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J. SIDLOW BAXTER

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ATOS A APOCALIPSE


E x a m in a i ESCKffilfe\S J. Sidlow Baxter Tradução de Neyd Siqueira


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MAZINHO RODRIGUES Primeira edição em português: outubro de 1989

Publicado no Brasil com a devida autorização e com todos os direitos reservados por


PREFÁCIO À EDIÇÃO EM PORTUGUÊS A obra aqui intitulada EXAMINAI AS ESCRITURAS é a sexta parte de uma coleção de seis volumes. Esta coleção surgiu em decorrência do desejo do Pastor J. Sidlow Baxter de oferecer, com lições atraentes e prá­ ticas, um conhecimento bíblico básico aos membros da Capela Charlotte, em Edimburgo, na Escócia. O autor teve a feliz idéia de preparar seus es­ tudos de um modo completo para os membros daquela igreja, começan­ do com Gênesis e terminando em Apocalipse, sem escrever apenas mais um comentário. O autor lança um alicerce agradável e seguro para aquele que deseja apresentar-se como obreiro (ou membro da igreja) “que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade” (2 Tm 2.15). Neste volume, o Pastor Baxter discorre sobre os primórdios da igreja cristã, segundo registrados pelo livro de Atos dos Apóstolos, faz uma via­ gem através das cartas do Novo Testamento, chegando, por fim, ao livro das revelações, Apocalipse. Em lições sempre práticas e bastante assimiláveis, Baxter oferece incon­ táveis informações muito iluminadoras àqueles que têm somente idéias acerca do Novo Testamento. Temos convicção de que a popularidade go­ zada por esta obra em inglês será a mesma que se verificará na sua edição em português. Dentro de pouco tempo, Edições Vida Nova estará colo­ cando à disposição do público leitor os quatro volumes desta série, que se relacionam com o Antigo Testamento. Os Editores


ATOS DOS APÓSTOLOS (1) Lição nQ21


NOTA: Leia Atos dos Apóstolos pelo menos duas vezes para este estudo. Não obstante as severas críticas feitas ao livro nas últimas décadas, eruditos como o professor Ramsay demonstraram conclusivamente que ele é digno do mais elevado crédito como uma história do primeiro século. Uma atmosfera de realidade o cerca: nenhum outro livro do Novo Testamento associa o seu conteúdo com a história geral do mundo como esta obra. (A grande autoridade sobre todas as dúvidas relativas à credibilidade de Atos é o professor W. M. Ramsay, especialmente em seus livros: The Church in the Roman Empire; St. Paul the Traveller and Roman Citizen; An Historical Commentary on Galatians [“A Igreja no Império Romano; S. Paulo, Viajante e Cidadão Romano; Um Comentário Histórico de Gálatas”].) W. H. G. Thomas


ATOS DOS APÓSTOLOS Vinte e oito capítulos emocionantes apresentam-se a nós! Podemos ler qualquer deles várias vezes, descobrindo sua fascinação crescente a cada leitura. Pena alguma jamais escreveu um registro mais irresistível. Se esses acontecimentos memoráveis não provocarem a imaginação e nem despertarem as emoções de qualquer leitor realmente interessado, nenhum outro o fará. Todavia, até mesmo o simples interesse pelo livro fica eclipsado pela sua importância como revelação e história. Ele é a seqüência dos poderosos eventos dos evangelhos e a introdução para as gloriosas doutrinas das epístolas; marcando, de fato, um dos mais elevados pontos críticos da história, como em breve teremos oportunidade de ver.

Autor e Data Devemos, porém, dizer alguma coisa sobre o autor e a data em primeiro lugar. É possível afirmar com finalidade quase categórica que o livro é de autoria de Lucas, o escritor do terceiro evangelho. Existem quatro considerações que estabelecem este fato. Primeira: tanto “Atos dos Apóstolos” como o “Evangelho Segundo Lucas” são dedicados a Teófilo (Lc 1.3; At 1.1); e ao iniciar “Atos” o escritor faz menção de seu “primeiro livro”, referindo-se evidentemente ao “Evangelho Segundo Lucas”. Segunda: há semelhanças, de Reconhecimento unânime, no estilo, nas frases e na ordem em ambos os livros, e uma correspondência notável em certa fraseologia médica que é própria de Lucas, “o médico amado” (Cl 4.14). Terceira: o pronome “nós”, em versículos tais como 16.10 e 20.6, é geralmente tido como indicador do narrador, pelo menos do capítulo 16 em diante, como um dos companheiros de viagem de Paulo. Silas e Timóteo parecem estar eliminados por versículos tais como 16.19 e 20.4,5; não há também qualquer traço de evidência de que o escritor possa ser Tito. Quem seria ele então, senão Lucas? Desde que o estilo de todos os


capítulos precedentes ao 16 é o mesmo daqueles que se seguem a ele, o livro não teria sido escrito inteiramente por Lucas? Quarta: a autoria de Lucas, tanto de Atos como do terceiro evangelho, é confirmada unanimemente pela tradição cristã a partir de Irineu, no século II A.D., sendo aceita pelos críticos de todas ou quase todas as escolas de nossos dias. A data, assim como a doutrina, pode ser perfeitamente fixada. Ele foi completado cerca do ano 63 A.D. em Roma; ou seja, perto do fim dos dois anos em que Paulo esteve preso nessa cidade e, possivelmente, sob a orientação desse grande apóstolo. A narrativa chega exatamente até esse ponto e não poderia ter sido completada antes. Todavia, não haveria também possibilidade de ter sido escrita muito mais tarde que isso, pois, se o julgamento de Paulo diante de Nero e sua absolvição tivessem tido lugar, Lucas, certamente, registraria o fato. Além do mais, se as projetadas viagens de Paulo e seu segundo julgamento — e mais que tudo, seu martírio — houvessem ocorrido, Lucas não teria, com toda certeza, registrado isso em vez de interromper repentinamente seu relato como o fez no final do capítulo 28? É quase certo que sim, pois sabemos através de 2 Timóteo 4.6,11 que Lucas ficou com Paulo até o fim.

Objetivo e Título Qual o escopo, ou seja, o assunto e o objetivo de Atos? Alguns preferem chamá-lo de “Atos do Espírito Santo”, devido às suas muitas referências ao Espírito Santo. Outros gostariam de dar-lhe o título de “Atos do Cristo Que Subiu aos Céus”. Eles nos remetem às palavras introdutórias de Lucas: “Escrevi o primeiro livro, ó Teófilo, relatando todas as coisas que Jesusfez e ensinou, até ao dia em que, depois de haver dado mandamentos por intermédio do Espírito Santo aos apóstolos que escolhera, foi elevado às alturas...” e sugerem que Lucas pretende agora, neste novo livro, contar o que o Senhor continuou a fazer depois de sua ascensão. Mas, segundo nosso critério, o verdadeiro nome do livro é o que sempre teve, “Atos dos Apóstolos”; pois, embora o Cristo que subiu às alturas e o Espírito que dá de Sua plenitude estejam operando através e acima de tudo, as figuras vistas são as dos homens comissionados por Cristo e controlados pelo


Espírito, os apóstolos. O principal desafio do livro para nós é justamente o significado do que esses homens disseram e fizeram. Se quisermos interpretar a ascensão de Cristo e o fenômeno do Pentecoste devemos observar esses homens. Alguns negam que o título “Atos dos Apóstolos” seja o verdadeiro ou original. Por exemplo, o Comentário de Marshall sobre Atos diz: “A obra não pode ser considerada em sentido algum como um registro dos feitos dos apóstolos, desde que não contém um relato detalhado do trabalho deles, com exceções dos de Pedro e de Paulo. Ele é de fato o registro de alguns atos de certos apóstolos e de outros que não eram apóstolos”. A simples resposta a isto é que, se o livro não consiste especialmente de uma narrativa dos feitos dos apóstolos, será difícil saber o que ele é. Os doze apóstolos, todos eles, são mencionados no primeiro capítulo, a fim de podermos saber, sem sombra de dúvida, a quem Lucas se refere quando fala dos “apóstolos” nos capítulos seguintes. Eles são citados coletivamente depois disso nada menos do que 23 vezes! Seus pronunciamentos, decisões e atividades importantes, como um corpo, foram preservados, revelando sua unanimidade e autoridade reconhecida. Desse modo, embora o escritor não tenha achado necessário ou possível apresentar a história pessoal de cada um, ficamos sabendo que os escolhidos para menção especial são citados como representantes ou líderes. Talvez devamos acrescentar que apesar dos “Doze” ocuparem um lugar distinto, o termo “apóstolo” é usado para Barnabé e para outros mencionados pelo nome ou incluídos na narrativa sem serem nomeados. O livro é verdadeiramente comparável ao seu nome. Trata dos “Atos dos Apóstolos”. Tem o propósito de ensinar-nos a relevância desses homens, do que fizeram e disseram e do que aconteceu com eles.

Chave e Plano O pensamento principal em Atos é dar testemunho de Cristo e o versículo-chave é sem dúvida 1.8: “Mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas, tanto em Jerusalém, como em toda a Judéia e Samaria, e até aos confins da terra”. Neste v. 8, vemos a nomeação divina, o equipamento espiritual e o compromisso


geográfico das testemunhas de Cristo. Além disso, o desenvolvimento geográfico de todo o livro é antecipado aqui: “em Jerusalém, como em toda a Judéia e Samaria, e até aos confins da terra”. Nos capítulos 2 a 7, o testemunho é dado em Jerusalém. Nos capítulos 8-12 ele é divulgado em toda Judéia e Samaria. Finalmente, do capítulo 13 até encerrar-se o livro, é levado “até aos confins da terra”. O que essas primeiras testemunhas deveriam anunciar? Qual o tema de seu testemunho para Cristo? Ao respondermos essa questão com cuidado e sinceridade, veremos o livro assumir seu significado supremo. Quanto ao plano, o livro de Atos tem duas partes: a primeira, que vai até o fim do capítulo 12 e a segunda, do capítulo 13 até o último. Jerusalém é o foco da primeira parte. Na segunda, as atenções convergem para Antioquia. Na primeira, Pedro é a figura proeminente. Na segunda, é Paulo. Na primeira parte, há um movimento saindo de Jerusalém em direção à Judéia e Samaria. Na segunda, a ação tem início em Antioquia, atravessa o império e encaminha-se para Roma. Na primeira parte, ficamos restritos à Palestina, onde é dado testemunho primeiro aos judeus da pátria e depois a judeus e gentios sem distinção. Na segunda parte, somos conduzidos através do império, onde o testemunho é novamente dado primeiro aos judeus da Dispersão e depois a judeus e gentios ao mesmo tempo. A primeira parte termina com a rejeição geral da Palavra pelos judeus da pátria e a segunda com a rejeição geral da Palavra pelos judeus da Dispersão. A primeira parte termina com a prisão de Pedro. A segunda encerra-se com a prisão de Paulo. Existe um paralelo entre Pedro, na primeira parte, e Paulo, na segunda, que parece ser mais que pura coincidência. PEDRO I Primeiro sermão (2) I Cura de um coxo (3) I Simão, o mágico (8) Influência da sombra (5) Imposição das mãos (8) I Ressurreição de Tabita (9) Prisão de Pedro (12)

PAULO Primeiro sermão (13) Cura de um coxo (14) Elimas, o mágico (13) Influência do lenço (19) Imposição das mãos (19) Paulo adorado (14) Ressurreição de Êutico (20) Prisão de Paulo (28)


Ao serem destacadas essas duas partes, vemos como o livro de Atos é realmente planejado de acordo com o versículo-chave, em Atos 1.8. Vamos registrar muito bem — na primeira parte de Atos (1-12) temos “Jerusalém, Judéia e Samaria”; na segunda (13-28) temos “até aos confins da terra”. Será útil colocar num papel os fatos da seguinte forma: ATOS DOS APÓSTOLOS Tema principal: Testemunho de Cristo Versículo-chave: At 1.8 PARTE 1 (1-12) Jerusalém: o centro Pedro, figura principal: Em direção a Samaria Palavra rejeitada pelos judeus da pátria Prisão de Pedro Juízo sobre Herodes

PARTE 2 (13-28) Antioquia: o centro Paulo, figura principal: Em direção a Roma Palavra rejeitada pelos judeus da Dispersão Prisão de Paulo Juízo sobre os judeus

É disso que tratam, portanto, o “escopo”, a “chave” e o “plano”. Veremos que três eventos críticos foram registrados em Atos, dando ao livro um significado dispensacional surpreendente. Antes de examinarmos os mesmos, porém, há uma pergunta da máxima importância que*devemos responder com todo cuidado. Qual a natureza e conteúdo do testemunho apostólico para o Senhor Jesus Cristo?

O Que Significava Testemunho Apostólico? O primeiro capítulo do livro cobre os cinqüenta dias desde a ressurreição do Senhor até o dia de Pentecoste. Esses cinqüenta dias foram divididos em quarenta dias e dez dias —os quarenta dias do ministério do Senhor ressurreto e os dez dias de “espera” entre a ascensão de Cristo e a vinda do Espírito Santo. A importância desses últimos quarenta dias do ministério do Senhor na terra não pode deixar de ser ressaltada ao máximo. O que estava em primeiro lugar em seus pensamentos e palavras?


Qual o assunto de suas últimas conversas e conselhos aos apóstolos? O v.3 nos conta: “(Ele) se apresentou vivo, com muitas provas incontestáveis, aparecendo-lhes durante quarenta dias e falando áas coisas concernentes ao reino de Deus”. Não pode haver linguagem mais clara. Durante esses quarenta dias, o assunto supremo e absorvente da conversa foi o “reino de Deus”. Isto provocou uma pergunta muito natural por parte dos apóstolos, que está registrada no v. 6: “Então os que estavam reunidos lhe perguntavam: Senhor, será este o tempo em que restaures o reino a Israel?” Esta pergunta era o resultado perfeitamente natural do ensino do Senhor — uma pergunta inteligente e correta que nós mesmos teríamos feito se estivéssemos no lugar deles. Todavia, bastante estranhamente, a maioria dos comentaristas de Atos a ignora. Eles confundem o “reino de Deus” com a “Igreja” (espiritualizando-o completamente, sem mencionar o fato de que o separam da profecia do Antigo Testamento) e acusam os apóstolos de ignorância incorrigível e de ambições egoístas. Por exemplo, o falecido Rev. William Arthur explica o assunto em seu livro, The Tongue of Fire (“A Língua de Fogo”) — cuja obra teve extraordinária influência há cerca de sessenta anos atrás: “Aparentemente mais dispostos a interpretar ‘poder’ como referindo-se às esperanças de sua nação do que ao reino da graça, eles perguntaram, ‘Senhor, será este o tempo em que restaures o reino a Israel?’ Ele nada disse sobre um reino para Israel ou em Israel... Quando perguntaram, portanto, se iria naquela ocasião devolver o reino a Israel, Ele, em seguida, afastou a curiosidade dos mesmos. Quais os desígnios do Pai quanto à nação de Israel, quando eles voltariam a ser um reino, não lhes cabia perguntar. Tinham um trabalho mais importante e mais próximo. ‘Não vos compete conhecer tempos ou épocas que o Pai reservou para sua exclusiva autoridade’.” Citamos esse trecho por representar inúmeros comentários semelhantes sobre a pergunta feita pelos apóstolos; ele nos parece marcado por estranhas contradições. Como o escritor poderia afirmar que o Senhor nada dissera “sobre um reino para Israel ou em Israel” parece de fato estranho em vista do que nos ensinam os quatro evangelhos. É igualmente estranho ouvir que o Senhor “em seguida afastou a curiosidade dos mesmos”, em vista de apenas alguns dias antes (veja Mt 24) ter dado


uma longa e detalhada resposta a uma questão bastante parecida! Além disso, ao registrar a pergunta dos discípulos, Lucas faz uso de um “então” significativo. A ordem exata das palavras no versículo seria: “Os que estavam reunidos, então lhe perguntavam: Senhor, será este o tempo em que restaures o reino a Israel?” Lucas, evidentemente, utiliza o “então” aqui, para mostrar que a pergunta dos discípulos era um resultado lógico do que o Senhor estivera dizendo sobre o reino”. A maioria dos escritores, no entanto, adota o ponto de vista da citação que acabamos de dar, extraída do livro de William Arthur. Quando examinamos os comentários bíblicos conhecidos, tantos os mais antigos como os mais recentes, descobrimos a mesma opinião expressa em todos. Mas, esta explicação da pergunta dos apóstolos é verdadeira no que diz respeito ao cenário histórico e ao contexto? Achamos que não. E no que diz respeito aos próprios apóstolos, ela certamente coloca uma pressão insuportável sobre a nossa credulidade. Pense bem — ali estavam homens adultos, que, embora não tivessem cursado escolas de nível superior, eram indivíduos de bom senso e raciocínio; eles tinham sido companheiros do Senhor Jesus durante três anos, tinham-no observado e ouvido em público e em particular, visto todos os milagres e ouvido todas as parábolas, recebendo explicações especiais a respeito delas; haviam ouvido todas as pregações e ensinamentos sobre o reino dos céus ou reino de Deus, e, embora não houvessem compreendido todo o significado pleno contido em alguns pronunciamentos do Senhor, haviam captado a essência de seu ensino (conforme lemos em passagens como Mateus 13.51, onde, em resposta à pergunta do Senhor, “Entendestes todas estas coisas?” eles respondem: “Sim”). Esses homens, especialmente escolhidos e ensinados, os confidentes do Senhor, que o acompanharam até a cruz, tiveram agora quarenta dias maravilhosos de instrução culminante por parte do Cristo ressurreto sobre o “reino de Deus”; se eles, como muitos de nós, eram antes “tardos de coração para crer tudo o que os profetas disseram” (Lc 24.25), não o são mais agora, porque Lucas nos diz que, quando o Cristo ressuscitado se apresentou aos discípulos, “então” lhes abriu o entendimento para compreenderem as Escrituras!” Todavia, depois e apesar de tudo isto, espera-se que creiamos que quando os discípulos perguntaram: “Senhor, será este o tempo em que restaures o reino a Israel?” eles estavam fazendo uma pergunta irrelevante e não espiritual, sendo de tal forma ignorantes que chegavam a confundir um ensinamento


sobre o reino espiritual (a Igreja) com um reino material, interpretando erradamente as instruções claras de Cristo, não apenas acerca de um assunto secundário, mas sobre a comunicação central e essencial de todo o seu ensino! Isto é certamente absurdo demais para receber qualquer crédito de nossa parte! Se os apóstolos eram homens desse tipo, será melhor considerá-los débeis mentais de uma vez! Não basta dizer que eles, embora mentalmente bastante normais, não tivessem suficiente espiritualidade para compreender as verdades espirituais que Cristo lhes estivera ensinando, pois todos concordarão que os apóstolos, àquela altura, já eram homens regenerados. O próprio Senhor os pronunciara “limpos, pela palavra” (Jo 15.3); e todos estarão de acordo em que esses homens, apesar de sua inexperiência espiritual, haviam sido especialmente ensinados pelo Espírito Santo; como vemos, por exemplo, nas palavras do Senhor a Pedro: “Não foi carne e sangue quem to revelou, mas meu Pai que está nos céus” (Mt 16.17). De modo algum trata-se de eles serem espirituais ou não, mas de seu senso comum, de entenderem ou não as palavras claras que lhes foram ditas pelo Senhor antes e depois de sua ressurreição. Se colocarmos quaisquer homens normais da atualidade no lugar deles (não estou querendo dizer necessariamente homens “convertidos”), o que deveríamos esperar dos mesmos? Sabemos muito bem. Podemos ou ousamos então esperar menos desses indivíduos especialmente escolhidos e instruídos, os apóstolos? Será que eles haviam cometido um engano tão grande assim, a ponto de confundir a Igreja, que é um organismo espiritual, com um reino israelita material, nacional e aparente, ao perguntarem, “Senhor, será este o tempo em que restaures o reino a Israel?”; então, nosso Senhor, em lugar de responder simplesmente que não lhes cabia conhecer “tempos ou épocas que o Pai reservou para sua exclusiva autoridade”, teria certamente pronunciado uma das sentenças mais dolorosas da Bíblia — seja de forte censura ou de decepção compassiva! Quanto à resposta de Jesus ter sido uma reprovação, como sugerido, não acreditamos que se trata disso. Mas, sim de uma declaração pura de um fato. Mantê-los ignorantes quanto aos “tempos ou épocas” relativos à volta do Rei-Messias e o estabelecimento do reino não era, de modo algum, uma censura. O Senhor não afirmara que Ele mesmo desconhecia quando isso iria acontecer? “Mas a respeito daquele dia ou da hora


ninguém sabe; nem os anjos do céu, nem o Filho, senão somente o Pai” (Mc 13.32). Em vez de as palavras do Senhor conterem reprovação, veremos em breve que elas possuíam um significado especial para eles, sendo essa a razão de Lucas ter o cuidado de registrá-las. Qual o motivo deste mal-entendido sobre a pergunta dos apóstolos e a resposta do Senhor à mesma? Ele é causado simplesmente pelo erro em confundir o reino do céu, ou reino de Deus, com a Igreja da dispensação presente. O que os apóstolos deveriam então pregar, segundo a comissão do Cristo ressurreto? Como já notado, tratava-se de algo ligado ao “reino de Deus”, pois esse foi o assunto em consideração durante os quarenta dias. O Senhor ressurreto nomeou os apóstolos como suas testemunhas especialmente em relação a duas coisas. Eles deveriam dar testemunho dEle (1) como sendo de fato o Messias-Rei de Israel, o Salvador de seu povo, crucificado mas agora ressurreto, o Rei predestinado do “reino dos céus” há muito prometido; e (2) como o Salvador pessoal, da culpa, poder e castigo eterno do pecado, para todos os que crerem nEle, através de sua morte expiatória e ressurreição. Eles deveriam apresentar a oferta do Rei e do reino, como o Senhor fizera até o dia de sua crucificação. Só que agora havia um novo e maravilhoso fator na mensagem — o da Cruz, o perdão para “o pecado do mundo”, e as boas novas da salvação pessoal pela fé no Senhor Jesus, o Cristo de Israel e agora Salvador do mundo. Quaisquer que sejam os outros significados que possam pertencer aos Atos dos Apóstolos, o livro é, principalmente, A RENOVAÇÃO DA OFERTA DO REINO DOS CÉUS À NAÇÃO DE ISRAEL.

Modelos de Pregações Apostólicas lista renovação da oferta do reino a Israel é o ponto-chave de todas as proclamações registradas dos apóstolos à nação no dia de Pentecoste e após o mesmo. Examine as duas primeiras declarações públicas de Pedro - a do dia de Pentecoste e a outra no pórtico do Templo. O grande sermão de Pedro no dia de Pentecoste é mencionado no capítulo 2.14-40. Ele é dirigido especificamente aos homens de Israel (w. 14, 22, 36). A seguir (note cuidadosamente), o derramamento do Espírito


no Pentecoste é atribuído ao cumprimento da profecia de Joel 2.28-32. Pedro declara: “O que ocorre é o que foi dito por intermédio do profeta Joel” (v. 16). Ao que se refere a profecia de Joel? À Igreja? Absolutamente não. Ela se refere à nação de Israel e, em particular, ao reino messiânico (que predomina nas predições do Antigo Testamento), como Joel 2 e uma comparação com outras profecias do Antigo Testamento irão provar. Pedro coloca em seguida a responsabilidade da crucificação do Messias sobre a nação de Israel (w. 22,23), lembrando-os dos “milagres, prodígios e sinais” que Jesus operara entre eles. Pedro anuncia nesse ponto a nova mensagem da ressurreição e exaltação de Jesus crucificado, mostrando ser ela um cumprimento da predição messiânica (w. 24-33). Essa é uma passagem tremenda e triunfante. Note as cinco grandes afirmações relativas a “Jesus de Nazaré” (v. 22): 1. Este Homem, Jesus, é o foco da profecia do Antigo Testamento — “Porque a respeito dele diz Davi” (v. 25). 2. Este Homem, Jesus, é o Senhor — “Porque a respeito dele diz Davi: Diante de mim via sempre o Senhor” (v. 25). 3. Este Homem, Jesus, é o “Santo“ prometido — “A respeito dele diz Davi... o teu Santo” (v. 27). 4. Este Homem, Jesus, é o Messias prometido — “(Davi) prevendo isto, referiu-se a...Cristo” (v. 31). 5. Este Homem, Jesus, é o REI prometido —“(Davi) sabendo...que um de seus descendentes (Cristo) se assentaria no seu trono“ (v. 30). Essas espantosas declarações, acompanhadas dos “sinais” milagrosos no dia de Pentecoste, devem ter tido um efeito surpreendente sobre a mente dos ouvintes judeus de Pedro. Mas este tinha algo ainda mais extraordinário para dizer. Depois de insistir sobre o messiado de Jesus combase nos “milagres, prodígios e sinais” que opróprio Jesus fizera entre eles, do fato de sua ressurreição, conforme a predição de Davi, Pedro oferece a comprovação final não só de que Jesus é de fato o Messias, mas que, num sentido único e transcendente, Ele é o próprio Filho de Deus. Isto se encontra no v. 33: “Exaltado, pois, à destra de Deus, tendo recebido do Pai a promessa do Espírito Santo, (Jesus) derramou isto que vedes e ouvis”. A palavra de Pedro é decisiva e sua implicação inevitável: este Jesus fez o que somente Deus pode fazer —Ele derramou o Espírito Divino! Afirmar


que Jesus exercera esta prerrogativa absolutamente divina seria blasfêmia se o Senhor Jesus não fosse de fato o Filho de Deus. Mas Ele é verdadeiramente Jeová-Jesus; ou, no título duplo dado por Pedro, Ele é “Senhor e Cristo” (v. 36). Esse foi então o sermão de Pedro dirigido a Israel no dia de Pentecoste. Os fenômenos sobrenaturais são explicados como cumprindo a profecia do Antigo Testamento relativa ao reino messiânico prometido. O Jesus crucificado mas agora exaltado é declarado o Cristo e Rei prometido. Quando os ouvintes perguntam o que devem fazer sobre isso, Pedro exorta-os ao arrependimento e batismo em Nome de Jesus Cristo, para remissão de pecados, a fim de participarem da bênção do Espírito agora derramado. Ele acrescenta no final: “Pois para VÓS OUTROS é a promessa (de Joel e a promessa do reino na profecia do Antigo Testamento em geral), PARA VOSSOS FILHOS, e (mais tarde) para os que ainda estão longe (os gentios), quantos o Senhor nosso Deus chamar” (v- 39). Quanto ao segundo discurso público de Pedro (cap. 3.12-26), um simples olhar será suficiente para pôr em foco o seu significado central. Encontramos duas coisas surpreendentes nele: primeira, a admissão de ler havido ignorância na crucificação de Jesus; e, segunda, a promessa de que o Senhor então voltaria, se o povo de Israel se arrependesse e O recebesse. Os versículos 17 a 21 têm a seguinte redação: “E agora, irmãos, eu sei que o fizestes por ignorância, como também as vossas autoridades; mas Deus assim cumpriu o que dantes anunciara por boca de todos os profetas que o seu Cristo havia de padecer. Arrependei-vos, pois, e convertei-vos para serem cancelados os vossos pecados, a fim de que da presença do Senhor venham tempos de refrigério, e que envie ele o Cristo, que já vos foi designado, Jesus, ao qual é necessário que o céu receba até aos tempos da restauração de todas as coisas, de que Deus falou por boca dos seus santos profetas desde a antigüidade”. O que isto pode significar senão a oferta renovada de um Messias-Rei e do reino dos céus aos judeus? Não fica igualmente claro que as palavras proferidas por Pedro prometem a volta de Jesus, e que os tempos de refrigério (restauração) viriam sem demora, havendo arrependimento e


conversão por parte de Israel? Eis aqui o fato, claramente declarado, de que se houvesse um arrependimento e aceitação nacional de Jesus como Senhor e Cristo da parte de Israel, então o segundo advento de Cristo em poder e glória teria tido lugar, pois jamais uma promessa mais definida tinha sido dada. Ao enfatizar isto não estamos nos esquecendo das palavras do v. 21 onde Pedro acrescenta, “Ao qual (o Senhor Jesus) é necessário que o céu receba até aos tempos da restauração de todas as coisas, de que Deus falou por boca dos seus santos profetas desde a antigüidade”. Não devemos certamente pensar que o inspirado Pedro, ao dizer isso, tivesse em mente uma demora de dois mil anos, entre aquele dia e a volta futura do Senhor, como os crentes do século XX percebem agora haver. Pensar que uma reserva assim secreta estivesse na mente de Pedro, tornaria a sua exortação precedente teatral e enganosa. Os “tempos da restauração” a que Pedro se refere aqui são os mesmos “tempos de refrigério” que ele acabara de afirmar que viriam sem demora, juntamente com a volta do Senhor, se Israel se arrependesse e o reconhecesse. Os próprios apóstolos tinham pensado nessa mesma “restauração” quando perguntaram, “Senhor, será este o tempo em que restaures a Israel o reino?” Os profetas do Antigo Testamento prevêem repetidamente uma restauração do Israel disperso na terra da aliança; uma restauração da teocracia sob o Messias que estava para vir; e uma restauração dos plenos privilégios sob as provisões da aliança abrâmica finalmente cumprida. Os “tempos da restauração” poderiam ter sido estabelecidos então; caso contrário, as palavras de Pedro carecem de realidade. Não fazia parte da predeterminação divina que o reino messiânico e a restauração de Israel fossem adiados por mais dois mil anos depois da Encarnação; mas Deus previu a desobediência de Israel e decidiu contra a aplicação do plano. Como sempre, foi dado espaço para o livre-arbítrio humano e Ele permitiu que os acontecimentos se desenvolvessem até os seus resultados correspondentes. As palavras de Pedro sobre uma oferta renovada foram pronunciadas de boa fé; e a volta do Senhor poderia ter ocorrido então, sem qualquer necessidade fundamental de adiamento.


DOS APOSTOLOS Lição n2 22


NOTA: Para este estudo, leia de novo cuidadosamente o discurso de Estêvão ao Sinédrio e a narrativa de seu martírio, assim como as três viagens missionárias de Paulo.

A IMPORTÂNCIA DE ATOS O valor de um livro pode, às vezes, ser melhor calculado se considerarmos qual seria a nossa perda se não o possuíssemos. Se é assim, dificilmente teremos condição de avaliar muito o livro de Atos dos Apóstolos. Se ele não tivesse chegado até nós, haveria um espaço em branco em nosso conhecimento que nada mais poderia preencher. Farrar Se o íívro de Atos desaparecesse, coisa afguma poderia substítuí-fo; e, avançando um pouco mais, as Escrituras cristãs ficariam então diante de nós como dois fragmentos separados, sem que o arco pudesse ser completado. Howson


ATOS DOS APÓSTOLOS (2) OS TRÊS EVENTOS BÁSICOS Segundo pensamos, o suficiente já foi dito para mostrar que a mensagem dos apóstolos continha principalmente uma renovação da oferta do reino messiânico a Israel (embora seja necessário ter sempre em mente que, apesar de o reino prometido estar ligado basicamente a Israel, não existe exclusividade nesse sentido, como fica claro pelas profecias do Antigo Testamento relativas ao mesmo). Isto nos leva a uma consideração dos três eventos básicos em Atos e do resultado final do livro. Os três pontos críticos são os seguintes: O ataque contra Estêvão (7.54-60) A revolta contra Paulo (22.22) A ida para os gentios (28.28)

com contexto.

O Ataque contra Estêvão Vejamos o primeiro caso: o ataque contra Estêvão. Mencionamos que o livro de Atos se divide em duas partes principais. Todo o conteúdo àí\ primeira parte (1-12) ou leva ao ataque contra Estêvão ou é um resultado dele. Este acontecimento é o pivô em redor do qual gira todo o restante, Veremos que, em cada um dos primeiros capítulos de Atos, temos primeiro o milagre e depois o testemunho. Os milagres tinham o propósito de preparar o caminho para a mensagem. Eles eram as evidências sobrenaturais, conforme as profecias do Antigo Testamento, como as de Joel, de que o reino, há tanto prometido, estava realmente aqui no seu início, em seu estágio incipiente: e a mensagem era que se a nação aceitasse essas evidências, arrependendo-se e acolhendo a oferta renovada do Senhor Jesus Cristo, Ele então voltaria e o reino seriíi introduzido em sua plenitude.


Assim sendo, no capítulo 2, temos o primeiro milagre das “línguas” e depois o grande sermão de Pedro explicando o significado delas. Do mesmo modo, nos capítulos 3 e 4, ambos sobre a cura do coxo, lemos sobre o primeiro milagre na “Porta Formosa”, seguido do duplo testemunho dos apóstolos — ao povo em geral e depois aos líderes da nação. No capítulo 5, temos a advertência sobrenatural no caso de Ananias e Safira, e a declaração do v. 12: “muitos sinais e prodígios eram feitos entre o povo, pelas mãos dos apóstolos”, seguida de um novo duplo testemunho ao público e ao concílio. Depois disso, nos capítulos 6 e 7, ficamos sabendo dos “grandes prodígios e sinais entre o povo” feitos por Estêvão, seguidos do seu testemunho diante do Sinédrio e de sua acusação severa pelos líderes judeus. Além disso, nesses primeiros capítulos, observamos que, em cada caso, depois do milagre e da mensagem, houve imediata oposição das autoridades judaicas. Acusação Final da Nação Tudo isto chega a um auge no ataque contra Estêvão. Primeiro: nos milagres, mensagem e martírio de Estêvão temos o julgamento final e acusação da nação. Vários leitores talvez tenham ficado imaginando qual seria a razão do longo discurso de Estêvão dirigido ao Sinédrio. Por que esta longa revisão histórica? Não poderia ter sido encurtada? Essas perguntas revelam que o verdadeiro significado das palavras de Estêvão não foi compreendido. A sua retrospectiva, na verdade, não passava de uma acusação. Ela tinha como propósito mostrar de que maneira Israel rejeitara repetidamente o testemunho do Espírito de Deus, através de toda a sua história até que finalmente, sob a influência de seus líderes perversos, o povo chegara ao terrível extremo de matar o próprio Messias. O objetivo triste de Estêvão é produzir culpa inteligente e consciente pelo duplo e hediondo pecado, primeiro de crucificar o Filho de Deus e agora de resistir ainda ao testemunho graciosamente renovado do Espírito Divino. Cristo dissera na cruz: “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem”; e Pedro fizera concessão a isto em suas palavras à multidão: “eu sei que o fizestes por ignorância”; mas agora essa ignorância não serve como desculpa — a situação será de tal modo esclarecida que os líderes judeus estarão agindo na plena consciência do que fazem, de maneira que


qualquer um poderá ver. As palavras, “Eles não sabem o que fazem”, não mais lhes servirão de cobertura. Milagres foram operados, testemunhos foram dados. O oferecimento foi feito. Eles viram, ouviram e compreenderam — mas continuaram resistindo. Os milagres foram, com certeza, indiscutíveis e irrefutáveis. Os próprios líderes viram-se forçados a admitir isso. Vemos tanto a sua admissão do fato como sua atitude em relação a ele nos capítulos 4.16,17 e 5.12,17,18. Assim também, o testemunho dos apóstolos tinha sido o mais claro possível. Não poderia haver qualquer interpretação errada de pronunciamentos diretos como os feitos no capítulo 4.9-12. Não havia realmente qualquer possibilidade de erro numa linguagem clara como essa. No entanto, qual foi o resultado? O capítulo 5.33 nos conta: “Eles (os líderes), porém, ouvindo, se enfureceram e queriam matá-los”! Nada podia deter sua raiva e oposição invejosa. A resistência consciente e obstinada deles ao Espírito Santo cada vez mais se revelava até que sua face perversa desmascarou-se finalmente no julgamento de Estêvão: “Homens de dura cerviz e incircuncisos de coração e de ouvidos, vós sempre resistis ao Espírito Santo”. Houve um julgamento e a nação foi condenada. Rejeição Final da Nova Oferta Segundo: o martírio de Estêvão marcou a rejeição judaica oficial da renovação da oferta do reino. Nesses primeiros capítulos de Atos encontramos duas palavras usadas para descrever as obras sobrenaturais operadas pelos apóstolos. São elas “sinais” e “prodígios”. Os milagres apostólicos eram “sinais“ — sinais de que o reino havia, de fato, se aproximado novamente na mensagem renovada através dos apóstolos. Quanto à sua natureza, esses sinais eram “prodígios”, obras tão evidentemente sobrenaturais que mostravam com certeza a operação de Deus entre o povo. Os sinais eram tão claros quanto os testemunhos diretos. Todavia, em todo o tempo houve hostilidade da parte dos líderes judeus. A temperatura de seus sentimentos subiu rapidamente até que, no ataque contra o seráfico Estêvão, o líquido fervente e escaldante de sua raiva descontrolada derramou-se na primeira perseguição pública da nova


minoria cristã, oficialmente instigada. O apedrejamento de Estêvão foi o sinal para um levante de todo o povo contra os crentes. Esta foi a faísca que pôs fogo no ódio dos judeus contra o Nazareno e seus seguidores. Note a ligação entre o último versículo do capítulo 7 e o primeiro do capítulo 8: “E apedrejavam a Estêvão que invocava e dizia: Senhor Jesus, recebe o meu espírito! Então, ajoelhando-se, clamou em alta voz: Senhor, não lhes imputes este pecado. Com estas palavras adormeceu...Naquele dia levantou-se grande perseguição contra a igreja em Jerusalém; e todos...foram dispersos...”. Estêvão, o protomártir, foi rapidamente seguido por centenas de outros que caíram sob os golpes do perseguidor. A tradição conta-nos que mais de dois mil foram mortos no levante iniciado com o martírio de Estêvão. Esse martírio foi a expressão desesperada, mortal e decisiva da nova rejeição oficial judaica do Senhor Jesus como Messias-Salvador-Rei. Primeiro Movimento Evangelístico Terceiro: o martírio de Estêvão precipitou o primeiro movimento evangelístico fora da capital judaica. Vejamos outra vez o capítulo 8. No primeiro verso, lemos que, em conseqüência da perseguição provocada pelo episódio de Estêvão, “todos, exceto os apóstolos, foram dispersos pelas regiões da Judéia e Samaria”. No v. 4 lemos: “Entrementes os que foram dispersos iam por toda parte pregando a palavra”, e no v. 5: “Filipe, descendo à cidade de Samaria, anunciava-lhes a Cristo”. O v. 25 diz: “Eles, porém, (Pedro e João) havendo testificado e falado a palavra do Senhor, voltaram para Jerusalém , e evangelizavam muitas aldeias dos samaritanos”. Pouco adiante, no v. 40 aprendemos que “Filipe... passando além, evangelizava todas as cidades até chegar a Cesaréia”. Depois do registro da morte de Estêvão, todos os capítulos da primeira parte de Atos tratam deste primeiro movimento de evangelização fora da cidade de Jerusalém. Eles nos apresentam os aspectos principais do mesmo, mostrando como foi dado testemunho a cidades e pessoas importantes, tais como: Cap. 8. Samaria O tesoureiro etíope Cap. 9. Damasco Saulo, o futuro Paulo. Cap. 10. Cesaréia Cornélio, o centurião. Cap. 11. Antioquia Defesa do ministério aos gentios.


Quarto: o ataque contra Estêvão ocasionou a transferênciapara um novo centro, Antioquia. No capítulo 11.19 lemos: “Então os que foram dispersos por causa da tribulação que sobreveio a Estêvão, se espalharam até à Fenícia, Chipre e Antioquia, não anunciando a ninguém a palavra, senão somente aos judeus”. A partir deste ponto, Antioquia passa a tomar a liderança no livro de Atos. Jerusalém conserva sua liderança nominal. Ela ainda é o centro da decisão e de pronunciamentos da autoridade, pois os Doze ainda se mantêm ali. Além disso, a peculiaridade da capital judaica, proveniente de suas associações sagradas também permanece. Ela será para sempre o berço histórico da nova fé: no entanto, em importância estratégica é Antioquia que avança agora. “A mão do Senhor” está com eles em Antioquia de maneira especial. “Muitos” creram e se entregaram ao Senhor nessa cidade. Jerusalém envia Barnabé a Antioquia. Barnabé leva Saulo de Tarso para ali. Os discípulos são chamados “cristãos” pela primeira vez em Antioquia. Ela também foi a base de onde saíram as grandes campanhas missionárias paulinas através do império. E é ela que envia agora ajuda a Jerusalém e à Judéia. Toda a segunda parte de Atos está ligada aos acontecimentos na mesma Antioquia. Vemos assim que o ataque contra Estêvão tornou-se um evento crucial em Atos de quatro maneiras. Ele marca (1) o último julgamento da nação na capital, (2) a rejeição judaica oficial quanto à renovação da oferta do reino, (3) o primeiro movimento de evangelização para fora da cidade, (4) o surgimento de um novo centro estratégico. Desse modo, o principal resultado e relevância desta primeira parte de Atos é: A NOVA REJEIÇÃO DO REINO FEITA OFICIALMENTE NA CAPITAL.

O Ataque Contra Paulo Seguimos agora para a segunda crise principal em Atos, i.e., o ataque contra Paulo. Da mesma forma que na primeira parte do livro, o martírio de Estêvão é o foco, o clímax dos acontecimentos precedentes e a causa dos que o seguem; assim, aqui nesta segunda metade do livro, a explosão da hostilidade judaica descrita no capítulo 22 (e notavelmente no v. 22)


faz com que as coisas precipitem-se, esclarecendo a situação num abrir e fechar de olhos e determinando, de imediato, a nova linha de ação que se segue. Devemos antes, porém, examinar os capítulos 13-21, que nos conduzem até este ataque selvagem. As palavras do Senhor foram: “Sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém, como em toda a Judéia e Samaria, e até aos confins da terra”. Vimos agora na primeira parte do livro o testemunho dado em Jerusalém, Judéia e Samaria, tendo a mensagem sido levada “primeiro aos judeus”, e depois, em vista da oposição judaica, transmitida “também aos gentios”. Mas não basta que as boas novas do reino sejam proclamadas apenas na pátria. O que dizer dos milhares de judeus dispersos por todo o mundo romano, os judeus da Dispersão?. Aceitarão eles a mensagem? Isto ainda precisa ser verificado. É necessário que tenham a sua oportunidade. A segunda parte de Atos trata então do testemunho do reino para os judeus da Dispersão e até “aos confins da terra”. Observamos novamente aqui a obediência estrita à ordem, “primeiro ao judeu” e depois “também ao gentio”. A Primeira Viagem Missionária A primeira viagem missionária de Paulo é narrada nos capítulos 13 e 14. Entre os lugares mencionados durante a jornada, foi registrado ministério nos seguintes: Salamina Pafos Antioquia (da Pisídia) Icônio Listra e Derbe Viagem de volta

13.5 13.6 13.14 13.51 14. 6, 20 14. 21, 22

Com exceção de Listra e Derbe, vemos que, em cada caso, na primeira viagem missionária, os dois apóstolos foram inicialmente aos “judeus” e, portanto, dirigiram-se à sinagoga. Quanto a Listra e Derbe, além da probabilidade de não haver sinagoga em qualquer delas, talvez não existissem judeus nessas duas cidades. A narrativa diz: “Sobrevieram,


porém, judeus de Antioquia e Icônio e, instigando as multidões e apedrejando a Paulo, arrastaram-no para fora da cidade dando-o por morto”. Essa expressão, “as multidões” (o povo), traduz geralmente o termo grego laos no Novo Testamento, usado especificamente para a nação judaica. Os judeus consideravam-se de maneira peculiar “o povo”, devido à sua relação especial de aliança com o Senhor. Encontramos essa palavra usada, por exemplo, em Atos 21.28. Aqui (14.19), no entanto, não é laos, mas uma palavra que significa as multidões. Os judeus invejosos que haviam perseguido Paulo e Barnabé até Listra, instigaram “as multidões” (não-judias) contra eles. A probabilidade é, portanto, de que não houvesse sinagogas nem judeus em Listra ou em Derbe. Qual era a mensagem que os dois apóstolos pregaram nesta primeira expedição missionária? Compreendemos muito bem que os registros dos pronunciamentos deles, feitos por Lucas, são necessariamente fortes abreviações; mas o sentido da mensagem é claramente preservado. Lucas também o resume no final da viagem, no capítulo 14.21, 22: “E, tendo anunciado O EVANGELHO naquela cidade, e feito muitos discípulos, voltaram para Listra, e Icônio e Antioquia, fortalecendo as almas dos discípulos, exortando-os a permanecer firmes na fé; e mostrando que, através de muitas tribulações, nos importa entrar NO REINO DE DEUS”. A mensagem era a de JESUS COMO REI-MESSIAS E SALVADOR PESSOAL. Quais os resultados desta primeira viagem missionária? Vejamos os lugares visitados em ordem. Nenhum resultado é descrito em Salamina. Em Pafos não é apresentado qualquer efeito da reação geral, mas encontramos a oposição do mágico judeu e uma reação favorável de um oficial gentio. Em Antioquia da Pisídia, muitos judeus e prosélitos da sinagoga mostraram-se interessados (13.43); mas a isto seguiu-se uma severa oposição da comunidade judia (w. 45,50). O que deve ser notado é o fato de os gentios terem aceito alegremente a Palavra (w. 42, 44, 48). Em face da hostilidade judia, Paulo então declara: “Eis aí que nos volvemos para os gentios” (v. 46). Depois disso, em Icônio, um “grande número” (e não uma “grande multidão”, como na A.V.) na sinagoga, tanto de judeus como gregos, passou a crer (14.1). Os judeus como um todo (w. 2,4) fizeram outra vez grande oposição, instigando os gentios contra Paulo e Barnabé (w. 2,5). Finalmente, em Listra e Derbe, os perseguidores judeus atiçam o povo contra os apóstolos; todavia, muitos gentios são


discipulados nessas cidades (w. 19, 21). Fica assim claro que os judeus estavam fechando cada vez mais a porta contra o testemunho apostólico e que, ao mesmo tempo, a “porta da fé” se abria para os gentios (14.27). Com base na primeira visita a Chipre, os dois evangelistas aparentemente pretendiam tratar apenas com os judeus. Em Antioquia e Icônio foram, porém, forçados a reconhecer que não seria possível limitar-se a eles com exclusividade, embora pregassem primeiro aos judeus (13.46). Quando os vemos como fugitivos na Licaônia, os dois tinham sido praticamente empurrados para os gentios! Ao voltarem à sua sede, eles “relataram quantas coisas fizera Deus com eles, e como abrira aos gentios a porta da fé”. Não lhes foi possível dar notícias alegres sobre o arrependimento e a aceitação por parte dos judeus. O fato principal fora essa abertura das portas para os gentios. Uma grande transição estava tendo lugar. Cada vez mais vemos essas outras palavras ganhando destaque: “e também aos gentios”. A Segunda Viagem Missionária A segunda viagem missionária de Paulo vai do capítulo 15.36 a 18.22. Ela pode ser analisada como segue (veja p. seguinte):


ATOS DOS APÓSTOLOS (2)

A SEGUNDA VIAGEM MISSIONÁRIA Lugar

Método e Mensagem

Filipos

(1) O Messias “Primeiro ao judeu” prometido, aque­ le que carrega os T l pecados

Tessalô­ nica Beréia

Atenas

tt

Corinto

V.

Éfeso

"

(2) Esse Messias é Jesus, crucifi­ cado mas ressurreto

(3) Jesus é agora oferecido como Rei, Messias e Salva­ dor.

Reação e resultado Não há regis­ tro (conver­ são de Lídia)

Em direção a Tessalônica

Alguns aceitam: oposição

Fuga para Beréia

Muitos aceitam: oposição

Fuga para Atenas

Nenhuma reação Ida para os gentios judaica Severa oposição Não registra­ do até mais tarde

“Nos volve­ mos para os gentios” De volta à se­ de em Antioquia

Estes foram o método, a mensagem e o resultado da segunda viagem missionária de Paulo. Embora a reação em Tessalônica pareça muito favorável no início, só “alguns” judeus que aceitam a palavra; a “multidão” dos que aceitam é composta de gregos (17.4). O único ponto positivo (no que se refere à tendência judaica) é Beréia, apesar de que, mesmo ali, fica clara a reação negativa da maioria. A oposição dos judeus parece ter sido maior em Corinto (18.6, 12, 17). Em relação a isto temos o registro das últimas palavras ditas por Paulo antes de sua volta à sede, sendo elas muito significativas: “Eis aí que nos volvemos para os gentios”. A Terceira Viagem Missionária O itinerário da terceira viagem missionária é coberto pelos capítulos 18.23-21.3. O único lugar em que é descrito o ministério é a cidade de Éfeso e o capítulo 19 inteiro foi dedicado ao mesmo. O método empregado repete-se: “ao judeu primeiro” (v. 8). A mensagem era “o reino de Deus”


(v. 8). A reação manifestou-se em grande parte como incredulidade e oposição dos judeus (vs. 9,13), embora pareça ter havido uma certa receptividade favorável. Quanto ao resultado, manifestou-se uma transição para os gentios, entre os quais surgiu um movimento de grande amplitude (w. 9,18-20). Assim, os judeus da Dispersão receberam a mensagem que lhes foi pregada nessas três memoráveis viagens missionárias de Paulo, e no testemunho não-registrado de outros, tais como Barnabé. Quais os resultados registrados? Basta fazer um retrospecto das análises dos dois primeiros itinerários e, depois desta terceira excursão mais breve que não necessita de exame, a fim de compreender o fato lamentável de que os judeus da Dispersão manifestaram a mesma atitude de seus conterrâneos na terra natal. Apesar de um número apreciável deles ter respondido positivamente em dois ou três lugares, a vasta maioria rejeitou e opôs-se à mensagem. O clamor obstinado deles foi: “Não queremos que este reine sobre nós!” Quando Paulo voltou a Jerusalém após sua terceira viagem missionária, qual o conteúdo de seu relatório? O capítulo 21.19 nos diz: “E, tendo-os saudado (a Tiago e aos presbíteros), contou minuciosamente o que Deus fizera entre os gentios por seu ministério”. Isso tem um significado importantíssimo, especialmente à luz do que se segue então em Jerusalém. Paulo em Jerusalém — O Clamor! Isto nos leva diretamente ao segundo dos três eventos fundamentais no livro de Atos. Paulo estava em Jerusalém por ocasião do Pentecoste anual (20.16). Judeus do mundo inteiro encontravam-se então na capital judaica, assim como acontecera cerca de 27 anos antes, quando o Espírito Santo fora derramado pela primeira vez sobre o grupo de apóstolos, e Pedro declarara aos “judeus piedosos, de todas as nações debaixo do céu” que se haviam reunido para a Páscoa e o Pentecoste, que a vinda do Espírito cumprira a profecia de Joel (2.5,16). Agora, nesses últimos capítulos (21, 22), quando o clamor assassino levanta-se contra Paulo, os judeus da Dispersão estavam bem representados pelos muitos provenientes de várias partes do mundo romano, que tinham seguido para Jerusalém a fim de celebrar as festas. Paulo tornara-se bem conhecido de todos eles em


conseqüência de suas três expedições evangelísticas e os mesmos estão agora prestes a pronunciar sua rejeição feroz e final no que diz respeito a ele e à sua mensagem. Note que foram os “judeus vindos da Ásia”(21.27) que agarraram Paulo, alvoroçando o povo contra ele. O grito deles foi a faísca que fez explodir a dinamite. “Agitou-se toda a cidade!” Só a intervenção rápida dos soldados impediu que Paulo fosse morto (w. 30-32)! Mas o apóstolo espancado e ferido fará ainda sua importantíssima “defesa” nas escadas do forte, diante dos compatriotas enfurecidos. Ela é apresentada no capítulo 22, um pronunciamento corajoso e comovente, mas não é permitido ao apóstolo completá-lo. No momento em que Paulo chega a um certo ponto, fazendo um determinado comentário, a plebe explode em gritos, pedindo sua morte. Esta violência desenfreada, exatamente neste ponto, dá à ocasião seu significado básico. O v. 22 diz: “Ouviram-no até essa palavra, e então gritaram, dizendo: Tira tal homem da terra, porque não convém que ele viva. Ora, estando eles gritando, arrojando de si as suas capas, atirando poeira para os ares...” O que foi então que repudiaram tão violentamente? Foi isto: “MAS ELE (JESUS) ME DISSE: VAI, PORQUE EU TE ENVIAREI PARA LONGE AOS GENTIOS”. “Ouviram-no até essa palavra, e então gritaram...!” Eram os representantes dos judeus da Dispersão, juntamente com os judeus incrédulos da pátria, pronunciando em voz alta sua rejeição final de Jesus como seu Cristo e da mensagem da salvação para os gentios. Esta última idéia era intolerável para eles. Ela os enfureceu e os fez perder a cabeça em seu preconceito presunçoso. Não iriam receber o reino, mas estavam decididos a não permitirem que qualquer privilégio fosse concedido aos gentios. Desde o início do capítulo 13, tudo conduziu a este ponto e veremos agora que todos os incidentes que se seguem resultam significativamente dele. Não há possibilidade de engano: Capítulo 23 24

Paulo diante do Sinédrio, Paulo diante do Governador Félix,


25 26 27

Paulo diante do Governardor Festo, Paulo diante do rei Agripa, Paulo enviado da Judéia para Roma.

A Ida para os Gentios O ponto crítico final no livro de Atos é alcançado no capítulo 28. Depois de uma viagem arriscada (17.1-28.15), enfim Paulo chegou a Roma (18.16). Não se tratando de um criminoso comum e talvez por recomendação do amável centurião Júlio, sob cuja custódia o apóstolo fora levado a Roma (27.1), Paulo recebe alguns privilégios (28.16), como acontecera também durante sua prisão em Cesaréia (24.23), e durante a viagem a Roma (27.3). Embora aparentemente preso com algemas a um soldado (28.16,20), é-lhe permitido morar em casa própria (v. 30). Depois de passar três dias em Roma, ele reúne os líderes judeus para explicar-lhes sua presença ali e marcar um dia em que pudesse lhes ensinar a Palavra de Deus relativa ao Senhor Jesus e à oferta renovada do reino de Deus a Israel. Quando esses líderes judeus compareceram mais tarde à entrevista, qual foi o testemunho específico do apóstolo? A resposta encontra-se no capítulo 28.23: “Havendo-lhes eles marcado um dia, vieram em grande número ao encontro de Paulo na sua própria residência. Então, desde a manhã até à tarde, lhes fez uma exposição em testemunho do reino de Deus, procurando persuadi-los a respeito de Jesus, tanto pela lei de Moisés, como pelos profetas”. Apesar das experiências desanimadoras do apóstolo na Judéia e através do império, sua abordagem ainda é “primeiro para os judeus” (v. 17) e só depois “também aos gentios” (v. 30); e o tema do seu testemunho continua sendo “o reino” (w. 23, 31). Qual o resultado? Os versículos 24 e 25 nos contam: “Houve alguns que ficaram persuadidos pelo que ele dizia; outros, porém, continuaram incrédulos. E, havendo discordância entre eles, despediram-se...” Temos a impressão de que mesmo os que “creram” (ou, mais literalmente, “foram convencidos”) não receberam a palavra com grande entusiasmo. Como indica o termo grego, tratava-se mais de um caso de assentimento mental, do que de uma aceitação alegre no íntimo. Os outros rejeitaram


definitivamente a palavra. O resultado total fica indiscutivelmente claro na declaração do próprio Paulo: “E, havendo discordância entre eles, despediram-se, dizendo Paulo estas palavras: Bem falou o Espírito Santo a vossos pais, por intermédio do profeta Isaías, quando disse: Vai a este povo e dize-lhe: De ouvido ouvireis, e não entendereis; vendo vereis, e não percebereis. Porquanto o coração deste povo se tornou endurecido; com os ouvidos ouviram tardiamente, e fecharam os seus olhos, para que jamais vejam com os olhos, nem ouçam com os ouvidos, para que não entendam com o coração, e se convertam, e por mim sejam curados” (w. 25-7). Imediatamente depois disto, o ponto crítico final do livro é alcançado com as palavras: “TOMAI, POIS, CONHECIMENTO DE QUE ESTA SALVAÇÃO DE DEUS FOI ENVIADA AOS GENTIOS. E ELES A OUVIRÃO” (v. 28). O livro de Atos termina quando chegamos a este terceiro e mais significativo ponto culminante. Ele alcançou seu alvo trágico e cumpriu o seu desígnio. A renovação da oferta do reino de Deus a Israel foi feita durante um período de trinta anos, primeiro aos judeus da terra e depois aos da Dispersão por todo o mundo romano, e finalmente aos judeus na cidade imperial. Com essa mensagem do novo oferecimento do reino estava ligada a maravilhosa Salvação do Messias Jesus, mediante seu sacrifício no Calvário, e o fato da sua Ressurreição. A atitude dos judeus, no entanto, foi, quase sempre e em toda parte, de incredulidade e oposição. O episódio conclusivo em Roma é uma confirmação final: OS JUDEUS REJEITARAM A OFERTA RENOVADA DE JESUS COMOO CRISTO DE ISRAEL, SEU REI E SALVADOR. O “REINO” SERÁ AGORA REMOVIDO E SUSPENSO TEMPORARIAMENTE. A NAÇÃO DE ISRAEL IRÁ DURANTE ALGUM TEMPO (f. e. NA ERA PR ESEN TE) SER POSTA DE LADO COMO POVO REPRESENTANTE DE DEUS NA TERRA, E UM EVANGELHO TRANSCENDENTE DE GRAÇA DIVINA ESTENDIDA A TODOS SE TORNARÁ CONHECIDO ENTRE TODAS AS NAÇÕES DOS GENTIOS. O livro orientou-nos de modo a nos preparar para as epístolas à igreja cristã (Romanos a 2 Tessalonicenses) e aprender nelas a respeito do novo e maravilhoso movimento no propósito divino, até aqui oculto nos


EXAí^inat a s e sc r it u r a s

conselhos secretos da Diyindade) mas agora reyelado como a sub]ime resposta do ceu á m cred u h ^z judaica - a saber, A IGREJA, o corpo místico, a noiva e o templo do Filho de Deus


ATOS DOS APÓSTOLOS (3) Lição ns 23


NOTA: Leia especialmente para este estudo os capítulos 3 a 12,27 e 28.

O LIVRO DE ATOS Seu registro está cheio de ilustrações e exemplos da doutrina cristã. Vemos o significado do ensino cristão pelo estilo de vida adotado pelos crentes. Trata-se de um livro que ensina pelo exemplo, e seus fatos estão repletos de idéias e princípios. Encontramos aqui a semente da doutrina cristã desenvolvida mais tarde nas epístolas dos grandes apóstolos Paulo, Pedro e João; e o valor especial disso é termos a doutrina exemplificada pela vida. W. H. G. Thomas


ATOS DOS APÓSTOLOS (3) Fizemos um exame do livro de Atos e aprendemos o seu propósito principal com base nos três pontos críticos nele registrados. Em vista de seu fim repentino, muitos afirmam que se trata de uma obra inacabada; mas considerá-la desse modo seria negligenciar seu significado importantíssimo. Admitimos que seria ótimo saber muito mais sobre os últimos dias de Paulo na terra, mas nada foi acrescentado por não haver necessidade de qualquer outra coisa para cumprir a finalidade do livro. Qualquer coisa que possa ser dita de um ponto de vista literário ou histórico com respeito ao seu término, esta peça da vida real encontra-se tragicamente completa em seu aspecto estratégico (que é essencial). Ela marca um ponto crítico sinistro nas dispensações. Israel disse “NÃO” a Jesus como Messias-Rei-Salvador e à renovação da oferta do reino. Lucas nos conduz através do período de indecisão sobre a nova oferta, até o ponto em que a recusa de Israel torna-se indiscutivelmente estabelecida. O próprio fato de ele terminar repentinamente nesse ponto estimula nossa mente a examinar melhor as epístolas à igreja cristã, encontrando ali a gloriosa doutrina de uma IGREJA que é o corpo místico e a noiva do amado Filho de Deus. Em certo sentido, a história é deliberadamente incompleta. Ela nos desperta curiosidade em vários pontos. Paulo foi libertado depois do seu primeiro julgamento em Roma? Será que ele, como alguns deduzem, passou mais algum tempo viajando? Que rumo tomaram as coisas em Jerusalém? O que aconteceu aos Doze? Pedro visitou Roma? Esses assuntos são deixados sem solução por estarem fora do objetivo do livro. Mudanças surpreendentes e episódios cheios de vida constituem um desafio para o estudo cuidadoso de cada página de Atos. Mas nosso interesse aqui está nos significados principais, fazendo todas as circunstâncias assumirem sua verdadeira proporção, força e valor. A análise seguinte oferece uma visão fotográfica do livro inteiro, mostrando seus pontos críticos e movimentos determinantes.


ATOS DOS APÓSTOLOS Renovação da oferta do reino aos judeus Cap. 1 Apóstolos preparados e comissionados (1) OFERTA RENOVADA AOS JUDEUS DA PÁTRIA (2-12). Cap. 2 Milagre — Testemunho — Reação 3,4 Milagre — Testemunho — Oposição. 5 Milagre — Testemunho — Oposição. 6,7 Milagre — Testemunho — Oposição. Primeiro ponto crítico: Ataque contra Estêvão (7) (1) Julgamento final da nação na capital. (2) Rejeição oficial do reino por parte dos judeus. (3) Primeiro movimento de descentralização da evangelização. (4) Transferência para um novo centro — Antioquia. Movimento de descentralização: Cidades e pessoas importantes. 8 Samaria — Tesoureiro etíope. 9 Damasco — Saulo, o futuro Paulo. 10 Cesaréia — Cornélio, o gentio. 11 Antioquia — inclusão dos gentios (v. 18). 12 Jerusalém — no final da parte 1. Julgamento de Herodes, como chefe da nação. (2) OFERTA RENOVADA AOS JUDEUS DA DISPERSÃO (13-28). 13,14 Primeira viagem missionária de Paulo. 15.36 Segunda viagem missionária de Paulo. 18.23 Terceira viagem missionária de Paulo. Reação geral dos judeus — oposição. Segundo ponto crítico: Ataque contra Paulo (22). (1) Apogeu do ódio judaico contra Paulo. (2) Rejeição culminante dos judeus da Dispersão. (3) Isto provocou testemunho a pessoas importantes. (4) Levou ao testemunho final de Paulo em Roma. Novos testemunhos diante de indivíduos destacados. 23 Paulo testemunha perante o Sinédrio. 24 Paulo testemunha perante o governador Félix. 25 Paulo testemunha perante o governador Festo. 26 Paulo testemunha perante o rei Agripa. 27 Paulo vai a Roma: testemunho final. Terceiro ponto crítico: Ida para os gentios (28). “Tomai, pois, conhecimento de que esta salvação de Deus foi enviada aos gentios. E eles a ouvirão” (28.28).


O Surpreendente Controle Conforme nossas descobertas, afirmamos de novo que este livro, Atos dos Apóstolos, trata principalmente de uma descrição da oferta renovada do Messias-Jesus e do “reino dos céus” há muito prometida à nação de Israel. A recusa desse povo em aceitar o novo oferecimento foi a circunstância que ocasionou historicamente a emergência da igreja visível na terra; mas isso não altera o fato de que o tema principal de Atos é esta renovação da oferta do reino messiânico a Israel e que nela está o seu significado primeiro. Só quando lemos as epístolas é que descobrimos a revelação do propósito divino que estava operando sob e juntamente com a nova rejeição de Jesus e do reino por parte dos judeus. A segunda oferta do reino, como já vimos, foi recusada primeiro pelos judeus da pátria e depois pelos judeus da Dispersão. No entanto, grupos de crentes formaram-se por todo o mundo romano, embora fossem, em sua maioria, compostos de gentios (pois, apesar de muitos judeus poderem ter respondido individualmente, o povo judeu, como um todo, persistiu em sua recusa obstinada). A medida que a incredulidade dos judeus tornava-se cada vez mais firme, esses grupos de judeus e crentes assumiram um novo significado. Assim como o crime terrível do Calvário fora previsto e controlado por Deus — desde que a crucificação do Messias da nação fora sublimada no auto-sacrifício expiatório do Salvador do mundo — assim também esta nova falha do povo judeu tinha sido prevista e controlada pela Divindade. Sob a operação poderosa de Deus, esses grupos de crentes espalhados através de todo o mundo romano tornaram-se, então, vistos e conhecidos, através de olhos e penas inspiradas, como as primeiras assembléias daqueles homens remidos pelo sangue, nascidos do Espírito, que constituem a IGREJA espiritual, o corpo místico, a noiva e o templo do Filho eterno. Paulo nos diz que o “mistério” da Igreja foi primeiro revelado a ele (veja Ef 3.3-11). Até este ponto a Igreja constituíra um segredo “oculto em Deus desde os séculos”. Isto significa claramente que a Igreja do Novo Testamento não pode ser o foco da profecia do Antigo Testamento. Portanto, o esforço de introduzi-la na profecia do Antigo Testamento, seja em Joel 2 ou em qualquer outra passagem, é errado. A Igreja pode certamente estar em condições latentes quanto à tipificação e prefiguração


do Antigo Testamento, mas ela não é, em parte alguma, o foco de pronunciamentos diretos. Agora, porém, à medida em que a trágica história da incredulidade judaica se desenrola até o último parágrafo de Atos, vemos vários grupos pequenos de crentes em todo o mundo romano, transfigurados pela luz que brilha sobre eles procedente das epístolas. Das cinzas da incredulidade judia levanta-se este novo e esplêndido edifício espiritual, a Igreja, da qual esses pequenos grupos são a primeira expressão. Eis a noiva eleita para o Isaque celestial! Um templo espiritual para o Senhor glorificado! Um corpo místico para aquele que é o “cabeça sobre todas as coisas”! Veja, “a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens” (Tt 2.11)! Uma nova era se inicia! O reino, duas vezes recusado pela nação incrédula de Israel, ficará temporariamente suspenso; mas o propósito de Deus avança sem impedimentos. Não é de admirar que o próprio Paulo, contemplando apenas um aspecto deste profundo “mistério”, exclamasse: “Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria, como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos e quão inescrutáveis os seus caminhos!” (Rm 11.33). Salientamos novamente o fato de que apenas à luz das epístolas podemos perceber este significado mais profundo nessas assembléias recém-formadas de crentes espalhadas através de todo o mundo romano, como registrado em Atos. A palavra “igreja” em versículos como Atos 2.47 deve ser lida como “assembléia”, a fim de não lermos prematuramente no termo “igreja” significados que ele só adquiriria mais tarde. Se mantivermos em mente que este livro é, em primeiro lugar, a oferta renovada do reino messiânico a Israel, nos pouparemos de muitas armadilhas; além disso, os problemas aparentemente ligados com a inexistência dos milagres pentecostais nos dias de hoje começam a desaparecer. Não estamos dizendo que seja errado datar o inído histórico da Igreja Cristã no Pentecoste, mas isso deve ser feito com certa reserva, a fim de não interpretarmos erroneamente os acompanhamentos milagrosos dessa manifestação anormal como sendo uma regra para a Igreja cristã até os dias atuais. A fim de concluir o assunto com a maior clareza possível, podemos dizer que o derramamento pentecostal do Espírito Santo, que foi evidentemente uma confirmação divina da nova oferta do reino a Israel, constituiu também de forma latente a origem histórica da Igreja, mediante a fusão operada pelo Espírito daquelas primeiras unidades humanas, em


um organismo espiritual e em uma sociedade. O significado da manifestação sobrenatural ficou patenteado de imediato no que se referia a Israel; porém, ele só apareceu mais tarde, em relação à igreja.

O Livro de Atos — Uma Continuação Como ênfase, devemos mencionar aqui o que já foi salientado repetidamente por outros, ou seja, que o livro de Atos é uma continuação. As primeiras palavras de Lucas são estas: “Escrevi o primeiro livro, ó Teófilo, relatando todas as coisas que Jesus fez e ensinou, até ao dia em que, depois de haver dado mandamentos por intermédio do Espírito Santo aos apóstolos que escolhera, foi elevado às alturas...” Da mesma forma que ele termina seu evangelho com a ascensão do Senhor, aqui ele começa com a mesma; portanto, este segundo “livro” é uma continuação do primeiro. Mas encontramos muitas outras coisas além destas. A ordem das palavras em grego dá ênfase deliberada à palavra “começou”. (Cf. versões da Imprensa Bíblica Brasileira e Almeida Revista e Corrigida.) O livro de Atos não é uma simples crônica que dá testemunho de um Cristo ausente. A sua ascensão não roubou seus seguidores da sua presença. O belíssimo paradoxo é que Ele jamais esteve tanto com eles como depois de deixá-losl Em todo o livro de Atos, Jesus é o principal Personagem, ainda mais presente agora, por estar fisicamente invisível. Esta é a maravilhosa narrativa do que o próprio Jesus, crucificado, ressurreto e que subiu aos céus, CONTINUOU a fazer pelo seu Espírito através de suas testemunhas escolhidas! Em todo o tempo, repetimos, Ele é a causa dominante. Que grandioso estudo é este! Vamos traçá-lo um pouco aqui e depois completá-lo mais tarde. É ELE quem derrama o glorioso Espírito Santo (2.33). É ELE quem cura o coxo (3.16; 4.10). É ELE quem “acrescenta” à assembléia os que vão sendo “salvos” (2.47). É ELE que é visto “sentado à direita de Deus” (7.55). É ELE quem interfere diretamente a fim de converter Saulo na estrada de Damasco (9.5). É ELE quem cura a enfermidade de Enéias (9.34). E ELE quem consola Paulo na fortaleza em Jerusalém (23.11). E o mesmo acontece no decorrer de todo o livro. Durante os dias de sua


presença visível, corporal, localizada, ele ficou “limitado”, mas agora Ele opera e fala pelo Espírito Santo em maior escala. Veja Lucas 12.50 e João 16.12,13. Todos os obreiros cristãos devem apreciar isto com gratidão e graficamente. Não trabalhamos simplesmente para Jesus; Ele mesmo está a postos, controlando, trabalhando conosco. O que vemos em Atos é a demonstração emocionante de Marcos 16.20.

A Chave Espiritual Se considerarmos a sua estrutura, a chave para o livro está em Atos 1.8, como já mencionamos: “Em Jerusalém, como em toda a Judéia e Samaria, e até aos confins da terra”. Esta é a ordem em que o testemunho se expande e o livro toma forma; a porta da fé também é aberta sucessivamente aos judeus, romanos e gregos — como nos evangelhos. Mas o elemento espiritual central é a expressão em Atos 1.2 — “por intermédio do Espírito Santo”. Basta passar os olhos pelos primeiros capítulos para ver quantos tesouros espirituais são abertos por esta chave: Capítulo 1. “Por intermédio do Espírito Santo” — Poderoso (w. 5, 8). 2. “Por intermédio do Espírito Santo” — Pronuncia­ mento (w. 3,4, 6). 3,4. “Por intermédio do Espírito Santo” — Intrepidez (4.18, 19-31). 5. “Por intermédio do Espírito Santo” — “Sinais, pro­ dígios” (w. 7.12, 25, 32). 6. “Por intermédio do Espírito Santo” — Sabedoria (w. 3,10). Se prosseguíssemos até completar essa linha de indagação, iríamos usar demasiado espaço; mas demos início ao trabalho e insistimos com o jovem estudante da Bíblia para que abra seu próprio caminho até o final. Aquele que estuda, reflete e compreende os métodos usados pelos Espírito Santo, como revelados em Atos dos Apóstolos, será bastante sábio em servir a


Deus è dar testemunho de Cristo. A mais triste de todas as referências ao Espírito Santo talvez seja a que vem no último parágrafo do livro. Deus nos salve e a todos os que nos cercam da cegueira e obstinação que amaldiçoou os judeus da antigüidade e entristeceu o Espírito do Senhor!

Padrões Espirituais A Igreja de hoje pode aprender muito por intermédio daquelas primeiras assembléias de crentes mencionadas em Atos! Faremos bem em examinar esses originais elaborados pelo Espírito e em comparar-nos a eles, tanto individual como corporativamente. Como muitas das chamadas “igrejas” de hoje afastaram-se da comunhão cristã daqueles primeiros dias! “Vê, pois, que tudo faças segundo o modelo que te foi mostrado no monte” (Ex25.40), foi a advertência divina a Moisés. O Espírito Santo diz o mesmo às igrejas através de Atos dos Apóstolos. “Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas” (Ap 2.7). Estamos tocando num aspecto que, por si só, encheria um novo livro. O tempo para reestudar aqueles primeiros grupos cristãos é insuficiente. Como exemplo, vamos examinar brevemente o capítulo 5.12-17, 18, 42. Observe as três características que distinguiam essa “igreja”. Primeiro, havia poder para repelir. O v. 13 diz: “Mas, dos restantes, ninguém ousava ajuntar-se a eles”. Aquele grupo santo tinha o poder de despertar temor. Veja o v. 11. A maior parte das pessoas de hoje pensa que o único poder necessário às igrejas é o de atrair. Estão enganadas. A igreja local também precisa de poder para repelir —repelir o hipócrita, o mundano condescendente, o intrigante que sabe insinuar-se. Ó, à maldição do “povo misto” em nossas igrejas, cujo apetite volta-se para as iguarias do Egito! Naquela primeira igreja a atmosfera cheia do Espírito era vida para a santidade e morte para o fingimento. Segundo, havia poder para atrair. O v. 14 diz: “E crescia mais e mais a multidão de crentes, tanto homens como mulheres, agregados ao Senhor”. Duas classes eram atraídas: (a) “crentes”; (b) “doentes”. Os crentes buscavam comunhão. Os doentes buscavam cura. De que forma as igrejas de hoje comparam-se a ela? Por que as igrejas são tão negligenciadas atualmente, até mesmo pelos doentes, pecadores e solitários?


Terceiro, havia poder para superar. O v. 17 começa; “Levantando-se, porém, o sumo sacerdote, e todos os que estavam com ele...” A vasilha transborda de ódio escaldante contra os nazarenos! Eles são presos, açoitados e proibidos de falar. Mas, como termina o capítulo? “E todos os dias, no templo e de casa em casa, não cessavam de ensinar, e de pregar Jesus, o Cristo”. Quando o Espírito Santo está realmente no controle, isso sempre acontece. A oposição não é eliminada, mas vencida. Os obstáculos transformam-se em triunfo. O sofrimento presente por causa do Nome pode ser permitido; mas há graça exuberante e vitória final para a causa.

O Propósito é Divino, mas a Oposição é Permitida Este aparente enigma de oposição e dificuldades permitidas fica patente na narrativa em todo o livro de Atos. Os sábios de coração irão levar o fato em consideração. O cristianismo do Pentecoste não fornece imunidade aos ataques de Satanás, em qualquer forma que se apresentem. Justamente no final, na descrição feita por Lucas sobre a deportação de Paulo de Cesaréia para Roma (27,28), eles aparecem com ferocidade incessante e suprema. Nas palavras de G. Campbell Morgan: “De um lado, as dificuldades e perigos multiplicavam-se e pareciam conspirar para interromper e impedir o propósito divino. Do outro, esse propósito foi executado com firmeza, com certeza, embora lentamente. Temos a impressão de que o poder de Deus deveria alcançar o cumprimento de seus planos por intermédio de processos mais pacíficos. Todavia, fica finalmente evidenciado que, mediante essas mesmas dificuldades e oposições, o plano de Deus é servido da maneira mais ampla e plena”. Depois de Satanás ter feito tudo que podia, Lucas consegue ainda escrever: “Uma vez em Roma" (28.16); e o propósito de Deus move-se num ritmo irresistível. Que os santos provados e perturbados aprendam isto com segurança! Padrões espirituais vivos são encontrados em todo o livro de Atos. É pena que não possamos demorar-nos mais neles, especialmente nos mais notáveis, como foi aquele primeiro e imortal “dia de Pentecoste” no capítulo 2 e, mais tarde, a invasão da casa de Cornélio pelo Espírito, no


capítulo 10. Em nossas breves indagações, nos interessamos mais em dar o perfil do significado da transição do período como um todo. No momento devemos deixar relutantemente até os incidentes mais importantes, caso contrário teremos de sair inevitavelmente dos limites impostos.

Uma Nova Luz na Volta do Senhor Há uma outra questão, porém, que nos sentimos no dever de discutir antes de terminar este artigo. A grandiosa verdade da volta futura do Salvador a este mundo faz parte de Atos. Quando conseguimos compreender que este livro trata principalmente da renovação da oferta do reino messiânico a Israel, passamos a entender melhor essa “esperança abençoada”. Se lermos corretamente as Escrituras, a segunda vinda de Cristo a esta terra não é, por assim dizer, um evento fixado por calendário a uma data determinada, mas sim um acontecimento contingente a certos outros eventos. O Senhor disse: “Mas a respeito daquele dia e hora ninguém sabe” (Mt 24.36). Nenhum ser humano poderia ter conhecimento disso com antecedência, pois dependia da reação de Israel à renovação da oferta de Jesus como Cristo e Salvador. Se o “dia e hora” fosse uma data marcada dada a conhecer a qualquer pessoa, ou a qualquer grupo de pessoas, como seria possível fazer uma oferta de boa fé aos judeus, como encontramos em Atos dos Apóstolos, de que, se eles aceitassem agora a nova oferta de Jesus como seu Messias-Salvador-Rei, Ele voltaria então do céu para introduzir a promessa dos “tempos de refrigério” e estabelecer o Seu reino? Como vimos, essa promessa foi claramente feita através dos apóstolos. Voltemos agora ao capítulo 3.17-21: “E agora, irmãos, eu sei que o fizestes por ignorância, como também as vossas autoridades; mas Deus cumpriu o que antes anunciara por boca de todos os profetas que o seu Cristo havia de padecer. Arrependei-vos, pois, e convertei-vos para serem cancelados os vossos pecados, a fim de que dá presença do Senhor venham tempos de refrigério, e que ENVIE ELE O CRISTO, QUE JÁ VOS FOI DESIGNADO, JESUS, ao qual


é necessário que o céu receba até aos tempos da restauração de todas as coisas, de que Deus falou por boca dos seus santos profetas desde a antigüidade”. Palavras tão simples assim não podem ser mal interpretadas. Se houvesse um arrependimento e aceitação nacional de Jesus como sendo de fato o Messias-Salvador-Rei de Israel, a volta do Senhor em glória pública teria ocorrido sem maior delonga. Em outras palavras, a segunda volta de Cristo dependia da reação de Israel à nova mensagem apresentada por intermédio dos apóstolos. Vemos muito nitidamente, então, a resposta, quando os discípulos perguntaram, “Senhor, será este o tempo em que restaures o reino a Israel?” (At 1.6). Ele replicou: “Não vos compete conhecer tempos ou épocas que o Pai reservou para sua exclusiva autoridade.” Conhecer o dia e a hora por antecipação seria prever a reação de Israel antes da oferta do reino ter sido renovada. Nas palavras de Tiago, isto é dito, bem: “Diz o Senhor que faz estas coisas conhecidas desde séculos” (At 15.18). De acordo com este conhecimento antecipado perfeito Ele prepara, pré-arranja e pré-determina. Assim sendo, embora jamais deixe seus propósitos finais à mercê da incerteza humana, no desenvolvimento das coisas até o fim predeterminado Ele reconhece o livre-arbítrio do homem em todo o tempo e arranja previamente segundo a sua presciência o que o homem irá fazer. Assim é que os eventos quase sempre seguem o seu curso natural, enquanto ao mesmo tempo Deus prevê e predomina sobre tudo, a fim de cumprir os seus propósitos finais. Desse modo, com toda autenticidade, a oferta renovada do reino messiânico foi feita aos judeus, como registrado em Atos; e a volta de Cristo nesse período de espera dependia da reação deles. Isto está associado às epístolas. Naquelas escritas aos tessalonicenses, a segunda vinda de Cristo é representada como se pudesse ocorrer num futuro iminente. Em algumas das outras cartas paulinas há uma mudança notável de ênfase: a esperança prodigiosa ainda brilha à frente, mas não existe a mesma impressão de cumprimento próximo. Isto tem causado problemas para os leitores interessados; quando consideramos porém o livro de Atos como sendo distintamente a renovação da oferta do reino a Israel, o problema desaparece. O período coberto por Atos, repetimos, foi um intervalo de espera. Enquanto o reino estava sendo oferecido outra vez à nação, a volta do


Senhor poderia ter ocorrido sem qualquer demora após o cumprimento das condições. A oferta era real; a promessa, verdadeira; o Filho do Homem crucificado, mas que subira aos céus, estava de fato “sentado à direita de Deus”, pronto para descer novamente em forma de bênção do reino. Será que Israel reagiria, se arrependeria, O receberia? Esse era o ponto de suspense. Nessas epístolas escritas durante esse período em Atos, quando ainda havia esperança de Israel arrepender-se, encontramos a aparente iminência da volta do Senhor. As primeiras dessas epístolas foram 1 e 2 Tessalonicenses (escritas em 53 A.D.). 1 e 2 Coríntios, Gálatas e Romanos foram escritas quatro ou cinco anos mais tarde, quando a oposição judaica tornava-se cada vez mais forte, mas justamente na ocasião em que, para as assembléias de crentes em todo o mundo romano, a esperança da volta de Cristo continuava sendo aquela que enchia o horizonte imediato (essa é a razão de palavras tais como as encontradas em Rm 13.11,12; 1 Co 7.26, 29; 15.52,58; 16.22; 2 Co 4.14). Quando nos voltamos para Efésios, Filipenses, Colossenses, 1 e 2 Timóteo e Tito, porém, há uma nova ênfase bastante destacada. A grande expectativa da volta do Senhor não desapareceu, continua brilhante: mas não existe mais o mesmo sentido de iminência. Uma concepção diferente ganha proeminência, temporariamente, e ganhando a atenção da alma — isto é, a IGREJA, como corpo místico, a noiva e o templo do Filho eterno. Essas epístolas não foram escritas até em 64 A.D. (ou até mais tarde), i.e., depois do pronunciamento culminante de Atos 28.28. Não dizemos que existe uma divisão rígida e inalterável entre esses dois grupos de epístolas. A esperança da volta do Senhor encontra-se em ambos; mas existe uma modificação à medida que os desenvolvimentos posteriores registrados em Atos esclarecem a situação. A Igreja também faz parte de ambos; mas o seu conceito aprofunda-se enquanto o “mistério” divino vai sendo mais plenamente revelado. Não afirmamos existir uma demarcação rígida entre os dois grupos; todavia, a diferença de ênfase é distinta aqui e a explicação é encontrada numa verdadeira compreensão de Atos como a repetição da oferta do reino a Israel. Um outro assunto digno de nota é que as duas epístolas aos tessalonicenses, embora certamente dêem a impressão de que a volta do Senhor era esperada em futuro mais próximo, não afirmam na verdade que ela era assim iminente. Com essa capacidade sobrenatural que caracteriza a Escritura inteira, um equilíbrio adequado é mantido aqui;


desse modo, enquanto a sensação de expectativa é salientada e até encorajada, não existe um compromisso real quanto ao “dia” e “hora”. Neste particular, é importante distinguir entre o que Paulo pensou e o que ele ensinou. E possível que ele mesmo pensasse que a volta do Senhor estava próxima; mas jamais escreveu isso. Não exigimos inspiração e infalibilidade para tudo que os apóstolospensarem, mas sim para tudo que ensinaram. Rssns Hnn<: rnrtns Hn ’spuiinrln AHve.ntn ans Tpsçalnnire.mp.s m antêm

uma espécie de equilíbrio sensível entre uma expectativa animadora << indefinição cuidadosa quanto ao tempo. Isto parece injusto em àqueles primeiros crentes? Trata-se, na verdade, justamente Ao observar as coisas do lado humano, a volta do Senhor nqãêiid-thtao ter acontecido; pois, como vimos, era um fato condick y*ntémplar os acontecimentos da perspectativa divina (que^s /pnraoycom pletas permitem-nos fazer agora) não poderia ter hayrttóAjmaNrenovação da oferta do reino sem essa promessa contingègtòvvx npvâíécusa judaica é conhecida antecipadamente por Deus, ma( ^sèpyeorre também com seu propósito mais amplo através d Ig /CSàyòItafinal de Cristo depois de chamar para si os membros eleitosj a Igreja. De acordo com isto, a grande esperança foi colocada diante daqfeslès primeiros crentes para que eles tivessem — juntamente coSlodoHiue os seguiram — esta inteligência santificadora relath(^"m suipação final. Isto também nãâ~^\\K>Quanto mais refletimos a respeito, tanto mais verificamos Qxáafòq^ttk de uma inspiração divina predominante no perfeito etíuMmria que essas epístolas aos tessalonicenses mantêm, parec^^bi sugerir a iminência da volta do Senhor e ao mesmo tempo Jakalquer determinação real de tempo. Era necessário que >primeiros crentes vivessem na expectativa da volta do Senhor, que sem dúvidas sobre os entes queridos que morreram antes da chegada $ò último dia e que uma pena inspirada lhes escrevesse a esse respeito, para que nós hoje, que estamos cneganao ao tim dos tempos, assim como eles, pudéssemos receber luz e orientação dadas por Deus. Isto nos leva ao nosso comentário final sobre a volta do Senhor. Como já vimos, durante o período de espera de Atos, a volta do Senhor dependia da reação de Israel à renovação da oferta do reino. Não existe também um sentido real em que ela ainda é um evento condicional? A mesma não depende mais da resposta de Israel à mensagem apostólica, esse fator foi


completamente eliminado a partir daquele pronunciamento solene e final em Atos 28.28: “TOMAI, POIS, CONHECIMENTO DE QUE ESTA SALVAÇÃO DE DEUS FOI ENVIADA AOS GENTIOS. E ELES A OUVIRÃO”. Absolutamente não, essa contingência desapareceu para sempre. Todavia, parece que a Vinda prometida depende agora, num sentido real, de um outro desenvolvimento histórico. Lemos em Romanos 11.25: “Porque não quero, irmãos, que ignoreis este mistério, para que não sejais presumidos em vós mesmos, que veio endurecimento em parte a Israel, até que haja entrado a plenitude dos gentios”. “ATÉ QUE HAJA ENTRADO A PLENITUDE DOS GENTIOS!” Como essa “plenitude” dos gentios será completada? Não será mediante nossa própria colaboração? Paulo pergunta nessa mesma passagem: “Como, porém, invocarão aquele em quem não creram? e como crerão naquele de quem nada ouviram? e como ouvirão, se não há quem pregue?” (Rm 10.14). Existe ainda outra referência do Novo Testamento que merece atenção. Em 2 Pedro 3.11,12 lemos: “Visto que todas essas coisas hão de ser assim desfeitas, deveis ser tais como os que vivem em santo procedimento e piedade, esperando e apressando a vinda do dia de Deus”. Veja então: Podemos apressar esse dia! Como? Esforçando-nos, como fez Paulo, para introduzir a plenitude dos gentios”! Esse grande “dia”, de um modo misterioso, mas real, tornara-se de novo contingente! Como isto nos deve surpreender! Geralmente pensamos mal dos judeus tia antigüidade que eram “tardos de coração para crer tudo o que os l»rofetas disseram”, e que não quiseram responder positivamente à oferta renovada do reino através dos lábios dos apóstolos. Mas quando nossos dias forem observados em retrospecto, apareceremos nós com a mesma culpabilidade? Como somos tardos para crer em tudo que nosso Senhor e seus apóstolos inspirados falaram! Acabamos de citar 2 Pedro 3.12. Veja como Pedro prossegue no v. 14: "l’or essa razão, pois, amados, esperando estas coisas, empenhai-vos por


ser achados por ele em paz...” Essa é realmente a palavra-chave: EMPENHAI-VOS! DOZE PERGUNTAS SOBRE ATOS 1. Você pode citar quatro fatores que indiquem Lucas como o autor de Atos? 2. Em sua opinião “Atos dos Apóstolos” é um título que cabe bem ao livro? Caso positivo, por que? 3. Qual o versículo-chave e o tema? Quais as duas metades do livro? Quais os seis aspectos em que as duas partes são paralelas? 4. De que maneira Pedro (na primeira metade) e Paulo (na segunda) são paralelos? 5. Quando os apóstolos perguntaram: “Senhor, será este o tempo em que restaures o reino a Israel? estavam sendo pouco espirituais ou enganavam-se quanto à natureza do reino? Explique. 6. Quais sejam os outros significados que o livro possa ter, ele é principalmente um... (o que)? 7. Quais os três eventos principais que dão ao livro seu tremendo significado? 8. Existem quatro aspectos relevantes envolvidos no ataque contra Estêvão. Quais são eles? 9. Quais os lugares visitados na segunda viagem missionária de Paulo? 10. Em que sentido o intervalo de tempo coberto pelo livro de Atos representou um “período de suspense”? 11. Em que sentido o livro de Atos (à luz das epístolas) marca um cancelamento surpreendente por parte de Deus? 12. Você tem alguma sugestão para explicar porque o fim estranham ente repentino de Atos pode ter tido um propósito sobrenatural?


EPÍSTOLAS ÀS IGREJAS CRISTÃS INTRODUÇÃO Lição na 24


Acho bastante útil que entre as traduções da Bíblia exista uma reconhecida como padrão para o uso geral do público. Ter uma versão usada regularmente é, sem dúvida, uma vantagem no que se refere à leitura, referência e citação da Escritura em público. Todavia, para a leitura particular da Bíblia, eu seria o primeiro a recomendar o uso livre de traduções modernas. Devemos acolher todos os novos esclarecimentos e ângulos sobre o original inspirado. Algumas das traduções recentes fazem com que muitas passagens brilhem com nova beleza, consolo ou desafio. Não as defendemos como substitutas das versões já consagradas pelo uso geral do público, mas como suas auxiliares, pois suas redações, em alguns casos, têm mais vida e força em comparação com os textos aos quais estamos habituados. Tecemos aqui estes comentários por serem de especial importância para o estudo das epístolas do Novo Testamento que passaremos a examinar. J. S. B.


EPÍSTOLAS ÀS IGREJAS CRISTÃS Deixamos agora os Evangelhos e o livro de Atos e chegamos às epístolas. Elas são em número de 22, se incluirmos o Livro de Apocalipse como uma epístola (o que realmente é, segundo os versículos de abertura); e dividem-se em três grupos. Em primeiro lugar, temos as nove epístolas à Igreja Cristã (Rm a 2 Ts). A seguir vêm as quatro Epístolas Pastorais e Pessoais (1 Tm a Fm). Por último, encontram-se as nove Epístolas aos Cristãos Hebreus (Hb a Ap). Parte da correspondência entre os dois grupos de nove é digna de nota, como já citamos antes, no decorrer deste estudo. Cada grupo começa com um grande tratado doutrinário —no primeiro caso Romanos, no segundo Hebreus. Cada um termina com um “apocalipse” ou a revelação do futuro em relação à volta do Senhor Jesus — Tessalonicenses num grupo e Apocalipse no outro. As nove epístolas à “Igreja”, como o nome implica, foram escritas às igrejas cristãs. Essas nove são epístolas cristãs, mas seu aspecto e atmosfera são especialmente judaicas. Iremos considerá-las no devido curso; mas no momento nos ocuparemos com as nove epístolas às “Igrejas”.

Importância Especial para Nós Ficamos imaginando se poucos ou muitos cristãos atualmente compreendem a importância concentrada dessas nove epístolas à “igreja cristã” e das quatro epístolas “pastorais e pessoais” para a presente era. Toda Escritura, de Gênesis a Apocalipse, foi escrita para nós, sendo proveitosa de várias formas; mas nem toda Escritura foi escrita sobre nós ou diretamente a nós como crentes em Cristo da presente dispensação. A parte da Bíblia escrita especificamente para nós e sobre nós, como membros do corpo místico e noiva de Cristo, é aquela que consiste das nove epístolas à “igreja cristã” e das quatro epístolas “pastorais”. Se há uma parte da Escritura que os crentes cristãos devem conhecer muito bem é esta.


Certos grupos de pregadores e teólogos de nossos dias falam muito sobre uma “volta” aos quatro evangelhos e à história de Jesus. Isto resulta em parte de um conceito completamente errado sobre a unidade e progresso da doutrina bíblica como um todo. Certamente não ousamos subestimar a importância fundamental dos quatro “evangelhos” — eles são a base histórica de todo o cristianismo; mas, se quisermos conhecer a interpretação divina, o significado doutrinário e as maravilhosas implicações espirituais desses registros históricos básicos, devemos examinar as epístolas. Existe hoje, entre as nossas igrejas, uma enorme deficiência quanto à compreensão da doutrina cristã, a qual é devida, em grande parte, a este excesso de ênfase sobre os evangelhos em detrimento das epístolas. Gostaríamos de dizer a todos os cristãos: procurem conhecer bem as epístolas às igrejas cristãs; elas constituem aquela parte das Escrituras que nos deve interessar especialmente, pela sua própria natureza.

Sua Peculiaridade e Propriedade O fato de tão grande parte de nosso Novo Testamento ser na forma de cartas deve chamar nossa atenção. Nesse sentido, os documentos fundamentais do cristianismo são únicos entre as religiões do mundo. Mas, além disso, essas epístolas têm uma propriedade marcante no que diz respeito à missão que devem realizar. Qual o propósito divino por trás de sua composição e preservação? Como vimos, durante o período de intervalo coberto por Atos dos Apóstolos, a volta do Senhor dependia da reação de Israel à nova oferta do Senhor como Messias-Salvador-Rei. Se tivesse havido uma resposta nacional, o Senhor teria voltado em glória soberana sem mais delongas (At 3.17-21); mas, à medida que a recusa de Israel tornou-se cada vez mais obstinada, a volta prometida mostrou-se irrealizável. Ao lado do fracasso de Israel, porém, foi gradualmente revelado que um novo movimento de Deus estava sendo moldado na história. Embora a nação de Israel como um todo tivesse recusado a oferta renovada do Messias-Salvador-Rei, surgiram, através do mundo romano, grupo ou “igrejas” de crentes, reconhecendo Jesus como Salvador Divino e vivendo na esperança da sua


volta. Essas foram a primeira expressão na terra desse organismo espiritual, a Igreja, o corpo místico e a noiva do Deus Filho. Foi necessário que essas comunidades recebessem instrução de forma mais permanente do que simplesmente o ensino oral pelo qual, foram chamadas a existir. Como isto deveria ser feito? As Epístolas são a resposta. Elas preservam de modo permanente os ensinos inspirados especialmente providenciados para os cristãos da era presente. Paulo e seus co-escritores não podiam imaginar que estivessem escrevendo para uma época a vinte séculos adiante da sua! Mas o Espírito Santo sabia, e foram de tal modo guiados no que escreveram que suas cartas se tornaram a doutrina da Igreja para todos os tempos. Como já dissemos, existe uma propriedade notável a respeito dessas cartas para o fim a que devem servir. Podemos ficar perfeitamente gratos porque as verdades nelas apresentadas foram entregues a nós na forma de cartas, em lugar de teses ou catecismos teológicos sob medida! Chegando até nós na forma dessas cartas comoventes, elas contêm calor, paixão e energia, frescor e um toque pessoal que, de outro modo, jamais poderiam ter. Além disso, esta forma de comunicar a verdade era peculiarmente apropriada a uma natureza como a de Paulo. “Ela se adequava àquela impetuosidade de sentimentos, àquela natureza emocional calorosa que o cinismo moderno teria depreciado como ‘emotivo’ ou ‘histérico’, que não poderia limitar-se à composição de tratados formais. Ela permitia uma liberdade de expressão muito mais vigorosa e mais natural ao apóstolo do que os silogismos regulares e os parágrafos em estilo fluente de um livro formal”. Além disso, o estilo de Paulo como escritor é tão perfeito e complexo que fornece um veículo singular de expressão para o Espírito Santo. Desse modo, embora as grandes verdades relativas à salvação, à Igreja e à vida cristã estejam escritas claramente para que possam ser lidas por todos, existem também profundidades ocultas e tesouros escondidos que estão sempre recompensando aqueles que se empenham em descobri-los! Essas cartas não dão apenas permanência às instruções do Espírito Santo à Igreja Cristã, mas revestem-nas de um interesse que cresce, cada vez mais, à medida que continuamos a estudá-las.


Seu Número e Ordem Apesar de existirem nove epístolas à “igreja”, elas são dirigidas somente a sete igrejas; visto que, em dois casos, duas cartas são dirigidas à mesma igreja. Vale a pena notar, porém, que o Espírito Santo através de Paulo trata com o mesmo número místico, como fez o Senhor Jesus quando, da glória, se dirigiu às “sete igrejas”, conforme registrado em Apocalipse 2 e 3. O número sete nas Escrituras dá a idéia de plenitude. Nas epístolas dirigidas pelo Espírito Santo através de Paulo, a essas sete igrejas cristãs, temos o ensino global do Espírito Santo para os crentes em Cristo durante a dispensação atual. Elas contêm “toda a verdade” à qual seríamos guiados pelo Espírito Santo, conforme o Senhor previamente anunciara. A ordem bíblica dessas epístolas à “igreja” é também de especial interesse para nós. Em 2 Timóteo 3.16, Paulo escreve: “Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção”. Ao que parece, o Espírito Santo, ao dirigir-se a essas sete igrejas por intermédio de Paulo, dividiu-as em três e quatro, correspondendo às palavras do apóstolo recém-mencionadas. Verificamos que as cartas enviadas a três dessas igrejas representam, de certa maneira, uma elaboração doutrinária, cada uma ligada a um tema principal. São as Epístolas aos Romanos, Efésios e Tessalonicenses, abrangendo especialmente doutrina. Nas epístolas às quatro outras igrejas, embora, de um ou outro modo, haja instrução ao longo das mesmas, nenhum assunto predominante é exposto em forma de tratado. São tratados epistolares, não doutrinários. Nesse grupo acham-se as epístolas aos Coríntios, Gálatas, Filipenses e Colossenses. Elas contêm, de maneira distinta, “repreensão” e “correção”. Assim sendo, temos: ROMANOS (“Doutrina”) CORÍNTIOS (“Repreensão”) GÁLATAS (“Correção”) EFÉSIOS (“Doutrina”) FILIPENSES (“Repreensão”) COLOSSENSES (“Correção”) TESSALONICENSES (“Doutrina”) Vejamos essas três igrejas às quais foram dirigidos os tratados


doutrinários —Romanos, Efésios e Tessalonicenses. As cartas a essas três são as normas sobre os assuntos de que tratam: Justificação pela fé (Romanos), a doutrina da Igreja (Efésios), a Segunda Vinda de Cristo (Tessalonicenses). Quanto a Coríntios e Gálatas, elas vêm após Romanos (a líder do quarteto) por evidenciarem desvio de seu ensino especial e evocarem, respectivamente, “repreensão” (Coríntios) e “correção” (Gálatas) — a “repreensão” referindo-se à conduta incorreta; e a “correção”, à doutrina errada. Quanto a Filipenses e Colossenses, vêm após Efésios (a primeira das três) porque, igualmente, evidenciam desvio de seu ensino especial e evocam, respectivamente, “repreensão” (Filipenses) e “correção” (Colossenses). 1 e 2 Tessalonicenses são o fecho destas sete “instruções” do Espírito Santo. Em Romanos, o pecador arrependido é mostrado como morto para o pecado e “ressuscitado em Cristo”. Em Efésios, ele se acha “sentado com Cristo nos lugares celestiais” num sentido espiritual. Em Tessalonicenses, é “arrebatado” para sempre na glória com o Senhor! E mesmo nas duas breves cartas aos Tessalonicenses existe a mesma ordem (1) “doutrina”, (2) “repreensão”, (3) “correção”. A primeira carta aos Tessalonicenses apresenta a verdadeira “doutrina” e estabelece o padrão para a doutrina do segundo advento. A segunda segue-se a ela com “repreensão” do comportamento errado em vista da volta esperada e “correção” de idéias erradas.

A Ordem Cronológica Talvez devamos acrescentar que sua ordem canônica, que acabamos de referir, não é a cronológica. Quanto às datas aproximadas e lugares em que foram escritas, o consenso de opinião parece ser o seguinte:


1 Tessalonicenses 2 Tessalonicenses 1 Coríntios 2 Coríntios Galátas Romanos Colossenses Efésios Filipenses

Corinto A.D. Corinto Éfeso Macedônia Corinto Corinto Roma Roma Roma

52-3 53 57 57 57-8 58 63 63 64

Quanto às outras epístolas de Paulo, com exceção de Filemom (que foi escrita à mesma época de Colossenses) elas foram escritas mais tarde, cerca de 66 ou 67 A.D. Não incluímos a Epístola aos Hebreus, pelo fato de haver controvérsia quanto à autoria paulina: e, de qualquer modo, a data de sua composição continua incerta.

Um Agrupamento Tríplice Apesar de ser interessante observar as epístolas às “igrejas” em sua ordem cronológica, sua verdadeira ordem espiritual é, sem dúvida, aquela em que encontramos as mesmas em nosso Novo Testamento atualmente. Um fato notável é que este arranjo das epístolas às “Igrejas” jamais varia em qualquer dos manuscritos. O mesmo acontece em toda parte, sem exceções. Ao que parece, o Espírito Santo foi tão cuidadoso em relação ao arranjo dessas cartas preciosas como o foi com relação incluí-las originalmente no cânon sagrado. Observe seu desenvolvimento triplo em grupo. Já mostramos como as epístolas aos Coríntios e aos Gálatas acompanham a de Romanos e a completam. Verificamos também como Efésios, Filipenses e Colossenses também formam um conjunto. Assim sendo, essas epístolas às “Igrejas” dividem-se em três grupos: (1) Romanos até Gálatas, (2) Efésios, Filipenses, Colossenses, (3) 1 e 2 Tessalonicenses. No primeiro grupo a ênfase distinta está em CRISTO E A CRUZ. Nos três intermediários ela se acha em CRISTO E A IGREJA. No par final a ênfase distinta é posta em CRISTO E A SUA VINDA. Podemos, portanto, chamar respectivamente as três partes como segue: evangélica, mística e


escatológica. Não haverá um significado no fato de 1 e 2 Tessalonicenses que foram escritas em primeiro lugar, estarem agora em último? Não existe também um motivo para que Romanos, escrita no final das chamadas epístolas “evangélicas”, esteja agora em primeiro lugar? Essas epístolas às “Igrejas” em seus três grupos, formam justamente a ordem em que o Espírito Santo queria que aprendêssemos e ensinássemos as mesmas. Primeiro, no grupo aos Romanos, aprendemos aquelas grandes verdades evangélicas pelas quais somos salvos. A seguir, no grupo aos Efésios, passamos para aquelas profundezas maiores relativas ao “M istério” e a nossa unidade indissolúvel com o Filho de Deus como membros eleitos de seu corpo místico e como noiva. No final, em 1 e 2 Tessalonicenses, nosso olhar volta-se para a consumação vindoura, com o arrebatamento e glória no reaparecimento do Senhor. Desse modo, esses três grupos de epístolas às “Igrejas” são uma trindade na unidade. Ao considerar suas respectivas ênfases, podemos dizer que no primeiro grupo a fé olha para a Cruz e é fortalecida. No segundo, o amor contempla o Noivo e aprofunda-se. Finalmente, nas duas epístolas aos Tessalonicenses, a esperança levanta os olhos para a Vinda e anima-se. Nas palavras de 1 Coríntios 13.13: “Agora, pois, permanecem a fé, a esperança, e o amor, estes três; porém o maior destes é o amor”.

A Autoria Nenhuma discussão é necessária aqui quanto à autoria paulina dessas epístolas às “igrejas”. A infindável crítica bíblica do século passado transformou-se agora em questões definidas quanto à autenticidade dessas epístolas. Podemos dizer em relação a 1 e 2 Coríntios, Gálatas e Romanos, nas palavras do Professor G.G. Findlay, que sua autoria paulina está agora num ponto “indiscutível”. O mesmo aplica-se a 1 e 2 Tessalonicenses. A autoria de Paulo foi apenas posta em dúvida por alguns críticos da escola mais extrema; e mesmo nessa escola outros foram compelidos a admitir a autoria de Paulo. O livro de Filipenses é tão característico do estilo de Paulo que permaneceu praticamente sem ser questionado. Objeções foram levantadas por alguns eruditos modernos


contra a autoria paulina de Efésios e Colossenses; mas a maioria dessas objeções pertence ao que até mesmo o cauteloso erudito, Dean Alford, chamou de “insanidade da hipercrítica”. No que se refere à evidência externa, como a tradição uniforme da Igreja e a corroboração dos primeiros escritores, o caso da autoria paulina de todas as epístolas que levam seu nome é tão positivo quanto poderia ser. Só com base em supostas indicações internas é que a autoria do apóstolo tem sido discutida —estilo possivelmente não-paulino e alusões duvidosas em algumas passagens. Essas objeções não são muito difíceis de serem refutadas. Portanto, o autor humano dessas epístolas às “igrejas” é Paulo. Vamos expressar gratidão a Deus por tudo que Paulo significou para a Igreja Cristã. A Bíblia de Scofield diz muito apropriadamente: “Só através de Paulo ficamos sabendo que a Igreja não é uma organização, mas um organismo, o corpo de Cristo; movido pela sua vida, e celestial quanto ao chamado, promessa e destino. Só através dele conhecemos a natureza, propósito e forma da organização das igrejas locais, e a conduta correta de tais reuniões. Só através dele sabemos que “nem todos dormiremos”, mas que “os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro”, e que os santos vivos serão “transformados” e arrebatados para encontrar-se com o Senhor nos ares, na sua volta. “Paulo, convertido pelo ministério pessoal do Senhor em glória, é distintamente a testemunha de um Cristo glorificado, Cabeça sobre todas as coisas na Igreja, a qual é o seu corpo, como os Onze foram para Cristo na carne, o Filho de Abraão e de Davi.” Não está dentro de nossos planos dar nem mesmo o mais breve perfil da vida e obra de Paulo depois de sua conversão; mas existem alguns livros bem escritos, de tamanho pequeno e preço acessível, que cobrem esse aspecto. Recomendamos ao aluno principalmente os livros da série “A Vida e as Cartas de Paulo”, publicados por esta editora. Paulo é, sem dúvida, um dos maiores gênios da história e qualquer estudo sobre ele jamais constituirá perda de tempo. Mas existe um fenômeno interessante, no ministério do grande apóstolo, que desejamos dar especial atenção. Trata-se do fato de terem havido dois períodos na vida de Paulo depois de sua conversão que foram completamente ignorados, passando em


completo silêncio. Eles são chamados de “os dois silêncios”. A Bíblia de Scofield contém uma nota excelente a este respeito: “Dois períodos na vida de Paulo, após sua conversão, ficam em silêncio, o que em si já é significativo — a viagem para a Arábia, da qual o apóstolo voltou em plena posse da explicação do evangelho como apresentada em Gálatas e Romanos; e os dois anos de silêncio na prisão de Cesaréia, entre a sua prisão no templo de Jerusalém e sua deportação para Roma. “Era inevitável que um intelecto treinado como o de Paulo, um crente convicto no mosaísmo e, até sua conversão na estrada de Damasco, um opositor ferrenho do cristianismo, buscasse os princípios subjacentes do evangelho. Imediatamente após sua conversão, ele pregou a Jesus como o Messias; mas a relação entre o evangelho e a lei, e, em menor escala, às grandes promessas aos judeus, necessitava de um ajuste claro se é que o cristianismo era uma fé razoável e não um simples dogma. Paulo procurou e encontrou na Arábia esse ajuste mediante revelação por parte do Espírito. O resultado foi a explicação doutrinária da salvação pela graça através da fé, completamente em separado da lei, incluída em Gálatas e Romanos. “Mas o evangelho envolve o crente em grandes relacionamentos — com o Pai, com outros crentes, com Cristo e com os propósitos futuros de Deus. Não se trata apenas da salvação do pecado e das conseqüências do mesmo, mas de um lugar surpreendente nos conselhos divinos. Além disso, a nova entidade, a Igreja, em seus vários aspectos e funções, exigia uma revelação clara. Esses são os temas principais das epístolas escritas por Paulo em Roma e geralmente chamadas de cartas da “Prisão” — Efésios, Filipenses e Colossenses. É contrário ao método de inspiração, como explicado pelo próprio Paulo, supor que essas revelações culminantes foram feitas sem que houvesse profunda meditação, silêncio exigente e busca sincera. Parece bastante de acordo com os episódios da vida de Paulo supor que essas grandes revelações vieram durante os anos silenciosos em Cesaréia — muitas vezes considerados como um desperdício.”


EXAMINAI AS ESCRITURAS

As Ênfases Distintas Finalmente, antes de estudarmos cada uma dessas epístolas, devemos examiná-las em conjunto, como constituindo uma série progressiva. Nada é mais fascinante do que vê-las desse modo, cada uma com sua ênfase distinta e contribuição positiva. Vejamos, por exemplo, as ênfases sucessivas sobre o Senhor Jesus: Romanos Cristo, poder de Deus para nós. 1 Coríntios Cristo, sabedoria de Deus para nós. 2 Coríntios Cristo, consolo de Deus para nós. Gálatas Cristo, justiça de Deus. Efésios Cristo, as riquezas de Deus para nós. Filipenses Cristo, a suficiência de Deus para nós. Colossenses Cristo, a plenitude de Deus para nós. 1 Tessalonicenses Cristo, a promessa de Deus para nós. 2 Tessalonicenses Cristo, a recompensa de Deus para nós. Se observarmos essas mesmas nove epístolas do ponto de vista da mensagem do evangelho, descobrimos de novo que cada uma tem o seu próprio conceito e aspecto indiscutíveis: Romanos 1 Coríntios 2 Coríntios Gálatas Efésios Filipenses Colossenses 1 Tessalonicenses 2 Tessalonicenses

0 evangelho e sua mensagem, O evangelho e seu ministério, O evangelho e seus ministros, O evangelho e seus deturpadores. O evangelho e os elementos celestiais O evangelho e os elementos terrenos, O evangelho e as filosofias, O evangelho e o futuro da Igreja, O evangelho e o Anticristo.

Ou, ainda mais, examinemos essas nove epístolas às “igrejas” em seu ensino sucessivo com respeito à união do crente com Cristo. Novamente descobrimos uma ênfase distinta ou um aspecto destacado peculiar a cada uma delas. Assim sendo: <


Romanos 1 Coríntios 2 Coríntios Gálatas Efésios Filipenses Colossenses 1 Tessalonicenses 2 Tessalonicenses

Em Cristo —justificação. Em Cristo — santificação. Em Cristo — consolação. Em Cristo — libertação. Em Cristo — exaltação. Em Cristo — exultação. Em Cristo — perfeição. Em Cristo — transladação. Em Cristo — compensação.

Isto ainda não é tudo. Antecipando nossos estudos futuros por um momento, veremos que cada uma dessas nove epístolas às “igrejas” possui sua palavra-chave indiscutível. Em Romanos ela é “justiça”. Em 1 Coríntios, “sabedoria”. Em 2 Coríntios, “consolo”. Em Gálatas, “fé”. Em Efésios, “abençoados”. EmFilipenses, “lucro”. Em Colossenses, “cheios”. Em 1 Tessalonicenses, “trabalhando”. Em 2 Tessalonicenses, “esperando”. Muito mais poderia ser dito neste sentido, mas usamos o espaço adequado para a nossa introdução a essas nove cartas preciosas. Ao nos voltarmos agora para examiná-las, cada uma por sua vez, que o Espírito Santo que as inspirou nos ilumine!


A EPÍSTOLA AOS ROMANOS (1) Lição n- 25


NOTA: Para este estudo, leia Romanos inteiro de uma só vez; depois repita a leitura uma ou duas vezes, conforme o tempo permitir. A mais profunda composição literária já escrita.

Coleridge

O principal livro do Novo Testamento... Ele deve ser aprendido de cor, palavra por palavra, por todo cristão. Lutero Ao estudá-lo, deparamo-nos, a cada palavra, com pensamentos insondáveis. Godet Crisóstomo deu ordens expressas para que lhe fosse lido duas vezes por semana... Sem dúvida, o compêndio mais completo e profundo de todas as verdades sagradas básicas. C. A. Fox.


A EPÍSTOLA AOS ROMANOS (1) “Esta é a obra-prima de Paulo. Nós o apreciamos aqui em toda a sua grandeza como pensador e teólogo construtivo. A Epístola aos Romanos é a expressão completa e amadurecida das principais doutrinas do apóstolo, que as revela na devida ordem e proporção e as combina em um todo orgânico. Para os propósitos da teologia sistemática, trata-se do livro mais importante da Bíblia. Mais que qualquer outro, ele determinou o curso do pensamento cristão.” Se as palavras do Professor Findlay forem verdadeiras, todo cristão deveria então estudar cuidadosamente esta Epístola aos Romanos. Ela é tanto o alfabeto quanto o mapa do cristianismo evangélico. Dominar o seu conteúdo é estar “firmado e estabelecido na verdade” e adquirir conhecimento para a vida inteira. A necessidade de tal tratado é clara. Quando Paulo o escreveu, o evangelho tinha sido pregado através do Império Romano durante um quarto de século e muitas comunidades cristãs tinham surgido. A fé recém -divulgada não poderia deixar de provocar perguntas importantíssimas. Que dizer da doutrina da justiça de Deus se, como diz esta nova pregação, os pecadores em toda parte podem ser livremente perdoados mediante a graça? Qual a relação entre este “Evangelho” e a Lei de Moisés? Ele não repudia Moisés? E a aliança abrâmica? Como a admissão dos gentios a privilégios equivalentes aos judeus pode ser reconciliada com isso? O que acontecerá com a moral se Deus for tratar agora com os homens através da graça em lugar de torná-los responsáveis perante uma lei justa? As pessoas não pecarão cada vez mais, a fim de que a graça possa prevalecer? E a relação especial de aliança entre Deus e Israel? O Novo “evangelho” não sugere que Deus repudiou agora o seu povo? Para muitos judeus piedosos, a nova doutrina parecia abandonar aquelas heranças mais apreciadas e vitais. M uitos cristãos rccém-convertidos, quer judeus ou gentios, ficariam perplexos diante de tais perguntas. “Só havia um homem capaz de enfrentar essa crise, em condições de compreender a situação em toda a sua amplitude”, diz o Professor Findlay.


“Com sua educação farisaica, sua consciência estrita e sensível e sua fé intensa na religião de Israel, Paulo compreendeu, mais ainda que seus oponentes, a força e a dificuldade dessas questões; podemos ver que isso lhe custou, tanto antes como durante a controvérsia, um esforço prolongado e o mais árduo empenho mental, a fim de chegar à solução que nos apresentou. Não devemos supor que a inspiração tivesse superado o estudo da parte dos mestres das Escrituras, que os dons do Espírito Santo servissem de artifício para poupar esforços. Pelo contrário, só com trabalho árduo e empenho contínuo, não poupando suas capacidades espirituais e intelectuais, é que Paulo compôs suas grandes epístolas doutrinárias; e o Espírito Santo estimulou, sustentou e recompensou o labor de sua vontade e razão humanas.” Esta epístola aos Romanos foi escrita desse modo, e sua composição prevaleceu de tal forma que ela se tornou o documento fundamental do cristianismo evangélico daí por diante.

A Estrutura e a Mensagem da Epístola Vamos agora examinar juntos a epístola e “avaliar” o seu santo território. Quando a lemos uma, duas ou três vezes, uma coisa se torna evidente — o tratado é progressivo, ordenado em três partes principais. Não há uma interrupção maior nos capítulos 1 a 8; mas logo que chegamos aos capítulos 9, 10 e 11 percebemos que Paulo passou de sua aplicação geral do evangelho para uma consideração particular de sua relação com o povo de Israel. Quando chegamos ao capítulo 12, também tomamos consciência de que ele muda deste aspecto para uma consideração do evangelho em sua associação com o caráter e conduta do indivíduo. Esta estrutura tríplice da epístola torna-se mais clara pelo fato de Paulo finalizar cada uma das três partes com uma forma de doxologia (8.38,39; 11.33-6; 16.25-7). Não há dúvida quanto ao assunto na parte 1 (1-8). Depois de uma breve introdução (1.1-15), Paulo mergulha numa discussão elucidativa sobre como o evangelho salva o pecador. Ele, na verdade, resume todo o assunto previamente na proposição formal introdutória (w. 16,17):


“Pois não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, primeiro do judeu e também do grego; visto que a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé”. Este é o ponto essencial de todo o tratado. Aqui se acham reunidas antecipadamente todas as grandes idéias que devem ser expandidas nos capítulos seguintes: O EVANGELHO - PODER DE DEUS SALVAÇÃO - TODO AQUELE - QUE CRÊ - JUSTIÇA. Os oito primeiros capítulos são doutrinários, da primeira à última folha. Eles explanam as doutrinas básicas do evangelho. Os três capítulos seguintes (9-11) são nacionais, no sentido de responderem a perguntas quanto à ligação entre o evangelho e Israel. Os capítulos restantes (12-16) são práticos, aplicando as doutrinas do evangelho à conduta individual. Esses são, portanto, os três principais movimentos de Romanos. No primeiro temos exposição; no segundo, explanação; no terceiro, aplicação. A primeira parte é racial; a segunda, israelita; a terceira, individual. A primeira parte trata com o problema dopecado;a segunda com o problema judeu; a terceira com o problema da vida. As três partes podem ser apresentadas assim: 1. DOUTRINÁRIA: COMO EVANGELHO SALVA O PECADOR (1-8). 2. NACIONAL: COMO O EVANGELHO ESTÁ LIGADO A ISRAEL (9-11). 3. PRÁTICA: COMO O EVANGELHO INFLUENCIA A CONDUTA (12-16). Agora, com este esboço tríplice da epístola em mente, vamos recapitular essas partes e descobrir as subdivisões feitas pelo apóstolo com relação ao assunto. Se fizermos isso com cuidado, logo veremos que cada uma das três partes principais desenvolve-se em progressão clara e lógica.


Parte 1 (1-8): Doutrinária O tema da primeira parte é: Como o evangelho salva o pecador. Desde 1.18 a 3.20, Paulo está claramente apresentando a necessidade desesperada que o homem tem do evangelho. Em primeiro lugar, ele mostra o problema dos gentios (1.18-32). A seguir ele expõe a falácia da suposta superioridade israelita e mostra que os judeus estão atacados da mesma praga do pecado (2.1-3.20). Embora Paulo não mencione a princípio o judeu (2.1), os versos seguintes tornam claro que ele está incluído. Paulo começa de modo a não despertar desnecessariamente os preconceitos de qualquer leitor judeu. Ele estabelece seus princípios de maneira tão geral e simples, de modo que estes forçariam o consentimento do judeu antes que ele percebesse a aplicação especial deles à sua pessoa. Note, nesta seção (1.18-3.20), que o problema racial é duplo. Primeiro, tanto judeus como gentios “pecaram” (2.12) refere-se a atos de transgressão. Segundo, tanto judeus como gentios estão em “pecado” (3.9,10) — refere-se a uma condição interior. A transgressão é o aspecto legal do problema humano. A condição interior é o aspecto moral do mesmo. O homem é legalmente “culpado” de seus atos de transgressão, sendo por isso condenado. Quanto à sua condição interior, o homem é moralmente “corrupto” e está perecendo. Este é, portanto, o problema racial — “pecados” e “pecado” (1.18-3.20). Mas a partir do capítulo 3.21, Paulo mostra como Deus trata deste duplo problema, através do evangelho. Ele mostra primeiro a resposta do evangelho aos “PECADOS” (3.21-5.11). Os leitores atentos irão notar a interrupção que ocorre nesse quinto capítulo, no final do v. 11. Até esse ponto, o tema é “PECADOS”; mas, depois dele, é “PECADO”. O falecido E. W. Bullinger escreveu: “Nenhum comentário ou exposição é digno da menor confiança se não marcar esta distinção e divisão entre os versos 11 e 12”. As palavras de Bullinger são demasiado severas —embora o espaço entre esses dois versículos deva ser realmente notado. Até esse ponto, a palavra “pecado” ocorre apenas três vezes; mas a seguir, até o final do capítulo 8, é mencionada 39 vezes! Desse modo, desde 3.21 até o final do capítulo 8, o tema é a resposta do evangelho com referência a “pecados” e “pecado”. A seção relativa a “pecados” (plural) é 3.21-5.11. A relativa a “pecado” (singular) é 5.12-8.39,


onde a primeira parte principal da epístola termina. Veja a resposta do evangelho com respeito a “pecados” (3.21-5.11). Paulo mostra primeiro como Deus trata com o problema dos “pecados” judicialmente (3.21-4.25). Deus apresenta Cristo como a Propiciação todo-suficiente. Através dEle é possível justificar o crente pecador (3.21-31); e este princípio de justificação pela fé tem suas raízes nas Escrituras do Antigo Testamento (4). Segundo, Paulo mostra como o evangelho responde ao problema dos “pecados” experimentalmente, i.e., na experiência do crente (v. 1-11). “Justificados, pois, mediante a fé, tenhamos paz com Deus, por meio de nosso Senhor Jesus Cristo...o amor de Deus é derramado em nossos corações pelo Espírito Santo...” etc. Vemos assim as respostas do evangelho quanto aos “pecados” — judicialmente (3.21-4.25) e experimentalmente (5.1-11). Agora, de 5.12 a 8.39, surge a resposta do evangelho ao “PECADO”. O método de Paulo é o mesmo da seção anterior. Ele mostra primeiro como Deus trata com o “pecado” judicialmente (5.12-7.6); e depois como ele é tratado experimentalmente (7.7-8.39). Fica claro para qualquer leitor que, a partir do capítulo 5.12 até o final do mesmo, Paulo ensina a maneira de Deus tratar o pecado e a salvação no sentido judicial, sob o princípio das lideranças representativas de Adão e Cristo, respectivamente: “Por um só” a condenação e a morte sobrevieram a muitos e “por meio da obediência de um só” a justiça e a vida serão concedidas a muitos. O capítulo 6 avança ainda mais neste sentido de cuidar do assunto do ponto de vista judicial. Os tempos do verbo estão todos no passado, indicando algo que Deus fez de uma vez por todas, judicial e historicamente, em relação ao pecado, mediante a Cruz de Cristo; não é algo que Deus esteja fazendo agora no coração dos crentes (como os expositores dizem geralmente). O v. 6, de modo bem apropriado, começa com o verbo no passado: “Foi crucificado com ele (Cristo) o nosso velho homem, para que o corpo do pecado seja destruído”. A expressão “nosso velho homem” e “corpo do pecado” refere-se à raça adâmica como um todo; e este capítulo ensina que, no ajuste judicial de Deus, a raça adâmica foi posta de lado, de uma vez por todas, em e através da Cruz de Cristo. O capítulo 7, até o v. 6, completa esta seção judicial, mostrando que, na morte de Cristo, o crente também morreu para a Lei, tornando-se, assim, judicialmente livre para “casar-se” com Outro, até com “Aquele que foi ressuscitado dentre os mortos”.


Finalmente, em uma das passagens mais grandiosas das Escrituras (7.7-8.39), Paulo mostra-nos como o evangelho cuida do problema do pecado na experiência real do crente. Nos capítulos precedentes, Paulo mostrou de que forma o evangelho trata do pecado (plural) tanto judicial como experimentalmente, e com o pecado em si (singular) judicialmente; todavia, o problema mais agudo de todos permanece — “o pecado que habita em mim” (7.17,20). O próprio mandamento da Lei contra o mal evoca na minha natureza depravada justamente aquilo que ela proíbe! A Lei é boa, mas eu estou errado! “Desventurado homem que sou! quem me livrará?” O capítulo 8 dá a gloriosa resposta. A atenção tem sido muitas vezes chamada para o fato de o Espírito Santo ser mencionado neste capítulo nada menos do que 19 vezes, enquanto Ele é mencionado apenas uma vez nos capítulos anteriores; mas a importância disto não parece ter sido apreciada. Isto confirma o que dissemos, ou seja, que, até agora, Paulo tem tratado apenas do aspecto judicial do problema do “pecado” (5.12-7.6). Agora, neste culminante capítulo oito, Paulo mostra como a nova vida, a lei e a liberdade do Espírito no crente, além dos outros ministérios interiores do Espírito, são uma ampla resposta ao clamor: “Quem me livrará?” Voltaremos mais tarde a este capítulo. Notamos simplesmente aqui sua relevância na estrutura da epístola. O apóstolo mostrou-nos agora como o evangelho trata com os “PECADOS” (3.21-5.11) — o aspecto judicial (3.21-4.25), o aspecto experimental (5.1-11); e como o evangelho cuida do “PECADO” (5.12-8.29) —o aspecto judicial (5.12-7.6), o aspecto experimental (7.7-8.39). Esta é, então, a primeira das três partes principais da epístola.

Parte 2 (9-11): Nacional Existe uma grandeza e profundidade solenes nesses três capítulos. Não ficamos surpresos pelo fato de que o escritor inspirado, depois de contemplar o mistério e soberania do propósito divino na história humana, terminasse com a frase: “Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria, como do conhecimento de Deus!” (11.33). Mas qual o ponto crítico do raciocínio do apóstolo? Ele está nos ensinando como o evangelho se


associa à nação de Israel, num sentido das dispensações e da história: e há três movimentos em sua lógica. Primeiro, no capítulo 9, seu ponto é que este belíssimo evangelho ao mundo inteiro não cancela opropósito especial de Deus para Israel. Note as palavras no v. 6: “E não pensemos que a palavra de Deus haja falhado, porque nem todos os de Israel são de fato israelitas”. A palavra de Deus não poderia ser então cumprida no que diz respeito à nação porque muitos que eram “semente” de Abraão (seus descendentes naturais) não eram “filhos” de Abraão (num sentido moral e espiritual) —veja o v. 7. Mas havia um “remanescente” eleito que estava sendo salvo e através de quem o propósito seria finalmente realizado (w. 27-29). Note: os w. 14-26 formam uma espécie de parênteses, justificando os atos soberanos de Deus. Leia os versículos 27-29. Segundo, no capítulo 10 (que deveria talvez começar em 9.30), o ponto é que o evangelho, em lugar de abolir o plano especial de Deus para Israel, cumpre a promessa feita a esse povo. A parte principal deste capítulo é dedicada a mostrar que este Messias-Salvador do evangelho de Paulo é o tema das Escrituras Hebraicas (“Moisés escreveu”, “Porquanto a Escritura diz”, “Pois Isaías diz” — w. 5, 11, 16, etc.). Mas, apesar da promessa da salvação pela fé contida nas Escrituras, Israel aplica-se à salvação por obras (w. 1-4) e, portanto, tropeça por causa de sua incredulidade (w. 18-21). Terceiro, no capítulo 11, o ponto é que o evangelho, além de cumprir a promessa a Israel, confirma a grande perspectiva diante da nação, a saber, que toda Israel virá a ser salva (w. 25-9); e, enquanto isso, por mais trágica que seja agora a queda do povo, ela é cancelada para abençoar os gentios (11,12). Naturalmente, há muito mais nesses três capítulos, mas não está em nossos planos demorar-nos neles. A fim de esboçar uma verdadeira análise da epístola, tentamos simplesmente obter o ponto central do argumento que Paulo apresenta quanto à relação éntre o evangelho e a nação de Israel. E qual é a verdade central aqui? Trata-se do seguinte: O evangelho não contradiz o propósito, a promessa e a perspectiva pertencentes a Israel como apresentados nas Escrituras, mas os confirmam.


Parte 3 (12-15.13): Prática Nos capítulos 12-15, temos a aplicação prática do evangelho à vida e ao comportamento. Como seria de esperar, portanto, não encontramos neles a complexidade que descobrimos em alguns dos parágrafos anteriores e mais polêmicos. Eles são de fato tão diretos que dificilmente necessitamos fazer mais do que simplesmente apontar onde as exortações se agrupam. Veja o capítulo 12. Vemos explicitamente nele a vida cristã quanto aos seus aspectos sociais. Nos dois primeiros versículos encontramos o apelo à consagração com vistas a uma transformação interior, pois esta é a raiz de toda santidade cristã. A seguir, perto do fim do capítulo, vemos o fruto disto em serviço humilde e amoroso em direção a outros. Este é, pois, o aspecto social. Agora, considere o capítulo 13. Esta é a vida cristã em seus aspectos civis. O capítulo começa: “Todo homem esteja sujeito às autoridades superiores”; essas autoridades aqui são as civis. Nos versículos 1-7 aprendemos que a verdadeira expressão da vida cristã, no que se refere aos deveres civis, é a submissão conscienciosa. Depois, nos w. 8-14, vemos que este comportamento tem sua base no amor ao próximo. Finalmente, veja os capítulos 14 e 15. A vida cristã é observada neles quanto a certos aspectos mútuos. Ficamos sabendo qual deve ser a relação recíproca entre o “fraco” e o “forte”, entre os excessivamente escrupulosos e os aparentemente inescrupulosos com respeito a certas práticas discutíveis. Primeiro, em 14.1-23 o princípio de mútua consideração é ordenado; em 14.1-13, isto é reforçado por uma referência ao exemplo de Cristo e ao ensino das Escrituras. O restante da epístola (15.14-16.27) não passa de um breve suplemento contendo referências pessoais e saudações, com uma bênção e doxologia como fecho. Essa é, então, a epístola aos Romanos e será útil colocar nossas descobertas de maneira a poder analisá-las. Nossa análise é naturalmente interpretativa e não exaustiva. Estudamos a epístola a fim de entender seu significado e mensagem centrais e não para dissecá-la em suas partes componentes! Quase chegamos a pensar que Paulo teve dificuldade em terminar esta epístola poderosa, pois pronuncia quatro “améns” antes de finalmente fechá-la! “E o Deus da paz seja com todos vós. Amém” (15.33). “A graça


EPÍSTOLA AOS ROMANOS O Evangelho, o poder de Deus para a Salvação. Introdução 1.1-15. 1. DOUTRINÁRIA: COMO O EVANGELHO SALVA O PECADOR (1.16-8).

O PROBLEMA RACIAL - “PECADOS” E “PECADO” (1.18-3.20). O gentio culpado e pecador (1.18-32). O judeu culpado e pecador (2.1-3.20). A RESPOSTA DO EVANGELHO - (a) QUANTO AOS “PECADOS” (3.21-5.11). Judicialmente (3.21-4.25). Na experiência (5.1-11). A RESPOSTA DO EVANGELHO - (b) QUANTO AO “PECADO” (5.12-8.39). Judicialmente (5.12-7.6). Na experiência (7.7-8.39).

2. NACIONAL: COMO O EVANGELHO ESTÁ LIGADO A ISRAEL

------------------------------------------------------P )7 NÃO ANULA O PROPÓSITO QUANTO A ISRAEL (9). Porque nem todo Israel é o verdadeiro Israel (w. 7-13). Um remanescente eleito será salvo (w. 27-9). PELO CONTRÁRIO, CUMPRE A PROMESSA A ISRAEL (10) Mas Israel procura a salvação por obras (w. 1-4). E tropeça (9.32) por causa da incredulidade (w. 18-21). E CONFIRMA O FUTURO DE ISRAEL ( 11). A queda de Israel torna-se bênção para os gentios (w. 1-24). E todo Israel será salvo um dia (w. 25-9).

3. PRÁTICA: COMO O EVANGELHO INFLUENCIA A CONDUTA

----------------------------------------------------------------- (12-15.13): A VIDA CRISTÃ E OS ASPECTOS SOCIAIS (12). A base — consagração e renovação (w. 1-2). O fruto — serviço e amor a outros (w. 3-21). A VIDA CRISTÃ E OS ASPECTOS CIVIS (13). Sua expressão — submissão consciente (w. 1-7). Seu fundamento — amor pelo próximo (w. 8-14). A VIDA CRISTÃ E OS ASPECTOS MÚTUOS (14,15). O princípio — consideração mútua (w. 1-23). O incentivo — o exemplo de Cristo (15.1-13). Suplemento 15.14-16.


de nosso Senhor Jesus seja convosco. Amém” (16.20). “A graça de nosso Senhor Jesus Cristo seja com todos vós. Amém!” (16.24). “Ao Deus único e sábio seja dada glória, pelos séculos dos séculos. AMÉM” (16.27).


A EPÍSTOLA AOS ROMANOS (2) Lição n9 26


NOTA: Para este estudo leia várias vezes os capítulos 5-7 e 9-11. A relação das epístolas com os evangelhos é semelhante à de Levítico com Êxodo. Nos evangelhos somos libertados através do sangue do Cordeiro. Nas epístolas somos habitados pelo Espírito de Deus. Nos evangelhos, como em Êxodo, Deus nos fala de fora. Nas epístolas, como em Levítico, Deus nos fala de dentro. Nos evangelhos temos a base da comunhão com Deus, i. e., a redenção. Nas epístolas temos o andar da comunhão com Deus, i. e., a santificação. Como em Levítico, as epístolas nos mostram os muitos aspectos da expiação do Senhor, conforme aplicada aos que já são remidos. J. S. B.


A EPÍSTOLA AOS ROMANOS (2) Nosso estudo desta epístola reforçou até agora o nosso veredicto de que se trata da obraprima de Paulo. Lutero chamou-a de “obra-prima do Novo Testamento”. É um manifesto tão importante da doutrina evangélica que os crentes protestantes deveriam lê-la regularmente para firmar-se nas verdades básicas do evangelho verdadeiro. É uma imensa ironia e tragédia o fato de que a igreja à qual foi originalmente escrita seja aquela que mais se desviou dela. Que grande diferença existe entre a igreja de Roma moderna e aquela primeira igreja em Roma, a quem Paulo se dirigiu! Um exame cuidadoso dos ensinamentos contidos nesta carta apostólica iria ajudar mais do que tudo a eliminar a Roma papal de suas tenebrosas heresias e crendices! De fato, a Epístola aos Romanos deveria receber tratamento prioritário de todos nós. Ela se destaca entre as epístolas às “igrejas” porque o Espírito Santo planejou que ela fosse a primeira a ser assimilada. Depois de observar sua estrutura e principal relevância, vamos repassar agora suas três áreas críticas, fazendo uma pausa aqui e ali nos pontos de destaque. Toda espécie de pontos e questões incidentais devem, infelizmente ser deixados de lado numa pesquisa limitada como a nossa; mas teremos cumprido nosso propósito se fornecermos orientação geral confiável para um estudo mais minucioso. Em primeiro lugar, porém, devemos dizer uma palavra sobre aquela igreja romana primitiva à qual foi enviada a epístola.

A Igreja em Roma Quando Paulo escreveu esta epístola ele ainda não visitara a cidade (1.15), mas desejara freqüentemente fazê-lo (1.13; 15.23), e pretendia agora pôr em prática essa intenção (15.24,28). Como nascera, então, a igreja ali? Deduzimos que se originara bem cedo, pois quando Paulo escreveu essa carta, a fé possuída por aqueles crentes romanos já fora “divulgada em todo o mundo” (1.8). A implantação do evangelho em


Roma seria facilitada pela grande colônia judaica na cidade. O Bible Handbook (“Manual Bíblico”) de Angus contém uma nota dizendo que Ovídio fala das sinagogas judaicas de lá como lugares de reunião; e Juvenal, mais tarde, ridiculariza seus conterrâneos por tornarem-se judeus. Ao lermos novamente Atos 2, vemos entre os ouvintes de Pedro, naquele inesquecível dia de Pentecoste, “homens piedosos” que procediam de Roma, “tanto judeus como prosélitos”. Antes de voltarem a Roma, aprenderiam muito mais do que simplesmente o que haviam ouvido naquele primeiro sermão de Pedro. Alguns deles voltariam a Roma como crentes convictos e divulgadores da nova fé. Além disso, o intercâmbio intenso entre Roma e as províncias iria, com toda certeza, levar cristãos convertidos à capital, não só da Judéia, como também de outras partes. Fica igualmente claro que a congregação de Roma era uma perfeita mescla de judeus e gentios. Paulo dirige-se aos seus membros como judeus (2.17-29; 4.1; 7.1, etc.). Uma luz interessante sobre isto é lançada pelas saudações no último capítulo da epístola. Vinte e seis pessoas são cumprimentadas e dois terços dos nomes são gregos. Pode ser objetado que a epístola presume um conhecimento do Antigo Testamento e da religião que os convertidos gentios não possuiriam. Mas devemos lembrar que muitos dos primeiros gentios convertidos ao cristianismo já se haviam tornado prosélitos do judaísmo e o seu interesse no problema surgido, entre a relação do novo “evangelho” com a antiga religião, seria quase tão grande quanto a dos próprios cristãos judeus. Parece bastante provável que Paulo tenha escrito sua epístola para Roma na cidade de Corinto, durante sua permanência de três meses na Acaia (i.e., Grécia), depois de sua ruidosa expulsão de Éfeso (At 20.3); e que ele teve oportunidade de enviar a carta por Febe, uma irmã da igreja de Cencréia (o porto de Corinto) que viajou para Roma (16.1-2).

Paulo — Uma Figura Estratégica Além disso, como a epístola de Romanos é a primeira entre as cartas de Paulo, devemos dizer aqui pelo menos algumas palavras sobre a pessoa do apóstolo. Mas quem pode dizer uma breve palavra sobre Paulo? A melhor


maneira de fazer nossa apresentação é permitir que o seguinte parágrafo, do falecido C. A. Fox, descreva o grande apóstolo para nós, como devemos vê-lo neste momento. “Muitas qualidades, aparentemente contraditórias, combinaram-se para preparar Paulo para sua grande missão nesta vida. Ele aliava à sua experiência peculiar uma ligação pessoal da ordem mais íntima com as três principais esferas sociais da época. Tinha sido chamado do próprio coração do judaísmo. Conhecia o legalismo judeu inteiramente. Fora chamado do próprio centro da cultura grega, pois passou seus primeiros anos de vida, desde a infância, em um dos grandes centros helenistas e estava familiarizado com tudo o que era grande e nobre na literatura grega. Além disso, gozara por nascimento, de todos os vários privilégios da cidadania romana. Tratava-se, portanto, de um hebreu até o último fio de cabelo; era grego na mais plena acepção da palavra; e cidadão romano nascido livre. Mas, além de tudo isso, ele reunia, em sua rara personalidade, um extraordinário vigor intelectual, força de vontade, sentimentos profundos e simpatia. Um dos traços de seu caráter era a intensidade, seja intelectual ou moral. Todavia, ainda precisa ser mencionada uma coisa que ultrapassava tudo o mais em seu preparo para o apostolado. Sua conversão repentina e milagrosa, assim como o seu chamado pela intervenção direta do próprio Cristo, além de tudo, preparou-o para comparar o judaísmo e o cristianismo com perfeita eqüidade, capacitando-o a colocar os dois sistemas, lado a lado, em contraste vivo e surpreendente, como também o autorizou a dar testemunho de como o cristianismo, em lugar de ser um antagonismo e ultraje violentos ao judaísmo puro, era o resultado legítimo, o desenvolvimento e aperfeiçoamento da verdade do Antigo Testamento.”

As Doutrinas Principais Faça um retrospecto dos oito primeiros capítulos onde aparece o tema: Como o evangelho salva o pecador. Eles podem ser todos resumidos na frase: justiça presente e salvação final pela fé, através de Cristo. O clamor dos corações pecadores que, no entanto, buscam a Deus através dos séculos tem sido: Ó, como queremos uma comunhão reta com


o Senhor! Ó, se pudesse haver um caminho justo diante dEle! Ó, se houvesse possibilidade de encontrar um acesso aprovado para Ele! “Onde encontrar ajustiça?”"Este foi o clamor patético de mentes sinceras em toda parte, naqueles dias antigos em que Paulo escreveu a verdadeira resposta. Ainda mais patético é o modo como esta preocupação inata do homem pecador é esmagada ou posta de lado pela nossa civilização moderna mecanicamente avançada mas espiritualmente corrupta. Nos dias antigos e mais simples, os homens pelo menos tinham tempo para ponderar sobre as coisas profundas da alma; mas hoje, em nossa civilização mercantilista, industrializada, urbanizada e mecanizada, onde vivemos pelo relógio em vez do calendário, nossa sociedade complexa dirige os pensamentos humanos cada vez mais para os problemas secundários e prementes das coisas temporais e materiais. Todavia, ainda hoje, apesar de toda trepidação e ruído deste nosso confuso século vinte, existem corações aflitos e consciências pesadas, buscando, tateando, desejando uma comunhão com Deus e suspirando ansiosamente: “Ó, como gostaria de conhecer o meio de descobrir o caminho da salvação e da verdadeira justiça perante Deus!” “Onde encontrar a justiça?” Paulo vai nos dizer como suas “Boas Novas” respondem à pergunta. Vai contá-las da maneira mais ávida e urgente porque o próprio evangelho que fala sobre uma justiça de Deus, providenciada para o arrependido e para o crente, traz consigo uma nova revelação da ira de Deus contra toda injustiça. “A ira de Deus se revela (i.e., de uma nova maneira agora) contra toda impiedade e perversão...” (1.18) A ira de Deus é revelada contra a idolatria e a sensualidade (1.21-32), o senso de superioridade hipócrita (2.1-16); o pretexto e a ênfase no aspecto externo, ambos religiosos (2.17-29), e o abuso perverso do privilégio espiritual (3.1-19). “Onde encontrar a justiça?” Paulo vai nos contar; mas primeiro ele nos mostra como é vão ir em busca da justiça:


1. Ela não se encontra na religião natural (1.19, 20). (a) Rebaixada à vil idolatria (1.21-32). (b) Pervertida também pela hipocrisia (2.1-16). 2. Não se encontra na religião revelada (3.1, 2). (a) Os judeus não guardam a Lei de Deus (2.17-29). (b) Os judeus são culpados sob a lei (3.1-20). “Onde encontrar a justiça?” Paulo vai nos dizer, mas ele quer que primeiro atentemos para uma verdade e tragédia de quatro aspectos. O mundo diz: “Não está em mim” (1.20). O “eu” diz: “Não está em mim” (2.17, 21). E a Lei diz: “Não está em mim” (3.20). “Onde encontrar a justiça?”O evangelho tem a resposta, ou melhor, ele é a resposta: é isso que encontramos em Romanos 1-8. Os aspectos são dois: o judicial e o dinâmico; ou o legai e o moral. O homem necessita de uma nova posição diante de Deus — esse é o aspecto judicial. O homem também necessita de um novo poder que pode tornar acessível uma justiça prática diária — esse é o lado dinâmico ou regenerativo. O evangelho fornece ambos. Existe uma justiça IMPUTADA (3.21-7.6) — isto é, uma justiça que nos é atribuída judicialmente através da propiciação meritória de Cristo. Existe também a justiça CONCEDIDA (7.7-8.39) — cuja justiça é operada em nós e através de nós pela renovação do Espírito de Cristo. Marque bem: a justiça judicial pela Cruz; a justiça prática pelo Espírito. Paulo começa com a grande declaração básica no capítulo 3.21-6, que (levemente parafraseada) diz o seguinte: “Mas, agora, a justiça de Deus em separado da Lei está manifestada, da qual as Escrituras (i. e., a Lei do Antigo Testamento e os Profetas) dão testemunho; a justiça de Deus que vem através da fé em Jesus Cristo a todos os que crêem, sem qualquer distinção. Pois-todos pecaram e não chegaram ao ideal de Deus, mas receberam agora uma nova posição de justiça legal gratuitamente, por meio de seu favor que vem até nós pela redenção provida em Cristo Jesus. Pois Deus o estabeleceu como propiciação, no seu sangue, mediante a fé. Isto teve em vista demonstrar a sua (de Deus) justiça, tolerando os pecados cometidos anteriormente pelos homens; de modo que a sua retidão, ao agir assim, pudesse evidenciar-se nestes dias e para que ficasse claro que Ele pode ser com justiça o justificador de todo aquele que crê em Jesus.”


Paulo continua então mostrando que a imputação ou atribuição da justiça aos membros da raça decaída de Adão, em resposta à fé, não é absolutamente uma idéia nova. Deus sempre teve a Cruz de Cristo em vista (como na citação acima) e tratara com Abraão e Davi neste princípio de justificação pela fé (cap. 4). Paulo desenvolve este aspecto de seu tema até o capítulo 7.6. A seguir, de Romanos 7.7 em diante, ele mostra como o evangelho, além de fornecer esta nova posição de retidão judicial imputada, também torna possível toda retidão prática do coração e da vida. Estas são, de fato, “boas novas”! Em Romanos 7.15-24, ele nos dá sua descrição do “homem desventurad o” que vive continuam ente atorm entado pela autocontradição de desejar fazer o bem mas não o conseguir, e não querer fazer o mal, mas praticá-lo; até que em sua frustração exasperada exclama: “Desventurado homem que sou! Quem me livrará?” Esse “homem desventurado” tem sido um problema para os expositores. Ele representa um cristão, “nascido de novo”, mas não inteiramente libertado? Ou representa o pecador não regenerado? Alguns dizem que é o primeiro; mas se, como geralmente ê afirmado, o capítulo 6 ensina a santificação do crente e a morte para o pecado (v. 11, etc.), por que Paulo volta repentinamente no capítulo 7 a esta escravidão penosa do “homem desventurado”? Todavia, a dificuldade é a mesma se considerarmos justamente esse indivíduo como representando o homem não regenerado. Se essa é a maneira de considerá-lo, porque deve ser introduzido aqui? Será que ele não pertence realmente à primeira metade do capítulo 3? Lembro-me de como um conhecido e antigo pregador metodista calvinista lançou certa vez um desafio sobre o sétimo capítulo de Romanos. Ele fora educado na velha escola puritana e não queria saber absolutamente de uma “segunda bênção” ou de idéias de “perfeição sem pecado”! Segundo ele, Romanos sete foi inserido para evitar excesso de deduções baseadas em Romanos sm! Não havia uma verdadeira libertação do velho “eu” perverso em cada um de nós! Ele vai perseguir-nos até o amargo fim! Lembro-me de como o esplêndido e velho pregador citou porções deste parágrafo do “homem desventurado” e depois, triunfante, virou-se repentinamente para nós, dizendo: “Vejam bem, não se pode ir além disso, não é?” A resposta é naturalmente: “Claro,


é muito fácil ir além disso; você simplesmente vai além para o capítulo seguinte (8), onde aprende que o “homem desventurado” encontra completa libertação!” O fato é que o “homem desventurado” em Romanos 7 não tem a finalidade de representar o crente ou o incrédulo separadamente: ele é apenas o representante do ser humano, evidenciando uma das necessidades fundamentais de nossa natureza humana caída. Observe-o justamente onde foi inserido na epístola e logo veráporque Paulo o coloca ali. Nos capítulos precedentes aprendemos como o evangelho nos salva dos PECADOS (plural) — primeiro atribuindo-nos justiça imputada (3.21-4.25), e a seguir confirmando a mesma interiormente em nós, porque “o amor de Deus é derramado em nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi outorgado” (5.1-11). Aseguir, Paulo mostra como o evangelho trata com o PECADO (singular) racial e hereditariamente (5.12-7.6). Épreciso compreender isto, porque, mesmo quando nos tornamos “justificados” em Cristo, nossa natureza continua pecaminosa. Assim, o apóstolo explica que aquilo que herdamos na justificação, em Cristo, o nosso novo Adão, mais do que compensa tudo que herdamos do primeiro Adão, e que nos condena. Permanece, no entanto, um problema sério que precisa ser resolvido para mim, pelo evangelho. O que desejo agora, além da retidão judicial, é alcançar a retidão prática de motivo e conduta em minha vida diária, através de um poder que irá libertar-me da escravidão deste tirano, o “pecado que habita em mim” (7.17, 20, 23). Até que esse problema seja resolvido, continuo gemendo: “Desventurado homem que sou!” É por isso que o “homem desventurado” surge no capítulo 7. Ele já experimentou três libertações, mas necessita de uma quarta. Encontrou a retidão judicial, mas lhe falta ainda o poder para obter a retidão prática. A resposta transformadora é dada no culminante capítulo 8. O Espírito Santo é citado 19 vezes, as 13 primeiras ocorrências mostrando sucessivamente como Ele concede poder sobre o “pecado”, sobre a “carne” e sobre o “corpo”. O grande resultado prático é anunciado no v. 4: “A fim de que o preceito da lei se cumprisse em nós que não andamos segundo a carne, mas segundo o ESPÍRITO”.


Como é então esplêndido este evangelho de “justificação pela fé” com sua dupla mensagem de retidão providenciada por Deus, i.e., justiça imputada mediante a Cruz, e retidão concedida pelo Espírito! Quão maravilhoso é esse Deus-Homem-Salvador que realiza tudo isso por nós! Ele se torna voluntariamente sócio majoritário na firma falida e condenada. Assume todas as suas responsabilidades, dívidas e multas, transformando desse modo a vergonhosa falência em riquezas, derramando sobre ela seu crédito inesgotável! Ele cumpre a lei de Deus para nós (v. 19), libera o amor de Deus para nós (v. 5) e implanta a própria vida de Deus em nós (8.9). Por todas essas razões, os capítulos 7 e 8 terminam de modo tão diferente um do outro. Lemos no final do capítulo 7: “Desventurado homem que sou! quem me livrará?” O v. 37 do capítulo 8 diz: “Somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou”. “Justificados, pois... ” Note com gratidão os sete resultados de nossa justificação pela fé, como resumidos no capítulo 5.1-11. “Sendo justificados pela fé...” 1. “Temos paz com Deus...” 2. “Obtivemos acesso, pela fé...” 3. “Gloriamo-nos na esperança da glória...” 4. “Gloriamo-nos nas tribulações...” 5. “O amor de Deus é derramado em nossos corações...” 6. “Seremos salvos da ira...” 7. “Gloriamo-nos em Deus” (tendo recebido “perdão”, i.e. reconciliação, embora fôssemos rebeldes condenados antes!) As Três Mortes Note também as três mortes anunciadas ao crente nos capítulos 6,7 e 8. 6. Morto para o pecado... vivo para Deus (v. 11). 7. Morto para a lei... unido a Cristo (v. 4). 8. Morto para a carne... guiado pelo Espírito (v. 13).


Capítulos 9,10,11 Será exagero afirmar que esses três capítulos têm sido, praticamente, a passagem mais problemática das Escrituras? Eles tratam da realidade gigantesca e atemorizante de uma vontade divina absolutamente soberana operando através da história da humanidade amaldiçoada pelo pecado. Para mim, Romanos 9.18 sempre foi o versículo mais perturbador da Bíblia. Ligado ao seu contexto, ele parece facilmente sugerir que aquilo que chamamos de soberania de Deus é um despotismo divino indiscutivelmente terrível. O que dizer a respeito? É errado fugir do assunto, assim como abrandar (aparentemente) o significado das palavras usadas por Paulo. Também não seria certo forçar uma “explicação” artificial que, na verdade, não explica nada. Igualmente errôneo (comoveremos em breve) é inferir, com uma espécie de satisfação hiper-calvinista, mais do que é realmente dito. O apóstolo completou agora seu principal argumento (1-8), mostrando como o evangelho salva o pecador humano individualmente. Por mais glorioso que seja este evangelho, porém, ele não pode simplesmente afastar-se nesse ponto e simular cegueira ao problema agudo que levantou em relação ao povo israelita. Se os gentios são agora aceitos, justificados, recebidos como filhos e herdeiros da promessa, em igualdade de condições com os judeus, o que dizer da relação especial de aliança entre Israel e Deus? Este novo evangelho não demonstra que Deus “não rejeitou (agora) o seu povo a quem de antemão conheceu” (11.2)? Se o novo “evangelho” significa realmente isso, os procedimentos de Deus com Israel não são o enigma mais hipócrita e irônico da história? O povo da aliança não recebera as mais maravilhosas promessas messiânicas? Os piedosos entre eles não estavam certos em prever a vinda do Messias como sendo o fim do sofrimento do seu povo, quando as tribos esparsas seriam reunidas como um Israel purificado, e a nação, há tanto tempo dominada pelos gentios, seria finalmente exaltada sobre eles? Todavia, agora que o Messias viera, em lugar da consumação de Israel, surgira o mais reacionário de todos os paradoxos — aqueles a quem as promessas da aliança foram feitas, estavam aparentemente afastados e todos os benefícios há muito esperados seriam recebidos pelos gentios estrangeiros! Esse é o problema subjacente a Romanos 9-11 e é vital compreender o


mesmo ao considerar separadamente qualquer das declarações em primeiro plano. Mas, além disto, se formos interpretar verdadeiramente quaisquer dessas declarações paulinas sobre a soberania divina, devemos manter-nos concentrados no assunto principal e no propósito da passagem. Quanto ao primeiro, o intento de Paulo é mostrar que (a) o afastamento da nação de Israel não está em desarmonia com as promessas divinas (veja 9.6-13); (b) porque o pecado e cegueira presentes de Israel como nação, são cancelados na forma de bênçãos tanto para os judeus como para os gentios individualmente (veja 9.23-11.25); (c) e porque “todo Israel será salvo” num clímax adiado, desde que “os dons e a vocação de Deus são irrevogáveis” (veja 11.26-36). Quanto ao propósito da passagem, já deve estar evidente que ela trata das relações de Deus com os homens e nações, histórica e dispensacionalmente, não cuidando da salvação e destino do indivíduo após a sepultura. Esse é então o fato absolutamente vital a ser lembrado, ao lermos os versículos-problema desses capítulos, especialmente o parágrafo 9.14-22. João Calvino erra quando vê nesses versículos a eleição, seja para a salvação ou condenação eternas. Não é esse o propósito deles. Eles apenas pertencem a uma economia divina da história. Paulo inicia o parágrafo perguntando: “Que diremos, pois? Há injustiça da parte de Deus?” — e o reçtante do parágrafo incumbe-se de mostrar que a resposta é “Não”; mas se òs versículos se referissem à vida e morte eternas, haveria certamente injustiça da parte de Deus. Aquilo que se acha mais profundamente implantado em nossa natureza moral pelo próprio Deus iria protestar que nem mesmo Ele tem o direito honroso de criar seres humanos cujo destino seja uma condenação predeterminada. Nada disso. Esta passagem não abrange os aspectos eternos do destino humano: Paulo já tratou deles nos capítulos 1-8. Ela está ligada (vamos enfatizar outra vez) ao sentido histórico e das dispensações. Uma vez visto isso, não há necessidade de “abrandar” seus termos ou “justificar” sequer uma sílaba dos mesmos. Até as sombrias palavras a Faraó (v. 17) podem ser enfrentadas em todo o seu impacto — “Para isto mesmo te levantei, para mostrar em ti o meu poder, e para que o meu nome seja anunciado por toda a terra”. As palavras “te levantei” não significam que Deus o tenha levantado desde o nascimento com esse propósito: elas se referem a sua elevação ao trono mais poderoso da terra. Ao ocorrerem em Êxodo


9.16, elas dificilmente significam até mesmo isso, mas apenas que Deus impedira o Faraó de morrer na praga precedente, a fim de tornar-se uma lição objetiva mais clara a todos os homens. Além disso, quando Paulo (ainda aludindo ao Faraó) diz, “E também endurece a quem lhe apraz” (v. 18), não precisamos abrandar o termo. Deus não ignorou a vontade do Faraó. O endurecimento representou um processo recíproco. Dezoito vezes é-nos dito que o coração do Faraó foi “endurecido” em sua recusa. Cerca da metade delas, a atitude é atribuída ao próprio Faraó e nas outras a Deus. Mas a competição entre Deus e o Faraó deve ser interpretada pelo que Deus disse a Moisés antes dela ter sequer começado: “O rei do Egito não vos deixará...” (Ex 3.19). A vontade já se firmara. O coração já endurecera. Deus dominou a vontade de Faraó, mas não a anulou. O processo de endurecimento desenvolveu-se visto as pragas terem forçado o Faraó a um ponto de solidificação de seu pecado. O Faraó tornou-se assim uma lição objetiva para toda a terra (Rm 9.17). Mas o destino eterno do Faráo não é foco da questão; além disso, ao fazer um exemplo desse “vaso de ira” que foi “preparado para (essa) a perdição” (v. 22), Deus executava um vasto propósito que não era só justo, mas predominantemente gracioso em relação a milhares e milhares de “vasos <le misericórdia, que para glória preparou de antemão”, como aprendemos no v. 23! É sempre importante distingüir entre a presciência e a predestinação divinas. Deus sabe antecipadamente o que cada homem irá fazer; mas Ele não predetermina tudo o que cada homem faz. Absolutamente não, isso íaria de Deus o autor do pecado! Deus previu que Esaú desprezaria o seu direito de primogenitura; que iaraó se mostraria perverso; que Moisés pecaria em Meribá, num acesso ilc raiva; que os israelitas se rebelariam em Cades-Barnéia; que Judas irairia o Senhor; que os judeus sacrificariam o seu Messias; mas nenhuma dessas coisas Deus predeterminou. Dizer que Ele agiu dessa forma, seria cnvolvê-lo na contradição condenável de predeterminar aos homens cometerem aquilo que Ele mesmo declarou ser pecado. Deus não predeterminou esses atos perversos da humanidade: mas os previu e predominou sobre eles, a fim de cumprir seus futuros propósitos. Mencionamos isto porque envolveu Esaú, Faraó e Moisés, todos eles citados por Paulo em Romanos 9. Duas coisas devem ser ditas enfática e particularmente sobre o Faraó: (1) Deus não o criou para ser um homem


perverso; (2) Deus não o criou para que sua alma fosse condenada. E, com alívio mental, digamos ainda que Deus jamais poderia criar homem algum para ser perverso ou condenado eternamente. “Há injustiça da parte de Deus? De modo nenhum!” Em Romanos, 9 não devemos ver um significado após-morte naquilo que é unicamente histórico. Moisés, devido ao seu pecado em Meribá, não pôde entrar na terra prometida; mas poderíamos de alguma forma argumentar que este castigo estendeu-se de alguma maneira à salvação de sua alma depois da sepultura? Milhares e milhares de israelitas morreram no deserto como resultado do episódio lamentável de Cades-Barnéia; mas as almas de todos se perderam depois da morte? Examine algumas das ofertas generosas e atos de dedicação mencionados anteriormente com relação a alguns deles! Capítulos 12 a 16 Sentimos não poder demorar-nos no grupo final de capítulos, que nos mostra como o evangelho atua sobre o comportamento. De acordo com o seu tema prático, todavia, eles são bastante diretos e dificilmente necessitam ser comentados a esta altura. AGORA - ALGUMAS PERGUNTAS 1. Quais são os dois grupos de nove epístolas e a razão de seus nomes? 2. Qual a relação especial das nove primeiras conosco como cristãos? 3. Qual a ordem tríplice das nove primeiras, correspondendo com um certo texto em 2 Timóteo? 4. Você sabe quais os nove aspectos distintos de Cristo nas nove epístolas às igrejas, respectivamente? 5. Quais as três partes principais da Epístola aos Romanos e as três subdivisões em cada uma delas? 6. Qual o versículo-chave em Romanos? Qual a doutrina predominante e (resumidamente) a verdade desenvolvida nos capítulos 1 a 8? 7. Quais os sete resultados da justificação pela fé, de acordo com os primeiros versículos do capítulo 5? 8. Os capítulos 9,10 e 11 ensinam que o indivíduo é predestinado para a condenação? Dê as razões de sua resposta.


A PRIMEIRA EPÍSTOLA AOS CORÍNTIOS (1) Lição nQ27


NOTA: Para este estudo, leia duas vezes a epístola inteira.

A FALIBILIDADE DOS MINISTROS Paulo contra Pedro emAntioquia A primeira grande lição que aprendemos em Antioquia é que grandes ministros podem cometer grandes erros. Pedro era, sem dúvida, um dos maiores no grupo de apóstolos. Todavia, aqui, esse mesmo Pedro, esse mesmo apóstolo, comete claramente um enorme engano. O apóstolo Paulo nos diz: “Resisti-lhe face a face” e acrescenta: “Porque se tornara repreensível...temendo os da circuncisão”. Ele afirma que Pedro e seus companheiros “não procediam corretamente segundo a verdade do evangelho”. Fala da sua “dissimulação” e conta que “o próprio Barnabé deixou-se levar pela dissimulação deles”, o seu antigo companheiro nos trabalhos missionários. Mas isto tudo tem como finalidade ensinar-nos que os próprios apóstolos, quando não escreviam sob a inspiração do Espírito Santo, às vezes podiam errar. Também nos mostra que os melhores homens são fracos e falíveis no momento em que não se encontram no corpo. A não ser que a graça de Deus os sustente, qualquer um deles pode desviar-se a qualquer tempo. Isso é, de fato, humilhante, mas também real. Os verdadeiros cristãos são convertidos, justificados e santificados. São membros vivos de Cristo, filhos amados de Deus, e herdeiros da vida eterna. Eles são eleitos, escolhidos, chamados e guardados para a salvação. Eles têm o Espírito. Mas não são infalíveis. J. C. Ryle, D.D.


A PRIMEIRA EPÍSTOLA AOS CORÍNTIOS (1) Tratar dessas duas cartas aos coríntios em dois estudos curtos é como tentar reter o oceano numa xícara de chá. Todavia, se quisermos respeitar as limitações que nos impusemos nesta série, esse é todo o espaço que nos cabe conceder-lhes. Embora não possamos preparar um mapa completo de navegação desses dois mares, é possível indicar as principais correntes marítimas, marcar os lugares onde a pesca é produtiva e fazer um gráfico tias mais ricas ilhas com seus leitos de pérolas valiosas. Em nosso exame das nove epístolas às Igrejas de Cristo (veja o estudo 127), salientamos que elas consistem de um quarteto, um trio e um par. As quatro primeiras coincidem, as três do meio também e finalmente as duas últimas. Nas primeiras quatro, a ênfase está em Cristo e na Cruz. Nas do meio ela se concentra em Cristo e na Igreja. Nas duas últimas ela está em Cristo e em sua Volta. Em cada caso, a ordem em que a verdade é apresentada corresponde com a das palavras em 2 Timóteo 3.16: Toda Escritura é inspirada por Deus e útil (1) para o ensino, (2) para a repreensão, (3) para a correção...” Nas primeiras quatro encontramos: doutrina em Romanos; repreensão cm Coríntios e correção em Gálatas. A repreensão sempre está ligada à prática errada. A correção tem a ver com a doutrina errada. A epístola aos Romanos estabelece a norma. As epístolas aos Coríntios expõem asfalhas. A epístola aos Gálatas ataca o erro. A distinção entre “doutrina”, “repreensão” e “correção” é, naturalmente, característica e não absoluta. Admitimos de imediato haver "doutrina” em todas as epístolas, desde que todas elas ensinam a verdade cristã. Todavia, a distinção mencionada acha-se realmente ali e deve ser devidamente apreciada. Por exemplo, em Romanos um tema é desenvolvido na forma de tese desde o início até o fim, enquanto em ( 'oríntios há uma variedade de tópicos provocados por repreensões ou respostas. Em Romanos, os pronunciamentos doutrinários são formais e didáticos; em Coríntios eles são apenas incidentais às respostas que Paulo está escrevendo aos pedidos e relatórios de Corinto. A epístola aos


Romanos é dogmática; as epístolas aos Coríntios são apologéticas. Por exemplo, em Romanos 3.27 encontramos a explicação doutrinária de que toda “jactância“ está excluída do plano da salvação em Cristo; enquanto em 1 Coríntios 1.29,31 isto reaparece de maneira puramente acidental, mas reprovando os que se “vangloriavam na presença de Deus”. Em Romanos 5.13 e 7.7-13, lemos novamente em forma doutrinária que “a força do pecado é a lei”; enquanto em 1 Coríntios 15.56 isto é introduzido quase incidentalmente para acentuar a perspectiva da vitória futura na ressurreição. Em Romanos 5.12-21, existe uma passagem notável, considerando doutrinariamente o contraste entre o primeiro Adão e o novo Adão (Cristo). Em 1 Coríntios 15.21, 22, 45 o mesmo contraste se repete, mas agora apenas como sendo incidental ao grande argumento e exortação relativos à ressurreição. Em Romanos 14.1-15.7, temos uma seção inteira dedicada a uma discussão geral da liberdade cristã em coisas discutíveis, girando ao redor do princípio de que ninguém sirva de “tropeço ou escândalo” ao seu irmão; enquanto em 1 Coríntios 8, encontramos o mesmo, mas apenas ligado a um aspecto especial e aplicado em forma de reprovação: “E deste modo, pecando contra os irmãos, golpeando-lhes a consciência fraca, é contra Cristo que pecais” (v. 12). Poderíamos continuar adiante, mas não ocuparemos espaço para novas ilustrações. Até o capítulo clássico sobre o amor, 1 Coríntios 13, é, na realidade, puramente incidental ao tratamento de Paulo quanto aos desajustes locais dos coríntios na questão do “falar em línguas”; e esse magnífico capítulo sobre o tema da ressurreição foi acrescentado como uma censura para alguns que estavam negando a mesma (1 Co 15.12, 35). Assim como existe algo solidamente satisfatório na maneira como as coisas são declaradas doutrinariamente em Romanos, há alguma coisa também emocionante no modo em que elas são relatadas em Coríntios. Tudo a enfatizar aqui é que a distinção entre as epístolas deve, durante todo o tempo ser cuidadosamente gravada na mente. Em Romanos, a verdade evangélica é estabelecida como doutrina a ser aprendida e recebida. Em Coríntios, ela é vista como verdade aprendida e mais tarde abandonada. Em Romanos temos a norma; em Coríntios aswè-norma; em Gálatas a afr-norma. Só precisamos ler uma vez esta primeira epístola aos coríntios para ver


que ela está, em sua maior parte, cheia de reprovação de erros na prática da vida cristã diária. São feitas censuras quanto a divisões, invejas, contendas (1-4); pecado sexual tolerado (5); litígio entre irmãos em Cristo (6); liberdades irrefletidas em práticas duvidosas (8); indagações queixosas sobre o apostolado de Paulo (9); desordens sociais e rituais nas reuniões públicas (11); erros no uso dos dons espirituais (14); atitudes erradas sobre a ressurreição vindoura (15).

Conteúdo e Análise Vamos examinar juntos a epístola com o propósito de preparar uma análise. Depois da introdução (1.1-9), a primeira coisa a ser notada é, infelizmente, uma manifestação de sectarismo (cismas) na assembléia — os que seguiam a Paulo, a Apoio, a Cefas (1.10-17). Os legalistas paulinos, sem dúvida, defendiam a liberdade do evangelho e exigiriam a supremacia do apóstolo como fundador da igreja. O grupo de Apoio correspondia ao dos intelectuais, empolgados pela eloqüência e aparente superioridade do notável expositor alexandrino que tanto brilhara entre eles desde a primeira visita de Paulo. O bloco de Cefas inclinava-se provavelmente para o judaísmo, gabando-se de Pedro como a voz autoritária dos apóstolos e da igreja-mãe em Jerusalém. Havia até mesmo um partido de “Cristo” reivindicando para si o Nome e dizendo, de maneira facciosa, “eu sou de Cristo”, sugerindo a inferioridade dos demais. Os nomes dos servidores públicos de Cristo e do próprio Senhor eram assim lançados uns contra os outros até que as tolas e, no entanto, sérias rivalidades chegaram a ameaçar uma divisão fatal na igreja. Nos capítulos anteriores, po rtan to, encontram os Paulo rcpreendendo-os por isso e mostrando como tudo estava completamente errado. No capítulo 1.18-31, ele mostra que as divisões que exaltam homens são erradas porque a salvação pela Cruz põe completamente de lado a soberania humana. A seguir, no capítulo 2, ele mostra que elas são erradas porque os professores humanos não passam afinal de “despenseiros”e o poder real é de Deus (veja especialmente 3.5,6,21; 4.1). Finalmente, nos capítulos 5 e 6, ele coloca os coríntios em posição


humilhante, enfatizando que tais “vanglorias” não passavam de pura zombaria, enquanto males flagrantes eram desculpados — incesto, processos judiciais, impureza! “E, contudo, andais vós ensoberbecidos”, diz ele, “e não chegastes a lamentar!” (v. 2). “Não é boa a vossa jactância...Lançai fora o velho fermento” (w. 6,7). “Para vergonha vo-lo digo” (6.5). “O só existir entre vós demandas já é completa derrota para vós outros” (6.7). O tema desses primeiros seis capítulos é REPREENSÃO — RELATIVA A DIVISÕES. Capítulos 7-15 O capítulo 7 indica claramente um novo desvio. Ele começa: “Quanto ao que me escrevestes...” A partir deste ponto, Paulo está respondendo a perguntas escritas. Devemos ser sempre gratos a Deus pelo fato de os coríntios terem escrito essa carta fazendo perguntas, visto que elas provocaram estas respostas inspiradas. Três membros bastante conhecidos na igreja de Corinto haviam viajado para Éfeso, onde Paulo trabalhava na ocasião, e dali ele escreveu sua resposta a Corinto (veja 16.8, 9). Eram eles Estéfanas, Fortunato e Acaico (w. 17, 18). Parece lógico deduzir que eles foram encarregados de levar a lista de perguntas. No capítulo 7, encontramos a resposta de Paulo relativa às questões do casamento e celibato. A seguir, nos capítulos 8-10, lemos as suas recomendações sobre certos tipos de carne considerados duvidosos por causa da sua associação com os ídolos. O tratamento dado por Paulo ao assunto é magistral, não havendo nem transigência nem provocação desnecessárias. Ele amplia sua resposta em vista do envolvimento de considerações sociais delicadas. Assim sendo, no‘capítulo 8, vemos o princípio que deve determinar a conduta (vs. 9.13); no capítulo 9, o exemplo do próprio Paulo; no 10, uma advertência das Escrituras (w. 1-22) e o foco da questão (10.23-11.1). Isto nos leva ao capítulo 11, onde temos uma resposta quanto à atitude de homens e mulheres na assembléia (w. 2-16) e ao comportamento geral das pessoas à mesa do Senhor (w. 17-34). Em seguida, encontramos três capítulos (12,13,14) sobre os “dons espirituais”. O tratamento ordeiro ou devido ensina que esses dons são dispensados pelo Espírito (12); que eles


são vazios sem o amor (13); e que a profecia é um dom superior (14). O capítulo 15 completa o todo com a resposta esclarecedora sobre a ressurreição dos santos no fim dos tempos. Os w. 1-19 associam-na com a ressurreição de Cristo. Os w. 20-34 descrevem a ordem e o resultado da mesma. Os w. 35-49 tratam do aspecto fisiológico da ressurreição. Os w. 50-58 descrevem antecipadamente a transformação que terá lugar na ocasião. Podemos enquadrar tudo isto agora numa análise simples, a fim de que a forma e a força da epístola possam ser vistas mais claramente e lembradas com maior facilidade.

A PRIMEIRA EPÍSTOLA AOS CORÍNTIOS JESUS CRISTO FEITO SABEDORIA A NÓS. Introdução 1.1-9

I. REPREENSÃO - RELATIVA A DIVISÕES (1-6). (Os coríntios estavam divididos e se vangloriando em homens — 1.12). Cap. 1 As divisões que exaltam homens (w. 10 —17) são erradas porque a salvação pela Cruz anula completamente a sabedoria humana (w. 18-31). 2 As divisões que exaltam homens são erradas porque a verdadeira sabedoria é concedida pelo Espírito e não pelo homem (w. 5-13). 3-4 As divisões que exaltam homens são erradas porque os mestres humanos não passam de despenseiros: o poder é de Deus (3.5,6, 21; 4.1). 5-6 Tais “vanglorias” (v. 2) são uma zombaria (v. 6), enquanto males flagrantes eram desculpados — incesto, processos judiciais, impureza! II. RESPOSTAS - RELATIVAS A PROBLEMAS (7-15) (Os coríntios escreveram a Paulo sobre os seus problemas 7.1). Cap. 7 Resposta sobre o casamento e o celibato. 8-10 Resposta sobre carnes sacrificadas a ídolos. O princípio (8); o exemplo de Paulo (9); advertência das Escrituras (10); a questão (10.23-11.1). —


11

Resposta sobre a atitude de homens e mulheres na assembléia (w. 2-16) e comportamento geral das pessoas à mesa do Senhor (w. 17-34). 12-14 Resposta sobre os dons espirituais. Concedidos pelo Espírito (12); vazios sem o amor (13); a profecia é o melhor dom (14). 15 Resposta relativa à ressurreição dos santos. Associação com a de Cristo (w. 1-19); a perspectiva (20-34); o corpo (w. 35-49); o “mistério” (w. 50-58). 16 Complemento

Nossas dificuldades tornam-se agudas neste momento; pois tendo examinado a epístola dessa forma, como trataremos agora, em meia dúzia de páginas, de um acúmulo tão grande de tesouros? Nós nos limitaremos a observações e elucidações aqui e ali, que podem contribuir proveitosamente para novos estudos.

Líderes e Rótulos Humanos Vamos aprender de uma vez para sempre quão fatal é a loucura do denominacionalismo faccioso e quão errado é apoiar-se em líderes humanos. Pense bem — quatro capítulos inteiros dedicados a lamentar e reprovar tal atitude! Veja como Paulo mantém indiscutivelmente os líderes e professores humanos no nível inferior, adequado e permitido aos mesmos. No capítulo 3.5, eles não são mais que “servos”; é o “Senhor” que “dá tudo ao homem”. No v. 6, eles não passam de “jardineiros”, é “Deus quem dá o crescimento”. Nos w. 10-15, eles são os “construtores”; mas Jesus é o fundamento”. No capítulo 4.1, são simplesmente “subordinados“ (auxiliares); enquanto Cristo é o Dirigente. Novamente, nesse mesmo versículo, são apenas “despenseiros”; o verdadeiro tesouro é “de Deus”. Ao que parece, os seguidores de Apoio eram os mais “ensoberbecidos” com as várias “divisões” entre os coríntios, sendo esta a razão porque Paulo fala mais dele do que de Pedro aqui. Mas note que, em toda a sua crítica do partido de Apoio, ele não escreve uma linha contra o próprio Apoio; não existindo qualquer sugestão, por mínima que seja, que possa refletir-se negativamente sobre a sua pessoa. As referências são todas positivas. E maravilhoso observar, em 1 Co 16.12, que Paulo não tinha inveja pelo fato de muitos de seus convertidos terem passado a admirar grandemente


Apoio, nem este se mostrava ansioso para promover a sua popularidade com uma nova visita ao local. Veja como no capítulo 3. 8, 9, Paulo diz que ele e Apoio são “um” e depois acrescenta: “Porque (nós) (i.e., Paulo e Apoio) de Deus somos cooperadores”. Quanta perversidade existe hoje na maneira como os pregadores evangélicos criticam uns aos outros! Isso nada faz senão prejudicar, além de deixar um gosto amargo na boca do caluniador. Essa é uma erva a

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Nosso lema deve ser: “Mate essa erva!” E os que são minisífos, missionários, pregadores, assistentes sociais, aprendem quão volúy^gnsjV. ouvintes podem ser! Paulo, tenha cuidado — Apoio vai seduzir-S^sT convertidos! Apoio, cautela — um professor melhor logo vká(1ígáinto! Deus nos guarde de tentarmos agradar apenas a home Jaós guarde de nos entusiasmar pelo aplauso da congreg ;ãg! Deosxrres^impeça de invejar os talentos uns dos outros! “Pois que áq^\V a£g$nressair? e que tens tu que não tenhas recebido?” (4.7) ^ v A Que o povo cristão aprenda a apreciar os áe@s>umanos talentosos sem colocá-los num pedestal. Sem dúvida, ffeh ps-flrimeiros dias da era cristã, professores e pregadores possWahikiarvárias qualidades, ênfases e maneiras de colocar as coisas, de mí^wque homens diferentes apelavam para mentes diferentes. I^íratóiente indiscutível, a adulação imoderada desses “ministros” imaturidade espiritual. O pior de tudo é quando eles são idolatrados de tal modo que Paulo, Apoio e Pedro são lançados um km&snckçjmro; no entanto, isto é o que geralmente acontece quando asf^ t apegam demais aos seres humanos. emmíque não haja lugar para as “denominações” como as que Protestantismo moderno. Cada uma de nossas denominações ai surgiu a fim de dar ênfase em certos componentes importantes érdade plena. Preferimos a diversidade exterior e a livre unidade espiritual do protestantimo evangélico a uma uniformidade obrigatória do catolicismo romano. Mas quando o denominacionalismo se transforma em preconceito enfatuado, gostaríamos que as denominações jamais tivessem nascido! Mesmo os mais simples dentre nós devem aprender a não se apoiar insensatamente nos líderes humanos. Devemos aprender deles, mas não apoiar-nos neles! Grave bem as palavras de Paulo no capítulo 4.6: “Para que por nosso (de Paulo e Apoio) exemplo aprendais isto:... a fim de que


EXAMINAI AS ESCRITURAS

ninguém se ensoberbeça a favor de um, em detrimento de outro”.

O Exemplo de Paulo Quando um líder cristão vive tão perto do Senhor que pode aconselhar seus ouvintes, dizendo: “Façam o que digo” e também “Façam o que/aço”, não pode haver maior impacto. O ideal de todo evangelista e pregador cristão deve ser que tal pregação e prática mantenham-se em primeiro nível. Paulo é um exemplo ilustre disto. Ele se refere a si mesmo repetidamente na primeira carta aos Coríntios, jamais causando embaraços, mas sempre casualmente, a fim de ilustrar ou enfatizar algum ponto da verdade; e como alguns desses exemplos pessoais nos desafiam! Ele escrevia a pessoas que o conheciam bem; todavia, no capítulo 4.16 afirma: “Admoesto-vos, portanto, a que sejais meus imitadores”, e de novo no capítulo 11.1: “Sede meus imitadores, como também eu sou de Cristo”. Paulo, como modelo, é um estudo compensador através de toda a epístola. Folheie novamente essas páginas, demorando-se em cada um dos dez pontos onde o seu comportamento exemplar brilha mais gloriosamente. Veja os seus pontos positivos: 1—Lealdade na mensagem, método e motivo 2—Firmeza nos alicerces e na construção 3—Fidelidade como depositário da verdade salvadora 4 —Tribulações suportadas por Cristo 5 —Consideração pelos irmãos mais fracos 6—Desistência dos direitos e privilégios devidos 7 —Autonegação para salvar almas 8—Autodisciplina no corpo e comportamento 9—Auto-restrição nas assembléias públicas 10—Auto-abnegação e gratidão ativa

2.1-5 3.10-23 4.1-6 4.9-16 6.12; 8.13 9.12-18 9.19-23 9.27-10.33 14.18-20 15.9-10


Paulo, o Pregador-Modelo Todas essas são ilustrações que podem manter nossos olhos em uma atitude de apreciação longa e firme. Ao observar mais de perto a primeira delas, como esta revela e seduz, como desafia e talvez nos repreenda a todos que somos mestres públicos da Palavra! Cada um de nós passa por duas crises obrigatórias, caso desejemos ser pregadores poderosos e atuantes. A primeira é intelectual; a outra espiritual. Ambas aparecem nos cinco primeiros versículos do capítulo 2, onde vemos Paulo como pregador-modelo. Eis a crise intelectual'. “Eu, irmãos, quando fui ter convosco, anunciando-vos o testemunho de Deus, não o fiz com ostentação de linguagem, ou de sabedoria. Porque decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado”. Por que Paulo renunciou à oratória e à filosofia justamente no momento em que poderiam ter parecido mais úteis? Foi por estar declarando o “testemunho de Deus”. O evangelho é ou não é um testemunho de DEUS. Caso seja, destacá-lo (supostamente) exibindo a arte ou a sabedoria humana seria como erguer uma vela para ajudar o sol, ou polir as estrelas, ou pintar as pétalas das primaveras! O evangelho é realmente divino em ordem e autoridade? Caso positivo, o intelecto e eloqüência humanos devem então ficar absolutamente subordinados a ele. Deve ser permitido que a própria mensagem divina opere e prove o seu poder. É então que surge a crise intelectual. Veja a palavra usada por Paulo: “Decidi”. Ela indica cogitação, luta mental e solução final do problema. Muitos entre nós necessitam de um conflito íntimo e de decisão firme. Assim, Paulo coloca-se completamente fora de cena: “Não o fiz com ostentação de linguagem, ou de sabedoria”. A seguir ele põe Cristo em primeiro lugar para encher o quadro: “Nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado”. Nem mesmo o Cristo da Cíaliléia é suficiente: deve ser o Cristo do Calvário. Eis a crise espiritual'. “E foi em fraqueza, temor e grande tremor que eu estive entre vós. A minha palavra e a minha pregação não consistiram em linguagem persuasiva de sabedoria, mas em demonstração do Espírito e de poder”. Não basta então ter a mensagem certa — excluindo toda exibição e permanecendo Jesus supremo; o método também precisa ser correto. O Cristo do Calvário deve ser pregado no poder do Pentecoste.


Não importa quão verdadeiro o sermão ou quão sincero o orador, não haverá efeito espiritual no ouvinte exceto através do Espírito Santo. E aqui onde surge a crise espiritual. Muitos que pregam a Cristo e estão corajosamente preparados para pregar até mesmo a “injúria da Cruz”, não estão prontos a desistir de sua própria maneira de fazer as coisas. Não deve haver, absolutamente, qualquer confiança em si mesmo, nem em nada humano. Este é um ponto delicado e talvez difícil de expressar com exatidão, trata-se todavia de algo básico para a eficácia espiritual. Pode haver lugar para as palavras cultas, a organização, a propaganda e outros meios; mas no momento em que se confia nessas coisas para se obterem resultados espirituais tudo desmorona. É preciso entrega total ao Espírito Santo. É isto que traz o que Paulo chama de “demonstração do Espírito e de poder”. O “poder” está no pregador. A “demonstração” no ouvinte. O Espírito Santo é a ligação invisível entre ambos; e só assim os efeitos espirituais vitais são obtidos. Paulo atravessara as duas crises — a intelectual e a espiritual. A mensagem era Cristo. O poder era o Espírito Santo. Note bem essas palavras francas e surpreendentes: “E foi em fraqueza, temor e grande tremor que eu estive entre vós” (2.3). Será de fato o intrépido Paulo falando? “Fraqueza” — “temor” — “tremor”! Que trindade de surpresas! Seria realmente esse tipo de pregador que impressionaria os coríntios carnais e amigos dos prazeres? É esse o tipo que impressionaria a você ou a mim? Foi justamente pelo fato de Paulo ter chegado ao fim de todos os recursos próprios que o Espírito Santo pôde realmente fazer uso de tudo que ele era! Como seria bom se houvesse mais dessa fraqueza, temor e tremor em nosso púlpito moderno — e mais resultados como esses! Qual o motivo por trás de tudo? Observe: “Para que a vossa fé não se apoiasse em sabedoria humana; e sim, no poder de Deus”. Foi este o homem a quem Deus usou tão poderosamente. Irmão pregador, obreiro cristão, leia de novo esse parágrafo — capítulo 2.1-5. Aprenda com mais cuidado o que a pregação do Pentecoste e apostólica realmente é. Guarde bem a mensagem, o método e o motivo verdadeiros, e pergunte depois a si mesmo: “Como eu me comparo com esta descrição de Paulo, o pregador-modelo?”


A PRIMEIRA EPÍSTOLA AOS CORÍNTIOS (2) Lição n2 28


NOTA: Para este estudo, leia novamente toda a epístola, com muito cuidado, verificando a análise dada no estudo precedente. O ministério exige uma auto-humilhação sobre-humana (4.9-13), pois os obreiros de Cristo na arena do tempo têm consciência de um pano de fundo misterioso de espectadores invisíveis, “porque nos tornamos espe­ táculo ao mundo, tanto a anjos, como a homens”. A arena da terra, onde este prodigioso drama da vida e da morte está sendo representado entre máquinas naturais e sobrenaturais, é como um teatro da cidade à plena luz do dia (“teatro” é a palavra grega usada para “espetáculo” aqui); tudo pa­ rece de fato poeirento, encardido e decepcionante ao último grau; mas acima dele acham-se colocadas, fileira após fileira, testemunhas invisíveis, um exército sublime, curvando-se para observar com atenção o combate entre a luz e as trevas, o pecado e a santidade, a fé e o fingimento, o sofri­ mento e o triunfo; “coisas essas que os anjos anelam perscrutar” (1 Pe 1. 12).

Que contraste entre os espectadores celestiais e os infelizes atores na arena! “temos chegado a ser considerados lixo do mundo, escória de todos” (1 Co 4.13). - C A . Fax Este pano de fundo misterioso de espectadores invisíveis parece ser, em grande parte, ignorado pelos obreiros cristãos de hoje; e a referência ao mesmo é geralmente tido como sentimentalismo ou invenção. Paulo, porém, tinha plena consciência da realidade desse fato. - J. S. B.


A PRIMEIRA EPÍSTOLA AOS CORÍNTIOS (2) O rio transbordou! Nossa intenção de fazer apenas um estudo de 1 Coríntios não pôde ser mantida! Podemos, no entanto, relutar em conceder a Paulo algumas páginas-extras como cristão exemplar e pregador-modelo? Esta epístola é com certeza um “oráculo vivo” contra erros fatais. Cada parte dela pulsa de energia, simpatia, interesse e relevância para nossos dias. Depois de ter estudado seu plano e objetivo geral, devemos agora examinar suas partes, fazendo uma pausa em cada uma, a fim de verificar sua importância.

O Evangelho e seu Ministério Quanto hforma, os seis primeiros capítulos são uma censura à divisão, mas quanto à substância constituem uma explicação emocionante do verdadeiro ministério evangélico, especialmente em relação à assembléia cristã local. Quais são a mensagem e o ministério do evangelho? A resposta de Paulo contém cinco elementos: 1. Sua insensatez para o mundo (1.18-31). Loucura da mensagem (w. 18-25). Loucura dos defensores (w. 19-31). 2. Sua operação no pregador e ouvinte (2.1-16). Poder através do pregador (w. 1-8). Revelação no ouvinte (w. 9-16). 3. Seus professores e a assembléia local (3.1-23). São colaboradores de Deus (w. 5-15). São dons para a assembléia (w. 16-23). 4. Seus ministros são responsáveis perante Deus (4.1-21). Os verdadeiros serão justificados (w. 1-7). Alguns fazem grandes sacrifícios (w. 8-21).


5. Sua exigência de santidade nos crentes (5-6). A assembléia deve expulsar a impureza (5). Não deve haver fraudes (dolo)! Não deve haver impurezas! (6) Todo o movimento atrai a atenção daqueles que se interessam pelas verdades vitais. Paulo admite prontamente a aparente loucura da mensagem (1.18-25): “Certamente a palavra da cruz é loucura para os que se perdem...aprouve a Deus salvar aos que crêem”. Logo, o ponto central é a Cruz, que, para o orgulho (grego) e preconceito (judeu) humanos, é “loucura”. As verdades deste evangelho ainda parecem loucura para as mentes deformadas dos que seguem os padrões mundanos. Elas são loucura devido à sua própria simplicidade; por serem oferecidas graciosamente tanto aos iletrados quanto aos intelectuais; por depreciarem as obras feitas por justiça própria, ofendendo assim o orgulho religioso; e porque uma cruz vergonhosa é um sinal de tamanha fraqueza que parece impossível ser o meio empregado pelo poder salvador divino. Também “loucura” para o mundo são os instrumentos do evangelho. “Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios, e escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes; e Deus escolheu as coisas humildes do mundo, e as desprezadas, e aquelas que não são, para reduzir a nada as que são” (v. 27). Essas são as cinco fileiras do exército do evangelho: as loucas, as fracas, as humildes, as desprezadas, as que não são! Não se trata de Deus não ter tido outra escolha. Ele prefere essas; pois assim toda vanglória humana fica excluída e toda a glória é de Cristo. Os “loucos” formam a primeira fila. Paulo, alegremente, tornou-se um deles (2.2; 4.10), embora naturalmente brilhante. Os “fracos” estão na segunda fila. Você tem estado pensando que é fraco demais para o serviço e testemunho cristão? Pois então é o recruta certo para este exército! Entre aqui, atrás dos “loucos” — que são tão loucos que não se envergonham de ficar na fileira da frente! Ou, se você não for suficientemente bom para colocar-se na segunda fila, entre junto com os “humildes”, os “desprezados” ou os “que não são”! O que é isso? Será esse o exército ridículo que recebeu ordens para avançar e destruir a linha inimiga? E a Cruz é sua única arma? Sim! pois oculta em seu exterior desprezível está a presença todo-vitoriosa de Cristo e o poder irresistível do Espírito Santo. Não há exército de midianitas que possa enfrentar este punhado de Gideões em armadura do Pentecoste. A


estatura de Golias reduz-se diante desse estranho e jovem Davi, à medida que a era cristã sobrepuja os calendários do mundo. Não se trata apenas de um caso de “diamante cortando diamante”; é o cordeiro matando o leão e a pomba mostrando-se mais sábia do que a serpente. Os fracos são os conquistadores invencíveis e o “maior dos pecadores” é o principal dos apóstolos! Cristo é tudo — “sabedoria” para loucos, “poder” para os fracos, “justiça, santificação e redenção” para os humildes, os desprezados e os que não são ninguém. Capítulo 3 Nós nos demoramos no capítulo 2 no estudo precedente e, portanto, não vamos examiná-lo aqui; mas note no capítulo 3 como as facções põem a perder a completa operação da verdade (w. 1-4). Observe também que os verdadeiros evangelistas e mestres cristãos não passam de servos do Senhor e de sua Igreja (w. 5-7); eles são cooperadores de Deus e não competidores (vv. 8-11); a obra deles será provada finalmente e recompensada ou exposta como condenada (w. 12-17); elas não devem ser objeto de vanglória, pois todas pertencem à Igreja, não sendo possuidoras desta (w. 18-23). Note cuidadosamente que as palavras no v. 15 — “Se a obra de alguém se queimar, sofrerá ele dano; mas esse mesmo será salvo, todavia, como que através do fogo” — fazem parte do parágrafo relativo aos obreiros cristãos. A salvação pessoal não é o tema, mas o teste final do serviço (v. 13). O v. 17 pode causar choque: “Se alguém destruir o santuário de Deus, Deus o destruirá". No grego, no entanto, a palavra traduzida como “destruir” é a mesma que “contaminar”, na oração anterior. O fato de que não se trata de destruição no sentido de condenação parece claro em vista de outras referências (1 Co 15.33; 2 Co 7.2; 11.3). O assunto continua sendo sobre mestres e obreiros na Igreja e não sobre pessoas de fora. Leia o versículo: “Se alguém causar dano ao santuário de Deus (/.e., à igreja local — v. 16), Deus fará com que este (i.e., esta obra, ou este homem) venha a sofrer dano”.


1 Coríntios 5.5 Alguém com certeza perguntará a respeito da frase de Paulo no capítulo 5: “Entregue a Satanás para a destruição da carne, a fim de que o espírito seja salvo no dia do Senhor Jesus”. Este versículo é a continuação gramatical direta das palavras “havemos de julgar” no v. 3. Paulo não estava pedindo a eles que julgassem, mas simplesmente para que executassem o que ele, um apóstolo inspirado, havia julgado. Os apóstolos eram um grupo de homens inspirados e com autoridade que estavam numa categoria especial, exigida para uma época específica (veja o capítulo 1 em meu livro Stuãies in Problem Texts). Eles não deveriam ter “sucessores”, da mesma forma que os escritos do Novo Testamento, agora completos, não devem ter acréscimos apócrifos. Esses homens eram mestres peculiarmente autorizados, com uma autoridade delegada estritamente aos mesmos. Não podemos fazer o que Paulo fazia mediante essa autoridade de que fora investido e através de sua percepção sobrenatural. Todavia, o incidente mostra qual deve ser a nossa atitude em relação ao pecado entre os crentes. Além do mais, era o corpo que devia ser entregue — e para uma finalidade corretiva misericordiosa, a saber, “a fim de que o espírito seja salvo”, i.e., disciplinado para a salvação mediante castigo físico. O termo grego traduzido aqui como “destruição” em lugar algum significa “aniquilação”. O mesmo tipo de entrega ocorre em 1 Timóteo 1.20. (Veja também Lc 13.16 e 2 Co 12.7.) Vemos realmente a sugestão de que o versículo aprova a “Inquisição” católica romana! Absolutamente não! Essa iníqua inquisição tinha a ver com a chamada heresia (que era realmente a verdade pura do evangelho), enquanto em 1 Coríntios 5.5 a disciplina refere-se evidentemente à imoralidade culpável. Além disso, a entrega foi a Satanás como o agente de castigo, o que dificulta bastante o paralelo com a igreja romana e suas câmaras de tortura diabólicas! . Não devemos esquecer de associar este versículo ao seu contexto. Note como o capítulo começa: “Geralmente se ouve”. A palavra para “se ouve”, aqui, indica que Paulo ainda está ocupado com o que lhe fora transmitido oralmente (1.2). O apóstolo não começara ainda a responder às perguntas escritas que os coríntios lhe haviam enviado (7.1). Antes de cuidar de suas perguntas, era preciso censurar seus conflitos e faltas vergonhosas. Os


capítulos 5 e 6 pertencem então aos quatro primeiros. Eles tinham o propósito de mostrar quão profundamente ridícula (assim como pouco espiritual) era toda a vanglória partidária enquanto a imoralidade doméstica (5), as fraudes nos negócios (6.1-8) e a impureza social (6.9-18) desfiguravam a comunhão. Mas os dois capítulos (como mostramos) também fazem parte da exposição de Paulo sobre o evangelho e seu ministério. O propósito dos mesmos é enfatizar que o evangelho de Cristo não tolera absolutamente qualquer concessão ao que é imoral e indigno. Corinto não era um lugar fácil onde tais lições podiam ser aprendidas. A Corrupção de Corinto É apenas justo lembrar que os convertidos de Corinto haviam nascido e crescido em um ambiente vil e corrompido ao mais alto grau. Veja a seguinte descrição de Corinto. “Entre as grandes cidades provinciais do império, Corinto era a mais central, sendo afetada por todas as influências da época. Plantada em solo grego, era uma colônia romana, fundada novamente por Júlio César em 46 a.C., a sede do governo romano e do comércio grego. A cidade era conhecida por sua devassidão. Ali, a imoralidade havia se transformado em religiosidade, e os ‘idólatras de Corinto’ são adequadamente contados entres os ‘impuros’ e os ‘adúlteros’ (6.9). Os convertidos de Paulo em Corinto foram removidos do mais fundo poço de pecado (6.9-11). Nem mesmo em Antioquia ele vira a condição do mundo gentio — seu orgulho e poder, sua sabedoria ilusória, sua completa depravação — exposta com tanta clareza.” Podemos imaginar muito bem como Paulo deve ter-se sentido confuso e doente diante desse imenso charco de sensualidade refinada e erotismo grosseiro; os rituais obscenos da idolatria e as “religiões” aviltantes para' a alma que tornavam meritória a imoralidade com animais; o orgulho da (suposta) “sabedoria” grega e a absoluta corrupção de tudo. Em toda a Bíblia não há uma descrição mais terrível do pecado e da degradação humana do que o primeiro capítulo da epístola de Paulo aos romanos — e ele foi escrito em Corinto\ Dizemos então que é apenas justo lembrar a educação e o ambiente daqueles prim eiros convertidos de Corinto. Eles haviam sido sinceramente conquistados para Cristo e formaram uma igreja local.


Passaram a adorar o Deus vivo e verdadeiro, abandonando a sua idolatria anterior. Mas não podiam livrar-se em dez minutos de tudo que estava arraigado neles, nem das condições sociais e seduções que os rodeavam. Atualmente, os missionários falam do mesmo problema entre os convertidos em regiões pagãs. Todavia, esses convertidos devem aprender imediatamente que o evangelho não irá tolerar transigências. É preciso haver um afastamento total. Este é o significado de 1 Coríntios 5 e 6. O Espírito Santo fica entristecido e contrariado na assembléia que deixa penetrar o pecado. “O santuário de Deus, que sois vós, é sagrado” (3.17). Nós, cristãos do século vinte, podemos julgar-nos muito distantes daqueles primeiros irmãos em Cristo; todavia, existem repetidamente e sob a superfície aparente, problemas igualmente sérios em muitas assembléias cristãs de nossos dias, à semelhança daqueles pelos quais Paulo censurou os coríntios. O Espírito Santo fica entristecido; seus ministérios de graça sobrenatural ficam frustrados e a impotência e morte espiritual passam a imperar.

Alguns Pontos Problemáticos (7) O capítulo 7 apresenta várias interrogações para diversos leitores novos. Muitos versículos parecem lançar dúvidas sobre a inspiração sobrenatural de Paulo e outros referem-se ao casamento de maneira bastante estranha. Um ou dois comentários a respeito podem ser úteis. No v. 6, Paulo diz: “Digo, porém, isto como que por permissão e não por mandamento” (Ed. Revista e Corrigida da Imprensa Bíblica Brasileira) — como se ele tivesse apenas uma simples permissão para escrever isso. O versículo deveria conter a redação: “E isto vos digo como concessão e não por mandamento...”, isto é, ele deixa os detalhes da vida deles, quer casados ou solteiros, às suas próprias consciências como cristãos e não ordenará que façam isto ou aquilo. (Esta segunda forma é a apresentada na Ed. Revista e Atualizada.) No v. 10 ele diz: “Ora, aos casados, ordeno, não eu, mas o Senhor...”Dois versículos depois, ele acrescenta: “Aos mais, digo eu, não o Senhor”. Ele simplesmente quer dizer que, no primeiro caso, a regra para os casados fora pronunciada pelo próprio Senhor Jesus (Mt5,31,32; 19.5-9; Mc 10.11;


Lc 16.18), enquanto no último caso, i.e., maridos e mulheres cristãos cujos cônjuges continuavam pagãos, nada fora dito a respeito por Ele. Um exemplo semelhante ocorre no v. 25. Evidentemente houve muitos casos assim, sobre os quais o Senhor não tivera ocasião de falar, mas Ele fez provisão para os mesmos ao enviar o Espírito Santo que, daí em diante, guiaria seus seguidores. A própria maneira com que Paulo fala no v. 12 revela sua consciência da inspiração e autoridade apostólica. À medida que-a fé cristã ultrapassava as fronteiras judias, surgiam inevitavelmente muitos casos desse tipo nas sociedades gentias que exigiam orientação com autoridade, a qual só um apóstolo inspirado poderia dar. O fato de Paulo estar convicto dessa inspiração sobrenatural é confirmado pela última sentença do capítulo, que, infelizmente, tem uma leitura um tanto hesitante em nossa versão de Almeida Revista e Atualizada. Transponha o “também” e leia então o versículo: “E penso que também eu tenho o Espírito de Deus” (i.e., como os demais que afirmam possuí-lo). Paulo tinha confiança nisso. Incidentalmente, este versículo é notável para mostrar como a inspiração divina mistura-se ao raciocínio humano, guiando-o, protegendo-o, mas jamais afogando a sua individualidade. O que dizer agora sobre essas referências aparentemente embaraçosas em relação ao casamento nos versículos 8, 9, 14, 28, 32-34, 37-40? A resposta é que a passagem inteira deve ser lida de acordo com o v. 26: “Isto é bom para a angústia presente". Talvez, da mesma forma que alguns tradutores mais recentes, deveríamos ler: “a angústia iminente”. O apóstolo, sem dúvida, advertira-os do perigo futuro. A primeira das terríveis perseguições anticristãs de Nero estava para chegar. A profecia do Senhor sobre a “grande tribulação” precursora de seu segundo advento também deveria estar na mente de Paulo — pois a volta era considerada iminente. Paulo não sabia que essa volta achava-se a séculos de distância; mas isso de forma alguma prejudica suas palavras; pois o Espírito Santo que o inspirou sabia deste fato e de que também haveria uma “angústia” iminente para aqueles primeiros cristãos. As palavras de Paulo foram então irrefutáveis e oportunas, como se a volta do Senhor estivesse para acontecer; enquanto elas, ao mesmo tempo, dão orientação a nós, sobre quem o fim dos séculos logo virá. Neste capítulo sete devemos ter o cuidado de distinguir entre o temporário e o permanente, entre o local e o geral. Todos os conselhos do


apóstolo mostram simpatia em vista da “angústia iminente”, mas alguns estão ligados às circunstâncias de um lugar e de um tempo que já passaram. Isto não significa que não tenham nada a dizer para nós hoje, pois envolvidos em todos eles acham-se princípios de aplicação permanente.

Carnes, Liberdades, Pedras de Tropeço, Irmãos Mais Fracos! Os capítulos 8,9 e 10 estão ligados e são uma resposta às indagações dos coríntios com respeito à possibilidade de comerem carnes oferecidas aos ídolos. De fato, na língua em que Paulo escreveu, quase todas as seções de respostas são destacadas pela conjunção “peri” (acerca de, quanto a, com respeito a, no que se refere a): 7.1: 8.1: 11.2: 12.1: 16.1:

“Quanto ao que me escrevestes...” (casamento). “No que se refere às coisas sacrificadas a ídolos...” “De fato eu vos louvo...” (ordenanças). “A respeito dos dons espirituais...” “Quanto à coleta...”

Esta questão das carnes oferecidas aos ídolos parece muito distante de nossas circunstâncias? Não. Ela nos afeta de perto, pois envolve toda a questão da liberdade cristã em casos duvidosos e o assunto seguinte, que é o da auto-submissão. Os judeus haviam conhecido este problema da carne muito antes de ele surgir para os cristãos gentios. Onde quer que os judeus vivessem tinham de ter seus próprios açougueiros, treinados em todos os regulamentos que decidiam sobre carne pura e impura. Eles só podiam comer o que estava marcado com um selo de chumbo, onde se lia: “Legal”. Com base em textos como os de Êxodo 34.15 e Números 25.2, era-lhes absolutamente proibido comer carnes oferecidas a ídolos. Um ensino rabínico proibia o judeu até de comparecer a um funeral gentio, ainda que levasse sua própria comida, para que não bebesse inadvertidamente de um barril do qual uma taça tivesse sido tirada para derramar um pouco da bebida em homenagem aos deuses gentios.


No entanto, os cristãos gentios tinham agora um problema semelhante. Grande parte da carne nos mercados era constituída por restos (i.e., depois dos sacerdotes terem tirado sua parte) dos animais mortos como sacrifícios. Isto se generalizara tanto que quase não se podia distinguir com certeza se as carnes haviam sido oferecidas ou não. Se era errado comprar as primeiras, depois de serem misturadas com todas as outras carnes nos mercados, então um problema ainda mais complexo acabara de surgir. Além do problema de comprar para a própria família, o que dizer das refeições sociais com amigos e parentes não-cristãos e que serviam carne que talvez tivesse sido primeiro oferecida aos ídolos? E os cristãos pobres, para quem as festas públicas associadas com os deuses talvez fossem a única oportunidade de comer carne? Em vez de ser insignificante, a questão era grande e delicada. Ela se tornava ainda mais difícil em vista de aquele histórico principal sínodo cristão em Jerusalém ter decidido, alguns anos antes: “Pois pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não vos (aos gentios) impor maior encargo além destas coisas essenciais: Que vos abstenhais das coisas sacrificadas a ídolos, bem como do sangue da carne de animais sufocados e das relações sexuais ilícitas; destas coisas fareis bem se vos guardardes (At 15.28, 29). Paulo trata da questão com simpatia, sinceridade e perspicácia evidentes. Ele mostra imediatamente (8.1) a necessidade de distinguir entre “conhecimento” e “amor” ao decidir nossa conduta. “O saber ensoberbece (a nós mesmos), mas o amor edifica (nossos irmãos)” (1 Co 8.1). Paulo concorda imediatamente (w. 4-6) com aqueles que passaram agora a ver que “não há senão um só Deus”, que “o ídolo de si mesmo nada 6” e que a carne não é afetada de modo algum por suas associações cerimoniais. Todavia, embora admita o direito cristão para isso, ou seja, de considerar os vários tipos de carne com imparcialidade (e claramente recomendar tal coisa mais tarde - 10.25), ele também proíbe o abuso desta liberdade, a fim de que ela não venha a ser uma pedra de tropeço para os crentes mais fracos. Por terem sido idólatras até então, eles ainda não haviam conseguido se livrar de sua ligação mental das carnes com os ídolos (w. 7-9); e, certamente, ele estabelece limites para a freqüência às festas nos templos idólatras (w. 9-12). Ser visto reclinado nos banquetes


dos templos de Afrodite ou Poseidom seria como “se encurvar na casa de Rimom” (2 Rs 5.18), o que esticaria demais a liberdade cristã e conduziria, sem dúvida, a uma interpretação errada. Ao “ferir” assim as consciências cristãs mais fracas, eles cometiam “pecado” contra Cristo (v. 12). Assim, no v. 13, Paulo enuncia o princípio básico: “E por isso, se a comida serve de escândalo a meu irmão, nunca mais comerei carne, para que não venha a escandalizá-lo”. Em lugar de uma atitude superior, do tipo “sei mais do que você”, que ensoberbece a pessoa, o amor triunfa em consideração amável e ajuda a edificar o irmão ou irmã mais fraco na fé. Cinco vezes nesses três capítulos, o princípio de consideração pelo irmão mais fraco é expresso. (8.9,13; 9.19-23; 10.24; 10.29). O exemplo do próprio Paulo é dado no capítulo 9. Que exemplo — avAmegação (w. 1-18), mto-anulação (w. 19-23), mtodisciplina (w. 24-7)! Tudo isso foi feito por amor aos outros (w. 18, 22, 27). Através de um lindíssimo paradoxo, esta auto -submissão torna-se auto-realização. Ela purifica, simplifica, unifica, amplifica e glorifica a vida! E prova ricamente as palavras do Mestre: “Quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; e quem perder a vida por minha causa, achá-la-á”! (Mt 16.25) Note 9.24: “Os que correm no estádio, todos, na verdade, correm, mas um só leva o prêmio. Correi de tal maneira que o alcanceis”. Isso talvez pareça sugerir uma competição em que cada um cuida de si em lugar de ter consideração pelo irmão mais fraco. Mas, não se trata disso, o pronome usado é plural (“vós”, oculto em português). “Corram então, para que todos possam vencer!” O capítulo 10 oferece um exemplo de advertência do antigo Israel (w. 1-22); a seguir vem o ponto de toda a discussão (w. 23-33); e a seção termina com uma repetição exortativa do princípio geral: “Portanto, quer comais, quer bebais, ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus. Não vos torneis causa de tropeço nem para judeus, nem para gentios, nem tão pouco para a igreja de Deus” (10.31,32).


A Mulher: A Mesa do Senhor (11) Como as palavras de Paulo sobre a mulher em relação ao marido e à assembléia pública de cristãos foram lamentavelmente mal intepretadas! Vamos aprender de uma vez para sempre, neste capítulo onze, versículo 5, que as mulheres certamente “profetizaram” (i.e., pregar ou ensinar, edificar, exortar, consolar, sob a direção do Espírito Santo) naquela primeira igreja. As palavras “Toda mulher, porém, que ora, ou profetiza” indicam que se tratava de algo geral. A preocupação de Paulo neste trecho é unicamente explicar que o que elas usavam nessas ocasiões públicas deveria estar de acordo com a preservação da verdadeira dignidade feminina. A própria “autoridade” (v. 10) que ela deveria usar na cabeça (alguma forma de adorno em moda, algo apropriado), em lugar de pretender salientar a inferioridade e submissão, era aquilo que protegia seu direito de falar. Referir-se a esse item como “véu” não é confirmado pelo contexto; embora até mesmo o véu usado pelas mulheres em algumas regiões orientais possa ensinar-nos o significado da cobertura para a cabeça à qual Paulo se refere. Sir W. M. Ramsay, em seu livro The Cities of St. Paul (“As Cidades de São Paulo”), diz: “Nas terras do Oriente o véu é o poder, a honra e a dignidade da mulher. Com o véu na cabeça ela pode ir a qualquer parte em segurança e profundo respeito. Ela não é vista; é sinal de péssima educação olhar para uma mulher de véu na rua. Ela está sozinha. As outras pessoas não existem para ela, assim como ela também não existe para as demais. Ela é suprema na multidão, passando por onde quer e um espaço deve ser aberto à sua passagem. O homem que fizesse qualquer coisa para molestá-la ou aborrecê-la iria pagar caro por isso numa cidade oriental e, talvez, até perdesse a vida. Mas, sem véu, a mulher toma-se insignificante e qualquer um pode insultá-la.” O Professor Ramsay acrescenta: “O ensino de 1 Coríntios 11.10 é que o uso do véu era o sinal da autoridade da mulher para orar e profetizar na igreja de Corinto. O que dizer então do capítulo 14.34-37: “Conservem-se as mulheres caladas nas igrejas”? Seria possível que Paulo se contradissesse tão depressa e tão seriamente? Lembre-se de que ele está aqui respondendo às perguntas que os coríntios haviam feito por carta. Por que eles levantaram o assunto? Não é difícil achar a razão. Havia na primeira igreja um partido judaizante procurando impor ritos e regras do judaísmo à fé


cristã. Desde o conflito vitorioso de Paulo com Pedro em Antioquia (G1 2.11-21), sua luta solitária mas poderosa em prol da liberdade do evangelho, livrando-o do legalismo judaico, havia sido contestada por esses judaizantes. Eles seguiram Paulo nas igrejas por ele fundadas e fizeram o possível para destruir sua autoridade, afirmando representar uma forma superior de cristianismo apoiada pelo poder do apostolado de Jerusalém. Esses homens mantinham o conceito judaico comum sobre a mulher e Paulo está respondendo às suas declarações em 1 Coríntios 14. As sentenças dos w. 34 e 35 fazem parte da lei oral, ou tradição dos anciãos, que era o arsenal dos judaizantes. Paulo cita-os, a fim de repudiá-los. Por isso acrescenta: “Porventura a palavra de Deus se originou no meio de vós, ou veio ela exclusivamente para vós outros?” (v. 35) Será que colocariam esse ensino acima do dele? “Se alguém se considera profeta, ou espiritual, reconheça ser mandamento do Senhor o que vos escrevo” (v. 37). Paulo é o defensor da libertação da mulher e é trágico que tenha sido tão mal interpretado. Seu modo de tratar da liderança do marido no capítulo 11 é tão magistral como muitas vezes mal compreendido. Ele não ensina que o homem é o cabeça da mulher, mas que o marido é o cabeça da esposa — pois esse é o significado das palavras “homem” e “mulher” no v. 3. A liderança é conjugal, doméstica, econômica, mas não por natureza; pois o v. 11 acrescenta: “No Senhor, todavia, nem a mulher é independente do homem, nem o homem, independente da mulher”. A liderança aqui se compara àquela entre o Pai e Cristo, que são iguais em sua natureza. Todos os conselhos de Paulo neste capítulo são proteções e não algemas para a mulher cristã! Escrevemos estas palavras com profundo sentimento, pois sabemos quantos problemas e sofrimentos foram infligidos sobre mulheres santas devido a interpretações erradas.

Os Dons Espirituais (12-14) Nos últimos tempos, certos movimentos evangélicos entusiasmados deram tanto valor ao “falar em línguas” que devemos examinar novamente com cuidado esses capítulos sobre os “dons espirituais”. Alguns ensinam que esses dons são concedidos a todos os crentes e que devem estar em


plena manifestação atualmente. Os crentes são aconselhados a buscarem até receber o “batismo do Espírito Santo” que confere (conforme dizem) esses dons sobrenaturais. Nós já ouvimos isso sendo pregado a audiências grandes e interessadas, explicando que o sinal de ter recebido o “batismo” é o falar em línguas; e os ouvintes foram exortados a não descansar até que, ao falar em línguas, eles tivessem a evidência do seu “batismo”. Este interesse nos dons, especialmente os de línguas e de cura, é considerado como espiritualidade superior, uma espécie de “ir até o fim com a palavra de Deus”. Existem muitos indivíduos sinceramente espirituais e de excelente caráter nesses movimentos; mas, por outro lado, milhares de cristãos foram levados a uma escravidão penosa ou a uma confusão, e houve muitos casos (alguns dos quais vimos e ouvimos pessoalmente) onde o falar em línguas era dos demônios e não do Espírito Santo. Com esses três capítulos diante de nós, vamos observar devidamente os seguintes fatores: (1) Este pequeno trecho das Escrituras é o único lugar em todas as epístolas, de Romanos a Apocalipse, onde o dom de línguas é mencionado — o que indica seu valor relativo! (2) A única igreja à qual Paulo diz: “não vos pude falar como a espirituais; e, sim, como a carnais, como a crianças em Cristo” (3.1-4) é aquela que estava fazendo muito alarde dessas manifestações mais efusivas — o que indica que o falar em línguas pode estar associado a uma condição espiritual fracal (3) Em cada uma das três listas de dons (12.8-10, 27-8,29-30), Paulo coloca o falar em línguas no fim, embora a ordem dos demais varie — o que salienta sua menor importância entre os dons. (4) O capítulo 12.8-10 diz: “Porque a um é dada, mediante o Espírito, a palavra da sabedoria; e a outro...a palavra do conhecimento; a outro... fé... a outro... variedade de línguas” — o que, juntamente com o v. 30, mostra que as “línguas” não são concedidas a todos. (5) Na passagem onde Paulo trata especialmente com o falar em línguas (14.1-28) é notável que cada menção compara-o desfavoravelmente com a “profecia” (i.e., falar na própria língua para edificação) ou acrescente uma palavra de precaução! (6) Para os que desejam falar em línguas ele diz: “Irmãos, não sejais meninos” (12.20). Mesmo quando concorda tratar-se de um “sinal” para os incrédulos (v. 22) adverte de sua incapacidade (v. 21). Verso após verso


ele mostra que o dom é de pouco ou nenhum benefício na assembléia (w. 2,4,5,6,9,16,19,22,23,28). Sua mais alta recomendação é simplesmente negativa, onde, no final de cada parte, ele conclui: “Portanto, meus irmãos, procurai com zelo o dom de profetizar, e não proibais o falar em outras línguas” (v. 39) — i.e., enquanto as ordens anteriores forem observadas. O movimento dos três capítulos é o seguinte: “ACERCA DE DONS ESPIRITUAIS” 1. O Espírito distribui-os como lhe apraz (12). Diversidade de dons, mas um só Espírito (w. 4-11). Diversidade de membros, mas um só corpo (w. 12-27). Diversidade de serviço, mas uma só igreja (w. 28-31). 2. Eles são inúteis sem amor (13). A absoluta necessidade do amor (w. 1-3). A excelência moral do amor (w. 4-7). A supremacia permanente do amor (w. 8-13). 3. O maior deles é a profecia (14). Ela edifica mais a Igreja (w. 1-22). Ela convence mais os de fora (w. 23-28). Seu uso deve ser feito com ordem (w. 29-40).

O Capítulo da Ressurreição No final desta epístola interessante, o capítulo mais longo de todos é dedicado ao assunto da ressurreição vindoura. Trata-se, de fato, da passagem mais comprida sobre esse tema na Bíblia e ela pode ser perfeitamente chamada de Magnificai da ressurreição cantado pela Igreja. Ele sobe, passo a passo, como os degraus gloriosos que davam acesso ao templo de Salomão dedicado ao Senhor. O qual, quando a rainha de Sabá o viu “ficou como que fora de si” (2 Cr 9.4). Degrau por degrau ele sobe, até que nos próprios céus desvenda o “mistério” daquela trasladação final dos santos, em que a morte perdeu definitivamente o seu aguilhão e a sepultura foi roubada de sua vitória para sempre! Passamos tanto dos limites marcados neste estudo que não podemos nos


demorar neste capítulo importante. Vamos simplesmente destacar os seguintes pontos como dignos de menção especial. Primeiro: note que o evangelho de Paulo começa com a Cruz. (w. 3,4). Cristo não é simplesmente o Exemplo perfeito, mas é um Cristo crucificado; só Ele é o nosso SALVADOR. Segundo: deixemos os w. 35-42 nos mostrarem que não existe dificuldade fisiológica sobre a ressurreição. “Não semeais o corpo que há de ser, mas o simples grão”. O que surge não é a semente original, mas algo inseparavelmente ligado à semente enterrada. Nossos corpos ressurretos serão semelhantes em estrutura, mas não idênticos em textura, a estes corpos mortais que hoje possuímos. Nem o sepultamento nem a cremação, nem a amputação dos membros, nem a completa desintegração de partes apresentarão qualquer problema para o Senhor onisciente e onipotente que irá revestir seu povo remido com seus corpos ressurretos. Terceiro: observe os sete aspectos de transição dessa ressurreição vindoura: 1. Semeia-se em “corrupção”; ressuscita na “incorrupção”. 2. Semeia-se em “desonra”, ressuscita em “glória”. 3. Semeia-se em “fraqueza”, ressuscita em “poder”. 4. Semeia-se em “corpo natural”, ressuscita “corpo espiritual”. 5. Semeia-se corpo “terreno”; ressuscita corpo “celestial”. 6. Semeia-se corpo de “carne e sangue”; ressuscita corpo “transforma­ do”. 7. Semeia-se corpo “mortal”; ressuscita corpo “imortal”. Quarto: Note os dois “todos” no v. 51. O segundo dos dois certamente anula a idéia de um arrebatamento parcial. Acreditamos que, na consumação vindoura, todos os membros de Cristo comprados pelo sangue e nascidos do Espírito terão a sua parte. Como é característico de Paulo transformar imediatamente a doutrina elevada em desafio espiritual! “Portanto, meus amados irmãos, sede firmes, inabaláveis, e sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que, no Senhor, o vosso trabalho não é vão” (v. 58).


A SEGUNDA EPÍSTOLA AOS CORÍNTIOS Lição n2 29


NOTA: Para este estudo, leia duas vezes a epístola. ACERCA DOS JUDAIZANTES Paulo Censura a Pedro emAntioquia Esta foi uma época muito importante na história apostólica. Todo o futuro do cristianismo achava-se envolvido nela. A contenda havia irrompido em Antioquia, o centro e cidade-mãe das igrejas gentias, onde Barnabé e Paulo, seus dois grandes fundadores, haviam trabalhado sete anos lado a lado; e todo o grupo dos cristãos judeus liberais dali, assim como “o próprio Barnabé” foram “levados” pelo movimento judaizante. Acima de tudo, “Cefas” também emprestara seu nome ao mesmo, ele que era o homem mais reverenciado e influente em toda a Igreja. Tudo isso tornou o fato perigoso e de extrema gravidade. Sozinho, Paulo resistiu a toda força e peso da opinião judaica. Sua acusação convenceu Pedro da “dissimulação” envolvida e fê-lo voltar aos seus princípios antigos e superiores. Mas o erro do apóstolo judeu, cometido tão abertamente e tão bem calculado para encorajar o partido legalista, não podia deixar de ter conseqüências desastrosas. Eles começaram a introduzir a guerra no campo do inimigo. Infiltraramse nas igrejas paulinas, onde, sem dúvida, encontraram simpatizantes en­ tre seus conterrâneos e colocaram em ação todas as possíveis forças para destruir a autoridade do apóstolo gentio, para envenenar a mente de seus convertidos e impor os princípios de seu próprio judaísmo sobre a fé que os crentes gentios haviam recebido de seus lábios. Além de todos os ou­ tros perigos e provações, o apóstolo achava-se agora “em perigos entre fal­ sos irmãos” (2 Co 11.26). - G, G. Findlay


A SEGUNDA EPÍSTOLA AOS CORÍNTIOS Embora outras epístolas de Paulo possam ser mais profundas, dificilmente alguma possa ser mais preciosa do que esta, em que Paulo, pela segunda vez, abre seu coração aos coríntios. Ela foi escrita com uma pena molhada em lágrimas, por causa da “angústia do coração” do apóstolo, e contém mais tragédia humana do que qualquer de suas outras cartas. Todavia, um belíssimo arco-íris brilha através dela, pois em sua grande aflição e profundo desapontamento ele está descobrindo cada vez mais que “o Pai de misericórdias” é o “Deus de todo consolo”, e que a força do Mestre celestial é aperfeiçoada na fraqueza de seu servo. Para que todo o peso dessa carta possa registrar-se em nossa mente, devemos vê-la no contexto das perturbações e pensamentos que foram sua causa. Como vimos, a primeira carta de Paulo a Corinto foi escrita em Éfeso (1 Co 16.8). Logo depois, ele foi obrigado a fugir por causa do motim de fanáticos instigados pelos fabricantes de nichos de Artêmis (Diana). De Éfeso, ele seguiu para Trôade, cruzando a nordeste do mar Egeu, a fim de visitar novamente as igrejas que fundara na Macedônia e depois viajou outra vez em direção ao sul, para Corinto, na Acaia (At 20.1, 2). Chegou finalmente a Corinto e permaneceu ali três meses (At 20.3), mas no intervalo entre a saída de Éfeso e a chegada a Corinto, ele escreveu esta outra carta, possivelmente de Filipos, e sob circunstâncias profundamente perturbadoras.

A Hora Negra de Paulo Tito, seu valoroso ajudante, deveria encontrá-lo em Trôade, com um relatório ansiosamente esperado sobre os acontecimentos em Corinto, inas ele não apareceu (2 Co 2.13), o que acentuou a preocupação de Paulo. A decepção, os maus presságios e a doença física, tudo isso caiu juntamente sobre o apóstolo, tornando esta a hora mais negra em sua luta heróica mas custosa para difundir e preservar o verdadeiro evangelho.


“Porque chegando nós à Macedônia, nenhum alívio tivemos; pelo contrário, em tudo fomos atribulados: lutas por fora, temores por dentro” (7.5). Nas palavras de G. G. Findlay: “Corinto parecia estar em plena revolta contra ele. A Galácia estava passando para ‘outro evangelho’. Ele escapara por pouco da plebe enraivecida de Éfeso — ‘feras’ com quem há muito lutava e à cuja mercê deixara seu rebanho nessa cidade turbulenta. Sob essa tensão contínua de excitação e ansiedade, sua resistência sucumbiu; ele foi atacado por uma moléstia que o fez correr risco de vida.” O comentário do apóstolo é este: “A tribulação...foi acima das nossas forças, a ponto de desesperarmos até da própria vida...em nós mesmos tivemos a sentença de morte” (1.8, 9). No capítulo 4, ele fala de levar “sempre no corpo o morrer de Jesus” e da corrupção do “homem exterior” (w. 10,16). Essas e outras expressões não deixam dúvidas quanto à aflição mental e prostração física de nosso esplêndido herói. “Ele estivera às portas da morte. Sua vida e obra, ao que tudo indicava, estavam chegando ao fim e sob as circunstâncias mais sinistras. Além de sua vida, o destino de sua missão e do cristianismo gentio corria perigo. Ele jamais se sentira tão indefeso, derrotado e confuso, como naquela viagem melancólica de Éfeso para a Macedônia, e se achava deitado em seu leito de enfermidade (talvez em Filipos), sem saber quem chegaria primeiro a ele: Tito ou o mensageiro da morte.” Como é característico desse homem que, apesar de tão apreensivo e esgotado enquanto aguardava ansiosamente por Tito emTrôade, ele tenha descoberto que “uma porta se me abriu no Senhor” (2.12) e pregasse o evangelho tão eficazmente que formou uma igreja ali, à qual voltou a visitar alguns meses mais tarde na sua viagem de retorno à Palestina (At 20.6- 12).

O Relatório de Tito Tito finalmente chegou à Macedônia para encontrar Paulo (7.6) —para onde Paulo se apressara a ir, incapaz de conter sua ansiedade por mais tempo em Trôade. A tensão foi aliviada. Havia muita coisa para consolar e animar o apóstolo (7.7-16). Em resposta à primeira epístola, os coríntios haviam tomado providências com relação ao pecador entre eles (1 Co 5).


Houvera um surto de arrependimento é o resplendor de novo zelo, assim como um ressurgir da estima por Paulo. O apóstolo enfermo sentiu-se tão consolado que ditou esta outra carta, enviando-a por meio de Tito que deveria voltar a Corinto e terminar a boa obra ali iniciada (7.15,16; 8.6). Mas, infelizmente, havia outros aspectos mais sombrios da situação em Corinto, que talvez Tito tivesse revelado aos poucos, em consideração pela saúde física e cansaço do apóstolo. “Sua mudança em planos sobre a dupla visita dera lugar a uma acusação de leviandade e muitos comentários injuriosos ao seu caráter haviam sido espalhados, especialmente por algum emissário judeu, ao que tudo indicava. Seus inimigos insinuaram que era covarde por não ir até eles; que sua mudança de idéia mostrava vacilação e insinceridade; que um complexo de inferioridade fizera-o abster-se de pedir qualquer ajuda para se manter; que seu aspecto era insignificante e suas palavras, rudes e simples demais; acresceram a isso o fato de não possuir cartas de recomendação de Jerusalém e sua posição duvidosa com respeito à lei. Eles sugeriram dúvidas quanto à sua perfeita honestidade, acusando-o de dolo e desígnios fraudulentos ou interesseiros quanto à coleta. Chegaram até a suspeitar de sua sanidade mental. Tais acusações seriam difíceis de suportar em qualquer ocasião, mas o foram especialmente num período em que o apóstolo estava sofrendo tremenda angústia — uma combinação de temores por dentro e de lutas por fora, que produziram uma prostração física e mental. Tornou-se um dever e uma necessidade, embora desagradáveis, fazer sua própria defesa. Ele, pessoalmente, não exigia nem se preocupava com isso, mas diante de Deus em Cristo sentia-se obrigado a limpar sua reputação dessas alusões detestáveis. Elas poderiam, se não fossem notadas, prejudicar seu trabalho tanto em Corinto como nas outras igrejas; e seu ministério tinha para ele uma importância sagrada. Assim, embora nada fosse mais repulsivo à sua humildade sensível do que qualquer aparência de egoísmo ou vanglória, foi levado, pela falta de escrúpulos de seus oponentes, a adotar um tipo de autodefesa, de modo que a palavra “gloriar” (e outros sinônimos) aparece nada menos que 29 vezes. Ele não podia nem queria apelar para cartas de recomendação ou qualquer atestado de seus irmãos apóstolos, pois recebera seu próprio apostolado diretamente de Deus. Viu-se então forçado a apoiar-se, de um lado, em suas visões e revelações e, de outro, no selo de aprovação que Deus, de muitas formas aplicara a sua atividade e dedicação sem paralelos.”


A Mudança do Centro de Batalha Uma comparação desta epístola com a anterior parece certamente mostrar, porém, que houvera uma modificação psicológica em Corinto a favor de Paulo. A primeira epístola lamenta pelos quatro partidos e trata principalmente do partido de Apoio. Essa divisão, sendo apenas de admiração pessoal e não de doutrina, parece ter sido agora superada e a maioria em Corinto aparentemente voltou a mostrar-se leal a Paulo como seu pai espiritual (1 Co 4.15). Nesta segunda epístola, o partido de Pedro, o grupo “eu sou de Cefas”, é que representa um perigo bem maior. Grande parte dos tradutores modernos usa a palavra “maioria” no capítulo 2.6: “Basta-lhe a punição pela maioria”', e a própria palavra enfatiza a presença de uma minoria hostil, que sem dúvida discordava, com base na falta de verdadeira autoridade apostólica por parte de Paulo. Esta divisão petrina estava se tornando mais decidida em seu antagonismo a Paulo, à medida que desenvolvia suas tendências judaizantes. As coisas haviam chegado a um ponto em que uma maioria ainda instável estava sendo posta em risco por essa forte e influente minoria. Ao que parece, representantes do elemento judaizante em Jerusalém haviam visitado Corinto há pouco tempo, levando “cartas de recomendação” (3.1). A partir do capítulo 10, onde Paulo volta sua atenção mais especialmente para os judaizantes, podemos perceber, versículo após versículo, as coisas que estavam dizendo sobre ele: era corajoso só à distância (10.1, 2). Sua aparência pessoal era insignificante e suas palavras, desprezíveis (10.1, 10, 11). Comparado com eles era inferior, apesar de suas pretensões (10.12-15); o que pregava era uma versão fraca do evangelho (11.4), e a igreja de Corinto não era recomendável por ser paulina (12.13; 11.7-9). Ele não era um verdadeiro apóstolo (11.5; 12.11,12). Não tinha as qualificações ou credenciais de que eles (os de Jerusalém) podiam se gabar (11.22-28). Até mesmo em sua recusa em receber sustento financeiro havia uma simulação oculta e uma admissão de inferioridade (12.16-19). Paulo não se demora em expor esses pássaros de bela plumagem como sendo realmente aves de rapina. Eles tinham coragem suficiente para aceitar todo benefício material que podiam conseguir (11.20)! Eram, sem dúvida, os aristocratas do evangelho, mas como “ministros de Cristo” eles


estavam preparados para sofrer (11.22-23)? Falavam de visões e revelações, mas e se Paulo lhes dissesse que ele fora levado até o terceiro céu e recebera uma abundância de tais revelações, as quais seria profanação divulgar (12.1-7)? Fica claro que em todo tempo “Paulo está combatendo uma tentativa sistemática e hábil para derrubar sua autoridade em Corinto, na qual os emissários judeus tomaram a liderança, apoiados por uma minoria na igreja. Ele foi abertamente atacado por esses homens e com as mais engenhosas das armas. Eles tinham como objetivo nada menos do que sua deposição do apostolado, colocando a seguir as igrejas fundadas por Paulo sob a chefia de Jerusalém”. Por mais penosos que tivessem sido os insultos ao generoso Paulo, o ferimento mais letal era a insinuação do desvio doutrinário encoberta pelos ataques pessoais. Nas palavras do capítulo 11.3, 4, “Outro Jesus ...outro espírito ...outro evangelho” estavam sendo enganosamente introduzidos em substituição “à simplicidade que há em Cristo”.

Conteúdo e Análise Parece haver uma idéia de que, embora a primeira carta aos Coríntios seja o mais sistemático de todos os escritos de Paulo, esta segunda não apresenta tanto essa característica. Todavia, uma pesquisa cuidadosa do seu conteúdo revela outra coisa. A primeira é deliberada, objetiva, prática e responde aos coríntios quase em tom de repreensão em primeiro, segundo e terceiro planos; enquanto esta segunda é subjetiva e foi perfeitamente descrita como a “autodefesa apaixonada de um espírito ferido a filhos desviados e ingratos”. Por ser exatamente a mais emocional das epístolas, ela é menos formal; todavia, até esse comentário aplica-se apenas às suas seções subsidiárias e não ao seu perfil principal. Esta não é uma torrente sem direção. Até mesmo as corredeiras lançam-se ao longo de um curso planejado. Desde o início, fica claro que, nos primeiros capítulos, Paulo está prestando contas de seu ministério, de modo a livrar-se de quaisquer interpretações erradas. Como indicação disto, veja as referências em 1.6, 12,17,23; 2.4,17, nos quais ele expõe completamente a autenticidade de seu motivo. Veja também os textos de 3.6,12; 4.1, 3, 5,18; 5.14-21, onde


ele defende a autenticidade de sua mensagem. Fica igualmente claro que há uma mudança no capítulo 6, pois, a partir das palavras “E nós, na qualidade de cooperadores com ele, também vos exortamos...”, Paulo lança um apelo a seus convertidos em Corinto, que continua até o final do capítulo 9. Veja os capítulos 6.1,11-17; 7.1-4, nos quais o apelo se refere a coisas espirituais. Veja também 8.7,11,24; 9.5-7, 13, em que o apelo está ligado a coisas materiais. A nova divisão no capítulo 10 fica evidente a todos. Esta é a resposta completa de Paulo aos seus críticos. Veja os textos em 10.2,7,10,12,15, 16,18; 11.3-5,12-15, em que ele golpeia aspretensões dos críticos. Observe também a passagem 11.16-13.10, em que ele apresenta e usa suas próprias credenciais. Podemos dizer que a primeira parte (1-5) consiste de explicação; a segunda (6-9) de exortação; e a terceira (10-13) de justificação. Na primeira parte temos Paulo, o ministro (3.6; 4.1); na segunda Paulo, o pai (6.13); e na terceira Paulo, o apóstolo (11.5; 12.11, 12). Assim, podemos colocar agora a epístola numa análise estruturada. Evitamos propositadamente uma análise mais minuciosa, a fim de observarmos de uma só vez a forma e a força principais da epístola. A SEGUNDA EPÍSTOLA AOS CORÍNTIOS CRISTO NOSSO CONSOLO NAS TRIBULAÇÕES Introdução, 1.1,2. 1. RELATO DO MINISTÉRIO DE PAULO (1-5). (Explicação: Paulo, o Ministro.) (A) Quanto ao motivo (1-2). (B) Quanto à mensagem (3-5). 2. APELO DE PAULO AOS SEUS CONVERTIDOS (6.9). (Exortação: Paulo, o Pai.) (A) Com respeito às coisas espirituais (6, 7). (B) Com respeito às coisas materiais (8, 9). . 3. RESPOSTA DE PAULO AOS CRÍTICOS (10-13). (Defesa: Paulo, o Apóstolo) (A) Os críticos e suas pretensões. (B) O apóstolo e suas credenciais. Conclusão, 13.11-14.


A Doutrina Através da Prova Severa da Experiência Nosso principal artigo sobre essas epístolas à igreja cristã atraiu atenção para a ordem em que o Espírito Santo ensina a verdade evangélica. É a m esm a ordem das palavras de 2 T im óteo 3.16: “E scritu ra (doutrina)...repreensão...correção”. Temos distintamente doutrina em Romanos; em Coríntios, repreensão; em Gálatas, correção. A “doutrina” ensina a norma. A “repreensão” reprova a prática errada. A “correção” censura o ensino errado. Agora que já estudamos as duas cartas aos Coríntios, podemos ver como elas se conformam verdadeiramente à sua parte no padrão, a segunda da mesma forma que a primeira. O volume maior é de repreensão. Ambas contêm “doutrina” preciosa, como dissemos antes; mas, enquanto em Romanos a mesma é transmitida didaticam ente, nessas cartas aos coríntios ela ocorre apenas incidentalmente ao desenvolvimento da repreensão, apelo, defesa e exortação. Demos exemplos disto na primeira epístola aos Coríntios. Tire apenas alguns da segunda. Enquanto em Romanos a “justiça de Deus” é discuti­ da doutrinariamente como um tema básico da teologia cristã, em 2 Corín­ tios ela aparece incidentalmente como razão para a urgência de Paulo (v.21). Ao passo que a morte judicial do crente com Cristo é argumenta­ da doutrinariamente em Romanos 5 e 6, ela reaparece aqui, de repente, como um dos estímulos que constrange Paulo a pregar o evangelho (v. 14). Em Romanos 8 somos ensinados, quase independentemente de qualquer referência pessoal, como “os sofrimentos do tempo presente” serão com­ pletamente compensados na consumação final, mas aqui em 2 Coríntios 4.17 a idéia é insinuada como um consolo ou apoio ao evangelista cristão em meio às suas aflições. Não temos espaço para dar outros exemplos, mas recomendamos que o estudo desses paralelos entre Romanos e Coríntios continue, por serem espiritualmente proveitosos. Eles nos mostram como relacionar as grandes doutrinas de nossa fé cristã à experiência e circuns­ tâncias individuais.


As Duas Alianças e Ministérios (3-4) Uma tal ordem de tesouros espirituais, como temos em 2 Coríntios, sufoca qualquer esperança de poder resumi-los adequadamente nas poucas páginas que nos restam. Cada uma das três partes é rica, completa e fascinante. Veja, por exemplo, o contraste entre as duas alianças ou ministérios, a antiga em comparação com a nova, nos capítulos 3 e 4. A chave para a passagem é 3.6: “Deus...nos habilitou para sermos ministros de uma nova aliança”. A seguir são apresentados sete contrastes entre a “ministração” da Lei e da Graça. 1. A antiga aliança era da “letra”(“gravado com letras em pedras” — v.7); a nova aliança é do Espírito (3.6). 2. A antiga aliança era um ministério da morte; a nova é um ministério de vida. “A letra mata, mas o espírito vivifica” (3.6). 3. A antiga aliança era de condenação ; a nova é um ministério de justiça (3.9). 4. A antiga aliança era transitória; a nova épermanente — “o que é permanente” (3.11). 5. A antiga aliança está ligada à face de Moisés; a nova resplandece na face de Cristo (4.6). 6. O símbolo da antiga aliança era um véu ; o da nova é um espelho (3.13-18). 7. A antiga não podia modificar os sentidos embotados (3.14) ; sob a nova somos “transformados na... imagem (do Senhor) pelo Espírito” (3.18). Através desta série de contrastes entre a antiga e a nova aliança, observamos o “véu” repetidamente mencionado. O símbolo do antigo ministério é um “véu” ocultando a face de Moisés. O símbolo do novo é um “espelho” refletindo a face de Jesus. (3.18). Neste trecho, o véu de Moisés tem quatro significados notáveis. Primeiro, é um sinal de transitoriedade: “Moisés punha véu sobre a face. para que os filhos de Israel não atentassem na terminação do que se desvanecia” (3.13). A idéia geral é que Moisés usava esse véu porque o brilho em seu rosto era grande demais para que os israelitas pudessem contemplá-lo; mas Paulo diz aqui que ele o usava para que não


percebessem seu desvanecimento! O véu simbolizava algo que era passageiro. Segundo, este véu tornou-se um símbolo da incredulidade judaica'. “Mas os sentidos deles se embotaram. Pois, até o dia de hoje, quando fazem a leitura da antiga aliança, o mesmo véu perm anece” (3.14). É surpreendente que nossa versão tradicional complete este versículo 14, acrescentando: “...que em Cristo é removido”. Mas, se ele ainda permanece”, como pode ser ao mesmo tempo “removido”? A oração deveria conter evidentemente a leitura: “Cuja aliança (i.e., a antiga) em Cristo é removida”. A antiga aliança é removida; mas, que infelicidade, o véu que encobre permanece. Veja o v. 15: “Mas até hoje, quando é lido Moisés, o véu está posto sobre o coração deles”. Terceiro, não há palavras para exprimir a tragédia, o véu de Moisés torna-se uma ilustração de engano satânico: “Mas, se o nosso evangelho ainda está encoberto, é para os que se perdem que está encoberto, nos quais o deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos” (4.4). Este véu cobre milhões de almas não convertidas, não regeneradas, perdidas e acha-se nas mãos de Satanás! Essa é a razão porque a pregação não basta, por mais fiel que seja; é preciso lutar em oração! Quarto, o véu de Moisés, por contraste, destaca a luz gloriosa e transformadora do evangelho: “E todos nós com o rosto desvendado contem plando, como por espelho, a glória do Senhor, somos transformados...na sua própria imagem” (3.18). O véu é aqui removido “pelo Senhor, o Espírito”. Veja também 4.6: “Porque Deus que disse: De trevas resplandecerá luz —, ele mesmo resplandeceu em nossos corações, para iluminação (de outros através de nós) do conhecimento da glória de Deus na face de Cristo”. Que desvendar — “pelo Espírito”! Que resplendor — da “face de Cristo! Que transfiguração — “contemplando (refletindo), como por espelho”! Que ministério' — a “iluminação” de outros com o “conhecimento” que salva! Os receptores tornam-se refletores. Deus brilha em nós, a fim de que também possamos brilhar para os outros!


Tesouro em Vasos de Barro É verdade, que mensagem! Todavia, o escritor acabou de se levantar de um leito de enfermidade, e não pode deixar de pensar como é frágil o pobre vaso de barro que leva tal tesouro: “Temos, porém, este tesouro em vasos de barro” (4.7). Veja os fortes contrastes que agora surgem vivos em sua mente — “vasos de barro”, mas, o “poder de Deus” (v. 7); “atribulados”, porém, “não angustiados” (v. 8); “perplexos”, porém, “não desanimados” (v. 8); “perseguidos”, porém, “não desamparados” (v. 9); “abatidos”, porém, “não destruídos” (v. 9); o “homem exterior” perecendo, o homem interior diariamente “se renovando” (v. 16); “tribulação” presente, mas uma compensação de “glória” vindoura (v. 17); as coisas visíveis são temporais, mas as invisíveis eternas (v. 18); este corpo mortal (apenas um “tabernáculo”) se desfazendo, mas temos uma “casa nos céus” eterna (5.1); “deixar” o corpo, “habitar” com o Senhor (5.8). Não há dúvida que a crise interior de Paulo e sua enfermidade física no intervalo entre a partida de Éfeso e a chegada a Corinto, deixaram seus pensamentos e ministério subseqüentes profundamente marcados. Ele se viu, de súbito, forçado a pensar que talvez morresse antes da volta do Senhor. Paulo fala de “deixar o corpo” e assim “habitar com o Senhor”. A princípio, ele foge desta idéia de morte: “Não por querermos ser despidos” (v.4); mas quando reflete que “deixar o corpo” é “habitar com o Senhor”, até a morte perde o seu tom sombrio e reveste-se de glória, levando-o a dizer: “Deveríamos nos alegrar por deixar nossa casa no corpo e ir habitar com o Senhor” (5.8, Weymouth). Isso marcou época em seu ministério. Até então a “parousia” fora considerada iminente, mas agora uma visão mais extensa apresenta-se à sua frente, afetando todo o ensino futuro do apóstolo. As várias relações do evangelho, da igreja, e do cristão individual, com os assuntos domésticos, civis e outros neste mundo são discutidos de um modo que seria incompatível caso Paulo vivesse na expectativa diária da volta do Senhor. Houve realmente uma luta e um ponto crítico; mas um Paulo disciplinado e mais amadurecido levantou-se daquele leito de doente “com um espírito sereno e elevado, dominando os temores íntimos e seguro de que prevaleceria nas lutas que por pouco não o derrotaram externamente”. Esta não é uma lição espiritual para nós? Quanto devemos


àqueles terríveis ciclones de tribulação, aos problemas e aos sofrimentos que algumas vezes quiseram nos arrastar, mas que acabaram por trazer-nos as mais profundas descobertas da verdade e as nossas mais ricas revelações de Deus! Vamos permitir que as experiências do passado nos ensinem a confiar, a descansar e a não ter medo!

O Centro da Teologia Paulina Paulo completa esta primeira parte de sua epístola, desvendando aquilo que estâ no próprio coração de seu ministério e mensagem. Ele ocupa o capítulo 5.14-21 e seu ponto central é: “Um morreu por todos...e ressuscitou” (w. 14, 15). Mas chamamos atenção para o “assim” que procede disto, no v. 16: “Assim que, nós, daqui por diante, a ninguém conhecemos segundo a carne; e, se antes conhecemos a Cristo segundo a carne, já agora não o conhecemos deste modo”. Ele mostra imediatamente que uma visão verdadeira da cruz nos proporciona uma visão real dos homens. “A ninguém conhecemos segundo a carne.” Por quê? Porque “Um morreu por todos”. Se Um morreu por todos, então todos devem ter o mesmo valor fundamental. Isto revolucionou a história. Esta é a convicção por trás de toda atividade missionária mundial da era cristã. “Um morreu por todos”; Paulo não pergunta mais se o indivíduo é judeu ou gentio, escravo ou livre, rico ou pobre, erudito ou iletrado; essas são classificações terrenas e superficiais. “Um morreu por todos”; precisamos ver a humanidade à luz daquela cruz novamente. Os nacionalismos ardentes exaltam os sangues rivais. Os totalitarismos impiedosos anulam a dignidade e o valor humanos. A cruz nivela a todos, preservando porém a cada um. Ela dignifica mesmo enquanto humilha. Quando vemos nossa espécie humana sob a luz do Calvário, cada membro é uma alma criada à imagem de Deus e que vale a pena redimir, ainda que custe o sangue e o sacrifício do Filho do Céu que se encarnou entre nós. “A ninguém conhecemos segundo a carne.” Por quê? Porque se “Um


morreu por todos, logo todos morreram” (v.14). Em sua encarnação, Cristo identificou-se com a criação adâmica, pois foi feito “à semelhança da carne pecaminosa; todavia era sem pecado e separado, o Homem representativo de uma nova ordem que deve prevalecer finalmente. A velha ordem foi nEle posicionalmente removida. Quando Ele morreu, todos os homens morreram no ajuste de contas judicial de Deus; pois a pena de morte que já pairava sobre a criação adâmica pecadora foi então executada. Pela lei tripla de identificação, representação e substituição, todos os homens morreram na morte de Cristo, no que se refere à culpa involuntária e condenação por meio de Adão. Deus trata agora com a raça numa nova base. Ela gira em torno de um novo Homem Central. Paulo considera então a humanidade de um modo novo; e nós também devemos fazê-lo. Tudo é determinado com relação a ELE: Não conhecemos homem algum “segundo a carne”, como um simples membro da raça adâmica, ou enchendo este ou aqüele lugar na ordem visível e temporal. Vemos tudo e todo homem em relação a Cristo. O que importa agora qual seja o lugar de um indivíduo no esquema adâmico de coisas, desde que essa base de avaliação foi removida? Que importa se o homem é rico, pobre ou qualquer outra coisa? O essencial é sua relação com Cristo. Esse é o fator decisivo pelo qual os homens são salvos ou permanecem perdidos. “Assim que, nós, daqui por diante, a ninguém conhecemos segundo a carne.” “A ninguém conhecemos segundo a carne.” Por quê? Porque Aquele que morreu por todos “ressuscitou”, e se alguém está em Cristo “é nova criatura” (v. 17). O verso, no original, diz simplesmente: “Portanto, se alguém está em Cristo — nova criação”, significando que ali está a nova criação, vista através dessa pessoa; “as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas”. Como é possível continuar a vê-lo segundo os valores antigos quando ele se acha agora no que é novo? “A ninguém conhecemos segundo a carne.” Por quê? Porque nem sequer conhecemos ao próprio Cristo dessa forma agora (v. 16). E se alguns de nós lembrássemos do rosto, da voz, das vestes? Para nós que morremos com Ele e ressuscitamos em novidade de vida, porém, Ele não é mais, em primeiro lugar, um conterrâneo, ou apenas uma figura histórica fixa; Ele é o eterno Filho de Deus. Nós não o conhecemos hoje na fraqueza da carne , mas nas dimensões infinitas de sua ressurreição e da nova criação! Durante os últimos cinqüenta anos houve um reavivamento notável do interesse no Jesus da história. Isso tem grande valor. Nós


apreciamos todo conhecimento novo que possa ser lançado sobre “os dias de sua carne”. Todavia, se nosso conceito principal de Cristo for simplesmente o de uma figura histórica, só o conhecemos então “segundo a carne”, o que é rudimentar e inadequado. Ele também não é mais o Cristo amarrado do crucifixo; pois não está mais na Cruz nem derramando seu sangue. Não se encontra na cruz nem na sepultura, pois a expiação foi completa e a morte conquistada. Devemos conhecer Cristo, não apenas como uma figura tradicional augusta e patética, mas como o contemporâneo vivo de todas as gerações. Um Cristo apenas histórico não passa de um objeto de memória', enquanto Senhor ressurreto da nova criação é objeto de/é e doador de uma nova vida espiritual. “A ninguém conhecemos segundo a carne.” Por quê? Porque como cristãos, vivemos (ou deveríamos viver) entre as coisas eternas. Considere o contexto mais amplo aqui. Veja como Paulo observa tudo de um ponto de vista espiritual e eterno —4.16,17,18; v. 1, 8, 9,10. Desde já, enquanto ainda se mantém ocupado na terra, ele se move mentalmente, de coração e espírito, entre as coisas invisíveis e eternas; essa é a sua verdadeira habitação — e também a nossa.

A Autobiografia do Apóstolo Paulo Ao dedicar as páginas anteriores à primeira parte desta epístola, sabíamos muito bem que não haveria espaço para tratar do mesmo modo com as outras duas partes. Porém, era necessário fazer uma seleção; e esperamos que essas “descobertas” dos primeiros capítulos possam ser úteis para dar início ao estudo pessoal do aluno sobre o restante. A análise simples feita por nós sobre esta epístola, servirá para indicar os principais atalhos. Cada seção tem os seus interesses e tesouros peculiares. Mesmo quando Paulo fala de uma coleta, ele faz, embora bastante incidentalmente, grandes pronunciamentos, como em 8.9 e 9.8 e, ao pensar numa contribuição de Corinto, ele se lembra do “dom inefável” do céu. As passagens em que Paulo fala de si mesmo em sua “vanglória” forçada devem ser especialmente investigadas nesta epístola. Que grande servo do Senhor! Como alguns de nós nos sentimos pobres, mesquinhos, egoístas e


preguiçosos. Que contraste! Todavia, quanto consolo suas reminiscências também nos trazem. Vamos examinar aqui apenas uma delas antes de terminar este estudo. Isso também ajuda a compreender a vida íntima desse coração generoso! Trata-se da passagem em que ele fala sobre o seu “espinho na carne” (12.1-10). Veja como o capítulo começa: “Há catorze anos...arrebatado ao paraíso...grandeza das revelações...para que não me ensoberbecesse...um espinho na carne, mensageiro de Satanás para me esbofetear...” O termo grego traduzido como “espinho” é derivado de um verbo que significa espetar ou crucificar. O espinho de Paulo não era do tipo que espetaria o nosso dedo, mas sim uma estaca com a qual, por assim dizer, ele foi traspassado, como o seu Senhor fora pregado naquela viga e travessão no Gólgota. Mais ainda, quando Paulo foi amarrado a essa estaca, um anjo de Satanás (não apenas um “mensageiro”) o esbofeteava continuamente. Satanás tem os seus anjos! Existem espíritos perturbadores, assim como há espíritos ministradores. Devemos surpreender-nos de que o arqui-inimigo enviasse um de seus subordinados apenas para concentrar-se em Paulo? Weymouth faz a seguinte tradução: “Para que eu não ficasse excessivamente orgulhoso foi-me enviado, como a agonia de uma empalação, um anjo de Satanás, desferindo golpe sobre golpe.” Que profunda agoniai — e arrastando-se durante catorze anos até a data em que Paulo escreveu! Três vezes ele pediu ao Senhor que a fizesse terminar, mas a resposta fora negativa; tudo indicava que a crucificação interior deveria continuar até o fim da vida! O que Paulo pode fazer a respeito? Queixar-se a Cristo de que Ele é cruel e injusto? Desistir da luta desigual e abandonar o apostolado tão penoso, preferindo o descanso? Esta foi a sua resposta: “Então ele me disse: A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, MAIS ME GLORIAREI NAS FRAQUEZAS, PARA QUE SOBRE MIM REPOUSE O PODER DE CRISTO”. O parágrafo inteiro está repleto das mais preciosas e comoventes lições . espirituais, mas não podemos demorar-nos nelas aqui. Em vez disso, temos de terminar este estudo citando e orando a bênção tripla (a mais completa no Novo Testamento) com que Paulo termina esta emocionante epístola.


“A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo sejam com todos vós.” Embora diminuta em tamanho, como é grande o significado dessa pequena palavra “todos” nesse versículo! Centenas desses crentes da antigüidade na Acaia deviam a sua salvação a Paulo, embora alguns deles tivessem feito críticas cruéis a ele mais tarde. A sua bênção inclui-os a todos. É verdade, “Sejam com vós TODOS” — mesmo com aqueles que o caluniaram mais amargamente. Que Deus nos dê um espírito assim!

Nota Sobre a Bênção Trinitária de Paulo O último versículo de 2 Coríntios tornou-se a bênção mais conhecida da cristandade e merece ser estudado. Se, como alguns expositores afirmam, ele “basta por si só para provar a doutrina bíblica da Trindade” é um ponto discutível; mas considerado com todas as outras insinuações relacionadas das Escrituras, ele certamente “completa a evidência”. Podemos alegar imparcialmente que indica três verdades finais quanto ã natureza plural da divindade, como segue: Trindade Deixando de lado qualquer sofisma, três Entidades pessoais distintas são diferenciadas na fraseologia. Todos concordarão em que “o Senhor Jesus Cristo” é uma pessoa real e que aqui, como em outros lugares, Ele é pessoalmente distinguido dAquele chamado “Deus”. Todos concordarão que o chamado “Deus” aqui deve ser também considerado como pessoal e é mencionado como “o Pai” em passagens correspondentes. Todos devem concordar que “o Espírito Santo” é citado aqui exatamente do mesmo modo, como igualmente pessoal e distinguível. Se não for este o sentido designado aqui, essas frases interligadas servem então para deliberadamente causar confusão. Sabemos, porém, pela comparação com outras passagens, que era exatamente este o significado que Paulo


pretendia: a divindade é tripartite, subsistindo como três seres pessoais, o Pai, o Filho, o Espírito Santo. Igualdade Esta bênção não implica também que esses Três são iguais? Caso negativo, a forma gramatical é de novo estranhamente enganadora. Se, como dizem as várias seitas unitarianas, Cristo é apenas uma criatura e o Espírito Santo, somente uma emanação impessoal, não seria quase uma confusão blasfema que essa bênção os associasse tão intimamente, tão juntos em sua atividade, tão supremamente com Aquele que só ele é Deus? E se, como até alguns trinitarianos afirmam, o Filho e o Espírito Santo são essencialmente subordinados ao Pai, por que nessa bênção tão formal e exata, o Filho é mencionado antes do Pai? Certamente, o Pai não receberia prioridade de menção aqui, se houvesse prioridade eterna de posição? Em várias outras passagens, o Pai recebe prioridade de menção; mas a própria inversão dessa ordem nesta bênção mostra que não existe uma uniformidade rígida e que a ordem de menção é simplesmente determinada pela seqüência de pensamento. Não negamos que haja uma subordinação funcional do Filho e do Espírito Santo ao Pai, na economia da criação e da redenção. Mas a Trindade considerada economicamente deve ser distingüida de como é considerada essencialmente. A subordinação não deve ser confundida com a desigualdade. Qualquer subordinação desse tipo é volitiva e operacional, mas não é básica. Ela é funcional e não essencial. O Pai, o Filho e o Espírito Santo são iguais. Unidade Esta bênção implica ainda mais a idéia que o Pai, o Filho e o Espírito Santo, além de serem três e serem iguais, são um. Eles não são apenas uma trindade, mas uma tri-unidade. Nada menos que isso é exigido por esta bênção paulina; pois, se como vimos a frase indicada que os três são igualmente divinos, então embora não possamos compreender o mistério disso, Eles simplesmente devem, de alguma forma, ser um. Não pode haver, de maneira alguma, três infinitos separados; até mesmo a própria


infinidade só pode conter um único Infinito. Se as Escrituras concedem atributos divinos a cada um dos Três, então os Três devem ser um em essência, pois só pode haver um único Deus absoluto. A Prova Final Mas a prova final de tudo isto está no fato de que esta bênção é, na verdade, uma oração. As palavras “estamos orando a Deus” devem ser consideradas como tendo sido escritas no início da mesma, como se Paulo as tivesse colocado realmente no texto com pena e tinta. Quem poderia negar isso? Quem poderia dizer que esta bênção não passava de um desejo opcional? Sua suprema atração está no fato de tratar-se de uma oração com uma expectativa de resposta. Mas a oração só pode ser oferecida a Deus. Por que ela é então oferecida ao Senhor Jesus Cristo e ao Espírito Santo juntamente com Deus Pai? Se Eles não são igualmente Deus, por que são também igualmente invocados em tal oração? Como é estranho que um apóstolo inspirado orasse a uma simples criatura e a uma influência impessoal juntamente com o Deus único e verdadeiro. Se Cristo não passar de um homem exaltado ou anjo, como é estranho que Paulo solicite a “graça” desse homem ou anjo, como se estivesse no mesmo nível do “amor” do próprio Deus! Quão esquisito é que nessa oração de despedida deliberada Paulo colocasse o nome de um simples homem ou mesmo anjo diante daquele do Deus eterno! E quão estranho seria se Cristo fosse uma simples criatura, Paulo oraria aqui a ele como tendo a prerrogativa divina de conferir qualidades espirituais! Sim, é de fato difícil de entender, se Cristo não for o “verdadeiro Deus”! E se o Espírito Santo for apenas uma emanação ou atributo, não se explica como Paulo pudesse orar para um tal conceito impessoal, desprezando a divindade viva, em quem e de quem são todos esses atributos e emanações! Como é possível orar a um atributo ou influência? Todavia nesta bênção não só é feita oração ao Espírito Santo, mas é provavelmente esperado que, como um agente autônomo e inteligente, File confira uma bênção distinta daquela que o Pai e o Senhor Jesus concedem. A indicação aqui é que existe a mesma distinção que encontramos entre Cristo e o Pai. Assim, esta oração de despedida fornece certamente provas claras da


tripartição pessoal na Divindade —provas essas que, pelo que sabemos e vemos, não podem de modo algum ser desmentidas.


A EPÍSTOLA AOS GÁLATAS (1) Lição nQ30


NOTA: Leia a epístola inteira para este estudo, pelo menos duas vezes. A Galácia, como Corinto, fora perturbada por “desordeiros” importados da Judéia, e um intervalo considerável precisa ser concedido para a sua chegada e a disseminação de suas idéias, assim como para que a plena informação de seu sucesso desastroso chegasse até o apóstolo... Os adversários deste, embora poupando-o (na Galácia) das indignidades lançadas contra ele em Corinto, não deixaram de insinuar que seu ministério era de ordem inferior e secundária. Seu conhecimento do evangelho, diziam eles, e sua autoridade para pregá-lo, vinham de Pedro e dos Doze, contra quem ele agora ousava comparar-se! “Tiago, Cefas e João”, exclamaram eles — estes são as “colunas da fé”, “os homens de reputação” em toda parte na igreja! Esse Paulo, com suas pretensões excessivas, é um convencido, um simples novato comparado com os outros. Além do mais, ele se contradiz: todos sabem que antigamente ‘pregava” o rito da “circuncisão”, o qual proíbe tão severamente na Galácia (v. 11). Assim sendo, tanto na Galácia como em Corinto, os assuntos pessoais e as doutrinas em discussão estão ligados um ao outro. Mas a questão teológica aqui, que em 2 Coríntios ficava oculta em sombras, surge em plena luz e apresenta-se em toda a sua importância e dimensão. Ela ocupa a parte central e maior da carta, sendo tratada em três capítulos do argumento mais profundo, condensado e poderoso jamais expresso por escrito. — G. G. Findlay


A POLÊMICA DE PAULO CONTRA A PERVERSÃO DO EVANGELHO Esta epístola às “igrejas da Galácia” é uma espécie de panfleto polêmico em lugar de ser uma carta comum. Todavia, é uma carta, ambientada na preocupação pessoal e nos sentimentos cordiais do autor em relação às pessoas a quem escreve. O erro ilusório e sempre repetido que ela combate e corrige, assim como a defesa magistral que ele apresenta com igual paixão e lógica, fazem dela um documento fascinante para todos os que percebem o que está em jogo na luta para preservar a pureza do evangelho no mundo. Trata-se, na verdade, de uma mistura notável de inspiração divina e habilidade e fervor humanos. Como já notamos, as nove epístolas às igrejas (de Romanos a 2 Tessalonicenses) enquadram-se num agrupamento tríplice. Esta epístola aos gálatas completa o primeiro grupo (Romanos, 1 e 2 Coríntios e de Gálatas), que denominamos quatro epístolas evangélicas. Num estudo anterior, chamamos atenção para 2 Timóteo 3.16: “Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção”. Indicamos também que os grupos de epístolas observam a ordem ali indicada, i.e., “ensino...repreensão...correção”. Assim, neste primeiro grupo temos distintamente “ensino (doutrina)” em Romanos; “repreensão” de práticas erradas em Coríntios; “correção” de doutrina errada em Gálatas. Podemos muito bem dizer, especialmente aos jovens convertidos: leiam Romanos para ficar firmes na doutrina cristã; leiam Coríntios para serem guiados na prática cristã; leiam Gálatas para serem protegidos contra o erro enganador. C. H. Spurgeon disse certa vez: “Homem algum pode ser cristão hoje em dia sem ser um polemista”. Se isso se aplicava nos dias de Spurgeon, é ainda mais verdadeiro agora. Mas já acontecia desde o começo, nos dias de Paulo, como testemunha esta carta aos Gálatas. Um dos meios mais poderosos usados por Paulo para “combater o bom combate da fé” foi escrever as suas epístolas. Elas revelam uma luta corajosa pela “verdade


do evangelho”! Devemos agradecer a Deus por aquelas que foram providencialmente preservadas para nós em nossa amada Bíblia! Que argumentos poderosos, polêmicas exaltadas, motivos nobres e dedicação completa à verdade elas exibem! Cada uma dessas cartas indica um combate a favor da fé e liberdade do evangelho travado pelo grande apóstolo, e isto se destaca ainda mais na Epístola aos Gálatas. Nos dias de Paulo o nome “Galácia” possuía dois usos diferentes. De maneira mais geral indicava a faixa de terra (ao norte da Ásia Menor) habitada pelos galatai ou gálatas (um ramo dos gauleses); mas no sentido romano e imperial, era o nome dado a toda uma província romana, da qual o pequeno joa/i da Galácia fazia parte. Em vista disso, surgiu a dúvida sobre quem seria o destinatário da carta. À qual das duas “Galácias” se referia ele? O assunto é excessivamente complicado para ser discutido aqui. Quanto a nós, depois de pesar cuidadosamente os prós e os contras, inclinamo-nos a julgar que a epístola foi enviada ao verdadeiro país da Galácia.

As Visitas de Paulo à Galácia Quase todos concordam que as palavras de Paulo no capítulo 4.13: “... vos preguei o evangelho a primeira vez”, indicam que ele visitara a Galácia duas vezes antes de escrever. O registro nos Atos dos Apóstolos coincide com esta idéia. Sabemos ali que Paulo visitou a Galácia em sua segunda viagem missionária (At 16.6) e que ele fez uma segunda visita durante a sua terceira viagem missionária, cerca de três anos mais tarde (18.23). A Primeira Visita Ficamos sabendo dois fatos notáveis a respeito da primeira dessas duas visitas. Primeiro, ela foi motivada por uma enfermidade física. A Versão de Almeida Revista e Atualizada afirma isto claramente: “... vós sabeis que vos preguei o evangelho a primeira vez, por cama de uma enfermidade física”(G14.13). Paulo, aparentemente, não pretendera pregar na Galácia, mas foi atacado repentinamente por uma doença que, de modo claro,


afetou sua aparência e que pode ter levado os gálatas a “desprezá-lo” (4.14). Foi a esta moléstia que os gálatas deviam o seu conhecimento do evangelho, (como Deus controla reveses aparentes!). Segundo, apesar desta enfermidade e desfiguramento físico, os gálatas receberam-no com calor e receptividade notáveis, mesmo levando em conta seu temperamento gaulês comunicativo. “E posto que minha enfermidade na carne vos foi uma tentação, contudo não me revelastes desprezo nem desgosto; antes me recebestes como anjo de Deus, como o próprio Cristo Jesus...Pois vos dou testemunho de que, se possível fora, teríeis arrancado os vossos próprios olhos para mos dar” (4.14, 15). O fervor do apóstolo solitário e enfermo e a receptividade calorosa dos ouvintes haviam superado todos os desânimos físicos. Em meio à sua hospitalidade cordial o apóstolo-evangelista convalescente provavelmente se demorara vários meses. A Segunda Visita Mas a segunda visita de Paulo àquela igreja foi bem menos animadora para ele, pois sentiu uma mudança na atmosfera. Ele percebeu sintomas alarmantes entre os cristãos da Galácia que o fizeram sentir-se pouco à vontade. As referências a esta segunda visita não são difíceis de notar na epístola. Achou necessário nessa ocasião adverti-los de que deveriam considerar “anátema” (amaldiçoado) quem quer que modificasse o evangelho pregado por ele (1.9). Paulo pergunta: “Tornei-me, porventura, vosso inimigo, por vos dizer a verdade?” (4.16) — e essas palavras devem referir-se à sua segunda viagem, pois não houvera inimizade na primeira e esta não podia ser causada pela epístola, que não tinham lido ainda! Ele os faz lembrar de novo em sua carta que já tivera de alertá-los — evidentemente em sua segunda visita — contra excessos e erros (v. 21). Mas fica manifesto através de toda a epístola que Paulo se acha lutando contra algum problema perigoso que, desde o começo, durante a sua segunda visita, percebera e denunciara entre os gálatas, e que, infelizmente, continuara a desenvolver-se até a ocasião de sua carta.


O Erro dos Gálatas Qual era o erro principal dos Gálatas? Paulo o chama de “outro evangelho; o qual não é outro” (1.6,7), e depois acrescenta: “há alguns que vos perturbam e querem perverter o evangelho de Cristo”. É pena que nossa versão Revista e Atualizada coloque o termo “outro“ duas vezes aqui, pois Paulo emprega dois adjetivos gregos diversos. O primeiro adjetivo (heteros) significa “outro de uma espécie diferenteenquanto o segundo adjetivo (allos) significa “outro da mesma espécie”. Paulo queria que os gálatas compreendessem perfeitamente que eles estavam sendo desviados para algo que era essencialmente diferente e não para uma forma superior do mesmo evangelho (como eles ingenuamente supunham). Para tornar o sentido de suas palavras definitivamente claro, ele acrescenta que a verdadeira intenção desses perturbadores era “perverter” o “evangelho de Cristo”. O verbo grego traduzido aqui como “perverter” significa literalmente torcer ou inverter algo. Esses perturbadores dos gálatas não estavam na realidade dando a eles simplesmente “outro evangelho da mesma espécie”, com características supostamente superiores: mas distorciam o único “evangelho de Cristo” e invertiam o seu significado, modificando-o completamente. Paulo não nos deixa dúvidas quanto à natureza do afastamento dos gálatas. Depois de sua saudação inicial, suas primeiras palavras são: “Admira-me que estejais passando tão depressa daquele que vos chamou na GRAÇA DE CRISTO, para outro evangelho”. Em resumo, essa era a primeira e a última coisa sobre o fracasso dos gálatas — estavam se desviando daquela doutrina absolutamente distinta do verdadeiro evangelho, no sentido de a salvação eterna da alma ser inteiramente devida à graça divina em Cristo, em separado das observâncias religiosas e das obras de mérito humano de qualquer tipo. E para o que eles estavam se voltando? Passe os olhos rapidamente pela epístola. Buscavam “justificar-se na lei” (5.4). Estavam guardando “dias, e meses, e tempos, e anos” (4.10). Admitiam a idéia da necessidade do rito da circuncisão (5.2; 6.12,13). Queriam aperfeiçoar a obra do Espírito Santo mediante a lei — obras da carne (3.3). Sobrecarregavam a simplicidade e espiritualidade do evangelho com observâncias judaizantes; e, de fato, ao que parece, uma conformidade quase absoluta à Lei de Moisés estava se tornando uma


exigência entre eles (4.21). Não se tratava do evangelho estar sendo diretamente negado; mas a mente deles estava começando a ser inoculada com conceitos legalistas e ritualistas que destruíam as suas doutrinas vitais. Quem eram os perturbadores na Galácia? Na ocasião em que Paulo escreveu esta cartas, eles parecem ter sido um grupo de crentes da própria Galácia. O capítulo 6.13 fala dos mesmos no presente, como se estivessem ainda “se submetendo” ao rito judeu da circuncisão; o que implica em que não tinham feito isso antes e, portanto, que eram gentios. O capítulo 5.12 talvez aponte para a mesma coisa: “Oxalá até se mutilassem os que vos incitam à rebeldia” (/. e.: Por que parar na circuncisão se têm tanto interesse por marcas e sinais no corpo? Por que não se mutilam como fazem os sacerdotes pagãos de Cibele?) Pelo seu próprio temperamento, esses povos gauleses tinham tendência a adotar um tipo de religião ostentadora e ritualista. Não devemos também esquecer que havia um núcleo judeu entre os crentes gálatas e não seria fácil para eles desaprenderem repentinamente seu judaísmo até então intolerante. Parece, porém, igualmente claro que o movimento originara-se através de interferência exterior. A epístola, como um todo, não deixa dúvidas quanto ao fato de os gálatas terem sido definidamente influenciados contra Paulo, e isto só poderia ter acontecido através de uma fonte externa. As coisas ocorreram muito repentinamente e com demasiada emoção (1.6; 4.14-20) para serem o resultado de um lento processo íntimo. Quando Paulo pergunta: “Ó gálatas insensatos! Quem vos fascinouV’ (3.1), ele tem em mente uma ocasião e um agente definidos além dos próprios gálatas que marcaram o início da transformação de atitude dos mesmos em relação à sua pessoa. Isto também se aplica ao capítulo 5.7: “Vós (todos vós) corríeis bem; quem vos impediu?” e ao capítulo 4.17: “Os que (“eles, diferentem ente do ‘vós’ do v. 21) vos obsequiam não o fazem sinceramente”. Os Judaizantes de Jerusalém Havia um grupo interessado em difundir uma forma judaizante de cristianismo em Jerusalém. Atos 15 fala dos problemas que causaram em Antioquia. Paulo menciona os mesmos nesta epístola (2.12, etc.). Ele se refere aos “falsos irmãos” deste tipo em Jerusalém (2.4). Sabemos como


a influência de “falsos apóstolos” perturbou a igreja de Corinto (veja 2 Co). Alguns, aparentemente, levavam “cartas de recomendação” (2 Co 3.1). Quando não eram enviados emissários de Jerusalém, o contato era feito com os dirigentes judeus onde as igrejas cristãs se haviam formado; e estes, por sua vez, influenciavam as igrejas através dos convertidos judeus no meio delas. Esses judaizantes integravam o partido cujos representantes seguiam os passos de Paulo por toda parte, destruindo seu trabalho (os ministros de Satanás como “anjos de luz”!) Foram eles que de tempos em tempos quase destroçaram o coração do apóstolo, despertando igualmente sua intensa indignação. O ataque em Corinto foi principalmente dirigido contra o apostolado paulino: foi contra a pessoa dele. Na Galácia, ele se dirigiu contra a doutrina de Paulo, como a epístola mostra por implicação em todo o contexto; embora também na Galácia não hesitassem em depreciar o apóstolo (veja a nota que precede este estudo). O assunto era urgente e absolutamente vital para Paulo — a própria Cruz de Cristo achava-se em perigo, em vista deste plausível legalismo dos judaizantes: pois “SE A JUSTIÇA É MEDIANTE A LEI, SEGUE-SE QUE MORREU CRISTO EM VÃO” (G12.21).

A Epístola Propriamente Dita Passamos agora dessas considerações preliminares para a própria epístola. Foi dito com alguma verdade que “num escritor como Paulo” qualquer análise de suas epístolas num “arranjo sistemático” deverá ser “mais ou menos artificial”, especialmente quando (como em Gálatas) ele é “estimulado por sentimentos profundos”. Todavia, embora as epístolas de Paulo sejam um todo compactamente tecido, seus movimentos principais de pensamento são sempre distintos e organizados. Isto acontece com a Epístola aos Gálatas. Ela se apresenta em três movimentos claros de dois capítulos cada, que podem ser notados numa primeira leitura. Os dois primeiros capítulos são uma narrativa (do próprio Paulo). Os dois capítulos seguintes são uma discussão (relativa ao evangelho). Os dois capítulos restantes são uma exortação (dirigida aos crentes da Galácia). Em outras palavras, os dois primeiros capítulos são pessoais, os


dois intermediários são doutrinários, os dois últimos são práticos. Mas, qual é o propósito em cada uma dessas três partes? É isso que sempre procuramos nestes estudos. Não nos interessamos pela análise em si, ainda que seja detalhada e cuidadosa, mas apenas de um ponto de vista interpretativo. Buscamos o alvo, o significado e o assunto principal em toda passagem. Capítulos 1 e 2 Leia então os dois primeiros capítulos de Gálatas — a parte em que se encontra a narrativa pessoal. Por que Paulo faz este registro de seus movimentos? A idéia geral é que ele defende o seu apostolado: mas se tivermos de ser estritamente exatos, isto não é o seu verdadeiro propósito aqui. Leia os capítulos novamente com cuidado: Paulo está provando a veracidade, a autenticidade do evangelho que pregava. Ele começa dizendo que seu apostolado não viera por intermédio do homem, mas de Deus (1.1). Seu evangelho não era “segundo o homem”, pois não o recebera de homens nem fora ensinado por eles — mas mediante revelação direta (w. 11, 12). Depois de ter recebido esta revelação e encargo diretos, ele “não consultara carne e sangue” (v. 16). Não poderia certamente ter recebido seu evangelho de segunda mão da parte dos outros apóstolos (como seus caluniadores aparentemente afirmavam), pois não subira a Jerusalém nessa ocasião para vê-los (v.17); e mesmo quando mais tarde, após três anos, ele subira para uma visita curta, só vira Pedro (Cefas) e Tiago (v. 19). E mesmo depois disso, ainda continuava pessoalmente desconhecido das igrejas na Judéia (w. 22, 23). Não pode haver então dúvidas sobre o propósito de Paulo aqui, ou seja, mostrar que o evangelho pregado por ele era autêntico quanto à sua origem. O capítulo 2 dá prosseguimento a esta autenticação, embora com uma ênfase diferente. Este evangelho que Paulo recebera diretamente de Deus (1.20), ele comparara e conferira com os outros apóstolos mais tarde. Catorze anos após sua primeira visita a Jerusalém, ele voltara justamente com esse propósito (2.1,2); e houvera completa harmonia entre todos (w. 6-10). Seu acordo, com respeito à doutrina central da salvação única e inteiramente pela graça, fora tão completo que, numa ocasião posterior,


quando Pedro e outros haviam voltado ao comportamento judaizante, Paulo teve condições de censurá-los com base nessa idéia comum (2.11-21). De modo que a “diferença” circunstancial entre eles se transformara na verdade, em outra evidência do acordo subjacente que existia quanto à verdadeira natureza do evangelho. Assim, tanto por comparação (2.1-10) como por contestação (11-21), Paulo provara que seu evangelho era de natureza idêntica ao pregado pelos demais apóstolos. Assim, temos nos capítulos 1 e 2 a AUTENTICIDADE do evangelho: (a) quanto à sua origem, no capítulo 1; e (b) quanto à sua natureza, no capítulo 2. Além disso, esses dois capítulos são importantes para mostrar a identificação básica do evangelho pregado por Paulo, Pedro e os outros apóstolos. Cuidado com alguns que, atualmente, fazem comparações entre o evangelho “paulino”, “petrino” e “joanino”! Capítulos 3 e 4 Vejamos agora os capítulos 3 e 4. Qual o verdadeiro elemento central do argumento teológico contido neles? Para começar, não podemos deixar de ver que a atitude de Paulo em todo o tempo é de absoluta surpresa. Ele fala como se fosse quase incrível que alguém pudesse afastar-se da gloriosa liberdade e superioridade do evangelho para a escravidão e pobreza do legalismo. Suas primeiras palavras são: “Ó gálatas insensatos! Quem vos fascinou?” — como se só pudesse atribuir isso a um encanto hipnótico. Ele usa novamente a palavra “insensato” no v.3: “Sois assim insensatos que, tendo começado no Espírito, estejais agora vos aperfeiçoando na carne?” E, de novo, em 4.9, ele pergunta: “Como estais voltando outra vez aos rudimentos fracos e pobres, aos quais de novo quereis ainda escravizar-vos?” E como se Paulo se sentisse quase confuso. Ele, de fato, diz praticamente isso em 4:20: “Porque me vejo perplexo a vosso respeito”. Nesses dois capítulos inteiros Paulo mostra a superioridade do evangelho sobre o judaísmo; do “Espírito” sobre “a carne” (3.3); da “fé” sobre as “obras” (3.2); de ser “justificado” sobre ficar preso à lei (w. 8,11); de ser “abençoado” sobre ser “amaldiçoado” (w. 9, 10); da “promessa” em Abraão sobre o mandamento por intermédio de Moisés (w. 12-14); da aliança abrâmica sobre a mosaica (w. 16-22); da maturidade sobre a tutela (w. 25,26); da condição de filho sobre a de escravo (3.26; 4.6); da


“adoção”, i.e., do estado de filho adulto e seus privilégios sobre a infância legal, com sua incapacidade para herdar (4.1, 3, 5); da liberdade sobre a escravidão (4.8,21-31). Quão superior é verdadeiramente tudo isto! E que loucura estranha é voltar ao legalismo! Note também que, embora este tema, o da superioridade do evangelho, una esses dois capítulos, cada um oferece sua própria ênfase. Uma leitura cuidadosa do capítulo 3 irá revelar que o ponto central está nas palavras do v.7: “Sabei, pois, que os da fé é que são filhos de Abraão”. O “pois” indica inferência do que precede. O que os versículos anteriores dizem? Que foi pela fé que o Espírito Santo tinha sido recebido; e que essa era a evidência indiscutível da condição defilhos. O restante do capítulo expande isto: (a) Cristo nos remiu da maldição da Lei para que a promessa do Espírito pudesse ser cumprida mediante a fé (veja w. 10-14). (b) A concessão da Lei não anulou a promessa abrâmica (w. 15-29). O capítulo encerra-se com uma repetição de sua ênfase especial: “Pois todos vós sois filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus” (v. 26); “E, se sois de Cristo, também sois descendentes de Abraão” (v. 29). A ênfase neste terceiro capítulo está então na qualidade de “filhos”. Em outras palavras, esta é a superioridade do evangelho, demonstrada pela nova relação mais excelente a que ele nos leva. No capítulo 4, a ênfase encontra-se nos privilégios desta filiação. A partir da palavra “herdeiros”, na última sentença do capítulo 3, Paulo salienta agora que ser filho é ser também herdeiro (veja os w .l, 7, 30). Duas palavras resumem aqui os privilégios da filiação do crente — “adoção” (v. 5) e “herança” (v. 30). O termo traduzido aqui como “adoção” (como em outros pontos das epístolas de Paulo) não significa adotar no sentido comum de receber um órfão como filho. Mas refere-se à filiação de um adulto, à entrada na maioridade e aos privilégios que isto confere. Nos dias de Paulo, a entrada na idade adulta e o direito à herânça eram geralmente confirmados por uma cerimônia pública. A confirmaçãopública da filiação dos crentes ainda está por vir (veja a palavra “adoção” em Rm 8.18-23); mas nós já recebemos os privilégios da qualidade de filhos num sentido espiritual, porque (como aqui, em Gálatas 4.6,7), “Enviou Deus aos nossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai. De sorte que já não és escravo, porém filho; e, sendo filho, também herdeiro por Deus”. Paulo fica espantado ao ver que os Gálatas se dispunham a ouvir um evangelho “diferente” que os faria perder esses privilégios; ele queria que


eles percebessem de imediato que os seus novos e fascinantes mestres estavam lhes aplicando justamente esse golpe: “Os que vos obsequiam não o fazem sinceramente, mas querem afastar-vos” (v. 17). Ele finalmente apresenta a alegoria de Isaque e Ismael (w. 21-31). Os crentes, por assim dizer, são Isaque, a quem pertence a herança de Abraão; enquanto estar sob a Lei é ser Ismael, o filho da escrava e impedido de receber a herança (v. 30). A herança mencionada aqui é a das promessas (3.14, 16-22, 29, etc.). Temos então nos capítulos 3 e 4 a SUPERIORIDADE do evangelho: (a) na nova relação que ele efetua, como no capítulo 3 e (b) nos privilégios que confere, como no capítulo 4. Capítulos 5 e 6 Nos dois últimos capitulos, temos a exortação de Paulo aos gálatas. Qual a essência dela? O primeiro versículo nos conta: “Para a liberdade foi que Cristo nos libertou. Permanecei, pois, firmes”. Esses dois capítulos referem-se à nossa liberdade em Cristo, na sua aplicação prática à vida e ao comportamento. Não há nada de complexo na passagem. Alguns comentários serão suficientes. Qualquer pessoa cuidadosa irá notar que dois aspectos dessa liberdade são tratados nestes capítulos. Primeiro, no capítulo 5.1-15, é a liberdade de um serviço de amor em lugar de uma escravidão à lei. Nos w. 2 a 12, que são praticamente um parênteses, Paulo mostra com uma nova e drástica finalidade que a alternativa para esta liberdade em Cristo: é estar “obrigado a guardar toda a lei” e “decair da graça”. A seguir, no v. 13, voltando de novo ao assunto do v. 1, ele mostra que a verdadeira liberdade do evangelho é a liberdade do amor e não da permissividade (em resposta talvez às insinuações dos falsos mestres de que a chamada doutrina de liberdade de Paulo concedia licença ao pecado). Segundo, esta liberdade do evangelho é a liberdade “do Espírito” em lugar da escravidão à “carne”. Isto é salientado na passagem 5.16-6.10. Nenhum comentário é exigido aqui sobre esses versículos. No final do capítulo 6, os versículos 11 a 18 são realmente um pós-escrito. Assim sendo, nos capítulos 5 e 6 temos a LIBERDADE do evangelho: (a) a liberdade do serviço de amor em lugar da escravidão à lei, como em 5.1-15;


e (b) a liberdade do Espírito em vez da servidão à carne, como em 5.16-6.10. Podemos colocar nossos resultados em uma breve análise; mas antes disso devemos perguntar-nos: Qual a idéia principal que percorre toda a epístola aos Gálatas? Só pode haver uma resposta: é a LIBERTAÇÃO MEDIANTE O EVANGELHO. A palavra “liberdade” em diferentes formas gramaticais (algumas vezes traduzida como “livre”) aparece cerca de dez vezes na epístola. A base de nossa liberdade é dada nos capítulos 1 e 2, demonstrando a autenticidade do evangelho e preparando para a discussão doutrinária que se segue. A seguir, a verdade de nossa libertação é discutida nos capítulos 3 e 4. Finalmente, o efeito real de nossa liberdade é mostrado nos capítulos 5 e 6. A nota apoteótica soa em gálatas 5.1: “PARA A LIBERDADE FOI QUE CRISTO NOS LIBERTOU. PERMANECEI, POIS, FIRMES”. (Quanto à análise, veja o verso da página-título do estudo seguinte.)


A EPÍSTOLA AOS GÁLATAS (2) Lição ns 31


NOTA: Para este estudo, leia novamente a epístola com cuidado, comparando-a com a análise abaixo. De que modo, senão do céu, homens em arte não habilitados. Nascidos em diferentes épocas, em locais variados, Poderiam imaginar verdades tão iguais? Ou como e por quê, Deveriam todos eles conspirar para nos iludir com algo em que não se crê? Seus esforços não foram pedidos, seus conselhos não tiveram agradecimentos, Seu lucro foi a fome; e o martírio, seu vencimento. —Dryden A EPÍSTOLA AOS GÁLATAS Libertação através do Evangelho Saudação 1.1-5. í- A AUTENTICIDADE DO EVANGELHO Q.1D (Narrativa pessoal) Genuíno quanto à sua origem (1). Genuíno quanto à sua natureza (2). 2. A SUPERIORIDADE DO EVANGELHO (3.4) (Argumento doutrinário) Na nova relação que efetua (3). Nos privilégios que confere (4). 3. A VERDADEIRA UBERDADE DO EVANGELHO (5.6) (Aplicação prática) O serviço de amor faz cessar a escravidão à lei (5.1-15). O Espírito faz cessar a escravidão à carne (5.16-6.10) Pós-escrito 6.11-18.


A EPÍSTOLA AOS GÁLATAS (2) ATUALIZADA E ALTAMENTE NECESSÁRIA Que ninguém pense que o assunto tratado nesta epístola pertence unicamente às eras passadas. Ele é tão atual como o era quando motivou Paulo a usar da pena. O conflito entre o verdadeiro evangelho e seus mutiladores legalistas é uma crise perpétua. As circunstâncias externas podem variar, mas as mesmas verdades vitais estão sempre em jogo. Os apóstolos modernos que misturam grosseiramente a lei e a graça, como denunciado por Paulo, não são mais os judaizantes de Jerusalém; mas a sua perversão do evangelho é praticamente a mesma e cabe-lhes o mesmo anátema. Quem, nestes dias, pensa em observar os ritos e ordenanças judaicas, assim como os dias santos, como meio de obter justificação diante de Deus? Todavia, aquele fascínio satânico, aquele evangelho “diferente” condenado em Gálatas é, em sua essência, a própria religião que ouvimos ser pregada hoje em toda cristandade.

O Ritualismo de Hoje Observe como a Igreja Católica Romana segue os gálatas! Ela supera os “perturbadores” dos dias de Paulo com sua engenhosidade enganosa e ostentação cheia de pompa! Observe como essa meretriz dos sete montes mistura missas e crucifixos, confissões e penitências, ordenanças e adoração a Maria e aos santos, assim como toda espécie de obras meritórias, com o evangelho verdadeiro da graça de Deus em Cristo, até que “a graça já não é graça” (Rm 11.6) e a “verdade do evangelho” é sacrificada no altar da superstição. Observe o aumento do ritualismo na Igreja Anglicana de hoje! Veja como os clérigos de batina e os bispos de mitra dessa igreja transformam de novo a mesa do Senhor em um altar sacerdotal! Veja como o partido anglo-católico está insistindo em formas e cerimônias ritualistas tão


estranhas ao Novo Testamento como as trevas o são à luz, ou a doença, à saúde. Veja com que ares de superioridade comparável ao dos gálatas, esses eclesiásticos de toga e cheios de vestimentas olham para aqueles dentre nós que se apegam ao evangelho simples. Poderíamos rir ao contemplar esses tolos enfeitados, se não fosse o perigo mortal que representam devido a sua posição de líderes religiosos. Esses arrogantes seguidores dos gálatas, pertencentes à comunidade anglicana e outras, estão enganando os cristãos e levando-os ao caminho em declive que, por fim, os levará a beijar o pé do papa em Roma. Os “perturbadores” nos dias de Paulo exaltavam Pedro às custas de Paulo, de Moisés às custas de Cristo. E é justamente isso que o romanismo faz hoje. Roma odeia a Paulo. A Igreja Católica Romana não ousa permitir que seus membros estudem as epístolas de Paulo por si mesmos: se houvesse essa permissão, veríamos “Luteros“ e “Calvinos” desajeitados surgindo em toda parte! O processo de “mistura” dos gálatas é visto em sua plenitude na história do romanismo: trata-se da mistura progressiva da fé e obras, graça e lei, Espírito e carne, verdade e erro, Igreja e Estado, cristianismo e paganismo, Cristo e o pseudo-Cristo, Deus e o diabo.

O Radicalismo de Hoje Mas não é apenas no romanismo e no ritualismo que vemos repetir-se atualmente a atitude dos gálatas. Ela se nos apresenta sob o sorriso brando do chamado “modernismo”. Examine os modernistas, com sua glorificação da sabedoria humana, e seu “evangelho” da salvação pela bondade do caráter. Esta é apenas uma outra expressão do mesmo velho mal atacado por Paulo. Trata-se da tentativa de estabelecer a justificação diante de Deus pela combinação do esforço próprio e mérito humano com a graça divina. A cruz somente não basta: a salvação deve ser, pelo menos em parte, fruto de um bom caráter. Atualizada? Não existe um escrito mais atualizado no mundo do que As opiniões esposadas pelo autor não são necessariamente endossadas pelos editores no Brasil, uma vez que o quadro por ele descrito foi relativamente alterado após o Concílio Vaticano II. *


esta pequena discussão com os gálatas! A força da Reforma já se diluiu. O protestantismo sofreu, em grande parte, influência do fermento maligno do legalismo. A lei está de novo mesclada à graça. O erro fatal de que as obras meritórias e as observâncias religiosas fazem parte da mensagem cristã predomina. Isto é encontrado em todas as chamadas denominações protestantes: e o resultado é o mesmo do legalismo dos dias de Paulo. De maneira irônica, em lugar de tornar as pessoas realmente mais santas, a insistência em obras humanas meritórias e em cerimoniais externos alimenta as vaidades perigosas da natureza humana e gera uma moral corrupta. Apesar da forma de cristianismo supostamente superior que os gálatas estavam aceitando, vemos o apóstolo sendo obrigado a censurá-los pelo mau comportamento flagrante (5.19-21). Há boas razões para lermos muitas vezes esta epístola aos Gálatas em nossos dias, até que suas verdades urgentes integrem-se perfeitamente ao nosso modo de pensar. Desde o início até o fim, a fé é uma condição para a salvação e a Cruz a base todo-suficiente da mesma. Desde o princípio até o fim trata-se de fé em separado das obras, graça à parte do mérito, Cristo em separado de Moisés e da Cruz sem as ordenanças. Esta Epístola aos Gálatas é a defesa mais apaixonada de Paulo sobre o verdadeiro evangelho. Seu propósito supremo, em palavras ditas por ele mesmo, é “PARA QUE A VERDADE DO EVANGELHO PERMANECESSE ENTRE VÓS” (2.5). Possa Deus renovar em nossos corações esse mesmo propósito e esse mesmo ardor! A própria vida e alma do cristianismo estão em jogo! Deus nos ajude a lutar este “bom combate da fé”! — pois a luta continua incessante hoje e continuará até que Cristo volte e lance o grande enganador da humanidade no abismo insondável.

Um Tesouro em Gálatas Dediquemo-nos agora a considerações mais agradáveis. Esta epístola, além de ser um aviso contra o legalismo, é também um tesouro de verdades edificantes. Poderíamos ocupar muito espaço demonstrando as qualidades positivas na mesma que convidam a um estudo mais profundo; mas alguns exemplos serão suficientes. Volte à última das três partes principais da epístola (capítulo 5 e 6), onde


o tema de Paulo é a verdadeira liberdade do evangelho. Vimos que esta liberdade é apresentada em dois aspectos: (a) é a liberdade de um serviço de amor em lugar de escravidão à lei (5.1-15); e (b) é a liberdade do “Espírito” em lugar de escravidão à “carne” (5.16-6.10). Nesta última seção, onde Paulo fala da liberdade do “Espírito”, ele demonstra de maneira belíssima e em quatro aspectos, qual a verdadeira expressão dessa liberdade. Esta epístola aos gálatas foi escrita a grupos de crentes espalhados em uma área rural, em que a maioria das pessoas eram trabalhadores agrícolas de um ou de outro tipo. De acordo com a mentalidade e circunstâncias dos gálatas, Paulo usa linguagem e metáforas específicas em relação a eles. Havia quatro tipos de “produção” e “sofrimento” especialmente familiares aos gálatas: produção de fruto, carregar os fardos, produção de sementes e suportar a marcação com ferro quente (desde que muitos dos trabalhadores eram escravos, eles eram marcados para indicar a quem pertenciam). Veja agora como Paulo faz uso dessas coisas ao expor a verdadeira liberdade do Espírito: FRUTO:

“O fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, etc.” (w. 22,23). FARDO: “Levai as cargas uns dos outros, e assim cumprireis a lei de Cristo”,(6.2). SEMENTES: “Pois aquilo que o homem semear, etc.” (6.7). “E não nos cansemos de fazer o bem, porque... ceifaremos” (v. 9). MARCA: “Eu trago no corpo as marcas de Jesus” (6.17).

Temos aqui um estudo tão belo quanto prático. Muitas lições são sugeridas, como, por exemplo, a de que, ao fazermos contato com as almas para Cristo, devemos nos colocar no mesmo plano delas, conversando com essas pessoas em termos que lhe sejam familiares e adequados. Paulo era um mestre nessa arte, como revelam suas epístolas. Mas, naturalmente, a grande lição a ser gravada é que nós também devemos produzir frutos, carregar cargas, produzir sementes, e levar as marcas da causa do Senhor.


0 fruto do Espírito (w. 22, 23) Enquanto estamos nesta seção da epístola, devemos notar a maneira como Paulo fala das graças que o Espírito Santo produz na vida do crente consagrado. Ele as chama de “fruto” do Espírito. Nove virtudes foram enumeradas e, à primeira vista, elas parecem ter sido escritas sem qualquer referência à sua ordem; mas, mediante um exame mais cuidadoso, elas revelam um progresso bastante significativo. Essas nove virtudes apresentam-se em grupos de três. As primeiras três —“amor, alegria, paz” —são estados que eu experimento em meu próprio coração; i.e., elas se referem diretamente a mim. As três seguintes — “longanimidade, benignidade, bondade” — são disposições que devo revelar em relação a outros; i.e., elas têm relação com meu próximo. O terceiro grupo — “fidelidade, mansidão (ou humildade), domínio próprio (temperança)” — são atitudes que devo manter como a essência da piedade; elas se referem especialmente a Deus. Logo, esses três grupos expressam respectivamente a vida cristã em relação a mim mesmo, meu próximo e meu Criador; ou, em outras palavras, as três primeiras virtudes olham para dentro, as três seguintes, para fora e as últimas três para o alto. Esses trios abrangem todos os relacionamentos da vida. Eles nos dizem que uma vida sob o controle do Espírito Santo é bela ao extremo. Indicam também que a verdadeira beleza da vida cristã consiste nas qualidades do coração em lugar de atos externos. Salientam o fato de que aquilo que somos determina o valor do que fazemos. Só o Espírito Santo pode produzir essas qualidades no coração e na vida. Existem imitações aproximadas, mas esta vida de amor só pode ser produto do Espírito que habita em nós e nos santifica. Não devemos também negligenciar o consolo da verdade dessas atitudes interiores, exteriores e ascendentes do coração, que são chamadas de “fruto”; ou seja, elas surgem através do crescimento ou cultivo, e não apenas do esforço próprio. Além do mais, o fruto surge gradualmente. Esta é uma esperança para alguns de nós que têm tantas faltas a lamentar no passado e tanta fraqueza no presente! As virtudes cristãs são “fruto”, são o crescimento de uma vida interior e este crescimento é progressivo. Conhecemos por experiência este “fruto do Espírito”? O segredo é, portanto, monopólio exclusivo do coração pelo 1 íspírito. Isto não é tudo. Essas nove virtudes ou graças do Espírito, além de se


agruparem em conjuntos de três, possuem igualmente outros arranjos de grande beleza. Cada um dos trios revela uma ordem perfeita. Vejamos o primeiro: “amor, alegria, paz”. Aqui, a primeira das três virtudes mencionadas é o fundamento das outras duas. O “amor” vem então em primeiro lugar; depois a “alegria”, que é o amor exultante; e por fim a “paz”, que é o amor em repouso. Vejamos o segundo trio: “longanimidade, benignidade, bondade”. Aqui novamente, a primeira mencionada é a base das outras duas. “Longanimidade” vem em priineiro lugar; depois benignidade, que é a longanimidade em sua expressão passiva; a seguir “bondade”, que é a longanimidade em sua expressão ativa. Vejamos o terceiro trio: “fidelidade, mansidão, domínio próprio”. Outra vez a primeira é a base das outras duas. A “fidelidade” vem em primeiro lugar; depois a “mansidão”, que é a expressão de fé em direção a Deus; e por último o “domínio próprio” que é a expressão de fé na vida. Talvez ainda haja outras belezas ocultas neste grupo de graças! Contrastes, Metáforas e Idéias Vivos Esta Epístola aos Gálatas é notável por seus contrastes vívidos: graça e lei: fé e obras; o Espírito e a carne; circuncisão e nova criação; a cruz e o mundo; liberdade e escravidão; o natural (Ismael) e o espiritual (Isaque); Cristo e Moisés etc. Por meio desses contrastes, a verdade torna-se mais viva e poderosa; e a epístola é digna de cuidadoso estudo em seu uso desses contrastes. Além disso, nesses seis capítulos, encontram-se algumas das metáforas, idéias e declarações mais notáveis do Novo Testamento. O que dizer da terrível condenação no capítulo 1. 8, 9? Se existe uma palavra no Novo Testamento que os ritualistas e modernistas de nossos dias precisam ponderar é esse anátema! E as palavras preciosas no capítulo 2.20? Veja também o parágrafo vital que define a relação da lei como um aio (pedagogo)! Que comentário a história nos deu sobre Ismael e Isaque, os dois filhos de Abraão! Jamais nasceram dois filhos mais notáveis. Ambos foram citados antecipadamente em famosas profecias. Foram os ismaelitas que compraram e venderam José na antigüidade; e eles estiveram ligados com o comércio de escravos desde então. Dessa linhagem veio Maomé, que


escolheu como símbolo a lua em seu ponto mais escuro, e como arma a espada, fundando uma religião que, mais do que qualquer outra, oprimiu a mulher e se opôs a Cristo. Por outro lado, da linhagem de Isaque vieram as bênçãos que enriqueceram o mundo além de toda imaginação: as Escrituras do Antigo e Novo Testamento, o Salvador do mundo e o evangelho da graça de Deus para os homens. Pergunta-se como dois filhos tão diferentes poderiam nascer do mesmo pai, um para trazer sofrimento e o outro para abençoar. A resposta encontra-se em Gálatas 4.21-31. Esses dois filhos nasceram de dois princípios diferentes que lutavam pela posse de um homem, Abraão. Ismael nasceu da carne e na incredulidade. Isaque nasceu da “promessa”, em resposta à fé. Que grande estudo é a vida de Abraão, conforme registrada nas Escrituras, mostrando a luta entre os dois princípios que se opunham mutuamente. A fé foi, porém, se fortalecendo cada vez mais até triunfar totalmente no oferecimento de Isaque! Note as duas advertências referentes à liberdade do evangelho (em 5.1, 13), expressando aspectos divergentes, todavia ambos necessários e cada um equilibrando o outro. Devemos permanecer firmes nela e jamais perdê-la (1), além de usá-la com amor e jamais abusar da mesma (13). Note as duas advertências sobre nosso “andar” cristão no capítulo 5.16 e 25. No v. 16 o termo grego significa nosso andar em geral, nosso comportamento, hábitos arraigados e conduta comum. Mas, no v. 26, Paulo faz uso de uma palavra com uma associação militar. Ela envolve a idéia de uma fileira de soldados e significa que, em todos os detalhes de nossa vida, devemos andar “no mesmo passo” do Espírito Santo! Observe a surpreendente metáfora no capítulo 6.10, “família da fé”. A igreja cristã é a família da “fé”. Não é possível enfatizar em excesso essa idéia hoje, pois a divisão atual na fé cristã é deplorável. Uma das interpretações erradas mais graves no momento é que a Igreja de Cristo não passa de uma associação de pessoas reunidas por causa da semelhança entre seus ideais humanitários ou por qualquer outras simpatias puramente humanas, em lugar de ser uma comunidade de fé, da fé, daquela fé baseada em certos fatos únicos e centralizada em certas verdades divinas importantes. Não devemos esquecer também que a verdadeira Igreja é uma ‘família”. E la é um a família, tem relacionamentos, afinidades, privilégios e obrigações familiares. Não vamos esquecer também da idéia de separação contida nesta metáfora. Esta “família da fé” é claramente distinta dos demais homens e mulheres.


“Enquanto tivermos oportunidade” devemos fazer “o bem a todos”, mas “principalmente aos da família da fé”. Que lugar alegre seria a nossa igreja se esta idéia de “família” fosse realmente praticada entre o povo do Senhor! Essas são apenas algumas das coisas profundas e enriquecedoras que nos prendem a atenção nesta epístola aos Gálatas; mas achamos que são suficientes para mostrar como o solo é fértil para aqueles que desejam cultivá-lo.

Pós-Escrito Até mesmo o pós-escrito que Paulo acrescenta a esta epístola está cheio de frases interessantes (6.11-18); mas chamamos atenção simplesmente para as palavras finais: “Quanto ao mais, ninguém me moleste; porque eu trago no corpo as marcas de Jesus”. Havia cinco classes de pessoas marcadas, i.e., escravos (como sinal de propriedade), soldados (como marca de fidelidade), devotos (como sinal de consagração), criminosos (como sinal de evidência) e os abomináveis (como marca de rejeição). As “mafcas” do Senhor Jesus no corpo de Paulo eram essas cinco coisas em uma só! E quais eram elas? Leia 2 Coríntios 11.23-28 para uma parte da resposta. (Que registro!) Paulo fora espancado e ferido de maneiras que só poderiam deixar cicatrizes permanentes em seu corpo. Poderia ele, por exemplo, ter sofrido o apedrejamento em Listra, depois do qual foi arrastado para fora da cidade e deixado como morto, sem conseqüências duradouras? Não sabemos se as cinco vezes em que foi açoitado pelos judeus deixaram quaisquer marcas permanentes; mas as três vezes em que foi chicoteado pelos soldados romanos abririam sulcos em sua pele, cujas cicatrizes durariam a vida toda. Além disso, ele sofreu violências ainda mais bárbaras às mãos da plebe, emboscada de inimigos e assaltos de ladrões. Essas foram as suas dificuldades físicas e esses deveriam ter sido os efeitos que fariam com que ele fosse tomado por algum infeliz proscrito, pagando a pena de seus crimes, por causa da sua aparência. De fato, em 1 Coríntios 4. 9-13, o apóstolo fala de si mesmo como tendo recebido esse tipo de tratamento. Mas,por que o apóstolo menciona essas marcas no final de sua carta aos


gálatas? Uma razão é indicada pelo fato de o “eu” ser enfático: “Eu trago no corpo as marcas de Jesus”. Paulo traça um contraste entre a sua pessoa e a dos mestres judaizantes que estavam desviando os crentes gálatas. Esses homens falavam com grande pretensão; mas será que eles levavam as marcas do Senhor Jesus em seu corpo como Paulo? Não; como a maioria dos que gostam de gritar, eram preguiçosos. Pregavam bem, mas não queriam sofrer. Faziam boa figura na plataforma, mas tinham profunda consideração pela segurança de sua própria pele. Uma segunda razão de Paulo ter mencionado aqui essas marcas é encontrada na sua ênfase sobre o fato de elas serem “as marcas de Jesus”. Ele está fazendo um contraste entre as marcas de Jesus e as de Moisés (circuncisão: ver os w. 12-15). A circuncisão é a marca de Moisés e fala da servidão a um sistema legal. “As marcas do Senhor Jesus são as de um serviço alegre, livre, voluntário, de auto-sacrifício. Uma terceira razão pela qual ele fala dessas marcas é encontrada nas palavras “Quanto ao mais, ninguém me moleste”. Esta Epístola aos Gálatas, como vimos, está cheia de problemas. E todas as dificuldades procediam dos quinta-colunas judaizantes que estavam decididos a corromper a fé incipiente dos convertidos de Paulo. Mas esses falsos mestres também estavam atacando o próprio Paulo, pondo em descrédito seu apostolado e até questionando a sua sinceridade. Um dos problemas já era suficiente; mas que o herói marcado de cicatrizes de batalha ainda tivesse de ser caluniado e tido como suspeito, era mais do que ele podia suportar. Nas palavras “Quanto ao mais, ninguém me moleste; porque eu trago no corpo as marcas de Jesus”, existe algo de um apelo tocante, para que se esses mestres subversivos tivessem qualquer senso de honra ou honestidade, pelo menos abandonassem esse embuste covarde de destruir a fé na sinceridade de Paulo, ao ver que ele sofreu tanto por causa de sua mensagem. Paulo sentia corretamente que recebera cicatrizes suficientes para colocar, acima de qualquer dúvida, sua lealdade como servo e apóstolo de Cristo. O nome de Jesus, por assim dizer, fora marcado em todo o seu corpo ferido e espancado. O que essas marcas de Paulo nos dizem? Elas dizem três coisas: primeira, jamais devemos nos envergonhar de suportar sofrimento ou censura por causa de Jesus; segunda, não devemos temer tais marcas em nossos corpos; e, terceira, que a nossa oração diária seja no sentido de podermos levar as marcas do Senhor Jesus em nosso caráter.


Capitão amado, os ferimentos de batalha foram Teus, Que eu não me surpreenda se alguns vierem a ser meus; Em vez disso, Senhor, que profundo seja o meu admirar Poder contigo um ferimento de batalha compartilhar. As vitórias do cristianismo, onde quer que tenham sido conquistadas, foram sempre através de uma teologia doutrinária distinta; contando aos homens sobre a morte e sacrifício de Cristo em nosso lugar; mostrando-lhes a substituição de Cristo na cruz e seu Sangue precioso; ensinando-lhes a justificação pela fé e pedindo que creiam num Salvador crucificado; pregando a destruição pelo pecado, a redenção por Cristo, a regeneração pelo Espírito; levantando a serpente de bronze; dizendo aos homens para olharem e viverem, para crerem, para se arrependerem e serem convertidos. Este é o único ensinamento que, em dezoito séculos, Deus honrou com sucesso, e está honrando hoje tanto em nosso país como no exterior. - J. C. Ryle, D.D. FAÇA UM TESTE SOBRE O SEU CONHECIMENTO DE CORÍNTIOS E GÁLATAS 1. Até que ponto você pode reproduzir a análise que demos sobre 1 Coríntios? 2.0 primeiro versículo de 1 Coríntios 2 sugere a existência de uma crise intelectual e espiritual na vida de pregação de Paulo. Descreva-a. 3. Mencione dois meios em que, segundo 1 Coríntios, o evangelho é loucura para os sábios do mundo. 4. Qual foi o problema representado pelas “carnes” para os judeus e, mais tarde, pelos cristãos em lugares como Corinto? 5. Como você explicaria as palavras de Paulo, “Aos mais digo eu, não o Senhor? e as suas palavras, “E isto vos digo como concessão e não por mandamento”? 6. Você pode reproduzir nossa análise de 1 Coríntios 12, 13, 14, a passagem sobre “dons espirituais”? 7. Quem (brevemente) eram os judaizantes que tanto perseguiram Paulo e prejudicaram seu trabalho?


8. Você é capaz de reproduzir nossa análise de 2 Coríntios? 9. Você pode dar os sete pontos de contraste entre a velha e a nova aliança como descrito em 2 Coríntios 3 e 4? 10. Qual foi o erro dos gálatas? Qual a idéia principal e a estrutura tríplice desta epístola? 11. De que quatro tipos de “produção” e “sofrimento” Paulo fala em Gálatas 4.5 e qual a sua aplicabilidade peculiar aos gálatas? 12. Dê três razões de Paulo mencionar suas “marcas”, ao terminar a Epístola aos Gálatas.


A EPÍSTOLA AOS EFÉSIOS Lição nô 32


NOTA: Para este estudo, leia todo o livro de Efésios de uma vez; e repita a leitura tomando notas preliminares de divisões claras ou aspectos especiais da epístola.

INFORMAÇÃO SOBRE EFÉSIOS, FILIPENSES E COLOSSENSES As epístolas aos gálatas e romanos (como mostrou a história da Reforma do século XVI) são a casa do tesouro das verdades do cristianismo pessoal; a própria idéia de justificação, como é natural, e que as domina, faz com que o indivíduo enfrente seu pecado e sua salvação, naquela suprema crise da vida e da morte, na qual tem consciência de apenas duas existências — Deus e ele mesmo. Essas epístolas posteriores são igualmente o depósito do conceito menos cintilante, todavia mais majestoso, da Santa Igreja Universal. A idéia central é de Cristo como Cabeça e, coletivamente, toda a cristandade da Igreja como o seu Corpo. Ele é concebido não apenas ou principalmente como o Salvador de cada indivíduo, mas também como “reunindo em Si mesmo” toda humanidade ou até todo ser criado. Os dois conceitos são naturalmente inseparáveis. Nas primeiras epístolas, a Igreja é constantemente reconhecida; nessas últimas, o relacionamento individual de Deus em Cristo não é ignorado nem por um momento. Mas a proporção (por assim dizer) das duas verdades é modificada. O que é principal num caso é secundário no outro. — C. J. Ellicott, D.D.


Embora não seja, nem de longe, a mais longa epístola de Paulo, Efésios é geralmente considerada a mais profunda. Existe nela uma grandiosidade de concepção, além de majestade e dignidade, riqueza e plenitude que lhe são peculiares.

As Duas Principais Partes e Idéias Se lermos a epístola com olhos observadores, como se apresenta a nós, e sem forçar qualquer análise artificial sobre ela, descobriremos que se abre com clareza e esplendor. Mesmo uma primeira ou segunda leitura irá nos mostrar que seus seis capítulos dividem-se em seis partes iguais. A doxologia culminante no final do capítulo 3, indica imediatamente a qualquer leitor sensato que, com ela, o apóstolo está marcando uma das principais divisões de seu tratado. A primeira metade da epístola, abrangendo os capítulos 1, 2 e 3, é doutrinária. A segunda metade, abrangendo os capítulos 4,5 e 6, éprática. A parte um, doutrinária, fala da riqueza do crente em Cristo. A parte dois, prática, fala do andar do crente em Cristo. Qualquer um pode verificar facilmente isto se reler cuidadosamente os dois trios de capítulos. Em ambos os casos, o apóstolo pendurou a chave, por assim dizer, bem na frente da porta que deve ser aberta, porque o vcrsículo-chave nas duas partes é o primeiro. Na primeira parte, que descreve a riqueza do crente em Cristo; o primeiro versículo depois da saudação diz: “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos tem abençoado com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais cm Cristo”. A seguir, na segunda parte, que descreve o verdadeiro andar do crente em Cristo, o primeiro verso diz (4.1): “Rogo-vos, pois, eu, o prisioneiro no Senhor, que andeis de modo digno da vocação a que fostes chamados”. Assim, vemos imediatamente que Efésios é a epístola de N( )SSA RIQUEZA E NOSSO ANDAR EM CRISTO.


Na primeira metade da epístola, as divisões em capítulos são muito úteis. Elas assinalam as interrupções reais no tratamento dado pelo apóstolo ao assunto enfocado. Cada um desses três capítulos é, em um certo sentido, completo em si mesmo; os três juntos são, todavia, uma trindade numa unidade. Na segunda parte da epístola, as pausas de capítulo devem ser ignoradas. Os sucessivos aspectos do verdadeiro andar do crente em Cristo ocorrem da seguinte forma: em relação à Igreja corporativamente (4.1-16); aos crentes individualmente (4.17-5.2); vida sensual dos de fora (5.3-21); esposas, maridos, filhos, pais, servos, senhores (5.22-6.9); poderes espirituais satânicos (6.10-20). Será melhor se, desde o começo, esboçarmos a epístola inteira numa análise estruturada. A EPÍSTOLA AOS EFÉSIOS SAUDAÇÃO (1.1,2) 1. NOSSA RIQUEZA EM CRISTO íl-3). Cap. 1 Louvor pelos bens espirituais (w. 3-14). Oração pedindo discernimento espiritual (w. 15-23). Cap. 2 Nossa nova condição em Cristo (vv. 1-10). Nossa nova relação em Cristo (w. 11-22). Cap. 3 Revelando o mistério divino (w. 1-12). Recebendo a plenitude divina (w. 13-21). 2. NOSSO ANDAR EM CRISTO (4-6). Acerca da Igreja corporativamente (4.1-16). Acerca dos crentes individualmente (4.17-5.2). Acerca dos de fora que vivem sensualmente (5.3-21). Acerca das relações especiais (5.22-6.9). Acerca dos poderes espirituais satânicos (6.10-20). CONCLUSÃO (6.21-24)


PARTE 1: NOSSA RIQUEZA EM CRISTO (1-3). Vamos examinar brevemente a parte 1, que cobre os três primeiros capítulos. Veremos aqui algo das maravilhosas riquezas espirituais, celestiais e eternas que são nossas, mediante a graça em nosso Senhor Jesus Cristo. Apesar de não ser possível demorar-nos numa pesquisa breve como esta em qualquer passagem especial, podemos indicar os agrupamentos abrangentes desses imensos tesouros.

O Louvor pelos Bens Espirituais (1.3-14) Cada um dos três capítulos na metade doutrinária de Efésios subdivide-se em duas partes. Isto fica evidente no capítulo de abertura. Logo depois da saudação, o apóstolo inicia no v. 3 a principal doxologia: “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos tem abençoado com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo”. Com isto ele dá início a um fluir sublime de LOUVOR que segue até o final do v. 14 — o fluxo de louvor contínuo mais longo em todas as epístolas paulinas. Depois, no v. 15, existe uma transição (marcada através de “Por isso”) para um derramar igual men te grande de ORAÇÃO: “Por isso também eu, tendo ouvido a fé que há entre vós no Senhor Jesus, e o amor para com todos os santos, não cesso de dar graças por vós, fazendo menção de vós nas minhas orações, para...” Segue-se aqui a oração que se desenvolve até 0 fim do capítulo. Note que o “louvor” (w. 3-14) é pelos BENS espirituais c que a “oração” (w. 15-23) é para se obter DISCERNIMENTO espiritual. Viaje rapidamente através do louvor pelos bens espirituais, nos w. 3-14. 1Lscolha seis itens surpreendentes nesta lista de maravilhas. A Eleição Antes da Criação do Mundo “Assim como (Ele) nos escolheu nele (Cristo) antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele; e em amor” (v.


4). O verbo grego aqui traduzido por “escolheu” está no tempo aoristo, significando “de uma vez para sempre”. Ele tem como prefixo a preposição ek, que equivale a “a partir de”. É a voz média do verbo que acrescenta o sentido de escolher por si mesmo. Pense então, — escolhido a partir do mundo, de uma vez por todas, para ser propriedade de Deus, como um tesouro peculiar! Nós fomos escolhidos antes do mundo ser criado! E fomos escolhidos para sermos santos; não porque fôssemos santos, mas para ser santos. Note também que a santidade para a qual fomos chamados aqui e agora é “irrepreensíveis perante ele, em amor”. Não podemos ter ainda poderes perfeitos, mas podemos ter motivos irrepreensíveis, se nossos corações estiverem cheios do seu amor. A Predestinação “Nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo” (w. 5,6). O termo grego aqui traduzido por “adoção” não significa adotar no sentido ocidental moderno, i.e., aceitar um órfão para ser nosso filho, mas sim a declaração pública da filiação de um adulto e o conferir a este os privilégios pertencentes aos filhos que chegam à maioridade. (Isso se aplica toda vez que a palavra “adoção” é empregada no Novo Testamento.) Nós já somos “filhos de Deus” pelo novo nascimento, embora “por essa razão o mundo não nos conhece” (1 Jo 3.1); mas quando Cristo aparecer em glória, será feita a “adoção” ou declaração pública de nossa filiação, e entraremos nos seus plenos privilégios e bênçãos celestiais. Que promessa! Que perspectiva! A Redenção “No qual (Cristo) temos a redenção, pelo seu sangue” (w. 7,8)'. Bendito seja o seu nome, Ele não só nos escolheu antecipadamente e prefixou nosso destino; mas também nos comprou, e a que grande custo para Si mesmo! “Remir” é comprar de volta, libertar pelo resgate. Não se trata de Deus ter pago resgate ao diabo, uma teoria estranha proposta nos primeiros anos da história da Igreja! Absolutamente não, o preço da redenção foi pago em respeito aos princípios eternos da justiça que


governa o universo, à lei santa de Deus que o pecado do homem transgrediu. Fomos “resgatados da maldição da lei” (G13.13), da pena de morte devido à nossa culpa. Fomos “comprados por preço” (1 Co 6.20) da escravidão herdada através da depravação humana. Nós somos DELE agora, mediante um alto pagamento, “através do seu sangue”. A Revelação “Deus derramou abundantemente sobre nós em toda a sabedoria e prudência, desvendando-nos o mistério da sua vontade, segundo o seu beneplácito que propusera em Cristo, de fazer convergir nele, na dispensação da plenitude dos tempos, todas as coisas, tanto as do céu como as da terra.” (Ef 1.8-10) Esta expressão “plenitude dos tempos” não olha só para além da era presente, mas até além do Milênio e do Grande Trono Branco, para os “séculos vindouros” (Ef 2.7) onde haverá um “trono de Deus e do Cordeiro” (Ap 22.3) e uma glória sem mácula que permanecerá para sempre. Que revelação! Podemos realmente ansiar por esse alvorecer inefável! A Herança “No qual (Cristo) fomos também feitos herança, predestinados segundo o propósito daquele que faz todas as coisas conforme o conselho de sua vontade.” Jamais se ouviu falar de tal dote! Essas duas pequenas palavras “no qual” é que lhe dão um significado tão sem limites. É “nEle”, que é herdeiro de todo o universo, que temos a nossa herança! E note que somos “predestinados” a ela por “Aquele que faz todas as coisas conforme o conselho da sua v o n ta d e de modo que nem todos os poderes das trevas poderão destruir o propósito divino nem roubar-nos de nossa herança! O Selo do Espírito “Tendo nele também crido, fostes selados com o Santo Espírito da promessa; o qual é o penhor da nossa herança até ao resgate da sua propriedade” (w. 13,14). A herança é então garantida primeiro aos eleitos


de Deus e, a seguir, estes são selados, ficando protegidos para receberem a herança. As duas idéias predominantes nesse selo são propriedade e segurança. Nós somos dEle e estamos seguroS. Muitos selos foram quebrados como o de Pilatos, mas quem quebrará estel Olhe agora para esses seis prodígios magnificentes, essas “bênçãos espirituais” que são nossas em Cristo —eleição, predestinação, redenção, revelação, herança e selo do Espírito. Podemos nos surpreender com o fato de a largura, o comprimento, a altura e a profundidade da graça, poder e sabedoria divinos terem levado o apóstolo a prostrar-se de joelhos em oração intensa e fervorosa? Não devemos também sentir o mesmo impacto sobre nossas pessoas?

Oração Pedindo Discernimento Espiritual (1.15-23) Isto nos leva à segunda metade do capítulo um. Trata-se de uma oração para que possamos “conhecer”; e Paulo ora para que conheçamos três coisas: (1) “qual é a esperança do seu chamamento”; (2) “a riqueza da glória da sua herança nos santos”; (3) “a suprema grandeza do seu poder para com os que cremos”. A Esperança do Chamamento Divino Veja o v. 18: “a esperança do seu chamamento’’. Um exame cuidadoso das muitas passagens onde a palavra “chamamento” ocorre neste sentido no Novo Testamento mostra que ela significa a obra eficaz da graça de Deus em nossos corações, por meio da qual fomos levados a uma comunhão salvadora com o Filho de Deus. Em outras palavras, ela se refere à nossa conversão. A “eleição” e “predestinação” referem-se ao que estava na mente de Deus desde a eternidade; mas este termo “chamamento” refere-se a algo que ocorreu, uma vez que nascemos, alguma coisa que teve lugar em nossa própria experiência. (Veja At 2.39, Rm 8.29, 30; 1 Co 1.9, e verifique outras referências para confirmação.) Mas qual é esta “esperança” do seu chamamento? A palavra transporta nossos pensamentos em direção ao futuro. Existe um prêmio, um


cumprimento final de nosso chamado celestial. Uma comparação das referências do Novo Testamento revela que existem nelas quatro possibilidades superlativas: (1) ressurreição e imortalidade (veja 1 Co 15.19, 20); (2) reinado em conjunto com Cristo em seu reino vindouro (veja Rm 15.4-13; Ap 3.21); (3) herança eterna nos céus (veja Cl 1.5; 1 Pe 1.4); (4) transformação perfeita na imagem de Cristo (veja Rm 8.29; 1 Jo 3.2; Ap 22.3-5). Esta esperança quádrupla concentra-se em Cristo e será cumprida na sua volta. Que grande esperança! Ela confunde a imaginação e deixa a mente perplexa. Entusiasma e ao mesmo tempo humilha o coração. Ela santifica a vida e nos faz prostrar-nos diante de Deus em agradecimento e adoração. A Herança de Deus nos Santos A oração àe Paulo para que “conheçamos” passa agora para “a riqueza da glória da sua (de Deus) herança nos santos” (v. 18). Isto parece muito estarrecedor? É sobremaneira estranho que o Ser infinito descobrisse uma herança em nós? Um ou dois expositores fazem o possível para que o verso indique ser Deus a herança, e os santos, os herdeiros; mas, não, o grego expressa justamente o que a nossa tradução diz. Aí está então: “a riqueza da glória da sua herança nos santos”. É espantoso. Todavia, a idéia não é completamente nova. Nas Escrituras do Antigo Testamento descobrimos que a nação de Israel foi constituída em “herança” para Jeová (Dt 4.20; 1 Rs 8.53; SI 33.12; Is 19.25). Mas em um sentido bem mais sublime, os membros da igreja verdadeira, comprados com sangue, são constituídos herança para Deus em virtude da aliança suprema em Cristo. Quais os maiores valores no universo de Deus? Serão as estrelas ou as ;ilmas? A maior das estrelas é cega. Ela pode ser vista, mas não vê. Pode ser pesada e analisada, mas não pode saber ou sentir. Pode ser admirada, mas não pode amar. O que são os sistemas estelares imensos em comparação com uma alma que tem capacidade para Deus, para santidade, comunhão, culto, serviço, adoração e amor? Existem quaisquer seres inteligentes em todo o universo que possam significar mais para I )cus em termos de gratidão, adoração, amor e comunhão, do que aqueles a quem Ele remiu com o precioso sangue de seu Filho, por Ele santificado,


glorificado e exaltado à suprema intimidade consigo mesmo? Oh, que gratidão e adoração, que comunhão de amor em adoração Deus irá herdar nos “santos” nas era futuras! O Poder Divino para Nós Mas Paulo ainda ora para que possamos “conhecer” qual a suprema grandeza do seu poder para com os que cremos” (w. 19-23). Note cuidadosamente que a “medida” desse poder é segundo a obra de Deus em Cristo. Observe a seguir que este poder não só ressuscitou Cristo dos mortos; existem três coisas operando juntas nele, a saber: ressurreição, transformação, exaltação. No conjunto das três é que veremos o pleno desempenho deste “grande poder” que Deus “exerceu em Cristo”. Primeiro, Deus mostrou este poder fazendo aquele corpo morto voltar à vida. Depois, Ele o manifestou, ao transubstanciá-lo em outro de forma superior à do mundo. A seguir, tendo adequado esse corpo ressurreto para habitar tanto o céu como a terra, Ele o transportou da terra, através dos espaços aéreo e estelar, àquele lugar que Salomão chama de “céu dos céus”, que Paulo denomina “terceiro céu” e nosso Senhor chama de “casa do Pai”; nesse lugar, qualquer que seja e onde esteja, está a presença de Deus, como em nenhum outro lugar do universo. Deus fez tudo isto apesar da oposição e resistência de Satanás, contra toda a coligação de “principado, potestade, poder, e domínio” (v. 21). Esse é o padrão do Novo Testamento do “poder (de Deus) para com os que cremos”! No capítulo 2, como veremos agora, Paulo nos mostra a operação desse poder nos crentes — vivificando, ressuscitando e fazendo com que se sentem “juntos nos lugares celestiais”, compartilhando da vitória do Senhor sobre todo o poder inimigo. Mas, cada um de nós deve perguntar a essa altura: Até que ponto eu conheço esse poder em minha vida diária de oração, serviço e prática? Será que alguém vai responder: “Ah! É exatamente até este ponto! Esta passagem sobre o poder de Deus para conosco, os que cremos, é de fato maravilhosa, mas como parece distante da experiência real da maioria dos cristãos!” E justamente essa a razão pela qual Paulo ora para que possamos “conhecer”essas coisas. É possível conhecê-las apenas com a mente, mas isso não é conhecer no sentido mais íntimo e vital. Elas têm de ser conhecidas mediante um discernimento


espiritual-, e a função especial do Espírito Santo é torná-las especialmente significativas dentro de nós, de modo que possamos vê-las interiormente e viver em seu poder. Pense nisto com espírito de oração. Quando o Espírito Santo tem realmente oportunidade de apossar-se de nós, todas essas coisas tornam-se então vivas de um modo inteiramente novo.

Nossa Nova Condição em Cristo (2.1-10) Leia agora os dez primeiros versos do capítulo 2, que falam de nossa nova condição em Cristo. Nos versos 1 a 3, vemos os quatro aspectos negativos de nossa condição antes de entrarmos em união salvadora com Ele. Morte Espiritual “Mortos nos vossos delitos e pecados” (v.l). A idéia fundamental da morte não é o cessar da vida, mas a separação. A morte física é a separação entre o corpo e a alma. A morte espiritual é a separação entre o espírito do homem e Deus. Ela significa a ausência da vida superior que se encontrava originalmente no ser humano, antes que o pecado separasse o espírito do homem de Deus, que é o seu ambiente vital. Passar do tempo para a eternidade morto em relação a Deus, alienado e separado dEle, é com certeza um pensamento suficientemente aterrador para fazer com que nos interessemos ainda mais pela salvação das almas sem Cristo que nos rodeiam. A Sujeição a Satanás “Nos quais andastes outrora, segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe da potestade do ar, do espírito que agora atua nos filhos da desobediência” (v.2). Esta “potestade do ar” é o grupo de demônios cúmplices subordinado a Satanás e que exerce uma influência fatal nos corações e assuntos humanos. Pense nisso — esse poder maligno, que


como Paulo diz aqui, “agora atua”nos incrédulos. O fato de a maioria dos homens e mulheres serem tão cegos ao mesmo só torna a situação mais digna de pena. As Inclinações da Carne “Entre os quais também todos nós andamos outrora...fazendo a vontade da carne e dos pensamentos” (v.3). Os “desejos da carne” são apetites terrenos. Os “desejos da mente” são ambições mundanas. Esta era a nossa condição antes da conversão. Não compreendíamos isso, até que o Espírito Santo rompeu a crosta espessa de nossa depravação com a luz regeneradora do evangelho. Sob a Condenação Divina “E éramos por natureza filhos da ira, como também os demais” (v.3). Segundo o idioma hebraico, a expressão significa sob sentença de ira, como quando Saul disse a respeito de Davi, “Ele é filho da morte” (1 Sm 20.31), significando que certamente morreria (veja também 2 Pe 2.14; Mt 23.15; Jo 27.12). Como podemos ler palavras como essas sem que nossos corações se encham de um novo interesse pelos que não têm Cristo? Mas agora, graças a Deus, no v. 4 surge uma interrupção enfática — “MAS DEUS” — e a partir deste ponto há uma história muito diferente a contar. Os versos 4-10 expressam o que somos agora mediante nossa união salvadora em Cristo. Nossa nova condição é estabelecida em quatro aspectos que se destacam em contraste marcante com as quatro características negativas de nossa vida anterior afastada de Cristo. Vivificados Primeiro, em lugar de “mortos em nossos delitos e pecados” lemos agora, “Estando nós mortos em nossos delitos, (Ele) nos deu vida juntamente com Cristo” (v. 5). Trata-se de um prodígio do poder divino, pois quando nossa condição era essa, quem poderia ter feito isso senão Deus? E é uma maravilha da graça divina, pois quando nossa condição era


essa, quem desejaria fazer isso senão Deus? Esta é a primeira operação do poder de Deus para “com os que cremos”, a saber, a renovação da vida espiritual em Cristo. Ressuscitados Segundo, em comparação com a sujeição a Satanás, lemos agora que Deus “nos ressuscitou juntamente” com Cristo (v. 6). O Senhor Jesus não foi simplesmente “vivificado”; Ele foi “ressuscitado” e visivelmente levantado do túmulo, demonstrando sua vitória sobre Satanás e sua entrada numa forma superior de vida. O mesmo acontece conosco. Não só recebemos nova vida, mas também somos libertados da escravidão! Somos “ressuscitados” com Aquele que tem Satanás sob os pés! Mos Lugares Celestiais Terceiro, em oposição às inclinações carnais, descobrimos agora: “E nos fez assentamos lugares celestiais em Cristo Jesus”(v. 6). Nossos olhos estão abertos às realidades celestiais e nossas mentes apegam-se aos desejos celestiais, enquanto nossos corações se satisfazem com as alegrias do céu. É aqui que nos encontramos agora com a consciência do privilégio espiritual. Devemos viver diariamente nesse plano em nossa experiência espiritual. Objetos de Favor Supremo Quarto, em oposição a “filhos da ira” vemos agora: “para mostrar nos séculos vindouros a suprema riqueza da sua (de Deus) graça, em bondade para conosco, em Cristo Jesus” (v. 7). Que linguagem —“suprema riqueza da sua graça”... “séculos vindouros”! Quem poderá sequer sentir a superabundância de pura bênção que as palavras nos prometem? Não é surpreendente que Paulo exclame duas vezes nesta passagem: “Pela graça sois salvos!” e enfatize isso, dizendo: “Não de obra, para que ninguém se glorie”. A graça divina e não o mérito humano deve receber todo o louvor.


EXAMINAI AS ESCRITURAS

Nossa Nova Relação em Cristo (2.11-22) Assim como os versos 1 a 10 traçam um contraste entre nossa nova condição em Cristo e o que éramos antes, esses outros doze versos destacam o contraste entre nossa nova relação em Cristo e o que ela era anteriormente. A passagem gira em tomo de três expressões básicas: “Naquele tempo, estáveis...” (w. 11,12). “Mas agora em Cristo Jesus...” (w. 13-18). “Assim...sois...” (w. 19-22). “Naquele tempo, estáveis...” (w. 11,12) Cinco coisas são ditas aqui sobre o nosso passado: (1) naquele tempo estávamos “sem Cristo”, não tendo direito às esperanças messiânicas de Israel por sermos gentios; (2) éramos “separados da comunidade de Israel, não tendo parte na herança do povo escolhido; (3) éramos “estranhos às alianças da promessa”, não participando das provisões da aliança com Israel pelo nascimento; (4) não tínhamos “esperança”, pois em separado desse Messias-Salvador, não havia esperança para o homem em geral ou para os homens como indivíduos; e (5) estávamos “sem Deus no mundo”, por não possuir o verdadeiro conhecimento de Deus. “Mas agora em Cristo Jesus...” (w. 13-18). O “Mas agora” indica uma pausa. Os w. 13-18 mostram como a situação foi completamente transformada pela obra do Senhor no Calvário. As cinco grandes barreiras entre judeu e gentio foram derrubadas: (1) Ele destruiu a distância, pois no v. 13 “vós, que antes estáveis longe, fostes aproximados(2) Ele destruiu a desunião, pois no v. 14 “ele é a nossa paz, o qual de ambos (judeu e gentio) fez um\ (3) Ele destruiu a divisão, pois no v. 15 a “parede da separação que estava no meio” cai por terra; (4) Ele destruiu a dissensão, pois no v. 15 “aboliu a inimizade...fazendo a paz”] e (5) Ele destruiu toda distinção, pois o v. 15 afirma novamente: Ele cria “dos dois (judeu e gentio) um novo homem”.


“Assim já não sois...” (w. 19-22). Finalmente, no v. 19 surge uma outra pausa, marcada pelas palavras: “Assim já não sois...” Neste ponto, nos versículos 19 a 22, o contraste entre o que éramos e o que somos agora é consumado; e nosso novo relacionamento fica estabelecido em cinco aspectos marcantes. Primeiro, somos todos “concidadãos” da cidade celestial (v. 19). Segundo, somos todos membros da família celestial (v. 19). Terceiro, somos todos edificados sobre o fundamento imperecível (v. 20). Quarto, somos todos pedras vivas no edifício espiritual (v. 21). Quinto, somos todos habitados pelo Espírito regenerador (v. 22). Veja agora todo o movimento num só relance: maravilhe-se com o prodígio desta salvação como apresentada na estrutura total da passagem. A ANTIGA ASSOCIAÇÃO “Naquele tempo, estáveis...” (w. 11-12) “Sem Cristo.” “Separados.” “Estranhos.” “Não tendo esperança.” “Sem Deus.” A NOVA ASSOCIAÇÃO “Assim já... sois...” (w. 19-22) Concidadãos da cidade (v. 19). Membros da família (v. 19). Edificados sobre o único fundamento (v. 20). Partes de um único edifício (v. 21) Habitados pelo Espírito (v. 22). COMO FOI OPERADA A MUDANÇA “Mas agora em Cristo Jesus...” (w. 13-18) Cancelada a distância (“Fostes aproximados”). Abolida a desunião


(“Dos dois criasse um só”). Abolida a divisão (“Derrubada a parede da separação”). Abolida a dissensão (“Abolida a inimizade”). Abolida a distinção (“Dos dois... um novo homem”). Tanto judeus como gentios são agora Reconciliados com Deus (“Reconciliasse ambos com Deus”). Têm paz com Deus (“paz a vós outros... e paz também a eles”). Têm acesso a Deus (“Ambos temos acesso”). Quanta beleza e prodígio contém esse parágrafo quando observado em sua estrutura completa! E que salvação é essa que nos tirou de tanta dificuldade e nos concedeu tamanho privilégio, de tanta pobreza para tais riquezas, de tanta vergonha para tamanha honra, de tanta ruína para tanta glória!

A Revelação do Mistério Divino (3.1-12) Este terceiro capítulo leva a parte doutrinária de Efésios ao seu clímax. Não existe passagem mais profunda na Bíblia. Nesta passagem podemos ver os cumes mais elevados e sondar os abismos mais profundos. Toda a primeira parte do capítulo trata da revelação do mistério divino (w. 1-12); a segunda parte inteira é sobre o recebimento da plenitude divina (w. 13-21). O que é o “mistério” (ou segredo divino anteriormente oculto) que é agora divulgado (w. 1-12)? Vamos deixar bem claro que não se trata do evangelho, embora este o inclua. Não foi feito segredo sobre a vinda de Cristo, que ele carregaria sobre si os pecados de muitos e seria Príncipe e Salvador de judeus e gentios; nem que o Espírito Santo seria derramado,


a remissão de pecados seria pregada e que Cristo ocuparia o trono de Davi. Tudo isso foi profetizado no Antigo Testamento. A Bíblia de Scofield diz com propriedade no v. 6: “O mistério ‘oculto em Deus’ era o propósito divino de fazer dos judeus e gentios algo completamente novo — ‘a Igreja, que é o Seu (de Cristo) corpo’, formado pelo batismo com o Espírito Santo (1 Co 12.12, 13) e no qual a distinção terrena entre judeu e gentio desaparece (Ef 2.14,15; Cl 3.10,11). A revelação deste mistério, predito mas não explicado por Cristo (Mt 16.18), foi entregue a Paulo. Só em seus escritos encontramos a doutrina, a posição, o andar e o destino da Igreja.” De maneira mais completa, podemos dizer que o “mistério” ou segredo revelado é que Cristo, em lugar de tomar imediatamente o “reino” quando veio à terra — o reino predito pelos profetas do Antigo Testamento — deveria, após sua rejeição, crucificação e ressurreição, desaparecer completamente do cenário terreno, ser exaltado ao céu à destra de Deus, acima de todo poder e esfera, recebendo o governo do universo inteiro tanto agora como na era vindoura (e não simplesmente o “trono de Davi” e “o reino debaixo de todo o céu” como prometido no Antigo Testamento); e que durante a era presente um povo eleito, a Igreja, seria separado, sem levar em conta a nacionalidade — um povo que seria reunido em uma união tão íntima de vida, amor e glória eterna com Ele como só pode ser expresso dizendo que a Igreja é o seu “corpo”, sua “noiva”, e seu “templo” (três metáforas que, respectivamente, expressam união na vida, no amor e naglória)\ Esse é o “mistério” de Efésios 3.4-10. Veja como Paulo exulta nele (w. 8, 9). Nossos corações também não se enchem de alegria?

Recebimento da Plenitude Divina (3.13-21) Note novamente o “portanto”, no v. 13, indicando tanto a ligação como a divisão entre o que precede e o que se segue. Veja também como esta segunda grande oração em Efésios é apresentada: “Portanto vos peço que não desfaleçais nas minhas tribulações por vós, pois nisso está a vossa glória. Por esta causa me ponho de joelhos diante do Pai”. Ao que parece, os destinatários da carta de Paulo estiveram inclinados a desanimar interiormente, por causa das tribulações dele. Se era de fato um apóstolo


divinamente comissionado, por que tais adversidades aconteciam em sua vida? Sentiam-se tentados a duvidar. Leia a oração outra vez. Que grande ímpeto de desejo espiritual! Como ele se estende para apegar-se ao que é superior e mais completo em Cristo! A oração no capítulo 1 foi para que pudéssemos CONHECER. Esta oração do capítulo 3 é para que possamos TER, com um tríplice propósito: (1) para que sejamos “fortalecidos com poder, mediante o seu Espírito”; (2) para que possamos ser “arraigados e alicerçados em amor”; e (3) para que sejamos “tomados de toda a plenitude de Deus”. O clímax da oração é: “Para que sejais tomados de toda a plenitude de Deus”. Isso soa absurdamente impossível? O universo pode ser mantido na ponta de um alfinete? Uma xícara pode conter o oceano Atlântico? Nós precisamos compreender o significado de “plenitude de Deus” neste versículo. O essencial é entender que CRISTO é a plenitude. Colossenses 1.19 e 2.9 estabelecem isso. Temos a mesma verdade em Efésios 1.22, embora nossa tradução pareça fazer da Igreja a plenitude. Tomadas no contexto imediato e em conjunto com a doutrina de Paulo em outras partes, o sentido das palavras é certamente este: “(Deus) pôs todas as coisas debaixo dos SEUS (de Cristo) pés e, para ser o cabeça sobre todas as coisas, O deu à igreja, a qual é o seu corpo, ELE que é a plenitude daquele que a tudo enche em todas as coisas”. De fato, CRISTO é a plenitude, e ser enchido “com toda plenitude de Deus” é ser enchido com Cristo. O comentário conclusivo sobre isto é encontrado nas próprias palavras de Paulo, em Colossenses 2.9,10: “Porquanto nele habita corporalmente toda a plenitude da Divindade; também nEle estais aperfeiçoados (COMPLETAMENTE CHEIOS)”. Devemos ser cheios até um certo ponto indicado pela pequena palavra “toda” que se segue e significa inteireza ou perfeição. Não se trata, então, de podermos receber toda a plenitude de Deus em nossa insignificância; a referência é simplesmente à nossa capacidade para conter. Devemos ser cheios até o máximo de nossa capacidade — completamente possuídos, invadidos, permeados por Ele que é a “plenitude de Deus” e “Cabeça sobre todas as coisas para a Igreja”. Que oração! Que ideal! Esta é a santificação total, em seu aspecto mais elevado, mais puro, mais rico, mais profundo — completa absorção da vida de amor de Cristo e envolvimento nela. Ó, que possamos prová-la mais completamente em nossa própria experiência! Isso parece uma altura impossível de alcançar? Ouça, então,


a doxologia final: “ORA, À Q U ELE Q UE É PO D ER O SO PARA FA Z ER INFINITAMENTE MAIS DO QUE TUDO QUANTO PEDIMOS, OU PENSAMOS, CONFORME O SEU PODER QUE OPERA EM NÓS, A ELE SEJA A GLÓRIA, NA IGREJA E EM CRISTO JESUS, POR TODAS AS GERAÇÕES, PARA TODO O SEMPRE. AMÉM.”

PARTE 2. NOSSO ANDAR EM CRISTO (4-6) Não podemos lamentar o espaço dado aos três primeiros capítulos desta epístola, pois era nossa principal intenção estabelecer prioritariamente seus aspectos doutrinários; apesar disso lamentamos que neste relato não possamos estudar juntos da mesma maneira os capítulos 4, 5 e 6. No entanto, nos consolamos com o fato de nossa exposição analítica dos primeiros capítulos ter feito um preparo útil a fim de que o aluno possa examinar sozinho os demais. Chamamos atenção para a análise que fornecemos no início. A maioria das seções é tão evidente em seu significado que não há necessidade de qualquer comentário aqui. Devemos contentar-nos em fazer sugestões que, esperamos, sejam proveitosas. O leitor atento logo descobre que esta segunda metade da epístola responde à primeira como um eco. As doutrinas da parte um repetem-se agora na forma de exortações para a prática correspondente. Esta repercussão moral nos confronta em cada passagem, sendo muito proveitoso comparar os paralelos. Por exemplo, na primeira parte aprendemos na forma de doutrina sobre “as boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas” (2 .10); e agora; na parte dois, ficamos sabendo em detalhe o que são o andar e as obras. No capítulo 1.13, em forma de doutrina, aprendemos que o Espírito Santo sela os crentes; e agora, em Efésios 4.30, somos exortados: “E não entristeçais o Físpírito de Deus, no qual fostes selados”. E assim por diante. Outro aspecto que, sem dúvida, chama atenção é que depois de riqueza nos três primeiros capítulos, e andar nos seguintes, o final trata de guerra espiritual (6.10-20). “Lutamos... contra os principados”. “Revesti-vos de


toda a armadura de Deus...” Você acha que Satanás vai permitir que tamanha riqueza e andar fiquem sem contestação? Absolutamente não, há necessidade de “lutar”. O ponto central do conflito e da vitória é a oração (v. 10) — “Orando em todo tempo... vigiando com toda perseverança” (v. 18). A seguir, devemos examinar novamente os temas-chave que fluem através do livro de Efésios. Por exemplo, o do andar do crente. “Andeis de modo digno da vocação...” (4.1). “Andai em amor” (5.2). “Andai como filhos da luz” (5.8). “Portanto, vede prudentemente como andais” (v. 15). Procure outros versos que contenham a idéia de “andar”, completando a corrente. Faça uma lista das doze referências ao Espírito Santo, notando que todas aquelas da parte um nos dizem o que o Espírito Santo é e faz em relação ao crente, enquanto as da parte dois nos ensinam o que nós devemos ser e fazer em relação a Ele. Em último lugar, mas não menos importante, temos as belíssimas passagens que nos desvendam o “mistério” da Igreja verdadeira e espiritual. Siga as mesmas até seu clímax em Efésios 5.25-33. Vejas os três tempos da obra de amor de Cristo pela Igreja: (passado) “Cristo amou a igreja”; (presente) “Para que a santificasse”', (futuro) “Para a apresentar a si mesmo...” Mas nesse ponto devemos interromper nosso estudo...!


A EPÍSTOLA AOS FILIPENSES Lição nQ33


NOTA: Para este estudo, leia duas vezes a epístola aos Filipenses. A Epístola aos Filipenses foi escrita cerca de trinta anos depois da ascensão de Jesus e dez anos após a primeira pregação do evangelho feita por Paulo em Filipos. O cristianismo estava na sua juventude, em todo o frescor dessa idade. Ele penetrara repentinamente no mundo. Este parecia estar envelhecendo: as velhas religiões tinham perdido o poder que antes lhes pertencera; as velhas filosofias se desgastaram; as forças da vida política enfraqueceram ou foram suprimidas pelo despotismo todo-poderoso de Roma. A cobiça, a impureza e a crueldade predominavam na terra. Bem poucos tinham fé em Deus, na bondade, na imortalidade. “O que é a verdade?” era a pergunta desesperada da época. O evangelho brilhou sobre esta cena de confusão moral como uma revelação do céu, o que realmente ele é. Ele trouxe uma vida e uma Pessoa, còlocando-as diante dos olhos dos homens. O mundo viu, pela primeira vez, uma vida perfeita; não apenas um ideal, mas uma vida concreta que fora realmente vivida na terra; uma vida que se destaca, separada de todas as outras vidas; peculiar em sua majestade solitária, em seu esplendor etéreo, em sua absoluta pureza, em seu completo altruísmo. O mundo viu, pela primeira vez, a beleza da renúncia total. Esta vida não era simplesmente uma coisa que passara e se fora, mas ainda vivia e continua vivendo na Igreja. A vida de Cristo permaneceu viva em seus santos. - B. C. Caffin.


Existe um interesse imortal ligado a esta pequena epístola aos Filipenses, pois ela foi enviada à primeira igreja cristã fundada na Europa. Poucos eventos da história tiveram uma repercussão mais profunda ou ampla do que a visita despretensiosa de Paulo e seus poucos colaboradores àquela cidade colonial de tempos idos. A carta foi escrita cerca de dez anos mais tarde.

A Cidade de Filipos O antigo nome de Filipos era Datos, depois foi Crenides, que significa fontes ou mananciais. Mais tarde, ela recebeu o nome de Filipos, dado por Filipe, pai de Alexandre, o Grande, que extraiu muito ouro de suas minas. A cidade ficava numa região de solo excepcionalmente fértil e grandes riquezas minerais. O que, porém, dava fama a Filipos, mais ainda do que suas minas de ouro e prata, era a sua posição como uma espécie de posto fiscal em uma das principais artérias de ligação entre a Ásia e a Europa. Perto dela, a cadeia montanhosa que separa o Oriente do Ocidente achata-se, formando uma ampla garganta, cuja característica levou o vitorioso César Augusto a fazer de Filipos uma colônia romana. Ficamos sabendo que os colonos enviados para ali por Augusto eram “principalmente italianos, soldados que não mais serviam nas forças de Antonio” e que também havia uma grande proporção de macedônios da Grécia. A sociedade de Filipos era uma espécie de miniatura de Roma. Seus habitantes consideravam-se romanos (At 16.21). A língua oficial era o latim, mas o grego era a língua da vida diária. “Romanos e macedônios misturavam-se em Filipos e o caráter destes últimos parece ter-se assemelhado mais ao romano do que o de qualquer outra raça. Os macedônios, como os antigos romanos eram viris, sinceros e afetuosos. Não se mostravam céticos como os filósofos de Atenas, nem sensuais como os gregos de Corinto.” Poucos judeus viviam em Filipos, sem dúvida, por tratar-se de uma “colônia militar” e não uma “cidade mercantil”. Essa é a


razão de não existirem sinagogas, mas apenas aproseuche, ou seja o “Lugar de Oração”, fora dos muros, junto ao rio Gangites (At 16.13). Quando Lucas nos conta que Filipos era “a primeira cidade dessa parte da Macedonia” (At 16.12), devemos compreender isso como primeiro geograficamente em lugar de comercialmente ou em suas dimensões, embora fosse provavelmente a cidade principal de seu distrito.

A Igreja de Filipos A primeira igreja de Cristo em Filipos tem um interesse todo especial. As experiências a princípio pacíficas e depois tempestuosas que acompanharam seu começo são narradas em Atos 16.12-40. A primeira pessoa convertida na Europa foi uma mulher que, embora asiática, de Tiatira, na época visitava Filipos como vendedora de púrpura. (Tiatira era famosa por sua tinta carmesim, chamada de “púrpura” naqueles dias.) O único milagre de Paulo registrado também em Filipos foi em relação a outra mulher. Ele expulsou um demônio —supostamente um “espírito de Pitom”, a serpente de Delfos — de uma jovem adivinhadora. Esta jovem resgatada e a vendedora viajante Lídia, juntamente com outras “mulheres” que se encontravam junto ao rio, as quais passaram a crer, assim como o carcereiro romano convertido no terremoto noturno, foram os primeiros convertidos daquela igreja que logo se tornou a mais querida de todos os filhos de Paulo na fé. Veja as referências de Paulo a eles nesta epístola. Seu relacionamento com os mesmos jamais fora prejudicado por desconfianças e problemas como acontecera com alguns outros grupos. “Desde o primeiro .dia até agora” a cooperação deles com Paulo em seu grandioso empreendimento mantivera-se firme, operosa e cheia de simpatia (1.3-9). Eles participaram dos trabalhos e aflições do apóstolo, enviando-lhe sustento em diferentes lugares. Eles foram os primeiros, ao que parece, a exercer o privilégio de sustentar Paulo em seu ministério apostólico. Não esperaram para ver qual seria a contribuição dos outros — mas deram o exemplo, colaborando imediatamente segundo suas posses. Pelo menos duas vezes eles remeteram sua contribuição para Tessalônica (4.16) e quando ele deixou a Macedônia em novas viagens, enviaram-na outra vez (4.15). Fizeram o


mesmo quando esteve no sul, na Grécia, em Corinto, e Paulo recebera com gratidão esse auxílio quando nada quisera aceitar dos coríntios que tinham uma natureza diferente (2 Co 11.9). Eles haviam “superabundado” em sua “generosidade” para com os irmãos pobres de Jerusalém, embora estivessem passando por “profunda pobreza” na ocasião (2 Co 8.1-5). Agora, mais uma vez, sua consideração afetuosa estendera-se a Paulo (4.10) e associaram-se a ele em sua “tribulação” (v. 14), remetendo-lhe um novo presente (v. 18). O amor deles (1.9) era correspondido na mesma medida (1.7, 8). Três vezes, em quatro capítulos, o adjetivo “amados” é escrito pela pena de Paulo. Mas veja o texto em 4.1, onde eles são “irmãos amados”, “mui saudosos”, “alegria e coroa” e de novo “amados”. Não se trata de elogios sem fundamento, mas da reciprocidade profunda, real e jubilosa de corações santificados e unidos para sempre em Cristo. Aprendemos também da epístola que a igreja de Filipos já era uma sociedade organizada (duas ordens de ministério são citadas pelo nome, i.e., “bispos” ou supervisores e “diáconos”); que os crentes estavam sofrendo perseguição; que havia uma tendência para o conflito, especialmente manifesto numa atitude de antipatia entre duas mulheres, membros da igreja. Não existe indicação de qualquer outra falha moral ou doutrina errada, embora as advertências de Paulo no capítulo 3.1-9 e 17-19 pareçam insinuar que os judaizantes não haviam deixado os crentes de Filipos inteiramente em paz, embora poucos judeus estivessem ali. Porém, não há evidência de que os filipenses tivessem sucumbido à astúcia deles, e é com alegria e louvor que o apóstolo verifica seu crescimento na graça (1.6; 4.1,18).

A Ocasião da Epístola Onde e por que Paulo escreveu esta carta? Alguns disseram que ele o fez quando prisioneiro em Cesaréia (At 23.23; 24.27), mas a grande maioria de comentaristas afirma que foi da prisão em Roma. Isso não tem qualquer importância básica, embora haja grande interesse na questão de cenário. Nós estamos convencidos que ela se originou em Roma. A referência à guarda pretoriana em 1.13 poderia aplicar-se tanto a Cesaréia quanto a Roma (assim como a Jerusalém: Mt 27.27); mas a menção da


“casa de César” no capítulo 4.22 certamente indica Roma, assim como o relato da “pregação” (1.14-18) e da esperança de Paulo quanto a uma rápida libertação (1.19; 2.24). Ao saber que Paulo fora preso, eles enviaram Epafrodito, que pode ter sido muito bem seu principal pastor, a fim de entregar a ele os seus donativos, como penhor de seu afeto e promessas de oração (4.18). Eles haviam querido ajudá-lo antes, mas lhes “faltara oportunidade” (/.e., por causa de sua própria pobreza e perseguições: 4.10; 1.29). Paulo reanimou-se bastante com a oferta e o cuidado que demonstrava (4.10), ficando, porém, triste ao saber que Epafrodito adoecera na viagem para Roma (2.27); no entanto, ele se sentiu aliviado com a sua recuperação, pela misericórdia de Deus (v. 27) e o mandava de volta “apressadamente”, ou seja, sem demora, tanto por causa dele como dos irmãos dali (como é belo esse sentimento de amor entre Epafrodito e seu rebanho em Filipos!). Ao mandar Epafrodito de volta, ele se aproyeita da oportunidade para remeter-lhes sua carta. Devemos, pòrtanto, alegrar-nos, por aqueles caros irmãos filipenses terem enviado seu donativo a Paulo na prisão, pois, como resultado disto, esta pequena epístola, de valor inestimável, chegou até eles — e até nós\

A Epístola Propriamente Dita Esta epístola curta é simples e naturalmente uma carta e não um tratado formal. O Bispo Lightfoot a chama de “a menos dogmática das cartas do apóstolo”. Ela é mais prática do que teológica, corretiva do que formativa; uma carta de apreciação e exortação cristã. Toda ela é naturalmente interpenetrada com doutrina cristã, mas qualquer ensino teológico ocorre apenas casualmente e sempre para confirmar a santidade cristã prática. As falhas que ela corrige foram mais incipientes que estabelecidas —conflito, vanglória, auto-estima inadequada, desunião, murmurações e debates — todas elas pecados humanos bem comuns. Paulo sabe como as lições são duras; os filipenses precisam mais do que preceitos; eles têm necessidade de um exemplo elevado, constrangedor — e assim entra na carta esse “parágrafo teológico único e esplêndido” que começa com as palavras: “Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus”


(2.5-11). Idéias Repetidas Existem na carta certas idéias proeminentes. Uma delas é a da alegria e júbilo cristãos (1.4,18,25; 2.16,17,18,28; 3.1,3; 4.1,4). Outra é a do lucro em Cristo (1.21, 23; 3.7, 8. R.V., 14; 4,19). Um aspecto existente é o de ensinar pelo exemplo — i.e. de Cristo (2.5-11), de Timóteo (2.19-24), de Epafrodito (2.25-30) e de Paulo (3.1-4.9). Ao contrário de alguns que dizem haver “ausência de plano na epístola”, gostaríamos de salientar que há uma inversão de estrutura, tão clara quanto eficaz: Saudação: “Graça a vós outros” (1.1, 2). A preocupação de Paulo com os filipenses (1.3-26). EXORTAÇÃO: O EXEMPLO DE CRISTO (1.27-2.16). O EXEMPLO DE TIMÓTEO (2.19-24). O EXEMPLO DE EPAFRODITO (2.25-30). EXORTAÇÃO: O EXEMPLO DE PAULO (3.1-4.9) A preocupação dos filipenses com Paulo (4.10-20). Saudação: “A graça seja com o vosso espírito (4.21-23).

Os Quatro Aspectos de Cristo Iremos, no entanto, perder praticamente tudo nesta epístola se deixarmos de perceber e apreciar sua maravilhosa apresentação de Cristo em quatro aspectos, com relação à experiência pessoal do crente. Uma vez que este Cristo quádruplo de Filipenses seja visto, a pequena epístola surge e lampeja com um brilho todo novo —ela se torna uma jóia preciosa que não pode ser descrita com simples palavras. Em Filipenses, os quatro capítulos representam com exatidão os quatro movimentos deste tema principal (exceto que o primeiro verso do capítulo 4 termina evidentemente o capítulo 3). Em cada capítulo descobrimos um versículo-chave, expressando uma idéia principal. No primeiro capítulo o pensamento-chave é expresso no


v. 21: “Para mim o viver é Cristo”. Tudo neste primeiro capítulo concentra-se no pensamento de que Cristo é a vida do crente. No segundo capítulo, o pensamento-chave é expresso no verso 5: “Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus”. Este segundo capítulo inteiro concentra-se no pensamento de que Cristo é a mente do cristão. No terceiro capítulo, o pensamento-chave vem expresso no v. 10: “Para o conhecer”. Tudo aqui converge para a verdade de que Cristo é o alvo do crente. No capítulo quatro, o pensamento-chave é o poder capacitador de Cristo, como expresso no v. 13: “Tudo posso naquele (Cristo) que me fortalece”. Neste último capítulo, o pensamento do apóstolo concentra-se na verdade de que Cristo é a força do crente. Vemos, assim, no progresso desta epístola, uma verdade em quatro partes, tão rica de sugestão como de substância vital para a experiência cristã. Vamos gravá-la bem firme em nossas mentes: ^ Capítulo 1: Cristo nossa vida. Capítulo 2: Cristo nossa mente. Capítulo 3: Cristo nosso alvo. Capítulo 4: Cristo nossa força. A seqüência aqui fica, de imediato, evidente. Se Cristo for verdadeiramente a nossa vida, como no capítulo um, Sua vida irá se expressar em nossa atividade mental e através dela, como no capítulo dois. A seguir, com a mente assim repleta de sua vida, os desejos irão se inclinar cada vez mais para Cristo como o ideal perfeito, a soma da perfeição objetiva e satisfação subjetiva, o alvo supremo do desejo, como no capítulo três; enquanto finalmente, como no capítulo quatro, o próprio Cristo é a força pela qual o ideal se concretiza, e pela qual a realidade objetiva torna-se subjetivamente realizada na experiência. Portanto, nesses.quatro capítulos de Filipenses, obervamos progresso e perfeição com toda clareza. Capítulo 1: Cristo nossa vida “Para mim o viver é Cristo” (1.21). Neste primeiro capítulo, 198


descobrimos sete expressões notáveis da verdade que Cristo é averdadeira vida do crente. Se Ele for realmente isso, qual a primeira evidência que naturalmente esperamos encontrar? Com certeza, isto: o crente cheio de Cristo tem os sentimentos de Cristo. É isto que realmente encontramos. Veja o v. 8. O apóstolo diz aqui: “da saudade que tenho de todos vós, na terna misericórdia de Cristo Jesus”. Ellicott faz a seguinte interpretação: “Tenho saudades de todos vós no próprio coração de Jesus Cristo” e diz que a frase neste ponto é interessante e até surpreendente. O coração de Cristo tornara-se, por assim dizer, o de Paulo e estava batendo de novo no peito do apóstolo. Os próprios sentimentos de Cristo moviam-se na consciência do seu servo. Mesmo assim, como diz Dean Alford, “O grande amor com que Ele nos amou vive e anseia em todos os que se acham vitalmente unidos a Ele” — embora nossa consciência do mesmo seja determinada pela profundidade de nossa consagração a Ele. Qual a segunda coisa que esperamos encontrar se Cristo for a vida do crente? Não é isto: que o cristão tenha os mesmos interesses que Cristo? E justamente isto que também percebemos neste capítulo. Veja os versículos 12 a 18, em que Paulo fala das coisas que lhe sucederam. Ele se acha em Roma, preso, algemado, sofrendo injustamente e cercado por circunstâncias que fariam qualquer homem irritar-se e queixar-se facilmente. Mas não —Cristo é a vida dentro de sua vida e existe uma tal comunhão e identidade de interesses que os cuidados pessoais de Paulo perdem-se em sua preocupação com os interesses de seu Senhor. Não precisamos citar a passagem inteira; a primeira e a última palavra bastam para mostrar isto: “As coisas que me aconteceram têm antes contribuído para o progresso do evangelho... Cristo está sendo pregado... também com isto me regozijo”. Se nós também estivermos cheios da vida de Cristo e formos movidos por ela, as ambições pessoais serão sublimadas numa união santificadora com os interesses de Cristo. Diremos com o General Gordon: “A última e única coisa a que dou valor nesta vida entreguei a Jesus Cristo”. Qual a terceira coisa que encontramos como resultado desta grande verdade de que Cristo é a vida do crente? E que o próprio Espírito de Cristo é transmitido ao crente. Veja o v. 19. Paulo diz: “Porque estou certo de que isto mesmo, pela vossa súplica e pela provisão do Espírito de Jesus Cristo, me redundará em libertação”. A palavra “espírito” é escrita aqui


com “E” maiúsculo na Versão Revista e Atualizada, e com razão. Mas o essencial a notar é que Paulo fala do “Espírito de Jesus Cristo”. Da mesma forma que na natureza humana, o espírito é a parte mais íntima e profunda, a provisão do Espírito de Jesus Cristo significa a transmissão de sua vida mais íntima, fazendo com que seus motivos e alvos tornem-se nossos! Qual a próxima coisa que ocorre quando Cristo é a vida do crente? O próprio Cristo transforma-se no foco supremo do cristão. Do mesmo modo que o homem abandona os amigos, as riquezas e tudo o mais, menos a própria vida, por ser esta o bem supremo; assim também, pelo fato de Cristo ser a própria vida do crente, Ele será o seu bem e interesse supremos. E isto que encontramos no primeiro capítulo de Filipenses. Veja o v. 20. O interesse número um de Paulo é este: “Será Cristo engrandecido no meu corpo, quer pela vida, quer pela morte”. Como uma conseqüência natural de tudo isso, vemos que, para o cristão consagrado, Cristo é indescritivelmente digno de afeto. Ele se torna objeto de desejo ardente. Leia o v. 23: “Ora, de um e outro lado estou constrangido, tendo o desejo (desejo forte ou anseio) de partir e estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor”. As palavras traduzidas como “incomparavelmente melhor” deveriam ser “excessivamente melhor”. Paulo acumula comparativos como se fosse incapaz de conseguir os termos adequados para expressar o arrebatamento da consumação esperada. Cristo tornou-se inexprimivelmente querido por ele; e será assim conosco se nossos corações estiverem cheios de sua vida e amor. Agora, em sexto lugar, se Cristo for a vida do crente, isto irá claramente determinar a conduta. Vemos tal coisa enfatizada no v. 27: “Vivei, acima de tudo, por modo digno do evangelho de Cristo”. Se Cristo for a nossa vida, Ele irá se expressar a Si mesmo em nosso estilo de vida. Cristo em nós e através de nós é o segredo daquele tipo e qualidade de vida que são plenamente dignos dEle. Quando nossos corações estão presos e são movidos pelo Filho de Deus que habita em nós, a nossa personalidade torna-se seu púlpito vivo e nossa vida sermões encarnados. Segue-se, finalmente, que se Cristo for a nossa vida, impregnando o coração e revelando a Si mesmo mediante toda a nossa atividade, isto irá afetar grandemente a atitude de outros com relação a nós\ pois o nosso estilo de vida determina inevitavelmente a reação daqueles que nos rodeiam — quer amigável ou hostil. É isto que encontramos nos w. 27-30. Lemos neles sobre “adversários” e “sofrimento” por causa de Cristo,


enquanto os crentes são exortados a mostrar sua afinidade afetuosa e recíproca, unindo-se em “um só espírito, como uma só alma”. Vemos então neste primeiro capítulo de Filipenses, Cristo a vida do crente, expressando a Si mesmo novamente através de toda atividade interior e exterior da personalidade consagrada. Mediante uma absorção espiritual, o CTente compartilha de seus sentimentos, seus interesses, seu Espírito, encontrando em Cristo seu supremo interesse e mais cara posse, enquanto a vida exterior, com todos os seus relacionamentos, é determinada a partir de um novo centro. O que diremos pois quanto a essas coisas? Não desejamos poder declarar com Paulo: “Logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim”? Capítulo 2: Cristo, nossa Mente Este capítulo inteiro concentra-se nas palavras: “Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus” (v. 5) e amplia a idéia de que Cristo é a mente do cristão — a mente verdadeira no interior de sua mente. Primeiro, nos w. 1 e 2 encontramos a exortação de Paulo ao crente para que tenha a mente de Cristo: “Se há, pois, alguma exortação (segundo o sentido do termo grego) em Cristo, alguma consolação de amor, alguma comunhão do Espírito, se há entranhados afetos e misericórdias, completai a minha alegria de modo que penseis a mesma coisa (i.e. com ELE), tenhais o mesmo amor (que o dELE), sejais unidos de alma, tendo 0 mesmo sentimento (reciprocamente)”. Segundo, nos w. 3 e 4 Paulo mostra a verdadeira manifestação da mente de Cristo através do crente. Esses dois versículos apenas continuam os w. 1 e 2, como a expressão natural da mente de Cristo, assim, “...Nada façais por partidarismo ou vanglória, mas por humildade, considerando cada um os outros superiores a si mesmo. Não tenha cada um em vista o que é propriamente seu, senão também cada qual o que é dos outros”. Essa é a expressão natural e inevitável da mente de Cristo no crente, quando a vida dEle não é impedida. Note bem essas qualidades de quem possui a mente de Cristo — serenidade, inocência, humildade e altruísmo. Esta é a cura real para o partidarismo e para os conflitos nas igrejas!


Terceiro, nos w. 5-8, Paulo faz um exposição da mente de Cristo. Este parágrafo sublime é geralmente mencionado como a passagem clássica sobre a “humilhação” do Senhor. O que ela ensina, porém, não é humilhação, mas auto-humilhação, coisa muito diferente. O que dá a suprema glória moral à condescendência do Senhor em identificar-se conosco é o fato disso ser feito voluntariamente. A palavra-chave é “a si mesmo se humilhou” (v. 8). Os sete passos na imensa descida e de auto-anulação do Senhor têm sido freqüentemente mencionados; mas demorar-se neles é sempre comovente e edificante: ( 1) “Subsistindo em forma de Deus não julgou como usurpação”; (2) “antes a si mesmo se esvaziou”; (3) “assumindo a forma de servo”; (4) “tornando-se em semelhança de homens”; (5) “a si mesmo se humilhou”; (6) “tornando-se obediente até à morte”; (7) “e morte de cruz”. Maravilhe-se novamente com esse prodígio — Deus... Homem... Servo... Criminoso! No tempo ou na eternidade, na terra ou através de todo o universo, esta é a suprema expressão de auto-sacrifício por outrem. Este é o exemplo supremo, “Tende em vós o mesmo sentimento.” Veja como Paulo aplica esta exposição nos w. 12-15. “Assim, pois, amados meus, como sempre obedecestes (i.e. se tornaram obedientes a Deus da mesma forma que Cristo), desenvolvei (como Cristo desenvolveu pela obediência) a vossa salvação (no sentido de uma justificação final semelhante) com temor e tremor; porque (enquanto vós estais realizando isso) Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade (como Ele quis e realizou sua vontade em Cristo). Fazei tudo sem murmurações (contra Deus) e contendas (com homens); para que vos torneis irrepreensíveis (diante de Deus) e sinceros (entre os homens), filhos de Deus (como Cristo no sentido supremo era o Filho de Deus)”. Finalmente, nos w. 19-30 Paulo dá um exemplo dá mente de Cristo em Timóteo e Epafrodito. Observe Timóteo: “de igual sentimento” (v. 20); “sinceramente cuide” de outros (v. 20); serviço fiel, humilde (v. 22). Observe Epafrodito: auto-humilhação mediante o ministério (v. 25); interessado em outros (v. 26); auto-anulação (v. 30). O segundo capítulo é, portanto, dedicado inteiramente à mente de Cristo no crente e expressa através dele.


Capítulo 3: Cristo nosso alvo Se Cristo for a nossa nova vida, como no capítulo 1, e nossa verdadeira mente, como no capítulo 2, segue-se então que os desejos e aspirações íntimos de todos os que são verdadeiramente dEle devem inclinar-se para Ele como a personificação objetiva da justiça salvadora, do amor divino, e da felicidade futura. É isto que encontramos agora no capítulo 3, cuja chave é o v. 10: “Para o conhecer”. Cristo é o alvo de toda a nossa fé, amor e esperança. Veja como o capítulo começa com a renúncia de qualquer outra glória senão nEle: “Nos gloriamos em Cristo, e não confiamos na carne” (v. 3). Se algum homem teve razão para gloriar-se nas coisas da carne, esse foi Paulo. No v. 4 ele diz: ‘Se qualquer outro pensa que pode confiar na carne, eu ainda mais”. Depois, nos w. 5 e 6, ele cita aquilo em que se gloriara antes e ao que renunciara para sempre em sua conversão ao Senhor Jesus Cristo. Tratava-se de coisas que deveriam significar mais para um judeu zeloso do que podemos compreender hoje. 1. “Circuncidado ao oitavo dia. ”Paulo não era um simples prosélito, mas um israelita por nascimento, tendo parte nas promessas da aliança com Israel por hereditariedade e pelo sinal desta aliança; como muitos outros, tinha orgulho disso. 2. “Da linhagem de Israel.” Os pais de Paulo também não eram meros prosélitos, mas hebreus de nascimento. Paulo tinha uma linhagem israelita completa e orgulhava-se dessa linhagem pura. 3. “Da tribo de Benjamim. ”A tribo que deu o primeiro rei a Israel; que permaneceu fiel ao trono davídico quando as outras tribos o abandonaram; que ajudou Judá e Levi a restaurarem o templo; e em cujos limites ficava a Cidade Santa. 4. “Hebreu de hebreus.” Embora vivessem em Tarso, os pais de Paulo aderiram à língua e costumes hebraicos. Paulo não foi criado como helenista, sendo educado em Jerusalém sob a orientação do famoso Gamaliel. Ele conhecia bem a língua hebraica e as Escrituras e seguia os costumes hebreus. 5. “Quanto à lei, fariseu. ” Israelita de nascimento, criado como hebreu, era também, por livre escolha, um fariseu. Ele abraçara a seita mais


rigorosa, aquela que seguia a Lei ao pé da letra. 6. Quanto ao zelo, perseguidor da igreja. “Paulo não se satisfazia em ser apenas fariseu. Era um fariseu zeloso, perseguidor consciente e implacável de todos os hereges e seitas heréticas. 7. “Quanto à justiça que há na lei, irrepreensível.” No que diz respeito à observância de todas as normas, preceitos e práticas formais da lei, Paulo cumpria até a última exigência. Ninguém poderia superar a base de confiança que Paulo possuía. Todavia, toda confiança nessas coisas e qualquer mérito supostamente procedente delas, haviam sido postos de lado quando seu barco repentinamente vacilante tinha lutado com as águas revoltas até chegar ao seu novo porto nos braços acolhedores de Cristo Jesus ressurreto. Ao olhar agora para trás, ele escreve — usando o verbo no passado — “Mas o que para mim era lucro, isto considerei perda por causa de Cristo”. Essas coisas, porém, estavam longe de ser as únicas a que Paulo renunciou por causa de Cristo. Sua renúncia aumentou com o passar do tempo, até que, agora, na ocasião em qUe escrevia, ele diz - usando o tempo presente - “Sim, deveras considero TUDO como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus meu Senhor”) v O abandono radical de Paulo também não era de natureza apenas teórica, pois ele acrescenta: “por amor do qual, perdi todas as coisas” (v. 8). Por que toda essa renúncia? Eis a resposta: “Para ganhar a Cristo”. Assim, esses dois versículos tratam apenas de perda e lucro. “Mas o que para mim era LUCRO, isto considerei PERDA por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus meu Senhor; por amor do qual PERDI todas as coisas e as considero como refugo, para GANHAR a Cristo, e ser achado nele.” Paulo coloca então perda sobre perda de um lado, enquanto do outro existe apenas um item solitário: “CRISTO JESUS MEU SENHOR”. A quanto Paulo renunciou por seu Senhor? Abandonou coisas que lhe eram tão queridas quanto a própria vida. Mas, agora, encontrou mais do que tudo o que perdera e emociona-se por saber que tendo desistido de tantas coisas ele pertence mais a Cristo e Cristo é ainda mais seu. Como é


verdadeira a idéia de que aqueles que renunciam mais por Cristo lhe têm maior amor e o possuem com mais satisfação! Note a passagem principal neste capítulo, observando como a preposição “para” é repetida: “Para ganhar...” “Para conhecer...’'

(v. 8). (v. 10). (v 11 ^ (v. 12)'.

“Para conquistar..

Este uso mostra como o apóstolo inclina-se para o estabelecido com entuasiasmo pelo seu desejo. O concentra-se nesta busca totalmente absorvedora; e o elerá itó Cerít il de tudo está nas palavras do v. 10: “PARA O CONHI^ERÍ vn J^iprio Cristo é o objeto supremo do desejo do crente, c L\ yfírdkdei/! de nossa vida e nosso ser. Veja como neste terceiro capítulo Cris alvo do crente de três maneiras: nr\ O alvo de nossa/á^V . 9. O alvo de^íõsSp amor — v. 10. O a~ pjd^vnossa esperança — w. 11-14, etc. Ele é o alvQ^^ifòs|à fé para obtermos justiça celestial, o alvo de nosso amor para ot> v\v^ comunhão celestial e o alvo de nossa esperança para obterme^fôMm^celestial. Um estudo mais profundo do que podemos faáôi aouj^èrá ricamente recompensado. Aprofunde-se no assunto, lais dedicação, mais preciosas serão as “descobertas”! Com que : expectativa devemos ficar vigilantes nestes dias para aquele evento tíj emo que é o alvo e cumprimento de nossas mais desejadas esperanças — a voua Qcie: cie sera eniao nossa aiegna e coroa como nos laiiioem seremos as dEle. Capítulo 4: Cristo, nossa Força A ênfase predominante aqui é a idéia de Cristo ser a força do crente, como no v. 13: “Tudo posso naquele (Cristo) que me fortalece”. 205


Como já dissemos, o primeiro versículo deste capítulo pertence certamente ao capítulo 3. Talvez seja ainda mais correto dizer que a seção que começa no capítulo 3.1, com “Quanto ao mais, irmãos meus, alegrai-vos”, vai até o v. 4 deste capítulo 4, terminando em: “Alegrai-vos sempre no Senhor, outra vez digo, alegrai-vos”. A curta seção final começa então no v. 5: “Seja a vossa moderação conhecida de todos os homens” (por mais que vos persigam) pois “Perto está o Senhor” (ou seja, convosco, para vos fortalecer). A seguir lemos: “Não andeis ansiosos de coisa alguma”. Isso parece impossível? Em resposta à oração “a paz de Deus guardará os vossos corações e as vossas mentes em Cristo Jesus” (v. 7). Com um final coroador, o v. 13 diz: “Tudo posso naquele (Cristo) que me fortalece”. O verbo ischuo significa “sou capaz”; mas se o significado é capaz de ser, ou suportar, ou fazer, ou ousar, isto deve ser decidido pelo contexto. Ferrar Fenton interpreta perfeitamente o sentido, traduzindo: “estou à altura de qualquer coisa...” Vejamos o contexto: “Tanto sei estar humilhado, como também ser honrado; de tudo e em todas as circunstâncias já tenho experiência, tanto de fartura, como de fome; assim de abundância, como de escassez: tudo posso... naquele (Cristo) que me fortalece”. O que vamos inserir: “fazer” — “ser” — ou “supõrtar”? Tomado no contexto imediato, penso que talvez devesse ^er “posso suportar todas as coisas”, mas quando lido no contexto mais amplo este contém as três idéias. Vejamos então a interpretação de Weymouth: “Tenho forças para qualquer coisa...” Eis agora o segredo: naquele (ou seja, através de Cristo). É quando estamos vivendo verdadeiramente nEle que Ele pode realizar-se mais perfeitamente em nós e através de nós. Note que a palavra “fortalece” está no presente, indicando um reabastecimento interior contínuo, momento a momento e hora a hora, invisível aos olhos humanos mas suprindo de fato a consciência secreta do crente. Aqui então, no capítulo 4, Cristo é a nossa força; Cristo, o companheiro do crente, seu guardião, habitando nele; Cristo, o segredo da moderação cristã (v. 5), da serenidade confiante (w. 6, 7) e da capacitação vitoriosa para “todas as coisas” (w. 12,13). Esses são os quatro capítulos de Filipenses e esse é o esplêndido Cristo de quatro aspectos que é nosso — sempre e eternamente suficiente! Os que confiam nEle descobrem que é infalível. Se realmente lhe


permitirmos, Ele irá transformar cada queixoso “Não posso” em um alegre “Eu posso”! Que documento pequeno mas triunfante é esta epístola! As cadeias retinem nos pulsos e tornozelos do escritor, mas ele as faz soar como sinos celestes! Logo no primeiro parágrafo fala de “graça”, “paz”, “alegria”, “amor”, “glória” e “louvor”! E os sinos tocam através dos quatro capítulos até que repicam triunfantes no parágrafo final: “E o meu Deus, segundo a sua riqueza em glória, há de suprir em Cristo Jesus, cada uma de vossas necessidades”. O que mais precisa ser dito depois disso? Basta uma doxologia, e é justamente isso que Paulo acrescenta, no v. 20: “ORA, A NOSSO DEUS E PAI SEJA A GLÓRIA PELOS SÉCULOS DOS SÉCULOS. AMÉM.”


A EPÍSTOLA AOS COLOSSENSES Lição n- 34


NOTA: Para este estudo, leia a epístola duas vezes em seguida.

O GNOSTICISMO O gnosticismo pode ser provisoriamente descrito como composto por várias escolas de filosofia, de caráter geralmente oriental, mas contendo a idéia de uma redenção através de Cristo modificada depois em diferentes seitas por um terceiro elemento, que pode ser o judaísmo, helenismo ou cristianismo. Os gnósticos aceitaram apenas a idéia de redenção mediante Cristo e não toda a doutrina cristã, pois fizeram dela mais uma redenção da matéria por parte dos filósofos, do que a redenção da humanidade do pecado. — Gwatkin: “Early Church History” O orgulho intelectual dos gnósticos aprimorou o evangelho, transformando-o em filosofia. O meio para compreender o gnosticismo é dado na palavra da qual ele deriva — gnosis, “conhecimento”. O gnosticismo coloca o conhecimento em um lugar que, por direito, só pode ser ocupado pela fé cristã. A grande questão para o gnóstico não era aquela intensamente prática: “O que devo fazer para ser salvo do pecado?” mas “Qual a origem do pecado?” “Como a ordem primitiva do universo pode ser restaurada? ” No conhecimento dessas perguntas e outras semelhantes e nas respostas dadas às mesmas, havia redenção, segundo o parecei dos gnósticos. — Rev. John Rutherford: “Int. Stand. Bible Encyclopaedia” Essas pequenas seitas e grupos gnósticos viviam na convicção de que possuíam um conhecimento secreto e misterioso, inacessível aos de fora, que não devia ser provado ou propagado, mas aceito pelos iniciados e guardado ansiosamente como um segredo. Este conhecimento deles não se baseava na reflexão, pesquisa ou provas científicas, mas na revelação. Era derivado diretamente dos tempos do cristianismo primitivo, do próprio Salvador e seus discípulos e amigos, com quem afirmam estar ligados por uma tradição secreta, ou, além disso, dos profetas mais recentes, de quem muitas seitas se gabavam. Ele era exposto em escritos místicos de grande beleza, possuídos pelos vários círculos. • — Bousset: “Encyclopaedia Brítannica”


Se a plena força e urgência desta pequena mas rica epístola aos Colossenses devem ficar registradas em nossa mente, precisamos recapitular o arranjo dessas nove epístolas às igrejas cristãs como um todo. As primeiras quatro ficam juntas, assim como as outras três do meio e também as duas finais. Nas primeiras quatro, a ênfase está sobre Cristo e a cruz\ nas três intermediárias, Cristo e a Igreja; nas duas finais, Cristo e o advento. Em cada caso, a ordem em que o Espírito Santo ensina a verdade é a de 2 Timóteo 3.16: “Doutrina... repreensão... correção”. A “doutrina” estabelece a norma ou cânone. “Repreensão” está ligada à idéia de desvio na prática. “Correção” é oposição aos desvios da doutrina. Assim, nas quatro primeiras, como já apresentado temos claramente doutrina em Romanos, repreensão em Coríntios e correção em Gálatas. Do mesmo modo, no trio do meio, temos doutrina em Efésios, repreensão em Filipenses e correção em Colossenses. A distinção é naturalmente relativa e não absoluta, mas ela, na verda­ de, existe. Assim, no trio intermediário, embora a doutrina esteja nas três, em Efésios ela é apresentada normal e formalmente, enquanto em Fili­ penses e Colossenses reaparece apenas incidentalmente para repreender e corrigir. Isto não indica que Filipenses e Colossenses sejam necessaria­ mente menos importantes para nós do que Efésios. De modo algum, elas preenchem um espaço vital. Precisamos conhecer a verdade não apenas declarada mas associada. Ela fica geralmente melhor definida quando es­ tá sendo defendida. Precisamos, em primeiro lugar ver a doutrina evangé­ lica fundamental em pleno contraste com sua imitação enganosa; e é justamente isso que temos em Colossenses. Ê isto que explica tanto a semelhança como dessemelhança entre Colossenses e Efésios. Outro dia, ouvimos uma senhora comentar, “Colossenses parece-se tanto com Efésios que um praticamente repete o outro”. O comentário foi tão correto como errado. A relação que Colossenses tem com Efésios é a mesma que Gálatas tem com Romanos. A característica especial tanto em Colossenses como Gálatas é “correção” de graves desvios doutrinários do padrão já estabelecido. A afinidade de Colossenses com Efésios é tão próxima que, se a comparação de E. W.


Bullinger for exata, 78 dentre os 95 versos em Colossenses têm uma “semelhança notável” com versos em Efésios; isso significa que, embora Efésios tenha um acréscimo de dois capítulos, mais da metade de seus versos repete-se aqui em Colossenses, só que agora falam com maior ênfase contra o desvio perigoso da norma dada aos efésios. Este trio intermediário de epístolas, Efésios, Filipenses e Colossenses, está unido tanto em data quanto em aspecto. Todas as cartas foram escritas durante o primeiro período da prisão de Paulo em Roma. Ellicott comenta que Efésios “não parece ter sido originada por quaisquer circunstâncias especiais”, mas tem um “tratamento mais geral”. O mesmo se aplica às outras epístolas de “normas”, ou seja, Romanos eTessalonicenses. Mas as cartas aos Coríntios, Gálatas, Filipenses e Colossenses, foram todas precipitadas por alguma consideração urgente e todas revelam uma solicitude correspondente; especialmente as duas que corrigem erros doutrinários, i.e., Gálatas e Colossenses. Efésios apresenta o mistério glorioso, “a Igreja, a qual é o seu corpo”. Cristo é o Cabeça (1.22; 4.15; 5,23); a Igreja é o corpo (1.23; 4.16); os crentes individuais são “membros do seu corpo” (5.30), e, portanto, “membros uns dos outros” (4.25). A falha incipiente em Filipos era a desunião dos membros (Fp 1.27; 2.3, 14; 4.2.). O princípio de gnosticimo em Colossos era “não reter a Cabeça” (Cl 2.19), que era uma falha bem mais grave.

A Cidade e a Igreja de Colossos Mas antes de falar mais sobre o sinal de perigo doutrinário em Colossos, queremos observar a cidade e a igreja de lá. Colossos era uma cidade greco-frígia na “Província” proconsular romana da Ásia. Esta província cobria a região ocidental da grande península conhecida hoje como Ásia Menor. A capital desta “Ásia“ era Éfeso, situada perto do meio da costa ocidental da península, próximo ao centro dela. Cerca de 190 km para o interior de Éfeso ficavam as três cidades de Laodicéia, Hierápolis e Colossos, no vale do rio Lico. Laodicéia e Hierápolis ocupavam lados opostos do vale, a uma distância de mais ou menos 10 km uma da outra. Colossos ficava a 16 ou 19 km mais ao norte,


sobre o próprio rio. Do mesmo modo que Tiatira (muito mais ao norte), essas três cidades eram conhecidas pela sua fabricação de corantes, especialmente o carmesim (então chamado púrpura). Outra fonte de prosperidade advinha das excelentes pastagens para ovelhas e do resultante comércio de lã. A população era heterogênea, mas basicamente frigia; parece ter havido também uma numerosa e rica comunidade judaica. Colossos tinha sido anteriormente uma “grande cidade da Frigia” (Heródoto) e uma “cidade populosa, próspera e grande” (Xenofontes), mas na época em que a epístola de Paulo foi escrita ela não podia comparar-se a Laodicéia e Hierápolis; estava em declínio. Não muito tempo depois, ao que parece, a cidade finalmente desapareceu durante um violento terremoto que abalou a região. Ao que sabemos, Paulo jamais visitou Colossos. Ao escrever esta epístola, ele certamente não estivera ali, mas apenas “ouvira” (1.4,9; 2.1) falar da fé e amor dos Colossenses a quem escrevia. Como e por quem a igreja era então formada? Nossa primeira resposta encontra-se no poderoso impacto dos três anos que Paulo passou em Éfeso (At 20.31). Lemos a respeito das discussões diárias de Paulo na escola de Tirano: “Durou isto por espaço de dois anos, dando ensejo a que todos os habitantes da Asia ouvissem a palavra do Senhor, tanto judeus como gregos” (Atos 19.10). Sabemos que houve um movimento poderoso de conversão na própria Éfeso (At 19.17-20). Deve ter havido também uma ampla difusão do testemunho, pois o enraivecido Demétrio exclamou: “E estais vendo e ouvindo que não só em Éfeso, mas em quase toda a Ásia, este Paulo tem persuadido e desencaminhado muita gente” (19.26). Isto certamente inclui Colossos! (Como Paulo é maravilhoso!) Mas o primeiro evangelista em Colossos fora um certo Epafras (1.7), que era um colossense (4.12), e que parece ter levado o testemunho também a Laodicéia e Hierápolis (4.13). Ele foi provavelmente convertido em Éfeso, ao visitar a cidade. Depois disso continuou seu testemunho sob a orientação de Paulo e mostrou-se “fiel”, desde então, em sua mensagem e ministério (1.7). Com o passar dos anos, seu zelo na oração aumentou em lugar de diminuir (4.12,13). É bem provável que a nova igreja colossense se reunisse a princípio na casa de Filemom, pois Paulo devolve Onésimo, o escravo fugitivo, a


Colossos (4.9) ; e a pequena epístola a Filemom fala da “igreja em tua casa” (v.2). Paulo só faz elogios e agradece os ensino e a dedicação de Epafras (1.5-7, 23; 2.6,7; 4.12,13). Agora, porém, cerca de seis anos mais tarde, Epafras viajou para Roma a fim de visitar Paulo na prisão; e embora apresente um relatório geralmente favorável, com grandes mostras de amor ( 1.8), tem de confessar perturbado qUe certos heresiarcas, evidentemente eloqüentes e importantes, haviam surgido entre eles, propagando uma doutrina falsa enganosa e atraente (2.8-23) que punha em grave risco a comunidade cristã. Paulo participou imediatamente da apreensão de seu leal Epafras e enviou esta “Epístola aos Colossenses”, através de Tíquico (4.7).

O Erro dos Colossenses Qual seria então 0 ensino heterodoxo que estava enredando os colossenses? Ele tinha o nome de “filosofia” (2.8) e “aparência de sabedoria” (2.23), apelando assim para as inclinações intelectuais superiores. A doutrina reverenciava a “tradição” (2.8), atraindo ainda mais os que honravam o passado. Ela praticava 0 ascetismo e simulava a humildade (2.23), o qUe lhe dava aparência de santidade superior. Esta estranha mistura de tradicionalismo judaico e filosofia grega enfatizava duas coisas: reverência pelos poderes angélicos (2.18) e desprezo pelo corpo (2.20-23). O Dr. Alexander Jylaclaren dá uma idéia impressionista vívida deste novo culto colossense na seguinte citação: “As notícias diziarn que uma estranha enfermidade, gerada naquela estufa de fantasias religiosas, o Oriente sonhador, estava ameaçando a fé dos cristãos colossenses. Uma forma peculiar de heresia, singularmente composta de ritualisrno judaico e misticismo oriental — dois elementos tão difíceis de se fundirem nos alicerces de um sistema, como o ferro e o barro heretogêneos sobre os quais a imagem do sonho de Nabucodonosor se apoiava vacilante — havia aparecido entre eles e, embora até então limitada a uns poucoSj estava sendo vigorosamente pregada. O dogma oriental característico, de que a matéria é má e fonte do mal, que marca grande parte da religião oriental e que logo se introduziu, a fim de


corromper o cristianismo, além de brotar em lugares tão estranhos e de maneiras tão inesperadas, havia começado a contaminá-los. A conclusão foi extraída depressa: ‘Bem, se a matéria é a fonte de todo mal, Deus e a matéria devem, portanto ser inimigos’; assim, a criação e o governo desse universo material não poderiam ter vindo diretamente dEle. A tentativa de manter a divindade pura e o mundo corrupto tão distantes quanto possível, embora mesmo assim uma necessidade intelectual impedisse a ruptura completa do elo entre ambos, levou a imaginação a se manter intensamente ocupada para preencher o abismo entre um Deus que é bom e a matéria que é má, com uma ponte de argumentos sutis — uma cadeia de seres intermediários, emanações, abstrações, cada um aproximando-se mais da matéria que seu precursor, até que, finalmente, o intangível e infinito ficassem confinados e solidificados na matéria real e terrena; e o que era puro acabou assim ofuscado, transformando-se em mal. “Tais noções, fantásticas e afastadas da vida diária como parecem, serviam, na verdade, de atalho para confundir os ensinos morais mais claros da consciência natural e do cristianismo. Se a matéria for a fonte de todo mal, então a origem do pecado de cada homem não será encontrada em sua própria vontade pervertida, mas em seu corpo, e a cura do mesmo não será alcançada pela fé que introduz uma nova vida no espírito pecador, mas simplesmente pela mortificação ascética da carne. “Estranhamente unidas a esses ensinos orientais místicos, que poderiam, com grande facilidade, transformar-se na mais grosseira sensualidade, com a cabeça nas nuvens e os pés na lama, estavam as doutrinas mais estritas do ritualismo judaico, insistindo na circuncisão, nas leis que regiam os alimentos, na observância dos dias de festas, e todo o aparato opressivo de uma religião cerimonial. Essa é uma combinação monstruosa, uma cruz entre um rabino talmúdico e um sacerdote budista, e todavia não deixa de ser natural que, depois de se elevar até essas altas regiões de especulação, onde o ar é demasiado rarefeito para suportar a vida, os homens devessem alegrar-se por manter contato com as exterioridades de um ritual complexo. Não é a primeira nem a última vez que uma religião filosófica mal colocada aproximou-se de uma religião de observâncias exteriores, impedindo-a de morrer congelada. Os extremos se encontram. Se você se adiantar bastante para o oriente estará no ocidente.” Ninguém deve pensar que esta “doença” sintomática da antiga cidade


de Colossos não tenha significado para nossos dias, que não devemos temer ser “assombrados pelos fantasmas das heresias mortas”. Em cada geração, uma ou outra delas reaparece em novos trajes e com novos enganos. Hoje, necessitamos da correção desta epístola aos Colossenses mais do que nunca. Para mencionar só um exemplo: O que dizer do catolicismo romano com seu ascetismo supostamente meritório e sua elaborada mediação de culto de santos e anjos? Há muita necessidade de pregar o Cristo desta carta aos Colossenses atualmente; o Cristo que é um só, mas também a manifestação encarnada do Criador. O único em quem é efetuada a verdadeira união do Espírito Divino com a criação material; o Deus-Homem que se estende por sobre o abismo existente entre um Deus santo e o homem pecador, colocando sua mão sobre ambos, de modo que não há necessidade nem lugar para “uma multidão obscura de seres angélicos ou abstrações fantasmagóricas” a fim de medir a vastidão incomensurável através da qual, a sua encarnação “arremessa o seu arco sólido e único”; o Cristo cuja vinda em carne e sangue dignificou o corpo humano, tornando-o um templo do Todo-poderoso, e cuja obra esplêndida de reconciliação na Cruz exclui qualquer outra existência de “mortificação ascética” ou “escrúpulos judeus”.

A Carta a Colossos A Epístola aos Colossenses é um documento profundo e de valor inestimável. Os primeiros dois de seus quatro capítulos são doutrinários e os outros dois são práticos. Em sua metade doutrinária o tom é polêmico, pois Paulo está combatendo o misticismo semi-judaico e o ascetismo que descrevemos, com sua cosmogonia falsa, adoração de anjos e discernimento supostamente profundo dos segredos espirituais. Trata-se de uma composição bastante metódica, como mostra nossa simples análise. Seu tema dominante é a plenitude e preeminência de Cristo e o aperfeiçoamento pleno dos crentes nEle, em oposição aos misticismos e ascetimos exigidos pelas filosofias e tradições humanas. Não há necessidade de revermos neste momento a carta, parágrafo por parágrafo, destacando seus aspectos principais e diferentes seções. A epístola é tão curta e clara que podemos estabelecer nossa análise imediatamente. As


duas partes mais importantes são previstas nas palavras iniciais do apóstolo. Em Colossenses 1.9, ele ora para que “transbordem” de conhecimento espiritual que é o seu tema na primeira metade da epístola. No v. 10, ele ora para que eles possam “viver de modo digno”do Senhor — que é o seu tema na segunda metade da epístola. Vejamos então a carta num esboço simples: A EPÍSTOLA AOS COLOSSENSES

CRISTO, A PLENITUDE DE DEUS PARA NÓS Ações de graças introdutórias (1.1-8). Oração de abertura por “plenitude” e “viver digno” (1.9-14). I. DOUTRINA - “QUE TRANSBORDEIS” (1-2 ).

Cristo, a plenitude de Deus na criação (1.15-18) Cristo, a plenitude de Deus na redenção (1.19-23) Cristo, a plenitude de Deus na Igreja (1.24-2.7) Cristo, a plenitude de Deus contra a heresia (2.8-23) II. PRÁTICA - “A FIM DE VIVERDES DE MODO DIGNO” (3-4). A nova vida — e os crentes individualmente (3.1-11) A nova vida — e os crentes reciprocamente (3.12-17) A nova vida — e os relacionamentos domésticos (3.18-21) A nova vida — e as obrigações do emprego (3.22-4.1) A nova vida — e “os que são de fora” (4.1-6) Acréscimo pessoal (4.7-18).

A Cristologia dos Colossenses Por mais espiritualmente superior que a combinação herética de teosofia incipiente, judaísmo e ascetismo possa ter parecido externamente, seu resultado real era depor Cristo de sua irrepartível


supremacia e suficiência totais como Senhor e Salvador. Foi isto que fez surgir, em nossa Epístola aos colossenses, sua apresentação suprema do todo-preem inente D eus-Hom em Salvador, em quem habita “corporalmente toda a plenitude da Divindade”. A Pessoa de Cristo (1.15-18) Veja primeiro como, no capítulo 1.15-18, Paulo apresenta seu glorioso retrato de corpo inteiro do Cristo real que se tornou nosso Salvador. É interessante destacar novamente as sete características supergloriosas: 1. “Imagem do Deus invisível.” 2 . “O primogênito de toda a criação.” 3. “Nele foram criadas todas as coisas.” 4. “Eie- É antes de ioàas ãs coisas. ” 5. “Nele tudo subsiste.” 6. “A cabeça do corpo, a Igreja.” 7. “O primogênito de entre os mortos.” Esse é o Cristo real pregado aos colossenses. Como poderiam então substituí-lO por qualquer dos poderes angélicos inferiores dos filósofos ardilosos que agora estavam querendo enganá-los? Onde estavam os seus equivalentes ou rivais? Todos os demais foram feitos por Ele e para Ele — “tronos, soberanias, principados e potestades” (v. 16)! Quem mais poderia sequer aspirar a esta absoluta soberania sc>bre todo o universo? Só Ele, com evidência misteriosa e facilidade despretensiosa, une em si mesmo Deus e homem, natureza e supernatureza, eternidade e tenlpo, céu e terra, passado e futuro, todos os mundos e o nosso mundo, soberania que a tudo transcende e salvação totalmente suficiente — “para em todas as coisas ter a primazia”! A Plenitude, a Cruz, o Mistério (1.19-27) Veja agora como esta magnífica identificação (fo verdadeiro Cristo, apresentada em sete partes, é consolidada por três aspectos simplesmente extraordinários de Sua pessoa, paixão e propósito.


O v. 19 diz: “Porque aprouve a Deus que nele residisse toda a plenitude”. Não existe qualquer distribuição vaga da mesma entre inúmeros seres espirituais obscuros, como os novos místicos presumiam ter discernido por sua percepção secreta! Ela também não é distribuída entre os gênios, criadores e professores religiosos históricos de quem Cristo é (supostamente) apenas o maior —como é tantas vezes ensinado hoje. Este Cristo maravilhoso, o Cristo real, é o Pleroma concentrado, o Plenipotenciário infinito! A seguir, o v. 20 acrescenta: “Havendo feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, quer sobre a terra, quer nos céus”. A sua cruz tem assim uma extensão tanto cósmica quanto universall O pecado já se achava no universo antes de ele ter entrado na raça humana através de Adão. Ele pode ter amaldiçoado outras partes de vida além da nossa; mas como todo o universo concentra-se no Filho eterno, a paz de sua cruz tem uma circunferência universal. Por que então cogitar de idéias ocultas a fím de descobrir aíguma paz misteriosa mediante a investigação do reino invisível dos espíritos? Veja agora os w. 24 a 27: “Seu corpo...a igreja...O mistério que estivera oculto dos séculos e das gerações; agora, todavia, se manifestou aos seus santos...a riqueza da glória deste mistério entre os gentios, isto é, Cristo em vós, a esperança da glória”. O que eram os insignificantes “mistérios” e enfeites clandestinos dos novos teósofos comparados com este glorioso mistério que se estende através das épocas e gerações? Note muito bem esses três aspectos titânicos. Primeiro, a “plenitude” de Cristo abrange toda a Divindade (v. 19). Segundo, a “cruz” de Cristo abrange todo o universo, (v. 20). Terceiro, o “mistério” de Cristo abrange todas as eras (v. 26). Veja agora a insuperável e maravilhosa salvação dividida em sete partes que o PAI efetuou para nós através deste Ser incomparável, o “Filho do seu amor” (v. 13): 1. HERANÇA —

Idôneos à parte que vos cabe da herança dos santos na luz” (v. 12). 2. LIBERTAÇÃO — “Ele nos libertou do império das trevas” (v. 13). 3. TRANSLADAÇÃO — “E nos transportou para o reino do Filho do seu amor” (v. 13).


4. REDENÇÃO 5. PERDÃO 6. RECONCILIAÇÃO 7. TRANSFIGURAÇÃO

No qual temos a redenção, através do seu sangue” (v. 14). “A remissão dos pecados” (v. 14). “Agora, porém, vos reconciliou” (v. 21 ).

“Para apresentar-vos perante ele santos, inculpáveis e irrepreensíveis” (v. 22).

Como aqueles colossenses ainda podiam afastar-se, ou tentar fazer acréscimos a uma salvação plena, divina e eterna como essa? Ou como as mentes iluminadas em nossos dias podem ser desviadas dela pelas fantasias vagas da filosofia humana — “que aprendem sempre e jamais podem chegar ao conhecimento da verdade” (2 Tm 3.7)? Todavia, ainda Ãojé, existem, íníeíecíuais superiores, rituaíistas e tradicionalistas, que insistem em levantar suas velas desprezíveis para ajudar o sol glorioso a brilhar! Como os sábios são insensatos! Como são sábios os simples!

A Doutrina da Plenitude Não preciso de quase mais nada, além de declarar que o centro desta carta aos colossenses é sua doutrina do pleroma ou “plenitude”. Existem dois lados nesta questão: o divino e o humano. As duas grandes verdades que os colossenses (e nós) deveríamos aprender são: ( 1) toda plenitude de Deus está em Cristo; (2) toda a plenitude de Cristo é para nós. Como mostramos em nossa análise, os oito primeiros versos do capítulo 1 são introdutórios. A carta começa propriamente no v. 9, com uma oração que esclarece tudo o que se segue: “Por esta razão, também nós, desde o dia em que o ouvimos, não cessamos de orar por vós, e de pedir que TRANSBORDEIS de pleno conhecimento da sua vontade, em toda a sabedoria e entendimento espiritual”.


Os gnósticos sedutores de Colossos estavam insinuando que seu próprio conhecimento interior havia aperfeiçoado o evangelho (o nome “gnóstico” tem origem do grego gnosis, “conhecimento”), e aparentavam dar (a) plenitude ou aperfeiçoamento à verdade como encontrada em Cristo; (b) um conhecimento interior que completa as realidades divinas, (c) uma “sabedoria” ou “entendimento espiritual” superior. Paulo está usando as palavras favoritas quando ora para que os crentes de Colossos possam “TRANSBORDAR” (“ficar cheios”) como os “epignosis” da sua vontade em toda “sabedoria” e “entendimento espiritual”. Como este transbordamento iria se tornar uma experiência real? A primeira necessidade é ver a plenitude do próprio Cristo. Lemos então na passagem de 1.19: “Porque aprouve a Deus (i.e., a Deus Pai) que nele residisse toda a plenitude”. A seguir, em 2.3, lemos: “Em quem (Cristo como o ‘mistério’ de Deus) todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento estão ocultos”. Depois ainda, em 2.9: “Porquanto nele habita corporalmente toda a plenitude da Divindade”. O pleroma não dividido em 1.19 acha-se indiscutivelmente definido aqui como a plenitude da “Divindade”. A própria natureza dos atributos de Deus reside em Cristo em toda a sua plenitude. Além disso, enquanto em 1.19, a existência do pleroma em Cristo é vista mais como o “deleite” temporário do Pai em relação ao grande esquema divino da reconciliação, aqui em 2.9 ela é vista como fato duradouro. Além disso, toda a plenitude habita nele “corporalmente” agora e para sempre —uma clara referência a Ele como o que foi encarnado, nosso amado Senhor e Salvador, JESUS! Na primeira dessas três declarações a plenitude “habita” nEle; na segunda ela está “oculta” nEle; na terceira ela habita nEle “corporalmente”. Na primeira, ela “habita” nEle como a qualificação para uma salvação totalmente suficiente. Na segunda, ela está “oculta” nEle, para que tenhamos o prazer intelectual de buscar sempre e de obter novas descobertas. Na terceira, ela habita “corporalmente” nEle, a fim de que possa ser transm itida a nós espiritualm ente, através do amor divino-humano e do Espírito dAquele que podemos ver, conhecer, confiar, amar e até mesmo nos apegar como JESUS. Vem agora a declaração que constitui o próprio centro desta epístola, em 2.10. Os w. 9 e 10 dizem em conjunto:


nele habita corporalmente toda a PLENITUDE da Divindade; e nele estais APERFEIÇOADOS”. Essa é a resposta direta e final necessária, Se Ele é corporalmente a própria plenitude da Divindade, nada então Lhe pode ser acrescentado; e se o crente está “nEle”, o que pode ser acrescentado que o crente já não possua nEle? Isto é refletido na epístola inteira: “...não cessamos de orar por vós, e de pedir que transbordeis” (1.9). “...me tornei ministro de acordo com a dispensação da parte de Deus, que me foi confiada a vosso favor, para dar pleno cumprimento (i.e., expor em sua plenitude) à palavra de Deus: O mistério” (1.25). “Para que os seus corações sejam confortados, vinculados juntamente em ...forte convicção do entendimento” (2.2). “Para que vos conserveis perfeitos e plenamente convictos em toda a vontade de Deus” (4.12). Veja agora no capítulo 2 como Paulo atira tudo isto contra os perturbadores ardilosos da congregação de Colossos. “Assim digo (i.e., em quem todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento estão ocultos”) para que ninguém vos engane com raciocínios falazes” (2.4). “Cuidado que ninguém vos venha a enredar com sua filosofia e vãs sutilezas, conforme a tradição dos homens, conforme os rudimentos do mundo (i.e., a idéia de que espíritos perniciosos habitam as coisas materiais), e não segundo Cristo: porquanto nele habita corporalmente toda a plenitude da Divindade” (2.8, 9). “Ninguém pois vos julgue (como se estivessem ainda sob obrigação tradicional) por causa de comida e bebida, ou dia de festa, ou lua nova, ou sábados, porque tudo isso tem sido sombra das coisas que haviam de vir; porém o corpo é de Cristo” (2.16). “Ninguém sefaça árbitro” contra vós outros, pretextando humildade e culto dos anjos, baseando-se em visões, enfatuado sem motivo algum na sua mente carnal, e não retendo a CABEÇA” (2.18, 19). ^ Fica bem claro que nos versos 3-10 Paulo está contradizendo afilósofia brilhante dos desviados. Nos w. 11-17 ele refuta a veneração tradicional que á acompanhava. Sua resposta à primeira é a plenitude de nosso Senhor. Sua resposta à última é a finalidade da Cruz. Por último, nos w. 18-23, ele reprova ambas como uma dualidade de misticismo e legalismo falsos que (em lugar de proporcionar o suposto alargamento) gera a escravidão. A interpretação de Moffatt certamente dá a força e o espírito


dos w. 20-23: “Se morrestes com Cristo para os espíritos elementares do mundo, por que continuar vivendo como se ainda pertencêsseis ao mundo? Por que se submeter a regras e regulamentos com proibições tais como ‘Não toqueis nisto!’ ‘Não proveis aquilo!’ — referindo-se ao uso de coisas que perecem? Essas regras são determinadas por preceitos e opiniões humanos; eles recebem o nome de ‘sabedoria’ com suas devoções auto-impostas, com seus jejuns, sua disciplina rigorosa do corpo, mas não têm valor; simplesmente acostumam mal a carne!”

“Portanto, se fostes ressuscitados com Cristo...” Como nossa análise indica, a segunda parte desta epístola é prática. Essa é sempre a ordem de ensino no Novo Testamento — primeiro doutrina, depois prática. O lema do Grupo de Oxford, “Não importa em quem você crê; a única coisa importante é como você vive”, parece alegre e bastante prático; mas, na verdade, é completamente enganoso. “Como você vive” é sempre determinado pelo que “você crê”. A doutrina é a base da prática. Havia também boa razão para Paulo acrescentar mais dois capítulos sobre o andar cristão; pois, como sempre acontece, juntamente com as grandes pretensões e super-espiritualidade da forma aparentemente superior de cristianismo, havia uma decadência visível na santidade cristã prática. Não podemos estudar separadamente as várias seções aqui; elas estão demarcadas em nossa análise e recomendamos que sejam pesquisadas a fundo. A única observação que faremos agora é que Paulo, caracteristicamente, começa indicando CRISTO outra vez como a mais elevada de todas as inspirações para a santificação da CONDUTA: “Portanto, se fostes ressuscitados juntamente com Cristo, buscai as coisas lá do alto... Fazei, pois, morrer a vossa natureza terrena”. Note os três tempos da união do crente com Cristo no parágrafo de abertura deste terceiro capítulo:


Passado Presente Futuro

— “Se fostes ressuscitados com Cristo.” — “A vossa vida está oculta juntamente com Cristo, em Deus.” — “Quando Cristo, que é a nossa vida, se manifestar, então vós também sereis manifestados com ele, em glória. ”

Duas advertências acompanham estes três tempos: “Buscai as coisas lá do alto”; “Pensai nas coisas lá do alto, não nas que são aqui da terra”. Ó, que possamos, cada vez mais, colocar nossos pensamentos nas coisas celestiais, não em qualquer sentido fantasioso e simplesmente místico, mas no sentido de uma santidade prática, em espírito de oração, como Cristo —até “sermos manifestados com Ele, em glória”!Lembre-se, nosso amado Senhor disse certa vez: “Porque onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração”. Nosso Senhor ressurreto ali está, Entre aquelas mansões brilhantes; Ele disse que nosso lugar iria preparar Nessa bela terra de luz. Um céu de perfeito amor É nosso pela graça salvadora; Ainda beberemos das alegrias lá do alto, Diante de nosso Salvador. Nossos corações ansiosos muitas vezes fogem, E querem permanecer ali para sempre. EXPERIMENTE RESPONDER A ESTAS PERGUNTAS SOBRE EFÉSIOS, FILIPENSES E COLOSSENSES 1. Efésios é distintamente a epístola de... (diga o quê). 2. Escreva de cor nosso esboço de Efésios. 3. Quais são as seis grandes “bênçãos espirituais” em Efésios 1.3-14? e as três grandes verdades que Paulo ora para que conheçamos nos w. 15-23? 4. Quais os cinco aspectos negativos e os três positivos da obra do Senhor no Calvário como mostrado em Efésios 2.13-18?


5. Qual a apresentação de Cristo em Filipenses que aparece dividida em quatro aspectos? Dê o versículo-chave para cada capítulo. 6 . Quais os quatro grandes exemplos pessoais colocados diante dos Filipenses? 7. Você pode dar os sete passos da descida do Senhor (Fp 2.5-8) e mostrar porque não é certo chamá-los de sua “humilhação”? 8. Qual foi (brevemente) o erro dos Colossenses? 9. Você é capaz de reproduzir nossa curta análise de Colossenses? 10. Quais os sete aspectos no retrato do Cristo real feito por Paulo em Colossenses 1.15-18? E quais (no mesmo capítulo) são as sete belíssimas bênçãos que nos cabem na grande salvação que o Pai efetuou para nós através de Cristo?


A PRIMEIRA EPÍSTOLA AOS TESSALONICENSES Lição na 35


NOTA: Para este estudo leia antecipadamente esta curta epístola, pelo menos duas ou três vezes. O apóstolo escreveu a essas pessoas porque não podia ir vê-las. Isto foi causado, sem dúvida, pela perseguição por parte dos judeus e porque Satanás “barrou o caminho” (2.18). Ao mesmo tempo, a epístola marca uma nova situação na carreira de Paulo como apóstolo para os gentios. As igrejas fundadas em sua primeira viagem ficavam relativamente próximas de Antioquia, sua sede original, e podiam ser todas visitadas a partir desse centro em alguns meses. Mas tudo mudou quando seu campo missionário se estendeu à Europa e incluiu assim dois continentes. Desde então lhe foi impossível supervisionar as igrejas que havia fundado, sem auxílio de mensageiros e cartas. Viu-se obrigado a escrever e a manter um quadro de ajudantes que podia mandar para cá e para lá, a fim de se comunicar com as sociedades cristãs distantes. Devemos as cartas apostólicas a este crescimento e ampliação do campo de trabalho de Paulo. — G. G. Findlay.


A PRIMEIRA EPÍSTOLA AOS TESSALONICEN SES Tanto as evidências internas como externas são tais que não deixam dúvidas de que as duas epístolas aos tessalonicenses são do punho de Paulo. Geralmente concorda-se também, que foram as primeiras escritas pelo apóstolo. De fato, estas e a Epístola de Tiago parecem ser os primeiros documentos escritos do Novo Testamento, tendo sido provavelmente redigidos em Corinto no ano 53 A.D. Seu cenário histórico é dado em Atos 17.1-14. Os movimentos e sentimentos de Paulo nessa época podem ser traçados e avaliados ao comparar Atos 17.13-16 e 18.1-5 com 1 Tessalonicenses 3.1-8. Essas passagens devem ser novamente observadas e relidas com cuidado. A ocasião em que Paulo escreveu a primeira dessas duas pequenas epístolas é dada em 3.6. Sua visita breve, mas grandemente proveitosa a Tessalônica fora interrompida pela violenta oposição dos judeus incrédulos que, usando “homens maus dentre a malandragem” alvoroçaram a cidade, acusando Paulo e seus companheiros de sedição por pregarem “outro rei”, “Jesus” (At 17.7). Paulo sentira-se obrigado a fugir e seguiu para Beréia, mas sendo ali também perseguido pelos judeus de Tessalônica, ele fugiu novamente, desta vez para Atenas. Dessa cidade (3.2), com o coração cheio de solicitude pelos seus amados convertidos tessalonicenses, ele enviou Timóteo a Tessalônica a fim de verificar se estavam bem e confirmá-los na fé. Timóteo voltara a Paulo (agora em Corinto) um pouco mais tarde, fazendo um relatório bastante positivo (3.6), o que levou o apóstolo a escrever-lhes sua primeira carta. As duas epístolas entrelaçam-se naturalmente, pois o seu assunto principal é o mesmo, a volta de Cristo, e sua relevância como um par deve ser devidamente apreciada. Para mim é um enigma como alguém pode lê-las com a mente aberta e não ver que o Novo Testamento ensina uma volta pessoal e visível, em grande glória.


1 e 2 Tessalonicenses, um Apogeu Como já dissemos, as nove epístolas às igrejas cristãs consistem de um quarteto, um trio e um par. As quatro primeiras ficam juntas, e sua ênfase distinta é Cristo e a cruz. As três do meio também se unem, focalizando Cristo e a Igreja. As duas últimas dão ênfase culminante a Cristo e sua volta. Nas quatro primeiras a fé contempla a cruz, sendo assim fortalecida. Nas três do meio o amor contempla o Noivo celestial, e é aprofundado. Nas duas últimas, a esperança contempla a consumação e ilumina-se. “Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor” (1 Co 13). Esta ordem das nove epístolas à igrejas cristãs em três classes é a maneira de o Espírito Santo indicar como devemos ensinar a verdade cristã. A primeira necessidade do pecador não é a doutrina da Igreja nem a do segundo advento, mas o Cristo do Calvário, como nas quatro epístolas evangélicas (Romanos, 1 e 2 Coríntios e Galátas). A seguir, devemos mostrar como a salvação individual através de Cristo, o Salvador, leva o crente comprado pelo sangue e regenerado pelo Espírito a uma comunhão magnífica, uma unidade espiritual indissolúvel com todos os demais crentes verdadeiros, no céu e na terra, que na sua totalidade compõem o corpo místico, a noiva e o templo do eterno Filho de Deus. Devemos então terminar a instrução apontando o clímax sublime, quando o glorioso Senhor voltará para sua Igreja aperfeiçoada; e os santos ressurretos, transformados à sua semelhança, estarão “para sempre com o Senhor”. Em sua introdução às epístolas paulinas posteriores, C. J. Ellicott diz: “As epístolas aos gálatas e romanos (como mostrou a história da Reforma do século XVI) são a casa do tesouro das verdades do cristianismo pessoal (ou individual); a própria idéia de justificação, dominante nelas, faz com que cada indivíduo enfrente seu pecado e sua salvação, naquela suprema crise da vida e da morte, na qual tem consciência de apenas duas existências — Deus e ele mesmo. Essas epístolas posteriores (Efésios, Filipenses e Colossenses) são igualmente o depósito do conceito menos cintilante, todavia mais majestoso, da santa Igreja universal. A idéia central é de Cristo como Cabeça, coletivamente, e toda cristandade da Igreja como o seu corpo”. O que mais é necessário? Apenas 1 e 2 Tessalonicenses para nos informarmos sobre a consumação histórica e celestial da Igreja. Nessas duas cartas aos tessalonicenses, a doutrina da cruz e da Igreja é vista em sua expressão mais simples; mas a maravilhosa expectativa da


volta do Senhor fica melhor esclarecida em relação à sua Igreja como em nenhum outro ponto do Novo Testamento.

1 Tessalonicenses Vamos examinar agora a primeira das duas cartas. Ela contém uma ordem agradável e direta. Nossa versão em português divide-a em cinco capítulos curtos, cada um terminando com uma referência à volta do Senhor. Isto nos revela imediatamente que tudo aqui é visto à luz desse clímax vindouro. A seguir descobrimos que, embora tudo seja visto de maneira futura, os três primeiros capítulos são reminiscentes. A primeira palavra depois da introdução é “Recordando-nos” e todos os dez versículos do capítulo são um retrospecto da conversão desses crentes de Tessalônica. Vemos que se trata também de uma conversão exemplar. Eles haviam sentido realmente o “poder” do evangelho (v. 5). Bem depressa se tornaram “modelo” para outros (w. 6,7). Também “repercutiram” com avidez a Palavra salvadora para outros (w. 8- 10). O capítulo 2 continua com esta visão retrospectiva. Mas agora a reminiscência não se fixa nos convertidos, e sim nos evangelistas. Ele inicia: “Porque vós, irmãos, sabeis pessoalmente que a nossa estada entre vós”. Paulo pensa com gratidão no ministério breve e perturbado que ele e sua pequena equipe conduziram em Tessalônica. Ao lermos sobre o seu motivo nos w . 1 a 6, sua conduta nos w . 7 a 12, sua mensagem e preocupação desinteressada pelas almas nos w. 13 a 16, não podemos deixar de sentir que a evangelização exemplar no capítulo 2 teve muito a ver com a conversão igualmente exemplar no capítulo 1. O capítulo 3 continua com as recordações dos cuidados posteriores de Paulo por seus amados filhos na fé. Os w . 1 a 5 falam de sua profunda inquietação por causa deles. Os w. 6-8 discorrem sobre o trabalho de acompanhamento realizado entre eles por Timóteo. Os w. 9-13 destacam as orações de Paulo, “noite e dia”, a favor deles. O capítulo 4 marca uma mudança. Paulo deixa de olhar para trás e começa a contem plar o que está à sua frente. Seu assunto é caracteristicamente prático. Se nos três primeiros capítulos ele esteve


lembrando proveitosamente aos mesmos como haviam sido salvos, nesses dois capítulos seguintes ele lhes ensina como devem viver. Não pode haver engano quanto a essas três sub-divisões. Primeira, no texto de 4.1-12, ele fala de conduta e chamado (w. 1, 7). A seguir, em 4.13 a 5.11 ele mostra como a perspectiva da volta do Senhor traz consolo (4.13-18) e desafio (5.1-11). Finalmente, em 5.12-24, ele exorta à concordância (w. 12-15) e à constância (w. 16-24). Podemos, portanto, determinar a estrutura toda como segue: 1

TESSALONICENSES

Verdade Principal: CRISTO, NOSSA ESPERANÇA. Saudação 1.1 PASSADO: COMO ELES FORAM SALVOS (1-3). (a) CONVERSÃO EXEMPLAR (1). Conheciam o poder do evangelho (5), Exemplos ( 6,7), Testemunhos (8- 10). (b) EVANGELIZAÇÃO EXEMPLAR (2). No motivo (1-6), na conduta (7-12), na mensagem (13-16). (c) CUIDADOS POSTERIORES EXEMPLARES (3). Interesse (1-5), Acompanhamento (6-8), Oração fervorosa (9-13). FUTURO: COMO ELES DEVERIAM VIVER (4, 5). (a) CONDUTA E CHAMADO (4.1-12). De acordo com a vontade do Pai. (b) CONSOLO E DESAFIO (4.13-5.11). Na expectativa da volta do Senhor. (c) HARMONIA E CONSTÂNCIA (5.12-24). De acordo com a comunhão cristã. Pedidos e bênção (5.25-28).


A Gloriosa Esperança Ao abrir esta primeira carta aos seus amados tessalonicenses, Paulo está “sem cessar recordando-nos... da operosidade da vossa fé, da abnegação do vosso amor e da firmeza da vossa esperança em nosso Senhor Jesus Cristo”. Ele logo define esses termos, como mostra uma comparação do v. 3 com os w, 9 e 10: Verso 3 “Operosidade da vossa fé’.”

Versos 9,10 “D eixando os ídolos, vos convertestes a Deus.” “Abnegação do vosso amor.” “Para servirdes o Deus vivo e verdadeiro.” “Firmeza da vossa esperança.” “E para aguardardes dos céus o seu Filho.”

Esta comparação também confirma que a carta foi enviada a uma igreja principalmente gentia, em que a maior parte dos convertidos deixara há pouco tempo a idolatria. Embora seu entusiasmo fosse grande, sua experiência era pequena. Trata-se de um fato significativo em si mesmo, que a uma igreja desse tipo e a convertidos tão jovens, Paulo não vacilasse em revelar a esplêndida verdade da volta e reino futuros do Senhor. Alguns pregadores da atualidade fariam bem em “ler, marcar, aprender e digerir” esse fato. Uma outra evidência indiscutível de que a igreja de Tessalônica se encontra em sua primeira infância apresenta-se no capítulo 4.13, onde Paulo diz: “Não queremos, porém, irmãos, que sejais ignorantes com respeito aos que dormem, para não vos entristecerdes como os demais, que não têm esperança”. Fica claro que o apóstolo está respondendo a dúvidas que haviam surgido na mente deles. A foice sempre ocupada e implacável da morte havia levado o luto aos irmãos. Um medo estranho golpeara a sua fé. Os seus entes queridos mortos em Cristo teriam perdido a participação na aurora dourada que tanto esperavam? A pergunta surgira evidentemente pela primeira vez entre eles; e ela provocou uma resposta que, mais do que qualquer outra passagem em 1Tessalonicenses, marcou especialmente esta epístola (4.13-18).


O estudo comparativo das Escrituras é sempre útil para determinar a verdadeira interpretação das passagens controvertidas. Ouvimos recentemente um de nossos melhores pregadores evangélicos declarar que, em João 14.3, o Senhor não pensava numa segunda volta visível à terra, quando disse: “Voltarei e vos receberei para mim mesmo, para que onde eu estou estejais vós também”. As palavras, disse o pregador, referiam-se à vinda do Senhor na pessoa do Espírito Santo, no Pentecoste. Não precisamos de qualquer outro apoio para convencer-nos de que em João 14.3 o Senhor referiu-se realmente a uma segunda vinda visível a esta terra para os que são seus; mas, em todo caso, é bom trazer a luz de 1 Tessalonicenses 4.16, 17 sobre João 14.3, apenas para confirmar por comparação. João 14.3 “Voltarei.” “E vos receberei para mim mesmo.” “Para que onde eu estou estejais vós também.”

1 Tessalonicenses 4.16.17. “Porquanto o Senhor mesmo... deScerá dos céus.” D epois nós... serem os arrebatados... para o encontro do Senhor nos ares.” “E assim estaremos para sempre com o Senhor.”

Da mesma forma como esta passagem brilha de forma retroativa sobre João 14.3, há também uma passagem em Mateus 24 que brilha sobre este trecho de Tessalonicenses, iluminando-o por comparação e mostrando se ele trata ou não de um “arrebatamento secreto” da Igreja. O próprio uso da frase “arrebatamento secreto” exige uma palavra de cautela. É profundamente lamentável que o evento futuro e glorioso, que representa a maior esperança da Igreja, possa ter causado ódio profundo entre os que diferem na interpretação dos seus aspectos secundários! Mas foi o que aconteceu. Por que aqueles que concordam quanto aos princípios fundamentais não conseguem discordar amavelmente quanto aos incidentais? Alguns afirmam que a volta do Senhor se fará em duas etapas — uma primeira descida no ar para buscar os santos e depois uma Volta à terra com eles. Um corolário imprescindível desta teoria é que a primeira fase deve ser secreta. Todos concordam que o Novo Testamento ensina uma volta em esplendor incomparável. Todos também concordam que


não existe previsão de dois retornos. Assim, se houver uma descida prévia para os crentes, ela deve ser necessariamente secreta. E é isto que geralmente se presume. Onde então, o Novo Testamento ensina este “arrebatamento secreto”? Por mais estranho que nos pareça, o texto clássico, apresentado como prova, é considerado 1 Tessalonicenses 4.15-18. Mas, esta passagem ensina uma trasladação secreta? É aqui que uma comparação com Mateus 24 pode nos ajudar a decidir. Referimo-nos, naturalmente, ao discurso do Senhor no Monte das Oliveiras. A parte especial que tem ligação com nossa passagem em Tessalonicenses é aquela em que Jesus diz: “E então aparecerá no céu o sinal do Filho do homem; todos os povos da terra se lamentarão e verão o Filho do homem vindo sobre as nuvens do céu com poder e muita glória. E ele enviará os seus anjos, com grande clangor (lit. voz) de trombeta, os quais reunirão os seu escolhidos, dos quatro ventos, de uma a outra extremidade dos céus” (Mt 24.30,31). Sem qualquer dissensão (exceto entre os que não crêem absolutamente na volta do Senhor) é aceito que essas palavras, ditas pelo próprio Senhor, descrevem antecipadamente uma volta que, no sentido mais glorioso, reverente e espetacular, será visível e pública. Todavia, o aspecto notável, que deve, com certeza, impressionar todos, menos aqueles que simplesmente não querem ver, é a singular correspondência entre a fraseologia usada e a de 1 Tessalonicenses 4.15-18, para ensinar (supostamente) uma vinda secreta. Veja as passagens lado a lado. Mateus 24 “Verão o Filho do homem vindo.” “... enviará seus anjos...” “... com grande clangor de trombeta.” “Os quais reunirão os seus escolhidos.” “Sobre as nuvens do céu.”

1 Tessalonicenses 4 “O Senhor mesmo... descerá dos céus.” “Ouvida a voz do arcanjo.” “... ressoada a trom beta de Deus...” “Arrebatados juntamente com eles.” “Entre nuvens, para o encontro do Senhor.”

Note bem os paralelos aqui — anjos, voz, trombeta, reunião, nuvens. Todos concordam que Mateus 24 ensina a vinda esplêndida, exterior e


pública. Então, que tipo de interpretação bíblica é esta, que pode tomar exatamente as mesmas frases e símbolos em 1 Tessalonicenses 4.15-18 e afirmar que ali elas ensinam uma vinda secreta! Existem, naturalmente, detalhes no parágrafo de Tessalonicenses que não ocorrem em Mateus 24, simplesmente porque o Senhor não podia divulgar tal doutrina da igreja de antemão (Jo 16.12, 13); e, de qualquer forma, passagem alguma tem o monopólio de todos os detalhes sobre um determinado assunto. Nada pode disfarçar, diante de um olhar sincero, o paralelo entre Mateus 24.30, 31 e 1 Tessalonicenses 4.15-18, o que estabelece com certeza que o último trecho não ensina uma vinda supostamente secreta. É provável que me perguntem imediatamente: “Qual é então sua teoria sobre as duas fases da volta do Senhor?” Minha resposta torturante é que neste assunto eu, deliberadamente, fujo de uma resposta! A comparação anterior serve o seu propósito se apenas mostrar a alguns alunos mais jovens como é importante não aceitar teorias sem compará-las devidamente com a revelação das Escrituras como um todo. Lembre-se, nesta questão das duas fases sugeridas da volta do Senhor, eu não me comprometi com nenhuma delas — pelo menos não o fiz aqui. Abstenho-me deliberadamente de fazer isso aqui, mesmo que seja só para aproveitar uma nova oportunidade de apelar para o amor e consideração cristãos sempre que houver divergência de pontos de vista com relação aos aspectos suplementares de nossa fé e esperança cristãs. Um último comentário deve bastar. Note de novo os três aspectos surpreendentes desta passagem aos tessalonicenses: “alarido” (Edição Revista e Corrigida — Imprensa Bíblica Brasileira) — “voz” — “trombeta”. Cada um deles tem sua relevância especial. O “alarido” é feito pelo “Senhor”. A “voz” é do “arcanjo”. A “trombeta” é a “trombeta de Deus”. O grito ou alarido do Senhor é seu chamado de ressurreição para a Igreja (só uma vez em outra passagem lemos sobxe um grito dado por ele, i.e., em João 11, ao ressuscitar lázaro). O “arcanjo” é Miguel (As Escrituras revelam muitos anjos, mas apenas um arcanjo) que tem ligação especial com Israel (Dn 10.21; 12.1). A “trombeta” tem a ver com o juízo, e isso se associa com as nações (Ap 8). Assim, o “alarido”, a “voz” e a “trombeta” referem-se respectivamente à Igreja, a Israel, às nações. O “alarido” traz ressurreição; a “voz” efetua a reunião; a “trombeta” soa para o julgamento. Uma interrupção divina da história tão dramática e


estupenda confunde absolutamente a imaginação. Ela irá terminar a era presente e introduzir o reino milenar do Senhor sobre todas as nações. Aqui em 1 Tessalonicenses, porém, é a vinda do Senhor com relação à Igreja que se acha especialmente em vista. Ó, que preciosa esperança e que perspectiva incomparável isso representa! Vem, Senhor Jesus.


A SEGUNDA EPISTOLA AOS TESSALONICENSES Lição nQ36


NOTA: Para este estudo, leia cuidadosamente a epístola inteira três vezes, especialmente o capítulo 2. Não muito depois dos tempos apostólicos, os bezerros de ouro da idolatria foram levantados pela igreja de Roma. O cativeiro teve sobre os judeus o mesmo efeito que a Reforma teve sobre a cristandade. O primeiro espírito maligno foi expulso, mas, devido ao crescimento da hipocrisia, secularismo e racionalismo, a casa ficou vazia, varrida e enfeitada: varrida e ornamentada pelo decoro da civilização e pelas descobertas do conhecimento secular, mas vazia de vida e fé sincera. Deve entender mal a profecia aquele que não vê sob todos esses melhoramentos aparentes a preparação para a vinda do homem da iniqüidade, a grande reintegração, quando a idolatria e os sete espíritos piores irão fazer com que a estrutura exterior da chamada cristandade chegue a seu terrível fim. —Henry Alford, D.D. 2 TESSALONICENSES Espera paciente, vigilância e trabalho Saudação 1.1,2. CONSOLO - ATRAVÉS DA ESPERANÇA DA VOLTA DE CRISTO (1) O consolo no presente (w. 3-7) A compensação no futuro (w. 8-12) ADVERTÊNCIA - A ÉPOCA DA VOLTA DE CRISTO (2) O quando e o como da volta (w. 1- 12) O por quê e o como da espera (w. 13-17) ORDEM - EM VISTA DA VOLTA DE CRISTO (3) Base da ordem: apelo, confiança (w. 1-5) Natureza da ordem: devemos trabalhar enquanto esperamos (w. 6-15). Bênção e assinatura 3.16-18


A SEGUNDA EPÍSTOLA AOS TES SALONICENSES Concorda-se geralmente que esta segunda carta aos Tessalonicenses foi escrita poucos meses depois da primeira, enquanto Paulo se achava ainda em Corinto. Seu propósito principal fica muito claro através do seu conteúdo. Certos males mencionados na primeira carta haviam se desenvolvido ainda mais por ocasião da segunda. Percebemos também que havia surgido algum mal-entendido ou até uma interpretação errada do ensino do apóstolo sobre a volta do Senhor. Não obstante as advertências da primeira carta, alguns, aparentemente, estavam declarando que o “dia do Senhor” estava “próximo” ou até “presente”; e existe uma insinuação de que uma carta falsa ou mensagem espúria, que alegava ser do próprio Paulo (2.2), havia se infiltrado entre eles, perturbando-lhes a mente. A agitação resultante mostrava tendências bastante fanáticas em alguns. Supondo que a volta do Senhor era iminente, eles estavam deixando seus empregos e sobrecarregando os irmãos com as despesas de seu sustento. Não é também de surpreender que os indivíduos assim desorientados fossem tentados a tornar-se “intrometidos” (3.11) e desse modo a paz da comunidade cristã estivesse sendo prejudicada (3.6,12,16). A censura branda e discreta da primeira carta dá lugar agora a palavras mais severas. Mas não devemos exagerar esse lado das coisas, pois havia muito mais do outro lado da balança, merecendo palavras de gratidão e louvor a Deus. Com relação à assembléia de Tessalônica, a sua fé, de modo geral, “crescia sobremaneira”, o seu amor mútuo “aumentava” e a sua “constância e fé” em meio às perseguições era um exemplo para o povo do Senhor em toda parte (1.3-5). Esta segunda carta contém exultação, explicação e exortação. Trata-se de uma carta bem curta e não devemos tentar analisá-la em excesso. Todavia, vale a pena destacar e observar claramente seu progresso em três fases. No capítulo 1, a volta do Senhor é considerada como um grande CONSOLO para os santos, em meio às perseguições e angústias. Nos w.


4-7 ela dá consolo no presente. Nos w. 8-12 significa compensação no futuro. A seguir, no capítulo 2, o consolo dá lugar à ADVERTÊNCIA, pois havia idéias erradas circulando a respeito da volta do Senhor e certos assuntos ligados a ela. Nos w. 1-12, Paulo orienta e corrige com relação ao “quando” e ao “como” da vinda. Nos w. 13-17, ele lhes diz por que (w. 13,14) e como (v. 15) esperar. Por último, no capítulo 3, Paulo passa a COMANDAR (não, porém, como um general do exército, mas como um apóstolo do Senhor). Por quatro vezes a palavra “ordem” ocorre (w. 4, 6,10,12), e a seção termina com: “Caso alguém não preste obediência à nossa palavra dada por esta epístola, notai-o”. Os w. 1-5 nos dão o bondoso prelúdio de Paulo para as suas “ordens”, ou seja, um apelo (w. 1, 2 ) e uma expressão de confiança (v. 4). Os versículos restantes (w. 6-15) dão os mandamentos apostólicos de Paulo, que neste caso parecem todos se referir ao comportamento prático. Assim, o conteúdo desta pequena epístola enquadra-se numa ordem e divisão claras. No capítulo 1, a grande esperança da volta do Senhor é posta diante dos tessalonicenses como um maravilhoso consolo em meio às tribulações que estão suportando por causa de Cristo. A seguir, no capítulo 2, o apóstolo os corrige com autoridade em relação à época e maneira como o Senhor voltará. Finalmente, no capítulo 3, vemos a oposição do erro prático relativo aos deveres presentes no período de espera até Cristo voltar. A epístola pode ser esboçada segundo mostra a primeira página desta lição.

O Capítulo Dois Não é possível fazer um estudo completo desta passagem bastante obscura e apocalíptica no capítulo 2 (acabamos de ler muitas páginas sobre ela e ficamos surpresos com a variedade de interpretações desde os primeiros tempos do cristianismo até agora — nenhuma delas convencendo inteiramente pelo menos uma metade obstinada!). Mas os seguintes comentários podem servir de orientação útil para alguém. Primeiro, leia os seguintes versículos:


“Irmãos, no que diz respeito à vinda de nosso Senhor Jesus Cristo e à nossa reunião com ele, nós vos exortamos a que não vos demovais da vossa mente, com facilidade, nem vos perturbeis, quer por espírito, quer por palavra, quer por epístola, como se procedesse de nós, supondo tenha chegado o dia do Senhor. Ninguém de nenhum modo vos engane, porque isto não acontecerá sem que primeiro venha a apostasia, e seja revelado o homem da iniqüidade, o filho da perdição, o qual se opõe e se levanta contra tudo que se chama Deus, ou objeto de culto, a ponto de assentar-se no santuário de Deus, ostentando-se como se fosse o próprio Deus. Não vos recordais de que, ainda convosco, eu costumava dizer-vos estas coisas? E, agora, sabeis o que o detém, para que ele seja revelado somente em ocasião própria. Com efeito o mistério da iniqüidade já opera e aguarda somente que seja afastado aquele que agora o detém; então será de fato revelado o iníquo, a quem o Senhor Jesus matará com o sopro de sua boca, e o destruirá, pela manifestação de sua vinda. Ora, o aparecimento do iníquo é segundo a eficácia de Satanás, com todo poder, e sinais e prodígios da mentira, e com todo engano de injustiça aos que perecem, porque não acolheram o amor da verdade para serem salvos. É por este motivo, pois, que Deus lhes manda a operação do erro, para darem crédito à mentira, a fim de serem julgados todos quantos não deram crédito à verdade; antes, pelo contrário, deleitaram-se com a injustiça.” Se não começarmos a manipular as palavras e significados claros, a primeira noção simples é que o “iníquo” é um indivíduo e não um sistema, como o judaísmo ou romanismo; não sendo também uma sucessão de homens, tais como os césares ou os papas. É o “homem”, “quem”, “ele”, “filho da perdição”. Contra o comentário do Bispo Lightfoot de que o iníquo aqui não precisa ser uma pessoa real, porque nas passagens figuradas a personificação nem sempre indica isso, respondemos que esta passagem não é simplesmente figurada. O iníquo é direta e repetidamente mencionado no singular, de maneira a torná-lo uma pessoa tão real quanto o Senhor que o destrói. A segunda coisa que se destaca claramente (v. 3) é que o “dia do Senhor” não virá até que dois acontecimentos ocorram: ( 1) a “apostasia” e (2) a revelação do “iníquo”. Essas duas coisas são os sinais e os precursores do grande dia. Contrariando a sugestão artificial de que talvez entre essas duas ocorrências e a volta do Senhor poderia haver um longo período de tempo, respondemos: “Não, pois se fosse assim não haveria absolutamente


sentido em Paulo apresentá-los como indicadores para os tessalonicenses. Além do mais, o “então” e o “quem” do v. 8 completam a impressão de que a revelação do “iníquo” precipita a “volta” do Senhor. A terceira coisa salientada de forma inequívoca é que a “volta” do Senhor mencionada aqui é a sua vinda em esplendor e poder visíveis, a fim de introduzir o “dia do Senhor”. De modo algum, isso poder referir-se à vinda do Pentecoste, no derramamento do Espírito Santo; nem é possível reduzi-la tanto de maneira a indicar apenas a queda de Jerusalém em 70 A.D. Exceto para os que não crêem nessa volta de Cristo, aqui a “vinda” e o “dia” significam definidamente a volta ainda futura do Senhor. Assim, o “iníquo” deve achar-se também no futuro, pois ele aparece justamente à frente deste. Ele não pode ser então Nero, Maomé, ou qualquer dos papas ou outras figuras do passado, embora algumas delas se comportassem como sombras antecipadas do mesmo! As três observações precedentes, por fim, são confirmadas, porque elas correspondem perfeitamente a outras passagens das Escrituras. O tipo do “iníquo” no Antigo Testamento é Antíoco Epifânio (Dn 11.21-45), e ele era um indivíduo. A figura correspondente no Apocalipse de João é a “besta”, da qual foi escrito: “Aquele que tem entendimento calcule o número da besta, pois é número de homem. Ora, esse número é seiscentos e sessenta e seis” (Ap 13.18). O fato da “apostasia” e do “homem da iniqüidade” aparecerem pouco antes da volta do Senhor é confirmado por várias passagens, especialmente Mateus 24 e 2 Timóteo 3, onde vemos uma intensificação do mal pouco antes do fim. Mas, o fato que nos deixa mais perplexos talvez seja este: “E agora, sabeis o que o detém, para que ele seja revelado somente em ocasião própria. Com efeito o mistério da iniqüidade já opera e aguarda somente que seja afastado aquele que agora o detém', então será de fato revelado o iníquo.” A vasta maioria de intérpretes acredita que o poder restritivo seria o império romano que, por tanto tempo, manteve a lei e a ordem; mas se a passagem associa-se ao que ainda está no futuro, a Roma imperial deve ser eliminada, desde que foi removida há tanto tempo atrás. O pronome pessoal “até que seja afastado aquele” não sugere o Espírito Santo — o Espírito Santo operando através da verdade e do poder do evangelho, da presença e do testemunho da Igreja, e mediante uma certa restrição presente e direta de Satanás? Ninguém pode afirmar dogmaticamente isso, embora fique evidente no v. 6 que, antes, Paúlo


havia revelado muito abertamente aos tessalonicenses o que era a “restrição” (“detém”). De minha parte, crendo, como creio, na inspiração sobrenatural da Bíblia, estou certo de que Paulo foi impedido pelo Espírito Santo de ser mais explícito, de modo que suas palavras escritas aqui pudessem ter um alcance maior no futuro que as palavras ditas aos tessalonicenses talvez não tivessem. Não vamos ocupar-nos tanto do problema neste momento que percamos de vista o importante fato revelado, a saber, que existe na era presente uma restrição sobre Satanás. Graças a Deus, o diabo não pode fazer tudo o que quer: a casa do valente foi destruída por alguém Mais Forte! Como seria este mundo amaldiçoado pelo pecado se Jesus não tivesse vindo e se Satanás não fosse restringido como conseqüência disso; é impossível, imaginar. Durante o Milênio, Satanás ficará completamente amarrado, sem ação, e no abismo do Hades; mas durante a época final desta era presente a restrição sobre ele será abrandada, e então: “Ai da terra e do mar, pois o diabo desceu até vós, cheio de grande cólera, sabendo que pouco tempo lhe resta” (Ap 12.12). Será nessa ocasião que ele não mais usará disfarce e aparecerá como o arqui-inimigo moralmente terrível que é, não mais circulando como um “anjo de luz”, buscando astuciosamente a quem enganar (2 Co 11.14), mas se apresentará como leão que ruge procurando alguém para devorar (1 Pe 5.8)! Ele surgirá então como a “besta que emerge do mar” e a “outra besta que emerge da terra”; sendo esta última o “homem”, cujo número é 666 (Ap 13). Ele entrará e possuirá este ser humano de um modo jamais conhecido antes e com grande poder exercerá uma terrível tirania sobre milhões — primeiro enganando e depois escravizando a todos. Mas por que isto deve acontecer? Porque este é o único meio para ensinar os homens e nações que rejeitam a Cristo. Ser-lhes-á concedida uma lição final e culminante, onde aprenderão através da mais amarga das experiências qual é a única alternativa para a graça e domínio de “nosso Deus e o seu Cristo”. Mas justamente quando parecer que o 666 irá dominar toda carne, o grande SETE de Deus, o glorioso Príncipe e Salvador, irá surgir repentinamente dos céus em esplendor brilhante, e consumirá para sempre o “iníquo” com o sopro de sua boca! Escrevemos essas palavras com emoção profunda e solene, pois a ocorrência dessas coisas está certamente “próxima”. Já vimos pré-edições


do anticristo final em Hitler e Stalin, ambos exigindo ser cultuados e escravizando milhões. As nações da terra colocam-se hoje sob uma dentre duas ideologias políticas e econômicas e nossa era atômica está avançando para a luta titânica entre ambas. Ao escrever estas linhas, um número maior do que pode ser contado encontra-se por trás da Cortina de Ferro, milhares de indivíduos subjugados pelos comunistas. Só os cegos não vêem que “o cenário está pronto” para a vinda do 666. Todavia, foi justamente em relação a isto que o Senhor disse: “Ora, ao começarem estas coisas a suceder, exultai e erguei as vossas cabeças; porque a vossa redenção se aproxima” (Lc 21.28). Que esperança! Que Salvador! OITO PERGUNTAS SOBRE 1 E 2 TESSALONICEN SES 1. Você sabe reproduzir nossa análise de 1 Tessalonicenses? 2. Você pode citar qualquer versículo mostrando que a igreja de Tessalônica era formada principalmente por gentios? 3. Em 1 Tessalonicenses 2, a evangelização de Paulo é exemplar de três maneiras. Quais são elas? 4. Você sabe dar uma razão porque 1Tessalonicenses 4.15-18 não ensina um “arrebatamento secreto”? 5. Quais as três partes da segunda e breve epístola? 6. Quais são as duas coisas que devem acontecer antes da chegada do Dia do Senhor? 7. Como você explicaria a “restrição” (detém) e o “iníquo em 2 Tessalonicenses? 8. Por que você diria que o “iníquo” não é nem um sistema nem uma sucessão de homens?


AS EPÍSTOLAS DE PAULO A TIMÓTEO Lição nQ37


NOTA: Para este estudo, leia duas vezes 1 Timóteo inteiro e depois duas vezes 2 Timóteo, comparando ambas mentalmente. Estas epístolas pastorais — 1 e 2 Timóteo e Tito, associadas à breve carta a Filemom —receberam esse nome e foram agrupadas por serem dirigidas a pastores cristãos. (Até Filemom era um presbítero da igreja com considerável envolvimento pastoral, pois, ao dirigir-se a ele, Paulo acrescenta: “e à igreja que está em tua casa”.) Elas têm um significado posicionai que não deve ser negligenciado, enquadrando-se, como o fazem, entre dois grupos coesos principais das epístolas do Novo Testamento, i.e., as nove epístolas às igrejas cristãs (Romanos a Tessalonicenses) e as nove epístolas aos cristãos hebreus (Hebreus a Apocalipse). Esses dois grupos de nove diferem um do outro em ponto de vista e ênfase. As epístolas pastorais, inseridas entre eles, preenchem uma função significativa. Da mesma forma que o livro de Atos marca a transição da mensagem distinta dos evangelhos para a das epístolas, essas epístolas pastorais, tanto pela sua natureza como sua posição, determinam a mudança da contribuição doutrinária especial das epístolas da Igreja para a nova ênfase e aspectos das epístolas aos cristãos hebreus. Tocaremos neste assunto mais tarde novamente, mas é interessante mencioná-lo aqui de antemão. - /. S. B.


AS EPÍSTOLAS DE PAULO A TIMÓTEO Numa seção anterior de nossos estudos, comentamos que, se existe uma parte da Bíblia que deva ser estudada mais profundamente pelos cristãos é a que foi escrita especificamente para os crentes em Cristo, a saber, as nove epístolas à igreja cristã (Romanos a 2 Tessalonicenses). Poderíamos acrescentar agora que se existe uma parte da Bíblia que deveria ser estudada pelos ministros cristãos é a que foi dirigida especialmente a eles, ou seja, as epístolas pastorais (1 e 2 Timóteo e Tito, às quais, muito adequadamente, como veremos, é acrescentada a carta a Filemom). As epístolas pastorais têm essa denominação por estarem ligadas à igreja organizada do ponto de vista do pastor. Elas contêm amplas instruções para todos os crentes, como é natural, mas a sua mensagem dirige-se num sentido especial aos que têm a responsabilidade de supervisionar as assembléias ou igrejas locais cristãs. Não precisamos discutir aqui a autoria dessas epístolas. Desde os primeiros tempos elas foram geralmente aceitas como escritos paulinos autênticos; e embora alguns de nossos modernos defensores da “alta crítica” as tivessem questionado, como fazem com praticamente tudo na Bíblia, eles foram tão severamente refutados por outros eruditos, igualmente capazes, que não há necessidade de nos demorar neste assunto. As epístolas pastorais têm um interesse especial em três setores: (1) no conteúdo das mesmas: (2) nas idéias principais; (3) em sua importância posicionai. Vamos então ter uma “idéia geral” do conteúdo dessas duas epístolas a Timóteo e verificar se é possível lhes aplicar uma análise ordenada.

A PRIMEIRA CARTA A TIMÓTEO Timóteo era pastor da “assembléia” cristã em Éfeso (1 Tm 1.3). Fica claro que ele era comparativamente jovem pelas expressões relativas a ele em ambas as cartas e pelas referências no livro de Atos dos Apóstolos. Os 249


comentários de Paulo também não deixam dúvida quanto ao seu afeto por Timóteo. O acompanhamento dos mesmos em sua ordem cronológica constitui um estudo interessante e proveitoso. As duas epístolas a Timóteo são uma “incumbência” de Paulo a ele. Isso nos é dito dez vezes nas duas cartas. E qual a incumbência? A primeira epístola (1.18 e 6.20) e a segunda (1.12,14; 2.2) tornam a resposta clara. A “incumbência” é que Timóteo “guarde” algo que Paulo está lhe entregando. Paulo o chama de “depósito” no versículo que acabamos de citar. Em 2 Timóteo 1.12, ele diz: “Porque sei em quem tenho crido, e estou certo de que ele é poderoso para guardar o meu depósito até aquele dia”. O “depósito” aqui não é algo que Paulo tivesse entregue a Cristo, mas um encargo que Cristo entregara a Paulo. As duas cartas de Paulo a Timóteo, escritas pelo apóstolo no conhecimento de que em breve deixaria a terra, são uma incumbência que o homem mais jovem deverá “guardar” com bravura e fidelidade, o sagrado “depósito” nos dias vindouros. Paulo confirma especificamente a natureza do “depósito” em 1 Timóteo 1.11 como “o evangelho da glória do Deus bendito, do qual fui encarregado”. Ao estudar especialmente a primeira dessas duas epístolas, logo percebemos que seu assunto geral é a “igreja” ou “assembléia” local de cristãos e o pastor encarregado. Verificamos tratar-se de um pequeno documento bastante metódico. Os primeiros dezessete versículos do capítulo 1 dão uma explicação preliminar sobre o motivo da carta estar sendo escrita e terminam com uma doxologia: “Assim, ao Rei eterno, imortal, invisível, Deus único, honra e glória pelos séculos dos séculos. Amém.” Depois disso, nos três versículos restantes (18-20), com um toque de formalidade solene, o grande apóstolo apresenta sua “incumbência” ao “filho Timóteo”. A “incumbência” (ou “dever”) começa no primeiro versículo do capítulo 2, e, em seguida, a carta divide-se em duas partes muito distintas. Os capítulos 2 e 3 referem-se à assembléia e sua conduta. Os capítulos 4, 5 e 6 dizem respeito ao ministro e sua conduta. Releia esses capítulos e verifique isto. No capítulo 2, os oito primeiros versículos dizem respeito aos homens e suas orações em público; os restantes falam sobre as mulheres e seu comportamento em público. No capítulo 3, os sete primeiros versículos dão as qualificações para os presbíteros-, os seguintes contêm as qualificações dos diáconos. Os capítulos


2 e 3 referem-se, então, à ordem e aos cargos públicos na assembléia. Os capítulos 4, 5 e 6 seguem, agora, com sua ênfase sobre o ministro e seu comportamento. No capítulo 4, ele aprende como ser um “bom ministro de Cristo Jesus” para os membros como um todo, i.e., mediante ensino fiel (1-11) e vida exemplar (w. 12-16). Nos capítulos 5 e 6, aprende como conduzir-se em relação a determinadas classes na assembléia, i.e, para com os mais velhos e mais jovens (w. 1,2), as viúvas (w. 3-16), os presbíteros (w. 17-25), os servos (6.1-8) e os ricos (w. 9-19). A epístola então termina nestes termos: “E tu, ó Timóteo, guarda o que te foi confiado”. Ela pode ser colocada da seguinte forma, para uma análise simples: A PRIM EIRA EPÍSTOLA A TIM ÓTEO

A “Igreja” Local e seu “Ministro”

UM DEVER, 1.18; 6.13,20 - “Guarda o depósito.” Explicação preliminar 1.1-17. Apresentado o “dever” 1.18-20. I. A ASSEMBLÉIA E SEU COMPORTAMENTO (2-3). (a) COM RELAÇÃO À ORDEM (2). Os homens e a oração em público ( 1-8). As mulheres e o comportamento em público (9-15). (b) COM RELAÇÃO AO CARGO (3). Qualificações dos presbíteros (1-7). Qualificações dos diáconos (8-14). II. O MINISTRO E SUA CONDUTA (4-6). (a) À ASSEMBLÉIA EM GERAL (4). Um “bom ministro" no ensino fiel (1-11). Um “bom ministro”na vida exemplar (12-16). (b) ÀS CLASSES ESPECÍFICAS (5, 6). Velhos e jovens (5.1,2), viúvas (3-16). Presbíteros (17-25), Servos (6.1-8), Ricos (9-19). Apelo final 6.20,21. 1 Timóteo 1.3, 4 deixa claro que a carta era uma consolidação de conselhos orais já transmitidos por Paulo a Timóteo. Talvez fosse


considerada uma decisão sábia o fato cle o jovem possuir em suas mãos uma carta como aquela, à qual ele poderia apelar se fosse desafiado em qua quer ponto de suas ações. Bem podemos ser gratos pelo fato de elas erem sido escritas. Seria bom para nossas igrejas se elas não acrescentassem nem tirassem nada destas simples diretrizes a ministrativas deixadas para nós nas epístolas pastorais!

A SEGUNDA CARTa A TIMÓTEO Esta segunda carta a Timóteo, assim como a primeira, ocupa-se do exercício do ministério dentro da igreja local. Ela foi escrita logo depois a primeira. Paulo estava preso em Roma; ele não esperava (como aconteceu na primeira carta) ser novamente colocado em liberdade (exceto por sua partida para estar com Cristo). Esta segunda carta a Timóteo é o último escrito de Paulo que nos foi preservado. Como tal, ela tem um interesse tocante e peculiar. Kfela vemos as atitudes finais de Paulo. Em si mesmas elas são um estudo. Nunca o apóstolo havia brilhado com luz tão nobre. Sua paixão pela grande obra, à qual ele consagrara toda sua energia, exerce como nunca força sobre ele. Esta carta de despedida deve ser lida com freqüência, especialmente por ministros e outros obreiros cristãos. Sua mensagem nunca foi tão necessária como hoje. Se, como vimos, a primeira carta a Timóteo era um “dever”, esta aqui transforma-se num desafio. É um desafio à firmeza e à fidelidade, em face das provações úo presente e de futuras provações que estavam para vir. Ela é igualmente ordeira como a primeira. Os quatro capítulos dividem-se em duas duplas. Os capítulos 1 e 2 falam sobre o pastor cristão e suas verdadeiras reações diante das provações do presente. Os capítulos 3 e 4, começando com Sabe, porém, isto: Nos últimos dias sobrevirão tempos difíceis , relacionam-se com a reação do pastor diante das dificuldades do tempo do fim. Considere os dois primeiros capítulos. De 1.3 a 2.13, o aspecto é das re­ ações pessoais do pastor, enquanto nos versículos restantes do capítulo 2 tratam-se de suas reações pastorais. Em cada divisão encontram-se desa­ fio e incentivo. Veja, na divisão pessoal, o desafio em expressões como “te admoesto que reavives” ( 1.6), “Não te envergonhes” (1.8), “... fortifica-te”


(2.1), “Participa” (2.3); e o incentivo em expressões como “Lembra-te” (2.8) e no próprio exemplo comovente de Paulo (1.12, 2.9,10). Depois, na divisão pastoral (2.14-26), veja novamente o desafio em palavras como “Recomenda” (v. 14), “Procura apresentar-te a Deus aprovado” (v. 15), “Evita” (v. 16), “Repele” (v. 23); e o incentivo em “Entretanto o firme fundamento de Deus permanece” (v. 19) e “mas também o retorno à sensatez, livrando-se eles dos laços do diabo” (v. 26). Considere agora os dois últimos capítulos, os quais previnem contra as dificuldades do tempo do fim. O capítulo 3 fornece a verdadeira reação pessoal, e o capítulo 4 dá a verdadeira reação pastoral. Presentes nestas duas partes encontram-se novamente desafio e incentivo. Mas, veja toda a epístola, agora na estrutura de um esboço: A SEGUNDA EPÍSTOLA A TIMÓTEO O Verdadeiro Ministro e Suas Reações UM DESAFIO À FIRMEZA E À FIDELIDADE Saudações 1.1,2 O VERDADEIRO PASTOR E AS PROVAÇÕES DO PRESENTE(l-2). A Verdadeira Reação Pessoal (1.3-2.13) O Desafio — "... te admoesto que reavives”, “Não te envergonhes”, “Participa”, etc. O Incentivo — “Lembra-te” (2.8), o exemplo de Paulo (1.12, 2.9), etc. A Verdadeira Reação Pastoral (2.14-26) O Desafio — “Recomenda”, “procura apresentar-te a Deus aprovado”, “evita”, “repele”, etc. O Incentivo “firme fundamento” (19), “almas libertadas” (26). O VERDADEIRO PASTOR E AS DIFICULDADES DO TEMPO DO FIM (3-4) A Verdadeira Reação Pessoal (3) O Desafio “tempos difíceis” (3.1-9), “tu, porém, permanece” (3.14) O Incentivo O exemplo de Paulo (10,11), a Escritura (15, 16). —


A Verdadeira Reação Pastoral (4) O Desafio — “Prega a palavra”, “faze o trabalho de evangelista”. O Incentivo — o reino vindouro (1), a coroa reservada (8). Não faremos no momento qualquer comentário sobre as seções componentes. Depois de ver as duas epístolas em análises separadas, devemos, a seguir, revê-las como um par, traçando suas idéias principais; pois, quando assim pesquisadas, elas assumem um significado impressionante, irresistível, que jamais poderá ser esquecido, uma vez visto e sentido.

Uma Incumbência, um Desafio, uma Previsão 1 e 2 Timóteo, uma “Incumbência” Enfatizamos outra vez que, em forma e força, essas duas cartas a Timóteo são um “dever”. Paulo está reforçando, esclarecendo e ampliando uma incumbência já dada verbalmente a Timóteo (veja 1Tm 1.4). Observe como esta idéia de uma incumbência continua através da carta inteira. “PARA ADMOESTARES a certas pessoas a fim de que não ensinem outra doutrina” (1 Tm 1.3). “Ora, o intuito da presente ADMOESTAÇÃO visa o amor que procede de coração puro e de consciência boa” (1.5). “Este é o DEVER de que te encarrego, ó filho Timóteo... Combate, firmado nelas, o bom combate” (1.18). “ORDENA e ensina estas coisas” (4.11). “PRESCREVE, pois, estas, coisas para que sejam irrepreensíveis” (5.7). “CONJURO-TE perante Deus e Cristo Jesus e os anjos eleitos” (5.21). “EXORTO-TE perante Deus, que preserva a vida de todas as coisas” (6.13). “EXORTA aos ricos do presente século que não sejam orgulhosos” (6.17).


“CONJURO-TE [ou testifico solenemente] perante Deus e Cristo Jesus” (2Tm4.1). Qual é a Incumbência? Como dissemos, o sentido da mesma é que Timóteo deve “guardar”algo que Paulo lhe está “entregando”, a que dá o nome de “depósito”. Trace esta idéia através das duas cartas. “Este é o dever de que te ENCARREGO, ó filho Timóteo” (1 Tm 1.18). “Conjuro-te... que GUARDES estes conselhos, sem prevenção” (v. 21). “Ó, Timóteo, GUARDA O DEPÓSITO” (6.20, Almeida Revista e Corrigida). “Sei em quem tenho crido, e estou certo de que ele é poderoso para GUARDAR o meu DEPÓSITO até aquele dia (2 Tm 1.12). “GUARDA o bom DEPÓSITO, mediante o Espírito Santo que habita em nós” (1.14). “E o que de minha parte ouviste... TRANSMITE [DEPOSITA] a homens fiéis” (2.2). Lembramos que Paulo define claramente o “depósito” na primeira epístola, em 1.11: “O evangelho da glória do Deus bendito, do qual fui encarregado”. O “depósito” é a fé cristã, “a verdade como encontrada em Cristo Jesus”. O tempo da partida de Paulo está agora às portas. Enquanto faz um retrospecto dos anos que se passaram, pode dizer: “Combati o bom combate, completei a carreira, guardei a fé”. Mas, e o futuro? Ele precisa dar esta “incumbência” solene e escrita ao seu filho amado na fé. Com um novo senso de responsabilidade, Timóteo deve agora “guardar” este “depósito” de valor incalculável e vital da verdade cristã: ele deve preservá-lo, protegê-lo e proclamá-lo. Esta é a ordem: (1) O “evangelho da glória do Deus bendito” é confiado a Paulo (1 Tm 1.11).

(2) Paulo agora o “deposita” com Timóteo, como uma “incumbência” especial (1.18).


(3) Paulo exorta a Timóteo: “E tu, ó Timóteo, guarda o que te foi confiado (o depósito). (4) Paulo sabe em quem confiou e está convencido de que ELE irá “guardar o depósito” (2 Tm 1.12). (5) Timóteo deverá ainda “depositar” (transmitir) o tesouro da verdade a outros homens fiéis “idôneos para instruir a outros” (2.2). “A Fé” Pelo fato de estas duas epístolas serem uma incumbência relativa à guarda deste sagrado depósito de verdade, encontramos nelas certas expressões que ocorrem em quase todos os parágrafos. Uma dessas é “a fé”. Esta expressão, “a fé”, parece ter sido geralmente usada para resumir a verdade e prática cristãs consideradas em conjunto como uma religião. “Porquanto alguns, tendo rejeitado a boa consciência vieram a naufragar na fé” (1 Tm 1.19). “Conservando o mistério da fé com a consciência limpa” (3.9). “Justa preeminência e muita intrepidez na fé” (3.13). “Nos últimos tempos, alguns apostatarão da fé” (4.1). “Serás bom ministro de Cristo Jesus, alimentado com as palavras da fé” (4.6). “Se alguém não tem cuidado... dos de sua própria casa, tem negado a f é ’ (5.8). “Alguns, nessa cobiça (por dinheiro), se desviaram da/é” (6.10). “Combate o bom combate da fé. Toma posse da vida eterna” (6.12). “As contradições do saber, como falsamente lhe chamam, pois alguns, professando-o, se desviaram da fé” (6.21). “São homens de todo corrompidos na mente, réprobos quanto àfé” (2 Tm 3.8). “Sábio para a salvação pela/é em Cristo Jesus” (3.15). “Combati o bom combate, completei a carreira, guardei afé” (4.7).


“A Doutrina” Encontramos também muita coisa sobre “ensino”, “mestres” e “doutrina” nessas duas epístolas a Timóteo. “Ensino” e “doutrina” são a mesma palavra em grego, usada cerca de 14 vezes aqui, envolvendo a solene conclusão de que o “depósito” sagrado deve ser guardado doutrinariamente. Várias vezes nos defrontamos com a expressão “a doutrina”, que resume todo o sistema cristão de um ponto de vista doutrinário. “Não se promulga lei para quem é justo, mas para transgressores... e para tudo quanto se opõe à sã doutrina” (1 Tm 1,9.10). “Alimentado com as palavras da fé e da boa doutrina” (4.6). “Aplica-te à leitura, à exortação, ao ensino (doutrina)” (4.13). “Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina” (4.16). “Para que o nome de Deus e a doutrina não sejam blasfemados” (6.1). “As sãs palavras de nosso Senhor Jesus Cristo, e com o ensino (doutrina) segundo a piedade” (6.3). “Tu, porém, tens seguido de perto o meu ensino (doutrina)” (2 Tm 3.10). Precisa-se de “Mestres” Os líderes que Timóteo deve reunir ao seu redor precisam ser homens “aptos para ensinar”. Veja a este respeito as seguintes referências: “O bispo seja irrepreensível... apto para ensinar” (1 Tm 3.2). “Devem ser considerados merecedores de dobrada honra os presbíteros que presidem bem, com especialidade os que se afadigam na palavra e no ensino” (5.17). “E o que de minha parte ouviste... isso mesmo transmite a homens fiéis e também idôneos para instruir a outros” (2 Tm 2.2). “Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino” (3.16). “Prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta com toda a longanimidade e doutrina (ensino)” (4.2). Mas por que toda esta ênfase na “doutrina” e a urgente necessidade de “ensiná-la”? Uma outra pesquisa nas duas cartas logo nos dá a resposta.


“Para admoestares a certas pessoas a fim de que não ensinem outra doutrina” (1 Tm 1.3). “Desviando-se algumas pessoas destas coisas, perderam-se em loquacidade frívola, pretendendo passar por mestres da lei” (1.6,7). “Nos últimos tempos alguns apostatarão da fé, por obedecerem a espíritos enganadores e a ensinos de demônios” (4.1). “Se alguém ensina outra doutrina e não concorda com as sãs palavras” (2 Tm 4.3). “Cercar-se-ão de mestres, segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos... entregando-se a fábulas” (4.3, 4). “A Piedade” Novamente encontramos a palavra “piedade” ocorrendo repetidamen­ te (veja 1 Tm 2.2,10; 3.16; 4.7,8; 6.3,5, 6,11; e 2 Tm 3.5). E não só isso, mas ela aparece com o artigo definido — “a piedade”, que pode parecer estranho em nossa língua, mas tem um significado peculiar no grego. As­ sim como as outras duas expressões, “a fé” e “a doutrina”, resumem o evan­ gelho cristão em seus aspectos religiosos e doutrinários, este termo, “a piedade”, resume-o em seu lado prático. Isto parece certo ao se comparar “o mistério da fé”, em 3.9, com “o mistério da piedade”, em 3.16. Os três termos são evidentemente palavras comuns na fraseologia do cristianismo original e devem ser devidamente notados. Eles resumem o sistema cris­ tão, respectivamente como (1) uma adoração religiosa, (2) um corpo de verdade e (3) um estilo de vida. “Evidentemente, grande é o mistério da piedade” (1 Tm 3.16). “Pois o exercício físico para pouco é proveitoso, mas a piedade para tudo é proveitosa” (4.8). “Homens cuja mente é pervertida, e privados da verdade, supondo que a piedade é fonte de lucro” (6.5). “De fato, grande fonte de lucro é apiedade com o contentamento” (6.6). Mas, por que esta ênfase na “piedade”? A resposta encontra-se na segunda epístola, em 3.5: "... tendo forma de piedade, negando-lhe, entretanto, o poder”.


O Significado Essencial Nossas citações anteriores sobre “a incumbência”, “o depósito”, “a fé”, “a doutrina” e “a piedade”, levam-nos até o significado essencial dessas duas epístolas a Timóteo. Quando percebemos claramente qual o seu sentido real, descobrimos de imediato que advertência solene essas duas cartas representam para nossos dias. Pense um momento no parágrafo de abertura da primeira carta, onde lemos o principal propósito da incumbência de Paulo a Timóteo, i. e.: “Para admoestares a certas pessoas a fim de que não ensinem outra doutrina” (1.3). Lembre-se também da palavra em 4.1: “Ora, o Espírito afirma expressamente que, nos últimos tempos, ALGUNS apostatarão da fé”. A seguir, com esse ALGUNS repetido em mente, recapitule as cinco ocasiões tristes e perturbadoras nesta primeira epístola, em que ela fala de apostasia: “Desviando-se ALGUMAS PESSOAS” (1.6). “ALGUNS... vieram a naufragar” (1.19). “ALGUMAS se desviaram, seguindo a Satanás” (5.15). “ALGUNS se desviaram” (6.10). “ALGUNS... se desviaram” (6.21). Na segunda epístola, o termo “ALGUNS” se tornou “TODOS”. No início da mesma encontramos: “Estás ciente de que TODOS os da Ásia me abandonaram” (1.15). Depois, no final, lemos: “Na minha primeira defesa ninguém foi a meu favor; antes, TODOS me abandonaram” (4.16). Esse foi o motivo que o fez enviar com tanta urgência as duas cartas a Timóteo. Elas atacam um ponto crítico, trata-se de um desafio importante, A primeira marca uma divisão; a segunda, um insucesso. Serãp essas duas epístolas a Timóteo potencialmente proféticas nesse sentido? Tendo sido colocadas, como foram, no final das nove epístolas à


igreja cristã, elas realmente lançam sobre a tela uma cena antecipada da trágica divisão e insucesso que viriam a caracterizar o cristianismo organizado no final desta presente era da igreja? Sabemos evidentemente que os últimos dias estavam, com certeza, na mente de Paulo quando ele as escreveu, embora, aparentemente, não tivesse conhecimento de que viria um longo período de vinte séculos antes da volta do Senhor. Ao referir-se ao final dos tempos que julgou estar próximo, não teria Paulo sido guiado segundo o propósito divino, de modo que suas palavras, como setas proféticas, encontrassem seu alvo distante neste nosso século vinte, quando os últimos dias estão verdadeiramente sobre nós? Na primeira carta, capítulo 1.16, ele fala de si mesmo e seu ministério como um “modelo” ou “esboço” (ou “intimação para a posteridade” como traduzido por Ferrar Fenton). Em 4.1, ele conta o que o Espírito ensina “expressamente” sobre os últimos dias; e, de novo, na segunda carta, ele volta a esses “últimos dias”, falando deles como “tempos difíceis” (3.1). Sem dúvida, Paulo está pensando diretamente nestes eventos; mas o ponto adicional que queremos destacar aqui é que, talvez, de um modo que nem ele mesmo suspeitava, suas duas cartas a Timóteo como um todo (e não apenas suas ocasionais referências diretas aos últimos dias) dão um retrato profético da cristandade do século vinte. Se for assim, com quanto cuidado os “Timóteos do Senhor” deveriam estar a estudá-las e orando sobre elas novamente em nossos dias! É claro que elas têm um valor intrínseco, à parte disso, que as torna preciosas em qualquer tempo; todavia, sua referência peculiar a estes nossos dias do final de uma era confere-lhes interesse e significado urgentes, como dificilmente poderiam ter tido antes.


AS EPÍSTOLAS A TITO E FILEMOM Lição n° 38


NOTA: Para este estudo, leia inteiramente as duas curtas epístolas várias vezes. A julgar pelas alusões a Tito nas epístolas de Paulo, ele parece ter sido o mais capaz e confiável de todos os amigos e colaboradores que cercavam o apóstolo nos seus últimos anos. Como gentio incircunciso, convertido através de Paulo, ele era um representante legítimo da expansão e liberdade do evangelho, pelo qual o apóstolo batalhara com tanto zelo e sucesso. A conversão de Tito tivera lugar num período relativamente inicial do ministério do apóstolo, pois ele acompanhou Paulo e Barnabé em sua visita de Antioquia a Jerusalém a fim de livrar os gentios da obrigação de cumprir a lei cerimonial dos judeus (G1 2.1-4). Nós o encontramos em posição de destaque em outra crise do ministério do apóstolo, quando os conflitos e confusões na igreja de Corinto ameaçavam destruir a influência de Paulo. Seu notável sucesso na difícil missão que lhe foi então designada, exigindo a aplicação de firmeza e tato a um só tempo, e a qual Apoio parece ter evitado (1 Co 16.12), distinguiu-o como um representante capaz e digno de confiança. Isso explica sua escolha, dez anos mais tarde, para a posição importante e difícil que exerceu em Creta quando esta carta lhe foi dirigida. J. A. McClymont, D.D.


A CARTA AUTO O mesmo tipo de interesse urgente, encontrado nas duas cartas a Timóteo, está ligado a esta carta a Tito. A volta do Senhor está em vista (2.11-15). O senso de responsabilidade pesa sobre Paulo, à medida que seu ministério chega ao fim (1.3). O progresso do evangelho está ameaçado por “insubordinados, palradores frívolos e enganadores” (1.10). Tito era grego e um dos convertidos de Paulo. Ele provara ser um colaborador zeloso e leal, objeto de grande afeição do apóstolo (G1 2.3; Tt 1.4; 2 Co 2.13; 7.6; 8.1-6,16, 17). Na ocasião em que esta carta lhe foi escrita, Tito achava-se na ilha de Creta. Não nos foi preservado um relato da visita de Paulo, mas ele, evidentemente, viajara para aquele local, levando consigo Tito, a quem deixou ali a fim de consolidar a obra e estabelecer as “assembléias” cristãs de modo ordeiro. A pequena epístola foi escrita mais ou menos na mesma época de 1 Timóteo. Ela tem muito em comum com as duas epístolas a Timóteo, mas sua ênfase é diferente. Em 1 e 2 Timóteo, a ênfase é sobre a doutrina: em Tito, sobre as boas obras. 1 Timóteo é uma incumbência. 2 Timóteo é um desafio. A epístola a Tito é uma adveríértcza —um lembrete forte e urgente de que a fé sincera deve ser acompanhada de boas obras. A doutrina precisa ser adornada com atos. As três epístolas “pastorais” são, na verdade, uma trindade unida, exortando-nos a “guardar” o precioso “depósito” do evangelho. Em 1 Timóteo devemos protegê-lo. Em 2 Timóteo devemos proclamá-lo. Em Tito devemos praticá-lo. Leia Tito novamente, notando em toda a carta a ênfase colocada sobre as boas obras como evidência necessária da salvação. Ela não deixa dúvidas quanto ao tema principal abordado. Talvez possamos dizer que o versículo-chave seja 3.8: “Sejam solícitos na prática de boas obras”; embora pudéssemos também afirmar o mesmo sobre 2.14 e um ou dois outros versículos. A última palavra antes da despedida é de novo: “Aprendam também a distinguir-se nas boas obras” (3.14). Encontramos algumas “análises” muito ambiciosas e complexas desta


epístola simples e curta. O capítulo 1 é considerado como o que destaca o governo da Igreja; e o último capítulo, a Igreja e o Estado. Na verdade, o capítulo 1 trata simplesmente da designação de presbíteros sobre os vários pequenos grupos cristãos em Creta; e o último capítulo nada tem a dizer sobre a Igreja e o Estado, exceto no primeiro versículo que, no entanto, apenas exorta os crentes como indivíduos a respeitarem os poderes civis! É lamentável obscurecer a ênfase e o apelo diretos desta forma. A epístola tem o seguinte esboço: A EPÍSTOLA A TITO A Verdadeira Igreja Local — Seus Líderes e Membros UMA ADVERTÊNCIA - “SEJAM SOLÍCITOS NA PRÁTICA DAS BOAS OBRAS” (3.8,14). Bênção inicial 1.1-4. 1. OS PRESBÍTEROS NA ASSEMBLÉIA (1). Cargo —presbitério (v. 5). Homens — irrepreensíveis (w. 6-9). Necessidade — insubordinados (w. 10-16). 2. CLASSES ESPECÍFICAS (2). Homens e mulheres mais velhos (w. 2-3). Homens e mulheres mais jovens (w. 4-8). Servos (w. 9-14). 3. MEMBROS EM GERAL (3). Boas obras de todo tipo (w. 1-2). A suprema inspiração (w. 3-8). Evitar o que é inútil (w. 9-11). Comentários finais -3.12-15.


Capítulo 1: “Pôr as coisas em ordem ” Embora o Novo Testamento dê conselhos e instruções sobre a organização das assembléias cristãs locais ou “igrejas” (1 Co; 1 e 2 Tm; Tt), é significativo que, em lugar algum, ele sequer insinue sobre a existência de qualquer Comissão Central de Administração como as que vieram a surgir mais tarde e que exercem tanta autoridade hoje. O argumento da conveniência pode ser usado para defender os mesmos; mas eles, certamente, não têm base escriturística. Até onde as indicações do Novo Testamento nos mostram, cada igreja local deveria ser autônoma. Se for dito que, nos primeiros dias, a palavra cheia de autoridade dos apóstolos tinha o comando central, pode ser replicado que o mesmo acontece substancialmente hoje; pois temos as ordens apostólicas em nosso Novo Testamento e elas não vão além de prescrever para cada igreja local, ficando cada uma delas responsável pelo seu setor. Uma pirâmide hierárquica elaborada como o sistema católico-romano é absolutamente estranha ao Novo Testamento; o mesmo acontece com iodos os executivos centrais que exercem um controle governamental sobre várias igrejas. Podem haver uniões voluntárias de igrejas que não infrinjam a autonomia local; mas não deve haver executivos no controle, pois isto, embora pareça promover uma unidade externa positiva, quase sempre viola e muitas vezes destrói aquela unidade interna vital que se baseia na lealdade livre e direta à palavra apostólica. Também podemos aprender nesta carta a Tito que deve haver organização adequada, embora simples. Tito deveria “pôr em ordem” as coisas que faltavam nas congregações locais de Creta (1.5). A autonomia local não deve ser sinônimo de desordem. É preciso que haja supervisão pastoral, como a de Timóteo e Tito. Os presbíteros e diáconos têm a obrigação de verificar, respectivamente, o aspecto espiritual e econômico da congregação. Pela própria natureza das coisas, é preciso que exista liderança assim como filiação em tais grupos corporativos; todavia, as igrejas protestantes teriam feito bem se não tivessem saído dos moldes originais simples, passando para as organizações complicadas que temos hoje. Uma outra coisa que deve chamar nossa atenção é que, ao serem feitas as nomeações para os diversos cargos, o caráter espiritual tem precedência


sobre os dons naturais. O presbítero deve ser irrepreensível sob três aspectos: primeiro, no sentido doméstico (1.6); Segundo, no pessoal (w. 7,8); terceiro; no doutrinário (v.9). “Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas” (Ap 2.7). Muitas igrejas de hoje precisam aprender que a ausência dessas duas primeiras qualificações não é compensada pela presença da terceira. Outras igrejas precisam aprender exatamente o contrário. Capítulo 2: “Ornar a doutrina” Enquanto o capítulo 1 refere-se aos presbíteros, o capítulo 2 abrange diferentes classes de membros. O ideal colocado diante deles é “ornar a doutrina” em tudo (v. 10). Os incentivos oferecidos são três, i.e., “a graça de Deus” (v. 11), a “manifestação” do Senhor (v. 13), sua morte para “remir” (v. 14). Brilhante como uma estrela-alfa resplandescente, neste segundo capítulo encontra-se a “bendita esperança” da “manifestação da glória”. A referência à mesma ocorre bastante incidentalmente, sendo porém colocada em um dos mais notáveis resumos da verdade salvadora encontrada no Novo Testamento. Releia os w. 11-14. Veja os tres tempos da salvação: Passado: “Porquanto a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens” (v. 11). Presente: “Educando-nos para que, renegadas a impiedade e as paixões mundanas” (v. 12). Futuro: “A bendita esperança...a manifestação do nosso grande Deus e Salvador” (v. 13). A palavra “manifestar” nos w. 11 e 13 é epifania em grego: brilhar. A primeira é a epifania da graça. A outra, a epifania da glória. Entre as duas, devemos viver “sensatamente...aguardando a bendita esperança” — aguardar então essa segunda “manifestação” é uma das coisas sensatasl Alguns de nós acham consolo em ter as palavras de um apóstolo nesse sentido!


Capítulo 3: “Solícitos na prática de boas obras” Depois de “constituísses” no capítulo 1 e “ornar” no capítulo 2, temos “solícitos” no capítulo 3. “Sejam solícitos na prática de boas obras” (v.8). ‘Aprendam a distinguir-se nas boas obras” (v.14). Como é notável, através de todas essas epístolas, que a doutrina cristã chegue até nós ligada aos mais elevados ideais de conduta. Uma doutrina elevada e um comportamento indigno seriam intoleráveis para o cristianismo do Novo Testamento. Veja o incentivo triplo neste capítulo — em primeiro lugar, uma lembrança do que éramos antes (v.3), segundo, a maravilha de nossa conversão (w. 4-6), terceiro, nossa posição atual como “herdeiros da vida eterna” (v.7). De alguma forma, enquanto ponderamos a respeito desta curta mas valiosa nota para Tito, temos um sentimento embaraçoso de que muitos de nós, cristãos modernos, vivemos num nível bem abaixo de seus padrões, apresentados em termos simples, mas penetrantes. Embora haja uma cortesia transparente nela, existe também uma franqueza direta que se dirige de imediato aos motivos íntimos, assim como uma sinceridade referente à conduta cristã que torna embaraçosas as nossas evasivas modernas e educadas. Temos grande necessidade de demorar-nos freqüentemente entre os parágrafos purificadores desta pequena carta. Talvez derramemos lágrimas de alegria na leitura de alguns, e de contrição na de outros. Lembre-se novamente, nosso Salvador “a si mesmo se deu por nós” no horrível Calvário, “a fim de remir-vos de toda iniqüidade, e purificar para si mesmo um povo exclusivamente seu, zeloso de boas obras”. Como os pecados dos cristãos devem magoá-lo! Leia Tito outra vez, para ter uma lição de cristianismo prático. Graças a Deus, se a sua ordem final é manter as “boas obras” (v. 14), sua bênção final mostra como fazê-lo: “Agraça seja com todos vós”. ‘


A CARTA A FILEMOM Mesmo nas melhores galerias de arte existe sempre um espaço para miniaturas selecionadas. Esta nota pessoal de Paulo a Filemom é uma dessas graciosas obras-primas de “delicadeza, tato refinado e até mesmo perspicácia espirituosa”, e apesar de possuir um valor espiritual assim distinto, só podemos lamentar que alguns tenham relutado em conceder-lhe o pequeno nicho que adorna. Nas palavras de G. G. Findlay: “Em cada linha e sílaba, esta nota expõe a personalidade de Paulo. Nada mais sincero jamais foi escrito”. Parece até indigno de menção que, a partir do quarto século, quando ela foi questionada como supostamente inferior à dignidade da autoria apostólica, houve alguns que passaram a ter dúvidas sobre a mesma. Não precisamos nos demorar nesse aspecto. O comentário recente do erudito Deão Alford bastará: A carta foi preservada na família para a qual foi dirigida e lida primeiro, sem dúvida, como uma mensagem apostólica de amor e bênção, na igreja que se reunia na casa de Filemom. A seguir, suas cópias multiplicaram-se e ela se espalhou de Colossos para a igreja universal. Ela foi citada já no segundo século e permaneceu sempre como uma porção indiscutível dos escritos de Paulo, exceto com relação a alguns que suspeitam de tudo.” Podemos muito bem agradecer a sua preservação até nossos dias.

Pontos de Interesse Embora muito curta, esta nota a Filemom tem pontos de interesse peculiares. Ao refletirmos sobre o assunto, vemos que Paulo deve ter escrito inúmeras cartas curtas, além de suas “epístolas”. Esta é a única carta pessoal que sobreviveu até nossos dias. Não existe qualquer tentativa de mostrar linguagem eloqüente na mesma, mas trata-se de um modelo perfeito de “tato, delicadeza e bons sentimentos” em relação a uma difícil situação entre senhor e escravo. Ela é uma pequena janela reveladora que dá um vislumbre dos contatos mais íntimos e da disposição do apóstolo, fornecendo uma ilustração prática única do princípio cristão aplicado ao


relacionamento social. Ela diz pelo exemplo o que Gálatas e Colossenses afirmam em preceito, quanto à “inutilidade da posição mundana” na igreja, isto é, “Não há escravo nem livre em Cristo Jesus”. Basta conhecer a situação miserável e desesperadora dos escravos sob a lei romana, para compreender a que ponto Paulo chega, ao pedir ao Senhor de escravos que receba de volta o ladrão fugitivo como “irmão caríssimo” (v. 16).

As Pessoas Envolvidas A carta a Filemom refere-se a um certo Onésimo. Quem era Filemom? E quem era Onésimo? Paulo dirige-se ao primeiro como “ao amado Filemom, também nosso colaborador”. Isto parece indicar de imediato não apenas um contato anterior, como também uma amizade já existente; sendo isto confirmado pelos w. 19 a 21, implicando em que ele era um dos convertidos de Paulo. Uma comparação da carta com Colossenses 4.9 mostra que Filemom vivia em Colossos, para onde Onésimo estava agora voltando. Filemom era homem livre; senhor de escravos, provavelmente da classe mais alta na sociedade; e um líder cristão local, pois Paulo fala da “igreja em sua casa” (v.2). A “irmã Áfia” e “Arquipo, riosso companheiro de lutas” (v.2) parecem ter sido respectivamente sua esposa e filho. Durante a visita de Paulo a Colossos, Filemom provavelmente fora influenciado por ele em Efeso (cerca de 190 km a oeste) durante os três anos memoráveis de Paulo ali; pois havia muito intercâmbio entre Efeso, a capital, e cidades como Colossos. Arquipo, filho de Filemom, parece ter sido pastor em Colossos ou Laodicéia (Cl 4.17). Quanto a Onésimo, ele era um dos escravos de Filemom, como a carta em breve esclarece. Quando a Epístola aos Colossenses foi enviada de Roma, através de Tíquico, Onésimo o acompanhou (Cl 4.7-9). Os dois levaram também esta nota a Filemom.


Antecedentes Históricos Onésimo, provavelmente um escravo doméstico de Filemom, fugira, e o v.18 parece indicar que furtara dinheiro de seu senhor para efetuar a fuga. Ele saíra da “Ásia”, em direção ao Ocidente, atravessando o mar Egeu e Adriático, e chegando a Roma, esse refúgio populoso procurado por muitos outros fugitivos. Jamais pensou que pudesse voltar a Colossos; mas em Roma ficou sob a influência de Paulo, convertendo-se sinceram ente e voltou mais tarde a Colossos com pletam ente transformado. Como Paulo achava-se então prisioneiro em Roma, parece ainda mais notável que os dois se encontrassem. Mas nessa mesma ocasião, Epafras tinha viajado de Colossos para visitar Paulo; e talvez seja tanto uma coincidência como uma providência dominante que ele tivesse visto e reconhecido Onésimo em Roma. Onésimo cresceu rapidamente “na graça” e foi útil a Paulo (w. 11, 12), ajudando tanto o apóstolo que ele o teria mantido a seu lado em Roma (v. 13). Mas, não podia fazer isso, Onésimo era propriedade de Filemom e o apóstolo enviou-o de volta com Tíquico, levando a Epístola aos Colossenses e a nota particular a Filemom.

A Carta O que Paulo poderia dizer a um senhor tão ultrajado? Castigos terríveis eram impostos pelas leis romanas para tais ofensas, chegando até à pena de morte. O Bispo Lightfoot comenta: “O escravo ficava absolutamente à disposição do senhor: pela menor ofensa ele podia ser açoitado, mutilado, crucificado, atirado às feras”. Mas Filemom era um irmão em Cristo, cujo fato abrandava bastante a situação, dando a Paulo uma base para o seu apelo. A pequena carta foi assim composta e enviada em sua delicada missão. Que pequena obra-prima de diplomacia esta carta constitui! Leia o seguinte elogio do Dicionário Bíblico de Smith: “A epístola a Filemom...foi merecidamente admirada como um modelo de delicadeza e habilidade no departamento de composição a que perten­


ce. O escritor teve dificuldades peculiares a superar. Ele era amigo de ambas as partes. Deveria aplacar o homem que supunha ter boas razões para sentir-se ofendido. Era preciso elogiar o ofensor, sem negar ou agravar a falta cometida. Tinha necessidade de confirmar as novas idéias da igualdade cristã em face de um sistema que dificilmente reconhecia a natureza humana do escravo. Ser-lhe-ia possível colocar a questão com base em seus direitos pessoais; todavia, era preciso desistir deles, a fim de assegurar um ato de bondade espontânea. Os seus esforços deveriam resultar num triunfo do amor, sem fazer qualquer exigência apoiado na justiça, embora esta pudesse ter reivindicado tudo. Seu pedido fica, pois, limitado ao perdão da falta alegada e à restauração do escravo às boas graças do amo, recebendo dele simpatia e afeto no futuro. Mas o apóstolo cuidou para que suas palavras abrissem espaço para toda a generosidade que a benevolência pudesse conferir a alguém, cuja condição desse ensejo a tamanho ato de amor. Estas são contradições difíceis de harmonizar; Paulo, no entanto, segundo se admite, mostrou um elevado nível de autonegação e tato ao tratar com as mesmas, mostrando seu talento para enfrentar a situação”. Ao sentar-se para escrever a Filemom, ele mal poderia imaginar que sua pequena nota ficaria sujeita a séculos de análises expositivas e homiléticas! Porém, esta é a penalidade imposta a quem escreve algo que tem vida! Quem se incomoda com uma “carta morta”? Todavia, qualquer coisa, além de uma simples análise desta nota a Filemom, prejudica o seu propósito. Seria como dissecar as batidas do coração! Tudo o que precisamos ver é que os w. 1-7 referem-se a Filemom-, os w. 8-17 a Onésimo', e os w. 18-22 são sobre Paulo. No primeiro grupo de versículos, a abordagem diplomática e afetuosa do apóstolo, em sua intercessão por Onésimo, consiste de louvor sincero a Filemom. No segundo grupo de versículos, ele apresenta habilmente sua súplica a favor do ladrão fugitivo, mas agora convertido, Onésimo. No terceiro grupo, Paulo assume o compromisso solene de pagar o que quer que Onésimo tenha roubado. Assim sendo: Saudação (w. 1-3). LOUVOR DE PAULO A FILEMOM (w. 4-7). SÚPLICA DE PAULO POR ONÉSIMO (w. 8-17). COMPROMISSO E CONFIRMAÇÃO DE PAULO (w. 18-22). Saudações: Bênção (w. 23-25).


Como já dissemos, Paulo faz um jogo de palavras com o nome “Onésimo”, que significa útil. Veja o v. 11: “Onésimo...Ele, antes te foi inútil; atualmente, porém, é útil, a ti e a mim”. Há um toque belíssimo no v. 19, onde Paulo, ao assumir um compromisso com Filemom, acrescenta: “Eu, Paulo, de próprio punho, o escrevo: Eu pagarei”. Não parece haver um humor ingênuo no tom solene e deliberado? Se permitirmos, esta breve carta pode pregar verdades poderosas para nós. Eis a primeira: Os males sociais são mais depressa modificados por vidas transformadas. Como este assunto, Filemom-Onésimo, era simples em comparação com os problemas patrão-empregado da indústria moderna! Todavia, eis aqui o segredo desvendado que pode resolver toda disputa social e industrial, para o bem-estar dos homens e honra de Deus, i.e., a aplicação de princípios cristãos por indivíduos cristãos. A verdadeira conversão a Cristo sempre fará o homem colocar o princípio adiante da simples conveniência. Para alguns, teria sido uma questão de Onésimo ter realmente necessidade de voltar. A sua conversão mais do que compensou o roubo e a fuga. Filemom, com certeza veria isso e perdoaria o comportamento que Onésimo tinha “antes da conversão”. Mas, foi assim que Paulo raciocinou? Será que ele disse: “A melhor coisa agora é não dizer nada a respeito?” Foi assim que o próprio Onésimo viu a situação? Não. Onésimo, da mesma forma que Paulo, sabia o que era certo e qual a atitude cristã, e decidiu tomá-la custasse o que custasse, por causa do Salvador. Veja também nesta carta o valor de um escravo ladrão efugitivol Houve um predomínio providencial na vida de Onésimo, como aconteceu no Livro de Ester. Deus estava vigiando, amando e orientando. Veja a dignidade que o cristianismo confere ao escravo, fazendo dele um “irmão” e dando-lhe o mesmo nível espiritual em Cristo! Precisamos admirar-nos de que tal ensino finalmente viesse a abolir a escravatura, emancipasse a mulher e reinvidicasse a justiça social para todos os homens como iguais? Mais uma vez, não podemos deixar de ver uma espécie de analogia entre esta carta a Filemom e o caminho da salvação do evangelho. Sob a lei romana, o escravo não tinha direito de asilo. Se ele fugisse e fosse apanhado, o seu dono tinha o direito de desfigurá-lo, aleijá-lo ou até matá-lo. Mas era concedido pelo menos um direito ao escravo, a saber, apelar para o amigo do seu senhor, fugindo para procurá-lo a fim de que


o defendesse e não para que o escondesse. O dono continuava senhor absoluto, mas o amigo a quem o escravo apelasse podia apresentar-lhe seu pedido de perdão e ele ouviria por causa do amigo também livre, mesmo que não fosse por causa do infeliz escravo. Isto seria ainda mais provável se o amigo fosse um sócio do senhor de escravos. Além disso, o escravo que fugisse para um tal intercessor não incorria na culpa e castigo de uma escapada comum. Ele também tinha possibilidade de ser libertado, como certos escravos fiéis algumas vezes o eram, através da adoção pela família do senhor. Com essas idéias em mente e a carta a Filemom aberta à sua frente, veja o paralelo com o caminho da salvação do evangelho. Como seres humanos, você e eu somos propriedade de Deus; mas como pecadores, nós O roubamos e somos fugitivos. Nossa culpa é grande e nosso castigo pesado. A Lei nos condena. A consciência nos persegue. Mas se a Lei nos condena, a graça nos concede o direito de apelar. Da mesma forma que Onésimo encontrou refúgio em Paulo, nós encontramos refúgio em Jesus. Além de ser o Amigo do pecador, ele é igualmente Amigo e Sócio dAquele de quem somos propriedade. Em Jesus encontramos tanto um interventor (intercessor) como um genitor (pai que gera), do mesmo modo que Onésimo encontrou em Paulo alguém que não só intercedeu por ele junto a Filemom, como também o levou ao segredo de uma nova vida (v. 10). Assim também, como Paulo aceitou a dívida de Onésimo, dizendo a Filemom: “Lança tudo em minha conta”, o Senhor Jesus aceitou sobre si graciosamente toda a nossa dívida e demérito, cancelando-os de uma vez para sempre. E agora, no momento em que Onésimo reconciliou-se sinceramente com Filemom e voluntariamente voltou a seu dono, nós também nos tornamos “reconciliados com Deus” e de nossa livre vontade voltamos a Ele, não mais rebeldes, ou mesmo escravos servis, mas para sermos alegremente “recebidos” por Ele “para sempre” (v. 15). Livres da Lei; ó, feliz condição! Jesus seu sangue derramou e há remissão! Amaldiçoados pela Lei, e pela Queda feridos. De uma vez para sempre a graça tornou-nos remidos!


RECAPITULE E FAÇA UM TESTE SOBRE O SEU CONHECIMENTO DAS EPÍSTOLAS PASTORAIS 1. Você pode fazer uma citação que mostre que 1 Timóteo foi uma “incumbência” e qual foi essa incumbência? 2. Você sabe reproduzir nosso esboço da primeira epístola? 3. Quais as duas divisões principais de 2 Timóteo? 4. Como as três expressões, “A fé”, “A doutrina” e “A piedade”, resumem respectivamente o sistema cristão? 5. Quais as cinco ocorrências tristemente significativas de “ALGUNS” em 1 Timóteo? 6. Em 2 Timóteo 1.12, o que você acha que é o significado de “Ele é poderoso para guardar o meu depósito até aquele dia”? 7. Qual a advertência enfática da Epístola a Tito? 8. Quais os três grupos a quem Paulo dirige respectivamente os três capítulos de sua carta a Tito? 9. Como o parágrafo “bendita esperança” é um resumo notável da verdade cristã e onde ele ocorre? 10. Quem eram Filemom e Onésimo? 11. Por que e de onde a pequena carta a Filemom foi escrita? 12. Como a carta se divide? e como ela sugere um paralelo com o caminho da salvação do evangelho?


A EPÍSTOLA AOS HEBREUS Lição nQ39


NOTA: Para este estudo, a Epístola aos Hebreus, embora longa, deve ser lida inteira e sem pressa, pelo menos duas vezes. (1) Queremos deixar claro que nesses estudos usamos deliberadamente os termos “hebreus”, “israelitas” e “judeus”, como equivalentes. Depois de pesquisar cuidadosamente o assunto, não podemos fazer qualquer distinção como fazem nossos teoristas britânico-israelitas. (2) Nossa abordagem bastante longa desta Epístola aos Hebreus deve ser lida pacientemente e com cuidado; mais do que qualquer outra, esta epístola ficou sujeita a interpretações errôneas de seu ponto-de-vista e de seus leitores do primeiro século. (3) A discutida autoria de Hebreus, embora não afete a interpretação da epístola, tem um interesse peculiar, para o qual, à semelhança de Moisés, podemos perfeitamente “voltar-nos e olhar”. Esperamos que nosso apêndice sobre ela possa ser útil. - J. S. B.


Jamais esquecerei da primeira vez que vi o Monte Branco, alteando-se além do Vale Chamonix, rei entre os gigantes alpinos, coroado de majestade transfigurada pelo sol. Podemos bem sentir a mesma admiração reverente, ao ler esta sublime “Epístola aos Hebreus” que abre uma nova perspectiva para nós. Ela é um dos maiores tratados teológicos do Novo Testamento. Além do mais, é o rei e líder de uma nova cadeia de montanhas, o último grupo de livros do Novo Testamento, a saber, as epístolas aos cristãos hebreus.

As Epístolas aos Cristãos Hebreus Como notamos num estudo anterior, essas últimas nove (Hebreus a Apocalipse) distinguem-se das epístolas anteriores pelo seu ponto de vista e atmosfera distintamente hebraicos. Ao contrário das primeiras nove (Romanos a 2Tessalonicenses), todas dirigidas a igrejas cristãs, nenhuma dessas últimas nove é endereçada desse modo. A primeira dirige-se claramente aos hebreus, como declaram as palavras de abertura (i.e., “pais” e “nos”). A epístola a Tiago é enviada às “doze tribos que se encontram na Dispersão” (1.1). As duas epístolas de Pedro são para “os forasteiros da Dispersão” (1 Pe 1.1; 2 Pe 3.1). Nem todas as cartas dirigem-se tão especificamente aos leitores judeus, mas elas contêm indicações incidentais aos seus destinatários judeus (veja “sinagoga” em Tg 2.2; “gentios” em 1 Pe 2.12; 4.3; 3 Jo 7; Ap 11.2). O tom judaico de Judas e Apocalipse fica claro para todos. Ao contrário das epístolas às igrejas cristãs, que nos abrem o esplêndido “mistério” da Igreja como o “corpo” místico, a “noiva” e o “templo” de Cristo, essas nove epístolas aos cristãos hebreus não contêm qualquer ensino nesse sentido. Não existe nada aqui sobre o fato de os membros terem morrido e ressuscitado com Cristo: nada sobre os judeus e gentios serem um novo organismo espiritual; nada de assentar-se juntos “nas regiões celestiais em Cristo”.


Existe igualmente um contraste provocador (seja aparente ou real) entre os dois grupos em sua atitude quanto à preservação final dos crentes. Que diferença entre a franca garantia de Romanos 8.29, 30, 38, 39 e a perturbadora advertência de Hebreus 6.4-6; 10.26-29! — ou entre a bela segurança de Efésios 2.7-10; Filipenses 1.6 e 2 Pedro 1.10; Apocalipse 2.5; 3.5! Em vista dessas diferenças, ou seja, seu ponto de vista hebraico, seu silêncio sobre a igreja como o “mistério” e seu aparente retrocesso como a segurança final do crente, essas epístolas aos cristãos hebreus foram consideradas retrógadas em lugar de serem um avanço no desvendar da revelação da verdade divina. Mas considerá-las desse modo é não compreendê-las e depreciá-las. Reflita: Israel em duas ocasiões rejeitara a Jesus como o Messias-Rei: primeira, quando Ele se ofereceu na carne; segunda, quando novamente Se aproximou, através das testemunhas dotadas pelo Pentecoste, que anunciavam sua ressurreição e salvação. Mas a crucificação do Messias de Israel fora divinamente controlada, a fim de fornecer salvação para a raça inteira. “Porquanto a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens” (Tt 2.11). Era primeiramente necessário, portanto, que o significado da cruz fosse exposto tanto para o judeu quanto para o gentio; e temos isto nas primeiras quatro epístolas à igreja cristã. A seguir, chegou o tempo de apresentar o, até então oculto, “mistério” da igreja, unindo judeu e gentio em um único organismo espiritual; e isto está contido nas três epístolas às igrejas que se seguem. Depois, para completar a revelação referente à igreja, as duas cartas aos tessalonicenses dedicam-se à volta do Senhor e trasladação da Igreja. Mas existe todo um aspecto de verdade vitalmente relacionado que ainda precisa ser desvendado, e é isto que temos nessas epístolas hebraico-cristãs. Uma vez que este evangelho “a quem quer que seja” é propagado entre os homens em geral e o “mistério” da Igreja é divulgado entre os crentes, surge, inevitavelmente, a pergunta: Como tudo isto se relaciona com o judaísmo, a religião dos judeus, a única religião divina autêntica já dada aos homens? Esta questão é mais premente porque o próprio Salvador, como judeu, cumpria as observâncias da aliança; os primeiros que creram nEle eram judeus; e o evangelho é “primeiro do judeu” (Rm 1.16). O apóstolo Paulo já mostrou a relação do evangelho com Israel de maneira dispensacional (Rm 9.11); mas o que dizer de sua relação com as


ordenanças, as ofertas, o sacerdócio e o templo? É concebível que todas essas dispensações divinas tenham sido abolidas? A primeira dessas nove epístolas aos cristãos hebreus trata deste assunto. Ele é exposto instrutivamente no início e de forma conclusiva no final, sendo melhor apreciado por aqueles que o pesquisarem com atenção. Mas isso não é tudo; o Espírito Santo anulou a discussão para nos dar (o que não foi desenvolvido anteriormente) uma maravilhosa revelação do sacerdócio celestial e ministério intercessório do Senhor. Além do mais, embora essas epístolas hebraico-cristãs não contenham qualquer doutrina da “Igreja” em si, existe um sentido em que elas nos transportam para além das epístolas da igreja, até o alvo extremo da experiência cristã. O que é, além de tudo o mais, que nossa criação e redenção como seres humanos deve realizar? Por que Deus nos criou? Será que foi apenas para nos preservar vivos? Foi unicamente para governar-nos, julgar-nos, castigar-nos ou recompensar-nos? Não; por mais misterioso que pareça ser, Ele nos criou para comunhão individual com a sua Pessoa, uma comunhão pura de perfeito amor. O pecado interrompeu essa comunhão e alienou a natureza humana; mas o propósito final de nossa criação e redenção é a comunhão com Deus. É a isso que tudo mais nos leva e é justamente isso que temos na Primeira Epístola de João. Mais ainda, agora que foram reveladas todas essas verdades e aspectos sucessivos do evangelho, da igreja, arrebatamento e sacerdócio celestial, e o caminho da comunhão íntima com Deus, a última dessas nove epístolas aos cristãos hebreus nos lança ao final da era presente, à volta do Senhor em relação do mundo inteiro, ao reino milenar, ao Grande Trono Branco, e até aos “novos céus e nova terra” finais, completando desse modo a revelação continuamente progressiva do livro mais maravilhoso escrito até hoje.

Hebreus: O Aspecto Especial Se tivermos de captar o significado essencial desta epístola aos Hebreus, devemos apreciar devidamente seu ponto de vista. Ele corresponde ao de Levítico em relação a Êxodo. Todas as ofertas de cheiro suave ou não exigidas e especificadas em Levítico, tipificam aspectos do sacrifício do


Senhor na cruz, mas são todos aspectos dos benefícios que ela provê para os que já foram remidos e estão em relação de aliança com Deus. Os israelitas já haviam sido resgatados do Egito e entrado em relação de aliança no Sinai, como registrado em Êxodo. Em virtude dessa aliança, Deus viera agora “habitar entre eles” (Ex 25.8); Levítico então inicia: “Chamou o Senhor a Moisés e, da tenda da congregação, lhe disse”. Esta epístola aos Hebreus, em correspondência, embora se trate de uma belíssima interpretação dos sacrifícios e sacerdócio do Pentateuco, não diz sequer uma palavra sobre o cordeiro pascal. Seu objetivo é mostrar como os pecadores já remidos podem ser confirmados como “santos irmãos, que participais da vocação celestial” (3.1), em sua participação dos privilégios da aliança. Certas implicações surpreendentes estão ligadas a isto. O sacerdócio do Senhor não teve início quando Ele se ofereceu a Si mesmo na cruz aqui na terra, mas apenas quando Ele entrou “no mesmo céu, para comparecer, agora, por nós, diante de Deus” (9.24). Quantas vezes nos foi ensinado que, ao sacrificar-se na cruz, o Senhor já era o nosso grande sumo sacerdote. Não. Ele não era ainda nosso sacerdote. “Ora, se ele estivesse na terra, nem mesmo sacerdote seria” (8.4). A idéia de que sacerdócio significa um sacerdote oferecendo sacrifício reina hoje em toda cristandade; todavia, as Escrituras não dizem isso. Pelo contrário, descobrimos em Levítico que os sacerdotes só deveriam oferecer o que já fora sacrificado. Veja como as palavras de abertura de Levítico são explícitas: “Fala aos filhos de Israel, e dize-lhes: Quando algum de vós trouxer oferta ao Senhor... (ele) imolará o novilho perante o Senhor (i.e., o próprio homem e não o sacerdote)” (Lv 1.2-5). Isso se aplicava a todas as ofertas (veja 4.24,29,33). Só depois do derramamento de sangue é que começava o trabalho dos sacerdotes. O mesmo aconteceu com o Senhor, Seu sacrifício e Seu ministério sacerdotal. Mas alguém pode apresentar uma objeção: Arão, o sumo sacerdote, não foi um tipo de Cristo? E Arão não matou ele mesmo “o bode da oferta pelo pecado” no dia da festa anual da expiação do povo todo (Lv 16.15)? Sim, o ritual desse dia era realizado por Arão como o representante nomeado do povo; mas (ó, a exatidão divina da tipologia bíblica!) até que todos os ritos sacrificiais tivessem sido cumpridos ele não devia usar suas vestes sacerdotais — pelo menos até que a oferta queimada já morta estivesse sobre o altar (16.23,24).


Durante séculos antes da época de Arão, os homens haviam oferecido sacrifícios sem a intervenção ou qualquer menção de sacerdotes. Naquela noite inesquecível do êxodo do Egito, o cordeiro pascal — um para cada família —foi morto pelo chefe da casa e não por um sacerdote. Note bem: tudo isto ocorreu antes de Arão ser nomeado para o cargo sacerdotal. Quando o Senhor reuniu os apóstolos no cenáculo, pouco antes de ser crucificado, com o que Ele associou a sua morte? — com as ofertas em Levítico! Não, Ele a relacionou com a Páscoa. Não havia nada de sacerdotal sobre ela. Esta distinção é importantíssima. As ofertas em Levítico deveriam repetir-se diariamente, mas a Páscoa era de uma vezpor todas. Havia uma celebração anual em sua memória, mas não uma repetição. A ceia pascal era uma comemoração anual e não uma reprodução. Também não estava ligada de forma alguma com o sacerdócio. Assim, com a aliança do Sinai que se seguiu à Páscoa, os sacrifícios não foram oferecidos pelos sacerdotes, mas por “alguns jovens dos filhos de Israel” (Ex 24.5). “Então tomou Moisés aquele sangue e o aspergiu sobre o povo,„e disse: Eis aqui o sangue da aliança que o Senhor fez convosco” (v. 8). Conseqüentemente, quando o Senhor disse aos seus discípulos, no cenáculo: “Isto é o meu corpo...Este é o cálice da nova aliança no meu sangue”, ele estava provavelmente aludindo à Páscoa e à aspersão de sangue, em obediência à aliança que era o complemento da Páscoa, sendo ambos sacrifícios redentores finais, nunca mais repetidos. Que erro grave, tolo e maligno, comete então a igreja romana ao associar a Ceia não só aos sacerdotes, mas também aos dons supostamente místicos destes para transformá-la no corpo quebrado e sangue derramado do Senhor, num sacrifício sacerdotal contínuo, e até dizer que o sangue deve ser bebido — um procedimento absolutamente proibido em qualquer sacrifício! Nem mesmo o Senhor continua ofertando no céu. Esta é a razão pela qual, em Hebreus 10.11, 12, é feito um contraste entre os sacerdotes arônicos, que se apresentam “dia após dia” (seu trabalho jamais termina) e nosso Senhor Jesus, que “tendo oferecido para sempre, um único sacrifício pelos pecados, assentou-se à destra de Deus” Esta Epístola aos Hebreus se interessa pelo aspecto final e definitivo do sacrifício pascal do Senhor e do derramamento do sangue da aliança. Ela se dirige aos que creram nele e fazem parte da aliança, sendo seu propósito mostrar-lhes como nosso maravilhoso JESUS cumpre completamente (e


portanto supera) o sacerdócio e sacrifícios levíticos. Devemos manter este ponto de vista sempre em mente, ao estudarmos a carta aos hebreus.

A Quem é Dirigida É fácil para nós — gentios do século XX — apreciarmos o fato de a religião judaica de tipos e figuras ser tanto consumada como anulada no Senhor Jesus; mas para muitos daqueles crentes judeus do primeiro século, a separação deve ter sido um problema crítico. O próprio fato de o judaísmo ser uma religião legítima e divina, e sua observância uma obrigação nacional de aliança, tornava seu problema mais grave. Nas palavras do falecido Sir Robert Anderson: “Nós podemos certamente simpatizar com os sentimentos de um cristão hebreu enquanto ficava de pé nos pátios do templo repletos de adoradores, na hora do sacrifício diário, e observava os sacerdotes divinamente nomeados realizando o serviço ordenado por Deus que, durante todas as eras da história da nação, fora a influência mais nobre na vida nacional. Todo elemento de emoção piedosa, de sentimento nacional — de superstição, se o leitor quiser — deve ter sido combinado para atraí-lo e fasciná-lo, enquanto, com reverência e temor, ele contemplava o esplêndido santuário que fora levantado por ordem divina exatamente no local onde o seu Deus Jeová escolhera para o Seu santuário, o lugar onde reis e profetas, assim como geração após geração de israelitas piedosos haviam adorado por mais de mil anos”. Podemos realmente nos simpatizar e também apreciar perfeitamente a maneira pela qual um cristão hebreu, com todas aquelas associações e venerações enchendo sua mente e coração, “por nada, exceto a revelação de algo maior e mais glorioso, poderia ser desviado de sua dedicação à religião nacional”. Desistir de tudo, em favor de Alguém marcado como infame e “sair, pois, a ele, fora do arraial, levando o seu vitupério”, não era coisa fácil. O templo, rico de atrações sagradas, continuava de pé. O caminho de volta estava sempre aberto e constituía uma armadilha sutil. Além disso, aqueles prim eiros leitores devem ser ligados retroativamente a certos fenômenos peculiares de Atos dos Apóstolos, pois isto tem uma relação importante com a interpretação de várias


passagens controvertidas na epístola. Em Atos 6.7 lemos: “E crescia a palavra de Deus e, em Jerusalém, se multiplicava o número dos discípulos; também muitíssimos sacerdotes obedeciam à fé”. Mas como podiam esses sacerdotes ser cristãos e continuar oficiando nos altares e obedecendo ordenanças que haviam sido agora canceladas em Cristo? No capítulo 15.5 descobrimos: “Insurgiram-se, entretanto, alguns da seita dos fariseus, que haviam crido...” Mas como podiam eles permanecer fariseus agora que eram crentes no Senhor Jesus? Em Atos 21.20 os líderes cristãos em Jerusalém dizem a Paulo: “Bem vês, irmão, quantas dezenas de milhares há entre os judeus que creram, e todos são zelosos da lei”. Mas se eles eram realmente ‘crentes” no Senhor Jesus como seu Salvador pessoal, como poderiam ser então “zelosos da Lei”? Uma das primeiras implicações do evangelho não é que a graça e a lei são absolutos opostos, que a salvação pela fé e a salvação pelas obras da lei são idéias mutuamente exclusivas? Atos 21.20-6 pareceria indicar que muitos daqueles “milhares” que foram levados a “crer” em Jesus como o Messias pouco o conheciam ainda como Salvador pessoal. Continuavam tão “zelosos da Lei” que não haviam esquecido Moisés, nem abandonado a circuncisão, mas estavam seguindo “costumes” e oferecendo “sacrifícios” (v. 26) e (por serem “milhares”) achavam-se provavelmente entre a multidão que desejava matar Paulo por causa de seu ensino contrário! Esta hostilidade foi, de fato, exatamente o que “Tiago e todos os presbíteros” temiam expressamente (não só dos judeus, mas dos “milhares que creram”)\ Não podemos encontrar tais anormalidades sem nos lembrar novamente de que os trinta anos cobertos por Atos foram um período de suspense não-resolvido. Uma segunda oferta do “reino dos céus” e de Jesus como Messias-Rei, estava sendo feita a Israel, acompanhada de credenciais do Pentecoste, e a mensagem da salvação individual através do agora crucificado, ressuscitado e exaltado “Jesus de Nazaré” (consulte de novo nossos estudos em Atos). Ao que parece, as implicações pessoais extremas da nova mensagem não haviam sido plenamente compreendidas nem claramente definidas pelos apóstolos até essa época. Mas à medida que a rejeição oficial e geral de Israel tornara-se estabelecida e concretizada, uma escolha fatídica foi forçada sobre os crentes judeus. O mundo religioso judeu crucificara Jesus; e agora, ao que parece, a própria religião, da qual Jesus era o cumprimento e a consumação, o repudiava! Chegara o ponto em que “continuar” com Jesus significava nada menos


do que ir a Ele “fora do arraial”, recebendo “reprovação”. Isto esclarece de imediato aquelas duas passagens veementemente discutidas, Hebreus 6.4-6 e 10.26-29. Não há necessidade de entrar em significados lexicais hiper-exatos das palavras usadas para decidir sua principal referência. Elas estão ligadas a uma classe particular, numa situação que desapareceu para sempre. Todos nós, que agora cremos no Senhor Jesus Cristo para a salvação, o aceitamos como o Salvador totalmente revelado em nosso Novo Testamento completo. Quer nos acheguemos a Ele saindo do judaísmo, maometismo, catolicismo romano, ou qualquer outro sistema, se a nossa fé estiver de acordo com o Novo Testamento, fazemos, desde o início, uma escolha que nos liberta de toda dependência da auto-retidão legalista ou das obras meritórias religiosas, levando-nos Àquele que cumpre todo o ritual judaico, o único Salvador, mas todo-suficiente, e a finalidade da revelação divina. Ou seja, na nossa conversão, nós fazemos a escolha que aqueles primeiros crentes hebreus não haviam feito, e não viram a necessidade de fazer, quando eles creram pela primeira vez. Ao ler capítulos como Atos 8, é fácil ver a anormalidade desse período. É-nos dito que os samaritanos “creram” (v. 12). Em nossos dias, quando o indivíduo realmente “crê” em Jesus como Salvador, há um “novo nascimento” pelo Espírito Santo. Isto pregamos e isto provamos. Todavia, quanto àqueles “crentes” samaritanos, o v. 16 diz que “não havia ainda” o Espírito Santo “descido sobre nenhum deles”. Alguns tentariam afirmar que certamente foram regenerados, embora o Espírito não tivesse ainda descido sobre eles no sentido de uma “segunda bênção” ou “batismo” do Espírito. Mas isto não ocorre aqui. Um desses “crentes” era Simão, o mágico. O v. 13 diz claramente que ele “abraçou a fé” e foi em seguida “batizado” em água. Pedro, todavia, afirma mais tarde que ele se encontrava num estado de terrível afastamento de Deus (w. 20-23) —um crente batizado, porém não regenerado! Fica evidente que nem esta “crença” nem esta “descida” extraordinária do Espírito sobre as pessoas naquela ocasião devem ser necessariamente identificadas com a verdadeira conversão e regeneração pregadas e experimentadas agora. O Espírito Santo, seja lembrado, veio até sobre o hipócrita Balaão, certa vez, e profetizou através dele (Nm 24.2). Mas sem regenerá-lo! Permanece aberta a questão sobre até que ponto muitos daqueles que “criam” em Jesus como Messias, judeus de um passado remoto, haviam alcançado uma


fé sincera nele como Salvador pessoal, deixando de lado a culpa e poder do pecado em suas vidas. As obras espetaculares do Espírito Santo no Dia de Pentecoste foram selos sensoriais e sobrenaturais da legitimidade divina da mensagem apostólica. O escritor de nossa Epístola aos Hebreus tem isso em mente quando, no capítulo 6, ele fala dos “que uma vez foram iluminados e provaram o dom celestial”, tornando-se “participantes do Espírito Santo”, e que haviam “provado a boa palavra de Deus” e “os poderes do mundo vindouro” (ou seja, o reino milenar). Quando lemos que se “caírem” é impossível “renová-kw para arrependimento” devemos imediatamente associá-los com aqueles capítulos de Atos. Não devemos modificar a fraseologia para mais nem para menos, seja no sentido de provar que “uma vez salvo sempre salvo”, ou que as pessoas podem se desviar e se perder novamente. As palavras referem-se exclusivamente a uma classe especial, em circunstâncias especiais, num ponto histórico crítico que desapareceu para sempre. Nenhum cristão sincero deve jamais pensar que algo nesta Epístola aos Hebreus contradiz aqúela garantia gloriosa de preservação eterna em Romanos 8.28, 29! Aqueles dentre nós, que são membros comprados pelo sangue e nascidos do Espírito da verdadeira Igreja de Cristo espiritual, que quiserem saber o que o Espírito nos diz especificamente sobre este assunto, devem voltar-se —evidentemente — para as Epístolas à Igreja. A Epístola aos Hebreus foi dirigida a hebreus, havendo entre eles alguns “crentes” do tipo descrito, e sua primeira interpretação é destinada a eles. Cumprimento e Determinação Isto não significa que a Epístola aos Hebreus não tenha mensagem para nós. Pelo contrário, o Espírito Santo guiou quem a escreveu a fim de revelar verdades grandes e preciosas, tais como o sacerdócio celestial do Senhor, que todos os crentes precisam conhecer. Embora seu ponto de vista seja principalmente hebreu, ele explica alguns dos fundamentos mais profundos da revelação cristã devendo ser conhecida por todos que sabem perfeitam ente quais as nossas provisões na nova aliança. Mais especialmente, aqueles crentes hebreus da antigüidade necessitavam aprender a superioridade incomensurável do evangelho sobre todas as


formas, ritos e provisões da antiga aliança; mas não apenas isso, era necessário que lhes mostrassem, mediante comparações e contrastes vívidos, que esta superioridade do evangelho era uma superioridade de cumprimento superlativo, de perfeição absoluta e determinação divina; que não seria possível superá-la, acrescentando-lhe ou misturando-lhe algo. É justamente isto que temos de aprender cada vez mais firme e plenamente, e é isso que esta epístola esplêndida nos ensina.

Idéias Principais e Análise Esta epístola, por ser então escrita em primeiro lugar aos cristãos hebreus e especialmente aos que se sentiam tentados a voltar ao judaísmo, tem por objeto expôr, através de toda ela, a superioridade do evangelho sobre a aliança e o sistema associado a Moisés. Ela faz isto mostrando a perfeição e finalidade da nova aliança sem minimizar a antiga. Em lugar de diminuir o judaísmo, a nova aliança o transfigura e reverencia, acabando finalmente por cumpri-lo. Portanto, a palavra-chave aqui é “superior”, ocorrendo doze vezes (1.4; 7.7, 19, 22; 8.6 (duas vezes); 9.23; 10.34; 11.16,35,40; 12.24); e além da palavra “superior”, a idéia repete-se em todo o livro. Na primeira parte da epístola, o Senhor Jesus é superior aos anjos (1-2); superior a Moisés (3); superior &Josué (4); superior aArão (5-7). Na parte seguinte, temos a aliança “superior” (8.6), baseada nas promessas “superiores” (8.6), construindo um tabernáculo “superior” (9.11), purificado por um sacrifício “superior” (9.23). Na terceira parte, a fé focaliza um patrimônio “superior” no céu (10.34), e aspira uma pátria “superior” (11.16), e uma ressurreição “superior” (11.35), herdando coisa “superior” de Deus (11.40). A segunda idéia é a da natureza definitiva de Cristo, da Cruz e da nova aliança. Veja as ocorrências do termo “uma vez” (significando de uma vez por todas): veja 6.4; 7.27; 9.12,26,28; 10.2,10; 12.26,27. Um outro aspecto proeminente da epístola é o fato de achar-se repleta de advertências solenes. Observe o desafio repetido: “Portanto... ” A epístola é um tratado metódico e progressivo, mais regular na estrutura e retórico na forma do qualquer de seus predecessores. Acreditamos que sofreu muito nas mãos de escritores que desenvolveram


análises perspicazes em lugar de perceber as verdadeiras dobradiças nas quais o argumento está preso, e as verdades centrais em cada uma de suas três partes principais. O texto de 10.19 marca claramente uma interrupção. Até esse ponto o tratado é quase inteiramente doutrinário, enquanto que, daí para a frente, ele é quase inteiramente exortativo. Qualquer leitor cuidadoso irá notar também nos capítulos 1-7 a ênfase sobre a pessoa de Cristo; nos capítulos 8-10.18, ela se acha sobre a obra intercessória de Cristo e, a partir de 10.19 até o final da epístola, concentra-se na fé como a verdadeira resposta à pessoa e obra de Cristo. Observe o contorno e as idéias principais: A EPÍSTOLA AOS HEBREUS CRISTO, “O NOVO E VIVO CAMINHO” Palavras-chave: “superior” e “perfeito”. Passagem principal 10.19-22. 1. JESUS - O NOVO E “SUPERIOR” LIBERTADOR ÇT7) Jesus, o Deus-Homem — superior aos anjos (1,2). Jesus, o novo Apóstolo — superior a Moisés (3). Jesus, o novo Líder — superior a Josué (4.1-13). Jesus, o novo Sacerdote — superior a Arão (4.14-7). 2. CALVÁRIO - A NOVA E “SUPERIOR” ALIANÇA ------------------------------------------

'— 7-------------- (ffr o :i8 )

A nova aliança tem melhores promessas (8.6-13). Ela abre um melhor santuário (9.1-14). Ela é confirmada por um sacrifício superior (9.15-28). Ela obtém resultados muito superiores (10.1-18). 3. FÉ - O VERDADEIRO E “SUPERIOR” PRINCÍPIO

(íõ.i0-iâ)

Fé, a verdadeira resposta para essas coisas “superiores” (10.19-39). Ela tem sido sempre reinvidicada como tal: exemplos ( 11). Deve suportar com paciência, olhando para Jesus (12.1-13). Deve expressar-se na forma de santidade prática (12.14-13.21). Despedida 13.22-25.


Cada uma das subdivisões acima indicadas presta-se a uma nova análise. Cada uma delas compensa um estudo mais profundo e quase podemos invejar as alegres descobertas dos estudiosos mais novos, que acompanham a primeira pesquisa feita com entusiasmo.

O Novo e Superior Libertador (1-7) Se aqueles crentes judeus do passado tivessem de ser salvos do perigo de julgar a nova fé em Cristo simplesmente como um complemento do judaísmo sem anulá-lo, eles precisariam ser levados a ver claramente a glória divina do Deus-Homem Salvador que a tudo ofusca e que dá finalidade absoluta a toda a sua obra redentora e intercessória, excluindo assim completamente todos os demais salvadores e sacrifícios. Este é então o capítulo inicial nos capítulos 1-7. “Havendo Deus, outrora, falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas...nestes últimos dias nos falou pelo FILHO”. Todos os outros apontam para Ele, mas não pode haver qualquer ponto referencial último, além dEle. Por que voltar então para eles, desde que Aquele para quem todos apontam surgiu? Eles serviram e finalizaram agora a sua função ao indicar Aquele que, hoje, tudo cumpre. “O sol apareceu; as estrelas se retiram.” O Messias Jesus está muito acima dos anjos (1,2). Ele é o FILHO; eles não passam de servos (1.5-9). Ele é o Criador, eles não são senão criaturas (w. 10-12). Ele é o Soberano', eles, os súditos (w. 13-14). Ele é o Deus-Homem Salvador glorificado, que não só está acima dos anjos, mas também leva muitos filhos à glória, elevando-os também sobre os anjos (2.5, 9,10). Ele é correspondentemente “superior” a Moisés, o grande apóstolo de Israel, o maior de todos os mediadores e legisladores simplesmente humanos (3). Moisés era apenas o agente humano da velha economia; Cristo é o Fundador divino da nova (w. 3,4). Moisés foi fiel como servo da casa de Deus; mas Cristo é fiel como Filho sobre a sua casa (w. 5,6). Moisés foi uma testemunha de algo superior que viria; Cristo é o cumpridor (w. 5, 6).

Ele é “superior” a Josué, líder da conquista de Canaã por Israel (4.1-13). Josué guiou o povo até a Canaã terrena, mas não pôde levá-lo para o


verdadeiro descanso, enquanto Jesus nos leva ao verdadeiro descanso das obras, a fim de gozar a observância do sábado com Deus (w. 8,3,9). Ele é “superior” a Arão, o sumo sacerdote representante de Israel (4.14-7.28). Ele ministra rmm santuário “superior”, i.e., celestial vs. terreno (4.14). Ele mantém um sacerdócio “superior”, ou seja o de Melquisedeque vs. Arão (5.6,10; 7.3,17,18-25). Ele tem melhores qualificações, i.e., sem pecado, imortal, perfeito, vs. pecador, mortal, fraco (7.26,27, 23-25, 28). Ele oferece um sacrifício superior, i.e., suaPessoavs. animais; uma vez por todas vs. diariamente e sempre incompletos (v. 27). Note a ordem: anjos, Moisés, Josué, Arão. Tudo aqui leva ao contraste entre Cristo e Arão, porque o objetivo principal é demonstrar a superioridade transcendente e anuladora da economia do evangelho em relação a todo o sistema sacerdotal do judaísmo e da antiga aliança. Note também que de Hebreus 5.11 a 6.20 o texto é certamente parentético. A comparação do sacerdócio do Senhor com o de Melquisedeque é retomada em 7.1. Podemos escrever sobre todo este grupo de capítulos: “Por isso, santos irmãos, que participais da vocação celestial, CONSIDERAI ATENTAMENTE O APÓSTOLO E SUMO SACERDOTE DA NOSSA CONFISSÃO, JESUS” (3.1).

A Nova e Superior Aliança (8-10.18). A seguir, como um desenvolvimento do que foi escrito antes, as outras excelências e finalidades da nova aliança surgem agora à plena luz: promessas superiores (8.6-13); santuário superior (9.1-14); sacrifício superior (9.15-28) e resultados superiores (10.1-18). Note como o escritor faz um retrospecto ao começar esta nova seção (8.1-5). Depois, veja como ele continua, mostrando a necessidade de uma nova aliança, devido à imperfeição da antiga (w. 6-13). Em 9.1, ele apresenta uma série de contrastes: terreno e celestial (w. 1-5, 11, 24); carnal e espiritual (w. 10, 11-14); temporário e eterno (w. 9, 10, 12, 15); animais e Filho de Deus (w. 12-14); modelos e realidades (w. 23, 24); repetição incompleta e finalidade alcançada de uma vez por todas (w. 25, 26); promessa e cumprimento (10.1; 9.11); incapacidade para remover pecados e verdadeira santificação (10.4, 10); memorial ano a ano e


lembrança “cancelada” (10.3,17); sacrifício repetido e sacerdotes sempre de pé e um sacrifício único e um Sacerdote que “assentou-se à destra de Deus” (10.11, 12). Este contraste mencionado por último dá margem à grande afirmação que engloba tudo o mais na epístola: “PORQUE COM UMA ÚNICA OFERTA APERFEIÇOOU PARA SEMPRE QUANTOS ESTÁO SENDO SANTIFICADOS... JÁ NÃO HÁ OFERTA PELO PECADO” (10.14,18). Pense nisto! — os adoradores aperfeiçoados para sempre; os pecados e iniqüidades esquecidos; não há mais possibilidade nem necessidade de qualquer outra oferta pelo pecado! Este não é apenas o ponto alto da exposição do escritor; mas o ponto crítico daqueles crentes hebreus dos primeiros dias. A situação inteira achava-se agora diante deles, perfeitamente enfatizada, e as alternativas apresentadas com toda solenidade. Esta culminação triunfante “aperfeiçoado para sempre” torna-se inevitavelmente um ultimato implícito aos de ânimo vacilante, que hesitam entre continuar no novo sistema ou voltar ao antigo — “Já não há oferta pelo pecado”! É preciso escolher. O escritor de bom grado os ajudaria e, portanto, daí em diante a epístola torna-se exortativa, incluindo apelo, lembrete, advertência, encorajamento e incentivo.

A Fé, o Verdadeiro e Superior Caminho (10.18-13) “Tendo, pois, irmãos, intrepidez para entrar no Santo dos Santos, pelo sangue de Jesus, pelo novo e vivo caminho que ele nos consagrou pelo véu, isto é, pela sua carne, e tendo grande sacerdote sobre a casa de Deus, aproximemo-nos, com sincero coração, em plena certeza de fé.” Mas se “vivermos deliberadamente em pecado (i.e. apostasia: voltar atrás), depois de termos recebido o pleno conhecimento da verdade, já não resta sacrifício pelos pecados; pelo contrário, certa expectação horrível de juízo” (10.19-22, 26, 27). Há realmente alternativas! Mas, como podem eles recusar e “retroceder”? (w. 32-39). Devem lembrar-se de como a fé foi honrada no passado (11) —justiça pela fé (w. 1-7);promessas pela fé (w.


8-22); heroísmo pela fé (w. 23-38). Quanto mais eficaz, pois, é “olharpara Jesus”, que é o “Autor e Consumador da fé” e está “assentado à destra do trono de Deus”! (12.1, 2). A parte final da epístola relaciona-se com os argumentos precedentes nessa nota. Não podemos nos demorar nela, por mais que o desejemos fazer. De fato, ao deixarmos esta epístola majestosa, magnífica e comovente, depois deste curto estudo, estamos humildemente cônscios de quão absolutamente inadequada é uma recapitulação — restrita da mesma. Tudo o que faremos agora é apresentar algumas observações retrospectivas que esperamos possam ser úteis. Pense de novo como é maravilhosa esta doutrina de nosso acesso a Deus por este “novo e vivo caminho” — o novo caminho da cruz e o caminho vivo daquele que intercede eternamente nos céus. A Epístola aos Romanos conta-nos como o pecador pode apresentar-se diante de um Deus justo; mas esta epístola aos Hebreus revela a verdade ainda mais surpreendente de que o pecador justificado pode aproximar-se de um Deus que, em sua santidade, é um “fogo consumidor”. E, ainda mais que isso, ela mostra como o pecador justificado pode aproximar-se com a maior confiança, “tendo intrepidez para entrar no Santo dos Santos”\ Recomendamos aos alunos que estudem cuidadosamente todos os ensinamentos da epístola sobre este assunto do acesso. É maravilhoso. Como ela expressa claramente que nossa ousadia na aproximação não resulta de uma superestima vã da dignidade humana, nem de qualquer pouca reverência da majestade de Deus. Nossa “intrepidez para entrar” é “pelo sangue de Jesus” (10.19) e por termos “grande sacerdote sobre a casa de Deus” (v. 21). Em outras palavras, nosso acesso a Deus é feito com base no que Jesus fez por nós e o que Ele representa para Deus por nós. Lembre-se que este elevado privilégio de acesso a Deus é um clímax espiritual e prático. Tudo o mais leva a ele. O fato de a nova aliança cumprir realmente isso, mostra imediatamente sua superioridade transcendente sobre a antiga. O judaísmo jamais efetuou tal coisa, pois o “veú” sempre ficou entre os adoradores e o Santo dos Santos, “querendo com isto dar a entender o Espírito Santo que ainda o caminho do Santo Lugar não se manifestou, enquanto o primeiro tabernáculo continua erguido” (9.8). Agora o próprio véu que mantinha o povo fora, permitiu a entrada do sacerdote, com base no sangue da aliança; ele se torna então um tipo do corpo do Senhor —pois Hebreus 10.20 diz que o Senhor Jesus


consagrou o “novo e vivo caminho” de entrada para nós “pelo véu, isto é, pela sua came”. A primeira coisa que aconteceu quando o Senhor morreu no Calvário foi que “o véu do santuário rasgou-se em duas partes, de alto a baixo” (Mt 27.51). Graças a Deus por esse véu rasgado! Os “portantos” e “os porquês” desta Epístola aos Hebreus deviam ser devidamente ponderados; assim como os “mais excelentes” e “mais perfeitos” e todas as referências à aliança. As advertências e exortações constituem de fato um excelente estudo: existe uma homilia ou aplicação prática acrescentada a cada novo argumento doutrinário (cujo procedimento deveria chamar a atenção de todos nós pregadores!). Mas, acima de tudo o mais, o glorioso sacerdócio celestial de nosso maravilhoso JESUS deveria ser estudado sem pressa, passagem por passagem. Isto fará que Ele seja ainda mais apreciado pelos nossos corações agradecidos, elevando a mente para o ambiente celestial, trazendo “plena segurança” ao coração e fortalecendo nossa fé em Deus. Certa noite de domingo, um jovem veio procurar-me com a pergunta: “Se, como o sr. diz, a morte do Senhor no Calvário foi uma expiação completa e final pelo pecado, por que Ele precisa continuar a interceder sempre por nós como nosso Sacerdote no céu?” A resposta, naturalmente, é que embora a obra acabada da cruz no Calvário nos traga um perdão completo, permanecemos ainda pecadores, tragicamente desqualificados para a comunhão com um Deus santo. O ministério celestial do Senhor soluciona essa outra necessidade. Mediante o seu sacrifício na terra, temos o nosso perdão', através do seu sacerdócio no céu somos mantidos em comunhão. Nosso Senhor não era descendente de Arão, nem sequer da tribo de Levi. Ele jamais foi um sacerdote arônico. O seu sacerdócio é real, de Melquisedeque (7.1). É o novo sacerdócio (v. 11); o verdadeiro sacerdócio (v. 16); o sacerdócio para sempre (v. 17); o sacerdócio perfeito (w. 26-28); o sacerdócio que “pode salvar totalmente” (v. 25). “POR ISSO TAMBÉM PODE SALVAR TOTALMENTE OS QUE POR ELE SE CHEGAM A DEUS, VIVENDO SEMPRE PARA INTERCEDER POR ELES.”


QUEM ESCREVEU HEBREUS? Assuntos de crítica literária dificilmente pertencem à uma série de estudos como esta; todavia, aqui e ali as linhas orbitais se cruzam, de modo que surgem perguntas clássicas, devido à sua associação peculiar com nossos estudos. Estabelecer quem escreveu esta Epístola aos Hebreus, na verdade, não é mais necessário ao nosso exame edificante de seu conteúdo do que o reconhecimento de sua inspiração sobrenatural. Os primeiros eruditos cristãos não permitiram que o seu anonimato lhe tirasse a canonicidade-, eles reconheceram nela, como também fazemos, o imprimatur da inspiração peculiar e cheia de autoridade. Apesar disso, existe um halo intrigante pairando continuamente sobre esta questão de quem foi o escritor da epístola, e certamente alguém pode perguntar-nos: “Qual sua opinião? Foi Paulo o autor? Ou outra pessoa a escreveu?” Gostaríamos de ter alguma fonte secreta de informação que solucionasse o assunto de uma vez por todas! Infelizmente, não sabemos onde obter a resposta nem possuímos a erudição necessária para responder como desejaríamos. Mesmo assim, iremos corajosamente arriscar nossa opinião refletida, visto que os próprios eruditos discordam grandemente entre si —e quando “os doutores discordam, o que o homem comum poderá fazer?” Para mostrar como os eruditos discordam realmente sobre a autoria de Hebreus, vejamos o seguinte. O falecido erudito Deão Alford salienta com ênfase suas diferenças gramaticais e literárias com relação às epístolas paulinas comuns, que diz: “Orígenes poderia muito bem pronunciar como incapaz de discernir o caráter, quem sequer imaginasse que uma única e mesma pessoa pudesse ter produzido ambas, ainda que fosse através do disfarce mais artificial”. Todavia, o eminente estudioso grego, Dr. Bloomfield, afirma em seu Testamento Grego: “Depois de estudar a língua grega e familiarizar-me com seus autores de todas as épocas, tão diligente e extensamente quanto pelo menos qualquer pessoa de meu país ainda viva hoje, devo manter minha opinião convicta de que o grego, exceto com relação à estrutura das sentenças, não é assim tão decididamente superior ao grego do apóstolo Paulo, de modo a tornar praticamente improvável que a epístola tivesse sido escrita por ele”. Parece haver divergência similar quanto à data. O Deão Alford inclina-se a datá-la bem tarde, no período pós-apostólico, enquanto J.


Barmby, no Pulpit Commentary, afirma que a “evidência interna” impede “qualquer data posterior a 70 A.D.” e sugere uma data bem anterior. As avaliações da primeira tradição, no sentido de Paulo ser o autor, são igualmente contraditórias. Os eruditos parecem algumas vezes contradizer suas próprias deduções, como, por exemplo, o mencionado por último que, em um lugar, diz: “Esta distinta primeira tradição é claramente de grande importância no que diz respeito ao argumento da autoria”, e, mais tarde, faz esta pergunta: “Mas o que ela (tradição) significa? Tudo o que sabemos exatamente é que em Alexandria, no segundo século, a epístola, mesmo anônima, havia sido entregue e foi geralmente acolhida como sendo de Paulo”. Que importa isso? Nossa opinião considerada é que o autor humano foi Paulo. Não chegamos a esta conclusão devido a qualquer predileção ou preconceito a seu favor. Pelo contrário, se pudesse ser convincentemente provado que alguém mais foi o autor ficaríamos até gratos, pois estaríamos de posse de uma resposta útil para os que ainda tagarelam que a forma paulina de cristianismo é paulinismo e não o cristianismo puro e básico de Cristo, ou dos outros apóstolos além de Paulo. Acreditamos ser ele o autor, principalmente pelas seguintes razões. Primeiro, acreditamos que a tradição paulina é muito mais sólida do que geralmente se admite. Pense bem: cerca de 150 A.D., Panteno, o principal professor de Alexandria na época, referia-se a ela como uma epístola geralmente atribuída a Paulo —o que significa que apenas 70 anos depois da morte do apóstolo ela era geralmente aceita como dele! O importante não é simplesmente que o próprio Panteno tivesse acreditado que fosse paulina, mas que, numa data tão remota e sem qualquer oposição, tenha sido largamente recebida como sendo de Paulo se fosse de outrem? A crença na autoria de Paulo deve ter sido evidentemente transmitida muitos anos antes, i.e., praticamente a partir da data da própria epístola; Orígenes, que substituiu Clemente como líder da escola alexandrina, confirmou ser justamente esse o caso, pois ele acrescenta que, “os homens de antigamente a transmitiram como sendo de Paulo”; o que significa que, décadas antes de Panteno, os que se seguiram imediatamente aos apóstolos a consideravam verdadeiramente escrita por Paulo. Parece-nos que, quaisquer que sejam as diferenças de forma e estilo entre esta Epístola aos Hebreus e as indiscutíveis epístolas de Paulo, elas deveriam ser consideradas em subordinação a esta tradição praticamente


final e não a tradição subordinada às diferenças. Concordamos que, no terceiro século, outros autores começaram a ser sugeridos como alternativas a Paulo, mas existe certamente força na seguinte interrogação feita pelo Speaker’s Commentary: “O testemunho positivo de homens que, por conhecerem Paulo intimamente, eram qualificados para dar testemunho sobre um assunto como esse, deveria ser superado pelas dúvidas daqueles que viveram cerca de cem anos mais tarde, não sendo portanto tão qualificados?” Além disso, parece-nos que a própria data remota da autoria de Paulo recebe indiscutível endosso do apóstolo Pedro, que diz em sua segunda epístola (3.15): “E tende por salvação a longanimidade de nosso Senhor, como igualmente o nosso amado irmão Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada”. Portanto, Paulo pelo menos escreveu uma epístola à mesma comunidade judaica a que Pedro então se dirigia! Se não foi a Epístola aos Hebreus, qual seria? Onde está? Quais os indícios de outra? Em segundo lugar, cremos na autoria paulina em vista das indicações internas. É notável, e às vezes, divertido notar como até os que rejeitam mais drasticamente a autoria de Paulo, admitem a presença de características paulinas na mesma. Orígenes, no terceiro século, cujas palavras foram as primeiras a sugerir uma alternativa a Paulo, teve de admitir que “05 pensamentos são do apóstolo”. Em tempos recentes, 0 erudito Deão Alford, que, comprazer, usaria as palavras de Orígenes para diminuir a força da primeira tradição paulina, é obrigado a concordar que “a disposição geral do pensamento é paulina”. O erudito Franz Delitzsch, que prefere Lucas como o autor e ignora, tanto quanto é razoável, os traços paulinos da epístola, sente-se obrigado a dizer: “Ela produz do começo ao fim a impressão da presença da força original e criativa do espírito apostólico. E, se escrita por um apóstolo, quem poderia ter sido o seu autor senão Paulo? É verdade que, até perto do final, ela não nos impressiona como sendo de sua autoria; sua forma não é paulina e os pensamentos, embora jamais não-paulinos, muitas vezes, porém, ultrapassam o tipo de doutrina de Paulo como o conhecemos em outras epístolas; mas, próximo do final, quando a carta toma uma forma epistolar, parecemos ouvir o próprio Paulo e ninguém mais”. A meu ver, ela possui pelo menos algum significado evidente, pois até mesmo os que discutem as diferenças de estilo entre Hebreus e as epístolas reconhecidas como paulinas vêem-se


obrigados a admitir as semelhanças básicas entre elas. Uma coisa que me chama atenção em todo o livro de Hebreus é o tom apostólico de ensino com autoridade. A forma de expressão é bondosa, mas não há meios de esconder a serenidade subjacente da certeza e finalidade concedidas pelo Espírito. Embora haja uma delicadeza marcante, a maneira de falar não admite resposta. Ela não formula apenas o modo de pensar de um discípulo, mas transmite a opinião formal de um apóstolo. Até mesmo os argumentos nela contidos não apresentam, em ponto algum, apenas as conclusões bem pensadas do autor, mas tornam mais claro o que está sendo estabelecido apostolicamente, sem possibilidade de contradição. Delitzsch sente o mesmo quando declara que a epístola “produz do começo ao fim a impressão da presença da força original e criativa do espírito apostólico”. Mas se foi escrita por um apóstolo, então, como pergunta Delitzsch: “Quem poderia ter sido o seu autor senão Paulo?”. Uma outra coisa que nos chama atenção é o uso do pronome “nós” pelo autor, ao dirigir-se aos seus leitores, como se falasse representando um grupo (5.11; 6.9, 11; 13.18, 23). Este uso associativo do pronome plural jamais é encontrado em João, Pedro, Tiago e Judas. Ele ocorre com naturalidade e freqüência nos versículos em que o autor se junta a seus leitores em uma classe abrangente, como por exemplo em 1 João 1.7, “Se, porém, (nós) andarmos na luz”, onde o escritor se inclui no grupo de todos os cristãos; não sendo, no entanto, usado uma vez sequer pelo escritor no sentido de associar outros como colaboradores dele. Todavia, isso é encontrado em toda parte nas epístolas paulinas e também em Hebreus. Além do mais, nesta epístola aos Hebreus presume-se que o grupo incluído do pronome plural seja bem conhecido dos leitores. Desse modo, se Paulo não é o autor, onde, neste sentido, existe uma alternativa paralela para ele? Certamente em nenhum nome já sugerido. Embora a epístola seja sempre considerada “anônima”, isso é apenas superficial, pois muito claramente o último capítulo mostra que o escritor era bem conhecido dos leitores e que não estava de modo algum tentando manter-se no anonimato. Quem é, pois, que reconhece livremente sua identidade nesse último capítulo? Até Delitzsch concorda que aqui, pelo menos, “parecemos ouvir o próprio Paulo e ninguém mais”. Quem senão Paulo escreve (nos w. 18,19): “Orai por nós, pois estamos persuadidos de term os boa consciência desejando em todas as coisas viver


condignamente. Rogo-vos, com muito empenho, que assim façais a fim de que eu vos seja restituído mais depressa”? Quem, senão Paulo, acrescenta: “Notifico-vos que o irmão Timóteo foi posto em liberdade; com ele, caso venha logo, vos verei”? —e depois termina com o característico: “A graça seja com todos vós”? Ao chegarmos a esses versículos de despedida parecemos compreender repentinamente que eles devem ter sido acrescentados pela mão do próprio Paulo, pois o v. 22 diz, “tanto mais quanto vos escrevi resumidamente”, o que simplesmente não pode se referir à epístola inteira com suas oito mil palavras! Absolutamente não. Começamos a ver que o último capítulo, ou parte dele, é realmente uma nota explicativa do tratado — revelando ao mesmo tempo o que muitos notaram, ou seja, que o livro é um tratado em lugar de uma carta, tornando-se, todavia, praticamente epistolar no final. E se a nota explicativa é tão claramente paulina, então o tratado formal (que pela sua forma, estilo e linguagem provocaram dúvidas quanto à autoria paulina) deve ser também de Paulo. Objeções Pouco Convincentes Terceiro, nossa crença na autoria paulina de Hebreus é confirmada desde que as objeções levantadas não nos convenceram. Algumas das objeções parecem-nos de fato indignas dos estudiosos que as apresentaram. Por exemplo, o Deão Alford está certo de que Hebreus 2.3 exclui Paulo. Ele declara: “O escritor fala de si mesmo como estando entre aqueles que haviam recebido o evangelho dos apóstolos e os que ouviram o Senhor. Isto contraria diretamente a autoria de Paulo, pois este ‘sempre confirma a sua independência dos ensinos humanos! O versículo só pode ser ‘justificado’ por aqueles que defendem a autoria de Paulo, o que fazem geralmente ‘supondo que o escritor estivesse se colocando na mesma categoria que os seus leitores na ocasião! Mas embora tal prática seja comum entre os autores, é difícil imaginar que Paulo, entre todos, pudesse adotá-la ao escrever a judeus. ‘Compare com tal idéia seus protestos bruscos e enérgicos em Gálatas 1.11; e se a idéia não for abandonada, tudo o que podemos dizer é que algumas mentes devem ser formadas de maneira bem diversa da nossa’.” Bem, a nossa deve estar entre aquelas mentes “formadas de maneira


bem diversa” da do deão, pois para nós o próprio versículo que ele diz que refuta a autoria de Paulo, a confirmai (2.3) Ele é bem inexato quando declara: “O escritor fala de si mesmo como estando entre aqueles que ‘haviam recebido’ o evangelho dos ‘apóstolos’...” O escritor, na verdade, nem menciona os “apóstolos” nem o “evangelho”; também não usa a palavra “recebido”! Leia o versículo: “Como escaparemos nós, se negligenciarmos tão grande salvação? a qual, tendo sido anunciada inicialmente pelo Senhor, foi-nos depois confirmada pelos que a ouviram”. Sem necessidade de destacarmos os erros cometidos pelo deão, perguntamos simplesmente: Esse versículo não aponta para Paulo? Pelo que sabemos, ele jamais ouviu uma das parábolas do Senhor, nunca assistiu a um dos seus milagres; jamais se encontrou com ele, nem sequer viu o Senhor durante os seus dias na terra. O Senhor ressurreto, a quem Paulo encontrou pela primeira vez na estrada de Damasco, reencenou sobrenaturalmente todo o seu ministério terreno para Paulo, ou este foi “confirmado” para ele “pelos que a ouviram”? O texto de 2.3, em lugar de excluir Paulo, com toda a certeza aponta para ele! Naturalmente a principal objeção é que “todo o estilo grego da epístola difere do usado nos escritos reconhecidos como de Paulo — sendo mais clássico na sua linguagem, assim como melhor acabado e retórico; os arranjos estudados dos pensamentos e raciocínios, o plano sistemático da obra inteira, não se comparam com o modo de escrever tão característico do grande apóstolo”. O falecido Sir Robert Anderson, contrariando esta opinião, pergunta: “Poderá qualquer estudante de literatura afirmar que um tão grande mestre da arte literária como o apóstolo Paulo não tivesse condições, ao escrever um tratado como Hebreus, de demonstrar peculiaridades e elegâncias de estilo não incluídas em suas obras epistolares?” Não quero subestimar pessoalmente a dificuldade gramatical e literária, mas julgo que seus defensores tendem a exagerá-la. Quanta diferença existe entre o grego do evangelho de João e o de Apocalipse! — todavia, com base em forte evidência, tanto externa como interna, João é aceito por estudiosos de primeira linha como autor de ambos. Lembre-se também que a maior parte das epístolas de Paulo às “igrejas” foi escrita antes. Elas foram escritas em meio a um ministério ocupado, aventuroso, cheio de movimentação e viagens; foram provocadas por emergências devido ao ensino de doutrinas falsas e outras ameaças; foram escritas com


a emoção que um pai espiritual sentia por seus filhos na fé e pelas igrejas que fundara; mais ainda, foram escritas a gentios: enquanto Hebreus foi uma das últimas cartas, escrita talvez durante o período em que esteve preso, resultando de reflexões serenas, sem precipitação, com tempo suficiente para um planejamento refletido e sentenças bem escolhidas. Era um tratado para os seus conterrâneos e não uma carta para seus filhos na fé. Não se destinava a gentios, mas a judeusl Para mim, tais considerações, especialmente em relação a um gênio versátil como Paulo, respondem adequadamente à objeção literária sobre a autoria de Hebreus. Estou ainda mais convencido disto em vista de uma admissão do Dr. Barmby em seu artigo no Pulpit Commentary sobre Hebreus. Ele, um dos que rejeitam a autoria paulina em bases literárias, todavia declara: “Esta consideração (te., que Paulo poderia ter escrito a carta sob as circunstâncias que mencionamos) teria um peso decisivo como explicação, se houvesse realmente qualquer evidência extema válida de ele ter sido o autor”. Mas o caso é que existe definitivamente “evidência externa” da autoria de Paulo na tradição transmitida a partir dos próprios dias do apóstolo!Se uma resposta ainda mais ampla for exigida para a dificuldade literária, não relutamos em admitir que em toda a Epístola aos Hebreus existem provavelmente toques do “acabamento” e estilo grego da pena de Lucas, que, como sabemos, achava-se na companhia de Paulo em Roma, ficando com ele até o fim (2Tm 4.11). Isto não deve ser considerado como sugestão de que os pensamentos de Paulo foram colocados nas palavras de Lucas. Tanto as idéias como a sua expressão pertencem a Paulo, mas receberam um certo toque literário através da colaboração gramatical do companheiro Lucas. Podemos ilustrar a probabilidade disto por experiência própria. Há algum tempo atrás, pediram-nos para escrever uma “epístola” para uma senhora idosa e doente enviar à sua filha em outra cidade. Escrevemos conscienciosamente tudo o que ela nos pediu, quase que nas suas próprias palavras, melhorando a construção de várias sentenças (embora mantendo as palavras dela), dando um acabamento gramatical e colocando a missiva no correio. A carta começava assim: “Querida Margarete, estou enviando esta carta datilografada para poupá-la de lutar com minha letra trêmula...” Algum tempo depois a filha comentou: “Era justamente o modo de minha mãe ver e dizer as coisas, suas reações características e críticas inteligentes, apesar de muitas


EXAMINAI AS ESCRITURAS

sentenças e o cuidado com a gramática não serem naturalmente dela”. Alternativas Pouco Convincentes Quem são as alternativas de autores sugeridas? Só há quatro que podem ser levados a sério; Lucas, Barnabé, Clemente de Roma e Apoio. Com certeza não poderia ser Lucas, pois ele era quase que com certeza, gentio. Nas palavras de despedida de Colossenses 4.10-14 ele é distinguido de Aristarco, Marcos e Justo que eram judeus (v. 11), sendo ligado com Epafras e Demas que não o eram. O seu nome, Loukas, é grego. Tanto o seu evangelho como o livro de Atos começam com uma dedicatória formal em estilo grego e romano. Mas o autor de Hebreus era um hebreu de hebreus, como fica bem claro. Quanto a Barnabé, ele era com certeza hebreu e um levita, e de maneira bem definida poderia ser o possível autor; mas existe alguma coisa que o torne o provável autor? Não. O único escritor da antigüidade que afirmou isso sobre ele foi Tertuliano (160-230 A.D.), e ele não descobriu um verdadeiro apoio. Existe uma epístola que os primeiros Pais da Igreja acreditaram ter sido escrita por Barnabé. Sua autenticidade é duvidosa. Se Barnabé a escreveu realmente, então o assunto está encerrado; ele, com certeza, não escreveu Hebreus, pois as duas são tão absolutamente diferentes tanto no estilo como no sentimento, que seria inconcebível imaginar o mesmo autor para ambas. Mas, se a suposta epístola de Barnabé é falsa, não temos então qualquer conhecimento de que ele tenha jamais escrito uma epístola: por que então atribuir-lhe Hebreus? Poderia o autor ter sido Clemente, um dos primeiros bispos de Roma? Caso positivo, por que nunca existiu a menor tradição nesse sentido em Roma? Por que a Igreja rejeitou por tanto tempo a Epístola aos Hebreus? Por que a epístola que Clemente escreveu aos coríntios é tão diferente de Hebreus, de modo a impedir inteiramente uma autoria comum? O que dizer de Apoio? Ninguém pensou nele até que Martinho Lutero sugeriu seu nome! Apoio é, na verdade, um candidato tentador. O Deão Alford defende a sua autoria, mas existem duas fortes objeções: (1) Nenhum dos antigos (que deveriam ter conhecido mais sobre as probabilidades que os modernos) sequer sugeriu o seu nome; (2) Apoio era um judeu alexandrino', mas a Epístola aos Hebreus não exige um judeu


que tivesse conhecido Jerusalém e o templo, longa e intimamente —assim como os cristãos judeus dali (13.23)? De um modo geral, portanto, inclinamo-nos mais a crer que Paulo, e nenhum outro, foi o autor humano da Epístola aos Hebreus.


A EPÍSTOLA DE TIAGO Lição nQ40


NOTA: Pítra este estudo, leia duas vezes a epístola inteira, vendo depois se, numa tercejra íeitma, você pode descobrir suas interrupções e partes. A tradição fixa o martírio de Tiago no ano 62, mas esta epístola não mostra traços das revelações mais amplas relativas à Igreja e às doutrinas distintas da graça feitas através do apóstolo Paulo, nem mesmo das discussões referentes à relação entre os gentios convertidos e a lei de Moisés, que culminou no primeiro concílio (Atos 15), presidido por Tiago. Isto presume uma data bem primitiva para Tiago, que pode ser estabelecida, COm toda confiança, como “a primeira epístola aos cristãos”. — Weston A expressão “doze tribos que se encontram na Dispersão” não deve ser vista como uma referência aos judeus, mas aos cristãos judeus da Dispersão. A, Igreja começou com eles (At 2.5-11) e Tiago, que parece não ter deixado Jerusalém, sentiria uma responsabilidade pastoral peculiar por essas ovelhas dispersas. Eles ainda recorriam às sinagogas ou chamavam por esse nome suas próprias assembléias. Com base em Tiago 2.1-8, parece qUe eles continuavam a manter os tribunais na sinagoga para o julgamento das causas surgidas em seu meio. A epístola é, portanto, extremamente elementar. Supor que Tiago 2.14-26 é uma polêmica contra a doutrina c]a justificação de Paulo é um absurdo. Nem Gálatas nem Romanos tinham sido escritas ainda. — Nota da Bíblia Scofield.


Quanta diferença entre a longa e retórica Epístola aos Hebreus e esta curta e destacada Epístola de Tiago! Como é intrigante o milagre sutil pelo qual a inspiração sobrenatural mescla-se com as diferentes mentalidades de nossos escritores do Novo Testamento, encobrindo, mas jamais suprimindo os traços da personalidade humana! Quão interessante também é a ordem em que esses nove escritos aos cristãos hebreus ocorrem! Existe em todo o grupo um equilíbrio cuidadoso em seus respectivos aspectos. Não parece haver uma propriedade significativa no fato de Hebreus, que enfatiza a fé ser seguido por Tiago, insistindo nas boas obras? — que 1 Pedro, a epístola da esperança futura, devesse ser acompanhada por 2 Pedro, que se concentra no crescimento presente na graça? — que as epístolas de João, com sua ênfase no amor, fossem equilibradas por Judas, com seu chamado para contender pela fé? Não é também um final evidentemente aperfeiçoado, que esta lição progressiva combinando fé pelas boas obras, esperança futura pelo crescimento presente e amor fraternal lutando pela fé, devesse ser coroada pela promessa característica de Apocalipse — “Ao vencedor”!

A Pessoa de Tiago O nome “Tiago” ocorre 40 vezes no Novo Testamento. Uma comparação reduz isso para (1) Tiago, “filho de Zebedeu” e irmão do apóstolo João; (2) Tiago, “filho de Alfeu”; (3) Tiago, o “irmão” do Senhor (Mt 13.55; Mc 6.3). O primeiro deles foi martirizado por Herodes (At 12.2) cerca do ano 42 A.D. e não escreveu esta epístola. Há grande discussão sobre a idéia de (2) e (3) serem a mesma pessoa. Achamos que não e demos nossas razões num breve apêndice a este estudo. Existe muito mais interesse do que verdadeira importância na pergunta. O elemento prático é que o escritor de nossa epístola foi aquele Tiago que aparece em destaque no livro de Atos dos Apóstolos como uma espécie de presidente ou líder dos presbíteros e da assembléia cristã em Jerusalém.


A Importância Existe tanta correspondência entre o que vemos dele em Atos e o que ele escreve na epístola que uma coisa confirma a autenticidade da outra. Em Atos 12.17, lemos que na noite em que Pedro foi milagrosamente salvo da prisão de Herodes, ele deu estas instruções para o grupo em oração: “Anunciai isto a Tiago e aos irmãos” que é um primeiro indício da importância dele entre os líderes. Mais tarde, no capítulo 15, naquele primeiro e histórico concílio cristão, nós o encontramos ocupando claramente uma posição de liderança, fazendo um resumo (w. 13-18), apresentando a sentença de um presidente (w. 19-21: ego krino, julgo eu), e seu conselho de caráter presidencial sendo levado a efeito (22-31). Mais tarde ainda, no capítulo 21, lemos que Paulo, ao chegar a Jerusalém depois de sua terceira viagem missionária, “foi...encontrar-se com Tiago, e todos os presbíteros se reuniram” (v. 18), o que indica novamente uma primazia reconhecida. A Perspectiva Qual aperspectiva deste apóstolo em Atos? É a mesma que encontramos de novo em sua epístola. Existe o que poderia nos parecer uma estranha mistura de fé verdadeira em Cristo, com uma ardente veneração da lei mosaica. Tanto em Atos, como na sua epístola, o toque do evangelho soa claramente — a salvação individual é pela fé em Cristo; os gentios não são obrigados a “guardar a lei” (At 15.24); mas não existe separação entre a fé cristã judaica e a observância da economia mosaica. Isto provavelmente se deve à peculiaridade do período de transição coberto pelo livro de Atos (veja nossa introdução à Epístola aos Hebreus). Ela salienta a idéia de judeus “zelosos da lei” e uma consideração amável no sentido de não ofender os “milhares que creram” (21.20). Parece haver uma sagacidade refletida em Tiago, com uma forte tendência à rigidez religiosa. Pessoas assim talvez não se destaquem muito nem sejam originais, mas apresentam-se geralmente como líderes fortes e sábios, guiando com bom senso prático e evitando a precipitação. É característico o fato de, no concílio de Jerusalém (15), ser Pedro quem se levanta e propõe liberdade para os gentios do jugo da lei (w. 7-11) e o presidente Tiago quem apresenta as cláusulas restritivas (w. 20,29).


O Caráter Eusébio preserva uma descrição interessante de Tiago feita por Hegésipo, um escritor do início do segundo século. “Tiago, o irmão do Senhor, que, por haver muitos com o mesmo nome, recebeu o sobrenome de Justo por parte de todos, desde os dias do Senhor até agora e a quem foi dado o governo da Igreja com os apóstolos. Ele não bebia vinho nem bebida forte e abstinha-se de alimento de origem animal. Sua cabeça jamais foi tocada por navalha; nunca se ungiu com óleo e nunca se banhou. Não usava roupas de lã, mas apenas de linho fino. Tinha o hábito de entrar sozinho no templo, sendo quase sempre encontrado de joelhos, pedindo perdão pelo povo, de modo que seus joelhos tornaram-se duros como os de um camelo em conseqüência de suas súplicas habituais e de ajoelhar-se diante de Deus. De fato, por causa de sua grande justiça foi chamado Justo, também Oblias, que em grego é “defensor do povo”, como os profetas declaram com respeito a ele.” O bispo Lightfoot, em seu comentário de Gálatas, adverte-nos de que existem razões para não aceitar este registro muito literalmente; mas não há dúvida de que sua base é verdadeira. O Martírio Tiago foi martirizado. O historiador Joséfo coloca o evento entre a morte do governador Festo (veja Atos 25) e a vinda de seu sucessor, Albino, que, pelo nosso calendário, ocorreu em 62 A.D. Ele conta o fato assim: “César, ao ouvir da morte de Festo, enviou Albino como procurador para a Judéia... Ananias (o sumo sacerdote em Jerusalém) pensou que chegara então a sua oportunidade...reuniu portanto o sinédrio de juizes e apresentou diante deles o irmão de Jesus, chamado Cristo, cujo nome era Tiago, e alguns outros. Depois de ter formado uma acusação contra eles como infratores da lei, enviou-os para serem apedrejados...” A variação melodramática de Hegésipo, afirmando que Tiago foi atirado do pináculo do templo pelos escribas e fariseus e depois espancado até morrer, parece artificial e improvável.


Os Primeiros Leitores Antes de estudarmos a pequena epístola propriamente dita, chamamos atenção para os seguintes trechos de um artigo escrito pelo falecido Reitor E. C. S. Gibson: “Não podemos compreender bem a epístola, a não ser que lembremos que aqueles a quem ela é endereçada, ao se tornarem cristãos, não deixaram de ser iudeus. Temos provavelmente a tendência de exagerar o abismo que existia entre judeus e cristãos nos primeiros dia^da Igreja. No início, a pregação dos apóstolos era ‘mais uma purifica ;ão \ , que uma contradição da doutrina popular’. Os presentes em J j^alefimcí dia de Pentecoste devem ter levado consigo para casa pouco mfàfü&múo fato do messiado de Jesus e os rudimentos mais d-en^ntares do cristianismo. O evangelho pregado por aqueles 1qi : f^ m ^ p e rs o s por causa da tribulação que sobreveio a Estêvão’ (4íK l iâl^eria algo mais profundo, embora ainda incompleto. Ele foi 'C isente aos judeus’ e a ninguém mais, mas divulgou a nova fé emTlmk^rande região — ‘até à Fenícia, Chipre e Antioquia’. Assim, coiffihtòãáês cristãs seriam fundadas nos bairros judeus na maioria da-S^pè)ikès^jdades; mas devem ter passado anos antes de eles deixarem de seiKmdêHs’e de se separarem inteiramente das sinagogas, com uma orjSiSzaçãa própria definida e completa. Foi para comuni<fades\cmno/essas que ele (Tiago) estava escrevendo; talvez não para uníM grç^ cristã definitivamente organizada e mista, consistindo dSju(j^ygtentios, mas, em vez disso, para aquelas sinagogas que, c o m o ^ V w ia , haviam abraçado o cristianismo. Ele escreve a essas no esty-'' \ 1 W h o s antigos profetas. A sinagoga deles continuava aberta atfòd w(o§) moeus... Essas comunidades de cristãos judeus, na mente de Tia K^yitontravam-se na posição do Israel antigo e requeriam o mesmo 'tmtamento nas mãos dos mestres e profetas cristãos, como a Judéia e Sar iria receberam dos profetas da antiga aliança.”

A Epístola Propriamente Dita A epístola é dirigida “às doze tribos que se encontram na Dispersão”. Isto irá mostrar imediatamente quão necessários são os nossos parágrafos


preparatórios sobre os primeiros leitores a quem ela se dirigia. Só uma idéia bem informada desses primeiros cristãos judeus pode esclarecer certos parágrafos aparentemente estranhos e tornar algumas das referências na epístola inteiramente inteligíveis para nós. As “doze tribos que se encontram na Dispersão” eram os judeus espalhados em lugares fora da Palestina. Tiago escreve-lhes como presidente da assembléia cristã em Jerusalém. O propósito principal da epístola pode ser conhecido através das suas palavras iniciais e finais. Ela começa: “Meus irmãos, tende por motivo de toda a alegria o passardes por várias provações (ou tentações)”. O parágrafo final diz: “Sede vós também pacientes, e fortalecei os vossos corações, pois a vinda do Senhor está próxima” (5.8). Isso foi escrito para exortar e consolar os irmãos que estavam sendo provados — testes e sofrimentos que eles já estavam passando por causa de sua fé cristã. A Data Mais Antiga A data provável desta epístola é de peculiar importância. As indicações são de que foi o primeiro de todos os documentos escritos do Novo Testamento. A “linha bem tênue” que parece existir entre o judaísmo e o cristianismo; a “ausência de fraseologia cristã definida”; a escassez de “doutrina cristã específica”; a falta de referência ao cristianismo gentio — todas essas considerações são sugeridas como indicando sua data bastante remota. De acordo com esta, acha-se a circunstâácia de que, nos manuscritos mais antigos, ela se apresenta como a primeira dessas epístolas judaico-cristãs que precedem o grupo paulino. Admitindo então esta data mais antiga, como é vazia de sentido a sugestão de alguns de que a epístola de Tiago contém uma resposta contrária aos escritos de Paulo — os quais ainda não haviam sido redigidos! Argumento e Tema O argumento da epístola é que a verdadeira fé cristã deve expressar-se em bondade prática. Assim, em toda a carta, a ênfase é dada às boas obras. Esta ênfase é com certeza muito necessária. Não existe contradição entre


Paulo, com sua ênfase principal na fé, e Tiago, com sua insistência sobre as boas obras. Tiago não defende as boas obras como um meio de salvação, mas como um produto desta. Portanto, argumentar (como alguns tentaram) que esta epístola é uma espécie de polêmica contra a doutrina da justificação pela fé apresentada por Paulo (repetimos para enfatizar) é completamente absurdo', pois mesmo que a epístola não seja o primeiro artigo do Novo Testamento, não pode haver praticamente dúvida de que nem Romanos nem Gálatas haviam sido escritos quando Tiago redigiu a sua carta. Podemos dizer que o tema desta epístola tem como base as provas da verdadeirafé. Muitos de nós fariam bem çm enfrentar repetidas vezes essas provas. Elas são expressas aqui e ali em tons severos, existindo, porém, sempre uma atmosfera de fraternidade cordial (as palavras, “meus irmãos” ou “meus amados irmãos”, ocorrem mais freqüentemente aqui do que em qualquer outra epístola, exceto 1 Tessalonicenses). Devemos também acrescentar que além de sérias advertências, encontramos nesta epístola algumas das promessas mais preciosas feitas ao povo de Cristo que já foram escritas pela pena inspirada. Recomendamos que todos se familiarizem com ela em espírito de oração.

Análise e Comentários Não podemos concordar, de modo algum, com os que dizem que a epístola é “quase impossível de ser analisada”. Não se trata simplesmente de uma cadeia de pensamentos seguidos, mas existem áreas facilmente distinguíveis. O capítulo 1 trata decididamente da tentação e de outras considerações ligadas a ela (veja os w. 2 ,12,13,14; depois o v. 17, que nos assegura que, em vez de tentação, só o bem vem do alto). Aprimeira prova da verdadeira fé, diz Tiago, é suportar q tentação. O capítulo 2 é também dedicado à bondade imparcial como outra prova da realidade da fé (veja especialmente os w. 1-4,14-18). O capítulo 3 apresenta uma descrição vívida e severa sobre o controle da língua como outra prova da verdadeira fé cristã. Foi dito com propriedade que não existe um parágrafo mais “veemente e vibrante” no Novo Testamento.


O restante da carta (4.1-5.6) exorta-nos à santidade em todas as coisas — numa série de destaques rápidos sobre aspectos sucessivos. Não existe aqui necessidade de uma análise mais demorada. Vamos observar claramente o assunto central e suas principais extensões: A EPÍSTOLA DE TIAGO

Tema: As Provas da Fé PROVA 1 - SUPORTAR A TENTAÇÃO (1). PROVA 2 - BONDADE IMPARCIAL (2). PROVA 3 - CONTROLE DA LÍNGUA (3). PROVA 4 - SANTIDADE EM TUDO (4-5.6). Estímulos finais, 5.7-20 Cada uma dessas seções abre-se em resposta a um novo estudo, como um flor abriria suas pétalas para o sol. Veja o primeiro capítulo com suas palavras sábias e ponderadas sobre a tentação. Os w 2-12 mostram-nos a reação certa à mesma. Os w 13-20 contam-nos a sua verdadeira origem. Os w. 21-27 dão-nos o melhor antídoto para ela. Reflita sobre isso por alguns momentos. (1) A reação certa para a tentação. Se não estivéssemos tão familiariza­ dos com a fraseologia deveríamos compreender imediatamente que sen­ tido novo e belo Tiago dá ao tema quando diz, “Meus irmãos, tende por .. motivo de toda a alegria”. Trata-se de um paradoxo que, de certo modo, quase nos tira a respiração. Quantos crentes em Cristo, até mesmo neste avançado século vinte da era cristã, consideram realmente as suas provações como motivo de alegria? Não continua sendo natural e comum considerá-las desgraças lastimáveis e aborrecedoras? É possível que até nós mesmos estejamos necessitados de mais doses do remédio de Tiago! Mas por que ele quer que tenhamos “por motivo de toda a alegria” sermos tentados? A resposta que nos dá é a seguinte: Porque a tentação pode ser transformada em um ministério de bênção espiritual: “aprovação da vossa fé, uma vez confirmada, produz perseverança. Ora, a perseverança deve ter ação completa, para que sejais perfeitos e íntegros, em nada deficientes”.


Como pode a tentação ser assim transformada? A resposta é: (a) aproxime-se de Deus em oração — ver w. 5-8; (b) aceite as ordens da providência com gratidão — veja w. 9-11; (c) esteja certo de que através da perseverança haverá uma coroação final — veja o v. 12. (2) A verdadeira origem da tentação. É bom ter a palavra de um apóstolo a este respeito, pois numa época de tentação ou tribulação aguda é fácil surgirem idéias erradas sobre Deus. Tiago quer que tenhamos a mente firmada em três coisas: (1) a tentação, no sentido de convite para o mal, jamais provém de Deus — veja o v. 13; (2) ela surge quando permitimos que o desejo interior nos incline para a cobiça —veja w. 14 e 15; (3) em lugar da tentação ser gerada por Deus, só coisas “boas e perfeitas” vêm do “alto” — veja w. 16 e 17. Então, como Deus poderia nos tentar quando “segundo o seu querer, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como que primícias das suas criaturas” (v. 18)? (3)0 melhor antídoto para a tentação. Devemos ser rápidos em perceber como os versículos restantes do capítulo procedem dos anteriores. Tiago acabou de dizer que Deus nos “gerou”, ou “nos fez surgir” pela “palavra da verdade” (v. 18) e que, portanto, “todo homem seja pronto para ouvir” (v. 19). Ele agora prossegue, dizendo: “Portanto...acolhei com mansidão a palavra em vós implantada, a qual é poderosa para salvar as vossa almas” (v. 21). “Tornai-vos, pois, praticantes da palavra, e não somente ouvintes, enganando-vos a vós mesmos. Porque, se alguém é ouvinte da palavra e não praticante...” Esta é a maior segurança contra a tentação — a palavra de Deus em nosso íntimo, iluminando a menté, purificando o coração, reprimindo as inclinações e firmando a vontade! É esta que prova ser “a perfeita lei da LIBERDADE” (v. 25), quando recebida com sinceridade e fielmente obedecida! Tiago e Paulo Não tentaremos discutir o texto de 2.21-26, esse campo de batalha do suposto conflito (mas inexistente) entre Tiago e Paulo. Em nossos ouvidos soam as palavras de Tiago: “nossos amados Barnabé e Paulo” (At 15.25), e as de Pedro, já envelhecido: “nosso amado irmão Paulo” (2 Pe 3.15). Sabemos muito bem, que em Romanos 4, Paulo diz que Abraão foi justificado pela/é, enquanto Tiago pergunta: “Não foi por obra que o nosso


pai Abraão foi justificado, quando ofereceu sobre o altar o próprio filho, Isaque?” Mas a referência a Isaque deveria impedir qualquer mal-entendido de nossa parte. A justificação de Abraão pelafé foi anterior ao selo da circuncisão. Ele ofereceu Isaque vinte anos mais tarde\ o homem que foi então agora justificado pelas obras já havia sido justificado pela/é durante vinte anos! Se Tiago tivesse consciência de qualquer contradição, por menor que fosse, teria ele citado logo após o próprio versículo (Gn 15.6) que fala da justificação de Abraão pela fé?"} — “Ora, Abraão creu em Deus e isso lhe foi imputado para justiça” (Tg 2.23). A dupla posição é, pois: A fé justifica o homem, as obras justificam a fé. Palavras Finais Cada parte da epístola contém pontos de interesse intenso, mas as referências finais à volta do Senhor, a Jó e Elias, à doença e conquista de almas, são especialmente significativas. A menção à cura sobrenatural do corpo exige comentário. Existe com freqüência um ministério de graça no sofrimento. Antes de considerarmos ter havido uma cura, devemos verificar se a doença não é apenas comum, provocada por causas naturais, ou se trata de uma “aflição”; ou seja, alguma medida de correção divinamente imposta. Tiago faz esta distinção: “Está alguém entre vós doente? Chame os presbíteros da igreja, e estes façam oração sobre ele, ungindo-o com óleo em nome do Senhor. E a oração da fé salvará o enfermo”. “Está alguém entre vós sofrendo? Faça oração” (w. 14,15,13). A cura não é prometida para o “sofrimento”. A única prescrição é: “Faça oração”. “Afirmar” libertação de algo que o próprio Deus impôs deliberadamente ou permitiu acontecer é contrariar a vontade de Deus. Com os últimos traços de sua pena, Tiago diz palavras encorajadoras aos conquistadores de almas. Devemos notar que esta foi a última coisa em que pensou. “Sabei que aquele que converte o pecador do seu caminho errado, salvará da morte a alma dele, e cobrirá multidão de pecado” (5.20). Há uma consideração terna na palavra: “Sabei”. Note bem: o Espírito Santo queria que o ganhador de almas “soubesse”. Mas isso é de surpreender quando analisamos a terrível idéia — “salvará da morte & alma dele”? Que profundidade terrível existe nesse termo “morte”! Como usado aqui, significa aquela morte maior no Além, que a Bíblia chama de


“segunda morte”. Os tempos do verbo indicam isso, pois enquanto “converte” está no presente, denotando algo que acontece aqui e agora, o verbo “salvará” é futuro, indicando uma salvação que se estende até a eternidade. Note que Tiago fala no singular —“o pecador”, “a alma”. Veja aqui a importância de uma alma, de qualquer alma! Salvar uma alma de tal morte é mais do que uma vida inteira dedicada à “reforma social” externa. O conquistador de almas é tanto anônimo como singular — “aquele que converte”; não há menção de teólogos, pregadores ou evangelistas. Apesar das circunstâncias mais limitadas, qualquer de nós precisa sentir-se inteiramente incapaz de testemunhar a outros com vistas a sua salvação em Cristo? Como seria bom ganhar mais jóias vivas para a sua coroa! Isso nos faria cumprir a mais sublime de todas as funções junto a nossos semelhantes, obedecendo ao último mandamento do Senhor e recebendo a maior recompensa. “SABEI QUE AQUELE QUE CONVERTE O PECADOR DO SEU CAMINHO ERRADO, SALVARÁ DA MORTE A ALMA DELE, E COBRIRÁ MULTIDÃO DE PECADOS.”

Nota Adicional: Quem era Tiago? Conforme já explicado, as 40 ocorrências do nome “Tiago” em nosso Novo Testamento distribuem-se entre (1) Tiago, “filho de Zebedeu” e irmão de João; (2) Tiago, “filho de Alfeu”; (3) Tiago, o “irmão do Senhor” (Mt 13.55). O primeiro deles foi martirizado por Herodes (At 12.2). Tem havido muita controvérsia quanto a (2) e (3) serem a mesma pessoa. Nossa razão para abordar essas questões nesta série de estudos é que a investigação sempre produz informação útil. A nosso ver, as indicações são as seguintes. 1. 2. 3.

João 19.25 afirma claramente que Maria, mulher de Clopas, era “irmã” da mãe do Senhor. Em claro paralelo, Mateus 27.56 dá esta Maria como “mãe de Tiago e de José”. Em outro paralelo, Marcos 15.40 chama este Tiago de


“Tiago, o menor” (i.e., em estatura). Este Tiago, filho de Clopas ou Alfeu (e, portanto, primo do Senhor), era um dos doze apóstolos (Mt 10.3; Mc 3.18; Lc 6.15). 5. Este apóstolo-primo, Tiago, reaparece com os apóstolos em Atos 1.13 e (seguramente, sem qualquer insinuação contrária) em 12.17; 15.13; 21.18. 6. Concluímos, portanto, que o Tiago a quem Paulo chama de “irmão” do Senhor e de “apóstolo” em Gálatas 1.19; 2.9,12, deve ser o mesmo Tiago.

4.

Até aqui, tudo parece correto; mas a controvérsia começa no momento em que se faz a pergunta: Este apóstolo Tiago era a mesma pessoa que o Tiago em Mateus 13.55 e Marcos 6.3, chamado de um dos irmãos do Senhor? — “Não é este o filho do carpinteiro? Não se chama sua mãe Maria, e seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas? Não vivem entre nós todas as suas irmãs?” Nossa resposta é que os dois não devem ser confundidos, pelas seguintes razões: (1) Esses “irmãos” do Senhor estão ligados com o “carpinteiro” (i.e., José) e Maria e não com Alfeu e Maria, os pais do outro Tiago. (2) Nos evangelhos esses “irmãos” do Senhor são mantidos perfeitamente separados dos seus apóstolos e até dos seus discípulos em geral (Mt 12.46; Mc 3.31; Jo 2.12; 7.3), e somos informados como um todo que não criam nEle; veja João 7.5. (3) Em Atos 1.13,14, “Maria, mãe de Jesus, e os irmãos dele”, continuam ainda bastante separados dos Doze, embora esses irmãos cressem agora nEle. Não existe um traço de evidência de que esses “irmãos” que são mencionados cada vez com a mãe do Senhor sejam apenas seus primos (como declaram os que querem identificar este “irmão” Tiago com o primo Tiago que era apóstolo); mas existe ampla evidência de que o primo Tiago (filho de Alfeu e da Outra Maria) foi o apóstolo que se tornou presidente entre os líderes cristãos em Jerusalém. Foi este Tiago que escreveu a nossa epístola. Ele era primo do Senhor. Quanto a Tiago, José, Simão e Judas, que eram “irmãos” do Senhor na família de José, a tradição e a probabilidade unem-se para torná-los filhos de José através de um casamento anterior. Eram, portanto, enteados de Maria e legalmente (embora não realmente) meio-irmãos do Senhor. O fato de serem mais velhos talvez explique sua atitude de constrangimento


e crítica para com Jesus (Mc 3.21 com o v. 31; Jo 7.3,4) e talvez sublinhe sua incredulidade (Jo 7.5); sugerindo também uma razão para Jesus, na cruz, ter entregue Maria aos cuidados de João em lugar de aos seus meio-irmãos pouco amigáveis, os enteados de Maria. J. A. McClymont em sua obra “The New Testament and Its Writers” (O Novo Testamento e Seus Escritores”) diz: “Segundo uma tradição, da qual não temos razão para duvidar, a conversão deles se deveu ao fato de o Senhor ressurreto ter aparecido aTiago, como mencionado em 1 Coríntios 15.7”. Mas foi a esse Tiago que o Senhor apareceu? Não foi ao apóstolo Tiago? Parece-nos estranho encontrar alguém como o Dr. McClymont acrescentando inutilmente: “Entre os cristãos de Jerusalém, Tiago logo teve uma posição de destaque, sendo de fato reconhecido como chefe da igreja dali, após a morte de Tiago, irmão de João (44 A.D.), e da dispersão dos outros apóstolos. Esta posição de comando foi parcialmente devida à sua relação especial com Jesus...” Assim, o Dr. McClymont supõe, como fazem outros, que o Tiago de nossa epístola, que se tornou líder da assembléia de Jerusalém, não era o apóstolo-primo Tiago, mas o meio-irmão do Senhor. Nós, no entanto, não podemos aceitar isto, pois significaria que Lucas, em Atos, tendo mencionado o apóstolo Tiago no início (1.13), repentinamente o coloca de lado, e sem qualquer palavra de explicação passa a se referir a outro Tiago nos capítulos 12.17; 15.13-21; 21.18-25 — um Tiago que não acompanhara o Senhor em seu ministério terreno, não ouvira seus ensinamentos ao círculo íntimo, e que não era um apóstolol Não, isto não pode ter sido assim. Mas apenas nos convence de que o Tiago que se tornou líder em Jerusalém e escreveu a nossa epístola do Novo Testamento era Tiago, filho de Alfeu e Maria, oprimo do Senhor e bem diferente do Tiago, meio-irmão do Senhor. O fato de Paulo, anos depois, referir-se ao nosso apóstolo Tiago como irmão do Senhor (G11.19; 2.9) não oferece qualquer dificuldade. Havia um modo mais estrito (legal) e outro mais livre (parentesco) de usar a palavra “irmão”. Como participante do círculo íntimo da família de parentes do Senhor, o apóstolo-primo poderia ser perfeitamente chamado de irmão. Em qualquer caso, quando Paulo se referiu a Tiago como um dos “apóstolos” (G11.19) seria difícil que estivesse falando do outro Tiago, o meio-irmão do Senhor, pois até onde sabemos ele jamais se tomou apóstolo. Não queremos parecer desnecessariamente confiantes, mas, para sermos francos, acreditamos que as informações são tão claras e


homogêneas que ficamos surpresos com a possibilidade de terem surgido dúvidas quanto à identidade do Tiago que escreveu a epístola. PERGUNTAS SOBRE HEBREUS E TIAGO 1. A difusão do evangelho não levantou apenas a questão: Como isto se relaciona com Israel como a nação da aliança? mas também a seguinte pergunta: Como isto tudo se reladona com...? ...? Você pode preencher estes espaços em branco? 2. A discussão deste assunto em Hebreus foi superada, a fim de nos dar uma belíssima revelação d o ... Senhor. 3. Quais os leitores a quem esta carta foi dirigida primeiramente? Você pode esclarecer isto com referências aos Atos dos Apóstolos? 4. Quais são as duas palavras-chave e qual a passagem central da epístola? 5. Quais as três divisões principais da epístola? 6. Nos capítulos 8 a 10.18, quais as quatro maneiras em que a nova aliança é “superior” à antiga? 7. De que forma o último capítulo de Hebreus influencia especialmente a autoria da epístola? 8. Quais são as quatro alternativas sugeridas em lugar de considerar Paulo como autor de Hebreus? Você acha alguma delas provável? Por que? 9. Quem foi o Tiago que escreveu a epístola com esse nome? 10. Você pode fazer um breve comentário sobre (1) a importância, (2) o ponto de vista e (3) o caráter deste Tiago? 11. Qual o tema principal de sua epístola e quais as quatro partes ou aspectos (correspondendo aos quatro capítulos)? 12. Você pode dar duas boas razões pelas quais Tiago 2.26 não teria possibilidade de ser um argumento contrário à doutrina de Paulo de que Abraão foi justificado pela fé?


A PRIMEIRA EPISTOLA DE PEDRO Lição nQ41


NOTA: Leia 1 Pedro inteiro pelo menos duas vezes para este estudo, anotando as ênfases principais. No chão da entrada principal de uma belíssima catedral européia, em três grandes pedras de mármore, estão escritas as seguintes palavras: na primeira, CREDO; na segunda, SPEIRO; na terceira, AMO. Essa é também a ordem em que os três principais escritores do Novo Testamento se apresentam. Em primeiro lugar vem o apóstolo Paulo, que é definitivamente o apóstolo dafé. A seguir temos Pedro, com sua ênfase na esperança. E finalmente João, que se concentra no amor. “Eu creio”. “Eu espero”. “Eu amo.” Esta parece ser igualmente a ordem comum de progresso na experiência espiritual dos crentes. /. S. B.


A Primeira Epístola de Pedro fica em terceiro lugar entre as nove epístolas aos cristãos hebreus que constituem o grupo final de livros do Novo Testamento. O fato do apóstolo Pedro ser realmente o autor é confirmado tanto por evidências internas como externas, conforme a maioria dos eruditos. É bastante provável que ambas as epístolas foram escritas no período final de sua vida na terra. A primeira carta foi escrita aos “forasteiros da Dispersão” (1.1). As palavras, “da Dispersão”, eram o termo judeu usado para os muitos milhares de judeus que, desde o cativeiro na Assíria e Babilônia, registrado no Antigo Testamento, haviam sido dispersos através das regiões onde esses impérios haviam dominado anteriormente. Pedro está, portanto, escrevendo claramente, embora não exclusivamente, a cristãos hebreus. Não parece existir qualquer indicação na epístola de que Pedro tenha feito contato com muitos daqueles a quem escreve; não há também nada de natureza controvertida em seu conteúdo. Seu propósito evidente é encorajar e fortalecer os crentes judeus durante uma época de provação e crise agudas. Acredito que veremos, porém, que ela tem aplicação peculiar à nossa própria época e aos últimos dias que aparentemente estão chegando. Vamos então examinar a epístola como ela se apresenta diante de nós. Evitemos forçar qualquer análise pre-fabricada sobre a mesma, e esperemos que o pequeno documento nos ofereça seu segredo precioso (pois creio que o Espírito Santo colocou alguma jóia especial de verdade em cada parte das Sagradas Escrituras).

A única observação preliminar que gostaria de fazer sobre o arranjo ou estrutura da pequena epístola é que a doxologia e o “amém” em 4.11 marcamevidentemente uma interrupção importante e deliberada, ou seja, “Para que em todas as coisas seja Deus glorificado, por meio de Jesus Cristo, a quem pertence a glória e o domínio pelos séculos dos séculos. Amém”. Até esse ponto, Pedro esteve falando de provações que já tinham surgido; mas depois desse “amém”, ele fala de um “fogo ardente” que estavaparavir: “Amados, não estranheis o fogo ardente que surge no meio de vós, destinado a provar-vos, como se alguma coisa extraordinária vos


estivesse acontecendo”. Note essa forma de saudação — “Amados”. Ela só ocorre novamente em 1 Pedro 2.11, onde, do mesmo modo, parece marcar o início de uma nova seção. Todavia, iremos “verificar” isso, à medida que lermos a epístola juntos. Vamos ler juntos o capítulo 1, notando seus aspectos especiais. Imediatamente após sua saudação de abertura, Pedro começa com uma doxologia de agradecimento (v. 3) pela grande bondade de Deus que “segundo a sua muita misericórdia nos regenerou para uma VIVA ESPERANÇA mediante a ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma herança...” O pensamento desta viva esperança é expandido nos versículos seguintes (w. 5,7,8,11,13,21). De fato, um novo olhar mostrará que todos os versículos, até o décimo segundo, declaram a esperança e os w. 13-21 mostram a reação certa em relação a ela: “Por isso, cingindo o vosso entendimento”, etc. Como é interessante verificar que, no v. 22, Pedro se desvia para discorrer sobre a “PALAVRA VIVA”! — “Tendo purificado as vossas almas, pela vossa obediência à verdade, tendo em vista o amor fraternal não fingido, amai-vos de coração uns aos outros ardentemente, pois fostes regenerados, não de semente corruptível, mas de incorruptível, mediante a palavra de Deus, a qual vive e é permanente”. O “portanto” com que o capítulo 2 se inicia, mostra a nossa verdadeira reação a essa “palavra viva” (2.1-3). Mais interessante ainda é descobrir que a próxima sub-seção (2.2-10) é toda sobre a “PEDRA QUE VIVE”! — “Chegando-vos para ele (Cristo), a pedra que vive, rejeitada sim, pelos homens, mas para com Deus eleita e preciosa” (v. 4). Os versículos 5-10 nos explicam a nossa relação nesse aspecto: “Também vós mesmos, como pedras que vivem, sois edificados casa espiritual para serdes sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais”. Paulo discorre então na primeira parte da epístola sobre três realidades “vivas” da nossa fé e vida cristã: A “viva esperança” (1.3). A “palavra viva” (1.23). A “pedra viva” (2.4). Não se trata de essas coisas serem mencionadas por acaso; a seção inteira refere-se a elas. No texto de 1.3-21 tudo está associado à “esperança


viva” e nossa reação a ela. Em 1.22-2.3. tudo se refere à “Palavra viva” e também à nossa reação a ela. Em 4.2-10, tudo diz respeito à “pedra viva” e nossa relação com ela.

A Esperança Viva O que mais se destaca na primeira seção inteira é a “viva esperança" que é nossa em Cristo. Nossa atenção é dirigida para esse ponto no verso de abertura: “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo que, segundo a sua muita misericórdia, nos regenerou para uma ESPERANÇA VIVA mediante a ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma herança incorruptível, sem mácula, imarcescível, reservada nos céus para vós outros”. A “Palavra viva” e a “Pedra viva” são o penhor e a base que tornam nossa “viva esperança” imperecível e indestrutível.

A Vida do Peregrino Vamos continuar agora nossa leitura cuidadosa da epístola. Recomecemos em 1 Pedro 2.11 com esse “Amados”. De imediato, compreendemos que uma nota diferente está sendo tocada. Existe uma mudança de explicação para exortação. Pedro está nos contando sobre a vida do peregrino e como vivê-la. Isto pode ser facilmente verificado, se lermos devagar, a partir do verso onze: “Amados, exorto-vos, como peregrinos e forasteiros que sois, a vos absterdes das paixões carnais que fazem guerra contra a alma”. Como tudo é metódico e progressivo! A seguir, somos informados de como devemos viver a vida de peregrino na condição de cidadãos (2.12-17), empregados (2.18-25), pessoas casadas (3.1-7); depois em relação aos de fora e na perseverança no sofrimento (3.8-4.6), e finalmente em relação a outros crentes e no prestar de serviço mútuo (4.7-11). A linha divisória nesta parte da carta de Pedro é, evidentemente, a doxologia final e o “amém” do texto de 4.11: “para que em todas as coisas seja Deus glorificádo, por meio de Jesus Cristo, a quem pertence a glória


e o domínio pelos séculos dos séculos. Amém”. A observação das tendências modernas convence-me de que existe razão acentuada para nos demorarmos, hoje, refletida e freqüentemente sobre os parágrafos de Pedro a respeito da vida do peregrino. Muitos cristãos professos não seguem o padrão do peregrino. A grande tendência atual é viver como colonizadores e não como peregrinos, como proprietários e não como despenseiros, e segundo os moldes humanos de cidadania, emprego e casamento, em vez de se conformarem aos ideais divinos aqui estabelecidos. O objetivo constante e supremo da vida do peregrino é glorificar a Deus em todas as coisas — como súditos, empregados, esposas, maridos, e nos contatos sociais, no sofrimento e em nossa confraternização com outros crentes.

O Fogo Ardente Como dissemos, a doxologia e o “amém” em 4.11 indicam evidentemente uma divisão principal no tratado de Pedro. É difícil para mim compreender como alguém pode deixar de ver isto, especialmente à luz do que se segue. Pedro está claramente preocupado com respeito a uma tribulação ainda futura mas que, certamente viria sobre os cristãos. Ele começa: “Amados, não estranheis o fogo ardente que surge no meio de vós, destinado a provar-vos, como se alguma coisa extraordinária vos estivesse acontecendo” (4.12 etc.). Assim, o que podemos supor que Pedro tinha em mente quando falou desse modo sobre o “fogo ardente” ainda futuro? Sem dúvida, como confirmam os versículos subseqüentes, ele estava pensando no que é geralmente chamado de “a grande tribulação”, profetizada para ocorrer no final da era presente. A passagem sobre o “fogo ardente” de Pedro é paralela aos ensinamentos de Paulo e João, no sentido de a volta de Cristo ser precedida por um período breve, mas crítico, de excessiva tribulação para os santos na terra. Veja como a segunda vinda de Cristo ganha proeminência na mente de Pedro aqui.


“Alegrai-vos na medida em que sois co-participantes dos sofrimentos de Cristo, para que também na revelação de sua glória vos alegreis exultando” (4.13). “Rogo, pois, aos presbíteros que há entre vós, eu, presbítero como eles, e testemunha dos sofrimentos de Cristo, e ainda co-participante da glória que há de ser revelada” (5.1). “Ora, logo que o Supremo Pastor se manifestar, recebereis a imarcescível coroa da glória” (5.4). Note igualmente como certos aspectos desta seção sobre o “fogo ardente” assumem agora novo significado. Observe esse quadro do final dos tempos com referência a Satanás no v. 8: “Sede sóbrios e vigilantes. O diabo, vosso adversário, anda em derredor, como leão que ruge procurando alguém para devorar”. O paralelo entre essa passagem e Apocalipse 12.12, com sua representação apocalíptica de Satanás na mesma época de crise dos últimos dias, fica bem evidente: “Ai da terra e do mar, pois o diabo desceu até vós, cheio de grande cólera, sabendo que pouco tempo lhe resta”! O disfarce de “anjo de luz” será removido e ele surgirá como o assassino de almas maligno que realmente é, arranhando, dilacerando e destruindo selvagemente como o “leão que ruge” e o “grande dragão vermelho”. Portanto, esse é o período de “fogo ardente” previsto por Pedro. Reflita novamente sobre a passagem com isso em mente. Ela brilha com um novo significado em sua relevância profética para o fim dos tempos que se aproxima de nós. Veja, porém, esse belíssimo estímulo no v. 7: “Lançando sobre ele toda a vossa ansiedade, porque ele tem cuidado de vós”. Esse voto e promessa têm sido sempre preciosos para o povo de Cristo. Quantas vezes nos aproximamos dos pés do Salvador levando nosso fardo de ansiedade e encontramos consolo indizível na confirmação: “Ele tem cuidado de vós!” Pense nisso — Aquele que leva o universo nos ombros, carrega a você e a mim continuamente em seu coração. Debaixo de nosso fardo de cuidados aparentemente grande, mas comparativamente pequeno na verdade, estão os braços fortes e o sustento temo de uma sabedoria, um poder e um amor infinitos, que jamais nos abandonarão, nunca desistirão de nós e de modo algum nos afastarão! A promessa tem sido sempre preciosa. Ela representa um arco-íris de sete cores num céu cinzento. Ela tem


transformado pesos em asas, fardos em bênçãos e suspiros em cânticos. Todavia, quando apreciada em seu cenário é que se torna ainda mais maravilhosa. Pondere sobre a mesma considerando o seu contexto. Quando os problemas do “fogo ardente” e da “grande tribulação” começarem a surgir no final desta era é que os corações piedosos irão provar mais plenamente o entusiasmo triunfante desta garantia antecipada: “Lançando sobre ele toda a vossa ansiedade, porque ele tem cuidado de vós”. Há muita controvérsia sobre se a Igreja irá escapar da “grande tribulação” ou atravessá-la. Algumas vezes os argumentos têm sido bastante desfigurados pelo dogmatismo obstinado, a extravagância fanática e a recriminação lamentável, de modo que a perspectiva entusiasmada da Igreja quanto à volta do Senhor tem sido depreciada. Que o Senhor nos poupe de uma disputa tão pouco cristã sobre o assunto! Com os olhos agradecidos, examinando a passagem de Pedro sobre o “fogo ardente” que virá, tudo o que gostaria de dizer é que não precisamos ter medo, não importa o que possa ocorrer nos dias futuros. Ele previu tudo. “Lançando sobre ele toda a vossa ansiedade, porque ele tem cuidado de vós”! Se você tivesse conversado com Sadraque, Mesaque e Abede-Nego depois de sua experiência na “fornalha ardente” e tivesse expressado seus sentimentos por eles terem tido de suportar essa provação, o que acha que responderiam? Teriam negado delicadamente todo direito à sua simpatia e assegurado que a provação pelo fogo fora a maior experiência de suas vidas; pois foi ali, na fornalha sete vezes aquecida, que eles encontraram repentinamente o próprio Cristo, andando a seu lado por entre as chamas e transformando a “fornalha ardente” em um jardim do Éden refrescado pelo orvalho! Não tema o futuro, crente em Cristo. “Ele tem cuidado de vós.” Ele lhe prometeu antecipadamente: “lance sobre ele toda a sua ansiedade”. Esta é a mensagem que chega até nós na divisão final de Pedro sobre o “fogo ardente”. Depois disso, Pedro termina sua carta com uma segurança e doxologia finais: “Ora, o Deus de toda a graça, que em Cristo vos chamou à sua eterna glória, depois de terdes sofrido por um pouco, ele mesmo vos há de aperfeiçoar, firmar, fortificar e fundamentar. A ele seja o domínio, pelos séculos dos séculos. Amém.” Eu também vou parar aqui. Mas recapitule outra vez apequena epístola


A PRIMEIRA EPÍSTOLA DE PEDRO

e tome posse da glória da sua mensagem tríplice: A Viva Esperança. A Vida do Peregrino. O Fogo Ardente. Como é bela esta pequena carta escrita pela pena de Pedro! Que consolo, desafio e ânimo deve ter levado àqueles primeiros crentes! Que forte segurança ela traz até nós, varando os séculos, justamente quando o clímax da história está começando a delinear-se à nossa frente! De alguma forma, esses quadros escatológicos antecipados do Novo Testamento ganharam “vida” de um modo diferente durante as últimas décadas. Os poderes desencadeados do mundo material, desde a divisão do átomo; o aparecimento de um vasto movimento internacional anti-Deus; a volta considerável à Palestina do povo israelita ainda incrédulo —esses e outros sinais, entrando simultaneamente em destaque, só podem significar uma coisa, ou seja, que a aurora dourada que trará nosso amado Rei de volta está próxima, “Amém. Vem Senhor Jesus”! A epístola apresenta-se como segue em uma análise em bloco: PRIM EIRA EPÍSTOLA DE PEDRO

CRISTO NOSSA ESPERANÇA E EXEMPLO EM MEIO ÀS PROVAÇÕES Saudação 1.1-2 A VIVA ESPERANÇA - E SEUS COMPLEMENTOS (1.3-2.10). A “viva esperança” (13-12) e nossa reação a ela (13-21). A “palavra viva” (22-25) e nossa reação a ela (2.1-3). A “pedra viva” (2.4) e nossa relação com à mesma (2.5-10). A VTDA DO PEREGRINO - E COMO VIVÊ-LA ' ” (2.11-4.11). Como cidadãos (2.12-17), servos (18-25), casados (3.1-7). Quanto aos de fora e à perseverança no sofrimento (3.8-4.6). Quanto aos outros crentes e ao serviço mútuo (4.7-11).


O “FOGO ARDENTE” E COMO SUPORTÁ-LO

(4.12-5.11). “Alegrai-vos” e “encomendem”: a volta do Senhor está próxima (4.12-19). Os presbíteros devem servir de exemplo, devido à volta do Senhor (5.1-4). Todos devem ser humildes e vigilantes — com vistas à glória futura! (5.5-11). Despedida 5.12-14

Vamos cada vez mais rejubilar-nos nessa viva esperança. Vamos buscar diariamente graça para viver como peregrinos. Ponhamos de lado todo temor do “fogo ardente” da provação, pois mesmo esse “fogo ardente” leva ao triunfo final. Ó Bendita esperança! com este estímulo, Que nossos corações não fiquem desolados; Mas, fortes em fé e paciência, aguardem Até que Ele venha!


A SEGUNDA EPÍSTOLA DE PEDRO E A EPÍSTOLA DE JUDAS Lição nQ42


NOTA: Para este estudo, leia duas ou três vezes as duas curtas epístolas.

A RESPEITO DE 2 PEDRO A majestade do Espírito de Cristo manifesta-se em cada parte da epístola. —João Calvino Existe uma forte probabilidade de ela ter sido escrita antes da destruição de Jerusalém. De outro modo, uma ocasião tão impressionante do juízo divino, dificilmente teria deixado de receber ênfase ao aludir à justiça retributiva de Deus. Ao mesmo tempo, os erros e perigos descritos nesta epístola, que, em certos aspectos possui grande semelhança aos referidos nas epístolas pastorais (1 Tm 4.1, 2; 6.5, 20, 21; 2 Tm 2.18, 3.1-7), provam que ela não poderia ter sido escrita muito antes de 70 A.D. A alusão às epístolas de Paulo como sendo conhecidas dos leitores (3.15,16), leva à mesma conclusão, como faz também a freqüência da expressão “lembranças” e palavras afins (1.12,13,15; 3.1,2), que indicam um período avançado na era apostólica, assim como na vida de Pedro —aceitando ser ele o escritor. —J. A. McClymont, D.D.


A SEGUNDA EPÍSTOLA DE PEDRO E A EPÍSTOLA DE JUDAS Parece vantajoso combinar essas epístolas neste estudo, por serem ambas curtas e bastante semelhantes entre si. De fato, existe uma semelhança tão grande entre a carta de Judas e o segundo capítulo de 2 Pedro que (como muitos supõem) uma delas deve ter sido um resultado da outra, ou então ambas receberam forte impressão de um original comum. A opinião geral dá prioridade de data a Judas. Sua acusação e crítica violenta são mais agudas e indignadas contra os malfeitores perversos cujas doutrinas falsas e vidas pecaminosas ela descreve, como se tivesse entrado em confronto direto com eles; enquanto as palavras poderosas, mas bem mais tranqüilas de 2 Pedro, poderiam sugerir, por comparação, um contato menos direto, e um impacto a partir das revelações surpreendentes feitas por Judas. Existe muito mais em 2 Pedro do que esta passagem tão semelhante a Judas, o que sugere que a última foi utilizada apenas neste ponto; todavia, no caso de Judas ter emprestado material de 2 Pedro, teria ele omitido toda referência às outras partes da carta? Devemos, porém, deixar isto sem ter condições de tomar uma posição definida de um ou outro lado!

A SEGUNDA EPÍSTOLA DE PEDRO Os eruditos são praticamente unânimes quanto à autenticidade da Primeira Epístola de Pedro, mas acontece o oposto com esta segunda. Ela tem sido talvez a mais controvertida epístola do Novo Testamento. Não queremos introduzir aqui uma discussão cansativa da mesmà, mas alguns comentários úteis talvez sejam adequados. Primeiro: a demora em seu reconhecimento canônico parece ter ocorrido principalmente devido à ausência de citações diretas da mesma nos escritos cristãos dos dois primeiros séculos (embora haja aparentes


alusões aqui e ali). Segundo: ela foi aceita como genuína e canônica pelos concílios de Laodicéia (cerca 366 A.D.), Hipona (393) e Cartago (397); e deve ser lembrado que esses primeiros concílios e líderes possuíam, para decidir, um número muito maior de dados originais do que os dados que chegaram até nós. Terceiro: o fato de não ter sido aceita até depois de uma investigação prolongada e meticulosa reflete a cautela daqueles primeiros líderes cristãos e torna seu reconhecimento decidido da mesma, mais tarde, um endosso enfático de sua autenticidade. Quarto: apesar das objeções, as evidências internos da epístola indicam sua data apostólica e origem petrina. Por exemplo, quem pode ler as partes proféticas de 2 Pedro sem ouvir um eco da predição do Senhor no Monte das Oliveiras, em que a terrível catástrofe e a destruição de Jerusalém figuram tão vividamente? Todavia, ao ler 2 Pedro, é praticamente impossível pensar que aquela tremenda destruição já tivesse ocorrido. Semelhantemente, se algum falsário de uma geração posterior estivesse lidando com falsos mestres, como é o caso desta epístola, não teria ele deixado transparecer, acidentalmente, alguma pequena evidência de uma forma de heresia gnóstica mais desenvolvida? Todavia, para aqueles que desejarem avançar mais neste assunto, recomendo o excelente artigo do Professor B. C. Caffin sobre 2 Pedro no Pulpit Commentary, do qual selecionamos o seguinte: “Outro elemento importante na evidência da autenticidade desta epístola é seu poder e beleza intrínsecos. Possuímos vários escritos do segundo século; eles são preciosos por muitas razões; lamentaríamos perder qualquer deles. Mas o valor de todos em conjunto fica anulado pela comparação com esta epístola. Trata-se de livros que; homens bons, cheios de piedade e santidade poderiam escrever hoje, mas não estão além do alcance de homens a quem foram concedidos os dons comuns do Espírito Santo. Existe, porém, qualquer homem vivo, por mais sábio e santo que fosse, que pudesse escrever uma epístola como essa? Seria possível a qualquer dos Pais sub-apostólicos, cujos escritos chegaram até nós, ter produzido algo comparável a ela? Os livros da Sagrada Escritura e os de composição humana encontram-se em planos diferentes; não é possível compará-los. Existe algo indescritível na Palavra de Deus que apela à natureza humana criada por Deus e à consciência que dá testemunho dEle


— algo que nos diz que a mensagem vem de Deus. A Segunda Epístola de Pedro possui essa autoridade, essa beleza santa, essas notas de inspiração que separam os escritos sagrados das obras humanas.”

A Quem Foi Escrita, Por quê e Quando O capítulo 3 começa: “Amados, esta é agora a segunda epístola que vos escrevo; em ambas procuro despertar com lembranças a vossa mente esclarecida”. Parece então que estava sendo dirigida às mesmas pessoas que a primeira. Uma comparação da saudação inicial da primeira epístola com a da segunda, sugere que Pedro talvez tenha tido uma escala bem maior de pessoas em mente quando escreveu a segunda —e por uma razão muito real, a saber, o aparecimento de um novo perigo para os crentes, na forma de falsa doutrina. Na primeira epístola, ele escreveu para animá-los e encorajar a esperança paciente em meio às provações que estavam para vir sobre eles na forma de perseguição de sua fé. Mas os perigos espirituais a que se achavam agora expostos deviam ser muito mais temidos e exigiam maiores advertências do que a simples tribulação física! A primeira epístola não menciona qualquer apostasia doutrinária e libertinagem entre os próprios crentes; mas nesta segunda carta, a preocupação maior é salvar aquelas primeiras assembléias judaico-cristãs e seus membros dos erros astutos e da influência corrupta dos falsos mestres que estavam introduzindo “heresias destrutivas” (2.1). O coração de Pedro deveria estar cheio de tristeza por causa desses problemas perturbadores, aumentada sem dúvida por ter sido aparentemente informado de que seu martírio se aproximava: “certo de que estou prestes a deixar o meu tabernáculo, como efetivamente nosso Senhor Jesus Cristo me revelou” (1.14). Seu martírio ocorreu cerca de 68 A.D. Não é possível determinar se ele estava ou não na Babilônia (1 Pe 5.13) quando escreveu esta segunda e curta carta circular.


A Epístola Propriamente Dita Assim, o propósito desta curta epístola é, mediante recordações e ênfase renovada, firmar mais definitivamente os leitores na epignosis ou “pleno conhecimento” da verdade salvadora como encontrada em Cristo Jesus e reforçar assim a sua fé contra as imitações perigosas da época. Trace esta idéia nos textos de 1.12, 13; 3.1, 2, 17, 18. Mas a advertência estende-se também através dos séculos, até nossos dias, até os “zombadores” dos últimos dias da era presente que “ridicularizam” a promessa da volta do Senhor. O tom é bem mais grave que o da primeira epístola; todavia, através de toda ela existe a mesma nota de certeza e esperança triunfantes em Cristo. Os fatos essenciais foram bem confirmados (1.16-21). O resultado final é certo (3.9-13). Enquanto a ênfase na primeira epístola está na esperança em meio à provação, a ênfase desta segunda está no crescimento na verdadeira sabedoria; apesar disso, a volta do Senhor também continua em destaque aqui. Pedro é realmente o apóstolo da esperança, como Paulo é o da fé, Tiago o das obras e João o do amor. Esta segunda epístola foi separada em três partes, correspondendo aos três capítulos em que é dividida em nossa versão. O capítulo 1 trata do verdadeiro “conhecimento” em todo o seu decorrer (w. 2, 3, 5, 8). Na primeira metade do capítulo (w. 2-11), ficamos sabendo como as verdades deste conhecimento devem ser ampliadas. A segunda metade do capítulo (w. 12-21) nos informa porque “estas coisas” devem ser sempre “lembradas”. O capítulo 2 concentra-se inteiramente nos falsos mestres que, infelizmente, deveriam surgir entre o rebanho do Senhor e causar grandes prejuízos. Finalmente, o capítulo 3, trata da suprema “promessa“ (note como a “promessa” se repete) da volta do Senhor. A epístola pode ser brevemente representada como segue:


A SEGUNDA EPÍSTOLA D E PED RO

O VERDADEIRO CONHECIMENTO E A ESPERANÇA SEGURA O VERDADEIRO “CONHECIMENTO” - NO QUAL DEVEMOS CRESCER (1) Como “essas coisas” devem ir “aumentando” (w. 2.11). Por que “essas coisas” devem ser “lembradas” (w. 12-21). OS FALSOS “MESTRES” - QUE ESTAVAM PARA VIR (2) A destruição causada por eles e sua própria aniquilação (w. 1-9). Seus excessos e perigo para os crentes (w. 10-22). A “PROMESSA” SEGURA - PARA OS ÚLTIMOS DIAS (3). A promessa mantida contra os zombadores (w. 1-9). A promessa, um desafio aos crentes (w. 10-18). A seriedade desta epístola dá um gume afiado a seus ensinamentos. Não se trata de simples doutrina, mas da distinção dos elementos vitais entre a doutrina verdadeira e a falsa. Como mostrado acima, a ênfase dupla da epístola é esta: o “verdadeiro conhecimento” e a “esperança segura”; mas ligada a isto existe uma importância muito grande qué pode surpreender a todos, no sentido de que assim como o verdadeiro conhecimento e a esperança segura estão inseparavelmente ligados, o mesmo acontece com a falsa doutrina e a destruição final! Mais ainda, assim como a verdadeira doutrina e a vida santa estão ligadas (1.5-10; 3.14,17,18), assim também a falsa doutrina e a vida impura (2.1,10,14,19)! Tudo isso mostra como a doutrina evangélica sadia é importante. Quantas vezes ouvimos hoje o provérbio jovial: “Não importa o que você crê, o que importa é como você vive!” Ele parece conceder liberdade da servidão aos credos poeirentos (como em 2 Pe 2.19), mas está fatalmente errado; pois a maneira como vivemos é, em sua maior parte, determinada por “aquilo que crenios". Isto se manifesta na vida dos indivíduos no mundo inteiro. Também está se tornando evidente hoje nos governos e relacionamentos internacionais. As crenças são bem mais profundas do que a política e a economia. Como a “doutrina” sadia é de fato importante! O mesmo acontece na Igreja. Em


2 Pedro, ouvimos soar o alarme: “Perigo dentro da Igreja!” Existem sempre dois testes de autenticidade cristã. O teste doutrinário é este: “Qual a atitude com relação à pessoa e obra de Cristo?” E o teste prático: “Qual o caráter e conduta resultantes?” Ambos os testes aparecem em 2 Pedro. Capítulo 1 Note os dois perigos indicados nesse primeiro capítulo. O perigo da vida sem crescimento (w. 3-8) e o perigo do conhecimento sem prática (w. 9-14). A vida nunca permanece estática: ela segue adiante ou retrocede. A vida sem crescimento atrofia-se. Do mesmo modo, o conhecimento sem prática torna-se cegueira em vez de visão (v. 9). É vital fazer parte do partido “progressista”\ Nos últimos versículos do capítulo 1, com relação à origem e “interpretação particular” das Escrituras, queremos nos referir ao nosso tratamento do assunto no livro Stuãies in Problem Texts (“Estudos Sobre Textos Problemáticos”). A Igreja Católica Romana tirou grande proveito desse versículo vinte, mal interpretado, e todos os evangélicos deveriam estar bem esclarecidos quanto ao seu verdadeiro sentido. Capítulo 2 Estar advertido é estar preparado, diz o velho provérbio. Estude cuidadosamente o aviso antecipado de Pedro no capítulo 2. É algo de interesse incidental que, nos w. 14 e 18, a palavra traduzida como “engana” e “seduz” (“engoda” na ARA) no grego, signifique literalmente apanhar com isca —uma relíquia dos tempos de pescaria de Pedro. Pedro está dizendo com efeito, “Cuidado, seus mais perigosos sedutores são aqueles que se aproximam com uma isca atraente e um anzol oculto!” Este segundo capítulo deve nos convencer de que onde existe uma verdade divina que salva, haverá uma imitação satânica que leva à perdição: será assim até que o arqui-enganador seja lançado no abismo. Que exposição mordaz é este segundo capítulo! Não se poupam palavras nem se fazem rodeios! Não pode haver tolerância daquilo que desonre a


Cristo e arruine as almas dentro da própria Igreja! Não é possível tratar “delicadamente” os falsos mestres. Uma víbora pode ter belíssima aparência, mas, uma vez que o seu veneno penetre em você, ou ela consiga envolvê-lo...! Pedro vê a questão com a clareza concedida pelo Espírito. Não pode haver transigência. Lembre-se, este segundo capítulo não é apenas Pedro falando; é o Espírito de Deus. Ele pode muito bem fazer com que alguns de nós reflitam seriamente. Quando a bondade complacente substitui a indignação justa e permite que uma falsa doutrina desonrosa a Cristo penetre na Igreja, a bondade deixou de ser cristã, ela se tornou deslealdade disfarçada, covardia oculta ou uma doença moral devastadora. Capítulo 3 O terceiro capítulo poderia ter sido escrito justamente para o momento presente. De fato, ele foi escrito, há muito tempo, para nós hoje, embora Pedro mal pudesse imaginar isso. Como parece atual o escárnio daqueles “escarnecedores” do capítulo três! Que tremendos terremotos cósmicos estão a caminho! Não podemos nos demorar sobre os versículos um por um, pois este é um curso bíblico e não um comentário. Mencionamos apenas um para terminar. O v. 12 diz: “Esperando e apressando a vinda do dia de Deus”. Existe colaboração entre os propósitos de Deus e as respostas de seu povo. A volta do Senhor é um tanto incerta. Paulo menciona um aspecto disto em Romanos 11.25, quando usa a expressão “até que haja entrado a plenitude dos gentios”. Mas, como podemos apressar esse dia? De três maneiras: (1) ansiando diariamente pela sua vinda, lembrando que-Ele virá para aqueles que, segundo 2 Timóteo 4.8, “amam a sua vinda”; (2) orando diariamente para que Ele apareça, lembrando que a última oração da Bíblia, em Apocalipse 22.20 é: “Amém. Vem, Senhor Jesus”; (3) buscando ganhar almas diariamente, até que “a eleição da graça” e a “plenitude dos gentios” completem a noiva para o Noivo que virá breve. Desse modo, a esperança futura e o crescimento presente podem andar juntos!


A EPÍSTOLA DE JUDAS O escritor desta pequena mas intensa carta chama-se de “servo de Jesus Cristo, e irmão de Tiago”. Por consentimento comum, o Tiago referido aqui é o mesmo que escreveu a Epístola de Tiago. Se a nossa breve investigação sobre a identidade daquele Tiago for sólida (veja nosso adendo a essa epístola), então tanto ele como Judas eram filhos de Alfeu e Maria, sendo primos de nosso amado Senhor. O fato de Judas ser parente tão próximo de nosso Salvador, segundo a carne, traz brilho à sua autodesignação como “servo de Jesus Cristo”. Os parentes humanos do Senhor reconheceram sua natureza e glória divinas, embora alguns deles tivessem duvidado a princípio, e eram agora seus servos e adoradores. Quanto à autenticidade deste poderoso fragmento, citamos o falecido reitor Salmond: “Não parecem ter havido dúvidas na primeira igreja quanto à autenticidade da epístola. As opiniões podem ter vacilado durante algum tempo quanto à posição que ela deveria ocupar na igreja e quanto ao Judas específico que a escreveu. Mas não houve discussão quanto a tratar-se de obra de um Judas, o trabalho autêntico do homem de quem afirmava proceder. Mesmo em tempos posteriores, poucos a consideravam fictícia ou espúria. É verdade que alguns críticos recentes tentaram fazer dela um produto da era pós-apostólica e que vários eruditos de considerável autoridade viram nela um protesto contra o gnosticismo do segundo século. Mas seu estilo direto e simples, o testemunho que dá à vida da Igreja, o tipo de doutrina que evidencia e, acima de tudo, a improbabilidade de que qualquer falsificador escolhesse um nome comparativamente tão obscuro quanto o de Judas sob o qual ocultar-se, ou tivesse pensado em escrever uma epístola desse tipo, fez com que conquistasse a aceitação geral como sendo genuína. ‘Qualquer que seja a nossa opinião sobre 2 Pedro, comenta com justiça o Dr. Plummer, ‘a crítica prudente obriga-nos a crer que Judas foi escrita pelo homem cujo nome a epístola leva. Supor que Judas é um nome adotado seria gratuito.


Conteúdo e A nálise Esta pequena epístola de Judas foi escrita sob constrangimento especial, como o próprio escritor nos diz no v. 3.0 constrangimento surgiu de uma consideração perturbadora da apostasia que estava prejudicando as assembléias cristãs devido aos ensinos subversivos de falsos irmãos. Ela fala com força especial para os nossos dias. Existe uma clara seqüência de pensamentos ao longo da mesma. Sua idéia central é “batalharpela fé”, de acordo com o v. 3, que nos dá a chave da epístola. Os dezesseis primeiros versos nos contam a razão dessa luta, i.e., por causa dos professores apóstatas. Os versículos restantes nos ensinam como batalhar, mostrando nossos verdadeiros recursos. Em primeiro lugar, nos w. 3 e 4, descobrimos que os enganadores astutos eram culpados de duas negativas básicas: (1) negação da graça “transformando-a” em libertinagem; (2) “negando o nosso único Soberano e Senhor, Jesus Cristo”. A seguir, nos w. 5-7, vemos a sua condenação certa predita e ilustrada por três exemplos históricos de uma vingança divina sobre os mesmos, i.e., o Egito, os anjos e Sodoma. Depois disso, nos versos 8-11, Judas descreve, em termos fortes, o caráter e a conduta desses falsos mestres a quem ele combate, comparando-o com três figuras históricas infames, conhecidas pela sua impiedade, i.e., Caim, Balaão e Coré. Nos w. 12-16, ele expõe a completa falsidade deles, despindo-os de todos os seus adornos enganadores, em seis terríveis metáforas, i.e., (1) “rochas submersas”; (2) “pastores” fraudulentos; (3) “nuvens sem água”; (4) “árvores sem frutos”; (5) “ondas bravias do mar”; (6) “estrelas errantes”. Esta seção termina então com a profecia de Enoque sobre a destruição vindoura de tudo isso. Os últimos versos da carta, que nos mostram como lutar pela fé, também dividem-se com clareza. Primeiro, devemos compreender que essa apostasia fora prevista (w. 17-19). Segundo, deve haver uma edificação “na vossa fé santíssima, orando no Espírito Santo” e “guardai-vos no amor de Deus, esperando a misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo” (w. 20,21). Terceiro, devemos “compadecer-nos” de alguns que “estão na dúvida” ou, mais literalmente, “lutam” (v. 22). Quarto, devemos buscar urgentemente salvar outros, mas manter-nos separados e puros ao agir


assim, “detestando até a roupa contaminada pela carne” (v. 23). A pequena epístola termina então com uma doxologia profética imaginando uma consumação final no céu (w. 24,25). A análise seguinte colocará tudo numa perspectiva conveniente. A EPÍSTOLA DE JUDAS BATALHA PELA FÉ Versículo-Chave — 3 Saudações, w. 1,2 POR QUE BATALHAR - MESTRES APÓSTATAS (3-16) Suas perversões dissimuladas: duas negativas básicas (3-4). Sua condenação certa: três exemplos históricos (5-7). Seu comportamento ímpio: três exemplos históricos (8-11). Sua completa falsidade: seis metáforas terríveis (12-13). A profecia de Enoque: A destruição iminente (14-16). COMO BATALHAR - NOSSOS VERDADEIROS RECURSOS (17-23) Compreender que a apostasia foi prevista (17-19). “Edificar”, “orar no Espírito Santo”, “guardar-se”, “esperar” (20 , 21 ). Mostrar compaixão por alguns que estão na dúvida (22). Procurar urgentemente salvar outros: mas manter-se puro (23). Doxologia de Judas: a consumação vindoura. A linguagem desta epístola curta, mas severa, pode parecer demasiadamente escaldante para alguns leitores. Às vezes, nós mesmos nos sentimos tentados a isso. Mas, quando refletimos com honestidade e realidade sobre os termos de vida e morte envolvidos, sobre a imensa majestade e graça maravilhosa de Deus, sobre o custo e preciosidade da salvação comprada no Calvário, sobre o pecado incomensurável de deturpar voluntariamente a graça, desonrando a Cristo, enganando almas e “blasfemando” assim contra o Espírito Santo — NÃO, Judas não é demasiado severo, mas a nossa percepção é que está obscurecida.


Naturalmente, ao lutar pela fé, devemos “manter-nos no amor de Deus” e, da mesma forma, o amor de Deus deve estar em nós. Devemos amar, mesmo enquanto lutamos contra os erros dos apóstatas. Devemos amar a alma deles embora sejamos contrários às suas palavras e deploremos sua maneira de agir. Algumas vezes, é bastante difícil manter essas coisas separadas, mas o amor de Cristo em nossos corações colocará sabedoria em nossos lábios. Devemos igualmente fazer distinção entre os diversos tipos de erros, como os w. 22 e 23 nos ensinam. Mesmo nesta interpretação, a palavra “dúvida” no v. 22 deveria ser “luta”. Existem alguns que lutam contra nós. É inútil revidar nesses casos. Mas há outros que precisam “ser arrancados do fogo”; eles foram enganados e, num sentido ou outro, /.e., através de sua confusão, remorso, dúvida ou perigo, estão no fogo. Há outros ainda de quem devemos ter “compaixão com temor”, Le., sendo cautelosos para que, ao tentar trazê-los de volta, não contaminemos nossas próprias vestes. E preciso, portanto, fazer distinção. Esta carta de Judas nos mostra a necessidade urgente de lutar para manter a pureza do verdadeiro evangelho; mas devemos permitir que nos mostre também que, nessa luta, mais do que em qualquer outra coisa, necessitamos do amor de Cristo em nossos corações e da sabedoria do Espírito em nossa mente. A doxologia final — uma das mais sublimes no Novo Testamento — começa: “Ora, aquele...”; mas no grego o “Ora” é na verdade “Mas”, marcando um contraste com o que acabou de ser dito, i.e., “a roupa contaminada pela carne”. Em contradição a essa metáfora de aviltamento lemos o seguinte: “Mas, aquele que é poderoso para vos guardar de tropeços e para vos apresentar com exultação, IMACULADOS diante da sua glória, ao único Deus, nosso Salvador, mediante Jesus Cristo, Senhor nosso, glória, majestade, império e soberania, antes de todas as eras, e agora, e por todos os séculos. Amém”. DEZ PERGUNTAS SOBRE 1 E 2 PEDRO, E JUDAS 1. Quais as três partes principais na Primeira Epístola de Pedro e quais são as três realidades “vivas” na parte um?


2. De que forma a doxologia no texto de 4.11 e a estrutura da epístola nos orientam a fim de considerar o “fogo ardente” como ainda futuro? 3. O que provocou a segunda epístola de Pedro? 4. Quais as três partes de 2 Pedro? (As subdivisões não precisam ser dadas.) 5. A quem foram dirigidas as duas epístolas de Pedro? 6. Você sabe citar 1 Pedro 5.7 e dizer porque o seu valor é maior hoje? 7. Por que você diria que Judas era primo do Senhor? 8. Qual a ênfase principal da carta de Judas? Quais as suas duas partes? Que três exemplos de condenação e seis metáforas de falsidade são usados por Judas? 9. Quem eram os “forasteiros da Dispersão” ou “estrangeiros dispersos no Ponto, Galácia,” etc.? 10. Que parte de 2 Pedro sugere que Pedro tinha lido a epístola de Jpdas, ou que tanto Pedro como Judas foram influenciados por um original comum? — e por quê?


AS EPÍSTOLAS DE JOÃO Lição ne 43


NOTA: Para este estudo, leia 1 João várias vezes. As idéias repetidas só se gravam na memória dessa forma, mas o tempo gasto valerá a pena.

1 JOÃO Esta é provavelmente a última mensagem apostólica à Igreja inteira. Se a segunda e terceira epístolas foram escritas mais tarde, seus destinatários eram indivíduos. Esta carta é universal, no sentido mais amplo da palavra, não sendo dirigida a qualquer igreja ou distrito particular e tratando da questão fundamental da vida que é o verdadeiro laço da unidade da Igreja. Uma comparação entre João 20.31 e 1 João 5.13 mostrará que o evangelho e a epístola se completam. O evangelho foi escrito para que os homens pudessem ter vida e a epístola para que os crentes pudessem saber que tinham vida. No primeiro, temos a vida divina como revelada em Cristo; na última, a mesma vida como efetuada no cristão. O evangelho declara o caminho da vida através do Filho encarnado; a epístola revela a natureza dessa vida como possuída pelos filhos de Deus. — G. Campbell Morgan


Quanto devemos à pena de João! Tente imaginar nossa perda se os seus escritos fossem apagados de nosso Novo Testamento. Aqui, vamos estudar suas três epístolas em conjunto, pois elas se combinam naturalmente. A primeira introduz algumas das realidades mais profundas da vida espiritual, enquanto a segunda e a terceira ilustram as verdades que a primeira ensina. A primeira possui igualmente uma perspectiva universal ampla, embora pertença de direito ao grupo onde está, o grupo de nove epístolas aos cristãos hebreus, pois a sua abordagem e cenário implícito são semelhantes às outras. O v. 7 na terceim epístola indica claramente um ponto de vista hebraico.

A Primeira Epístola Ao que parece, os eruditos opinam geralmente que esta primeira epístola de João foi escrita cerca de 90 A.D. Nessa época, João seria o único apóstolo sobrevivente, com idade avançada. De acordo com isto, o tom da epístola é paternal, tanto no terreno da afeição como no da autoridade paternal que a caracteriza. É uma carta belíssima. As palavias são muito simples, mas os pensamentos ricos e profundos. O estilo é direto e claro, todavia, existe uma profundidade sutil e mística na maneira como as verdades são estabelecidas e na maneira como elas se desenvolvem de uma para outra sentença. • Como a forma de pensamento e expressão de João difere da de Paulo! Existe uma certa vivacidade e entusiasmo no modo como Paulo apresenta as coisas que não encontramos em João. Todavia, de algum modo, existe nele uma finalidade e confiança persuasivas que são também distintas e impressionam. João é mais contemplativo do que argumentativo. Ele apresenta as verdades como aparecem, pela percepção intuitiva em lugar de raciocínios estudados. Ele é mais místico que lógico, vendo a confirmação da verdade na experiência pessoal em vez de na demonstração


por argumentos. Isto deve ser tido em mente ao fazermos agora um estudo desta primeira epístola de João, servindo tanto de guia como de proteção para nós, ao analisarmos e interpretarmos a epístola. Nas cartas de Paulo e Pedro, as diferentes partes encontradas eram tão facilmente distinguíveis que não houve dificuldade em dividi-las, mas isso não acontece com esta primeira epístola de João. Trata-se de uma carta de idéias repetidas em lugar de divisões fixas. Se tentarmos analisar a mesma rigidamente ou com muita simetria iremos obscurecer seus assuntos mais enfatizados. Existem certamente interrupções e seções distintas nela (por exemplo, as palavras “luz” e “trevas”, que se repetem claramente nos primeiros 21 versículos, não ocorrem mais depois disso; ou o Espírito Santo, que não é mencionado nenhuma vez antes de I João 3.24, é citado após ele sete vezes juntamente com cinco referências a outros espíritos); Mas essas divisões não bastam para quebrar certas cadeias de pensamento que percorrem a epístola inteira. Os principais temas encadeados são: AMOR CRISTÃO RECÍPROCO. PERMANÊNCIA EM CRISTO E EM DEUS. COMO DISTINGUIR A VERDADE DO ERRO. AS CARACTERÍSTICAS DO NASCIDO DE NOVO. O CRENTE E O MUNDO. Esses temas em cadeia devem ser seguidos e cuidadosamente observados. Eles constituem um estudo rico e edificante. A maneira comum em que esta primeira epístola de João é analisada compreende que tudo dos capítulos 1 e 2 relaciona-se com a verdade de que Deus é luz\ tudo nos capítulos 3 e 4, à verdade de que Deus é amor, e tudo no capítulo 5, à verdade de que Deus é vida. Isto apela naturalmente aos olhos e à mente, sendo, porém, algo certamente artificial, como (segundo julgamos) uma nova leitura da epístola mostrará. Não queremos impor nossa objeção; mas, afinal de contas, estamos tratando de escritos divinamente inspirados, tendo o Espírito Santo investido de significado especial cada parte deles. O problema em estabelecer a análise acima mencionada e outras semelhantes a ela, com respeito a esta primeira epístola de João, é que ela tende a ofuscar a ênfase realmente central e a importância da epístola.


Sete Contrastes Sucessivos O fato é que esta primeira epístola de João desenvolve-se numa série de sete contrastes sucessivos que destacam nitidamente a idéia central da epístola e a preocupação dominante do apóstolo idoso. Esses contrastes sucessivos são muito notáveis para passar desapercebidos. Eles focalizam em vivo antagonismo, a verdade e o erro em seus aspectos mais vitais e em relação ao crente. São sempre acompanhados pela pequena cláusula significativamente repetida, “Nisto sabemos”, ou “Ora, sabemos”. Essas repetições na epístola são como as luzes de um semáforo nos cruzamentos das ruas de nossa cidade, com a luz vermelha do “pare” e a verde do “siga”. Devem ser descobertos, sublinhados e associados através de toda a carta. Além disso, os sete contrastes que formam esta epístola e essas cláusulas recorrentes não deixam dúvidas quanto ao propósito dominante, urgente, intenso e indiscutivelmente vital da epístola. Ela foi escrita a fim de podermos “saber”e distinguir em seus aspectos mais vitais, a verdade cristã do erro e o amor cristão das suas imitações, e sendo assim capacitados a “saber” ou “conhecer” a verdade, possamos “permanecer” nela. Nesta epístola acham-se então os critérios da “verdade”, expostos em sete contrastes vívidos:

A PRIMEIRA EPÍSTOLA DE JOÃO

VERDADE VERSUS ERRO: COMO “SABER” E “PERMANECER”. Oração Principal — “Nisto sabemos.” SETE CONTRASTES 1. A LUZ VERSUS AS TREVAS (1.5-2.2). 2. O PAI VERSUS O MUNDO (2.12-2.17). 3. CRISTO VERSUS O ANTICRISTO (2.18-2.28). 4. BOAS OBRAS VERSUS OBRAS MALIGNAS (2.29-3.24). 5. O ESPÍRITO SANTO VERSUS O ERRO (4.1-4.6). 6. AMOR VERSUS SIMULAÇÃO PIEDOSA (4.7-4.21). 7. O NASCIDO DE DEUS VERSUS OS OUTROS (5.1-5.21).


Muito poderia ser escrito sob cada um desses títulos em contraste, mas não temos espaço suficiente aqui. Recomendamos um novo estudo completo desses contrastes de acordo com o que dissemos sobre eles. Queremos simplesmente salientar que nesses sete contrastes encontram-se sete testes penetrantes. Se os tomarmos na ordem, temos o “teste” (1) da confissão, (2) do desejo, (3) da doutrina, (4) da conduta, (5) do discernimento, (6) do motivo e (7) do novo nascimento. Não parece haver razão para rejeitarmos a tradição comum de que todos os apóstolos sofreram martírio com exceção do apóstolo João. Deus teve propósitos especiais para manter João vivo na terra. Um desses propósitos encontra expressão nas visões apocalípticas que lhe foram concedidas na ilha solitária de Patmos e que nos foram transmitidas por escrito no último livro da Bíblia. Mas outra finalidade bastante provável é que João devesse viver o bastante para ver não apenas a inoculação satânica da doutrina cristã com o vírus da heresia do “anticristo”, mas também o seu processo e principais características, de modo que pudesse deixar esta Primeira Epístola de João para a orientação futura do povo do Senhor. Sejamos profundamente gratos por esta epístola dos sete contrastes. Que possamos aprendê-la muito bem e obedecê-la constantemente! Uma Importância Digna de Nota Em todo o curso da epístola existe uma demarcação muito clara entre a verdade e a mentira, e uma atitude incisiva em tratar com elas. A penade Joãoé um bisturi e não a pena emplumada de um filósofo. Existe uma simplicidade espiritual manifesta que observa as coisas como realmente são. O branco é branco, o preto é preto e essas cores não se misturam, tendendo ao cinza. Esta perspicácia moral é sempre um traço de verdadeira maturidade espiritual. Não há necessidade de argumentos tortuosos; a visão interior iluminada pelo Espírito percebe imediatamente as distinções morais importantes — de modo geral aborrecendo muito os que se manifestam em voz mais alta, mas enxergam muito menos. Quantos olhares confusos e tagarelices piedosas acompanhadas de práticas discutíveis são vistos entre os crentes de hoje! Releia esta primeira epístola de João e note bem o fáto significativo de que, embora trate distintamente do amor cristão, ela é, ao mesmo tempo, a epístola da INTRANSIGÊN-


A PRIMEIRA EPÍSTOLA DE JOÃO

CIA na doutrina! Isto é algo que necessita de atenção especial atualmente. Fundamentos Espirituais Através de toda a epístola também encontramos pronunciamentos sobre fundamentos espirituais profundos. Se estivermos interessados nas bases comprovadoras ou argumentativas da religião cristã, devemos procurar em outra parte, mas as conclusões espirituais encontram-se aqui em 1 João. Pense em apenas algumas delas: Os mandamentos abrangentes são dois: devemos crer em Jesus Cristo . e amar uns aos outros (3.23). Uma manifestação de amor pelo próximo, sem um ministério ativo para atender às suas necessidades é falso (3.17,18). O Pai sacrificando o Filho é a última palavra em amor; e isso deveria levar-nos a “amar-nos uns aos outros” (4.10,11), mesmo que nada mais o fizesse. A verdadeira bênção é um coração tranqüilo diante do Pai. O segredo é este: “O perfeito amor lança fora o medo” (4.18). Essas coisas são encontradas do começo ao fim da epístola e elas insistem incessantemente em que enfrentemos as simples conclusões para chegar a escolhas e temas realmente decisivos. Nesses cinco capítulos curtos os “Isaques de Deus” encontrarão espaço suficiente para meditação santificadora. O Gnosticismo Incipiente — e Hoje Não existe praticamente qualquer dúvida de que, em toda esta epístola, João está combatendo certos indivíduos desviados, embora não lhes dê nomes. Ele escreve de forma que sua exposição da verdade descreve ao mesmo tempo a falsidade deles. Não se pode deduzir com certeza se esses desviados eram gnósticos primitivos ou Cerinto e sua escola. O gnosticismo (veja folha inicial de nosso estudo sobre Colossenses) não chegou à plena florescência até o segundo século, mas subsistiu em suas primeiras formas durante duas ou três décadas antes da morte de João. A


seita ou grupo local de gnósticos possuía, segundo se supunha, certas “revelações” especiais superiores às do cristianismo normal, entregue misticamente por Cristo ou outros grandes vultos, mas conhecidas apenas pelo círculo íntimo dos iniciados. Isto levava invariavelmente a uma visão grandemente defeituosa de Cristo. No gnosticismo, o antigo dualismo filosófico grego assumira uma forma religiosa. A distinção filosófica entre o reino da realidade e o da aparência sensorial tomava agora uma nova forma como Deus (a luz) e matéria (o mal) em antagonismo incessante. Desse modo, Jesus, como Espírito puro, não poderia ter tido realmente um corpo material. Ele não viera na verdade “em carne” (1 Jo 4.3). Seu corpo era apenas “docético” ou um fantasma. E, se o corpo fosse real, seria apenas o corpo de Jesus, o homem, mas não do puro Cristo-Espírito: o Cristo entrou em Jesus em seu batismo na água, mas deixou-o pouco antes de sua crucificação, pois seria impossível para o Cristo-Espírito sujeitar-se à crucificação em um corpo material maligno. Em outras palavras, Ele “veio por meio de água” (o batismo) — mas não também pelo “sangue”(a cruz), como diz João em 5.6. Em qualquer desses pontos de vista, a obra do Calvário do Senhor fica completamente anulada. João contradiz isto, rápida e poderosamente, embora sem fazer citações, na primeira sentença de sua epístola. “O que era desde o princípio, o que temos OUVIDO, o que temos VISTO COM OS NOSSOS PRÓPRIOS OLHOS, o que CONTEM PLAM OS e as NOSSAS MÃOS APALPARAM, com respeito ao Verbo da Vida (e a Vida se manifestou, e NÓS A TEMOS VISTO)...o que temos VISTO E OUVIDO anunciamos também a vós outros.” Não encontramos aqui qualquer mistério recôndito ou clandestino, com sua cabeça nas nuvens e os pés suspensos no espaço, mas testemunho de primeira mão de fatos bastante provados! Jesus não era um simples fantasma, nem era apenas humano. Ele era o “Verbo” e a “Vida” —como João lhes testemunhara em seus escritos anteriores (i.e., o Evangelho segundo João) e como agora testifica novamente: “E nós temos VISTO E TESTEMUNHAMOS que o Pai enviou o seu FILHO como SALVADOR do mundo” (4.14). Além disso, essas primeiras sutilezas gnósticas levaram a padrões de conduta inferiores. Havia uma idéia de que a revelação super secreta possuída pela elite iniciada elevava-a acima das obrigações evangélicas


comuns de conduta e a uma “liberdade” superior. João também responde a isso. Contrariando a idéia de círculos íntimos e adivinhações secretas, ele proclama desde o início: “Deus é luz, e não há nele treva nenhuma” (1.5). Tudo a respeito do verdadeiro evangelho é franco e direto. Não existem quartos escuros ou cortinas de mistério. A verdade é uma luz que brilha sobre todos. Ao contrário da idéia de alguma “iluminação” secreta, ele afirma: “Isto que vos acabo de escrever é acerca dos que vos procuram enganar. Quanto a vós outros, a UNÇÃO que dele recebestes (Le., do Espírito Santo)permanece em vós, e não tendes necessidade de que alguém vos ensine', mas, como a sua unção vos ensina a respeito de todas as coisas, e é verdadeira, e não é falsa” (2.26,27). “E vós possuís UNÇÃO que vem do Santo, e todos tendes conhecimento” (2.20). Contestando o conceito orgulhoso de uma “liberdade” superior de conduta, ele escreve: “Se dissermos que mantemos comunhão com ele (a Luz), e andarmos nas trevas, mentimos e não praticamos a verdade” (1.6). De fato, através de toda epístola, este erro mencionado por último é contestado. A profissão de fé sem a santidade prática de conduta ou é hipocrisia ou auto-engano. Embora João estivesse escrevendo instruções para aqueles cristãos do primeiro século, o Espírito Santo guiou-o para que suas palavras fornecessem testes de doutrina e conduta desde então! Os desvios heréticos sempre foram de dois tipos: (a) os que afirmaram que Cristo era divino demais para ser realmente humano; ou (b) os que disseram que ele era humano demais para ser realmente divino. A Ciência Cristã está hoje ao lado do primeiro; e as seitas unitaristas, do segundo. Vamos aprender com profundidade e firmeza que qualquer manipulação da pessoa de Cristo prejudica imediatamente a verdadeira doutrina de sua morte expiatória. Vamos aprender também que a falsa doutrina, por mais superior que pareça, mais cedo ou mais tarde, sempre resulta em padrões de comportamento inferiores.

Os Sete Testes Prosseguindo em nossa observação de que esta é uma epístola de testes de orientação, insistimos de novo em que seus vários temas encadeados sejam descobertos e estudados cuidadosamente — os sete aspectos


distintos dos nascidos de novo (2.29; 3.9; 4.7; 5.1 (duas vezes); 5.4; 5.18); as sete razões para que a epístola fosse escrita (1.3; 1.4; 2.1; 2.13-17; 2.21-24; 2.26; 5.13); os setes testes da autenticidade cristã (1.6; 1.8; 1.10; 2.4; 2.6; 2.9; 4.20). Talvez seja útil estabelecer a última menção mais amplamente. Sete vezes lemos “Se dissermos” ou “Aquele que diz”; e cada vez essas palavras marcam um teste pelo qual a falsidade é exposta. Trata-se de sete testes de honestidade e realidade. Eles nos sondam, penetrando como uma chama branca, expondo a hipocrisia. Ei-los: 1.6: “Se dissermos que mantemos comunhão com ele, e andarmos nas trevas, mentimos.” Falsa comunhão. 1.8: “Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos nos engana­ mos, e a verdade não está em nós.” Falsa santidade. 1.10: “Se dissermos que não temos cometido pecado, fazemo-lo mentiroso e a sua palavra não está em nós.” Falsa justiça. 2.4: “Aquele que diz Eu o conheço, e não guarda os seus mandamentos, é mentiroso.” Falsa lealdade. 2.6: “Aquele que diz que permanece nele, esse deve também andar assim como ele andou.” Falso comportamento. 2.9: “Aquele que diz estar na luz e odeia a seu irmão, até agora está nas trevas.” Falsa espiritualidade. 4.20: “Se alguém disser Amo a Deus, e odiar a seu irmão, é mentiroso.” Falso amor a Deus. Faça um retrospecto dos sete. No primeiro, o religioso profissional não é honesto com os outros. No segundo, ele não é sincero comigo mesmo. No terceiro, não é sincero com Deus. No quarto, não é sincero com Cristo. No quinto, não é sincero com o mundo. No sexto, não é sincero com seu


irmão cristão. No sétimo, por implicação, ele é falso com todos (reflita e verifique). Já mencionamos os sete pontos nesta epístola onde João estabelece o seu propósito ao escrever. O primeiro deles, em 1.3, lança naturalmente o seu significado sobre toda a epístola: “O que temos visto e ouvido anunciamos também a vós outros, para que vós igualmente mantenhais comunhão conosco. Ora, a nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho Jesus Cristo”. Não podemos chamar este versículo de “chave” para a epístola no sentido estrito da palavra, ou dizer que “comunhão” é o assunto principal de João (desde que após 1.7 a palavra não ocorre mais); todavia, ninguém pode deixar de perceber que o propósito subjacente em tudo é que, evitando o que é falso e permanecendo na verdade, iremos conhecer a alegria pura de uma comunhão perfeita com Deus. Seria apropriado dar a esta epístola o seguinte título: A PORTA DA COMUNHÃO COM DEUS Estes são apenas alguns dos “filões” nesta mina maravilhosa de valores espirituais; mas no momento em que penetramos nela temos de deixá-la — consolando-nos com o pensamento de que pelo menos tenhamos encorajado alguém a “escavá-la” mais profundamente.

A SEGUNDA EPÍSTOLA Carta de Um Apóstolo a Uma Mãe Esta segunda epístola de João é dirigida à “senhora eleita e aos seus filhos”. Alguns querem que acreditemos que esta senhora e seus filhos eram na verdade uma igreja e os seus membros; mas os versículos 5, 10 e 12 convencem-nos de que tal idéia é forçada e artificial. Ficamos satisfeitos, porque pelo menos uma pequena epístola do Novo Testamento é dirigida a uma mãe cristã. Do que trata esta pequena carta? Vejamos as primeiras linhas e notemos que a palavra “verdade” é mencionada várias vezes. A seguir, leia de novo a exortação que começa no v. 4 e note que João não está apresentando um novo mandamento, mas enfatiza a necessidade de se continuar no


mandamento ouvido “desde o princípio” (w. 5, 6). De modo bem claro, João está exortando à permanência na “verdade” que tinha sido “recebida” (v. 4) “desde o princípio” (w. 5, 6). Este é então o propósito desta pequena carta pessoal à senhora eleita e seus filhos. Trata-se de uma exortação para a perseverança na verdade. A exortação ocupa os w. 4-11 e tem duas partes. Nos w. 4-6 encontra-se o aspecto prático da permanência na verdade: devemos “andar” em “amor”. Depois, nos w. 7-11 encontramos o aspecto doutrinário de continuar na verdade: devemos “acautelar-nos” ou nos prevenir contra o erro. Isto pode ser colocado da seguinte forma:

A SEGUNDA EPÍSTOLA DE JOÃO A PERSEVERANÇA NA VERDADE Saudação, w. 1-3 ASPECTO PRÁTICO: ANDAR EM AMOR (4-6) (O amor aos irmãos é o teste central da prática cristã.) A insistência divina no amor (v. 5). A expressão humana do amor (v. 6). ASPECTO DOUTRINÁRIO: ACAUTELAR-SE CONTRA O ERRO (7-11) (A pessoa de Cristo é o teste central da doutrina cristã.) Advertência contra os falsos ensinamentos (w. 7-9). Advertência contra a caridade falsa (w. 10,11). Despedida, w. 12-13 O que evocou diretamente esta nota breve mas concentrada de saudações afetuosas e advertências foi a infeliz circunstância referida no v. 7: “Porque muitos enganadores têm saído pelo mundo fora, os quais não confessam Jesus Cristo vindo em carne”. Tudo o que vem antes na carta leva claramente a isto. Os enganadores específicos no conceito de João são aqueles que “não confessam Jesus Cristo vindo em carne”. Assim como a expressão “não ama” em 1 João 3.10, 14 é equivalente a “odeia” em 3.15; 4.20, o “não confessam” aqui equivale a “negar”. Joãonão vacila em dizer a respeito


dessa negativa: “assim é o enganador e o anticristo” — palavras bastante claras que devemos atender. É dito aqui que esses enganadores negaram “Jesus Cristo vindo em carne”. O judeu negava que Cristo viera em carne. O gnóstico negava que Cristo pudesse vir em carne. (Alguns na igreja de hoje negam que Ele jamais possa ou venha novamente em carne.) João está pensando na posição gnóstica incipiente nesta carta à senhora eleita, com sua negação de que o Espírito divino pudesse vir em forma material. Nossos comentários sobre &primeira epístola de João indicaram quão razoável esta filosofia religiosa podia parecer, especialmente quando lábios aceitáveis e reverência astuta aliavam-se a ela. “Acautelai-vosl” Este o ponto central da carta (v. 8). Os enganadores o chamam, mas a luz vermelha está acesa! Pare! Todo aquele que ultrapassa a doutrina de Cristo e nela não permanece, não tem Deus” (v. 9). É isto que faz João escrever: “Se alguém vem ter convosco e não traz esta doutrina (a verdadeira, apostólica), não o recebais em casa, nem lhe deis as boas-vindas” (v. 10). Existe um sentimentalismo superficial hoje que rejeita as palavras de João como pouco caridosas. Mas castigamos o médico por ser intolerante com a doença? Pergunte a qualquer de seus pacientes! Qualquer de nós iria receber voluntariamente vírus mortais em seu corpo? Todos temos de nos misturar com pessoas de diferentes pontos de vista e crenças e, como cristãos, devemos amar verdadeiramente as suas almas; mas colaborar com eles em qualquer propaganda desonrosa a Cristo é trair o amor que dedicamos ao Senhor que nos comprou. A TERCEIRA EPÍSTOLA DE JOÃO VERDADE E AMOR VERSUS ORGULHO E CONFLITO “HOSPITALIDADE - UMA OBRA DE FÉ” (v. 5) Destinatário — v. 1 GAIO - SERVIÇO EM VERDADE E AMOR (2-8) “Irmãos... testemunho da tua verdade” (v. 3) “(Irmãos)... testemunho do teu amor” (v. 6).


EXAMINAI AS ESCRITURAS

DIÓTREFES - ORGULHO E CONFLITO RESULTANTES DO MAL (9-11) “Que gosta de exercer a primazia” (v. 9). “E os expulsa da igreja” (v. 10). Menção favorável a Demétrio (v. 12). Despedida —w. 13,14 Esta terceira epístola de João é dirigida a “Gaio”. Desde que este nome era tão comum no mundo romano como o nome João da Silva o é entre nós hoje, seria precipitado afirmar, sem qualquer informação anterior mais detalhada, que o Gaio a quem João se dirige aqui é o mesmo que os outros de mesmo nome mencionados em outras referências do Novo Testamento (At 19.29; 20.4; Rm 16.23; 1 Co 1.14). Que todos os que abrem suas casas e recebem os servos ministr adores do Senhor observem por esta carta o hospitaleiro Gaio como o próprio Senhor considera a sua bondade. Eles são “cooperadores da verdade” (v. 8). Às vezes, oferecer esse tipo de hospitalidade pode ser muito cansativo. Gaio estivera se excedendo em sua generosidade? Esgotara-se, dando causa à preocupação solícita de João quanto à sua saúde (v. 2)? Em contraste com o desprendido Gaio, vemos o egoísta Diótrefes. Sua língua e gênio são criticados no v. 10.0 Dr. Campbell Morgam diz muito bem: “Toda a verdade sobre esse homem é vista em uma dessas sentenças esclarecedoras, na qual o caráter de um indivíduo é muitas vezes revelado nas Escrituras. ‘Diótrefes, que gosta de exercer a primazia’. Essa é a violação essencial do amor, pois ‘o amor...não procura os seus interesses’. Este é um caso de heresia do espírito ou temperamento e não do intelecto. Não há evidência de que este homem estivesse ensinando falsa doutrina, mas ele não se submetia à autoridade. Como é sempre o caso, o insubmisso transforma-se no grande tirano e assim, pela desobediência, manifesta sua falta de amor”. Observe novamente o v. 7: “Por causa DO NOME foi que saíram. É impressionante e emociona os corações cristãos. Assim como “o Nome” para o judeu sempre significava “Jeová”, para o cristão — quer judeu ou gentio — “o Nome” significa Aquele que é amado e glorioso acima de todos os demais. Inácio, escrevendo mais tarde aos Efésios, diz: “Estou em cadeias por causa do Nome”: e “Alguns maldosamente falam do Nome”. Em Atos 5.41 os apóstolos depois de açoitados deixaram o Siné-


drio â&#x20AC;&#x153;regozijando-se por terem sido considerados dignos de sofrer afrontas por ESSE NOMEâ&#x20AC;?, em lugar de sentirem-se irritados e humilhados! Ă&#x201C;, como seria bom sentir a mesma humildade, lealdade e amor!


O APOCALIPSE DE JOテグ Liテァテ」o n2 44


NOTA: Uma idéia geral do tema do Apocalipse é necessária para este estudo. Caso várias leituras completas sejam necessárias para os principiantes, o tempo gasto em familiarizar-se com o assunto valerá realmente a pena. Todos os que se aproximam do estudo bíblico com o sentimento de estar pisando em terreno santo, conseguem extrair maior proveito do mesmo; tendo a impressão, como aconteceu com Moisés, que era certo tirar os sapatos e cobrir a cabeça diante da sarça ardente, curvando-se com reverência e santo temor ao ouvir a voz que fala. Se aquilo que vamos estudar agora é a palavra de Deus, feliz então aquele que a recebe com toda humildade, “não como palavra de homens, e sim, como, em verdade é, a palavra de Deus” (1 Ts 2.13). Pois “o homem para quem olharei”, diz o Senhor, “é este: o aflito e abatido de espírito, e que treme da minha palavra” (Is 66.2). De todos os livros da Bíbilia nenhum outro é tão solenemente apresentado a nós; nossa atenção é especialmente chamada para ele e, devemos acrescentar, nenhum outro é geralmente tão desconsiderado, rejeitado e negligenciado. Todavia, também nenhum outro se inicia com a graciosa promessa de bênção sobre o que o ler, sobre quem der ouvidos e guardar as coisas nele escritas. E a nenhum outro livro é adicionada a advertência para que ninguém faça subtrações ou acréscimos à sua mensagem. Trata-se, portanto, de uma mensagem de maior importância, embora freqüentemente pouco considerada e tratada pelos homens como se fosse supérflua e podendo ser posta de lado sem qualquer perda material. Pelo menos, no conceito de Deus, este livro tem um valor supremo. Encontramos nele a consumação de toda a obra de Deus e seu plano, o clímax e resultado de todas as suas dispensações e tratos com o homem; nele, cada profecia e promessa, cada propósito e aliança encontra seu alvo e cumprimento final. Em Gênesis temos o começo de tudo, em Apocalipse temos o fim e o alvo de tudo. - R. H. Boll


O APOCALIPSE DE JOÃO Em certa ocasião o príncipe dos pregadores, C. H. Spurgeon, foi abordado por um crítico com uma pergunta embaraçosa sobre a Bíblia. “Pode dizer-me, por favor, o que isso significa?” indagou o homem com alarde, certo de apanhá-lo numa cilada. Com um bem conhecido brilho nos olhos, Spurgeon respondeu: “Claro que posso dizer-lhe o que significa. Isto significa exatamente o que diz”. Nós já sentimos quão adequada é essa resposta quando indivíduos ansiosos chegam até nós, geralmente ao terminarem as reuniões públicas, e com um olhar de confiança inocente perguntam: “Por favor, diga-me o que significa o Livro de Apocalipse”. Também pensamos sobre a sabedoria das palavras: “Uma pergunta pode ser feita numa sentença; a resposta talvez leve um século para ser dada”. Para nós, porém, sempre parece haver um toque de incoerência sobre o fato de este livro, que dá a impressão de ser o mais misterioso da Bíblia, ser chamado “Apocalipse” (derivado do termo grego “apokalypsis”), que significa “revelação”, “desvendamento”, justamente o oposto de mistério. Seria considerada uma afronta afirmarmos aqui que o livro é um dos mais fáceis de entender? Nós dizemos isso e queremos dizê-lo. Não queremos, porém, afirmar que temos condições de descobrir todo o simbolismo do livro (muitas vezes deliberadamente enigmático). Quem poderia fazer isso? Todavia, insistimos que, em seu significado abrangente e em sua mensagem central, é possível ao homem comum compreendê-lo. Esperamos que a análise que vamos apresentar torne isto claro. Entretanto, no que diz respeito à interpretação profética do livro, tudo depende de uma abordagem correta do mesmo.

Quatro Abordagens Diferentes Em termos gerais, existem quatro escolas de interpretação que poderiam esclarecer para nós este Livro do Apocalipse, ou seja, a preterista, a historicista, a idealista e a futurista. Os preteristas consideram a maior parte do livro como já cumprida nos 361


primeiros anos da história da Igreja. As palavras, “Escreve, pois, as coisas que viste, e as que são, e as que hão de acontecer depois destas” (1.19) são tidas como referências “ao estado contemporâneo de coisas na Igreja e no mundo, e os eventos que se seguiriam em seqüência imediata”. Com base nesta teoria, grande parte do livro representa simbolicamente “a perseguição de Nero e rebelião judaica”. Os sete reis de Apocalipse 17.10 são interpretados como os imperadores Augusto, Tibério, Gaio (Calígula), Cláudio, Nero, Galba e Oto. O número da besta — 666 — é o valor numérico total de Nero César escrito em caracteres hebraicos — e assim por diante. Os historicistas (ou “presentistas”, como são algumas vezes chamados) vêem no livro um programa profético cobrindo a história inteira desde os dias apostólicos até o fim dos tempos. O Dr. Grattan Guinness foi o conhecido divulgador desta teoria nos últimos anos. Visão após visão, selo após selo, taça após taça, são vistos como tendo correspondência com a história sucessiva, deixando apenas a parte final do livro para ser cumprida em relação imediata com a volta do Senhor. Como diz um escritor: “O Livro de Apocalipse é história divinamente pré-descrita, desde cerca do ano 96 A.D. até a época presente e daí em diante, cujos acontecimentos econômicos, políticos e eclesiásticos são escritos em cifras, números ou códigos”. Assim, nesta teoria, o livro está se desenrolando através de toda a era presente. Os idealistas consideram o livro simplesmente como o estabelecedor de grandes realidades espirituais sob vários símbolos em vez de descrever eventos atuais da história, sejam passados ou futuros. Trata-se do “desenrolar pictórico de grandesprincípios em conflito constante, embora sob formas diversas, e de caráter eclético”. O Dr. J. A. McClymont, por exemplo, conta-nos que “a interpretação mais segura e provavelmente mais verdadeira do livro é considerá-lo como uma representação simbólica de grandes princípios em lugar de uma coletânea de predições definidas”. Os futuristas consideram a maior parte do livro como referindo-se ao que ainda está no futuro, isto é, à época final da era presente, e depois continuando para além dela. Muitos futuristas concordariam em que as cartas às sete igrejas nos capítulos 2 e 3 cobrem realmente estágios sucessivos da história da Igreja; mas seja do capítulo 4 ou do capítulo 6, todos os desenvolvimentos visionários até o capítulo 19 descrevem


antecipadamente eventos que ocorrerão pouco antes (e alguns realmente por ocasião) da volta de Cristo; enquanto o capítulo 20 leva-nos através do Milênio até o juízo final e geral da humanidade; e os dois últimos capítulos (21, 22) nos fazem chegar “aos novos céus e nova terra”. Qual das Quatro? Qual das quatro interpreta então verdadeiramente o livro? Nomes famosos estão associados a cada uma delas. Vamos dar nosso próprio ponto de vista com franqueza e brevidade, mas esperamos que a nossa franqueza não seja tomada como dogmatismo ou desrespeito. Devemos rejeitar definitivamente a teoria idealista. Quanto mais lemos o livro, tanto mais somos obrigados a crer que as coisas desvendadas são, em sua maior parte, definitivamente proféticas. As correspondências entre ele e outras passagens claramente proféticas tanto do Antigo como do Novo Testamento são muito claras para admitir dúvida. A não ser que essas outras passagens devam ser também idealizadas ou espiritualizadas, não podemos tratar desse modo as visões paralelas em nosso Livro de Apocalipse. Da mesma forma, não é possível aceitar o conceito preterista. Os que argumentam que tudo foi cumprido durante a primeira era da Igreja colocam-se em dificuldades insuperáveis quando chegam a certas partes do livro, as quais falam de coisas que jamais ocorreram até agora. Do mesmo modo, na teoria deles, não há dúvida de que algumas das previsões dos videntes logo foram falsificadas pelos eventos —fazendo com que nos admiremos da razão do livro ter continuado a ser tido em tão alta estima pela Igreja primitiva. Embora alguns da escola preterista permitam um cumprimento histórico até a queda do Império Romano no século V, permanece, porém, o fato de que, nesta teoria, o Livro de Apocalipse, hoje não tem outro valor além de atender um simples interesse histórico. Não podemos pensar também que a incessantemente variável interpretação historicista ou “presentista” esteja correta. O conhecimento da história necessário para que alguém possa compreender o livro parece desqualificá-la totalmente. Segundo alguns, os selos liberam a história até a queda do império romano; as trombetas representam as invasões bárbaras e maometanas até o século XI. A besta é o papado no século XVI.


As taças são os juízos sobre o papado e o maometismo no século XIX. Não deixa de ser engenhoso associar símbolos aos acontecimentos, mas há muita falta de real plausibilidade. Muitos dos acontecimentos a que se ajustam como cumprimentos dificilmente são dignos das predições que supostamente cumprem, enquanto os acontecimentos realmente importantes são completamente ignorados por Deus e pelo homem! A nota do Dr. Joseph Angus sobre a teoria historicista é demasiado substancial para não ser mencionada: “Embora concordando com esta visão geral, os intérpretes históricos demonstram a mais absoluta diversidade de opiniões quanto à aplicação dos diferentes símbolos em números, formas animadas, forças da natureza, cores, etc.; alguns os estendem até certo ponto como eventos da história secular, enquanto outros os limitam por completo aos interesses da Igreja. Seria errado ridicularizar os erros e contradições dos intérpretes que solenemente buscavam a verdade, em seus cálculos dos tempos e estações e sua interpretação dos símbolos apocalípticos; mas pelo fato de autoridades de reputação como Bengel, Wordsworth, Elliott e outros estarem em completa contradição, este sistema se invalida. Onde um intérprete (Elliott) vê no sexto selo uma referência a Constantino, outro (Faber) vê uma alusão à primeira Revolução Francesa; onde um vê na estrela caída do céu um anjo bom (Bengel), outro (Elliott) discerne Maomé: os gafanhotos que têm poder de escorpiões durante cinco meses significam 150 anos de domínio dos sarracenos para Mede, mas para Vitringa eles indicam os godos, e para Scherzer, os jesuítas. Tudo isto parece arbitrário e arriscado em extremo”. A Interpretação Futurista Para nós, a verdadeira interpretação é a conhedda como futurista. Isto não significa que concordamos em detalhe com tudo que se apresenta como interpretação sob a bandeira futurista; mas acreditamos que a teoria, em geral, é a verdadeira. É claro que o próprio fato de fazer com que o corpo do livro refira-se ao que ainda está no futuro indica que ele não pode ser testado quanto aos resultados históricos, como acontece com os outros conceitos (infelizmente para eles!); mas a interpretação futurista pode ser testada de outras formas, especialmente em comparação com outras


passagens das Escrituras —o que para nós constitui o teste mais importante de todos. Acredito que a interpretação futurista seja verdadeira porque ela interpreta as revelações do Apocalipse de João em correspondência com todo o esquema da predição bíblica. O que é esse “todo o esquema”? É o que segue em resumo. As profecias do Antigo Testamento predizem repetidamente a vinda de um Cristo real que reinaria no trono de Davi, em Jerusalém, sobre um Israel novamente reunido e regenerado, governando com poder supremo e benevolente todos os povos gentios. Essas profecias são em tão grande número e pronunciadas de tal modo que espiritualizar seu significado claro parece-nos uma profunda irreverência para com o Espírito Santo. Mas existe também uma linha de predição messiânica que mostra o Messias como um Salvador que sofre, cuja morte traz salvação do pecado. O Novo Testamento focaliza tudo isto, mostrando que existe apenas um Messias, com duas vindas — primeiro, como o Salvador que sofre e depois como o soberano davídico, e entre essas duas vindas interpõe-se a era presente. O Novo Testamento tajnbém esclarece que a segunda vinda será precedida e, de fato, precipitada por. perturbações do fim dos tempos, superando em intensidade e magnitude tudo que foi visto antes, e que se seguirá a ela o reinado longamente prometido de Cristo. O Novo Testamento não divulga a duração dessa era intermediária, pois na própria natureza das coisas da segunda vinda do Senhor deve manter uma iminência constante; mas ele declara, repetidamente, que pouco antes disso haverá ocorrências sem precedentes que servirão de sinais reconhecíveis (Mt 24.27-31; 2 Ts 1-12; 2 Tm 3, etc.). Parece-me então que a interpretação Futurista do Apocalipse de João ajusta-se muito bem a este padrão geral da profecia bíblica. Caso contrário, quem nos corrigirá? Acabamos de ler um panfleto, Alguns Erros do Futurismo, em que o autor condena a interpretação futurista como uma invenção do século XVI de Ribera, um padre jesuíta de Salamanca, a fim de salvar a Roma papal de ser identificada como o anticristo (como na interpretação historicista dos reformadores). No que me diz respeito, houve época em que decidi não consultar outros escritos sobre o assunto até que tivesse “examinado as Escrituras” por mim mesmo, e foi assim que eu cheguei à minha convicção. O panfleto diz também que a interpretação futurista depende da teoria do “intervalo”, i.e., um intervalo supostamente longo (a era presente) entre as 69- e 70a semanas da profecia de Daniel;


mas, de modo nenhum; em minha opinião não existe necessidade da teoria do intervalo; o Novo Testamento é suficiente para responder-me sobre a época final desta era presente e a volta do Senhor. O panfleto critica os escritos de certos futuristas, mas isso é muito diferente de invalidar a interpretação em termos gerais. Eu mesmo não concordo com tudo o que os futuristas dizem sobre aspectos secundários: mas também não posso achar um argumento real e bíblico contra o ponto de vista deles em qualquer das quatorze páginas do folheto em questão. É claro que me apresso em fazer certas concessões. Com os idealistas, estou pronto a ver nas visões e símbolos apocalípticos, vivas ilustrações de princípios, conflitos e questões espirituais, embora essas não sejam a primeira interpretação do livro. Com ospreteristas, percebo claramente nos precursores e na destruição que pôs fim à era apostólica um cumprimento, uma espécie de cumprimento antecipado, embora não o cumprimento final, assim como as predições do Senhor em Mateus 24.4-31, todas tiveram então um cumprimento exceto a volta do próprio Senhor. Com os historicistas, vejo as repetidas correspondências e cumprimentos através de toda a era presente, desde que a “história se repete” e Deus dominou os acontecimentos a fim de pressagiar e conduzir até o cumprimento/ma/. Desse modo o meu futurismo encontra certa acomodação para as outras três teorias, embora nenhuma delas consiga abrir espaço para ele\ Um Princípio Orientador Devemos contentar-nos aqui em submeter apenas um dos princípios orientadores que julgamos deva ser observado na interpretação dos símbolos do livro: Cuidado com aquela falsa exegese que diz: “Se qualquer parte das Escrituras for simbólica, tudo é simbólico; se qualquer parte é literal, tudo é literal”. A primeira visão neste Livro de Apocalipse deve impedir-nos de fazer uma suposição assim tão ampla. Nosso Senhor aparece como: 1. “Um semelhante a filho de homem.” 2. “Com vestes talares.” 3. “Cingido à altura do peito com uma cinta de ouro.” 4. “A sua cabeça e cabelos eram brancos como alva lã, como neve.”


5. “Os olhos, como chama de fogo.” 6. “Os pés semelhantes ao bronze polido.” 7. “A voz como voz de muitas águas.” 8. “Tinha na mão direita sete estrelas.” 9. “Da boca saia-lhe uma afiada espada de dois gumes.” 10. “O seu rosto brilhava como o sol na sua força.” Aqui temos certamente simbolismo. Dignidade, poder, posição, caráter, tudo revestido de símbolos. Mas, note bem, apesar de muita coisa ser simbólica, nem tudo o é. Foi verdadeiramente o próprio Senhor que João viu e não apenas uma representação simbólica dEle. Várias vezes, em todo o Livro de Apocalipse, descobrimos o simbolismo assim agrupado ao redor da verdade e de realidades literais e centrais.

Movimentos Principais e Análise Vamos agora examinar juntos o livro, anotando nossas descobertas e preparando uma análise como base para novos estudos. Nenhum livro das Escrituras foi construído sobre um plano mais claro. Ele se desenvolve em três movimentos, cada um resultando num clímax transcendente. O primeiro cobre os primeiros cinco capítulos. O segundo os capítulos 6-20. O terceiro os capítulos 21 e 22. No primeiro movimento, abrangendo os cinco primeiros capítulos, o objetivo é a entronização de Cristo no céu. No movimento central, cobrindo os capítulos 6-20, o alvo é a entronização de Cristo na terra. No movimento final, o belíssimo clímax é a entronização de Cristo na nova criação. Vamos entender, em primeiro lugar, que o Livro de Apocalipse é o desvendar das três entronizações do Senhor. A seguir, é preciso compreender que a parte principal do livro (capítulos 6-19) desenvolve-se em duas séries paralelas de capítulos; i.e., os capítulos 6-11 e os capítulos 12-19 são paralelos, ambos os grupos de capítulos descrevem a mesma série de acontecimentos a partir de dois aspectos diferentes. Ambos ocorrem em duas épocas terríveis: (1) “A Grande Tribulação” e (2) “A Ira de Deus”. Note que os sete selos no primeiro membro do paralelo (6-11) equiparam-se aos sete personagens no segundo elemento (12-19), e também que em ambos há o selo de um remanescente


israelita na terra e a bênção dos santos no céu; que as sete trombetas de uma parte são um paralelo exato das sete taças da outra parte. No primeiro elemento (6-11), temos a visão terrena dessas coisas; no segundo (12-19), a visão celestial das mesmas. O livro pode ser então resumido preliminarmente, como segue: 1. PRIMEIRO MOVIMENTO (1-5) Entronização de Cristo no céu. 2. SEGUNDO MOVIMENTO (6-20) A Grande Tribulação. A Ira de Deus. A entronização de Cristo na terra. 3. TERCEIRO MOVIMENTO (21-22) Entronização de Cristo na nova criação. Para começar, examine novamente esses cinco primeiros capítulos. Quem pode deixar de ver que o quinto é o clímax dos demais? Observe a ordem e o progresso através dele.

O Primeiro Grupo de Capítulos No capítulo 1, temos a visão do Filho do Homem em meio aos candeeiros. Qual a verdade central simbolizada aqui? Com certeza devemos obter uma impressão viva e comovente do Cristo no céu operando através da Igreja na terra. A seguir, vêm os capítulos 2 e 3, com suas sete cartas de louvor, instrução, exortação e correção para as “sete igrejas” de Cristo na terra. Qual o pensamento predominante nelas? Fica igualmente claro que é o da Igreja na terra funcionando para o Cristo no céu. Assim, a visão do Filho do Homem em meio aos candeeiros e as cartas às sete igrejas são os lados opostos de uma única verdade. Num caso temos o aspecto celestial — o Senhor no céu operando através da Igreja na terra; no outro caso, a Igreja na terra funcionando para o Cristo no céu. Gostaríamos naturalmente de nos demorar nesses detalhes, mas isso fica fora de nosso objetivo aqui. O que desejamos é captar as idéias centrais


ou essenciais. Cristo ressuscitou, está vivo e ascendeu aos céus, trajado em reverente santidade e irresistível esplendor celestial. Embora no momento invisível na terra, Ele está mais ativo aqui do que nunca. Está se movendo em meio aos candeeiros, operando através da Igreja na terra; e a Igreja (singular) na terra está funcionando para Ele através das igrejas (plural). Qual a sua última palavra para a Igreja? É esta: “Ao vencedor, dar-lhe-ei sentar-se comigo no meu trono, assim como também eu venci, e me sentei com meu Pai no seu trono” (3.21). Esta referência à ocupação conjunta do trono do Pai pelo Senhor abre a porta para a visão daquele trono que agora se segue nos capítulos 4 e 5 .0 capítulo 4 é gasto na descrição do trono da divindade e da adoração no céu. Ele mostra o lugar de suprema autoridade — o trono. Depois no capítulo 5, o capítulo do Cordeiro e do livro com sete selos, vemos o Cordeiro no meio do trono. Compreenda bem: o propósito principal deste primeiro movimento de Apocalipse é colocar o Cordeiro no meio do trono. O livro não pode continuar até que Ele esteja ali. Este primeiro movimento chega assim ao seu ponto alto:' CRISTO, O CORDEIRO, NO LUGAR DE CONTROLE SUPREMO. Temos novamente de deixar de lado as circunstâncias intrigantes do magnífico simbolismo a fim de enfatizar as idéias principais. A única condição que imporíamos aos capítulos 4 e 5 seria a seguinte: insistir em que eles descrevem algo que já aconteceu. A entronização que fazem do Cordeiro no céu não é algo que ainda está para ocorrer. Ele se acha ali agora. Lembre-se de 3.21: “Assim como também eu venci, e me sentei com meu Pai no seu trono”. Isto concorda com o ensino uniforme do Novo Testamento (Mc 16.19; At 2.33; Rm 8.34; Ef 1.20,21; Hb 1.13 com 2.9; 10.12,13). Essa entronização no céu já teve lugar. Veja, então, num relance, o curso e clímax desses cinco primeiros capítulos: O PRIMEIRO GRUPO DE CAPÍTULOS (1-5) cap. 1. O Filho do Homem em meio aos Candeeiros. — Cristo no céu operando através da Igreja na terra. 2-3. As Cartas às Sete Igrejas —A Igreja na terra funcionando por Cristo no céu. 4. O Trono Celestial e a Adoração. — O lugar de suprema autoridade.


5.

O Cordeiro e o Livro com Sete Selos. — Cristo, o Cordeiro, no supremo controle.

O Segundo Movimento (6-20) No momento em que o Cordeiro é colocado no trono, o Apocalipse prossegue através das duas épocas de impacto: a “Grande Tribulação” e a “Ira de Deus”. Nesta parte central e mais longa, muitos leitores ficam confusos simplesmente por não perceberem que os capítulos 12-19 são uma “repetição” paralela dos capítulos 6-11. Podemos demonstrar facilmente o paralelo: Capítulos 6-11

Cap. 6. Os sete selos 7. Parentético: (1) Selado o remanescente de Israel (2) Bem-aventurança dos santos nos céus 8,9 SETE TROMBETAS 1. Na terra. 2. No mar. 3. Nos rios. 4. Sol, lua, estrelas. 5. Trevas,flagelos. 6. Eufrates: exército. 7.“Nações enfurecidas”; Ira”; “Grandes vozes”; não haverá demora”. 10,11. Parentético: Jerusalém na “Grande Tribulação”. 11.15 Fim da sétima trombeta. 1. “Reino do Senhor” 2. Os 24 anciãos adoram. 3. A“Ira” chegou.

Capítulos 12-19

Os sete personagens (12,13). Parentético (14): (1) Selado o remanescente de Israel. (2) Bem-aventurança dos santos. SETE TAÇAS (15,16). 1. Na terra. 2. No mar. 3. Nos rios. 4. Sol. 5. Trevas, flagelos. 6. Eufrates: reis. 7. “Nações caíram”; “Ira”; “Vozes”; “Trovões”; “Feito está”. Parentético (17-18): Babilônia na “Ira de Deus.” Depois da sétima taça (19) 1. “Reina o Senhor nosso Deus’ 2. Os 24 anciãos adoram. 3. “Armagedom.”

Este paralelo harmonioso pode ser facilmente verificado. Não há possibilidade de errar. Ele se acha ali e a interpretação do livro depende do mesmo.


“Grande Tribulação”versus “Ira de Deus” Neste paralelo existe um aspecto, que, quando percebido, é especialmente interessante, a saber, a pausa solene entre os sete selos e as sete trombetas na coluna um, e a interrupção também solene entre os sete personagens e as sete taças na coluna dois. (Veja no primeiro caso 6.17-8.1 e no segundo 13.18-15.1). Qual a razão desta pausa entre os selos e trombetas, e antes das taças? É para marcar uma distinção entre os dois estágios da crise do fim dos tempos, i.e., entre a geralmente chamada “Grande Tribulação” e a “Ira de Deus”. Não podemos lembrar-nos de ter visto esta distinção destacada antes em exposições da escatologia do Novo Testamento; no entanto, ela se acha indubitavelmente ali (não só no Apocalipse, mas também em outras passagens das Escrituras: veja Mateus 24.29-31), e ajuda bastante a esclarecer se a Igreja passará ou não pela “Grande Tribulação”. Essa questão delicada tem sido, com freqüência, discutida acalorada e amargamente por grupos de idéias opostas! Todavia, parece haver considerável confusão de pensamentos por parte de alguns que são radicalmente dogmáticos. Sempre encontramos pessoas que afirmam que a Igreja será transplantada para o céu antes da “Grande Tribulação” cair sobre a terra, mas, para nós, seu principal argumento parece duvidoso. Elas dizem: “Não podemos conceber que a Igreja venha a ser deixada na terra durante esses anos terríveis e finais da presente era, porque será então que os juízos e a ira de Deus se derramarão sobre a terra; e como poderia a Igreja ficar na terra e sofrer tudo isso, desde que a cruz de Cristo salvou os crentes desse juízo? Existem, no entanto, passagens do Novo Testamento que, para nós, parecem indicar certamente que os crentes dos últimos dias (há apenas uma pequena parte da Igreja global na terra em qualquer momento específico) estarão na terra durante a chamada “Grande Tribulação”. 2 Tessalonicenses 2 é uma delas. Sabemos como este assunto é sensível e não pretendemos discuti-lo aqui, mas sugerimos a existência de um fato que foi até agora negligenciado, a saber, que a “Grande Tribulação” e a “Ira de Deus” não são a mesma coisa. Quando os cristãos dizem que não podem pensar na Igreja ficando na terra durante a “Grande Tribulação” porque esse será o tempo em que a “ira vindoura” será derramada, eles estão confundindo


coisas diferentes. Essa “Ira de Deus” é o acontecimento final e terrível que “se seguirá imediatam ente” (Mt 24.29) à “Grande Tribulação”. Certamente, nenhum membro do corpo místico do Senhor, comprado pelo sangue e selado pelo Espírito, poderá ser deixado na terra para sofrer isso. Todavia, é muito possível — e conforme algumas passagens do Novo Testamento parece necessariamente implícito — que os crentes continuarão aqui durante a “Grande Tribulação” quando o “iníquo” também vai estar. Não afirmamos dogmaticamente uma coisa ou outra, mas achamos que a distinção que fizemos — ou, antes, que acreditamos que a Escritura faz entre a “Grande Tribulação” e a “Ira de Deus” — é importante. Lembre-se, a “Grande Tribulação” será em grande parte instigada por Satanás através do “iníquo”, enquanto a “Ira de Deus” é um castigo de origem inteiramente divina. O Livro de Apocalipse parece certamente observar esta distinção, como nossa análise irá mostrar. Uma vez devidamente reconhecida esta diferença necessária, a parte central do livro (6-19) desvenda seu notável paralelo bem mais compreensivelmente. Quando a “Grande Tribulação” e a “Ira de Deus” são tratadas como idênticas, o resultado é confusão, como pode ser visto através de algumas das diferentes análises e explicações do livro.

O Movimento Final (21-22) O Apocalipse chega ao seu clímax sublime em “todas as coisas novas” dos capítulos 21 e 22. Reflita um momento sobre os elementos que levam a isto. O primeiro movimento do livro (1-5) tem seu clímax na entronização do Cordeiro no céu. Ambas as séries de capítulos paralelas que abrangem a área central enfocam a entronização do Senhor na terra (11.15-17 e 20). O ponto alto desta revelação final nos capítulos 21 e 22 é a entronização do Cordeiro no “novo céu e nova terra” para sempre. O Cordeiro é mencionado sete vezes e a sétima menção diz: “Nunca mais haverá qualquer maldição. Nela estará o trono de Deus e do Cordeiro (i.e., na nova Jerusalém).”


Não é o Céu Esses dois últimos capítulos da Bíblia não devem ser julgados como uma descrição do céu\ eles descrevem algo que se passará na terra (embora na nova ordem de coisas haverá trânsito livre entre a terra e o céu). Em 21.2, João diz: “Vi também a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do céu, da parte de Deus”, /.e., para a terra. Veja também o v. 24 que diz: “As ficiçõcs andarão Tnodíairtc a sua luz** ^Esta ^ rca^^icntc a pcrspsctivâ dourada e final para este nosso velho mundo! De fato, não será mais “€s):e velho mundo”; mas uma “nova terra”; e o “novo céu” significar > atmosfera invisível da terra vai ficar livre para sempre do “pjáncipe^P potestade do ar”. Nem o Milênio A nova era gloriosa que surge aos n | nesses dois últimos capítulos não deve ser tomada i io u^Ra^dperlção adicional do Milênio. Absolutamente não. O Milênio eC t).Sàsfo capítulo vinte, onde vemos os santos “reinando com Cristo duraifte^iil anos” (w. 4-6). Durante esses mil anos, Satanás ficará píés^no abismo (w. 1-3); mas no final será libertado. Ele imedfètóíftCTteiavança para enganar as nações e há uma última e violentaijnmW^çab (w. 7-10). O propósito disto é demonstrar a impossibilidaokaáSí^anás vir a corrigir-se e o fracasso irremediável da natureza h^âah^adâmica — mesmo depois de mil anos de governo perfei teÇ-prç Ujràndo-nos assim imediatamente para o juízo final e geral ' \áo^)èrande Trono Branco” (w. 11-15) e o término da presente )urante o Milênio, a velha Jerusalém é edificada; mas nesses dois í<_ capítulos (21,22) a “nova Jerusalém” desce do céu. iste é, pois, o esboço e significação principal do Livro de Apocalipse e podemos colocá-lo numa estrutura simples. Nosso esboço, como é natural, dá apenas uma sinopse generalizada do livro, mas poderá servir de base para uma análise mais minuciosa. Lamentamos não apresentar com maior destaque as três entronizações do Senhor; mas, por outro lado, enfatizamos a diferença entre a “Grande Tribulação” e a “Ira de Deus”.


O LIVRO DE APOCALIPSE Q CRISTO RESSURRETO ENTRONIZADO Cap. 1.0 FILHO DO HOMEM ENTRE OS CANDEEIROS. (Cristo no céu, operando através das assembléias na terra.) Caps. 2-3. AS CARTAS ÀS SETE ASSEMBLÉIAS. (As assembléias na terra funcionando para o Cristo no céu Cap. 4. O TRONO CELESTIAL E A ADORAÇÃO. (O lugar de suprema autoridade e controle.) Cap. 5. O CORDEIRO E O LIVRO DE SETE SELOS. (Cristo colocado no lugar de supremo controle.) . )

A “GRANDE TRIBULAÇAO” Cap. 6. — Os sete selos. 7. — Parentético. (1) Remanescente de Israel selado na terra antes da “Ira”. (2) Bem-aventurança dos santos no céu.

Cap. 12-13 — Os sete personagens. 14 — Parentético. (1) Remanescente de Israel selado antes da chegada da “Ira” (2) Bem-aventurança dos santos. (3) Advertência: “Ira” vindoura. (4) Visão: razão para Armagedom.

A “IRA DE DEUS” SETE TROMBETAS (8) SETE TAÇAS (15,16) 1. Na terra. 1. Na terra. 2. No mar. 2. No mar. 3. Nos rios. 3. Nos rios. 4. Sol, lua, estrelas. 4. Sol. 5. Trevas, flagelos. 5. Trevas, flagelos. 6. Eufrates: exército. 6. Eufrates: reis. 7. “Nações enfurecidas; “Ira”; 7. “Nações caíram; “Ira”; “Grandes vozes”; “Não haverá “Vozes”; “Trovões”; demora”. “Feito está”. NOTA: 10,11, parentéticos (Jerusalém NOTA: 17-18, parentéticos na “Grande Tribulação”). (Babilônia na “Ira de Deus”). NOTA: Fim da sétima trombeta NOTA: Fim da sétima taça (fim de 11): (fim de 16 e 19): 1. “Reino do Senhor e Cristo”. 1. “Reina o Senhor”. 2. Os 24 anciãos adoram 2. Os 24 anciãos adoram. 3. “Tempo para serem julgados 3. “Ele julgou”. os mortos.” 4. Chegada da “IRA” 4. Armagedom.


20.1-6 O REINO MILENAR DE CRISTO. 20.7-10 OS ABUSOS FINAIS E A CONDENAÇÃO DE SATANÁS. 20.11-15 O JUÍZO FINAL DA HUMANIDADE. 21-22 O NOVO CÉU E A NOVA TERRA.

Isto nos traz também ao fim desses estudos. Numa espécie de reconhecimento preliminar exploramos toda a terra, “de Dã a Berseba”, e não descobrimos ser ela uma “terra boa e vasta?” Colhemos “uvas de Escol” em seus vales verdejantes e nos refrescamos nos ribeiros que correm das fendas das rochas. Ficamos ao lado do majestoso Moisés para observar o comovente panorama do início da história; e acompanhamos o seráfico João em Patmos, a fim de contemplar o desvendar dramático das consumações da história; enquanto entre os dois — que tesouros verdadeiros de preço incalculável encontramos! Esta é uma terra para se viver! Esta é a nossa “herança santa”. Vamos realmente possui-la e considerá-la acima de tudo o mais. Poderíamos melhor terminar esta série de estudos se não o fizéssemos onde a própria Bíblia termina. Observe de novo o quadro final do Senhor e seus remidos na glória do “novo céu e nova terra”: “Nunca mais haverá qualquer maldição. Nela estará o trono de Deus e do Cordeiro. Os seus servos o servirão, contemplarão a sua face, e nas suas frontes está o nome dele. Então já não haverá noite, nem precisam eles de luz de candeia, nem da luz do sol, porque o Senhor Deus brilhará sobre eles, e reinarão pelos séculos dos séculos” (Ap 22.3-5). Consumação inefável! Descrita, mas, em seu pleno significado, completamente indescritível! Reúna os sete elementos que juntos constituem sua sublimidade sobrenatural: “Nunca mais haverá qualquer maldição” “O trono de Deus e do Cordeiro” “Os seus servos o servirão” “Contemplarão a sua face” “Nas suas frontes está o nome dele” “O Senhor Deus brilhará sobre eles” “Reinarão pelos séculos dos séculos”

—i.e, perfeição sem pecado. — i.e., governo perfeito. — i.e., serviço perfeito. —i.e., visão perfeita. — i.e., semelhança perfeita. — i.e., iluminação perfeita. —i.e., perfeita bem-aventurança

E, agora, com esta consumação divinamente revelada, que faz vibrar a


alma, vamos terminar, fazendo a última oração fervorosa da Bíblia: “AMÉM. VEM, SENHOR JESUS. A graça do Senhor Jesus Cristo seja com todos. Amém.” ÚLTIMAS PERGUNTAS 1. Quais são os cinco principais temas em cadeia em 1 João? 2. Quais são os sete “contrastes” em 1 João? 3.1 João é a epístola da “Verdade versus...”. Ela ensina como “saber” e como “...” Você sabe preencher os espaços em branco? 4. Quais são os sete testes (começando com “Se dissermos”, ou “Aquele que diz”) que ocorrem em 1 João? 5. A quem João dirigiu sua segunda carta? Ela se divide em duas partes: quais? As duas partes apresentam o teste central de... O que? 6. A quem João escreveu a terceira epístola? Embora pequena, ela se divide em duas partes: quais? 7. Quais são as quatro abordagens (ou escolas de interpretação) para o Livro de Apocalipse? Acrescente apenas uma palavra de explicação para cada uma. 8. Qual das quatro você acha certa e por quê? 9. O primeiro grupo de capítulos (1-5) é progressivo e culminante. Você pode mostrar como? 10. Quais as três entronizações do Senhor no Livro de Apocalipse? 11. Quais as indicações de que os capítulos 6 a l l e l 2 a l 9 são paralelos? 12. Você sabe esboçar a estrutura principal do livro?

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Karmitta 111

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