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pesar de previsto em lei, o acesso de pessoas com deficiência às atividades culturais ainda é muito limitado no Distrito Federal. Aparelhos de audiodescrição para cegos não estão à disposição em todas as sessões de cinema, nem todo espetáculo teatral tem tradução em Libras, falta acessibilidade motora em muitos espaços e são poucas às ações voltadas para o público com deficiência intelectual. Uma pena, afinal independentemente das limitações físicas, sensoriais e intelectuais todas as pessoas com deficiência devem ter resguardado o direito à cultura.

clua pessoas com deficiência como parte de seu público. Subsecretária de Cidadania e Diversidade do DF, Jaqueline Fernandes afirma que a elaboração da Portaria no 100 do Diário Oficial visou garantir a inclusão e acesso de pessoas com deficiência e mobilidade reduzida à programação cultural em Brasília e nas regiões administrativas. “É importante ressaltar que a portaria não se restringe às questões estruturais, propõe mudanças para além da eliminação de barreiras comunicacionais, tecnológicas e arquitetônicas, determinando também estimular a produção cultural feita por deficientes”, destacou Jaqueline.

ma, pois com a legenda era possível entender parte do filme. Mesmo com o recurso, o estudante ainda enfrentava dificuldades para ler a descrição devido à língua portuguesa ser aprendida pelos surdos como segundo dialeto. Outro problema é que as cenas nem sempre estão coerentes com as falas. O estudante conta que já se sentiu perdido em alguns lugares culturais que não tinham disponíveis recursos de acessibilidade. “As pessoas ao meu redor ficaram perdidas pois não sabiam como poderia adaptar de modo rápido para que eu pudesse participar”, contou Saulo. Por mais que tenha pensado em desistir de frequentar alguns espaços culturais, Saulo persiste, e ora ou outra encontra teatros e shows com intérpretes de Libras. Quando participa de eventos inclusivos, o estudante se sente feliz, mas sabe que muitos locais ainda precisam se adequar.

Saulo Moraes, de 20 anos, é esMas para que na prática a aces- tudante de Psicologia e surdo. Ele sibilidade e a inclusão social sejam lamenta que apesar de a Lei da feitas no universo cultural, é ne- Acessibilidade existir, os deficiencessário seguir algumas diretrizes tes ainda encontram muitos obstápresentes na legislação e também culos para participar de atividades desenvolver estratégias para que a culturais. Há alguns anos, Saulo Além de Saulo, Igor de Andralinguagem nessas manifestações in- costumava ir às sessões de cine- de Ceolin, 30 de anos, gostaria de

DIANTE DE OBSTÁCULOS, OS DEFICIENTES DA CAPITAL TÊM ACESSO A ESPAÇOS CULTURAIS DO DISTRITO FEDERAL >>> 2

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Apesar de algumas conquistas, como a Portaria 100, ainda a muito a ser feito para que locais de promoção de cultura sejam inclusivos e a começar pelos arredores dos lugares

“As pessoas ao meu redor ficaram perdidas pois não sabiam como poderia adaptar de modo rápido para que eu pudesse participar” Saulo Moraes, 20 anos

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frequentar eventos com espaços reservados a pessoas com Transtorno do Espectro Autista. Devido sua condição, o jovem não se sente bem em lugares com grande quantidade de indivíduos e, por isso, passa por contratempos ao participar de atividades culturais. Ele conta que as pessoas deduzem o que o autista gosta ou não gosta de fazer, sendo que o mais viável seria consultar o público com o transtorno para saber de fato. “Para saber quais experiências são boas para os autistas precisam perguntar primeiro a nós, pois as pessoas veem informações sobre o transtorno em filmes, séries e livros e acham que sabem de tudo”, desabafa Igor.

desculpe, estamos em fase de adaptação Diferente dos locais que Saulo e Igor costumam frequentar, o Complexo Brasil 21, localizado no centro de Brasília, investiu numa estrutura a adaptada para todos os públicos. Além de seguirem as normas de acessibilidade impostas na legislação distrital, os restaurantes do espaço, Lucca, Norton e Miró passaram a oferecer cardápio em braile para os clientes com algum tipo de deficiência visual. Executiva de marketing do Brasil 21, Beatriz Aguilar destaca que a intenção do complexo é estar preparado para todas as possibilidades. “Não recebemos deficientes visuais com tanta frequência, mas se eles vierem aos nossos restaurantes ou hospedarem conosco, estaremos prontos para atendê-los. Queremos que todos se sintam bem”, enfatiza Beatriz. Com a implementação dos menus em braile e em fonte ampliada, o local espera alcançar mais clientes. “Por mais que muitos estabelecimentos estejam se adequando, continua sendo uma realidade

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muito difícil para os deficientes visuais. Queremos dar uma experiência prazerosa a eles. Vamos incluir todos, fazer com que se sintam confortáveis”, ressalta a assessora de comunicação, Karina Borges. Hedrienny Cardoso, 32 anos, tem três filhos, dois deles com deficiência visual: Daniel, 6, e Júlia, 4. Ela sabe muito bem o quanto é difícil encontrar locais acessíveis para as crianças. A inclusão de cegos ainda é um desafio muito grande e está longe de se tornar efetivamente uma realidade em Brasília. As dificuldades vão desde buracos nas calçadas até a transcrição de material em braile. “Eles vivem tropeçando e não conseguem seguir a autonomia que uma criança da mesma idade teria. Já em locais de eventos ou locais públicos, a ausência de adaptação específica dificulta o entendimento deles”, lamenta. Apesar dos contratempos, Hedrienny tenta de todas as maneiras incluir os filhos na sociedade: os leva a parques, teatros musicais, contações de histórias. No entanto,

há locais que, além de não oferecerem acessibilidade, ainda os tratam com discriminação. “Certa vez, em um shopping, meu filho mais velho, que também é autista, foi impedido de entrar num brinquedo por

ser cego. Não deixaram o pai dele guiá-lo. Você acha que um autista e cego sentiria segurança em ir a um brinquedo que nunca tinha ido com um desconhecido?”, indaga a mãe decepcionada.

o que os olhos não veem, os ouvidos escutam Daniel Cardoso, de 6 anos, é cego e tem o Transtorno do Espectro Autista. Com um dom fora do comum, Dan, como é chamado pelos familiares, toca piano. Tanto talento e genialidade são características da criança, que encanta ao som que varia desde canções de Tchaikovsky a Galinha Pintadinha. A mãe do menino, Hedrienny Cardoso, compartilha vídeos do filho em seu Instagram (@hedrienny). O objetivo da iniciativa é estimular a produção de conteúdo para que um dia Dan possa ser valorizado no cenário cultural do DF. “O estímulo à produção de conteúdo abre portas para os profissionais se capacitarem e poderem atender crianças e adultos”. Dentre os obstáculos que Hedrienny observa na educação da criança, é encontrar profissionais capacitados para auxiliar o menino nas aulas de música. “Para você ter ideia, o Dan não tem professor de música, porque não tem. Não existe profissional que tenha experiência com cego e autista, então tudo o que ele aprende é sozinho”, aponta a mãe.

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mental é estimular a acessibilidade dissociando da obrigatoriedade que a lei impõe.

educação para todos Coordenadora do Centro Universitário Iesb e também professora de Libras da instituição, Olga Freitas explica que antes da Lei da Acessibilidade havia outras normas, como a Lei de Acessibilidade, Lei de Libras, Lei do Autismo, Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional.

útil ao agradável O grupo Maleta Cultural apresenta performances, contação de histórias e espetáculos em Libras. Tudo começou em 2015 quando Manoela Pires, Lenilson Costa e Thalita Araújo decidiram problematizar questões da comunidade surda. Os três amigos se uniram a outros dois, Lucas Xavier e Eliana Pinheiro, e criaram o Maleta Cultural, intitulado assim devido as iniciais dos nomes dos membros. Todos são intérpretes ou filhos e irmãos de deficientes auditivos. O grupo, que não recebe nenhuma ajuda do governo, trabalha em parceria com empresas privadas e, em casos especiais, desembolsa dinheiro do próprio bolso. De acordo com Thalita, o público surdo tem ficado satisfeito e, às vezes, chega até se emocionar com as interpretações. Afinal, para eles é novidade participar de um espetáculo com tradução em linguagem de sinais. Thalita ressalta que a interação surdo-ouvinte tem mostrado resultado dentro e fora dos palcos. “Conto como frutos algumas

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produtoras que empregaram surdos nas suas produções e também pessoas que têm deixado os intérpretes criar de forma autônoma a tradução de seus trabalhos”. De acordo com Thalita, a promoção da acessibilidade cultural não é fácil, especialmente, por falar sobre o assunto. Para os membros do Maleta Cultural, a missão do

projeto é nova e desafiadora, mas avaliam ser gratificante por ser uma ferramenta de empoderamento. Apesar do reconhecimento, o grupo tem enfrentado dificuldades, visto que os produtores, atores, autores, diretores precisam estar conscientes do quão funda-

“As pessoas sem deficiência precisam mudar a representação social que fazem das pessoas com deficiência” Olga Freitas

A educadora conta que no sistema de ensino ainda há a Política Nacional da Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva, que orienta os processos de acessibilidade e inclusão das pessoas com deficiência em diferentes espaços, por exemplo, nas escolas. Mas, o processo não é fácil, pois há um desconhecimento geral dos deficientes sobre os dispositivos legais e o preconceito não acaba por decreto. “As pessoas sem deficiência precisam mudar a representação social que fazem das pessoas com deficiência. Geralmente, elas se baseiam apenas nas limitações, esquecendo que todos têm suas potencialidades”, enfatiza a coordenadora. Para Olga, é preciso mudar a cultura, a começar pelo olhar da sociedade às pessoas com deficiência, pois a partir daí o país terá um desenvolvimento social inclusivo em que será garantida a liberdade de ir e vir de todos os cidadãos, que é um direito constitucional. “Como vivemos na era do politicamente correto, a maioria das pessoas concorda que é necessário mudar. Contudo, não se mobilizam, não deixam sua zona de conforto para isso”, salienta a professora. Olga acrescenta que o preconceito é decorrente da sociedade individualista, competitiva e influenciada

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por padrões estéticos massificados. Segundo ela, as relações atuais dificultam a ruptura do que hoje é considerado normal. A educação reflete bem a discrepância entre ser ou não acessível. Enquanto no ensino básico, a relação aluno deficiente professor é boa, no superior, ainda necessita de muitas melhorias para a convivência harmônica. Olga destaca que os principais obstáculos que assiste como coordenadora são os apoios técnicos aos estudantes com algum tipo de deficiência, é o caso do intérprete de Libras e do ledor/ transcritor.

brasiliense estuda para concurso público no CEEDV. Apesar dos recursos disponíveis no centro de ensino, a estudante encontra dificuldade de locomoção fora dos portões do centro educacional. Dentre tantos lugares, Karina cita a Rodoviária do Plano Piloto. Ela conta que ao contrário do que deveria ser, o maior terminal do DF não oferece nenhum suporte aos deficientes, principalmente, os visuais. “Aqui em Brasília não tem muita sinalização, mas eu tenho muita dificuldade no centro da capital, na Rodoviária por não ter o piso tátil”, indaga Karina.

Em busca de mudar essa realidade, a biblioteca Dorina Nowill, localizada em Taguatinga, atende o público com deficiência visual. O acervo conta com dois mil exemplares, sendo que alguns são em braile. Além desse trabalho, a biblioteca é uma estante inclusiva do DF por fornecer livros ao Centro de Ensino Especial de Deficientes Visuais (CEEDV), da Asa Sul, e a outras bibliotecas da região.

Em resposta, a Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap) informou que já foram investidos cerca de R$11 milhões em obras para recuperação e revitalização das plataformas e das demais áreas internas da Rodoviária. A conclusão da obra está prevista para abril de 2019, sendo que 40% já foi concluída. Ainda em nota, o DFTrans frisou que 100% da frota do transporte coletivo é acessível e conta com elevadores e assentos preferenciais.

Deficiente visual Karina de Almeida, de 27 anos, como uma típica

Funcionária pública Bárbara Pe-

droso, 33, nasceu com osteogênese imperfeita, doença congênita que a deixou cadeirante desde os 11 anos. Apaixonada por arte e cultura, ela costuma frequentar teatros e exposições, mas sempre acompanhada de um familiar ou amigo. “Eu vou a eventos no Parque da Cidade, no Centro de Convenções, Funarte, inclusive, fui lá recentemente assistir uma apresentação de dança”, conta. Ela avalia que os estabelecimentos de promoção de cultura têm se esforçado para se adequar em atender e disponibilizar meios de acesso a pessoas com deficiência física, por exemplo, os banheiros. No entanto, Bárbara vê que os maiores problemas são chegar aos espaços culturais e os arredores dos estabelecimentos. “É muito complicado porque não tem acessibilidade em calçadas, não tem rampas e como eu sou cadeirante, preciso de tudo acessível para frequentar os locais”, lamenta a funcionária pública. Bárbara observa que para enfrentar a falta de investimento nas ações em benefício do público deficiente, precisa do engajamento e olhar cuidadoso da sociedade, instituições e empresas.

Além dos obstáculos: o artista plástico Lúcio Piantino

PROJETOS DE INSERÇÃO Eles transformaram suas limitações em linguagens e venceram paradigmas. Das pernas que não se movem, o compasso da dança que encanta. Dos olhos que não veem, o toque de cada nota suave do piano. E das palavras que não podem ser ditas, um show de atuação. Além do talento que tem de sobra, os deficientes artistas do DF contam com o apoio de projetos que promovem a inclusão desse público no cenário cultural. Com 24 anos de história no currículo, o Surdodum é um grupo de jovens com diferentes graus de deficiência auditiva que tocam instrumentos de percussão, dançam e cantam, claro, sem sair do ritmo. O principal objetivo da iniciativa é mostrar que os surdos podem e conseguem tocar percussão por meio da vibração dos instrumentos e, assim, produzem a música.

SURDODUM

Coordenadora do Surdodum, Ana Lúcia Soares, não vê oportunidades para os artistas com deficiência no Brasil e em Brasília. Mas, apesar dos contratempos, o quadro tem mudado, principalmente, com a união e incentivo de grupos que buscam mostrar o talento de artistas com deficiência. No entanto, para que esse trabalho de inclusão continue é necessário patrocínio, parceria que o Surdodum desconhece. Ana Lúcia avalia que a melhoria na acessibilidade cultural, em especial, para os surdos, só acontecerá se for cumprido o há escrito em lei, por exemplo, a presença de intérpretes em shows e filmes nacionais com legenda.

PROJETO PÉS

Desde 2011, o Projeto PÉS por meio de técnicas do teatro-dança incentiva o lado artístico de pessoas com deficiência. Idealizado por Rafael Tursi na UnB em 2009, a iniciativa tem como foco o desenvolvimento e a socialização dos indivíduos. As aulas são executadas a partir de dinâmicas corporais e da experimentação de objetos ludopedagógicos (corda, balão, lenço e massa de modelar, entre outros).

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O processo didático do PÉS é dividido em duas grandes etapas, uma abrangendo a pedagogia do movimento e outra a alfabetização estética dos alunos. A proposta é mostrar as individualidades dos alunos na sua maneira de lidar com o mundo, seus interesses, afetos e, a partir daí, auxiliá-los a escolher o modo de contracenar. O projeto é destinado a pessoas de qualquer idade com e sem deficiência.

Apesar de as pessoas enxergarem primeiro a Síndrome de Down, Lúcio Piantino é um artista plástico brasiliense que vai além dos limites apontados a sua personalidade. Talentoso, a arte sempre fez parte da sua vida. Com o apoio e investimento da família, Piantino é presença confirmada em eventos de inclusão e acessibilidade, seja na platéia ou como artista consagrado. Por conhecer os obstáculos enfrentados pelos deficientes, as exposições, filmes e peças de teatro com algum envolvimento de Piantino são sempre adaptados para atender o público com diferentes deficiências. Diferente dos inúmeros casos citados na reportagem, o artista sempre participou de atividades culturais e, no quesito acessibilidade, não tem do que reclamar, pois diz nunca ter enfrentado dificuldades quando visitante de espaços de promoção cultura. Em relação ao trabalho, Piantino é ainda mais categórico, afinal enfatiza que não teve nenhuma barreira que atrapalhasse seu trabalho devido receber patrocínio. Segundo o artista, o Governo deveria conceder mais incentivo para que as pessoas com deficiência participem como agentes culturais, por exemplo, produtores, atores e cantores. Como uma forma de incentivo, Piantino deixa uma mensagem com carinho para os deficientes. “Acreditem nos seus sonhos e trabalhem muito por eles”, pontua.

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Reportagem deficiência  

Reportagem Acessibilidade Cultural em Brasília

Reportagem deficiência  

Reportagem Acessibilidade Cultural em Brasília

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