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O JANTAR Finalmente eu conseguia pensar. Era ele. Igual aos filmes que eu via na televisão, o mesmo cabelo cor  erva­doce, os olhos na penumbra e o mesmo sorriso tímido sedutor. Era, no  entanto, um pouco mais alto do que eu esperava. Digo, muito mais alto. Richard Clevehouse deu alguns passos na minha direção. Creio que  minha boca estava aberta. Na realidade, ele era tudo menos um daqueles  homens perfeitos que saem nas capas de revistas como Forbes, Vanity Fair, GQ e Men's Health. Tinha o cabelo molhado, como se houvesse acabado de  lavá­los, o terno estava torto em seu corpo e o nó da gravata delatava sua  inexperiência em usar roupas sociais. Fechei os punhos quando uma onda de um sentimento desconhecido  me inundou. O ator inglês caminhava até mim, e eu, ridiculamente estática,  evitava olhá­lo nos olhos. Eu tinha, digo, eu tenho um tipo de dom. Minha sensibilidade sempre  foi muito forte, posso, inclusive, ver além dos olhos. Atrás dos olhos de  Richard havia raiva, não de forma cultivada. Mas, naquele momento, eu  soube que ele era um homem perigoso. Assim que estava próximo o bastante, o ator estendeu o braço para  que nos cumprimentássemos. Quando a manga do terno subiu, revelou a  mão cheia de pequenas cicatrizes e, uma delas, muito antiga e cheia de  pontos, logo acima do pulso. − Richard Parson Clevehouse!  – disse com sua voz firme; eu já  conhecia a intensidade daquele som. − Lucia Píer Eli ­ elevei o braço e apertei a sua mão quente. Ficamos em silêncio e com as mãos dadas. Sua palma contra a minha  fazia   meus   dedos   formigarem,   talvez   fosse   o   nervosismo.   Richard   me  olhava nos olhos e eu procurava desviar. Pessoas como ele eram capazes de  recitar epopéias com um único olhar ou, simplesmente, dizer o necessário. Seu hálito de hortelã chegou até minha boca. − Venha, sente­se aqui! ­ o ator caminhou até a nossa mesa e puxou  uma cadeira. O perfeito gentleman. Se os homens preferem as louras eu não sei, mas que as mulheres  preferem aos gentlemen, disso eu tenho certeza e falo com propriedade. Richard contornou a mesa para que ficássemos frente a frente. Cada  mínimo detalhe de seu rosto prendia meus olhos por horas. E os minutos do  relógio voavam.  No salão estavam apenas eu, Richard, a luz da vela e o garçom que  se aproximava. O cardápio nos foi entregue e uma nova onda de pânico me  aterrorizou.


− A entrada. ­ disse o garçom. (...) A FUGA Uma mulher de expressão rebuscada me encarou dos pés à cabeça. − Identidade! ­ sua voz era fina e irritante. − Não tenho, mas eu preciso ir para Londres, imediatamente. − Não posso vender passagem para uma menor. ­ ela disse. − Eu não sou menor. Eu tenho dezoito anos. Isso não podia estar acontecendo. A qualquer momento meus pais e  Rick poderiam aparecer na entrada da estação.  Enfiei   a   mão   no   bolso   e   despejei   todo   o   dinheiro   que   eu   tinha,  metade   do   dinheiro   que   trouxera   do   Brasil   (a   outra   metade   ficara   na  mansão, esquecida ). A mulher esticou as sobrancelhas finas feito dois fios  de lã. − Você não está entendendo, eu preciso sair daqui ­ falei. Seus dedos esqueléticos  contaram o dinheiro e, com os olhos em  mim, puxou nota por nota para o seu lado do balcão. Depois de verificar se  nenhuma   de   suas   companheiras   de   trabalho   haviam   visto   o   suborno,   a  atendente se inclinou em minha direção, atrás do vidro que nos separava. − Tudo bem, eles nunca verificam a identidade mesmo. O próximo  ônibus sai em cinco minutos. Ele já está parado na estação. − Obrigado. − Tente não chamar atenção. Ela arrastou um ticket pela mesa e eu interceptei. Com o bilhete em  mãos, atravessei a estação, andando rápido e desemboquei no portão de  embarque.   Arrastei   meu   corpo   até   a   portaria   número   oito,   conforme  indicava o bilhete, e o entreguei ao motorista. Seus olhos vasculharam a  minha péssima imagem, mas, por sorte, permitiu que eu entrasse. Algumas   pessoas   já   esperavam   pela   partida,   dormindo   em   suas  poltronas.   Entrei   para  quebrar   a   monotonia.  Os   braços   ralados,   a   roupa  molhada e rasgada, o cabelo desajustado e os olhos vermelhos de tanto  chorar. Sim, eu quebrei a monotonia. Caminhei até as últimas poltronas e me joguei no banco. Faltavam  cinco   minutos   para   eu   conseguir.   Meus   pés   batiam   no   chão   e   as   mãos  batucavam nas pernas. Qualquer mínimo barulho na estação disparava o  meu coração e me fazia saltar da poltrona. Olhei ao redor e percebi que um  homem, sentado duas fileiras à frente, observava o meu nervosismo. Tentei relaxar, mas era impossível.


Do fundo do ônibus, vi o motorista entrar e fechar a porta. Eu estava  conseguindo, a próxima etapa seria deixar Hertford. Tentei me acalmar,  lembrando de Richard e do propósito da minha fuga. A partida foi dada e o ônibus entrou em movimento. (...) "... não posso deixar de dizer que é envolvente, muito bem escrito, e te  deixa exatamente do jeito que eu gosto: morrendo de curiosidade até a  ultima palavra.” Lost in Chick­lit, Julianna Steffens. Mais informações em: estrelapier.blogspot.com kamiladenlescki.com.br @Denlescki

Estrela Píer  

Sinopse: Lucia tem uma vida monótona e previsível até vencer o concurso mais cobiçado do momento. Não apenas ganha uma viagem para Londres,...

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