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CACOS DE VERBOS INFLAMADOS


aos que tem fome


Thalita Covre

CACOS DE VERBOS INFLAMADOS 2012 - Edição 1

Palavra Minguada


Todo este agradecimento é especial àqueles que fazem parte do meu território: Fernanda Tatagiba , Rodrigo Ribeiro, Natali Destefani – meus Sete Dias, Guilherme Melo – por me mostrar o caminho, Karina de Sá – a diagramação é dela, Lucas Côrtes – que fez a capa deste livro mais bonita, aos meus pais, a Livia, Evelyn e Thiago Loureiro, a Lis Motta – meu termômetro, aos meus alunos, e ao Acaso.

Capa Lucas Côrtez Fotografia da capa Natália Lima Castro Projeto Gráfico e diagramação Karina de Sá


silĂŞncio


de todas as palavras que tentei nenhuma pôde te avisar caladas escorregaram pela minha boca desceram pelo meu braço pararam dentro de minhas mãos que escondidas dentro dos bolsos de minha calça não te viram partir sem saber... sem


a boca era seu saco cheio de pedras palavras nós em garganta não atirava, não engolia pesava-lhe o rosto um dia passou a língua, sentiu dor quis falar palavras frias, pedras quentes quis machucar alguém além de si cuspiu as primeiras caíram no chão, molhadas as do meio voaram alto, acertaram pombos inocentes e as mais velhas esfarelaram, ela engoliu morreu soterrada


Há um lirismo sufocando-se dentro de mim. Uma substância tão singela e pesadíssima. Debatendo- se, contorcendo meus sentimentos. Sinto meu corpo todo fechado. Poesia querendo se derramar! Tão difícil encontrar a embocadura do corpo. Boca dura. Não há respostas em palavras, nem mesmo em notas. O silencio é a própria falta de ar e excesso de vento e rajadas na cara. E rasga a seda que venda meus olhos empoeirados de tempo. O silencio é o próprio tempo. Tenho tanto medo...


As lágrimas são minhas possíveis palavras no silêncio do antigo semiárido. Escorrem pelo meu rosto dizendo muito mais do que qualquer monólogo muito longo. Minhas lágrimas são minhas falas de conteúdos desconhecidos, os símbolos de algum acontecimento anônimo... e apesar delas participarem de um choro barulhento e profundo, obedecem a minha intima vontade de continuar muda. E descem quente pela minha terra, e molham meu canteiro seco. A noite passa e, ao nascer do sol ,elas tornam-se respiração e esquecimento - de uma substância anônima que não se revelará.


Ver as ruas em silĂŞncio. A qualquer momento manchar os olhos de cimento: dessa minha existĂŞncia dura,cinza e concreta que mesmo quente, faz rolar pedras.


- Ouve-me! Houve meu silĂŞncio.


E no inicio fez-se o silêncio. E deus encolhido fez-se chão, e escolhido fez-se verbo. Do verbo nasceu-se terra, que com água fez-se carne. Que virou uma puta piada de mau gosto.


Apertou uma bola presa na garganta e tentou engolir e engolindo sentiu amarga a boca o corpo a língua era veneno era veneno- ela pensou sentiu seu corpo paralisado o rosto endurecido a palma da mão esticada os olhos arregalados a bola finge que desce e sobe e sobe forte os dedos tentam segurá-la em vão H HH HHH HHHH HHHHH HHHHHH HHHHHHH HHHHHHHH HHHHHHHHA!


O cálculo mundo (cancro-mundo) quão redondo é o zero do meu silêncio? andando em círculo, nunca se cansa e ao redor, tudo devora um vazio cheio de substância um redondo que dentro: tempo, ponteiro e hora


O silêncio é

o único pacote que aguenta meu peso.


Sou um canto esquina entre duas paredes dança Sou um tanto de mistério entre dois dias calados Sou um canto por dentro esquina entre duas peles transa Sou dança um canto calado que diz sim.


Mudos e livre nem sabia o que era leve o corpo nu lavado e enxuto sem nenhuma letra ou palavra apenas pontos pintas não há a possibilidade de mudar os ângulos dos rostos dos antigos retratos paralisados pelo tempo

abram-se as portas, ficam-se os mudos doloroso ninguém perceber nossas bocas cerradas as faltas e a ausência das palavras e o que nos resta é servir de bibelôs e seguir silenciosamente às exposições academias faculdades conduções trabalho sem um i sem um ai assim livres os passos murmuram calados em vãos.


paralisada


Pássaros inconscientes sobrevoam bêbados pela minha cabeça e dizem: “está tudo bem”. E eu sei que não está. Traumas amassados inacabados e insólitos lambem-me a meia noite e dizem: está na hora de saltar! E eu sei que ainda não. Encolho-me à casca recolho as asas e ele passa. Borboletas cheias de cicatrizes oferecem – me bebidas, cegam- me a realidade e dizem: “Nós te amamos!” E eu sei que ninguém ama atormentados. Nem bêbados nem santos nem diabos.

Pois os olhos largos percebem a voz sumida, de uma boca regular, paralisada. E então ensaio trajetos gestos falas e digo: “sim, essa é a hora!” Mas o salão está vazio.


Cinzeiro Com o excesso da minha felicidade fiz um cinzeiro. Sei que vai servir para bater as cinzas do que sobrar desta festa toda. Mais de uma semana sorrindo dรก cรกries Mas nunca nenhum dentista disse isso para mim. Sorrio com os dentes podres porque sei que mesmo com esse sorriso feio consigo amigos que me querem por perto pelo que passo e nรฃo pelo que sou. Se fosse o contrรกrio, faria uma bolha no lugar do cinzeiro.


Amarelada Foi muito difícil ver partir o pequeno calor que eu tinha. O vermelho de todo o meu corpo virando amarelado de folhas envelhecidas. De repente, me vejo esquecida na prateleira das alucinações. Uma grande falta de vontade de ser vista e lida por outros. As traças viraram companheiras, sentem prazer em me ver: cumprimentam, sorriem e comigo transam. Triste, espero as mãos brancas tocarem novamente em minha capa roída. Quem sabe dessa vez ele não esquece as novidades e me leva consigo?


Você pensou em morte. Falta de ar. Falta de ar. Falta de ar. Você por um instante se sente abandonada por si . Um milhão de imagens correndo um pequeno campo de massa cinzenta. Vozes te puxam para dentro. Você quer ser livre. Falta de ar. Você sempre quis saber como era a agonia de ter voz e não poder gritar, assim como nos seus sonhos. E vozes gritam frases clichês que você assimilou por osmose da sua criação ocidental. Falta de ar, bolhas, bolhas, bolhas Você está longe da luz. Na luz, poucos a possuem. Você sempre preferiu a escuridão. Luz. Tudo tremido. Seu pai sempre falou que você ficava linda de óculos bolhas bolhas bolhas bolhas bolhas bolhas


Falta para cada falta de prato, pranto. para cada falta de tato, um tanto. para cada falta de fato, canto. e para cada falta de falo, um maรงo.


mar


Agachou como se fosse pegar algo pequeno e frágil. Agachou fundo. Baixo. Agachou deitando o corpo. E quando tudo já lhe tocava , chorou. Chorou litros, rios, mares e marés . Chorou soluços, vidas passadas, chorou um batalhão inteiro de jovens mortos. Uma guerra no chão. Seu corpo molhado. E tudo sem odor. Chorava. E não lhe bastavam as lágrimas, não lhe bastava o sal que o sol dos dias lhe trazia. Chorava e caia tanta água. E era tanto fluxo de vida desperdiçada. Pling Pling Pling Levantou. Abriu os olhos. A luz. Abriu as mãos. Pegou o sabonete. Pegou o shampoo. Abriu as mãos e lavou-se toda. Abriu mão do próprio sofrimento e chorou. Porque não sofrer dói demais.


Em tempo Está cientificamente comprovado: quanto mais você corre, mais a chuva te molha. E é água de mar de céu carregado de sal. Lágrimas em vãos de ruas escuras. Pele seca em nuvens fluidas. E é chão, é água em pedra, é conto que pinga. Correndo e se molhando. Correndo e tendo medo. Correndo e tendo a falsa sensação de que não te molha não. Mas é assim: quanto mais velocidade, mais água. Quanto mais água, mais vida. Quanto mais vida, mais se corre. E quanto mais se corre, escorre mais. Há sim o medo do toque da água e da conseqüência do frio no corpo. A vida escorre para onde? Há sim o medo, amor. E o refúgio do tempo do medo fica nessas batidas fortes, tamborim no peito. Correr pede fôlego.


O medo também. Tenha medo, meu bem, mas siga. E a chuva continua caindo forte, seu corpo antes seco, se inunda. E na velocidade você vê beleza, e na velocidade você busca marquises, a velocidade te sugere abrigo, mas não há, não há tempo, cimento em formato de teto, seu teto é o céu e ele te quer pronto, pronto para ser, pronto para estar encharcado, prepare-se, eis o momento. Não c(m)orra em vão. (Escrito em uma noite chuvosa em Campinas – SP)


Estrangeiro meus braços possuem abraços abertos e tatuagens de mapas de lugares nunca antes avistados. sou ilha e ao mesmo tempo espaço vago sou ilha e ao mesmo tempo o sujeito nela preso sou ilha e ao mesmo tempo os mares estrangeiros meus braços abertos clamam e rejeitam desbravadores meus braços abertos cheios de traçados certeiros meus braços abertos apenas abraços intactos.


Palavra Minguada na Ilha da Pólvora por todas portas e janelas ares e nuvens fechadas palavras à míngua ruínas madeiras encharcadas de água corpos boiando em poços tempestade de letras cinzas insossas palavras minguadas a ilha guarda palavras leprosas quem chega perto pega rasga a pele com cacos de verbos inflamados e o sangue se mostra palavras férricas corpos de sangue andando como vieram ao mundo fetos

embriões de versos em busca de um útero bom para se transformarem em poesia

mas a ilha guarda outras ilhas secas, doentes em palavras estéreis nenhuma poesia vinga.

a sombra do arranha-céu escureceu o mar demarcado e grosso intacto e duro


Sombra por um minuto vi petróleo no lugar da sutileza da sombra a água escura do mar dançava ao som dos ventos meus olhos viam beleza onde a sujeira da cidade residia o arranha-céu escureceu o mar e eu era testemunha de seu alastramento


Abstinência pinga, debruçado no balcão vejo somente o meu copo vazio meu corpo baldio a vida anda sem graça e circular oroborus lutando contra si não venha me pegar! sem dinheiro passe de ônibus passagem na macumba como possuí-la, vida líquida? vomitar já considero um privilégio cheiro de ferro na boca sangue de uva no chão quantos protestos dentro de mim debatimentos, securas manhãs

quantas agruras, coração de ferro! pinga, me ouça, volte aqui!

olhos-mundo 70% de água e sal 70% de azul anil 70% de mergulhos e afogamentos 70% de sonhos líquidos escoando pelo corpo. olhos-imundos 30% de terra batida 30% marrom-lama 30% de poeira e atolamentos 30% de mim escoando pelo resto.


o outro


Meu olhar molhado de sonhar admira sua habilidade em lhe dar com o meu cheiro meu ruído que você diz ser tão sexy. Um monstro engolindo seus carinhos. Uma barba roçando minha sensatez. Os dedos caindo lentamente sobre suas costas escorregadias. Como consegue essa entonação comigo? Viro bossa, sou toda samba. E danço em cima de você todas as notas musicais que saem de sua boca .


O corpinho frágil correndo em círculos. Desespero era codinome de quem tem a insônia como melhor amiga há anos. Uma xícara de chá frio enfeitando o lugar da sobremesa numa mesa posta para dois. Numa mesa posta entre as moscas, numa mesa morta. - Ele não veio, ele não vem e nunca virá. Ela diz num tom linear, no mesmo tom que é inerente à uma afirmativa murcha. A espera já não é algo que lhe palpita. Assim como já não lhe tremem a carne, as cores do mundo. Bêbada de horas e sóbria de vida. Ela sabia que a culpa era da repressão de si sobre os fatos e a dos atos para com os elos, mas no final das contas ela sabia que isso tudo era a mesma coisa e quem sentia culpa era. Correndo, sôfrega, tonta e torta. Por entre os ventos dos vultos de si, vê o espelho a refletir os seus espaços, os vãos e os olhos murchos. Mas nada mais lhe intriga, se ela parar ela pensa, se continuar... ela desacelera e amolecendo-se , senta. E sentando não sente mais nada. Sorri, involuntariamente. E deita no chão. E dorme.


Espera e ânsia (esperança) Meus seios ansiosos trêmulos esperam suas mãos de toques doces e de língua quente. As auréolas balbuciam teu nome de poucas letras, invadem tua boca na calada, que te cala, te fazem beijar minha vida e te embebedam de mim. Penso. Posso ter veneno, ser cura... Mas nunca saberá se não me devorar!


Conselho Drummondiano Carlos me disse para esperar. Disse que é assim mesmo, um dia beija, outro dia não, amanhã é segunda. A semana anda derramando cor branca, eu observo sem reação minha pele trigo. Vento, tira este pó de mim? Acorda, levanta, mexe o braço pra cá, acorda, seca, levanta e olha e não vê e senta e levanta e senta e diz e ouvi e olha, não sente e vira. - Sossegue! - diz Carlos. Dois livros, uma xícara de café. Sol das quatro da tarde. Olhos marejados e secos. Alguns entenderão a contradição. E quem não, felicidades! Café, um amigo. Cigarro, um abraço. Levanta e senta e senta e senta. Do futuro sobrou apenas as pernas finas da esperança. Eu matei sem querer. Matei enquanto voava pela minha cabeça. Vinte anos passam rápido. Bodas de porcelana, boneca solitária. Quem quer comemorar comigo? - Não se mate, oh não se mate! – Pede Carlos. Gosto da vida, de respirar e ver brilho de líquido inocente nos olhos dos pequenos. De sentar na grama, deitar... Gosto de ver a pele curada pela luz da estrela maior. De ver os fios sendo empurrados pelo vento para o meu rosto. Gosto das mãos quentes e de segurá-las. De ouvir as ondas bem pertinho do meu ouvido, de mergulhar... Viver é magnífico!


- Entretanto você caminha melancólica e vertical. – Diz Carlos. Sou sozinha, estar já não existe para mim. Dividir, multiplicar. Não somo. Sumo. Sou 1-1. Um sinal e tudo. Tenho receio de me acabar em dois. Preguiça de dar continuidade, ninguém me ama, ninguém me quer, ninguém me chama de nada. E eu amo, e muito. Amo tanto que me esqueço. Mas não sabem, nem querem saber. Quem quer descobrir o outro? - O amor no escuro, não, no claro, é sempre triste, minha filha, mas não diga nada a ninguém, ninguém sabe nem saberá! – Profetiza Carlos.


- Se você está sozinha é porque gosta disso - afirmou Sartre com a voz clara - é porque é orgulhosa! Se não fosse isso você teria me largado nesse livro para vivenciar experiências com tantos outros homens... A verdade, Thalita, é que sou pouco demais, e não posso te impedir de ser só. [“No amor, um mais um é igual a um.” Jean-Paul Sartre]


das pétalas amadurecidas um corpo em cima de uma vida macia e morena de areia e água de sal ventos de narinas que sentem que esse cheiro que vem da minha pele é necessidade de abertura as pernas amolecem as suas se esticam sobre as minhas o cheiro da sua pele, dos pêlos, dos cabelos convidando-me a abrir mais e eu abro mão do meu domingo silencioso e dos cafés e da insônia e do meu quarto organizado e dos livros e dos cigarros abro a porta, as vidraças, a couraça abro as pernas, te enrolo nos braços o sol entrando em raios pela fresta da janela que eu vou abrir quando me levantar daqui..


O peso Em certas noites intranquilas tomávamos do gole amargo da verdade sem querer. Às vezes olhando para o céu pesado de novembro, às vezes sozinhos no quarto com a luz da lamparina no rosto. E o gosto amargava durante semanas. Descíamos correndo pela ladeira, no breu, e sentávamos no balcão daquele Silêncio. Lá pedíamos conhaque e perdíamos o gosto amargo. Mas outro novo gosto tomava a vida, e a perdíamos assim... gosto por cima de gosto. Sem sentirmos nada, abocanhávamos tudo. Em certas noites corrosivas esperávamos a bebida amolecer a carne, deitávamos na grama do quintal e perdíamos a conta de quantos tantos dentes abocanhavam-se dentro de uma única boca. E os céus se misturavam, e as estrelas brilhavam todas de uma única vez. A gente tinha tanto o que ouvir, e tanta verdade pra sentir e molhar. E tanto medo para um único coração parado. Nós, que éramos somente eu, vivíamos assim: correndo, fazendo pingar o pouco de verdade que ainda havia em nós.


Esquizofrenia amorosa O tempo finito. Os milhares de olhos que se abriram sobre minha pele: póros. Corpo desconhecido, olhares estrangeiros no espelho: “esta sou eu?” Que não aquele, que não aquela pele úmida, que não aqueles pelos grossos e negros. Esta sou eu em tempo que termina. Rugas estão aparecendo no lugar da pele grossa do outro corpo. Então esta pele fina e mole é a minha? Meus olhos, estes olhos refletidos, cansados e assimétricos, eram tão bonitos quando ainda te tocavam . Eram tão bonitos quando tentavam enxergar o que apenas você via. Eram tão bonitos quando ainda no seu rosto. De quem é este corpo? E este tempo que machuca e enche o corpo de concreto? Cinzas os dias de falso reconhecimento...


Ir Eu acho que na noite passada, você estava andando em círculos em volta de mim. Eu tenho que parar de beber tanto café. Você começou a me vigiar depois que morreu. Eu corro em torno do fogo achando que encontrarei a fresta. Se eu colocar meus pés dentro, farei parte? Se minha pele arder, estarei viva? Eu acho que na noite passada, você estava andando em círculos em volta de mim. Eu tenho que parar de olhar para a janela. Você começou a me entender depois que morreu. Eu tomo impulso e fumo um cigarro. Se eu voar, ficarei leve? Se eu cair, estarei livre?


Avรณ Sufocada com os gritos de uma garganta doente sem cordas tenta novamente comer aquela fome que lhe escarra com seus dentes de prรณtese de silicone. lembra a juventude lembra a velhice lembra a juventude... nada passa por sua cabeรงa. uma dor forte, umas cores fracas, chora. mas as lรกgrimas colam nas pรกlpebras. os olhos entreabertos os olhos fechados o olhar frio.


Para esconder e revelar Tomei banho, escovei os cabelos, acendi um cigarro. Traguei fundo os fantasmas, que logo ap贸s sairiam pela minha boca. Brincando de esconder, suspiros pra dentro. Sentada, cheirando a shampoo aloe vera e bafo de nicotina, pensei em abrir a janela e deixar voar todos os dem么nios que h谩 tanto tempo prendo por medo da solid茫o. Abri e voei junto.


Dois Seria o resultado de uma conta matemática simples, mas não. Para mim sempre foi resultado de muito esforço, de somas – que sempre acabavam em subtração de mim. Vazio. A questão é que retomei minhas contas. Primeiramente esta, a simples. Calmamente sentei com meu bloquinho de notas e pensei: dois não dói. Fiquei horas pensando que não deixaria de ser 1, quando me somasse ao outro. Apesar de já ter acreditado ser metade alguma vez na minha vida... (a espera de outra metade para o encaixe, resultando no inteiro - mas isto é papo pra quebra-cabeça). Em segundo plano, apesar de falar sobre conta simples, a complexa. Ser dois sem perder minha unidade. Sem me perder no outro. Sem querer burlar o sinal, mudando os resultados. Zero. Refazendo minhas contas percebi que dois não é o número exato da soma. Três, quatro, um e meio. Meu inteiro busca muito mais do que outro inteiro pode me dar. (Metades.)


to be continue Fim, distância do quase. Solidão, sensação antipática de que tudo em sua volta está em plena harmonia girando gostoso, como num carrossel, e você parado observando. Por uma questão de sobrevivência o fim te ensina a cozinhar, conversar debaixo do chuveiro sozinho, a beber, e utilizar o cigarro como melhor amigo. E no início disto tudo delira-se um pouquinho, e ouve-se do lado de fora, a multidão que guarda dentro de si. Sente-se velho, ranzinza, mesquinho, sonhador, parado, com preguiça de qualquer passo, vazio. Fica respirando planos, discursando em falso, dando uma de maluco. E para seus sentimentos, o mundo continua líquido, mudando as rotas dos rios... Olha pela janela, no intuito de distrair-se, e vê o mundo devorando-se em tempo e rapidez. E deseja aquele consumo também, consumo imediato de vida. Gostaria de estar lá, vivendo o intenso, veloz e descartável. Mas não. Continua parado, sem saber onde e como começar a querer. Fecha os olhos e sente-se envergonhado por continuar amando uma mesma pessoa por tanto tempo. Fecha a janela, enche o peito de vontade e pensa em fast-food. Depois ri da vontade e do medo, por consequência. Olha-se no espelho, amarelo. Pensa em métodos anti-conceituais. Dá um murro na cara e diz alto: “otário (a)”! E perde-se.

(ins-pirado numa palestra de Nelson Lucero)


Eu Meço as distâncias a palmo, e digo: não aceito as regras das separações a pedra! Sou eu a mulher, sou eu também o homem. Sou eu minha pele-muro e meu medo de contato com o próximo. Mas também sou o corpo-cidade afim de se estender. Sou povo e sou vazio. Sou cimento e alegria. Pedra paua-pique. Sou o eterno, o etéreo, o retorno. E tudo o que separa e une. Os dois lados. O cópo e a tempestade, a água em pequenos poços. A multidão em mutilação. Sou o fim e o início com estalos de disritmia.


sou suas frustrações fracassos , a face mais feia sou sua boca podre de palavras decompostas, verdes desejo escondido insanidade abafada sou quem lhe segue sem nunca dizer quem rasteja descabelada negra atrás do que não se toca sou seus olhos ao contrário no espelho a falta de visão sou a escondida fria e desapercebida sou seus dedos rijos na cara dele dela sou as palavras dirigidas a todos, e a mim mim mim sou o momento, a conseqüência da luz no seu corpo sou eu ali no chão rastejando presta atenção


I Sou pequena e imunda. e minhas necessidades de clarezas distantes dominam todo o território do céu e do inferno que se espalham pelo meu corpo uma coisa meio caos, meio calmaria uma mentira, meia verdade e a gente continua assim cheia de orgulho e lama prolixa sem dizer nada há uma necessidade de se estender sempre há de se estender até o ponto líquido fundir vontade de infinito indivisível uma necessidade de dizer conversas cada vez menos suas e palavras cada vez menos belas uma necessidade de sair morrendo em cada vontade mal( )dita


II E eu. eu deveria parar de mexer com palavras inflamáveis e não me deixar encostar em palavras frias dar meu verbo a tapa para quem quisesse e me estender estender meu corpo nu me lavar e secar secar e esfarelar deveria me guardar num potinho lamber os dedos, colocá-los dentro do pote e me provar toda a vez que não soubesse mais lhe dar com a falta dos gostos dos outros experimentar-me sempre que não possuísse vestígios de outros alimentos e deveria me satisfazer com meu pó guardado em pote de remédio


III Mas eu sei. e finjo não saber que nunca me satisfarei com restos pó de mim não enche barriga de miserável pó de mim tem é que ser misturado à água e ser jogada no ralo mas tem gente que bebe e sei que minha pele e meus ossos minha memória e meus fatos triturados chamam atenção de moscas poetas putas discretas e vira-latas e todos me provam e desaprovam e largam num canto qualquer do armário.


Amar ao pr贸ximo Coma-te a ti mesmo!


pele


a leveza não está no ar poluído pesa em cores avermelhadas, em pó dilui-se em nuvens incompreensíveis micro-partículas de pesos em suspensão por cima da cidade, dos muros edifícios e pessoas cinzas. a leveza não está no não estar a ausência pesa o corpo no corpo preenchido por mil grãos de vontades desejos e retornos a pele, sem pele, pesa tanto que o peso torna-se nuvens armadas e o teto da cidade fica prestes a desaguar. leveza parece estar tão longe... além de qualquer

toque de qualquer mão que não seja a sua. a leveza a insustentável leveza aparece delicadamente na dança que nossos corpos fazem sem pretensão num palco forrado por lençóis de malha


quando eu era criança o mundo parecia enorme e toda minha felicidade cabia dentro de um copinho de suco de groselha hoje o mundo Ê o meu corpo e toda a felicidade cabe dentro da minha vagina


Saudades são os movimentos circulares que a pele dos meus dedos fazem nos órgãos lúdicos dos meus desejos Saudades são nossos corpos por cima de outros corpos de igual estatura e desempenho suando o teu nome, o meu nome inteiro pela boca – desespero Saudades fazem, se desfazem, face à epiderme do findável toque sucessível de mãos corpos abraços in loco de memória


sobre minha boa memória A memória do meu corpo nunca falha. Se eu encosto a pele, tudo vem a tona... [minha flor possui póros e suas pétalas são feitas de digitais]


Meu tato com o mundo é outro! Ouço-o com os olhos fechados respiro-o com a boca molhada e sinto-o com a vagina frouxa. Meu trato com o mundo é ouro! Pena não ser reciproco...


Quantas micro-partículas de coisas vivas acoplam-se à minha pele quando euredemoinho nessa rajada de vento?! Música de vendaval, estômago vazio de ansiedade, sol calmo no rosto, fios de rasgar ausências. Baixando as poeiras dos olhos com água: lama. Choro cor-depele, grito de vida. Berro de nascer... Por instinto, ainda com os olhos fechados de água e lama, por instinto, jogo meus braços para baixo, toda mole. Mole de argila que gira em espera de mão de molde. Minhas mãos, suas mãos. Suas mãos que são brancas e longas de tocar violão. Estou nascendo...


Thalita Covre nasceu na ilha de Vit贸ria; vinte poucos anos depois graduou-se em Letras pela Universidade Federal do Esp铆rito Santo. Tornou-se fot贸grafa por acaso e poeta para manter-se viva.

Cacos de Verbos Inflamados  

E-book de Thalita Covre. Projeto Gráfico: Karina de Sá. Capa: Lucas Côrtes

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