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PEQUENOS GRANDES ATOSpE HEROISMO

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empre que pensamos na 2' Guerra imediatamente associamos o conflito ao sofrimento do povo judeu, aos lideres que inventaram e aos que deram fim ao con flito, aos generais habilidosos que liquidaram divisões inimigas. Não por acaso ela é conhecida como 2' Grande Guerra. Não se pretende aqui reduzir a importância de líderes como Winston Churchill, que conduziu urna Inglaterra isolada e aparentemente frágil contra o poderio nazista à base de "sangue, suor e lágrimas", para usar suas próprias palavras, ou a bravura de George Patton, que liderou as forças aliadas na Europa na libertação de 12 mil cidades. Ou Oskar Schindler, o empresário austro- húngaro que salvou mil judeus poloneses da morte certa no campo de concentração de Plaszow os empregando em sua fábrica. Mas guerras são vencidas e perdidas por homens. A vida - e a lista - de Schindler chegou ao cinema pelas mãos de Steven Spielberg. Uma frase da Torá, o livro sagrado judaico, reproduzida no film e, é um dos motes desta edição, "Quem salva uma vida salva O mundo inteiro". Nas próximas páginas, você vai encontrar, provavelmente pela primeira vez, uma galeria de heróis da 2' Guerra. São heróis humanitários que colocaram a própria vida em risco para salvar inocentes, co mo diplomatas que concederam vistos a judeus para que deixassem a Europa. Mas há também heróis guerreiros que ao combater o inimigo contribuíram para que a guerra terminasse m ais depressa. Há espaço inclusive para os derrotados. Um deles, o japonês Takashi Morita, que vive no Brasil , estava entre os primeiros a socorrer

as vit imas da bomba atómica em Hiroshima. Outro herói do lado dos maus é o general Dietrich von Choltitz. Ele recebeu ordens di retas de Hitler para explodir Paris antes da chegada dos Aliados. Foi tal vez a única ordem que esse militar que participou de duas guerras deixou de cumprir e legou à humanidade uma cidade intacta. Aproveite a leitura .

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Pre$idente doConselho deAdmrnistr~: Roberto Civilll Presidente El!t(u t ivo; Giancarlo Civita Vice-P'n5identu: Arnaldo TIbyriçá. Douglas Ouran,

Marcio Ogliara

Os editores

_.abril.a)m.br


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20 28

iIIH 1?i3 i'hljl-! Li

BRAVOS E LOUCOS CONTRA O RElCH

A nata das forças aliadas. na terra. no mar eno ar 'iii !mia"! i 'M ~i ESPIÃOPEZ o DIAD DAR CERTO

Agentes mudaram o rumo da guerra. Saiba quem eles são 1!!J-f,]4Jdi1 j· j,jiIHi

APORÇ~DA

RESISTENCIA

Os exércitos improvisados que fizeram a diferença 1:IHI~tll'I=!'!

III·!·IHJ ~UANDOAARMA

RA DE PAPEL

Vistos concedidos por diplomatas salvaram milhares

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'ii#-' '("!l'mA... ii Li AS PRINCIPAIS ROTAS DE roGA

Como judeus e outras minOrias circularam em busca de refúgio 111!'!oI~I:I'I:! IIIUHI ~J

o EXTERMÍNlO DOS DIPERENTES

Quem se opôs ao T4. programa que matou 200 mil pessoas IlIa'll~i:III=!I,liH IHJ

os ANJOS DE SAIA

Enfermeiras. estudantes. pilotos: as maiores heroínas

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DOIS HOMENS CONTRA A BOMBA

Eles socorreram as vítimas de Hiroshima e Nagasaki

50 54

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Uh ! JLjm",,,"!!.r !,II..

RESGATE DO TREM DAS ARTES

Eles se dedicaram a recuperar obras pilhadas por nazistas InHI~i·IIUI·ml·I.II'1

OINIMIGO~UE

SALVOUP.

5

O general Choltitz recusou-se a cumprir ordem de Hitler nll,ll~i.j-'lilnIHi

PO~A VE E-AMARELA NOPRONT

Pracinhas. diplomatas e a postura de Vargas

66

Ui !ii@4,un

A DEVIDA HOMENAGEM

Em tempos de guerra. apenas viver já é ato de heroísmo


graveameaseguidores do

Deutsche ~A1:pejiferp"gj~tei (Partido

Nacional dos Trabalhadores Alemães, o Partido Nazista) moviam sua máquina de guerra para estender os domínios do 3° Reich pela Europa - e além dela. Ao mesmo tempo conduziam o infame expurgo das "raças inferiores" matando em massa, nos campos de concentração e nas câmaras de gás, judeus, poloneses, homossexuais, comunistas, deficientes... Itália, Japão e algumas nações menores uniram-se ao Führer no chamado Eixo. Cerca de 50 países, capitaneados por Reino Unido, União Soviética e Estados Unidos, aliaram-se contra eles. Este capítulo é dedicado aos líderes militares, aos guerreiros solitários, aos ousados espiões e aos cidadãos comuns que foram às armas e deram sua contribuição - por vezes a própria vida - em nome do bem maior: a liberdade.

10. HERÓiS (QUASE) ANON IMaS

o MAIS CONDECORADO DA HISTÓRIA. DOS EUA Primeiro ele tentou ser fuzileiro naval. Mas, com apen'" 1,65 m de altura e magro, acharam- no pequeno demais De fato, quem olhava para Audie Leon Murphy dificil· mente adivinharia que ali estava o futuro soldado mai! condecorado da história dos Estados Unidos. Seriam 3; medalhas por bravura em combate (e outras homenagens) nos 3 anos em que esteve no fro nt. Nascido em 1924 em uma numerosa , pobre família do Texas, Murphy trabalhava na colheita de algodão ao lado de>; nove irmãos. Ao chegar aos 17 anos, mentiu que já era maior de idade par:l: ser aceito no Exército - queria se alistaI de qualquer jeito depois do ataque japonês a Pearl Harbor. Não convenceu f teve de esperar os 18. No treinamento. no qual o chamavam de "bebê", era vitima constante das brincadeiras dos colegas. Até que chegou seu grande dia.


Okamikaze • americano Primeiro foi destacado para a África do Norte. Em 1943, chegou à Sicília (Itália) com a 3' Divisão de Infantaria. E logo mostrou aos "grandões" do que era capaz. O feito mais notável do pequeno soldado - agora segundotenente - se deu na gélida batalha de Holtzwi hr (França), em janeiro de 1945. Seu pelotão fo ra q uase todo dizimado. De 128 homens, restavam apenas 19. Murphy mandou seus companheiros para trás. E começou a atirar. Quando acabou a munição, subiu em um ta nque em chamas e acionou a metralhadora na direção da infantaria alemã. Foi ferido na perna, mas continu ou sua luta solitária por mais 1 hora até o recuo do inimi-

go. Estima-se que, nos combates dos quais participou na Itália, na França e na Alemanha, tenha matado 240 nazistas. Voltou para casa sofrendo de estresse pós-traumático, com crises de de pressão e insônia.

Seus atas de heroísmo ficaram conhecidos do público. O astro James Cagney, famoso por interpretar gângsteres violentos no cinema, viu a foto dele na capa da revista Life e o convidou para ser ator em Hollywood. Murphy aceitou e novamente se deu bem: fez 44 filmes em 25 anos, além de uma série de Tv. Também escreveu poemas e canções. Morreu quando o pequeno avião em que viajava a traballlO bateu em uma montanha na Virgínia, em 1971.

As tropas do general de divisão Edward King tinham se rendido ao general japonês Masaharu Homma em 9 de ab ril de 1942. Os prisioneiros ficaram detidos em um lugar infernal chamado Cabanatuan, nas Filipinas, onde sofriam torturas e mutilações. Um soldado foi decapitado por sair da fila para beber água em um riacho. Todos, inclusive os japoneses, passavam fome. O número de mortes chegou a 700 por mês - provocadas por desnutrição, doenças tropicais e maus-tratos. Só três anos depois os 121 fuzileiros comandados pelo tenente-coronel Henry Mucciforam enviados para libertar os 500 prision eiros sobreviventes, ajudados por guerrilheiros filipinos. Os americanos imaginaram que, naquele canto do Pacífico, enfrentariam um pequeno número de in imigos, tão cansados de luta r quanto eles. Encontraram 8 mil japoneses pela frente. Os primeiros "olheiros" viram tantos tanques e soldados que compararam a estradinha do acam pamento a uma avenida central de Tóquio. Era tudo ou nada. Os guerrilheiros to maram uma ponte de acesso, e os fuzileiros abriram fogo intenso. Um sentinela japonês levou tantos tiros que parte de seu corpo desapareceu. Até os prisioneiros demoraram para entender o que acontecia. Quase 300 resgatados foram levados de navio aos EUA e ainda enfrentaram submarinos japoneses no caminho. Em Cabanatuan, um muro de mármore lista o nome dos 2656 americanos que lá morreram.

HERÓ iS (QUASE) ANÓNIMOS-lI


GUERREIROS

INIMIGOS:

OS JAPONESES EORACISMO Para um negro americano, a vida na Marinha não era muito diferente daquela que conhecia nas ruas de seu pais: a segregação racial dava o tom das relações sociais e profissionais. Doris Miller, aos 22 anos, não havia conseguido nada além de um posto de cozinheiro no navio USS Pyro . Em janeiro de 1940, foi transferido para o navio USS West Virgínia, onde se tornou "campeão" de boxe . Encarrega do de preparar a comida e de pequenos serviços, recolh ia a roupa suja para a lavanderia na base de Pearl Barba r, no Havai, quando o alarme soou na manhã de 7 de dezembro de 1941. Era o início do ataque japonês. Miller não recebeu treinamento militar formal e não sabia atirar. Mesmo assim , COf reu para o tombadilho . Por seu tamanho, foi designado para ajudar no resgate de vários feridos. Na confusão, ass umiu uma das metralhadoras antiaéreas Browning calibre 50 e começou a disparar con tra os nipónicos. Teria derrubado cinco aviões japoneses até ficar sem munição. Durante o ataque, aviões japoneses lançaram duas bombas blindadas que perfuraram o convés do navio. Miller só aban danou o West Virginia quando ele começou a afun dar. Dos 1541 homens a bordo, 130 fo ram mortos e 52 ficaram feridos. Tempos depois Miller declararia

12. HEROIS (QUASE) ANONIMOS

que não teve problemas em derrubar os aviões. "Não foi difícil. Eu puxei o gatilho, e a metralhadora func ionou muito bem. Eu tinha visto outros soldados usando essas armas. Atirei por cerca de IS minutos. Peguei alguns desses aviões japoneses. Eles mergulhavam muito perto de nós." Miller recebeu a Cruz da Marinha em 1942 - foi o primeiro negro da frota do Pacifico a ganhar a honraria. Na ocasião , ele também foi elogiado pelo secretário da Marinha Frank Knox e pelo comandante Chester Ni mitz. Na máquina de criar ídolos que movia a propaganda de guerra) o mais comum seria poupá- lo de novos combates. Mas a Marinha insistiu em mandá- lo de volta ao front. Estava nova mente servindo mesas, agora a bordo cio Liscome Bay, quando o navio foi atingido por um torpedo japonês na Batalha de Tara\Va, em 24 de novembro de 1943. Apenas 272 marinheiros sobreviveram ao naufrágio; 646 morreram - Miller era um deles. Scu corpo nunca foi encontrado. Não recebeu a Medalha de Honra , a luais alta condecoração militar americana , nem mesmo quando ela foi concedida postumamente a IS homens - todos brancos - que lutaram na defesa de Pearl Barbar. Nenhum negro recebeu a honraria durante todo o conflito. Após a guerra, a história de Doris Miller se tornou um símbolo contra a segregação. Ele foi retratado (como coadjuvante) nos filmes Tora! Tora! Tora! (1970) e Pearl Harbor (2001).


o Memphis Belle era um bombardeiro B-17 sem nome quando Robert K. Morgan batizou-o com o apelido da namorada (Margaret Polk). Nos primeiros três meses na base inglesa de Bassingbourn, as perdas de bombardeiros chegaram a 80%. O moral estava baixo. Como incentivo, a Força Aérea Americana estabeleceu que, após 25 missões, os sobreviventes poderiam voltar para casa. Em uma das missões. Morgan pousou só com metade da cauda, destruída pelo fogo alemão. Foram 128 horas de voo despejando 60 toneladas de bombas. Em maio de 1943, a tripulação se tornou a primeira a completar, sem baixas, as 25 missões. No ano seguinte, Morgan estava de volta à guerra para bater a mesma meta, agora no Japão. Ele e Beile não se casaram.


o maior duelo o cenário eram os escombros de Stalingrado. De um lado, o major Heintz Thorvald, tido como o melhor atirador alemão e enviado ao front especialmente para matar "o exterminador de nazistas". Do outro lado, o taJ extermin ador, o russo Vasili "Zaitsev" Crigoriev itch , que só na

Batalha de Stal ingrado tin ha aniquilado, com seu rifle e sua pontaria extraordinária , 242 alemães. Thorvald , também conhecido como Erwin Konig, tinha unla

va ntagem: estudou todos os passos e métodos do adversário. A batalha entre os dois não era totalmente sol itária : homens dos dois lados da trincheira procuravam pistas da locali-

zação exata dos dois atiradores. No terceiro dia, O comissá rio Igor Danilov, que estava com Za itsev, leva ntou- se ao achar

que viu oalemão ao longe. Foi alvejado no ombro. Segundo o pesquisador William

14· HERÓiS (QUASE) ANONIMaS

, Craig, no livro Ini.migo nos Portões, "Zaitsev pôs uma luva em um pedaço de madeira e a exibiu , tendo esta imediatamente recebido um tiro, quando Zaitsev percebeu que Konig estava aba ixo de uma chapa de ferro". O rtLSSO seguiu entrincheirado. Konig a~ertou seu outro aj udante: Ni kolay Kulikov. Achando que tinha matado o inimigo, o nazista saiu do esconderijo. O russo puxou o gatilho de seu rifle Mosin-Nagant modelo M91/30 ca libre 7.62 com mira telescópica. Acertou o alemão em seu alvo preferido: a testa. Ele levou o rifle K-98 de Konig como troféu do duelo, considerado o mais épico de toda a guerra por muitos historiadores (outros colocam em dúvida até mesmo a existência desse confronto). Zaitsev (que significa "lebre", em russo) era neto de caçador e aprendeu a atirar aos 5 anos de idade em sua cidade nata l, Eli niski , no sul da Rússia. Foi pastor de ovelhas antes de ser incorporado à infantaria da Marinha soviética. Chegou a Stalingrado em 20 de setembro de 1942 integrando a 284' Divisão de Fuzileiros. O gcneral Vassili Chuikov, encarregado da defesa da cidade, passou a estimular a ação dos franco -atiradores para combater o 6" Exército alemão, que sitiava a cidade. Suas ba las penetravam nos capacetes dos inim igos. Estatísticas da época davam conta da morte de mais de mil alemães pelas mãos dos franco-atiradores em Stalingrado. Em toda a guerra , Zaitsev teria matado 468 soldados e oficia is alemães que invadiram sua terra. Ele saiu do Exé rcito depois do conflito e foi trabalhar em um a fábrica na Uc rânia . Morreu em Kiev, em IS de dezembro de 1991, aos 76 anos de idade. Recebeu o título de Herói da União Sov iética, o da Ordem de Lênin e a medalha Ordem do Grande Patriota , além do título de cidadão honorário de Volgogrado (ex-Sta lingrado). Lá ex iste um monumento em sua homenagem. Seu infalível rifle está ex posto no museu da cidade.


PERSTS'1'ÊNCIA DE MEI-'I:AL Douglas Bader era u m exímio piloto da eronáutica britânica, com carreira brilhante pela frente, quando em 1931 seu avião caiu fazendo acrobacias e ele teve as duas pernas a mputadas. Com duas próteses experimentais de metal. foi aprovado no exame médico, e passou a integrara 19° Esquadrão da Royal Air Force britânica e assumiu o comando do 242° Esquadrão: foi uma forte injeção moral no debilitado grupo. Em agosto de 1941, tinha abatido 22 aviões inimigos e era o quinto piloto com maior n úmero de vitórias n a RAF. Em outro acidente, Bader perdeu uma das pernas de metal e foi capturado na França pelos nazistas, qu e permitiram que os ingleses lhe enviassem outra perna. Prisioneiro problemático, não cansava de irritar os guardas a lemães, até q ue foi libertado do castelo de Colditz em 1945. Bader volto u para a RAF até 1946 e no pós-guerra dedicou-se a campanhas favoráveis aos incapacitados, pelas quais foi consagrado Cavaleiro Britâ nico em 1976. Morreu em 1982, vítima de ata que cardíaco.

TROCOU SUCATA POR LUGAR ENTRE OS ASES Witold Urbanowicz, de família polonesa, tentou por 4 anos combater os nazistas com aviões velhos e antiquados. Quando derrubou um avião soviético em 1936 em uma missão de rotina com um velhíssimo

PZL P.llA, foi repreendido e

polonesa ao nazismo junto de seus alun...os e instrutores - equipados. nova,mente, com aviões antiquados. A missão foi um fiasco e,

sem nenhuma baixa inimiga. a escola foi desativada. Witold foi integrado à Força Aérea do Reino Unido depois da queda da Polônia, quando já estava na França. Não

uma escola de

desperdiçou a oportunidade de mostrar seu talento pilotando um, potente modelo inglês

treinamento da

Hawker Hurricane: diante da Luftwaffe.

Força Aérea em

abateu IS aviões, o que fez dele um dos 10

transferido para

Deblin, a leste

maiores ases dos Aliados na batalha. Ao

da·Polônia. Sua vontade de participar do front

o fez liderar três

todo. estima-se que ele tenha derrubado durante a guerra 28 9viões alemães e japoneses. Com o fim da guerra. Witold trabalhou em companhias aéreas até 1994.

anos mais tarde uma resistência

ano antes de sua morte.

Foi promovido a general em 1995. um

HERÓIS (QUAS E) ANON IMOs -15


o AT,F:lJlAO QUE ODIAVA W'1'1 aER o diplomata alemão Fritz Kolbe linha aversão ao nazismo. Procurou a embaixada americana em Berna, na Suíça (um país neutro no conflito), para oferecer seus serviços. Foi aceito após ser entrevistado por Allan W. Du lles, que, no pós-guerra, seria o primeiro diretor da CIA. Revelou segredos nazistas , como os planos de deportação de judeus italianos e a constru ção dos temíveis foguetes VI e V2 - dados sobre a localização das fábricas permitiram o bombardeio das instalações. Kolbe voltou a Berna 6 vezes durante a guerra. Repassou aos americanos mais de 1600 documentos. Um an tigo diretor da CIA, Richard Helm s, lembrou em sua biografia, "As informações de Kolbe foram as melllores que um agente aliado conseguiu obter durante toda a 2" Guerra". Kolbe tentou ser reintegrado ao serviço diplomático da Aleman ha Ocidental, mas muitos de seus colegas , alguns ex -nazistas, o acusaram de traição. Foi então para a Suíça, onde trabalhou como re presentante comercial.

Morreu esquecido em 1971. Nunca recebeu nada pelo trabalho de espião. Só foi "descoberto" em 2000, graças a uma reportage m da revista Der Sl'iegel que revirou os arq uivos da Biblioteca do Congresso americano.


o AGENTE "D" Juan Pujol Garcia, que durante a guerra usava os codinomes Garbo (para os Aliados) e Arabal ou Alaric (para os alemães), foi um dos espiões mais bem-sucedidos do conflito. O agente duplo, nascido em Barcelona, em 1912, e morto em Caracas, em 1988, convenceu os oficiais nazistas de que a Operação Overlord, o desembarque na Normandia, era apenas uma tática diversionista. Na verdade, dizia ele, os Aliados lançariam suas tropas em Pas-de-Calais, na França. Diante da informação, o próprio Hitler retirou 4 divisões do Exército a caminho da Normandia e as deslocou para a outra região. O general Dwight Eisenhower, comandante supremo das forças aliadas, destacou em seu relatório sobre a operação a importância da participação do agente duplo catalão na derrota nazista: "Se o 150 Exército alemão tivesse entrado na batalha em junho ou julho, provavelmente nos derrotaria unicamente pela quantidade e pela

qualidade dos seus efetivos". Pujai queria espionar para os britânicos, mas foi recusado. Ofereceu então seus serviços aos alemães, que buscavam alguém que pudesse entrar (e espionar) no Reino Unido. Nessa época, chegou a procurar o consulado brasileiro em Madri para pedir asilo para sua família. Depois de várias recusas. conseguiu ser ouvido por espiões ingleses. Trabalhava sob a fachada de tradutor da BBC. Sua história foi contada nos livros Garbo - O Espião que Derrotou Hit ler, de Javier Juárez (Relume Dumará),. e Garbo - The Spy who Saved D-Day, de Tomás Harris (inédito no Brasil). Ganhou a medalha de membro do Império Britânico (ao qual. aparentemente, de fato servia) e a Cruz de Ferro dos nazistas. Sua maior qualidade era o encanto pessoal. apesar de ser feio. baixo e calvo. Acabou seus dias falido na Venezuela. Orgulhava-se de ter sobrevivido a dois grandes conflitos - a 2' Guerra e a Guerra Civil Espanhola - sem disparar um tiro.

Inglês inspirou 007 e escapou da corte marcial Ao noticiar a morte de Patrick Dalzel-Job, em 2003. os jornais ingleses afirmaram que ele era o mais provável modelo do escritor lan Fleming para criar o agente James Bond (outras inspirações teriam sido David Scherr, líder do MIS, o serviço de inteligência britânico, e o sérvio Dusan "Dusko" Popov). Fleming e Job fizeram parte do Comando 3D, grupo que coletava segredos da inteligência alemã. Nasceu em Londres em 1916. Aos 24 anos, alistou-se na Marinha inglesa e foi encarregado de organizar o desembarque aliado na Noruega, país onde morava até o

início da guerra. Além das múltiplas habilidades (era velejador. mergulhador e paraquedista). seu nome é associado a 007 também por esse feito. Em 1940, os alemães resolveram bombardear a cidade de Boden, no país nórdico. Sabendo desse plano, Job montou uma operação de salvamento por conta própria, à revelia do almirantado britânico. Levou os 2500 habitantes de Boden de barco para outra cidade. Salvou a população local, mas sua insubordinação o levou à corte marcial. O rei norueguês Haakon 7°, no exílio em Londres, intercedeu por ele e o condecorou por heroísmo.

HERÓIS (QUASE) ANONIMaS 019


GUERREIROS

A seu modo, milhares de pessoas, em seus países, travaram uma luta paralela à de seus Exércitos contra a dominação nazista

'~Wito§; pegaram em armas pela

PlilI!~!ij:'avez, outros combateram .!!!!fq\l~scomcoquetéismolotov .@!~e!,~s,imprimiram panfletos eIIJ"~im,eól~afos

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de porão e até ~~~~naI:am exércitos com algum conhecimento de táticas de combate. Eram os partisans - agentes não militares da resistência ao domínio nazista em seuspaises.Oiugoslavofoiomais forte desses movimentos, com quase 500 mil guerreiros em 1944. ReconquistaraIll o que se tomaria a Iugoslávia; seu líder, JosipTito, seria o presidente do país. Em 25 de novembro de 1942, partisans

gregos sabotaram suprimentos nazistas rumo ao norte da África, comprometendo a capacidade de luta dos Afrika Korps. Na Dinamarca, salvaram quase toda a população judia,levando-a para a neutra Suécia em outubro de 1943. A reação dos nazistas era brutal. Cidades como Lidice, na República Tcheca, ou a capital da Polônia, Varsóvia, foram arrasadas. Os partisans poloneses foram os que mais salvaram judeus (50 mil, metade dos que sobreviveram no país). Muitos desses soldados, porém acabaram nos gulags soviéticos.


Abrigada

do "Tio Misha" (esquadrões da morte Em 21 de maio de 1942, os Einsarzgr uppen

nazistas) mataram 2 mil judeus do gueto de Korets, na Ucrânia. Só pouparam alguns homens porque eles poderiam ser úteis em trabalhos forçados. Naquela noite os sobreviventes se reuniram na sinagoga para reza r o kadis lt (a oração dos mortos). Entre eles estava o engenheiro Misha Gildenman , que havia perdido a mulher e a filha de 13 anos. "Ao contrário dos demais, Misha não tinha o coração cheio de medo, mas de vingança", diz o historiador Allan Levine. Em 23 de setemb ro, quando os nazistas rodearam o gueto para liquidá-lo, Misha escapou com o filho e outros judeus para a floresta. Eram 16 no total, divididos em grupos de 3 ou 4. Seu arsenal se restringia a uma pistola, 5 balas e wna faca de açougueiro. Foi assim que O "TIo Misha " fundou uma brigada judaka 'lue ga nhou fama e respeito entre os fugitivos das fl orestas. Soldados soviéticos se aliaram ao grupo, mas Misha manteve a liderança dos ataques. Um deles foi em Rozvazhev, onde havia uma guarnição de 200 alemães . Divididos em 5 grupos, os partisans renderam os vigias, roubara m armas e ava nçaram sobre a casa do coman dante' onde 9 oficiais bebiam para espantar o frio. "Ent rei na casa pela janela. Os olhos dos oficiais bêbados miravam uma linda mulher cantando músicas em russo", relatou Misha. "Empurramosa porta e começamos a disparar. Foi tudo tão repentino que apenas um soldado sacou a pistola e atirou , ferindo um dos nossos. Mas logo caiu no chão com uma bala na testa."

HERÓiS (QUASE) ANONIMOS . Zl


"F:BR,I GA "É melhor salvar um judeu do que matar

20 alemães." Seguindo esse princípio após o massacre de seus familiares na cidade de Novogrudek (Polónia) , o campones Thvia Bielski montou a maior opera ção de resgate de judeus por judeus durante a guerra. Ao lado dos irmãos Zus e Asnel, salvou 1230 pessoas na Bielorrú sia. Apenas 50 membros desse grupo morreram. Em outras guerrilhas judaicas, nem a metade sobrevivia: a maioria

era gente da cidade escapando dos guetos. Ao chegarem à fl oresta, enfrentavam novos perigos. "Muitos eram ro ubados e assassinados , e as mulheres, estupra das", diza sobrevivente Nechama Tec no livro Um Ato de Liberdade, que inspirou o filme homónimo com Daniel Craig. Com a cabeça a prêmio (por alguns mi lhares de reichmarks, moeda corrente no regime nazista), Tuvia tinha dois trunfos: havia sido cabo do Exército polonês e conhecia cada palmo da fl oresta de Lipiczanska, onde montou os primeiros acampamentos em 1943, com apenas 13 pessoas . Divulgaram então a mensagem entre judeus escondidos e presos: "Salvem-se juntando-se a nós na floresta" . Pouco tem po depois a comunidade já tinha mais de 100 pessoas. Um ano depois passariam de mil . Ali a ordem era evitar confrontos com russos e alemães. "Quando atacados, os Bielski preferiam dispersar e se reagrupar depois" , dIZ Tec. A guerrilha queimava plantações, fazia emboscadas, explodia pontes e eliminava informantes. Para se mover com mais facilidade, usava unidades de 25 integrantes. Do total, 75% eram . velhos, mulheres e crianças. Os 20% armados faziam tarefas de proteção, inteligência, sabotagem , saque de comida e busca de fugitivos dos guetos. O grupo virou comunidade com sinagoga , escola, teatro, enfermaria, sapataria e fábrica de sabão - esforços para manter intacta sua identidade cultural e religiosa mesmo diante de massacres e con flitos sangrentos. Em 1944, após a contraofensiva soviética, 1230 pessoas formaram uma fila de quase I km caminhando de volta a Novogrudek, com os irmãos Bielski na frente. Depois da guerra, Tuvia se mudou para Israel e de lá para os EUA, onde trabalhou dirigin do ca minhão até morrer, em 1988.

ZZ. HEROIS (QUASE) ANONIMOS

SAPATEIROS TREINADOS Em agosto de 1942. os nazistas começaram a eliminar a população judaica de Lublin, no sudeste da Polónia. A m aioria acabou no campo de concentração de Belzek. Yehiel "Chi!" Grynszpan foi dos poucos que se salva ram. Aos 24 anos. organizou uma das guerrilhas mais eficientes da Europa Oriental. ':Além de contar com treinamento militar, ele se tornou um gra nde lider porque tinha bons julgamentos sobre pessoas e situações. Ele inspirava confiança sobre o melhor curso da ação", diz Harold Werner. que integrou a unidade. no livro Fighting Back (inédito no Brasil). Resultado: o que era um grupinho de sapateiros, comerciantes e lavradores se transformou em destacamento militar com 200 judeus na floresta de Parczew. O grupo se uniu à Gwardia Ludowa. a organização clandestina de comunistas poloneses. aliada dos soviéticos, e integrou a maior e mais bem treinada rede de partisans russo-polonesa. Após o conflito, ele emigrou para o Brasil.


Coragem e loucura Witold Pilecki era um veterano da l' Guerra que havia sido promovido a comandante de cavalaria. Quando os nazistas invadiram a Polônia, em l ' de setembro de 1939, a unidade de Pi lecki conseguiu destruir 7 tanques alemães e três aviões. Em 17 de setembro, a União Soviética também invadiu a Polônia, e a tropa nacional jogou a toa lha. Mas Pilecki não se deu por vencido e ajudou a fundar o Exército Secreto Polonês, que se destacava entre os partisans do país. Em 1940, ele apresentou a seus superiores um plano aparentemente suicida , entraria no campo de extermínio de Auschwitz para organizar a resistência interna e passar in -

formações sobre o que acontecia lá. Como? Pela porta da frente. Os alemães detinham civis a esmo para ser usados como escravos. Pilecki se misturou a um grupo que estava sendo preso e foi despachado para o campo de concentração. Conseguiu enviar a autoridades dos Aliados relatórios sobre as atrocidades cometidas ali , mas o testemunho fo i considerado exagerado. Em 20 de junho de 1942, um ucraniano e três poloneses se vestiram de soldados da SS, roubaram o carro do chefe do ca mpo, Rudolph

Hoss, e saíram ... novamente pela porta de frente . O próprio Pilecki só não fo i junto porque acreditava que os partisans fariam um ataque ao complexo e pretendia ajudá- los. Em 27 de abril de 1943, outro episódio bizarro, ao chegar à padaria onde seria obrigado a trabalhar , fora do campo de concentra ção' dominou os guardas e fugiu. Livre, Pilecki foi um dos organizadores da Insurreição de Varsóvia, em l ' de agosto de 1944. Encabeçou, mais tarde, um movimento antissoviético. Encerrada a guerra, foi preso, julgado sem direito a defesa real e executado por um pelotão de fuzila mento do governo comunista da Polónia em 25 de maio de 1948. Tinha acabado de completar 47 anos. O governo polonês se retratou por esse julgamento em 1990, e hoje ele é um grande herói nacional.

HERÓiS (QUASE) ANONIMOS. 23


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GUERREIROS

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o POETA E A GUEREIrlL:HA Os livros do poeta russo Abba Kovner relatam a dura realidade da ocupação alemã. Kovner tinha 23 anos ao fugir do gueto de Vilna, na Lituânia, para um convento. Mas não suportou a ideia de se salvar sozinho e voltou para organizar uma revolta MNão nos deixemos levar como ovelhas ao matadouro~, disse ele em uma reunião em 1941. Naquela altura. dois terços dos 60 mil judeus de Vilna estavam mortos. Kovner fundou a FPO (iniciais em ildiche de Organização Partisan Unida). Chefes judaicos convidaram o

grupo a se juntar a eles nas florestas. Kovner recusou. Achava que o combate tinha de ser feito dentro do gueto - até que. em 1943, os nazistas liquidaram o local. A FPO fugiu para a floresta. aliou-se aos partisans e lutou durante toda a guerra. Depois dela. Kovner e sua mulher, Vitka, caçaram nazistas no esquadrão Dam Yehudi Nakam CO Sangue Judeu Será Vingado·). Em sua ação mais radical. pincelaram arsênico no pão de prisioneiros alemães.

Z4. HERÓIS (QUASE) ANÓNIMOS

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VlV.EI.A RESISTANCEl Em 18 de junho de 1940, os franceses receberam uma transmissão insólita pelo rádio. Quatro dias

antes, os nazistas haviam marchado sobre Paris, e, na véspera, o chefe do Exército, o marechal Philippe Pétain , anunciara sua intenção de se render. Naquela quarta- feira, porém, os poucos que sintonizaram

seus rádios na BBC britânica notaram uma mensagem em sua língua: "A última palavra foi dita? Deve a esperança desaparecer? A derrota é fina l? Não!" Era o general Charles de Gaulle, até então pouco conhecido dos franceses, que havia liderado uma das raras contraofensivas bem -sucedidas da malfadada Batalha da Fra nça. Exilado na Inglaterra, ele organiza ria as forças da resistência nacional. Até o fim da guerra, mu itos franceses fizeram de tudo para sabotar os nazistas e o governo marionete do marechal Pétain. Foram atos de espionagem, assassinatos, destruição de fábricas, sabotagem de linhas férreas, envenenamento de suprimentos e emboscadas em que os membros da Resistance seguiam sempre uma instrução: não fazer prisioneiros.

A Resistência Francesa reuniu muitos intelectuais, artistas, gente que já era ou seria conhecida no pósguerra: o pintor Pablo Picasso, o filósofo Jean-Paul Sartre, O escritor Albert Ca mus e o piloto americano

Chuck Yeager, o primeiro ser humano a quebrar a barreira do som (e sobreviver), em 1946. Incluiu ainda o brasileiro Apolónio de Carvalho. E deixou alguns heróis famosos - como Jean Moulin, que unificou as forças do movimento, foi traído e morreu sob tortura em junho de 1943. O movimento teve também uma líder, Marie-Madeleine Fourcade (leia sobre as heroínas na pág. 38), entre seus estimados 220 mil membros.

UIR príncipe selR ceriDl6Dia o nome não deixava dúvida: Louis Napoleón Bonaparte era o prlncipe herdeiro da coroa francesa. que havia sido dissolvida com Napoleão 3° em 1870. Ninguém esperava que ele fosse se tomar imperador, menos ainda que fosse se tomar herói da Resistência Quando a guerra fui declarada, mandou uma carta ao prirneiro-ministro Édouard Daladier dizendo que queria se alistar. Como a República, evidentemente, não simpatizava com ele, foi recusado. Louis assumiu um nome falso e se alistou assim mesmo, como um soldado qualquer, na Legião Estrangeira Napoleão 4° (seu titulo oficial) lutou

no norte da Africa até o armisticlo. Ao ser dispensado, imediatamente uniu-se à Resistência Francesa Em 1942. acabou preso enquanto tentava cruzar a fronteira rumo à Espanha Recusou tratamento especial dos alemães. Foi para a prisão domiciliar, fugiu e voltou à guerrilha. A patrulha em que atuava foi dizimada no dia 28 de agosto de 1944. Só ele sobreviveu. Ganhou várias condecorações e só então passou a se concentrar em postular o (inexistente) trono francês.

HERÓIS (OUASE) ANÓNIMOS .

25


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~u"-l"célebre

herói humanitário da 2a Guerra foi Oskar Schindler. que ins,",uv",um premiado filme de Steven Spielberg. O empresário usou suas fábrina Polônia como pretexto para empregar o maior número possível de íuc1eLlS considerados cruciais para o esforço de guerra alemão - mesmo que velhos. crianças e doentes. Na iminência da "solução final". preparou uma lista com mil pessoas. poupadas das câmaras de gás. Outros civis pouco conhecidos. porém. foram tão ou mais importantes. Entre eles se destacam. até pela natureza de sua profissão. os diplomatas.

o SchindlerRortuguês salvou 30 md pessoas o feito de Aristides de Sousa Mendes supera e muito o daquele com o qual costuma ser comparado - o austrohúngaro Oskar Schindler. Nada menos que 30 mil pessoas, entre elas cerca de 10 mil judeus, não foram enviadas aos campos de concentração graças a seus salvo-condutos. Vindo de uma família aristocrática portuguesa, Aristides era funcionário do governo de Antonio Salazar, ditador alinhado com Adolf Hitler.Como cônsul em Bordeaux, na França ocupada, ele desobedeceu à ordem de não conceder vistos de entrada em Portugal a "estrangeiros de nacionalidade indefinida, contestada ou em litígio, aos apátridas, aos judeus expulsos dos países de sua nacionalidade ou daqueles de onde provêm". Em 1940, declarou que assinaria vistos e passaportes de todos os que os

30. HERÓIS (QUASE) ANON IMOS

pedissem: "Já não há nacionalidade, raça ou religião. Se há que desobedecer. prefiro que seja a uma ordem dos homens do que a uma ordem de Deus". E assim o fez, aos milhares, entre os dias 17 e 20 de junho. Salazar ordenou que outros funcionários o expulsassem da chancelaria. Aristides então liderou uma coluna de refugiados em direção à Espanha. Apesar do fechamento da fronteira, conseguiu fazer o grupo chegar a Portugal ao enganar os guardas. Foi punido com a perda das funçôe s e dos rendimentos, teve cassado o direito de exercer sua profissão de advogado e até de dirigir. Ele e seus filho s (teve 14) passaram a viver com a ajuda da comunidade judaica de Lisboa. Recebeu o título de Justo entre as Naçôes em 1966, e 20 árvores foram plantadas em sua homenagem no Museu do Holocausto em Jerusalém. Dois de seus filhos participaram do Dia D. Morreu pobre, em 1954.


ABRIGOU 15 MIL E DESAPARECEU o diplomata sueco Raoul Wallenberg estava na Hungria em 1944, quando os nazistas, em fuga por causa da invasão soviética, se preparavam para levar aos campos de concentração milhares de judeus húngaros do gueto de Budapeste. Na luta para libertar prisioneiros dos alemães, Wallenberg chegou a seguir, de automóvel. comboios de refugiados alegando que eles estavam sob a proteção da embaixada de seu pais. Emitiu milhares de passaportes suecos falsos idênticos aos originais e passes protetores. Também conseguiu manter 15 mil judeus em 31 casas de proteção sob guarda da embaixada sueca - o país era neutro na guerra. Frustrou conspirações para explodir o gueto de Budapeste às vésperas de sua libertação pelos Aliados. Já perto do fim do conflito, entretanto, o benfeitor sueco foi capturado pelos russos e acusado de ser um espião americano. Jamais foi visto novamente. O título de Justo entre as Nações lhe foi outorgado em 1946.

HERÓIS (QUASE) ANÓN IMOS. 31


o governo nazista pediu a mudança da embaixada para

erciante de carnes italiano Giorgio Perlasca trabalhaa ern'uma importadora de Budapeste quando tomou uma at,itude ousada: criou uma falsa identidade, assumiu o cargo d!il' eD~blliXJad(lr espanhol e passou a emitir passaportes para il::;-í~;;~; húngaros. Admirador do ditador espanhol Francisco li ,nêl)~(:Ollra'Q(ljem lutou como voluntário na Guerra Civil lEiipa!nh(lla) e entusiasta do fascismo, Perlasca perdeu a crenregime depois de 1938, quando a Itália apoiou a persel=:.~~~~~!~~ judeus. Em 1943, seu paCs assinou o armistício i\JIaruJS e ele foi preso pela policia nazista húngara. FQj socorrido pele embaixador espanhol Ángel Sanz-Briz. ~ (gio faIsificll us docwnentos e se tQrnou Jorge Pedas'G1l'!'Imn "legitimo" cidadão espanhol. Com a aproximação ' lWI~',éticos, foi a vez de Sanz -Briz salvar a própria pele e a cidade. Não indicou substituto ao cargo.

Representante da neutra Suíça em Budapeste. Charles Lutz atuava em nome dos interesses dos EUA. da Grã-Bretanha, de El Salvador e de outros 13 países. Em maio de 1944, quando soube de iminente deportação de judeus húngaros para campos de concentração, passou a recolher judeus em casas de proteção e distribuiu documentos de cidadania salvadorenha emitidos em Genebra. Ao lado de Raoul Wallenberg, de quem era próximo, criou os ch amados passaportes coletivos, que agrupavam os nomes de até mil judeus sob o mesmo número de inscrição. A manobra dificultava a verificação da validade de cada documento pelas auto ridades húngaras e alemãs. Lutz salvou das garras nazistas 62 mil judeus na Hungria.

32. HEROIS (QUASE) ANONIMOS

pron. perto da fronteira com a Áustria. Perlasca convenGeu nazistas de que Sanz -Briz estava em missão oficial e que o via nomeado como substituto. Eles acreditaram. Usando os papéis e carimbos do embaixador fugitivo, ele emitiu milhares de documentos em favor dos judeus húngaros. Por garantia, registrava-os com data anterior à saída do embaixador. Depois de salvar 5218 pessoas, Perlasca queimou seus falsos documentos espanhóis e retomou à Itália, onde viveu modestamente - e sem revelar suas ações humanitárias a ninguem durante décadas. Encontrado pela comunidade judaica no fim dos anos 80, declarou: "Não pude resistir à visão de um povo que era marcado como anj .. mal, a ver crianças assassinadas. Não creio que eu tenha sido um herói" . Recebeu o título de Justo entre as Nações em 1989, três anos antes de morrer.


Roupa de mulher Vice-cônsul americano em Marselha, na França, Hiram "Harry" Bingham 4°, vindo de uma aristocrática família de Connecticut (seu pai descobriu as ruínas de Machu Picchu, no Peru), era o encarregado dos vistos quando o cerco nazista se fechou sobre o país. Dedicou-se a fornecer vistos • para refugiados no sul da França - artistas, cientistas e políticos antinazistas. Foi repreendido - o governo dos EUA queria manter boas relações com a República de Vichy (a França ocupada) - e obrigado a deixar o posto em Marselha, em 1941, depois de ajudar 2 500 pessoas. Uma delas foi o escritor Lion Feuchtwanger, enviado a um campo de concentração pelo governo colaboracionista Bingham o teria sacado da cela disfarçado de mulher. Foi enviado a Portugal e depois à Argentina como castigo por sua insubordinação. Lá ajudou a caçar nazistas, mas logo renunciou ao serviço diplomático. Passou o resto da vida como agricultor, artista e inventor. - --,.

SOBAPROT~O DA CRUZ VE LHA o negociante judeu George Mandei (que mudaria o sobrenome para Montello para soar mais lati no), nascido na Transilvânia, sugeriu ao amigo José Arturo Castellanos,

cônsul-geral de El Salvador em Genebra (Suíça) entre 1942 e 1945, que emitisse certificados de cidadania salvadorenha a judeus de dive rsas partes da Europa. Castellanos já havia livrado o próprio Mandei e sua fa mília dos campos de concentração. E abraçou a ideia. Com a ajuda de Mandei, iniciou a produção em massa de certificados (gratuitos ou a preços simbólicos) que garantiam a seus portadores o direito de per-

manecer sob a proteção da Cruz Vermelha Internacional. Estima-se que entre 25 mil e 40 mil judeus (especialmente búlgaros, tchecos, húngaros, poloneses e romenos) tenham escapado das garras da Gestapo e da SS na operação, posteriormente conhecida como Ação de EI Salvador. Mandei foi novamente perseguido e preso pela Gestapo, na Iugoslávia, acusado de fornecer documentos falsos. Conseguiu escapar. Castellanos foi transferido para Londres. Aposentado, retornou a EI Salvador e viveu de forma discreta até morrer pobre na capital, San Salvador, em 1977.

HERÓIS (QU'SE) ANONIMas · 33


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HUMANITÁRIOS

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o EXTERMINIO

DOS DIPERENTES Pessoas com deficiência e doentes terminais eram alvo do 30 Reich TEXTO FÁBIO MARTON

nazistas queriam " purificar" a raça ariana de genes ruins. Esses genes estariam nos ju deus, ciganos, homossexuais - e nas pessoas com deficiências de qualquer origem. Os ofi ciais nazistas plane)avam esvaziar os asilos de doentes mentais e pacientes' incuráveis", mas sabiam que isso pegaria mal com a opinião pública. A partir de I ' de setembro de 1939, a guerra deu a eles a desculpa para oficializar o programa - precisavam desses hospitais para os soldados feridos. O chamado Aktion T4 - Tiergartenstrasse, nO4, era o endereço da sede - esterilizou e assassinou milhares de pessoas. Foi um dos raros casos em que os alemães, liderados pelas fanu1ias de vítimas, se opuseranl publicamente a uma diretriz nazista. O clamor se estendeu até a Igreja (que se omitia sobre os judeus). Conheça alguns dos opositores ao T4.

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36. HERÓiS (QUASE) ANÔNIMOS

JUlZ DENlJl!fOIA. EUTANÁSIA Nenhum outro juiz alemão se manifestou contra a eutanásia em massa. Lothar Kreyssigjá não era, sabidamente, um fã do Partido Nazista. Ao iniciar a carreira, em 1928, ele se recusou a entrar para a legenda. Por essa e outras manifestações de insubordinação, em 1937 foi punido com um cargo menor, o de juiz de casos de guarda de pacientes mentais em Brandenburgo. Em 1940, ao notar um número extraordinário de certidões de óbito desses pacientes, mandou uma carta de protesto ao ministro da Justiça, Franz GÜrtner. Foi chamado à Suprema Corte, onde explicaram a ele que a sentença de morte para certas vítimas era a vontade de Hitler - e sua vontade era a 'fonte da lei". Kreyssig deu de ombros. Proibiu qualquer transferência de pacientes sem sua autorização. Em 1942, iniciou um processo público acusando de assassinato o chefe do programa, Philipp Bouhler. Foi afastado do cargo no mesmo ano. Após a guerra, ajudou a fundar uma espécie de ONG:Aktion Sühnezeichen Friedensdienste (Ação de Reconciliação para a Paz).


Arcebisbo Udera movimento anti-T4 Clemens von Galen tornou-se arcebispo de Münster em 1933. No mesmo ano Hitler tomava definitivamente o poder na Alemanha e fechava um acordo com a Igreja Católica - o acordo, assinado pelo cardeal Eugenio Pacelli (que se tornaria o papa Pio 12 em 1939), restringiu os poderes do clero, mas garantiu sua sobrevivência no país. Hitler tinha medo da influência da Igreja e se anunciava como católico. Aproveitando sua liberdade, nos sermões o arcebispo ridicularizava a doutrina nazista (como a ordem, revogada depois de muitas críticas, para remover os crucifixos das escolas). Mas o T4 o fez ficar sério. Em 1941, ele começou a pregar abertamente contra o programa e, logo, contra tudo o que o nazismo representava. Esses discursos inflamados passaram

a ser reimpressos clandestinamente na Alemanha e repassados entre famílias católicas e até mesmo aos soldados no front - a Inglaterra chegou a "bombardear"soldados alemães com as transcrições em folhetos. Os sermões geraram protestos públicos contra o programa. O líder da SS em Münster solicitou a execução de Von Galen, mas, temendo a revolta popular, a cú pula do 3° Reich teve de engolir a resistência do religioso até o fim da guerra. Clemens von Galen foi eleito cardeal no Natal de 1945 e beatificado por João Paulo 2° em 2004.

HERÓiS (QUASE) ANÓNIMOS . ~


Longe do front ou empunhando armas, mulheres assumiram posições de risco contra o regime nazista empenhadas em salvar vidas, forjar documentos e denunciar as atrocidades dos alemães TEXTO EDUA RDOSZKlA RZ 38. HERÓIS (QUASE) ANÓNIMOS


~-i;';';";= ep:isódio que ficou célebre, no inverno de 1943, em Berlim, um l1 ~dl'"

de 6 mil mulheres fez o governo nazista recuar e \s~!m-:.rl9Qjl1l9E~US casados com alemãs. O ato ficou conhecido como ----pr;Dt€!stl:rdle~l~h>erlstra~;se Houve apenas um Rosenstrasse, mas outras grandes figuras femininas conseguiram feitos notáveis na luta contra o horror. Usando da influência dentro do Partido Nazista, confeccionando passaportes falsos, escondendo pessoas dentro de casas de oficiais alemães ou resgatando crianças em campos de concentração, algumas pagaram com a própria vida. Saiba quem foram elas.

Um. grito na guilhotina

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Dia 22 de fevereiro de 1943. Silêncio na Corte Popular do Palácio de Justiça de Munique. No banco dos réus, a alemã Sophie Scholl, 21 anos, aguardava a sentença. O juiz Roland Freisler selou seu destino, pena de morte por alta traição ao 3" Reich. Seu irmão, Bans Scholl , e o amigo Christoph Probst receberam pem idênti ca. Naquele mesmo dia, às 17 horas, os três estudantes perderam a vida na guilhotina. Sophie integrava a Rosa Bmnca, uma organ ização de resistência não violenta contra o nazismo. Em vez de empunhar ar mas, o grupo usava um mimcógrafo e uma máquina de escrever. Imprimia folhetos que denunciava m as atrocidades do regime. " Por que o povo alemão está tão ap,í tico em face desses criInes abom i l1áveis?" , dizia um dos papéis. Outro anunciava, "Nosso povo está pronto para se rebelar contra a escravização nacional-socialista da Europa". Os pannetos eram enviados por correio a alunos e professo-

res de facu ldades da Alemanha. Sophie e seus colegas mandavam as cartas de vários pontos do país. Tanto fizeram que atraíram a atenção da Gestapo. "A Gestapo pensava que a Rosa Branca era uma organização enorme. Não sabia que tinha apcn,ls 6 membros no núcleo principal" , diz a pesquisadora americana Kathryn J. Atwood no livro Women Heroes ofWorld War II (inédito no Brasil). Além de Sophie, Ilans c Christoph , O gru po central era for mado por out ros dois alunos da Universidade de Mu nique e um professor, Kurt Huber. Foi Hubcr que escreveu o sexto e último pantleto, no inicio de 1943. Foi quando os estudantes cometeram um erro fatal : distribuíram o pan -

neto pelos corredores da universidade e foram vistos pelo fu ncionário Jakob Schmidt, nazista de cafteirinha que os dedurou à Gestapo. Os outros integrantes se salvaram por falta de provas. Durante o julgamento , sem autorização para falar, Soph ie gri tou: "Alguém tinha de começar! O que escrevemos e falamos é o que mui tas pessoas pensam , mas não têm cora geJTI de dizer em voz alta! n .

HERÓIS (QUASE) ANONIMaS . 39


Virou amante do major e salvou 12 A enfenneira polonesa Irene Gut tinha 17 anos quando fugiu para a fronteira com a União Soviética. Voltou à cidade onde morava (Radom) em 1942, aos 20 anos,

quando o major nazista Eduard Rugemer lhe ofereceu emprego de garçonete. Servia as oficiais e, nas horas vagas, contrabandeava comida para o gueto. Rugemer foi para a Ucrânia. Irene também foi enviada para lá. onde seria governanta de sua mansão. Ela escondeu 12 judeus na casa O major

sempre voltava do trabalho na mesma hora

Um dia, porém, chegou mais cedo e flagrou três judias na cozinha. Topou guardar

A CONDESSA GENEROSA Em 1943, o governo declarou que Berlim estava judellfrei ("livre de judells"). No entanto, vários deles viviam escondidos pela cidade. Um dos refúgios era o apartamento da Maria von Maltzan, filha de um conde alemão. Ela havia se doutorado em ciências naturais em 1933, ano em que Hitler chegou ao poder. Desde en tão arriscava a própria pele para proteger judeus em fuga. Os refugiados ficavam em seu apartamento por alguns dias até conseguirem um jeito de sair do país. Mas o namorado de Maria, o

escritor judeu Hans Hirschel, mudou-se de mala e cuia para lá. Quando alguém chegava, Hans se ocultava no fundo falso de um sofá na sala. Maria não levantava muitas suspeitas porque era da fina-flor de Berlim, tinha acesso a informações da elite do Partido Nazista e sua posição privilegiada na sociedade a livrava de maiores problemas. Até o que dia em que um oficial bateu à sua porta. Ao e ntrar no apartamento, ele olhou para o sofá e perguntou: "COlTlO posso saber se alguém não está escondido aqu i?" Maria decidiu correr o risco, "Se você está seguro de que tem alguém ai, vá em frente e atire. Mas, antes de faze r isso, deixe uma declaração po r escrito garantindo que vai paga r pela restallração do sofá " . Deu certo. O o ficial não disparou e saiu do apartamento. Até a rendição alemã, em maio de 1945, ela continuou ajudando vítimas do n aZiS1110 . Fez documentos falsos e contrabandeou pessoas dentro de móveis para a Suécia. "Maria sozinha salvou mais de 60 judeus e inimigos políticos dos nazistas, além de ajudar no resgate de mui tos outros", di z a pesquisadora americana Kathry n J. Atwood. Depois da guerra a condessa se casou Cam Hans e tra balhou como veterinária em Berlim até morrer, en11997.

40. HER6lS (QUASE) ANÓNlMOS

segredo desde que ela virasse sua amante. Ajovem cedeu. No flm da guerra Irene se uniu à resistência polonesa. Por sua valentia. recebeu homenagens do papa João Paulo 2° e do Museu do

Holocausto de Jerusalém.


"Você IDe tirou do gueto" Conhecida como "O Anjo de Varsóvia". a enfermeira salvou mais de 2 500 crianças da morte. Irena era administradora do Serviço Social de Varsóvia. Quando a guerra estourou. em 1939. começou a fazer documentos falsos. fornecer remédios. roupas e dinheiro para os judeus. Sua atuação passou a ser mais incisiva a partir de 1942. quando os nazistas enclausuraram centenas de milhares de judeus em uma área de 16 quadras. Horrorizada com o Gueto de Varsóvia. a enfermeira se tornou recruta da Zegota. movimento de resistência polonês. Com livre trânsito nos campos de concentração. que visitava sempre com uma estrela de Davi no braço em solidariedade aos prisioneiros. Irena distribuía comida e medicamentos aos confinados. Usando como pretexto um surto de febre tifoide. que os alemães temiam que se expandisse além das fronteiras do gueto. conseguiu retirar as 2500 crianças "doentes" em ambulâncias da Zegota. Uma vez fora do gueto. as crianças eram escondidas como dava: em sacolas. maletas de ferramentas. baldes e cestos de lixo. Irena anotava o nome de suas famílias e enterrava em local seguro para que depois da guerra pudessem retornar a suas casas. E encontrava famílias não judaicas para cuidar delas. Usava

o antigo tribunal à beira do Gueto de Varsóvia. conventos católicos e orfanatos como rotas de "contrabando" de crianças. Em 1943 Irena foi presa pela Gestapo e torturada na prisão de Pawiak. Foi condenada à morte. mas escapou graças a um gordo suborno da Zegota. No pós-guerra. renegava o título de heroína: "Cada criança salva com a minha ajuda é a justificação da minha existência na Terra. e não um título de glória. Eu poderia ter feito mais. Esse lamento vai me seguir até a minha morte". Foi premiada com a honraria máxima da Polônia. a Ordem de Águia Branca. com o título de Justo entre as Nações e indicada ao Prêmio Nobel da Paz. Depois que sua foto apareceu nos jornais. passou a receber várias ligações. "Um homem. um pintor. me telefonou e disse: 'Eu lembro do seu rosto'. disse ele. 'Foi você quem me tirou do gueto. Obrigado·... O 'i\njo de Varsóvia" morreu em 2008.

HERÓiS (QUASE) ANON IMOS. 41


MULHERES

A LÍDER SEM ROUPA Em tempos de guerra, o pudor não era prioridade. Marie- Madeleine Fourcade conseguiu escapar duas vezes de prisões nazistas na última, já com batente veterana, saiu sem roupas.

Sua história de luta começou em junho de 1940. A francesa, divorciada e mãe de dois filhos, não engoliu a rendição de seu país e aba ndonou o emprego em uma editora para ingressar na Resistência Fran-

cesa, na rede chamada AU iance. Quando o chefe da rede foi preso, em maio de 1941 , assumiu o posto - fo i a únka lider mulher da Resistência.. Sua unida de trabalhava com informação , observando e trans mitindo para os ingleses movimentos e posições dos

nazistas e colaboracionistas. Em agosto de 1941., im pressionados com seus serviços, os ingleses supostamente enviaram um operador de rádio para auxi-

42.. HERÓiS (QUASE) ANÓNIMOS

liá- Ia. Era uma armadillia, o operador era um agente nazista. Marie- Madeleine e vários membros de sua rede foram presos, mas ela conseguiu fugir em 10 de novembro de 1942 aproveitando uma d istração dos nazistas. Depois disso, mandou os filhos para a Suíça e passou a viver na

clandestinidade. Em 1943, os ingleses decidiram tirá- Ia da França em uma opera ção secreta, e ela passou a operar em solo britânico até pouco depois do Dia D, quando desembarcou de novo na França e voltou a espionar os nazistas. Foi presa

novame nte pela Gesta po, mas não se fez de rogada, tirou as roupas e, magra, conseguiu atravessar por entre as grades. Após a guerra, fundou associações de veteranos da res istência e participou dos julgamentos do colabo racionista Ma urice

Papon e do nazista Klaus Barbie.


BAI,A

A predadora dos ares

NAPACA

Em 22 de junho de 1941. Hitler rompeu o pacto de não agressão com Josef Stâlin e invadiu a União Soviética. Tinha início a Operação Barbarossa, que contava com 3 milhões de soldados alemães. Em agosto. as forças do führer haviam capturado 3800 tanques e feito prisioneiros mais de 870 mil soldados soviéticos. Mas a URSS virou a mesa, e não só graças aos homens de suas tropas. Muitas mulheres tiveram sinal verde para combater inspiradas no exemplo da piloto Marina Raskova. Nos anos 30, ela havia se tornado a primeira navegadora da Força Aérea Soviética. E colecionava aventuras. como um voo ininterru pto de mais de 26 horas que quase acabou em tragédia - o mau

Eta Wrobel atuou na resistência desde o início da invasão da Polónia. Começou criando passaportes falsos para judeus. Em 1942. quando o gueto de Lokov foi liquidado. conseguiu fugir com o pai para a floresta e ajudou a fundar uma brigada judaica. Dos 80 integrantes iniciais. só 7 eram mulheres. Eta se recusava a lavar e a cozinhar. Seu negócio era o combate. "Para nós. era difícil conseguir armas. Os russos tinham muitas. mas não queriam nos dar. Então nós roubávamos deles". contou. Um dia. recebeu um tiro na perna e arrancou a bala com uma faca. Viveu no fogo cruzado até 1944. No mesmo ano. casou-se e mudou para os EUA, onde morreu em 2008.

em missões notumas e gerava enormes danos às divisões alemãs. Sua máquina de guerra era o caça Yakovlev Yak-1, que levava 3 metralhadoras e tinha um raio de ação de 600 quilômetros.

Raskova também comandou o Regimento de Aviação 125. Vários países tinham mulheres pilotos, mas. segundo Robert Jackson. autor de Air Aces of WWII. a URSS foi a única a usá-las em combate. Marina morreu em 1943, em um pouso forçado provocado por uma falha mecânica Tinha 30 anos. Recebeu uma medalha póstuma por sua bravura, caso raro entre as soviéticas.

tempo obrigou a

tripulação a fazer um

pouso forçado. Ela e duas colegas ficaram dias à espera de resgate. Em fins de 1941, organizou três esquadrões formados inteiramente por mulheres - das mecânicas às oficiais. O de número 588 voava

HERÓIS (QUASE) ANÓNIMOS . 43


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Passado o momento de estupefação, ele decidiu agir. Apenas um de seus colegas sobreviveu. Levantaram -se com d ificuldade e se dirigiram ao centro da cidade. Encontraram cr ianças em duas casas próxi -

mas; uma delas, um bebê. Morita e o companheiro ajudaram a resgatar as crianças e suas mães, que foram recolhidas por jipes militares e levadas a hospitais. Mas

O DIA vmou NOl'I'E Na hora da explosão, em Hiroshima, Morita não ouviu nada. Percebeu apenas wna luz,

como o flash de uma câmera. Foi arremessado a 10 metros de distância, desmaiou e, quando voltou a si, o dia tinha vi rado noite,

embora fossem 8h15 da manhã. Era 6 de agosto de 1945. Morita liderava um grupo de 15 soldados da Polícia Militar que se preparava para construir um abrigo de armamentos. Estava a 1,3 km do epicentro da explosão (no coração da cidade) e de costas para o locaL Descobriu que as costas e a nuca estavam

queimadas, sem imaginar que eram resultado de uma bomba atómica. Depois do estouro, caiu uma chuva negra, que a população pensava ser óleo jogado pelos americanos para provocar incêndios, como acontecera em Tóquio. Tratava-se na realidade de chuva ácida, fr uto da radiação em cantata com a atmosfera. "Nunca esquecerei o que vi. Milhares de corpos queimados, o fogo avançando sobre pessoas que imploravam por ajuda". Parecia o fim do mundo", diz o japonês, de 86 anos, que vive no Brasil desde 1956.

106. HERÓIS (QUASE) ANÓNIMOS

não havia médicos suficientes para todos . "As pessoas andavam como zumbis, sem rumo, os braços para a

frente, com a pele do corpo e as unhas caindo." Das áreas montanhosas mais afastadas do centro, onde foram montados postos de atendimento às vitimas, ele viu a cidade arder. Quase nada restou. Morita não tem ideia de quantas pessoas socorreu naquele dia ao lado dos poucos soldados que conseguiram se manter de pé após o impacto da bomba. "As vitimas praticamente derreteram. Teve gente que tentamos puxar dos es -

combros e se desfez em nossas mãos." Ele ficou dois dias sem comer nem beber nada. Temia que tudo estivesse contaminado. Estava certo. Ele atribui sua sobrevivência ao fato de ser jovem e fo rte, estar bem alimentado, protegido com um capacete de ferro e de costas para o centro da explosão. "Era um negócio horroroso, como jama is tínhamos visto igual", afirma Morita, hoje dono

de uma loja no bairro do Jabaquara , na Zona Sul de São Paulo.

ID.B.AXUSHAS Médicos e técnicos americanos que ocuparam Hiroshima após a destruição examinaram os sobreviventes - 100 mil pessoas de uma população de 250 mil morreram de imediato - , mas os laudos jamais foram entregues aos sobreviventes, conhecidos como

hibakushas ("sobreviventes da bomba " , em japonês). Três dias depois foi a vez de Nagasaki. A bomba, apelidada de Pat Man, atingiu a cidade portuária. Mais de 80 mil pessoas de uma população de 240 mil morreram no mesmo instante. Yoshi taka Samedima - um brasileiro filho de japoneses que havia retornado ao país - estava dentro de um navio do Exército nipóni -


co quando o artefato nuclear foi lançado. "O navio balançou de um lado para outro como se fosse um brinquedo nas mãos de um gigante. Saímos, e estava tudo escuro. A cidade estava arrasada." Ele tinha 16 anos. Samedima engoliu o medo e saiu com alguns companheiros para tentar ajudar as vítimas. "Demoramos muito para entrar em Nagasaki por causa do entulho e ferro retorcido nas ruas. O cheiro de morte era difícil de aguentar"! afirma, hoje, aos 83 anos. "Àrvores, prédios, casas, escolas e hospitais estavam dest ruídos." O incidente dei xou Samedima, que vive em Suzano, na Grande São Paulo , com manchas brancas na pele. Por causa das marcas, foi reconhecido como hibakusha por Morit., que O convidou a integrar a Associação das Vítimas da Bomba Atõmica no Brasil. Samedima acredita que ajudou a socorrer, junto com seus companheiros, entre 800 e mil pessoas. "Tirávamos as vítimas dos escOlnbros e mandáValTIOS para os poucos hospitais que estavam de pé", relembra. "Cada viagem de caminhão levava 20 pessoas, e fizemos umas 20 em dois dias para dar conta dos feridos." Apenas os militares tinham provisões, que dividiam com as vítimas. "Todos choravam, gritavam e pediam água , mas tínhamos instruções de dar O minimo possível de água porque sabíamos que estava contaminada", disse o aposentado. Os veteranos do Exército e da Marinha japonesa, segundo ele, se recusaram a entrar em Nagasaki por medo de contaminação. "A gente não sabia direito o que era radiação, mas eu tinha de ajudar as pessoas e não me preocupei

com isso." Samedirna voltou ao Brasil apenas nos anos 1970 para cuidar do pai, que teve cã.n.cer de garganta. Desde então esteve quatro vezes em Nagasaki para fazer tratamento contra os efeitos da radiação. A partir de 1984, quando fundou a associção, Takashi Morita teve de entrar, sem querer, em outra batalha. O governo japonês só oferecia ajuda aos hibakushas que viviam no Japão. Na rígida cultura nipónica, os que saíram do pa ís eram vistos como ingratos. Acabou entrando na Justiça contra o governo para garantir seus direitos e os dos cerca de 130 sobreviventes que vivem no Brasil. "Ele sofreu um infarto porque jamais pensou que teria de acionar o governo japonês. Meu pai ainda é muito ligado à pátria natal" , afirma a filha, Yasuko Saito. Morita venceu. Hoje o Japão oferece uma pensão de um salário mínimo mensal e atendimento médico às vítimas da bomba no Brasil. Uma vez por ano, médicos especializados aten dem os hibakushas brasileiros. O

HERÓIS (QUASE) ANÓNIMOS. 41


...... Entre esses heróis do património artístico da humanidade, segundo o h istoriador Robert M. Edsel, coautor de Caçadores de Obras - Primas, estava Rose Valland , uma estagiária do museu parisiense leu de Paume. Nascida e criada na zona rural de Saint- Ét ienne-de- Saint-Geoirs, estudou belas- artes em Lyo n e seguiu para Paris, onde se sustentava dando aulas particulares enquan to tirava diplomas na École des Beaux -Arts, na École du Louvre e na Sorbonne. Pouco antes do início da 2' Guerra, ela aceito u tra balhar no museu Jeu de Paume de graça. "Em 1939, Rose aj udou Jacques Jaujard , o diretor dos Museus Nacionais, na retirada dos objetos de arte que perte nciam ao Estado francês. Ela fugiu de Paris quando os a lemães ava nçaram , em 1940. Mas logo retornou à cidade, de volta a seu posto sem vencimentos" I diz Edsel. Meses depois, Jaujard pediu que ela continuasse no Jeu de Pau me para "observar as atividades nazistas e relata r tudo o que fosse importante" . De sua parte, ele esforçava-se na ami zade com o conde alemão Wolff- Mettern ich para tentar ga ran t ir que os objetos pilhados pudessem ficar em solo francês. Mas três salas do Louvre já estavam cheias deles, e as obras de arte confiscadas dos judeus foram encam inhadas para o museu onde Rose trabalhava. Em l Ode novembro, os nazistas se apossaram do leu de Paume. "Caminhões e mais caminhões carregados de objetos de arte chegavam, descarregavam , e tudo era levado por soldados" ,descreveu Rose em Le Front de L'Art (O Front da Arte, inédito no Brasil). Por quase quatro anos, os milita res aceitaram a presença dela no museu apenas po rque a funcioná ria era uma g rande conhecedora de arte. Todas as noites ela anotava as peças que os nazistas estavam retirando da França com destino à Alemanha e à Áustria. Ro ubava documentos, fotografava em casa e devolvia no dia seguinte. As info rmações eram repassadas a Jaujard, que mantinha contato com os membros da Resistência Francesa.

BATENDO EM

R.ETIJtADA Com O tempo, passou a desperta r suspeitas. Já havia flagrado oficiais roubando obras para si mesmos. O risco era cada vez maior. Em fevereiro de 1944, o oficial alemão Bru no Lohse a surpree ndeu tentando decifrar o endereço do docu mento de desembarque de um lote de peças. "Você poderia ser execu tada por ind iscrição", disse ele. "Ninguém aqui é idiota o bastante para igno rar O risco" . ela respondeu. Sabia que Lo hse escondera quatro quadros no porta- malas de seu carro dois anos antes. Em I" de agos to de 1944, com a guerra já virando a favor dos Aliados, o corone l alemão Kurt von Behr ordenou a evacuação dos soldados do museu, assim

52' HERÓIS (QUASE) ANONIMaS

como de todas as peças de arte que ainda estivessem em Paris. O plano em levá las de trem. Os soldados jogavam os quadros dentro de caixotes sem embalage m. " Hav ia pânico em seus olhos, o desejo deles de fugir" , relatou Rose. O coronel Behr estava escoltado por homens com metralhado ras quando a viu dentro do museu. A funcionária, teste munha do saque, achou que seria liquidada naquele instan te. Mas um soldado desv iou a atenção de Von Behr' "Os ca minhões estão quase cheios, senhor" . "Arrume mais, idiota", res pondeu ele. Quando procurou Rose de novo, ela já tinha escapulido. Passou as infor mações para Jaujard, que as remeteu à Resistência. A partir daí seguiu - se uma persistente operação para bloquear a saida do trem das artes de Pa ris. Edsel conta que, no dia seguinte, cinco vagões com 148 caixas cheias de quadros fora m seladas na estação de Aubervilliers, nos arredores da capital francesa. Rose dissera que O trem 40044 tinha como

"


destino o castelo de Kogl, perto de \"õcklabruck, na Áustria, e o depósito Nikolsburg, na Morávia. O volLlme de bens saqueados a carregar e uma greve de fer roviários, porém, impediram a partida. Somente em 12 de agosto, 10 dias de pois, os alemães conseguiram controlar as linhas. Mas os trens conduzindo cidadãos alemães tinham prioridade. Quando o carregamento das obras pôde fi nal mente partir, não passo u do aeroporto da capital. Um defeito na locomotiva gerou novo atraso de 48 horas. Resolvido esse problema , surgiu outro, uma sabo tagem da Resistência provocou um engarrafamento no sistema ferroviário - o

trem das artes não podia se mover . A 2' Div isão Armada do Exército Livre Fra ncês chegou ao local dias depois, e o general Phillippe Leclerc, avisado pela Resistência, conseguiu enviar 36 dos 148 caixotes com obras de Renoir, Degas, Picasso e Gauguin para o Louvre. Só dois meses depo is o restante dos caixotes foi devolvido ao museu .

AMEAÇA INI'E:I;rz No mesmo dia em que Paris foi libertada , uma multidão de franceses invadiu o leu de Pau me. Rose impediu que a turba entrasse no porão , onde as coleçües eram guardadas, e fo i acusada de colaboracionista, "EI.a está escondendo alemães!" Com uma arma nas costas, teve de mostrar à turba que "não h avia nada ali além de caldeiras , tubos e obras de arte" . Com as informações de Rose e Jauja rd, o curador do Metropolitan Museum de Nova York e segundo-tenente do 7" Exército dos EUA, James Rorimer, foi um dos destaques da força - tarefa que se dedicou a recuperar as obras. O grupo resgatou peças no castelo de Neuschwanstein, na Baviera, e enfrentou bombas instaladas em minas de sal e carvão onde estavam esconclidas peças nas cidades de Siegen , Merkers e de Heilbronn , na Alemanha, e na mina de sal de Altaussee, na Áustria. A tarefa durou de abril a julho de 1945 e salvou clássicos como Madonna de Bruges, de Michelangelo, e Autorretrato, de Rembrandt. Graças ao traba lho de Jaujard nos bastidores, a Mona Lisa, de Leonardo da Vinci, escapou do exílio na Alemanha e na Áustria. Trocou seis vezes de lugar até ser devolvida ao acervo do Louvre. Já Rose ganhou um cargo remunerado no museu Jeu de Paume .

HERÓIS (QUASE) ANÓNIMOS '

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o INIMIGO QUE SALVOU

General desobedeceu a uma ordem direta de Hitler

Tropas americanas desfilam na cidade libertada dias antes; abaixo. Von

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Um general'alemão em uma revista sobre heróis da 2' Guerra) Se você já visitou Paris, saiba que quase tudo o que viu está lá por causa de Dietrich von Choltitz, governador militar de Paris a partir de 9 de agosto de 1944. Nos 16 dias segui ntes, sua principal tarefa foi desobedecer a ordens diretas de Hitler. No dia 23, recebeu um telegrama: "A cidade não deve cair nas mãos do inimigo, a não ser que esteja devastada". Conta-se que Hitler telefonou para Choltitz perguntando aos berros' " Brenn! Paris!" ("Paris está queimando?" ). Foi a única vez que Choltitz deso-

54. HERÓIS (QUASE) ANÓNIMOS

bedecell na vida. Para alguns historiadores, a decisão de manter a Cidade Luz intacta nasceu de uma conve rsa com o prefeito parisiense, Pierre Taittinger. O francês disse ao alemão que ele voltaria ali algum dia e pensaria que teve o poder para destru ir tudo aquilo, mas decidiu preservar a cidade. Choltitz de fato voltou ao hotel Meurice, o local do diálogo, em 1959. Reconhecido pelo ban na n, pediu para visitar seu antigo quarto. Foi ao balcão e olhou para as Tulherias. Depois dc um longo silêncio, disse, "Ah, sim, é disto que me lembro" . Agradeceu e foi embora.

Choltitz assina a rendição


Ao yencedor, ovmagre Havia uma forma de resistência na França conhecida como "esconder, mentir e trapacear", Dessa forma, conseguiram preservar uma de suas maiores riquezas nacionais: O vinho. "Nossa diversão favorita era lograr os alemães·, disse o vinicultor lean-Michel Chevreau aos jornalistas Don e Petie Kladstrup, autores de Guerra e Vinho (Zahar, 2001). Com seus amigos, Chevreau fu rava barris que seguiam de trem para a Alemanha e ficava com os vinhos. Na guerra para repatriar o vinho francês, o papel de herói coube a Bernard de Nonancourt em 1944.. Um dos primeiros a chegar ao Ninho da Águia, a fortaleza de Hitler nos Alpes, ele gritou para seus companheiros: ''Vocês não vão acreditar nisso". Para onde apontasse sua lanterna havia garrafas do melhor vinho francês. "Tudo que fora feito pelos Rothschild estava lá, os Latifes, os Moutons. Os bordeaux eram simplesmente extraordinários." Ele acabava de encontrar meio milhão de garrafas.

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A.niaais •• explodiraa a DiVisão panzer

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Chips até recebeu medalha por "eliminar um ninho de met ralhadoras" do inimigo Até os cachorros deram sua valorosa contribuição. Alguns tiveram sua história registrada para a posteridade ao praticar atas heroicos - como desarmar bombas, farejar ini migos e salvar a vida de soldados. Desde então os EUA usam cachorros como uma espécie de força auxiliar dos soldados. Segundo a revista Foreign Poliey, as Forças Armadas americanas empregam hoje 28 mil cães em suas unidades. Ocão Chips, cruzamento de husky e collie que atuou como sentinela na Sicília, na Itália, entre 1942 e 1944, chegou a ser condecorado com a medalha Estrela de Prata por "eliminar um ninho de metralhadoras e render

seus operadores" em 1944. Por causa da façan ha, Chips foi levado à presença do presidente ame ricano Dwight Eisenhower e do premiê britânico Winston Churchill. AMarinha Real Britânica deve muito aJudy, uma cadela que acompanhava seus navios. Ela ficou famosa por ajudar os náufragos do HMS Grasshopper, bombardeado pelos japoneses na Indonésia. Foi o único animal feito prisioneiro pelo Exército japonês durante o confl ito. Outro cão herói foi o

yorkshire terrier Smoky, que serviu com a Força Aérea americana, tendo participado de mais de 12 missões. Ameaçados pela Divisão Panzer, dos tanques alemães, os militares da extinta URSS usaram 40 mil "cães suicidas" para conter o avanço do inimigo. Com bombas presas a seus corpos, os ani mais se explodiam em cantata com os tanques. Outros eram usados em missões de comunicação. Para evitar interceptações nas transmissões de rádio, americanos e britânicos usavam cães yorkshire para levar bilhetes e ordens por túneis nos quais só eles eram capazes de passar. Depois usaram "cães de ligação", que, além de transportar mensagens na coleira, levavam um pombo-correio no colete para a resposta. AONG Animal Aid, da Inglaterra, inaugurou em 2010 o monumento An imais in War Memorial, em Londres, para homenagear os bichos-heróis.

HERÓiS (QUASE) ANÓNIMOS ·

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BRASILEIROS

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MINEIROS 'Vou arrancar o bigode do Hitler para a senhora escovar o sapato." A brincadeira era parte de uma das muitas cartas enviadas à mãe pelo soldado Geraldo Baeta da Cruz, que saiu de Minas Gerais para lutar com o no Regimento de Infantaria da Força Expedicionária Brasileira na Itália. As cartas não eram respondidas. Os irmãos não lhe contaram que a mãe, dona Sinhá. havia morrido um mês depois de sua partida ao ouvir uma vizinha dizer que "deu no rádio" que o navio que transportava os brasileiros tinha afundado. Dona Sinhá sofreu um derrame fulminante. A vizinha tinha se confundido. àquela altura o garoto estava bem. Geraldo morreria seis meses mais tarde em circunstâncias muito mais heroicas. Geraldo Baeta e outros dois combatentes mineiros - Arlindo Lúcio da Silva, de São João deI-Rei, e Geraldo Rodrigues de Souza, de Rio Preto - tornaram-se imortais em Montese. na Itália. No dia 14 de abril de 1945, a cidade foi palco de uma das mais duras batalhas em que a FEB se envolveu na luta contra as divisões alemãs que ocupavam o país. O trio integrava uma patrulha com poucos soldados quando se viu frente a frente com uma forte companhia inimiga com mais de 100 militares. Os tedescos - como os a lemães eram chamados pelos italianos - os intimaram à rendição. Eles se recusaram. e começou o fogo cruzado. Para preservar os companheiros, que seriam surpreendidos, os três mineiros continuaram combatendo "até o último cartucho', quando então foram mortos pelo inimigo. A atitude dos soldados salvou a vida de pelo menos 30 combatentes brasileiros. que. alertados pelos tiros, tiveram tempo de se proteger da coluna alemã.

60. HERÓIS (QUASE) ANÓNIMOS

O decreto que concedeu a medalha Sangue do Brasil de Combate de la Classe a Arlindo descreve sua atuação no episódio: "No dia 14 de abril, no ataque a Montese. seu pelotão foi detido por violenta barragem de morteiros inimigos. enquanto uma metralhadora alemã hostilizava violentamente seu flanco esquerdo, obrigando os atacantes a se manterem colados ao solo. O soldado Arlindo, atirador das Forças Armadas, num gesto de grande bravura e desprendimento, levanta-se, localiza a resistência inimiga e sobre ela despeja seis carregadores de sua arma, obrigando-a a calar-se. Nessa ocasião, é morto por um franco-atirador inimigo". Admirado com a coragem dos mineiros, o comandante germãnico mandou enterrá-los em cova rasa, em vez de vala comum. E ordenou a colocação de uma placa nas sepulturas na qual se lia: Orei brasilianische helden ("três heróis brasileiros"). Depois do fim da guerra, os restos mortais de Cruz, Silva e Souza foram levados ao cemitério de Pistoia e, mais tarde, ao Monumento aos Pracinhas, no Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro. "Tudo isso não pode cair no esquecimento das novas gerações", disse Natanaela Baeta Morais. irmã de Geraldo.


Afundou submarino no Rio de Janeiro

o tenente Alberto Torres Martins foi o único piloto b rasileiro que comprovada mente afun dou um submarino alemão. E o fez no litora l do Rio de Janeiro. Personagem de destaque no documcnt<Í rio Senta a Pua!, de Er ick de Castro, Torres nasceu em Norfolk, na Virgí-

nia, mas era brasileiro. Seus pais, os diploma tas Aluízio e Lenita Torres, prestavam serviço nos EUA. Lá Martins estudou e treino u em aviões de combate. Segundo o piloto veterano Ru i Moreira Lima, Torres vestiu a fa rda da Força Aérea Bra -

sileira (FAB) como piloto do I" Gru po de Caça de 1941 a 1945, mas nesse período participou de 100 ações de combate. A mais importante delas ocorreu em 31 de julho de 1943. Em missão de pat rulha no li toral do Rio de Jan eiro, o tenente afun dou um submarino alemão U- 199

a 87 qu ilômetros ao sul do Pão de Açúca r. O Brasil tentava se manter neutro, mas nav ios

brasileiros, vários deles da Marinha Mercante,

além de uma Croix de Guerre, da França, e a Ordem do Mérito Aeronáutico bras ilei ra. Depois da guerra, Martins partici pou de várias atividades na vida c ivil. Chegou a monta r uma com panhia aé rea regional na Amazônia e, poste ri ormente, tornou- se s uperintendente de uma empresa

foram afundados por submarinos alemães e

multi nacio nal de transporte de valores. Contratou

italia nos. Apesar da identificação do governo Getúlio Vargas com alguns elementos do nazi-

para auxiliá- lo na tareJa quatro ex -companheiros

fascis m o, o Brasi I declarou guerra ao Eixo, Em sua missão de patrulha no comando do avião batizado de Arará, Torres - que havia se inscri to na FEB como voluntário civil - avis-

tou o submarino e lançou 3 bombas de profundidade. A embarcação foi a pique imediatamente. Somente 12 soldados e ofic iais se sa lvaram, entre eles o comandante do s ubma rino, O capitão Hans Werne r Kraus . O piloto

bras ileiro lançou um bote infl ável em di reção aos nilufragos. Eles conseguiram se salvar e acenaram agradecidos. Pouco tem po depois fo ram resgatados pelo navio de guerra america no USS Banegat, que os levou como prisioneiros

de guer ra ao Recife. Dias antes do ataq ue, o U- 199 hav ia afundado um cargueiro britânico

que passava pelo litoral do Rio de Janeiro. Por essa proeza, e por toda a sua participa -

do Senta a Pua!, o grupo de aviadores brasileiros que esteve na guerra. Torres morreu em São Paulo em 30

de deze mbro de 2001, aos 82 anos.

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ção na guerra , o piloto, que fa lava fluente mente inglês, alemão, espanhol, turco e ita -

liano, recebeu duas Distinguished Flying Cross, concedidas pelo governo americano,

HERÓiS (QUASE) ANONIMOS. 61


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BRASILEIROS

o "COVARDE" QUE

Nas ruas estreitas das cidades italianas, a FEB en frentou O combate urbano, então desconhecido por

SEAGIGANTOtJ o

nossos soldados. Cada esquina era uma armadilha. "A impressão era que os alemães não aguentariam. Mas e les estavarnfeitos doidos ", disse José Orlandi-

tenente Gerson Machado Pires foi à guerra como voluntário. Eteve uma grande participação nas batalhas de Monte Castello e Montese, as mais importantes da Força Expedicionária Brasileira (FEB) na Itália. Pires adrn.itia que tinha medo de se acovardar na hora do conlhate. Isso nunca aconteceu. No ataque a Monte Castello, seu pelotão teve três baixas,instantâneas. Os soldados foram mortos pelo fogo de artilharia alemã. "O primeiro tiro esfacelou os três soldados", ele contou em suas memórias. Mas foi em frente. Na Batalha de Montese, em 14 de abril de 1945 , os Aliados tiveram mais de 400 baixas

entre mortos e feridos. Pires era um dos comandantes

do 6<> Regimento de Infantaria e salvou a vida do então capitão e depois general da reserva Plínio Pitaluga, que comandava o esquadrão de carros blindados M-8, ao avisá- lo de que havia um canhão antitanque alemão postado bem à frente e pronto para disparar. Se o esquadrão tivesse chegado à curva da rua, teria sido destruído pelo equípamento do inimigo.

62. HERÓIS (QUASE) ANÓNIMOS

no da Costa, do 6" Regimento, ferido na batalha. A operação para a tomada de Montese começou às 9h35 do dia 14 de abril sob pesado fogo inimigo. O avanço inicial foi feito por dois pelotões. O primeiro demorou duas horas para vencer a reação alemã e tomar suas posições . O segundo parou diante de um campo minado. Seu comandante morreu com um tiro na cabeça, e a missão fracas -

sou. Ao meio-dia, começou o ataque propriamente dito. Os pracinhas foram conquistando o íngreme terreno palmo a palmo. Ao cair na noite, as encostas da cidade estavam dominadas. A infantaria alemã, destroçada e desnorteada, abandonou suas posições e deixou seus mortos para trás. Na noite de 14 para 15 de abril, algumas tropas inimigas insistiram no combate atacando a cidade com cerca de 2800 ti -

ros. Na manhã do dia 15, a FEB os rechaçou de vez. A conquista de Montese ajudou a romper a chamada Linha Gótica (linha de defesa alemã nos Apeninos) e mostrou o valor da FEB aos até então cét icos americanos , nossos parceiros nas batalhas.


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':;~'A morte dos 8 padioleiros Um monumento no Rio de Janeiro recorda e homenageia os 8 padioleiros brasileiros que morreram nos campos da Itália. Na frente do l° Batalhão de Saúde da Vila Militar, em Magalhães Bastos, na Zona Norte do Rio, o monumento inaugurado em 1958 lembra a trajetória dos homens que, embora quase sempre desannados, corriam tanto ou mais risco que os colegas soldados dos vários batalhões no conflito. Os padioleiros eram os enfermeiros encarregados de recolher os mortos e transportar os feridos aos hospitais de campanha em padiolas (macas). Mesmo sob fogo cerrado, eles entravam no campo de batalha. E acabavam sendo alvejados da mesma forma que os outros mesmo não sendo combatentes. Teoricamente, eles estavam protegidos pelas convenções de guerra: ao ver seu uniforme característico, o inimigo não deveria abrir fogo contra eles. contavam com enfermeiras voluntárias que atuavam Somente a Batalha de Montese regis- no transporte aéreo dos feridos. Eram aviões de trou o quase aniquilamento de um pelotão carga convertidos em ambulâncias. com padiolas de padioleiros que tentava socorrer os nas laterais. A presença das enfermeiras era uma brasileiros sob fogo aiemão. Segundo o exigência dos americanos, que pediram que fossem relato do então capitão Adhemar enviadas para compor o Quadro da Força-Tarefa Rivermar de Almeida, o impacto de uma da FEB. Apesar das perdas, nossos soldados granada que explodiu ao lado dos padio- conseguiram libertar Montese. leiros matou três soldados. José Varela. natural de Ceará-Mirim (RN), acabou sendo homenageado com O nome de uma rua em Natai. No conflito, a FEB . .' usava nove jipes-ambulâncias do Bata- .:. Ihão de Saúde, convertidos em veiculas de transporte de feridos e doentes. Os carros levavam uma padiola atravessada na parte de trás, com os punhos assentados nas laterais. O jipe-ambulância ajudou a salvar da morte certa muitos dos mais de 2700 feridos da FEB no confronto. Os brasileiros também

..,

HERÓIS (QUASE) ANONIMOS. 63


SALVOU

oPRé)PRlO PUNHO" o carioca Luiz Martins de Souza Dantas foi um dos grandes nomes da diplomacia internacional a intervir em favor dos perseguidos pelo nazismo na Europa. Embaixador na França entre 1922 e 1944, ele distribuía vistos ajudeus, comunistas, homossexuais e outras minorias diante do recrudescimento da perseguição nazista. Os documentos eram em geral assinados de próprio punho, algo incomum e arriscado em se tratando de pessoas "indesejáveis", na definição do governo brasileiro. Ele não cobrava taxas nem exigia declarações ou atestados. E não informava a origem étnica dos requisitantes, conforme fora orientado a fazer. Cerca de 500 vistos diplomáticos foram emitidos entre junho e dezembro de 1940. No dia 12 de dezembro, Dantas foi formalmente proibido de conceder os vistos. Há depoimentos, entretanto, afirmando que muitos refugiados receberam vistos com datas anteriores a 12 de dezembro mesmo o procurando já nos primeiros meses de 1941. O número total de pessoas salvas por Dantas pode passar de mil. Em Vichy, ele notabilizou-se por impedir a invasão da embaixada brasileira por tropas alemãs. Foi preso e levado à Alemanha. Quando seus atas se tornaram conhecidos no Brasil, passou a ser tratado como herói pelos jornais e como inimigo pelo presidente Vargas, que proibiu os veículos de comunicação de dar qualquer informação sobre ele. Já aposentado, foi convidado pelo Ministério das Relações Exteriores para chefiar a delegação brasileira na Primeira Assembleia-Geral das Nações Unidas, em Londres, entre 10 de janeiro e 14 de fevereiro de 1946. Foi o primeiro brasileiro a discursar no órgão, precursor da ONU. Morreu em Paris em 1954. Em 2003, Souza Dantas recebeu da Yad Vashen, autoridade estatal israelita, o titulo de Justo entre as Nações, em agradecimento por sua ação humanitária na guerra. "Fiz o que teria feito, com a nobreza d'alma dos brasileiros, o mais frio deles, movido pelos mais elementares sentimentos de piedade cristã", disse.

64. HERÓIS (QUASE) ANÓNIMOS


ARACY: MUSAEANJO

Grande Sertão, Veredas, de JO"O Guimarães

Rosa, um dos maiores clássicos da literatura brasileira , é d edicado a Aracy, sua segunda mulher e parceira em um dos momentos cru ciais da vida do casal, o salva mento de judeus no coração da Alemanha. Para ele, ela seria a amada Ara. Para aqueles a quem ajudou, Aracy

se tornaria o "Anjo de Hamburgo" . Em 1938 (ano em que conheceu Guimarães Rosa, ainda casado), Aracy Moebius de Ca rvalho era funcionária do co nsul ado brasileiro em Hamburgo. Porfalar português, inglês, fra ncês e alemão, consegui u um cargo na seção de passaportes e bom trânsito n o corpo consular. A persegu ição nazista aos judeus crescia na Alemanha ao mesmo tenlpo em que entrava em vigor a Ci rcular Secreta 1127, que proibia a entrada d e judeus no Brasil. Indignada, Aracy ignorou a ordem e passou a fornecer vistos brasileiros a quem lhe pedisse. Para conseguir a assinatura do cô nsul, embaralhava os vistos no meio da papelada que ele assinava. Rosa, então cônsul-adjunto, soube o que ela estava fazendo. E a apoiou (e apaixonou-se) ple-

namente, embora advertisse: "Tome cuidado, os nazistas são perigosos ... " Ambos passaram a ser investigados pelo serviço secreto alemão e pela emb.1ixada brasileira - o governo Vargas ainda mantinha relações diplomMicas com a Alemanha. Ele foi denunciado como simpatizantc dos judeus e acabou fichado na polícia alemã por fa zer declarações antinazistas. Sem imLUúdade di plomática, Aracy corria risco maior. Mesmo assim, seus estratagemas crescicull em ousadia. Ela abrigava judeus em sua casa e os escondia no banco de trás do carro consular para cruzar fronteiras. Se fosse pega, podia ser morta. Um caso ficou especialmente famoso. Maria Margaret he Berrei Le,·." eo ma rido foram levados por Aracy a um na\-io. no qual embarcaram com o passa port e diplomático da brasileira. Ela levou as joias do casal na próp ri a bolsa, as escondeu na

caixa de descarga do sanitário d o ca marote e os aconselhou a só re tirá- Ias em alto-mar. Ass un fizeram . Chegando ao Brasil, ve nde ram as joias e iniciaram nova vida. Margarethe e Aracy se reenco ntrariam anos depois e se tornariam amigas inseparáveis . O governo brasileiro rompeu com a Alemanha em 1942. Ao tentar d eixar o país, João e Aracy foram surpreendidos pela ordem de ficar sob custódia d o governo alemão em Baden - Baden. A prisão durou quatro meses até eles serem trocados por d iplomatas alemães no Brasil. Foram morar no Rio de Janeiro. Casaram - se por p rocuração no México, já que não havia divórcio no Brasil. Ele ainda ocuparia cargos diplomáticos importantes. Aracy abriu mão da ca rreira . A brasileira é a única mulher citada no Museu do Ho locausto de Jerusa lém como um dos 18 diplom atas que ajudaram a sa lvar v idas d e judeus. Seu no me batiza uma avenida e um bosque em Jerusalém - n o qual ela disc ursou no dia da Inauguração, em 1985. Também é citada no Museu do Holocausto de Washington. No Brasil, abrigou artistas perseguidos pelo regime mili tar (1964- 1985). Aracy ficou viúva em 1967 e nunca mais se casou. Morreu em São Paulo no dia 3 de março de 2011. dcz dias de pois de perder a amiga Margarethe. Ambas tinham 102 anos.

HERÓiS (QUASE) ANÓNIMOS. 65


MONUMENTO

A DEVlDA HOM F:NAGElfl Nunca antes houve conflito que tivesse custado tantas vidas. Os dados não são precisos, mas calcula-se que 70 milhões de pessoas morreram durante a 2" Guerra Ela trouxe uma novidade bélica em seu princípio - por causa dos bombardeios pesados usados como tática militar, os civis também foram vitimados em grande número - e um desastre humanitário em seu [mal: a bomba atõmica sobre Hiroshima e Nagasaki A "solução [mal" dos nazistas

66· HERÓIS (QUASE) ANÓNIMOS

exterminou 6 milhões de judeus, mas também outras minorias. A foto acíma, do cemitério americano na Normandia, na França, tem 9386 sepulturas e uma homenagem a mais de mil soldados sem cova conhecida Esse é um pequeno exemplo entre as milhões de tumbas distribuídas em países europeus, o principal centro do conflito. Cada uma delas, à sua maneira, representa um herói. Quem quer que tenha vivenciado a guerra sabe: sobreviver, apenas sobreviver, é um feito heroico.

Super Interessante Especial Julho 2011  

Herois(quase) anonimos da Segunda Guerra

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