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HERMENÊUTICAS

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HERMENÊUTICAS


Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Angélica llacqua C R B-8/7057

Beale, G. K. O uso do Antigo Testamento no Novo Testamento e suas implicações hermenêuticas / G. K. Beale; tradução de Marcus Throup. - São Paulo: Vida Nova, 2014. 144 páginas. ISBN 978-85-275-0558-1 Título original: The C ogn itive P erip h era l Vision o f B ib lica l A uthors, The Use o f H osea 11:1 in M a tth ew 2:15: O ne M o reT im e e C a n th e B ib le B e C om pletely In sp ired by G od a n d Y et S till C ontain E rrorsf A R esponse to Som e R ecen t “E v a n gclica l ”Proposals. 1. Bíblia N T - Crítica e interpretação 2. Bíblia N T - relações com o antigo testamento I. Título II. Throup, Marcus 13-0985

CD D -225.6 índices para catálogo sistemático: 1. Bíblia NT - interpretações teológicas


o uso do A N T I G O TESTAMENTO no N O V O TESTAMENTO e suas implicações

HERMENÊUTICAS

G .

K .

Tradução:

BEALE Marcus Throup

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VIDA INOVA


The C ognitive P eriph eral Vision o f B iblical A uthors (palestra proferida em 2013 no Westminster Tlieological Seminary) (Copyright ©2013, de G. K. Beale); The Use o f H osea 11:1 in M a tth ew 2:15: One M ore Tim e (artigo publicado em JE T S [55/4 (2012)-. 697—715]) (Copyright ©2012, de G. K. Beale); Can th e B ib le B e C om pletely I n sp ir e d b y G od a n d Y et S till C ontain E rrorsí A R esponse to Som e R e c e n t "E vangélica/ ” P roposals (artigo publicado no W estm inster T heological Jo u rn a l [73 (2011), 1-22]) (Copyright © 2011, de G. K. Beale). 1." edição: 2014 Publicado no Brasil com a devida autorização e com todos os direitos reservados por S o c i e d a d e R e l i g i o s a E d i ç õ e s V i d a N o v a , C aixa Postal 21266, São Paulo, SP, 04602-970 vww.vidanova.com.br j vidanova@vidanova.com.br Proibida a reprodução por quaisquer meios (mecânicos, eletrônicos, xerográficos, fotográficos, gravação, estocagem em banco de dados, etc.), a não ser em citações breves com indicação de fonte. ISBN 978-85-275-0558-1 Impresso no Brasil IP rin ted in B razil S u p e r v is ã o E d it o r ia l

M arisa K. A. de Siqueira Lopes C o o r d e n a ç ã o E d it o r ia l

Fabiano Silveira M edeiros CoPIDESQUE

M arcelo Brandão Cipolla E d iç ã o d e T e x t o

Lucília M arques

P.

da Silva

C o o rden ação de P ro dução

Sérgio Siqueira M oura C o o r d e n a ç ã o d e R e v isã o

Fernando M auro S. Pires R e v isã o d e P ro va s

Gustavo N. Bonifácio D ia g r a m a ç ã o

A ssisnet D esign Gráfico Ltda.

C apa Haas Comunicação


Sumário

ii i

A presentação..........................................................................................7 1. A visão periférica cognitiva dosautores bíblicos.....................11 2. O uso de Oseias 11.1 em Mateus 2.15.................................... 69 3. A Bíblia pode ser completamente inspirada por Deus e ao mesmo tempo conter erros?............................................. 101 Sobre o Autor.................................................................................... 137


Apresentação iI

; ii

or ocasião do 9? Congresso Brasileiro de Teologia V ida Nova, realizado em 2014, Edições Vida Nova teve o privi­ légio de receber no Brasil, como um de seus palestrantes convi­ dados, o dr. G. K. Beale, eminente teólogo especialista nos usos que o Novo Testamento (NT) faz do Antigo Testamento (AT). Tão logo o autor encaminhou as três palestras que pro­ feriria no Congresso — duas delas extraídas dos periódicos americanos em que foram primeiramente publicadas e uma inédita, apenas tendo sido proferida em 2013 no Westminster Theological Seminary — , surgiu a ideia de brindarmos nossos leitores com esses três artigos, inéditos no Brasil, que repre­ sentam uma excelente contribuição em teologia bíblica, espe­ cificamente na área de estudos do uso do AT no NT.

P

* * *

“Como lidar com as citações de textos do AT no NT que apa­ rentemente modificam o significado do original ou se chocam com ele?” Essa é a pergunta que G. K. Beale responde em seu ensaio “A visão periférica cognitiva dos autores bíblicos”. Após um a breve apresentação e avaliação positiva de conceitos epistemológicos desenvolvidos por E. D. Hirsch e M ichael Polanyi, Beale detalha sua própria teoria de que, na “visão periférica cognitiva” dos autores sagrados, geralmente encontramos um conhecimento implícito ou secundário que complementa o significado explícito comunicado por eles. Por isso, quando o estudante da Bíblia depara com uma interpretação neotestamentária de uma passagem do AT que


parece divergir do significado ou uso original, muitas vezes a investigação desses elementos implícitos, contidos no contexto mais amplo do texto-fonte, tende a elucidar o caráter da apli­ cação neotestamentária. Essa é a conclusão de Beale, enraizada nos indícios que se depreendem do cuidadoso estudo de vários exemplos bíblicos.

Em “O uso de Oseias 11.1 em M ateus 2 .1 5 ”, G. K. Beale aborda, com perspicácia e sabedoria, uma das mais controver­ tidas citações do Antigo Testamento no Novo. Após traçar um esboço dos principais comentaristas e linhas interpretativas em relação ao uso de Oseias 11.1 em Mateus 2.15, Beale ilumina o assunto com sua arguta percepção. Sem ceder aos defensores da ideia de que M ateus lança mão de uma hermenêutica “ilegítim a”, Beale alia-se a intér­ pretes conceituados, como R.T. France, na conclusão de que o evangelista utiliza o texto de Oseias como parte de uma abor­ dagem essencialmente tipológica. Não obstante, a visão de Beale é original, uma vez que retrocede até o texto-fonte de Oseias e argumenta que para o próprio profeta do AT, em algum momento fu tu r o da história de Israel, Deus reeditaria os acontecimentos do Exodo relem­ brados em Oseias 11.1. Assim, Beale defende a ideia de uma continuidade intrín­ seca entre o A ntigo e o Novo Testamento, demonstrando a partir de dados contextuais que a interpretação feita por Mateus de Oseias 11.1 condiz com a palavra profética tal como fora anunciada pelo profeta e cumprida na história de Jesus.

Em meio aos ventos de estranhas doutrinas que sacodem a igreja dos nossos tempos, G. K. Beale apresenta, em “A Bíblia


pode ser completamente inspirada por Deus e ao mesmo tempo conter erros?”, uma sólida defesa da doutrina da inerrância bíblica, em conformidade com a visão evangélica tradicional e ortodoxa. Além de oferecer um panorama dos debates mais recentes nessa área, Beale questiona comentaristas e críticos que dizem seguir a linha evangélica tradicional, mas defendem o conceito da “inerrância limitada”. Para Beale, se a Bíblia é divinamente inspirada, ela não pode conter erros de qualquer gênero que seja; caso contrário, entraria em jogo o próprio caráter de Deus. Essa conclusão é defendida por meio de uma análise do Apocalipse de João, na qual Beale argumenta que a natureza verídica e completamente confiável das Escrituras decorre do caráter “verdadeiro” do próprio Cristo. Na conclusão, Beale mostra que os princípios da iner­ rância atrelados ao Apocalipse também se aplicam aos outros livros bíblicos.

É com grande satisfação que Edições Vida Nova oferece esses três ensaios de G. K. Beale em um só volume. O fio condu­ tor dos três artigos é a defesa da sã doutrina, no que se refere à inerrância bíblica, ao combate àqueles que resistem a essa doutrina e à cuidadosa explicação da dinâmica hermenêutica do uso do AT no NT. Com sua erudição característica e atenção aos detalhes exegéticos importantes, temos certeza de que G. K. Beale será grandemente apreciado entre os cristãos evangélicos do Brasil. O conhecimento das obras de Beale aprofundará e enri­ quecerá nosso conhecimento das Escrituras Sagradas e, acima de tudo, aquecerá nosso coração! Os Editores


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A visão periférica cognitiva dos autores bíblicos

Introdução Neste ensaio, abordaremos o problema dos usos neotestamentários de textos do AT, em que, aparentemente, o autor do NT dá um significado que diverge do original, no contexto do AT. Um dos exemplos é João 19.36, que explica o fato de os ossos de Jesus terem sido preservados intactos na crucificação em cum­ primento de Exodo 12.46 — a proibição de “quebrar qualquer osso” do cordeiro da Páscoa. O problema é que Êxodo 12.46 é a descrição histórica de um mandamento dado aos israelitas, não uma profecia sobre o Messias. Como devemos lidar com esses textos problemáticos? Essas passagens espinhosas suscitaram diferentes reações. Alguns simplesmente afirmam que os escritores do NT erra­ ram. Outros opinam que sua abordagem interpretativa era falha, sem, porém, invalidar a inspiração do texto bíblico. Ainda outros classificam os autores do NT como exegetas peculia­ res, que não devem ser julgados pelos nossos padrões moder­ nos. E há ainda aqueles que consideram sua exegese legítima, mas alertam para o fato de que o método deles é tão singu­ lar, que não devemos ousar imitá-los. Por fim, há quem argu­ mente que, com a devida cautela, é possível im itar o método dos autores do NT. Neste ensaio, defenderei a tese de que o conhecimento dos autores do A T a respeito do assunto sobre o qual discur­ savam ia além do significado explícito expresso pontualmente


sobre aquele assunto. Sua intenção explícita, nesse caso, cami­ nhava de braços dados com uma compreensão implícita mais abrangente. Em alguns casos, em vez de se concentrarem no significado explícito ou direto do AT, os autores neotestamentários desenvolvem essa compreensão im plícita mais abran­ gente. Essas interpretações do NT podem parecer estranhas à primeira vista, mas, quando se investiga a compreensão mais ampla dos autores bíblicos, elas se tornam mais compreensíveis.

Exemplos contemporâneos de significados explícitos e implícitos Quando um marido diz que ama a esposa, as principais inter­ pretações de sua declaração podem ser: “Estou incondicional­ mente comprometido com você./ Priòrizo você./ Considero você mais importante do que eu./ Amo [Gosto de] você como amo a [gosto de] mim mesmo./ Quero me sacrificar por você./ Quero me sacrificar por você da mesma maneira que Cristo se sacrificou pela igreja”. Em seguida, seria possível listar várias aplicações dessas declarações (p. ex., “Vou ajudá-la nas tare­ fas domésticas para que você não fique sobrecarregada”). O im portante é que qualquer uma dessas afirmações pode ser desdobrada em outros significados que, embora secundários, na realidade fazem parte do sentido da afirmação original. Imagine, ainda, alunos pedindo que o professor esclareça a interpretação inicial dele a respeito de uma passagem bíblica. Poderia haver muitas outras frases que, embora am pliem a interpretação original, não foram explicitam ente expressas naquela formulação. Do mesmo modo, quando um professor (ou Paulo) diz que todos os crentes estão “em Cristo”, o que isso significa? Essa expressão aparece ao longo de todos os escritos paulinos, e o apóstolo frisa diferentes aspectos da “união com Cristo”, em diferentes contextos: justificação/ santificação/ rege­ neração/ adoção filial/ nova criação/ reconciliação/ imagem de


Deus etc. Quando, por exemplo, Paulo enfoca a adoção filial, acaso isso significa que ele não tinha em mente a santificação como tema conexo e secundário? Os especialistas chamam as afirmações originais nas ilus­ trações acima de declarações “descritivas e densas”, ou seja, proposições que podem ser desdobradas em camadas suces­ sivas.1 Esse conceito de “descrição densa” ajuda imensamente a explicar alguns casos problemáticos do uso do AT no NT. Antes de tudo, porém, será preciso elucidar melhor a noção de “descrição densa”.

0 conceito de visão periférica cognitiva A noção de conhecimento periférico cognitivo ajuda a entender melhor o fato de as asserções humanas terem significados explí­ citos e implícitos. Todos os seres humanos têm visão central e visão periférica. A visão periférica é definida, em regra, como a capacidade de enxergar objetos e movimentos fora da linha direta do olhar. Eis uma descrição típica da visão periférica: Visão periférica é a parte da visão que ocorre fora do centro do olhar. A noção de visão periférica engloba um vasto conjunto de pontos não centrais no campo de visão. A visão periférica “dis­ tante” ocorre nas bordas do campo visual; a visão periférica “média” ocorre no meio do campo visual; e a visão perifé­ rica “próxima” (às vezes denominada visão “paracentral”) é 'V., p. ex., Kevin Vanhoozer, Is There a M ean in g in this Text? The Bible, the Reader, an d the M o rality o f L ite rary Knowledge (G rand Rapids: Zondervan, 1998), p. 2 6 4 - 2 6 5 ,2 8 4 - 2 8 5 , 3 1 3 -3 1 4 . [Edição em português: H á um S ig ­ nificado Neste Texto? Interpretação B íblica, os Enfoques Contemporâneos (São Paulo: Vida, 2010).] V. também John Frame, The Doctrine o f the Knowledge

o f God (Phillipsburg, NJ: P & R, 19 8 7 ), 2 1 5 - 2 4 1 , cuja noção da natureza “vaga” da linguagem coincide com a ideia de Vanhoozer sobre a “descrição densa”. [Edição em português: A D o u trin a do Conhecimento de D eus (São Paulo: Cultura Cristã, 2 010).]


ad jac en te ao c e n tro d o o lh ar. O s m a la b a rista s, p o r ex em p lo , fazem g ran d e uso da visão p e rifé ric a. O o lh a r deles n ão segue d ire ta m e n te as tra je tó ria s d e c ad a o b je to ; a n te s, m ira m u m p o n to d efin id o em p len o ar, de fo rm a que quase to d a a in fo r­ m ação n ecessária p ara o m alab arism o seja p erceb id a na região p e rifé ric a p ró x im a .2

Todos vemos e percebemos outros objetos além daqueles diretamente em foco, e essa percepção é uma configuração bio­ lógica padrão. Da mesma forma, existe um fenômeno parecido no “olho” da mente. Ao fazermos afirmações sobre qualquer assunto, temos em foco o significado direto, mas esse significado é complexo e pode ser ampliado. Sua expansão é controlada. Os objetos contemplados pela visão central dos nossos olhos se relacionam com os objetos da visão periférica, à medida que todos fazem parte do mesmo campo geral de visão. Do mesmo modo, os objetos do nosso foco de significado central se rela­ cionam com outros objetos que se encontram no campo mais amplo da nossa visão periférica cognitiva, uma vez que todos integram o mesmo campo geral de visão cognitiva. Nesse sen­ tido, é natural que o significado direto seja interpretado à luz do campo significativo mais amplo, pois tudo isso faz parte de um campo único de significado. Esse campo mais amplo de significados relacionados é uma configuração padrão do nosso conhecimento. Creio que algo parecido acontece com os autores do AT e do N T quando fazem afirmações diretas com um significado explícito. H á sempre um campo de significados relacionados que ampliam o significado explícito de forma apropriada. Todo orador e escritor, inclusive da Antiguidade, está consciente de informações que vão além daquilo que ele comunica direta­ mente em seu ato de fala. Portanto, a visão periférica cognitiva 2W ikip ed ia, “Peripheral vision”.


é uma teoria do conhecimento em si, da qual a visão periférica dos olhos é uma analogia. Antes de apresentarmos exemplos bíblicos desse conceito, abordaremos certas teorias semelhantes sobre o conhecimento humano que darão maior fundamentação filosófica à tese da visão periférica cognitiva apresentada acima.

0 conceito de "tipo pretendido" de E. D. Hirsch A esse respeito, a noção de Hirsch de “tipo pretendido” — uma explicação do significado verbal intencional — pode nos ajudar. Para Hirsch, o tipo pretendido tem duas característi­ cas: 1) uma entidade cognitiva, cujos contornos incluem certos elementos e excluem outros. A entidade pode ser represen­ tada por meio de um único elemento entre todos os que se encontram dentro de seu legítimo contorno; 2) o tipo, como entidade cognitiva, pode ser representado por mais de um ele­ mento, contanto que todos os elementos representativos este­ jam dentro do contorno.3 Digamos que, em pleno verão, um dos meus alunos me faça uma visita e tome um copo de limonada no meu jardim. Eu lhe digo: “Num dia de verão, o que eu mais gosto é de tomar uma limonada ao som dos C oncertos de B randenburgo, de Bach”. Alguns dias depois, meu aluno (aluno 1) visita outro aluno (aluno 2) e diz: “Na terça-feira, estive na casa de Greg Beale, e sentamos no jardim ouvindo os C oncertos d e B ra n ­ denburgo, de Bach. Ele me disse: ‘Num dia de verão, o que eu mais gosto é de tomar uma limonada ao som dos C oncertos de B ra n d en b u rgo, de Bach’”. Então, digamos que o aluno 2 lhe pergunte: “Será que, num dia de verão, Greg Beale gosta mais de tomar uma limonada ao som de Bach do que de passear à beira do rio?”. O aluno 2 terá me compreendido mal, enten­ dendo minhas palavras de forma demasiado literal. A minha 3Hirsch, V alidity in In terp retatio n (N ew Haven: Yale U niversity Press, 1987), p. 4 9 -5 0 .


intenção era apenas evidenciar o fato de que nenhum a obra de arte m usical me agrada tanto quanto os C oncertos d e B randen­ burgo, de Bach. Eu não estava me referindo a todas as outras coisas agradáveis que poderia fazer num dia de verão. M as o aluno 2, diante desse esclarecimento, pergunta: “Será que Greg Beale também gosta de ouvir outras músicas de Bach e músi­ cas de Handel, Albinoni, Pachelbel, Haydn e Vivaldi?”. A res­ posta a essa pergunta seria “Sim”. Na verdade, eu incluiria ainda outros compositores barrocos, e até alguns músicos clássicos, como Becthovcn. Isso quer dizer que, na realidade, a declaração de que gosto dos C oncertos d e B randenburgo, de Bach, abran­ gia não somente todas as obras de Bach, mas também toda a música barroca. Sc, quando fiz a declaração, o aluno pergun­ tasse “Ao afirmar que gosta dos ConceYtos de B randenburgo, de Bach, você está querendo dizer que também gosta de todas as obras de Bach, bem como da música barroca em geral?”, a minha resposta seria “Sim”. Porém, caso o aluno 2 perguntasse se minha afirmação sobre Bach incluía o rock pesado, o rap ou até um rock mais suave como You A in t N othing B u t a 1Iou n d D og, de Elvis Presley, a resposta seria um sonoro “Não”. Um princípio geral contido em minha declaração original sobre os C oncertos de B randenburgo determinou, portanto, que as músi­ cas de Elvis Presley— juntamente com várias outras músicas não barrocas — estivessem excluídas do significado que eu pre­ tendia dar à declaração. E isso só pôde ocorrer porque a minha visão periférica ou tácita incluía um tipo específico de música e excluía outros tipos possíveis de obras musicais que não se acham dentro dos contornos do tipo barroco. E certo que o foco estreito da minha intenção explícita e direta não se diri­ gia a todas as obras musicais que me agradam, mas apenas aos C oncertos d e B randenburgo, de Bach. Diante do olho da mente, eu contemplava apenas essa composição de Bach; no entanto, caso o aluno sugerisse outras composições dentro do gênero


barroco, eu concordaria que elas caberiam dentro da minha visão periférica cognitiva im plícita e deveriam ser incluídas como partes secundárias do significado original. Outra maneira de expressar isso é dizer que, em últim a análise, é o contexto musical mais amplo da minha experiência musical que deve ser levado em consideração na interpretação da minha afirmação simples sobre uma composição específica de Bach. Podemos modificar um pouquinho esse exemplo. Digamos que, referindo-me aos C oncertos de B randenburgo, de Bach, eu pretendesse aludir não somente a essa composição individual, mas também a um tipo particular de “coisa que me agrada”, e pretendesse conscientemente, portanto, referir-me “a todos os possíveis elementos pertencentes àquele tipo”4 de música bar­ roca, excluindo todos os que não coubessem dentro dos con­ tornos das composições barrocas semelhantes. Nesse caso, até a minha referência explícita específica fazia parte de um todo maior, embora nem todos os componentes deste estivessem explicitamente em foco na minha imaginação. Assim, mesmo nesse caso, a visão periférica da imaginação ainda abrangeria mais peças musicais da categoria ampla da música barroca, indo além da música citada na minha afirmação representa­ tiva original. Também nesse caso, meus alunos poderiam suge­ rir outras peças musicais que eu pudesse incluir no meu “tipo pretendido” de música barroca ou dele excluir, peças que não faziam parte da minha afirmação representativa explícita, mas entrariam como integrantes da minha intenção im plícita ou visão periférica.5 Tais significados implícitos dentro do meu “tipo pretendido” podem ser chamados de “conotações” interpretativas do significado verbal explícito.6 4Hirsch, ibid., p. 49. sEsse exemplo de música clássica encontra-se (embora modificado) em Hirsch, Validity in Interpretation, p. 4 8 -4 9 . 6Ibid., p. 6 1-6 7 .


Em relação a isso, os significados implícitos ou secundá­ rios são parecidos com icebergs: a maior parte está submersa, mas a parte debaixo da água tem de estar organicamente ligada à parte acima da superfície. A metáfora passa a ideia de que o significado autoral submerso está organicamente conectado ao significado explícito. Embora a ponta visível do iceb erg (o significado explícito) seja a menor parte do bloco maior sub­ merso (o significado implícito), é ela que determina o que faz e o que não faz parte do todo (outros pedaços de gelo flutuan­ tes ou destroços encontrados na água etc.). “Nenhuma parte do todo que não tenha ligação com o gelo acima da superfície pode fazer parte do ic e b e r g ”1 Embora essas metáforas físicas às vezes induzam a erro, esta parece bastante pertinente, visto que a identidade de um significado verbal depende de uma coerência comparável, em parte, à ligação física. Caso haja aspectos de um texto que apontem para significados im plí­ citos, estes só farão parte do significado verbal do texto “se forem condizentes com um tipo conscientemente pretendido que defina o significado como um todo”.8 Outros significa­ dos sugeridos, mas incoerentes, não farão parte do significado verbal pretendido. Portanto, nas palavras de Hirsch: ... é possível pretender um et cetera sem ter plena consciência dos elementos individuais que pertencem ao conjunto. A aceitabili­ dade de qualquer candidato a participação no et cetera depende inteiramente do tipo do significado pretendido como um todo.9 7Ibid., p. 54. 8Ibid., p. 54. 9Ibid., p. 49. A concepção de Hirsch acerca de um significado determi­ nante se baseia no pressuposto epistemológico de Husserl de que a mente é capaz de perceber a ideia de um objeto experimentado, sendo capaz também de “demarcar” aquele ato mental de form a que a ideia permaneça a mesma


Tais “conotações” subconscientes do significado explícito cabem dentro da estrutura global daquilo que o autor preten­ dia.10 Os atos mentais de um autor não são tão acessíveis quanto os significados secundários de seu tipo pretendido. Jeannine Brown faz um belo resumo do pensamento de Hirsch sobre esse ponto: Os atos mentais, por outro lado, são exatamente as motivações autorais que não foram incluídas no significado. Isto é, os atos mentais são a experiência inacessível do autor ao escrever o texto (p. ex., os sentimentos e pensamentos ocultos do autor). A dis­ tinção de Hirsch entre significado e atos mentais proporciona um meio para que a interpretação evite sondar o estado mental do autor, embora ainda trabalhe com a noção da intenção auto­ ral [tanto no nível explícito quanto no implícito] [...]. Como N. T. Wright expressa de forma clara: “... a crítica [...] [não] deve tentar descobrir, lendo as entrelinhas de um poema, o que o autor comeu no seu café da manhã ou se, porventura, havia se apaixonado pela empregada”. [...] O objetivo da interpretação será, então, apurar a intenção comunicativa do autor [explícita e implícita], e não suas motivações [acréscimos entre colche­ tes do autor].11 ao longo do tempo {Aims o fIn terpretation [Chicago e Londres: Chicago U niversity Press, 19 7 8], p. 4 -5 ). Um a perspectiva hermenêutica explicita­ mente teísta acrescentaria o pressuposto de que a transcendência soberana e imutável do Deus onisciente é o fundamento perpétuo de “um significado absoluto transcendente e determinante para todos os textos” (D. M cC artney e C. Clayton, L et the R eader U nderstand [W h eaton , 111.: Bridgepoint/ Victor Books, 1994], p. 284); o significado determinante de todos os textos é completamente conhecido pelo Deus onisciente, o qual é “imutável, não limitado pelo tempo, de form a que o significado que ele depreende de um texto é fixo” (ibid., p. 284). 10C f. Brown, Scripture as Com m unication, p. 39, e o resumo que ela faz das ideias de Hirsch. “ Ibid., p. 3 9-4 0.


Portanto, o fato de o significado verbal pressupor certo contorno para ser comunicável não exclui o significado sub­ consciente. E preciso que o significado secundário se inscreva dentro de um contorno que determina o significado verbal em foco.12 Isso significa que a regra para a aceitação ou rejeição dos significados implícitos é a mesma utilizada para os significados explicitamente conscientes.13 M uitos desses significados sub­ conscientes jazem “à margem” do contorno do significado ou da consciência do autor, ou seja, jazem naquilo que comparamos à parte mais externa da visão periférica cognitiva. Essas “mar­ gens” são turvas.14 Em razão dessa turbidez, só até certo ponto é possível aventar a hipótese de que um significado implícito esteja presente. Essas hipóteses baseiam-se em indícios que, em diferentes graus, apontam para a possibilidade ou proba­ bilidade de o significado secundário realmente estar em foco. Não obstante, Hirsch conclui mais adiante em seu livro: “Dizer que o significado verbal é determinado não significa excluir as complexidades do sentido [significados secundários im plíci­ tos]; antes, significa apenas insistir em que o significado de um texto é aquilo que é, e não centenas de outras coisas” (acrésci­ mos entre colchetes do autor).15 Um traço negativo de todos os significados implícitos é que nenhum deles estava diretamente no foco do autor. Esse traço é a raiz de uma incerteza, uma vez que é impossível saber ao certo quanto determinados temas eram desconsiderados pelo autor. A noção do tipo pretendido, desenvolvida por Hirsch, é 12V. ibid., p. 9 9 -1 0 0 , em que Hirsch diz que o propósito de um pronun­ ciam ento é o que determ ina o grau de ênfase de uma conotação incons­ ciente: se o pronunciam ento foi pretendido como parte de um a oração, mandam ento, elogio, ensaio acadêmico, advertência etc. 13Hirsch, V alidüy i/i Inlcr/m itifiou, p. 51. 14Brown, Scri/>/mr as ( lom iiuiiiiai/ioii , p. 1 0 1 , 1 0 3 , 1 0 5 , 1 0 8 , 1 1 1 , 1 1 3 . !SI lirscli, Vi/ii/i/y in lii/rr/>ir/ti/ioii, p. 230.


uma abordagem que fornece certa orientação, ainda que geral e não sistematizada, para apurar quais significados implícitos podem ser incluídos no significado verbal pleno.16

A noção de conhecimento tácito ou secundário, de Michael Polanyi O conceito hirschiano de “tipo pretendido” e o nosso conceito de visão periférica cognitiva podem ser suplementados pelo ponto de vista filosófico de M ichael Polanyi. Embora a pers­ pectiva de Polanyi não seja idêntica às duas esboçadas acima, a convergência entre elas é considerável.17 Alguns especialistas entendem que os escritores neotestamentários somente respeitam os contextos do AT quando citam a passagem de forma precisa e, sobretudo, no seu sentido histórico explícito.18 Caso contrário, os autores não estariam respeitando o contexto. 16Hirsch, Validity in Interpretation, p. 5 1 -5 2 . ,7M eu ex-aluno de doutorado e assistente de pesquisa, M itch Kim, aler­ tou-me sobre a importância de Polanyi com respeito à minha própria abor­ dagem, que se encontra ainda em fase de desenvolvimento. A lém de eu ter estudado Polanyi pessoalmente, esta seção sobre seus escritos muito deve ao artigo de M itch Kim sobre esse tópico, “Respect for Context and A u th o rial Intention: Setting the Epistemological Bar”, in P a u l an d Scripture, SBL E arly C h ristian ity and Its Literature 9, org. por C . D. Stanley (A tlanta: SB L, 2 0 12 ), p. 1 1 5 - 1 2 9 . Por outro lado, procurei dar mais consistência às ideias de Polanyi, especialmente com a ajuda de Esther L. M eek, L o n gin g to K now (G rand Rapids: Baker, 2 00 3 ) e L o v in g to K now (G rand Rapids: Baker, 2 011), em que ela desenvolve a abordagem epistemológica de Polanyi. A lém disso, na conclusão deste ensaio, há uma resposta para a objeção de Steve M oyise ao artigo de Kim , que aplica as ideias de Polanyi ao uso do A T no N T (v. M oyise, “Latency and Respect for Context: a Response to M itchell Kim”, in P a u l an d Scripture , SB L Early Christianity and Its L ite­ rature 9, org. por C. D. Stanley [Atlanta: SB L, 2 0 1 2 ], p. 1 3 1 -1 3 9 ). 18P. ex., v. Steve M oyise, “Does Paul Respect the Context o f His Q u o tations?”, in P a u l an d Scripture , SB L Early C hristianity and Its Literature 9, org. por C. D. Stanley (Atlanta: SB L , 2 0 1 2 ), p. 9 7 - 9 9 ,1 1 2 .


Em minha opinião, os conceitos de visão periférica cogni­ tiva e de “tipo pretendido”, já apresentados, mostram que esse critério de respeito ao contexto é demasiadamente estreito. Antes de esmiuçarmos essa visão muito restrita de alguns estu­ diosos, é bom conhecer um pouco das ideias de Polanyi, que fornece algumas perspectivas que ajudam a definir de forma ainda melhor a intenção autoral. Ele diz que o conhecimento tácito ou secundário implica que “sabemos mais do que somos capazes de comunicar”.19 Polanyi aplica isso a todas as esfe­ ras do conhecimento humano. Antes de aplicar suas ideias à intenção autoral e ao significado, a concepção de Polanyi deve ser brevemente explicada e ilustrada. Para Polanyi, o conhecimento tem dois aspectos: o tácito (secundário) e o explícito ou focal (Polanyi os chama respec­ tivamente de “proximaTe “distai”20). Em qualquer ação ou ato de conhecimento, o sujeito está tacitamente consciente dc uma coisa que é necessária para a execução de outra coisa, o foco da nossa consciência. Polanyi explica sua teoria desses dois tipos de conhecimento por meio, principalmente, de várias analogias. Por exemplo, quando realizamos uma atividade física qualquer, estamos conscientes dos movimentos musculares necessários para desempenhar aquela atividade para a qual nossa aten­ ção explícita se dirige.21 O cego encontra seu caminho com a ajuda da bengala. Ele sente as vibrações na palma da mão e nos dedos, e sua consciência das vibrações na mão “se trans­ forma numa imagem da ponta da bengala tocando os objetos”, 1''Polanyi, The Tacit Dimension (Garden C ity: Doubleday 8c Co., 1966), p. 10 ; v. também suas demais obras sobre o assunto, em que ele considera seletivam ente a mesma noção: P ersonal K nowledge (Chicago: U niversity o f Chicago, 1958); M ichael Polanyi e H arry Prosch, M e a n in g (Chicago e Londres: U niversity o f Chicago, 1975).

'"Ibid., p. 10. 'llm U p . 11.


fazendo com que a sensação imediata na mão passe a ser um foco secundário.22 É assim que o esforço interpretativo converte sensações sem significado em sensações racionais, afastando-as um pouco da sensação original. Nossa consciência das sensações na mão as entende à luz do seu significado posicionado na ponta da bengala. O mesmo ocorre quando utilizamos alguma ferra­ menta. Interpretamos o significado do impacto da ferramenta em nossas mãos pelo efeito que ela exerce sobre aquilo a que a aplicamos. Podemos chamar isso de aspecto semântico do conhe­ cimento tácito.23 Ao tocar uma música, uma exímia pianista não tem como foco os rudimentos do piano, nem fica concentrada nos movi­ mentos da sua mão — se fizesse isso, ficaria paralisada e não poderia tocar. Antes, os fundamentos da técnica e seus movi­ mentos manuais se tornam secundários na sua consciência (conhecimento tácito ou secundário), ao passo que sua atenção explícita se dirige para a execução da peça musical. Quando falamos com alguém, não nos concentramos no movimento dos nossos lábios e língua nem no som particular que sai deles — caso contrário, nossa fala seria excessivamente pausada e, no fim, perderia o sentido. Em vez disso, temos como foco o efeito da comunicação,24 ao passo que o significado do voca­ bulário e da sintaxe integram a consciência secundária. Nesse sentido, Polanyi também faz uma distinção entre a consciência focal (= consciência explícita/distai) e consciência secundária (= consciência tácita ou proximal).25 A consciência tácita não é nem falada, nem expressada explicitamente, mas é implícita 22ibid., p. 12. 23Ibid.,p. 12 -1 3 . 24Ibid.,p. 18 -1 9 . 25Polanyi, PersonalK now ledge , p. 5 5 -5 9 , 6 1 -6 2 , 9 2-9 3.


ou subentendida (cf. o sentido dicionarizado). De modo seme­ lhante, a consciência secundária é suplementar, secundária ou subordinada (cf. o sentido dicionarizado).26 Essa analogia com a fala é bem ilustrada pela experiên­ cia de um dos meus antigos alunos de doutorado, M itch Kim. Quando se mudou dos Estados Unidos para o Japão, na quarta série, M itch ficou confuso com as letras estranhas nas placas e com os sons indecifráveis que ouvia na rua. A mãe dele contra­ tou um professor particular para que Mitch aprendesse japonês, de forma que a gramática e o vocabulário básico do japonês se tornaram objetos de sua atenção focal. Depois de um tempo, M itch começou a sair pelo bairro para brincar com as crian­ ças japonesas. Inicialmente, sua atenção estava concentrada em lembrar as palavras corretas para designar “bola”, “jogo”, “correr” e “jogar” e em formar frases coerentes para se comunicar com os colegas. À medida que as palavras e estruturas gramaticais iam sendo internalizadas e iam se tornando tácitas, as palavras começavam a sair com mais naturalidade, e Mitch passava a se comunicar com facilidade e fluência. A partir desse momento, eram o conhecimento da gramática e o vocabulário da língua japonesa que ocupavam o lugar do conhecimento secundário, tácito ou indireto, deixando de ser o foco de sua atenção. Eram apenas pressupostos, pois a atenção de M itch passava agora a ter como foco as brincadeiras e os jogos com as crianças.27 E importante observar que Polanyi não entende a cons­ ciência tácita como uma percepção “inconsciente” que contrasta 2hU m dos sinônimos das palavras “secundário” e “tácito”, utilizado mais raramente por Polanyi em referência ao conhecimento, é a palavra “latente” (p. ex., ibid., p. 10 3 , 3 17 ), que, segundo o sentido dicionarizado, significa aquilo que está “oculto, escondido” ou está “presente ou existente, ainda que não evidente, exposto ou desenvolvido”. 27“Respect for Context and Authorial Intention: Setting the Epistemological B ar”, p. 120.


com a consciência explicitamente focal. Em vez disso, embora a consciência focal sempre seja explicitamente consciente, a consciência secundária ou tácita “pode ter diversos graus de consciência”28 e “pode existir em qualquer nível de consciência, do subliminar ao pleno”.29 Esse insight de Polanyi sobre o conhecimento secundário ou tácito assemelha-se ao nosso conceito de “visão periférica cognitiva” e ao “tipo pretendido” de Hirsch, sendo, portanto, aplicável à controvertida questão da intenção autoral nos estu­ dos bíblicos. Jeannine Brown afirma que os escritores do NT “ecoam ou evocam um texto ou conceito do Antigo Testamento sem que tenham plena consciência de o estarem fazendo”.30 Consequentemente, Brown alega que a intenção autoral deveria ser compreendida de modo mais lato, incluindo também “aque­ les significados secundários aos quais o autor não necessaria­ mente presta atenção ou dos quais nem sempre tem consciência quando escreve, mas que são pertinentes ao significado geral pretendido pelo autor no texto”.31 Segundo Brown, aquilo que os autores querem dizer é “mais do que aquilo a que prestam total [direta] atenção”.32 Isso assemelha-se muito à minha ideia da visão periférica cognitiva, ao “tipo pretendido” de Hirsch e à 28Polanyi, PersonalK now ledge , p. 9 2-9 3. 29Polanyi e Prosch, M ean in g , p. 39. 30Jeannine K. Brown, Scripture as Communication (Grand Rapids: Baker, 2 00 7 ), p. 10 8 ; cf.p. 1 0 9 -1 1 0 . 31Ibid., p. 10 8 ; cf. p. 10 9 -1 1 0 s . 12Ibid., p. 10 8 (acréscimos entre colchetes do autor). A distinção entre a intenção e a atenção do autor foi postulada por Vanhoozer, para quem o significado não se limita à “consciência focal do autor, [... mas] também pode cobrir coisas das quais o autor está apenas tacitamente consciente (ou não consciente)”. V. Vanhoozer, Is there a m ean ing in this Textf, p. 2 3 9 . [A citação aqui transcrita em português foi extraída de H á um Significado Neste

Texto? Interpretação B íb lica: os Enfoques Contemporâneos , trad. por A lvaro H attnher (São Paulo: Vida, 2005), p. 316.]


concepção de conhecimento tácito de Polanyi: “sabemos mais do que sabemos saber”.33 Nesse contexto, a conclusão de M itch ell Kim é que o conhecimento secundário ou tácito... ... nos ajuda a perceber que a intencionalidade que não se mani­ festa claramente não deve ser vista como um modo de referên­ cia inferior; muito pelo contrário, ela é indissociável de todas as intenções comunicativas. Nossa intenção sempre vai além daquilo que temos como objeto direto da nossa atenção. Ao escrever estas palavras, não estou prestando completa atenção às estruturas gramaticais da língua inglesa, nem aos padrões aceitáveis do discurso acadêmico, nem muito menos aos movi­ mentos dos meus dedos no teclado. Antes, a minha atenção está voltada para a formulação mais plena do conjunto da intenção autoral. Ainda assim, o conhecimento latente da gramática, do discurso acadêmico e da digitação possibilita esta comunica­ ção. Limitar a intenção autoral à atenção autoral consciente é desnecessário e reducionista. Nossa intenção sempre vai alem do foco direto da nossa atenção. De modo semelhante, os autores bíblicos podem ter um conhecimento latente dos textos cscriturísticos mesmo quando sua atenção está concentrada em outras questões. O fato de a atenção consciente não se voltar para determinados assuntos não significa que esses assuntos cm nada estejam relacionados com a interpretação. Geralmente, não temos em foco as estrutu­ ras interpretativas pelas quais interpretamos o mundo. Embora a posse plena desse conhecimento latente pelo leitor não seja necessária para que o autor alcance sua intenção comunicativa, esse conhecimento acrescentaria ressonâncias e nuanças que ajudariam na interpretação. A elucidação desse conhecimento latente traz uma compreensão mais rica e profunda do signifi­ cado e da importância das referências bíblicas.34 33Polanyi, The Tacit Dimension, p. 4 -1 0 . 34Kim , “Respect for Context and Authorial Intention: Setting the Epistem ological Bar”, p. 1 2 1 - 1 2 2 .


Portanto, quando um escritor neotestamentário se refere a uma passagem do AT, tanto a compreensão explícita quanto a compreensão secundária do que o autor veterotestamentário quis dizer constituem aquilo que poderíamos chamar de “res­ peito” do autor do NT pelo significado contextual do AT. Além do significado explícito do texto específico citado e explicita­ mente abordado pelo autor do NT, esse significado contextual pode incluir ideias do contexto imediato ou próximo do AT, bem como ideias de outros livros veterotestamentários relacio­ nadas com o significado do texto em foco. Para Polanyi, outro aspecto do conhecimento secundário ou latente, apenas implícito no material apresentado acima, é o modo pelo qual se fazem descobertas em qualquer inicia­ tiva humanista ou científica. Alguém depara com fenômenos particulares deste mundo que, à primeira vista, parecem não ter ligação entre si. Para melhor compreender o mundo, essa pessoa estabelece ligações entre esses fenômenos por inter­ médio de um esquema lógico (quando isso acontece pela pri­ meira vez na história, dizemos que foi feita uma “descoberta”). Suponhamos que uma pessoa deseje aprender mecânica de automóveis, mas não saiba nada do assunto. Ela olha para o motor retirado do carro e vê apenas as peças separadas umas das outras. O aprendiz de mecânico vê as peças, mas ainda não sabe juntá-las, nem sabe dizer como elas funcionam quando estão juntas. Com o passar do tempo, após estudar manuais sobre motores e aprender na prática, o aprendiz descobre como as peças se encaixam para que o motor funcione harmoniosa­ mente. A medida que a habilidade do aprendiz vai aumentando, ele entende o esquema completo do motor, o que, por sua vez, ajuda-o a compreender a função de cada peça. As peças soltas são aquilo que Polanyi chama de consciência tácita ou secundá­ ria, e o esquema completo de montagem das peças é ofo co , já que é esse o alvo do mecânico.


Se esse mecânico resolver ser piloto de fórmula 1, terá de aprender um novo conjunto de habilidades. A habilidade do piloto não se mede pelo conhecimento que ele tem da mecâ­ nica do automóvel, mas, sim, pelo modo que dirige o carro: a utilização das marchas, a técnica das curvas na pista, os freios, a velocidade, a extensão da pista e a movimentação dos carros rivais. Nesse caso, o conhecimento da estrutura e do funciona­ mento do motor torna-se uma consciência tácita ou secundária, e a atenção concentrada na soma dos elementos da corrida passa a ser ofo co explícito. A consciência tácita mescla-se com o foco explícito, mas não faz parte do foco central. Aliás, certos segui­ dores de Polanyi consideram que o foco secundário é “seme­ lhante à nossa visão periférica”, uma vez que, “por definição, a visão periférica não pode ser posta é‘m foco! Por outro lado, dependemos dela constantemente”.35 Semelhantemente, acreditamos que os autores neotestamentários olhavam, por exemplo, para um livro do AT e obser­ vavam as particularidades dos versículos (secundários) que se somam para formar o livro. Em seguida, com a habilidade que tinham na leitura, eles discerniam determinadas estruturas literárias formadas por dado grupo de versículos (p. ex., uma estrutura baseada em um tema comum, que é o foco explí­ cito). Então, acontecia de citarem somente um daqueles versí­ culos como o foco explícito de seu argumento no contexto do NT, interpretando-o, porém, à luz da estrutura como um todo (que, agora, ganha o status de conhecimento secundário). Sem o conhecimento da estrutura completa, a interpretação ou uso que o escritor neotestamentário faz de um único versículo como foco explícito pode parecer equivocada e desvinculada do con­ texto literário imediato. No entanto, quando os intérpretes da atualidade compreendem a estrutura mais ampla, o versículo 35M eek, L o n gin g to K now, p. 84.


citado encontra seu lugar e faz sentido. O desafio consiste em o comentarista da atualidade discernir corretamente (!) a estru­ tura identificada pelo autor bíblico (a consciência secundária), a fim de compreender o objetivo (o foco explícito) da citação do versículo individual. Um discípulo de Polanyi usa um exemplo que ilustra muito bem as ideias esboçadas acima: Olhamos para a lua prateada e raciocinamos que estamos vendo parte de uma esfera, não o todo de um crescente [...] A dife­ rença crucial é que enxergamos o espaço vazio como algo oculto [...] no caso da lua, traçamos uma figura e, na lacuna dessa figura, afirmamos que a figura está presente, embora aquela parte esteja oculta.36 De forma semelhante, o uso de determinado versículo veterotestamentário por dado autor do NT parece não fazer sentido em seu contexto — há uma lacuna na compreensão — até o leitor perceber a estrutura completa em que ele se insere no livro do AT. A partir desse momento, aquele versículo individual do AT encontra seu lugar dentro dessa estrutura e a completa.

Alguns exemplos de conhecimento secundário (tácito), "tipo pretendido" ou visão periférica cognitiva relacionados ao uso do AT no NT A té o presente momento, examinamos e exemplificamos a teoria do “tipo pretendido”, de Hirsch, a do “conhecimento tácito”, de Polanyi, e a minha própria teoria da “visão periférica cognitiva”. Em minha opinião, essas três perspectivas conver­ gem, isto é, têm em comum a ideia de que sabemos mais do que pretendemos comunicar explicitamente. Vamos agora aplicar esses conceitos a exemplos específicos do uso do AT no NT. 36M eek, L o n gin g to K now , p. 1 2 1 .


O uso de Isaías 22.22 em Apocalipse 3.7 Quando um autor do N T se refere a determinado texto do AT, pode-se perguntar qual aspecto do contexto veterotestamentário ele tem em mente, uma vez que os autores do NT exibem graus variados de consciência contextual quando fazem referência a passagens do AT.37 Em cada caso, como João em Apocalipse, é provável que o autor tenha em mente de forma explícita um ponto específico do AT que, na maioria das vezes, é evidente para a maioria dos leitores. Além disso, talvez o autor tenha em mente, de forma implícita, outros aspectos que não se evidenciam imediatamente no seu foco explícito. Caso tivéssemos a oportunidade de perguntar diretamente ao autor, logo após a escrita, quais outros pontos implícitos ele tinha em mente, é provável que ele identificasèe alguns. Caso pergun­ tássemos se outros aspectos contextuais poderiam ser incluí­ dos na sua intenção secundária (ou dentro dos parâmetros do seu “tipo pretendido” ou “conhecimento tácito”), ele provavel­ mente reconheceria alguns.38 Para ir além do que aparenta ser o significado claro e explícito do autor, o intérprete precisa fazer certas conjecturas, envolvendo graus diversos de possi­ bilidade e probabilidade. Esses significados plenos não devem ser confundidos com os significados múltiplos e contraditórios defendidos pelos seguidores da teoria reader-response (teoria da resposta do leitor). 37No que se refere aos graus da consciência contextual, v. G . K. Beale, Jo h n s Use o f the O ld Testam ent in R ev elatio n , JSN T Sup p . 1 6 6 (Sheffield: Sliellield Academic Press, 1998), p. 7 3 -7 5 . ■'“Talvez seja isso que Steve Moyise tem em mente quando diz que “não se deve lim itar a discussão do efeito dos ecos intertextuais à intenção cons­ ciente de João. Não há nenhuma razão para presumir que João pensou estra­ tegicamente em todas as possibilidades do elo estabelecido entre o salmo 8 9 e o C risto vivo [em A pocalipse 1 .5 ] ” [acréscimos entre colchetes do autor]. ( The O ld Testament in the Book o f R evelation, JSN T Sup p [Sheffield: Sheffield Acadcm ic Press, 19 9 5], p. 118.)


Em Apocalipse 3.7, há uma clara alusão a Isaías 22.22, um dos muitos exemplos encontrados em Apocalipse.39 Os dois textos dizem o seguinte: Is 2 2 .2 2

A p 3 .7

"Eu lhe porei sobre os ombros a chave

"... aquele Í...1 que tem a chave de Davi: o que abre e ninguém pode fechar, e o que fecha e ninguém pode abrir..."

da casa de Davi: ele abrirá, e ninguém fechará: fechará, e ninguém abrirá".

A alusão ao AT (quase uma citação) estabelece uma cor­ respondência inicial (e uma contraposição) entre Eliaquim e Cristo: assim como Eliaquim, na condição de rei, Cristo teria poder absoluto sobre o trono de Davi. Enquanto o reinado de Eliaquim era principalmente político e local (em Israel), o de Cristo era primordialmente espiritual, além de univer­ sal. Cristo tinha autoridade sobre os que entravam no reino e sobre os que estavam sujeitos ao domínio da morte. Além disso, porém, há dimensões contextuais dentro do contexto imediato de Isaías, assim como no contexto mais amplo do livro de Isaías, que poderiam fazer parte do “tipo pretendido” ou “conheci­ mento tácito” de João. Por exemplo, o contexto diretamente subsequente a Isaías 22.22 revela outras possíveis correspon­ dências entre Eliaquim e Cristo, correspondências que talvez também estivessem ressoando na mente de João (de Jesus) e que, como argumentaremos abaixo, não são somente analógi­ cas, mas também tipológicas. 1. U m a vez que o ofício de E liaquim provavelmente in c lu ía um a d im ensão sacerd o tal, tal dim ensão 3l-lPara uma explanação completa desse texto, v. Beale, Handbook on the

N ew Testam ent Use o f the O ld Testam ent (G ran d Rapids: Baker, 2 0 1 2 ) , p. 1 3 3 -1 4 8 . [Edição em português: M a n u a l do Uso do A n tigo Testamento no Novo Testamento (São Paulo: Vida Nova, 2 013).]


estaria incluída, em escala maior, junto com ofício real de Cristo.40 2. Assim como Eliaquim havia sido um pai para o povo, Cristo o seria em uma escala maior (observe a referên­ cia ao “pai eterno” na profecia messiânica de Isaías 9.6, provavelmente ecoada na referência de Eliaquim como “pai” em Is 22.22; v. abaixo). 3. Assim como o poder de Eliaquim era igual ao poder do rei, o poder de Cristo seria igual ao poder de Deus. 40A paráfrase targúmica de Isaías 2 2.22 (“Na mão dele colocarei a chave do santuário e a autoridade da casa de D av i”) entende que o ofício de Eliaquim tem caráter sacerdotal (o v. 2 4 do T argum tam bém considera os parentes de Eliaquim sacerdotes que dependem dele para sua glória). Igualmente, séculos depois, o M id rash R a b á de Exodo X X X V II. 1 inter­ preta Eliaquim em Isaías 2 2.23 como “sumo sacerdote”. Não é mera coin­ cidência que, em Apocalipse 3 .12 , Cristo também seja visto como dotado de poder sobre aqueles que entram no Templo de Deus, o que aponta para outras associações sacerdotais (“A quele que vence, o farei uma coluna no tem plo do meu D eus”; note também a descrição provavelmente sacerdo­ tal de C risto em A p 1 .1 3 , v. Beale, R evelatio n , p. 2 0 8 -2 0 9 ). Pode ser que o status permanente do vencedor como coluna do templo, em Apocalipse 3 .1 2 , dê continuidade às imagens de Isaías 22.22ss., em que os parentes de Eliaquim recebem glória ao “se pendurar nele como se pendura algo em um prego bem fixo na parede”. Alguns manuscritos gregos até dizem que Eliaquim foi erguido como uma “coluna”, em Isaías 2 2 .2 3 (Vaticano, O rígenes e Q jrrazem o term o stêlõ\ “Levantarei como coluna” ou “Farei um a inscrição em uma coluna”; seguindo H. K raft, D ie O ffenbarung des Johannes [LINT 16a; Tübingen: M oh r (Siebeck), 1974], p. 82; cf. J. Fekkes,

Isaiah a n d Prophetic Traditions in the Book o f R evelation: Visionary Antecendents a n d Their D evelopm ent [JS N T S S 92; Sheffield: J S O T Press, 19 9 4], p. 1 3 0 -1 3 3 , embora cético quanto à influência da LXX.) A o contrário dos dependentes de Eliaquim, que perderam sua glória e posição no palácio quando ele finalmente caiu (cf. Is 2 2 .2 3 -2 5 ), os seguidores de Jesus nunca serão deslocados de sua posição no templo-palácio, uma vez que Jesus, o “verdadeiro” Messias, jamais perderá sua posição de rei na presença do seu Pai (portanto, “coluna” é uma metáfora da permanência).


4. Assim como a autoridade de Eliaquim havia sido conso­ lidada pelo Senhor, que a fizera prosperar (Is 22.22,23), também a autoridade de Cristo havia sido consolidada não somente por Deus Pai, mas pelo próprio Cristo; Eliaquim não tinha em si as qualidades intrínsecas nem o poder para garantir a segurança e a prosperidade, mas Cristo, estando na posse dos atributos divinos de “santo” e “verdadeiro” (3.7), era capaz de fazê-lo.41 5. Assim como a habilidade de Eliaquim no desempe­ nho das funções políticas de seu ofício proporcionaria glória temporária a seus parentes físicos (Is 22.22-24), a habilidade de Cristo no exercício de seu ofício (morte, ressurreição e subsequente reinado) faria com que sua descendência espiritual partilhasse de sua glória eterna (cf. Ap 4.9-11 e 5.12,13 com 21.11,23-26). 6. Se, por um lado, o ofício de poder régio de Eliaquim não duraria para sempre (Is 22.25), por outro, o de Cristo seria eterno. Embora seja difícil saber ao certo se essas seis ideias contextuais de Isaías estavam, em certa medida, na mente de João (e de Jesus), os paralelos, tomados em conjunto, revelam por que essa passagem do AT teria sido tão adequada para ser apli­ cada a Cristo. Em outras palavras, esses paralelos faziam parte 41A expressão “o santo, o verdadeiro” é um atributo divino em outros trechos de Apocalipse (p. ex., 6 .10 ), de m odo que o seu uso aqui sugere a divindade de Jesus. Na verdade, o adjetivo hagios (“santo”) é aplicado a Yahweh quase exclusivamente em Isaías, como parte do título “o santo de Israel” (aproximadamente 20x). Esse panorama isaiânico provavelmente se faz presente, antecipando a citação direta de Isaías 2 2.22 e as demais alusões a Isaías, em 3.9, em que Jesus assume o papel de Yahweh e seus seguido­ res representam o verdadeiro Israel (v. G . K. Beale, The Book o f R evelation [N IG T C ; G rand Rapids, EUA/Cambridge, Inglaterra: Eerdmans e C arlisle: Paternoster, 19 9 9], p. 2 8 7 -2 8 9 ).


do “conhecimento tácito” de João, ao passo que ele atentava especificamente para a citação de Isaías 22.22. Para concluir, Isaías 22.22 apresenta uma imagem de Cristo como o sobe­ rano e rei absoluto do reino messiânico, o cumprimento final daquilo que apenas parcialmente se projetara na figura histó­ rica e no ofício de Eliaquim. Todavia, é possível que haja ainda mais conteúdo incluído no conhecimento tácito que João tinha de Isaías 22.22. O uso que João faz da passagem de Eliaquim em Isaías 22.22 não é meramente analógico, mas parece ser um indicador tipológico indireto. Isto é, João via a narração histórica de Isaías sobre Eliaquim como uma prefiguração profética de Cristo. O que nos autoriza a chegar a essa conclusão? Primeiramente, há a referencia em Isaías 22.21-23 quanto-à “chave da casa de Davi” ser posta nos ombros de Eliaquim [ = a responsabilidade admi­ nistrativa pelo reino de Judá]. Do mesmo modo, Eliaquim é mencionado como “pai” dos que estão cm “Jerusalém e para a casa de Judá”. Tudo isso, mais a ideia de ele ser um “trono de honra”, teria facilitado essa compreensão profética de Isaías 22.22, uma vez que essa linguagem é notavelmente paralela àquela da profecia sobre o futuro governador de Israel, em Isaías 9.6,7: “... O governo está sobre seus ombros, e o seu nome será |... |Pai eterno”—■o que se assenta “no trono de Davi”. É pro­ vável que Isaías 22.22 aplique a Eliaquim a terminologia do rei messiânico vindouro de forma proposital, a fim de retratá-lo como uma figura potencialmente capaz de cumprir a profecia de Isaías 9. Como observamos, não foi o propósito de Deus que Eliaquim se tornasse aquela figura; por isso, a palavra do decreto de Deus fez com que Eliaquim caísse sem cumprir a predição de Isaías 9. Por outro lado, Deus prometeu que, em algum momento futuro, a profecia seria cumprida naquele que correspondesse à descrição profética: “o zelo do Senhor dos Exércitos fará isto”.


Se a ligação sugerida entre Isaías 9.6,7 e 22.22 for cor­ reta, é provável que, até certo ponto, o próprio Isaías estivesse ciente dessa conexão. Nesse caso, o profeta veria Eliaquim como alguém que falhou, mas cuja falha apontava para o sucesso final daquele que cumpriria a profecia. Assim, Apocalipse 3.7 entenderia que o esquema de Isaías 9 se refletiu de modo par­ cial e temporário em Eliaquim, mas se cumpriu de modo defi­ nitivo em Jesus. Portanto, é viável dizer que o “conhecimento tácito” de João incluía esse entendimento que o próprio Isaías tinha da ligação tipológica entre Isaías 9 e Isaías 22. Esse “conhecimento tácito” da visão tipológica de Isaías pode ser confirmado a partir de duas observações: 1. Teria sido fácil vincular a referência a Eliaquim como “meu servo”, em Isaías 22.20, às profecias isaiânicas do Servo messiânico contidas nos capítulos 40—53, já que a expressão ocorre cinco vezes no primeiro contexto.42 2. Importantes aqui são as alusões intencionais às pas­ sagens proféticas do “servo” de Isaías (Is 43.4; 45.14; 4 9.23) no contexto im ed iatam en te subsequente de Apocalipse 3.9. Porém, em vez de visar à nação de Israel (como em Isaías), agora essas alusões são aplica­ das à igreja, embora o motivo de tal aplicação consista em compreender a identificação coletiva da igreja com Jesus, na condição de servo de Deus e verdadeiro Israel43 42A mesma expressão ocorre nove vezes em Isaías 4 1 — 45 em referencia a Israel como nação infiel; o Servo messiânico é contrastado com a nação, embora a represente. Excluídos 2 2.22 e 4 1 — 45, a expressão ocorre somente duas vezes em Isaías: com respeito ao profeta, em 20.3, e a Davi, em 37.35. 43V. Beale, R evelatio n , p. 3 8 6 -3 8 9 . Lem bre-se de que C risto e a igreja cumprem as profecias do A T sobre Israel, o que faz parte do pressuposto mais adiante considerado, em referência a Jesus e à igreja como represen­ tantes do verdadeiro Israel dos últim os tempos.


(p. ex., Is 49.3-6 e o uso de 49.6 em Lc 2.32, A t 13.47 e At 26.23). Os seis aspectos contextuais adicionais de Isaías (relacio­ nados acima), junto com o raciocínio tipológico do próprio pro­ feta, que acabamos de explicar, ganham apoio contextual em vários graus dentro do contexto imediato e amplo de Apoca­ lipse.44 Até que ponto é possível ou provável que esses aspectos adicionais de Isaías estejam incluídos no “tipo pretendido” ou no “conhecimento tácito” de João?45 Qualquer resposta acar­ retará juízos de possibilidade e probabilidade. No entanto, não podemos im aginar que seja possível tirar da alusão de João a interpretação que bem quisermos. Certos parâmetros herme­ nêuticos excluem muitas coisas que João certamente não pre­ tendia. Tanto o conceito de “tipo pretendido” de Hirsch quanto a noção de “conhecimento tácito” de Polanyi demonstram que há limites para as ideias não explicitamente expressas. Logo, a investigação desses juízos é viabilizada e largamente contro­ lada pelas teorias epistemológicas. Ao abordar o uso do AT nos escritos paulinos, Richard Hays faz um comentário que pode ser aplicado igualmente ao presente caso de Isaías em Apocalipse 3.7: A leitura das Sagradas Escrituras foi profundamente formativa para Paulo. Uma das conseqüências disso é que, dc tempos 44Para outros aspectos contextuais, tanto em Isaías quanto no NT, que João pudesse ter cm mente e que, possivelmente, contribuíram para sua visão tipológica de Isaías 22.22, v. Beale, Johns Use o f the O T in R evelation , p. 1 2 0 - 1 2 1 , e idem, Handhook on the N T Use o f the OT, p. 14 2 -1 4 5 . '' Poderíamos também falar aqui do “tipo pretendido” de Jesus, uma vez que João registra o que Jesus disse, embora seja possível que João fizesse uma paráfrase interpretativa das palavras de Jesus, à semelhança dos Evangelistas sinóticos em certas ocasiões. A qui estamos lidando tanto com a perspec­ tiva de Jesus quanto com a de João; as duas não são incompatíveis entre si.


em tempos, ele ecoa textos inconscientemente [isto é, impli­ citamente] ou de passagem [na periferia do olho da mente], sem pensar [explicitamente] em todas as possíveis conotações das ligações intertextuais criadas pelo seu próprio discurso. Os leitores poderão reconhecer os ecos de Isaías em Paulo e legitimamente desenvolver certas implicações teológicas a partir das associações intertextuais que não teriam ocorrido [explicitamente] ao próprio Paulo (acréscimos entre colchetes so autor).46 Os colchetes inseridos acima mostram que, embora a opinião de Hays confirme de modo geral a minha postura, certas res­ salvas importantes são necessárias para aplicar a visão dele à minha própria. Entre outras possíveis investigações, poderíamos exami­ nar o uso de Oseias 11.1 em M ateus 2.15, da mesma forma que analisamos Isaías 22.22 em Apocalipse 3.7. Como é que Mateus pode tratar uma afirmação histórica de Oseias sobre o Exodo de Israel como uma profecia cumprida na ida de Jesus para o Egito e seu posterior retorno? Ao que parece, a inter­ pretação de Mateus imputa erroneamente um caráter profético a um texto meramente histórico. Uma análise mais completa revela que o próprio Oseias, no capítulo 11 e em outros tre­ chos, já entendia o primeiro Exodo de Israel como prefiguração tipológica do êxodo do fim dos tempos, com o Messias à frente. Portanto, Mateus apenas segue a hermenêutica tipoló­ gica periférica de Oseias, cujo cumprimento inicial ele encontra em Jesus.47 4í)Richarcl Hays, The Conversion o f the Im agin atio n : P a u l as Interpreter o f

Israels Scripture (G rand Rapids: Eerdmans, 2 0 0 5 ), p. 49. 47Veja G. K. Beale, “The Use o f Hosea 1 1 .1 in M atthew 2.15: One M ore T im t " .f o u r n a l o f E v an g e lical Theological Society 55 (Fali o f 2 0 1 2 ), p. 6 9 7 715 . [O artigo aqui referenciado, com as páginas aqui indicadas, constitui o capítulo 2 desta coletânea.]


O uso de Oseias 1.10 e 2.23 em Romanos 9.25,26 A comparação dos textos assume a seguinte forma: Os 1.10 e 2.23

Rm 9.25,26

2.23: "Eu os semearei para mim na

9.25: "Como diz ele tam bém em

terra

Oseias:

e terei compaixão de lo-Ruama; e direi

Chamarei 'Não-meu-povo' de 'Meu-

a Lo-Ami.Tu és meu povo: e ele dirá: Tu és o meu Deus".

-povo': e a 'Não-Amada' de 'Amada'".

1 .1 0 : "... e no lugar onde se dizia a

9.26: "E SUCEDERÁ QUE NO LUGAR

eles: Não sois meu povo, se dirá: Vós

EM QUE LHES FOI DITO: VÓS NÃO SOIS MEU POVO: AÍ SERÃO CHAMADOS

sois filhos do Deus vivo".

FILHOS DO DEUS VIVO".

Como no caso do exemplo anterior (Ap 3.7), meu propó­ sito aqui não é citar especialistas que tratam dos vários aspec­ tos dessas questões-chave e contestá-los,48 mas simplesmente apontar outro exemplo de “tipo pretendido” ou “conhecimento tácito” que nos ajude a entender melhor como os escritores do NT utilizam o AT. Alguns especialistas diriam que Paulo usa os textos de Oseias como meras ilustrações da salvação, o que não causaria nenhum problema interpretativo: a salvação profetizada para Israel agora se converte em uma imagem da salvação dos gentios. Por outro lado, a maioria dos especialis­ tas entende, com razão, que Paulo está indicando o início do cumprimento das profecias de Oseias.49 Isso significaria que 4íiV .,p . ex., Kim , “Respect fo r C on text and A u th o rial Intention: Setting the Epistemological Bar”, p. 13 2 -1 3 5 ; e Steven Moyise, “Latency and Respect fo r Context: a Response to M itchell Kim”, p. 1 3 2 - 1 3 4 ,1 3 7 - 1 3 8 . 49Em concordância com a associação entre Romanos 9 .2 4 -2 6 e as pro­ fecias veterotestamentárias citadas logo em seguida, em 9 .2 7 -2 9 , as quais são claramente entendidas como cumprimentos proféticos inaugurais com respeito ao remanescente dos israelitas.


as profecias referentes à salvação de Israel foram cumpridas, não somente no remanescente dos judeus, mas também entre os gentios. Por isso, alguns estudiosos alegam que Paulo des­ respeita o significado e o contexto original de Oseias. Não obstante, outros comentaristas ainda observam que a situação de Israel como “não meu povo” antes de ser trans­ formado em “meu povo”é, na realidade, a situação dos gentios. Os gentios descrentes também são “não meu povo”. De acordo com esse ponto de vista, Oseias estaria profetizando que Israel, antes da sua conversão, era idêntico aos gentios descrentes. Por isso, é natural que se aplique a profecia àqueles que são gen­ tios por etnia, cuja situação é a mesma dos judeus descrentes.50 Essa identificação do Israel descrente com os gentios é salientada de maneira impressionante em Oseias 11.8,9: Como te abandonaria, ó Efraim? Como te entregaria, ó Israel? Como te faria como Admá? Ou como Zeboim? O meu coração se comove, as minhas compaixões despertam todas de uma vez. 9Não executarei o furor da minha ira; não voltarei para destruir Efraim, porque eu sou Deus e não homem, o Santo no meio de ti; eu não chegarei com ira. No versículo 8, Deus pergunta como poderia executar juízo sobre Israel “como” fizera com Admá ou Zeboim. O versículo 9 responde que o Senhor não julgará Israel daquela forma. Mas por quê? A explicação, em parte, vem na afirmação “não tornarei a destruir Efraim” (NVI). Ao que parece, Efraim, embora não tivesse sido destruída como tribo, identificava-se coletivamente, de algum modo, com Admá e Zeboim, cidades arrasadas junto 50V., p. ex., M ark Seifrid, “Rom ans”, in Com m entary on the N ew Testa­

ment Use o f the Old Testament, org. por G . K. Beale e D. A . Carson (G rand Rapids: Baker, 2 0 0 7 ), p. 6 48 . [Edição em português: Com entário do Uso do A ntigo Testamento no Novo Testamento (São Paulo: Vida Nova, 2 014).]


com Sodoma e Gomorra. De alguma forma, misteriosa até, considerava-se que a tribo de Efraim já havia sido destruída junto com essas cidades gentílicas. Por isso, Deus diz no ver­ sículo 9: “não tornarei a destruir Efraim” (NVI). Trata-se de algo mais que uma mera comparação analógica da destruição dessas cidades gentílicas com a destruição de Efraim.51Trata-se, antes, de uma identificação de fato dessas cidades com Efraim,52 do mesmo modo que os reinos anteriores da Babilônia, Medo-Pérsia e Grécia foram identificados coletivamente com a des­ truição do quarto e último reino mundial, em Daniel 2.31-45 (identificação sugerida também em Dn 7.1-12).53 Entre as conotações de Oseias 11.8,9 está a ideia de que Efraim não é somente parecida com as cidades gentílicas: de alguma forma, fazia parte delas coletivamente! Talvez Oseias 7.8 esteja aludindo à mesma coisa: “Efraim se mistura com os povos”. Isso dá muito mais crédito à noção de que, sendo “não meu povo”, Israel encontrava-se realmente na situação dos gen­ tios descrentes (e não era apenas “parecido” com os gentios). 51Observe corno os profetas comparam frequentemente o pecado ou des­ truição de Sodoma com o pecado de Israel (Is 1.9,10; 3.9; Jr 2 3 .14 ; Lm 4.6; Ez 16 .4 6 ,4 8 ,5 5 ,5 6 ; A m 4 .11 ). Porém, ao que parece, trata-se aí de meras comparações, não de identificações coletivas. 52Sobre a identificação coletiva de Efraim com essas cidades associadas com Sodoma, v. Derek Bass e Derck Drummond, “Hoseas Use of Scripture: an A nalysis o f His H erm cncutics” (tese de doutorado, Southern Baptist llieo lo g ical Seminary, 2008), p. 2 2 2 -2 2 6 . 53O u tro exem plo em que Israel não é apenas comparado aos gentios, mas coletivamente identificado com eles, é o de M ateus 2 1 .4 3 -4 5 , em que o versículo 44b alude a D aniel 2 .3 4,35 : “Q uem cair sobre essa pedra será despedaçado, e aquele sobre quem ela cair será reduzido a pó”. Isso é assus­ tador, uma vez que, se a imagem quebrada em Daniel 2 representa os reinos gentios maléficos, agora Jesus aplica a passagem de D aniel aos judeus, o que eles, aliás, perceberam (“entenderam que Jesus estava falando deles”). A ssim , nessa passagem, Jesus identifica coletivamente os líderes judaicos com os gentios.


Qual é a relação de tudo isso com a afirmação paulina de que não só os judeus, mas também os gentios poderiam cumprir a profecia de Oseias? A resposta é que essa análise mostra que a profecia se referia, na realidade, à salvação de um povo cuja situação era a dos gentios descrentes. A ênfase de Oseias recaía diretamente sobre a saída de Israel dessa situação. À luz daquilo que observamos acima, é plausível que Oseias “compreendesse tacitam ente” (v., p. ex., Os 11.8,9) que sua profecia também poderia ser aplicada aos gentios: eles também seriam salvos de sua situação de descrentes. Paulo estaria desenvolvendo não só o significado direto de Oseias, mas também, ao mesmo tempo, seu “significado tácito” ou “tipo pretendido”, aquilo que estava na visão periférica cognitiva mais ampla de Oseias. O raciocínio de Paulo pode ter incluído sua compreensão latente de que Cristo era o verdadeiro Israel e, portanto, qual­ quer pessoa identificada com Cristo, quer judeu, quer gentio, teria parte coletivamente no verdadeiro Israel. Esse raciocínio teria facilitado para Paulo incluir os gentios no cumprimento da profecia de Oseias quanto à salvação de Israel.54 0 uso de Êxodo 12.46 em João 19.36 Essa passagem talvez seja a mais difícil até agora, uma vez que a narrativa histórica sobre o cordeiro pascal do Exodo é inter­ pretada por João como uma profecia sobre a morte de Jesus. 54Que essa ideia latente esteja em vista depreende-se da expressão “filhos do Deus vivo”, em Romanos 9.26 (citando Os 1.10 ), e da afirmação de que Cristo era o “Filho de Deus” (Rm 1.4), bem como das várias referências abre­ viadas a Jesus como “Filho”de Deus (Rm 1.3,9; 8.3,29,32). A s três referên­ cias ao “Filho”, em Romanos 8, não estão longe do contexto de Romanos 9.25,26. A identificação coletiva com Jesus como Filho de Deus ganha força na ideia da “adoção filial”, que se refere tanto aos judeus crentes quanto aos gentios, em Romanos 8 .15 ,2 3 , e também na referência aos israelitas que, na época antiga, ocupavam o lugar de “filhos adotivos” (Rm 9.4).


Após relatar que os soldados romanos não quebraram os ossos de Jesus na crucificação, João (19.36) diz: “Porque isso aconte­ ceu para que se cumprisse a Escritura: nenhum dos seus ossos será quebrado’”. De modo específico, esse uso seria profético no mesmo sentido do uso de Isaías 22.22 em Apocalipse 3.7. No caso, o fato descrito em Êxodo 12.46 apontaria, implicitamente, para aquilo que João narra a respeito da morte de Jesus. A declara­ ção “nenhum dos seus ossos será quebrado” deriva provavel­ mente de Êxodo 12.46 (ou Nm 12.9, que repete o afirmado em Êx 12.46).55 Certamente, as palavras de M oisés registra­ das nos textos de Êxodo e de Números se referem ao fato his­ tórico do sacrifício do cordeiro pascal, bem como às normas relativas ao sacrifício, normas que futuras gerações israelitas teriam de seguir. Portanto, essas afirmações contidas em Exodo e em Números são meras descrições históricas, não profecias. Então, como João 19.36 pode afirmar que na crucificação a preservação intacta dos ossos de Jesus cumpre a profecia dos textos de Exodo e de Números? A maioria dos comentaristas, senão todos, diria cpe Moisés não teve nenhum intuito pro­ fético ao compor esses textos. Por conseguinte, alguns afirma­ riam apenas que João interpretou de forma errônea esses textos do AT ou lhes imputou conceitos inteiramente novos.56 Ainda outros defenderiam a tese de que João obteve sua inspiração 5SE possível incluir também Salmos 34.20, em que a afirmação de Exodo/ Números é aplicada à proteção divina dos justos. V. Beale, Handbook on the N T s Use o f the O T [Grand Rapids: Baker, 2 0 1 2 ], p. 5 9 -6 0 . 56A respeito disso, alguns diriam simplesmente que João estava errado; outros diriam que sua abordagem exegética falha não serve de modelo, em bora aceitem como inspirado o texto que ele escreveu. A in d a outros diriam que a abordagem exegética joanina pode ser considerada falha, mas, por outro lado, os estudiosos contemporâneos precisam ter cuidado ao julgar autores antigos pelos padrões modernos de exegese.


retrospectivamente, depois da ascensão de Jesus e do derra­ mamento do Espírito. Nesse sentido, a noção profética não se encontrava na mente de Moisés, mas na intenção divina mais abrangente, que mais adiante foi revelada a João. Como o conceito da visão periférica cognitiva e as teorias de Hirsch e Polanyi podem ajudar nesse caso? Pode ser que essas noções convergentes iluminem a questão de João apreen­ der a narração de um fato histórico como algo que aponta para o futuro. É verdade que Moisés fazia uma descrição histórica do cordeiro pascal que teria efeito de prescrição para todas as gerações de israelitas. Esse era o foco direto de significado na mente de Moisés. Porém, será que é ilegítimo perguntar como Moisés teria relacionado sua declaração em Exodo 12.46 com outros escritos de sua autoria no Pentateuco? Alguns diriam que a pergunta é pura especulação. M as, na realidade, o que estamos perguntando é se os demais escritos de Moisés relacio­ nados ao Exodo estavam na sua visão periférica cognitiva ou na sua compreensão secundária quando ele escreveu a respeito do cordeiro pascal. Não podemos fazer perguntas indiscriminadas sobre o conteúdo da sua compreensão mais abrangente (p. ex., não podemos nos perguntar o que ele havia comido no café da manhã ou se havia brigado com a esposa). Somente podemos fazer perguntas relacionadas a seu foco direto — qual seja, o cordeiro pascal — e à relação deste com o acontecimento do Exodo. As informações de que dispomos se restringem ao que está escrito em Êxodo 12 e em outros lugares do Pentateuco. Portanto, não estamos tentando entrar na mente do autor com a finalidade de descobrir todo o seu conhecimento enciclopé­ dico quanto à história da salvação, conhecimento esse que não consta em outros escritos seus. Poderíam os perguntar, por exemplo, se M oisés teria ligado esse acontecim ento a outros fatos históricos e salvíficos narrados em seus outros escritos. O Exodo era o


maior acontecimento da história do povo de Deus até então; mas, anteriormente, Moisés tinha escrito sobre um fato his­ tórico salvífico ainda maior, em Gênesis 3.15, em que a des­ cendência da mulher feriria de morte a serpente satânica.57 Porém, Gênesis 3.15 diz que a descendência da mulher será “ferida” pela serpente. Há, pois, a ideia de que o vencedor dos últimos tempos ganhará uma batalha contra um adversário escatológico, embora sofra durante a batalha.58 Se perguntás­ semos “Moisés, acaso o cordeiro pascal que foi morto (garan­ tindo a vitória de Israel sobre o Egito e a libertação do povo) está relacionado à suprema libertação histórica, ou seja, à do vencedor que, embora sofra, obterá a vitória decisiva contra Satanás (Gn 3.15)?”, acho que a resposta provável seria posi­ tiva, isto é, Moisés teria enxergado uma relação analógica entre o acontecimento do Exodo e Gênesis 3.15, e pensaria que essa analogia era divinamente pretendida. Portanto, estou argum entando que o acontecim ento sim ilar, em bora maior, de G ênesis 3.15 estava dentro da compreensão secundária de M oisés ou cabia no seu “tipo pretendido” ou naquilo que chamo de “visão periférica cogni­ tiva”. Nesse caso, é possível que João tivesse o mesmo enten­ dimento, e pode ser essa a razão pela qual João interpretou o cordeiro morto do Exodo como uma prefiguração analó­ gica do cordeiro morto na cruz, fato histórico-salvífico maior que o Exodo. Nesse sentido, pode-se entender que o cordeiro 57Entendo esse versículo no sentido tradicional, ou seja, como uma refe­ rência ao Messias e à derrota decisiva por ele infligida ao Diabo. Não creio que o versículo se limite ao ato de os seres humanos pisarem nas serpen­ tes em “julgamento”, como alguns especialistas imaginam, o que seria uma descrição superficial e im provável da narrativa de G ênesis 3 (v. Beale, A

N ew Testament B ib lic al lheology [Grand Rapids: Baker, 2 0 1 1 ], p. 29-58). 58Sobre a ideia de que Gênesis 1— 3 tem conotações escatológicas, v. G. K. Beale, A N T B ib lic al Theology, p. 2 9 -6 3 .


messiânico “cumpre” aquilo que estava implicitamente rela­ cionado ao cordeiro do Exodo. Mas é possível acrescentar ainda outras dimensões: Moisés escreve em Gênesis 49.1,9-12 que nos “últimos tempos”Judá governaria Israel e a todos os “povos”, além de ganhar uma batalha decisiva. De modo semelhante, Números 24.14-19 afirma que “nos últimos tempos” um líder de Jacó vencerá as nações, que provavelmente representam os inimigos gentios em geral. Um elemento da descrição diz que o líder “ferirá as fronteiras de M oabe” (Nm 24.17), provavelmente um eco do “ferir” a cabeça da serpente.59 E possível que esses últimos dois textos desenvolvam Gêne­ sis 3.15 de maneira conceituai; pode ser até que o último seja uma exegese intrabíblica de Gênesis 3.15.60 Essas passagens, como desdobramentos de Gênesis 3.15, podem ser vistas como elementos da compreensão latente de Moisés no que se refere ao cordeiro pascal. Caso João tivesse certa ciência ou penetração intuitiva do conhecimento secundário de Moisés, sua compreen­ são profética do cordeiro pascal do Exodo teria sido reforçada pela natureza escatológica de Gênesis 49 e Números 14. A passagem de Hebreus 11.25,26 pode ser a “ponta do ice­ b erg , ao revelar que, de fato, Moisés detinha o conhecimento tácito ou a visão periférica cognitiva que explicamos acima. Moisés escolheu: s‘'Jim I Iamilton, “The Skull Crushing Seed o f the Woman: Inner-Biblical Interprctation o f Genesis 3 :1 5 ”, The Southern B aptistJournalofT heology 10 (2006), p. 3 4 ,4 9 -5 0 , estabelece esse elo e também identifica outras alusões veterotestamentárias intrabíblicas (e alusões judaicas em geral) a Gênesis 3 .15 , entendendo-as, de modo geral, como relacionadas à futura vitória do Messias sobre o mal (v. ibid., p. 3 0 -5 4 ), embora alguns questionem certas associações alusivas por ele estabelecidas. “ Sobre esses textos de Gênesis e de Números e o modo que desenvol­ vem Gênesis 1— 3 em sentido escatológico e messiânico, v. Beale, A N T B ib lical Theology, p. 9 2 -1 0 1 .


... pelo contrário, ser maltratado com o povo de Deus em vez de experimentar por algum tempo os prazeres do pecado. Ele considerou a afronta de Cristo como uma riqueza maior do que os tesouros do Egito, pois tinha em vista a recompensa. Apenas dois versículos depois, há uma referência ao fato de Moisés ter celebrado “a Páscoa e a aspersão do sangue, para que o destruidor não tocasse nos primogênitos. Pela fé, os israeli­ tas atravessaram o mar Vermelho” (Hb 11.28,29). Isso é notá­ vel, uma vez que a referência a Moisés ter levado em conta a afronta de “Cristo” — relacionada a uma “recompensa” escatológica prometida a Moisés (Hb 11.26) — está intimamente ligada à morte do cordeiro pascal e à libertação no Exodo do Egito (Hb 11.28,29), a mesma conexão que antes afirmáva­ mos estar latente na mente de Moisés e de João. Alguns diriam que Hebreus 11.26 é um bom exemplo de projeção ilegítima de Cristo no AT. Por outro lado, tendo cm vista aquilo que falamos até agora quanto às possibilidades do conhecimento secundário dc Moisés, é igualmente plausível a tese de que o texto de Hebreus mostre que nossa análise é certeira. A propósito, devo dizer que até agora não mencionamos o fato de que a visão de Deus é mais abrangente que a do pro­ feta humano, embora esse fato seja importante. Por certo, não quero afirmar que nos interessem apenas as intenções huma­ nas da Bíblia, uma vez que os escritores bíblicos escreveram sob a inspiração de Deus e provavelmente estavam conscientes dessa inspiração. Embora a compreensão divina transcenda a intenção consciente do autor humano, ela não deixa de ter uma relação orgânica com o entendimento humano do autor ou seu “tipo pretendido”. O conhecimento de Deus, mais completo que o conhecimento consciente do profeta, seria uma cono­ tação interpretativa que caberia dentro do “tipo pretendido” do autor humano. Se alguém lhe perguntasse sobre isso mais adiante, o profeta diria: “Sim, é esse mesmo o significado mais


amplo e completo daquilo que eu quis dizer originariamente”. Somos obrigados a reconhecer que, em todos os casos, Deus tinha uma compreensão mais abrangente que a dos autores bíblicos quando estes escreveram. Não há espaço aqui para analisar como esse assunto se relaciona com os chamados significados “novos” ou “criativos” desenvolvidos pelos autores do NT, especialmente nos casos em que a noção de “mistério” é aplicada à compreensão neotestamentária de textos do AT. Elaborarei mais esse assunto em uma obra futura.61 Basta, por ora, dizer que a mensagem cen­ tral dessa obra será que tais significados ainda cabem dentro do “tipo pretendido” ou “conhecimento latente” do autor humano veterotestamentário, mas também são mistérios revelados. Cer­ tamente há uma tensão aqui, mas talvez Efésios 3.4,5 seja uma chave para os demais textos do NT que contêm um elemento de “mistério”: “O mistério de Cristo [...] em outras gerações não foi manifestado aos homens, da forma como se revelou agora no Espírito aos seus santos apóstolos e profetas”. Esse texto afirma que o m istério já era conhecido em parte (“da forma como”), mas não completamente. M inha tese é que o pleno desenvolvimento de tais mistérios veterotestamentários no NT não é incompatível com o “tipo pretendido” ou a “com­ preensão tácita” do autor humano. Será que o autor do AT fica­ ria surpreso com o desenvolvimento do seu raciocínio? Sim; 61G . K. Beale e Benjamin L. Gladd, Hidden B u tN o w R ev eakd : a B ib lical Theology o fD iv in e M y ste ry (Downers Grove, IL: InterVarsity). Essa tese é compatível com o ensaio espetacular de D. A . Carson, “M ystery and Fulfillment: Toward a M ore Comprehensive Paradigm o f Pauis Understanding oí the O ld and the New”, in Justification an d VariegatedNomism, Vol. 2, org. por D. A . Carson, P. T. 0 ’Brien e M . A . Seifrid (Tübingen: M ohr Siebeck/ Grand Rapids: Baker, 2004), p. 3 9 3 -4 3 6 , que enfatiza tanto a continuidade quanto a descontinuidade entre o A T e o NT, argumentando que o mistério revelado no NT teve suas raízes no AT, embora fosse uma “nova” revelação.


mas, quando refletisse um pouco mais, veria que tudo aquilo se encaixa numa revelação progressiva da sua compreensão latente. Essa tensão é complexa, e só poderei dar mais expli­ cações a respeito dela no meu próximo livro.62 Retomando ao exemplo do uso de Exodo 12 em João 19, não é necessário afirmar que, quando as leis sobre a Páscoa foram escritas, Moisés (e seus leitores) entendeu-as explicita­ mente como uma prefiguração do cordeiro messiânico imo­ lado. Reconheço que a minha explicação de Êxodo 12 e João 19 é apenas uma das explicações possíveis, e nem todos acei­ tarão a minha posição. Por um lado, acredito que os exemplos do uso de Isaías 22 e Oseias 1 e 2 no NT são estudos de caso mais prováveis c persuasivos. Por outro, creio que essa possível explicação de Êxodo 12 em João 19 deva ser levada em conta entre as outras opções para entender esse uso problemático do AT no NT. Em referência ao cordeiro pascal e sua relação com Cristo, D. A. Carson opina: ... c justo dizer que tais noções ainda estavam ocultas — mas também manifestas, por assim dizer —, pois estão genuina­ mente presentes no texto (uma vez que se perceba a trajetó­ ria da tipologia), conquanto ainda não tivessem sido reveladas. E por isso, talvez, que existe um “mistério” a scr revelado, mas também c por isso que ele pode scr revelado por meio dos escri­ tos proféticos.63 A análise do uso de Exodo 12 em João 19 apresen­ tada acima tenta enriquecer a afirmativa de Carson de que a 62Tam bém trato dessa tensão em meu livro N T B ib lic a l "Iheology; v., p. ex., o que escrevi sobre o templo (cap. 19), sobre a igreja como o verdadeiro Israel do fim dos tempos (caps. 2 0 e 2 1), sobre as promessas da terra a ser dadã a Israel (cap. 22) e sobre o papel da Lei no A T e no N T (cap. 26). 63Carson, “M ystery and Fulfillm ent”, p. 427.


revelação do NT sobre o cordeiro messiânico estava “oculta” e ao mesmo tempo “manifesta [...] uma vez que se perceba a tra­ jetória da tipologia”. Aqui, esforcei-me para evidenciar a ideia de que essa trajetória da tipologia não é algo revelado som ente no NT, mas tinha suas raízes tácitas na relação do cordeiro pascal com outros fatos da história da salvação registrados pelo próprio Moisés. Quando o que estava prefigurado no cordeiro pascal se cumpriu em Cristo, houve uma revelação mais com­ pleta da tipologia latente anterior. A crucificação pelos romanos em Jerusalém, por exemplo, instigada pelos judeus, não teria tido lugar na compreensão secundária imediata de Moisés, mas caberia nos contornos mais amplos do seu “tipo pretendido”, ilustrando detalhadamente como o cumprimento ocorreu.64

As perspectivas pressuposicionais secundárias dos autores neotestamentários no seu uso do Antigo Testamento Em todo este ensaio, meu argumento converge com a discus­ são que Tom (N.T.) W right faz do significado autoral. W right alerta que qualquer teoria da leitura deve: “ Segundo N. T. W right, Paulo “diz oferecer uma leitura histórica em que as ‘prefigurações’ fazem parte de uma história [de Israel] que agora atingiu seu ápice”. Eu acrescentaria que esse ápice amplia e dá novos contornos às prefigurações anteriores ( The C lim ax o f the C o ven an t [M inneapolis: Fortress, 19 9 2], p. 2 65 (cf. 264). W righ t, porém, parece minimizar por demais a nova noção progressiva revelatória, pois diz que Paulo “apela” para argu­ mentos derivados dessas prefigurações “no domínio público, e não por meio de um segredo esotérico que os outros judeus não aceitariam” (ibid., p. 265). Embora haja certa verdade nisso, uma vez que as prefigurações são realmente observáveis nos textos do A T (!), a posição de W rig h t não parece deixar espaço suficiente para a noção paulina da revelação dos mistérios, sobre o qual W rig h t fala com frequência (seguindo a crítica de Carson, M ystery an dF u lfillm en t, p. 4 3 0 -4 3 1). Porém, desconfio que em algum lugar dos seus volumosos escritos, W rig h t tenha introduzido adequadas ressalvas em sua afirmação (p. ex., v. a citação de W right imediatamente abaixo, tirada do The N ew Testament an d the People o f God [Minneapolis: Fortress, 1992, p. 62-63]).


... fa z er ju s [...] não só ao fa to de o au to r te r p re te n d id o certas coisas, mas tam bém ao fato de que o texto p oderá con ter outros elem en to s — ecos, evocações, estru tu ras etc. — que não esta­ vam [explicitam ente] presentes na m ente do au tor e que, é claro, ta lv e z n ão e ste ja m p re se n te s n a m e n te d os le ito re s. [...] D o m esm o m odo, precisam os de um a teoria que faça jus [...] tan to ao fa to de que os textos [...] n o rm a lm e n te n ão rep resen tam a to talid a d e da m en te do autor, m esm o qu an d o m ais se ap ro x i­ m am disso, q u a n to ao fa to de que, m esm o assim , esses textos n o rm a lm e n te nos d izem — e, em p rin cíp io , o fa zem de m od o fid ed ig no — algo sobre o au to r ou autora. P or fim , é necessário re c o n h e c er [...] que, p o r u m lad o, n e n h u m a u to r escreve sem um p o n to de vista (os au tores são seres h u m an os e visualizam as coisas dc m an eira particular, sob d eterm in ad a perspectiva) e, p o r o u tro , que os autores rcalm cn tô são capazes dc fa lar sobre fato s e o b jeto s [...] que n ão se re d u z em ao seu estad o m e n ta l nem se explicam com p letam en te p o r ele (acréscim os entre col­ chetes do au to r).65

A questão de os autores expressarem um “ponto de vista” quando escrevem sobre fatos (ou desenvolvem ideias) se rela­ ciona com outra dimensão do conhecimento secundário ou periférico, ainda não tratada no presente ensaio. W righ t elabora esse comentário quando afirma: “o ato humano de escrever deve ser concebido como uma articulação de cosmovisões ou, ainda melhor, como o con tar de histórias que articu ­ lam cosm ovisões\ bb A minha esperança é que este artigo dê um pouco mais de substância ao tipo de teoria hermenêutica e epistemológica que W righ t desejava elaborar mais detalhadam ente, o Í,5N. T. W right, The N ew Testament an d the People o f God, 6 2 -6 3 . Em vez de “estado m ental” no fim da citação, eu diria “pensam ento diretam ente enfocado”. 66Ibid., p. 65.


que não pôde fazer em razão das lim itações de espaço. Na verdade, o presente ensaio é apenas uma exploração lim itada de uma abordagem que precisa ser muito mais bem elabo­ rada e formulada. Embora W right tenha em mente questões mais amplas no seu últim o comentário sobre as “cosmovisões” (p. ex., a história completa de Israel no AT, bem como o judaísm o e suas diferentes facções), creio que sua afirma­ ção inclui os pressupostos teológicos dos escritores do AT e do NT, os quais fundamentam suas declarações e interpreta­ ções. Assim, quando os escritores neotestamentários citam e interpretam um texto do AT, nem sempre explicitam o pres­ suposto subjacente à sua interpretação; mas esse pressuposto se faz presente na compreensão autoral tácita ou secundá­ ria, sendo crucial para entender como o autor formulou sua interpretação. Na verdade, sem o entendimento do pressu­ posto subjacente, a interpretação pode soar fantasiosa e errô­ nea. Por exemplo, em outro lugar escrevi que, às vezes, talvez muitas vezes, os escritores do NT interpretam textos do AT por meio de uma ótica que engloba certos pressupostos, e ora estão conscientes dessa ótica, ora têm dela apenas um conhe­ cimento tácito. Todos esses pressupostos estão enraizados no próprio AT, fazendo parte daquilo que W right chamaria de história veterotestamentária de Israel. Esses pressupostos são os seguintes:67 67Para uma explicação desses pressupostos, v. G . K. Beale, “D id Jesus and His Followers Preach the Right Doctrine From the W rong Texts? A n Examination o f the Presuppositions o f the Apostles’ Exegetical M eth od ”, Themelios 1 4 (1989), p. 8 9 -9 6 ; e Handbook on the N ew Testament Use o f the O ld Testament (G rand Rapids: Baker, 2 0 1 2 ) , p. 5 2 -5 3 , 9 5 - 1 0 2 . H á certo debate quanto a alguns desses pressupostos, questão que não podem os tratar aqui. A os pressupostos mencionados acima, acrescentemos outros dois: 1) o A T era a palavra inspirada de D eus; 2) o Espírito Santo deve abrir os olhos da pessoa para que ela com preenda a verdade salvífica do AT; v. Beale, Handbook , p. 9 5 -9 6 .


1. H á o pressuposto de solid a ried a d e co letiv a ou rep re­ sentação. 2. Em decorrência do primeiro pressuposto, considera-se que Cristo representa o verdadeiro Israel do AT e o verdadeiro Israel representa a igreja, no NT. 3. A história é un ificada por um plano sábio e soberano, de forma que as partes anteriores propositadamente apontam para as partes posteriores e a elas correspon­ dem (cf. M t 11.13s.). 4. A época do cum prim ento escatológico já foi inaugurada em Cristo. 5. Em conseqüência do pressuposto anterior, faz sentido que as partes posteriores da história bíblica sirvam de contexto mais amplo da interpretação das partes ante­ riores, uma vez que todas têm o mesmo autor divino, que inspira os vários autores humanos. Uma das con­ clusões que se podem deduzir dessa premissa é que C risto, sendo o alvo para o qual o AT apontava e, nos últimos tempos, o centro da história da redenção, é a ch a v e p a ra in terp reta r as p a rtes a n terio res do A T e suas prom essas. Esses pressupostos nos ajudam a entender por que o NT aplica o AT dc forma interpretativa a realidades aparentemente distintas, quando comparadas ao contexto veterotestamentário. Por exemplo, o pressuposto número 3 explica por que os fatos históricos do AT são apreendidos como indicadores tipológico-proféticos, como mostramos acima nos exemplos de Isaías 22.22, em Apocalipse 3.7, e de Êxodo 12.46, em João 19.36. De modo mais geral, as aplicações modificadas do AT — com ou sem uma ênfase tipológica — não implicam a conclu­ são de que tais passagens foram interpretadas incorretamente. Por exemplo, Mateus aplica a Jesus o que o AT dizia de Israel


(p. ex., Os 11.1 em M t 2.14,1568).69 Do mesmo modo, profe­ cias sobre Jesus são aplicadas à igreja, em razão da identifica­ ção coletiva da igreja com Jesus (p. ex., Is 49.6 em A t 13.47), de modo que a igreja muitas vezes participa daquilo que Jesus cumpre. Igualmente, como comentamos acima, Paulo aplica à igreja predominantemente gentia as promessas dirigidas a Israel (em Rm 9.24-26, p. ex.). Não é a interpretação do escritor do NT que deve ser contestada nesse tipo de aplicação; antes, é a validade da estrutura por meio da qual interpreta o AT que pode ser questionada: nos casos acima, temos em mente não somente o pressuposto 3, mas também os pressupostos de número 1 e 2, segundo os quais Cristo representava o verdadeiro Israel e todos os que se identificam com ele são considerados parte do verda­ deiro Israel. Além do mais, se no livro de Oseias Israel foi iden­ tificado coletivamente com os gentios descrentes (pressuposto 1), é legítimo que Paulo veja a conversão dos gentios, junto com a dos judeus étnicos, como um cumprimento das profecias de Oseias enfocadas em Romanos 9.24-26. Se a legitimidade desses pressupostos for aceita, a viabi­ lidade dessa interpretação do AT nas categorias de uso acima também deve ser aceita. Portanto, certas modificações na apli­ cação não necessariamente implicam um desrespeito pelo con­ texto do AT, uma vez que essa dedução não é logicam ente necessária. Parece provável que alguns confundam mudança de ,,SV. G . K. Beale, “The Use o f Hosea 1 1 .1 in M atth ew 2 :15 : O ne M ore T im e ',J E T S 55 (2012), p. 7 0 8 -7 1 0 . [O artigo aqui referenciado constitui o capítulo 2 desta coletânea, e as páginas indicadas correspondem aqui às páginas de 87 a 92.] 69Isto é, aquilo que é verdade positiva acerca de Israel tam bém é ver­ dade acerca do verdadeiro Israel individual — Jesus — em razão da iden­ tidade coletiva. C f. a boa discussão de France nesse contexto, em “The Formulation Quotations o f M atth ew 2 ”, com uma análise do uso do A T em M ateus 2 .4 -2 2 .


aplicação com desrespeito pelo contexto. Aceitando a viabili­ dade dos pressupostos, embora as novas aplicações sejam tec­ nicamente diferentes, elas permanecem dentro dos parâmetros conceituais (o “tipo pretendido” ou o significado secundário) do significado contextual do AT. O efeito disso é que, muitas vezes, o resultado é uma referência mais ampla a um princí­ pio inerente ao texto do AT ou uma aplicação desse princípio. Alguns desconfiam que todo uso difícil do A T no NT pode ser resolvido pela criação de uma premissa qualquer por parte do exegeta, de forma que a postura interpretativa se torne inatacável. Porém, esses pressupostos não foram criados ex nihilo pela comunidade cristã, mas estão enraizados no AT e no seu relato da história da redenção de Israel.70 Podemos afirmar que esses pressupostos faziam parte da mentalidade secundária ou do contexto padrão tácito dos profetas tardios do AT71 e dos cristãos primitivos que interpretavam o AT. Assim como esses pressupostos não foram selecionados de forma arbitrária pela igreja primitiva, os intérpretes atuais não podem simplesmente criar novos pressupostos para explicar o uso do AT no NT. E dentro da estrutura daqueles cinco pressupostos que se con­ cebia que todo o AT apontava para a nova era escatológica da aliança, tanto por meio das profecias diretas quanto pelos vis­ lumbres proféticos indiretos da história de Israel. A perspectiva histórica e redentora abrangente, atrelada a esses pressupostos, 7uSobrc os fundam entos veterotestam entários desses pressupostos, v. Beale, Handbook on the N ew Testament Use o f the Old Testament , p. 9 6 -10 2 . Nega-se, assim, a objeção de alguns estudiosos pós-m odernos, cuja opi­ nião é que os pressupostos dos escritores do N T distorceram sua interpre­ tação do AT, uma vez que entendem que tais pressupostos foram criados pela igreja cristã à luz da vinda dc Cristo. Assim , esses estudiosos acredi­ tam que o N T projetou no A T pressupostos estranhos a este, distorcendo ^ seu significado original. 71No caso dos autores tardios do AT, aquilo que se refere a “Cristo” nos pressupostos 2 ,4 e 5 seria mudado para “Messias” ou rei escatológico final.


formou a estrutura predominante na qual Jesus e seus seguido­ res raciocinavam, servindo de guia heurístico constante do AT. Portanto, o quadro dessas cinco perspectivas, especialmente as quatro últimas, forma a ótica periférica pela qual os autores do NT liam (isto é, interpretavam) passagens do AT.

Conclusão Neste artigo, defendi a tese de que, quando os autores neotestamentários e veterotestamentários fazem afirmações diretas com um significado explícito, essas afirmações sempre pressupõem uma gama correlata de significados secundários que ampliam o significado explícito. A consciência de todos os oradores e escritores, mesmo os autores da Antiguidade, contém mais ele­ mentos do que aqueles que são explicitamente comunicados nos seus atos de fala. Os autores do NT podem interpretar atos de fala do AT divergindo da linha direta do seu significado explí­ cito, mas apropriando-se do conteúdo de sua visão periférica cognitiva. Pode ser que a tentativa de identificar o caráter do significado periférico latente pareça especulativa, mas pode­ mos pelo menos tentar demonstrar a possível existência de um campo mais amplo de significado e evidenciar que o autor do NT pode ter tido consciência desse campo na sua interpretação do AT. Procuramos demonstrar, ainda, que a busca pelo sentido periférico não é uma questão puramente especulativa e despro­ vida de controle externo. Existe o que podemos chamar de uma conexão “orgânica” entre os significados direto e tácito. Tanto Hirsch quanto Polanyi mostraram que essas duas dimensões de significado estão relacionadas e como, por exemplo, o “tipo pretendido” mais amplo de dada afirmação e seu significado podem ser determinados até certo ponto. O conceito de visão periférica cognitiva expressa algo muito semelhante. Talvez as objeções mais viáveis a essa ideia sejam duas: primeira, que ela somente explica o quanto a interpretação é


complicada, bem como elucida a diversidade de interpretações entre os comentaristas.72 Em segundo lugar, e mais importante, essa visão não propõe critérios específicos para a determinação do conteúdo dos significados tácitos dos autores veterotestamentários, nem aponta quais seriam os significados tácitos que um autor do NT poderia perceber, além do significado explí­ cito, quando este é efetivamente mencionado. Em outras pala­ vras, a abordagem da teoria secundária é incapaz de oferecer diretrizes para determinarmos quais, dentre as diversas opções de significados secundários, um autor teria em mente.73 Steve Moyise, por exemplo, fala a respeito da referência a Oseias em Romanos 9, citada acima: ... se fosse p ossível d e m o n stra r que R o m an o s 9 .2 6 d esen volve um significado latente de O seias 1 . 1 0 e 2 .2 3 [sobre o fato de os judeus estarem na p osição de g en tio s, o que esten d e ria a p ro ­ m essa aos g e n tio sl c se tosse possível co n su ltar um especialista c ap az de d e m o n s tra r que R o m a n o s 9 .2 6 c fru to g e n u ín o de O seias 1 . 1 0 e 2 .2 3 , então c som ente então pod eríam os concluir q ue P au lo resp eita o c o n te x to de suas citações. O p ro b le m a é que não tem os condições de d em o n strar n e n h u m a dessas duas coisas (acréscim os en tre colch etes do autor).

M oyise conclui que, se o “respeito pelo contexto do A T” significa a exatidão da citação verbal, a consciência da situação histórica e a cuidadosa avaliação dos versículos que formavam o contexto im ediato da citação do AT, os autores neotestam entários (Paulo, por exemplo) nem sempre respeitam os 72P. ex., v., mais recentemente, de Steve M oyise, “Latency and Respect for C ontext: a Response to M itchell Kim”, p. 1 3 6 -1 3 8 . 73Ibid., p. 13 7 -13 8 . Para Moyise, essa é a objeção principal no que se refere ao artigo e à abordagem de Kim e, portanto, à minha própria abordagem. A m aior parte do restante deste ensaio consiste numa resposta à objeção de M oyise, já que, ao que parece, Kim não teve oportunidade de respondê-la.


contextos das citações do AT. Porém, se o “respeito pelo con­ texto” diz respeito à identificação do significado de uma cita­ ção mediante a vinculação desta com uma parte maior do AT (de que é exemplo a minha proposta referente a Exodo 12 em João 19) ou com os contextos imediatos dos livros veterotes­ tamentários dos quais as citações derivam (de que é exemplo a minha proposta para o uso do AT em Apocalipse 3.7 e Roma­ nos 9.25,26), M oyise julga que os autores neotestamentários (Paulo, por exemplo) respeitam (às vezes ou até muitas vezes) o contexto das referências do AT.74Todavia, Moyise rejeita essa possibilidade, considerando-a a opção mais improvável. Se o critério que rege o respeito contextual for concebido de modo tão abrangente, ultrapassando em muito o contexto imediato do versículo citado, torna-se difícil entender de que modo os escritores do NT “poderiam fugir do critério, de forma que a noção de respeito’ se torna sem sentido” e infalsificável.75 Isto é, se um escritor do NT aparentemente não entende bem um ver­ sículo específico do AT e até o contexto imediato daquele versí­ culo, devemos continuar a ampliar aquele contexto o quanto for necessário, chegando ao ponto até de incluir todo o cânon do AT, para que enfim o versículo faça sentido.76 Moyise alega 74M oyise, “Does Paul Rcspcct the Context o f His Quotations?”, p. 1 1 2 1 1 3 , citando, entre outras, as abordagens contextualmente amplas de Hays e W atson. O prim eiro entende que o contexto de cada livro do A T ajuda a com preender como uma citação daquele livro pode ter uma interpreta­ ção contextual, enquanto o segundo amplia as considerações contextuais para englobar porções inteiras do AT. M oyise propõe outro critério, que é essencialmente um critério da teoria reader-response, e que, portanto, está fora do tema da presente investigação (ibid., p. 9 9 - 1 1 1 ) . 75Ibid., p. 99. 76P or exem plo, M oyise d iz que “aqueles que argum entam a favor do ‘respeito’ geralmente partem d o pressuposto de que deve existir uma expli­ cação intrabíblica, e em seguida fazem de tudo para encontrar tal explica­ ção” (ibid., p. 10 1).


que esse processo frequentemente envolve uma exegese intrabíblica intricada e complexa, que provavelmente estaria fora do alcance dos leitores.77 Do mesmo modo, qualquer interpreta­ ção desse tipo nos daria mais informações a respeito da ima­ ginação desses especialistas do que acerca das intenções reais dos autores bíblicos.78 Porém, será correto dizer que não existem critérios para determinar quais são os significados secundários dos autores do AT e quais são os significados secundários conscientemente levados em conta pelos autores neotestamentários? E verdade que, assim como diferentes pessoas ligariam os pontos no papel de diferentes maneiras para produzir diferentes formas, os intérpretes ligam diferentes passagens da Escritura de diferentes maneiras para formular diferentes interpretações, tendo como foco significados secundários de uma passagem que divergem com os de outros comentaristas. Porém, nem todas as interpre­ tações são igualmente viáveis. Existe um método para apurar quais dos significados latentes do AT estão em foco no texto neotestamentário e qual das interpretações o escritor tinha em mente, com maior probabilidade. E necessário pensar cm todos os possíveis significados intratextuais ou latentes relacionados à citação do AT, atentando-se especialmente para o “tipo pre­ tendido” de Hirsch, em que “novas interpretações” e aplicações do significado de um texto original podem ser legitimamente entendidas como pertencentes ao esquema do “tipo pretendido” do significado original, sendo válidas extensões dele. Isso pode ser classificado como uma “descrição densa”, que envolve um ato comunicativo tríplice (locução, elocução e perlocução — sobre esse assunto, v. acima).79 77Ibid., p. 103. 78Ib id.,p. 10 3 . 79Vanhoozer, Is There a M e a n in g in This T ext? P. ex., p. 2 8 2 - 2 8 5 ,2 9 1 2 9 2 ,3 3 1 - 3 3 2 .


A abordagem literária prática, portanto, consistiria no estudo detalhado de todos os possíveis intratextos do AT rela­ cionados com o versículo veterotestamentário citado pelo autor do NT,8<)além de outros significados secundários possíveis, que poderiam ser depreendidos do contexto imediato e amplo da citação.81 Talvez muitos desses significados estivessem na mente do autor neotestamentário, que estaria, portanto, desenvol­ vendo robustamente o significado original da citação do AT. Também é possível que determinado autor do NT tenha em vista apenas um ou outro intratexto veterotestamentário ou significado secundário. Será que a questão de apurar quais intratextos do AT ou quais partes do significado periférico contextual estão em mente, ou se todos os significados devem ser incluídos, é meramente subjetiva? Creio que não. Aqueles outros intratextos ou ideias tácitas contextuais cujas noções específicas correspondem apro­ ximadamente ao significado original são possíveis fontes que, juntamente com o original, podem ter influenciado o autor. As correspondências mais “orgânicas” ou especificamente relacio­ nadas entre o texto do AT, por um lado, e suas ideias contex­ tuais secundárias, seus intratextos veterotestamentários e seu uso no NT, por outro, acabam por constituir uma “tese probabilística” de que um ou outro desses contextos realmente está em mente no texto em foco.82 Em outras palavras, “o sucesso de qualquer interpretação depende de seu poder explanatório, de SUP. ex., no caso do uso de Exodo 12 em João 16, tais intratextos seriam, possivelmente, Gênesis 3 .15 e 4 9 .1 ,8 - 1 2 e Números 2 4 .1 4 -1 9 . 81P. ex., no caso do nosso estudo acima, de Oseias em Romanos 9, pen­ samos no significado latente que a expressão “não meu povo” teria na mente dos judeus — ou seja, o que significaria para eles serem considerados iguais aos gentios — e na ideia de que Israel se identificara coletivamente com os gentios (Os. 11.8,9). 82Para exemplos das minhas aplicações dos critérios de Hirsch, v. Beale, The Use o f D a n ie l in Jeiu ish Apocalyptic L ite ratu re a n d in the R evelation o f


sua capacidade de dar mais sentido — um sentido complexo, coerente e natural — aos dados textuais, quando comparada com outras interpretações”.83 Assim, a interpretação ou método interpretativo que tem o maior poder explanatório — que dá o sentido mais adequado aos detalhes do texto quando comparada a outras interpretações — é a interpretação mais provável.84 Se determinado método interpretativo explica melhor as carac­ terísticas particulares de dada passagem quando comparado a outro método, então a primeira interpretação é a mais provável, embora na prática seja difícil decidir entre várias interpretações.85 Hirsch dedica três capítulos da sua obra Validity in Interpretation (caps. 3 a 5) à ponderação dos critérios que determinam como validar uma interpretação de forma indutiva. O processo não é puramente subjetivo nem inteiramènte objetivo, mas, antes, permite a discussão e o juízo no domínio público.86 Interpreta­ ções rivais detêm graus variados de possibilidade e probabili­ dade, dependendo do número de correspondências fundamentais entre o uso interpretativo do AT no NT, o texto fonte do AT, seus intratextos e as ideias secundárias contextuais.87 St. John)-, idem, lh e Book of Revelation (N IG TC; Grand Rapids: Eerdmans, 19 9 8); và&vs\,John s Use o f the Old Testament in R evelation. 83R. H. Gundry, M a rk (G rand Rapids: Eerdmans, 1993), p. 4. 84Lem brando que até exegetas reform ados e conservadores dão inter­ pretações diferentes para as mesmas passagens. 85Hirsch, Validity in Interpretation, p. 19 0 -1 9 6 . 86Incluindo-se a possibilidade de discutir os pressupostos sem adotar um a postura neutra, segundo a tradição reform ada de A braham Kuyper, P rincipies o fSacred Iheology (G rand Rapids: Eerdmans, 1954). 87P. ex., fazem os referência aqui ao estudo do uso de Isaías 2 2 .2 2 em Apocalipse 3.7, em que encontramos no contexto imediato de Isaías 22.22 aquelas ideias que tinham correspondência com o contexto imediato da cita­ ção em Apocalipse 3.7; mas também pensamos na relação com a passagem messiânica de Isaías 9 (Is 2 2.22 contém uma alusão a esse texto), além das ligações com o servo messiânico, em outras partes de Isaías, que condizem com a ideia de Eliaquim como “meu servo” (Is 22.20).


Tom W right dá um bom exemplo desse tipo de juízo probabilístico sobre interpretações rivais, consoante com a aborda­ gem de Hirsch. W right sugere o exemplo de um paleontólogo cuja tarefa consiste em reconstruir o esqueleto de um dinossauro juntando os ossos.88 Caso o paleontólogo construa uma estru­ tura simples de um dinossauro conhecido, omitindo, porém, alguns ossos grandes que não cabem na estrutura, os colegas o acusarão de satisfazer o critério da “simplicidade” sacrificando os “dados”. O cientista responde explicando que os ossos extras pertencem a outro animal, o qual teria comido ou teria sido comido pelo animal da reconstrução. Se um segundo paleon­ tólogo produzisse outro esqueleto a partir dos mesmos ossos, sendo capaz de utilizar todos eles, mas com o detalhe de que um pé possui sete dedos enquanto o outro tem dezoito, ele se depararia com o problema oposto: a “simplicidade” foi abando­ nada para incluírem-se todos os “dados”. O primeiro paleontó­ logo dificilmente será convencido por tal explicação evolutiva atípica. Qual das teorias rivais será aceita? A primeira é mais plausível, pois é mais fácil imaginar que alguns ossos de outro animal se encontrassem em meio aos ossos do dinossauro do que acreditar que a estranha criatura mutante da segunda teoria existisse como forma evolutiva. As perspectivas alternativas de interpretação são compará­ veis a essas hipóteses sobre dinossauros, o que nos mostra que, embora em geral nenhuma hipótese esteja isenta de dificulda­ des, a hipótese menos problemática é sempre a mais provável. Em última análise, ao julgar entre perspectivas interpretativas rivais, W right está provavelmente correto ao dar mais ênfase ao critério da “simplicidade da perspectiva” do que ao critério da “inclusão dos dados”.89 O critério aplicado por W right para 88W righ t, The N ew Testament a n d the People o f God, p. 10 4 -1 0 5 . 89Ibid.


averiguar perspectivas alternativas de interpretação é bastante semelhante ao método de Hirsch. De muita importância são os três capítulos de Hirsch que tratam dos critérios para identifi­ car interpretações prováveis, em vez das interpretações apenas possíveis. Aqui tenho me esforçado para resumir os aspectos mais importantes do seu argumento, mas os limites de espaço impossibilitam uma análise mais elaborada. Assim, os leitores que estão em busca de maiores explicações devem consultar essa seção bastante relevante de Hirsch. É sempre importante lembrar que estamos lidando com arte literária, não com fórmulas matemáticas, de modo que as experiências pessoais e as crenças (que alguns chamariam de “subjetividade”) do intérprete jam ais serão eliminadas. Não estamos trabalhando com um métôdo mecânico infalível que nos ofereça a certeza objetiva90 ou o “conhecimento perfeito” de uma interpretação hipotética.91 Porém, isso não significa que é impossível chegarmos a conclusões probabilísticas exa­ minando as interpretações possíveis. Esse processo se dá de maneira prática, e as discussões ocorrem no domínio público. Isso tampouco quer dizer que, embora favoreçamos uma ou outra interpretação, não haja outras objeções viáveis à nossa interpretação predileta, ou até que outras interpretações não tenham credibilidade significativa. Na verdade, às vezes opta­ mos por certa interpretação, mas ao mesmo tempo reconhe­ cemos a força e os méritos de outras alternativas.92 Portanto, seria um exagero dizer que a abordagem deste ensaio é infalsificável ou impassível de comprovação de uma forma ou de outra. Imaginar que meu argumento é infalsificável é uma visão radical da estética da recepção, relativista quanto à verdade e até quanto a juízos probabilísticos, sendo por isso 90Polanyi, Personal Knowledge, p. 2 9 9 -3 2 4 . '91Ibid., p. 306. 92Ibid., p. 3 12 .


indevidamente pessimista no que se refere à capacidade de des­ cobrirmos se uma interpretação é mais provável que outra.93 No mundo real, as interpretações alternativas da vida (p. ex., teístas x ateístas) acarretam diversos graus de probabilidade e possibilidade, e as pessoas se alinham com tais estruturas interpretativas com diferentes graus de convicção.94 O mesmo vale para interpretações diferentes de passagens bíblicas: precisa­ mos julgar com cautela e cuidado. Cada passagem em que o uso do AT no texto do N T seja de difícil interpretação deve ser avaliada especificamente; alguns casos serão mais difíceis de apurar do que outros. Acima, tentamos fornecer três exem­ plos caso a caso, com graus variados de confiança ou “convic­ ção” sobre os resultados. Algum as interpretações podem, na verdade, ser complexas e desafiadoras para os leitores. Entre­ tanto, caso se possa demonstrar que tais interpretações estavam, com toda probabilidade, na mente do autor, teremos de segui-las e entender que certos leitores originais (p. ex., os cristãos vindos do judaísmo) teriam a capacidade de entender muitas dessas interpretações mais complexas (e outros, sob a orientação deles, aprenderiam aos poucos).95 Não obstante, tais 93Essa visão, talvez com certas ressalvas, parece ser a defendida p or Moyise, meu colega de diálogo, depois de tantos anos de interação entre nós. 94Ibid., p. 2 9 9 -3 2 4 . 9SEm resposta a M oyise (“The O ld Testam ent in the New: a R eply to G reg B eale”, Irish B ib lic a l Studies 2 1 [19 9 9 ], p. 5 4 -5 8 ) , há muitos anos apresentei uma ideia semelhante sobre o processo prático de validação de uma interpretação em detrim ento de outra (Beale, “Questions o f A u th o rial Intent, Epistemology, and Presuppositions and Their Bearing on the Study o f the O ld Testament in the New: a Rejoinder to Steve M oyise”, Irish B ib lical Studies 2 1 [1999], p. 1-2 6 ). Porém, embora ele tenha respondido a certos aspectos da minha resposta, nada disse acerca dos critérios de valida­ ção (p. ex., v., a esse respeito, M oyise, “Seeing the O ld Testament through a Lens”, Irish B ib lical Studies 2 3 [2 00 1], p. 3 6 - 4 1 , e “Does the A u th o r o f Revelation M isappropriate the Scrvptuxe.s}” A n drew s U niversity Sem in ary


propostas interpretativas permanecem como “supostos fatos”, não completamente certos.96 Por isso, os autores do AT e do NT sabiam mais do que explicitamente pretendiam comunicar (como diria Polanyi). Nesse caso, havia uma intenção explícita e uma compreensão implícita mais abrangente relacionada àquela intenção. Embora essa abordagem não forneça uma solução para todos os usos dificultosos do AT no NT, acredito que essa noção nos ajude a entender melhor aqueles usos do AT no NT que alguns consi­ deram “estranhos”.97 Em alguns casos, pode ser que não exista alternativa interpretativa razoável para alguns desses textos difíceis; afinal, temos de reconhecer a nossa incerteza e con­ fiar na palavra infalível de Deus. A mensagem principal deste ensaio é que a apreensão da visão periférica dos escritores do AT por parte dos autores do N T é validada pela observação do modo que estes empregavam as citações e alusões veterotestamentárias. Alguns autores do NT referem-se reiteradamente a versículos retirados de todo um grande segmento do AT, o que demonstra que eles têm consciência não somente Studies 4 0 [2002], p. 3 - 2 1). A té onde sei, ele nunca chegou a responder especificamente a essa questão (embora tenha chegado perto em um breve parágrafo conclusivo de seu artigo “A uthorial Intention and the Book o f Revelation”, A ndrew s U niverstiy Sem inary Studies 39 [2001], p. 35-40). No entanto, anos depois, com entando as teses de M itch K im no tocante ao uso do A T no NT, M oyise continua exigindo critérios para arbitrar entre interpretações alternativas do A T no NT. Por isso, sinto-m e obrigado a expor os critérios novamente e de forma ampliada, em resposta à postura de M oyise (“Latency and Respect for Context: a Response to M itchell Kim”) que, respondendo a Kim (“Respect fo r C ontext and A uthorial Intention: Setting the Epistemological B ar”), pediu esses critérios. ,6Ibid., p. 303. ,7D e certa form a, este artigo desenvolve meu ensaio an terio r sobre a h erm en êu tica , “Q u estion s o f A u th o ria l In te n t, E pistem ology, and Presuppositions andTheir Bearing on the Study o f the O ld Testament in the New: a Rejoinder to Steve M oyise”, Irisb B ib lical Studies 2 1 (1999), p. 1-26.


dos versículos específicos aos quais se referem, mas também de toda a “visão” contextual mais ampla do segmento. C. H. Dodd é o exemplo clássico de comentarista que demonstrou esse fenômeno exegético.98 Nesta conclusão será importante refletir a respeito das dimensões morais e espirituais da tese deste ensaio, caso ela esteja correta. Cornelius vanTil disse que não existe neutralidade moral em nenhum pensamento ou comportamento humano. As pessoas que conduzem um automóvel sem ter uma visão peri­ férica adequada correm risco; na verdade, muitas vezes tais pes­ soas são proibidas de dirigir. Um perigo e uma responsabilidade morais análogas decorrem igualmente da falta de visão periférica dos textos do AT. Em Lucas 24, Jesus fala a respeito do perigo moral e da culpabilidade moral atrelados à rejeição da ideia de que o AT falava sobre Jesus, quer direta, quer indiretamente: Então ele lhes disse: Ó tolos, que demorais a crer no coracão em tudo que os profetas disseram!26Acaso o Cristo não tinha de sofrer essas coisas e entrar na sua glória? 27E, começando por Moisés e todos os profetas, explicou-lhes o que constava a seu respeito em todas as Escrituras (Lc 24.25-27). A qui Jesus não se refere somente às profecias m essiânicas diretas, mas também, provavelmente, às indiretas, inclusive às prefigurações tipológicas. Isso está evidente nas palavras “expli­ cou-lhes o que constava a seu respeito em todas as Escrituras”. “Todas as Escrituras” poderia ser uma referência não ao AT completo, mas somente às passagens do AT que falavam dire­ tamente do Messias. Porém, é mais provável que a expressão “todas as Escrituras” diga respeito ao corpus inteiro do A T." %According to the Scriptures (Londres: Nisbet, 1952). "Isso nada diz a respeito de eles serem responsabilizados por já terem o u vid o o ensino de C ris to sobre essas seções do A T, com o D an G .


Chegamos a essa conclusão ao reconhecer que Lucas, junto com os outros Evangelhos, utiliza numerosas partes históricas do AT, entendendo-as como prefigurações tipológicas indire­ tas. Entre essas referências, há o exemplo clássico de Moisés e Elias falando com Jesus sobre sua “partida, que estava para acontecer em Jerusalém” (Lc 9.30,31), além da passagem da “pedra angular” de Salmos 118.22. Igualmente, entende-se que os salmos imprecatórios (69.25 e 109.8) apontam para o ju l­ gamento de Judas (At 1.20, especialmente à luz dos versículos 16 e 21). Poderíamos citar outros exemplos ainda.100 E claro que isso não significa que todos os versículos do AT contêm profecias messiânicas, mas muitos versículos e seções meno­ res aparentemente não messiânicos contribuem para o pensa­ mento de parágrafos maiores e blocos de texto, de forma que estes apontem para Cristo. Nesse sentido, aqueles versículos e até parágrafos são entendidos como partes de um todo maior de cunho messiânico.101 Vamos, pois, retornar a Lucas 24.25-27. Assim como uma visão periférica biológica defeituosa é capaz de produzir perigos M cC artney tenta sustentar (“Should W e Employ the Hermeneutics o f the N ew Testament W riters?”, artigo não publicado, apresentado à Evangelical Theological Society em 2 003). Ele é obrigado a argumentar dessa form a porque afirma repetidam ente em seu artigo que seria impossível alguém ter visto a morte e a ressurreição de Cristo profetizadas no próprio AT. 100V., p. ex., M . D . Goulder, Type an d H isto ry in A cts (Londres: S P C K , 19 6 4 ), que discute a relação tipológica entre Cristo, em Lucas e em Paulo, e a igreja, em Atos. 101Um exemplo clássico seria a opinião de G . von Rad, segundo a qual as narrativas do A T sobre a rápida ascensão e queda de juizes, líderes e reis dese­ nham uma tendência tipológica ( O ld Testament Theology [New York: Harper & R o w , 19 6 5 ],2 :3 7 2 -3 7 4 , cf.p. 384-85). Outros aspectos do mesmo tópico são tratados em Beale, Handbook on th e N T Use o f the OT, p. 19 -2 2 . Sobre a tipologia como método interpretativo pressuposto dentro do AT, v. idem,

Handbook on th e N T Use o f the OT.\ 1 0 1 , n. 2 1 ; v. também, R. M . Davidson, Typology in Scripture, A U S S D D S ]I (Berrien Springs: M ichigan, 1981).


e acidentes ao volante, existe um perigo e uma responsabili­ dade morais para quem não tem uma boa visão periférica dos textos do AT. Por quê? Porque, sem essa visão, alguém pode­ ria atribuir ao uso do AT no NT uma interpretação errônea (o que eqüivale a condenar a palavra de Deus). Esse risco moral é incorrido até por aqueles que acreditam que o resultado doutri­ nário do NT permanece inspirado, apesar de seu método exegético ser falho. A razão disso é que tais intérpretes, embora tentem permanecer fiéis à Escritura completamente inspirada, cortam as ligações interpretativas e orgânicas entre o texto do AT e o do NT. Isso resulta em uma interpretação incorreta do texto do AT, e a compreensão errada da Palavra de Deus leva, de um jeito ou de outro, a falhas morais ou, como diz Jesus, à “tolice” interpretativa. Mesmo que nós, na condição de intér­ pretes humanos, sejamos incapazes de fornecer uma explica­ ção de como Jesus encontrou profecias messiânicas em certas partes do AT, isso não diminui nossa responsabilidade de aceitar a interpretação de Jesus. E preciso confiar em Jesus suprema­ mente, sem exaltar nossas capacidades interpretativas humanas acima dos julgamentos dele.


Ouso de Oseias 11.1 em Mateus 2.15

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M ais uma vez

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uso de Oseias 11.1 em Mateus é notoriamente problemá­ tico e bastante debatido: José “permaneceu lá até a morte de Herodes, para que se cumprisse o que o Senhor havia falado pelo profeta: Do Egito cham ei o meu Filho"} Há três dificuldades na maneira com que Mateus utiliza essa passagem de Oseias. A primeira é que o versículo de Oseias é uma mera reflexão his­ tórica, enquanto Mateus o entende como uma profecia direta cumprida em Cristo. A segunda dificuldade é que Mateus atri­ bui ao indivíduo Jesus aquilo que Oseias atribuía à nação de Israel. A terceira é que a referência a Oseias 11.1, sobre o Exodo de Israel a partir do Egito, introduz em Mateus a ida da família de Jesus para o Egito, ao passo que é somente mais adiante, em M ateus 2.21, que Jesus e sua família saem do Egito. Várias soluções foram propostas para esses problemas. Certo comentarista opinou que essa passagem é “um exemplo emblemático da maneira em que o NT utiliza o AT”, especial­ mente no sentido de “não se interessar em reproduzir o signifi­ cado” dos textos veterotestamentários, antes imputando ao AT pressupostos cristológicos estranhos a ele.2 Outro comentarista

O

T ic a claro que M ateus cita o hebraico de Oseias 1 1 .1 (que traz “meu filh o”) e não a Septuaginta (que traz “seus filh os”). Veja D . A . C arson,

M a tth e w : Chapters 1 -1 2 (E B C ; G ran d Rapids: Z ondervan, 19 9 3 ), p. 9 1. [Edição em português, reunindo dois volumes: 0 comentário de M ateus (São Paulo: Shedd, 2 0 11).] 2Peter Enns, “Biblical Interpretation, Jewish”, in D ictionary o fN ew Tes­

tam en t Background, org. por C . A . Evans e S. E. Porter (Downers G rove:


julga que, para muitos, esse seja “o caso mais inquietante” da “exegese neotestamentária do AT”.3 Outros ainda entendem o uso de Oseias 11 como uma interpretação errônea da parte de Mateus, à medida que ele compreende Oseias 11.1 como uma profecia quando, na realidade, era apenas uma reflexão histó­ rica sobre o Exodo.4 M . Eugene Boring, por exemplo, comen­ tou que “o modo que Mateus usa a Escritura” em Mateus 1 e 2, incluindo-se a citação de Oseias 11, “contrasta com o significado inegável do original” e “as alterações feitas no texto em si [...] fazem com que Mateus esteja sujeito à acusação de ter mani­ pulado as provas de uma forma que seria pouco convincente para quem estivesse de fora”.5 Outros reivindicam para Mateus InterVarsity, 2 0 0 0 ), p. 1 6 4 (para a referência de Enns, v. Jam es W . Scott, “The Inspiration and Interpretation o f G o d ’s W ord w ith Special Reference to Peter Enns, Part II: the Interpretation o f Representative Passages”, W T J 7 1 [2009], p. 264). 3M artin Pickup, “New Testament Interpretation o f the O ld Testament: the Theological Rationale o f M idrashic Exegesis”,J E T S 5 1 (2008), p. 3 71, afirma que “não adianta tentar defender a interpretação messiânica de Oseias 1 1 .1 em Mateus a partir da crítica histórico-gramatical” (p. 372; cf. p. 373) e, “francamente, M ateus parece ler Oseias 1 1 .1 fora de seu contexto” (p. 374). 4P. ex., D . M . Beegle, S crip tu re, T rad itio n , a n d I n f a llib ilit y (G ran d R apids: E erdm ans, 1 9 7 3 ) , p. 2 3 6 - 2 3 8 . V. tam bém , D a v id L. Turner,

M atth ew (BECNT; Grand Rapids: Baker, 2008), p. 90, que, embora tenha outra postura, lista vários especialistas que defendem essa visão. C f. G . E. Ladd, “H istorie Premillennialism”, in The M e an in g ofthe M illen n iu m , org. por R. G . Clouse (Downers Grove: Inter-Varsity, 1977), 2 0 -2 1 , argumen­ tando que a interpretação que M ateus faz de Oseias 1 1 .1 como profecia não corresponde à intenção de O seias, para quem esse texto se tratava apenas da descrição de um acontecimento do passado (o Êxodo de Israel do Egito). sBoring, lh e Gospel o f M atth ew (The New Interpreters Bible 8; Nashville: A bingdon, 1995), p. 153. No mesmo sentido, S. V. M cCasland, “M atth ew Twists the Scriptures”,/2?L 80 (1 9 6 1), p. 14 4 -1 4 6 , diz que M ateus “com­ preendeu Oseias 1 1 .1 erroneamente [...] encontrando um significado total­ m ente estranho ao original”. V. tam bém W illia m Barclay, The Gospel o f


uma espécie de revelação especial, à semelhança daquela encon­ trada em Qumran, no que se refere ao “sentido pleno” (sensus p len io r) de Oseias 11.1, uma forma de revelação indisponível aos intérpretes eclesiásticos posteriores.6 Há, ainda, aqueles que imaginam ter Mateus se apoderado de uma hermenêutica defei­ tuosa empregada na literatura judaica, cujo método os intér­ pretes cristãos não deveriam emular, mesmo que a conclusão interpretativa seja supostamente inspirada por Deus.7 De modo semelhante, outros chegam à conclusão de que a interpretação que Mateus faz de Oseias 11.1 não poderia ser considerada cor­ reta, de acordo com nossos padrões hermenêuticos modernos, mas fazia parte de um método hermenêutico judaico aceitável no mundo do primeiro século e que os especialistas modernos não têm o direito de considerar “errado”.8 Segundo essa visão, M atth ew (Philadelphia: Westminster, 1956), p. 3 5-3 6; Theodore H. Robinson, The Gospel o f M atth ew (London: H odder 8c Stoughton, 19 2 8), p. 9. 6V., p. ex., G . D. Fee e D. Stuart, H ow to R e a d the B ih le fo rA llIts Worth (G rand Rapids: Zondervan, 1 9 8 1 ), p. 1 6 6 -1 6 7 ; e Turner, M atth e w , p. 90. [Edição em português: Entendes o que L ês? Um G uia p a r a E ntender a B íb lia com A u x ílio d a Exegese e d a H erm enêutica, 3. ed. rev. e ampl. (São Paulo: Vida Nova, 2 0 11).] 7V., p. ex., Richard N. Longenecker, BiblicalExegesis in theApostolic Period (2. ed.; G rand Rapids: Eerdmans, 1999), p. 12 4 -1 2 5 , especialmente enten­ dido em conjunto com a abordagem hermenêutica geral de Longenecker, no que se refere ao uso do A T no N T em ‘“W h o is the Prophet talking A bout?’ Some Reflections on the New Testam ent’s Use o f the O ld ”, Themelios 13 (198 7 ), p. 4 -8 ; e “C an W e Reproduce the Exegesis o f the N ew Testament?”, T yn B u l 2 1 (1970), p. 3 -3 8 . A s ideias de Beegle citadas acima aproximam-se dessa perspectiva. 8Essa é a abordagem geral de Enns quanto ao uso do A T no N T em In s-

p iratio n a n d In cam atio n : E vangelicals a n d the Problem o f the Old Testament, p. 1 1 3 - 1 6 3 , cujos exemplos incluem o uso de Oseias 1 1 .1 em M ateus 2 .15 (p. 134). Enns classifica o exemplo como um “uso estranho”; sobre isso, v. seu artigo “Response to Professor Beale”, Themelios 32 (2007), p. 9 - 1 1 ; cf. D an M cC artney e Peter Enns, “M atth ew and Hosea: a Response to John Sailhamer”, W T J 63 (2001), p. 9 7 -10 5 . Porém, a explicação dada por Enns


o procedimento interpretativo, embora atípico, deve ser enten­ dido como inspirado pelo Espírito e até como exemplo para a interpretação da igreja contemporânea. Sob outro ângulo, alguns consideram que esse método hermenêutico não é errado, mas único e original, de tal maneira que hoje, ao abordar passagens veterotestamentárias semelhantes (que apenas narram um fato histórico), os cristãos não devem ousar imitá-lo. G eralm ente, esse tipo de conclusão se sugere porque M ateus (assim como outros autores do N T) está sendo ju l­ gado por um método interpretativo chamado “histórico-gramatical” e por uma concepção particular desse método. Por fim, certos especialistas aventam a hipótese de que Mateus entendesse o Exodo dos israelitas a partir do Egito em Oseias 11.1 como um tipo da saída de Jesus do Egito, e isso à luz do contexto canônico mais amplo do AT.9 A tipologia pode ser definida como o estudo das correspondências analógicas entre pessoas, fatos, instituições e outras coisas dentro da estrutura histórica da revelação especial de Deus, correspondências que, do ponto de vista retrospectivo, têm natureza profética. Con­ forme essa definição, as características essenciais de um tipo são: 1) a correspondência analógica; 2) a historicidade; 3) a orien­ tação para o futuro; 4) a escalação; 5) a retrospecção (embora tenhamos de qualificar este último elemento logo adiante).10 me parece ser “teológico-bíblica”, ou seja, não contraria os padrões atuais da teologia bíblica e se mostra aceitável e compreensível para os teólogos bíblicos (v. a minha análise a esse respeito em meu livro Erosion o f Inerrancy

in E van gelicalism , p. 88-89). lJEntre muitos outros, veja R.T. France, M atth ew (TN TC; Grand Rapids: Eerdm ans, 19 8 5 ), p. 4 0, 86; C arson, M a tth e w : C hapters 1 - 1 2 , p. 9 1 - 9 3 ; Turner, M a tth e w , p. 9 0 -9 1. 10Sobre essa definição de tipologia, v. também G. K. Beale, Handbook on the

N ew Testament Use o f the Old Testament: Exegesis an d Interpretation (Grand Rapids: Baker, 2 012), capítulos 1 e 4. [Edição em português: M a n u a l do Uso do A ntigo Testamento no Novo Testamento (São Paulo: Vida Nova, 2013).]


A noção de que a história do A T prefigura os aconte­ cimentos do N T é uma antiga tradição interpretativa entre os teólogos, remontando aos pais apostólicos. A legitimidade hermenêutica desse tipo de interpretação tipológica se apoia, por sua vez, na legitimidade de um pressuposto daquilo que se entende como uma filosofia bíblica da história, em que Deus usa acontecimentos históricos anteriores para prefigurar tendên­ cias históricas subsequentes.11 Evidentemente, os especialistas divergem quanto à aceitação desse pressuposto, bem como no que se refere à legitimidade hermenêutica da abordagem tipo­ lógica dos autores neotestamentários. Alguns criticam a abor­ dagem tipológica, considerando-a praticamente igual à postura do sensus plenior, uma vez que frequentemente se considera que os insights tipológicos só puderam aparecer por meio da obra do Espírito em retrospectiva, após a morte e ressurreição de Cristo.12 Assim, os autores veterotestamentários não teriam conhecimento de tais interpretações tipológicas de seus escritos. Em linhas gerais, a abordagem deste ensaio admite que Mateus fez, sim, uso da tipologia; mas meu objetivo é demons­ trar que a perspectiva tipológica de Mateus não era exclusiva de sua postura carismática da revelação. Portanto, a interpretação de Mateus não teria sido vista por ele como acessível apenas em retrospecto, por meio da obra de revelação do Espírito após a vinda de Cristo. Antes, até certo ponto, aquilo que Mateus per­ cebeu, Oseias já havia enxergado. Em outras palavras, a inter­ pretação tipológica mateana de Oseias 11.1 foi estimulada pela compreensão tipológica daquele versículo do próprio Oseias, n Entre muitas fontes que falam sobre a tipologia no NT, a obra clás­ sica nesse campo é a de L eonard G oppelt, Typos (G rand Rapids: E erd­ mans, 1982). 12Embora haja aqueles para quem a tipologia não brota exclusivamente de uma visão em retrospectiva, mas tem sementes no A T que são desenvol­ vidas no N T (p. ex., Carson, M atth e w : Chapters 1 — 12, p. 9 1-9 3 ).


evidente até por meio de uma exegese histórico-gram atical geral do décimo primeiro capítulo do livro. Esta seção introdutória poderia avaliar discussões recen­ tes da chamada “intertextualidade” ou, como prefiro deno­ m iná-la, “exegese bíblica interna”; porém, acredito que esse assunto afetará pouco a interpretação a seguir de Oseias 11.1 em Mateus 2.15.13

Uma abordagem histórico-gramatical e teológico-bíblica para compreender o uso de Oseias 11.1 em Mateus Além do método histórico-gramatical “estrito”, há abordagens alternativas para interpretar a Escritura, que detêm viabilidade e integridade hermenêutica. Por exemplo, será que Mateus, além de empregar um método equilibrado “histórico-gramatical”, também emprega uma espécie de abordagem teológico-bíblica, sendo as duas abordagens complementares?14 13 Para mais detalhes, v. Beale, Handbook on the N ew Testament Use o f the O ld Testam ent , capítulo 3, bem como as fontes representativas citadas ali. O restante do presente artigo está baseado em um artigo lido na A ffin ity Theological Studies Conference, em Hoddesdon, Hertfordshíre, Inglaterra (2 a 4 de fevereiro de 2 0 1 1 ) e novamente no Southern Baptist Theological Sem inary, por ocasião das Gheens Lectures (15 a 16 de março de 2 0 1 1 ), resumido em Beale, A N ew Testament B ib lic al Theology: the Unfolding o f the

O ld Testament in the N ew (G rand Rapids: Baker, 2 0 1 1 ), p. 4 0 6 -4 1 2 . 140 entendim ento “estrito” da abordagem “histórico-gram atical” é bas­ tante limitado, pois estuda determinada passagem principalmente a partir de dois ângulos: 1) a investigação apenas do ponto de vista do autor humano, por meio do estudo dos aspectos históricos, lingüísticos, gramaticais, con­ textuais e do gênero, etc., da passagem; 2) o autor divino, teoricam ente, pode ser deixado de lado até a conclusão do estudo “histórico-gramatical”, uma vez que o significado buscado é somente aquele do autor humano. Por exemplo, até o intérprete que nega a inspiração divina precisa, necessaria­ mente, estudar um profeta como Isaías aceitando que o profeta acreditou na inspiração daquilo que escreveu; portanto, essa crença deve ser projetada no processo de interpretar Isaías. Quanto mais no caso do exegeta crente! Esse


O argumento deste ensaio é que Mateus interpreta Oseias 11.1 à luz do capítulo 11 como um todo e do livro inteiro, e que sua abordagem se aproxima muito, com efeito, de uma abor­ dagem histórico-gramatical combinada com uma metodologia teológico-bíblica. Em Oseias 11, depois da alusão ao Exodo a partir do Egito (Os 11.1), narra-se, de forma breve, a história da nação em sua terra. Os israelitas não responderam fielmente à libertação divina do Egito nem aos mensageiros profetas cujas exortações priorizavam a fidelidade a Deus. Antes, adoraram aos ídolos, a despeito da graça de Deus que lhes foi manifes­ tada (Os 11.2-5). Consequentemente, Deus julgará a nação pelo fato de ela não se arrepender (Os 11.6,7). M as esse ju l­ gamento não seria absoluto, pois Deus tinha compaixão da nação (Os 11.8,9). A compaixão de Deus, segundo Oseias, se expressará por meio da restauração vindoura dos membros do seu povo, que “seguirão o S e n h o r ” e “virão tremendo do Oci­ dente. Os do Egito virão tremendo como um passarinho, e os da terra da Assíria, como uma pomba”, de forma que Deus, “os estabelecer(á) em suas casas” na terra (Os 11.10,11).

1. O fo c o d e O seias no retorn o esca tológico fu tu r o a p a r t ir do E gito. Assim , no fim dos tempos, de acordo com Oseias 11.10,11, haverá um a restauração de Israel, que voltará de muitas terras, entre as quais o “Egito”.15 é apenas um exemplo para mostrar que a consideração da intenção divina deveria fazer parte da abordagem histórico-gramatical. Portanto, a exegese histórico-gram atical e a tipologia são dois aspectos da mesma coisa: ouvir Deus falar na Escritura (agradeço a Vern Poythress pelo seu comunicado pessoal acerca dessa observação; v. Poythress, “The Presence o f G od Q ualifying O u r Notions o f G ram m atical-H istorical Interpretation: Genesis 3 :15 as aT est C ase”,J E T S 5 0 [2007], p. 8 7 -10 3 ). ISAlguns comentaristas dizem que “Egito” é uma metáfora e significa a Assíria, mas o “O cidente” também é mencionado aqui, o que aponta para um retorno de várias terras. Esse conceito parece emergir de outras profecias


a. A importância do uso de Números 23 e2 4 em Oseias 11.10,11 Na verdade, até a imagem do leão, de Oseias 11.10,11, relacio­ nada diretamente com a “saída do Egito”, faz uma alusão ao pri­ meiro Exodo em Números 23 e 24, em que Deus leva Israel para “fora do Egito” e o povo e o rei são comparados a um “leão”.16 Números 23 e 24

Oseias 11.10,11

23.22: "Foi Deus quem os tirou do Eqito. A força deles é como a do boi selvagem".

23.24: "0 povo se levanta como leoa e

"... ele bramará como leão: quando

se ergue como leão: não se deitará até

bramar, os filhos virão trem endo [...] do Egito f...l como um passarinho...".

que devore a presa e beba o sangue dos que foram mortos".

24.8: "Deus o tirou do Egito. p. é para ele como os chifres do búfalo..." (BJ).

24.9a: "Aaachou-se, deitou-se como leão e como leoa. Quem o despertará?"

do A T (p. ex., Is 1 1 . 1 1 diz: “O Sen h o r estenderá de novo a mão [...] o remanescente do seu povo [...] na Assíria, Egito, em Patros, na Etiópia, em Elão, em Sinar, Hamate, e nas ilhas do m ar”; igualmente, Isaías 1 1 .1 5 ,1 6 prevê a volta futura de Israel, tanto do Egito como da Assíria; cf. Is 4 9.12 ; 6 0.4-9 ). Sobre o sentido literal ou metafórico dc “Egito”, v. Apêndice 2. u’Vcja Duane Garrett, Hosea (N AC; Nashville: Broadman and Holman, 1 9 9 7 ) , p. 2 2 9 , argum entando tam bém que há um a alusão a N úm eros 2 4 .8 ,9 em Oseias 1 1 .1 0 ,1 1 . Curiosamente, a 2 7 .a edição do texto grego de N estle-A land cita Números 2 3 .2 2 e 2 4 .8 como alusões em M ateus 2 .15 , além de Oseias 1 1 .1 . Veja John H. Sailhamer, “Hosea 1 1 .1 and M atthew 2 .1 5 ”, W T J 63 (2001), p. 8 7-9 6, que apoia a proposta de N estle-Aland; cf. W . D . D avies e D ale C. A llison , The GospelAccording to S a in t M atth e w ,

Vol. 1 (IC C ; Edinburgh: T & T Clark, 19 8 8 ), p. 2 6 2 ; D onald A . Hagner, M a tth e w 1 — 1 3 (W B C 3 3 A ; Dallas: W o rd , 19 9 3 ), p. 3 7 (para uma lista de outros, v. Carson, M a tth e w : Chapters 1 — 12, p. 93). E im provável que Oseias 1 1 .1 esteja aludindo diretamente aos textos de Números, mas eles podem ser ecos por trás desse texto, prefigurando as alusões mais claras a Números 2 3 .2 2 ,2 4 e 24.9, em Oseias 1 1 .1 0 .


Essas passagens de Números e Oseias 11.11 são os únicos trechos do AT em que se mencionam em seqüência: 1) Deus tirando Israel “do Egito” e 2) o libertador ou os libertados sendo comparado(s) ao leão. Em Números 23, o povo tirado “do Egito” no passado é comparado ao leão; e, em Números 24, o rei de Israel é também descrito como vindo “do Egito” e é comparado ao leão (embora seja possível que a descrição se refira a Deus e não ao rei).17 E possível que o retrato de Núme­ ros 24 contemple um êxodo futuro, mas é mais provável que, nos dois textos de Números, o Exodo original é o que se tivesse em mente. E nos contextos subsequentes desses textos que as vitórias futuras de Israel aparecem, e aí provavelmente entra em cena uma perspectiva escatológica (Nm 23.24 e 24.8b,9b,1719). Uma possível dificuldade na ideia de Números 24.7,8a con­ sistir em uma referência ao antigo Exodo é o fato de nenhum “rei” ter sido tirado “do Egito” naquela época, a não ser que tal rei fosse identificado com Moisés, o que parece ser o caso (cf. Ex 2.14, em que M oisés é chamado de “príncipe” [T M ] ou “governante” [LXX; cf. A t 7.35]). 17Q ue a referência tenha como objeto o rei de Israel é evidenciado por Números 24.7, o pronome “ele” em 24.8 e as bênçãos e maldições, em 24.9, referentes ao rei. A lém disso, Números 2 4.8,9a em si é uma alusão à p ro­ fecia do rei escatológico de Judá em Gênesis 4 9.9: “Judá é um leãozinho [...] Ele se encurva e se deita como um leão e como uma leoa. Q uem o despertará?”. É provável que Números 2 4 .7 ,8a,9a retrate o Exodo original, mas também é possível que descreva um futuro êxodo a partir do Egito, à luz da alusão a Gênesis 4 9.9 e tendo em vista a clara profecia escatológica do rei dos últimos tempos em Números 2 4 .1 7 -1 9 , que aparenta dar conti­ nuidade à descrição do rei em 2 4 .7 -9 . Essa futura identidade real está em destaque na Septuaginta, que converte o hebraico de Números 2 4.7 (“água jorrará dos seus baldes, sua semente crescerá à beira das muitas águas”) na seguinte tradução: “haverá um homem da sua descendência, ele governará muitas nações”. O fato de essa alusão ao rei dos últimos tempos de Gênesis 4 9.9 ocorrer tanto em Números 2 3 .2 4 quanto em 2 4.9 complica a dim en­ são tem poral de Números 23 e 24, embora esses textos possam sugerir o começo do cumprimento de Gênesis 49.9.


A questão da identidade exata do “leão” em Oseias 11.10 é difícil de resolver. E possível que o leão de Oseias 11 seja o rei vindo “do Egito” (seguindo Números 24.7-9), mas também a palavra parece dar continuidade a uma descrição do próprio Deus.18 Não obstante, tanto em Números 23 quanto em Núme­ ros 24, diz-se que Deus “ép a ra eles [ou para ele] como os chi­ fres do búfalo” (BJ), de forma que a subsequente descrição do leão em Números também poderia ser aplicada ao povo e ao rei, uma vez que estes são identificados com seu Deus, detentor do poder último que efetua sua libertação. Pode ser que essa ambivalência também esteja em Oseias 11.10. Entretanto, à luz da comparação de Israel e seu rei com o leão mencionado em Números 23 e 24, pode ser que a comparação com o “leão” em Oseias 11 se refira a Deus, tendo em^vista a identificação cole­ tiva de Israel com seu Deus e porque, em ambos os textos de Números, Deus tira Israel “do Egito”. Em contrapartida, como veremos em seguida, o paralelo entre Oseias 11.11 e Oseias 1.11 poderia sugerir ainda que o “leão”de Oseias 11.10 seja o real líder escatológico associado com o retorno de Israel. Isso pode ser identificado também em Oseias 3.5, em que a volta de Israel do cativeiro é também liderada por um rei davídico esca­ tológico. A possibilidade de um líder israelita ser comparado a um “leão” em Oseias 11.10 é indicada também em Números 23 e 24, em que o leão representa Israel e seu líder humano. Portanto, é um tanto difícil apurar a identidade precisa da figura do “leão”em Oseias 11.10.Talvez haja aí uma ambigüi­ dade intencional, embora a referência pareça dar a entender, à primeira vista, que Deus é “como um leão”19 — e será essa a 18Veja Sailham er, “Hosea 1 1 :1 and M atth e w 2 :1 5 ”, para um a análise dessas alusões em Oseias 11. 19Será que M ateus percebeu o possível eco de Números 2 3 .22 e 2 4 .7 -9 (v. 8, “Deus o tira [o rei] do Egito”) em Oseias 1 1 .1 e a posterior alusão a Números 23.22,24 e 24.8,9 em Oseias 11.10 ? (Veja R.T. France, The Gospelof


minha avaliação final. Nesse sentido, o antecedente da refe­ rência a “ele” (Os 11.10b, “ele bramará como leão”) é prova­ velmente “o S e n h o r ” ( O s 11.10a: “Eles seguirão o S e n h o r ”) . Embora haja questões interpretativas difíceis nas referên­ cias a Números 23 e 24 e seu uso em Oseias 11.10,11, nesta últim a passagem parece provável o entendimento de Oseias de que as alusões de Números à antiga saída “do Egito” e a imagem do “leão” serão recapituladas no futuro escatológico. Assim, o Êxodo original é visto como prefiguração do êxodo dos últimos tempos, constituindo uma compreensão tipológica. Caso Números 24.8,9 seja a predição de um êxodo dos últi­ mos tempos (e não uma narração do primeiro Êxodo), Oseias 11.10,11 pode até ser a reiteração daquela profecia, embora Números 23 ainda tenha relação com o assunto, servindo sobre­ tudo como uma orientação tipológica. Portanto, o propósito ou alvo principal de Oseias 11.1-11 é o cumprimento da restauração futura de Israel em meio às nações, entre elas o “Egito”.20 O significado maior do capítulo 11 é indicar que a libertação de Israel do cativeiro do Egito, por intervenção divina — que antecedeu sua descrença ingrata — , 'M atth ew [NICNT; Grand Rapids: Eerdmans, 2007], p. 80, para quem Oseias 1 1 .1 reflete os textos de Números 23 e 24.) Isso se faz relevante pelo fato de muitos comentaristas entenderem os antecedentes do “Rei dos Judeus” e “sua destra”, em Mateus 2.2, como uma clara alusão a Números 2 4 .17 ! Se essas ligações são plausíveis, teria isso incentivado M ateus a aplicar Oseias 1 1 .1 ao Messias Jesus como o representante de Israel, aquele que faria o que Israel não conseguira fazer (como defenderam, p. ex., Davies e Allison, M atth ew , I.262; cf. David Hill, The Gospelof M atth ew [Greenwood, SC: Attic, 1972], p. 85)? Como observamos anteriormente, certos comentaristas até entendem Mateus 2 .15 como uma alusão a esses textos de Números, junto com Oseias II.1. Cf. Robert H. Gundry, M atthew (Grand Rapids: Eerdmans, 1982), p. 34. 20Os 1 1 .1 2 , sobre o engano e a rebelião de Israel, é na verdade o começo da próxima seção literária, que consiste numa narrativa negativa que pros­ segue ao longo de todo o capítulo 12.


não foi a palavra final de Deus sobre a libertação deles. O povo será julgado, mas Deus o libertará novamente “do Egito”. O capítulo começa com o Êxodo a partir do Egito e conclui com o mesmo êxodo a partir do Egito: a primeira referência é ao acontecimento do passado, a segunda a um acontecimento vindouro. As circunstâncias do primeiro Êxodo no início da história de Israel (Os 11.1) serão repetidas no fim da história da nação, nos últimos tempos. E improvável que Oseias visse esses dois êxodos como ocorrências aleatórias, ou meras coin­ cidências, ou ainda acontecimentos semelhantes, embora não relacionados. Oseias parece entender que o primeiro Êxodo de Israel (Os 11.1) será recapitulado na época do êxodo dos últimos tempos. No seu contexto, esse entendimento de Oseias 11.1 ganha força quando lembramòs já estar claro para Oseias que o primeiro Êxodo em Números 23 e 24 seria recapitulado em um êxodo dos últimos tempos.

b. A im p ortâ n cia das reitera d a s referên cia s no d eco rrer de Oseias ao p rim eiro Exodo de Israel a p a rtir do E gito e ao êxodo a p a rtir do E gito nos últimos tempos. Além de Oseias 11.1, no livro de Oseias há outras referências ao primeiro Exodo. Igualmente, há referências implícitas a um futuro retorno a partir do Egito em várias profecias de Oseias que mencionam que Israel vol­ tará ao Egito, embora Oseias 1.10,11 (veja abaixo) e Oseias 11.11 sejam os únicos textos que afirmam explicitamente um retorno futuro a partir do Egito (embora, como vimos acima, haja vários textos em Isaías que são explícitos nesse sentido) Caso perguntássemos a Oseias se ele acreditava que Deus era soberano sobre a história e havia determinado que o primeiro Exodo procedente do Egito se converteria em um padrão his­ tórico, prefigurando um segundo êxodo a partir do Egito, não seria provável que o profeta respondesse “sim”? Pelo menos, é assim que Mateus parece ter entendido Oseias. O Evangelista


Primeiro Exodo a partir do Egito

Retorno futuro ao Egito (com a ideia implícita de um retorno futuro a partir do Egito)

Os 2.15b: "Ela cantará como nos

Os 7 .1 1 : "Efraim é como uma pomba,

dias da sua juventude, como no dia

insensata, sem entendim ento; invocam o Egito, vão para a Assíria".

em que subiu da terra do Egito" (tradução do autor; note, porém, como este texto compara o êxodo

Os 7 .1 6 b : "... os seus príncipes caem

Os 12.13: "Mas o S en h o r fez Israel

pela espada por causa da insolência da sua língua; por isso, este será o seu escárnio (tradução do autor).

subir do Egito por meio de um

Os 8 .1 3 b : "... agora se lembrará de sua

profeta, e ele foi preservado por um profeta".

maldade e os castigará por seus pecados; eles voltarão para o Egito".

Cf. Os 12.9: "Mas eu sou o S enhor,

Os 9.3: "Não permanecerão na terra do

teu Deus, desde a terra do Egito..."

Senhor ; mas Efraim voltará ao Egito, e comerão a lim e n to im puro na Assíria".

original com um êxodo futuro).

Cf. Os 13.4: "Eu, porém , sou o S enh or teu Deus, desde a terra do

Os 9.6: "Porque eles fugiram por causa

Egito; portanto, não conhecerás

da destruição, mas o Egito os recolherá, Mênfis os sepultará; as urtigas possuirão seus preciosos objetos de prata; espinhos crescerão nas suas tendas".

outro deus além de m im , porque não há salvador senão eu".

Cf. Os 1.11: "E eles [Israel] se levantarão da terra [do Egito]..." (tradução do autor).21

Os 11.5: "Ele [Israel] voltará à terra do Egito (tradução do autor).22 Observe a alusão im plícita a um futuro êxodo do Egito em Oseias 2.15 acima.

21Ver, a respeito, o debate a seguir. 22Vários comentários e versões inglesas traduzem Oseias 11.5 da seguinte forma: “ele seguramente não retornará à terra do Egito”. Vários comentários e versões inglesas, no entanto, trazem “ele seguram ente retornará à terra do Egito”; outros ainda traduzem o versículo 5 com o uma pergunta: “ele não retornará à terra do Egito?”. Entendo que se trate de uma declaração afirmativa, sobre a qual veja no Apêndice 1 um tratam ento mais detalhado.


utiliza a linguagem do êxodo de Oseias 11.1 à luz do contexto mais amplo e particularm ente do imediato, em especial de Oseias l l . 23 O “retorno ao Egito” é profetizado nesse capítulo (Os 11.5), cujo tema principal é o êxodo a partir do Egito nos últimos tempos (Os 11.11). Não havia linguagem melhor para descrever a profecia de Oseias sobre o segundo êxodo e o início do seu cumprimento em Jesus do que a linguagem relacionada ao Exodo original. Essa conclusão é quase uma afirmação de que, para Oseias e, com mais nitidez, para Mateus, o primeiro Exodo foi apreendido como um padrão histórico, antecipando a recorrência dele mais adiante na história de Israel. Dessa forma, o uso de Oseias 11.1 por Mateus também pode ser descrito como “tipológico”, à medida que ele entendeu, à luz de todo o capítulo 11 de Oseias, que o primeiro Exodo':em Oseias 11.1 deu início a um processo histórico de pecado e julgamento que culminaria em um êxodo final (Os 11.10,11). Após chegar a essa conclusão, descobri que Duane Garrett opina algo semelhante: Não precisamos ir além de Oseias 11 para entender que Oseias também acreditava que Deus seguia certos padrões ao lidar com seu povo. Aqui, a escravidão no Egito torna-se o modelo de um segundo período de escravidão numa terra estrangeira (v. 5), e o Exodo a partir do Egito é o tipo de um novo êxodo (v. 10,11). Assim, as aplicações de princípios tipológicos a Oseias 11.1 [por Mateus] condizem com a própria natureza da profecia e com o método particular de Oseias.24 23E também à luz das esperanças do primeiro Exodo e do segundo êxodo implícito em outras partes do livro.

u Hosea, p. 2 2 2 . V. também o artigo recente de Richard B. G affin, “The Redemptive-Historical V iew ”, in B ib lical Hermeneutics: F iv e Views, org. por S. E. Porter e B. M . Stovell (Downers Grove: InterVarsity, 2 0 1 2 ) , p. 1 0 6 10 8 , que também observa a importância tipológica das referências ao êxodo (pagsado e futuro) ao longo de Oseias e dentro do próprio capítulo 1 1 do livro. G affin nota, ainda, que em 2 .1 5 M ateus segue o método de Oseias,


Muitos comentaristas observam como a localização da cita­ ção de Oseias 11.1 em Mateus 2.15 parece estar fora de ordem, uma vez que a citação aparece anexada ao relato da ida de José, Maria e Jesus rumo ao Egito e não ao retomo do Egito. Somente mais tarde, em M ateus 2.21, é dito que a fam ília voltou do Egito. Daí, vários comentaristas notam que a citação teria sido mais apropriada se tivesse sido colocada diretamente depois de Mateus 2.21, em que o contexto contempla o retorno da família a partir do Egito e sua “entrada na terra de Israel”. Aqueles que reconhecem a estranha localização de Mateus 2.15 explicam-na como a antecipação do retorno do Egito, narrado no contexto subsequente.25 Essa tese ganha força pelo fato de o começo de fazendo uma exegese histórico-gramatical de Oseias 1 1 .1 no contexto ori­ ginal. Para ele, Jesus incorpora Israel em si mesmo, o que também reflete um a abordagem teológico-bíblica. A o que parece, o único outro com en­ tarista que vê alguma significação na relação entre Oseias 1 1 .1 e 1 1 .1 0 ,1 1 é T. L. Howard, na sua brevíssima análise “The Use o f Hosea in M atth ew 2 :15 : an Alternative Solution”, B Sac 143 (1986), p. 3 2 1 -3 2 2 ,3 2 4 . H oward defende a tese de que a identificação analógica de Jesus com Oseias 1 1 .1 procede da premissa de que M ateus considerava Jesus o restaurador de Israel no seu reinado futuro e milenial (uma noção supostamente implícita em Os 1 1 .1 0 ,1 1 ) . E estranho que H oward não interprete o uso mateano de Oseias 1 1 .1 tipologicam ente, mas apenas analogicam ente, negando qualquer elemento de prefiguração em Oseias 1 1 .1 . A ssim , M ateus 2 .1 5 não faria referência ao cumprimento profético inicial de Oseias 1 1 .1 . Isso enfraquece a fórmula do “cumprimento”, presente em Mateus. V. também o artigo recente de Robert W . W all, “The Canonical V iew ”, in B ib licalH e rmeneutics: F iv e Views , p. 12 7 , sugerindo que repetidas referências ao antigo Êxodo em Oseias (1 1 .1 ; 12 .9 ,1 3 ; 13.4) têm uma orienfação futura im por­ tante, reconhecida por M ateus. O artigo me lembrou das referências mais sutis ao antigo Êxodo em Oseias 12 .9 e 13.4. 25Para uma visão com patível com essa perspectiva, v. M . J. J. M enken, “O u t o f Egypt I Have Called M y Son: Som e Observations on the Q uotation from Hosea 1 1 . 1 ”, in The Wisdom o f E gyp t: Jew ish , E a rly C hristian, a n d Gnostic Essays in Honour o f Gerard P. L uttikh uizen, org. por A . Hilhorst, G eurt H endrikvan Kooten e Gerard P. Luttikhuizen (Leiden: Brill, 2005),


Mateus 2.15 mencionar que a família permaneceu no Egito “até a morte de Herodes”. Tal afirmação nitidamente prefigura os versículos 20 e 21, em que o retorno de José e sua família está estreitamente vinculado à morte de Herodes. Outros argumen­ tam que a citação não poderia aparecer após o versículo 21, uma vez que o foco geográfico do final do versículo 21 e dos versícu­ los 22 e 23 é Israel, especialmente Nazaré. A inserção da citação depois de Mateus 2.21 desviaria a atenção do enfoque geográ­ fico em Israel e Nazaré. Nesse capítulo, portanto, a preponde­ rância da ênfase geográfica teria feito com que Mateus colocasse a citação no versículo 15, mesmo que, logicamente, ela pareça estar fora de lugar.26 A abordagem geográfica ainda entende­ ria o versículo 15 como a antecipação dos versículos 20 e 21.27 Nesse sentido, o padrão reiterado pelo qual Israel ou os israelitas entram no Egito para então sair dele pode estar por p. 1 4 3 - 1 5 2 , que defende a tese de que as intenções editoriais de M ateus causaram esse aparentemente deslocamento “a fim de enfatizar que o man­ damento do anjo do Senhor e a palavra anunciada pelo profeta detêm igual autoridade, cumprindo-se ambas ao mesmo tempo” (p. 150). 26Para um resumo dessas opiniões, v. Joel Kennedy, The R ecapitulation o f Israel (W U N T 2/257; Tübingen: M oh r Siebeck, 2 008), p. 1 2 8 -1 3 1 , que rejeita essas explicações e resolve o problema postulando que a referência ao “E gito” em M ateus 2 .1 5 é m etafórica e contrasta com as referências geográficas literais a “Egito” em 2 .1 3 ,1 4 ,1 9 . O argumento principal dele é que Israel teria se tornado como o Egito, à medida que Herodes tomara os contornos de outro faraó perseguidor. D aí, quando a fam ília de Jesus parte de Israel para o Egito, na realidade está partindo do Egito metafórico rum o ao Egito literal (v. ibid. 3 1 3 -3 1 4 ). O argumento de Kennedy é cria­ tivo, interessante e atraente, mas não é tão convincente quanto os pontos de vista que ele critica, especialmente porque esses pontos de vista serão corroborados pela discussão que travaremos a seguir, sobre o contexto de Oseias. A visão de Kennedy implica a compreensão metafórica de “Egito” no versículo 15 , quando as referências imediatamente anteriores e subse­ quentes são literais. Essa irregularidade é difícil de aceitar, não obstante as propostas criativas de Kennedy. 27P. ex., v. France, M atth ew , p. 7 9 -8 0


trás da referência de M ateus a Oseias 11.1, influenciando a localização aparentemente curiosa da citação. Os textos cita­ dos por comentaristas como indicativos desse padrão são: IReis 11.40, Jeremias 26.21-23, 4 4 .1 2 -1 5 ,2Reis 25.26 e Jeremias 41.16-18 e 43.1-7.28 Todas essas passagens mostram o Egito como lugar aparente de refúgio contra uma situação de perigo em Israel;29 porém, em todos os casos, quem procura o refúgio são os israelitas desobedientes, e, excetuando-se IReis 11.40, o Egito acaba por se tornar para eles um lugar de perigo. Craig Blomberg vê a possibilidade de IReis 11.40, em especial, estar por trás de Mateus 2.14,1530: “Salomão procurou matar Jeroboão, mas este fugiu para o Egito a Sisaque, rei do Egito, onde ficou até a morte de Salomão” (M t 2.14,15 traz: “José levan­ tou-se durante a noite, tomou o menino e a mãe e partiu para o E gito;31 e permaneceu lá até a morte de H erodes”). Esse padrão de entrar e então voltar do Egito é a recapitulação da entrada original de Israel no Egito e de seu Êxodo (Gn 46.4; 28Porém, somente a ida ao Egito é mencionada nas últimas três referên­ cias, talvez com a ideia subentendida do retorno a Israel. V. Kennedy, R eca-

p itulatio n of Israel, p. 13 4 , entre os comentaristas que citam essas referências como relacionadas com M ateus 2 .1 4 ,1 5 . Cf. IReis 1 1 .1 4 -2 2 . 29Cf. Josefo,yíw/. 12 .3 8 7-3 88 ; 14 .2 1; 15 .4 5 -4 7 ; 2Macabeus 5.8,9, embora essas passagens não mencionem o retorno a Israel; v., porém, Josefo, Guerra 7 .4 0 9 ,4 1 0 , p. 16 , que cita a entrada no Egito e o regresso dali. France,

M a tth e w , p. 79, considera conexos com M ateus 2 .1 3 - 1 5 todos os textos anteriores nos quais o Egito é apresentado como lugar de refúgio. 30V. Craig Blomberg, “M atthew ”, in A Commentary on the N ew Testam enú

Use ofthe Old Testament, org. por G . K. Beale e D. A . Carson^Grand Rapids: Baker, 2007) p. 7. [Edição em português: Comentário do uso do A ntigo Testa­ mento no Novo Testamento (São Paulo: Vida Nova, 2014).] Cf. John Nolland, The Gospel o f M atth ew (Grand Rapids/Cambridge: Eerdmans e Bletchley, Reino Unido: Paternoster, 2 00 5 ), p. 122. 3IObserve o uso de “foge” na ordem do anjo em M ateus 2 .13 , que apro­ xima os versículos 1 4 e 15 ainda mais de IReis 1 1 .4 0 (embora as palavras gregas traduzidas por “foge” sejam diferentes num caso e no outro).


SI 105.23,37,38), narrativa em que o Egito também acaba por se tornar um lugar de sofrimento e pecado (p. ex., Ez 20.7,8; 23.3,8,19,27), como ocorreu no caso dos israelitas que mais adiante ficaram no Egito.32 Esse padrão veterotestamentário mais amplo de entradas e saídas do Egito se destaca particularmente em Oseias, e já dissemos que ele se encontra ao longo de todo o livro desse profeta. O padrão mais amplo, tal como se apresenta especial­ mente em Oseias, pode ter influenciado a localização suposta­ mente “estranha” de Oseias 11.1 em Mateus 2.15. Observamos como o contexto mais amplo de Oseias aponta para o futuro regresso ao Egito e o retorno daquela terra. Como já argu­ mentamos, a referência a Oseias 11.1 deve ser contemplada dentro do contexto das repetidas referências ao antigo Êxodo no livro de Oseias, bem com o das referências ao regresso ao Egito e ao segundo retorno a partir dali. Em especial, esse padrão encontra-se na íntegra no capítulo 11 de Oseias. Em O s e ia sll.5 , meros quatro versículos depois de Oseias 11.1, encontramos “ele [Israel] voltará para a terra do Egito”, afir­ mação seguida pelo ponto cardeal da narrativa do capítulo como um todo, a saber: “Do Egito, seus filhos [...] virão tre­ mendo como um passarinho” (Os 11.11). Assim, o capítulo 11 de Oseias começa com o Exodo original de Israel (Os 11.1), traz no meio uma referência à nova entrada de Israel no Egito e conclui com a promessa do seu retorno futuro (Os 11.11). Jam es Lim burg resumiu a história de Oseias 11 da seguinte m aneira: “A história chega ao fim [no versículo 11]: saída do Egito, retorno ao ‘Egito’ por causa da rebelião e, por fim, saída do Egito de volta para casa, em virtude da compaixão do Senhor”.33 Todas essas referências em 11.1,5,11 estão vin­ culadas lógica e narrativamente. 3»Embora, para Jeroboão, o Egito tenha sido apenas um lugar de refugio.

i3H o sea-M icah (Atlanta: John Knox, 1988), p. 40.


Dessa perspectiva, se Mateus está ciente do contexto mais amplo (e especialmente do contexto imediato) da sua citação de Oseias 11.1, não teria ele em mente tanto a reentrada no Egito como o retorno a partir dali? Caso o contexto amplo de Oseias e especialmente de Oseias 11 esteja por trás do versículo 2.15 (como defendemos), a citação em M ateus 2.15 não está mal localizada: a volta da família de Jesus ao Egito é parte crucial da rica referência tipológica a Oseias 11.1.34 O relato da ida ao Egito configura a inauguração da referência contextualizada de Oseias 11.1, a qual, na sua visão mais abrangente, incluiu o futuro regresso de Israel ao Egito.35 Em seguida, Mateus 2.21 registra a fase mais tardia do cumprimento dessa profecia, rela­ tando o retorno do Egito e a volta à terra de Israel. Isso indica que Mateus quase tem uma espécie de perspectiva “histórico -gram atical” de Oseias 11.1 no contexto de Oseias 11.2-11! Mateus esclarece aquilo que já está latente em Oseias 11. Essa explicação acrescenta mais indícios para apoiar a perspectiva de muitos comentaristas de que a citação em Mateus 2.15 preíigura M ateus 2.21. Porém, também de modo importante, a explicação mostra como Mateus 2.15 não é puramente antecipatório, mas, antes, indica que M ateus 2.14 começa a cum­ prir Oseias 11.1, en tendido à luz do contexto im ediato de Oseias, especialmente Oseias 11. Como observamos, o padrão mais 34Outros chegam à conclusão de que Mateus entendeu Oseias 1 1 .1 como uma referência tipológica geral a Jesus dentro do contexto canônico mais am plo do A T (e não do contexto mais estreito de Oseias): v., p. ex., R. T. France, M a tth ew (T N T C ; G ran d Rapids: Eerdm ans, 19 8 5 ), p. 4 0 , 86, e Turner, M atth ew , p. 9 0 -9 1 . ^ 3SW illiam Hendrickson, N ew Testament Com m entary: E xposition o f the Gospel according to M atth ew (G rand Rapids: Baker, 1973), p. 17 8 , é o único comentarista que aventa a hipótese de a citação de Oseias 1 1 .1 estar relacio­ nada à entrada da família no Egito, uma vez que ele entende que a tipolo­ gia ampla do êxodo no A T em relação a Jesus inclui a proteção inicial que Deus oferece a Israel, levando seu povo ao Egito.


específico do regresso ao Egito e do retorno dali é corrobo­ rado em outros lugares do AT, podendo assim reforçar aquilo que encontramos em Oseias.36

2. O r ei que rep resen ta I sr a el no retorn o fu t u r o do E git Alguns consideram problem ática a aplicação de algo que é dito a respeito da nação, em Oseias 11.1, a uma figura messiâ­ nica individual. Para eles, Mateus distorceu o significado cole­ tivo original de Oseias 11.1. No entanto, a aplicação daquilo que se dizia da nação em 11.1 ao indivíduo Jesus também pode ter surgido da narrativa sobre a saída do rei de Israel do Egito, em Números 24, refe­ rência a que Oseias 11.10,11 parece fazer alusão. Na verdade, Números aplica a mesma imagem dá leão tanto ao povo (Nm 23.24) quanto ao rei (Nm 24.9). A possibilidade de aplicação dessa linguagem coletiva a um indivíduo é sugerida em Oseias 1.10,11, segundo o qual Israel será chamado de “filhos do Deus vivo” no tempo da restauração futura, que será comandada por “um líder”. Na verdade, até a afirmação no final de Oseias 1.11, “se levantarão da terra”, se traduz em uma referência ao retorno a partir da “terra” do Egito,37 especialmente por se tratar aí de ^Referências exclusivas à futura volta para o Egito ocorrem cm Deuteronômio 28.68, Is 30.2,3 e 3 1 .1 e em Jeremias 2 .1 8 ,4 2 .1 4 - 1 8 e 44.8,12 ,14 ; cf. Judeus vivendo no Egito no futuro, em Isaías 2 0 .3 ,4 , Jerem ias 2 4 .8 e 4 4 .1 ,1 3 ,1 5 ,2 6 ,2 7 . Referências somente a um retorno final escatológico do Egito, o que presume um futuro retorno dos israelitas ao Egito, podem ser encontradas em Isaías 1 1 .1 1 ,1 5 ,1 6 e 2 7 .1 3 e em Zacarias 10 .10 . 37Em Oseias, a palavra hebraica “terra” ( 'ãrets ) refere-se a Israel (7x), ao Egito (5x), à terra como tal (2x), à A ssíria (lx ) e ao deserto do Êxodo de Israel (lx). Porém, a ideia de “se levantar da terra” ocorre somente em 1 .1 1 (= 2 .2 ,T M ) e 2 .1 5 (= 2 .1 7 , T M ): o prim eiro texto diz “eles se levantarão da terra” iu f a lú m in -h aãrets), e o segundo texto diz “ela [Israel] se levantou da terra ( ‘“lõtâh m ê’erets) do Egito”, o que se refere ao prim eiro Êxodo de Israel. Isso estabelece uma identificação entre as duas passagens, sugerindo


uma alusão a Êxodo 1.10 e Isaías 11.16.38 Além do mais, que sentido teria esse texto caso ele se referisse à terra de Israel, uma vez que, no final dos tempos, Israel será restaurado de volta à sua terra? Seria estranha a referência a esse feito como o ato de Israel “se levantar da sua própria terra”. Se esse texto faz referência ao futuro retorno de Israel do Egito, ele condiz perfeitamente com a esperança contida em Oseias 11.10,11 (e em outras referências que 1 .1 1 constitui uma referência a Israel “se levantando da terra” do Egito no tempo da sua futura restauração. MCom o confirmação de que a expressão em Oseias 1 .1 1 se refere a “se levantando da terra” do Egito, observamos que a expressão consiste em uma alusão a Êxodo 1.10 ou a Isaías 1 1 .16 , em que !a lâ + m in -h aãrets aparece na locução “eles [ou “ele” = Israel] se levantou da terra [do Egito]” (embora Jz 1 1 .1 3 e especialmente 19 .3 0 sejam quase idênticos a Isaías 1 1 .1 6 ; também quase idêntico a Isaías 1 1 .1 6 é Zacarias 10 .1 0 , embora se utilize ali o verbo “retornar” seguido por “da terra” com referências tanto ao Egito quanto à Assíria, o que ocorre também em Is 1 1 .1 6 ). Essa fraseologia do hebraico se encontra mais quinze vezes no AT, mas se refere a Deus fazendo Israel “se levantar da terra” do Egito (Êx 3.8; 32.4,8; L v 1 1 .4 5 ; lR s 12 .2 8 ; 2Rs 17.7,36; J r 2.6; 7.22; A m 2 .10 ; 3.1; 9.7; M q 6.4; SI 8 1 .1 0 [11]; cf. D t 20.1); cinco vezes a expressão é utilizada em referência a Moisés agindo da mesma forma (Ex 32.1,7,23; 33.1; Nm 16.13). E possível que a expressão em Oseias 1 .1 1 (= 2.2, T M ) seja uma alusão coletiva a todas essas referências, o que reforçaria a tese de uma referência a “se levantar da terra" do Egito na pas­ sagem de Oseias. V. D erek D rum m ond Bass, “Hoseas Use o f Scripture”, p. 12 8 -1 2 9 , para quem Êxodo 1 .1 0 é a alusão em Oseias 1 .1 1 (= 2 .2 ,T M ). Pode ser que Isaías 1 1 .1 6 tenha sido a influência principal, uma vez que esse texto é o único outro que utiliza essa fraseologia no quadro da futura res­ tauração de Israel, juntamente com a restauração da “Assíria”. Oseias 1 1 .1 1 é semelhante nesse sentido (note a combinação similar àb Egito e Assíria em Os 7 .1 1 ; 9.3; 12 .1). Já Isaías (escrito aprox. entre 739^690 a.C.) pode­ ria ter utilizado Oseias (escrito aprox. entre 755 e 725 a.C.), uma vez que os ministérios dos dois profetas coincidiram durante quinze anos. Nesse caso, a trajetória intrabíblica mais viável seria Êxodo 1 .1 0 > Oseias 1 .1 1 > Isaías 1 1 .1 1 . Por outro lado, tanto Oseias quanto Isaías podem ter aludido a Êxodo 1 .1 0 independentemente, interpretando-o de modo tipológico no que diz respeito ao futuro.


implícitas notadas acima), afirmando explicitamente que esse êxodo futuro seria liderado por um indivíduo (o hebraico diz literalmente “um cabeça”). Esse retorno liderado por um indi­ víduo parece estar descrito em Oseias 3.5, cujo objeto é um rei davídico dos últimos tempos: “Depois os israelitas voltarão e buscarão o S e n h o r , seu Deus, e Davi, seu rei; e nos últimos dias, tremendo, eles se aproximarão do S e n h o r ”. Essa imagem de “tremor” em Oseias 3.5, para descrever a maneira com que Israel se aproximará de Deus na restauração, corresponde à referência ao renovo da nação em Oseias 11.10,11, em que eles também “virão, tremendo, do Egito” (“tremendo” se repete duas vezes em Oseias 11.10,11, embora o verbo hebraico não seja o mesmo de Os 3.5). Pode ser que esse detalhe aponte novamente para a compreensão teológico-bíblick de Oseias de que, no seu futuro retorno do Egito (conforme Os 1.11 e 11.10,11), Israel seria liderado por um único rei. Isso, por sua vez, ajuda a enten­ der como M ateus pôde aplicar a linguagem nacional coletiva de Oseias 11.1 a um indivíduo, o rei Jesus. Não é plausível que M ateus tenha feito essa leitura teológico-bíblica de Oseias? Poderíamos até afirmar que Mateus está interpretando Oseias 11.1 e 11.10,11 pela ótica de Oseias 1.10,11. E interessante observar que a referência aos “filhos do Deus vivo” em Oseias 1.10 tem como paralelo bíblico mais próximo M ateus 16.16, em que Pedro professa que Jesus é “o Messias, o filh o do D eus v i v o ”. Pode ser que essa seja uma refe­ rência a Oseias 1.10;39 nesse caso, Jesus seria visto como o filho do rei que lidera os filhos de Israel e os representa.40 A identi­ ficação desse filho individual com os filhos coletivos é a razão 39V. M a rk J. G o o d w in , “H osea and ‘the Son o f th e L ivin g G o d ’, in M atth ew 1 6 :1 6 b ”, CBQ 67 (2005) 2 6 5 -2 8 3 , que propôs essa alusão. 40A única outra ocorrência de “filhos”junto com “Deus vivo” se encon­ tr a d a literatura judaica prim itiva, embora não esteja tão próxima da fra­ seologia de Oseias 1 e de M ateus 16 : acréscimos a Ester 1 6 .1 6 (“filhos do


provável pela qual Mateus aplica ao indivíduo Jesus a referên­ cia ao “filho” coletivo de Oseias 11.1. H á m ais um a explicação que ajuda a entender como M ateus poderia tom ar uma referência à nação, contida em Oseias 11.1, e aplicá-la a um só indivíduo, o Messias. Duane Garrett analisou o uso de Gênesis em Oseias, descobrindo que o profeta alude várias vezes às descrições dos patriarcas e de outros indivíduos importantes na história de Israel, encontra­ das em Gênesis. As vezes, tais retratos são positivos; às vezes, negativos. O profeta aplica essas descrições à nação da sua época. Por exemplo, a iniqüidade de Israel no tempo presente consiste em este seguir o mesmo caminho de desobediência originalmente trilhado por Adão (Gn 6.7) ou Jacó (Gn 12.2-5). A promessa feita ao indivíduo Jacó (“farei a tua descendência como a areia do mar, que de tão grande não se poderá contar”, Gn 32.12; cf. Gn 15.5 e 22.17 em relação a Abraão) agora se reaplica diretamente a Israel como nação: “Porém o número dos israelitas será como a areia do mar, que não pode ser medida nem contada” (Os 1.10). Do mesmo modo, o texto referente ao vale de Acor, para onde Acã e sua família foram levados e executados (Js 7.24-26), é interpretado por Oseias no sentido inverso, indicando que Deus inverteria o julgamento de derrota e exílio de Israel. Portanto, a nação não seria exterminada em razão de seu pecado, mas teria uma esperança de redenção (Os 2.15). Em vez de partir do particular para o universal, Mateus vai do coletivo (Israel) para o individual (Jesus), mas utiliza a mesma hermenêutica do “um e muitos” paia interpretar e aplicar as Escrituras antecedentes, à semelhança de Oseias.41 Altíssimo, o mais poderoso Deus vivo”) e 3M c 6.28 (“filhos do todo-poderoso Deus vivo do céu”). 41V. D u an e G arrett, “The W ays o f G o d : R eenactm ent and R eversal in Hosea” (não publicada; palestra proferida na aula inaugural de D uane G arrett como professor titu lar de A T no G o rd on -C o n w ellT h eolo g ical


Conclusão Portanto, M ateus contrasta Jesus na condição de “filho” (M t 2.15) com o “filho” de Oseias (Os 11.1). O “filho” de Oseias saiu do Egito, foi desobediente e foi julgado, mas seria restaurado (Os 11.2-11). O “filho” de M ateus fez o que Israel devia ter feito: saiu do Egito, foi perfeitamente obediente, não mereceu ser julgado, mas foi sujeito ao julgam ento no lugar de Israel e do mundo inteiro a fim de que estes fossem restaurados a Deus. M ateus retrata Jesus como aquele que recapitula a his­ tória de Israel, pois Jesus incorpora Israel. Em decorrência da desobediência de Israel, Jesus veio fazer o que o povo deveria ter feito. Por isso, era preciso que seguisse os passos de Israel até o ponto em que este falhou e, em seguida, obedecesse e desse continuidade à missão que Is‘f ael deveria ter cumprido. A tentativa de matar as crianças israelitas, a viagem de Jesus e sua família para o Egito e a volta para a Terra Prometida reite­ ram o padrão básico seguido pelo Israel de outrora.42 Esse uso de Oseias 11.1 também exemplifica a importância dos acon­ tecimentos do Êxodo para Mateus e os demais escritores neotestamentários, no que se refere ao entendimento da missão de Jesus e da igreja. A viagem de Jesus do Egito para a Terra Prometida é identificada com o êxodo escatológico a partir do Egito para o qual o primeiro Êxodo de Israel apontava. Este ensaio também procura demonstrar que, ao con­ trário do que pensam vários especialistas, a citação feita por M ateus de Oseias 11.1 demonstra uma sensibilidade exegética e “histórico-gramatical” ao contexto imediato de Oseias 11.2-11, bem como ao contexto mais amplo do livro como um todo. Este últim o, aliás, fundam enta um a perspectiva Sem in ary, S o u th H am ilton, M A , outubro de 19 9 8 ). V. tam bém Bass, “Hoseas Use o f Scripture”, orientado p or Duane G arrett. 42Seguindo Enns, Inspiration an d In carn atio n , p. 134, embora tenhamos outro entendimento da abordagem hermenêutica de M ateus.


teológico-bíblica quanto à inter-relação das partes integrantes do livro de Oseias.43 É no rico repositório do livro de Oseias em si (possivelmente do próprio cap. 11) e de seus ecos de Núme­ ros 23 e 24 que Mateus colhe tudo o que está expresso em sua citação de Oseias 11. Por isso, a pergunta “A exegese tipológica de Oseias 11.1 feita por Mateus é exegética e hermeneuticamente legítima?”pode ser aprofundada e abandonada em favor da seguinte questão: “A exegese tipológica de Oseias, seguida por Mateus, é exegética e hermeneuticamente legítima?”. Não há espaço aqui para dar uma resposta satisfatória a essa per­ gunta, mas afirmamos que a exegese tipológica de Oseias pode ser verificada por meio de uma exegese histórico-gramatical do próprio livro de Oseias. A tipologia é hermeneuticamente legítima para os autores do AT? Creio que sim, pelo menos no nível teológico-bíblico, mas não posso me concentrar em defen­ der essa postura aqui, embora o tenha feito em outros textos.44 À luz disso, será que é mera coincidência que os ú lti­ mos versículos de Oseias 10 terminem com uma referência ao “tumulto que se levantará [...] quando mães foram despedaçadas 43Segundo France em M a tth e w , p. 8 1 (em bora eu não concorde com todos os seus argumentos), “A interpretação cristológica de Mateus consiste não na exegese daquilo que o texto [de Os 1 1 .1 ] citado significava no seu contexto original, mas num argumento teológico abrangente que tom a o texto do A T e o coloca dentro de uma estrutura global de cumprimento de promessas que vê em Jesus o ponto final de inúmeras trajetórias proféticas”. A observação de France quanto à visão mateusina de Oseias 1 1 .1 dentro de um argumento teológico e um esquema de cumprim ento mais amplo, abrangendo várias trajetórias veterotestamentárias, está corrèta. Porém, não exclui a ideia de M ateus prestar atenção ao contexto imediato de Oseias 1 1 dentro do contexto de Oseias como um todo. Na verdade, esta últim a noção era provavelmente o foco principal, o qual M ateus teria entendido de maneira secundária em um sentido teológico-bíblico, à luz do contexto canônico mais amplo e das trajetórias do AT. 44V. Beale, Handbook on the Use o f the O T in the N T , capítulos 1 e 4.


juntamente com os filhos” e “o rei de Israel será totalmente des­ truído” (Os 10.14,15)? No versículo seguinte (11.1), Oseias diz: “do Egito chamei o meu filho”. Isso é muitíssimo pare­ cido com Mateus 2.13-21, em que “todos os meninos [...] em Belém” foram “executados” (M t 2.16) e houve “grande pranto” da parte das mães (M t 2.18), seguido pela morte do “rei Herodes” (M t 2.1,3,15,20), cuja menção antecede e segue a citação de Oseias 11.1 — “do Egito chamei meu filho”.45 Os resultados deste estudo sobre Oseias 11 em Mateus 2 constituem uma tentativa de confirmar e exemplificar de modo mais profundo a avaliação de R. T. France, feita há mais de trinta anos, sobre o rico panorama contextual veterotestamentário por trás das citações em Mateus 2: \ Mateus [...] propositadamente compôs um capítulo rico em tesouros exegéticos. Quanto mais o leitor partilhasse das tra­ dições religiosas e da erudição do autor [isto é, do contexto do AT], mais ele encontraria profundas conotações na sua leitura. Porém, ao mesmo tempo, o significado evidente era claro o sufi­ ciente até para o leitor mais ingênuo [...] o tesouro de signifi­ cados ali contidos comunica um entendimento cada vez mais rico e positivo da pessoa e do papel do Messias, não integrado num esquema teológico fechado, mas diverso e sugestivo para aqueles que têm olhos para ver.46

Apêndice 1: A dificuldade da tradução de Oseias 11.5a Como observamos acima (v. nota 22), nas traduções inglesas de Oseias 11.5a lemos: “Não [/<?’] voltarão [ou, literalmente, “voltará” — “ele” = Israel] para a terra do Egito”. M uitas tra­ duções inglesas, porém, trazem “Eles voltarão para a terra do 45Q uem chamou minha atenção para a importância possível de Oseias 1 0 .1 4 ,1 5 foi um participante de uma conferência em que fui preletor. 4í,“The Formula-Quotations o f M atthew 2 and the Problem o f Communication”, N T S 2 7 (1981), p. 2 3 3 -2 5 1 (acréscimos entre colchetes do autor).


Egito” (ou “C ertam ente eles voltarão para a terra do Egito”),47 aparente e implicitamente interpretando lõ ’ como dotado de força positiva asseverativa48 (RSV, NRSV, JB, NLT, NEB49 e também JPS, NETB50)51; outros entendem que o lõ’ é negativo, mas traduzem o versículo 5a na forma de uma pergunta: “Será que eles não voltarão da terra do Egito?” (NIV)52. Segundo essa leitura, a pergunta retórica pede uma resposta positiva, de forma que essa tradução acaba por passar o mesmo sentido positivo das demais traduções que acabamos de citar. Os comentaris­ tas também se dividem quanto à visão do versículo; alguns o entendem como uma referência negativa explícita,53 outros o 47A A lm eida Século 2 1 corresponde às traduções inglesas aqui citadas por G . K. Beale: N A SB , KJV, A SV , Douay, H C SB ,T argum . (N. do T.) 48Sobre o uso da palavra /õ’com tamanha força positiva, v. The D ictionary o f C lassicalH ebrew , Vol. 4 , org. por D avid J. A . Clines (ShefEeld: Sheffield Academ ic Press, 19 9 8 ), p. 4 9 5 , em que se analisam vocalizações alterna­ tivas da partícula. U m a tradução explícita seria “eles certamente voltarão para o Egito”, como está na E S V e como preferem certos comentaristas. 49“Eles voltarão para o Egito.” 50Sobre isso, v. abaixo. 51A E S V traduz “Eles não voltarão para o Egito”, mas traz um a nota explicando que o versículo poderia ser traduzido: “Eles certamente volta­ rão para o Egito”. 52Veja Francis Brown, S. R. D river e Charles A . Briggs , A H ebrew a n d

English Lexicon o f the Old Testament (Oxford: Clarendon, 1907), p. 5 19 , que também entendem a partícula negativa lo como possivelmente imbuída de força interrogativa nesse trecho. 53Jo h n C alvin, The G om m entaries o fjo h n C a lv in on the Prophet H osea (Grand Rapids: Baker, 1984), p. 394 -39 5 ; Ebenezer Henderson, The Twelve

M in o r Prophets (G rand Rapids: Baker, 1 9 8 0 [orig. 18 5 8 ]), p. 66: Francis Landy, Hosea (ShefEeld: ShefEeld A cadem ic Press, 1995)^p< 13 9 ; A . A . M a c in to sh ,^ C ritic a i a n d E xegetical C om m entary on Hosea (Edimburgo: T & T Clark, 1997), p. 4 5 0 - 4 5 1 ; Thomas Edward M cCom iskey, “Hosea”, em The M in o r Prophets , org. p or Thomas Edw ard M cC om isk ey (G ran d Rapids: Baker, 19 9 2 ), p. 1 8 8 . V. G arrett, H osea , p. 2 2 5 , que considera o versículo 5a uma referência negativa, em bora adm ita a possibilidade de


interpretam positivamente.54 Assim, tanto as traduções quanto os comentaristas divergem quanto ao fato de o versículo 5a se referir a um retorno ao Egito ou à negação desse fato. Eu entendo a expressão como positiva: ou “Eles voltarão para o Egito”, o u “Não voltarão eles para o Egito?”, esta última opção antecipando uma resposta positiva. Visto que /õ’pode ser entendido com sentido positivo, é bem capaz de ser esse o seu sentido nessa passagem, especialmente porque, no decorrer do livro de Oseias, um futuro retorno ao Egito e a volta dali esse versículo afirmar que uma minoria iria voluntariamente para o Egito e muitos iriam para a Assíria pela força. V. também J. A n d rew Dearman, Hosea (G rand Rapids: Eerdmans, 2 0 10 ), p. 2 7 6 ,2 8 5 , que também prefere in terp retar o versículo 5a negativam ente, çnas aceita a credibilidade de várias opções alinhadas com uma leitura positiva, inclusive a noção de que o versículo 5a seria uma pergunta de valor retórico que pedia uma resposta positiva; Sweeney, The Twelve Prophets (Collegeville, M N : Liturgical Press, 2 0 0 0 ), p. 1 1 4 , reconhece como plausível a referência positiva da Septuaginta ao retorno de Israel para o Egito, aceitando ao mesmo tempo que o versículo 5 no hebraico pode ser uma referência a fato de Israel não voltar do Egito. S4P. ex., v. Hans W alter W olff, Hosea (Philadelphia: Fortress, 19 7 4 ), p. 192, para quem o pronome lô deveria ser incluído no final do versículo 4 ou que a partícula lõ' no versículo 5a deveria ser entendida de form a asseverativa positiva; igualmente, James Luther M ays, Hosea (O T L; Philadelphia: W estm inster, 19 6 9 ), p. 1 5 0 ,1 5 4 , e D ouglas Stuart, H osea-Jonah (W B C 3 1; W aco ,T X : W ord, 1987), p. 17 9 , que preferem incluir o pronome lô no final do versículo 4; v. D avid A llan Hubbard, Hosea (T O T C ; Leicester/ D owners G rove: Inter-Varsity, 19 8 9), p. 19 0 ; Francis I. Anderson e David Noel Freedman, Hosea (AB 24; N ew York: Doubleday, 19 8 0), p. 5 8 3 -5 8 4 , que entendem o lõ’ de maneira asseverativa (“certamente”). Estes últimos citam outros que estão de acordo; v. também G ary V. Sm ith, Hosea, Amos, M ica h (N IVA C; G rand Rapids: Zondervan, 2 0 0 1), p. 1 5 9 ,1 6 2 ,1 6 4 , que interpreta o versículo 5a como uma pergunta retórica que pede uma resposta positiva. C f. no mesmo sentido A lle n R. Guenther, Hosea, Amos (Scottsdale, PA/Waterloo, ON: Herald, 1997), p. 180, que entende o retorno para o Egito como figura da ida ao cativeiro na Assíria. V. sobre isso o A p ên ­ dice 2 , a seguir.


são repetidamente profetizados. Caso Oseias 11.5a realmente afirmasse que Israel não voltaria ao Egito, essa seria a única referência do tipo no livro todo, contradizendo as demais refe­ rências positivas. Isso é improvável, especialmente em vista de Oseias 11.11 (“voltarão do Egito tremendo como um passa­ rinho”), o que presume que os israelitas já estejam não só na A ssíria, mas também no Egito. M esm o assim, alguns ainda tentam explicar o versículo 5a como se fosse uma referência negativa dentro do contexto de Oseias.ss Se lõ ’ não tiver força positiva asseverativa nem for uma pergunta que peça uma resposta positiva, é igualmente pos­ sível que forme a conclusão do versículo 4, de maneira que a partícula negativa /õ’ seja lida como o pronome oblíquo da ter­ ceira pessoa do plural lô (“para ele”, entendido coletivamente como “eles”). A B iblia H ebraica S tuttgartensia adota essa tra­ dução: “Eu [Deus] tirei o jugo do pescoço deles e os [lit., “o”] alimentei com ternura”, de maneira que o versículo 5 começa com “Eles [ele] voltarão [voltará] para o Egito...” Se isso esti­ ver correto, como a NETB julga, a confusão textual entre o negativo lõ’ e o pronome lô deve ter ocorrido em razão de um erro de audição, pois as duas palavras têm o mesmíssimo som, e esse erro por parte dos escribas já foi encontrado em outros lugares da Bíblia hebraica (v. a nota à NETB).56 A Septuaginta SSP. ex., Landy, H osea, p. 1 3 9 , e M acintosh, H osea, p. 4 5 0 - 4 5 1 . Nesse sentido, M acintosh, entre outros, acha que Oseias 1 1 .5 reflete a situação histórica de 2Reis 1 7 .1 -6 , em que o rei Oseias de Israel tentou fazer um pacto com o Egito contra a Assíria. A aliança foi vencida pelo rei assírio, de form a que o rei Oseias não foi para o Egito, mas acabou exilado na A ssí­ ria. Porém, pode ser que esse texto se refira meramente a uma tentativa da parte do rei israelita de fazer uma aliança com o Egito. Talvez a m elhor referência seja Isaías 20, em que se profetiza que os refugiados israelitas no Egito serão entregues às mãos de “Sargão, o rei da Assíria”. S6E difícil saber se é esse o raciocínio por trás das traduções positivas de Oseias 11.5 encontradas em RSV, NRSV, JB, NLT e NEB. Essas traduções


segue, essencialmente, o hebraico: “Eu prevalecerei com ele [= eles coletivo]”, e começa o versículo 5 com “Efraim se assen­ tou no Egito”. A redação da Septuaginta, “Efraim se assentou no Egito”, pode ser uma referência ao passado; ou, mais pro­ vavelmente, o verbo no passado seja um caso do pretérito perfeito profético do hebraico, cuja função é fazer referência ao futuro. Porém, mesmo se o sentido original do texto fosse “Eles não voltarão para o Egito”, a interpretação positiva da Sep­ tuaginta (que entendeu o T M positivam ente) teria se tor­ nado parte da tradição exegética do primeiro século d.C., da qual M ateus teria tido ciência e a qual entenderia, à luz das outras referências positivas de Oseias, um retorno futuro ao Egito (o que é comparável, talvez, à Visão paulina de Salmos 68.18 em Efésios 4.8, em que Paulo muda “Ele recebeu dádi­ vas” para “Ele deu dádivas”, provavelmente para incorporar a noção global evidente em outros versículos do salmo 68, em que Deus proporciona dádivas a Israel). Mesmo na hipótese de que Mateus estivesse ciente apenas de uma referência negativa em Oseias 11.5, já vimos que há várias referências ao regresso futuro de Israel ao Egito nos capítulos 7—9 desse livro pro­ fético, das quais M ateus pode ter extraído o tema do retorno futuro ao Egito, incorporando-o na sua compreensão tipológica do capítulo 11. optam por “eles” no final do versículo 4, o que talvez resulte da tese de que “eles” seja o significado implícito da partícula nesse ponto (entendido como im plícito nas traduções N A SB , KJV, A S V , Douay, H C SB e Targum, tra­ duzindo o versículo 5: “eles não voltarão do Egito”); pode ser, ainda, que essas versões im plicitam ente entendam a partícula lo no início do versí­ culo 5 de maneira asseverativa (“certamente”, “seguramente”). A JP S situa a partícula negativa lo no começo do versículo 5, mas ainda interpreta a prim eira metade do versículo positivamente: “Não! Eles voltam para a terra do Egito”, apreendendo o “não” como uma resposta pecaminosa à oferta de D eus (no final do versículo 4) de lhes dar sustento.


Apêndice 2: A referência ao "Egito" em Oseias 11.5a e 11.10,11 seria literal ou figurada? Douglas Stuart57 e Allen R. Guenther58 estão entre os defenso­ res da tese de que o regresso ao Egito é figurado, sinalizando a ida ao cativeiro na Assíria. Mas Wolff,59 Dearman60 e Sweeney,61 entre outros, entendem que Egito e Assíria são lugares lite­ rais e geográficos, rejeitando a tese de que o Egito representa a Assíria. De modo enigmático, James Limburg62 acredita ser o “Egito” literalm ente a terra para a qual Israel voltará e, ao mesmo tempo, uma figura para o cativeiro futuro na Assíria. É improvável, porém, que o “Egito” seja figura da “Assíria” em Oseias 11.5, uma vez que, fora do livro de Oseias, “Egito” nunca tem uso figurado, com a exceção de Gênesis 13.10, em que faz parte de um símile explícito numa comparação com certa faixa da Terra Prometida. Tampouco é viável a ideia de que Oseias tenha utilizado “Egito” figuradamente para falar da “A ssíria” em todo o livro e só se refira literalmente ao país “Egito” no versículo 11.5 (como defende, por exemplo, McComiskey63). Que me conste, das seiscentas ocorrências da palavra “Egito” no AT, somente uma é figurada. Como vimos acima, esse único uso figurado ocorre dentro de um símile formal: “Sodoma e Gomorra”eram “como o jardim do Senhor, como a terra do Egito”. Nos outros lugares do AT, em que os retor­ nos da Assíria e do Egito são mencionados conjuntamente, é nítido que os dois termos devem ser entendidos (da perspec­ tiva do AT) como lugares geográficos literais, enumerados entre 51Hosea-Jona.h, p. 179. 5iHosea,Amos (Scottsdale, PA/Waterloo, ON: Herald, 1997), p. 180. 59Hosea, p. 2 0 0 ,2 0 2 . 60H o se a,p .2 9 3 . 61M in o r Prophets, p. 11 4 . b2H osea-M icah, p. 39. “ “Hosea”, p. 1 8 4 ,1 8 8 .


outros lugares a partir dos quais os judeus espalhados serão reunidos (Is 11.11,15,16; M q 7.11-13; Zc 10.8-11; aparente­ mente, também, Is 27.12,13, à luz de 11.11,15,16; v. também Is 19.23-25, que diz que os próprios Egito e A ssíria volta­ rão para Deus no eschatori). Quando “Egito” e “A ssíria” são mencionados juntos em outros contextos não escatológicos também figuram como lugares geográficos distintos e literais (Gn 25.18; 2Rs 17.4; 2Rs 23.29; Is 7.18; 20.3,4; Jr 2.16-18; Lm 5.6). As referências a “Egito” e “Assíria” em Oseias devem ser compreendidas à luz dos demais usos no AT, especialmente nos profetas. A passagem de Oseias 7.11 (Israel “sem enten­ dimento; invocam o Egito, vão para Assíria”) provavelmente se refere a regiões geográficas distintas, uma vez que Oseias 7.8 diz: “Efraim se mistura com os p o v o s [plural]”, aparente­ mente incluindo várias nações, não apenas a Assíria. O texto de Oseias 9.3 (“Efraim voltará ao Egito e comerá alim ento impuro na Assíria”) deve ser visto de modo semelhante, à luz de 9.17 (“andarão errantes entre as nações [plural]”). Aparentemente, Oseias 12.1 (os israelitas “fazem uma aliança com a Assíria e mandam o azeite para o Egito”) deve ser entendido da mesma forma. A referência, em Oseias 11.10,11, ao retorno de Israel do “Egito” e da “Assíria”, mas também “do ocidente”, parece indicar uma restauração mais ampla do que a mera volta da Assíria. Nesse caso, “Egito”pode ser uma referência literal entre os vários locais da Diáspora dos quais Israel será resgatado.


1 A Bíblia pode ser completamente inspirada por Deus e ao mesmo tempo conter erros? Uma resposta a certas propostas “evangélicas tradicionais”l

w os últimos cinqüenta anos, muito tem sido escrito a respeito I I da autoridade da Bíblia, especialmente nos diálogos dentro do chamado “cristianismo evangélico tradicional”,1 no tocante à natureza das noções de infalibilidade e inerrância. Recente­ mente, alguns autores têm questionado a visão tradicional da inerrância bíblica. Essencialmente, a inerrância entende que, sendo Deus verdadeiro e perfeito, sua palavra oral é verdadeira e perfeita e, logo, sua palavra na Escritura é também verdadeira e sem erros. E esse raciocínio, essa inferência teológica, a qual argumenta a partir do caráter perfeito de Deus em favor da perfeição da Escritura, que certos teólogos questionam. Tais críticos alegam que essa inferência é apenas uma dedução lógica e jam ais é mencionada na Bíblia. A ssim , embora aceitem a perfeição e a infalibilidade de Deus, opinam que Deus inspi­ rou toda a E scritura, mas sem ocultar as marcas da falibilidade humana. Portanto, sob essa ótica, o texto bíblico conteria, sim, ^ s t e artigo foi prim eiramente apresentado como parte d a ^ e C rossway A nnual Lecture, da Evangelical Theological Society Annual M eeting de 2 0 0 8 . Posteriorm ente, foi revisado para uma palestra dada no W e stminster Theological Seminary, na primavera de 2 0 0 9 , sendo publicado no

Westminster T heologicalJournall% (2 0 11), p. 1-2 2 .


coisas que podem ser consideradas “erros”; porém, Deus teria inspirado até esses “erros” como parte de sua mensagem para seu povo. Certos livros recentes defendem essa visão.2Talvez o exem­ plo mais claro seja lh e D ivin e A uthenticity ofS cripture [A auten­ ticidade divina da Escritura] (Downers Grove: InterVarsity, 2007), de A .T . B. McGowan, que diz, por exemplo: O erro básico dos inerrantistas consiste em insistir que a inerrância dos autógrafos é uma direta conseqüência da doutrina bíblica da inspiração (ou seja, da “expiração” divina). Para apoiar essa ideia, os inerrantistas fazem uma pressuposição indevida sobre Deus. Essa pressuposição é a seguinte: à luz da natureza e do caráter de Deus, o único tipoide Escritura que ele pode­ ria “expirar” seria uma Escritura textualmente inerrante. Caso existisse um único erro nos autógrafos, Deus não poderia ser o autor deles, pois não é passível de erro [p. 113]. Além disso, McGowan faz o seguinte resumo da postura dos defensores da inerrância: Uma vez que Deus é perfeito e não nos engana e é todo-poderoso, capaz de fazer todas as coisas, é inconcebível que per­ mitisse que erros contaminassem o processo da produção das Escrituras [...]. E possível entender a lógica que parte de uma premissa bíblica (a Escritura é “soprada”por Deus) para uma conclusão (a Escritura não pode conter erros) por meio de uma convic­ ção a respeito da natureza e do caráter de Deus (ele é perfeito e por isso não mente nem engana) [p. 114]. 2Acredito, p. ex., que isso está implícito no livro de Peter Enn, Inspiration an d In c arn atio n (G rand Rapids: Baker, 2005). Para uma resenha exaustiva v. G .'K. Beale, The Erosion o flnerrancy in E vangelicalism (W heaton: Crossway, 2 00 8 ), p. 2 5 -1 2 2 .


Essa premissa da inerrância define o programa de McGowan para essa parte de seu livro. Segundo ele: Primeiro, demonstrarei que a tese da inerrância é, na melhor das hipóteses, a conclusão de um raciocínio e não uma doutrina bíblica. Em segundo lugar, mostrarei que essa inferência é racionalista. Por fim, demonstrarei que a premissa subjacente subvaloriza Deus e solapa a importância dos autores humanos da Bíblia. Conforme esse ponto de vista, portanto, devemos acre­ ditar que toda palavra da Bíblia é divinamente inspirada, mas não que a Bíblia não contenha erros. Com base em Apocalipse, o presente ensaio dá uma res­ posta para argumentos como este de McGowan. Os seguintes pontos serão apresentados: 1) João é mais explícito sobre a dou­ trina da inerrância do que muitos imaginam; 2) João, em especial, refere-se explicitamente ao caráter de Cristo como “verdadeiro” e aplica esse mesmo atributo de “verdade” à palavra escrita de Apocalipse. A partir daí, defenderei a hipótese de que, em Apo­ calipse, João várias vezes vê uma ligação clara entre a perfeição de Cristo e a perfeição da Escritura. Na conclusão, examinarei se essa conexão se encontra unicamente em Apocalipse e em outros livros apocalípticos, como Daniel e Ezequiel, ou se no próprio Apocalipse de João há indícios da aplicação dessa noção de “verdade completa” a outros livros do AT. Também tecerei comentários sobre a falta de clareza na distinção entre “palavra” e “conceito” no que se refere ao termo “inerrância” — se esse termo tem de constar na Escritura para ser classificado como conceito bíblico. Argumentaremos que, embora a palavra “iner­ rância” não ocorra nas Escrituras, o conceito se faz presente de maneira explícita. Isso não faz que a doutrina seja uma extra­ polação, a não ser que se viole a distinção “palavra/conceito”. Este artigo tem três seções principais. A terceira deve ser vista à luz da prim eira e da segunda, que, em grande parte,


apresentam uma resposta à tese de M cGowan. Na primeira seção, defendo a ideia de que João recebeu a mesma ordem de escrever a palavra de Deus que o profeta Ezequiel recebeu. Em segundo lugar, faço uma análise da importância de Apo­ calipse 22.18,19 no que se refere à autoridade profética da forma escrita de Apocalipse, em que João coloca seus escritos no mesmo patamar de autoridade dos livros de Moisés. A partir dessas duas ideias introdutórias, isto é, de que João coloca seus escritos no mesmo nível daqueles de Eze­ quiel e M oisés, abordarei o assunto central deste artigo: se João estabelece ou não um vínculo explícito entre o caráter “verdadeiro” de Deus ou de Cristo e o caráter “verdadeiro” da Escritura.

A missão profética de João como escritor baseia-se na missão profética de Ezequiel como escritor No livro de Apocalipse, há vários momentos em que João é chamado e comissionado por Deus. Eles se baseiam no comis­ sionamento do profeta Ezequiel: Ezequiel

Apocalipse

2.2: "Então, quando ele falava comigo,

1.10: "No dia do Senhor, eu me

o Espírito entrou em m im e me pôs em pé...".

encontrei em espírito, e ouvi atrás de m im uma voz forte como fo som] de

3.12: "Então o Espírito me levantou, e ouvi detrás de m im uma voz estrondosa..."

3.14: "Então o Espírito me levantou e m e levou [...] rom a mão forte rio S enhor sobre mim".

3 .2 4 : "... o Espírito entrou em mim e me pôs em pá: e falou comigo..."

trombeta...”

4.1,2: "Depois dessas coisas, vi uma porta la n e perm anecia l aberta no céu, e a prim eira voz que ouvira, voz como [o so m ] de trombeta, falando comigo,

disse: Sobe aqui, e eu te mostrarei as coisas que devem acontecer depois destas. 2Fui im ediatam ente arrebatado em espírito e vi um trono no céu com alguém assentado sobre ele".


Ezequiel

Apocalipse

8.3,4: "...e o Espírito me levantou entre a terra e o céu, e nas visões de Deus me trouxe a Jerusalém [...]. 4Ea glória do Deus de Israel estai/a a li..

11.1: "Então o Espírito me levantou e me levou à porta oriental do tem plo do Sen h o r ...".

11.24: " Então o Espírito de Deus me

17.3: " Então, ele me levou em espírito até um deserto...".

21.10,11: Ele me levou no Espírito a um grande e alto monte e mostrou-me a Cidade Santa. Jerusalém f...l. 11Ela resplandecia com a glória de Deus..."íl\IVI).

levantou e me levou em visão aos que estavam exilados na Babilônia..

3 7 .1 :

el e [o Senhor] me levou pelo

Espírito do Senhor a um vale...".

43.5: "O F.spírito m e levantou e me levou ao pátio in te rio r: e a g lória do S enhor encheu o tem plo".

A apresentação do comissionamento de João em Apocalipse 1.10 utiliza a mesma linguagem do arrebatamento no espí­ rito que se encontra em E zequiel, mostrando que a reve­ lação de João tem a m esm a autoridade profética que a do profeta Ezequiel. O foco principal são as referências de Eze­ quiel 2 e 3 (especialmente 3.12), embora outras referências também apareçam.3 Em Apocalipse 4.1, a frase que fala da “trombeta” e, na seqüência, a referência ao arrebatamento no espírito (4.2a) evidenciam um vínculo com o prim eiro capítulo, um a vez que a mesma combinação ocorre na narração do chamado (Ap 1.10,llss.), e João se refere à “primeira voz”que ouvira (cf. Ap 1.12, em que ela parece ser a voz de Cristo). Esáa ligação 3Essa identificação com a autoridade profética veterotestam entária se confirma pela descrição da voz “como de trombeta”, que lembra a voz ouvida por M oisés quando Deus se revelou no monte Sinai (Ex 19 .1 6 ,19 ,2 0 ).


com o capítulo 1 mostra que, ao registrar as visões seguin­ tes, João continua cumprindo a tarefa profética de escrever (cf. Ap 1.10,11). A seção inicial de 4.1,2a conclui com uma reminiscência dos arrebatamentos no espírito de Ezequiel, identificando, novamente, a missão profética de João com a do profeta. No começo de Apocalipse 17.3, um anjo “levou”João ao deserto, no “Espírito”, a fim de transportá-lo para outra dimen­ são, na qual ele poderia ter a visão. A expressão “no Espírito” comunica as noções de instrumentalidade e de uma esfera dis­ tinta da terrena: “no e pelo Espírito”. Essa é uma fórmula de comissão profética baseada nas fórmulas atreladas ao comissio­ namento de Ezequiel (p. ex., Ez 8.3; 11.1,24 e 43.5, embora 2.2 e 3.12,14,24 também contribuam para o contexto). Em cada caso, Ezequiel é arrebatado no Espírito, para deixar claro que sua mensagem vem de Deus. Igualmente, a translação de João para a esfera do Espírito sublinha a natureza e a autoridade proféticas da sua missão, como vemos em Apocalipse 1.10 e 4.2. A mesma alusão à comissão profética de Ezequiel ocorre em Apocalipse 21.10. Vem especialmente ao caso o texto de Ezequiel 43.5: “o Espírito me levantou e me levou ao pátio interior, e a glória do S e n h o r encheu o templo”. Ao chegar ao pátio interior, Eze­ quiel se encontra na presença da glória divina. Nesse contexto, como parte da sua missão profética, Deus ordena a Ezequiel: “mostra o templo aos da casa de Israel” e “escreve isto à vista deles” (43.10,11). Essa é provavelmente a ponta do iceberg que revela que a missão profética de Ezequiel incluía a escrita do livro inteiro atribuído à sua autoria. Em conseqüência disso, a missão profética de Ezequiel vai além de suas palavras anuncia­ das verbalmente a Israel; abrange também o registro da men­ sagem de Deus no livro de sua autoria. De modo semelhante, a missão de João vai além de ter as visões de Deus e ouvir a


sua palavra, incluindo também o esforço de deixar essas visões e palavras registradas em um documento escrito.4 Há outra referência extensa à experiência de Ezequiel que é aplicada a João: Ezequiel 2 e 3

Apocalipse 10

2.8: "Mas, ó filho do homem, ouve o

10.8: "A voz que eu havia ouvido do

que te digo; não sejas como esse povo rebelde, abre a tua boca e come o que

céu [...] [eu a o u v i falando comigo]

eu te dou".

2.9: "Quando olhei, vi que uma mão

novamente, dizendo: Vai e pega o livro aberto na mão do anjo que está em pé sobre o mar e a terra".

se estendia para m im , e nela estava um rolo de um livro".

2.10: "Ele o abriu diante de m im ; e o rolo estava escrito por dentro e por fora; e nele estavam escritos lamentos prantos e ais".

3.1: "Em seguida,ele m edisse: Filho

10.9,10: "Então, fui até o anjo e pedi-

do homem, come o que achares; come

lhe que me desse o livrinho. Ele me respondeu: Pega-o e come-o; ele lhe será amargo no estômago, mas doce

este rolo, e vai, e fala à casa de Israel".

3.2: "Então abri a boca, e ele me deu o rolo para comer".

3.3: "E disse-me: Filho do homem, come e enche o estômago com este rolo que te dou. Então o comi, e minha boca ficou doce como o mel".

3.4: "E ele me disse ainda: Filho do homem, vai à casa de Israel e dize-lhe as minhas palavras".

como mel na boca. 10Peguei o livrinho da mão do anjo e o comi; ele era doce como mel na minha boca, mas depois que o comi, meu estômago ficou amargo".

10.11: "Então me disseram: É necessário que profetizes ofetra vez a muitos povos, nações, línguas e reis".

4V. A pocalipse 1 . 1 0 ,1 1 , 1 9 , em referência à escrita do livro com o um todo, assim como 2 .1 ,8 ,1 2 ,1 8 ; 3 .1 ,7 ,1 2 ,1 4 ; 1 4 .1 3 ; 19 .9 ; 2 1.5 , que falam a respeito da escrita de várias partes do livro.


O recebimento simbólico do livro pelo profeta aponta para seu chamado profético. A ordem de tomar o livro para comê-lo, bem como o cumprimento dessa ordem, é um quadro que ilus­ tra a renovação formal da comissão do profeta. Como obser­ vamos acima, isso já foi expresso em Apocalipse 1.10 e 4.1,2 numa alusão à comissão profética de Ezequiel. D a mesma forma, a alusão a Ezequiel se aplica novamente à ideia idên­ tica de outorgar uma comissão profética a João. A referência exata citada no décimo capítulo de A pocalipse é Ezequiel 2.8—3.3. Como João, o profeta Ezequiel recebeu sua missão e foi orientado para que tomasse e comesse um rolo, com o efeito de que a mensagem reveladora “foi doce como o mel na minha boca”. O fato de o profeta ter comido o rolo sinalizava sua identificação com a mensagem ali contida. Ezequiel era o ministro de Deus incumbido da tarefa de entregar a men­ sagem de advertência. A lém do mais, tinha de pronunciar o julgam ento divino previamente determinado, ao qual um remanescente reagiria de maneira positiva e penitente (p. ex., Ez 3.20; 9.4-6; 14.21-23). O ato de Ezequiel comer o rolo é aplicado a João com o mesmo significado, embora as circunstâncias históricas fossem diferentes. Existem diferenças nos detalhes das respectivas comissões de Ezequiel e João,5 mas nos dois casos o ato meta­ fórico de comer a palavra de Deus simboliza a identificação total com a vontade divina, bem como a submissão a ela. Tal identificação e submissão comprovam a aptidão desses homens para ser instrumentos proféticos na mão de Deus. A mensagem deles contém o poder da palavra de Deus, pois é a Palavra de Deus, e foi ela que eles foram chamados a anunciar. Em con­ traste com Ezequiel, João não se dirige a Israel; antes, adverte 5Para m aiores explicações sobre o uso de Ezequiel 2 .8 — 3 .3 , v. G . K. Beale, R evelatio n (N IG T C ; G rand Rapids: Eerdmans, 19 9 9 ), p. 5 5 0 -5 5 3 .


a igreja sobre a descrença e a contemporização com o mundo idólatra, além de advertir os próprios pagãos (v. abaixo sobre o versículo 11 e sobre ll.ls s .) . O propósito da evocação do chamamento de Ezequiel, comparando-o com o de João em A pocalipse, consiste em destacar que o autor do Apocalipse detém a mesma autori­ dade profética do profeta Ezequiel. À semelhança de Eze­ quiel, João não apenas fala a palavra de Deus, mas recebe ordem da parte de Deus para que registre a palavra divina por escrito (v. Ez 43.11 [cf. 24.1,2] e Ap 1.10,11,19, a introdução de cada uma das sete cartas; cf. também as conotações de Ap 22.18,19). Na verdade, a ideia de um comissionamento pro­ fético que engloba a forma escrita da mensagem do profeta está enraizada no AT. Em especial, a ordem de “escrever em um livro” (ypái|/ov e íç |3i|3\íov ,g ra p so n eis biblion) em Apo­ calipse 1.11 reflete o mandamento dado por Yahweh aos seus servos, os profetas, para que comunicassem a Israel a mensa­ gem que haviam recebido (assim diz a LXX em Ex 17.14; Is 30.8; Jr 37.2; 39.44; Tb 12.20). Nos profetas, todas as comis­ sões consistiram no mandamento de escrever testemunhos de julgamento contra Israel (assim diz a LXX em Is 30.8; Jr 37.2; 39.44; cf. tb. Êx 34.27; Is 8.1; Jr 36.2; Hc 2.2). Por exemplo, Jeremias 37.2 (LXX) diz: “Assim diz o Senhor Deus de Israel, dizendo: Escreva em um livro todas as palavras que eu te falei”. Igualmente, boa parte da mensagem de João tem como foco o anúncio do julgam ento divino, como no caso do julgamento dos selos, trombetas e cálices, bem como em outras descrições de julgamento encontradas no livro. À luz dos debates contemporâneos acerca da tem ática “infalibilidade” versus “inerrância” ou das questões referentes à própria definição do termo “inerrância” (v. a introdução), será que as perguntas modernas sobre a natureza da tarefa autoral de Ezequiel e João — de escrever a palavra de Deus — seriam


descabidas? Isto é, será possível que a palavra registrada nos livros deles contenha uma mescla de materiais falíveis e inerrantes, mesmo se os erros forem poucos ou pequenos? Ou será que a palavra escrita desses homens deve ser entendida como a palavra perfeita de Deus, em seus mínimos detalhes? Inicial­ mente, esse assunto será tratado em referência a Ezequiel, o que pode iluminar a questão encontrada em Apocalipse. Depois disso, examinaremos apenas os dados do livro de Apocalipse, para verificar se eles elucidam esse tópico complexo. Na primeiríssima vez em que se fala a respeito da comis­ são de Ezequiel (Ez 2.2), afirma-se que um dos propósitos da vinda do profeta é para que Israel saiba “que um profeta esteve no meio dele” (2.5, também 33.33). O resumo da mensagem profética de Ezequiel é: “diga a eles: Xssim diz o S e n h o r Deus” (2.4, cf. 2.7: “Tu lhes dirás as minhas palavras”). Vale lembrar que a incumbência dada a Ezequiel incluiu a tarefa de regis­ trar as palavras divinas no papel. E importante observar que as palavras de Ezequiel são contrastadas com as palavras “falsas” e “mentirosas” dos falsos profetas de Israel (12.24; 13.7,9,23; 21.23,29; 22.28). Por exemplo, os falsos profetas profetizam “paz” em Israel apesar dos pecados da nação (13.10,16). A natureza “falsa” das suas profecias será exposta, e a profecia de Ezequiel sobre a destruição de Jerusalém — conseqüência da sua apostasia — se cumprirá, dando credibilidade a seu status e confirmando-o como um verdadeiro profeta: “Quando isso acontecer, como de fato acontecerá, saberão que havia um pro­ feta no meio deles” (Ez 33.33). A mensagem dos falsos profe­ tas está errada, uma vez que “profetizam do próprio coração” e “seguem seu próprio espírito” (13.2,3). Por isso, a diferença entre Ezequiel e os demais profetas consiste no fato de aquele falar e escrever somente a palavra de Deus, enquanto estes falam suas próprias palavras equivoca­ das. Não há nenhuma indicação de que a palavra de Ezequiel


contenha qualquer elemento falível, falso ou inverídico; tam­ pouco se encontra uma diferenciação entre a palavra impura e a palavra divina nos escritos de Ezequiel. Antes, afirma-se um contraste absoluto entre o profeta Ezequiel e os falsos profe­ tas. Esses antecedentes fazem parte do uso que João faz dos repetidos comissionamentos proféticos de Ezequiel,6 e fica evi­ dente nas várias ordens para que João “escreva” o que o separa dos profetas falsos em meio às igrejas.7 Veremos que a questão do falso ensino contraposto ao testemunho de João ocorrerá novamente no livro.

A importância de Apocalipse 22.18,19 para a autoridade profética da forma escrita de Apocalipse Os versículos 18 e 19 são um resumo do livro de Apocalipse, concebido como um novo código legal para um novo Israel, modelado a partir do antigo código legal entregue à nação de Israel. Embora muitos comentaristas notem apenas Deuteronômio 4, João alude a uma série de textos de advertência que aparecem ao longo de Deuteronômio: 6V. Richard Bauckham, The C lim ax ofProphecy (Edinburgh: T & T Clark, 1993), p. 15 0 -1 5 9 , que também reconhece o comissionamento profético de Ezequiel como o que está por trás do comissionamento de João em A p o ­ calipse 1.10 , 4 .2 ,1 7 .3 e 2 1 .1 0 . Embora não se concentre na form a escrita da profecia de Ezequiel ou de João, Bauckham afirma sobre a declaração de João de que “a revelação inteira veio a ele èv Trveú|icm” (en pneu m ati, “no espírito”): “isto foi para o propósito de com unicar a revelação” (ibid., 158). A lém disso, Bauckham explica que “a validade da mensagem de João não consiste na experiência em si, mas na afirmação de que tijtío aconte­ ceu sob o controle do Espírito, chegando a ele por meio de Jesus Cristo, da parte de Deus” (ibid., 159). Igualmente, o Espírito “inspirou a recepção [da mensagem], pois João, no Espírito, recebeu uma mensagem profética a ser comunicada a outras pessoas” (ibid, 159). 7V. Apocalipse 2 .12 , em relação a 2 .1 4 ,1 5 e 2 .1 8 , em relação a 2 .2 0 -2 4 ; lembre-se de que essas ordens para “escrever” são extensões de 1 .1 0 ,1 1 , que remete, em parte, à comissão profética de Ezequiel.


Deuteronomio "... ouve agora os estatutos [...]. Não acrescentareis nada à palavra [...] nem d im inu ire is... [4 .1 ,2 ; tb. 12 .32] [...] e acontecerá, ao ouvir as palavras [...] toda maldição escrita neste livro virá sobre ele, e o Senhor apagará o nome dele de debaixo do céu" [2 9 .1 9 ,2 0 ].

Apocalipse 22.18,19 "Dou testemunho a todo que ouvir as palavras [...] se alguém lhes acrescentar alguma coisa, Deus lhe acrescentará as pragas escritas neste livro; 19e se alguém tirar alguma coisa das palavras do livro [...] Deus lhe tirará a sua parte da árvore da vida e da cidade santa...".

Entre outras semelhanças que reforçam a ligação de Apo­ calipse 22.18,19 com Deuteronômio, citamos: 1. Tendo em vista os contextos anteriores e posteriores das três passagens de Deuteronômio, está claro que as três são advertências específicas contra a idolatria, como é o caso também em Apocalipse 22 (v. 21.8; 22.15). 2. U m a resposta positiva às advertências do A T e do N T resulta na bênção de vida na nova terra (Dt 4.1; 12.28,29; cf. Ap 21.1—22.5 com 22.14,17-19). 3. Ambos os textos utilizam a terminologia das “pragas” para descrever o castigo da infidelidade (v. xàç TtXriYàç, tas p lêga s, em Dt 29.21 e Ap 22.18). O que significa “acrescentar” ou “diminuir” algo às pala­ vras reveladas? A resposta deve ser procurada no livro de Deu­ teronômio. Tanto em Deuteronômio 4.1,2 quanto em 12.32 a linguagem evidencia uma dupla advertência contra o ensino enganoso que afirma ser a idolatria compatível com a fé no Deus de Israel (v. Dt 4.3, que alude ao episódio de Baal-Peor em Nm 25.1-9,14-18 e em D t 13). Aqueles que enganam o povo dessa forma são falsos profetas (Dt 13.1,2ss.). Nesse sen­ tido, é interessante observar que Deuteronômio 12.32 consta, na Bíblia hebraica e nos Targuns (Onqelos e Neofiti), como o primeiro versículo do capítulo 13 (ao contrário das nossas


versões atuais e da LXX [também = 13.1]), que introduz a questão dos falsos profetas (cf. o falso profeta Balaão por trás do engano de Baal-Peor; v. Ap 2.14). O ensino falso “acres­ centa” algo à lei de Deus. Pode também “diminuir” algo da lei de Deus, uma vez que anula as leis contra a idolatria. A deso­ bediência daqueles que seguem esse ensino falso está prova­ velmente incluída na dupla advertência de Deuteronômio 4.2 e 12.32, como confirma Deuteronômio 29.19,20. Portanto, “acrescentar e diminuir” não se referem somente à desobediência à palavra divina em geral, mas também ao falso ensino sobre a palavra ençontrada nas Escrituras e à aceitação desse ensino. A crença na verdade perm anente da palavra de Deus é a premissa para a obediência a ela; cf. Deuteronômio 4.2: “Não acrescentareis [...] nem diminuireis nada que gu a rd eis os mandamentos do S e n h o r ”. Os documentos legais de tratados do antigo Oriente Pró­ ximo, cujo modelo Deuteronômio 4 reproduz, também eram protegidos contra alterações intencionais por meio de cláusu­ las imprecatórias registradas no texto.8 A forma escrita desses documentos era tão inviolável quanto os conceitos neles con­ tidos, e era dotada de autoridade absoluta. Caso alguma das partes alterasse qualquer elemento da forma escrita do registro ou deixasse de cumprir suas obrigações, ela seria amaldiçoada. Por exemplo, no tratado de Tudhaliya IV com Ulmi-Teshub encontra-se a seguinte maldição: “Se alguém [...] alterar uma só palavra desta tabuleta [...] que os milhares de deuses deste documento erradiquem os descendentes desse homem da terra de H atti”.9 Não se proibia apenas “m udar” ou “alterar as palavras”, mas também descumprir as cláusulas: se alguém “não cumprir as palavras deste tratado [...] os deuses [...] do 8M . G . Kline, The Structure o fB ib lica lA u th o rity (G rand Rapids: Eerdmans, 1972), p. 2 7 -3 3 . 9Em Kline, The Structure o fB ib lical A uthority, p. 29.


juramento vos destruirão”.10 O fato de serem os deuses a apli­ car a sentença pela violação dá a entender que os tratados e sua linguagem tinham autoridade divina. Do mesmo modo, dizia-se que os encantamentos mágicos do Egito haviam sido criados por diversas divindades.11 O fato de a autoridade desses docu­ mentos do antigo Oriente Próximo se refletir não somente nos conceitos neles expressos, mas também nas próprias palavras do texto serve de pano de fundo do tratado de Deuteronômio, escrito para Israel e dado por Deus à nação por intermédio de Moisés. Essa é a melhor maneira de entender a afirmação: “Não acrescentareis [...] nem diminuireis nada p ara que gu a r­ deis os mandamentos do S e n h o r ” (D t 4 .2 ) ; e a advertência conceituai de 2 9 . 1 9 , 2 0 : “Não aconteça que alguém, ouvindo as palavras [...] toda maldição escrita neste livro virá sobre ele [que desobedeceu aos mandamentos escritos neste livro], e o S e n h o r apagará o nome dele de debaixo do céu”. A dupla advertência de Deuteronômio 22.18,19 tem como alvo aqueles que incentivam ou seguem esse ensino sedutor. Esse pano de fundo de Deuteronômio tem ligação intrínseca com Apocalipse 22.18,19, uma vez que todas as descrições das três listas de vícios de 21.8,27 e 22.15 se encerram sublinhando a astúcia dos ímpios, ligada à idolatria (v. Ap 21.8,27; 22.15). Consequentemente, “acrescentar” algo às palavras da profecia de João é promover o falso ensinamento de que a idolatria é compatível com a fé em Cristo. “Diminuir das palavras deste livro de profecia” também significa a promulgação de um ensi­ namento enganoso que amenizaria as exortações do Apocalipse contra a idolatria. Como em Deuteronômio (e reforçado pelo pano de fundo do antigo Oriente Próximo), tanto as palavras como os conceitos ou condições expressos por essas palavras eram invioláveis e portadores de autoridade absoluta. l°V. ibid., p. 30, para as principais fontes dessas citações. n Ib id .,p . 3 1.


H á uma analogia marcante em lE n oq u e 104.11, em que “alterar ou subtrair das minhas palavras” significa que os lei­ tores não devem “mentir”, nem “levar em consideração [...] os ídolos”, nem “alterar e perverter as palavras da justiça”, nem ainda “praticar grandes enganos”. O texto de lEnoque faz parte da tradição de Deuteronômio, tradição da qual João também lança mão. Josefo {ContraÁpio i. 42-43), de modo muito semelhante, alude à linguagem de Deuteronômio 4.2, entendendo-a como uma advertência contra escribas doutrinariam ente hostis e contra qualquer israelita que seja tentado a rejeitar o AT como “lei de Deus” e pronunciar “mesfho uma só palavra contra ela”. Tanto lE n oq u e como Josefo veem aí uma advertência, tanto contra a violação dos mandamentos de Deuteronômio, quanto contra a modificação até de palavras isoladas. Essa análise também condiz com as circunstâncias das igrejas retratadas nos capítulos 2 e 3, em que todas as igrejas lutam contra a idolatria de uma forma ou outra, embora nem sempre com sucesso. Notavelmente, alguns dos falsos mestres e seus seguidores, que incentivam a idolatria na igreja de Pérgamo, são identificados com aqueles “que seguem a doutrina de Balaão, que ensinou Balaque a fazer os filhos de Israel peca­ rem, induzindo-os a comer das coisas sacrificadas a ídolos e a se prostituírem” (v. Ap 2.14). O mesmo ensino enganoso também prevalecia na igreja de T iatira (v. Ap 2.20-23). Os falsos pro­ fetas distorcem a verdade, quer acrescentando-lhe uma falsa teologia, quer subtraindo elementos da verdade revelada. É provável até que o texto se refira a alguém que modificasse intencionalmente as palavras, uma vez que essa intenção esta­ ria relacionada aos falsos ensinamentos.12 12Esta seção sobre Apocalipse 2 2 .1 8 ,1 9 se baseia em Beale, R evelation, p. 115 0 -115 4 .


Por outro lado, “as palavras escritas neste livro” por João são verdadeiras e completamente confiáveis.

0 comissionamento profético de João para escrever palavras verdadeiras baseia-se no caráter verdadeiro de Deus e de Cristo, de quem as palavras procedem Além do pano de fundo de Ezequiel e Apocalipse 22.18,19, que tratamos nas primeiras duas seções deste artigo, como é que o próprio livro do Apocalipse confirma de modo mais específico esse entendimento da natureza do registro escrito de João? Até o presente momento, vimos que Apocalipse 22.18,19 mostra que a forma escrita de Apocalipse é absolutamente inviolável. Também vimos que as repetidas ordens de “escrever” no começo de cada uma das sete cartas constituem um desenvolvimento direto da missão profética inicial de 1.10,11. Igualmente, vimos que a comissão de Ezequiel incluía falar e escrever as próprias palavras de Deus, e que o comissionamento de João se define da mesma forma. Talvez seja esclarecedor refletir um pouco mais a respeito da incumbência de João de “escrever”palavras inabalavelmente verdadeiras, sobretudo porque isso está relacionado ao caráter perfeito de Deus e de Cristo. Nas cartas, o imperativo de “escre­ ver” transmite essa ideia. Depois de cada ordem para “escre­ ver”, a mensagem seguinte se revela como a própria palavra de Cristo, mensagem que, no fim de cada carta, também é iden­ tificada como palavra do Espírito: “quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas”. Então, a palavra escrita de João é também a palavra de Cristo e do Espírito. Será que alguma dessas sete mensagens epistolares pode conter erros humanos da parte de João, mesclados com a verdadeira mensagem de Cristo e do Espírito? Nas cartas, não há nenhuma pista de que seja,esse o caso. Com efeito, à ordem de “escrever” cada carta segue-se imediatamente uma apresentação de Cristo, que lança


mão de algum aspecto do seu retrato no capítulo primeiro, em que ele confere a missão profética a João. Alguns aspectos do capítulo 1 e dos capítulos 2 e 3 descrevem Jesus como um ser divino.13 Sendo ele um ser divino, é difícil imaginar que Cristo daria a João a missão de “escrever” suas palavras, caso soubesse que João não poderia representar essas palavras pontual e tex­ tualmente. Isto é, na execução da tarefa dada por Cristo, João não poderia cometer erros humanos e assim contaminar a men­ sagem de Cristo em qualquer ponto. É verdade que essa conclusão sobre a perfeição da mensa­ gem de João se apoia, tecnicamente, em deduções lógicas que, a nosso ver, defluem diretamente de^Ezequiel, do uso de Eze­ quiel em Apocalipse e de Apocalipse 22.18,19, já examinados. Porém, essas deduções não são meras inferências encontradas nas obras de intérpretes posteriores de Apocalipse (como eu); defenderei a tese de que elas constam explícita e exegeticamente no próprio livro do Apocalipse. Abordaremos agora essas inferências explícitas. D aqui em diante, este artigo apresentará os seguintes pontos: 1) que João recebe o mandamento de “escrever” as “pala­ vras” orais de Deus e Cristo em um “livro” e 2) que as palavras escritas serão “fiéis e verdadeiras”, 3) p o is vêm de Cristo e de Deus, cujo caráter é “fiel e verdadeiro”, e 4) uma vez que João escreve sob a inspiração e a autoridade proféticas, aquilo que escreve representa de forma exata aquilo que ouviu de Deus ou de Cristo. Portanto, o caráter de Deus e de Cristo como inabala­ velmente “verdadeiros” fundamenta o fato de a palavra escrita de João em Apocalipse ser completamente “verdadeira”. A dedução lógica sobre a natureza da Escritura que hoje se vê questionada é a exata dedução que, conforme concluirei, consta em Apocalipse. 13V. Apocalipse 1.8 ,1 4 ; 3.7, em Beale, R evelatio n , in loc.


Há quatro passagens de Apocalipse que, juntas, demons­ tram como a palavra escrita de João é completamente “verda­ deira” por originar-se do Deus que detém o atributo da verdade absoluta: A p 3.14:"Escreve ao anjo da igreja em Laodiceia: Estas coisas diz o Amém, a testemunha fiel e verdadeira, o princípio da criação de Deus...". Ap 19.9 : "E me disse: Escreve: Bem-aventurados os que são chamados à ceia das núpcias do Cordeiro! Disse-me ainda: Estas são as verdadeiras palavras de Deus". Ap21.5 : "O que estava assentado sobre o trono disse: Eu faço novas todas as coisas! E acrescentou: Escreve, pois estas pala­ vras são fiéis e verdadeiras". s Ap 22.6: '’E disse-me: Estas palavras são fiéis e verdadeiras. O Senhor, o Deus dos espíritos dos profetas, enviou seu anjo para mostrar a seus servos as coisas que em breve hão de acontecer". Apocalipse 3.14 Apocalipse 3.14 tem como foco o caráter divino e verdadeiro de Cristo. Nos capítulos 19,21 e 22 de Apocalipse, a palavra escrita de João é considerada verdadeira em razão desse atri­ buto divino. Na verdade, as afirmações de A pocalipse 21.5 e 22.6 são desdobramentos diretos de Apocalipse 3.14, uma vez que todas contêm a expressão “fiel e verdadeiro” (também, como veremos, Ap 19.9 provavelmente está ligado às afirma­ ções posteriores dos capítulos 21 e 22). Além disso, o vínculo entre Apocalipse 3.14, 21.5 e 22.6 é reforçado pelo fato de todos esses versículos aludirem a Isaías 65.16:

E aquele que invocar bênção sobre si na terra será abençoado pelo Deus verdadeiro; e aquele que jurar na terra jurará pelo Deus verdadeiro', porque os sofrimentos passados já estão esque­ cidos e escondidos dos meus olhos.


É preciso demonstrar a existência dessa alusão isaiânica em Apocalipse 3.14 para prosseguir com o argumento de que os outros textos dependem tanto de Apocalipse 3.14 como de sua referência a Isaías. O fato de Isaías 65.16 ser a fonte primária para os títulos de Cristo em Apocalipse 3.14 se baseia em vários indícios esboçados a seguir.14 Primeiro, ó ót|if|v (ho am ên, "o Amém ") é o equivalente semítico dos termos gregos “fiel” ( t t i o t Ò ç , p istos) e “verdadeiro” (cx)vr|0ivóç, alêth inos). Isso se depreende da tradução típica da Septuaginta das formas ver­ bais e nominais do radical Çmn, “ser fiel”), palavras tradu­ zidas principalmente por t t i c t t o ç mas, às vezes, por à\í]0iv6ç (v. Hatch e Redpath, C oncordance to LXX, in loc.). Por isso, o nome tríplice de Apocalipse 3.14 poderia ser uma elaboração da tradução do “Amém” de Isaías. Essa expansão do “Amém” de Isaías está sinalizada pelo fato de o texto hebraico se referir duas vezes a Deus como “o Deus da verdade (|QX)”, traduzido das seguintes formas nas diferentes versões do A T grego: Isaías 65.16 ”... o Deus do amém [...] o Deus do amém..."

Apocalipse 3.14 (Cristo é ) "... o amém, a testem unha fiel e verdadeira..."

(Algumas das versões mais antigas da cx|jr|v, ó |iáptuç ó ttu jto ç kocí Bíblias em grego traduzem essa passagem c x \r)9 tv ó ç [amên, ho m artys ho p istos k a i alêthinos) por "o Deus do amém" (à)_ir|v); outras, por "o Deus verdadeiro (c x \r|9 iv ó v , alêthinon )"; e outras ainda, por "Deus fiel [com um uso da forma participial nominal de TriaieÚGO, pisteuõ)}5

14Para maiores explicações, v. Beale, R evelatio n , p. 2 9 7 -3 0 1 . 1SA Septuaginta traz “o Deus verdadeiro” (to v Geòv tÒv àXqOtvóv, ton

theon ton alêthinon); as versões de Teodócio e Símaco apoiam a tradução “o D eus do A m ém (á[ar|v); A qu ila, Jerônim o e ms. 86 apoiam a leitura básica “o Deus dafid e lid a d e ’ (Aquila lê êv xcõ 9êw TtETncnxü|iévcdÇ, en td


Com respeito a isso, o título “a testemunha fiel e verdadeira” de Apocalipse 3.14 deve ser entendido como uma tradução interpretativa do “Amém” de Isaías 65.16. Portanto, coletivamente, as quatro versões gregas de Isaías 65.16 trazem praticamente a mesma tradução ampliada de Apocalipse 3.14. Nas Escri­ turas Sagradas, as palavras “Amém, fiel e verdadeiro” somente ocorrem juntas nesses versículos, e isso vale até para a dupla combinação dos termos “fiel e verdadeiro”.16 Outro aspecto que aponta para uma alusão a Isaías 65.16 é o fato de que, tanto no AT quanto no NT, o “amém” geral­ mente ocorre como resposta do povo a uma palavra de Deus ou como uma oração, às vezes em referência à confiabilidade das afirmações de Jesus. Além disso, uma observação que nova­ mente apoia uma ligação entre Isaías 65.16 e Apocalipse 3.14 é o fato de esses dois textos serem os únicos em toda a Bíblia que utilizam “Amém” como um nome. Por fim, a “bênção” do “Deus da verdade” é uma expressão geral em Isaías 65.16 que ganha uma aplicação específica no versículo subsequente, referente à nova criação que Deus realizará: “Pois crio novos céus e nova terra” (Is 65.17). Igualmente, a expressão que segue diretamente “o amém, a testemunha fiel e verdadeira” em Apocalipse 3.14 lheõ pepislom ctios, empregando a form a adverbial “fielm ente” como parte da redação mais desenvolvida “pelo qual aquele que abençoa a si mesmo na terra será abençoado fielm ente por Deus”). 16D aniel 2 .4 5 (Tcod.) também associa as duas palavras de modo menos estreito (“verdadeira é a visão e fiel a sua interpretação”) [à\r|0ivóv xò ÈvvÍttviov x a i irtaTÍ] f| a ú y x p ia iç a ú to ü , alêthinon to enypnion k ai piste he sy n k risis au to u ]), embora não se mencione a nova criação nesse texto (porém, veja a possível relevância secundária de D n 2.45 na análise de A p 2 2 .6 , abaixo). C f. 3Macabeus 2 .1 1 , em que Deus é chamado de “fiel [...] verdadeiro” (tucttÒç... Kod... àXqGtvóç) — mas, novamente, não se trata da criação nem da nova criação, mas da fidelidade de Deus na execução da sua justiça. Caso essa noção estivesse em mente, ainda estaria afirmando o mesmo sobre o caráter de Deus. Pode ser que os textos de D aniel e M acabeus sejam, por sua vez, alusões a Isaías 6 5 .16 .


é “o princípio da criação de Deus”, o que provavelmente se refere não ao começo da criação em Gênesis 1, mas ao Jesus ressurreto como princípio da nova criação. O padrão comum parece ser: Isaías 65.16,17

Apocalipse 3.14

"... o Deus do amém [...] o Deus do

(Cristo é ) "... o Amém, a testemunha

amém...".

fiel e verdadeira..."

"Pois crio novos céus e nova terra...".

(Cristo é ) "... o princípio da [nova] criação de Deus..."

Portanto, assim como em Isaías 65.16,17, também em Apocalipse 3.14 a relação dos atributos divinos do “Amém”(= “fiel e verdadeiro”) é seguida por uma referência à nova criação. Esse padrão único aponta ainda mais para a tese de que Apo­ calipse 3.14 é um desenvolvimento de Isaías 65.16,17. A hipótese de que a descrição de Cristo como “o princí­ pio da criação de Deus” faz referência à nova criação também se confirma quando reconhecemos Apocalipse 3.14 como um desenvolvimento de Apocalipse 1.5: Apocalipse 1.5 "...a fiel testemunha..." "... o prim ogênito dos mortos...".

Apocalipse 3.14 "... o Amém, a testemunha fiel e verdadeira...". "... o princípio da criação de Deus..."

O primeiro paralelo em Apocalipse 1.5 — Cristo como “a tes­ temunha fiel”— é seguido diretamente pela afirmação de que ele é o “primogênito dos mortos”. Do mesmo modo, em Apo­ calipse 3.14, a descrição de Cristo como “testemunha fiel” é seguida diretamente pela referência ao “princípio da criação de Deus”. Esse paralelo mostra que o “princípio da (nova) criação de Deus” tem seu início na ressurreição de Jesus (v. a tabela acima). Ademais, o paralelo se confirma pelo fato de que, em


todas as demais cartas de Apocalipse 2 e 3, cada apresentação de Cristo cita ou desenvolve algum aspecto do capítulo pri­ meiro. E improvável que a expressão “o princípio da criação de Deus” seja a única parte das sete apresentações feitas pelo pró­ prio Cristo que não deriva do capítulo primeiro. Pelo contrário, é altamente provável que a expressão “o princípio da criação de Deus” não aluda ao relato da primeira criação contido no livro de Gênesis, mas seja, antes, uma paráfrase interpretativa de Jesus como “o primogênito dos mortos” em Apocalipse 1.5. Sob este ângulo, Apocalipse 3.14 desenvolve Apocalipse 1.5, enten­ dendo-o como o começo do cumprimento de Isaías 65.16,17. E preciso salientar e esclarecer, neste momento, que a “bênção” do “Deus da verdade” [ou “do amém”, ou “da fideli­ dade”], que se refere a Deus apenas deí»maneira geral em Isaías 63.16, é compreendida precisamente no versículo seguinte como a bênção prometida da nova criação que ele realizará: “Pois, crio novos céus e nova terra” (Is 65.16,17; observe também o paralelismo entre Isaías 65.16 e 65.17 na expressão repetida na segunda linha de cada versículo: “as dificuldades [coisas] ante­ riores foram esquecidas [não serão lembradas]”). Esse nome de Deus é a garantia de que ele certamente fará uma nova cria­ ção, conforme prometeu em Isaías 65.17. Portanto, em Isaías 65.16,17, Deus promete criar uma nova terra, assegurando no versículo 16 que cumprirá essa promessa porque é completa­ mente confiável e verdadeiro. A palavra da promessa divina é verdadeira, não pode ser descumprida ou anulada nem pode ser considerada equivocada naquilo que promete. O núcleo daquilo que quero dizer a respeito de Apocalipse 3.14 é que Cristo é identificado com o “Deus verdadeiro, fiel e amém” de Isaías 65.16. Sendo Jesus identificado com o Deus de Isaías, assim como Deus, ele é confiável, fiel, seguro e verdadeiro17 17V. B A G D , p. 4 3 , que traz os seguintes significados para à\r|0ivóç: 1) “relativo àquilo que está de acordo com o que é verdadeiro, verdadeiro,


no seu caráter e na sua palavra falada (Ap 3.7 também afirma o caráter “verdadeiro” [ó cx\r|0ivóç] de Cristo ao associá-lo com o Deus de Isaías18). Eu gostaria de acreditar que nenhum teó­ logo cristão duvida que o atributo da “verdade” de Deus e do Cristo ressurreto é incompatível com qualquer mistura de erro. Surge, porém, a seguinte pergunta: embora o caráter e a palavra falada de Deus e de Cristo sejam verdadeiros, isto é, perfeitos, sem erro, será que não poderiam existir algumas incongruências nos registros hum anos dessa palavra? Será que uma tal falibilidade no registro da Escritura não refletiria a dimensão humana da Bíblia? No caso de Apocalipse, creio que temos uma resposta para essa pergunta. Apocalipse 21.5 Deus ordena a João que “escreva” o anúncio do versículo 5a, “pois estas palavras” concernentes à nova criação vindoura “são fiéis e verdadeiras” ( t r o t o Í kcu. à\r|0ivoi,p isto i kai alêthinoi); esta última expressão se encontra em Isaías 65.16, como obser­ vamos acima na análise de Apocalipse 3.14. Tendo em vista o pano de fundo isaiânico, a expressão de Apocalipse 21.5 tem de ser considerada uma tradução interpretativa de (Is 65.16). Dessa forma, Apocalipse 21.5 é um desenvolvimento de Apoca­ lipse 3.14, que interpreta o “Amém” de Isaías da mesma forma, ligando-o diretamente a uma menção à nova criação. A alusão a Isaías 65.16 tam bém é corroborada por Apocalipse 21.5, em que o que estava assentado “sobre o trono” c o n f i á v e l 2) “relativo àquilo que está de acordo com os fatos, verdadeiro’ 3) “relativo ao que é real, genuíno, autêntico, r e a l”. Novamente, B A G D , p. 8 2 0 - 8 2 1 , dá os seguintes significados para t t i o t Ò ç : 1 ) “relativo ao que é digno de crença ou confiança, confiável, fiel, seguro, inspirador defe \ 2) “rela­ tivo ao que confia, crédulo, que se apega, confiante, dotado defé / confiança”. 18Para maiores informações, v. Beale, R evelatio n , p. 2 8 3 , em que Cristo é “o santo, o verdadeiro” — o prim eiro título, “o santo”, provavelm ente é derivado da referência repetida em Isaías a Deus como o “santo de Israel”.


Apocalipse 3.14 Cristo é "... o Amém, a testemunha fiel e verdadeira, o princípio da [nova] criação de Deus..."

Apocalipse 21.5 "0 que estava assentado sobre o trono disse: Eu faco novas todas as coisas! E acrescentou: Escreve, pois estas palavras são fiéis e verdadeiras".

diz: i5ou x a iv à Ttoicõ Ttávxa (id o u kaina p o i õ panta, “Eu faço novas todas as coisas!”) —- uma referência a Isaías 4 3 . 1 9 e 6 5 . 1 7 —•, expressão que vem seguida da declaração de que o pronunciamento é “fiel e verdadeiro”. Essa declaração em si é o desdobramento da alusão anterior a Isaías 6 5 . 1 7 em Apocalipse 2 1 . 1 (“Então, vi um novo céu e uma nova terra”). Todas essas considerações confirmam uma ligação direta de Apocalipse 3 . 1 4 com Apocalipse 2 1 . 5 . Uma diferença entre 3 . 1 4 e 2 1 . 5 é que neste último texto as palavras constam no plural. A expli­ cação provável é que o foco de Apocalipse 3 . 1 4 é o caráter de Cristo como indivíduo, enquanto em 2 1 . 5 a ênfase recai sobre as “palavras” escritas (plural) de Deus que João deve escrever. Portanto, Apocalipse 21.5 toma a afirmação sobre o caráter de Cristo e sua palavra em Apocalipse 3.14, juntamente com a alusão a Isaías 65.16,17, e as aplica ao registro escrito que João faz das palavras “Eu faço novas todas as coisas!”, ditas por Deus (ou por Cristo19). Em especial, a oração “estas palavras são fiéis e verdadeiras” dá a razão (o ti, hoti, “pois”) pela qual João WA pessoa que fala em Apocalipse 2 1 .1 5 é provavelmente Deus (v. Beale, Revelation, p. 1052), embora possa ser o Jesus exaltado, uma vez que a expres­ são “primeiro e últim o” em 2 1.6 é dita por Cristo em 1.17 , e é ele quem os “guia às fontes da água da vida”, em 7 .17 , de form a que 2 1 .6 se referiria a Cristo, que diz: “Eu darei àquele que tem sede das fontes da água da vida”. A dúvida se as palavras são de Deus ou de Cristo não tem importância para nossos propósitos, Uma vez que já vimos que, em Apocalipse 3.14, Cristo fala as palavras de Isaías 6 5 .16 , que, nesse contexto, foram faladas por “Deus”. Assirri, o livro de Apocalipse, baseado numa cristologia de “identificação com Deus”, facilmente transita de Deus para Cristo como o falante de suas palavras.


recebe a ordem de registrar por escrito as palavras de Deus: “Escreve,p ois estas palavras são fiéis e verdadeiras”. Ou seja, a afirmação da veracidade inabalável do caráter de Cristo e de sua palavra falada em Apocalipse 3.14, bem como em Isaías 65.16 (texto ao qual João alude), é aplicada à natureza das palavras de Deus/Cristo em sua forma escrita, que João recebe a ordem de “escrever”. A inferência feita a partir de Apocalipse 3.14 é a seguinte: assim como o caráter divino e as palavras faladas de Cristo são perfeitos e sem falha, o registro joanino das palavras divinas na forma escrita também deve ser perfeito e sem falha. Ele tem de escrever as palavras divinas inabalavelmente verda­ deiras que ouviu, a fim de que as igrejas recebam uma palavra divina pura e indubitável na forma escrita. Apocalipse 22.6 Observe, novamente, os paralelos com Apocalipse 3.14: Apocalipse 3.14

Apocalipse 22.6

Cristo é "... o Amém, a testemunha fiel e verdadeira, o princípio da [nova]

e verdadeiras. 0 Senhor, o Deus dos

criação de Deus..."

espíritos dos profetas, enviou seu anjo

"E disse-me: Estas palavras são fiéis

para mostrar a seus servos as coisas que em breve hão de acontecer".

Apocalipse 22.6 confirma conclusivam ente a visão de Apocalipse 21.1—22.5, bem como o livro como um todo. A pessoa que fala pode ser Jesus, uma vez que o versículo 7 dá continuidade à afirmação (observe a conjunção “e” [k o u ] ) e, nele, é claramente Jesus quem fala. Por outro lado, o falante pode­ ria ser um anjo, o que seria condizente com a terceira pessoa, “ele”, na introdução das visões em Apocalipse 21.9,10 e 22.1. O versículo 6 faz um esboço da visão anterior da Nova Jerusalém, o que se depreende do fato de estar colocado im e­ diatamente depois daquela visão e de repetir verbalmente 21.5b:


“Estas palavras são fiéis e verdadeiras” ( o u t o i oí Xoyoi t t i c t t o Í Kod à\r|0ivoi, outoi oi logoi p istoi kai alêthinoí). Como vimos na análise de Apocalipse 21.5, a expressão remonta a Isaías 65.16, versículo que expressa confiança no ato futuro da nova criação. A promessa se cumprirá, pois a palavra divina da pro­ messa é verdadeira e não pode ser anulada nem considerada equivocada. A liás, essa expressão em Apocalipse 21.5 conota exatamente a mesma noção, aludindo a Isaías 43.18,19,65.17 e 66.22 (v. Ap 21.5 e também 21.1,4). A mesma fraseologia em Apocalipse 22.6 repete a ideia da certeza das afirmações de Deus em Apocalipse 21.6—22.5 quanto ao ato futuro da nova criação. O propósito da repetição é realçar essa ideia. Assim, as mesmas conclusões sobre Apocalipse 21.5 aparecem aqui: o caráter absolutamente verdadeiro dè Cristo e de sua palavra oral (Apocalipse 3.14) é aplicado à natureza de suas palavras na forma escrita (embora essas palavras possam ser anuncia­ das por meio de um anjo). A conclusão que se tira de Apocalip se 3.14 é a seguinte: assim como o caráter divino de Cristo e de sua palavra oral são perfeitos e sem falha alguma, pode-se deduzir que a redação das palavras divinas por parte de João resulta em um registro perfeito dessas palavras para as sete igrejas. Embora não haja referência explícita à forma escrita em Apocalipse 22.6, é provável que essa ideia esteja implícita, em razão de Apocalipse 21.5 e pelo fato de o contexto men­ cionar as “palavras deste livro” (22.9) e “as palavras da profecia deste livro” (22.10; do mesmo modo 22.18,19). João “ouviu e viu estas coisas” (22.8), e as escreveu em um “livro”. Além do pano de fundo de Isaías 65.16/Apocalipse 3.14, pode ser que haja um eco de Daniel 2.45b (Teod.) na expressão “estas palavras são fiéis e verdadeiras”: “verdadeira (cxXr|0ivóv, alcthinon ) é a visão e fiel (tiio tÍ], píste) a sua interpretação”. Em Daniel 2, essa expressão constitui a conclusão de uma visão profética sobre a implantação vitoriosa do reino de Deus, dando a certeza


de que a visão profética tem autoridade divina e, portanto, de que seu conteúdo é verdadeiro e confiável. A alusão a Daniel 2 tem o mesmo significado aqui.20 No caso de Daniel, o profeta comunicou sua visão oralmente ao rei da Babilônia. Já em Apo­ calipse, isso se aplica ao que foi visto e ouvido por João e está registrado no livro. Será que algum elemento da comunicação oral de Daniel ao rei talvez não foi suficientemente preciso em alguns poucos detalhes? As palavras conclusivas de Daniel — “verdadeira é a visão e fiel a sua interpretação” — tornam tal hipótese improvável, de forma que o eco de D aniel 2 (caso realmente esteja na mente de João) reforça a ideia da infalibi­ lidade absoluta da forma escrita de Apocalipse. Apocalipse 19.9-11 Novamente, as correspondências verbais com Apocalipse 3.14 são evidentes: Apocalipse 3.14 Cristo é “...o Amém, a testemunha fiel e verdadeira,

Apocalipse 19.9-11 1 9.9: "E me disse: Escreve: Bem-aventurados os que são chamados à ceia das núpcias

o princípio da [nova] criação

do Cordeiro! Disse-me ainda: Estas são as

de Deus".

verdadeiras palavras de Deus”. 1 9 .1 0 : "Então, lancei-me a seus pés para adorá-lo, mas ele me disse: Olha, não faças isso; sou conservo teu e de teus irmãos, que têm o testemunho de Jesus. Adora a Deus, pois o testemunho de Jesus é o espírito da profecia". 1 9 .1 1 : "Então, vi no céu aberto um cavalo branco, e seu cavaleiro [...] [é chamado] Fiel e Verdadeiro. Ele julg a e luta com justiça".

20Para maiores explicações sobre a legitimidade dessa alusão a D aniel 2, v. Beale, R evelation, p. 11 2 4 .


João recebe a ordem: “Escreve: Bem-aventurados os que são chamados à ceia das núpcias do Cordeiro!”. Em seguida, o anjo acrescenta: “Estas são as verdadeiras palavras de Deus”. Ao que parece, a segunda afirmação é uma premissa para a primeira, como Apocalipse 21.5 confirma, pois João recebe a ordem de escrever a respeito da nova criação vindoura e logo após acrescenta-se “estas palavras são fiéis e verdadeiras”. A possibilidade de uma referência a Isaías 65.16 ou Apocalipse 3.14 é menos óbvia em Apocalipse 19.9, mas a palavra “verda­ deira” pode ser uma abreviação da expressão “fiel e verdadeira”, encontrada nos outros versículos. Independentemente disso, o significado é igual: João tem de registrar por escrito as palavras de Deus ministradas pelo anjo, pois elas são as “verdadeiras palavras de Deus”. A expressão “de Deus” mostra que as pala­ vras têm Deus como sua fonte. Isto é, as palavras são verdadei­ ras exatamente porque vêm de Deus, que é verdadeiro. Não é por acaso que os versículos seguintes mencionam o “testemu­ nho de Jesus” (19.10) e afirmam que Jesus é “fiel e verdadeiro” (19.11). Nesse caso, o caráter “fiel e verdadeiro” de Cristo está relacionado, pelo menos parcialmente, à noção de que a palavra escrita de João é fiel e verd a d eira (19.9). A confiabilidade do caráter de Cristo está por trás da confiabilidade do testemunho dele (19.10). O caráter do Cristo d iv in o ,21 pois, parece ser um elemento do raciocínio subjacente à expressão em Apocalipse 19.9: “estas são as verdadeiras palavras de Deus”. O versículo 10 afirma que as palavras escritas por João fazem parte do “testemunho de Jesus”, que é o “espírito da pro­ fecia”. O termo TtveOpa (pneum a) pode indicar que o teste­ munho é um testemunho profético inspirado pelo Espírito de 21Apocalipse 1 9 .1 6 claramente afirma a divindade de Cristo como “Rei dos reis e Sen h o r dos senhores”, especialmente à luz da alusão a D aniel 4 .3 7 (LX X ), em que o mesmo título é aplicado a Deus.


Deus: xò irveOpa xr|ç Ttpocpr|T8Íaç (to p n eu m a tês prophêteias) seria entendido como um genitivo objetivo, “o Espírito que ins­ pira a profecia” (cf. Zerwick e Grosvenor 772; NEB).22 Assim, as palavras de João são “fiéis e verdadeiras” porque ele é um profeta inspirado pelo Espírito de Deus. Além das cartas de Apocalipse 2 e 3, a inspiração do Espírito na vida de João está evidente em Apocalipse 14.13: “Então ouvi uma voz do céu que dizia: Escreve: Bem-aventurados os mortos que desde agora morrem no Senhor. Sim , diz o Espírito, para que descansem de seus trabalhos, pois suas obras os acompanham”. Bauckham acrescenta: “as palavras do Espírito faladas por meio de João são a resposta do Espírito à voz do céu. Quando João obedece à ordem de escrever a bem-aventurança, o Espírito que o ins­ pira confirma decisivamente as palavras”.23

Reflexão sobre a importância da autoridade atribuída às "palavras" escritas de Apocalipse Apocalipse 19.9,21.6,22.6 e 22.18,19 se referem às palavras escritas no livro como “verdadeiras” ou “fiéis e verdadeiras” ou invioláveis. O fato de as palavras escritas (e não somente os conceitos) serem considerados sem erro é evidente especial­ mente em Apocalipse 19.9 e 21.9. Nesses textos,fomente uma frase é dita por Deus ou por um anjo e, em seguida, a frase é indicada pela expressão “estas palavras”. E inviável opinar que 22Veja G . B. Caird ,A Commentary on the R evelation o f St. John the D iv in e (New York: H arper and Row, 19 8 0), p. 2 33. A expressão poderia também significar que aqueles que dão o testemunho são o “povo profético”. Nesse caso, TtvEupa seria um singular coletivo ou distributivo, e xr|ç ixpocpr|Teíaç seria um genitivo descritivo: “espírito(s) profético(s)” ou “alma(s) profética(s)” = profetas. Essa alternativa ainda entenderia as palavras como “proféticas” — os profetas possuem um espírito que recebe a inspiração de Deus. V. o material de Beale, R evelatio n , p. 9 4 7 e p. 1 1 2 4 - 1 1 2 5 . 23Bauckham, C lím ax ofProphecy , p. 160.


a inerrância, aqui, se refere somente a um conceito que poderá ser expresso por meio de uma ou duas palavras quaisquer. A simples tentativa de fazer essa distinção entre a palavra e o conceito comunicado pela palavra é um preciosismo, mas os debates atuais sobre a inerrância das Escrituras pedem que façamos tais distinções para esclarecer o assunto. Assim, tanto o conceito expresso pelas palavras, quanto as palavras em si detêm autoridade absoluta, de forma que não se devem sepa­ rar as palavras dos conceitos.24

Conclusão Uma vez que se pode atribuir a perfeição absoluta ao caráter e à palavra falada de Deus, a mesma qualidade deve ser atri­ buída à palavra escrita de João. Essa inferência é a mesma feita pelo próprio autor de Apocalipse: uma vez que o caráter e a fala de Cristo são impecáveis, João é encarregado de registrar as palavras de Cristo (Deus) porque elas provêm do ser divino cujo caráter — que inclui seu conhecimento de todas as coisas — é infalível. Alguém poderia argumentar que aquilo que Apocalipse ensina sobre sua forma escrita não se aplica a outras partes das Escrituras. Porém, várias observações contrariam esse pensa­ mento: 1) em um dos textos fundamentais analisados acima (Ap 22.6), João é posto na mesma categoria dos outros profe­ tas: “O Senhor, o Deus dos espíritos dos profetas, enviou seu anjo para mostrar...”. Além dos profetas neotestamentários, 24E claro que pode haver palavras aleatórias, sem significado, em um texto. Estam os partindo do princípio de que as palavras escritas de Apocalipse foram organizadas por João de form a que expressassem conceitos, o que constitui um ato de fala comunicativo; porém, a ideia de que as palavras individuais são de alguma forma desvinculadas dos conceitos verdadeiros é algo que João jamais teria cogitado, uma vez que ele entendeu que as pala­ vras que recebeu a ordem para escrever eram as próprias palavras de Deus.


essa afirmação provavelmente inclui os profetas do AT, prin­ cipalmente pelo fato de que a expressão “espíritos dos profetas” aparenta ser uma alusão a Números 27.16 (“o Senhor Deus dos espíritos”), em que ela se refere ao ato pelo qual Deus subs­ tituiu M oisés por Josué, que foi o novo portador da profecia para o povo de Deus (cf. Nm 27.12-21). 2) João recebe, repe­ tidamente, o mesmo comissionamento profético que Ezequiel recebera. 3) A totalidade do testemunho escrito de João em Apocalipse é entendida como “fiel e verdadeira”, por analogia com a certeza de que a nova criação certamente chegaria, pois havia sido profetizada e anunciada por Yahweh, “fiel e ver­ dadeiro”. 4) A frase conclusiva de Apocalipse 22.6 — Deus “enviou [...] mostrar [...] que em breve hão de acontecer”— é uma referência patente a Daniel 2.45, que encerra o relato da visão do profeta Daniel no capítulo 2. 5) Considerando que as mais claras afirmações de João a respeito do caráter inabalavelmente verdadeiro de seu livro se baseiam explicitamente em outras obras apocalípticas do AT (p. ex., Ezequiel e Daniel) — e João se coloca no mesmo pata­ mar desses profetas —, alguém poderia argumentar que as afir­ mações sobre a veracidade plena das Escrituras só se aplicam àqueles livros apocalípticos canônicos cujo autor tenha recebido sua revelação diretamente de Deus, por meio de vteões. Porém, é preciso lembrar que João não escreveu como um secretário que toma um ditado; ao contrário, escreveu depois de receber as visões, provavelmente acrescentando alusões ao AT em vários lugares. O livro, portanto, é uma mescla de visão e produção literária. João não se apoia apenas no gênero apocalíptico veterotestamentário, já que, em Apocalipse 22.18,19, ele se coloca no mesmo patamar de Moisés, aplicando, nitidamente, Deu­ teronômio 4.1,2 e 29.19,20 ao seu próprio livro. Novamente, João faz mais referências ao AT que qualquer outro escritor neotestamentário; uma vez que ele também coloca sua obra no


mesmo nível das de vários autores do AT (p. ex., Moisés, Daniel e Ezequiel), isso significa não somente que ele via esses livros do AT da mesma forma que via o seu próprio livro, mas também que tinha exatamente a mesma opinião sobre os outros livros veterotestamentários aos quais faz alusão. E provável que seja por essa razão que João alude a vários livros do AT, uma vez que, para ele, todos tinham a mesma autoridade escriturística. Na verdade, à semelhança de Apocalipse 19.21,22, Salmos 119.137-142 se refere ao caráter de Deus como “justo” e chega à conclusão de que, em decorrência de seu caráter, a sua escri­ tura também é “justa”, “pura” e “verdadeira”. SI 119.137-142: 137S enhor , tu és justo, e teus juízos (= a Escritura) são retos.

138Ordenaste teus testemunhos com justiça, e com toda fidelidade. 1390 zelo me consome, pois meus inimigos se esquecem da tua palavra. 140Tua palavra é fiel a toda prova, por isso teu servo a ama. 141Sou pequeno e desprezado, mas não me esqueço de teus preceitos. 142Tua justiça é eterna, e tua lei é a verdade. E interessante que, ao narrar o seu chamado profético con­ forme o padrão de Ezequiel (Ap 10.9), João também insere uma referência a Salmos 119.103 (“Como tuas palavras são doces ao meu paladar! M ais doces do que mel em minha boca”) em Apocalipse 10.9,10 (“ele [o livrinho = a palavra de Deus] lhe será [...] doce como mel na boca”). O salmo traz, em seguida, o contraste entre o “entendimento” dos preceitos de Deus e “toda vereda de falsidade” (SI 119.104). Talvez Salmos 19.10 também esteja dentro da alusão: a lei escrita de Deus é descrita como


“mais doce do que mel”, comparada aos “juízos verdadeiros de Deus” (SI 19.9) e contrastada com os “erros” (SI 19.12: “Quem pode discernir os próprios erros?”). Igualm ente, a passagem de Apocalipse 16.5,7 compa­ ra o caráter justo de Deus com seus “juízos justos”, expressão que, segundo ind ica o pano de fundo das alusões veterotestamentárias,25 faz referência à palavra de Deus na Escritura: Então, ouvi o anjo das águas dizer: Justo és tu, que és e que eras, o Santo, porque julgaste estas coisas; [...] 7E ouvi uma voz do altar, que dizia: O Senhor Deus todo-poderoso, os teus juízos são de fato verdadeiros e justos. O texto de Salmos 119.137 pode ser incluído nessas alusões veterotestamentárias (v., p. ex., a margem de NA27): “S e n h o r , tu és justo, e teus juízos são retos”. Alguns poderiam fazer objeção a meu argumento como um todo, afirmando que nem João nem o AT aplicam a pala­ vra “inerrância” à Escritura. Porém, tal objeção recai na falácia “palavra/conceito”. Esforcei-me para mostrar como as palavras utilizadas por João nos capítulos 19,21 e 22 (“verdadeiro”; “fiel”) traduzem essencialmente o mesmo conceito de que a palavra de Deus não contém erros. Na verdade, algumas das alusões joaninas ao AT, como os salmos 19 e 119, contrastam a palavra de Deus doce e verdadeira com a “falsidade” e o “erro”. Nesse sen­ tido, a comparação com 2Pedro 1.20,21 é elucidativa — a refe­ rência à “Escritura” que não é “produzida por vontade humana, mas homens falaram da parte de Deus, conduzidos pelo Espí­ rito Santo”, o que é imediatamente contrastado com os “falsos 25A lém de Salm os 1 1 9 .1 3 7 , abaixo, v. Salm os 1 4 4 .1 7 , D euteronôm io 32.4 (para A p 16.5) e D aniel 3 .2 7 (versão do grego antigo); o últim o texto pode estar unindo Salmos 1 1 9 ,1 4 4 e D euteronôm io 32 da mesma form a que ocorre em Apocalipse 16.5,7.


profetas” que “difamam” o “caminho da verdade” (2Pe 2.1-3). O grande texto “expirado por Deus” de 2Timóteo 3.16 também se insere no mesmo contexto de combate ao falso ensino. Talvez o ponto em que meu argumento mais se apoie num fundamento “implícito” seja a presunção de que o caráter de Deus e do Cristo ressurreto não comporta erro algum e exclui até quaisquer erros incidentais no seu conhecimento absoluto e mesmo exaustivo dos fatos mais aparentemente insignifican­ tes da criação ou da humanidade e do presente, do passado e do futuro. No entanto, até esse pressuposto foi montado com base em testemunhos escriturísticos (p. ex., SI 119, acima; Nm 23.19; ISm 15.29; Is 46.10; 48.3-8; Jó 11.11; 23.10,23; 34.25; SI 1.6; 37.18; 44.21; 69.5; 94.11; 103.14; 138.6; 139.1-8,23,24; Pv 24.12; Dn 2.19-23; M t 6.8,32; Lc 16.15; At 15.8; Rm 8.27; ljo 3.20). Por fim, para recapitular, a inferência teológica que certos “evangélicos” consideram antibíblica é, na verdade, a própria inferência que João e outras partes das Escrituras repetida­ mente fazem: já que o caráter de Deus é absolutamente fiel e verdadeiro, sua palavra registrada nas Escrituras também é. M inha visão individual da verdade inerrante da Escritura foi desenvolvida, sob diversos aspectos, na C hicago S tatem ent on B ib lica l In erra n cy [Declaração de Chicago sobre a Iner­ rância Bíblica]. Alguns poderiam contestar o meu entendimento de Apo­ calipse 19.9,21.5 e 22.6, alegando que os adjetivos “fiéis e ver­ dadeiras” (especialmente nos dois últimos versículos) se referem às palavras orais de Cristo, e não especificamente à forma escrita dessas palavras. Consequentemente, mesmo que João estivesse incumbido de “escrever” as palavras que ouviu, não teria ele a possibilidade de errar um pouco ao registrar o que foi dito? • A essa pergunta, eu daria a seguinte resposta: 1) Será que Deus comissionaria/mandaria João como profeta para “escrever”


suas palavras, sabendo de antemão que sua palavra profética seria registrada de maneira imprecisa? Vimos que João escreve com a autoridade de um profeta do AT e parece ter a mesma autoridade de Deus falando por meio de um profeta. Por exem­ plo, João fala e escreve como profeta: Apocalipse 19.10 diz “o Espírito inspira a profecia”, referindo-se ao fato de João ter escrito como profeta em 19.9. Igualmente, Apocalipse 22.6b claramente situa João entre os “espíritos dos profetas” que rece­ beram uma revelação “fiel e verdadeira” (22.6a), cuja forma escrita é diretamente citada como “as palavras da profecia deste livro” (22.7 e 22.18, identicamente em 22.10) e “as palavras do livro desta profecia” (22.19, cf. 22.9). 2) A própria ligação entre “fiel e verdadeira” e “escreve” indica ou, pelo menos, presume uma ligação entre esses atri­ butos e sua forma escrita. 3) A legitimidade do ponto número 2 decorre do vínculo intertextual entre “escreve”, em Apocalipse 1.9,10, e a ordem repetida “escreve”, nas cartas dos capítulos 2 e 3. João escreve e, em seguida, é dito que a forma escrita são as palavras de Cristo e do Espirito. No mínimo, a forma escrita das cartas é apresen­ tada às igrejas como as palavras do “Espírito”. 4) A ligação intertextual entre os “escreva” que apare­ cem em Apocalipse 1.9,10 e nos capítulos 2 e 3, e entre os de 19.9 e 21.5, reforça a tese de que a tarefa de escrever Apocalip se foi inspirada pelo Espírito. As passagens de Apocalipse 22.7,10,18,19, que formam uma inclusio com Apocalipse 1.3, deixam claro que a tarefa de registrar o que foi ouvido e visto na visão, tarefa inspirada e orientada pelo Espírito, teve como resultado um livro profético. Assim, o registro escrito do que foi visto e ouvido é igualmente profético: uma vez que a visão pro­ fética e a audição oral são “fiéis e verdadeiras”, a forma escrita profética pode também ser considerada “fiel e verdadeira”. É exatamente isso que Apocalipse 19.9,21.5 e 22.6 afirmam.


À luz desses quatro pontos, dizer que Apocalipse 19.9, 21.5 e 22.6 se referem somente às palavras orais de Cristo como “fiéis e verdadeiras”, sem abranger o caráter “fiel e ver­ dadeiro” da forma profética escrita, seria optar pela conclusão mais preguiçosa possível (um exemplo de “descrição tênue”,26 sem referência absolutamente nenhuma ao contexto). Portanto, será que a Bíblia pode ser completamente ins­ pirada por um Deus perfeito e ainda assim conter erros? João e outros autores bíblicos respondem: “Não”.

*)

26A expressão denota uma m etodologia de pesquisa com pletam ente oposta ao conceito antropológico de “descrição densa”, cunhado por ClifFord G eertz e adotado posteriormente pelas ciências sociais e, em particular, pelo Novo Historicismo. (N. do E.)


Sobre o Autor

G. K. Beale (PhD pela Universidade de Cambridge) é profes­ sor de Novo Testamento e de Teologia Bíblica pelo Seminário Teológico de W estm inster (onde é titular da cátedra J. Gresham M achen de Novo Testamento) e autor de vários livros. Entre as obras organizadas por ele ou de sua autoria estão:

Comentário Bíblico do Uso do Antigo Testamento no Novo Testamento (organizada em parceria com D. A. Carson) O leitor do NT muitas vezes se depara com citações do AT ou alusões feitas às Escrituras hebraicas. Pode ser que ele as reco­ nheça, mas também pode ser que não as perceba. Neste livro, G. K. Beale e D. A. Carson reuniram uma equipe de especialistas de renome com o propósito de isolar, catalogar e comentar casos presentes no NT tanto de citações inegáveis do AT quanto de alusões mais sutis às Escrituras hebraicas. O resultado desse tra­ balho cuidadoso foi esse comentário abrangente das passagens do AT que aparecem citadas ou aludidas de Mateus a Apoca­ lipse — uma ferramenta fundamental de consulta para compor a biblioteca de todo estudioso diligente do NT! Manual do uso do Antigo Testamento no Novo Testamento: Exegese e Interpretação Esse manual oferece ao leitor um roteiro para o estudo apro­ fundado das inúmeras referências ao A T presentes no NT. G. K. Beale concentra-se nos métodos corretos de interpretação


do uso que o NT faz do AT, apresentando a estudantes e pas­ tores muitos conceitos, categorias e percepções necessários para que eles mesmos façam a sua exegese. Conciso a ponto de se mostrar acessível, mas ao mesmo tempo completo o bastante para preservar sua utilidade, este manual será um guia confiá­ vel para todo estudioso sério da Escritura.

Você se Torna Aquilo que Adora: uma Teologia Bíblica da Adoração A essência do entendimento bíblico sobre a idolatria, segundo G. K. Beale, é que adotam os as características daquilo que adoramos. Tendo como ótica interpretativa Isaías 6, Beale demons­ tra que esse entendimento da idolatria está presente em todo o cânon bíblico, de Gênesis a Apocalipse. Na conclusão do estudo, o autor aplica aos desafios da vida contemporânea esse mesmo conceito bíblico da idolatria. Esta obra... • analisa a compreensão da idolatria presente em Isaías e a retrata como o ato de nos tornarm os sem elhantes àquilo que adoramos\ • analisa e avalia outros conceitos bíblicos de idolatria em relação à compreensão de Isaías; • demonstra e explora a presença dessa compreensão da idolatria em toda a Bíblia; • aplica essa compreensão bíblica da idolatria à vida cristã dos nossos tempos.

Teologia Bíblica do Novo Testamento: o Uso do Antigo Testamento no Novo Testamento (a ser publicado por Edições Vida Nova) Nessa exposição abrangente, G. K. Beale explora a unidade teológica de toda a Bíblia do ponto de vista do NT. O autor analisa a forma como o enredo do N T se relaciona com o do


AT e o desenvolve. Beale argumenta que todos os principais conceitos do NT são desenvolvimentos de conceitos do AT e, portanto, cada um deles deve ser entendido como uma faceta da inauguração da nova criação e do reino dos últimos dias. Oferecendo ampla interação entre os dois Testamentos, este volume ajuda o leitor a perceber os tópicos conceituais unificadores do AT e o modo como esses tópicos se entrelaçam em Cristo. Esse importante trabalho será de grande valia para todos os estudantes do NT e pastores, em geral.


E sta o b ra é a c o m p ila ç ã o de trê s n o tá v e is e n s a io s de G. K. B ea le p u b lic a d o s p ela p rim e ira v e z em fo rm a de livro , te n d o p o r fio c o n d u to r a d e fe s a da sã d o u tr in a no q u e se re fe re à in e rrâ n c ia b íb lic a , ao c o m b a te à q u e le s que re s is te m a e ssa d o u trin a e à c u id a d o s a e x p lic a ç ã o da d in â m ic a h e rm e n ê u tic a do u so do AT no NT. • "A visão p eriférica cognitiva dos autores bíblicos" responde à pergunta "Como lidar com as citações de te x to s do AT no NT que apa re ntem e n te m o d ifica m o sign ifica do do o riginal ou se chocam com ele?". • "0 uso de Oseias 11.1 em M ateus 2.15" aborda, com perspicácia e sabedoria, um a das m ais c on trove rtida s citações do Antigo Testam ento no Novo. • "A Bíblia pode ser com p le ta m e n te inspirada por Deus e ao m esm o tem po co n te r erro s?" apresenta um a sólida defesa da d ou trina da inerrância bíblica, em con form ida de com a visão evangélica tra d icio n a l e ortodoxa. Um texto m u ito relevante em m eio aos ventos de e stranhas d o u trina s que sacodem a igreja dos nossos tem pos. T e m o s c e rte z a de q u e o a u to r, c o m s u a e ru d iç ã o c a ra c te rís tic a e a te n ç ã o a d e ta lh e s e x e g é tic o s im p o rta n te s , s e rá g ra n d e m e n te a p re c ia d o e n tre os c ris tã o s e v a n g é lic o s do B ra s il. Ü c o n ta to c o m s u a s o b ra s a p ro fu n d a rá e e n riq u e c e rá n o s s o c o n h e c im e n to d a s E s c ritu ra s S a g ra d a s e, a c im a de tu d o , a q u e c e rá n o s s o c o ra ç ã o ! G. K. B eale [P hD p ela U n iv e rs id a d e de C a m b rid g e ] é p ro fe s s o r de Novo T e s ta m e n to e de T e o lo g ia B íb lic a p e lo S e m in á rio T e o ló g ic o de W e s tm in s te r (o n d e é titu la r da c á te d ra J. G re s h a m M a c h e n de N ovo T e s ta m e n to ] e a u to r de v á rio s liv ro s , e n tre e le s Com entário Bíblico do Uso do Antigo Testam ento

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O uso do antigo testamento no novo testamento e suas implicações e hermenêutica g k beale karmitta s  

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