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ALIMENTOS

Restaurante Universitário promove ações contra o desperdício Fotos: Wallacy Medeiros

Por Kalianny Bezerra

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uzentas e oitenta refeições. É essa a média de desperdício todos os dias pelos usuários do Restaurante da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) somente no almoço, o que equivale a 11,5% do total servido. Nas três refeições do dia, o número é de aproximadamente 4.600 pratos fornecidos. O problema do desperdício não se limita à UFRN. No Brasil, segundo dados do Centro de Agroindústria de Alimentos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA), 26,3 milhões de toneladas de alimento acabam no lixo todos os anos. Com essa quantidade, seria possível alimentar mais de 10 milhões de pessoas. Diante dessa situação, o Restaurante Universitário (RU) desenvolve uma série de ações para evitar e conter o mal aproveitamento de alimentos na unidade. A primeira das iniciativas aconteceu em março deste ano, com a 1ª Semana de Conscientização contra o Desperdício, quando foram realizadas atividades com o objetivo de orientar os usuários do restaurante. Na ocasião, foram expostos banners com desenhos de pratos cheios, avisos nas mesas, exibição de vídeos e, em um dos dias, 280 pratos foram empilhados, chamando a atenção para o número de pessoas que poderiam se alimentar com a

Paulo Campos, da PROAE, ressalta a importância de convencer os alunos: “eles são multiplicadores, e passam adiante o que aprendem na Universidade” comida desperdiçada. De acordo com a diretora do Restaurante Universitário, Kátia Maria Bezerra, o problema maior está na falta de conscientização das pessoas. “Os usuários por diversas vezes não colocam em seus pratos a quantidade certa que vão consumir”, diz. Além da Semana de Conscientização, Kátia Bezerra destaca que outras medidas estão sendo tomadas. “Monitoramos e realizamos diagnósticos do volume de alimentos desperdiçados, mas também buscamos a capacitação dos funcionários

para a redução do desperdício nas etapas de armazenamento, pré-preparo e distribuição”, explica. Outra ação desenvolvida é uma pesquisa de aceitação dos cardápios junto aos clientes, que contribui para identificar e corrigir possíveis falhas ou insatisfações que colaborem para as sobras nos pratos. “Avaliamos temperos, variedade, apresentação e sabor”, pontua a diretora do Restaurante. Quanto ao que resta das refeições, Kátia Maria explica para onde vai: “Os restos são coletados diariamente pela

Escola Agrícola de Jundiaí e destinados à produção de ração para animais”. Anualmente, o valor reservado à compra de alimentos para o Restaurante Universitário é de R$ 5 milhões. A unidade responsável pelo local é a Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis (PROAE), que tem como objetivo planejar, coordenar, supervisionar e executar atividades de promoção e assistência ao estudante. Segundo o pró-reitor adjunto de Assuntos Estudantis, Paulo Roberto Paiva Campos, o RU atende a cerca de 70% dos alunos economicamente carentes da Instituição. “É por isso que é importante evitar os gastos com a alimentação. Precisamos conscientizar o usuário a colocar no prato apenas aquilo que vai comer”, declara. Paulo Campos aponta que é necessária uma ação conjunta entre a PROAE, a equipe do RU e os órgãos representativos dos estudantes. “Precisamos de uma política de convencimento. É preciso, sim, que a Universidade eduque seus discentes porque eles são multiplicadores. O que aprendem aqui dentro, passam adiante, e não podemos perder a oportunidade de conscientizá-los para um mundo mais sustentável”, fala o pró-reitor adjunto. Copos Plásticos Ainda dentro da política de sustentabilidade da UFRN, o Restaurante Universitário iniciou, também em março, outra ação de combate ao desperdício. Dessa vez, o alvo da campanha foram os copos plásticos.

Desde o último mês, os recipientes descartáveis deixaram de ser disponibilizados pela diretoria do local, que incentivou, através das mídias sociais, os usuários a levarem seus próprios copos. Paulo Campos afirma que o dinheiro gasto com copos plásticos durante o ano era suficiente para comprar um carro de R$ 40 mil. “Cinco mil copos eram distribuídos no restaurante só no almoço, sendo que apenas três mil eram realmente utilizados. O resto era rejeitado sem uso”, diz o próreitor. “Muitas vezes, quando as pessoas vão pegar um copo, vem mais de um junto e acaba que os usuários deixam por isso mesmo”, acrescenta. Kátia Bezerra orienta aos frequentadores que levem seus copos ou canecas. “Copos de alumínio, por exemplo, facilitam na hora de fazer a higienização. É importante ressaltar que essa ideia de sustentabilidade seja empregada também fora do RU”, afirma. Sustentabilidade e estratégias “A questão do desperdício está bem evidenciada, principalmente quando associamos o conceito de tal palavra à sustentabilidade”. É o que explica a professora do Departamento de Nutrição da UFRN, Priscilla Moura Rolim. Segundo ela, antigamente, o desperdício de alimentos era uma questão ligada somente à fome. Atualmente, no entanto, a ideia de sustentabilidade está também ligada a questões econômicas, ambientais e sociais.

Dentro da questão econômica está inserida a capacidade de produção, distribuição e utilização daquilo que é produzido. A questão ambiental diz respeito ao uso racional da energia. Já a questão social refere-se tanto à fome, quanto à empregabilidade. “É necessário garantir emprego para as pessoas, e a alimentação coletiva gera essa demanda”, diz Priscilla. Uma das formas como a UFRN trabalha a questão da sustentabilidade é o gerenciamento de resíduos do Restaurante Universitário. “O Departamento de Nutrição e o RU têm várias parcerias para fazer análises sobre como evitar o desperdício”, aponta a pesquisadora. A consequência de uma dessas parcerias está s e

materializando num Trabalho de Conclusão de Curso. Orientada pela professora Priscilla Rolim, a estudante Séphora Louyse Silva de Aquino realiza, desde o ano passado, treinamentos com a equipe do Restaurante da UFRN, com vistas a aproveitar melhor os alimentos e evitar o desperdício. O TCC é intitulado “Produção de refeições e sustentabilidade: avaliação da geração de

O Brasil está entre os 10 países que mais desperdiçam alimento no mundo

39 mil toneladas US$ 16 bilhões:

de alimentos são desperdiçadas diariamente em restaurantes, mercados, feiras, entre outros estabelecimentos

soma que o País perde de tudo o que se produz por ano em alimentos, segundo a ONU

26,3 milhões 65%

“Precisamos ser mais conscientes

de toneladas de do lixo domiciliar, alimento são no Brasil, jogados no lixo é comida por ano

em relação ao que fazer com os resíduos na cozinha e repensar a nossa forma de fazer compras “

Priscila Rolim Professora do Departamento Fontes: ONU e Instituto Akatu

de Nutrição da UFRN

Somente no almoço do RU são desperdiçadas 280 refeições todos os dias. O número equivale a 11,5% dos pratos servidos

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resíduos em um restaurante universitário”. A professora ainda destaca algumas dicas de como evitar que alimentos sejam jogados no lixo. “As compras sem planejamento eficiente, o armazenamento inadequado e o preparo desorganizado e em excesso devem sempre ser evitados. Precisamos ser mais conscientes em relação ao que fazer com os resíduos na cozinha e repensar a nossa forma de fazer compras”, ressalta.

ano XV | nº 60 | abril de 2013

Kátia Bezerra aponta que problema está na falta de conscientização das pessoas

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ano XV | nº 60 | abril de 2013

Restaurante Universitário promove ações contra o desperdício  

Matéria produzida para o Jornal da UFRN, na edição nº 60, mês de abril. Edição: Jaime Azevedo

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