dará quase um dia extra, se tratar do assunto sem delongas… – Não podemos confiar no atraso do correio – retrucou Sophia. – Terei que descobrir onde está Tom Foxe ainda esta noite. Mas isso pode funcionar a nosso favor: uma chamada no meio da noite… uma história sussurrada na escuridão. Vou usar um disfarce e deixá-lo pensar que sou lady Fulana de Tal. Ele não poderá resistir. Teremos a primeira página do jornal, um lugar de destaque. – As damas virão em bandos para ver o vestido – disse Leonie. – Talvez já apareçam amanhã à tarde. Sei, de fontes seguras, que a comtesse de Bartham lê o Spectacle todos os dias. – Então é melhor colocarmos o vestido na vitrine – avaliou Marcelline. – Precisa de reparos. Selina não conseguiu limpá-lo antes que o navio saísse e, depois, ficou doente demais para costurar o corpete. E perdi pelo menos um laço de borboleta. O que mais? Ela coçou a cabeça. – Somos perfeitamente capazes de ver por nós mesmas o que precisa ser feito – disse Leonie. – Vou trabalhar nele enquanto Sophia sai para seu encontro clandestino com Tom. É melhor você ir dormir. – Precisa descansar – disse Sophia. – Teremos um… Ela se interrompeu e Marcelline olhou para cima a tempo de perceber o olhar que Leonie lançou para Sophia. – O quê? – perguntou Marcelline. – O que vocês estão escondendo de mim? – Realmente, Sophia, você precisa aprender a controlar sua língua – comentou Leonie. – Não está vendo que ela está exausta? – Eu não disse… – O que você não me disse? – indagou Marcelline. Uma pausa. As duas irmãs se entreolharam com reprovação. – Alguém está roubando nossos croquis e passando para a Hortence, a Horrorosa – revelou Sophia. Marcelline olhou para Leonie, esperando uma confirmação. – É verdade – disse Leonie. – Há uma espiã entre nós.

Na noite de segunda-feira, lady Clara Fairfax recebeu uma mensagem do duque de Clevedon, informando-a de seu retorno a Londres e de seu desejo de visitá-la na tarde de terça-feira, se ela


achasse conveniente. A família não costumava receber visitas às terças-feiras, mas as regras usuais não se aplicavam ao duque de Clevedon. Primeiro, como tutelado do pai dela, Sua Graça era considerado parte da família; segundo, ele não era melhor do que os irmãos de Clara quando se tratava de seguir regras. Papai proibira Clevedon e Harry de viajar para o exterior havia três anos, devido à epidemia de cólera que se alastrava pela Europa. Eles foram assim mesmo. Como única alternativa, o pai apenas deu de ombros e desejou que Clevedon aproveitasse ao máximo enquanto podia e, como tinha certeza de que Longmore iria fazer besteiras, era melhor mesmo que as fizesse em outro país. Em resumo, o encontro de terça-feira não seria inconveniente para ninguém. Clara sentia saudades de Clevedon, principalmente porque Longmore se comportava de maneira desagradável e precisava, com urgência, de uma reprimenda esmagadora do duque – ou, melhor dizendo, de seu poderoso soco. Mas pessoalmente Clevedon era diferente do Clevedon via correspondência. Agora que ele estava ali, ela já não tinha certeza de estar pronta para ele. Qualquer dúvida ou timidez de sua parte desapareceram no instante em que ele entrou no salão, na terça-feira. Trazia nos lábios o mesmo sorriso afetuoso que ela tanto conhecia, o que a fez sorrir para ele da mesma forma. Ela o amava muito, sempre o amara e sabia que era correspondida. – Meu Deus, Clara, você devia ter me avisado de que havia crescido – disse ele, dando um passo para trás para admirá-la, como costumava fazer quando voltava da escola. – Você deve estar pelo menos 5 centímetros mais alta. Ele não se lembrava. Ela sempre fora uma menina alta e não crescera nada desde a última vez que se viram. Clevedon estava acostumado a lidar com as mulheres francesas, imaginou Clara. Uma observação que ela não teria hesitado em colocar em uma carta, mas que não diria em voz alta, não diante de sua mãe. – Clara está como antes – observou a mãe. – Talvez um pouco mais mulher do que você se lembra. Ela queria dizer mais curvilínea. Por algum tempo, achou que Clevedon havia “fugido” porque Clara era magra demais. Os homens gostavam que as mulheres tivessem alguma carne – e ela jamais teria curvas se não se alimentasse. Na época, não passara pela cabeça dela que vovó Warford havia morrido havia poucos meses e que Clara, ainda de luto, não tinha apetite e não se importava com a opinião de Clevedon sobre sua aparência. Mas muitas outras coisas não passaram pela cabeça da mãe de Clara. Ela havia servido inúmeras bandejas de refrescos e entupido Clevedon com bolo, que ele aceitou por educação, embora ela já devesse saber que ele não gostava muito de doces. E, enquanto o alimentava, soltava o que pensava ser pistas muito sutis sobre os numerosos pretendentes de Clara, com a óbvia intenção de provocar os instintos competitivos do duque. Em sua imaginação, Clara se viu pulando e tapando a boca da mãe, arrastando-a para fora do salão. Um leve sinal de riso escapou dela. Felizmente a senhora estava muito ocupada conversando e não ouviu. Mas Clevedon, sim. Ele lhe lançou um olhar e Clara revirou os olhos. Ele lhe lançou um


leve sorriso conspirador. – Estou aliviado por não ter que abrir caminho pelas hordas de admiradores para chegar até você, Clara – disse ele. – Confesso que ainda estou um pouco cansado, depois que o navio tentou me afogar com tanta determinação. – Meu Deus! – exclamou a mãe. – Li no Times que um navio quase afundou no canal. Você estava nessa embarcação? – Espero, com toda sinceridade, que o nosso tenha sido o único a ser surpreendido por aquela tempestade. Aparentemente, ninguém esperava algo dessa magnitude. – Eu não teria tanta certeza – disse a mãe de Clara. – Eles devem saber de antemão sobre os ventos e coisas assim. Esses navios se arriscam demais, como já comentei várias vezes com Warford… Quando ela fez uma pausa para respirar, Clevedon continuou: – De fato, estou feliz por respirar o ar da Inglaterra de novo. Vim até aqui hoje porque acordei desejoso de dar uma volta no Hyde Park em um veículo aberto. Se a senhora nos der sua permissão, talvez eu possa persuadir Clara a me acompanhar. A mãe lançou um olhar triunfante sobre a filha. O coração de Clara começou a bater com força. Ele não pode estar pensando em me pedir em casamento. Ainda não. Mas por que não? E por que ela estava tão aterrorizada? Eles sempre estiveram destinados a se casar, certo? – Seria um prazer imenso – respondeu Clara.

– Um desenho original! – gritou lady Renfrew. Ela empurrou o vestido de baile, que estava sobre o balcão da loja, na direção de Marcelline. – A senhora me garantiu que era um modelo original, sua própria criação. Como é possível lady Thornhurst achar um vestido exatamente igual? E agora, o que vou fazer? A senhora sabe que eu pretendia usá-lo esta noite, na festa da Sra. Sharp. A senhora não vai querer que eu o use agora, vai? Lady Thornhurst também irá… e reconhecerá o vestido. Todos o reconhecerão! Ficarei mortificada. E agora não há tempo para fazer outro. Serei obrigada a usar o cor-de-rosa, que todo mundo já viu. Mas o ponto não é esse, o ponto é que a senhora me garantiu… Um barulho atrás dela a interrompeu. Ela se virou, indignada, na direção do barulho. Mas sua irritação desapareceu em um instante, dando lugar à surpresa. – Deus do Céu. É esse? A sempre esperta Sophia, muito esperta. Ela havia se distanciado daquele acesso de raiva, encaminhando-se para o outro lado da loja. Ali, um manequim exibia o vestido que Marcelline usara no baile da condessa. Sophia tropeçara em um banquinho, “acidentalmente”. – Como disse? – indagou Marcelline, de maneira inocente. Ela não estava certa do que Sophia fizera a Tom Foxe. Talvez fosse melhor não saber. O


importante era que a história do vestido da Sra. Noirot e de sua valsa com o duque de Clevedon no baile mais exclusivo da temporada em Paris aparecera na edição daquela manhã do Morning Spectacle. Lady Renfrew, pelo visto, era leitora do jornal, pois afastou-se do balcão para ver de perto o famoso vestido poussière. Quando entrara na loja, o rei em pessoa poderia estar lá, contando suas piadas de marinheiro prediletas, e ela nem teria percebido. Estava histérica demais para prestar atenção em qualquer outra coisa que não fossem as próprias reclamações e Marcelline, a causa ostensiva de todas elas. – É este o vestido que a senhorita usou em Paris, Sra. Noirot? Marcelline confirmou. Lady Renfrew o examinou. Marcelline e Sophia trocaram olhares. Elas sabiam o que a dama estava pensando. As pessoas mais especializadas da capital mundial da moda haviam admirado aquele vestido. Sua criadora não estava em Paris, mas a poucos centímetros dela, atrás do balcão. As irmãs deram um tempo para lady Renfrew estudar o traje. Ela era rica e tinha bom gosto – o que não era o caso de todas as clientes da loja. Era uma mulher socialmente ambiciosa, algo que elas compreendiam bem, pois também eram. Depois de perceber que as meditações de lady Renfrew sobre o vestido já a haviam deixado mais calma, Marcelline perguntou: – Era exatamente igual? Lady Renfrew virou-se de novo para ela, ainda parecendo um pouco aturdida. – O que disse? – O vestido que lady Thornhurst usava era precisamente igual a este? Marcelline passou a mão sobre o belo vestido verde que jazia, rejeitado, sobre o balcão. Lady Renfrew voltou ao balcão e observou o vestido. – Não exatamente. Agora que estou vendo direto, o dela não era tão… tão… Ela se interrompeu, gesticulando sem saber como completar a frase. – Se a senhora me perdoar por falar sem rodeios, aposto que o outro não era tão bem-feito – disse Marcelline. – O que a senhora viu era uma mera imitação, de confecção inferior. Sinto muito em dizer isso, mas esse não é o primeiro caso que chega aos nossos ouvidos. – Há uma terrível falsificação acontecendo no momento – disse Sophia. – Não conseguimos descobrir ainda o que está acontecendo… mas esse problema não é da senhora. A senhora precisa de um vestido deslumbrante para o baile hoje à noite… e ele não pode, de maneira nenhuma, ser parecido com o de outras mulheres. – Vou refazer este vestido – prometeu Marcelline. – Quando terminar, ninguém poderá achar a mais remota semelhança com a coisa que lady Thornhurst usou. Eu uso a palavra coisa, madame, porque seria uma vergonha para qualquer modista que se preze chamar essas abominações de vestidos. A sineta da loja tocou. Nem Marcelline nem Sophia olharam na direção da porta. Lady Renfrew era sua melhor cliente


até o momento. Todo o mundo delas – a sua própria existência – girava em torno de lady Renfrew. Ou, pelo menos, devia parecer que sim. – Levarei o vestido até sua casa às sete da noite, quando faremos quaisquer ajustes que forem necessários – prosseguiu Marcelline. – O vestido ficará perfeito. – Absolutamente perfeito – confirmou Sophia. Lady Renfrew não estava ouvindo. Como não era uma lojista temerosa de perder sua cliente mais famosa, ela olhou para a porta e congelou. – Bem, aqui estamos nós. – disse uma voz profunda e familiar. – Você pode ver por si mesma, minha querida. E, veja só, ali está o vestido. E o duque de Clevedon deu uma gargalhada.

O coração dele batia de maneira irregular. Ele havia aberto a porta e tentado manter a atenção em Clara, mas não fora possível. Estava falando com ela, tratando aquela visita à loja como uma continuação da brincadeira em que transformara todo o episódio Noirot. Entretanto, não conseguia evitar que seu olhar varresse a loja e ignorasse tudo, até encontrar o que estava procurando. Noirot estava atrás do balcão, lidando com uma cliente que parecia contrariada e, de início, não olhou para a porta. Nem a loura que estava ao lado dela, que parecia ser da família. Ele logo desviou o olhar, passou pela cliente contrariada e viu o manequim usando o vestido. Como poderia se esquecer daquele vestido dos infernos? Teve que rir, pois Noirot havia feito exatamente o que prometera. Ela havia assumido o controle do mexerico antes que se espalhasse, usando-o em seu próprio benefício. Saunders havia lhe trazido a edição do dia do Morning Spectacle. Ali estava ela, tão chamativa que era impossível ignorá-la: a versão de Noirot para os eventos, com toda a sua audácia – e não muito diferente da propaganda jocosa que criara enquanto voltavam do baile. Ele se lembrou do tom da voz dela quando chegou à última parte: Sempre imitada, mas nunca superada, a Sra. Noirot pode reivindicar a distinção de ter valsado com um duque. Os cabelos negros e sedosos da Sra. Noirot estavam, como de costume, ligeiramente desgrenhados, de maneira a parecerem elegantes e vistosos, mas nunca de fato descabelados, sob uma renda esvoaçante e delicada, que parecia formar um casquete. Seu vestido era um mar revolto de espuma, enfeitado com um intrincado bordado verde. Um tipo de manto de renda flutuava ao redor de seu pescoço e ombros, presa por dois laços do mesmo tom de verde do bordado. Ele assimilou tudo aquilo com uma única olhadela, antes de se forçar a desviar os olhos –, mas de que adiantava desviar os olhos quando eles só precisavam de um segundo para gravar a imagem dela em sua mente? – Deus do Céu – disse Clara, chamando a atenção dele de volta para a noiva, de volta para o vestido cor de areia com laços vermelhos e renda preta. – Isso é… um tanto ousado, não?


– Eu não entendo nada dessas coisas – respondeu Clevedon. – Só sei que todas as damas do baile da comtesse de Chirac queriam esse vestido… E elas eram as líderes da sociedade parisiense. Não me surpreenderia se pelo menos uma delas viesse a Londres. Ah, mas ali está ela. Diante das circunstâncias, ele havia feito um trabalho crível de fingir que não estava olhando para Noirot pelo canto do olho, enquanto todo o seu ser tinha consciência de cada movimento que ela fazia. Clevedon percebeu quando ela saiu de trás do balcão e se aproximou do casal, parecendo não ter a mínima pressa. Ela trouxe consigo um leve rastro de perfume, tão familiar que a lembrança provocou nele uma dor: o cheiro dela rodeando-o enquanto dançavam a valsa, quando ela o beijou, quando ela sentou em seu colo dentro da carruagem. Ele tentou imaginá-la doente no navio, mas isso só o fez sentir uma dor ainda maior. Por um instante, ela estivera vulnerável. Por um instante, precisara dele. Por um instante, ele fora importante para ela – ou, pelo menos, acreditou ser. Enquanto isso, ela trazia no rosto um sorriso, um sorriso profissional, e sua atenção estava em Clara, não nele. Ele a apresentou a Clara e, ao dizer as palavras “lady Clara Fairfax”, um suspiro agudo emanou da cliente contrariada, que, é claro, fora relegada aos cuidados da loura. Noirot fez uma reverência. Nada parecido com aquele movimento ousado do baile, mas uma mesura leve, educada e graciosa, com a dosagem certa de deferência para a ocasião. – Pensei que lady Clara gostaria de estar entre as primeiras a ver seu vestido de baile – disse ele –, antes que as hordas de curiosos invadam a sua loja. – Nunca vi nada parecido – avaliou Clara. – Não sei se poderíamos chamar o vestido de “ousado” – respondeu ele. – De fato, ele é ousado se comparado ao que se vê normalmente na moda inglesa – disse Noirot. – A combinação de cores não é a que as damas inglesas costumam ver. Mas lembre-se de que esse vestido foi criado para um evento em Paris, não em Londres. – E a senhora o criou para chamar a atenção – completou ele. – De que adianta ir ao baile e não atrair a atenção? – É mesmo, eu queria muito que você estivesse lá, Clara – disse ele, virando-se para a noiva. Mas ela não estava ali. Estava andando ao redor do vestido, de maneira cautelosa, como se fosse um tigre adormecido. Ele prosseguiu, sem desistir. – Achei que seria divertido descobrir se a Sra. Noirot e eu seríamos aceitos ou mandados embora. Mas eu é que acabei virando piada. – Nunca vi nada igual – afirmou Clara. – Que lindo deve ter sido quando estavam dançando. – Ela olhou para Clevedon, depois para Noirot, e depois para o balcão. – Oh, que belo tom de verde! A cliente contrariada colocou a mão de maneira protetora sobre o vestido. – Esse é meu – disse ela. – Só precisa de… consertos. Mas Clara garantiu que só queria olhar o vestido e, em um minuto ou menos, três cabeças estavam curvadas sobre a peça e uma conversa acontecia em sussurros. – Obrigada – disse Noirot em voz bem baixa. – A senhora não precisava que eu a trouxesse aqui – disse ele, no mesmo tom de voz. Ele estava quente, estupidamente quente. – Metade da alta sociedade estará à sua porta até amanhã, graças a seus exagerados elogios no Morning Spectacle.


Ela olhou no rosto dele com uma expressão de surpresa. – Não sabia que o senhor lia o Spectacle. – Saunders lê. Ele o trouxe para mim na hora do café. – De qualquer maneira, embora fique feliz em acomodar metade da alta sociedade aqui, sua futura noiva é o prêmio que almejo. – Não prometo nada – disse ele. – Só fiz a apresentação… como no baile da condessa. Como pode ver, não guardo mágoas, embora a senhora tenha me usado de forma abominável. – Eu lhe disse que o estava usando desde o começo. Disse isso assim que consegui atrair sua atenção. Ela era incorrigível. Era a mulher mais insensível, calculista, irritante… E ele era um cãozinho, porque ainda a queria. Ali estava Clara, a inocente, que estivera preocupada – preocupada! – porque ele passara uma semana inteira sem escrever. A intenção de Clevedon era resolver logo a questão, colocar sua vida em ordem e fazer a proposta de casamento no parque, quando o local estivesse mais vazio, antes que a multidão aparecesse. Mas o casal mal havia deixado a Residência Warford quando ela disse: – Que diabo aconteceu a você, Clevedon? Uma semana inteira sem uma carta? Pensei que tivesse quebrado um braço… pois só nessa situação uma pessoa deixa de escrever. E assim, ele contou tudo a ela, chegando bem perto da verdade e, em vez de ir ao Hyde Park, resolveu levá-la até a loja. – Achei melhor contar a verdade para Clara, embora sem entrar em todos os detalhes – explicou ele. – Disse a ela que a senhora me atraiu na ópera, determinada a me usar para alcançar seus objetivos mercenários, que é a mulher mais provocadora que já conheci, caso contrário eu não teria deixado de lado o bom senso e não a teria levado ao baile. E o resto foi mais ou menos como está na nota que saiu no Morning Spectacle. Não era toda a verdade, mas o máximo que ele podia contar sem aborrecer Clara. Fez o relato de uma maneira que achava que fosse diverti-la, como fazia nas cartas. De qualquer maneira, o que ele dissera era mais ou menos verdade do ponto de vista de Noirot: tudo o que ela queria dele era que Clara fosse à sua loja. E ela também estava certa, aquela maldita: Clara precisava dela. Clevedon só precisou olhar para Noirot e sua parente loura, e até para a cliente zangada, para se dar conta de que Clara estava malvestida. Seria difícil colocar em palavras a diferença – roupas femininas não passavam de mera decoração aos olhos dele –, mas logo percebeu que Clara parecia provinciana. Ele desejou não ter percebido nada disso. A diferença o deixou com raiva, como se alguém deliberadamente tivesse tentado debochar de sua noiva. Mas era natural, disse a si mesmo. Ele sempre a protegera, desde o momento em que a vira, quando era apenas uma menina, provavelmente mais nova que a filha de Noirot. A filha de Noirot! – Deixo o resto por sua conta – prosseguiu ele. – Não tenho dúvidas de que a senhora lidará com a situação com seu costumeiro desembaraço. Em um tom de voz mais audível, ele disse:


– Clara, minha querida, eu não a trouxe aqui para fazer compras. Você sabe que uma das coisas que mais odeio é fazer compras com mulheres. De qualquer forma, já passou muito da hora de eu levá-la para casa. Afaste-se do fascinante vestido. Faça com que Longmore a traga aqui de novo outro dia, caso você queira que a Sra. Noirot a vista. – Em seguida, pelo bem da cliente aborrecida e para acalmar a própria consciência, acrescentou: – Não vejo motivo para você não voltar, uma vez que não encontrará melhor modista em Londres… ou até mesmo Paris… mas faça-o sem a minha presença, pelo amor de Deus.


Capítulo oito A Sra. Thomas aproveita a oportunidade para observar que espera que não se repita a inconveniência, que sempre tolerou, da imposição das costureiras que visitam seu salão disfarçadas de clientes, para copiar seus modelos. Revistas La Belle Assemblée e Bell’s Court and Fashionable Magazine, anúncios de novembro de 1807.

Clevedon já havia ajudado Clara a subir na carruagem. Resistindo ao impulso de olhar para trás – como se fosse ganhar alguma coisa agindo dessa forma –, já estava prestes a subir quando sentiu um puxão no casaco. Ele se virou depressa, pronto a agarrar o ladrãozinho. Primeiro, não viu ninguém. Depois, olhou para baixo. Enormes olhos azuis olhavam para seu rosto. – Boa tarde, Vossa Graça – disse Erroll. Uma babá, já sem fôlego, correu até a carruagem. – Senhorita, não vá… oh, vamos embora. Ela pegou a menina pela mão, murmurando pedidos de desculpas, e tentou levá-la dali. Uma expressão dura e teimosa tomou conta do rosto da menina e ela puxou a mão para se soltar. – Eu só queria dizer boa tarde para Sua Graça – explicou ela. – Seria rude passar por perto e não dizer nada. – Mas a senhorita não estava passando por perto. Largou-me para trás e saiu correndo, não é verdade? – Boa tarde, Erroll – respondeu Clevedon. A menina estava de costas, fazendo careta para a babá. Entretanto, ao ouvir a saudação do duque, as nuvens se dissiparam e ela sorriu como um raio de sol, tão puro e claro que, por um instante, ele mal conseguiu suportar. Tantos anos atrás… sua irmãzinha, Alice, derramando a luz do sol… – Está um dia lindo, não é? Um belo dia para passear em uma carruagem aberta. Se eu tivesse uma, iria passear em Hyde Park em um dia assim. Ele trouxe a si mesmo de volta ao presente. Ela estava lindamente vestida, como já era de se esperar. Um pequeno chapéu de palha enfeitado com montanhas de fitas e rendas, combinado com extrema graciosidade a uma miniatura daqueles vestidos tipo casaco que as mulheres usavam. Como eram mesmo chamados? Do mesmo tipo de uma sobrecasaca masculina… Redingote, era essa palavra. O de Erroll era cor-de-rosa. Uma longa fileira de galões pretos na frente dava a vaga impressão – que nela ficava engraçado – de um uniforme militar.


– Sim, senhorita – disse a babá –, mas o cavalheiro estava pronto para ir embora, caso não tenha notado. Há uma dama esperando lá dentro. – Eu vi, Millie – ressaltou Erroll. – Não sou cega. Mas não posso falar com ela porque ainda não fomos apresentadas. Você não sabe nada de etiqueta? O rosto de Millie ficou vermelho. – Isso já passou dos limites, Srta. Lu… Srta. Er… Srta. Noirot. Nunca ouvi uma impertinência como essa e tenho certeza de que a dama e o cavalheiro também não. Vamos embora agora. Sua mãe vai ficar angustiada de a senhorita ficar incomodando os clientes. Ela pegou com força aquela pequenina mão enluvada. O semblante de Erroll mudou outra vez: olhos juntos, boca apertada formando uma linha de teimosia. Ela se recusou a sair e a babá não parecia muito disposta a entrar em conflito com a menina. Clevedon não podia culpar a criada. Embora não aprovasse a desobediência das crianças em relação aos que tomavam conta delas, ele não tinha certeza de qual era a melhor forma de agir em uma situação daquelas. De qualquer maneira, não cabia a ele interferir. – Ora, Clevedon, não seja tolo – disse Clara. – É a Srta. Noirot, a filha da modista, certo? A criada meneou a cabeça, concordando. – É, sim – respondeu ele, de novo impressionado por ela ser filha de Noirot, por Noirot ser mãe. Onde diabo estaria o pai dela? Como ele podia abandonar… mas os homens agiam assim o tempo todo. Traziam filhos ao mundo sem o menor cuidado e os tratavam da mesma forma. Não era problema dele… e talvez, afinal de contas, o pobre sujeito estivesse morto. – Bem, então a Sra. Noirot o conhece – disse Clara. – Ela não vai se importar se você deixar a filha dela subir e segurar um pouquinho as rédeas. Ela se virou para Millie, que enviava olhares de pânico para a porta da loja. – Não precisa fica ansiosa – disse Clara. – A Srta. Noirot estará totalmente em segurança. Sua Graça costumava me deixar segurar as rédeas quando eu era criança. Ele não vai deixar a carruagem escapar com ela. Por um instante, o velho pesadelo voltou: a tétrica cena que sua imaginação havia pintado na infância, de uma carruagem virando sobre uma vala, a mãe e a irmã gritando e, em seguida, um terrível silêncio. O que havia de errado com ele? Antigos fantasmas. Que tolice. Clara sempre estivera em segurança com ele. A imprudência do pai o ensinara a ser cuidadoso. Mesmo assim, aquela criança… A expressão aniquiladora de Erroll logo se derreteu e se transformou em ansiedade infantil e seus olhos se abriram mais um pouco. – Posso mesmo, Vossa Graça? – indagou a menina. – Posso segurar as rédeas? – Lady Clara disse que pode e eu não posso contradizê-la – respondeu ele. Clevedon não sabia muito bem o que acontecera a Clara. Sabia que ela gostava de crianças em geral e que tinha alguma noção de como lidar com elas. Em suas cartas, havia descrito numerosos incidentes divertidos com suas primas pequenas. Ele não estava acostumado com crianças – não mais, de qualquer maneira. Mas que opção teria


agora? Ford, o cavalariço, segurou os cavalos e Clevedon sabia que podia confiar nele para controlar os fogosos animais. De qualquer forma, como Clevedon poderia negar à menina aquela alegria, quando ela já estava trêmula de emoção? Ele a levantou – o pequenino corpo não pesava quase nada – e a colocou ao lado de Clara. Em seguida, subiu para seu assento, colocou a menina no colo, pegou as rédeas e mostrou como ela deveria segurá-las para seguir em frente. Ela observou e ouviu com avidez. Logo, seu tremor acabou e as rédeas estavam entrelaçadas em seus pequeninos dedos enluvados. Ela olhou para Clevedon, com orgulho, e ele retribuiu com um sorriso. Não pôde evitar. – Como você é rápida e esperta – disse Clara. – Aprendeu muito depressa. Eu tinha certeza de que conseguiria. Erroll virou-se para lançar a Clara o seu olhar de enorme satisfação – e derreteu o coração da jovem, como era fácil perceber. Não que isso fosse uma tarefa difícil. Clara era meiga e gentil e Erroll, como ficara muito claro, era uma criatura calculista. Exatamente como a mãe. – Como se faz para eles andarem? – indagou ela. Ele não teve tempo para decidir o que responder. Noirot saiu correndo da loja. – Oh, criança travessa! – exclamou ela. – Ela o convenceu a colocá-la aí em cima? Se não tomar cuidado, ela irá persuadi-lo a levá-la até Brighton. Sua Graça e a dama têm coisas a fazer em outro lugar. Ela levantou as mãos para pegar a filha. Tomado por relutância e alívio, Clevedon entregou a menina à mãe. Não estava acostumado com crianças e as considerava entediantes. Mas ela… ah, bem, ela era uma mocinha astuta e atrevida. Ele percebeu que Erroll não lutou com a mãe, como fizera com a babá. Dócil ou não, porém, Noirot não confiava na menina. A mãe não a colocou no chão, mas a levou no colo de volta à loja. Ele as observou enquanto se afastavam, Erroll dando adeus por sobre os ombros da mãe. O duque acenou de volta, sorrindo, embora estivesse observando o balanço dos quadris de Noirot enquanto ela se afastava, aparentemente sem se abalar com o peso da criança. Para ele, o peso não era nada, mas Noirot não era grande como Clevedon nem tinha uma constituição majestosa como a de Clara, de cuja presença ele demorou a se lembrar. Ele se virou apressadamente e pegou as rédeas. Um momento depois, estavam no caminho de volta.

Clara também percebeu aqueles quadris balançantes, e viu como Clevedon ficou observando Marcelline. Além disso, ela havia sentido uma mudança no ar quando entraram na loja. Percebeu o quanto ele ficou tenso, como um cão de caça tomando conta da presa. Quando a modista aproximouse, a tensão entre eles era quase palpável.


– Uma menininha atraente – comentou ela. Era a única coisa que podia dizer em segurança. A menina era adorável. Seria de Clevedon? Não, ela não percebera nenhuma semelhança e a aparência dos Angier era inconfundível. – Não me atrevo a voltar aqui – disse ele. – Na próxima vez, a Srta. Noirot vai querer dirigir. E terei que agradecer a você. Eu não devia tê-la deixado subir na carruagem. Tenho certeza de que a mãe não gostou muito. Mas ela não podia me repreender. As lojistas precisam levar em conta o seu ganha-pão antes de pensar nos próprios sentimentos. – A Sra. Noirot não me pareceu zangada. Ao contrário, ela me pareceu estar se divertindo. – É o jeito dela. É obrigação dela se mostrar agradável. Eu lhe disse que ela fez as damas do baile comerem em suas mãos. Mas não se preocupe. Não importa. Não tenho motivos para voltar aqui. Você pode convencer Longmore ou um de seus outros irmãos a trazê-la. Ou vir sozinha, com Davis. Davis era a criada de Clara, um verdadeiro cão de guarda. – Ou com mamãe. – Que coisa mais despropositada você acaba de dizer! Sua mãe nunca aprovaria uma loja dessas. É moderna demais e ela parece determinada a não permitir que você use o que há de mais… – Ele interrompeu a própria fala, com uma expressão tensa. – Determinada a não permitir que eu use o que há de mais o quê? – Nada – disse ele. – Dormi mal na noite passada e passei tempo demais na loja da modista. Essa conversa de mulheres atrapalhou minha cabeça. Aliás, o que vocês três estavam tramando? – Clevedon. – Vocês três se curvaram sobre o vestido verde, que você tanto admirou, e estavam falando em voz baixa. Ela olhou para o rosto dele. O duque olhava para a frente, o belo rosto contraído. Em que estado ele se encontrava! Uma fúria contida fazia o ar ao redor dele parecer áspero, mesmo quando ele demonstrava estar calmo por fora. Clevedon não era assim – não o Clevedon que ela conhecia, o mesmo que entrou no salão e sorriu do jeito amigável de sempre. Aquele era um estranho. Clara passou alguns instantes olhando para o nada, enquanto tentava obter uma reposta. Ela nem sabia o que as outras duas mulheres estavam falando sobre o vestido verde. Na verdade, tentava entender o que Clevedon dizia à Sra. Noirot. Observava-os sem que percebessem. – Não entendi muito bem – disse ela. – Era um vestido lindo, mas elas pareciam estar falando sobre como refazê-lo. Clara tentou, desesperadamente, lembrar-se do que elas falaram, mas só tinha ouvido pela metade e, agora, sua mente estava girando. Ela não era tão ingênua. Sabia que Clevedon tinha casos amorosos. Longmore também agia assim, mas jamais vira o irmão em um estado como o de Clevedon quando a Sra. Noirot se aproximou. Ela tentava entender a situação, quando ele disse algo sobre a mãe dela e… o que Clara vestia? – Tive a impressão de que havia algo errado com o vestido, mas, ao mesmo tempo, não estava errado. – Clara, isso não faz sentido.


Realmente, ele podia ser tão irritante quanto qualquer um de seus irmãos. Clara disse adeus à paciência. – Se é tão importante para você, é melhor perguntar à Sra. Noirot. O que você quis dizer sobre mamãe e minhas roupas? – Que maçada! – exclamou ele. – Você me disse que eu devo fazer compras lá, mas que não devo levar mamãe. – Peço-lhe que me perdoe. Eu não devia ter dito isso. – Ora, Clevedon. Quando foi que você teve papas na língua para falar comigo? O que o tornou tão sentimental de repente? – Sentimental? – Tão delicado. Uma das coisas que sempre admirei em você é sua recusa em me tratar com uma mulherzinha imbecil. Em suas cartas, você fala o que sente. Ou, pelo menos, pensei que o fizesse. Bem, talvez você não me conte tudo mesmo. – Por Deus, é claro que não. E não vou lhe dizer onde deve fazer seus vestidos. Não tenho nada a ver com isso. – Pode ter certeza de que vou tomar cuidado para nunca mais lhe pedir que me leve à modista – prometeu Clara. – Isso provoca em você o pior dos humores.

Algumas horas depois… – Aquela trapaceira em miniatura! – exclamou Marcelline, enquanto fechavam a loja. – Eu sabia que ela não se esqueceria daquela bela carruagem, ou daquele belo duque. – Minha querida, ela não consegue evitar – disse Sophia. – Está no sangue. Ela enxerga longe. – Ele não pareceu se importar – observou Leonie. Ela havia saído da loja a tempo de ver Clevedon e lady Clara irem embora. As três irmãs tiveram tempo de observar o comportamento de Lucie, ainda sendo chamada de Erroll, pela vitrine. Em um segundo, ficou claro que Millie perdera o controle sobre a menina, mas Marcelline levou alguns preciosos minutos para se livrar de lady Renfrew e sair para pegar sua imprevisível filha. Segurando as rédeas sentada no colo de Clevedon, a manipuladora! Na próxima vez, ela vai querer dirigir a própria carruagem, pensou Marcelline. – É claro que ele não se importou – disse ela. – Lucie estava tão linda que nem o duque de Clevedon conseguiu resistir. Mais atrevida e calculista do que nunca, Marcelline não conseguia tirar do coração o sorriso doce e indulgente que ele oferecera à sua filha. – Percebi que ela fez questão de derramar um pouco de seu charme em lady Clara também – afirmou Sophia.


– É verdade – concordou Marcelline. – Ele trouxe mesmo a noiva – salientou Leonie. – E não demorou muito. Até o momento, elas não haviam tido tempo para comentar os acontecimentos, pois aquele fora um dia excepcionalmente agitado. Marcelline passara o resto do tempo ocupada, fazendo alterações no vestido de lady Renfrew. Fora obrigada a trabalhar em segredo – lá em cima, longe das costureiras, como se estivesse falsificando passaportes. Enquanto isso, Sophia e Leonie, no intervalo entre tentar acalmar duas outras clientes aflitas, tiveram que se desdobrar para atender ao fluxo constante de damas curiosas que vieram para dar uma espiada no famoso vestido. As senhoras curiosas ficavam boquiabertas diante do traje e tentavam, pelo canto do olho, localizar Marcelline. Fizeram as irmãs lhes mostrar quilômetros de tecido e tirar das gavetas incontáveis botões, fitas, contas, plumas, peles e outros acabamentos. E saíram sem comprar nada. Sophia e Marcelline restauraram a ordem nas gavetas de acabamentos e acessórios. Como fazia todas as noites, Leonie conferiu as peças do salão, tentando deduzir quais visitantes haviam levado um pedaço de fita de cetim preto, onze botões e três lenços de cambraia. – A hora que ele escolheu para vir não poderia ter sido melhor – analisou Marcelline. – Se ele não tivesse aparecido enquanto lady Renfrew estava na loja, acho que a teríamos perdido para sempre. Ela disse a si mesma para se concentrar nisso e não se preocupar com os vigorosos saltos de seu coração no instante em que ouviu a voz dele. Clevedon chegara na hora certa, e era isso o que importava. Ela agira certo ao se oferecer para refazer o vestido e, dessa maneira, acalmar uma cliente zangada, mas as clientes não faziam ideia da quantidade de trabalho que isso envolvia. Enquanto isso, na cabeça de lady Renfrew, venenosas dúvidas surgiriam sobre a habilidade de Marcelline de elaborar, como anunciado, “estilos únicos, criados para cada indivíduo, não para as mulheres em geral”. – Não podemos dizer que triunfamos – afirmou Leonie. – Lady Clara gostou muito, mas ainda não a conquistamos. Lady Renfrew continua sendo nossa melhor cliente. Um pássaro na mão é melhor que dois voando. O vestido de lady Renfrew foi entregue exatamente às sete horas da noite e foram poucas as alterações no corpo. Assim, meia hora depois, Sophia saía da casa de uma cliente muito satisfeita. – Ela vai voltar – disse Sophia. – O tempo todo em que estive lá, ela falou sobre o duque e lady Clara. Sabemos que esse vai ser o assunto preferido na casa da Sra. Sharp. Ela irá citá-lo, pode acreditar: “Você não encontrará melhor modista em Londres… ou até mesmo Paris.” – Ela imitou a voz entediada de Clevedon e seu sotaque. – Só nos resta esperar que ela tenha ficado ocupada demais, cativada pelo deslumbramento do vestido, para notar o jeito que ele olhou para Marcelline – disse Leonie. – Como um lobo faminto – acrescentou Sophia. Marcelline sentiu um calor por todo o corpo. Ela ainda não havia se livrado dos sentimentos que o duque fizera vir à tona. E como ele fizera aquilo? Um olhar. O som de sua voz. Ela ainda sentia aqueles olhos verdes se derramando sobre ela. Ainda ouvia a intimidade rouca de sua voz. Se tivesse


liberdade, se não tivesse nada nem ninguém para levar em conta, ela o teria levado a um dos quartos no fundo da loja e feito tudo o que tinha vontade, e a história teria um fim. Mas ela não era livre. A bela futura noiva estava a poucos metros de distância, do outro lado da loja, e a maneira fácil com que conversaram deixou bem explícita a afeição que sentiam um pelo outro. Marcelline não podia se esquecer disso. Além do mais, ela havia plantado a imagem de Lucie em sua mente de maneira bem firme. E a de seus pais, o exemplo do que acontece a uma família quando os adultos só pensam em si mesmos, seus caprichos e paixões. Ela não agia por sentimentos de moralidade, mas seus instintos de sobrevivência eram aguçados. Sucumbir a Clevedon seria um erro que acabaria com o respeito que ela trabalhara dia e noite para conquistar. Uma atitude como essa destruiria seus negócios e, junto com eles, sua família. Mesmo assim, quando olhou para os olhos dele, quando ouviu o som de sua voz, sua mente ficou enevoada e sua força de vontade quis se desintegrar. Como era tola! Só precisava se lembrar de como Charlie um dia a olhara e o desejo rouco em sua voz… E aonde isso a levara? – Esse é o jeito de Clevedon olhar para as mulheres – explicou ela. – O olhar de um especialista em sedução. Gravem-no em sua mente, se não quiserem acabar de costas, ou contra uma parede, perdendo sua virgindade antes do planejado. – Ele não olhava para lady Clara daquela maneira – comentou Leonie. – E por que o faria? – indagou Marcelline. – Tudo entre eles está decidido. Se ela for esperta, encontrará uma maneira de atrair toda a atenção dele. Não é tão difícil. Enquanto isso, nós temos um problema grave. – Ela olhou para a porta que levava ao ateliê, agora vazia, uma vez que as costureiras já haviam saído. – Bem – disse Leonie. – Eu tenho as minhas suspeitas.

Na noite de terça-feira, a Sra. Downes se encontrou com a costureira no lugar de sempre, no horário de sempre. A costureira lhe entregou um croqui, que havia copiado. – Só isso? – indagou a Sra. Downes. – Você me prometeu um caderno de desenhos, com detalhes. – E a senhora o terá – prometeu a costureira. – Mas elas estavam tão atarefadas com aquele vestido verde de lady Renfrew, e nós tínhamos que correr de um lado para outro, pegando isso e aquilo para todas as senhoras que vieram ver o vestido que a Sra. Noirot usou no tal baile. A Sra. Downes sabia sobre o vestido poussière e toda a excitação que ele causara nas mulheres. Suas próprias clientes estavam conversando sobre o traje bem na cara dela! Pior ainda do que essa indignidade, foi saber que o duque de Clevedon havia levado lady Clara Fairfax à maldita loja. – Eu quero esses croquis! – ordenou ela. – E é bom que você os consiga bem depressa. – É bom que eu os consiga? – repetiu a costureira. – Senão o quê? Sou eu quem está fazendo o serviço sujo.


– E sou eu quem está perdendo clientes para aquela rameira francesa. Se não fizer o que prometeu, vou dizer a ela que você me procurou e se ofereceu para ser minha espiã. Você vai morar na rua da amargura, não vai ver a cor do meu dinheiro e nunca mais vai conseguir emprego em uma loja respeitável.

Na quarta-feira à noite, o duque de Clevedon foi um dos últimos a chegar à reunião do conde de Westmoreland. Se tivesse tentado entrar no Clube Almack’s àquela hora, teria encontrado as portas fechadas. Mas as reuniões semanais no Almack’s ainda não haviam começado e, apesar da reunião ali ser muito mais animada, ele dançou apenas com lady Clara e recolheu-se ao salão de cartas, onde passou o resto da noite. Na quinta-feira, permaneceu por um quarto de hora na festa da condessa de Eddingham antes de ir ao White’s Club, onde jogou cartas até o amanhecer. Na sexta-feira, ele jantou na Residência Warford. Naquela noite, não pôde escapar para jogar cartas. Em vez disso, fingiu estar se divertindo, embora fosse evidente para Clara que ele mal podia esperar a noite chegar ao fim. Ele não era indelicado com a futura noiva. Não dissera a ela uma única palavra mal-humorada desde a terça-feira. Mas estava distante e infeliz e ela ouvira dizer que o duque vinha perdendo muito dinheiro nas cartas. Mesmo descontando os exageros que costumam acompanhar os mexericos, ele andava jogando com mais imprudência do que de costume. Então, no sábado, durante um baile, lady Gorrell, fingindo não perceber a presença de Clara a uma distância de onde era possível ouvir, descreveu em lúgubres detalhes o conteúdo da carta que recebera naquele mesmo dia, de sua cunhada que vivia em Paris.

Segunda-feira. Duas fortes batidas à porta da loja fechada assustaram as irmãs Noirot. Eram nove horas da manhã, mas a loja só era aberta bem mais tarde. Não fazia sentido abri-la cedo, quando poucos clientes acordavam antes do meio-dia. Além disso, elas teriam clientes? Se as ações da traidora não fossem impedidas, não teriam nem mesmo uma loja para abrir. Embora Leonie tivesse algumas suspeitas, até o momento não havia nenhuma prova e vários estratagemas haviam falhado. Naquela manhã bem cedo, elas tinham preparado uma armadilha. Se funcionasse, descobririam o culpado até o dia seguinte. Enquanto isso, só lhes restava esperar e


trabalhar como se nada estivesse acontecendo. No momento, isso significava que Marcelline, Sophia e Leonie estavam arrumando xales e cortes de tecido sobre os balcões de uma maneira aparentemente descuidada, para despistar. Cedo ou não, os negócios estavam em primeiro lugar e era preciso atender às clientes com um sorriso no rosto. Leonie foi até a porta e a abriu. Lady Clara Fairfax, com a face vermelha, entrou depressa na loja, seguida de perto por uma criada de rosto quadrado. Ignorando as saudações de Leonie, ela foi diretamente até Marcelline. Movendo-se em direção à jovem e fazendo uma leve mesura, Marcelline perguntou o que poderia fazer para ajudá-la. – A senhora poderia me ajudar me dizendo a verdade – disse Clara. – Na noite de sábado, ouvi um relato dos mais espantosos… no qual mal pude acreditar… Ela parou de falar, lembrando-se tardiamente da presença da criada. – Davis, espere na carruagem – ordenou ela. Lady Clara inspirou, soltou o ar e recomeçou: – Sra. Noirot, eu ouvi sem querer uma história ultrajante, relacionada a um cavalheiro de meu conhecimento… um cavalheiro que me acompanhou a esta loja há menos de uma semana. Marcelline não abriu a boca para pronunciar nenhuma das respostas sarcásticas, tréplicas irreverentes ou pragas violentas que lhe vieram à mente. Ela era profissional. Sua expressão era de educado interesse. – Antes que tire conclusões apressadas – prosseguiu lady Clara –, quero que saiba que não vim até aqui com um sentimento de ciúme. Isso seria absurdo nesse caso. Não sou cega e sei… quer dizer, tenho irmãos e eles acham que são mais discretos do que realmente são. Oh. – Ela pegou um lenço e enxugou os olhos. – Oh. Era uma alarmante virada nos acontecimentos. Raiva, indignação – perfeitamente normais e compreensíveis. Lágrimas. Oh, céus! – Minha querida… milady. – Marcelline a levou pelo braço até uma cadeira. – Sophia, traga um cálice de vinho para milady. – Não – disse Clara. – Não preciso de vinho. – Conhaque, talvez – ofereceu Marcelline. – Bem, pode ser. Sophia saiu do salão. Lady Clara soluçou, depois se enrijeceu, tentando se recompor. – Eu não choro. Eu nunca choro. Não sou assim. Mas ele é o meu mais querido amigo. – Seus olhos azuis se voltaram para Marcelline. – Não posso permitir que a senhora o machuque. Noirot nascera sem a sobrecarga dos escrúpulos. Ainda que os tivesse, Marcelline não fizera nada tão errado que a deixasse perturbada. Ela disse a si mesma que não estava preocupada, mas não conseguia acreditar. Afinal, aquela era uma jovem agradável, que tratara Marcelline e as irmãs com muita gentileza – bem diferente da maioria de suas clientes. Além disso, estava claro que ela realmente amava Clevedon. Sentia pena dela nesse aspecto, embora soubesse que isso era um total absurdo. Lady Clara era filha de um


marquês. Estava prestes a se casar com um duque e a receber uma renda de pelo menos 100 mil libras por ano, talvez até o dobro. A loja de Marcelline, junto com os quartos onde a família vivia, que ficavam no piso superior, cabia sem dificuldades nos aposentos dos criados da residência que a família de Clara possuía em Londres, e ainda sobraria espaço para um exército de empregados. Ao mesmo tempo em que Marcelline tentava endurecer o próprio coração, Leonie, a menos sentimental das três irmãs calculistas, disse: – Por favor, não se aborreça, milady. Nenhuma de nós deseja ferir nenhum cavalheiro, exceto no bolso. Nesse aspecto, naturalmente, adoraríamos causar o maior dano possível. Lady Clara olhou para ela. – Não foi o que eu ouvi. – Imagino que não – disse Leonie –, mas acho que ninguém em seu círculo pode entender o nível até onde chega a nossa capacidade de agirmos como mercenárias. Ah, sim. A honestidade que desarma. Essa era a melhor de todas as táticas com aquela jovem. Leonie, com seu pragmatismo, era quem dava o golpe certo quando a irmã mais velha se via temporariamente fora de combate. – Minha irmã está certa – disse Marcelline. – As pessoas de seu nível não conseguem entender. Nunca precisam pensar em dinheiro. Nós não pensamos em muitas outras coisas além disso. – Bem, então, se o problema é dinheiro – disse lady Clara –, darei a vocês o quanto quiserem para irem para longe, sem que ele saiba, para algum lugar onde ele jamais possa encontrá-las. – Isso é muito dramático – analisou Marcelline. – Precisamos, sem dúvida, de um conhaque – comentou Sophia, carregando o remédio que as Noirots usavam para curar todos os problemas. A bebida cintilava dentro de uma pequena garrafa de cristal, colocada sobre uma bela bandeja, junto com taças que formavam um conjunto. Ali, elas haviam colocado uma deliciosa seleção de biscoitos, bolos e queijos. Algumas clientes passavam horas na loja e elas precisavam estar preparadas para alimentá-las… e enchê-las de bebida, se necessário. Lady Clara tomou um gole do conhaque sem piscar. Sendo ainda tão cedo, esse pequeno gesto aumentou em muito o respeito das irmãs Noirot por ela – algo que era muito inconveniente, uma vez que estavam tentando manter uma distância profissional e mercenária da jovem. – Sei que essas coisas são sempre exageradas – disse Clara. – Mas também sei que há verdade nessas histórias. Vi com meus próprios olhos. Ele mudou. – Com todo respeito, milady, mas não vê o cavalheiro há três anos – disse Leonie. – Os homens mudam. São as criaturas mais mutáveis deste mundo. – Ele está mal-humorado, entediado e distante – disse Clara. – Não importa onde esteja, está sempre ausente. O único momento em que esteve presente, realmente presente, foi quando estivemos aqui. – Ela apontou a taça para Marcelline. – Eu vi a maneira como ele olhou para a senhora, Sra. Noirot. E o que devo pensar quando ouço falar de uma aventureira de cabelos negros que, com sua beleza, impressionou o du… certo cavalheiro. Ou que ele perseguiu essa exótica criatura na ópera, em Longchamp, nos infernais jogos de cartas, com meio mundo como testemunha, antes que deixasse o juízo de lado e levasse o objeto de sua obsessão…


– Isso soa como algo que eu poderia ter escrito – murmurou Sophia. – … levasse o objeto de sua obsessão ao baile anual da comtesse de Chirac. E isso não foi porque Sua Graça achou que seria uma grande brincadeira levá-la, mas porque sua… sua amante… ameaçou matar-se se ele não o fizesse. – Matar-se? – ecoaram as três irmãs. Elas se entreolharam. As sobrancelhas levantadas tão de leve que mal dava para perceber. Esse era o único sinal exterior de sua incredulidade. Isso e o fato de Leonie ter que morder os lábios para controlar o riso. – E não foi essa a primeira vez que essa mulher fez ameaças – prosseguiu lady Clara. – Ouvi sobre as cenas violentas por toda Paris, culminando em um duelo com o marquis d’Emilien. Logo depois de ferir gravemente o marquês no Bois de Boulogne, o cavalheiro enlouquecido de amor perseguiu a mulher, que saiu de Paris no meio da noite. Durante essa perseguição, ele ameaçou o cônsul inglês e todos os oficiais que encontrou. Estava tão fora de si que achava que estavam impedindo propositalmente a sua saída da França. Todas estavam acostumadas a jogar cartas. Foi por isso que Sophia e Leonie não caíram no chão de tanto rir e porque Marcelline, que estava ficando cada vez mais exasperada, não teve problemas para manter a expressão de educado interesse. Como se ela já não tivesse problemas suficientes, com a Trapos trabalhando para destruir seus negócios. Agora, Marcelline estava prestes a ser manchada pelas criadoras de escândalos, apenas porque algumas pessoas teriam visto algo que se parecia com um flerte – embora as altas classes não fossem famosas por sua racionalidade. Ela devia estar achando graça, mas encontrava-se alarmada. Os meros rumores poderiam destruir seus negócios. Embora não fosse difícil parecer fria, estava tendo problemas para decidir o que dizer. Leonie, que não tinha os mesmos problemas, também não apresentava a mesma dificuldade: – Claramente, os membros das classes altas não sabem contar – disse ela. – Se contassem o número de dias que minha irmã passou em Paris, sem falar na data em que ela conheceu o tal cavalheiro, teriam percebido que nada disso faz sentido. O primeiro encontro dos dois ocorreu no dia 14 deste mês. Eu me lembro da data, pois estava no alto da carta que ela nos escreveu na mesma noite, anunciando o fato. Como, eu pergunto a milady, poderiam todos esses eventos ter acontecido em pouco mais de dois dias? Leonie era especialista em reduzir emoções a números, pensou Marcelline. E como esses números pareciam pequenos. Poucos dias. Esse era todo o tempo que Clevedon precisara para destruir a mente de Marcelline, cravar espinhos em seu coração e plantar sonhos em sua mente, de maneira a deixá-la desconfortável de dia e de noite. Ela se recompôs. – Enquanto isso, ele teve tantos meses para viver entre os parisienses – disse ela. – São eles que devem receber a culpa se deseja bodes expiatórios. Suponho que a senhorita nunca tenha estado em Paris. – Ainda não – respondeu lady Clara. – Então não tem noção de como é diferente de Londres.


– Eu sei como é Paris – objetou lady Clara. – Cleve… o cavalheiro me escrevia com frequência… até o dia em que a conheceu. Não adianta negar. Quando perguntei a ele por que não havia escrito… ele me contou o que aconteceu. – E o que, precisamente, ele disse? – indagou Marcelline. – Não pode ter sido uma história incriminadora. Na semana passada, a senhorita o acompanhou até aqui com alegria. Não demonstrava que queria matá-lo. Nem a mim. – Ele me disse que conhecera uma modista desafiadora – explicou lady Clara. – Mas ele é homem e, por mais articulado que seja nas cartas, seu vocabulário não é muito específico quando se trata de emoções. O que ele quis dizer, e eu peço que não me confunda com uma idiota, foi que a Sra. Noirot era provocante. O que ele quis dizer foi que ficou obcecado por ela. Como se ele não tivesse feito nada para me deixar obcecada por ele, pensou Marcelline. Como se ele fosse uma vítima de meus truques – ou melhor, de meus poderes demoníacos. – Perguntei a ele se estava apaixonado – continuou lady Clara. – Ele riu e disse que essa era a explicação menos plausível de todas. Negócios, Marcelline lembrou a si mesma. Estavam tratando de negócios. Aquela era a cliente que ela desejava. Foi por tentar atraí-la para a loja que Marcelline se metera em tantas complicações. E ali estava a jovem. Na loja. – Mas como ele poderia evitar? – perguntou Marcelline. – Olhe bem para mim. Ela fez um gesto gracioso, como sempre fazia, a mão varrendo seu corpo do pescoço até embaixo. Lady Clara finalmente olhou, olhou de verdade, para o que Marcelline estava usando. Rosa e verde, uma de suas combinações favoritas, dessa vez em cambraia de seda, com uma pelerine decotada, do mesmo material, por sobre mangas bufantes de gaze e uma blusa delicadamente plissada. – Meu Deus! – exclamou lady Clara. Marcelline resistiu à tentação de revirar os olhos. Lady Clara era tão desatenta quanto Clevedon. Nunca percebia nada sobre um vestido, até que alguém lhes chamasse a atenção para a peça. – Isso não é a metade do que a senhorita teria visto em Paris – disse Marcelline. – Lá, eu fui obrigada a me superar, pois estava competindo com as mulheres mais bem-vestidas do mundo, que transformaram em arte a capacidade de seduzir os homens. Essa é a verdadeira rival da senhorita: Paris. Eu não sou nada. Se o cavalheiro está entediado e distante, é porque as mulheres ao redor dele, no momento, não sabem como chamar sua atenção. Ela deixou seu olhar deslizar por lady Clara de alto a baixo, começando pelo chapéu sem graça, o vestido de crepe branco com acabamentos pretos – em grande parte apenas fitas e um pouco de bordado, mas nenhuma ponta de renda à vista – com um ligeiro suspiro de desespero, até chegar à bainha. O estilo era – bem, não havia estilo. Quanto ao acabamento: se estivesse bêbada, a menos talentosa das seis costureiras de Marcelline poderia fazer melhor. Sophia e Leonie aproximaram-se de Marcelline, os olhares analisando o vestido com o mesmo ar de piedade. – A corte está de luto pelo imperador da Áustria e pelo príncipe de Portugal – disse lady Clara,


na defensiva. – Só há pouco tempo paramos de usar preto. – A senhorita não pode usar esse tom de branco – explicou Marcelline. – Ele destrói o seu tom de pele. – E que pele! – exclamou Sophia. – Translúcida. As mulheres chorariam e rangeriam os dentes de inveja se a senhorita não estivesse usando esse branco que lhe rouba a vitalidade. – O acabamento preto não pode ser evitado – disse Leonie. – Mas precisa ser tão pesado? – Por certo que não precisa ser de crepe – disse Marcelline. – Onde está a lei que diz que não podemos usar uma fita mais fina, feita de cetim? E, quem sabe, alguns laços do mesmo material. E um pouco de prata, talvez aqui e ali, para iluminar um pouco? Mas, acima de tudo, nunca esse tom de branco. – A senhorita não está aproveitando o máximo de seu corpo – disse Sophia. – Sou grande – disse Clara. – A senhorita é escultural – discordou Leonie. – O que eu não daria para ter a sua altura. O que não daria para poder olhar um homem na altura dos olhos. – Em geral, olho para baixo diante deles – confessou lady Clara. – Exceto por meus irmãos e Cl… o cavalheiro. – Melhor assim – disse Sophia. – Para admirar uma mulher, um homem deve olhar para cima, literal ou figurativamente, porque essa é a maneira correta de se adorar alguém. Não importa qual seja a altura dela. A senhorita é a jovem mais bonita de Londres… – Vocês estão exagerando – disse lady Clara. Ela bebeu mais um pouco de conhaque. – Vocês são terríveis. As três. Ela não estava errada. – Talvez uma pessoa veja no teatro uma meretriz que pareça mais bonita – disse Sophia. – Mas isso é apenas porque ela explora o melhor de si mesma e de certos auxílios cosméticos. A senhorita, entretanto, possui uma beleza profunda e verdadeiramente inglesa, que só vai deixá-la ainda mais bonita à medida que o tempo passar. É uma pena, além de uma falta de gratidão de sua parte, não explorar as dádivas com as quais foi abençoada. – A senhorita parece grande – disse Marcelline – porque seu vestido é matronal. Parece grande porque o vestido é malcortado e malcosturado. Minha filha de 6 anos costura melhor do que isso. E não estou falando nada sobre o modelo, que parece ter sido copiado da moda que se usa hoje em Bath, no grupo frequentado pelas avós. A analogia é apropriada, uma vez que tantas pessoas bebem das águas de lá para melhorar a saúde e esse tom de branco a faz parecer doente do fígado. Deixe-me mostrar-lhe o tom de branco que a senhorita precisa usar. Sophia, pegue um espelho de mão. Leonie, o organdi branco suave. – Eu não vim aqui para comprar um vestido – disse lady Clara. – Sua intenção é trazer de volta o cavalheiro que se afastou, seja lá para onde ele tenha ido – rebateu Marcelline. – Vamos mostrar como fazer isso.


Capítulo nove Vimos alguns trajes em crepe branco, preparados para a saída do luto; os corsages baixos e presos no centro do peito e nas laterais por laços de fita de cetim preto, com um losango negro no centro de cada um. Revista La Belle Assemblée, abril de 1835.

Na Residência Warford. Terça-feira à tarde. – Milady está em casa, Vossa Graça, mas está ocupada – disse Timms, o mordomo. – Ocupada? – repetiu Clevedon. – Hoje não é terça-feira? Os Warfords não ficavam em casa para receber visitas nas terças-feiras. Esse era o motivo pelo qual ele estava visitando nesse dia, em vez de no anterior ou no seguinte. Na terça-feira, não precisava abrir caminho entre os inúmeros pretendentes de Clara, os cãezinhos apaixonados que se aglomeravam ao redor dela nos eventos sociais. Sempre que ele se aproximava, percebia, para seu desagrado, que estava atrapalhando as atividades, quaisquer que fossem elas: sujeitos compondo odes para os olhos do jovem ou algo do gênero. Disputas sobre de quem era a vez de dançar. E competições esdrúxulas de moda – algo que não deixava de ser divertido, uma vez que Clara não se importava muito com o tema. Ela não sabia a diferença entre dois tipos de lapela, muito menos avaliar a qualidade de um colete. Mesmo assim, ele poderia ter se enganado de dia. Na noite anterior, bebera muito mais do que seu organismo gostaria e sua cabeça ainda doía. Talvez fosse melhor voltar no dia certo. Depois de confirmar que era realmente terça-feira, Timms conduziu Clevedon educadamente a uma pequena sala, onde ele deveria esperar até que enviasse um lacaio para informar a lady Clara da chegada de Sua Graça. Desacostumado a esperar quando fazia alguma visita, muito menos quando se tratava da Residência Warford, Clevedon ficou irrequieto. Era extremamente estranho o fato de Clara ter algum compromisso na tarde de terça-feira. Ele estava certo de que avisara a ela que a levaria para um passeio. O duque precisava resolver a história do casamento ainda hoje. Já havia passado uma semana desde que decidira colocar a vida em ordem e fazer o pedido formal. Depois disso, começariam os preparativos para que o casamento fosse realizado o mais breve possível. A viagem até a loja da modista o deixara abalado. Ver Noirot outra vez… e a menina… Ele não conseguia organizar os pensamentos, quanto mais se lembrar do que pretendia dizer a


Clara. O momento parecia… certo. Disse a si mesmo que Clara e ele precisavam se acostumar de novo um ao outro. Não fora isso o que Longmore lhe dissera? Mas, agora, tudo indicava que teriam que se acostumar um ao outro depois que estivessem casados. Nesse momento, um noivado formal e curto parecia ser a melhor maneira de colocar um fim às especulações e aos mexericos. Ele ouvira rumores que, sem dúvida, não demorariam muito para chegar à Residência Warford. Na semana passada, havia confiado em Clara – até certo ponto. Sabia que ela era uma jovem sensata demais para criar atritos por causa de mexericos. Em suas cartas, sempre ridicularizava os escândalos que chegavam a Londres. A mãe dela, porém, era completamente diferente. Quando lady Warford ouvisse os rumores, daria um de seus chiliques. Ela não diria nada diretamente a Clevedon. Em vez disso, perturbaria toda a família, contando sobre a vergonha de Clara ter sido ignorada e trocada por uma modista, uma costureira, uma mera lojista! Ela ficaria cada vez mais histérica, até que um dos homens da família fosse tirar satisfações com Clevedon. Em Paris, havia apenas um mês, recebera uma visita de Longmore – instigado, sem dúvida, por lady Warford. Clevedon duvidava que seu amigo estivesse ansioso por repetir a experiência. Ele disse a si mesmo que não tinha nenhum motivo para se sentir ansioso ou culpado. Não fizera nada impróprio desde seu retorno a Londres. O que aconteceu antes disso não tinha importância. Sonhos, por mais tórridos que fossem, não eram motivo para que ele se sentisse desconfortável. Fantasias eram apenas isso: fantasias. Os homens as tinham em relação às mulheres, de todo tipo, fossem elas adequadas ou não. Fazia parte da vida deles o tempo todo, estivessem acordados ou dormindo. Quanto à insatisfação: teria fim depois que estivesse casado. No entanto, sua mente, onde não reinava a timidez, evitava pensar na noite de núpcias. Onde diabo estaria o lacaio? Por que Timms não fora ele mesmo falar com Clara? O que Clara estaria tramando? Com quem estaria conversando em plena terça-feira? Ele não havia dito a ela que viria? Tinha certeza de ter avisado… mas sua mente divagava de vez em quando – e como ele poderia se lembrar agora, com a maldita dor de cabeça? Percebeu que andava de um lado para outro. Parou e disse a si mesmo que estava de mau humor. Não era o ideal para uma visita sem importância, quanto mais para uma de tamanha importância. Clara tinha outra coisa para fazer. Ele deve ter se esquecido de dizer a ela que viria hoje. Ou ela se esquecera. Ele a veria amanhã à noite, no Almack’s. Quando a visse, marcaria um encontro para conversarem. Não, era preciso falar com o pai dela em primeiro lugar. Essa era a maneira correta de agir. Voltaria outro dia, quando lorde Warford estivesse em casa. Às terças-feiras, ele costumava visitar uma de suas instituições de caridade. Clevedon saiu da sala. Como passara muito tempo na propriedade, desde a infância, conhecia cada centímetro do local. Era melhor sair em silêncio, antes que desse de cara com algum membro da família. Ele foi até a antecâmara, onde sabia que encontraria seu chapéu, luvas e bengala. Entrou, e seu coração começou a bater aceleradamente. Isso aconteceu antes que ele tivesse plena consciência do


que estava provocando tal emoção. Um chapéu feminino. Uma aglomeração absurda de fitas, flores e penas se encontrava na mesa onde os criados costumavam colocar os pertences dos visitantes. Ele olhou para o chapéu por um momento e dirigiu-se à porta. Mas havia algo… no ar. Ele parou junto à porta. Em seguida, voltou e foi ver o chapéu de perto. Pegou-o e o aproximou do rosto. O perfume, aquele cheiro familiar, atormentador, flutuou ao redor dele, leve e inescapável como uma teia de aranha: o tênue perfume de jasmim misturado ao cheiro dos cabelos dela e de sua pele. Noirot. Clevedon colocou o chapéu onde o encontrou. Foi até o corredor. Uma criada passou, carregando uma pilha de roupas. Ele tomou a direção de onde ela viera. Ele ouviu um grito angustiado. Clara. Ele correu na direção do som.

Clevedon abriu de supetão a porta da sala de música. A luz brilhante do sol explodiu diante de seus olhos, cegando-o por um instante. – Clara, você… – Clevedon! Que diabo… Clara estava boquiaberta diante dele, perplexa. Clevedon fuzilou com os olhos a outra mulher. Noirot estava de pé, os olhos arregalados, a boca ligeiramente aberta. Ela a fechou depressa e seu rosto assumiu uma expressão indecifrável semelhante à que adotava durante um jogo de cartas. – O que a senhora está fazendo? – indagou ele. – Que diabo está fazendo aqui? – Não está óbvio? – gritou Clara. – Esse é o meu vestido favorito, o que eu estava usando quando lorde Harringstone compôs uma ode aos meus olhos. Confuso, o olhar de Clevedon deslizou por Marcelline, passando pelos cabelos ligeiramente desarrumados, os cachos soltos de cabelos negros e sedosos grudados no pescoço dela… descendo para os olhos negros e brilhantes… descendo para aquela boca perigosa, enquanto se lembrava do gosto dela, a sensação daquela boca na sua… descendo para o colo firme, enquanto se lembrava do veludo daquela pele sob sua mão e contra a sua boca… e descendo, finalmente, para o vestido que ela estava segurando. Clara foi até Marcelline e arrancou o vestido de suas mãos. – Ela está dizendo que devemos nos livrar dele – disse lady Clara. – Ela faz objeção a tudo! Nada está certo… nem este, o meu favorito. – O vestido é verde-jade – disse Noirot. – Seus olhos são azuis e muito lindos e foi isso o que levou lord Harringstone a compor uma ode. Se estivesse usando uma cor mais adequada, a senhorita


o teria inspirado a compor toda uma epopeia. Poucas mulheres podem usar essa cor com sucesso. A senhorita não deve usar muitos tons de verde. Recomendo que não o faça… – A senhora não fez um belo vestido para lady Renfrew exatamente dessa cor? – Não era exatamente dessa cor – explicou Noirot. – Era um tom de verde diferente… e um tom que também não lhe cairia bem. Está me parecendo que milady não consegue distinguir nuances de cor. Não sei se foi sua governanta ou seu professor de pintura, mas quem quer que tenha falhado em treinar seus olhos devia ser exposto ao ridículo. É preciso que me dê esse vestido, milady. – Oh, a senhora é horrível e cruel! Tirou de mim tudo o que tenho de mais bonito! Noirot puxou o vestido para longe dela, jogou a peça no chão e a chutou para o lado. Clara colocou as mãos sobre a boca. Noirot cruzou os braços. Um brilho perigoso surgiu nos olhos azuis de Clara. Noirot a olhou com a mesma frieza e falta de expressão que teria lançado sobre uma promissora seleção de cartas. Que tola! Ela não podia tratar a filha de uma marquesa como se fosse uma criança temperamental, ainda que ela estivesse se comportando como tal. Noirot poderia perder qualquer esperança de conseguir uma encomenda e teria sorte se lady Warford não a expulsasse de Londres. – Se eu puder dar minha opinião sobre… – Não, Clevedon. Não pode – avisou Clara. – Eu disse a ela para vir. Ela não me deu opção. Nada do que ela propôs tem qualquer coisa a ver com o que eu normalmente visto. Não posso acreditar que sou uma pessoa tão provinciana, tão sem gosto e discernimento, mas você sabe que nunca dei muita importância a isso, e é sempre mamãe quem me aconselha sobre roupas. Agora me dizem para jogar fora tudo que tenho. O que vou dizer à mamãe? E não vou poder ter um vestido verde! Ela bateu o pé. Clara literalmente bateu o pé no chão. – Deve ser verde-azulado – disse Noirot. Ela colocou a ponta do dedo no queixo e analisou Clara com cuidado. – Imagino um poult-de-soie bordado, o corsage enfeitado com uma mantilha de renda de seda. O dedo dela afastou-se do queixo e pousou delicadamente sobre o ombro. Seu dedo demorou-se sobre o lugar onde ele a havia tocado naquela noite, quando jogaram cartas, quando ele a ajudou com o xale. Clevedon se lembrou da ligeira dificuldade na respiração dela e do triunfo que sentiu porque a havia afetado de alguma maneira. – Mas isso é para mais tarde – prosseguiu Noirot. – Por enquanto, como milady me lembrou repetidamente, estamos usando branco. E, como já avisei, deve ser um branco leve. Não marfim. – Ela fez um gesto de repúdio ao vestido jogado sobre uma cadeira. – E não aquele branco que chega a cegar a vista. – Ela indicou outro vestido, colocado sobre o encosto de um pequeno sofá. – Por falar em cegueira – disse Clevedon –, podemos fechar as cortinas? Estou com uma dor de cabeça horrorosa… – Imagino onde você a conseguiu – disse Clara. – No mesmo lugar onde Longmore consegue a dele, ouso dizer. Bem, você vai ter que sorrir e suportar a luz. Madame não pode trabalhar no escuro. – Não pode? Achei que ela pudesse qualquer coisa – murmurou Clevedon, retirando-se para o canto mais escuro da sala. – Mais de uma vez, ela me disse que é a maior modista do mundo.


– Sem dúvida, ela é a modista mais exigente do mundo – comentou Clara. – Ela está me mostrando como as cores afetam a pele da mulher. Viemos a essa sala porque é onde se encontra a melhor luz a essa hora do dia. – Ela fez uma pausa, franzindo o cenho. – Se está com dor de cabeça, por que veio aqui? – Você estava gritando – explicou ele. – É exasperador quando alguém leva suas roupas embora – disse Clara. – Descobri que não sou tão desapegada quanto supunha. Mas o que quero dizer é por que veio até minha casa? Sabe muito bem que papai nunca está em casa às terças-feiras e você jamais viria ver mamãe, mesmo que ela estivesse em casa, onde, aliás, ela não está, caso contrário a Sra. Noirot também não estaria. Afinal, ela é meu segredo inexpugnável. – Eu vim para levá-la para passear – disse Clevedon. Será que ela era sempre tão tagarela? – Mas você pode ver que estou ocupada. Por que não me disse que viria? – Eu disse, no sábado. – Não disse, não. Você não me deu mais do que cinco minutos de atenção no sábado e não pronunciou mais do que dez palavras, foi só o que você fez. Hoje, é óbvio, não é um dia conveniente. – Estamos quase acabando – disse Noirot. – Acho que não – discordou Clara. – Precisamos decidir o que dizer à mamãe. Noirot não moveu os olhos, algo que ele via como prova de um autocontrole sobre-humano. Clara o estava deixando maluco e ele só chegara lá havia poucos minutos. Noirot devia estar com vontade de esganá-la. Mas a expressão no rosto dela se tornou ainda mais gentil. – Diga a ela, milady, que não se pode esperar que um cavalheiro moderno, que passou algum tempo em Paris, possa fazer a esperada proposta… – Fazer o quê? – interrompeu Clevedon. – … a uma pessoa que está completamente fora da moda e ultrapassada – prosseguiu Noirot, sem se importar com a interrupção. – E fale isso de cabeça erguida, fazendo soar como um fato que deveria ser óbvio para o mais baixo nível de inteligência. Se houver alguma dificuldade, tenha um chilique. É assim que a moças da alta classe costumam fazer. – Mas eu nunca fiz isso – respondeu Clara, em choque. – Um minuto atrás, você bateu o pé no chão – comentou Clevedon. – E fez biquinho também. – Não fiz, não! – Milady estava muito nervosa para perceber – analisou Noirot. – Entretanto, deve fazer o que eu disse com uma força ainda maior e com absoluta confiança. Ainda assim, precisamos nos lembrar de que um chilique é apenas uma maneira de obter a atenção de quem nos ouve. Assim que tiver toda a atenção de sua mãe, milady deve se tornar o mel em pessoa e dizer a ela o seguinte. Noirot cruzou os braços e, enquanto Clevedon e Clara observavam, atônitos, os olhos dela ficaram marejados. As lágrimas não caíram, permaneceram ali, brilhando, enquanto dizia: – “Mãezinha querida, eu sei que a senhora não quer que eu fique envergonhada na frente de todas as minhas amigas.” Não se esqueça de mencionar alguém que sua mãe deteste. Quando ela disser que


isso tudo é bobagem, como provavelmente dirá, conte a ela sobre o cavalheiro francês que estava loucamente apaixonado por uma mulher casada… – Esse não é o tipo de atitude que Clara… – Por favor, deixe que ela continue – pediu Clara. – Foi você quem me levou até essa pessoa irritante e eu me preparei para sofrer com ela até ficar linda. – Milady já é linda – disse Noirot. – Quantas vezes preciso repetir isso? Fico furiosa. Um diamante perfeito precisa de um engaste perfeito. Uma obra-prima precisa de uma moldura perfeita. Um… – Está bem, está bem, mas sabemos que esse argumento não vai funcionar com mamãe. O que aconteceu com o cavalheiro e a mulher casada? – Os amigos tentaram fazê-lo raciocinar, imploraram… tudo em vão – contou Noirot. – Então, uma noite, durante uma festa, a dama pediu a ele que buscasse seu xale. Ele apressou-se em servi-la, imaginando a maciez sedosa de um xale de caxemira, o cheiro da mulher que ele amava reforçando a sua perfeição… Clevedon se lembrou do cheiro de Noirot, quando seu rosto estava mergulhado no pescoço dela. – … um xale de caxemira que envergonharia os xales das outras mulheres. Ele buscou a peça, mas… quelle horreur! Não era de caxemira. Pele de coelho! Enojado de desgosto, ele deixou, naquele instante e para sempre, de amá-la e a abandonou. Clara olhava fixamente para Noirot. – A senhora está zombando de mim – disse ela. Clevedon se controlou e disse: – Você vai achar essa história no livro de lady Morgan sobre a França. Foi publicado há alguns anos, mas o princípio permanece. Gostaria que tivesse visto a cara de meu amigo Aronduille quando perguntei a ele se por acaso se importava com o que uma mulher vestia. Queria que tivesse ouvido Aronduille e seus amigos conversando sobre isso, citando filósofos, discutindo sobre Ingres, Balzac, Stendhal e Davi, arte e moda, o sentido da beleza, e por aí afora. Clara olhou para ele e, em seguida, retornou o olhar para a Sra. Noirot. – Bem, nesse caso, vou tentar. E devo dizer que é só porque Clevedon é tão infernalmente criterioso, pior ainda que Longmore… – Clara, não seria melhor se você…? – Mas o que vou usar amanhã à noite no Almack’s? – indagou Clara. – A senhora rejeitou tudo. Almack’s, pensou ele. Outra noite insuportável na companhia das mesmas pessoas. Ele teria que arrancar Clara de sua horda de admiradores e dançar com ela. O que quer que ela usasse, ele sabia que teria os dedos de Noirot. – Como pareço estar sobrando… – comentou ele. – De forma alguma, Vossa Graça – disse Noirot. – O senhor chegou bem na hora. Milady tem sido imensamente paciente e compreensiva, uma vez que perturbei todo o seu universo. – Perturbou mesmo – concordou Clara. – Mas aqui está Sua Graça, que veio buscá-la para um passeio. Ar fresco, exatamente o que a senhorita precisa depois dessa manhã e tarde tão cansativas.


– Mas o Almack’s… – Não se preocupe. Levarei um vestido até sua casa às sete da noite, quando faremos quaisquer ajustes que forem necessários. O vestido ficará perfeito. – Mas minha mãe… – A senhorita já terá lidado com ela, como sugeri. Clara olhou para Clevedon. – Ela é a criatura mais ditatorial que conheci – afirmou ela. – Sua Graça já teve a gentileza de mencionar esse meu defeito de caráter – disse Noirot, sem sequer olhar para Clevedon. – Sirvo as mulheres da moda o dia inteiro, seis dias por semana. Ou domino, ou sou dominada. Ah, ali estava: a franqueza que desarma, fermentada por um toque de humor. Ela era mesmo insuperável. – Já fui dominada o bastante por hoje – disse Clara. – Clevedon, por favor, seja paciente por mais alguns minutos e ficarei feliz em tomar um ar fresco com você. Prometo voltar num minuto. A Sra. Noirot me deixou alguns itens insignificantes, que não achou completamente abomináveis. Minha criada não terá grandes decisões a tomar sobre chapéus ou qualquer outra coisa. Ela se dirigiu até a porta e hesitou. Em seguida, com a expressão de quem acabara de tomar uma decisão, saiu.

Marcelline disse a si mesma que conseguira exatamente o que queria. Mais até do que imaginava. Ela não teve que esperar pelo noivado. Já tinha lady Clara nas mãos e uma encomenda bem grande. Amanhã à noite, o crème de la crème da sociedade veria lady Clara Fairfax usando uma criação da Maison Noirot. Em breve, sua loja seria o melhor estabelecimento de roupas em toda Londres. Marcelline havia conseguido tudo que planejara quando partira para Paris, poucas semanas atrás. Ela não poderia estar mais feliz. Foi isso o que disse a si mesma, enquanto começava a selecionar os vários itens rejeitados do guarda-roupa de lady Clara. – A senhora pretende queimá-los? – Ela ouviu a voz de Clevedon vinda do canto onde ele havia se colocado. – É claro que não – respondeu ela. – Mas as peças não têm nenhuma qualidade que possam redimi-las. Eu jamais teria percebido a má qualidade das cores antes que a senhora envenenasse a minha mente, mas até eu posso ver quando o corte e a costura são inferiores. – Eles podem ser desmanchados e refeitos – disse Marcelline. – Sou benfeitora de uma instituição de caridade para mulheres. Milady foi gentil e me permitiu doar às minhas meninas metade do que não vai mais usar.


– Suas meninas? – repetiu ele. – A senhora… a senhora é uma filantropa? Ela teve vontade de jogar alguma coisa nele. Uma cadeira. Ela mesma. Mas aquela era uma reação superficial do coração de Noirot. Ele era lindo. Observá-lo movimentar-se fez sua boca secar. Não era justo que ela não pudesse tê-lo sem complicações. Na cama, no assento de uma carruagem ou contra uma parede. Não faria diferença o fato de ele ser indolente, arrogante e insensível. Como adoraria usá-lo e descartá-lo, do mesmo modo que os homens usavam e descartavam as mulheres. Mas não podia. E ela já o havia usado, embora não dessa maneira. Noirot o usara de uma maneira mais importante. Conseguira o que planejara. Uma criada entrou e Marcelline passou um momento dando orientações a ela. Quando a moça saiu de novo, carregando uma pilha de roupas, Marcelline não retomou a conversa de onde havia parado. Ele não iria perturbá-la, de jeito nenhum. Estava muito, muito feliz. Atingira seus objetivos. – Que tipo de mulheres desafortunadas são? – indagou o duque. – Vou mandar meu secretário fazer uma doação. Se forem capazes de fazer algo com esses vestidos, serão merecedoras. – A Sociedade das Costureiras para Educação de Mulheres Desafortunadas. Ela poderia ter acrescentado que as irmãs e ela haviam fundado a associação no ano passado. Aprenderam, ainda bem cedo, sobre a pobreza e as dificuldades de ganhar a vida. Mas seu passado era um segredo guardado a sete chaves. – Algumas de nossas moças conseguiram se tornar camareiras – explicou ela. – A maioria encontra colocação como costureira, atividade para a qual sempre há grande demanda, especialmente nos períodos de luto. Para sorte delas, a corte fica de luto com frequência. O mordomo entrou, seguido de um lacaio, que carregava uma bandeja com um lanche para entreter Sua Graça durante a espera por lady Clara. Marcelline estava faminta. Estivera servindo a lady Clara desde a manhã, sem que lhe tivessem oferecido nada para comer ou beber. Mas simples comerciantes não mereciam ser alimentados. Oh, será que a moça nunca iria terminar de se arrumar? Quanto tempo era necessário para colocar um chapéu e jogar um xale nos ombros? Era de se imaginar, devido ao medo de lady Clara de que Marcelline arruinasse a sua vida, que ela não os deixasse sozinhos por mais que meio minuto. Mas eles não estavam sozinhos, criados entravam e saíam a todo instante. Não que lady Clara tivesse motivos para se preocupar. Os únicos projetos que Marcelline tinha dependiam da escultural figura de lady Clara – e do dinheiro de seu pai e de seu futuro marido. Era só isso. Ela estava muito, muito feliz. O silêncio só era quebrado pelas entradas e saídas dos criados. Até que, enfim, lady Clara reapareceu. Marcelline analisou-a e fez apenas um ajuste no chapéu da jovem – não estava inclinado com a precisão necessária – e torceu o xale de caxemira, fazendo um arranjo mais atraente. Os xales dela eram muito elegantes. Não havia nenhum defeito ali. Ao terminar de arrumar lady Clara, Marcelline se afastou, fez uma mesura e voltou ao trabalho. Ela estava consciente da enorme figura de Clevedon passando não muito distante, do som abafado de suas botas sobre o tapete. Ouviu os murmúrios, a voz dele mesclando-se com a de lady Clara, e a risada suave da jovem.


Marcelline se manteve ocupada com o trabalho e, depois que saíram, disse a si mesma que fizera um bom trabalho, que não havia feito nenhum malefício a ninguém. Um milagre, considerando-se a sua linhagem.

Naquela noite. O vestido que a Sra. Whitwood havia devolvido estava em cima do balcão. A irritada cliente tinha entrado e saído enquanto Marcelline dedicava toda a sua atenção a Clara Fairfax, na Residência Warford. Sophia havia acalmado a Sra. Whitwood. Ela era capaz de acalmar Átila, o Huno. O vestido seria refeito. O custo maior seria o da mão de obra, o menor custo quando se tratava de fazer um vestido. Mesmo assim, demandava tempo – um tempo que Marcelline, as irmãs e as costureiras poderiam estar aplicando em outros pedidos. Se continuassem assim, ficariam arruinadas. Não era pelo fato de não poderem continuar a refazer os vestidos. O que elas não poderiam perder era a reputação. Marcelline estudava o vestido, pensando no que mudar. – Quem trabalhou nele? – perguntou ela a Prichett, a costureira-chefe. – Madame, se existe algum defeito na costura, deve ser minha culpa – respondeu Frances. – Supervisionei cada ponto dado nesse vestido. Mas madame pode ver por si mesma. Está tão preciso quanto ordenou. – De fato. E os detalhes, como sabe, são de minha própria criação. É muito estranho que outro vestido apareça com esses mesmos detalhes. O ângulo e a largura das pregas do corpete foram inventados por mim. É muito curioso que outra modista tenha tido exatamente a mesma ideia, no mesmo estilo de vestido. – Muita falta de sorte, madame. Entretanto, é um milagre que não tenhamos tido esse problema antes, se considerarmos que acolhemos das ruas praticamente todo tipo de moça. Não é que não devamos ser caridosas. Algumas delas não têm muita noção do que fazem, ouso dizer. Nunca aprenderam a diferenciar o certo do errado. Eu ficaria feliz em trabalhar até tarde, até a hora que fosse necessária, para refazer o vestido, se madame assim o desejar. – Não, vou precisar de você amanhã – respondeu Marcelline. – O vestido de baile de lady Clara Fairfax precisa estar pronto para ser entregue às sete da noite em ponto. Vou querer todas as minhas costureiras descansadas e alertas. Melhor chegar mais cedo. Digamos, às oito horas da manhã. – Ela olhou para o relógio em seu pingente. – Frances, mande todas para casa agora. Diga que precisam estar aqui às oito em ponto amanhã de manhã, prontas para um dia de muito trabalho. Ela quase nunca mantinha as costureiras na loja depois das nove da noite, mesmo quando o movimento era grande, como acontecera quando a filha do Dr. Farquar precisou casar-se depressa –


ou quando a Sra. Whitwood, tendo discutido com a Trapos, viera à Maison Noirot com as cinco filhas para encomendar vestidos de luto, devido à morte de uma tia muito rica. A experiência pessoal de Marcelline a havia ensinado que as pessoas trabalhavam melhor de manhã cedo. Ao cair da noite, o ânimo diminuía, a visão falhava. O ateliê tinha uma claraboia, mas ela não servia de nada depois do pôr do sol. – Sim, madame, mas ainda não completamos o redingote da Sra. Plumley. – Ele só precisa estar pronto na quinta-feira. Quero que todas vão para casa e se preparem para um longo dia de trabalho amanhã. – Sim, madame. Marcelline ficou observando Frances enquanto ela saía do ateliê. A armadilha que ela e as irmãs haviam preparado na manhã anterior era bastante simples: antes de irem para casa, no fim do dia de trabalho, as costureiras precisavam arrumar tudo. O ateliê devia ficar limpo e organizado. Nada de pedaços de fita jogados, botões e dedais sobre as mesas de trabalho, as cadeiras, o chão ou qualquer outro lugar que não fosse o correto. O ateliê estava totalmente arrumado na manhã do dia anterior quando Marcelline deixou cair no chão, propositalmente, o croqui de um vestido para a Sra. Sharp. A primeira costureira a chegar – em geral, era Frances – deveria ter achado o croqui e devolvido a Marcelline, Sophia ou Leonie. Mas, quando Sophia chegou, tão logo o dia de trabalho havia começado, o croqui desaparecera e ninguém disse nada a respeito. Não apareceu até a manhã seguinte. Selina Jeffreys o encontrou debaixo da cadeira, assim que chegou ao trabalho. Frances chamara a atenção de Selina por sair correndo na noite anterior, deixando o ateliê fora de ordem. Ela lhe dera uma tremenda bronca por causa do croqui. Afinal, “o trabalho de madame não pode ser manuseado sem o devido cuidado”. Mas Marcelline, Leonie e Sophia sabiam que não havia bagunça e que o lugar de Selina estava tão organizado quanto o das outras. Não havia nada perdido sob nenhuma cadeira. Agora elas sabiam a verdade e estavam prontas. A porta da loja se abriu de repente, chacoalhando o sino. Marcelline olhou para trás e sentiu um aperto dolorido no coração. Clevedon ficou parado por alguns instantes, os olhos verdes percorrendo a loja. Ele franziu o cenho ao vê-la, mas logo suavizou o lindo rosto e dirigiu-se até Marcelline. Fascinada por aquele rosto inesquecível, belo demais para ser real, ela precisou de alguns segundos para perceber a grande caixa que ele trazia nas mãos. – Vossa Graça – disse ela, fazendo uma leve reverência. – Sra. Noirot – disse ele, colocando a caixa no balcão. – Esse não pode ser o novo vestido de lady Clara – disse ela. – Sophia disse que ela simplesmente o amou. – Por que diabo estaria devolvendo uma compra de Clara? Não sou lacaio dela. Isso é para Erroll. O coração de Marcelline acelerou, agora de raiva. Ela sabia que seu rosto estava quente. Era provável que não parecesse, mas ela não se importava com isso. – Leve de volta – ordenou ela.


– Por certo que não – respondeu ele. – Tive muito trabalho. Não sei mais nada sobre crianças e a senhora não tem ideia do número e da variedade de… – O senhor não pode dar presentes para minha filha – insistiu Marcelline. Ele afastou a tampa da caixa e tirou uma boneca – e que boneca! Os cabelos eram longos e negros, os olhos de vidro muito azuis. Estava vestida com uma trama de prata e renda, enfeitada com pérolas. – Não vou levá-la de volta – disse ele. – Se quiser, pode queimá-la. Naquele mesmo instante, Lucie entrou na sala, pela porta dos fundos. Ela parou de repente ao ver a boneca, que o duque não fizera a gentileza de colocar de novo na caixa. A menina estava observando a rua pela janela do andar de cima, sem dúvida, como sempre fazia. Reconhecera a bela carruagem do duque. Lucie tinha 6 anos. Era demais esperar que resistisse à boneca. Seus olhos se arregalaram. Ainda assim, conseguiu dar um “Boa noite, Vossa Graça” bem convincente, junto com uma mesura. – Puxa, essa é uma boneca e tanto – disse ela. – Acho que é a boneca mais linda que já vi em toda a minha vida. Em todos aqueles seis anos. – O senhor vai pagar por isso – disse Marcelline, em voz baixa. – E vai doer. – É mesmo? – disse ele a Lucie. – Não entendo muito bem desses assuntos. – Ah, sim. – Lucie deu um passo à frente. – Ela não é como as bonecas comuns. Os olhos são de vidro azul, está vendo? E o rosto parece de verdade. E o cabelo é tão lindo que eu acho que é de verdade. – Você quer segurá-la? – perguntou Clevedon. – Quero! – Ela foi em direção ao duque, mas hesitou e olhou para Marcelline. – Posso, mamãe? – Pode – respondeu Marcelline, pois não poderia dizer mais nada. Ela era prática e sensata. Qualquer mãe saberia que isso poderia criar um terrível precedente, além de comprometer sua reputação. Mas negar à filha – a qualquer criança – um presente como aquele, depois que ela já o vira e não fizera nada de errado para ser punida, era uma crueldade injustificada. Ela era uma mãe rígida. Precisava ser. Mas sua própria infância fora marcada por todo tipo de crueldade, grandes e pequenas. Esse era um legado que ela não queria passar adiante. Dobrando seu enorme corpo, ele se agachou para ficar no mesmo nível de Lucie. Solenemente, entregou a boneca. Com a mesma solenidade, a menina a pegou, prendendo a respiração até que a boneca estivesse a salvo em seus braços. Segurou-a com extremo cuidado, como se a boneca pudesse desaparecer em um minuto. – Como ela se chama? – indagou a menina. – Não tenho a menor ideia – respondeu ele. – Achei que você saberia. Oh, aquele homem infame e manipulador! Lucie pensou por alguns instantes. – Se ela fosse minha boneca, eu a chamaria de Susannah. – Eu acho que ela gostaria de ser sua boneca – sugeriu Clevedon. Ele lançou um olhar para Marcelline. – Se tiver permissão.


Embora estivesse fascinada pela boneca, Lucie não deixou de entender a quem ele estava pedindo permissão. – Oh, se mamãe disser que ela pode? Mamãe, ela pode? Ela pode ser minha boneca? – Pode – respondeu Marcelline. Que outra resposta ela poderia dar? Maldito fosse ele! – Oh, obrigada, mamãe! – Lucie virou-se de novo para Clevedon e o olhar que ela lançou para ele, com aqueles lindos olhos azuis, foi de partir o coração, algo que Marcelline tinha esperança de que realmente acontecesse. – Obrigada, Vossa Graça. Vou tomar muito cuidado com ela. – Sei que vai – frisou ele. – Olha, os braços e pernas dela se mexem! – exclamou Lucie, fazendo a demonstração. – Ela não precisa usar só um vestido. Este aqui é muito lindo, mas ela é como uma princesa e uma princesa tem que ter muitas roupas. Mamãe e minhas tias vão me ajudar a cortar e costurar vestidos para ela. Vou fazer vestidos para usar de manhã, para passear e o vestido de passeio de carruagem mais bonito do mundo, um redingote azul para combinar com os olhos dela. Quando vier aqui de novo, o senhor vai ver. Quando vier aqui de novo. – Por que não leva Susannah lá para cima, para conhecer suas tias? – sugeriu Marcelline. – Tenho algo importante para discutir com Sua Graça. Lucie obedeceu, carregando a boneca como se fosse uma criança de verdade. Clevedon se levantou e a observou passar pela porta dos fundos da loja. Ele estava sorrindo, mas era um sorriso que Marcelline ainda não tinha visto. Não era um sorriso encantador, sedutor ou vencedor. Era afetuoso e melancólico e ela não conseguiu suportá-lo. Foi algo que a deixou vencida e enfraquecida, de uma maneira que nenhum de seus outros sorrisos poderiam ter feito. O que a deixou ainda mais zangada. – Clevedon – começou ela. Ele se virou para Marcelline, o sorriso se desmanchando. – A senhora não pode brigar comigo – disse ele. – Ela se propôs a me conquistar, do mesmo modo que a mãe… – Ela só tem 6 anos! – Ambas conseguiram. O que posso fazer? Ela é uma menininha. Por que não poderia ter uma boneca? – Ela tem bonecas! Ela lhe parece malcuidada? Parece que lhe falta alguma coisa? Ela é minha filha e eu tomo conta dela. Não tem nada a ver com o senhor. O senhor não tem nada que comprar bonecas para ela. O que lady Clara irá pensar? O que o senhor acha que seus ricos amigos dirão quando souberem que deu presentes para minha filha? O senhor sabe que vão acabar sabendo. – Lucie iria mostrar a boneca para as costureiras, é claro, e elas contariam a todo mundo, e logo a notícia se espalharia pela cidade. – E o senhor acha que as especulações que irão surgir farão bem aos meus negócios? – A senhora só pensa nisso. Nos seus negócios. – É a minha vida, seu grande cabeça de vento! É como eu ganho a vida. O senhor não consegue entender um conceito tão simples? Ganhar a vida?


– Eu não… – Isso é como eu alimento, visto e dou casa e educação à minha filha – disse ela, indignada. – Isso é como eu sustento minhas irmãs. O que preciso fazer para que o senhor entenda? Como pode ser tão cego, tão deliberadamente embotado, tão…? – A senhora vai me enlouquecer. Para onde quer que eu me vire, lá está a senhora. – Isso é uma injustiça monstruosa. Aonde quer que eu vá, lá está sua gigantesca carcaça! – A senhora atrapalha tudo. Há duas semanas que tento propor casamento a Clara e toda vez que me preparo para isso… – Se prepara? – Toda vez – prosseguiu ele, sem perceber o que ela dissera –, ali está a senhora. Fui à Residência Warford hoje para fazer a “esperada proposta”, como a senhora tão poeticamente diz, mas ela estava em tal estado, provocado por sua presença, que nem pudemos ter uma conversa decente e todo o meu discurso… me fugiu da cabeça. A porta dos fundos da loja se abriu de novo e Leonie entrou. – Oh, Vossa Graça! – exclamou ela, fingindo supressa, embora fosse óbvio que havia escutado a briga lá de cima. Marcelline rezou para que as costureiras tivessem seguido suas ordens e saído mais cedo. Caso contrário, teriam muito o que ouvir. – Ele já estava indo embora – disse Marcelline. – Não estava, não – rebateu ele. – Está na hora de fechar – disse Marcelline –, e sabemos que o senhor não vai comprar nada. – Talvez eu compre. – Leonie, por favor, tranque as portas para mim – pediu ela. – Não vou manter minha loja aberta a noite toda só para ceder aos seus caprichos. – A senhora está planejando me colocar para fora? – indagou ele. Se pudesse, ela o deixaria inconsciente e o arrastaria para o beco atrás da loja. Não seria a primeira vez que teriam que se desfazer de um encrenqueiro. – O senhor é grande demais, maldito seja. Mas vamos resolver isso de uma vez por todas.


Capítulo dez Próximos casamentos na alta sociedade – Um casamento está sendo previsto entre o Sr. Vaughan e lady Mary Gage, irmã de lorde Kenmare. Dizem que o visconde de Palmerston deve unir-se em breve à rica Srta. Thwaites. Jornal da Corte, 25 de abril de 1835.

Marcelline atravessou com raiva a passagem entre as escadas e os fundos da loja e passou pela porta do ateliê. Encontrou o caos. Mesas cobertas de retalhos de tecido, dedais, linhas, almofadas de alfinetes. O chão coberto de restos de trabalho. As cadeiras haviam sido deixadas no local para onde haviam sido empurradas. Parecia que as costureiras tinham fugido ou sido expulsas. Ela não teve tempo ou cabeça para imaginar por quê. Não tinha tempo para analisar a situação. O estado do ateliê era mais um dos desafios de um dia longo e cansativo, em que era obrigada a morder a língua e controlar o temperamento diante de atos de estupidez, grosseria e desleixo. Um longo dia contendo os próprios desejos e dedicando toda a energia para vencer e agradar. Ela decidiu lidar com aquela afronta mais tarde. Primeiro, Clevedon. Ela se virou para encará-lo, apoiando as mãos na borda da mesa de trabalho vergonhosamente desorganizada. Marcelline se orgulhava da limpeza e da organização de sua loja, um contraste espantoso com a vida na casa de seus pais, ou o que eles consideravam como casa. Mas a opinião dele sobre a bagunça não tinha importância naquele momento. Como poderia saber a diferença entre como deve ou não deve ser um local de trabalho? E por que se importaria com isso? – O senhor não vai mais voltar aqui – disse ela. – Nunca mais. – Por mim, tudo bem. Este é o último lugar da Terra onde gostaria de estar. – O senhor não vai mais comprar presentes para minha filha. – E por que a senhora acha que eu compraria? – Porque ela é uma manipuladora atrevida, que sabe como convencer os homens a fazerem o que ela quer. – Igualzinha à mãe – destacou ele. – Sim, eu o manipulei e o convenci a fazer o que eu queria. Mas agora, chega. O que eu queria do senhor a não ser a sua noiva? Mentirosa, mentirosa. – Ainda não estamos noivos, graças à senhora.


– Graças a mim? – perguntou ela, com uma risada zombeteira. – O senhor não está noivo por sua causa. Por que não fez o discurso tão cuidadosamente ensaiado para aquela linda jovem? O discurso ao qual dedicou meros trinta minutos para a pergunta mais importante de sua vida… – Clara não precisa… – Mas por que o senhor se daria a tanto trabalho, quando tem certeza de ter tudo o que deseja? Está acostumado a ter o que quer e a perder o interesse assim que o tem. – Eu amo Clara – disse ele. – Eu a amo desde que éramos crianças. Mas a senhora… – Então a culpa é minha? Eu sou o demônio que está destruindo a sua felicidade? Olhe para si mesmo e ouça suas próprias palavras. Como todos os homens, o senhor deseja o que não pode ter. Como todos os homens, vai ficar interessado, vai ficar obcecado, até conseguir. O senhor veio aqui esta noite porque não consegue pensar direito. Ele ficou vermelho e cerrou as mãos. – Se acha que essa coisa é a senhora, pense novamente – esbravejou ele. – Eu não a quero. Mas a senhora me quer, o que me causa pena. Foi como se ela tivesse dado de cara com uma parede. Sua cabeça latejava. Sim, ela o desejava. Queria ser a linda mulher a quem ele amava. Queria ser outra pessoa: uma mulher que tivesse importância para ele, em vez de uma qualquer, destinada a ser usada e descartada. Ela desejava tudo o que sua família lhe havia tirado: cada oportunidade que havia sido desperdiçada e todos os danos causados ao seu futuro, havia muitas gerações, antes do próprio nascimento. No entanto, ela nem piscou. – Então, mande-me mais clientes – contra-atacou ela. – Considero o dinheiro um enorme conforto em qualquer calamidade. Ela ouviu a inspiração cortante de Clevedon. – Oh, Deus – disse ele. – A senhora é o demônio. – E o senhor é um anjo? – retrucou ela, dando uma gargalhada. Ele atravessou a sala e ela soube o que iria acontecer. Mesmo assim, ficou ali parada, desafiando-o, desafiando sua própria destruição.

Eles achincalharam e insultaram um ao outro, da mesma forma que a voz dela havia zombado dele pela forma como mentia para si mesmo e para todos. A verdade é que ele não era nenhum anjo. Três anos antes, abandonara todas as responsabilidades, viajara para o exterior e encontrara a si mesmo. Tinha se estabelecido em Paris porque podia ser livre naquele lugar, como jamais seria na Inglaterra. Em Paris, sua fome de excitação e prazer não prejudicaria aqueles a quem amava. Ela não prometia nada além de danos, por toda parte. Era a mulher errada para ele, sob toda e qualquer circunstância, principalmente naquele


momento. Por que não a conhecera um ano antes, três anos antes? Quando olhou para baixo e seus olhares se encontraram, certo e errado perderam o sentido. Eram da mesma espécie e os semelhantes se atraem. Ele a desejava. E ela, que conseguia lê-lo sem dificuldades, havia dito uma verdade incisiva após a outra. Sim, ele continuaria a desejá-la até conseguir tê-la. Então, se tudo fosse consumado, ele poderia se libertar dela. Clevedon segurou o rosto dela e a beijou. Ela virou a cabeça, interrompendo o beijo. Ele passou a boca pelo pescoço dela. O perfume de Marcelline despontou de seu pescoço e todo o ar que ele respirou dali em diante era ela, e tudo que ele sentia era ela. – Tolo! – disse ela. – Sim – concordou ele, passando os braços em volta dela, afastando-a da mesa, arrastando-a para perto de seu corpo. Aquilo era certo, por mais desesperadamente errado que parecesse. Era certo o calor das costas dela contra os braços dele e a maneira como o corpo dela se ajustava ao seu, como se tivesse sido desenhado para isso. Ele fora conquistado. Seu corpo inteiro latejava, como se estivesse com febre, destruindo o seu bom senso. Isso era tudo o que ele desejava: posse. Imagens ardiam em sua mente: a maneira fria como ela o deixara no teatro… homens trombando uns nos outros ou tropeçando nos próprios pés quando ela passava… a maneira como virava a cabeça… o gracioso arco de seu leque abanando-a por cima do vestido… o leve movimento de sua mão tocando o próprio ombro no lugar onde ele a tocara. Tudo isso e mais – cada momento na companhia dela – tudo isso girando em sua mente e correndo por suas veias quando ele a tomou nos braços. Era isso o que ele desejava. Abraçá-la. Possuí-la. Minha. Irracional, como um animal selvagem. Com um braço, ele afastou o que estava sobre a mesa. Pedaços de pano, tiras de renda e fitas caíram por todo lado, ao mesmo tempo que carretéis de linha, dedais e outras miudezas se espalharam pelo chão. Ele a levantou, colocando-a na mesa. Ela pôs a mão no peito dele, para empurrá-lo. Ele prendeu as mãos dela com as suas, por cima de seu coração acelerado. Levantou o queixo dela e a desafiou com o olhar. Os olhos dela eram grandes e negros como a noite. Era ali que ele queria estar: perdido na escuridão, naquele lugar desconhecido e misterioso que era Noirot. Noirot. Era só o que ele sabia, ele não sabia se esse era mesmo o seu nome. Não sabia se tivera um marido. Não tinha importância. Ela levantou as mãos, agarrou a cabeça dele e a puxou para si. Passou as pernas em volta do corpo dele e o beijou, daquele jeito selvagem que era tão próprio dela, não se preocupando em controlar nada e exigindo tudo. E ele retribuiu, um beijo louco e faminto, enquanto suas mãos se moviam gananciosamente pelo corpo dela, desejando-a cada vez mais. Ele tinha guardado tudo aquilo por muito tempo. Poucas semanas se passaram desde que a conhecera, mas parecia que a desejava havia séculos. Parecia uma


eternidade, na qual vivera de sonhos, fantasias e lembranças que o assaltavam, assombrando seus dias e noites. Agora, ele se sentia vivo, finalmente, depois de passar uma vida inteira andando como um sonâmbulo. Sob suas mãos, seda, musseline e renda murmuravam, um som íntimo, que convidava à posse. Mas ele achava obstáculos por toda parte, camadas e mais camadas de sua maldita moda separando as mãos do homem da pele da mulher. Ele escorregou a mão pelo corpete, em busca de pele, lembrando-se do milagre aveludado que era a pele dela. A lembrança era enlouquecedora, pois ele não conseguia tocá-la da maneira como desejava. No meio daquele calor desnorteante, sabia que tinham pouco tempo. Haviam se encontrado no momento errado, não eram feitos um para o outro e aquilo era a única coisa que poderiam ter. Não havia tempo. Ele levantou a saia e as anáguas dela, deslizando as mãos pela calçola de delicada musselina. A consciência crepitava, eletrizante: consciência da pele macia sob sua mão… o calor que exalava do tecido fino… a doce plenitude de suas coxas… Não tinham tempo. Ele encontrou a abertura da calçola. Ouviu a inspiração aguda quando seus dedos passearam pela maciez que habitava ali. Então, enquanto a acariciava, ela deixou escapar um grito, que logo abafou beijando-o na boca. Ele sabia o que estava fazendo. Uma parte dele tinha consciência de onde estavam e a loucura a que se entregavam. Uma parte dele sabia que havia fechado a porta do ateliê, mas que não a trancara. Uma parte dele sabia que aquela era uma sala onde qualquer um poderia entrar a qualquer instante. A consciência pairava e o incomodava, com um aviso urgente: seja rápido, seja rápido. Ele era um tolo e devia estar mortificado. Depois de tanto tempo, não passava de um menino desejando uma menina, roubando um momento para um coito furtivo e apressado. Mas ele não conseguia parar. Ela estendeu a mão e desabotoou as calças dele. Clevedon engasgou, sem descolar os lábios dos dela, quando Marcelline o tocou, a mão segurando seu membro ereto, subindo e descendo. A mente dele se enevoou e tudo o que havia era carência e ardor. Ele afastou a mão dela e a penetrou. Ela gemeu baixinho, um gemido mais uma vez abafado e, então, o único som que se ouvia era o da respiração de ambos, áspera e dura, e ele empurrou de novo e de novo, nada além de um animal, possuindo, sem consciência. Minha. Clevedon sentiu as unhas dela apertando seus braços e o corpo dela tremendo, quando o prazer a arrebatou. Mas foi só isso. Ela não gritou. O único som que ele ouviu foi o da respiração dela, acelerada e curta. Ele queria mais, infinitamente mais, mas havia esperado por muito tempo e seu desejo era descomunal. Quando seus músculos se contraíram com imenso ardor durante o orgasmo dela, seu controle se estilhaçou. O prazer pulsou por seu corpo como se estivesse vivo, algo que o arrastava para um precipício. E ele se soltou em uma onda de triunfo tão feroz que pensou em jamais se afastar. Mas era tarde, tarde demais. Ele sentiu os espasmos do corpo dela quando foi novamente invadido pelo prazer e ouviu seu grito rouco, condenando-o ao inferno. A felicidade tomou conta dele e ele se


derramou dentro dela, em uma corrente ardente de impetuoso alívio e tempestuosa felicidade.

Marcelline não queria agarrar-se a ele, mas não tinha opção, pois, se o soltasse, escorregaria da mesa e cairia no chão, sobre uma pilha de roupas. Seu coração havia desacelerado de todo aquele frenesi e, agora, batia devagar e com força. Oh, ela era uma tola, a maior tola que jamais existiu! Poderia ter vivido sob uma abençoada ignorância. Poderia ter considerado que todos os homens eram iguais e que o coito era um alívio para os sentimentos mais fortes, assim como um grande prazer. Agora sabia que o simples ato podia ser vulcânico e o mundo podia começar e acabar em poucos minutos, deixando todo o resto em suspenso, o universo destruído e reconstruído, mas nada seria do jeito que fora antes. Aquele dia fora feito de uma catástrofe atrás da outra. Que diferença faria mais uma? Ela havia cometido um erro fatal, mas não seria a primeira vez. Ela sobrevivera a outros. Sobreviveria a esse também. Clevedon a segurou em silêncio, com força, os braços poderosos abraçando as costas dela. Marcelline precisava afastá-lo. Devia ter feito isso muito tempo antes, pelo menos no momento crítico. Sabia que não se pode confiar em um homem, mas também não era possível confiar nela. Marcelline o queria dentro dela. Queria que ele fosse dela, e só dela, ainda que só por um momento, só por aquele momento. E não teve vontade de se privar. Nem agora. Ela se permitiu ficar imersa por mais uns instantes e inalou o cheiro dele, um cheiro de homem, um cheiro só dele. Deixou seu rosto colado ao dele. De alguma forma, esse gesto parecia mais íntimo do que qualquer outra coisa que tivessem feito, embora ele estivesse no meio de suas pernas, embora sentisse o membro dele deslizando de dentro dela e a umidade de sua semente… a semente que ele jogara dentro dela, porque ela não tivera o juízo nem a vontade de evitar. E isso também – o coito selvagem e desesperado, pois ela não chamaria aquilo de fazer amor, jamais, jamais – parecera uma intimidade maior do que se estivessem deitados nus em uma cama, deliciando-se um com o outro ao seu bel-prazer. Ela era tola. Aquele era o começo e o fim. – O senhor precisa me soltar – disse ela. Sua voz estava rouca. Ele a apertou ainda mais, os braços parecendo cintas de ferro. – O senhor precisa me soltar – repetiu. – Espere – disse ele. – Espere. – Não temos tempo – respondeu ela em voz baixa. – Elas vão me chamar para jantar e alguém virá até aqui. O senhor não pode ficar, de jeito nenhum. Não pode ficar – repetiu. – E nunca mais deve voltar.


Ela o sentiu ficar tenso. – Não podemos acabar assim – disse ele. – Não devíamos nem ter começado. – Tarde demais para isso. – Está feito. Eu não tenho mais nada com o senhor nem o senhor comigo. Ela o empurrou e, dessa vez, ele a soltou. Marcelline encontrou seu lenço e começou a se limpar depressa, depois baixou a anágua e a saia. Enquanto cuidava de si mesma, ele também ajeitou as roupas. Ela começou a descer da mesa, mas Clevedon parecia adorar um sacrifício – ou, quem sabe, não tinha mais nada a fazer com ela e tocá-la não significava mais nada para ele –, pois pegou-a pela cintura, levantou-a e colocou-a no chão com a mesma facilidade com que a levantara antes, como se ela não pesasse nada. Marcelline se lembrou da facilidade e gentileza com que Clevedon levantara Lucie e a devolvera ao colo dela. Lembrou-se do sorriso melancólico com que ele olhara para a sua filha. Sentiu um nó na garganta e teve que usar todo o seu controle para não chorar. Ela ouvira dizer, não tinha certeza de onde ou quando, que ele perdera uma irmã pequena… Mas que importância tinha isso? Marcelline estava se dirigindo para a porta, preparando-se para vê-lo sair para sempre de sua vida, quando ouviu aquele ruído. Leonie teria terminado de trancar a loja havia tempos e teria tomado providências para que ninguém surpreendesse Marcelline com uma interrupção. Ninguém devia estar lá embaixo naquele momento. Toda a família deveria estar lá em cima preparando o jantar. – Espere – disse ela, em voz baixa. Marcelline foi até a porta e colocou o ouvido nela. Nada. – Pensei ter ouvido alguma coisa – disse ele. – Erroll? Será que…? – Não. Não depois que fechamos a loja. Ela não tem permissão para vir aqui e também não viria. Tem medo de escuro. – Esse medo começara depois de sua recuperação da cólera, acompanhado de outras ansiedades. – Faça silêncio, por favor. Mais um ruído. Alguém estava ali, tropeçando no escuro. Ele segurou a maçaneta. – Vou resolver… – Não seja idiota – sussurrou ela. – O senhor não pode estar aqui. Com todo cuidado, ela abriu a porta. Olhou para o corredor, na direção de onde viera o som. Viu uma luz fraca no escritório onde Leonie guardava seus livros de registro. Ali, mais tarde, ela guardaria os croquis de Marcelline, em uma caixa com chave. E ali, ainda hoje, elas haviam colocado a isca. Seu coração começou a bater depressa. Marcelline atravessou o corredor escuro na ponta dos pés. Ouviu os passos leves de Clevedon logo atrás. Parou e fez um gesto para que ele ficasse no ateliê. – Não seja… Ela colocou a mão sobre a boca dele.


– Eu mesma lidarei com isso – sussurrou ela. – São negócios. É nossa espiã. Já estávamos esperando por ela. Ele ficou em silêncio, imóvel. Aquela era a única desculpa que tinha para continuar ali e cuidar dela. Ele não devia estar ali, por certo não àquela hora, depois do fechamento da loja. Mas a loja… Uma espiã? Clara não havia dito algo sobre…? Clara! Ao pensar nela, um sentimento de vergonha tomou conta de Clevedon. Traição. Ele havia traído sua amiga, sua futura esposa. Minha esposa, disse para si mesmo. Clevedon ajeitou o lenço do pescoço, como se pudesse também ajeitar o que havia feito. Tentou incrustar a imagem de Clara em sua mente, gravar a imagem de seu futuro, o único que imaginara ser o certo, o único futuro possível. Ele se casaria com a mais doce e linda menina, que amava desde a infância, a criança loura, de olhos azuis, que havia conhecido quando ainda estava de luto pela irmã. Como Alice, ela trazia em si uma doce inocência e o admirava da mesma forma que Alice admirava o irmão mais velho. Ele sempre aceitou que se casaria com Clara, que cuidaria dela e a protegeria, para sempre. Mas, na primeira oportunidade, com um mínimo de incentivo, correu para longe dela e mantevese longe. Após três anos de autoindulgência, ainda não se sentia satisfeito. Não, ele precisava trair a confiança dela poucos dias depois de voltar para casa. Mas a vergonha não era forte o suficiente para varrer a lembrança do que acontecera poucos minutos antes, ou a sensação de que a Terra mudara de eixo. Não importa, não importa. Ele havia possuído Noirot e não tinha mais nada a ver com ela. E ali estava ele, de pé, como um verdadeiro idiota, enquanto ela… que diabo ela estava pensando em fazer? – Não! – gritou alguém. Ele se moveu pelo corredor, sem fazer barulho. Um brilho leve a poucos passos do ateliê mostrava uma porta aberta. – Espero que a Sra. Downes a tenha pago bem para trair minha confiança. – Ele ouviu Noirot dizer. – Porque vou providenciar para que nunca mais atue nesse tipo de trabalho. – A senhora não pode me causar nenhum mal – respondeu uma voz alta. – A senhora está acabada. Todo mundo sabe que a senhora é amante do duque. Todo mundo sabe que a senhora levanta as saias para ele, praticamente debaixo do nariz da noiva dele. – Independentemente do que alguém diga que saiba ou não saiba, recomendo que me devolva esses croquis e não piore as coisas para si mesma. Só existe uma saída, Frances. E você não vai passar por mim. – Não vou? Outro barulho, como o de móveis sendo derrubados. Um som de louça quebrada. Um grito de raiva. Ele não se importava com o que Noirot dissera sobre ela ter que lidar com aquilo. Não se importava com o fato de não poder ser descoberto ali. Um problema de negócios não era de sua


conta, mas aquela situação estava saindo do controle. Num minuto, as outras ouviriam o barulho e desceriam as escadas correndo. Erroll poderia escapar de sua babá, descer junto com as tias e se machucar. Tudo isso passou depressa pela cabeça de Clevedon enquanto ele se dirigia silenciosamente para a porta. Um objeto – uma tigela, um vaso, uma panela ou coisa do gênero – passou pela porta e bateu na parede, a poucos centímetros da cabeça dele. Clevedon irrompeu na sala a tempo de ver uma mulher jogar um tinteiro em Noirot. Ao se abaixar, Noirot tropeçou em uma cadeira tombada e caiu. Olhando naquela direção, ele viu um lampião virado sobre a mesa e as chamas lambendo as pilhas de papéis que ali estavam. Num piscar de olhos, as chamas alcançaram as cortinas das janelas. A mulher passou por ele correndo. Carregava algo, mas ele não tentou segurá-la. Noirot lutava para se levantar e o fogo começou a percorrer as cortinas e as prateleiras repletas de livros e papéis. Em um canto da sala, já havia chamas. Clevedon se lembrou dos materiais que vira na loja. Deveria haver outros materiais de trabalho por toda parte, em depósitos e ateliês: montanhas de papéis de embrulho e caixas, assim como tecidos de todos os tipos. As chamas já estavam altas demais para serem apagadas com facilidade. Ele tomou a decisão em uma fração de segundo. Não podia perder tempo na luta contra o fogo. Em minutos, estariam presos em um verdadeiro inferno.

Segurando o precioso caderno de croquis, Frances atravessou a porta dos fundos e chegou ao quintal, correndo, sem olhar para trás, na direção da rua Cary. Só então parou para tomar fôlego. Viu a fumaça subindo aos céus, vinda da loja, e sentiu uma pontada de culpa. Esperava que a criança não se ferisse. Ela havia planejado tudo com tanto cuidado, mas madame atrapalhou seus planos com sua decisão abrupta de enviar as costureiras para casa mais cedo. Frances as mandara embora dizendo que ela mesma arrumaria o ateliê. Quando o duque chegou, agradeceu a Deus. Achou que ele manteria madame ocupada por bastante tempo. Mas saíra tudo errado. Madame e Sua Graça agora sabiam o que ela fizera. Não faz mal, não faz mal. Tinha o caderno nas mãos e o dinheiro da Sra. Downes tornaria possível a ela recomeçar a vida em outro lugar. Frances Pritchett assumiria um novo nome e ninguém saberia de nada sobre o seu passado. Ela olhou de novo para o alto. Acima dos telhados, contra o céu estrelado, a fumaça pairava como uma nuvem negra de tempestade.


Marcelline viu as chamas e ficou parada por um instante, completamente chocada, sem acreditar nos próprios olhos. – Lucie! – gritou. Clevedon a arrastava pelo chão, levando-a até a porta. Ela ouvia gritos vindos lá de cima. As irmãs ouviram o barulho e sentiram o cheiro da fumaça. – Para fora! – gritou Clevedon. – Todas para fora! Agora! Um som de batidas lá em cima. Mais gritos. – Todas! – ordenou ele. Marcelline fez menção de se dirigir para as escadas. Ele a puxou de volta. – Lucie! – gritou ela, ouvindo mais barulho vindo de cima. – Por que elas não vêm? – Teria o fogo atingido o andar de cima tão depressa? Estariam presas? – Lucie! Mas ele a puxava e arrastava pelo corredor, na direção da porta da frente. – Não – berrou ela. – Minha filha! – Elas estão vindo. Então, ela ouviu passos e vozes na escada. Atrás dela, a voz de Clevedon. – Para fora, para fora, todo mundo. Depressa. Noirot, pelo amor de Deus, mande todas para fora. No escuro, na passagem repleta de fumaça, Marcelline não conseguia enxergá-las. Mas ouviu a voz de Lucie, das irmãs e de Millie. Clevedon a empurrou. – Para fora! – gritou, com raiva. Ela saiu e só então, quando estavam fora da nuvem de fumaça e da confusão, ela descobriu que Lucie não estava com as irmãs. – Onde está Lucie? – perguntou Marcelline, sobrepujando o barulho dos vizinhos em pânico, das carruagens e dos cavalos que relinchavam assustados. – Mas ela estava conosco. – Estava bem ali. – Ela estava comigo, madame – explicou Millie. – Mas soltou-se e achei que estava correndo até a senhora. Não. Não. O olhar de Marcelline pousou na loja em chamas. Sentiu a mente acossada pelo pensamento. – Lucie! – gritou. As irmãs também gritaram pela menina. A rua estava se enchendo de curiosos. Seu olhar passou pela multidão, mas não, nenhum sinal da criança. Não haveria nenhum. Lucie não era muito corajosa à noite. Não correria para uma multidão de desconhecidos. – A boneca! – gritou Sophia. – Ela queria pegar a boneca. Não houve tempo. – Mas ela não teria como voltar – disse Leonie, a voz estridente, em pânico. Marcelline começou a correr de volta para dentro da loja. As irmãs a seguraram. Ela lutou. – Marcelline, olhe! – exclamou Sophia, com a voz rouca. Chamas queimavam nas janelas. A loja era uma fogueira de cores berrantes, feitas de seda, cetim, renda e algodão.


– Lucie! – gritou Marcelline. – Lucie!

Quando as irmãs e Millie passaram, Clevedon contou quantas eram. Ele ouvira as vozes delas do lado de fora do edifício. Tinha certeza de que já estavam a salvo. Mas mal pisou na calçada, ouviu Noirot clamar pela filha. Não. Meu bom Deus, não. Não a deixe estar lá dentro. O fogo se espalhava pelo chão do andar térreo e subia crepitando. Em meio à fumaça, ele mal podia enxergar as escadas. Mas as encontrou graças à sua memória e subiu correndo. – Lucie! Erroll! Ele continuou a chamar, fazendo força para ouvir alguma resposta, até que, finalmente, quando alcançou o corredor do térreo, ouviu um grito apavorado. – Lucie! Onde você está, menina? – Mamãe! A fumaça era densa e sufocante. Ele mal podia ouvir a voz dela em meio ao barulho do fogo. Por pouco não a ouviu. Se tivesse passado por aquele ponto um instante antes ou depois, não teria percebido o grito abafado. Mas de onde ele vinha? – Lucie! – Mamãe! Ele procurou freneticamente até chegar à porta que ficava debaixo da escada. Ela devia ter se escondido ali, ou talvez costumasse brincar ali, ou quem sabe fora o primeiro lugar que encontrara. Ele abriu a porta com força. Escuridão. Silêncio. Não, por favor. Não permita que ela esteja morta. Dê-me essa chance, por favor. Foi então que ele percebeu uma silhueta enrolada em um canto. Ele a pegou. Nas mãos, ela trazia a boneca apertada ao peito, com toda força. Seu corpo pequenino não parava de tremer. – Está tudo bem – disse ele, a voz rouca devido à fumaça, ao medo, ao alívio. Ela enfiou o rosto no casaco dele e começou a soluçar. Ele embalou a cabeça da menina em sua mão. – Está tudo bem – garantiu ele. – Tudo vai ficar bem. Tudo ficaria bem, ele prometeu a si mesmo. Tinha que ficar. Ela não morreria. Ele não deixaria que isso acontecesse. Atrás dele, o fogo continuava a crepitar, correndo na direção dos dois.


Marcelline lutou com todas as suas forças, mas não lhe permitiram voltar para buscar Lucie. Agora, era tarde demais. A carruagem dos bombeiros viera sem demora. A mangueira lançava água dentro da loja, mas as chamas deixavam claro o quanto o incêndio era brutal e veloz. Com sorte, eles conseguiriam impedir que avançasse até as lojas adjacentes. Quanto à dela… Nada poderia ter sobrevivido àquele fogo destruidor. Ela também não queria sobreviver. Sentia-se mal, tão mal que suas pernas não a sustentavam. Seus joelhos cederam, os braços ao redor do corpo tremiam como se ela estivesse nua. Não podia chorar. A dor a havia queimado por dentro com tal profundidade que não lhe dava forças nem para derramar lágrimas. Ela ficou ali, balançando o corpo, sentindo uma dor que sobrepujava qualquer outra. Mamãe, papai, Charlie, prima Emma – o que ela sentira ao perdê-los era um simples pesar. Sua consciência do que acontecia ao redor, das irmãs que a ladeavam – o toque delas em sua cabeça, nos ombros… o som de seus prantos. Ao redor delas, um verdadeiro pandemônio; ela estava no inferno: uma eternidade negra, onde a única sensação era dor, uma dor que cortava como faca. Lucie. Lucie. Lucie.

Clevedon tinha poucos segundos para tomar uma decisão e resolveu ignorar as escadas. O incêndio poderia estar esperando por eles. Ele foi pelo caminho oposto, para os fundos, mas mantendo-se sempre do mesmo lado do corredor onde encontrara Lucie, na esperança de que o piso suportasse. Acima da loja e dos ateliês, alimentado por substâncias de alta combustão, o fogo queimava com mais força. Era uma aposta, de qualquer maneira. – Segure com força – disse ele a Lucie. – E não olhe. Os braços da menina se apertaram ao redor do pescoço dele e ela enfiou o rosto no lenço. Ela não soltou a boneca e ele sentia uma das pernas dela batendo em sua escápula. Clevedon teve vontade de quebrar a boneca em mil pedaços por causa do incômodo, mas Lucie precisava da boneca e aquele era o menor de seus problemas. Ele correu para os fundos, mantendo-se colado à parede para achar o caminho, pois a escuridão dominava o ambiente. Lembrou-se de ter visto uma porta nos fundos do andar térreo, que deveria dar para um pátio. Tudo o que precisava era encontrar uma escada, ou janela, ou mesmo um pequeno closet que tivesse uma janela. Chegando ao fim do corredor, a mão que mantinha esticada tocou em gesso. Ele não encontrara nenhum batente de porta pelo caminho. Sua mão achara apenas uma parede plana. Não. Tinha que haver uma saída. A fumaça ficava cada vez mais densa, o calor era insuportável. Segurando Lucie com toda força,


ele passou uma das mãos pela parede quente e sentiu madeira – uma janela. Ele nem tentou abri-la. – Segure-se com toda a força querida – disse ele a Lucie. – Não olhe e não me solte, não importa o que aconteça. Em seguida, ele chutou a janela com violência e o vidro se quebrou, junto com a madeira. Chutou várias vezes para tirar o vidro e as travessas. A noite estava escura e ele olhou para baixo, com medo do que poderia encontrar, mas estava com sorte. Ele podia, com dificuldade, descer pelo muro dos fundos da propriedade. Abraçando Lucie para protegê-la das pontas afiadas de vidro e madeira, ele escalou o parapeito e pulou para o muro, depois desceu com cuidado na propriedade vizinha. Apesar de toda a fumaça, o ar estava mais frio e ele conseguiu enxergar o leve brilho de um lampião de rua. Sim, disse ele, em silêncio. Muito obrigado. Sua garganta se fechou e, embalando a criança que pensou não ser capaz de salvar, Clevedon chorou.

Marcelline estava tão mergulhada na dor que não percebia mais nada ao seu redor. Em algum momento, porém, ela teve consciência de que o ambiente que a cercava estava mais iluminado e que clamor se amainou. A rua ficou tão quieta que era possível ouvir o sibilar e o gargarejo da água fluindo para dentro da loja e as vozes dos bombeiros dando ordens. Enquanto ouvia, percebeu as vozes ficarem abafadas e alguém gritar: – Olhem! Olhem ali! Sons alegres. De felicidade. Ela sentiu mãos em seus ombros, puxando-a. Levantou a cabeça e pensou que era um sonho, um sonho cruel. Não podia ser Clevedon… aquela enorme, negra e irregular desordem… carregando… carregando uma trouxinha empretecida. Perninhas saindo da beira de um vestido… meias enrugadas… um pé sem sapato. Mãos puxaram Marcelline para que se colocasse de pé. Ela balançou a cabeça, fechou os olhos, abriu-os outra vez. Mas não era um sonho. Era Clevedon e, em seus braços, Lucie. Viva? Marcelline não viu se o pé da criança se movia. Só ficou parada, oscilante e confusa, como alguém que tivesse voltado do mundo dos mortos. Ele saiu daquele pesadelo – o monstro negro ficou atrás dele, as chamas ainda tremeluzindo nas janelas. Clevedon caminhou na direção de Marcelline, sua mão enorme embalando a cabeça da menina. Os bracinhos dela ao redor de seu pescoço, o rosto mergulhado em seu peito. Mas, à medida que ele se aproximou, Marcelline viu a boneca pendendo das mãos da filha. Ela se agarrava com força a ele e à boneca. Estava viva.


– Oh! – exclamou Marcelline. E isso foi tudo o que conseguiu dizer. Clevedon aproximou-se e olhou para a criança em seu colo. Tirando as mãos da cabeça dela, ele disse: – Está tudo bem agora, Erroll. Você é a menina mais corajosa do mundo. Pode abrir os olhinhos agora. Quando a devolveu para a mãe, ele disse, com voz rouca: – Fiz com que ela me prometesse que não ia olhar. Achei melhor ela não ver. Mas ele vira. Estivera diante de uma morte terrível. Enfrentara a morte para salvar a filha de Marcelline. – Obrigada – balbuciou ela. Uma palavra apenas. Inadequado, para lá de inadequado, mas não havia palavras. Essa foi a única que conseguiu dizer. Todo o resto estava em seu coração e jamais poderia ser dito, e dali jamais poderia ser extraído.

A loja era um monte de ruínas enegrecidas. O odor se espalhava por Chancery Lane e pela rua Fleet. Poderia ter sido muito pior, Clevedon ouviu as pessoas comentarem. O vento não havia carregado o fogo para leste da loja, do outro lado de Chancery Lane, e os bombeiros chegaram a tempo de evitar que destruísse a loja ao lado. Ele sabia que poderia ter sido infinitamente pior. Eles poderiam ter perdido uma criança. Lucie estava agarrada à mãe e Noirot caminhou com ela pela rua, indo e voltando, indo e voltando. De vez em quando, seu olhar se virava para cima, para sua loja, em ruínas. As irmãs ficaram perto dela, sob a luz de um lampião, fazendo a guarda de uma reles pilha de pertences que agarraram antes de fugir da casa. Ele observou os olhares das mulheres indo da loja para Noirot e de volta para a loja. A ruiva segurava a boneca. Apesar de o ambiente enfumaçado abafar a luz do lampião a gás, ele podia ler o desespero nos rostos delas. Haviam perdido todo o seu material – a parte mais cara do negócio –, junto com todas as ferramentas e registros. Perderam tudo. Mas a criança estava viva. Ele tinha consciência de que os jornalistas de Londres convergiriam para a cena. A noite estava escura, a fumaça a tornava ainda mais negra e, com um pouco de sorte, ninguém o teria reconhecido. Clevedon precisava sair daquele local, mas não podia dar as costas para as três mulheres e a menina, todas elas, literalmente, no meio da rua. Sem loja, sem casa, sem dinheiro. Ele não acreditava que alguma coisa ainda pudesse ser salva no imóvel queimado. Elas tinham seguro contra incêndio, caso contrário os bombeiros não teriam vindo. E ele sabia que Noirot era exasperadamente prática e mercenária. Devia ter dinheiro em algum banco ou algum investimento.


Mas dinheiro no banco não colocaria um teto sobre ela esta noite e ele duvidava de que ela tivesse poupado o suficiente para reconstruir o negócio em pouco tempo. Clevedon passou alguns instantes dizendo a si mesmo que não poderia ficar. Já havia desonrado sua amizade com Clara e traído o seu amor. Mas somente Noirot e ele sabiam disso. O que Clara não sabia não poderia machucá-la. Encontre outra maneira de ajudá-las, aconselhou a si mesmo. Havia maneiras discretas. Era possível ajudar os necessitados sem que as pessoas soubessem. Além disso, o fato de elas saberem não faria nenhum bem a Noirot. Ele se lembrou do que a outra mulher gritara para ela: Todo mundo sabe que a senhora é amante do duque. Todo mundo sabe que a senhora é amante do duque. Todo mundo sabe que a senhora levanta as saias para ele, praticamente debaixo do nariz da noiva dele. Ele se lembrou do que Noirot dissera mais cedo: Que mulher respeitável apadrinharia uma modista especializada em seduzir os homens que são mais caros a ela? Era hora de ir embora. Já havia passado da hora. Quanto mais cedo fosse, mais cedo poderia mandar ajuda.

Marcelline estava exausta, extremamente exausta. O que fazer agora? Aonde elas iriam? Seu cérebro estava dormente. Só conseguia segurar a filha e olhar fixamente para as negras ruínas de seu negócio, sua casa, a vida que construíra para si e para a família. – Deixe-me segurá-la um pouco – ofereceu Sophia. – Você está cansada. – Não, ainda não. Lucie ainda tremia e não dissera uma única palavra desde que Clevedon a carregara para fora. – Venha. – Sophia estendeu as mãos. – Erroll, vamos ficar um pouco com tia Sophia e deixar mamãe descansar um pouquinho? Lucie levantou a cabeça. – Venha – disse Sophia. Lucie estendeu os braços e Sophia a tirou da cintura de Marcelline, colocando-a na sua. – Calma – disse ela. – Está tudo bem, meu amor. Estamos todas salvas. Ela começou a andar com a menina, sussurrando palavras de conforto. – Temos seguro – complementou Leonie. – Temos dinheiro no banco. Mas, acima de tudo, estamos todas vivas. Verdade, pensou Marcelline. Estavam todas vivas. Lucie estava viva, sem ferimentos. Todo o resto… Oh, mas seria difícil. O seguro não era suficiente. O dinheiro no banco também não. Teriam que começar tudo outra vez. Leonie colocou os braços ao redor da irmã. Marcelline não conseguia chorar, embora desejasse. Seriam lágrimas de alívio, mas elas não vinham. Ela só conseguia descansar a cabeça nos ombros da


irmã. Sua filha estava viva. Tinha duas irmãs. Naquele momento, era o que realmente importava. Por outro lado, não poderiam ficar daquele jeito, no meio da rua. Ela precisava pensar. Levantou a cabeça, afastou-se da irmã e aprumou-se. – É melhor procurarmos uma hospedaria – analisou ela. – Podemos falar com Belcher, nosso advogado. – Sim, é claro. – Leonie aquiesceu. – Ele vai nos adiantar algum dinheiro, o suficiente para pagamos por um lugar onde ficar. Aquela área de Londres era de domínio dos advogados e estudantes de direito. O escritório do advogado ficava a poucos metros dali. A questão era se o achariam no trabalho àquela hora. – Vamos procurar um portador e enviar uma mensagem a Belcher – decidiu Marcelline. – Sophia, me traga Lucie de volta. Precisamos que você passe uma conversa em um dos repórteres e pegue lápis e papel para escrever uma mensagem para Belcher. Acho que vi seu amigo Tom Foxe no meio da multidão. Enquanto pegava Lucie, Marcelline vasculhou a área para identificar o editor do Foxe’s Morning Spectacle. Ela percebeu uma movimentação. O duque de Clevedon emergiu das sombras, seguido de perto por Tom Foxe. – Vossa Graça, sei que nossos leitores ficarão ansiosos por ouvir sobre seu resgate heroico… – Foxe! – gritou Sophia. – Exatamente a pessoa que eu estava procurando. – Mas Vossa Graça… – Meu caro, você sabe que ele não vai falar com você ou seus colegas. – Sophia levou o sujeito para longe do duque. Clevedon aproximou-se de Marcelline. – A senhora precisa vir comigo – disse ele. – Não – respondeu ela. – A senhora não pode ficar aqui. – Estamos chamando o nosso advogado. – Mas a senhora pode fazer isso amanhã – argumentou ele. – Ele já deve estar em casa. Deve ser quase meia-noite. As senhoras precisam de alimento e de algum lugar onde ficar. – O senhor precisa ir embora – avisou ela, em voz baixa. – Sophia vai manter Foxe longe por um tempo, mas o senhor lhes deu uma história de primeira página e ele não ficará longe para sempre. – Nesse caso, não temos um minuto a perder – disse Clevedon. Ele estendeu as mãos enegrecidas de fuligem para Lucie. – Erroll, você gostaria de conhecer a minha casa? Lucie levantou a cabeça do ombro de Marcelline. – A ca-carruagem está a-aí? – A voz da pequena tremia, mas ela conseguia falar. Uma poderosa onda de alívio tomou conta de Marcelline. Ela não havia se dado conta do quanto estivera apavorada, com medo de que Lucie nunca mais falasse. Durante meses após se recuperar da cólera, ela tivera pesadelos terríveis. Isso a deixara um pouco mais medrosa e temperamental. Crianças eram resistentes, mas isso não queria dizer que experiências difíceis não fossem capazes de criar traumas. – Eu tenho um monte de carruagens. Mas vamos precisar de uma carruagem de aluguel para


chegar lá. – E lá tem bo-bonecas? – Tem – disse ele. – E uma casa de bonecas. – Si-sim – disse Lucie. – Eu vou. Ela praticamente pulou do colo da mãe para os braços dele. – Clevedon… – disse Marcelline. Mas como ela poderia lhe dar uma lição de moral quando ele salvara a vida de Lucie? – Vossa Graça, isso não seria muito recomendado. – Também não é muito oportuno – concordou ele. – Mas precisa ser feito. E Clevedon saiu caminhando com a menina nos braços.


Capítulo onze A porta de entrada não pode ser descrita corretamente, uma vez que os ornamentos estão espalhados na mais elevada profusão, da base até o andar superior, onde há uma cópia do famoso leão de Michelangelo. Fileiras de pilastras em estilo grotesco encerram os oito nichos nas laterais e há uma janela semicircular e um arco aberto acima do portão. Leigh Hunt (descrevendo Northumberland House), A cidade: seus memoráveis personagens e eventos, vol. I, 1848.

Como seu atual proprietário, a Residência Clevedon fazia pouco caso das convenções. Enquanto outras famílias nobres tinham demolido suas casas antigas e se mudado para o oeste, em Mayfair, os condes e duques de Clevedon teimosamente se recusaram a se mudar. Um dos últimos palácios que se alinhavam em frente ao Rio Strand, a Residência Clevedon se espalhava pelo extremo sudoeste da rua, com vista para Charing Cross. Era uma construção em estilo jacobino, com torreões e um portal ornamentado, encimado por uma janela saliente, acima da qual havia um arco. Sobre esse arco, um leão rugia para os céus. Marcelline já passara por ali incontáveis vezes, a caminho das muitas lojas e armazéns estabelecidos na vizinhança. Lá dentro, ela achou tudo ainda maior e mais imponente do que a entrada levava a crer que fosse. Um vestíbulo de mármore levava a um gigantesco saguão de entrada. Do outro lado, um tapete vermelho de 1,5 quilômetro levava a uma escada de mármore branco, cuja balaustrada de bronze ornamentado parecia, a distância, ser feita de renda dourada. Colunas pretas adornavam as paredes de mármore amarelo. Quando Marcelline e sua família, constrangidas, seguindo atrás de Clevedon, passaram por um criado boquiaberto e chegavam ao saguão de entrada, um homem respeitável, de postura ereta e que não usava libré, apareceu como num passe de mágica, sem que se soubesse de onde. – Ah, aqui está Halliday – disse Clevedon. – Meu mordomo. Aparentemente acostumado aos hábitos erráticos de Sua Graça, Halliday não fez nada além de arregalar os olhos por um instante quando viu o rosto enfumaçado do duque, suas roupas rasgadas e a criança igualmente suja e descabelada em seus braços. – Aconteceu um incêndio – explicou Clevedon, de maneira resumida. – Essas senhoras perderam a casa. – Sim, Vossa Graça. Com Lucie ainda nos braços, Clevedon fez um gesto para que o mordomo lhes desse passagem. Trocaram umas poucas palavras, em voz baixa. Cansada e atordoada demais para perguntar qualquer coisa nesse momento, Marcelline deixou que ele assumisse o comando da situação.


Leonie se afastara alguns passos para estudar os candelabros, que ficavam sobre uma base de mármore, um de cada lado, ao pé da escadaria. Quando voltou, relatou em um sussurro: – Cada um desses candelabros deve ter custado pelo menos mil libras. A Residência Warford também é assim? – Isso aqui faz a Residência Warford parecer a casinha do pároco – respondeu Marcelline. – Pode rivalizar com o palácio de Buckingham. – Não é à toa que lady Warford queria que Sua Graça voltasse da França – disse Sophia. – E se lady Clara se apaixonasse por outro, um sujeito com menos encantos? Quelle horreur! Marcelline viu Halliday se retirar depois que a conversa acabou. Ele fez um sinal para um lacaio, que se aproximou, ouviu suas ordens e saiu apressado. Menos de dois minutos se passaram até que uma grande maré de serviçais começasse a aparecer no saguão de entrada. – Tudo está ajeitado – disse Clevedon. – Halliday e a Sra. Michaels, minha governanta, cuidarão das senhoras. Serei obrigado, como sem dúvida entendem, a me retirar para outro lugar. Ele entregou Lucie à mãe, foi até um dos quartos laterais no térreo e desapareceu. Marcelline não teve tempo para se questionar sobre a súbita partida do duque – não que houvesse algo a ser questionado. Ele precisava dissociar-se delas. Estava apenas providenciando um refúgio. Era filantropia, nada pessoal. Isso explicava por que os criados as tratavam com tamanha gentileza. Enquanto as conduzia escada acima, a Sra. Michaels as brindou com aquele tipo de monólogo que as governantas costumam fazer quando levam hóspedes por uma casa imensa. A família Noirot ficou sabendo que a Residência Clevedon continha 150 cômodos. – Quem se daria ao trabalho de contá-los? – sussurrou Sophia para Marcelline. Ela as levou por um par de alas, que o avô de Sua Graça havia acrescentado, que se estendia até um jardim ladeado por árvores. A criadagem, segundo a Sra. Michaels, estava acostumada a acomodar hóspedes de última hora. – Lady Adelaide, a tia de Sua Graça, esteve aqui há pouco tempo – contou ela, conduzindo-as por um conjunto de apartamentos na ala norte, com vista para o jardim. – As tias de Sua Graça vêm muito aqui para ficar conosco, esteja Sua Graça na cidade ou não. Nós nos orgulhamos de ter a ala norte sempre pronta para receber visitas. Enquanto comentava sobre os móveis ou sobre as obras de arte mais impressionantes, a governanta enviava criadas e lacaios para aqui e ali, a fim de acender o fogo nas lareiras dos quartos e buscar roupas de cama e toalhas limpas e secas. Na verdade, os criados não conseguiam esconder completamente sua curiosidade sobre as novas hóspedes, mas pareciam aceitar as mulheres com bastante tranquilidade. Quando Marcelline protestou que o quarto em que deveria dormir era mais do que suficiente para todas elas – era muito maior do que o primeiro andar da loja –, a Sra. Michaels pareceu chocada. – Não queremos causar tumulto – justificou-se Marcelline. – É só por uma noite. A cama era gigantesca e elas estavam acostumadas a dormir juntas, com Lucie, em uma cama de solteiro, bem menor do que aquela. – Os quartos estão quase prontos. Estamos apenas acendendo as lareiras – disse a Sra. Michaels,


com firmeza. – Sua Graça deixou bem claros os perigos de pegar um resfriado após o problema que enfrentaram. E ele está totalmente correto. Choques como esse enfraquecem muito o equilíbrio do corpo. Ele estava preocupado, em particular com a menininha. Mas agora temos um bom fogo, na sala de estar. Ela levou as quatro para uma das duas salas ligeiramente menores, adjacentes ao quarto de Marcelline. O olhar perspicaz da governanta foi para Lucie, que havia se esquecido de sua timidez inicial e vagava pela sala, boquiaberta diante da grandeza ao seu redor. – Sua Graça disse que a senhora ia querer uma babá para a pequena dama. Millie desaparecera assim que Clevedon emergira da casa em chamas, com Lucie no colo. Como fora ela quem deixara a menina escapar de suas mãos, deve ter decidido não ficar para enfrentar as consequências. – Não será necessário – respondeu Marcelline. – Eu mesma cuido dela. As sobrancelhas da Sra. Michaels se ergueram. – Não, madame, sei que a senhora passou por momentos terríveis, mas aqui estão Mary e Sarah. – Ela fez um sinal e duas jovens criadas saíram do meio do enxame de criados e fizeram uma reverência, como se as Noirots fossem pessoas de grande importância. – São muito boas com crianças, posso garantir. Sei que as senhoras irão apreciar um pouco de descanso e silêncio, enquanto as criadas cuidam da pequena Srta. Noirot. E Sua Graça disse que a pequenina deveria ver a casa de bonecas de lady Alice. Era a irmã de Sua Graça – explicou ela, em um tom de voz bem baixo para Marcelline. – Ele disse que achava que brincar com a casa de bonecas desviaria a mente da criança dessa experiência tão assustadora. Ela foi até Lucie e, abaixando-se, disse com calma: – Sua Graça prometeu a você uma casa de bonecas, não foi? – Uma casa de bonecas, é verdade, ele prometeu sim – respondeu Lucie. Ela levantou a boneca cheia de fuligem, a mesma que quase a matara, para que a Sra. Michaels a visse. – E Susannah precisa de um banho. – E ela terá um – garantiu a Sra. Michaels, sem nenhuma perplexidade. Ela se levantou, estendeu a mão e as duas jovens criadas se aproximaram. – Você também gostaria de tomar um banho? E depois jantar? Prefere ir com Sarah ou com Mary? Lucie olhou para Marcelline. – Posso ir com elas, mamãe? Marcelline olhou para as duas criadas. Elas só tinham olhos para Lucie, é claro. Ela já estava recuperada o suficiente para ser sedutora. Embora suja e esfarrapada, seus grandes olhos azuis realizaram a costumeira mágica sobre os que não a conheciam direito. – Pode, sim – respondeu Marcelline. Ela teria acrescentado “Elas não devem ceder a todos os seus caprichos”, mas sabia que seriam palavras ao vento. Mimariam Lucie e fariam tudo o que ela quisesse. A filha provavelmente as deixaria loucas, como fazia com Millie. Era muito difícil disciplinar uma menina encantadora, mesmo quando ela era bastante atrevida. Lucie, que tinha a mesma natureza passional e a obstinação de seus ancestrais, também herdara da família uma completa falta de escrúpulos. Sendo criança,


ainda não aprendera a obter tudo o que desejava utilizando a astúcia. Quando seu charme não funcionava, ela fazia enormes birras. Entretanto, ela acabara de passar por momentos aterrorizantes e alguns mimos não lhe fariam mal. A casa de bonecas não a deixaria pensar no que acontecera na loja. De qualquer maneira, seria apenas por uma noite. Enquanto Lucie brincava de princesa, Marcelline teria algum tempo para pensar e planejar seus próximos passos. Teria sido mais fácil se ela não estivesse sob o mesmo teto de Clevedon, se tudo o que a rodeava não a fizesse se lembrar de quem ele era… Ele pertencera a ela por um tempo muito, muito curto. Marcelline tentou se convencer de que aquilo não era nada. Era apenas desejo. Desde o começo, ela o quisera e fora correspondida. Ela o tivera e aquilo fora muito mais do que havia desejado. Mesmo assim, ele era mais do que um simples homem desejável. Ele era o duque de Clevedon. Ela era uma lojista. Jamais poderia ser nada além de uma amante na vida dele. Era uma posição que qualquer uma de suas ancestrais teria aceitado. Mas, além de ter que pensar na família, tinha as próprias aspirações para ocupar sua mente: o papel que conquistara para si mesma, a pessoa maior que se propusera a ser, o trabalho que verdadeiramente amava. O que houve entre eles acabara. Pertencia ao passado. Ela precisava pensar no futuro. Era preciso encontrar um alojamento. Careciam de um local para trabalhar. Sophia teria que lidar com os jornais. Sua história interessaria a muitos, mas por pouco tempo, e Sophia precisava torná-la vantajosa… embora talvez já fosse tarde demais. As manchetes flutuavam na mente de Marcelline. A corrida heroica do duque para o interior de um imóvel em chamas para salvar uma criança – mas os jornais especulariam sobre o que ele estava fazendo lá tão tarde da noite… e por que ele as levara para sua casa… e o que sua futura noiva acharia de tudo isso. – Oh, meus Deus – exclamou ela. – O que foi? – indagou Sophia. – Você não está em pânico por causa de Lucie, eu espero. – É claro que Sua Graça ordenou que seus criados a mimassem – disse Leonie. – E que melhor remédio ela poderia receber para seus medos? – argumentou Sophia, fazendo um gesto para tudo o que as circundava. – Nada que não seja luxo. E não uma, mas duas criadas para fazer tudo o que ela quiser. Elas irão lavar aquela maldita boneca, pode apostar, e pentear seus cabelos, sem a menor dúvida. – Não estou falando de Lucie – disse Marcelline. – Lady Clara! O vestido dela! O que vamos fazer?

Frances correu para seus alojamentos, fez as malas, contou à proprietária uma história sobre um parente que estava à beira da morte e pegou uma carruagem de aluguel até a Hospedaria Golden Cross, em Charing Cross. Dali, mandou uma mensagem para a Sra. Downes, explicando que pretendia estar a bordo da próxima diligência para Dover e, se ela quisesse qualquer coisa dela, era


melhor encontrá-la sem demora. O Correio Real já havia saído da central às sete e meia. Se tudo seguisse dentro dos conformes, Frances poderia alugar uma carruagem e não teria que esperar pela entrega do dia seguinte. A Sra. Downes não demorou a aparecer. Ela deixou bem claro que não gostava de ser chamada às pressas, tarde da noite, para uma hospedaria pública e muito menos de fazer transações de negócios em um pátio de coches. Ao redor delas, apesar da hora, cavalos estavam sendo arreados, cocheiros e mensageiros confraternizavam, serviçais da hospedaria iam e vinham, prostitutas tentavam atrair os que passavam e cafetinas saíam à caça de moças inocentes vindas do campo. Ignorando o olhar azedo da modista, Frances foi direto ao assunto. – Tenho mais do que esperava. Achei a pasta de croquis, que elas costumavam manter em uma gaveta trancada à chave. Ela mostrou um desenho. A Sra. Downes fingiu dar uma mera olhadela no livro. – Ouvi falar do incêndio – disse ela, dando de ombros. – Ela está acabada. Isso aí não vale mais nada. Frances colocou o desenho de volta na pasta. – Ela tem seguro e dinheiro no banco. Estará de volta ao mercado em poucas semanas. Ela é a mulher mais determinada de toda Londres. Se a senhora não quer isso aqui, vou levar comigo. Não vou ter nenhum trabalho para me sair bem com eles nas províncias. Os croquis valem seu peso em ouro e eu conheço o truque para fazê-los. Posso ganhar bem mais do que 50 guinéus. – Nosso acordo era de 50 guinéus. – Isso era pelo caderno de desenhos – disse Frances. – Mas a senhora me deixou aborrecida. – Eu devia denunciá-la. Eles enforcam pessoas por incêndio criminoso, sabia? – Eu me pergunto o que aconteceria se eu contasse que a senhora me convenceu a fazer isso. Mas imagino que jamais saberemos. Ali está o meu coche. – Ela fez um sinal com a cabeça na direção do veículo que entrava no pátio da hospedaria. – Setenta guinéus. Pegar ou largar. – Não tenho esse dinheiro todo comigo. Frances enfiou a pasta sob o braço, pegou a mala e começou a ir embora. – Espere. Frances fez uma pausa sem se virar. A Sra. Downes foi até ela bem depressa. Menos de um minuto depois, uma grande sacola mudou de mãos e Frances pedia uma carruagem.

Embora ela e as irmãs tivessem feito planos antes de caírem na cama, completamente exaustas, Marcelline quase não dormiu. Ela viu quando uma das criadas deu banho em Lucie – e a outra na boneca, tirando seu vestidinho imundo e lavando seu corpinho, tirando até a fuligem do cabelo, como se fosse a coisa mais normal do mundo. Levaram o vestido da boneca para lavar, junto com as roupas de Lucie. Em seguida, a


menina foi ver a casa de bonecas. Nesse momento, já havia três criadas desejando tomar conta dela. Levaram uma graciosa caminha para um lindo quarto adjacente ao de Marcelline. E foi ali que Lucie desejou dormir: não com a mãe, mas com pompa. Sua filha estava em segurança, provavelmente mais segura do que jamais estivera em seu curto período de vida. Mesmo assim, Marcelline teve pesadelos. Sonhou que Lucie não escapara do incêndio e que ela mesma fora para a boca do inferno, gritando por sua filha, ouvindo uma terrível gargalhada, antes que a porta fosse fechada em sua cara. Na manhã seguinte, quando a criada chegou trazendo chocolate, Marcelline percebeu que dormira até tarde. Já passavam das nove horas e Lucie tomava café da manhã com o duque. Ela pulou da cama, recusando o chocolate. – Onde estão minhas irmãs? – indagou. Elas haviam combinado de acordar às seis e meia. As costureiras receberam ordens de chegar à loja às oito horas. Agora, já teriam chegado e encontrado destroços carbonizados onde antes a loja costumava estar. – A Sra. Michaels disse que não deveríamos acordá-la, Sra. Noirot – explicou a criada. – Mas a Srta. Lucie estava perguntando pela senhora.

Noirot não entrou de supetão na sala de café da manhã, nem parecia mais agitada ou desarrumada do que em outros dias. Seu cabelo estava ligeiramente desalinhado, como sempre, mas de uma maneira que Clevedon percebia ser deliberada, nunca descuidada. Apesar de qualquer tragédia, ela não se apresentaria com nada menos do que estilo. Seu rosto estava pálido. Ela não dormira bem. Ele também não, mas descera para tomar o café e encontrara Lucie que, com o auxílio de Joseph, o lacaio, investigava o conteúdo das bandejas sobre o aparador. Essa cena o fez sorrir e iluminou seu coração. Agora ela estava sentada à direita dele, em uma pilha de travesseiros colocados em uma cadeira. Estava feliz, passando manteiga e geleia em uma fatia de pão. Ao seu lado, em outra cadeira, a boneca também se encontrava sentada em uma pilha de almofadas. – Aí está a sua mãe – disse Clevedon, com o coração palpitando. Que coração mais idiota o dele, palpitando como se fosse o de um menino ao avistar o seu primeiro amor. Noirot foi até a filha, beijou-a na testa e acariciou seus cabelos. – Bom dia, mamãe – respondeu Lucie. – Vamos passear de carruagem depois do café. Tem uma comida muito boa no aparador. Joseph vai ajudar. Tem ovos e bacon e todos os tipos de pão e doce. – Não tenho tempo para o café – disse Noirot. – Assim que suas tias descerem, temos que ir embora. Os olhos azuis de Lucie piscaram e, em uma fração de segundo, surgiu uma expressão de despontamento que Clevedon já vira antes.


– E você não vai fazer birra – determinou Noirot. – Você vai dizer obrigada à Sua Graça por toda a bondade… as muitas bondades… – Ela não vai fazer nada disso – discordou Clevedon. – Estávamos tendo uma conversa interessante sobre a casa de bonecas. Ela mal teve tempo de brincar com ela. Estava com muito sono ontem à noite. E prometi que iria levá-la para passear de carruagem. Não vejo onde está toda a pressa de ir embora. Nesse instante, as duas irmãs entraram irritadas. Sem dúvida, haviam sido acordadas antes do que desejavam e estavam com fome. – Precisamos chegar depressa à loja e ver o que pode ser salvo – explicou Noirot. – Alguém precisa estar lá para falar com as costureiras. Devíamos ter mandado alguma mensagem para elas ontem à noite, mas só pensei nisso hoje de manhã. Preciso delas. Temos que encontrar um lugar para trabalhar. Precisamos fazer o vestido de lady Clara. Ele deveria estremecer ao ouvir o nome de Clara. Sentia-se envergonhado, mas não o suficiente para não cumprir os planos que fizera na noite anterior, para não pensar no que acontecera no ateliê e no que ele ainda desejava, muito embora tivesse conseguido o que queria e, em tese, não devesse ter mais nada com aquela mulher. – Mandei Varley, que cuida dos meus negócios, até a sua loja hoje de manhã cedo com um grupo de criados. Eles relataram que a estrutura como um todo sobreviveu, embora os danos sejam muito extensos. As coisas que não foram reduzidas a cinzas estão molhadas e malcheirosas, como eu suspeitava. Retiramos umas caixas-fortes, que serão levadas aos seus quartos tão logo a sujeira seja removida delas. – Nossos quartos? – Varley também recuperou alguns livros de contabilidade, ou coisa parecida, nos lugares onde estavam escondidos. – Ele fez um gesto para o aparador. – Está tudo sob controle. Por favor, comam alguma coisa. – Sob controle? – repetiu ela, e ele teve a sensação de que titubeou um pouco. Mas era só a cabeça dele. Nada fazia Noirot titubear. Entretanto, ela se deixou cair na cadeira à esquerda dele, ao lado de Lucie. – Quer que eu faça o seu prato, mamãe? – perguntou Lucie, com uma doçura suspeita. Ela colocou os talheres sobre o prato, limpou as mãos com cuidado no guardanapo e fez menção de descer de seu “trono”. Joseph, o lacaio, aproximou-se obedientemente, ajudou-a a descer e a seguiu até o aparador. Ela ia apontando para a comida e ele ia enchendo o prato de Marcelline, seguindo as orientações da menina. – Como é imponente a vida de um duque – disse a irmã loura. – É mesmo. Eu moro em uma casa grande o suficiente para acomodar seu trabalho sem atrapalhar minha própria vida. Tenho um bom número de criados, que ficarão felizes em fazer algo um pouco diferente, caso lhes seja oferecida a oportunidade. E detenho todos os recursos para ajudá-las, sem causar o mínimo desconforto a mim mesmo, para que seus negócios possam recomeçar. Joseph colocou o prato diante da Sra. Noirot e, em seguida, retornou para Lucie, que o orientou sobre o que servir às tias.


– Acomodar nosso trabalho? – disse Noirot. – O senhor não pode estar falando sério. – Compreendo que esse momento é essencial para seus negócios. A senhora não pode perder nem mais uma encomenda, se isso puder ser evitado. Fiz uma consulta sobre isso a Varley. Ele acha que um local adequado pode ser encontrado em poucos dias. Enquanto isso, tudo o que precisa ser feito poderá ser executado aqui mais depressa e com mais facilidade. – Aqui? – repetiu Marcelline. – O senhor está sugerindo que estabeleçamos a loja na Residência Clevedon? – É a solução mais simples – concluiu ele. Ele sabia que era. Havia refletido sobre o problema quase a noite inteira. Ao concentrar-se nas dificuldades de trabalho de Marcelline, Clevedon colocara de lado outros pensamentos. – Não estou acostumado a tanto drama em minha vida. Fiquei agitado demais para dormir. Enquanto ficava na cama acordado, minha mente foi consumida pelo seu dilema. – Não lhe ocorreu que sua mente pudesse ser corroída por tanta emoção? – Muito pelo contrário. Acredito que minha mente ficou mais aguçada pela experiência, da mesma forma que o metal fica mais afiado após ser colocado em uma chama ardente. O olhar melancólico de Marcelline encontrou o de Clevedon e ele não pôde bloquear a lembrança daquele coito furioso e apressado sobre a mesa de trabalho: os sons abafados de prazer que ela emitira, o ardor enlouquecido e o prazer feroz. Negócios, disse a si mesmo. Não se desvie dos negócios. Ordem. Lógica. – A Sra. Michaels pode ajudá-la a organizar um espaço de trabalho adequado – sugeriu ele. – A senhora e suas irmãs podem usar os meus veículos e criados e podem comprar o que precisarem para dar conta das encomendas mais urgentes. Suas costureiras podem vir até aqui quando a senhora quiser. Se precisar de mais ajuda, a Sra. Michaels selecionará as melhores costureiras entre as criadas. O rosto dela estava bem pálido. As irmãs a observavam. Ele não podia dizer se estavam alarmadas ou não. Como Marcelline, também não demonstravam sentimentos. Mas é claro que sentiram que ela precisava de ajuda, pois a loura logo se apressou em dizer: – Acho o plano dele melhor do que o nosso. Marcelline ia jogar cartas para ganhar o dinheiro necessário para comprarmos o que precisamos. Marcelline. Clevedon sentiu o pulso se acelerar e uma enlouquecedora emoção tomar conta dele. Tão ridículo. Depois de sobreviverem a um naufrágio, intimidade física e um incêndio catastrófico, eles ainda mantinham a formalidade entre si. Ela era “Noirot” para ele e ele era “Vossa Graça” ou “Clevedon” para ela. Mas agora ele estava com outros membros da família e as irmãs haviam revelado para ele o que Marcelline significava para elas. Ele não podia pronunciá-lo em voz alta, mas conseguia sentir o nome dela em sua língua. Marcelline. Era um nome quase secreto, um sussurro na escuridão. Ela era toda cheia de segredos e astúcia – e é claro que jogaria cartas para ganhar dinheiro, pensou ele. – Podemos mandar chamar Belcher – disse a ruiva. – Ele e o administrador de Vossa Graça, Varley, poderiam ajeitar os papéis para um empréstimo.


– Nada disso – discordou Clevedon. – Qualquer que seja o preço do material de que precisam, não será mais do que uma fração do que doamos todos os meses para as mais variadas instituições de caridade. Noirot – Marcelline – recuperou a cor e empalideceu outra vez. – Não somos uma instituição de caridade – disse ela, inclinando-se na direção dele, com a voz embargada e baixa. – Eu devo a vida de minha filha. Não me faça dever nada mais. O coração dele se apertou como um punho e bateu forte no peito. Houve um instante de dor tão violenta que ele teve que desviar o olhar para recuperar o fôlego. Seus olhos se desviaram para Lucie, a criança que ele salvara. Noirot pensou em como aquilo era um débito que teria com ele, um débito que jamais conseguiria pagar. Não tinha como saber o valor do presente que o próprio Clevedon recebera. Ele não pôde salvar Alice. Estava muito longe quando o acidente aconteceu. E sabia que jamais poderia trazê-la de volta. Sabia que salvar aquela criança não traria Alice de volta. Mas ele sabia também que, quando carregou Lucie, sã e salva, para fora da loja em chamas, sentira não apenas um profundo alívio, mas uma alegria maior do que qualquer coisa que pudesse ter imaginado. Lucie, com a ajuda de Joseph, se ajeitava de novo em seu trono. – Não é a mesma coisa – disse ele, abstendo-se de sussurrar. Deixe que os criados ouçam e pensem o que quiserem. – De uma vez por todas, coloque de lado o seu orgulho e sua necessidade de dominar todo mundo e tome uma atitude sensata. – O senhor é que não está sendo sensato – respondeu ela. – Pense no que está dizendo. – Minha irmã está sendo sensata nesse sentido, sem dúvida – disse a ruiva. – Não podemos aceitar presentes do senhor, Vossa Graça. Perdemos nossa loja, mas não podemos perder nossa reputação. – Não podemos dar munição aos mexeriqueiros – disse a loura. – Nossas rivais… – Nós não temos rivais – interrompeu Noirot, de queixo empinado, os olhos brilhando. Ele segurou um sorriso. – Quer dizer, tenho certeza de que aquelas que se acham nossas rivais vão ter coisas escabrosas para contar – afirmou a loura. Ele olhou para Lucie. – O que você acha, Erroll? – Posso brincar com a casa de bonecas? – Claro que pode, querida. Para Noirot, ele disse: – As senhoras são duras na negociação. Será, então, um empréstimo. – Obrigada – disse Noirot. As irmãs concordaram. Com um sinal de Marcelline, todas se levantaram. – Posso deixar Lucie aos cuidados de suas criadas, Vossa Graça? Todos aqui estão determinados a mimá-la e ela não irá desencorajá-los. Não tenho tempo para uma guerra de vontades. Não temos um minuto a perder. Precisamos ter o vestido de lady Clara pronto hoje, às sete da noite. Ele olhou para Marcelline.


– A senhora deve estar brincando. Sua loja pegou fogo. É claro que suas clientes não esperam que entreguem as encomendas hoje. – O senhor não compreende – respondeu Marcelline. – Lady Clara não tem nada para vestir no Almack’s hoje à noite. Joguei fora todas as roupas dela. O vestido tem que estar pronto. Eu prometi.

Cinco horas daquela tarde. A Residência Clevedon estava em tal estado que só restava ao seu proprietário esperar que fosse um caos controlado. Criados corriam de um lado para outro, alguns carregando as compras que as mulheres haviam feito pela manhã, enquanto outros corriam de uma parte da casa para outra levando mensagens ou alimentos, buscando isso ou aquilo em armários e closets. Um bando de costureiras havia chegado no fim da manhã, admirando o ambiente antes de desaparecer nas salas do primeiro andar, que tinham sido escolhidas como ateliês temporários. Em algum momento, a ruiva – Srta. Leonie, como ele acabou por descobrir – lhe deu a certeza de que tudo estaria resolvido até o dia seguinte, tão logo cada um estivesse instalado e os materiais fossem colocados em seus lugares. Ela agradeceu mais de uma vez por ter recuperado os livros de contabilidade e apenas sorriu quando Clevedon explicou não ter sido ele o responsável; ele não saberia diferenciar um livro de registros de um livro de sermões, nunca tendo visto nenhum dos dois. Enquanto isso, a loura – Srta. Sophia Noirot – havia tomado emprestado papel, penas e tinta para escrever a propaganda para os jornais. Ele ofereceu o próprio escritório para ela usar, pois a Srta. Leonie lhe tinha dito que Sophia precisaria de um lugar silencioso para criar o anúncio. Era como escrever um capítulo de um romance, explicou ela, e a área de trabalho estava agitada demais, com pessoas entrando e saindo. Clevedon se retirara para a biblioteca. Ele teria saído de casa, mas a atitude lhe pareceu irresponsável. Fora ele quem começara tudo aquilo; precisava acompanhar o processo até o fim. No fim das contas, acabou sendo mais útil do que imaginara. De vez em quando, alguém aparecia com uma pergunta que apenas ele poderia responder, ou um problema que só ele poderia sanar. Em geral, quem aparecia era uma das irmãs de Noirot, porque Marcelline se mantinha conscientemente distante. Algumas vezes, porém, vinha a Sra. Michaels e Halliday, para tratar de um ou outro assunto que intrigava até sua própria onisciência. A verdade era que Clevedon não queria fugir. Ele achou o empreendimento bastante interessante. Com frequência, ficava à porta da biblioteca para observar a correria. Adoraria poder ver as mulheres fazendo o vestido de Clara, mas, com toda a diplomacia, a Srta. Sophia o havia desencorajado: as costureiras jamais conseguiriam se concentrar com um cavalheiro por perto. Os lacaios altos, vestindo seus belos uniformes, já as deixavam bastante agitadas.


Clevedon ainda não tinha certeza de que elas seriam capazes de terminar o vestido a tempo. Os materiais só chegaram no início da tarde e, pelas pistas que tivera sobre o modelo, ele viu que o trabalho envolvido seria prodigioso. No momento, ele estava dando uma olhada em uma revista feminina, a La Belle Assemblée, que uma de suas tias havia deixado após uma visita. Ao ouvir passos se aproximando, deixou de lado a revista e jogou uma pilha de convites por cima. A porta se abriu e o lacaio Thomas anunciou a presença de lorde Longmore, que entrou pisando forte logo atrás dele, os olhos negros brilhando como fogo. – Você perdeu o juízo? – perguntou ele, com raiva. Thomas se retirou em silêncio. – Boa tarde, Longmore – respondeu Clevedon. – Minha saúde vai muitíssimo bem. Sinto dizer que você parece estar em um estado delirante. Espero que não seja uma febre contagiosa. Há uma grande empresa em minha casa no momento e detestaria que todos se contagiassem com esse mal que parece tê-lo acometido. – Mas que disparate! – disse Longmore. – Quando li o jornal, achei que era mais uma das loucuras que inventam por aí, como aquela sobre cenas suicidas de uma costureira temperamental. E foi o que tentei dizer à minha mãe, que, como você pode imaginar, está em total alvoroço. Essas palavras foram um baque e trouxeram Clevedon de volta à realidade. Ele se esquecera de lady Warford. Mas que diferença isso faria? Ele se recusava a permitir que os nervos e as histerias dela controlassem o seu comportamento. Lady Warford era problema do marido dela. – Vim até aqui porque desejava ver por mim mesmo o que meu amigo anda planejando. E o que descubro ao chegar? Que os jornais, sem falar em minha mãe, claramente suavizaram o caso. Descubro que meu amigo acomodou três mulheres solteiras, não em uma casinha discreta em Kensington, mas na casa de sua família! E, junto com elas, mais meia dúzia de mulheres. As criadas estão transpirando como carvoeiros, ajudando e trabalhando para lojistas! Vi, com meus próprios olhos, Halliday carregando o que parecia ser um cesto de roupas sujas. Um cesto de roupas! Um mordomo organizava o trabalho da casa. Ele mantinha os livros de registros do patrão e atuava como seu secretário. Ele dava ordens. Um mordomo jamais sujava as mãos buscando ou carregando coisas. Se estava carregando um cesto, era por seu próprio prazer – ou uma desculpa para aplacar sua curiosidade em relação às desconhecidas que haviam chegado ali. Longmore continuava com seu discurso. – Sei que você gosta de brincar com as convenções, mas isso… Que raiva! As palavras me faltam! Vamos deixar minha mãe de lado, mas como é que vou olhar minha irmã nos olhos depois disso? – Bem, isso é cômico – analisou Clevedon. – Cômico? – Sim. Considerando-se que as mulheres estão aqui por causa de sua irmã. Elas estão trabalhando para fazer um vestido para Clara usar essa noite. E parecem acreditar que nada… nem a vontade de Deus ou dos homens, nem pragas, pestes, inundações, fome ou fogo… pode liberá-las de manter a


promessa que fizeram. É muito curioso. Elas parece enxergar a promessa de fazer um vestido sob a mesma luz intransigente que você e eu enxergaríamos um débito de honra. – Às favas com o vestido! – exclamou Longmore. – Você anda ingerindo ópio? Bebendo absinto? Contraiu uma febre? Gonorreia? Pelo que sei, ela sobe para a cabeça. Aquela costureira… – A qual delas você se refere? Temos três aqui. – Não brinque comigo – retrucou Longmore. – Por Deus, você sozinho é uma provação para a paciência de todos os santos e mártires juntos. Vai me obrigar a desafiá-lo para um duelo. Não vou permitir que faça minha irmã de tola. Não… Ele se interrompeu porque a porta se abriu de repente e a Srta. Sophia entrou correndo no salão. – Vossa Graça, estava pensando se… Ela parou de falar de imediato, parecendo ter percebido tardiamente a presença de Longmore. Ou talvez já a tivesse percebido na hora em que entrou, se não antes. Clevedon suspeitava de que as duas irmãs tinham o mesmo nível de astúcia de Noirot. Não duvidava de que a Srta. Sophia os interrompera de propósito. A voz de Longmore podia ser ouvida do outro lado da casa. De qualquer maneira, teria sido difícil que ela não tivesse percebido a presença de Longmore, não apenas por ele ser tão alto quando Clevedon, mas também porque estava parado no meio do caminho. Mas talvez ela o tivesse confundido com Clevedon. As pessoas o faziam algumas vezes, quando ele estava de costas, a certa distância. Ambos eram grandes e tinham cabelos negros, embora Longmore se vestisse com menos cuidado. Qualquer que fosse o motivo, ela parecia surpresa e parou de repente. – Peço mil desculpas – disse ela. – Foi muito rude de minha parte entrar aqui dessa maneira. – De forma alguma – respondeu Clevedon. – Eu disse para não fazer cerimônia. Não temos tempo para isso. Este é meu amigo, lorde Longmore. Longmore, embora você não mereça, vou permitir que conheça a Srta. Noirot, uma de nossas estimadas modistas. Enquanto isso, Longmore, que havia se virado diante daquela entrada abrupta, não tirava os olhos da moça. Por um instante, parecia boquiaberto. – Srta. Noirot. – Milorde. – Ela fez uma reverência. Ah, era uma daquelas mesuras, não precisamente igual à de Noirot, mas algo tão impressionante quanto, à sua maneira. Os olhos negros de Longmore se arregalaram. – Mas qual é o problema? – Clevedon quis saber. Os olhos azuis de Sophia, matreiramente inocentes, voltaram-se de novo para ele. – É sobre o aviso que vamos colocar nos jornais, Vossa Graça. Eu os escrevo com frequência e o senhor deve achar que não me dão nenhum trabalho, mas continuo lutando, apesar de todo o silêncio. Ela ouvira, pensou Clevedon. Ela ouvira a fúria de Longmore. Era ela quem havia escrito os relatos para os jornais sobre o famoso vestido de baile usado por Noirot. Ela era a responsável por transformar dificuldades e escândalos em notícias que trouxessem benefícios à loja. – É o choque – disse Clevedon, entrando na brincadeira. – A senhorita não pode pensar em se


recuperar de uma hora para outra, principalmente quando tudo se transformou em um turbilhão. – Para ter certeza, não posso julgar minha própria prosa. O senhor me daria a sua opinião? – Ela lançou um olhar para Longmore. – Se milorde perdoar a intrusão. Longmore afastou-se e atirou-se no sofá. – “A Srta. Noirot pede para informar aos amigos e ao público em geral que pretende reabrir a loja em breve, com um novo e elegante sortimento de chapelaria e vestidos, no último estilo da moda, com preços razoáveis…” – Tire “preços razoáveis” – interrompeu Clevedon. – Dinheiro é preocupação para a classe média. Se quiser que as mulheres de meus amigos se tornem clientes, é melhor não ser razoável. Se não for caro, elas não valorizam. Ela assentiu com a cabeça. – Está vendo? Marcelline teria pensado nisso… mas eu não me atrevo a interrompê-la. Se o vestido de lady Clara não ficar pronto na hora combinada, minha irmã ficará inconsolável. Clevedon viu quando Longmore lançou um olhar sombrio para a costureira, sob as grossas sobrancelhas negras. – Se minha mãe permitir que ela use o vestido – murmurou ele. Com os olhos azuis bem abertos, Sophia virou-se completamente para ele. – Não permitir que ela use o vestido? O senhor não pode estar falando sério. Minha irmã está se matando para terminar o traje. – Minha querida… – começou Longmore. – Nossa loja pegou fogo – disse Sophia. – A filhinha de minha irmã, minha sobrinha, a única sobrinha que tenho, quase morreu no incêndio. Sua Graça salvou a vida dela, arriscando a própria vida. Ele correu para dentro de um edifício em chamas. – A voz dela começou a subir. – Ele nos alojou, nos emprestou dinheiro para comprar material, estamos todas nos matando para cumprir nossas obrigações com nossas clientes… e o senhor diz… diz que sua mãe não deixará lady Clara usar nosso ve-vestido. A voz dela tremeu. Lágrimas cintilaram naqueles belos olhos azuis. Longmore se levantou do sofá. – Eu acho – afirmou ele – que não há necessidade de se comprometer. Sophia se empertigou. – Se milady, sua mãe, disser uma única palavra contra esse vestido… contra minha irmã… depois de tudo o que ela passou… eu juro que a estrangulo com minhas próprias mãos, seja ela marquesa ou não. Sophia jogou no chão o anúncio que escrevera e saiu da sala batendo a porta. Longmore pegou o papel do chão, abriu a porta e foi atrás dela. Clevedon esperou até que o barulho dos passos de ambos desaparecesse. Então, bateu palmas. – Parabéns, Srta. Noirot – disse ele. – Parabéns. Sorrindo, ele fechou a porta e voltou a folhear a La Belle Assemblée.


Clevedon havia levado a revista para a escrivaninha. Tomava notas quando a porta se abriu, apenas o suficiente para que uma cabeça com chapéu aparecesse. – Estou saindo – disse Noirot. O chapéu desapareceu e ela começou a fechar a porta. Ele se levantou e foi em direção a ela. – Espere. Ela enfiou a cabeça outra vez. – Não tenho tempo para esperar. Só queria que soubesse que o vestido está pronto. – Ela falou com frieza, mas ele percebeu a nota de triunfo em sua voz. Ele chegou à porta e a abriu completamente. Nas mãos dela, havia um embrulho. Devia ser o vestido, escondido no meio de camadas de papel de seda, como uma múmia em musselina. – A senhora não vai carregá-lo sozinha. Onde está o lacaio? – Ele viu um criado passando pelo corredor. – Thomas! – Não. – Ela fez um sinal para que Thomas voltasse para o lugar onde estava. – Prometi que o entregaria pessoalmente e ele não vai sair de minhas mãos. – Posso vê-lo? – É claro que não. Não tenho tempo para desembrulhá-lo e embrulhá-lo outra vez. O senhor o verá hoje à noite e ficará boquiaberto, como todo mundo. No Almack’s. O Almack’s. Um peso em seus ombros. Outra noite de quarta-feira com as pessoas de sempre. As mesmas conversas, animadas pelo escândalo mais recente. E, naquela noite, com certeza, esse escândalo seria ele. Estariam sussurrando por trás dos leques, por trás das cartas de baralho. Lady Warford teria muito para contar; imaginando se expressar com a maior sutileza, enquanto deixava no ar indícios de indignação tão grandes e inconfundíveis quanto esterco de elefante. Ele se lembrou do que Longmore havia dito sobre sua mãe não permitir que Clara usasse o vestido. – É melhor eu ir com a senhora. Longmore esteve aqui… – Eu sei. Sophia já lidou com ele. E eu vou lidar com lady Warford, se for necessário. Duvido que seja. Quando lady Clara se vir neste vestido… Bem, vamos deixar isso para lá, não tenho tempo para me gabar e, de qualquer maneira, o senhor ficaria entediado. – Não, eu não ficaria entediado. – Ele estivera lendo a La Belle Assemblée. Tinha algumas ideias. – Eu estava… – São seis e meia. Ainda tenho tempo de chegar à Residência Warford. – Leve o coche pequeno. – Não sei o que vou levar – disse ela. – Halliday prometeu que eu teria seu veículo mais rápido. Estão esperando por mim. Ele queria ir com ela. Queria presenciar o vestido e o rosto de Clara quando o visse. Queria que todos soubessem que aquilo tinha a ver com negócios, e que Noirot era não apenas talentosa, mas tinha princípios. Pelo menos quando se tratava de trabalho…


Mas esse, para sua tristeza, não era o único motivo pelo qual ele queria ir com Noirot. Clevedon estava próximo o suficiente para sentir o perfume dela, para ver a palidez ir e vir de seu rosto… o brilho perolado de sua pele onde a luz batia… os cachos negros aparecendo cuidadosamente sob o chapéu, enrolando-se perto das orelhas. Ele queria levantar as mãos e colocálas no rosto dela, aproximar a boca dos lábios dela… Idiota. Idiota. Idiota. Além de ignóbil, uma vez que ela estava carregando o vestido de Clara, a quem ele sempre amara, a quem não poderia sequer pensar em ferir. Ele já causara problemas demais. Lady Warford já devia estar perturbando Clara o dia inteiro, culpando-a pela negligência e o mau comportamento de Clevedon. As falsas amigas também já deviam estar afiando as garras para usá-las em Clara. Ele deu um passo para trás. – Devo ser um grande idiota prendendo-a aqui, depois que a senhora realizou o que eu jurava ser impossível. Ela também deu um passo para trás. – Vamos esperar que eu tenha permissão para entregá-lo.


Capítulo doze Uma mulher extremamente talentosa dará um ar distinto ao seu vestido como um todo por meio de um bem imaginado conjunto de laços e nós, da mesma maneira que um escritor criterioso traz alma a toda uma frase com uma simples expressão. John Gay, poeta e dramaturgo inglês (1684-1732).

Marcelline chegou à Residência Warford cinco minutos antes das sete horas. Embora tivesse vindo na carruagem de Clevedon, achou melhor não entrar pela porta da frente. Deu a volta até a entrada de serviço, onde lhe pediram que aguardasse. Ela havia pensado na hipótese de ser mal recebida, mas recusou-se a se deixar levar pela dúvida. O vestido era maravilhoso. Lady Clara entendera que estava nas mãos de uma mestre. Caso contrário, teria mandado Marcelline embora no outro dia, no instante em que ela começou a jogar fora todo o seu guarda-roupa. Finalmente, Davis, a criada de lady Clara, apareceu e lhe deu permissão para entrar. Com uma expressão de severidade, ela conduziu Marcelline pelas escadas, diante dos olhares dos criados. A expressão dura logo foi explicada. Marcelline encontrou lady Clara e a mãe no quarto da jovem. Estava claro que haviam discutido e devia ter sido uma briga prodigiosa, pois ambas tinham os rostos vermelhos. Quando Davis entrou e disse: “A costureira chegou, milady”, um silêncio tomou conta do local, um silêncio pesado e colossal, como um elefante. Lady Warford era quase tão alta quanto Clara e, obviamente, fora uma bela mulher quando jovem. Não tinha, de forma alguma, a aparência da velha autoritária que todos conheciam. Embora um pouco mais volumosa que a filha, a marquesa era uma bela mulher de meia-idade. Mas estava pronta para a batalha e logo partiu para o ataque. – Você! Como ousa vir mostrar sua cara aqui! – Mamãe, por favor – pediu lady Clara, os olhos voltados para o pacote que Marcelline carregava. – Meus Deus, não pude acreditar quando me avisaram que a senhora estava aqui com o vestido. A sua loja… li que foi destruída por um incêndio. – E foi, milady, mas prometi entregar o vestido. – Com ou sem vestido, não posso acreditar que essa criatura teve a pachorra de vir aqui mostrar a cara… – A senhora fez o meu vestido? Já está pronto? Marcelline assentiu, colocou o embrulho sobre uma mesa, desamarrou os cordões, desdobrou a musselina e tirou o vestido do papel de seda, que ela e as irmãs haviam escondido, cuidadosamente, entre as dobras. Ela ouviu três agudas inaladas de ar.


– Oh, Céus! – exclamou lady Clara. – Oh, meu Deus! – Isso é um acinte – disse lady Warford, agora com menos certeza do que antes. – Oh, Clara, como você pode pegar qualquer coisa que venha das mãos dessa criatura? – Não tenho mais nada para usar! – disse lady Clara. – Mais nada! Mais nada! No entanto, lady Clara ignorou a mãe e fez um sinal para a criada ajudá-la a tirar a roupa. Lady Warford afundou em uma cadeira e ficou observando, com o rosto vermelho, enquanto Marcelline e a criada ajudavam a filha a colocar o vestido. Então, lady Clara foi se observar diante do espelho. – Oh! – exclamou. – Oh, meu Deus do Céu! A criada ficou paralisada. Lady Warford não desviou o olhar nem por um instante. A criação de Marcelline era feita de um manto de crepe branco sobre um vestido de cetim da mesma cor. O decote, cortado bem baixo, deixava à mostra os ombros delicados e o colo de lady Clara, de maneira a ressaltar sua beleza, e o branco suave evidenciava a translucidez de sua compleição. Marcelline colocou enfeites simples e dispersos, para acentuar o esplêndido corte do vestido e a perfeição do drapeado, em especial o gracioso drapê do corpete. Alguns laços-borboleta, cuja colocação fora cuidadosamente estudada, adornavam as mangas, que eram bem curtas e bufantes, assim como as beiradas do manto, no local em que ele se abria sobre o vestido de cetim. O manto era delicadamente bordado com ramos dourados, prateados e negros. O estilo não era francês, mas era arrojado o suficiente para não ser completamente inglês. Mais importante que tudo, porém, era o fato de o vestido estar perfeito no corpo daquela que o vestia. Não, era mais que simplesmente perfeito. Ele deixava a beleza de lady Clara quase excruciante. A jovem enxergava isso. Sua criada enxergava isso. Até sua mãe enxergava isso. O silêncio no quarto era intenso. Marcelline deixou que elas admirassem aquela visão, enquanto estudava o próprio trabalho. Graças ao seu fanatismo em relação a medidas, o caimento estava quase perfeito. Ela não precisaria subir nem descer a bainha. O decote precisava de algum ajuste para cair com ainda mais suavidade nas costas. Os enchimentos que Davis havia trazido não eram grandes o suficiente para apoiar direito as mangas. Mas esses e outros detalhes menores eram fáceis de serem corrigidos. Marcelline logo se pôs a fazer os ajustes. Quando o trabalho técnico ficou pronto, ela orientou Davis na colocação dos toques finais: uma pequena grinalda de prata e ouro, ajustada apenas para emoldurar o nó trançado dos cabelos de milady, pesados brincos de ouro e um lenço de pescoço feito de delicada gaze. Sandálias de seda branca e luvas brancas de pelica, bordadas em prata e ouro, arrematavam o conjunto. Tudo isso levou quase uma hora, enquanto lady Warford ficava cada vez mais impaciente, reclamando da demora em voz baixa. Ela mal deu um minuto a Marcelline para admirar sua obraprima. Queixando-se de que ela as atrasara para o jantar, tirou lady Clara do vestido sem dizer mais nada. É claro que também não agradeceu.


Davis admitiu, com rispidez, que sua patroa realmente estava linda. Em seguida, conduziu Marcelline pela escada dos fundos, como se sua presença fosse um segredo obsceno, e de volta à entrada de serviço. Enquanto mergulhava outra vez na escuridão da noite, Marcelline disse a si mesma que estava muito, muito feliz. Ela havia feito o que tinha que ser feito. Lady Clara nunca estivera tão linda em toda a sua existência. Até a mãe dela sabia disso. Todos no Almack’s veriam isso. Clevedon também. Ele se apaixonaria por lady Clara outra vez. E, em meio ao seu triunfo, Marcelline sentiu uma facada no coração, afiada e profunda. Ela sabia o que era. Podia ser uma boa mentirosa, mas mentir para si mesma não era um talento que tivesse alguma serventia. A verdade era que ela queria ser lady Clara, ou alguém como ela: uma mulher da mesma classe dele. Queria ser aquela por quem ele se apaixonou, uma só vez já seria suficiente. Não faz mal, disse a si mesma. Sua filha estava viva. Suas irmãs estavam vivas. Começariam de novo. Depois daquela noite, as damas passariam a bater à sua porta.

Clevedon mal havia chegado ao Almack’s e já calculava quanto tempo demoraria para conseguir fugir dali com alguma decência. Não pretendia ficar tanto tempo quanto lady Warford gostaria. Não tinha a obrigação nem o dever de agradá-la. Só viera por causa de Clara e duvidava que ela tivesse alguma expectativa de que ele se guiasse pela cartilha da mãe. Ele havia chegado o mais tarde possível, dentro do limite do aceitável. Isso não melhorou a situação, porque Clara não tinha muito tempo para ele, não havia nenhuma outra moça interessante naquele lugar e ele estava cansado de jogar cartas com as mesmas pessoas. Ela só guardara uma dança para ele. Explicou que não tinha certeza de que ele apareceria e os outros cavalheiros a estavam pressionando. Não havia dúvida de que eles deviam mesmo estar pressionando Clara. Ela merecia. Estava muito bonita no vestido no qual Noirot e sua equipe haviam trabalhado sem cessar. Mais importante, ele viu no rosto das mulheres londrinas as mesmas expressões que percebera em suas semelhantes parisienses. Clevedon desejou que Noirot pudesse ver aquelas caras. O tempo se arrastou até que, finalmente, chegasse a sua vez de dançar com Clara. Enquanto a levava para o salão, disse a ela que era a moça mais bonita do lugar. – O vestido faz muito mais diferença do que eu poderia imaginar – afirmou ela. – Não pude acreditar que madame Noirot foi capaz de fazê-lo tão depressa, depois de tudo o que aconteceu. – Ela estava decidida. Clara olhou para cima, para o rosto dele, e desviou o olhar. – Sua modista é uma criatura orgulhosa. Orgulhosa. Obstinada. Impetuosa.


– Ela é sua modista, minha querida, não minha. – Todos estão dizendo que é sua. Ela vive em sua casa, com a família dela. Você a adotou? – Não sabia mais o que fazer em tão pouco tempo. Houve uma pausa na conversa, enquanto começaram a dançar. – Li uma vez que, se alguém salva a vida de uma pessoa, essa pessoa passa a pertencer a quem a salvou. – Peço que você também não comece com essa conversa ridícula sobre heróis – pediu ele. – Um homem não tem escolha. Se sua mãe estivesse presa naquela loja em chamas, eu não poderia ficar parado olhando. Longmore teria feito exatamente o que eu fiz, por mais que ele conte outra história. – Ah, ele tinha mesmo muita coisa para contar – disse Clara. – Quando voltou à nossa casa, depois da visita que lhe fez, disse a mamãe para não criar confusão por causa de algumas costureiras ditatoriais. Disse que é típico de você dar guarida a criaturas que gostam de provocar. Contou que eram ridículas. Que a loja havia queimado, que a criança quase morrera no incêndio, que não tinham mais nada além da roupa do corpo e alguns documentos e que, mesmo assim, só se preocupavam com meu vestido. – Elas são ditatoriais – concordou ele. – Você viu por si mesma. Ele também vira: Noirot, imperiosa como uma rainha, dando ordens a Clara. Tão cheia de si. Tão obstinada. Tão impetuosa. – Ouso afirmar que todo mundo está chocado comigo por ter alguma coisa a ver com ela – confessou Clara. – Todo mundo se choca com facilidade. – Mas eu queria o vestido. Mamãe não queria deixar a Sra. Noirot entrar na casa, mas dei um chilique e ela concordou. Estão achando que sou uma pessoa extremamente vaidosa. – Que absurdo! Já passou muito da hora de você parar de esconder seus encantos. Às vezes, eu me pergunto se a sua mãe… Ele se interrompeu, consternado, diante do que estava prestes a dizer, surpreso consigo mesmo por só ter pensado nisso agora: a vaidosa e orgulhosa mãe de Clara a vestia daquela maneira deliberadamente. Ela o fazia na esperança de manter os outros homens longe da filha, que se guardava para Clevedon. Ela estava prendendo a filha a um homem que não queria estar ali, não queria aquela vida e ansiava por outra coisa, embora não soubesse exatamente o quê. Não, ele sabia o que era. Mas não adiantava saber, porque era precisamente o que seu poder, sua posição e seu dinheiro não podiam comprar. – O que você ia dizer sobre minha mãe? – indagou Clara. – Ela é muito protetora – mentiu. – Mais do que desejaria, não tenho dúvida. Mas, no fim das contas, você conseguiu o que queria. Ele não percebeu o olhar questionador que Clara lhe lançou. Sua atenção estava voltada para os vestidos das mulheres que dançavam ao redor do casal. Quase todas usavam modelos da última fase do luto da corte: diferentes tons de branco, alguns poucos pretos, formas suaves em contraste com os


fortes ângulos de branco, preto e cinza do vestuário dos homens. O ar estava quente e espesso, com um perfume que lembrava outros tempos e lugares. Mas ali não era Paris e a diferença não estava apenas nas cores monocromáticas. Era o ânimo monocromático. Não havia mágica. Em Paris, havia um tipo de mágica, ou talvez de irrealidade: o absurdo daquele baile ao qual Noirot não pertencia, mas que se fez pertencer, onde ela era o sol e todos se tornaram pequenos planetas e luas orbitando ao redor dela. Mágica, mágica de verdade. Que loucura! Que tolo! A mulher mais linda de Londres estava em seus braços. Todos os homens do lugar o invejavam. Sim, ele era um tolo. A mulher a quem sempre amara estava em seus braços e todos os outros homens no salão de baile desejavam estar em seu lugar. E tudo o que ele queria era ir embora.

Biblioteca da Residência Clevedon. Sexta-feira, 1o de maio. – Precisamos sair daqui – disse Marcelline a Clevedon. Ela não o vira desde a noite de quarta-feira. Não tinha ideia de que horas ele voltara do Almack’s. Seus apartamentos privativos ficavam no jardim da frente, na parte principal da casa – o equivalente a ruas de distância. Eram dez horas da manhã de sexta-feira. As costureiras tinham chegado havia uma hora e se acomodado para trabalhar nos pedidos mais urgentes. Em geral, enquanto trabalhavam, Marcelline e uma das irmãs ficavam na loja, atendendo às clientes. Mas não tinham uma loja agora. E, depois da triunfante aparição de lady Clara no Almack’s, Marcelline podia esperar a visita de muitas clientes. Se a Maison Noirot não aproveitasse a oportunidade bem depressa, as mulheres da cidade – que não eram conhecidas por manter o interesse na mesma coisa por muito tempo – logo se esqueceriam do estonteante vestido de Clara. Lady Clara teria outros vestidos da Maison Noirot, mas o impacto não seria mais o mesmo que o da primeira vez. Essa não era a única razão para elas saírem dali, embora fosse a mais prática e ambiciosa. Marcelline se preparava para escrever uma mensagem para Clevedon quando Halliday apareceu avisando que Sua Graça estava na biblioteca e desejava ver a Sra. Noirot assim que fosse mais conveniente. Ela atendeu o pedido às pressas e o encontrou debruçado em uma pilha de jornais e revistas. Marcelline não esperou para descobrir de que assunto ele queria tratar.


– Não podemos ficar aqui – disse ela. – Não quero parecer ingrata, mas isso é muito perturbador para o meu trabalho, as minhas funcionárias, a minha família. Principalmente para Lucie. As criadas. Os lacaios. Ela está começando a achar que isso é normal. Ela é muito mais difícil de lidar do que o senhor supõe e vou precisar de semanas para desfazer os danos causados por todos os mimos e cuidados dedicados a ela, todos… Ela se interrompeu quando ele levantou a cabeça do jornal e moveu os olhos verdes em sua direção. O olhar de Marcelline deslizou para longe daqueles olhos extraordinários e desceu para seu nariz, longo e reto, pausando na boca sensual. A sala ficou quente demais. A mente dela pulava de um pensamento a outro, tentando evitar o único assunto que não podia suportar. Mas um desejo obscuro bateu em seu coração, fazendo o calor diminuir, e ela deu um passo para trás. – E existe aquilo – disse ela. – Sim. Existe aquilo. – Sim – repetiu ela, acrescentando depressa –, eu tenho lady Clara e gostaria de mantê-la. Quanto mais tempo eu ficar aqui, menos a mãe dela vai gostar de mim. Não sei por quanto tempo ela conseguirá enfrentar a mãe. Não sei por quanto tempo eu conseguirei ficar longe de você. Ele desviou olhar, deixando escapar um leve suspiro. Ela queria tocá-lo. Queria colocar a palma da mão no rosto dele. Queria mergulhar em seus braços, reclinar a cabeça sobre seu peito e ouvir as batidas de seu coração. Ela queria sentir o calor do corpo dele e toda a sua força. Queria-o dentro dela. Ela o desejava. Na noite anterior, Marcelline ficara acordada na cama, imaginando: um leve passo na escuridão… o som de uma porta se fechando… o som da respiração dele. O movimento do colchão quando acomodasse o peso dele… os sussurros enquanto ele se livrava da roupa de dormir… a voz dele bem baixa… a boca em sua orelha… e as mãos dele em seu corpo, tirando a sua camisola… a mãos dele entre suas pernas… Pare, pare, pare. – Já conversei com minhas irmãs e elas concordam que não podemos ficar. Leonie e eu vamos sair para encontrar outro lugar. – Isso não será necessário – disse ele. – Isso é crucial. Precisamos aproveitar o momento. O senhor não compreende. – Compreendo perfeitamente. – Ele empurrou na direção dela, por cima da mesa, o jornal que estava lendo. – Varley achou uma loja muito apropriada. Vamos lá para vê-la?

Uma das muitas propriedades de Clevedon, o imóvel ficava na rua St. James, perto da esquina com a rua Bennet. Clevedon disse às modistas que os locatários (um homem e sua esposa)


enfrentaram sérias dificuldades financeiras pouco tempo depois de abrir o local. Haviam fugido na calada da noite, devendo três meses de aluguel. Deviam ter alugado ou roubado uma carreta, porque levaram quase todo o conteúdo da loja, assim como os dispositivos de iluminação. Era mentira. A verdade era que Varney lhes dera dinheiro para sair, refinando a proposta com a permissão de levarem tudo o que não estivesse preso com pregos. – Que estranha coincidência a loja ficar vazia bem neste momento – disse a Srta. Leonie, enquanto Varley destrancava aporta. – Já estava mais que na hora de alguma coincidência estranha ocorrer a nosso favor – disse a Srta. Sophia. Enquanto as outras entravam na loja, Noirot permaneceu no passeio. Clevedon a viu analisando o imóvel de cima a baixo. Ficava em uma área de grande prestígio, embora alguns estabelecimentos da rua não fossem muito recomendáveis. Ao lado de clubes para cavalheiros estavam algumas das lojas mais prestigiadas de Londres – Hoby, o fabricante de botas; Lock’s, o chapeleiro, e os Berry Brothers, comerciantes de vinhos –, mas também havia locais de jogos e bordéis. Entretanto, esses tendiam a se localizar em passagens estreitas e paços. – E então? – disse ele. – Aprovado? Marcelline desviou rapidamente o olhar do rosto de Clevedon. – Isso estava em meus planos – disse ela. – Da rua Fleet para a St. James. Eu sabia que seria assim, mas não tão depressa. Com um leve e enigmático sorriso, ela entrou. Ele a seguiu. Assim que transpuseram a porta, a Srta. Leonie interrompeu sua conversa com Varley. – Eu sabia que era bom demais para ser verdade – disse ela a Noirot. – Está muito além de nossas possibilidades. Não temos dinheiro para cobrir as despesas diárias, quanto mais para transformar este local em algo que possamos utilizar. Precisaríamos de duas existências para pagar a Sua Graça. – Não diga absurdos – disse Clevedon. – Não diga absurdos – falou Noirot, ao mesmo tempo. – Só o endereço já fará nossos negócios crescerem prodigiosamente. Teremos um espaço adequado no qual trabalhar e expor nosso trabalho. Poderemos contratar mais meia dúzia de costureiras e aumentar nossa produção. Tenho inúmeras ideias e me falta espaço e gente para executá-las. – Minha querida, precisamos de clientes – retrucou a Srta. Leonie. – Vamos ter que dobrar nossa clientela… – Sophia, você precisa colocar um anúncio no jornal imediatamente – interrompeu Noirot, demonstrando impaciência. – “A Sra. Noirot deseja informar a seus amigos e ao público em geral que pretende abrir sua loja no sábado, dia 6, em seu novo endereço, à rua St. James, número 56. Sua coleção de novos e elegantes chapéus e vestidos excederá, em gosto e elegância, as coleções encontradas em quaisquer outras casas de Londres. Entre os produtos oferecidos, estará uma variedade de artigos femininos e vestidos, que não poderão ser encontrados em nenhum outro lugar etc. etc.” – Ela fez um sinal com a mão. – Você sabe como deve ser. Seja mais.


– Concordo – disse Clevedon. – E as senhoras precisam inventar um corselete. As três mulheres se viraram para olhar para o duque. – Tenho lido revistas de moda – explicou ele. – Parece que existe algo irresistível quando se trata de um novo e singular estilo de corselete. Foi uma alteração sutil na expressão. Se ele não tivesse passado tanto tempo com elas, ou não tivesse prestado tanta atenção a Noirot, não teria reconhecido o leve movimento dos olhos das três irmãs, um sinal de cálculos rápidos dentro de suas conspiradoras mentes. – Ele tem razão – concordou Noirot. – Vou criar um corselete. Mas, por enquanto, Sophia, por razões de propaganda, você vai inventar um nome para ele. Algo exótico. Lembre-se do corselete “Circassiano”, da Sra. Bells. Inclua um toque italiano. Elas desejam corseletes italianos. – É preciso mudar a data da inauguração também – ponderou Clevedon. – As senhoras não podem perder nem mais um dia. Que seja amanhã. Não terão tempo de pintar do jeito que desejam, mas a loja foi pintada há pouco tempo para nossos inquilinos fugitivos. Com tudo limpo e polido, e com nova iluminação, vai parecer novo em folha. As irmãs mais novas gritaram ao mesmo tempo: – Não vamos conseguir fazer isso! – Como poderemos ter tudo pronto em menos de 24 horas? Noirot levantou a mão. As irmãs se calaram. – Precisaremos que nos empreste a maioria de seus criados – disse ela a Clevedon. – E carruagens. Precisaremos de material também, mais do que compramos para a emergência. – Entendo – disse ele. – Não poderemos fazê-lo sem a sua ajuda – prosseguiu ela. – Eu havia mesmo planejado ajudá-las. É um sacrifício pequeno se comparado a tê-las todas fora da Residência Clevedon o mais depressa possível. Isso acalmaria lady Warford. E os outros mexeriqueiros. Ele mesmo não se importava em nada com maledicências ou escândalos, mas tinha consciência de que estava dificultando as coisas para Clara. Não podia fazer o que tinha vontade sem causar constrangimentos a ela. De qualquer maneira, também lhe faltava força moral para resistir à tentação. Quanto mais tempo Noirot vivesse sob o seu teto, maior a possibilidade de que ele não se comportasse. – Um pequeno sacrifício – repetiu a Srta. Sophia com uma risada. – Oh, como é bom ser duque. – É bom conhecer um duque – corrigiu a Srta. Leonie. – Este lugar pode dar oportunidades ao gênio de Marcelline, mas será extremamente caro para mobiliar, sem falar dos materiais. Noirot já começava um circuito pelo que ele imaginava que seria a loja em si. – As gavetas e balcões vão servir – disse ela –, mas tudo precisa ser limpo e polido com perfeição. Todo o resto deverá ser comprado. Trabalharemos de cima para baixo, começando pelo teto: candelabros, arandelas de parede, espelhos… Clevedon tirou do bolso uma pequena caderneta de anotações e começou a escrever.


A distribuição de reponsabilidades foi uma tarefa fácil. As irmãs Noirot estavam no ramo havia muito tempo e sabiam o que cada uma fazia melhor. Sophia voltou à Residência Clevedon para compor sua prosa e supervisionar as costureiras. Leonie permaneceu na loja para receber as encomendas e orientar os criados e trabalhadores que Halliday já havia começado a convocar. Clevedon deveria levar Marcelline para fazer compras. Ela não viu alternativa. Precisava dele. Simplesmente teria que reprimir seu desejo e outros sentimentos inconvenientes e ser estoica. Nesse aspecto, ela já era uma pessoa com bastante prática. – Se quisermos que isso fique pronto até o fim do dia, preciso que venha comigo – explicou a Clevedon, no final do inventário do local. – Não tenho tempo para regatear preços. Preciso de atenção imediata, de preferência obsequiosa. Chegar com o duque de Clevedon é uma maneira acertada de conseguir isso e muito mais. – Eu já tinha imaginado que iria com a senhora. Percebeu com quanta diligência tomei notas? Ela percebera e ficara imaginando por que ele estava fazendo aquilo. Mas segurou a língua até que estivessem na carruagem. Mas não foi sobre a caderneta que ela fez perguntas. – Achei que o senhor odiasse fazer compras com mulheres, acima de todas as coisas – disse ela, lembrando-se do que ele dissera a lady Clara. – Isso foi antes. Agora, a senhora tornou essa tarefa interessante, maldita seja. – Interessante? – Toda a confusão. Todo o drama. Toda aquela ambição, associada a uma apaixonada crença na certeza de sua visão. Toda essa… resolução. Diverte-me um pouco capturar esse ocasional senso de resolução enquanto a acompanho em sua caminhada. – Que absurdo! – disse ela. – Descobri uma maneira de ganhar a vida que não exige que me escravize a quem quer que seja. Se não fosse obrigada a trabalhar, não o faria. Ficaria feliz de ter apenas o objetivo de aproveitar a vida e, de vez em quando, ser generosa com os mortais inferiores. – É a senhora quem está dizendo absurdos. A senhora vive para o trabalho. Vive e respira o que faz. Não é um trabalho. É uma vocação. – Anseio pelo dia em que possa viver sem trabalhar – disse ela. – Esse é o meu objetivo. – Esse dia jamais chegará. Por mais alto que a senhora chegue, não conseguirá parar de fazer o que faz. Vi quando jogou no chão os vestidos de Clara e os chutou para o lado. Eles não eram apenas insatisfatórios. Em sua visão, eram um crime. A senhora arrancou aquelas roupas da mão dela como se pudessem causar graves danos corporais. Fez aquele vestido de um dia para o outro, como se fosse uma questão de vida ou morte. Se Clara tivesse ido ao Almack’s usando um de seus vestidos antigos, a senhora morreria. Marcelline olhou para fora da janela da carruagem. – Veja só quem fala de drama. “Vida e morte”… “Eu morreria”… Ela estava pouco à vontade. Jamais pensara em si mesma daquela maneira. Era teimosa, realista, prática, mercenária. Tudo o que fazia era por lucro, por ambição. Entretanto, agora que ele dissera aquelas palavras, ela percebia que não eram mentiras. E ficou admirada por ele ter observado uma coisa dessas. Ela pensava que ele só prestava atenção em quais momentos de fraqueza, descuido ou


emoção poderiam levá-la a ficar de costas junto à parede… ou sobre uma mesa de trabalho. – Oh, não estou certa – disse ela. – Isso não teria me matado… mas teria me deixado um pouco doente. Ele riu. A carruagem parou e eles desceram. A conversa acabou e as compras começaram.

Aquele foi um dos dias mais agitados que Clevedon passara em toda a sua vida – com exceção do dia em que correu por toda a França atrás dela. Foram de uma loja a outra: cortineiros, depósitos de móveis, lojas especializadas em iluminação e espelhos. Noirot e ele receberam atenção imediata. Os donos das lojas vinham receber pessoalmente Sua Graça, o duque de Clevedon. Estavam preparados para mover céus e terras para oferecer exatamente o que ele queria e para que tudo fosse entregue no mesmo dia. Se hesitassem, ele só precisava dizer a Noirot: – É melhor tentarmos a loja ao lado… Colter’s, não é? Tão logo o nome do competidor era mencionado, o que era impossível um momento atrás se tornava a coisa mais fácil do mundo. Não havia mais tempo para conversas pessoais. Noirot não podia se dar ao luxo de debater sobre o que comprar nem esperar que lhe mostrassem a última remessa disso ou daquilo. Quando entrava em uma loja, tinha que saber exatamente o que queria. E assim, naqueles curtos intervalos, enquanto estavam na privacidade da carruagem, a conversa era apenas prática, sobre mobiliário, que tamanho seria melhor, que cores ressaltariam o quê. Ele devia estar mais do que entediado. Devia estar louco para escapar e ir ao clube, a um jogo de cartas, a uma ou duas ou três garrafas com Longmore. Todavia, o duque de Clevedon não percebeu o tempo passar. Em determinado momento, eles pararam para comer algo de uma cesta que a cozinheira havia preparado para ambos. Ele não sabia dizer quando isso acontecera, se uma hora atrás ou cinco. – Mon dieu, acho que acabamos. Isso é tudo, não é? Ele tirou do bolso a caderneta e só então, quando teve que se esforçar para enxergar, foi que percebeu que a noite havia chegado. Estivera concentrado demais nos próprios planos e cálculos. Enquanto ajudava-a a escolher os artigos para a loja, ele não se sentiu sem propósito. Clevedon olhou ao redor e notou que os lampiões da rua estavam acesos. Em pouco tempo, as lojas estariam fechando, mas as ruas estavam cheias de gente, os passeios repletos de pessoas andando para lá e para cá, algumas parando para olhar as vitrines das lojas, outras entrando – sem dúvida, para desespero dos proprietários, ávidos por seus jantares e o silêncio de suas casas. Em pouco tempo, os funcionários sairiam dos vários estabelecimentos, alguns correndo para casa, outros para suas tavernas prediletas. Qual era o último lugar aonde ele ansiava chegar? Quando foi a última vez que se sentiu ansioso


para ficar de frente para a lareira de sua própria casa? – Se esquecemos alguma coisa, deve ser algo de pouca importância. – Veremos daqui a pouco. Ele disse ao cocheiro para levá-los de volta à loja, na rua St. James. Depois do que pareceu uma eternidade, enquanto se arrastavam pelas ruas de Londres a passo de tartaruga, Marcelline desceu da carruagem e se viu diante de uma loja escura e vazia. – Não posso acreditar que todos já se foram. – Marcelline ouviu a própria voz hesitar. Não se lembrava da última vez que se sentira tão decepcionada. – Eu pensei… pensei… – Que fôssemos mais eficientes do que imaginávamos – completou ele. – Aposto qualquer coisa que foram para a Residência Clevedon, para um merecido jantar e um descanso. Como nós também faremos, assim que tivermos dado uma olhada por aqui. Ele pegou uma chave e a brandiu. – Sou o senhorio, como a senhora sabe. A luz que vinha da rua era suficiente para que entrassem na loja sem tropeçar nos móveis, mas Clevedon pegou um lampião. Marcelline ficou no meio do salão, com os braços cruzados e uma mistura de impaciência e ansiedade. Ela se virou lentamente, absorvendo o que via: o brilho do trabalho em madeira, os elegantes candelabros, as cortinas artisticamente penduradas, os móveis arrumados como se estivessem em uma sala de estar. – A loja passou no teste? – indagou Clevedon. – Ficou satisfatória? – Mais que isso. Meu gosto é impecável, eu sei… – Realmente, a senhora precisa lutar para se livrar desse excesso de humildade. – … mas ver tudo no lugar certo… – Ela fez uma pausa. – Bem, vou precisar fazer algumas mudanças na posição dos móveis amanhã de manhã. Leonie é muito boa com números e seu olho para detalhes artísticos é melhor do que o da maioria das pessoas, mas ela é um pouco convencional em seus arranjos. O salão principal é o mais importante, pois é o que nossos clientes enxergam. A primeira impressão deve ser de elegância e conforto e trazer aquele pequeno detalhe que me diferencia das demais. – Os toques finais – reafirmou ele. – Nada tão óbvio – disse ela. – Os franceses diriam je ne sais quoi – disse ele. – E eu diria o mesmo, porque não sei apontar o que é. Ela se permitiu olhar para ele, mas só por um instante. – O senhor percorreu um longo caminho desde Paris. E agora afirma não notar essas coisas. – Tentei não notar. Mas, para onde quer que eu olhe, ali está. Ficarei feliz por me livrar da senhora. Quando um homem se rebaixa ao ponto de ler revistas de moda… não, é pior que isso. Quando um homem se vê mergulhando em suas profundezas, procurando conhecimentos misteriosos que não lhe servem de nada… Oh, é a sua influência corruptora. Vou ficar muito feliz ao ver as Noirots bem longe e reassumir a minha vida. – O senhor se aborrece por ser um anjo da guarda – disse ela. – Não diga bobagens. Não sou nada disso. Venha, vamos ver o resto da loja.


Eles avaliaram o resto do lugar: os escritórios, as áreas de trabalho e o estoque. Marcelline deduziu que ele devia estar ansioso para voltar para casa. Por algum tempo, os detalhes da preparação de uma loja e as minúcias sobre o negócio podem ter sido uma mudança interessante para ele, mas Clevedon não era um comerciante. O dinheiro tinha um significado inteiramente diferente para ele, que também devia estar cansado de ser o objeto de tediosos mexericos, de ter sua rotina caseira desregulada. Mal sabia ele o quanto aquela ruptura era pequena, se comparada às que costumavam acontecer na família de Marcelline. Seus ancestrais haviam destruído famílias inteiras, enganando os preciosos filhos dos nobres para que saíssem de suas casas luxuosas e vivessem vidas boêmias, na melhor das hipóteses, ou de abandono e ruína, na pior delas. Quando ele a levou, não de volta para a saída, mas para a escada, ela pensou que já vira todas as novidades que lhe interessavam. O primeiro andar continha as áreas de trabalho: um escritório bem iluminado para ela, uma bela saleta para atendimentos privados e espaços reservados para as tarefas de Sophia e Leonie. O segundo e o terceiro andares haviam sido estabelecidos como moradia. E isso não havia passado pela cabeça dela, nem uma vez, enquanto faziam as compras. – Oh, céus, espero que o senhor tenha um ou dois colchões em sua casa para me emprestar – disse ela. – Uma mesa e cadeiras também seriam úteis, embora não essenciais. Nós já acampamos antes. Não posso acreditar que me esqueci de comprar alguma coisa para nós. – Vamos subir e ver o que será necessário. Talvez os fugitivos tenham deixado alguma coisa. Ele foi na frente, carregando um lampião. Clevedon não parou no primeiro andar, mas continuou a subir para o segundo. No alto da escada, parou. – Espere aqui. Ele passou por uma porta e a abriu. Um momento depois, a luz fraca do lampião deu lugar a uma suave luz a gás. – Ora, ora – disse ele. – Venha ver isso aqui. Ela foi até a porta e olhou para dentro: um sofá, cadeiras e mesas. Cortinas nas janelas. Um tapete no chão. Nada daquilo tinha a ver com a casa de Clevedon. Os móveis não eram grandiosos. Mas eram parecidos com os do apartamento de sua prima, em Paris. Uma elegância discreta. Conforto. Calor. Não um lugar para visitas, como a loja lá embaixo, mas um lar. – Oh, meu Deus! – exclamou ela, e foi tudo o que conseguiu dizer. Algo pressionava seu coração e a deixava sem ar. Saindo daquele lindo ambiente, ele a levou a uma pequena sala de jantar. Em seguida, levou-a a um quarto de criança, decorado com tanto carinho e compreensão que seu coração chegou a doer. Havia um conjunto de mesa e cadeiras pequeninas, e um jogo de chá. Pequenas prateleiras haviam sido colocadas para guardar os livros da menina, além de uma arca colorida para guardar seus brinquedos e tesouros. Dali, ele conduziu Marcelline a outro quarto, maior. – Achei que a senhora preferiria este quarto – explicou ele. – Se não gostarem dessa disposição, podem se ajeitar como quiserem. Achei que a senhora não devia ficar de frente para a rua


movimentada, mas para o jardim, como pode ver, e talvez ter uma pequena vista do Green Park, embora precise ficar em cima de uma cadeira para poder vê-lo. Ela era uma Noirot e o autocontrole não era um ponto forte na família. Mas ela, como os outros parentes, tinha um incrível controle sobre o que permitia que o mundo visse. Naquele momento, isso se quebrou. – Oh, Clevedon, o que você fez? – disse ela, e aquela coisa que pressionava seu coração lhe trouxe um soluço. Pela primeira vez em muitos e muitos anos, ela chorou.


Capítulo treze A Sra. Hughes informa aos amigos e ao público em geral que pretende abrir sua loja na terça feira, dia 4 do mês corrente, com um novo e elegante sortimento de chapéus e vestidos, seguindo a última moda… A Sra. Hughes aproveita essa oportunidade para agradecer pelo enorme carinho que tem recebido de sua numerosa clientela e amigos… Precisa-se de aprendiz e ajudante. Propagandas para janeiro da Ackermann’s Repository, vol. XI, 1814.

As lágrimas nunca vinham com facilidade para ela. Quando ficou sabendo que a cólera havia matado seus pais, ela sofreu pelas oportunidades perdidas e pelo que esperava deles, contra todas as probabilidades e todas as evidências. Quando a doença matou sua prima Emma – que havia abrigado Marcelline, Sophia e Leonie muitas e muitas vezes –, ela ficou profundamente triste. Também havia sofrido pela perda de Charlie, para quem entregara o seu jovem coração. Todavia, Marcelline não havia chorado daquela maneira. Nunca tivera tempo para se entregar à própria dor. Cada perda significava que ela precisava agir de imediato para salvar sua família. Ela também não derramou lágrimas quando Lucie ficou gravemente doente, pois não tinha tempo para isso, apenas para mergulhar no trabalho e ganhar dinheiro para manter a filha viva. Quando achou que o fogo havia levado a menina, o choque e a dor lancinantes não lhe deixaram nada para chorar. Mas agora… mas isso… Foi a última gota. Ela perdeu o controle e chorou. Chorar seria uma palavra muito insignificante para os enormes soluços que tomavam conta de seu corpo, como garras tentando parti-lo em dois. Tentou livrar-se delas, mas eram fortes demais. A única coisa que podia fazer era ficar de pé, o rosto mergulhado nas mãos, e chorar descontroladamente. – Ora, o que é isso? – disse Clevedon. – Ficou tão horroroso assim? Achei que tinha bom gosto… pelo menos um pouquinho. Imaginei que poderia ser contagiado pelo seu… pelo amor de Deus, Noirot. Ela teria gargalhado se pudesse, mas uma represa havia explodido dentro dela. Só conseguia ficar parada, o rosto nas mãos, aflita sem saber por quê. – Maldição! – exclamou ele. – Se soubesse que você ia criar uma barafunda dessas, eu a teria levado diretamente para casa, quer dizer, para a Residência Clevedon. Casa. A casa dele. Ele lhe dera uma casa. E hoje, enquanto ela só pensava nos negócios, ele criara um lar para sua família. Mais uma onda de angústia a fez tremer.


– Era para ser uma surpresa agradável. Você tinha que dizer: “Quanta bondade de sua parte pensar nisso, Clevedon.” Depois, aceitaria isso como um direito seu. Da mesma forma que aceita tudo como um direito. Para falar a verdade, espero que suas clientes nunca a vejam se comportar assim. Elas perderiam todo o respeito por você. E a senhora sabe que é crucial intimidá-las. Precisa dominá-las com mão de ferro, senão irão tratá-la com rudeza… Que diabo, Noirot. Qual é o problema? Você. Você é o problema. Só você. Mas a cascata de lágrimas estava esmorecendo. Ela afastou as mãos do rosto. Para sua surpresa, estavam trêmulas. Pegou um lenço e secou o rosto. Foi então que ela viu que ele estava ali parado, tenso, as mãos fechadas ao lado do corpo. Ele queria fazer o que seria natural. Aproximar-se dela, abraçá-la e confortá-la. Mas não se permitiu agir assim. Por quê? Será que ele invocou a imagem de lady Clara e pensou nela e em tudo que lhe devia? Marcelline sentiu vontade de rir. A ironia era grande demais. Agora, depois de conseguir derrubar todas as defesas de Marcelline, o duque encontrou a força moral para se manter distante dela. – O senhor não entende – disse ela. – Não entendo mesmo. – Ninguém – explicou Marcelline, com hesitação. Mais um soluço lhe rasgou o peito. Ela mordeu os lábios e apontou o lenço para tudo que a rodeava. – Em toda a minha vida. Um lar. Você criou um lar para mim. Era verdade. Ninguém, em toda a vida de Marcelline, jamais havia construído um lar para ela. Seus pais nunca ficavam no mesmo lugar por muito tempo. Ela e as irmãs viveram em alojamentos, esconderijos, acampamentos, como ciganas. Nunca um lar, até a prima Emma as acolher em sua casa e, mesmo assim, o que tinham era um lugar onde comer, dormir e trabalhar. Nada ali pertencia a elas. Nada fora preparado para elas. Os pequeninos quartos, nos andares superiores do imóvel na rua Fleet, eram o primeiro lar de verdade de suas vidas. E agora, isso. Ele fizera tudo isso. Fizera em silêncio enquanto ela se preocupava com outras tarefas. Ele havia planejado uma surpresa para ela. – Oh, Clevedon, o que vou fazer? – Morar aqui? – arriscou ele. Marcelline olhou para Clevedon, para aqueles inesquecíveis olhos verdes, onde uma vez ela enxergara a dança do diabo, o calor do desejo, a gargalhada e a fúria. Ah, e também afeto, por Lucie. – Alguém tinha que pensar nisso. Você tinha tantas coisas para fazer. A loja era… é… o mais importante, é claro. Sem ela, vocês não têm nada. Mas minha única função era ficar parado, com cara de duque, e isso me deixou entediado. E havia mais aquela novidade: ele entendera o que a loja significava para ela. Em poucas semanas, o trabalho mudara de algo sem importância – na verdade, um alvo de desprezo – para isso. Ela havia lido, em romances, sobre pessoas que não conseguiam falar porque seus corações estavam repletos demais e sempre pensara: Não o meu negro coraçãozinho.


Mas, agora, ela também não conseguia falar, porque tudo aquilo era demais, o que quer que aquilo fosse. As peças estavam se encaixando, um enorme quebra-cabeça que ela nem percebera que precisava ser resolvido. As peças começaram a se encaixar com perfeição diante de seus olhos. – Parecia tolice distraí-la com problemas domésticos comuns – prosseguiu ele. – Você já estava se encarregando do impossível. Mas isso é tão do seu feitio… encarregar-se do impossível. O vestido de Clara. Perseguir-me em Paris. Quem neste mundo pensaria numa coisa dessas? Quem imaginaria que daria certo? Se tivesse pedido minha opinião, eu teria dito que era um plano maluco… – E teria razão. – Ela o interrompeu. – Foi um plano maluco. – Mas deu certo. – Sim. Sim, deu certo. Exceto por um pequeno erro de cálculo. Ela sentiu os olhos marejarem. Piscou e forçou um sorriso. – Estou feliz – disse ela. – Não poderia estar mais feliz. Tudo o que sempre desejei. – Ela fez um gesto. – E mais. Uma bela loja na rua St. James. Oportunidades para dar asas à minha imaginação, minha ambição. Ele olhou ao redor. – Não sei se é grande o suficiente. Não sei se a catedral de São Paulo seria grande o suficiente para conter a sua ambição. Existem limites para a sua ambição? Limites comuns, mortais? Como ele a conhecia bem. Ela riu. Doeu rir, mas ela cedeu. Ele se virou de repente para ela. – Noirot? – Eu só estava pensando – disse ela. – Tudo acabou do jeito que eu imaginava. Não, melhor do que eu poderia imaginar. E mesmo assim… Oh, que piada! Ela balançou a cabeça, afastou-se dele, sentou-se em uma cadeira, cruzou as mãos e ficou olhando para o chão, para o tapete que ele havia escolhido. Papoulas vermelhas entrelaçadas em meio a gavinhas pretas e folhas, sobre um fundo de ouro pálido… com um sutil tom de rosa. As cores do vestido que ela havia usado no baile da comtesse de Chirac. Então, Marcelline se deu conta: aquele lar, que ele havia criado para elas, era o seu presente de despedida. Quão irônico. Quão adequado. Ela o havia caçado, ela o prendera e alcançara aquilo ao qual se propusera. E ela confundira as coisas. Que piada. Ela se apaixonara. Clevedon estava dizendo adeus, daquela maneira honrada que os homens de sua estirpe costumavam fazer, com um presente extravagante. – Noirot, está se sentindo mal? Foi um dia muito longo e ouso dizer que ambos estamos extenuados. Não foi pouca tensão, nem mesmo para você, tentar fazer o impossível. Toda essa correria de sair de um lugar e entrar em outro, comprando freneticamente. E eu… fazendo compras com uma mulher… é possível que minha sensibilidade jamais se recupere do choque.


Ela levantou o olhar para o rosto dele. Não tinham nenhum futuro. Levando-se em consideração quem ele era, ela não poderia ser nada para aquele homem além de uma amante. E isso ela não poderia ser. Não por escrúpulos e dilemas morais. Ela mal compreendia o que era isso. Mas era por motivos de negócios, pela loja que sustentava sua família, a atividade que ela amava, a grande paixão de sua vida. Ela poderia guardar para si seus sentimentos. Poderia sofrer em silêncio, poderia dizer obrigada e adeus. Na verdade, não havia mais nada a fazer. O problema era que, sendo quem ela era, nobres sacrifícios estavam fora de questão. E o verdadeiro problema era que ela o amava. Assim, ela traçou seu plano, sem demora. Enxergou tudo de uma vez em sua mente, da mesma maneira que enxergava todos os seus planos. Viu o que precisava fazer, a única coisa a ser feita. Marcelline se levantou, foi até a cama e apontou para ela. – Quero que se sente aqui. – Não seja tola – reagiu ele. Ela desamarrou as fitas do chapéu. – Noirot, talvez você não tenha entendido por que eu estava com tanta pressa de tirá-la de minha casa. Não me importo com mexericos, se só envolverem a mim. Mas você sabe que os mexericos machucarão outra pessoa. – Você é um homem. Os homens são perdoados com presteza por coisas que, para as mulheres, não têm perdão. – Prometi a mim mesmo que não faria nada pelo qual tivesse que ser perdoado. – Você não será o primeiro homem a quebrar uma promessa. Ainda segurando o chapéu pelas fitas, ela o olhou fixamente, capturando toda a sua atenção. Não escondia nada. Seu coração estava todo em seus olhos e ela não se importava que ele o visse. Estava apaixonada e, uma vez na vida, amaria abertamente, sem disfarces ou falsidade. Aquele seria o último presente que daria a ele. Ele foi até a cama e se sentou, o rosto tenso. Ela deixou que as fitas escorregassem de seus dedos. O chapéu caiu com suavidade sobre o tapete que ele escolhera para o quarto. Ele o observou cair. – Maldita mulher! – exclamou ele. – Não tem problema. Isso é um adeus. – Noir… Ela passou o dedo indicador sobre os lábios dele. – Agradeço a você por tudo o que fez. Agradeço bem do fundo do meu coração frio e negro. Existem algumas dívidas que posso saldar, mas há muitas que jamais poderei. Quero que minha gratidão, com toda a sua profundidade e amplitude, seja clara, perfeitamente clara… porque, depois desta noite, você jamais deverá voltar aqui. Jamais virá à minha loja. Quando sua esposa ou sua amante vier à Maison Noirot, você vai ficar distante. Não falará comigo na rua ou em qualquer outro lugar. Depois desta noite, você se tornará o homem que sempre imaginei que fosse, o homem cuja bolsa eu pilhei… e nada além desse homem. Está me entendendo?


Os olhos dele se escureceram e ela enxergou fúria ali: raiva, decepção e quem sabe o que mais? Ele começou a se levantar. – Mas, por esta noite – disse ela –, eu te amo. Algo brilhou nos olhos dele e o duque ficou corado; um breve espasmo contorceu seu belo rosto. Foi rápido, veio e foi embora num piscar de olhos. Mas era difícil não perceber a dor, por mais breve que fosse sua presença. Foi nesse momento que ela viu que não tomara a decisão errada. Marcelline começou a se despir. Era o mesmo vestido que usara na noite do incêndio. Embora as criadas da casa dele o tivessem lavado e passado, a peça já não estava à altura dos padrões dela. Entretanto, as irmãs e ela haviam concordado que terminar os pedidos cruciais era mais importante do que reabastecer seus próprios guarda-roupas. Naturalmente, o vestido era amarrado nas costas, mas isso não apresentou nenhuma dificuldade. Ela se vestia e despia sozinha desde criança. Desabotoou as mangas. Em seguida, abriu os ganchos nas costas do corpete, começando de cima para baixo. Com os fechos abertos, a fenda estreita debaixo da cintura – invisível quando o corpete estava fechado – abriu-se com facilidade, assim como o próprio corpete. Sob ele, havia uma chemisette de musselina bordada, amarrada pela cintura. Ela a desamarrou e a tirou, deixando-a cair de sua mão, da mesma maneira que fizera deslizar o chapéu. Marcelline ouviu a respiração dele acelerar. Com o corpete aberto, ela tirou os braços de dentro das mangas. Puxou o vestido pela cabeça. Em seguida, soltou o enchimento das mangas e deixou-os cair sobre a pilha de roupas que crescia a seus pés. Ela ficou de frente para ele, usando apenas a camisa, anáguas, o espatilho, meias e sapatos. Parou por um momento, permitindo que ele a admirasse. Não tinha certeza do que ele sentia, além daquilo que os homens sempre sentem nessas situações, mas talvez, apenas talvez, ele estivesse tentando, como ela estava, gravar aquele momento na memória. Então, ela se ajoelhou. – Marcelline – disse ele. Era a primeira vez que ele pronunciava seu primeiro nome e aquele som era uma verdadeira carícia. Oh, ela se lembraria disso: a voz dele, como uma carícia. – Você construiu um lar para mim – disse ela. – Deixe-me construir nossa última noite juntos. Eu não faço tudo exatamente como deve ser? Ela tirou uma das botas dele, depois a outra. Colocou-as organizadamente ao lado da pilha de roupas. Ela se levantou. Aproximou-se ainda mais e baixou o olhar para vê-lo, a cabeleira negra daquele homem brilhando como seda à luz do lampião. Ele olhava para cima, encarando-a, os olhos obscurecidos, a boca ligeiramente aberta, a respiração acelerada. Ela se inclinou sobre ele, desabotoou seu casaco. Em seguida, tirou-o de maneira tão suave quanto o lacaio teria feito. Dobrou-o e colocou-o sobre uma cadeira. Tirou o colete dele com a mesma suavidade, pausando apenas um minuto para deslizar a mão sobre o fino bordado de seda. Em seguida, desamarrou o lenço de seu pescoço. A cabeça de Clevedon estava no mesmo nível dos seios de Marcelline. Ela pôde sentir a


respiração dele em sua pele, por cima da renda da camisa. – O seu cheiro – disse ele, com ternura. – Que os céus me ajudem; o seu cheiro. Por um momento, ela parou, as mãos tremendo sobre a sedosa musselina. Lembrou-se da primeira noite, quando ele tirou o alfinete de diamante e colocou no lugar a pérola que ela usava. Alisou a delicada musselina antes de começar a desenrolar o lenço do pescoço dele. Ela o tirou e o jogou por cima do casaco. Em seguida, desabotoou a camisa do duque, que logo se abriu. Colocou a palma da mão no pescoço dele e deixou-a passear sobre a pele nua, passando pelos contornos firmes de seu tórax. Enquanto sua mão descansava ali, ela curvou a cabeça e colocou seu rosto no dele. Ficou ali por um instante, permitindo-se sentir o rosto dele tocando-a enquanto ela aspirava seu cheiro, o cheiro de um homem, daquele homem, cálido e inebriante como conhaque quente. Então, ela deu um passo para trás, desamarrou os próprios sapatos e os descalçou. Colocou as mãos para trás e desamarrou o cordão do corselete. Puxou-o pelos ilhoses, até que a peça ficasse solta o suficiente para descer pelo quadril. A camiseta, livre do corselete, escorregou pelos seus ombros, desnudando um dos seios. Ela o ouviu sugar o ar. Deixou cair o corselete e o jogou de lado. Desamarrou as anáguas e deixou-as deslizar pelas pernas. Estendeu a mão sob a camisa, desamarrou a calçola e deixou-a cair no chão, para, em seguida, pisar fora dela. Agora, ela estava apenas de camisa e meias. Deixou que ele a visse, deleitou-se com o olhar dele, o ardor em seus olhos, o prazer que ele sentia ao vê-la, a excitação. – Você está me matando – disse ele, a voz rouca. – Você está me matando. – Você vai morrer lindamente. Ela colocou o pé na beira da cama, perto da coxa dele. Jogou para trás a bainha da camisa de baixo, desnudando o joelho. Ele emitiu um som sufocado. Ela desamarrou a liga e a jogou no tapete. Em seguida, enrolou a meia para baixo, bem devagar, passando pelo joelho, a panturrilha, o peito do pé, e a tirou. Ouviu-o arfar. Deixou cair a meia, mas, por um instante, não moveu a perna, para que ele a olhasse. Ela se deu um tempo para observá-lo enquanto ele a admirava, para gravar na memória a expressão do lindo rosto dele. E, então, ela tirou a perna da beira da cama e sacou a outra meia, da mesma maneira. Nesse momento, a camisa havia escorregado e já estava quase na cintura. Somente as mangas, presas na curva dos cotovelos, a seguravam. Ela relaxou os braços ao lado do corpo e tremeu ligeiramente. A camisa deslizou e caiu no chão, formando o que parecia ser uma pequena poça de musselina. Isso a deixou sem nada, completamente nua. A respiração dele agora era áspera, o rosto tenso. – Venha aqui, sua menina malvada – disse ele. Ela se aproximou; ele gemeu e estendeu os braços para ela. Então, sua boca estava sobre ela, movendo-se sobre seus seios. Quando ele sugou seu mamilo, ela deu um gemido e enfiou os dedos nos cabelos dele, segurou sua cabeça e apertou-a contra si. Ela inclinou a cabeça e beijou sua testa, sentindo uma dor, a enorme dor do desejo carnal, o sofrimento de amar. Ela desfrutou enquanto ele a sugava. Mas, quando ele começou a puxá-la para si, ela se afastou.


– Ainda não terminei – disse ela. – Espero que não – disse ele. Ela tirou as mãos dele do caminho e desabotoou as calças dele, puxou a camisa para fora e ordenou: – Levante os braços. Ele fechou os olhos e obedeceu. Ela tirou a camisa dele, passando-a pela cabeça. Segurou a calça pela cintura e começou a tirála. Ele se deitou e levantou o quadril para que ela pudesse puxá-las para baixo. Depois, com mais rapidez, vieram as ceroulas. Livre, seu membro saltou e ela o segurou com vontade, tão ardente em sua mão, tão grosso, longo e bem torneado. – Por Deus, Marcelline! – exclamou ele. Ela sorriu e beijou a ponta aveludada. Ele blasfemou. Ela teria feito mais. Poderia ter feito mais. Queria ter feito mais, mas queria que aquele momento durasse o maior tempo possível. Ela o soltou e deslizou as mãos para baixo, para as pernas dele, até tirar suas meias. Ela não estava tão firme como antes e seu ritmo já não era tão despreocupado. As mãos e a boca dele estavam em brasas. Ele a excitou com tanta facilidade, da mesma forma que fizera em Paris e na loja – ela, que estava sempre no controle, que sabia tudo o que era preciso saber sobre os homens, que sentia que já nascera sabendo. Ela se acendeu como papel de seda tocado por uma chama. Marcelline subiu na cama e montou sobre ele. Olhou para baixo e ele estava estendendo os braços. Ele colocou as palmas das mãos sobre as laterais do rosto dela. Por um longo momento, foi só o que fez. Ele a segurou e a olhou. Então trouxe o rosto dela para perto do seu e a beijou na boca. Suavemente, muito suavemente. E faminto, intensificando-se cada vez mais. Ela também estava faminta. Retribuiu o beijo com todo o desejo que vinha controlando havia semanas, todos os sonhos e fantasias que transformavam suas noites em tormento, toda a paixão que ela sempre dirigia ao trabalho, seu grande amor. Mas agora havia aquele homem que, contra todas as expectativas, a tinha conquistado. Ele a beijou, um beijo profundo. A língua dele explorando cada segredo de sua boca. O gosto dele e seu cheiro estavam por toda a parte, um mar tépido no qual ela flutuava, afundava, afogava-se. Ela moveu as mãos por cima dele, sobre seus ombros largos, descendo pelas costas. Deixou-se mergulhar no toque da pele dele, no enorme poder de seus músculos, tensos sob as mãos dela. Acariciou seus braços, as palmas das mãos se curvando para definir a silhueta dele e gravá-la em seus sentidos, para que pudesse trazer de volta aquele homem, sempre que desejasse. Ela se movia incansavelmente, explorando cada centímetro daquele largo e rígido tronco. Aquele não era o corpo de um cavalheiro. Mas ela percebera logo de início: o físico, o tamanho e o poder, a carnalidade mal camuflada pela elegante aparência externa… o belo animal à espreita, sob trajes civilizados. Ela sentiu a boca de Clevedon deixar a dela e achou que poderia chorar pela perda, mas os lábios dele foram passeando pela linha de sua mandíbula, descendo pelo pescoço. Em seguida, a


língua dele deslizou pelo seu colo, ela gemeu e sua cabeça pendeu para trás. Ele a lambeu, como um grande felino, a pantera que ela havia imaginado, a língua movendo-se sobre a pele dela. Cada fibra do corpo de Marcelline parecia tensa, transformando-se em uma massa de choques elétricos, como o ar que precede uma forte tempestade. Um prazer ardente percorreu seu corpo e estacionou na barriga. Ela começou a tremer pela liberação. O membro avantajado latejava ao tocar sua pele e o corpo pulsava de desejo. Ela queria que durasse mais e mais tempo, mas estava perdendo o controle. Ergueu-se, abraçou-o e guiou-o para dentro dela. Ele o fez com lentidão, arqueando-se devagar, com um som que era uma combinação de risada e gemido. Ela se elevou e desceu, recebendo-o, dessa vez, até o fim. – Ah… – gemeu ele. Lentamente, subindo e descendo, torturando a ambos, oferecendo prazer a ambos. Os dedos dele se enfiaram nos quadris dela. – Marcelline, pelo amor de Deus. Mas ela não parou. Nunca mais ela se sentiria satisfeita. Quando elevou o corpo, uma alegria louca a invadiu. Era tão forte quanto um golpe físico, demolindo seu controle, fazendo-a gritar “Mon dieu!”. Ela ouviu a voz dele, baixinho. Sem palavras. Grunhidos e suspiros e um som como uma risada abafada. Ele agarrou as nádegas dela, mas deixou-a estabelecer o ritmo. Ela tentou desacelerar outra vez, para fazer com que durasse e durasse. Mas a urgência passou por cima de tudo. O sangue dela martelava nas veias; era uma intimação, primitiva, primal, e tomou conta dela. Marcelline também era um animal, correndo com todas as suas forças até o final, até aquilo que ela estava destinada a encontrar. Ela não podia parar, não podia desacelerar, não podia retardar. Montada nele, seu corpo subia e descia, o corpo dele se levantando para encontrar o dela. Ele a segurou pelo quadril. Riam, uma risada crua e grave, rouca e ofegante. Se foi a risada ou a loucura que a empurraram para seu limite, isso ela não sabia dizer. Só sentia a furiosa alegria, enquanto seu corpo se enrijecia e tremia. Uma onda de felicidade tomou conta dela, cada vez mais, até que não havia mais aonde ir. Então, ele a lançou para baixo, como um navio frágil em um mar tomentoso, para uma grande e abafada escuridão. Ela ficou deitada, exausta, em cima dele. Ele permaneceu deitado, abalado, abraçando-a. Está tudo bem. É uma despedida. Ele sabia que tinha que ser um adeus. Havia levado sua tolerância ao limite e mais além. Abusara da indulgência e da compreensão de Clara, ultrapassando o que seria razoável. Fora imprudente, egoísta e cruel com aquela que sempre o amara e o entendera. Ele correra como o diabo para se livrar de Noirot e de sua família porque tinha que ser feito. Até ele, que desprezava regras, sabia disso. Aquele era o dia do adeus. Dar a ela uma loja e um lar era o calmante que oferecia à própria consciência e à ansiedade. Elas estariam a salvo. Sobreviveriam. Prosperariam. Sem ele. E ele sabia que, com o passar do tempo, ele também a esqueceria. Mas, por esta noite, eu te amo. Ele não queria pensar nisso. Recusava-se a pensar nisso.


O amor não fazia parte do jogo. Não estava nas cartas. E esse jogo já chegara ao fim. Estava na hora, mais que a hora, de eles irem embora. Entretanto, sua mão descia pelas costas dela e ele pensava que nada no mundo era mais aveludado do que a pele daquela mulher. Os cabelos dela fizeram cócegas em seu queixo e ele inclinou a cabeça um pouquinho, para sentir os cachos macios em seu rosto e para inalá-la. Mas, por esta noite, eu te amo. Ela dissera essas palavras e ele as ouvira em completo estado de choque. Sua mente havia parado, assim como sua voz. Ficara inerte, como um idiota, sem saber o que dizer. Acreditara e, ao mesmo tempo, se recusara a acreditar. Sentira um tremor de amargura. Disse a si mesmo que era um tolo. Sabia o que era certo e o que era errado. Não podia ficar, independentemente do que ela dissesse. Sabia o que ia acontecer e não podia deixar que acontecesse outra vez. Seria uma atitude egoísta, imprudente, cruel e desonrosa. Ele havia discutido consigo mesmo, mas ali estava ela. E ele a desejava. Era fraco. Talvez não tão fraco e devasso quanto o pai, mas o suficiente. E, é claro, havia perdido a batalha, a débil luta contra honra, bondade, respeito e todas as outras qualidades nobres que Warford tentara incutir em sua cabeça. Ele poderia simplesmente ter se levantado da cama – onde não devia ter se sentado em primeiro lugar… Oh, chega de poderia e deveria. Ele enfrentou um teste de caráter e não passou. Ele ficou. Queria ficar. – Precisamos ir – disse ela. – Sim.

Era tarde da noite. Precisavam ir embora. Não havia tempo para fazer amor outra vez. Não havia tempo para abraços e toques. Não havia tempo para se aquecer. Ele a ajudou a se vestir e ela o ajudou. Não levaram muito tempo, foi rápido demais. A volta à Residência Clevedon foi curta demais. Ele não teve tempo suficiente para estudar bem o perfil dela enquanto Marcelline olhava pela janela, para a rua iluminada pelos lampiões. Não teve tempo para gravar os contornos do rosto dela em sua mente. Ele não a veria outra vez. Ela queria que Clevedon se mantivesse longe e ele sabia que deveria aceitar esse fato. Mas ele a veria de novo, talvez por acidente. Quem sabe a veria saindo de uma loja de cortinas de linho ou de uma casa de vinhos. Não a veria exatamente daquele jeito: o jogo de luz e sombra em seu rosto enquanto olhava para a rua Pall Mall. Não ficaria perto dela o suficiente para sentir seu perfume, tão tentadoramente leve, mas impossível de ignorar. Não ficaria perto o suficiente para ouvir o farfalhar do vestido enquanto ela andava.


Clevedon disse a si mesmo para não ser idiota. Ele se esqueceria dela e de todos os detalhes que, agora, pareciam tão importantes. Ele se esqueceria da curva elegante de seu tornozelo, do arco de seu peito do pé. Ele se esqueceria da primeira vez que olhou para os tornozelos dela. Ele se esqueceria da primeira vez que fizeram amor e da maneira como ela enrolara as pernas ao redor da cintura dele, dos sons abafados de prazer que ouviu quando a penetrou, de novo e de novo. Ele se esqueceria de seu próprio prazer, tão violento que “prazer” parecia uma palavra débil demais, uma palavra que se destinava a coisas mais comuns. Ele se esqueceria de tudo isso, da mesma maneira que se esqueceria dessa noite. As lembranças permaneceriam por algum tempo, mas acabariam por perder importância. A dor que sentia agora, a frustração, a raiva e a dor – tudo isso também desapareceria. Ela lhe dera uma noite da qual se lembrar, mas é claro que ele se esqueceria.

Marcelline e as irmãs acordaram cedo no dia seguinte. Antes de oito e meia, já estavam na loja. As costureiras chegaram pouco tempo depois, em meio a uma onda de excitação. Mas elas se acalmaram antes do fim da manhã. À uma da tarde, a loja abriu para os clientes, como prometido nas mensagens individuais que Sophia havia despachado e nas propagandas que fizera publicar em todos os jornais de Londres. À 1h15, lady Renfrew e a Sra. Sharp apareceram para provar suas roupas. Um fluxo constante de senhoras as seguiu. Algumas foram fazer compras. Outras foram para ver. Mas mantiveram Marcelline e as irmãs ocupadas até a hora de fechar. Ela estava feliz, muito feliz. Seria uma tola de querer ainda mais.


Capítulo quatorze A posição social das damas inglesas exige que elas jamais desprezem meios honrados de excelência e ornamentos apropriados em seus trajes. Revistas La Belle Assemblée e Bell’s Court and Fashionable Magazine, anúncios de junho de 1807.

Domingo, 3 de maio. A Residência Clevedon parecia opressivamente silenciosa, até mesmo para um domingo. Os corredores estavam silenciosos, os criados reassumiram sua invisibilidade, misturando-se aos móveis ou desaparecendo por alguma porta dos fundos. Ninguém corria de uma sala para outra. Não havia nenhuma das Noirots surgindo de repente à porta da biblioteca. Clevedon sentou-se à escrivaninha, que estava coberta de revistas femininas e de jornais com os mais recentes escândalos da sociedade. Dentre esses últimos, o Foxe’s Morning Spectacle era o mais proeminente, sua primeira página trazia um grande anúncio dos “Novos CORSELETES VENEZIANOS, recém-criados por madame Noirot”. Ele sentiu um espasmo de dor e outro de raiva, e se perguntou quando aquilo iria acabar. Disse a si mesmo que precisava jogar as revistas na lareira, sem se esquecer do recorte do Foxe’s. Em vez disso, continuou a estudá-las, fazendo anotações, formando ideias. Isso o afastava do tédio, imaginou ele. Era mais divertido do que comparecer aos inúmeros compromissos para os quais era convidado. Tocou a sineta para chamar um lacaio e pediu a ele que chamasse Halliday. Três minutos depois, Halliday adentrou a biblioteca. Clevedon empurrou para o lado o provocativo Spectacle. – Ah, aí está você. Quero que mande a casa de bonecas para a Srta. Noirot. Houve uma pausa infinitesimal antes de Halliday dizer: – Sim, Vossa Graça. Clevedon olhou para ele. – Algum problema? A casa pode aguentar uma viagem de vinte minutos até a rua St. James, não pode? É verdade que é velha, mas achei que estava em bom estado. – Peço mil desculpas, Vossa Graça. É claro que não há nenhum problema. Vou providenciar imediatamente. – Mas? – Como disse, Vossa Graça?


– Algo o perturba – respondeu Clevedon. – Não, Vossa Graça. Foi uma impertinência de minha parte, pela qual peço perdão. Quando Clevedon continuou olhando para ele, esperando a continuação de seu raciocínio, Halliday disse: – Nós tínhamos a impressão de que a Srta. Erroll, quer dizer, a Srta. Noirot, nos visitaria outra vez. Clevedon afastou-se da mesa. – Que diabo lhes deu essa impressão? – Talvez tenha sido mais do que uma impressão, talvez fosse uma esperança, senhor. Nós a achamos adorável. Ele estava se referindo aos criados. Clevedon ficou surpreso. – Eu gostaria de saber o que aquelas mulheres têm. Parecem encantar a todos. Sarah fora, com prazer, viver em cima de uma loja e atuar como babá temporária até as Noirots terem tempo de contratar uma pessoa adequada. A Srta. Sophia conseguira desarmar até mesmo Longmore. – De fato, elas possuem um notável charme – concordou Halliday. – Mas a Sra. Michaels e eu apreciamos os modos delas. Achamos que eram completamente diferentes do que esperaríamos de costureiras. A Sra. Michaels acredita que elas são damas. – Damas! – Ela está convencida de que são nobres em dificuldade. Clevedon se lembrou da primeira impressão que Marcelline lhe causara. Da confusão que vivenciou. Ela soava e se comportava como as damas de seu conhecimento. Mas não era uma dama. Ela mesma o dissera. Ou não dissera? – Isso é romantismo – ponderou Clevedon. – A Sra. Michaels aprecia romances. – Ouso dizer que é esse o caso – concordou Halliday. – De qualquer maneira, não eram o que nós esperávamos. A Sra. Michaels ficou em estado de choque quando lhe informei que teríamos que servir a costureiras. Mas ela me disse que ficou totalmente surpresa quando as viu. Elas não se parecem com costureiras, de maneira alguma. Os criados eram mais sensíveis a classes sociais do que os patrões. Podiam sentir o cheiro de comércio a cinquenta passos de distância. Eram capazes de detectar um impostor um minuto após ele abrir a boca. No entanto, seus criados, apesar de terem consciência de sua posição de servidores na casa de um duque, acreditaram que as Noirots fossem nobres. Bem, isso só demonstrava como elas eram espertas. Charmosas. Sedutoras. Três versões de Eva, atraindo os homens para… Deus, o que havia de errado com ele? Seria por estar lendo aquelas malditas revistas, com histórias sentimentais contadas em capítulos? – Você as viu trabalhar. Elas são boas no que fazem. – Foi, sem dúvida, por isso que a Sra. Michaels imaginou que eram mulheres da alta classe enfrentando dias difíceis. Devo confessar que, de início, pensei que era uma das brincadeiras de Vossa Graça. Peço que me perdoe, senhor, mas passou pela minha cabeça que elas eram primas que vieram de fora e que o senhor estava nos testando. Naturalmente, sabíamos que acontecera um


incêndio e que ele estava longe de ser uma brincadeira. O lacaio Thomas apareceu à porta. – Peço desculpas, Vossa Graça, mas lorde Longmore está aqui para vê-lo e… Longmore passou por Thomas e por Halliday e marchou até Clevedon. – Cão danado! – exclamou Longmore. E seu punho foi direto na mandíbula de Clevedon.

Enquanto isso, na Maison Noirot… Lucie estava sentada no banco ao redor da janela, olhando para a rua St. James. Estava ali havia horas. Marcelline sabia o que ela aguardava e tinha medo do que estava por vir. – Está na hora do seu chá – disse ela. – Sarah colocou as peças para tomar chá em sua linda mesinha e suas bonecas já estão em seus lugares, esperando. Lucie não respondeu. – Depois do chá, Sarah vai levá-la ao Green Park. Você poderá ver as damas e os cavalheiros. – Não posso sair – respondeu Lucie. – E se ele aparecer e eu não estiver aqui? Ele vai ficar muito desapontado. Marcelline sentiu uma facada no peito. Ela foi se sentar perto de Lucie, no banco da janela. – Meu amor, Sua Graça não virá aqui. Ele cuidou de nós por um tempo, mas ele é muito ocupado… – Ele não é muito ocupado para mim. – Nós não pertencemos à família dele, meu bem. Os olhos de Lucie se estreitaram e a boca ficou tensa. – Ele fez uma casa linda para nós – disse Marcelline, esforçando-se para manter a voz firme. – Olhe só para todas as coisas lindas que ele comprou para você. Seu jogo de chá e sua mesinha. Sua cadeirinha e a cama mais linda do mundo. – Mas existem outras pessoas na vida dele… – Não! – Lucie pulou para fora do assento da janela. – Não! Não! Não! Não! – Lucie Cordelia. – Não sou Lucie. Sou Erroll. Nunca mais vou ser Lucie. Ele vai voltar! Ele me ama! Ele ama Erroll! Ela se jogou no tapete. Tremia, chorava e batia os pés. Sophia e Leonie correram até o quarto da menina. Sarah correu atrás e parou de imediato, com uma expressão de horror. Aquela era sua primeira experiência com um acesso de raiva de Lucie. Ela se encaminhou para a criança furiosa.


Marcelline levantou a mão e a criada deu um passo para trás. – Lucie Cordelia, já chega – zangou-se ela, apesar de manter a voz calma e firme. – Você sabe que as damas não se jogam no chão nem gritam. – Não sou nenhuma dama! Eu te odeio! Sarah sobressaltou-se. – Venha, Erroll – disse Sophia. – Você vai acabar doente. – Ele vai voltar! – berrou Lucie. – Ele me ama! Marcelline endireitou os ombros. Ela foi até Lucie e pegou a menina no colo, apesar da agitação das mãos e dos pés e dos gritos ensurdecedores. Ela apertou Lucie contra o peito e a ninou, como se ela ainda fosse o bebezinho de outros tempos. – Pare – pediu Marcelline. – Pare, meu bem. Você precisa ser uma mocinha. Os chutes e socos pararam e os gritos se transformaram em soluços. – Por que a ge-gente não po-pode ficar lá? Por que-que ele não fi-fica comigo? Marcelline a levou até o banco da janela e a abraçou. Balançando-a e acariciando suas costas. – Se todo mundo que a amasse ficasse com você, onde você ia morar? E onde mamãe ia morar? Você não quer morar com mamãe, tia Sophia e tia Leonie? Você ficou requintada demais para nós? Quer ir embora para morar em um castelo? É isso? O que você acha, tia Sophia? Devemos vestir Erroll com roupa de princesa e mandá-la para longe, para viver em um castelo? Era tudo sem sentido, mas Lucie se acalmou. Ela apertou mais os bracinhos ao redor do pescoço da mãe. – Eu posso morar aqui – disse ela. – Por que ele não pode vir? – Ele é um homem importante, meu bem. Tem sua própria família. Em breve, vai se casar e ter os próprios filhos. Você sabe que não pode ter todos os belos cavalheiros que a agradarem. Erroll ficou quieta. O movimento de seus olhos revelou a Marcelline que a menina estava pensando. Era uma criança de apenas 6 anos e, nessa idade, elas têm dificuldades com a lógica, mas a perspectiva de ser uma princesa poderia ser o suficiente para distraí-la. Com o fim do tumulto, Sarah disse: – Vou lhe dizer uma coisa, Srta. Erroll. Vamos tomar nosso chá com as bonecas e depois vamos passear no Green Park. Talvez possamos ver a princesa Victoria. Você sabe quem ela é? Ela é a sobrinha do rei e, um dia, será a rainha da Inglaterra. – Se você a vir – disse Marcelline –, observe bem o que ela está vestindo e nos conte, está bem?

Enquanto uma menininha tinha um acesso de birra na rua St. James, o conde de Longmore fazia o mesmo na biblioteca da Residência Clevedon. O duque agarrou o braço do amigo. Houve alguns empurrões e uma breve confusão. Então, os berros começaram. Halliday havia se retirado diplomaticamente do recinto e fechado a porta. Não tendo conseguido


quebrar o queixo de Clevedon nem provocá-lo para um duelo, Longmore bebia o conhaque do duque para se refrear, enquanto andava de um lado para outro e se enfurecia, bem à moda de seu pavio curto. Clevedon sabia que merecia uma boa surra. Ao mesmo tempo, toda aquela reação era muito difícil de suportar. Afinal, ele não fizera nada com o objetivo de se divertir. Sua vida, no momento, parecia um pandemônio. – Você não merece a minha irmã – afirmou Longmore. – Eu nunca deveria ter ido a Paris. Ela me repreendeu por fazer isso. E estava certa. Devia ter deixado você apodrecer lá. Devia ter encorajado minha irmã a olhar para outras pessoas. Devia ter falado para ela que pau que nasce torto nunca se endireita. Mas, não, eu me enganei completamente. Fiquei imaginando por que você voltou tão cedo, mas disse a mim mesmo que era porque tinha percebido o quanto sentia falta de Clara. Meu Deus, fui tão ingênuo! – Não me lembro de ter determinado uma data para retornar. – Eu disse que o fim do mês seria suficiente. Sabia que você ainda não estava pronto. Só queria poder dizer à minha mãe que você iria voltar. Agora, bem que eu preferia ter dito a ela para acrescentar seu nome na lista dos mortos em combate. Estou quase dizendo isso a ela agora. – Se isso tem a ver com as costureiras… – E sobre quem seria? – rebateu Longmore. – Quem mais tem demonstrado tamanha falta de decoro… – Falta de decoro? – repetiu Clevedon. – Não posso acreditar que essas palavras estão vindo da sua boca. Quando foi que você se importou com decoro? Se me lembro bem, seu pai ficou muito feliz em mandá-lo para outro país. – Eu nunca fingi ser santo… – Que bom que não fingiu. Ninguém acreditaria mesmo. – Mas eu não convido costureiras para dormir na casa onde dormiu minha família. – Um incêndio destruiu a casa delas. Estava nos jornais. Você acha que essa história foi inventada? Mas por que diabo estou perguntando? Se você fosse racional, não estaria aqui, bebendo o meu conhaque como se fosse a limonada do Almack’s… – Eu nunca bebo aquela nojeira. – Você não é racional. Não sei o que deu em você, nem sei se me importo. Mas as mulheres foram embora. Eu as acolhi por uns poucos dias… – Você não podia colocá-las em um hotel? – Você não estende nada mesmo – zangou-se Clevedon. – Elas têm um negócio para administrar. Não podem se dar ao luxo de perder tempo. Precisavam de um lugar onde trabalhar. Precisavam de ajuda. Trazê-las para cá era o plano mais simples. Elas só pensavam em terminar um vestido para Clara… – Não fale delas e da minha irmã na mesma frase, seu porco mulherengo. – Elas já se foram, seu idiota! Eu as fiz sair daqui em 72 horas. Foram embora no sábado de manhã. – E você estava na cama com aquela morena na sexta-feira à noite.


Foi uma acusação totalmente inesperada, como um jab vindo de um ângulo para o qual ele não estava preparado. Por um instante, Clevedon viu tudo vermelho: chamas dançavam diante de seus olhos. Ele cerrou os punhos e, quando abriu a boca para falar, sua voz estava assustadoramente calma. – A tentação de lhe dar um murro na cara é quase irresistível. – Não venha agir como se estivesse nobremente indignado comigo, como se eu tivesse comprometido a virtude dela. – Só um canalha falaria de qualquer mulher dessa maneira. – Você estava com ela – reafirmou Longmore. – Não se deram ao trabalho de serem discretos. Estava no White’s quando vieram me contar que sua carruagem estava na rua Bennet. Todo mundo começou a especular o que você estaria fazendo por lá. Eu cutuquei minha cabeça e fingi ter me lembrado, de repente, de que você e eu havíamos combinado de nos encontrarmos ali e que você estava me esperando. Saí do clube e fui até a rua Bennet. Fiquei parado em uma entrada e esperei você sair. E esperei. E esperei. – Você deve ter ficado bastante entediado – respondeu Clevedon, com o coração acelerado. Não por culpa, o que lhe causava vergonha, mas pelo tumulto que sentia no peito. Os batimentos acelerados eram gerados pela lembrança daquelas poucas horas extraordinárias. Longmore bebeu o resto do conhaque que estava em seu cálice, encaminhou-se até a bandeja e serviu-se de mais bebida. Deu um longo gole. – Você está se tornando um motivo de piada. Nunca vi você se comportar dessa maneira com nenhuma mulher. A criatura meteu as garras em você e isso não se discute. Se fosse uma coisa comum, eu simplesmente lhe daria um conselho para ter um pouco mais de discrição. Clevedon, você poderia ter tido o bom senso de pedir ao cocheiro que o esperasse em algum lugar onde as pessoas que passassem pela maldita rua St. James não pudesse vê-lo! – A ideia não me ocorreu – justificou-se Clevedon. – Não planejava ficar lá mais do que quinze minutos. Sinto muito por você ter sido obrigado a me esperar por tanto tempo. – Foi mesmo entediante. E extremamente irritante. Que diabo eu vou fazer? Isso é justo com Clara? O irmão dela devia lhe contar que o homem que ela ama perdeu a cabeça por uma costureira? Isso vai machucá-la, você sabe muito bem. Clara foi sempre tão tolerante com as suas fraquezas. Ouso dizer que ela é uma pessoa ingênua. Mas isso… você mesmo sabe que esse não é o seu jeito de agir. – Foi uma despedida – confessou Clevedon, com firmeza. – Demorou mais do que pretendia, mas foi uma despedida. Você compreende? Tudo o que a Sra. Noirot sempre quis foi vestir a minha duquesa. Nunca fui para ela mais do que um meio para alcançar esse objetivo. Para ela, não importa quem seja a duquesa, mas acho que prefere Clara, porque a beleza de Clara está a altura da beleza de suas malditas criações. Fiquei interessado… e você sabe como eu sou: quando coloco os olhos em uma mulher, tenho que possuí-la. Mas já acabou. Foi um adeus, Longmore. E preciso pedir a você, pelo bem de Clara, que não conte nada a ela. Se contar, causará um sofrimento desnecessário. Por que ela deveria sofrer por um episódio de pura estupidez? – Você jura que acabou?


– Eu… Clevedon parou de falar assim que a porta se abriu. Halliday apareceu na soleira. Carregava uma pequena bandeja de prata. Não era um bom sinal. Halliday nunca se propunha a entregar mensagens. Essa função era do lacaio. – Peço perdão por perturbá-lo, Vossa Graça, mas me disseram que a mensagem era urgente. Clevedon não esperou por ele, mas foi ao seu encontro em poucos passos, puxou a mensagem da bandeja e a abriu. Não havia nenhuma saudação. Apenas seis palavras: “Precisamos de sua ajuda. Lucie fugiu.” Estava assinado M.

Clevedon e Longmore chegaram à loja em menos de vinte minutos. A menina havia desaparecido em algum momento após voltar do Green Park para casa com a babá. Sarah tinha preparado um banho para Lucie, mas, quando voltou ao quarto da menina, não havia ninguém. Marcelline contou que procuraram por toda a casa. – Ela fugiu – explicou ela. – Saiu por uma janela dos fundos, que estava aberta. Eu nunca teria deixado a janela aberta se tivesse a mínima ideia de que ela faria uma coisa dessas. Por certo ela aprendera o truque com Clevedon. Fora dessa maneira que ele a tirara da casa em chamas. Ela estava de olhos fechados, mas deve ter ouvido outras pessoas comentarem sobre o salvamento. Não falara a ninguém sobre o ocorrido, mas qualquer um teria imaginado a rota de fuga tão logo visse a janela quebrada. – Alguma ideia de aonde ela pode ter ido? – indagou ele. – Isso pode nos dar uma pista… – Ela fez uma pirraça monumental – contou Marcelline. – Mas depois parecia ter se acalmado. Sarah disse que ela estava feliz quando foram ao parque. Sarah bateu com a mão nos lábios. – O que foi? – perguntou Clevedon. – Se você sabe alguma coisa, diga. Não temos um segundo a perder. Sarah começou a chorar. – Sinto muito – disse ela. – Foi culpa minha, madame. Não pensei direito. – O quê, criatura? – disse Clevedon. Sarah enxugou os olhos. Seu rosto ficou vermelho. – Quando estávamos no Green Park, a Srta. Erroll ficou perguntando onde estava a sua família. Ela queria saber por que eles não moravam na Residência Clevedon. Eu disse que o senhor ainda não tinha uma família. Mostrei a Residência Warford ali, de frente para o parque. Disse que ali morava uma dama e que todos diziam que o senhor se casaria com ela. Ela fez uma expressão estranha. Na hora, percebi que não devia ter dito nada. Ela estava agitada antes, quando lhe disseram que o senhor não viria mais aqui.


Clevedon olhou para Marcelline. – Ela estava esperando pelo senhor – disse ela, cansada. – Expliquei que o senhor não viria. Ela fez birra. A criança ficou esperando por ele. E ele não viria, nunca mais. Era culpa dele. Ele lhe dera uma boneca da qual ela gostara tanto que quase lhe custara a vida. Erroll ficara em sua casa. Fora mimada pelos criados e brincara com a casa de bonecas. Agora, só poderia pensar que fazia parte da vida dele. Ele agira sem pensar, de maneira egoísta e descuidada. Só pensara em si mesmo e nas coisas que lhe davam prazer, não pensara na criança e no quanto ela poderia se magoar. Fora dessa maneira que papai havia matado mamãe e Alice. Pensando apenas em si mesmo. Ele se sentiu mal, o coração estava partido. – Isso simplifica a situação. Podemos imaginar que ela decidiu ir atrás de mim, o que significa que está a caminho da Residência Clevedon. – Duvido que ela conheça o caminho – comentou Marcelline. – Nós a trouxemos aqui na carruagem, lembra-se? Como ela saberia reconhecer as ruas? Até adultos não familiarizados com a área poderiam se perder facilmente por ali. Ela poderia ter entrado na rua errada. Uma criança de 6 anos sozinha pelas ruas de Londres. Em pouco tempo, não haveria mais luz do sol. E ela poderia estar em qualquer lugar. – Vamos alertar a polícia – disse ele. – Eles já podem até tê-la encontrado. Não deixariam de observar uma criança bem-vestida andando sozinha pela rua. Era o que ele queria que tivesse acontecido. Predadores também a teriam visto, sem a menor dúvida. Mais uma vez, culpa dele. Lucie escapara por um método que ele lhe ensinara. E fugira por causa dele. Ele se virou para Longmore. – Mande à delegacia um de seus criados que vieram conosco. Acione seus criados e os meus e forme um grupo de busca. Vamos percorrer as ruas. – Ela tem medo de escuro – disse Marcelline. Sua voz estava embargada e seus olhos, vermelhos, mas ela não chorou. – Ela tem medo de escuro. As irmãs foram até ela e a abraçaram, da mesma forma que fizeram na noite do incêndio. Clevedon não podia puxá-la para seus braços. Não podia reconfortá-la. A dor por não fazer isso era quase tão aguda quanto o medo que sentia por Lucie. – Vamos encontrá-la antes que escureça – disse Clevedon. – Eu ficaria muito mais preocupado se ela tivesse fugido de sua antiga loja, na rua Fleet. A rua St. James era mais segura, disse a si mesmo. Muito mais segura. Um palácio real ficava a poucos passos dali. Havia também os clubes. Embora não fosse um lugar totalmente respeitável, não era uma área de cortiços. E ela era uma criança, a pé. Não poderia ir muito longe. Mas alguém poderia levá-la. E então… Não. Ninguém a levaria. Ele sabia para onde ela estava se dirigindo. E a encontraria.


Três e meia da manhã de segunda-feira. Nada. Nenhum sinal dela. Polícia. Detetives particulares. Os criados de Clevedon e Longmore. Todos procuraram. Bateram às portas e perguntaram aos passantes. Pararam carruagens de passeio e de aluguel. Ninguém vira Lucie. Clevedon, Longmore e Marcelline haviam caminhado pelas ruas Bennet e St. James, separandose para entrar em clubes e lojas, reunindo-se outra vez para percorrer as ruelas e paços das proximidades. Vasculharam toda a praça St. James. Clevedon tentara mandar Marcelline para casa, mas ela alegou que não teria forças para esperar. Ela andou até começar a tremer de cansaço. Mesmo assim, ele não conseguiu convencê-la a entrar na carruagem, embora fosse um veículo aberto, de onde Lucie poderia ser vista com a mesma facilidade – ou com mais facilidade –, uma vez que estariam em um nível mais elevado do que na calçada. Às três horas, ele a levou para casa. – Não será bom para ninguém se você não descansar – disse ele. – Como posso descansar? – Deite-se. Coloque os pés para cima. Tome um pouco de conhaque. Eu vou para casa fazer o mesmo. A busca não parou. Não vai parar. Longmore e eu voltaremos em poucas horas. Quando estiver claro. – Ela tem medo de escuro. – A voz de Marcelline titubeou. – Eu sei. – O que vou fazer? – disse ela. O que vou fazer se ela estiver morta? A pergunta evitada. – Nós vamos encontrá-la. A conversa não saiu da cabeça dele enquanto ficou deitado no sofá da biblioteca. Ele fechou os olhos, mas permaneceu desperto. Então levantou-se e começou a andar de um lado para outro. Precisava pensar no impensável. Tinha que pensar na possiblidade de que a menina tivesse sido levada. Muito bem. Mas nem tudo estava perdido. Um resgate seria proposto. Quem manteria uma menina bem-vestida, que falava com o sotaque dos bem-nascidos, quando ela poderia gerar dinheiro? Será que a polícia havia pensado nisso? Ele se levantou e foi até a escrivaninha. Começou a fazer anotações e planejar estratégias, enquanto esperava amanhecer.


Uma tosse alta o acordou. Clevedon abriu os olhos. Sua boca tinha um gosto ruim, a cabeça doía e, a princípio, pensou que estava de ressaca. Então, percebeu que sua cabeça não estava no travesseiro, mas na mesa. Ele levantou a cabeça. Halliday estava do outro lado. – O quê? – disse Clevedon. – O quê? Que horas são? – Ele olhou em direção à janela. Já amanhecera, mas não havia muito tempo. Bom. – São 7h15, Vossa Graça. – Bom. Obrigado por me acordar. Eu não queria dormir mais do que o necessário. – Alguém está aí para vê-lo, senhor. – Alguém da polícia? Eles a encontraram? Ele percebeu que Halliday estava tendo dificuldades para manter a compostura. Clevedon pulou da cadeira. Havia um estrondo em sua cabeça. Seu coração palpitava. – O que foi? O que aconteceu? – Se me permite, senhor. – Permite o quê? Mas Halliday saiu. – Halliday! O mordomo retornou. Carregava uma menininha muito suja e molhada. – Sua Majestade apresenta seus cumprimentos, Vossa Graça, e deseja saber se este artigo lhe pertence – disse Halliday.

A carruagem do duque de Clevedon chegou mais tarde do que o prometido. O sol já estava subindo e Marcelline já havia tentado, sem sucesso, ingerir o chá com torradas que as irmãs prepararam. Ela não conseguiu cochilar nem um segundo. Tinha medo de dormir. Estava pronta e à espera, andando de um lado para o outro da loja fechada, quando a carruagem parou à porta da frente. Ela saiu correndo e quase colidiu com Joseph, que corria em sua direção. – Está tudo bem, Sra. Noirot – disse ele. – Ela está sã e salva e Sua Graça envia seus cumprimentos e desculpas por não trazer a Srta. Erroll imediatamente, mas ela não queria vir. Vim para saber se, por gentileza, a montanha poderia ir a Maomé. Essas foram exatamente as palavras dele, madame.

Marcelline os encontrou em uma das muitas salas de estar. Estavam no tapete. Espalhados ao


redor deles, soldadinhos de chumbo, cavalos, canhões em miniatura e inúmeros artefatos de guerra. Lucie usava o que parecia ser o uniforme de um pajem, um casaco e calças feitas para um menino alguns centímetros mais alto. Nos pés, meias vermelhas e nenhum sapato. Seus cabelos estavam amarrados para trás, com o que parecia ser um lenço masculino. Ela observava Clevedon alinhar alguns homens da cavalaria. Ele olhou para cima, na direção da porta, e se levantou apressado. Lucie também ergueu os olhos. – Mamãe! – gritou ela. Marcelline se agachou e abriu os braços. Lucie se levantou num pulo e correu para abraçá-la. – Meu amor, meu amor – disse Marcelline. Ela se aninhou no pescoço quente de Lucie e inalou seu cheiro familiar, misturado a algum aroma floral. Sabonete perfumado. Seus cabelos estavam úmidos. Ela apertou a filha com força por um longo tempo, até Lucie ficar impaciente e afastá-la. – Estamos brincando de soldadinhos. Marcelline agarrou-a pelos ombros e olhou bem dentro daqueles olhos azuis tão cheios de vida, iguais aos da avó DeLucey. – Você fugiu – afirmou Marcelline. – Você quase mata mamãe e suas tias de susto. O lábio inferior de Lucie se projetou para a frente. – Eu sei. Sua Graça disse que não posso fazer isso de novo, e que damas não pulam pela janela. Mas eu estava desesperada, mamãe. – E então você não quis voltar para casa – prosseguiu Marcelline. – Eu tive que vir até aqui. O que você vai aprontar na próxima vez, Lucie Cordelia? – Meu nome é Erroll. Eu tive que tomar banho. Estava muito suja. Eu me escondi no estábulo quando tentaram me levar para casa. Aí, caí dentro de um cocho. Marcelline olhou para Clevedon. Ele havia se levantado assim que a menina correu para os braços da mãe. Ainda tinha nas mãos um dos soldadinhos e o estava virando. – Pelo que soubemos, ela fez um bom progresso até a Residência Clevedon, até que chegou à rua Pall Mall East – explicou ele. – Parece que virou nessa rua, em vez de entrar na Cockspur, e ficou vagando até acabar no Queen’s Mews. Naturalmente, ela foi logo notada: não é hábito encontrar crianças sozinhas andando por ali. Mas, nesse momento, ela mesma já percebera onde estava e assim, quando lhe perguntaram se estava perdida, ela disse que era a princesa Erroll da Albânia e que queria falar com a princesa Victoria. – Mon dieu! – exclamou Marcelline. – Você pediu para falar com a princesa? Você disse que era uma princesa? – Eu sou a princesa Erroll, mamãe. Você sabe disso. – Lucie, você sabe que esse não é o seu nome verdadeiro – explicou Marcelline. – É só o seu nome de brincadeira, seu nome de faz de conta. – Sim, mamãe. Mas Sua Alteza não viria falar com a Srta. Lucie Cordelia Noirot, viria? Os olhos de Marcelline e de Clevedon se encontraram. – Eu adoraria ter visto a cara deles – disse ele. – Não sabiam o que fazer. Ela insistiu em falar com a princesa Victoria. Quando disseram que Sua Alteza não estava livre naquele momento, ela


disse que esperaria. O que poderiam fazer? Nunca tinham ouvido falar de princesa Erroll da Albânia, mas viram que ela era uma menina de sangue nobre. Marcelline se levantou, o coração aos pulos. A situação já estava complicada o suficiente. A última coisa da qual ela precisava era que o mundo suspeitasse de suas origens. As pessoas a evitariam como se fosse a cólera em pessoa. – Isso não é verdade – disse ela. – Ela apenas finge. Clevedon a olhou com estranheza. – De qualquer maneira, eles não iriam deixá-la vagar desacompanhada por Londres. – Não passou pela cabeça deles a ideia de chamar a polícia? – Tenho certeza de que sim, mas não chamaram. Para eles, era um delicado assunto real e a polícia não seria bem-vinda. Ela entendeu o que ele queria dizer. A família real não era renomada por sua castidade. O rei tinha dez filhos com uma antiga amante, uma atriz. – Tentaram resolver por si mesmos – prosseguiu Clevedon. – Várias formas de suborno foram tentadas. Mas Sua Alteza, a princesa Erroll da Albânia, aceitou todos os presentes como se lhe fossem devidos. Depois, pegou no sono em uma das carruagens reais, que ficam ali estacionadas. Eles só tiveram notícias de nossa criança perdida hoje de manhã cedo, após terem enviado um mensageiro ao palácio para pedir instruções. Quando ela percebeu que seria levada de volta para casa, fez um escarcéu. Só conseguiram uma trégua quando prometeram que a trariam aqui. Ela me foi trazida pouco depois do amanhecer, com cumprimentos reais. Marcelline não sabia se devia rir ou chorar. Temia acabar rindo e chorando ao mesmo tempo, além de ser tomada pela histeria. Toda essa história absurda era tão típica de Lucie. Era o tipo de atitude que os pais de Marcelline tinham o tempo todo: fingir descaradamente que eram algo que não eram. – Bem, sinto muito por Sua Majestade ter sido incomodada com isso – disse ela, com a maior frieza que conseguiu. – Lucie, sua mãe e eu precisamos conversar a sós – disse Clevedon. – Enquanto saímos daqui, recomendo que organize as tropas como expliquei. Isso se você quiser mesmo amedrontar os franceses com a mesma eficiência com que o duque de Wellington os expulsou.


Capítulo quinze O pátio quadrangular do lado de dentro do portão tem melhor estilo de construção, porém distingue-se mais pela simplicidade do que pela pompa; e o jardim ao lado do Tâmisa, com muitas árvores, serve para ocultar a mansão daqueles objetos desagradáveis que costumam delimitar as margens dos rios nessa vasta cidade comercial. Leigh Hunt (descrevendo Northumberland House), A cidade: seus memoráveis personagens e eventos, vol. I, 1848.

Clevedon a levou para o jardim. Era o melhor lugar para uma conversa particular. Mesmo assim, podiam ser vistos de qualquer uma das janelas de frente para o pátio. Sabendo que criados curiosos estariam observando, ele manteve certa distância de Marcelline. Ficaram no centro do pátio, para onde convergiam vários caminhos. – Eu nunca deveria ter concordado em não ver você de novo – disse ele. – Não levei em consideração como Lucie receberia isso. – Lucie não é responsabilidade sua – argumentou Noirot. – Ela passou por uma experiência traumática. – Crianças são resistentes. Ela vai fazer uma ou outra pirraça, como costuma fazer quando não consegue o que quer, mas acabará se recuperando. – Ela costuma fugir assim? – Não, e não vai acontecer outra vez. – Você não pode ter certeza – retrucou ele. – Foi uma atitude desesperada. Acho que ela não teria feito isso se não estivesse profundamente transtornada. – Ela estava profundamente transtornada por ter sido contrariada. Ela sabe que as ruas da cidade são perigosas, mas estava zangada demais conosco para se preocupar com regras. Sarah não a conhece o suficiente para reconhecer seus sinais de rebeldia. Ela estava tensa como a corda de um arco. Visivelmente cansada e com o rosto pálido. Aliviada do medo por Lucie, agora começava a sentir a fadiga que antes ignorara. Era melhor manter um diálogo curto e direto. Ela queria pôr fim à conversa e ao encontro o mais rápido possível. Queria afastá-lo de sua vida e da vida de Lucie. Ela era a mãe da menina, mas Clevedon sabia que os pais nem sempre estão certos e ela estava errada em afastá-los. – Não acho que seja só isso – retrucou ele. – Acho que você devia deixar que eu julgasse a situação. Ele se obrigou a dizer o que não queria. Não via alternativa.


– Quando minha mãe e irmã foram mortas, eu queria meu pai. – Ele teve que tomar fôlego antes de prosseguir. Nunca conversava sobre as tristezas de sua infância. – Foi um acidente de carruagem. Ele estava bêbado e as conduziu para um fosso. Ele sobreviveu. Eu fiquei… eu não sabia o que fazer. Tinha 9 anos na época. Estava agoniado, como seria de se esperar. Mas também estava apavorado e queria meu pai comigo, desesperadamente. Mas ele me mandou morar com minhas tias e continuou a beber até morrer. Todo mundo sabia que ele era um bêbado. Todo mundo sabia que ele era responsável pela morte de minha mãe e de minha irmã. Mas eu era pequeno demais para entender qualquer coisa e precisava dele. E ele me abandonou. Ele tomou fôlego outra vez e se recompôs. – Lucie passou por uma experiência aterrorizante e não quero que ela sinta que eu a abandonei. Acho que devemos abrir uma exceção para ela. Acho que preciso visitá-la, digamos, uma vez por semana, aos domingos. – Não – disse Noirot, com muita tranquilidade. Ela o olhou nos olhos, o semblante pálido inescrutável. Aquele era o semblante de quando ela jogava cartas. Clevedon sentiu a raiva aflorar. Ele havia contado a ela algo que jamais dissera a quem quer que fosse e ela o rejeitou. – Você está certo – disse ela, para surpresa dele. – Lucie precisa de você. Ela está assustada. Passou por uma experiência traumática. Mas a responsabilidade de lidar com isso é minha. Você diz que vai visitá-la aos domingos. Por quanto tempo? Não poderá fazer isso para sempre. Quanto mais ela o vir, mais vai achar que você pertence a ela. E, deixando de lado Lucie e suas ilusões, quanto sofrimento ainda pretende infligir a lady Clara? Quanto constrangimento público? Nada disso teria acontecido, Vossa Graça, se tivesse ficado perto apenas dos de sua estirpe. Não era muito diferente do que ele já dissera a si mesmo. Sabia que havia se comportado mal. Mas queria consertar as coisas. Confiara segredos a ela, para que entendesse. A fúria fria e serena da resposta de Marcelline era a última coisa que esperava. Seu rosto queimava, como se ela o tivesse agredido fisicamente. Ferido, ele contra-atacou: – De repente, a senhora ficou muito preocupada com os sentimentos de lady Clara. Ela se afastou e deu uma breve risada. – Minha preocupação é com o guarda-roupa dela, Vossa Graça. Quando vai colocar isso na sua cabeça dura? O que ela estava dizendo, o que ela estava dizendo? Ela o havia procurado quando Lucie desapareceu e eles tinham saído juntos em busca da menina, compartilhando esperanças e medos. Ele se importava com aquela criança e ela sabia disso. – Duas noites atrás, você disse que me amava. – Que diferença isso faz? – indagou Marcelline. Ela se virou de novo para Clevedon, levantou o queixo e o olhou bem nos olhos. – Eu ainda tenho uma loja para administrar. Se você não é capaz de recuperar o juízo e começar a agir com sensatez, vai me forçar a ir embora da Inglaterra. Não vou chegar a lugar nenhum com você causando mexericos e me destruindo aos poucos, você e seu desprezo egoísta por tudo que não seja seu próprio desejo. Pense no que está fazendo. Pense no que fez, desde o momento em que me seguiu até Londres, e nas consequências de tudo isso que fez. E


pense, pelo menos uma vez, Vossa Graça, em outra pessoa que não o senhor mesmo. Ela se virou, foi embora e ele não a seguiu. Clevedon mal conseguia enxergar em meio à névoa vermelha que se formou diante de seus olhos. Raiva, vergonha e dor guerreavam dentro dele, e ele queria revidar com a mesma perversidade e violência com que fora atingido. Mas só ficou ali, parado, odiando-a. E a si mesmo. Passou um longo tempo de pé, sozinho, no jardim. Um longo tempo no qual a raiva começou a se dissipar aos poucos. Quando ela chegou ao fim, ele ficou gelado, pois cada uma das mentiras que contara a si mesmo haviam sido destruídas e ele sabia que ela não dissera nada além da mais pura e amarga verdade.

Mais tarde, o duque de Clevedon visitou a tradicional joalheria Rundell and Bridge e comprou um anel com o maior diamante que pôde encontrar. Um “diamante dos mais esplendorosos”, como Longmore lhe recomendara. Clevedon passou o resto do dia compondo seu pedido formal de casamento. Ele o escreveu e reescreveu. O pedido tinha que ser perfeito e deixar claro que seu coração não poderia pertencer a mais ninguém. Tinha que mostrar que ele havia deixado para trás todas as loucuras e as autoindulgências para ser o homem que ela merecia ter ao seu lado. As palavras vieram à sua mente sem dificuldades. Ele sempre tivera um talento para conseguir um tom fácil e fluente, algo que, para outras pessoas, era difícil. Ele sempre se deleitara em escrever para Clara, e não era apenas pelo companheirismo. Embora compartilhar seus pensamentos e experiências com uma alma gêmea formasse grande parte de seu prazer, não era apenas isso. Durante o processo de escrita para Clara, ele ordenava e esclarecia os pensamentos. Mas Clevedon exigiu muito da proposta de casamento. Já era tarde da noite quando terminou de escrever e memorizar o pedido e estava tarde demais até para pensar em ir à Residência Warford. Clara devia ter saído para algum baile, um passeio ou coisas do tipo. Decidiu que a visitaria no dia seguinte.

O duque de Clevedon chegou à Residência Warford na terça-feira, com toda naturalidade, embora soubesse que a família não recebia visitas nesse dia. Pela primeira vez, lady Clara se sinta tentada a não estar em casa para ele. Quando ela comunicou à mãe que estava com dor de cabeça, lady Warford disse:


– Lady Gorrell o viu ontem saindo da Rundell and Bridge. E hoje ele está aqui, quando pode ter você só para ele, em vez de ter que abrir espaço no meio daquele bando de falidos e irrelevantes que andam ao seu redor. Você é capaz de perceber o que ele pretende fazer hoje e, por certo, pode adiar essa tal dor de cabeça até depois de ouvir o que o duque tem a dizer. Um anel e um pedido de casamento, era isso o que a mãe calculava. Ela poderia estar certa, mas Clara não estava com disposição para aquilo. Lady Warford já tivera três crises só naquela manhã, reclamando que todo mundo comentava sobre o duque de Clevedon e aquelas “diabas que se consideravam costureiras, com aquela criança que não passava de uma pestinha e que quase custara a vida do duque”. É claro que tudo isso seria esquecido assim que Clevedon colocasse um anel de noivado no dedo de Clara e sua mãe pudesse esnobar as amigas, cujas filhas só conseguiram atrair simples condes e viscondes e um bando de senhores honrados. Clara também seria perdoada por seus inúmeros fracassos como filha. Era culpa dela o fato de Clevedon correr atrás de lojistas. Era culpa dela o fato de ele ser tão desatencioso e se esquecer de compromissos – como, por exemplo, prometer que iria jantar com elas no sábado à noite. Toda a culpa era de Clara, porque ela não conseguira manter o interesse dele. Portanto, não foi surpresa para Clevedon quando, ao entrar na sala de estar, onde Clara e a mãe esperavam, o sorriso de sua futura noiva não fosse dos mais calorosos. Após mencionar que Longmore havia lhe contado sobre toda a “excitação” do domingo, a mãe perguntou, com doçura, se a menininha estava bem. Clevedon disse que sim. Embora respondesse de maneira monossilábica, demonstrando relutância em falar sobre a criança. Ela continuou a atormentálo. Finalmente, sem poder aplacar a própria curiosidade, Clara perguntou: – É verdade que ela exigiu falar com a princesa Victoria? Ele riu. Então contou toda a história. Era a mesma que Harry já havia contado, mas no estilo de Clevedon, vívido e engraçado, incluindo uma jocosa imitação de Lucie Noirot explicando que ela era a princesa Erroll da Albânia. – E quando a mãe dela explicou que ela não era uma princesa – disse ele, imitando a voz da menina a seguir –, a Srta. Lucie emendou: “Sim, mamãe, mas Sua Alteza não viria falar com a Srta. Lucie Cordelia Noirot, viria?” Tive que me esforçar para não morrer de rir. Ele ama essa menina, pensou Clara. O que devo fazer? – Percebo que a menina se mete em grandes enrascadas – comentou lady Warford. – Que sorte a senhora tem – comentou Clevedon –, por ter três filhas que nunca lhe trouxeram um único momento de ansiedade. – Se pensa assim, está completamente enganado – retrucou lady Warford, com um riso nervoso. – Elas me trazem mais ansiedade à medida que ficam mais velhas. – Sim, mamãe fica ansiosa quando pensa que podemos nos transformar em velhas solteironas ou esposas de homens inadequados. – Clara está com um pouco de dor de cabeça – reagiu lady Warford, lançando um olhar de aviso para a filha. – Está um pouco irritadiça. Clevedon olhou para Clara.


– Você está doente, minha querida? Eu devia ter percebido. Está diferente do seu jeito alegre de sempre. – É apenas uma coisinha insignificante – ressaltou a mãe, encarando a filha. – Insignificante ou não, você me parece pálida, Clara – disse Clevedon. Ele se levantou. – Não quero cansá-la. Voltarei em outra oportunidade. Um momento depois, ele já havia saído e, graças à apoquentação da mãe, à vergonha e a várias outras turbulências emocionais, Clara foi se deitar com uma enxaqueca de verdade.

Quarta-feira à tarde. Green Park – Você fugiu – disse Marcelline. Ela havia levado Lucie ao parque e a menina empurrava um carrinho de bebê do tamanho de uma criança de verdade, um dos inúmeros presentes que Clevedon havia deixado no quarto dela. Susannah, que continuava a ser a boneca preferida, se encontrava sentada no carrinho, admirando os arredores com seus grandes olhos azuis de vidro. Marcelline fizera o sacrifício de provocar em Clevedon um ódio eterno. Entretanto, ele foi à loja e, ao não encontrá-la ali, sem receber nenhuma informação por parte das irmãs, insistiu em falar com Sarah. Uma vez que a babá continuava sendo, oficialmente, sua criada, Sophia e Leonie foram obrigadas e permitir que Clevedon falasse com ela, e Sarah revelou que a Sra. Noirot havia levado Lucie ao Green Park. Ele foi até lá e procurou por Marcelline – para contar a ela, entre todas as coisas, sobre suas tribulações românticas. Ele era inteligente, astucioso e sensível. Era um amante habilidoso e apaixonado. Era também obstinado e alienado. Ela lembrou a si mesma que duques não eram como os outros homens. Conseguir o que queriam, durante toda a vida, causava danos aos seus cérebros. O cérebro dela também estava danificado, provavelmente por passar tanto tempo ao lado dele. Não, era seu coração que pifara. Em algum canto não tão secreto, estava feliz pelo noivado com lady Clara ainda não estar concretizado. Mas logo estará e você vai ter que viver com esse fato. – Você fugiu diante da primeira desculpa para não fazer o pedido – disse Marcelline. – Se tivesse perseverado, posso garantir que a dor de cabeça dela teria desaparecido. Seu comportamento é o que lhe causa dor de cabeça, homem embotado. – Eu sei que atrapalhei tudo. É verdade o que você disse no outro dia. Mas a confusão é tão atroz que estou tendo um trabalho dos diabos para encontrar uma saída. – Você não está ajudando em nada ao vir aqui – ponderou ela.


– Você é a especialista em tudo o que faço de errado. Você é a mulher autocrática, que sabe exatamente o que todo mundo deve fazer. – Nada disso! Eu sei o que todo mundo deve vestir. – Aposto qualquer coisa que ela sabia por que eu estava lá. Vi lady Gorrell quando estava saindo da joalheria e sabia que ela iria contar a todo mundo. Mas conheço Clara e ela não parecia muito satisfeita ao me ver. Quando disse que ia embora, ela pareceu aliviada. – E você não tem ideia dos motivos pelos quais ela o queria fora dali? Você a negligenciou por várias semanas. Fez um espetáculo de si mesmo com várias costureiras. Então sai de casa, compra um anel e, sem nenhum aviso, aparece na casa dela, todo preparado para se casar. – Não foi bem assim. – De qualquer maneira, foi tudo errado. Você não passou um minuto sequer fazendo-lhe a corte. – Eu a conheço desde que ela era uma menina de 5 anos! – As mulheres gostam de ser cortejadas. Você sabe disso. O que há de errado com você? Não enxerga direito quando se trata de lady Clara? Ele parou no meio do caminho e olhou para Marcelline, enquanto uma expressão de horror cômico se espalhava pelo lindo rosto dele. – Você está me dizendo que preciso correr atrás dela, fazer cara de cachorrinho e achar fenomenal cada palavra que ela disser, como fazem os idiotas que ficam atrás dela? – Não seja tolo – retrucou Marcelline. – Você, entre todos os homens, sabe como seduzir uma mulher. O problema é que a trata como uma irmã. Ele se enrijeceu, mas recuperou-se de imediato. Num piscar de olhos, estava caminhando ao lado dela com seu jeito arrogante e despreocupado, esperando que o mundo inteiro lhe desse passagem. Por que ele não exigiria que ela resolvesse suas dificuldades românticas? Era o objetivo de vida dela, o propósito de todos os seres humanos comuns, servir a ele. E o trabalho dela não era mesmo servir a pessoas como ele? Não apenas seu trabalho, mas sua ambição? Jamais passaria pela cabeça dele o quanto isso era doloroso para uma mulher como ela. Marcelline lembrou a si mesma que a dor não era culpa de ninguém, mas dela mesma, por permitir-se cair de amores por ele. Ela era uma Noirot. Ela, entre todas as mulheres, deveria ter sido mais esperta. Sendo uma Noirot, ela precisava pensar com a cabeça, não com o coração. Ele precisava se casar com lady Clara. Todos os planos de Marcelline tinham o mesmo objetivo: fazer da duquesa de Clevedon sua cliente real. Se esse casamento não acontecesse, quem sabe quanto tempo levaria até ele encontrar outra pessoa? Poderia levar dias. Anos. E, independentemente de quanto tempo levasse, quantas outras mulheres em Londres seriam capazes de atuar como um modelo tão esplêndido para os vestidos de Marcelline? Além disso, esse modelo não seria uma propaganda tão eficiente se lady Clara se casasse com alguém menos importante que o duque de Clevedon. Ela já havia cativado lady Clara e a estava vestindo para ser uma líder da moda. Já conseguira a lealdade da moça, apesar de todos os rumores e escândalos. Apesar de lady Warford. Na verdade, lady Clara tinha uma prova de roupa marcada para aquela mesma tarde. Uma babá passeando com uma menina parou para admirar o carrinho de bonecas de Lucie.


Educadamente, pediu a Lucie que a deixasse ver o carrinho, de onde tirou Susannah para inspecionála. – Que vestido lindo! – exclamou a menininha. – Foi minha mamãe quem fez – explicou Lucie. – Ela faz vestidos para damas e princesas. Ela colocou Susannah de volta no carrinho e a babá levou a menina embora, arrastando os pés e olhando para trás, para ver a boneca de Lucie. – Você precisa dar uns cartões de visita para Lucie distribuir – disse Clevedon. – Já pensou em acrescentar uma linha de vestidos para bonecas? – Não. – Pense nisso. Marcelline tinha a cabeça cheia, por conta do jeito que as coisas estavam. – Lady Clara virá para uma prova hoje, mais tarde. Um vestido para sexta-feira à noite. Um dos bailes mais importantes da temporada, pelo que entendi. – Sexta-feira? – Ele franziu o cenho, pensando. – Maldição. Deve ser o baile de lady Brownlow. Acho que devo ir. – É claro que deve. É um dos eventos mais importantes da temporada. – Isso não diz muito a favor da temporada. – O que há de errado com você? – indagou ela. – Eu sei que gosta de dançar. – Em Paris – rebateu ele. – Em Viena. Em Veneza. – Você sabe quantos homens e mulheres dariam um órgão vital para serem convidados para esse baile? – Você? Você não gostaria de estar lá, exibindo uma de suas criações? – Um sorriso surgiu no canto da boca do duque e um ar diabólico dançou em seus olhos. – Eu bem que gostaria de ver você entrar nessa festa sem ter sido convidada. Ela desejou gritar. – Você não está prestando atenção? Você tem que cortejar lady Clara. O que você não precisa é que a mulher que todos pensam ser seu mais recente caso chame atenção para si. E o que eu não preciso é me indispor exatamente com as pessoas que quero ver em minha loja. Quantas vezes tenho que explicar a mesma coisa? Como você pode ser tão parvo? Ele desviou o olhar. – Estava imaginando você no baile e isso me divertiu. Bem, vou imaginar a situação enquanto estiver lá. Isso deve suavizar o tédio. Ela também podia se imaginar lá – não a pessoa que ela era, mas a que poderia ter sido, a filha de um cavalheiro. Por outro lado, se fosse bem-vinda naquele baile, ela não teria Lucie. Jamais teria aprendido a fazer roupas. Jamais teria realmente encontrado a si mesma. Isso para não mencionar que ela se pareceria com as outras. Sua vida não seria tão dura, mas não seria tão divertida. Era preciso considerar o quanto ele estava entediado, o grande e mimado imbecil! Lady Brownlow acabara de ser eleita benfeitora do Almack’s. Ela era uma das mais importantes anfitriãs da sociedade. Suas festas eram famosas. E ele agia como se fosse obrigado a ouvir uma aula de cálculo ou qualquer outro daqueles terríveis temas


matemáticos. – Você vai ao baile – disse ela. – E não vai se atrasar. Vai deixar claro que só tem olhos para lady Clara, que só deseja estar com ela. Vai agir como se não existisse nenhuma outra mulher naquele lugar. Não vai agir como se a conhecesse há anos, mas como se acabasse de descobri-la de verdade. Deverá ser como se ela tivesse surgido de repente para você, como uma visão, como Vênus nascendo do mar. Ela desejou que Sophia estivesse ali para oferecer uma imagem dramática com menos lugarescomuns. – Você irá conquistá-la – prosseguiu ela. – Se a temperatura permitir, você irá atraí-la para a varanda, terraço ou algum lugar onde haja privacidade, e fará o pedido de maneira muito romântica, de modo que seja impossível ela dizer outra coisa que não seja sim. É sedução, Clevedon. Não se esqueça disso. Ela não é sua amiga querida ou sua irmã. É uma mulher, uma mulher linda, desejável, e você irá seduzi-la para que ela queira se tornar a sua duquesa.

Baile da condessa de Brownlow. Sexta-feira à noite. O duque de Clevedon decidiu agir como Noirot o aconselhou. Ele não se permitiu pensar no que estava fazendo, porque não havia nada em que pensar. Queria que Clara se casasse com ele. Ela sempre fora a mulher certa para o duque. Ele sempre a amara. Como uma irmã. Ele afastou aquele pensamento no mesmo instante em que surgiu em sua mente. Foi ao baile de lady Brownlow. Seguiu à risca as instruções de Noirot. Não chegou cedo demais, mas na hora certa. E perseguiu Clara, como teria perseguido uma mundana popular ou uma mulher fogosa. Ele se esmerou em diverti-la, sussurrando comentários chistosos na bem moldada orelha dela toda vez que conseguia chegar perto o suficiente. Ela estava muito bonita naquela noite e os patifes idiotas não conseguiam se manter distantes. Noirot vestira Clara de rosa-crepe, um daqueles trajes com um manto. A abertura da frente revelava um vestido de cetim branco por baixo. Algumas fitas entrecruzavam o profundo V do corpete, chamando a atenção para o decote, ao mesmo tempo em que o próprio corpete era feito em dobras diagonais, que ressaltavam sua figura voluptuosa. Os homens estavam quase babando e as mulheres morriam de inveja. Ele a levou para dançar, consciente de que era o homem mais sortudo do baile. E ele a amava. Como uma irmã. Ele sufocou esse pensamento enquanto dançavam, deixando-o esquecido, sem vida, em algum canto escuro de sua mente. O pensamento ainda estava morto, na escuridão, quando Clevedon levou


Clara para o terraço. Havia outras pessoas lá, mas eles conseguiram encontrar um canto onde poderiam ter relativa privacidade. Ninguém poderia ter privacidade completa, é claro. Não era esse tipo de festa. As luzes do salão de baile lançavam um brilho fraco sobre o terraço. A lua minguante submergia atrás das árvores, na direção do horizonte, mas as nuvens ralas que corriam no céu não conseguiam esconder as estrelas. Era uma noite bastante romântica. Ele a fez rir e corar. Então, quando julgou que o momento era propício, disse: – Tenho algo muito importante para lhe pedir, minha querida. Clara sorriu para Clevedon. – Tem mesmo? – Toda a minha felicidade depende disso. Seria aquele um sorriso de alegria? Um sorriso zombeteiro? Não, ela apenas estava nervosa. Ele, por certo, estava. Hora de tomá-la nos braços. Ele o fez. Ela não o afastou. Bom. Isso era um bom sinal. Mas algo estava errado. Não, tudo estava perfeito. Ele inclinou a cabeça para beijá-la. Ela colocou a mão no meio, bloqueando o caminho até sua boca. Ele levantou a cabeça e algo deslizou dentro dele, algo frio, como alívio… Mas, não. Era impossível. Ela olhava para ele, ainda sorrindo, mas, agora, com um brilho nos olhos. Ele tentou se lembrar de quando já tinha visto aquela expressão. Então se lembrou dos olhos dela brilhando da mesma forma quando ela rebatia com rispidez algo que a mãe dizia. Ele desejou que Noirot estivesse ali para lhe dar instruções – ou controlar Clara –, pois sentiu que a situação havia tomado um rumo inesperado, que não era nada bom e que ele não sabia como modificar. Então, ele percebeu o que deveria ter feito. Idiota. Ele deveria ter perguntado primeiro. – Perdão. Isso foi errado de minha parte. Presunçoso. Ela ergueu suas sobrancelhas perfeitas. O discurso, aquele discurso que ele havia praticado durante horas, fugiu de sua cabeça. Ele prosseguiu assim mesmo. – Você me daria a grande honra de se tornar minha esposa? – Ele começou a procurar o anel nos bolsos do casaco. – Eu tinha a intenção de… Eu não sabia direito qual era a intenção… – Mas onde estava o anel? – Você está tão linda… – Pare – ordenou ela. – Pare. Você pensa que sou idiota? Ele parou de procurar. – Idiota? É claro que não… Nós sempre nos entendemos, você e eu. Compartilhamos histórias engraçadas. Como eu poderia escrever todas aquelas cartas para uma moça idiota?


– Você parou de escrevê-las. Você parou de escrever assim que a conheceu… Mas, não, não é esse o ponto. Olhe para mim. Ele tirou a mão do paletó. – Passei a noite inteira olhando para você. Você é a mulher mais linda que há aqui. A mais linda de Londres. – Eu estou diferente! – disse ela. – Estou completamente diferente. Mas você nem percebeu. Eu mudei. Aprendi. Todos os outros homens notaram. Mas você, não. Ainda sou a mesma Clara para você. Ainda sou sua amiga. Não sou uma mulher de verdade para você. – Não seja tola. A noite inteira… – A noite inteira você passou atuando! Você ensaiou isso, não ensaiou? Está na cara. Não existe paixão! O tom de voz dela se elevava e ele percebeu que os outros ocupantes do terraço se aproximavam devagar. – Clara, talvez nós… – Eu mereço paixão – disse ela. – Eu mereço ser amada… de todas as maneiras. Mereço um homem que me entregue seu coração por inteiro, não apenas a parte que não estiver usando no momento, a parte que guarda para suas amigas. – Você está sendo injusta. Eu a amo desde a infância. – Como uma irmã! O tal pensamento sem vida pulou do canto e veio correndo até a dianteira de sua mente. Ela o afastou outra vez. – É mais que isso. Você sabe que é mais que isso. – É mesmo? Bem, não me importa. Para mim, não é mais. Quando você está perto, é como se eu estivesse com Harry. Não, é pior, porque você tem sido um tédio só e ele, por mais desagradável que seja, pelo menos me diverte. Eu sei que vocês, homens, tendem a ter seus interesses externos… Oh, por que me preocupar com eufemismos? Nós dois sabemos que estamos falando de outras mulheres. Mamãe já martelou isso em minha cabeça. Nós devemos fingir que não vemos. Os homens nascem assim e não se pode evitar. Eu estava preparada para fingir que não vi. – Clara, juro para você que… – Não. Já passei disso há tempos. Se você não é capaz de manter um compromisso para jantar, se não pode se incomodar em mandar uma mensagem… “Desculpe-me, Clara. Aconteceu um imprevisto.” Se vai ser assim… você melancólico e distraído cada vez que cair na luxúria por alguma mulher… Bem, não tenho estômago para tanto. Não vou tolerar uma coisa dessas. Não por um ducado. Não por três ducados. Eu mereço mais do que o papel de esposa que aceita tudo calada. Eu sou uma mulher interessante. Eu leio. Tenho opiniões. Eu aprecio poesia. Tenho senso de humor… – Eu sei de tudo isso. Sempre soube. – Eu mereço ser amada, verdadeiramente amada: mente, corpo e alma. Caso não tenha notado, existe uma fila de homens prontos para me oferecer tudo isso. Por que cargas-d’água eu aceitaria um homem que não pode me dar nada além de amizade? Por que eu deveria aceitar você? Ela levantou o queixo e saiu pisando forte. Foi então que ele percebeu que o lugar estava


silencioso. Clevedon olhou na direção para a qual ela seguia. O maior número possível de convidados se aglomerava nas janelas. A multidão abriu caminho quando ela se aproximou e a deixou passar, o que Clara fez sem hesitação, de cabeça erguida. Do meio da multidão vieram alguns aplausos. Ele ouviu, de longe, um grito penetrante. Lady Warford. Então, percebeu o barulho confuso de uma multidão agitada pelo escândalo. A música recomeçou e as pessoas retornaram ao salão de baile. Ele não. O duque atravessou o terraço, passando pelos casais que voltavam para seus cantos escuros. Entrou no jardim pelo portão, por uma passagem e, finalmente, alcançou a rua. Em seguida, parou e olhou ao seu redor. Foi então que percebeu que estava tremendo. O pensamento lá dentro, aquele que ele sufocara e abatera, voltou à superfície e começou a dançar de alegria. O duque de Clevedon ficou parado, inalando grandes baforadas do ar frio da noite, como se… como se… Então, se deu conta do motivo que o fazia tremer. Ele se sentia como um homem que havia subido a escada para o patíbulo, sentira a corda caindo sobre sua cabeça e ombros, ouvira o vigário orar por sua alma, sentira o capuz ser colocado em sua cabeça… … e, no último instante, no derradeiro minuto, recebera o perdão.

Era quase alvorada quando Sophia entrou em casa. Marcelline, que estava deitada na cama, olhando para o nada, levantou-se assim que ouviu a irmã subir as escadas. Sophia estivera no baile. Clevedon ia fazer o pedido de casamento e o mundo precisava saber exatamente o que lady Clara estava usando e quem fizera seu vestido. É óbvio que Sophia não fora ao baile para ver o que Clara estava usando. Ela já conhecia cada detalhe, não apenas do vestido, mas também dos acessórios. Sophia fora ao baile porque, em troca do grande espaço de coluna que almejava ter no jornal do dia seguinte – na verdade, daquele mesmo dia –, Tom Foxe, do Morning Spectacle, estava em busca de informações privilegiadas. Vindas de uma testemunha ocular. Não era a primeira vez que Sophia entrava em uma casa importante com esse propósito. Os anfitriões sempre precisavam contratar pessoal adicional para eventos maiores. Agências respeitáveis existiam para atender a essas necessidades. Sophia era registrada sob outro nome, é claro, em todas as agências. Ela fazia isso desde que tinha a idade de Lucie. E sabia como se misturar ao público. Afinal de contas, era uma Noirot. – Está tudo bem – disse Sophia enquanto tirava a capa. – Não saiu exatamente como planejado, mas já cuidei disso.


– Não saiu exatamente como planejado? – repetiu Marcelline. – Ela o recusou. – Mon dieu. Marcelline sentiu um aperto no peito. Ficou difícil respirar. A ansiedade tomou conta dela. Alívio. Desespero. – O quê? – A voz de Leonie surgiu atrás dela. Marcelline e Sophia se viraram para a irmã. Leonie estava na entrada de seu quarto. Ela não se importou em colocar uma camisola e a touca de dormir. Seu olhar era o de uma coruja, como o das pessoas que acabaram de acordar. Pelo menos alguém havia dormido nessa noite. – Lady Clara o recusou – repetiu Sophia. – Eu vi tudo. Ele a cortejou tão lindamente. Era como se ele a visse pela primeira vez e não conseguisse olhar para mais ninguém, como em um romance, de verdade, porque nós sabemos que os homens, em geral, não são muito românticos. – Mas o que aconteceu? – indagou Leonie. – Parece tudo tão perfeito. – Parecia perfeito. Eu estava em uma posição privilegiada, perto da janela aberta. Quando ela disse não, juro, meu queixo caiu. Não sei onde ela encontrou forças para recusá-lo, mas ela o fez, de forma bem clara. Todo mundo ouviu. A música havia parado naquele instante. A notícia se espalhou numa velocidade impressionante. Houve um momento em que era possível escutar o voo de uma mosca. Todos se esforçavam para ouvir a conversa, alguns se acotovelavam para chegar até as janelas. Os ombros de Marcelline se encolheram. – Oh, não! – Não precisa se preocupar – disse Sophia, rapidamente. – Eu soube na hora o que devia fazer e fiz. Por favor, voltem para suas camas. Não há nada com que se preocupar. Espero ter a prova de manhã e, então, vocês verão por si mesmas. Por enquanto, preciso de um pouco de sono.


Capítulo dezesseis Se, há alguns anos, por escárnio, nossos vizinhos nos chamavam de uma nação de lojistas, acreditamos que, agora, devam nos dar o crédito de sermos lojistas de bom gosto: percebemos que nenhum outro lugar do mundo oferece tamanha variedade de elegantes encantos para se ver quanto Londres, em seus vários estabelecimentos comerciais. Guia do comércio inglês, 1818.

Sábado de manhã, oito horas. Apesar de ter dormido apenas por um período curto de tempo, Sophia correu para tomar o café da manhã poucos minutos depois das irmãs. Trazia nas mãos uma cópia da mais recente edição do Morning Spectacle e tinha um sorriso largo. – Eu disse que havia conseguido – disse ela. – Cada milímetro da coluna, tudo sobre o vestido que lady Clara Fairfax, ou “lady C.”, como Foxe tão delicadamente se refere a ela, usou no baile dos Brownlows. “Um vestido de cetim, ou poult-de-soie, branco sob um manto, um corsage baixo, com decote quadrado.” Marcelline fez uma pausa, a xícara de café a caminho dos lábios. Ela precisava de café. Não dormira a noite inteira. – Você deu a Tom Foxe exatamente o que ele queria. – E ele me deu o espaço de várias colunas – disse Sophia, com ar de triunfo. Leonie puxou o jornal da mão dela. – Deixe-me ver. “Manto aberto de crepe rose noisette… corsage… descendo em dobras longitudinais de cada lado.” – Ela olhou para Marcelline. – E continua com uma descrição, como se fosse uma revista de moda. Até os sapatos. Meu Deus, que diabo você fez para ele, Sophia? Não, deixe para lá. É melhor não saber. – Eu disse a vocês que cuidaria de tudo – reafirmou Sophia. – Não precisa ler toda a descrição. Vocês sabem o que ela estava vestindo. – Apontou para um parágrafo. – Comecem por aqui. – “O leitor vai se perguntar por que estamos entrando em tantos detalhes sobre o traje da convidada. Mas sentimos que nenhum elogio seria suficiente para um vestido que inspirou em sua dona não apenas confiança suficiente para rejeitar o pedido de um duque, mas a fazê-lo com a chama da poesia, pois nenhuma descrição poderia caracterizar com propriedade o discurso com o qual ela, inequivocamente, rejeitou sua proposta de casamento.” Em seguida, o discurso de rejeição de lady Clara. Nesse contexto, parecia uma das cenas dos


romances de lady Morgan. Marcelline colocou a xícara de café na mesa e esfregou a cabeça. – Ele é o duque de Clevedon. Ela o ama. Ele é o mais famoso sedutor de mulheres… e conseguiu estragar tudo. Bem, adeus duquesa de Clevedon. – Adeus duquesa de Clevedon, talvez – disse Sophia. – Ele pode levar um tempo para encontrar outra. Mas vamos olhar pelo lado positivo. Lady Clara voltará à Maison Noirot. Ela sabe o que fazemos por ela. Você leu o que ela disse ao duque. “Estou diferente.” – As amigas dela também virão – imaginou Leonie. – Todas as mulheres que estavam naquele baile desejarão ver as criações que podem dar a uma mulher confiança o bastante para rejeitar um duque. Sophia, meu amor, você se superou. – Leonie está certa – disse Marcelline. – Excelente trabalho, meu bem. Brilhante, na verdade. Eu teria ficado parada ali, boquiaberta, mas você enxergou uma maneira de virar a história a nosso favor, como sempre faz. – Todas nós desenvolvemos a arte de pensar rápido. E isso foi a coisa mais fácil do mundo. Mas agora temos que dar a elas algo para ser visto. Que vestido devemos colocar na vitrine? – Deixe isso comigo e com Marcelline – decidiu Leonie. – Você precisa descansar. Todo mundo vai estar agitado por causa da noite passada e os outros jornais irão correr para copiar essa notícia. Estará por toda Londres à tarde. Será um dia de muito trabalho e você só teve algumas horas de sono. Marcelline não dormira nada, mas elas não precisavam saber disso. Passara a noite deitada na cama, acordada, lembrando a si mesma que fizera a coisa certa, a única a ser feita. Se tivesse alguma alternativa, ela a teria agarrado com toda força. Mas não havia: ela e as irmãs se dedicaram a conquistar a lealdade de lady Clara. Deram o melhor de si para que ela percebesse o quanto era bonita e atraente. Clevedon precisava se casar com ela. Foi por isso que Marcelline o perseguira em Paris, naquele plano louco. A duquesa de Clevedon era o caminho direto da Maison Noirot para o sucesso. Ela daria um fim ao domínio da Trapos. Então, a mulher perversa e incompetente, que chamava a si mesma de modista, não teria mais o poder de alquebrá-las. Esse era o plano. A duquesa de Clevedon era o objetivo principal. Lady Clara não seria mais a duquesa de Clevedon – não depois daquele discurso, diante de uma plateia. Mas Sophia conseguira salvá-las, o que significava que a essência do plano, de dominar o comércio de roupas em Londres, permanecia. Os sentimentos de Marcelline não assimilavam isso. Seus sentimentos eram seu maior problema. Por sua vez, Sophia passara a noite inteira de pé, trabalhando, depois de um longo dia na loja, passado também em pé, ocupando-se das clientes. – Admito que houve mais frenesi do que eu supunha – disse Sophia. – Eu disse a vocês que consegui uma posição privilegiada na janela, de onde pude ouvir cada palavra. Ninguém percebeu a minha presença. Ninguém presta atenção nos serviçais. Então, quando estava indo embora, dei de cara com lorde Longmore. Marcelline e Leonie olharam para a irmã, espantadas.


– Achei que ia me ignorar e continuar andando, como todos fazem, como se não houvesse ninguém ali. Afinal de contas, criados, assim como lojistas, não são ninguém. Mas ele parou de repente e disse: “O que você está fazendo aqui?” Levei um susto enorme, mas nem pisquei e respondi: “Trabalhando, senhor”, no meu melhor tom de serviçal, vocês sabem, aquele com um ligeiro sotaque de camponesa de Lancashire. “Elas a mandaram embora da loja?”, perguntou ele. “Que loja?”, respondi. E então, demonstrando muito respeito, sugeri que ele havia me confundido com outra pessoa. Mas ele não acreditou. Ele me olhou com severidade e tenho certeza de que continuaria a me interrogar, acabando por me expor, mas sua mãe começou a dar chiliques e ele revirou os olhos e foi até onde ela estava. – É melhor tomar cuidado – disse Marcelline, com certa rispidez. – Ele não é o tolo que quer que pensem que é. A última coisa de que precisamos é outra de nós metida com um aristocrata. – Não acho que ele queira se meter comigo – discordou Sophia. – Acho que ele quer mais é que o diabo nos carregue. Acho que pode até acreditar que nós somos o diabo. – Esperemos que as damas da alta classe não sintam o mesmo – disse Leonie. – Elas não sentirão o mesmo – afirmou Sophia. Ela se levantou e foi em direção à porta. – Acho que vou voltar para a cama. Mas não me deixem dormir demais. Não quero perder a melhor parte. Ah, se eu fosse vocês, colocaria na vitrine o vestido cinza.

Loja Downes, mais tarde no mesmo dia. A Sra. Downes analisou severamente o vestido no balcão. – Com este, quantos são? – perguntou ela a Oakes, sua supervisora. – Seis – respondeu Oakes. – Lady Gorrell jogou-o em cima de mim – disse a Sra. Downes. – Chocante, madame. Oakes, que testemunhara o evento, não estava nem um pouco chocada. Se ela estivesse na situação de saber que pagara um alto preço por um vestido exatamente igual ao que uma de suas amigas já vira no teatro Covent Garden no ano passado, teria tido a mesmíssima reação. Oakes havia alertado sua empregadora. Ao ver o croqui das mangas – que lhe disseram ter sido enviadas por uma associada de madame, em Paris –, ela avisou que o estilo era do ano anterior. Ou a Sra. Downes achou que Oakes era idiota, ou pensou que suas clientes não fossem perceber. Muitas delas, acostumadas a confiar totalmente nela, de fato não repararam. No início. Apenas uma costureira em Londres fazia roupas tão inolvidáveis para mulheres e essa costureira não era a Sra. Downes. Os olhos de suas clientes logo foram abertos por suas amigas e familiares mais observadoras, que se lembraram de ter visto determinados vestidos em um banquete, no teatro, em Hyde Park, e daí em diante. Entre uma dúzia de encomendas, até o momento seis pessoas haviam


devolvido suas compras, furiosas por terem pagado um alto preço, não por meras cópias, mas por cópias da moda do ano passado. A Sra. Downes fora enganada, sem a menor sombra de dúvida, amplamente enganada. Oakes se perguntava quanto sua empregadora havia pagado por croquis antigos e quantas clientes ela perdera depois que a notícia se espalhou. Estava na hora de procurar outro emprego.

Como Clevedon já esperava, a loja estava lotada naquele dia. Ele passou por ela a caminho do White’s Club e, novamente, quando ia ao fabricante de botas, ao mercador de vinhos e outros locais. Comprou coisas desnecessárias apenas para ficar na rua St. James. Estava esperando que as multidões ansiosas que se deslocavam para a Maison Noirot desaparecessem. Ele lera o Morning Spectacle, como, aparentemente, também fizera a alta classe. Não estava impressionado por Foxe ter dado a notícia. O homem era famoso por isso. Os detalhes eram uma questão à parte. Estava claro que Foxe havia plantado um espião no meio dos convidados. O espião não poderia ser outro senão a Srta. Sophia. A história tinha um estilo dramático. Para ter feito tudo aquilo em tempo para a edição de hoje, ela teria que ter estado no local. Isso, na verdade, era um grande alívio. Sua maior preocupação era que a derrocada da noite anterior marcasse o fim da Maison Noirot. Toda a cidade culparia a Sra. Noirot por desencaminhá-lo e a evitaria, como ela já tinha explicado muitas e muitas vezes. Clara jamais voltaria à loja e a Sra. Noirot seria desmerecida, considerada uma sedutora e uma rameira. Dali em diante, as damas não iam querer nada com ela. Mas as damas apareceram na loja, em uma sequência interminável, descendo de suas carruagens e espiando as vitrines antes de entrar. Se continuassem nesse ritmo, a sineta da porta não suportaria. …um vestido que inspirou em sua dona não apenas confiança suficiente para rejeitar o pedido de um duque, mas a fazê-lo com a chama da poesia… A temeridade dessa atitude ultrapassava todos os limites. Típico. A temeridade daquelas irmãs Noirot ultrapassava qualquer coisa. E, como tudo o que faziam, o artigo estava incrível. Ele teria abraçado Sophia por causa dele, mas não era Sophia a primeira pessoa em sua cabeça. Não era Sophia que o deixara acordado a noite inteira. Não era Sophia que o deixara caminhando de um lado para outro, discutindo consigo mesmo. Uma discussão fútil. Desde o instante em que fugira da festa, desde que parara na calçada e se dera conta dos motivos que o faziam tremer, ele percebera que só havia uma maneira de pôr fim a essa farsa. E assim, esperou até o fim da tarde, quando as damas foram para casa trocar de roupa para o


ritual do passeio pelo Hyde Park. Então, ele atravessou a rua St. James e entrou na Maison Noirot.

Será que elas não vão mais embora?, pensou Marcelline quando a sineta da porta tocou. Ela estava feliz, é claro. Fora um dia diferente de todos os outros – até mesmo do dia em que voltou de Paris e as mulheres da sociedade foram admirar o vestido poussière. Naquele dia, entretanto, as damas vieram aos bandos. A loja antiga não teria tido espaço para todas. Marcelline precisou contratar pelo menos mais seis costureiras com urgência. Caso contrário, jamais entregariam todos os pedidos nas datas prometidas. Tudo isso passou pela cabeça dela no segundo antes de levantar os olhos da bandeja de fitas que separava e olhar para a porta. Seu coração bateu dolorosamente. O cavalheiro entrou, parou e olhou ao redor. Ele o fez da mesma forma que todos os cavalheiros ao entrar na loja pela primeira vez: olhando o ambiente com frieza, avaliando o que via, decidindo se o lugar merecia a sua atenção, ignorando a humilde lojista atrás do balcão. Mas essa não era a primeira vez que ele entrava ali e ele não era nenhum cavalheiro. Era Clevedon, alto e arrogante, o chapéu colocado na cabeça com precisão, os cabelos negros formando anéis sob a aba. Levava consigo uma bengala com ponta de ouro e, enquanto pausava para examinar a loja, colocou as duas mãos nela. Suas luvas de pelica se encaixavam como se fossem a própria pele. Ela podia ver os contornos dos nós de seus dedos. Aquelas mãos, aquelas mãos. Ela se lembrou da mão dele passeando em suas costas. Segurando seu rosto. Deslizando sobre seu seio. Escorregando entre suas pernas. Se fosse qualquer outro cavalheiro, qualquer lojista teria saído de imediato de trás do balcão, preparada para lhe oferecer atenção personalizada e exclusiva. Ela ficou onde estava. – Boa tarde, Vossa Graça – disse ela. – Boa tarde, Sra. Noirot. – Ele tirou o chapéu e se curvou para saudá-la. Ela fez uma rápida reverência. Ele colocou o chapéu sobre uma cadeira, foi até o manequim e inspecionou o vestido. Era um traje de tule cinza-escuro, uma cor denominada “Fumaça londrina”, que o cetim cor-derosa do acabamento ressaltava de maneira extraordinária. Rosas ricamente bordadas e folhas retorcidas enfeitavam a saia. – Isso parece muito… francês – comentou ele. – Eu sempre visto o manequim de uma forma mais arrojada e extravagante do que vestiria minhas clientes. Depois de ver o que o manequim está usando, elas ficam menos histéricas quando proponho


algo mais ousado do que as roupas a que estão acostumadas. Ele sorriu, um leve sorriso, e se aproximou do balcão. – Muito apropriado. Você é algo muito mais ousado do que alguns cavalheiros estão acostumados. – Não alguns – retrucou ela. – Todos. A Maison Noirot não é nada convencional. – Concordo plenamente. Fiquei feliz ao ver a Srta. Sophia transformar a derrocada de ontem em algo produtivo. Mas, é claro, eu não esperaria nada menos do que isso. – Eu esperava muito mais de você. Você estragou tudo. – Verdade. O que mais podia fazer? Estava pedindo em casamento a mulher errada. O coração de Marcelline pareceu ter parado de bater. Ela se sentiu tonta. Ele foi até a porta e virou a placa para “Fechado”. – A loja não está fechada – disse ela. Sua voz parecia vir de quilômetros de distância. – Vocês já fizeram muitas encomendas por um dia. – Você não pode determinar quantas encomendas nos bastam. Ele voltou ao balcão. – Saia daí de trás – ordenou ele. – De jeito nenhum. Ele sorriu. Foi tudo o que fez. Seus olhos verdes a olharam com um carinho divertido, que alcançou diretamente o coração pulsante de Marcelline e a deixou desarmada, débil e vulnerável. – Preciso de todas as clientes que puder conseguir – disse ela. – Não tenho certeza de que lady Clara voltará… – Você sabe que voltará. Para mais vestidos que lhe deem força para lidar com homens idiotas. – … e como não vai haver nenhuma duquesa de Clevedon num futuro imediato, terei que me contentar com mortais menos nobres. – Eu estava pensando que você deveria ser a duquesa de Clevedon. Ela parou por um momento, sem palavras pela primeira vez na vida, embora sentisse que problemas se aproximavam. Mesmo assim, por mais aguçados que fossem seus sentidos, não conseguia assimilar o que ouvia. Achou que seus ouvidos estivessem lhe pregando uma peça. Ou que Clevedon estivesse lhe pregando peças. Marcelline estava cansada. Fora um dia longo e cheio, depois de uma terrível noite sem pregar os olhos. Após ouvir a notícia trazida por Sophia, não sabia se deveria rir aliviada ou chorar desesperada por todos os planos que fizera. Tudo aquilo por nada. Ela se empenhara ao máximo e pagara um preço muito mais alto do que imaginara. Quando Sophia voltou para casa e contou às irmãs o que havia acontecido, Marcelline viu todas as suas esperanças e sonhos para o futuro se partirem em mil pedaços. Ela respirou fundo. Respirar não era suficiente. Ela precisava se sentar. Precisava de uma bebida bem forte. – Você perdeu o juízo? – perguntou ela.


– Não sei se perdi o juízo, mas perdi meu coração. Ela se esforçou para se controlar. – Sei o que é isso. Sua sensibilidade levou um choque. Aquela linda moça, a quem você amou durante toda a vida… – Como uma irmã. Ela estava certa. Você estava certa. – Você ainda está em choque. Zangado, ouso dizer. Ela o humilhou na frente de todo mundo. As pessoas a aplaudiram, pelo que ouvi. – A Srta. Sophia lhe disse isso? Deduzi, ao ler o Morning Spectacle, que estava lá. Ela tem um estilo inconfundível. Ela não permitiria que ele a perturbasse. – O ponto é que você está se vingando. – De Clara? Não seja ridícula. Ela estava completamente certa. Sabia que meu coração não estava presente no pedido. Sabia que eu estava atuando. Segui suas instruções ao pé da letra. Exatamente como instruções devem ser seguidas. Não é assim que deve ser. Isso tem que acontecer naturalmente, porque nada diferente disso seria tolerável. – Pare. Pare agora mesmo. Ela precisava correr para bem longe, da mesma maneira que seus antepassados corriam das dificuldades. Precisava correr porque, em cada fibra de seu corpo, havia o desejo de dizer sim. E seria um caminho rápido para a autodestruição. – Quando saí daquela festa, estava tremendo – explicou ele. Olhou para as próprias mãos, para as belas luvas de pelica. Ele as colocou no balcão. As mãos dela, ainda apoiadas ali, não estavam muito distantes. Ela só precisava movê-las um pouquinho para tocá-lo. Marcelline manteve as mãos onde estavam. – Percebi que era porque estava à beira de cometer o maior erro da minha vida – disse ele. – Um erro que teria arruinado duas vidas. Percebi que Clara havia me poupado. Ela salvou a mim e a ela mesma. Estava certa. Eu jamais poderia ser o marido que ela merece. Para mim, não existe mais ninguém a não ser você. Havia um peso no peito de Marcelline. – Não seja idiota. – Ouça o que estou dizendo. – Não, porque você não está raciocinando. – Não tenho feito mais nada além de raciocinar. Na noite passada e hoje, enquanto caminhava de um lado para outro da rua St. James, esperando os bandos de clientes saírem para que eu pudesse conversar com você. Tive muito tempo para mudar de opinião, mas não mudei. Na verdade, aconteceu o contrário. Quanto mais tempo tinha, mais certeza sentia. Eu te amo, Marcelline. – Ele fez uma pausa. – Você disse que me amava. Ele não pretendia parar. Não pretendia desistir. Era obstinado. Ela já não percebera isso, muitas e muitas vezes? Quando ele queria alguma coisa, ia atrás, decidido, e não era muito escrupuloso na escolha de seus métodos. Em outras palavras, ele era igual a ela.


Que ironia. Ela levantou as mãos do balcão e cruzou os braços, protegendo-se. – Eu disse que isso não tinha importância. Você não pode se casar comigo. Sou uma lojista. Você não pode se casar com uma lojista. – Nobres já se casaram com cortesãs. E já se casaram com suas governantas e entregadoras de leite. – E nunca acaba bem. – Quando nobres se casavam com pessoas de classe inferior, suas esposas e filhos pagavam por isso. Tornavam-se párias. Viviam no limbo, incapazes de voltar para o seu mundo antigo e rejeitados pelo seu mundo novo. – Não posso acreditar que você acha uma coisa dessas sensata. – Você sabe que é a única coisa sensata – afirmou ele. – Eu te amo, Marcelline. Quero dar a Lucie tudo que ela precisa, não apenas bonecas, boas roupas e escola, mas um pai. Eu perdi uma família e sei o quanto isso é precioso. Quero você, quero a sua família e quero ser parte da vida de vocês. Ela sentiu o desespero na voz dele, a urgência, e teve vontade de chorar. – Eu sei que a loja é a sua paixão – prosseguiu – e que você mataria para não ter que abrir mão dela. Pensei nisso também. Na verdade, há semanas que penso em sua loja. Ela não duvidava. Não duvidava de que ele era sincero em cada palavra. – Tenho algumas ideias – continuou ele, ansioso. – Podemos fazer isso juntos. Outros nobres têm interesses comerciais. Posso escrever e tenho os recursos para criar uma revista. Como a La Belle Assemblée, mas melhor. Tenho outras ideias sobre como expandir os negócios. Você disse que era a maior modista do mundo. Posso ajudá-la a fazer com que o mundo inteiro saiba disso. Case-se comigo, Marcelline. Não era justo. Ela era uma sonhadora, é verdade. Toda a sua família era. Ansiavam por sonhos impossíveis. Mas as irmãs e ela haviam conseguido realizar alguns deles. O que ele oferecia era um sonho lindo, mas ele só enxergava o lado bom. – Os negócios de outros nobres têm a ver com propriedades – disse ela. – E grandes projetos. Eles possuem minas e investem em canais e novas ferrovias. Não abrem pequenas lojas e vendem artigos femininos. A nobreza nunca vai perdoá-lo. Não estamos nos velhos tempos, Clevedon. A sociedade não é mais tão tolerante quanto costumava ser. – A sociedade é um enorme enfado. Não me importo se eles aprovam minha entrada no comércio. Acredito em você e no que faz. Quero fazer parte disso. Ele não sabia o que estava dizendo. Não entendia o que era perder o respeito da sociedade e dos amigos, ser barrado no mundo ao qual devia pertencer. Ela, por sua vez, conhecia bem essa situação. Ainda que ele pudesse entender isso e aceitar, havia o problema de quem ela realmente era. Marcelline não tinha escolha. Precisava ser a pessoa a agir com sensatez. Esse era um sonho que ela não podia viver. Ele a observava, esperando. Ela descruzou os braços. Marcelline juntou as mãos, como se fosse fazer uma prece. – Obrigada. Isso é muito gentil, generoso e, de verdade, você me honra. Sei que é isso o que uma


pessoa deve sempre dizer, mas estou falando do fundo do coração… – Marcelline, não… – Mas, não, Vossa Graça. Jamais poderia me casar com o senhor. Ela viu o rosto dele ficar branco e se virou, antes que perdesse as forças. Foi até a porta que levava às salas dos fundos, abriu-a, entrou na sala e fechou a porta muito, muito lentamente atrás de si.

Clevedon deixou a loja sem enxergar nada e entrou na rua St. James. No fim da rua, parou e olhou fixamente para o palácio de St. James. Havia um barulho em sua cabeça, um barulho terrível. Ele tinha plena consciência de toda dor, tristeza, raiva e só o diabo sabia o que mais. Não tinha meios de separar os sentimentos e dar-lhes nomes. Era como se fosse uma mistura de componentes emocionais fermentados no inferno, que o consumia aos poucos. Ele não ouviu o grito. Não conseguia ouvir nada que superasse o barulho que tinha dentro da cabeça. – Que diabo há de errado com você, Clevedon? Estou berrando até ficar rouco, correndo pela rua como um idiota. Um idiota correndo atrás do outro, pelo visto. Vi você sair de dentro daquela loja, seu imbecil. Clevedon virou-se e viu Longmore. – Acho melhor você não me provocar – disse ele, com frieza. – Estou com vontade de bater em alguém e você pode servir muito bem. – Nem me diga. A costureira também não quer você. Meus Deus, hoje não é o seu dia, certo? A vontade de jogar Longmore contra um poste, uma cerca ou direto na sarjeta era quase incontrolável. Os guardas provavelmente sairiam correndo dos portões do palácio – e Clevedon estaria de novo nos jornais, na boca de todos os mexeriqueiros. Mas que diabo! O que era mais um escândalo? Ele deixou cair a bengala, agarrou Longmore pelos ombros e o empurrou com força. Com um xingamento, Longmore empurrou-o também. – Lute comigo como um homem, seu animal. Eu o desafio. Um momento depois, eles haviam tirado seus casacos. No instante seguinte, seus punhos já estavam cerrados enquanto tentavam, com constância e violência, bater um no outro até a morte.

Marcelline enviou Sophia até o salão principal da loja, para fechá-lo. Embora estivesse extremamente cansada e pesarosa, ela sabia que não devia ir para a cama.


Lucie pensaria que ela estava doente e entraria em pânico – e poderia fazer mais uma bobagem. De qualquer maneira, Marcelline sabia que não conseguiria dormir. Precisava concentrar-se em fazer belos trajes. Isso a deixaria mais calma. Estava tentando redesenhar o fechamento de uma peliça quando Sophia chegou. Leonie veio atrás dela. Sophia não dissera nada antes, mas havia lançado um olhar de interrogação para Marcelline. Mesmo procurando não demonstrar emoções, era difícil escondê-las dos semelhantes. As duas irmãs mais novas vieram ver qual era o problema e reconfortar Marcelline, como sempre faziam. – O que aconteceu? – indagou Sophia. – O que há? – Clevedon – respondeu Marcelline. Ela esmagou o lápis em cima do papel. O lápis se quebrou. – Oh, é ridículo. Eu tinha que achar graça, mas não consigo. Vocês não vão acreditar. – É claro que vamos – disse Sophia. – Ele me pediu em casamento. Houve um breve e aturdido silêncio. – Ele está mesmo com vontade de se casar – comentou Sophia. Marcelline riu. Então, começou a chorar. Antes que ela desmoronasse, Selina Jeffreys apareceu à porta. – Oh, madame, com licença. Dois cavalheiros estão brigando na porta do palácio e as pessoas saíram das lojas e dos clubes para assistir. – Dois cavalheiros? – repetiu Leonie. – Você quer dizer dois desordeiros. – Não, Srta. Leonie. É Sua Graça, o duque de Clevedon, e seu amigo, aquele outro cavalheiro alto e moreno. – Lorde Longmore? – perguntou Sophia. – Ele estava aqui há poucos minutos. – Esse mesmo. Acho que eles estão tentando matar um ao outro! Não pude ficar para ver. Além do mais, havia todo tipo de homem se aproximando para assistir. Não era lugar para uma moça sozinha. Sophia e Leonie não tinham os delicados escrúpulos de Selina. Elas correram para ver a briga. Nem perceberam que a irmã mais velha não as seguiu.

Sophia e Leonie retornaram não muito tempo depois. Marcelline havia parado de tentar criar algo belo. Não estava com disposição. Foi verificar o trabalho das costureiras e, em seguida, subiu as escadas para checar o que Lucie estava fazendo. A menina lia para Susannah um dos livros que Clevedon lhe dera. Após a visita ao quarto da menina, Marcelline foi até a sala de estar e serviu-se de um cálice de conhaque. Ela havia bebido apenas alguns pequenos goles quando as irmãs voltaram, descabeladas pelo vento, arfando um pouco, mas sem nenhum ferimento.


Elas também se serviram de conhaque e relataram o que viram. – Foi uma delícia – disse Sophia. – Eles devem praticar em salões de boxe porque são muito bons. – Não me pareceu prática – retrucou Leonie. – Parecia que estavam tentando se matar. – Foi magnificamente feroz – prosseguiu Sophia. – Eles tiraram os chapéus e os casacos e estavam se agarrando pelos lenços de pescoço. Os cabelos despenteados. E tinham sangue nas roupas. – Ela se abanou com a mão. – Acho que era o suficiente para fazer uma mulher desfalecer. – Eu me lembrei das lutas romanas no Coliseu – disse Leonie. – Metade dos clientes do White’s estava lá, todos aqueles cavalheiros elegantes, e todos gritando, apostando no resultado e instigando os dois. – Leonie tem razão – comentou Sophia. – Parecia mesmo que a situação estava saindo do controle. Achei que deveríamos encontrar um lugar mais seguro de onde assistir. Mas o conde de Hargate saiu do palácio de St. James com outros homens. – Saiu de dentro da multidão de homens, abrindo caminho. E ele deve ter uns 60 anos – disse Leonie. – Mas ele anda como Zeus – comentou Sophia. – E os homens abriram caminho e ele ordenou que os dois parassem de bancar os idiotas. – Eles nem ouviram – disse Leonie. – Era o desejo de ver sangue – continuou Sophia. – Pareciam dois lobos. – Nenhum dos outros homens ousou separar a briga – explicou Leonie. – Mas lorde Hargate entrou no meio – disse Sophia. – E ficou no caminho do punho de Longmore. Mas o conde se abaixou e evitou o golpe. Oh, Marcelline, queria que você tivesse visto. Depois ele agarrou o braço de Longmore e puxou-o para longe de Clevedon. E um dos cavalheiros que estavam com ele… devia ser um de seus filhos… a mesma cara, corpo e cor. Fosse quem fosse, o sujeito segurou Clevedon. – O conde e o filho arrastaram-no para longe. Sophia bebeu seu conhaque e se serviu de um pouco mais. – Garanto que não precisamos nos preocupar sobre o que era a briga – disse Marcelline. – Longmore vingando a honra da irmã ou coisa do tipo. – Por que ele faria isso? – indagou Sophia. – Todo mundo achou que lady Clara vingou sua própria honra muito bem, vocês não acham? – Então, o que provocou uma luta a socos em plena rua St. James? – pensou Leonie. – Não seja tola – disse Sophia. – Os homens não precisam de um motivo racional. Estavam zangados. Um deles provocou a briga. E aposto qualquer coisa que, agora que acabou, os dois irão se embebedar juntos. – Por que Longmore estava zangado, Sophia? – indagou Marcelline. – Você disse que ele estava aqui, depois que Clevedon saiu. – Ele veio me atormentar por causa do baile e me chamar de traidora por espionar sua irmã e seu amigo para Tom Foxe. Fingi não saber do que ele estava falando. Oh, Céus! – Seu belo semblante tornou-se contrito. – Oh, Marcelline, que irmãs horrorosas nós somos. Ouvimos a briga e saímos,


como animais à procura de sangue, e aqui está você, de coração partido… – Não seja ridícula – retrucou Marcelline. – Guarde o drama para os jornais. – Mas, querida, o que aconteceu? – Sophia abaixou o cálice, ajoelhou-se ao lado de Marcelline e pegou sua mão. – O que Clevedon disse, o que você disse… e por que você está fingindo que seu coração não está partido?

Residência Clevedon. Domingo, 10 de maio, três horas da manhã. A casa estava escura, quase todos dormiam. Na biblioteca, uma única vela tremeluzia sobre uma figura solitária, vestida com roupa de dormir, cuja pena arranhava rapidamente o papel. O duque de Clevedon fizera o máximo para bater em Longmore até sangrar. Mais tarde, eles esvaziaram uma garrafa após a outra. Mesmo assim, ele voltara para casa bastante sóbrio. Parecia não haver bebida suficiente em todo o mundo capaz de aplacar a dor em seu coração, silenciar sua consciência e permitir que adormecesse. Nada a ser feito sobre a dor do coração, a não ser suportá-la. Mas sua consciência era outra história. Ela o levou até a biblioteca. Antes mesmo de pegar a pena para escrever para Clara, já sabia como começar: Não se alarme, madame, ao receber esta carta, com receio de que contenha propostas que, na noite de ontem, lhe provocaram tanta ojeriza. Era o começo da carta do Sr. Darcy para Elizabeth Bennet em Orgulho e preconceito, o romance favorito de Clara. Ele poderia imaginar seu relutante sorriso quando a lesse. Prosseguiu com as próprias palavras: Cometi um erro ao lhe fazer uma proposta e você estava certa em tudo o que disse, mas não disse nem a metade. Os que estavam ali deveriam ter ouvido as milhares de vezes em que eu não a valorizei, que coloquei à prova a sua afabilidade e pensei apenas em mim mesmo, nunca em você. Você tem sido honesta comigo desde que a conheço e, durante todo esse tempo, eu também só fui verdadeiro comigo mesmo. Quando você estava de luto pela avó, que eu sabia o quanto amava, eu a abandonei. Tinha a expectativa de que você esperaria por mim, e foi o que você fez. E como eu retribuí sua paciência e lealdade? Com negligência, insensibilidade e falsidade.


Ele escreveu muito mais, sobre as muitas maneiras pelas quais a fizera sofrer. Clara havia trazido alegria e luz à sua vida quando ele era um menino solitário e sofredor. Ela lhe era muito cara, e sempre seria, mas eram apenas amigos e nada mais. Por certo que ele sabia, no fundo do coração, que isso não era suficiente para um casamento, mas era o caminho mais fácil e ele o seguiu. Fora falso com ela, fora falso consigo mesmo, pois agira como um covarde, temeroso de assumir riscos. Ele reconheceu todas as atitudes impensadas e cruéis e concluiu: Perdoe-me, minha querida, sinto muito. Espero que, com o tempo, você me perdoe – embora eu não possa, no momento, sugerir nenhuma razão para que você o faça. De todo o meu coração, desejo que você alcance a felicidade que eu deveria ter sido capaz de lhe oferecer, e cem vezes mais. Ele acrescentou seu costumeiro encerramento carinhoso e assinou com sua inicial, como sempre fazia. Dobrou a carta, endereçou-a e a deixou na bandeja, para que o criado a levasse junto com a correspondência matinal. Depois disso, só a dor no coração permaneceu.


Capítulo dezessete A experiência, mãe da verdadeira sabedoria, há muito me convenceu de que a genuína beleza é mais bem percebida pelos juízes reais; e as atitudes de um amante sensível encerram em si mesmas os melhores elogios a uma mulher que possui discernimento. Revistas La Belle Assemblée e Bell’s Court and Fashionable Magazine, anúncios de junho de 1807.

Domingo, 10 de maio, início da tarde. O duque de Clevedon piscou devido ao brilho excessivo da luz. Saunders ficou olhando para ele. Abrira as cortinas, e o sol estava tão brilhante quanto relâmpagos. Quando Clevedon moveu a cabeça, sentiu um trovão estalar bem dentro do crânio. – Peço desculpas por incomodá-lo, Vossa Graça. – Não está me incomodando – resmungou ele. – O Sr. Halliday insistiu muito – disse Saunders. – Ele me disse que o senhor desejaria ser acordado. A Sra. Noirot está aqui. Clevedon se ergueu de supetão. Seu cérebro latejava dolorosamente. – É por causa de Lucie? – disse ele. – Ela está doente? Perdida? Maldição, eu disse a ela que essa menina precisava… A frase foi desaparecendo para dar tempo ao cérebro, envenenado por álcool, de acompanhar as palavras. – A Sra. Noirot nos disse para deixar claro que a princesa Erroll da Albânia está sã e salva, em casa, fazendo somas com sua tia. O Sr. Halliday tomou a liberdade de pedir à Sra. Noirot que esperasse na biblioteca. Sabendo que o senhor precisaria de algum tempo para vestir-se, ele providenciou refrescos para ela. E eu trouxe café, senhor. Agora, o coração de Clevedon também latejava, junto com o cérebro, mas não no mesmo ritmo. Ele não pulou da cama, mas levantou-se mais depressa do que seria adequado para um homem em suas condições. Engoliu o café de uma só vez. Lavou-se e vestiu-se em tempo recorde, embora parecesse uma eternidade para ele, ainda que tivesse decidido não se dar ao trabalho de se barbear. Uma olhada no espelho foi suficiente para perceber que barbear-se não faria muito para melhorar sua aparência. Ele parecia um cadáver ambulante. Amarrou o lenço do pescoço com um nó descuidado, vestiu o casaco e correu para fora do quarto ainda o abotoando.


Quando entrou, ajeitando o lenço de pescoço como um estudante que tivesse sido chamado para recitar a Ilíada, encontrou Noirot inclinada sobre a mesa da biblioteca. Estava perfeita, como sempre, em uma de suas criações mais arrojadas, um vestido de seda branca quase todo bordado de flores vermelhas e amarelas. A capa curta, com duas camadas cortadas em forma triangular, com acabamentos de renda preta, era feita do mesmo material. Ela descia pelos ombros e sobre as amplas mangas do vestido. Em volta do pescoço, Marcelline havia amarrado uma renda preta, ou algo parecido. O chapéu estava colocado bem para trás da cabeça, fazendo com que a aba emoldurasse seu rosto, e a aba interna era enfeitada com renda e fitas. Mais fitas e rendas arrematavam a parte de trás, de onde brotava um grande e alto penacho. Ele, é claro, não estava em sua melhor forma. Quando entrou, ela o olhou e sua mão foi ao peito. – Oh, não! – disse ela. Depois, a jovem se recompôs e disse em um tom mais frio: – Ouvi falar sobre a luta. – Não foi tão ruim assim – disse ele, embora soubesse que fora. – Eu sei como me esquivar de um soco na cara. Você devia ver Longmore. De qualquer maneira, essa é a aparência que sempre tenho depois de uma noite excessivamente festiva, com um sujeito que tentou me matar. Por que veio aqui? Ele tomou cuidado para não demonstrar nenhuma esperança no rosto ou na voz. Mas era difícil tirá-la do coração. Não queria se permitir sonhar que ela tivesse mudado de ideia. Estava bem acordado e sóbrio, mas desejava estar bêbado outra vez. Finalmente, ele entendera, não apenas na mente, mas também nas entranhas, por que seu pai havia mergulhado em uma garrafa. A bebida entorpecia a dor do coração. A dor física também a entorpecia. Enquanto estivera lutando com Longmore, não sentira nada. Agora, lembrava-se de cada palavra que dissera a Marcelline, abrindo o coração, sem esconder nada. Mas não fora suficiente. Ele não era suficiente. Ela fez um gesto na direção da mesa. – Estava dando uma olhada nas revistas. Não tenho escrúpulos. Li também suas anotações, mas não consigo entender a sua letra. Você disse que tinha ideias. Sobre o meu negócio. – Foi por isso que você veio? – perguntou ele, tenso. – Pelas ideias para a sua loja, as ideias para fazer de você a maior modista do mundo? – Eu sou a maior modista do mundo. Deus do Céu, como ele a amava! Sua autoconfiança, falta de escrúpulos, determinação, força, inteligência. Sua paixão. Ele deu um sorriso, esperando não parecer um nauseante apaixonado. – Peço perdão – disse ele. – Como pude me esquecer? Você é a maior modista do mundo. – Mas também sou outra pessoa. Marcelline afastou-se da mesa e caminhou até a janela, de onde admirou o jardim. Ele esperou. Não tinha outra escolha.


– Eu estava cansada ontem – disse ela, ainda olhando para fora. – Muito cansada. Tive um dia movimentado, estávamos todas trabalhando demais e eu me encontrava em um estado que precisava me esforçar para não desabar. – Ela se desviou da janela e o encarou. – Estava fazendo um esforço tão grande que fui cruel e injusta com você. – Ao contrário, você rejeitou minha proposta com muita gentileza. Você me disse que eu era bom e generoso. Ele não conseguia evitar um tom amargo na voz. Era o mesmo que dizer a um homem que “ainda podemos ser amigos”. Ele não poderia ser amigo dela. Não era suficiente. Agora ele entendia, com cada célula de seu ser, por que Clara lhe dissera que não era suficiente. – Você foi bom e generoso o bastante para merecer a verdade – disse ela. – Sobre mim. Então ele se lembrou da vaga ideia que lhe veio à mente quando viu Lucie pela primeira vez. – Macacos me mordam, Noirot, você já é casada. Eu pensei nisso, mas me esqueci. Ou seja, Lucie tem um pai. – Ele morreu. O alívio lhe causou tonturas. Clevedon aproximou-se do console da lareira. Fingiu apoiar-se ali casualmente. Suas mãos tremiam. De novo. Estava em péssimo estado. – Vossa Graça parece doente – disse ela.– Por favor, sente-se. – Não, eu estou bem. – Não, sente-se, por favor, estou pedindo. Já me sinto extremamente nervosa com a situação. Esperar você desmaiar não vai tornar as coisas mais fáceis. – Eu nunca desmaio! – disse ele, indignado. Mas arrastou o corpo pesado para o sofá e se sentou. Ela retornou para a mesa e pegou um cálice da bandeja que se encontrava ali. Levou-o para Clevedon. – Esfriou – disse ela –, mas você precisa. Ele tomou o cálice das mãos dela. Ela se sentou na cadeira mais próxima. Uns poucos centímetros de tapete os separavam. O mundo inteiro os separava. Ela cruzou as mãos no colo. – O nome de meu marido era Charles Noirot. Ele era um primo distante. Morreu na França, durante a epidemia de cólera, há alguns anos. A maioria de meus parentes também morreu nessa época. Lucie ficou muito doente. O marido dela estava morto. Os parentes mortos. Sua filha à beira da morte. Ele tentou imaginar como deveria ter sido, mas sua imaginação não era suficiente. Longmore e ele estavam na Europa quando a cólera surgiu. Sobreviveram e ele considerava isso um milagre. A maioria das vítimas morria em poucas horas. – Sinto muito – disse ele. – Não fazia a menor ideia. – E por que faria? O ponto principal de tudo isso é a minha família e quem eu sou. – Então, seu nome é mesmo Noirot. Fiquei imaginando se seria apenas um nome afrancesado que vocês três adotaram para a loja. O sorriso dela ficou tenso. – Esse é o nome que meu avô paterno adotou quando fugiu da França, durante a Revolução.


Conseguiu sair com a mulher, os filhos e algumas tias e algum primos. Outros membros da família não tiveram a mesma sorte. Seu irmão mais velho, o conde de Rivenoir, foi pego tentando fugir de Paris. Depois que ele e a família foram para a guilhotina, meu avô herdou o título. Ele sabia que seria uma insanidade fazer uso dele. Sua família, os Robillon, tinha má fama na França. Você conhece o personagem do visconde de Valmont, no livro de Laclos, As ligações perigosas? Ele meneou a cabeça. Era um dos inúmeros livros que lorde Warford havia declarado não apropriados para a leitura de pessoas decentes. Naturalmente, quando eram meninos, Longmore pegara o livro e eles o leram. – Os homens da família Robillon eram desse tipo de aristocratas. Libertinos e jogadores, que usavam as pessoas como penhores ou brinquedos. Não eram populares naquela época e ainda não são lembrados com carinho na França. Como queria poder se mover com liberdade, meu avô assumiu um nome tão comum quanto a poeira. Noirot. Os filhos e ele usavam um nome ou outro, dependendo da sedução, do golpe, do artifício do momento. Ele estava se inclinando para a frente, ouvindo com muita atenção. Algumas peças se encaixavam: a maneira de Marcelline falar, seu límpido francês e seu sotaque aristocrático… mas ela afirmara ser inglesa. Bem, então, ela mentira também sobre isso. – Eu sabia que você não era bem o que parecia ser. Meus criados a tomaram por nobre e eles raramente se enganam. – Oh, nós podemos enganar qualquer um. Nascemos assim. A família nunca se esqueceu de que era aristocrata. Nunca abriu mão de seus caprichos extravagantes. Eram todos especialistas em seduzir e usavam essa habilidade para se casar com pessoas ricas. Sendo mais românticos e menos práticos do que seus parentes europeus, os homens tinham muita sorte com as mulheres inglesas bemnascidas. – Isso deve ser verdade também para os homens ingleses – disse ele. O olhar melancólico de Marcelline encontrou o dele. – É verdade, mas eu nunca me propus a encontrar um marido. Menti e enganei, mas sempre com o propósito que lhe expliquei logo quando nos conhecemos. – Eu sei que você rouba nas cartas – disse ele. – Não roubei durante nosso jogo de vinte e um. Apenas joguei como se minha vida dependesse do resultado. As pessoas em minha família sempre se veem nessa posição: jogar um jogo do qual depende a sua vida. Mas roubar nas cartas não é nada. Falsifiquei nomes em nossos passaportes para sair da França bem depressa. É comum em minha família ter que sair correndo de algum país. Minhas irmãs e eu aprendemos essa habilidade e a praticamos com diligência, pois nunca sabíamos quando precisaríamos dela. Fomos bem educadas das formas normais também. Tínhamos aulas sobre deportação, mas também aprendemos matemática e geografia. Apesar de tudo, éramos aristocratas e esse era o nosso bem mais precioso. É importante falarmos e nos portarmos como damas e cavalheiros. Você pode imaginar os medos que isso suaviza e as portas que se abrem. – Posso entender que seja muito mais fácil seduzir uma moça inglesa se você não soa como um atendente ou um vendedor de linho. Mas você se casou com um primo. É dona de uma loja. Não seguiu o mesmo caminho.


Ela se levantou abruptamente da cadeira e se afastou, com um farfalhar de anáguas. Ele também se levantou, sem muito equilíbrio, e não sabia dizer se eram os efeitos da briga e da bebida ou se era a esperança lutando contra a certeza de que a perdera. Ela foi até a mesa e pegou as anotações dele. – Sua caligrafia é péssima – reclamou. Colocou as anotações na mesa e, virando-se de volta para ele, disse: – Ainda não lhe contei sobre minha mãe. – Uma aristocrata inglesa, certo? Ou outra coisa? Ela deu uma risada. – Ambos. Ela voltou à cadeira e ele também se sentou. O coração de Clevedon batia forte. Alguma coisa estava por vir. Tinha certeza disso. Estava inclinado para a frente, esperando. Desejava acabar logo com aquilo e, contra todas as evidências, esperava que fosse algo bom. Mas não poderia ser nada bom, caso contrário, ela não estaria tão incomodada; ela, que nunca se perturbava, senhora de todas as situações. E o que havia de errado com ele? Ela admitira a prática de falsificação! Disse que vinha de uma família de criminosos franceses de sangue azul. – Minha mãe era Catherine DeLucey. Ele reconheceu o sobrenome, mas levou alguns instantes para saber de onde o conhecia. Então, ele viu: azul, um nítido azul. – Os olhos de Lucie – disse ele. – Aqueles extraordinários olhos azuis. A Srta. Sophia também. E a Srta. Leonie. Eu sabia que havia alguma coisa familiar nelas. Eles são inesquecíveis. Os DeLuceys, a família do conde de Mandeville. Marcelline perdeu a cor. Ela cruzou os braços com força no colo. Então ele se lembrou. Alguns antigos escândalos relacionados com os filhos de lorde Hargate. Mas não aquele que o tratara com rudeza ontem. Qual deles? Não conseguia se lembrar. Seu cérebro estava lento, pesado e dolorido. – Não aqueles DeLuceys. Não os bons, com uma bela propriedade perto de Bristol. Minha mãe fazia parte do outro grupo.

Ele se inclinava na direção dela com enorme ansiedade e ela vira nos olhos dele a esperança e a incerteza. Foi quando viu a verdade aparecer. A cabeça dele pendeu para trás, sua postura se enrijeceu e ele desviou o olhar, sem conseguir fitá-la nos olhos. Sophia e Leonie haviam dito a ela que ele não precisava saber. Alegaram que isso só lhe causaria problemas; e desde quando ela assumira o papel de mártir? Mas elas não sabiam o que era amar um homem e por isso não entendiam como era difícil magoálo e causar-lhe dor. Ele abrira o coração para ela. Oferecera-lhe a lua e as estrelas, sem saber nada


sobre Marcelline. E ela não tivera a coragem de oferecer em troca o que tinha: a verdade. Ela o havia lembrado, muitas e muitas vezes, de seus negócios, pois podia lidar com o fato de ele tomar juízo e rejeitá-la devido ao que fazia para viver. Mas dizer a ele quem ela era e depois vê-lo mudar de expressão enquanto a rejeitava… A dor seria muito maior do que ela poderia suportar. Agora, ela enxergava tudo isso e doía mais do que imaginava. Mas o pior acabara. Ela sobreviveria. Marcelline continuou a falar, ansiosa por ver sua sórdida história revelada. – Minha mãe tinha sangue azul, mas não era como as outras mulheres da família Noirot. Não tinha nenhum dinheiro. Meus pais se casaram pelas respectivas fortunas que, no fim das contas, não existiam. Só souberam da verdade na noite de núpcias e acharam que era uma grande piada. Meu pai e ela levaram uma vida nômade, de golpe em golpe. Eles se endividavam em um lugar, fugiam no meio da noite e iam para outro. Nós, crianças, éramos um peso inconveniente. Eles nos deixavam com um ou outro parente. Então, quando eu tinha 9 anos, acabamos ficando com uma mulher que se casara com um dos primos de meu pai. Ela era uma importante modista em Paris. Ela nos treinou para o negócio e tomou conta de nossa educação. Éramos meninas atraentes e a prima Emma fez questão de nos ensinar refinamento. Era bom para os negócios. E, é claro, uma menina bonita e com boas maneiras poderia atrair um marido com dinheiro e posição. Ela olhou para avaliar a reação de Clevedon, mas ele parecia estar estudando o tapete. Seus cílios espessos e negros, que contrastavam com a palidez da pele, escondiam seus olhos. Mas ela não precisava ler a expressão nos olhos dele para saber o que se encontrava ali: uma parede. Uma sensação de perda tomou seu corpo e era como uma doença. Ela se sentia exausta. Mas engoliu em seco e continuou o relato. – Mas eu me apaixonei pelo sobrinho de tia Emma, Charlie, e ele não tinha dinheiro. Tive que continuar a trabalhar. Então a cólera chegou a Paris. – Ela fez um amplo gesto. – Todos morreram. Tivemos que fechar nossa loja. Eu não podia ficar. Estava morrendo de medo de ficar doente. Quem cuidaria de minha filha e de minhas irmãs? Senti que estaríamos mais seguras em Londres, embora não tivéssemos quase nenhum dinheiro. Mas fui aos cassinos e joguei cartas. Você viu como ganhei em Paris. Foi assim que alimentei minha família e coloquei um teto sobre nossas cabeças quando chegamos a Londres, há três anos. Foi assim que comecei minha loja. Ganhei o dinheiro nas cartas. Ela se levantou. – E aí está. Você agora sabe de tudo. Seu amigo Longmore acha que somos o diabo, e ele não está muito enganado. Você não poderia se aliar a uma família pior. Nós seduzimos, trapaceamos, mentimos e enganamos. Não temos escrúpulos, moral ou ética. Nem entendemos o que são essas coisas. Fiz a você o maior favor do mundo quando lhe disse não. Ninguém em minha família entenderia por que agi assim. Ela se direcionou para a porta, ainda conversando, incapaz de ajudar a si mesma. Era, provavelmente, a última vez que se falariam. – Você será visto pela sociedade apenas como um homem com vontade de se casar. Mas não precisa acreditar que estou sendo nobre e me sacrificando ao rejeitar seu pedido. É por puro egoísmo. Sou orgulhosa demais para suportar ser rejeitada por seus amigos importantes.


– Você suportaria, sim. – A voz baixa de Clevedon veio de trás dela. Marcelline não o ouvira levantar-se do sofá. Estivera surda e cega a tudo, menos ao desespero, e ocupada demais tentando não desmoronar. Ela não se viraria. Nada que ele dissesse faria alguma diferença. Ele estava tentando ser gentil. Ela não suportaria gentilezas, por isso, continuou a se dirigir para a porta. – Você pode digerir as mulheres insuportáveis e suas exigências, o jeito como elas a tratam, como se fosse uma escrava – disse ele. – Você não tem problemas para lidar com elas. Você tem lady Clara comendo em sua mão. A esperança estava começando a escalar e sair daquele lugar escuro onde estava mergulhada. Ela a repeliu. – Mas são negócios – disse ela, sem virar a cabeça. – Isso tudo faz parte da malícia e da manipulação. Minha loja é meu castelo. Mas a alta sociedade é um mundo totalmente diferente. – É Lucie que você está protegendo, não a si mesma. Você insiste em afirmar que não tem qualidades redentoras, mas ama a sua filha. Você não é como sua mãe. Sua filha não é uma inconveniência. Ela fez uma pausa, com a mão na maçaneta. Sentiu o coração apertado. Havia choro preso ali, ameaçando se soltar. – Talvez você não possua o conjunto usual de escrúpulos, moral e ética e coisas assim, mas não engana suas clientes. – Eu as manipulo. Quero o dinheiro delas. – E, em troca, você lhes dá seu máximo. Você faz com que se sintam mais bonitas do que acham que podem ser. Você deu a Clara coragem para enfrentar a mãe e a mim. – Oh, Clevedon, você é tão tolo. Está cego de amor. – Ela se virou de frente para ele. – Você acha que, pelo fato de encontrar uma qualidade redentora em meu coração sombrio, todas as outras pessoas pensarão o mesmo? Pois não pensarão. Elas verão que você se casou com uma Terrível DeLucey… – O filho do conde de Hargate desposou uma e a filha dele se casou com um conde. – Já ouvi essa velha história. Você está falando de Bathsheba DeLucey. Ela trouxe grande fortuna para lorde Rathbourne. O que eu trago? Uma loja. E o pai de Rathbourne, lorde Hargate, é um homem poderoso. Você possui um título mais nobre, mas não tem nada parecido com o poder dele. Ontem, ele entrou no meio de uma multidão de homens sedentos por sangue, como se fossem um bando de colegiais. O mundo o respeita e o teme. Você não é assim e não tem ninguém com esse peso para dar ordens em seu nome. Você morou na Europa e em uma parte isolada de Londres, onde habitam os aristocratas que não trabalham. Você não tem nenhum poder político. Não cultivou esse poder. Você não pode fazer o seu mundo me aceitar. Não pode fazer as pessoas amarem e aceitarem Lucie. – Se você não pode ser bem-vinda em meu mundo, prefiro não morar nele. Marcelline sentiu aquele terrível choro subir-lhe ao peito. – Eu te amo – disse ele. – Acho que te amei desde o primeiro instante em que a vi na ópera… ou, se não ali, desde o instante em que você levou meu alfinete de diamante. Admito que a situação é delicada…


– Delicada! – Mas foi um plano louco ir a Paris e atrair minha atenção, esperando enfiar as garras em minha duquesa. Foi um plano louco e corajoso vir morar em Londres com uma filha pequena, duas irmãs mais novas e algumas poucas moedas. Foi loucura achar que poderia montar uma loja de roupas ganhando dinheiro nas cartas. Mas você fez tudo isso antes de me conhecer, antes de sequer pensar na duquesa de Clevedon. E tenho toda a certeza de que você vai elaborar um esquema louco para resolver nossos problemas atuais, principalmente com a ajuda de minha mente brilhante. Ela o encarava, observando aqueles perigosos olhos verdes, e tudo o que via ali era amor. Aquela linda boca curvada em um sorriso, capaz de aquecer com facilidade o coração de uma mulher, e mais embaixo também. Clevedon realmente a amava. Depois de tudo o que ela lhe contara. Ele realmente acreditava que ela podia fazer qualquer coisa. – E se eu não conseguir? – indagou ela. – E se essas delicadas situações se mostrarem difíceis demais, até para minha astúcia e imaginação… – Viveremos com isso. A vida não é perfeita. Mas prefiro vivê-la de forma imperfeita ao seu lado. – E-esse é um se-sentimento muito bo-bonito. – O choro estava, finalmente, tomando conta de seu peito. – E eu nem treinei – disse ele. – Oh, Clevedon. Ele abriu os braços. Ela entrou no abraço dele. Não havia nenhuma escolha. Os braços dele se fecharam e ela chorou ali, como uma tola, mas tudo isso valia pelos muitos dias e noites de medo, preocupação, dor, raiva e esperança guardados há tanto tempo. Contra todas as probabilidades, veio a esperança. Porque ela era uma sonhadora e uma conspiradora e ninguém pode sonhar ou conspirar sem esperança.

– Isso que dizer que venci? – indagou ele. Lágrimas eram bem-vindas, mas ele precisava ter absoluta certeza. – Sim – respondeu ela, a voz abafada contra o colete dele. – Embora alguns possam afirmar que você perdeu. – Você se casa comigo? Uma longa pausa. Ele a apertou com mais força. – Marcelline? – Sim. Eu não sou nobre suficiente para dizer não. – Não seja nobre, eu imploro. Acho que nobreza de espírito… moral… ética… escrúpulos…


coisas desse tipo são muito boas quando estão em seus devidos lugares. Até certo ponto. Mas podem ser irritantes. Ela o olhou de frente. Lágrimas brilhavam em seus olhos, mas havia também uma risada, que curvou os cantos da linda boca de Marcelline. – Não combina comigo – disse ele. – Tentei ser bom. Tentei não ser o meu pai. Tentei viver de acordo com os padrões de lorde Warford. Então percebi que não adiantava e dei um basta. Foi quando parti com Longmore para uma grande viagem. Enquanto ele decidiu que estava cansado e que queria voltar para casa, achei que não suportaria voltar. Foi quando você entrou em minha vida e tudo mudou. Porque você era a pessoa certa. Para mim. Certa. Para mim. Ele deslizou a mão pelas costas dela. E ouviu a respiração de Marcelline vacilar. Era tudo o que ele queria. Aquele pequeno som. Esperara tanto tempo. Sofrera as torturas dos condenados. Ele levantou o queixo dela e desamarrou o chapéu, jogando-o de lado. Ela tremeu. – Esse era o meu melhor chapéu. Levei um tempo enorme para decidir qual usar. – Você? Mas você sempre sabe o que vestir. – Nunca tive que fazer confissões a ninguém antes. Esse é o meu chapéu confessional. Cheguei até a apará-lo de maneira especial… e você o jogou de lado como se fosse um lenço sujo. – Sua confissão foi maravilhosamente feita, como tudo que faz. Ele logo desamarrou aquela coisa indefinida de renda preta ao redor do pescoço dela. Marcelline segurou a mão dele antes que ele pudesse tirar a peça. – Clevedon, o que acha que está fazendo? Eles haviam esperado por um tempo longo demais. Era hora da felicidade. – Você sabe muito bem o que estou fazendo. – Você não trancou a porta. – Verdade. Clevedon soltou a mão dela, pegou a cadeira mais próxima e empurrou-a sob a maçaneta. Depois, ele a levou até o sofá. Jogou a peça de renda por cima das costas dela e levou as próprias mãos até os ganchos que fechavam a capa. – Você não pode me despir. Ele olhou para baixo, para a capa em camadas e as grandes mangas com enchimento, o cinto, e lembrou-se do que estava ali embaixo, camada por camada. Ele se lembrou de quando ela se despiu. Lembrou-se de como colocara a perna na cama, encostando nele, tirando as meias, enrolando-as devagar. Por um instante, ele não podia respirar. Seu coração batia com muita rapidez e a respiração era rápida demais, e isso não era nada perto da excitação que ocorria lá embaixo. – Certo – disse ele. – Outra hora. Ele a arrastou para o sofá e a tomou nos braços. Em seguida, beijou-a até o corpo dela se soltar e se entregar. Ela colocou os braços em volta dele e retribuiu os beijos com a mesma voracidade. – Tenho me sentido tão infeliz – confessou ele, com a boca a milímetros da dela. – Eu também me sentia assim. Não sou muito boa nessa coisa de ser boazinha.


– Não quero que você seja boa. Quero que seja você, Marcelline. A mulher que eu amo. Ela segurou a cabeça de Clevedon e trouxe os lábios dele para os seus. Foi um beijo longo e explorador e toda uma vida passou por aquele beijo, e toda uma vida se abriu diante deles. Por pouco, ele não arruinara a própria vida e a dela, mas, finalmente, encontraram seu caminho. – Um dia desses… em breve… teremos tempo para fazer amor à vontade. Vou passar uma deliciosa eternidade tirando suas lindas roupas. Por enquanto… Ele encontrou o fecho do corpete sob a capa e abriu-o o suficiente para chegar ao espartilho e à camisa, expondo alguns centímetros da pele aveludada de Marcelline. Beijou a suave curva do pescoço dela. E Marcelline suspirou e arqueou a cabeça para trás, como um gato que se alonga pelo simples prazer de fazê-lo. Uma das mãos de Marcelline ainda estava entrelaçada nos cabelos dele, enquanto a outra passeava pelo corpo, tomando posse dele como ele tomou posse dela, com tanta facilidade e naturalidade, com um simples toque. Ele sentiu os dedos dela roçarem a lã da manga de seu casaco, à medida que a mão descia. Quando chegou à cintura de suas calças, ele prendeu a respiração. Ela deslizou a mão para baixo, o membro dele cresceu e se enrijeceu ao toque. – Meu. Toda esse encanto másculo é meu. Clevedon segurou o vestido dela, as flores bordadas parecendo quase vivas sob suas mãos. Levantou aos poucos um enorme aglomerado de vestido e anáguas e a acariciou por cima das calçolas, subindo pelas coxas e entre as pernas, na abertura da peça de roupa. Ele a tocou e ela tremeu. – Minha – disse ele. – Toda essa perfeição feminina é minha. A boca de Clevedon encontrou a de Marcelline mais uma vez e eles se beijaram, ele bebendo o sabor dela, como um homem sedento. Enquanto a beijava, deslizou os dedos para a fenda macia entre as pernas dela. Ela estava úmida e suas pernas tremiam enquanto ele a acariciava. Uma felicidade descomunal. – Que homem de sorte eu sou. Ela soltou uma gargalhada gutural. – E está prestes a ter ainda mais sorte. Ela desabotoou totalmente as calças dele e o agarrou. – Quero você – disse ela, com suavidade. – Quero você dentro de mim. Quero que seja meu e que eu seja sua. – Sim, sim, sim, o que você quiser. – Ele a penetrou e parecia estar voando pelos céus. Ele viu estrelas. – Oh! Vossa Graça. – Gervaise – disse ele. – Gervaise – repetiu ela, sussurrando, e o som o fez se arrepiar. – Mon amour. Palavras de amor e de prazer murmuradas, sem sentido, enquanto faziam amor devagar, depois, mais depressa, até que não havia mais aonde ir e ambos mergulharam em uma felicidade ofuscante, como se voassem na direção do sol. A libertação veio em uma cascata de doçura. E ele se afundou nela, enterrando a cabeça em seu pescoço e sussurrando o seu nome.


Durante algum tempo, permaneceram apenas deitados, um ao lado do outro. Em silêncio, em paz. Difícil de acreditar, depois de tamanho turbilhão. Mas ali estava ele, nos braços dela, e ali estava o coração dela, batendo com força, repleto de felicidade. Ela o segurou, saboreando seu peso e a sensação dos cabelos sedosos tocando sua pele; e o cheiro dele, enquanto a respiração dela se acalmava e o mundo retornava. – Isso foi muito mais divertimento do que sacrifício – murmurou ele. Ela riu. – Sim, chéri, foi mesmo. Ele se levantou para olhar o rosto dela. – Chéri? – repetiu ele. – Por que soa tão gostoso quando vem da sua boca? – Porque eu sou deliciosa – respondeu ela. – A deliciosa duquesa de Clevedon. Gosto do som dessas palavras. Gosto mais ainda do sabor dessa duquesa. E do seu perfume. E do som de sua voz. E do jeito que se mexe. Eu a amo com muita paixão. Gostaria de ficar aqui e descobrir todas as maneiras de amá-la, mas o mundo me chama. A vida me chama. – Ele a beijou com ternura na testa. – Precisamos nos vestir. Só levou um minuto, ou dois, já que não haviam tirado muitas peças. Para ela, um ligeiro reajuste nas roupas de baixo, alguns ganchos para fechar, uma meia para puxar para cima, uma liga para prender. Para ele, um trabalho rápido de puxar a roupa de baixo e as calças, enfiando a camisa para dentro, e abotoar alguns botões. Ele recolheu o chapéu, que estava caído no canto. Limpou-o rapidamente e tentou ajeitar as plumas. Ela o observou por um instante. Em seguida, riu. – Oh, Clevedon, você é o homem mais doce que conheço. Dê-me esse chapéu. Você não tem ideia de como ajeitá-lo, mas eu te amo por tentar. Ele se acalmou por um momento. Olhou para o chapéu e de volta pra Marcelline. – Não é o que importa? – indagou ele. – Tentar? Se tentarmos com vontade, você não acha que podemos fazer dar certo… nós dois? E então, mesmo que não dê tão certo quanto queiramos, pelo menos saberemos que tentamos de todo o coração. É assim que você faz tudo, não é? De todo o coração. E veja até aonde chegou e tudo o que alcançou. Pense em tudo o que podemos fazer juntos. – Fizemos isso muito bem – disse ela, gesticulando com o chapéu na direção do sofá. – Juntos. Ele riu. – Isso mesmo. E você não acha que um homem que pode fazer isso, depois de uma luta e uma noite de bebedeira, pode se sair bem em tudo? Posso não ser o mais regrado dos duques, mas ainda não me dediquei muito à função. Pense no que posso fazer quando decidir o que quero… com madame la duchesse ao meu lado. – Ele sorriu e acrescentou: – E debaixo de mim, ou em cima, ou atrás, dependendo do caso. Ela ergueu as sobrancelhas.


– Atrás, Vossa Graça? – Estou vendo que você ainda tem algumas coisas para aprender – disse ele, ajeitando o casaco. – Eu me casei muito cedo e fiquei casada por pouco tempo. Sou praticamente virgem. Ele riu outra vez e o som era muito doce aos ouvidos de Marcelline. Eles estavam felizes. Assim, ele ousou ter esperanças e sonhar, como sempre fizera. E ousou acreditar que tudo acabaria bem, de alguma maneira, com o passar do tempo. Ele a tomou nos braços, desajeitando o chapéu. Ela não se importou. – Eu tenho um plano – disse ele. – Sim. – Vamos nos casar. – Sim. – Vamos conquistar o mundo. – Sim – respondeu ela. Ninguém na família de Marcelline poderia ser acusado de sonhar baixo. – Vamos colocar a alta classe de joelhos. – Sim. – Vamos fazê-los implorar por suas criações. – Sim – respondeu ela. – Sim, sim, sim. – Você acha que amanhã é cedo demais? – Não – disse ela. – Precisamos começar já. Não temos um minuto a perder. – Amo ouvir você dizer isso – comentou ele. Ele a beijou. Um longo beijo. E a vida deles juntos também seria longa, disso Marcelline tinha certeza. Nisso, ela apostaria qualquer coisa.


Epílogo Os vestidos eram radiantes ao extremo; e nos trouxe enorme satisfação perceber que os que eram usados por Sua Majestade e a família real, assim como muitos outros, haviam sido, em sua maioria, criados pela manufatura britânica. Jornal da Corte, sábado, 30 de maio de 1835.

O duque de Clevedon desposou a Sra. Charles Noirot na Residência Clevedon, no sábado, dia 16 de maio. Estiveram presentes as irmãs da noiva, as tias do noivo, lorde Longford e lady Clara Fairfax. Os dois últimos apareceram desafiando os pais – mas Longford nunca fora famoso por sua obediência filial e, nos últimos tempos, lady Clara desenvolvera um revigorante hábito de desafiar a mãe. Ela havia usado uma criação de Noirot em uma pequena recepção no palácio real, na quintafeira anterior, que causara um gratificante furor. Quando seu irmão a acusou de ajudar e apoiar a loucura de Clevedon, ela respondeu: – Ele ainda é meu amigo e me recuso a guardar rancor. Não vou ferir a mim mesma só para me vingar. Você sabe que ninguém consegue nem conseguirá me fazer tão bonita quanto madame Noirot é capaz. Pare de agir como nossa mãe. Esse último comentário fez Longmore tomar consciência das próprias atitudes. As tias do duque foram um desafio. Assim que receberam a mensagem do sobrinho informando de suas núpcias, correram para Londres e tomaram conta da Residência Clevedon, determinadas a colocar juízo na cabeça dele. Na noite de quarta-feira, elas se sentaram para tomar chá e intimidar o sobrinho quando Halliday lhes apresentou a futura noiva de Sua Graça, as futuras cunhadas e, em um golpe final, Lucie. As tias talvez resistissem ao encanto de Noirot sozinha, mas encanto combinado com vestidos deslumbrantes enfraqueceram suas defesas e Lucie, em seu melhor estilo cativante, as derrotou totalmente. Na segunda-feira seguinte ao casamento, a tia mais nova, lady Adelaide Ludley, visitou a rainha, com quem mantinha amizade. Ela exaltou a conduta da nova duquesa e também seu bom gosto. Ao saber que a rainha admirara o vestido de lady Clara Fairfax, lady Adelaide observou que a Maison Noirot privilegiava quase exclusivamente os comerciantes britânicos – uma causa valorizada pelo coração de Sua Majestade. Ela mencionou que as irmãs Noirot eram fundadoras da Sociedade das Costureiras para a Educação de Mulheres Desafortunadas – outro ponto a favor delas. Lady Adelaide concordou com a rainha quando ela disse que a duquesa de Clevedon, ao decidir manter sua loja, apresentou à corte um dilema social. Por outro lado, a duquesa agiu pelos princípios morais ao não se mostrar disposta a abandonar suas clientes nem as jovens mulheres que estava treinando para se tornarem costureiras. De qualquer maneira, como lhes explicara o duque, não se


pode esperar que uma artista desista de sua arte. No fim, lady Adelaide recebeu permissão para apresentar a nova duquesa à rainha. Ela o fez durante a recepção seguinte, em homenagem ao aniversário do rei, celebrado no dia 28 de maio. Em determinado momento durante as festividades, o rei mandou chamar Clevedon e conversou com ele em particular. As risadas de Sua Majestade foram ouvidas no salão. Quando Clevedon voltou para ficar ao lado da esposa, ela indagou: – O que era tudo aquilo? – A princesa Erroll da Albânia – disse Clevedon. – O rei perguntou por ela. Acho que conseguimos. Eles decidiram que sou excêntrico, e você, irresistível. – Não seria o contrário? – E faz diferença? – Não. Marcelline baixou a cabeça e ele ouviu um som que logo reconheceu. – Duquesa, você está sorrindo? Ela levantou o olhar, as risadas dançando em seus olhos negros. – Só estava pensando: essa deve ser a maior trapaça que qualquer Noirot ou DeLucey fez até hoje. – E pensar que é apenas o começo.

Poucos dias depois, durante um passeio no Park St. James, a Srta. Lucie Cordelia Noirot permitiu que a princesa Victoria admirasse Susannah. A boneca, como não poderia deixar de ser, estava vestida para a ocasião, usando uma peliça lilás e um chapéu de paille de riz, com acabamentos de fita branca e duas pequenas plumas.


Agradecimentos Obrigada: Às modistas e alfaiates da loja Margaret Hunter, no distrito histórico de Colonial Williamsburg, com um agradecimento especial à proprietária e criadora de roupas coloniais típicas, Janea Whitacre e ao alfaiate Mark Hutter, pela ajuda que me prestaram com relação a numerosos detalhes da arte de vestir e por dividir comigo, de maneira tão generosa toda a sua experiência e entusiasmo; A Chris Woodyard, por sua ajuda inestimável em relação a bonecas, casas demolidas e todo tipo de pergunta irritante que me viesse à cabeça; A Susan Holloway Scott, pelos momentos de tempestade, assim como por sua sagacidade habitual e seu apoio moral; A meu marido, Walter, por sua visão cinematográfica, pelos incessantes encorajamento e inspiração, e pelas inúmeras demonstrações de impávida coragem; A Cynthia, Nancy e Sherrie, por aquilo que sempre fazem. E, é claro, a Trinny e Susannah.


Sobre a autora © 2008 Walter M . Henritze

Loretta Lynda Chekani nasceu em 1949 numa família albanesa. Assim que aprendeu a escrever, passou a pôr no papel as histórias que inventava. Formou-se em inglês pela Clark University, onde trabalhou meio período como professora ao mesmo tempo que escrevia roteiros. Foi quando conheceu um produtor que a incentivou a publicar suas histórias. Os dois acabaram se casando. Com o sobrenome do marido, Loretta Chase vem publicando romances históricos desde 1987, pelos quais ganhou vários prêmios, inclusive dois RITA, da Associação Americana de Escritores de Romances, um deles por O príncipe dos canalhas, também publicado pela Arqueiro. www.lorettachase.com


CONHEÇA O PRÓXIMO LIVRO DA SÉRIE

Escândalo de cetim


Prólogo Observe seu ar indomado e seus cachos ciganos, negros como carvão. Note seu semblante aristocrático (para não dizer arrogante), esteja ele sorrindo para uma bela dama ou olhando com malgrado para um credor servil. Revista da Corte. “Esquetes da vida real”, 1835.

Londres. Quinta-feira, 21 de maio de 1835, de manhã bem cedo. Os gaudérios sabiam como dar uma festa. Nas noites de quarta-feira, após dançar ou jogar cartas com o crème de la crème da sociedade no Clube Almack’s, o grupo mais desregrado de Londres se divertia em outro tipo de lugar. Além da mesa de roleta e dos jogos de azar, a casa de Carlotta O’Neill oferecia atividades mais apimentadas com mulheres de reputação duvidosa, que trabalhavam como damas de companhia da atual rainha das cortesãs de Londres. Harry Fairfax, o conde de Longmore, naturalmente estava presente, embora aquele não fosse o tipo de lugar que seu pai, o marquês de Warford, gostaria que seu herdeiro frequentasse. Entretanto, Longmore havia decidido havia muito tempo que atender aos desejos do pai era o caminho mais fácil para o tédio mortal. Com 27 anos, era completamente diferente dos pais, sob todos os aspectos. Havia herdado do tio-avô, lorde Nicholas Fairfax, não apenas a aparência – cabelos e olhos negros, um físico atlético e alto –, mas o talento para fazer o que não devia. Assim sendo, lá estava lorde Longmore, na casa de Carlotta. Ela, por sua vez, estava caída sobre ele, exalando ondas de perfume e conversando. Por enquanto. – Mas o senhor os conhece intimamente – dizia ela. – Precisa nos contar como é a aparência da nova duquesa de Clevedon. – Morena – respondeu ele, observando a roleta girar. – Bonita. Diz que é inglesa, mas age como uma francesa. – Meu caro, isso nós poderíamos ter descoberto lendo o Spectacle. O Foxe’s Morning Spectacle era o principal jornal de escândalos de Londres. O marquês de Warford o chamava de asqueroso, mas o lia, apesar de seus nobres princípios. Embora relutassem a confessar, todo mundo lia o Spectacle, desde alcoviteiras e cafetões até a Família Real. Longmore


sabia que cada detalhe publicado a respeito da esposa do duque de Clevedon fora artisticamente trabalhado por Sophia Noirot, a irmã loura da nova duquesa: malévola modista durante o dia, principal espiã de Foxe à noite. Longmore se perguntou onde Sophia estaria naquela noite. Ele não a vira no Almack’s. Modistas, em especial as ligeiramente francesas, tinham tanta chance de conseguir um convite para o clube quanto de se tornarem invisíveis. Mas Sophia Noirot tinha truques próprios e, disfarçada de serviçal, era capaz de meter aquele corpo elegante e curvilíneo em qualquer lugar que desejasse. Era assim que descobria os vários segredos publicados no escandaloso jornal de Foxe. A roleta parou de girar, um dos sujeitos à mesa praguejou, e a meretriz que atuava como crupiê arrastou uma pilha de fichas na direção de Longmore. Ele pegou as fichas e as entregou a Carlotta. – Quer que eu guarde seus ganhos em um lugar seguro? – perguntou ela. Ele riu. – Sim, minha cara, mantenha-os em segurança. Compre para você uma lembrancinha também. As sobrancelhas bem delineadas dela subiram. Até um instante atrás, quando visões de Sophie Noirot passaram requebrando por sua mente, o plano de Longmore era o mesmo que o de Carlotta: ir para o quarto. Carlotta deveria estar a serviço de lorde Gorell, mas ele, embora bastante rico, não era animado o bastante para que lhe oferecer uma diversão completa. Dependente de uma mesada e dos ganhos na roleta, Longmore provavelmente não era rico o bastante para manter uma amante como Carlotta. Além disso, embora não duvidasse de que possuía a energia e a inventividade necessárias para manter o interesse dela, ocorreu-lhe que ela não seria capaz de manter o seu interesse por mais que cinco minutos. Até para seus imprevidentes padrões, essa possibilidade não justificava um grande investimento financeiro nem o tédio subsequente, ao ser obrigado a ouvir o discurso do pai sobre gastos superiores a mesadas. Em outras palavras, Longmore havia se cansado dela em poucos minutos. Pouco tempo depois de abandonar seus ganhos, ele partiu com dois de seus amigos e duas das funcionárias de Carlotta. Encontraram um fiacre e, depois de uma breve discussão, dirigiram-se para uma casa de jogos de péssima reputação, nas cercanias da St. James’s Street. Longmore conseguiria uma boa briga naquele local. Entediado com a conversa dentro da carruagem, ele olhou para fora da janela. O sol nascia cedo nessa época do ano e, embora a janela estivesse suja, ele conseguia enxergar bem. Uma mulher malvestida, carregando uma cesta velha, deixava claro que não era uma das numerosas rameiras de Londres, mas uma pessoa a caminho do trabalho, enquanto seus superiores da alta classe voltavam de alguma festa. Ela se movia com rapidez, mas não o suficiente. De repente, saindo de um beco, uma figura agarrou sua cesta e a derrubou no chão, no meio da rua. Longmore abriu a porta da carruagem e pulou para fora do veículo em movimento, ignorando os gritos e apelos dos companheiros. Tropeçou, recuperou o equilíbrio e correu atrás do ladrão. Em um horário de maior movimento, ele teria perdido o sujeito de vista. Mas era de manhã bem


cedo e não havia quase ninguém no caminho de Longmore. Ele não raciocinava, apenas corria com uma fúria cega. Quando o homem entrou em um paço estreito, Longmore não pensou na possibilidade de uma emboscada ou perigo. O sujeito estava prestes a alcançar uma porta. Provavelmente seus comparsas o aguardavam do outro lado. Longmore chegou primeiro. Agarrou o ladrão e o jogou contra a parede mais próxima. O sujeito bateu com a cabeça, deixando cair a cesta. Embora não pudesse estar muito ferido, o bandido permaneceu onde estava, de olhos fechados. – Eu não me levantaria se fosse você – alertou Longmore. – Covarde imundo! Atacando mulheres! Longmore pegou a cesta e olhou ao redor do paço. Os cúmplices do ladrão poderiam aparecer para ajudar o amigo. Mas ele não teve essa sorte. A área estava silenciosa, embora Longmore tivesse consciência de que estava sendo observado. Saiu andando e entrou na Piccadilly. Poucos minutos depois, encontrou a dona da cesta. Ela estava recostada na frente de uma loja, chorando. – Não precisa mais chorar. Aqui estão seus preciosos pertences. – Ele tirou algumas moedas do bolso e as colocou nas mãos da moça, junto com a cesta velha. – Onde você estava com a cabeça, correndo por aí sem prestar atenção no que se passa ao seu redor? – E-eu precisava chegar ao trabalho... milorde. Ele não perguntou como ela sabia que ele era um lorde. Todos na cidade conheciam o conde de Longmore. – Ladrões e aristocratas bêbados perambulando pelas ruas, procurando problemas, e você sem uma arma – disse ele. – O que há de errado com as mulheres nos dias de hoje? – Nã-não sei. Ela tremia como vara verde. Estava cheia de hematomas e sujeira, por causa da queda. Teve sorte de não ter sido atropelada por nenhum dos inúmeros arruaceiros bêbados que voltavam para casa, após uma noite de excessos. – Venha comigo – disse Longmore. Fosse por estar perturbada demais para raciocinar, ou por sentir-se intimidada – ele costumava causar esse efeito, até mesmo nos seus iguais –, ela o seguiu até o fiacre, parado do outro lado da rua. Os amigos bêbados de Longmore poderiam ter seguido em frente, mas pararam para assistir ao espetáculo. – Todos para fora – ordenou Longmore. Os companheiros emitiram alguns sons de protesto, mas saíram cambaleando do veículo, todos encarando a insípida moça. – Não faz seu tipo, Longmore – disse Hempton. Crawford balançou a cabeça. – Devo dizer que seus padrões estão ficando muito baixos. Longmore os ignorou. – Para onde estava indo? – perguntou à moça.


Ela olhou para Longmore, depois para os amigos dele, e depois para as vagabundas. – Não se importe com eles. Ninguém está interessado nas suas coisas. Só queremos chegar à próxima festa. Aonde você quer que o cocheiro a leve? Ela engoliu em seco. – Por favor, milorde, eu estava a caminho da Sociedade das Costureiras para Educação de Mulheres Desafortunadas. – Que nome comprido... – disse Crawford. – Eu trabalho lá. Vou chegar tarde. Ela deu o endereço a Longmore, que o passou ao cocheiro, com ordens para deixar a moça em seu destino na metade do tempo. Caso contrário, ele o encontraria e lhe daria um excelente motivo para se mover devagar. Ele ajudou a moça a subir na carruagem, bateu a porta e fez sinal para o cocheiro partir. Ao fazer isso, pensou nas costureiras. Uma em particular: a loura. Deixando os companheiros com a função de encontrar outro fiacre, Longmore continuou a pé, sozinho, percorrendo a curta distância até a St. James’s Street. Para chegar ao Crockford’s Club, ele precisava passar pelo White’s Club, do outro lado da rua e, mais adiante, pela Maison Noirot, onde residiam as modistas francesas. Ele passou pela porta da loja. Parou e olhou para trás, para cima, para os andares superiores onde, por motivos que não conseguia entender, duas das três irmãs Noirot ainda moravam. Seguiu em frente até o Crockford’s, onde começou a perder enormes quantias de dinheiro por alguns minutos, antes de ver sua sorte mudar e começar a ganhar um bom dinheiro. Após cerca de uma hora de crescente monotonia, ele saiu do Crockford’s. Para os padrões da Alta Sociedade, ainda era inacreditavelmente cedo. No entanto, pessoas subiam e desciam a rua St. James: alguns poucos veículos e pedestres. As lojas ainda não estavam abertas. Ele sabia que a Maison Noirot só abria às dez horas, muito embora as costureiras – um regimento delas – entrassem às nove. Ao longo das últimas semanas, ele havia adquirido uma noção geral dos hábitos de Sophia Noirot. Ele esperou.


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Sumário Créditos Prólogo Capítulo um Capítulo dois Capítulo três Capítulo quatro Capítulo cinco Capítulo seis Capítulo sete Capítulo oito Capítulo nove Capítulo dez Capítulo onze Capítulo doze Capítulo treze Capítulo quatorze Capítulo quinze Capítulo dezesseis Capítulo dezessete Epílogo Agradecimentos Sobre a autora Conheça o próximo livro da série Conheça outros títulos da Editora Arqueiro Informações sobre a Arqueiro

Sedução da seda 1 - as modistas- loretta chase  
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