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WOMEN EDIÇÃO 1, ANO 1 | ALLSPORTSWOMEN.COM

Uefa lança campanha para transformar o futebol da rainha Marta no esporte mais praticado entre as meninas da Europa nos próximos cinco anos. Essa moda vai pegar?

A MAGIA DE MAGIC PAULA NOS BASTIDORES DO ESPORTE NATÁLIA SUPERA BARREIRA DUPLA POR SER MULHER E DEFICIENTE AUDITIVA


/CARTA AO LEITOR No esporte, assim como na vida, a conquista feminina sempre exigiu empenho extra daquelas que não aceitam o gênero como uma barreira para reconhecer o valor de um atleta. Onde há disputas esportivas há, também, um luta velada por mais espaço e valorização daquelas que buscam a vitória, a medalha, o pódio... e é para mostrar um pouco sobre essas batalhas a AllSports Women foi criada. Nessa revista digital, serão contadas histórias sobre quem contribui para o esporte feminino. Mulheres e homens também, por que não, que acreditam na igualdade não como discurso mas realidade. Prática que Magic Paula executa desde os 9 anos. De estrela do basquete, a campeã mundial tornou-se exemplo de gestora comprometida e bem-sucedida e nos revela um pouco desse sucesso. Bruna Piloto fala sobre as barreiras que enfrenta como atleta do levantamento de peso. Vaidosa, femininia e determinada, ela tem a força para afastar os obstáculos. No vôlei, a central Natália nunca achou impossível o sonho de brilhar no vôlei. Deficiente auditiva, ela bate um bolão na equipe profissional de Osasco. Por falar em bola, Marta é a rainha no esporte número 1 do Brasil, um país que, se ainda engatinha na igualdade entre gêneros nos gramados, tem motivos para comemorar avanços recentes. No mundo, a Uefa, que rege o futebol na Europa, faz campanha para transformar, em cinco anos, a modalidade no principal esporte entre as meninas no continente. Mas não são somente as atletas profissionais que brilham. Entre as corredoras de rua e praticantes “sociais” de diversas modalidades surgem histórias de puro amor ao esporte. Imagens inspiradoras, novidades da medicina esportivas, debate e muita informação. Na AllSports Women você vai encontrar tudo isso e muito mais. Afinal, como bem disse o ex-presidente dos Estados Unidos, John Kennedy: “Todos nós temos talentos diferentes, mas todos nós gostaríamos de ter iguais oportunidades para desenvolver os nossos talentos”. Boa leitura e não se esqueça de conversar conosco em nossas redes sociais.

Marta Teixeira

EXPEDIENTE DIRETORES EXECUTIVOS: Marta Teixeira e Robson Fernandjes EDIÇÃO E REPORTAGEM: Marta Teixeira DESIGNER: Karina de Sá


conceito SUMÁRIO

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Garota exemplar /PERFIL

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Papo com os leitores /ESPORTE

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O peso do preconceito /MEDICINA

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/PERSONAGEM

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Das quadras FORÇA À PROVA para os Bruna pretende levantar mais de 115 kg no Mundial bastidores: de Houston. Por ser sede da Olimpíada, o Brasil tem Magic Paula cinco vagas garantidas para ainda é a os Jogos do ano que vem dona da bola /NO FOCO

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Imagens para pensar

Batalha silenciosa dalidade deve sobrevivência a um romeno

hora a aderência nas mãos utilizando pó de magnésio

Fotos de Nelson Coelho/Diário SP

/TÁ NA REDE


ANÚNCIO


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Karina de Sá @fulanodetal

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FUTEBOL

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RAPIDINHAS

SALTOS ORNAMENTAIS

AIS I C O S S REDE

DATA CERTA

A CBF divulgou a tabela das primeiras rodadas do Campeonato Brasileiro Feminino A1. Com 16 clubes participantes, o torneio começa no dia 25 de março. Quatro gigantes do masculino têm representação no evento: Corinthians, Flamengo, Santos e Sport.

TÁ VOANDO!

Atleta de Saltos Ornamentais, Ingrid Oliveira garantiu índice para a disputa do Grand Prix do Canadá da modalidade. O evento será realizado de 1 a 4 de maio, em Quebéc. Ela registrou 300 pontos na plataforma – precisava de 298 – durante a disputa do Troféu Brasil, realizado no Rio de Janeiro.

JUDÔ

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CARTAS TITULO

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TITULO

Lorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipiscing elit. Nullam sodales dui vel accumsan vehicula. Maecenas vestibulum in nisi non faucibus. Interdum et malesuada fames ac ante ipsum primis in Autor, São Paulo - SP Lorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipiscing elit. Nullam sodales dui vel accumsan vehicula. xxxxxx@allsports.com.br

ATLETISMO

Autor, São Paulo - SP

IPPON

Mayra Aguiar, judoca bicampeã mundial na categoria meio-pesado (até 78 kg), foi eleita a melhor atleta do esporte brasileiro em 2017 no prêmio Brasil Olímpico organizado pelo COB (Comitê Olímpico Brasileiro). Antes do Mundial, ela precisou se recuperar de uma cirurgia no ombro esquerdo.

ORAS POIS

Paratleta santista, Vanessa Cristina conquistou o título da Meia Maratona de Lisboa. Foi a primeira vez que uma atleta brasileira venceu a prova. Campeã da São Silvestre de 2017, a atleta da Unimes/Fast Wheels/ MSC obteve seu primeiro título internacional, completando o percurso de 21km em 58min43.

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Na briga por vagas no Rio-2016, meninas do levantamento de peso superam o machismo e começam hoje a Rio 2016 disputar o Mundial, nos EUA

Teixeira

p.com.br

O peso do O PESO DO preconceito Por Marta Teixeira

começam hoje a disputar o Mundial, nos EUA

PRECONCEITO

Bruna Piloto representou o Brasil na Olimpíada e 2016, no Rio de Janeiro

va, do Pinheiros — bicampeão

Fotos de Nelson Coelho/Diário SP

não há uer de e sosto... as s, mas quanmento. Na ímpiputa o partir A). ), Moe Fern Silva gório araiva entam os. ainda ção já ito até ssaJae a fiada, a ica do ismo, reinar de envantaanã. o não uando e que olhamater que eu que ia ”, re. Jogos ronto, o foi a rimiontou mas, ouvir so era

P

85kg), Mateus Gregório (até 105kg) or onde elas passam,não há eFernandoSaraiva (acima de 105kg) quem não repare.Um erguer representam o Brasil nos Estados de sobrancelhas,um olhar de Unidos. E se hoje as meninas ainsoslaio, um certo ar de espanto... da chamam atenção, a situação já as reações podem ser muitas, mas foi- pior. “Sofri preconceito até da DE 2015 ninguém fica impassível quando DIÁRIO DE S. PAULO TERÇA-FEIRA / 24 DE NOVEMBRO minha família”,confessa Jaqueline. as meninas do levantamento de Com medo de que a filha ficasse peso estão por perto. Na briga pela masculinizada, a mãe, Gilda, sugeclassificação olímpica, a seleção ria a prática do vôlei ou o re torno brasileira disputa o Campeonato ao atletismo, que a garota começou Mundial a partir de hoje,em Housa treinar anos, quatro antes ton(EUA). Bruna Piloto(atéNa 63kg), briga por vagasaosno12Rio-2016, meninas do de entrar em contato com o levantaMonique Araújo e Jaqueline Ferlevantamento de peso superam o machismo e mento de peso, no Maracanã. reira(até 75kg), Wellison Silva (até


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os — bicampeão no, o gigante de “No começo g é o principal foi meio legação. complicado,mas meiro Mundial, viram que não om boas marcas. tem esse negócio r 95 kg de arrande mulher frágil. 5 kg de arremesue eu fiz Mulher no Pan. também da para fazer o peso” levanta _ para.

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DIVULGAÇÃO

F B m d d c o

Bruna Piloto Atleta brasileira do levantamento de peso Jaqueline tam-

sa. Em 2013, um u a dizer que sua chegado ao fim ANJO ROMENO ma lesão no puNão é apenas sobre o tablado póosdelevantadores magnésio de peso ompeu o liga- Atleta melhora a aderência nas mãos utilizandoque destaque da delegação. Em seu priNo dia a dia,a situação não era brasileiros enfrentam adversárioca, ela nem semeiro Mundial, Bruna sonha com muito diferente.“Quando eu falaos. Nos bastidores, a seleção segurar a barra. boas marcas. “Pretendo fazer 95kg va a modalidade que praticava, já precisou superar obstáculos de arranco e mais de 115 kg de aras pessoas me olhavam estranimensos e foi graças à pertei durante meio remesso, melhor do que eu fiz no ho, começaram a ter medo de sistência do técnico romeno odo dia.” Foi asPan. Estou preparada para fazer o mim. Falavam que eu não poderia Dragos Stanica que muita gente namorar porque ian bater que não se enOlímpico Brasileiro), atletas Nãonoémeu apenasmelhor”,compara. sobre o tablado não desistiu. Emos 2008, a CBLP finamorado”, relembra a atleta de Brasileira de ia buscar minha que os levantadores de peso bra- caram por(Confederação conta própria. “Tive28anos. Medalha de bronze nos Jode Peso) passou -americana. O sileiros mos uma Levantamento queda brutal, ficamos enfrentam adversários. gos Pan-Americanos de Toronto, por intervenção do COB (Comitê neste ano, JaquelineNos não foi a única SUPERAÇÃO ue nem cirurgia sem lugarOlímpico para treinar, bastidores, a seleção já preBrasileiro) esem os atle-téca sofrer com a discriminação.BruJaqueline também é ambiciosa. Em ficaram por conta própria. as eu na disse que cisou superar obstáculos nico, sem tas salário”, relembra Jaimensempre contou com o apoio da 2013, um médico chegou a dizer que “Sem lugar para treinar, sem conta.família, mas, fora desos casa, e cansou de sua carreira havia chegado fim Ferreira. foi graças à persistência do aoqueline técnico, sem salário”, relembra ouvir que levantamento de peso era por causa de uma lesão no punho dialha do Pan, ela técnico romeno Dragos Stanica A ajuda Jaqueline veio dos bolsos Ferreira. A ajudado veio coisa para homem. “Quando coloco reito (rompeu o ligamento). Na épodos bolsos de Stanica, ex-atleta tra conquista no que Stanica, ex-atleta de cirque muita desistiu. blusinha tomara caia, dizem:gente ca,não ela nem sequer conseguiapróprio segude circo e do levantamento de ‘nossa, um ombro desse taman- quando rar a barra. “Eu me arrastei durante abe que oscom obsco e do levantamento de peso. Em 2008, a CBLP peso. Dispensado pela CBLP , ele ho! Você não acha muito feio? Ainda meio ano, chorava todo dia. ”Foi muitos. “São 13 (Confederação Brasileira Dispensado pela CBLP, ele foi de Lefoi trabalhar como técnico nos tem preconceito, mas eu levo numa assim até decidir que não se entreEstados Unidos e enviava amento. sou trabalhar como técnico nosparte Estavantamento Peso) passou por boa.Não É o meu esporte, estou bem as- de garia. “Queria buscar minha medaldo que ganhava aos atletas no treinos, Bruna ha pan-americana. falouUnidos e enviava parte do tinha”,sim”, diz.garante. Nos intervenção do COB (Comitê O médico dos Brasil. “Ele dizia para não de-

Modalidade deve sobrevivência a

não abre mão dos brincos,da unha bem feita e dos cabelos arrumados, mantidos longos e cacheados. Com 1,52m, ela fica miúda ao lado do colega Fernando Saraiva, do Pinheiros — bicampeão pan-americano, o gigante de 1,85m e 132kg é o principal

que nem cirurgia daria jeito, mas eu disse que não desistiria”, conta. Com a medalha do Pan,ela agora busca outra conquista no Mundial. Mas sabe que os obstáculos são muitos. “São 13 anos no levantamento. Não sou mais uma garotinha”, diz.

sistirmos. Eu treinava no terreno da Escola de Samba de Curicica, no meio das latinhas (de bebidas) da noite anterior. Foi assim durante cinco, seis meses”, diz Jaqueline.

que sil. “ mos Esc mei noit cinc A qua No mod mas


Marta Teixeira marta.teixeira@diariosp.com.br

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AGORA É QUE SÃO ELAS

UNIÃO PELA FORÇA Enquanto a Uefa lança campanha para transformar o futebol feminino no esporte nº 1 entre meninas, as brasileiras comemoram avanços no Brasileirão Por Marta Teixeira

Em maio, a Uefa divulgou um relatório informando que garotas que jogam futebol têm mais autoconfiança do que as praticantes de outras modalidades. A pesquisa foi realizada com meninas a partir de 13 anos, em seis países da Europa. Determinada a expandir a modalidade no continente, a entidade lançou, em junho, a campanha “Together #WePlayStronger” (“Juntos #JogamosMaisFortes, em tradução livre) com objetivo ousado: em cinco anos, pretende transformar o futebol feminino na modalidade número 1 na prática entre garotas. Eleita a melhor do mundo em 2014, a ex-jogadora Nadine Kessler, conselheira de futebol feminino da Uefa, destaca que a proposta também pretende incentivar as jovens a continuarem jogando após a adolescência. “Quero desenvolver o futebol feminino tanto quanto seja possível na Europa. Trabalhar com as associações, as ajudando a desenvolver o jogo para que as jovens tenham acesso ao futebol onde quer que estejam”, disse ela, ao DIÁRIO. A América Latina não possui um projeto tão arrojado, mas iniciativas tentam diminuir a lacuna entre o desenvolvimento do futebol masculino e feminino. Afinal, se, para os garotos, a modalidade pode ser uma porta de acesso a melhores condições de vida, o ideal seria que isso também se tornasse realidade para meninas, como já acontece em outras modalidades esportivas. Este ano, por exemplo, a CBF aprovou a exigência de equipes femininas para os clubes profissionais que queiram disputar campeonatos oficiais, entre os homens, a partir do próximo ano. A primeira edição do Campeonato Brasileiro, já com efeitos dessa nova diretriz, abre a fase semifinal nesta quinta-feira, e o DIÁRIO ini-


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Nadine Kessler (ao centro, no alto) durante o evento de m da maio, a Uefadadivulgou um relatório informanlançamento campanha do que garotas que jogam futebol têm mais autoUefa para o futebol feminino

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A América Latina não possui um projeto tão arrojado, mas iniciativas tentam diminuir a lacuna entre o desenvolvimento do futebol masculino e feminino. confiança do que as praticantes de outras modalIAfinal, se, para os garotos, a modalidade pode ser uma dades. A pesquisa foi realizada com meninas a partir porta de acesso a melhores condições de vida, o idede 13 anos, em seis países da Europa. Determinada al seria que isso também se tornasse realidade para a expandir a modalidade no continente, a entidade meninas, como acontece em outras modalidades lançou, em junho, a campanha “Together #We-PlayNadine Kessler_ conselheira de futebol feminino da jáUefa esportivas. Stronger” (“Juntos #JogamosMaisFortes, em tradução Este ano, por exemplo, a CBF aprovou a exigência livre) com objetivo ousado: em cinco anos, pretende de equipes femininas para os clubes profissionais transformar o futebol feminino na modalidade númeque queiram disputar campeonatos oficiais, entre os ro 1 na prática entre garotas. Eleita a melhor do munhomens, a partir do próximo ano. do em 2014, a ex-jogadora Nadine Ke sler, conselheira primeira do Campeonato já com de futebol fem as nino da Uefa, destaca que a proposta DIÁRIO_ Quais são suas Uefa para assegurar um cami- A ração com edição o masculino. Não Brasileiro, ainda existam em alguns dessa nova diretriz, a fase semifinal nesta também pretende incentivar as para jovens a continuarem prioridades coordenando o nho jogadoras talentosas efeitos queremos competir ouabre nos ses. Queremos dar às men e o eles. DIÁRIO inicia hoje uma série sobre as jogando após a adolescência. “Quero desenvolver o fufutebol feminino na Uefa? e oferecer inspiração às jovens. quinta-feira, parecer com É fantástico possibilidades para jogar f NADINEtebol KESSLER_ Torneios como Euro e Liga dos transformações quando as meninas podem terHoje, bolum e serem aceitas por fazê da modalidade. panorama femininoEncorajar tanto quanto seja possível na Europa. mais garotas a particar Campeões são forças para de- geral Marta ou oAda Hegerberg A eCBF adotou sobre futebol feminino(nona Europa no Brasil (a uma dir Trabalhar com futebol, as associações, as ajudando a desenmas também que continuem o futebol feminino. rueguesa)fez como seuscom modelos. determinando que os clu reportagem contato a Conmebol para conversar volver o jogo para que assenvolver jovens tenham acesso ao Quais osela, principais obstá- sobre jogandofutebol e nãoonde o abandonem Somos todos apaixonados equipes femini o tema, mas não obteve pelo respostatenham da entidade). quer que estejam”, disse ao DIÁRIO.

ENTREVISTA

‘Que as meninas joguem e sejam aceitas

quando ficarem adolescentes. Quero desenvolver o futebol feminino tanto quanto seja

culos para a popularização do futebol feminino? Um elemento chave é atingir

mesmo esporte e precisamos destacar os nossos próprios valores, mas queremos traba-

Isso vai ajudar no desenvo mento do futebol feminino Há um anseio pelo futebo


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ALINE COMEMORA AVANÇOS E DESTACA AJUSTES DE ROTA Ex-capitã da seleção, diretora da FPF projeta escolas de futebol para garotas nos clubes profissionais Apesar de todas as dificuldades e limitações históricas, o futebol feminino brasileiro também comemora conquistas nesta temporada. Além da expansão do Campeonato Brasileiro, que passou a ter disputas em duas divisões – Séries A e B –, regionalmente, os avanços também têm acontecido. Responsável pelo departamento feminino na FPF (Federação Paulista de Futebol), a ex-jogadora Aline Pellegrino acredita que a modalidade, envfim, está entrando nos trilhos. “O futebol feminino é como aquele filho que deu certo sem ninguém ter se preparado para isso. Os resultados da modalidade vieram antes que a própria modalidade estivesse desenvolvida, com calendário, competições estruturadas. No futebol paulista, nós vivemos bem esse momento de alinhar o desenvolvimento”, explica. Vice-campeã olímpica em Atenas-2004 e campeã pan-americana no Rio-2007, Aline cita o estadual da categoria sub-17 como um dos exemplos dessas mudanças. “Nem quando éramos campeãs pan-americanas isso acontecia. O que está acontecendo, hoje, é mais importante do que o que conquistamos, porque aquilo não foi capaz de mudar a situação da modalidade”, compara. As diferenças entre os torneios dos dois naipes na Federação ainda são evidentes. O campeão paulista masculino, por exemplo, embolsa R$ 5 milhões de premiação. Já o torneio feminino ainda não tem

patrocinador máster – é bancado com recursos da Lei de Incentivo ao Esporte e aporte da própria Federação – nem tem prêmio financeiro. Mas as perspectivas mantêm, sim, Aline otimista. “A estrutura, hoje, está melhor. É a ideal? Nunca. Temos de melhorar. Os principais desafios são de direcionamento, de criar um círculo virtuoso, trabalhar para que também existam escolas defutebol feminino nos clubes e mostrar, na prática, todo o potencial que a modalidade possui”, ressalta a dirigente. Meninas da St. IIItyds Catholic High School foram algumas das participantes do festival promovido pela Uefa para o lançamento da nova campanha Ex-jogadora da seleção, Aline Pellegrino cuida do futebol feminino na Federação Paulista

‘QUE AS MENINAS JOGUEM E SEJAM ACEITAS’ Nadine Kessler_ conselheira de futebol feminino da Uefa ALLSPORTS_ Quais são as suas prioridades coordenando o futebol feminino na Uefa? NADINE KESSLER_ Encorajar mais garotas a praticar futebol e que continuem jogando e não o abandonem na adolescência. Quero desenvolver o futebol feminino tanto quanto seja possível no continente, trabalhando com as associações e as ajudando a desenvolver o jogo para que as jovens tenham acesso ao futebol onde quer que estejam. Para isso, será importante evoluir e produzir competições domésticas e da Uefa para assegurar um caminho para jogadoras talentosas e oferecer inspiração às jovens. Torneios como Euro e Liga dos Campeões são forças desse desenvolvimento. Quais os principais obstáculos? Um elemento chave é atingir e se envolver com as meninas para inspirá-las e apoiá-las. Espero que o futebol feminino siga evoluindo até nossas melhores jogadoras se tornem modelos bem conhecidas. É importante nos libertarmos da comparação com o masculino. Não queremos competir ou parecer com eles. É fantástico quando as meninas podem ter Marta ou Ada Hegerberg (norueguesa) como modelos. Somos todos apaixonados pelo mesmo esporte e precisamos destacar nossos valores, mas queremos trabalhar lado a lado com o masculino para nos completar uns aos outros. É possível atingir a igualdade de gêneros? Espero por isso e, com Together #WePlayStrong, esperamos mudar percepções que ainda existam em alguns países. Queremos dar às meninas possibilidades para jogar futebol e serem aceitas por fazê-lo.


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EFEITOS DO FUTEBOL ENTRE MENINAS ADOLESCENTES

4.128

jovens ouvidas, de 13 a 17 anos Países: Alemanha, Dinamarca, Espanha, Inglaterra, Polônia e Turquia

‘NÃO PRECISAMOS DE REVOLUÇÃO, MAS DE TRANSFORMAÇÃO’

80%

mais confiantes por praticarem futebol, contra 74% de jovens que praticam outras modalidades 54% delas concordam com a frase “estou menos preocupada com o que os outros possam pensar em relação a eu praticar essa modalidade”, contra 41% de outras modalidades

Marco Aurélio Cunha_ Coordenador do futebol feminino na CBF

58%

superaram problemas de autoconfiança pela prática dofutebol, contra 51% das praticantes de outros esportes

48%

sentem-se menos envergonhadas como resultado de praticar futebol, contra 40% das que praticam outras modalidades

ALLSPORTS_ O futebol feminino está mesmo mudando no Brasil? MARCO AURÉLIO CUNHA_ O futebol feminino vai se expandir, é inevitável. Há um público que gosta, porque o talento das meninas, a beleza, a plástica do jogo e a categoria existem. Vejo pelo número de adolescentes. Antigamente, tinham Ronaldinho Gaúcho, Kaká e Ronaldo como ídolos. Agora, têm Marta, Andressinha, Thaisa, meninas com as quais podem se identificar. Esse é o caminho: modelo de inspiração e aspiração e com as equipes pequenas fazendo a base do futebol, como é no masculino, e as grandes absorvendo novos talentos. A CBF tem estatísticas de quantas mulheres praticam? Estamos atrás, mas queremos que a quantidade aumente. A dificuldade são as escolas, porque a educação física foi praticamente abolida

no nosso país. No ranking da Fifa, estamos atrás de países nos quais as meninas jogam desde 5 ou 7 anos (o Brasil é o oitavo, atrás de EUA, Alemanha, França, Canadá, Inglaterra, Japão e Austrália). Encontramos nossas meninas com 13, 14 anos, jogando entre os meninos, são talentos brutos. Quando chegam à seleção sub-20, têm uma subida de patamar incrível, pelo talento que possuem. O feminino terá o protagonismo do masculino, um dia? O futebol feminino era proibido por lei no Brasil até 1975. A primeira participação olímpica foi em 1996. É difícil comparar com uma atividade centenária. O equilíbrio vai demorar. Eu sempre digo: revolução só traz viúva, feridos e mortos. Não precisamos de revolução, mas de transformação. A solução é o planejamento e a paciência.


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/NO FOCO CERTO Lorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipiscing elit. Nullam sodales dui vel accumsan vehicula. Maecenas vestibulum in nisi non faucibus. Interdum et malesuada fames ac ante ipsum primis in faucibus. Praesent placerat non felis vel iaculis. Nam suscipit eget justo sed posuere. Donec tincidunt volutpat eros quis aliquet. Cras porttitor, nibh sed facilisis ultricies, elit mauris bibendum massa, in porta neque nibh eget sem. Vestibulum auctor ipsum quis posuere sodales. /FOTO DE XXXXX

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Fotos de Uefa/Divulgação/Brendan

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ENTREVISTA Nadine Kessler_ cons

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Uefa para assegurar um caminho para jogadoras talentosas e oferecer inspiração às jovens. Torneios como Euro e Liga dos Campeões são forças para desenvolver o futebol feminino. Quais os principais obstáculos para a popularização do futebol feminino? Um elemento chave é atingir e se envolver com as meninas para inspirá-las e apoiá-las. Espero que o futebol feminino siga evoluindo mais e mais até que as nossas melhores jogadoras se tornem modelos bem conhecidas. Acho importante nos libertarmos da compa-

ração com o masculino. Não queremos competir ou nos parecer com eles. É fantástico quando as meninas podem ter Marta ou Ada Hegerberg (norueguesa) como seus modelos. Somos todos apaixonados pelo mesmo esporte e precisamos destacar os nossos próprios valores, mas queremos trabalhar lado a lado com o futebol masculino para que possamos nos completar uns aos outros. É possível atingir a igualdade de gêneros no futebol? Espero por isso e, com Together #WePlayStrong, esperamos mudar percepções que

ainda existam em alguns países. Queremos dar às meninas possibilidades para jogar futebol e serem aceitas por fazê-lo. A CBF adotou uma diretriz determinando que os clubes tenham equipes femininas. Isso vai ajudar no desenvolvimento do futebol feminino? Há um anseio pelo futebol feminino no Brasil. Na Olimpíada do Rio, fiquei impressionada pela maneira apaixonada como o país apoiou as seleções masculina e feminina. Acho que todo passo para assegurar a continuidade do desenvolvimento feminino é bom.

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plos dessas Apesar de todas as di- exem quando ér ficuldades e limitações “Nem peãs pan-ameri históricas, o futebol feminino acontecia. O que e brasileiro também comemora cendo, hoje, é m conquistas nesta temporada. tante do que o que Além da expansão do Camporque aqu peonato Brasileiro, que pas- mos, de mudar a sou a ter disputas em duas di- capaz lidade”, com visões – Séries A e B –, regio- moda As diferenças e nalmente, os avanços tamneios dos dois n bém têm acontecido. ão ainda sã Responsável pelo departa- deraç O campeão pauli mento feminino na FPF (Feno, por exemp deração Paulista de Futebol), R$ 5 milhões de a ex-jogadora Aline PellegriJá o torneio fem no acredita que a modalidade, não tem patrocin trinos ndo entra está , enfim – é bancado com lhos. “O futebol feminino é Lei de Incentivo como aquele filho que deu aporte da própri certo sem ninguém ter se pretem prêmi parado para isso. Os resulta- nem as perspect dos da modalidade vieram Mas Aline otimi antes que a própria modali- sim, “A estrutura, h dade estivesse desenvolvida, lhor. É a ideal? N com calendário, competições de melhorar. O estruturadas. No futebol paudesafios são d lista, nós vivemos bem esse mento, de cria momento de alinhar o desenvirtuoso, traba volvimento”, explica. ém exista Vice-campeã olímpica em tamb futebol feminin Atenas-2004 e campeã pan mostrar, na p -americana no Rio- 2007 , potencial que Aline cita o estadual da catepossui”, ressalt goria sub-17 como um dos

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oram necessárias várias semanas de espera para o DIÁRIO conseguir marcar uma entrevista com a ex-jogadora de basquete Paula. Não que Magic Paula, como era chamada nos tempos de quadra, faça o tipo estrela. Pelo contrário. Afinal, como ela admite, rindo com gosto, as poucas pessoas que a abordam atualmente nas ruas costumamdar aquela olhada desconfiada, antes de perguntarem, tímidas: Você é a Paula...do vôlei? Não. Maria Paula Gonçalves da Silva é a Paula do basquete, campeã mundial na Austrália-1994, vice-campeã olímpica em Atlanta-96 e campeã pan-americana em Havana-1991. Mas hoje um dos principais símbolos da geração mais vencedora do basquete feminino nacional não milita mais no esporte criado pelo americano James Naismith. Há dois anos,ela faz parte do conselho da CBRu (Confederação Brasileira de Rúgbi) e não esconde aempolgação com o projeto. “Nunca gostei de participar de conselhos porque, muitas vezes, ficam só no discurso, mas o trabalho que eles estão fazendo deveria servir de modelo para muitas outras modalidades”, explica. Na militância pelo novo esporte, suas mãos e pernas não exibem a mesma magia com a bola oval. Paula, aliás,nem joga rúgbi, limita-se a se familiarizar como linguajar técnico e o universo da modalidade incomum.“Eu não consigo nem jogar basquete mais.” Não é exagero, diz a ex-jogadora, que mantém seu vínculo com o basquete apenas como comentarista da ESPN. Anos jogando em quadras de cimento e com calçados inadequados estão cobrando seu preço. Paula tem artrose no joelho esquerdo, o mesmo que operou quando ainda atuava na Espanha, e limitações físicas por causa dasdores. “Estamos avaliando uma limpeza no meu joelho, mas o futuro é propenso a colocar uma prótese. Estou pagando o preço, alto rendimento é isso. Todo mundo

vai sentir o desgaste, o corpo da gente não foi feito para ir além do limite o tempo todo.”

SEM MEDO Limite, aliás,é algo que ela praticamente não conheceu. Com menos de 10 anos,já disputavapartidasde21 (três contra três) contra meninos mais velhos.“ Eu queria me divertir, brincar, jogava tudo. Enquanto não começava o treino, ia jogar futebol no campo”, recorda-se.Um dia,o professor Ruy Camarinha (responsável pelo time de basquete) viu de longe um menininho jogando na ponta esquerda e perguntou, impressionado,quem era o garoto que corria tanto. “As meninas disseram que era eu e ele me tirou do jogo porque eu poderia me machucar.” De café com leite entre os marmanjos, Paula se tornou destaque na equipe feminina. Aos 12 anos, foi jogar em Assis e, dois anos depois, estava na seleção brasileira. Pelos clubes, ficou histórica a rivalidade entre os times de Paula e Hortência. Com a seleção, conquistou feitos muito distantes da realidade nacional.Houve um retrocesso na modalidade, na qual Paula foi sempre uma estranha no ninho nos bastidores. Apesar da longa experiência em administração esportiva — além do próprio projeto, “Passe de Mágica” , dirigiu o Centro Olímpico do Ibirapuera por cinco anos e foi secretária nacional de Alto Rendimento — nunca integrou a Confederação Brasileira de Basquete. Azar da modalidade, sorte do rúgbi, no qual ela vive experiência semelhante à de seus primeiros anos no esporte. “Sou a única mulher no grupo e estou aprendendo muito. O trabalho que estão desenvolvendo é de empresa,o que sonhamos para todas as confederações. É uma modalidade que está construindo suavisibilidade”, ressalta a ex-jogadora.

TRO CAN DO AS BO LAS

Depois de ajudar o basquete nacional na conquista do título mundial e da prata olímpica, mas excluída dos bastidores da modalidade, Magic Paula hoje ajuda no crescimento do rúgbi Por Marta Teixeira


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‘VOCÊ PECA PELA TRANSPARÊNCIA, PELA ÉTICA’ Paula_Campeã mundial e medalhista olímpica de prata DIÁRIO - Você está no Conselho do Rúgbi, mas nunca teve cargo na CBB. Por quê? PAULA_ Porque nunca fui convidada e porque, antes de aceitar, você precisa ver como será sua atuação ou se você será somente um número. Como a seleção de basquete chegou ao nível das conquistas dos anos 90? A gente só atingiu o ápice internacional quando entendemos que cada uma era importante na sua função e entramos em harmonia. É comum as vaidades se sobressaírem ao interesse coletivo no trabalho de equipe. Vivemos uma competição interna muito acirrada entre duas jogadores e levamos esta rivalidade para dentro da seleção durante muito tempo. Como era o convívio? A gente precisou se policiar. A fofoca atrapalha muito, a comunicação é muito importante. A falta de capacidade técnica e habilidade, você supera treinando, mas um probleminha destes acaba com tudo. E como é a relação entre vocês atualmente? A gente se fala por WhatsApp. Temos um grupo, tentamos resolver questões. Estamos criando uma associação, como a do futebol que criou um salário vitalício para campeões mundiais, porque muita gente que trabalhou está vivendo no sufoco. Esporadicamente, alguém marca um jogo. Eu vou, mas não jogo. Falo muito com a Janeth, a Hortência, mas cada uma tomou seu rumo. Somos muito relaxadas neste sentido, mas sempre que a gente se encontra é só risada. Vinte anos depois de uma medalha histórica, a realidade do basquete feminino é completamente diferente. Tem explicação? É uma geração mais acomodada. Nós fomos a ferro e fogo. Esta geração aceita tudo, não exige. Não é o bas-

quete brasileiro que passa por queda de rendimento de nível técnico, o mundo está passando por isso. Rússia e Austrália não são o que eram antes... olha a chance que estas meninas teriam de estar em posição melhor. Mas quando a gente não se posiciona, fica mais difícil qualquer mudança. Desde o nosso tempo, o basquete feminino não tinha o carinho da confederação. Mas fica muito confortável: se perde, é porque muda o técnico, porque não treinou, não fez intercâmbio, porque as jogadoras são novas. Sempre tem uma desculpa. A gente tende a culpar a confederação por tudo, mas parte da formação, dos estaduais fortes dependem das federações, dos clubes. Nós nos posicionávamos mais. Boicotamos a seleção, fizemos várias coisas e, em uma atitude dos clubes, a gente conseguiu ser medalhista e campeã do mundo. Ficou combinado que a preparação física dos clubes seria determinada pelo Hermes Balbino, da seleção e de Piracicaba, para todo mundo chegar à seleção no mesmo nível. A falta de cobrança por resultados gera acomodação, a acomodação gera a falta de interesse. A mentalidade esportiva mudou com a Olimpíada? Muito pouco. O que mudou foi a conta salarial dos atletas. Para os que têm chance de se dar bem na Olimpíada, é um período de vacas gordas. Mas não conseguimos nos estruturar, muita coisa ficou para trás. O COB não é responsável por implantar uma política esportiva, mas é responsável por orientar quem administra os recursos e nisso eu acho que houve uma falha. Uma cidade vai ser beneficiada com equipamentos esportivos, mas não é fácil ter uma estrutura do nível da que vai ficar . Vivemos isso com a Copa. Acho que vamos viver um momento complicado depois da Olimpíada.


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NOS SON DOISSIOD LADOS SODAL DA EDREDE ER AD Primeira atleta profissional com deficiência auditiva do vôlei, Natália sonha em disputar a Olimpíada para surdos

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que é mais difícil: jogar ouvindo os gritos da torcida e as broncas do técnico ou no mais absoluto silêncio? A central Natália Martins sabe exatamente o que é viver essas duas situações. E tira ambas de letra. Jogadorado Vôlei Nestlé, ela recebeu o diagnóstico de que havia perdido 70% da capacidade auditiva aos 4 anos de idade, mas não permitiu que a dificuldade impedisse o sonho de ser uma atleta. Tornou-se a primeira jogadora profissional surda de vôlei e ajudou a quebrar algumas barreiras. Agora,aos 32 anos, sonha em disputar uma Olimpíada. A presença nos Jogos Paralímpicos não é possível, porque modalidades para deficientes auditivos não fazem parte do programa da competição. Mas, no ano que vem, ela espera ajudar o Brasil a conquistar o ouro na Olimpíada para surdos, que será realizada na Turquia. No iníci o deste ano, ela teve a primeira experiência real como jogadora surda. Na quadra, com o time de Osasco e no dia a dia, Natália usa aparelho auditivo, o que lhe permite levara vida como qualquer ouvinte — como são chamados aqueles que não têm a audição comprometida. Mas, depois de provar o seu valor no mundo dos ouvintes, ela aceitou um desafio diferente. Convidada pelo vice-campeão olímpico Xandó para integrar a seleção brasileira nos Jogos Pan-Americanos de surdos, ela topou o desafio e descobriu uma nova realidade. OUTRO MUNDO/ “Tive de jogar sem o aparelho. Foi muito diferente, mas muito bacana, també m”, afirma. Os desafios incluíram aprender uma nova forma de se comunicar em libras — a linguagem dos


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sinais. “Na língua de sinais, eu falo o básico, mas tive de me virar para aprender a universal, e em inglês ”, recorda-se a atleta, única profissional do time. Ascompanheirasa ajudaram a se adaptar, mas, ao contrário do quesepodeimaginar, essa etapa foi um grande desafio. “Existe uma comunidade surda. Eles acham que os ouvintes não têm de estar no mundo deles, mas, se você souber um pouquinho de sinais, até os cativa um pouco. Eu entrei no vôlei (de surdos) e fui quebrando um pouco isso.” Empolgada, Natália conta os dias para a estreia olímpica. “Acaba sendo a realização de um sonho que não consegui realizar como ouvinte”, explica a central do Vôlei Nestlé.

Natália começou a perder a audição na infância por causa desconhecida

‘COMO FAÇO LEITURA LABIAL, ISSO ME AJUDA BASTANTE’ Natália _ Central do Vôlei Nestlé

“Na língua de sinais (Libras), falo o básico. Tive de me virar para aprender a universal em inglês” _

Natália Central da equipe profissional de vôlei de Osasco

DIÁRIO_ Você nasceu surda? NATÁLIA_ Não. Aos 4 anos, minha mãe percebeu que eu não escutava. Ela me chamava e eu não respondia. A televisão ficava muito alta e ela resolveu me trazer para São Paulo para alguns exames. Eles diagnosticaram a minha surdez, mas, até hoje, não sabem por que fiquei surda. Aos 6 anos, eu comecei a usar o aparelho. Eu já entrei na escola com o aparelho, então, tive uma adaptação muito boa, porque foi desde novinha. Foi mais difícil se adaptar ao vôlei de surdos ou o normal? Eu vivi a minha vida inteira com o aparelho, estudei em escola normal até o terceiro colegial. Os professores me puxava a orelha para eu sentar na frente, porque eu queria ficar no fundo. Como eu faço leitura labial, isso me

ajuda bastante.Eu tive uma vida normal. Então, quando fui conviver com surdos, foi bem diferente para mim, porque eles falam por sinais. Eu dizia: “Vocês têm de usar aparelho. Como é bom ouvir ! ”, mas eles não gostam. Como surgiu a oportunidade na seleção de surdos? O Zé Roberto (técnico da seleção brasileira) falou para o Xandó sobre mim. Ele entrou em contato comigo. Na hora, eu pensei: ‘Será que elas vão me aceitar? Será que eu vou me adaptar ? ’ No fim, as meninas me aceitaram muito bem. É mais difícil jogar sem ouvir? É muito diferente. Você não ouve a torcida, não ouve nada. Os bandeirinhas ficam abanando a bandeirinha o tempo todo. Eles batem os pés, fazem gestos para serem vistos e balançam a rede.


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MATÉRIA DE CAPA

Cinco vezes eleita a melhor jogadora do mundo, a brasileira Marta já bateu na trave duas vezes na disputa pelo topo do pódio em Olimpíadas. No Rio, a seleção feminina tenta quebrar esta escrita e provar o seu valor

CORRIDA

DO OURO


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VOCÊ SABIA? Em 2010, a ONU (Organização das Nações Unidas) nomeou Marta embaixadora da Boa Vontade no combate à pobreza. A meia é a maior artilheira da história da Copa do Mundo. A brasileira já marcou 15 vezes no torneio.

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O AÇÃ

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ugar de mulher é na cozinha, alardeiam os mais antiquados, tipo de provocação que a alagoana Marta Vieira da Silva sempre fez questão de ignorar. Aos 30 anos,com cinco prêmios de melhor jogadora do mundo entregues pela Fifa, a brasileira nãotem mais nada a provar nos campos de futebol. Nem sempre foi assim. Aos 7 anos, quandoiniciouos primeiros passos no esporte,em Dois Riachos (AL), um município com pouco mais de 10.879 habitantes, a atacante precisava lidar com críticas de todos os tipos. Única garota da cidade a praticar a modalidade, entrava notimedosmeninos graçasà influência dos irmãos e dos primos, que também jogavam. Mas isso também gerava problemas. As críticas acabavam sobrando para os seus parentes, afinal, onde já se viu “deixar ” uma garota se meter neste ambiente. Marta seguia dando de ombros para tudo isso. Saía de casa de madrugada e ia treinar com os garotos. Aos 12 anos,já fazia parte do time da cidade. Porém, nada mudava. Ainda era a única menina no grupo e os críticos agora incluíam também os técnicos das outras equipes, que não se conformavam com sua presença na time. A primeira chance em um grande clube apareceu aos 14 anos, no Vasco. Marta passou na peneira e conquistou seu primeiro título: o Brasileiro na categoria adulta. Eleita a melhor jogadora do torneio, recebeu sua primeira convocação nacional. Foi chamada para a seleção brasileira sub-19 e logo saltou para a adulta. A seleção, aliás, foi a porta para a virada em sua vida. Integrantes do Umea IK acompanharam sua atuação contra a Suécia e a convidaram para jogar na Europa. Marta ganhou o mundo e seguiu carreira no exterior. Até voltou a atuar no Brasil, pelo Santos, mas sempre por empréstimo. Apenas mais um reflexo da situação do futebol feminino no país. Mesmo após duas medalhas de prata em Olimpíadas, um vice mundial e dois títulos em Jogos Pan-Americanos, a modalidade ainda é vista como patinho feio. Sem problemas, não é a primeira vez que Marta e cia. têm de superar o descaso alheio. Mas que um título nos Jogos do Rio viria a calhar, não há dúvida.


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ANÚN


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É SUFOCANTE

GRITAR SOZINHA

A nadadora Joanna Maranhão personifica a imagem da consciência esportiva e social e não tem medo de se expor para lutar por um Brasil melhor dentro e fora das piscinas

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squeça os estereótipos feministas. Joanna Maranhão é uma mulher vaidosa de 29 anos que não se prende a rótulos nem se cansa de lutar pelo que julga correto. Finalista olímpica aos 17 anos, transformou o trauma da violência sexual praticada contra ela por seu ex-técnico, quando tinha 9 anos,em inspiração para ajudar outras ví-

cas. De modo geral, a gente foi bem, mas fiquei triste pelo grupo. Porém, achei ótimo porque mostrou o que precisava ser feito algo há tempos: os critérios ser claros. A CBDA foi a confederação que mais recebeu dinheiro, assim como o vôlei: R$ 121 milhões (somados patrocínios e verbas federais). Dava para fazer um trabalho sensacional que não foi feito e, infe-

timas de estupro e combustível para se reinventar nas piscinas de competição. Com quatro Olimpíadas no currículo e uma consciência política e social que não tem medo de expor, Joanna fala sobre a estrutura viciada da natação nacional, o abuso de poder na CBDA (Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos) e revela o receio de que o Brasil complete mais um ciclo olímpico ruim por causa de má gestão. “Do jeito que as coisas são feitas no Brasil, você se estabelece na seleção ou como nadador forte tirando do outro”, diz. “Eles estão ali, não é para melhorar o esporte, é para semanter no poder e é isso que é errado”, desabafa. ALLSPORTS_ Como avalia o fato de a natação brasileira não ter feito pódio nos Jogos do Rio? JOANNA MARANHÃO_ Não foi falta de treino ou comprometimento, mas as coisas foram em um modelo de pirâmide, da CBDA, que contempla quem está no topo... Nos dois ciclos olímpicos, Cesar Cielo e Thiago Pereira mascararam a situação com Bruno Fratus e Etiene nas provas de 50m de estilos mas essas são provas não olímpi-

lizmente, o preço foi esse. A relação entre os atletas não ser intensa. Isso é fato? Sim. Acho que o Brasil é onde se ganha mais na natação: salário do clube, do governo, Exército... Só que a natação profissionalizou e se individualizou. Não é culpa dos atletas nem dos técnicos, é um sistema imposto e você entra ou fica fora. Coaracy Nunes (ex-presidente da CBDA que estava no cargo desde 1988), foi afastado e está sendo investigado pelo Ministério Público por irregularidades. Qual sua expectativa e como vê a postura dos atletas? Estou muito esperançosa. Ainda sinto um silêncio muito grande por parte dos nadadores da seleção, mas acho que, aos poucos, eles vão ter de falar. Eu falo muito até pela minha história porque é sufocante você gritar sozinho. É uma sensação horrível vestir aquele uniforme quando sabe que as coisas não estão corretas. Era extremamente frustrante. Quando a promotora me procurou, eu depus, contei toda a história, falei outros nomes (além de


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Coaracy).... Infelizmente, acho que pouquíssimos atletas da natação foram depor, muito por este medo. E, por mais que exista outra forma de você gerir sua carreira, eu não culpo o atleta que se cala. Mas as coisas estão acontecendo. O que é preciso para a natação entrar nos eixos? A natação temde ser gerida como uma empresa. Muitas empresas ao longo dos anos tentaram entrar na CBDA, mas, no esquema que existe, eles não quiseram porque existe uma política muito forte. O contrato atual é praticamente de exclusividade. Acho que os Correios (patrocinador máster da CBDA) vão sair e que vamos ter uma queda de dinheiro. Com os R$ 5 milhões que o COB (Comitê Olímpico Brasileiro) repassa (pela Lei Agnelo-Piva), não vai dar para fazer praticamente nada. Então, 2017 é um ano de incertezas. A renovação ainda é muito frágil? Sim. Nossos medalhistas em campeonatos importantes são homens e mulheres de velocidade. Nosso cenário de peito e médio feminino, meio-fundo e fundo geral são extremamente mais fracos e não há um projeto para se enxergar isso.

muito brandas por uma questão política, pelo poder político que o Coaracy exerce junto à Fina, porque já era para o Brasil ter sido punido em algum campeonato importante e deveríamos ter sido punidos para aprender. A pena tem de ser dura, não pelo atleta, mas pelo exemplo que fica. Após quatro Olimpíadas, tem algum arrependimento? Não, mas eu gostaria de ter procurado ajuda mais cedo, quando senti que não estava bem (aos 9 anos, Joanna foi violentada sexualmente por seu então técnico de natação). Talvez eu tivesse correspondido mais ao meu talento. Não quero ser arrogante mas, quinto lugar aos 17 anos (nos Jogos de Atenas- 2004), aos 21, era para eu estar no laço! Aos 25, também. Talvez eu nem estivesse nadando ainda, mas, com certeza, meus resultados em termos de rendimento seriam melhores. Talvez não tivesse a consciência que tenho hoje. Sente frustração por não ter pódio olímpico? Frustração não, porque minha relação deixou de ser apenas de performance e tempo e passou a ser de que a natação é um enfrentamento, é um

A natação pode fechar 2020 sem resultados? Se não começarem a fazer um trabalho sem querer resultado imediato, vai acontecer a mesma coisa que aconteceu no Rio ou pior. Já se sentiu sabotada por expor suas convicções? Muito. Eu já precisei rever minha relação com a natação porque esse sabotamento não é só da CBDA, às vezes, é dos próprios atletas. Já teve situação de eu estar mega sem dinheiro, ser procurada por prefeitura me oferecendo R$ 10 mil para que eu nadasse quatro provas. Mas não está certo! Eles deveriam dividir esse dinheiro para bancar uma equipe da cidade. Ocorreram muitos casos de doping de nadadores brasileiros, isso é discutido entre vocês? Não. Novamente, é a política do cada um por si. Eu acho que existe um sistema que precisa ser investigado porque foram muitos casos de medicamentos manipulados. Existe alguma coisa, não sei o que é, se vem de cima para baixo, mas é algo que precisa ser investigado. As penas foram

renascimento. Neste sentido, vou colhendo pequenas vitórias. Como está seu projeto social? (Joanna criou uma ONG que atende crianças vítimas de violência sexual). Quando criei o projeto, imaginei que indo aos Conselhos Tutelares iam chover crianças... apareceu uma, porque o silêncio é muito grande. Então, fomos para a questão da educação. Criamos uma palestra e tentamos nos inserir em todos os lugares porque pedofilia não tem cor, não tem classe social nem credo, ela está em todo lugar. Mas eu não sou Justiça, eu tenho de cuidar da criança. Se um pedófilo chegar para mim e pedir ajuda para conseguir parar, eu vou encaminhar para tentar ajudá-lo. Muitas crianças abusadas se tornaram pedófilas porque não tiveram suporte para entender o que estava acontecendo. É um trabalho profilático, mas que dá efeito. Também tem muito adulto que me procura para desabafar e este é um trabalho que eu gostaria de intensificar porque, por causa da minha rotina, não é sempre que tenho condições.


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