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a n e G s a i g o l Bl b c i Ă­ s a m U G l I r t s u i o d a

Guia Ilustrado de Genealogias BĂ­blicas -------------------------------------Tornando simples os trechos mais complicados das Escrituras

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Índice

Prefácio ………………………………………………………………….... 6 Sessão 1 – De Adão à Jacó………………………………..….….……..… 12 Parte 1 – O início do início ….……….…..…..….………………..….………... 13 Capítulo 1 – Adão e Eva ……….……..………….…………..........……….15 Capítulo 2 – A questão da mulher de Caim …..…..….…….….............…...20 Capítulo 3 – O contraste: A linhagem de Sete e de Caim …...….........….....23 Parte 2 – As gerações dos filhos de Noé ……………........…......…..…………37 Capítulo 1 – Os filhos de Noé …………………………..…………….……38 Capítulo 2 – A Tábua das Nações ………………………............…..….…...44 Os filhos de Jafé ……………………………………….................…...…….47 Os filhos de Cam ………………………………………..............……..……56 Os filhos de Sem ………………………………………….…..…...…....…..72 Parte 3 – A formação de Israel e dos povos circundantes ………..……..…...80 Capítulo 1 – As gerações de Sem …………………………….................…..82 Capítulo 2 – As gerações de Terá ……….………..………….......….........…86 Capítulo 3 – A questão de Ló, dos moabitas e amonitas …….............……...88 Capítulo 4 – Descendência de Naor …….…….……….……..................…..92 Capítulo 5 – Descendentes de Abraão e Quetura ……….…….................….95 Capítulo 6 – As gerações de Isaque ……………..……..…….................…...99 Capítulo 7 – Descendentes de Esaú ……………..……….....….……..….…101 Capítulo 8 – Descendentes de Seir …………….…….....................…..……105 Capítulo 9 – Descendentes de Jacó …………..………...............……….….110 Sessão 2 – De Israel às Nações ………………………....……..……..……118 Parte 1 – Os filhos das concubinas ……………………....….………...….. 122 Capítulo 1 – A Tribo de Dã ……………………………..……………..……123 4


Capítulo 2 – A Tribo de Gade …….…………………...........…......…….…... 138 Capítulo 3 – A Tribo de Aser ….…..……..…….……….................……...…. 147 Capítulo 4 – A Tribo de Naftali ………………...........….…..............….....…..151 Parte 2 – Filhos de Lia: Zebulom, Issacar, Simeão ……........…........…….…....156 Capítulo 1 – A Tribo de Zebulom ……………….……......…....……….…….157 Capítulo 2 – A Tribo de Issacar …….………….….……..................…….…..165 Capítulo 3 – A Tribo de Simeão ..….….….….…………......…........……..…. 171 Parte 3 – Os filhos de Raquel ………………………………........…...……...……173 Capítulo 1 – A Tribo de Manassés ……………………......…........…...……..174 Capítulo 2 – A Tribo de Efraim ..………..……………….........………..…….181 Capítulo 3 – A Tribo de Benjamim …..……..…………..........…....…...…….185 Sessão 3 – Rei e Sacerdote ..….….……...…………………..….…………...195 Parte 1 – A Tribo de Rúben …………………. ………....…...……….………...196 Parte 2 – Levi ..…………..……………………………….……………..............…..200 Capítulo 1 – Levi …………………………………………. ……........…..…..201 Capítulo 2 – Moisés e o êxodo ....…..…....……..…..…..………...............…..212 Capítulo 3 – Arão e o Sacerdócio Levítico ......…....….......….................…….234 Capítulo 4 – Cidades dos levitas ....…....…..............…...........…................…..243 Capítulo 5 – Reformas e saúde espiritual ..........…............…….........………..249 Parte 3 – Judá…………………………………………………………...…………...255 Capítulo 1 – Judá, a linhagem messiânica, de Abraão a Davi…..............……256 Capítulo 2 – Linhagem Real ....……......…......…....…......…….................….267 Capítulo 3 – O Período Intertestamentário .....…..…..…....………………….274

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PREFÁCIO

Meu propósito com este livro foi criar um guia para facilitar o estudo de uma das partes mais difíceis e não-familiares das Escrituras, usando principalmente o meio visual e o auxílio de textos e comentários que guiassem o leitor sem muitas dificuldades por aquilo que de outro modo poderia ser um terreno árido e difícil. A falta de interesse com relação a estes trechos das Escrituras está relacionada à falta de familiaridade do leitor com os nomes, língua e geografia do período bíblico. Logo, tornou-se essencial que o livro fosse uma espécie de interpretação ou “tradução visual” daquilo que a Bíblia está dizendo. Para os leitores originais do Antigo Testamento os nomes traziam à lembrança povos e pessoas de seu dia a dia, mas isso não acontece com o público do século XXI, afastado por séculos de História destes tempos distantes. Transformando o “nome” em imagem e narrativa trazemos de volta ao menos em parte a realidade perdida para o tempo, tornando mais fluída a leitura das Escrituras. O conceito inicial do livro era basear a narrativa nas genealogias bíblicas, mas ele evoluiu para além desse tema, abarcando também outros trechos de difícil leitura, como as distribuições das tribos por Josué, as profecias de Jacó e Moisés sobre o futuro de Israel, a visão de Ezequiel 4048 e as visões de Daniel e sua conexão com o período intertestamentário. Logo, tornou-se útil conectar todos estes trechos difíceis e fazer a partir deles um todo coerente. Parti do pressuposto de que tais passagens não devem ser compreendidas apenas por pessoas com formação teológica, mas pelos mais simples cristãos, sejam eles donas de casa ou recém-convertidos que não estão adaptados a este tipo de linguagem. “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra”. 2 Timóteo 3:16-17. A versão que envio é um rascunho que necessita de correção e revisão, mas que dá uma ideia geral de como o livro ficaria finalizado. Este se dividiria em 3 sessões. A primeira sessão se foca nas genealogias de Adão até Jacó, fazendo com que o ponto de vista se inicie pela história 7


da humanidade e se afunile para uma família específica, a família de Abraão. A segunda sessão trata da história de 9 tribos de Israel e uma terceira sessão detalha as mais tribos restantes, Rúben, Judá e Levi, e dá uma visão geral sobre o Reinado Messiânico e o Sacerdócio Levítico, e a sua relação com o Novo Testamento. A sessão inicial deste texto pula a Criação, e se inicia com as questões genealógicas, com Adão e Eva, e prossegue com as linhagens de Caim, de Sete e de Noé. A primeira parte dentro desta primeira sessão do livro traz capítulos sobre o mundo antes do Dilúvio. Quando há questões como a dos “filhos de Deus” com as “filhas dos homens”, para as quais há várias teorias, todos os pontos de vista são citados sem se fazer preferência por algum particular. O texto traz também informações sobre o contexto histórico da era antediluviana. Sua segunda parte abarca o mundo após o Dilúvio e as genealogias que levam até Abraão. O capítulo mais extenso é o que lida com Gênesis 10, a Tábua das Nações, onde as três linhagens, de Sem, Cam e Jafé, aparecem, com explicações sobre os 70 nomes ali presentes. A terceira parte mostra a formação de Israel e as nações circunvizinhas, como Moabe, Amon, Edom e outras. A segunda sessão do livro prossegue com a história de Jacó e suas esposas, e suas subdivisões estão relacionadas aos seus diversos filhos. Primeiramente analisamos os filhos das concubinas, Dã, Naftali, Aser e Gade. O padrão que procurei seguir nesta parte do livro é aquele dado na visão de Ezequiel 40-48, começando pelas tribos que se encontram mais distantes do centro da Terra Prometida em direção àquelas que se encontram mais próximas do Território do Príncipe. Em seguida há a narrativa dos filhos das mulheres de Jacó, como Zebulom, Issacar e Simeão. Por último há a história dos descendentes de Raquel, os filhos de José (Manassés e Efraim) e Benjamim. A sessão final do livro é análise de como Jesus cumpre tanto o sacerdócio levítico quanto a linhagem real. A análise das genealogias de Levi e Judá é mais complexa do que as de outras tribos. A sessão se inicia com a história de Rúben e sua tribo, pois ele foi o primogênito de Jacó. Em segundo lugar há uma análise pormenorizada da história de Levi, e aspectos ligados ao santuário, ao Tabernáculo e ao livro de Levítico também se integram para formar a segunda parte desta sessão. Fiz questão de encaixar aqui uma visão cronológica e algumas evidências para o Êxodo visando desfazer a confusão atual trazida por documentários como Exodus Decoded (Êxodo Decodificado) e Patters of

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Evidence (Padrões de Evidência), assim como por diversas teorias surgidas na Internet. A última parte deste livro traz a história da tribo de Judá, dividade em três capítulos, do mesmo modo que a genealogia de Jesus em Mateus é dividida em três partes. O primeiro capítulo se estenda da época de Abraão até o início do reinado de Davi. O segundo capítulo segue a linhagem real até o exílio babilônico. O último capítulo deste livro dá uma visão geral do período intertestamentário, tornando mais claras as profecias de Daniel, Ezequiel e Zacarias. Este último capítulo segue até a destruição de Jerusalém através dos principais acontecimentos que foram presenciados pela linhagem messiânica.

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Um nome ĂŠ mais do que um nome.

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Sessão 1 De Adão à Jacó

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Parte 1 O início do início

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1- Adão e Eva “(...) Cainã, filho de Enos ; Enos, filho de Sete,Sete, filho

de Adão, Adão, filho de Deus (...)”. Lucas 3:38 Sobre as passagens iniciais de Gênesis, tanto se poderia dizer. A linguagem e a profundidade dos temas é tal que poderia se conversar por dias a fio, ou por milhares de páginas. A maravilha de toda Criação, a grandeza do Homem, e a infinitamente maior Glória de Deus. A profundidade desse pequeno trecho das Escrituras é demasiada para a mente humana, e está agarrada ao mais profundo do coração do Homem. Nela estão as chaves para entender todo restante das Escrituras. Não por necessidade, mas por sua superabundância Deus cria o Universo. Deus criou sequencialmente através de dias e manhãs, ordenadamente, um conjunto estruturado (Deus não criou as trevas e o caos), um passo de cada vez. Não apenas isso, mas Deus criou esplêndida e gloriosamente, sempre trazendo novidades a cada novo Dia: luz, energia, elementos, matéria, paisagens, vida para preencher todos estes ambientes: estrelas, sóis, luas, anjos, seres invisíveis, seres visíveis. Não apenas isso, mas criou uma indescritível variedade em cada um de seus temas, uma complexidade estarrecedora que nem sequer os olhos angelicais poderão contemplar em sua totalidade! Este Deus não cria apenas um tema, Ele parece explorar cada um dos aspectos da Criação até seu limite, exaurir as possibilidades, esgotar o tema, e, em vez de jogá-lo fora quando esgotado, usa um novo tema completamente diferente para expandi-lo. Ele não cria apenas uma estrela, Ele cria uma miríade de gigantes amarelas, anãs brancas, nuvens de poeira, galáxias, nuvens de galáxias, gigantes vermelhas, supernovas, buracos negros. Ele não cria apenas uma planta, Ele cria um mundo inteiro de vegetais, esporos, sementes, frutos, gostos, sabores, fragrâncias, texturas, raízes, folhas, flores. Ele não cria apenas um animal, Ele cria um exército de esponjas, invertebrados, peixes, anfíbios, répteis, aves e mamíferos. Ele não cria apenas um ser humano, Ele cria inumeráveis seres humanos, africanos, asiáticos, aborígenes, europeus, indígenas, e toda sorte de “raças” e “tribos” que nem sequer puderam ser registradas, todas estas criaturas pulsando com vida. Ele é, de fato, o Senhor dos Exércitos.

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Deus se regozija em Sua criação com imensa alegria, em cada pequeno grão de poeira dela, em cada fóton de sua luz. Então, quando todos estes temas pareciam de certo modo esgotados, Ele cria um novo tema. Sua novidade não se baseava no fato de ser feito a partir de uma matéria diferente, mas sim por aquilo no qual fora baseado: a própria imagem e semelhança de Deus. Em cada um dos dias da Criação houve uma modalidade criativa completamente nova. Mas Deus ainda desejava a criação de algo ainda mais surpreendente. Um tipo diferente de criatura, que expressasse a Sua própria alegria, examinando cada detalhe do mundo criado com sua mente, admirando cada aspecto com curiosidade, alegrando-se com as descobertas. Esta criatura não seria apenas parte da Criação, mas desfrutaria dela conscientemente, sabendo seu lugar e o lugar de todas as coisas dentro da Terra. Essa criatura poderia expressar essa alegria, do mesmo modo que a Trindade expressava este deleite eterno entre Seus membros. Então a Trindade diz: ‘Façamos o Homem à nossa imagem e semelhança ’. E o Homem foi criado, não para si mesmo, mas para Deus. O Homem era o deleite de Deus, e Deus era o deleite do Homem. Este último era uma criatura diferente de todas as outras, capaz de comunicar-se diretamente com Seu próprio Criador. E Monte Sahand, um dos possíveis cenários para a assim como Deus, o "Queda". Pai fez todas as coisas através de Seu Filho, e o Filho devolvia tudo que lhe era concedido ao Seu Pai (pois é assim que faz a Trindade), assim fez Deus ao Homem, à Imagem e Semelhança de Seu Filho. Porém, se o Homem era semelhante a Deus em um sentido, não deveria se esquecer de que não era ele mesmo o próprio Deus. Pois qualquer criatura é apenas criatura, por maior que seja, e não Criador. O Homem recebeu o mundo inteiro para ser seu domínio, como um rei benevolente, e sob Deus, expandiria o Jardim do Éden à totalidade da 16


Terra. Mas para isso, precisaria de seu Criador. O ser humano possuía diante de si uma escolha, uma era a obediência fiel a Deus, cujo fruto é a Vida Eterna. A outra era criar sua própria noção de certo e errado independentemente de Deus, declarando-se falsamente como mais sábio que o próprio Criador de todas as coisas. O fruto desta última escolha seria a morte. Os frutos destas árvores são mutuamente excludentes, é impossível ter os dois ao mesmo tempo. O Homem com seu livre-arbítrio decide bastar-se por si mesmo, tomando do fruto da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal, uma árvore boa, mas da qual nenhuma criatura deveria ou poderia tomar, apenas Deus. Uma criatura que tomasse deste fruto estava dizendo ser sua própria dona, e não dever nenhum tipo de explicação ao Criador. A criatura que dela tomasse se dizia mais importante ou mais sábia que o próprio Deus, que era melhor do que Aquele do qual todas as coisas boas fluíram e fluem, e o Único que conhecia todos os aspectos de toda a Criação melhor do que ela mesma jamais poderia compreender. Em sua loucura o Homem deu ouvidos à outra criatura, que já a muito tomara este caminho, e que deliberadamente se fizera inimiga tanto de Deus quanto do Homem (dizem alguns, que por inveja) e pode-se dizer até, que de si mesma. Esta criatura é identificada com a Serpente, a mais sagaz de todas as criaturas que Deus havia criado. Esta criatura aproveitou o dom da linguagem, dado aos seres humanos, como uma arma contra o próprio Deus, por meio das mentiras que havia criado. Loucura é levantar-se contra o Criador de todas as coisas (como uma formiga levantar-se contra uma estrela). Maldade é levantar-se contra Aquele de quem toda bondade flui. Pecado é uma palavra que tenta agrupar estas duas coisas, mas que ainda assim não pode descrever o resultado do que daí saiu com ênfase suficiente. Apenas a História pode mostrar isso, para aquele que tem olhos para ver. Moisés utiliza a figura da Serpente para descrever Satanás por causa da similaridade que esta despertaria aos seus primeiros Planalto de Edin, possível localização do antigo Éden. 17


ouvintes, já que o ‘deus’ do caos egípcio era representado por uma serpente gigante. Lê-se em uma nota da Bíblia de Genebra: Satanás tentou os primeiros seres humanos enfatizando a proibição de Deus em vez da provisão, reduzindo a ordem divina a uma pergunta, lançando a dúvida quanto à sinceridade de Deus, difamando os motivos dEle e negando a veracidade de sua ameaça. O destino do mundo estava nas mãos do ser humano, e este o entregou de bandeja a uma criatura que havia sido destituída de sua posição para ser como um simples animal do campo, que não possuía poder algum no Éden a não ser sua própria voz. O homem pode não ter perdido seu reino, mas agora de pouco isso lhe serviria. Seu domínio sobre a natureza se tornaria um império de destruição. Seu poder sobre a própria vida e morte foi perdido. O Homem foi expulso do paraíso, tanto fisicamente (retirada do Éden) quanto espiritualmente (a Árvore da Vida saiu de seu alcance). Uma Espada de Fogo cercou o Éden (talvez um rio de lava do Monte Sahand) e os Querubins (seres espirituais que guardam a santidade do trono de Deus) fecharam as portas da Vida Eterna. As afirmações de que o pecado de Adão e Eva teriam sido tanto o sexo quando tentar adquirir conhecimento por si mesmos são absurdas. O sexo dentro do casamento é enaltecido e é um mandamento por toda a Escritura, sendo o celibato tratado em casos muito específicos, às vezes até mesmo pecaminoso, e nunca como um mandamento ao povo de Deus. Tentar descobrir que fruto gerou a condenação do Homem, se era uma maça, uma uva ou qualquer outra coisa é perda de tempo e perder completamente o foco da história. Além do mais o fruto proibido nunca pertenceu a Árvore do Conhecimento, como alguns declaram. O conhecimento nunca foi proibido a Adão ou Eva, sendo aliás, o meio pelo qual ele daria nomes a todos os animais e seres que existiam na Terra, e é daí que vem o seu domínio sobre a criação. O Homem é o único animal que dá nomes, é o animal científico por natureza, e isso é uma característica nossa não por mandamento, mas por natureza. Esse é o motivo de a análise científica não pertencer a religião específica alguma, e a de o ateu poder fazer boa Ciência. O fruto proibido na verdade provinha da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal, um tipo muito específico de conhecimento. Como C.S.Lewis declarou, uma vez que o qualquer criatura tem a capacidade de pensar em Deus como Deus e de perceber a si como criatura, e usa sua capacidade intelectual para fazer aquilo que sabe que Deus não se agrada, ela comete este pecado. Ele pode ser cometido pela mais simples das pessoas e pelo intelectual; pelo homem sem cultura e analfabeto, assim como pelo bilionário; pela criança assim como o pelo adulto ou idoso, por pessoas de qualquer classe, cultura ou época. 18


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2- A questão da mulher de Caim “E coabitou Caim com sua mulher; ela concebeu e deu à luz à Enoque. Caim edificou uma cidade e lhe chamou Enoque, o nome de seu filho.” Gênesis 4:17 Antes de prosseguirmos com a história de Adão e Eva devemos abrir um pequeno parêntese sobre uma questão que tem atormentado uma grande quantidade de pessoas. Talvez você nunca tenha parado para pensar sobre o assunto, mas muitos já se perguntaram quem foi a mulher de Caim. Também pode ter-se questionado quem seriam aqueles que vingariam o sangue de seu irmão Abel, ou ainda, como ele poderia ter construído uma cidade com seu nome com tão poucas pessoas para habitá-la. Talvez o x da questão não tenha parecido claro o suficiente para todos ainda, então prossigamos com uma breve explanação. Creio que seja muito improvável que o leitor nunca tenha lido os primeiros capítulos de Gênesis, ou ainda pior, desconheça completamente a história de Caim e Abel. Caso o leitor seja uma dessas pessoas, sugiro que leia a narrativa bíblica até o início do capítulo 4. Após Adão e Eva serem expulsos do Éden (e pararem de brigar sobre de quem era a culpa) eles tiveram seu o filho primogênito chamado Caim, cujo nome significava “adquirir”, pelo fato de Eva estar admirada com o poder de gerar outro ser humano, assim como Deus fizera. A narrativa segue dizendo: “Depois, (Eva) deu à luz a Abel, seu irmão. Abel foi pastor de ovelhas, e Caim, lavrador.” Após um ataque de ciúme diante da aprovação divina de Abel, Caim assassina premeditadamente seu irmão no campo, mesmo após admoestação divina para que tomasse cuidado com o pecado, que estaria esperando-o como um lobo atrás da porta para devorá-lo. As palavras usadas no hebraico original equivalem ao babilônico para a presença demoníaca à espreita de um homem. Caim é, em seguida, confrontado por Deus em relação ao seu irmão mais novo e defende-se cheio de hipocrisia. Deus o desmascara, mas ele se acovarda dizendo que se outras pessoas descobrirem o que aconteceu, ele será morto como punição justa pelo assassinato de seu irmão. Após 20


isso ele desaparece de cena, tomando sua mulher e filho e criando uma cidade na terra de Node, que significa “errante”,” sem lugar fixo” Se o leitor ainda não tiver notado o aparente problema até aqui, doulhe um minuto para tentar adivinhar. Ok, tempo esgotado. A questão é a seguinte: Se Adão e Eva geraram apenas Caim e Abel, quem eram esses homens vingadores e quem era a mulher de Caim? A primeira questão é mais fácil de responder do que se aparenta. Muitas vezes lemos a Bíblia e presumimos mais do que o texto está indicando. Enquanto o texto diz apenas “depois deu à luz a Abel, seu irmão”, nos apressamos e colocamos no texto a seguinte afirmação implícita: “e logo depois que deu à luz a Caim, deu também à luz a Abel”. O problema está exatamente neste acréscimo não bíblico do logo depois. O texto bíblico simplesmente se cala sobre o tempo decorrido entre um evento e outro. Posteriormente lemos que Adão gerou outro filho chamado Sete, com 130 anos de idade. Muitos presumem que esse foi o terceiro filho, mas o texto nunca diz isso. O texto acrescenta “depois que gerou Sete, viveu Adão oitocentos anos; e teve filhos e filhas”. A expulsão de Caim por outros homens pode ter ocorrido em qualquer momento dentro dos 130 anos de vida de Adão até gerar Sete, o que é tempo mais que o suficiente tanto para que Adão e Eva tenham tidos outros filhos que vingariam Abel, quanto para que Caim possuísse pessoas suficientes para irem com ele fundar uma cidade. Mas ainda sobra outra dúvida que a história não explica. Quem era a mulher de Caim? Ou mais

Entrada de doenças genéticas recessivas no casamento de primos consanguíneos. 21


claramente: Como os filhos e filhas de Adão se multiplicariam se eram todos irmãos? Talvez a resposta mais lógica seja a de que todos estes filhos tiveram de casar-se entre si para criarem a geração posterior. Mas esses casamentos consanguíneos trazem consigo tanto um problema genético quanto ético. Para alguns como Francis S. Collins, a questão do incesto representa uma evidência de que a narrativa de Gên. 1-11 não é literal, e que havia diferentes grupos humanos, ou até espécies humanas, vivendo naquela época. Outros argumentam que como esses acontecimentos se deram antes de Deus revelar a Sua Lei, isso não seria algo que a contrariaria. Porém Paulo afirma que Deus escreveu a Sua Lei no coração dos homens, e estes mal haviam saído do Jardim do Éden. Um argumento razoável é o de que, na medida em que Adão e Eva foram criados com um código genético completamente perfeito, seus filhos também teriam um código quase completamente íntegro, o qual não havia sido ainda contaminado com a degradação que geraria os problemas de doenças recessivas posteriores. Doenças genéticas que hoje em dia afetam até primos de graus mais distantes se devem à repetição genética de partes defeituosas no DNA de ambos os pais, com doenças potenciais ocultas, que aparecem somente quando há um filho possuidor de dois pares defeituosos, por parte do pai e da mãe. Também é possível que algumas características da humanidade ainda não estivessem completamente definidas, e que os filhos e filhas de Adão por causa de alguma característica desconhecida, não se vissem como os irmãos se veem hoje. Fica claro que em Gênesis, os seres humanos eram de algum modo diferentes, como pelas idades avançadas. Também é possível afirmar que a questão moral pode ser relevada por um princípio de necessidade, já que não havia outro modo de cumprir o desígnio, o ato não poderia ser tomado como uma escolha. Logo tal situação teria aparecido uma única vez na História, sem nenhuma necessidade de ser repetido.1

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As filhas de Ló não poderiam alegar a mesma desculpa, pois não havia nenhum imperativo para manter a espécie ligado à sua situação.

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3- O contraste: a linhagem de Sete e de Caim

“Então, o Senhor Deus disse à Serpente: visto que isso fizeste, maldita és entre todos os animais domésticos e entre todos os animais selvagens, rastejará sobre teu ventre e comerás pó todos os dias da tua vida. Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o seu descendente. Este te ferirá a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar”. Gênesis 3:14-15

Após a saída de Adão e Eva do Éden pouca coisa lhes sobrava, a não ser as promessas de Deus. Ele havia lhes chamado e mostrado sua vergonha e sua inadequação, e que não podiam cobrir sua vergonha com as obras de suas próprias mãos. Não foi por nada além da graça e misericórdia de Deus que a Sua ira não destruiu a ambos. Deus providenciou uma túnica para cobrir a vergonha do casal e para protegêlos. É Deus quem providencia o meio de cuidar da culpa humana, e não o próprio ser humano. Quer se redimir com suas próprias ações e suas próprias mãos? Sinto muito, mas nunca encontrará que tal seja possível na Bíblia. O pecado de Adão está enraizado demais e já nascemos separados de Deus. Nenhuma obra, por tão boa que você pense ser, poderá cobrir seus pecados, assim como a tentativa de Adão e Eva de cobrir-se com folhas foi inapropriada. Talvez pensemos que estamos direito com Deus, mas o Dia do Senhor vem, e nossas “esmolas” espirituais para salvar nossa própria alma serão vistas como realmente são: tentativa de fingir que somos bons e adequados o suficiente, estado de negação de nossa própria situação, uma mentira que já é em si um pecado e um erro. Este episódio, aparentemente insignificante, trás implicações mais profundas que passam despercebidas ao leitor do século XXI, distanciado do campo. A roupagem de peles que cobriu o Homem e a Mulher exige a morte de um animal. O peso de pecado deve ser punido. Para o Homem e Mulher se tornou claro que o salário do pecado gerava morte, e que a culpa só poderia ser espiada pelo derramamento de sangue (a vida) de uma vítima. Se eles pecaram eles deveriam morrer, mas houve um substituto para isso, um símbolo de Alguém que estava ainda para vir. Saberiam eles como isso se daria? Saberiam eles que milhares de anos depois de sua Queda nasceria Aquele que seria o único e verdadeiro 23


sacrifício inocente para remover os pecados de Adão? O único que poderia cobrir a multidão das vergonhas humanas? Como diria Deus através do profeta Isaías sobre Aquele Homem: “Certamente, ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus e oprimido. Mas ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre Ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados. Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo caminho, mas o Senhor fez cair sobre Ele a iniquidade de nós todos (...) nunca fez injustiça, nem dolo algum se achou em sua boca (...) quando der Ele a Sua alma como oferta pelo pecado, verá a Sua posteridade e prolongará os seus dias; e a vontade do Senhor prosperará nas suas mãos. Ele verá o fruto do Seu trabalho e ficará satisfeito. O meu Servo, o Justo, com o seu conhecimento justificará a muitos, porque as iniquidades deles levará sobre si”.Isaías 53:4-11

Talvez Adão e Eva tenham entendido em parte a promessa de Deus, pois um pouco antes do momento em que eles descobriram que apenas Ele poderia cobrir suas vergonhas, o casal recebe uma profecia não da boca de profeta algum, mas do próprio Senhor Deus, dizendo que da linhagem da mulher nascerá um Homem que pisará a cabeça daquela criatura que lhes enganou e fará justiça total e trará vitória final para os dois e seus descendentes fiéis, apesar de todas as dores que este Inimigo infligiria a Este mesmo Salvador. O Homem saiu do paraíso com uma promessa e um aviso, não da parte de Homem, mas de Deus, e eles se agarraram a isso apesar de toda a dor que trouxeram sobre si mesmos. Um padre uma vez me disse “Eva só entendeu a natureza do pecado quando segurou seu filho Abel morto nos braços”. Ali ela entendeu a natureza horrível do pecado e da morte. O que aconteceu foi uma extensão e uma consequência de seu pecado no Éden. Ali jaz, morto em seus braços, um filho assassinado por seu irmão. Um garoto justo coberto de sangue. O primeiro homicídio registrado nas Escrituras. O pecado é sempre horrendo, mas ali ele mostrou visivelmente o que é a separação entre o Homem e Deus. Justo? Sim. Como consequência de separação entre o Homem de Deus, dar aquilo que o Homem escolheu é justo, e não admite devolução, esse foi o caminho que o ser humano quis. Injusto? Sim. Mas quem disse que o pecado é justo? Ele devorará e destruirá tudo que é bom e belo, ele rirá quando você perder tudo que mais ama enquanto faz você sofrer sem alívio, ele destruirá o caráter e secará a alma do homem que viver por ele, transformando-o em um

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monstro, um monstro que precisará ser destruído no final. Esse é o pecado, e ele não se importa com você. Como perdoar um filho culpado? Teria tido inveja Caim por achar que Abel seria Aquele de que a profecia falava? Pois o Criador havia rejeitado o fruto do trabalho de Caim e sua oferta hipócrita e que nada lhe custara, enquanto aceitara a oferta sincera de Abel. Talvez tenha sido isso, mas provavelmente o motivo pouco importava para os pais. Como eles perdoariam tal crime? Como os outros irmãos reagiriam? Eles matariam Caim? Perderia Eva dois filhos no mesmo dia? Seus filhos discordariam e entrariam em um conflito onde muitos morreriam? Como ela poderia aguentar tanta dor se isso acontecesse? Talvez Adão e Eva tenham finalmente entendido o que Deus sentira quando eles pecaram, e como se sentiria até os dias de Noé, e todos os dias até o final dos tempos. A Bíblia é muito sucinta ao lidar com os detalhes. São milhares de anos que devem ser contados em poucas páginas. A essência é mantida. Fatos, breves e curtos. Mas há longas histórias por trás dessas páginas. Especular muito pode ser desastroso e levar a nos distanciar da verdade, mas muitas vezes somos levados por Deus exatamente a nos colocar no lugar destes personagens. Mas algumas comparações são acertadas. Estamos por demais acostumados ao pecado e com essas histórias terríveis para mal nos surpreendermos com a situação do mundo. Mas naquele momento, Eva com certeza captou pela primeira vez com clareza a verdadeira natureza do pecado, seu horror, seu terror, sua risada maligna. Um filho inocente morto, assim como o Filho de Deus seria morto pelos pecados do Homem. Deus perdoa Caim, sua vida é poupada por enquanto, mas seu destino está selado: O sangue de Abel clama por justiça, e para aquele que foge do arrependimento, a justiça o alcançará. As linhagens estão divididas. Alguns partem com Caim para a terra de Node, outros permanecem mansos, em obediência ao Senhor. A história segue resumida em duas genealogias, que dividiremos em etapas. Deve-se ter em mente que as próprias genealogias eram um tipo de literatura, e que as informações selecionadas ou omitidas estruturavam uma narrativa com um determinado propósito. Adão e Eva tiveram muitos filhos e filhas, e seus filhos anotados nessas linhagens também tiveram vários filhos e filhas. Com certeza seria muito interessante conhecer todos estes pormenores, mas a Bíblia não foi feita como uma Enciclopédia para matar nossa curiosidade, nem um antídoto para a gula intelectual. Quando alguém fala na inspiração das Escrituras, uma das coisas que deve ter em mente é que o texto registrado é aquele que Deus 25


achou digno de nota, e o que providenciou que chegasse a nós para nossa edificação. Conhecer todas as ramificações genealógicas de Adão até Noé seria tanto exaustivo quanto inútil, já que apenas Noé conservou uma linhagem completamente pura (sem mistura com a linhagem de Caim), enquanto todas as outras linhagens presentes (pelo menos nesta parte do mundo) foram destruídas pelo Dilúvio. Para cada genealogia deve-se entender o propósito subjacente à sua estrutura. E neste caso o tema da narrativa é o conflito entre a Linhagem abençoada de Sete em contraste com a Linhagem amaldiçoada de Caim.

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O contraste: as linhagens de Sete e de Caim

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1º Geração Quando lemos no versículo de abertura deste capítulo que a Linhagem da mulher estaria em luta com a Linhagem da Serpente, temos que ter em mente que isso se dá na profecia em que o Senhor Deus amaldiçoou a serpente. A próxima passagem bíblica em que Deus aparece falando com alguém acontece no capítulo 4, quando exorta a Caim a que tome cuidado, por que o pecado jaz à porta para dominar o Homem, mas cabe ao Homem cuidar para que isso não aconteça. A próxima cena em que vemos Caim ele é um homem com sangue nas mãos e tentando inutilmente esconder-se de Deus e de sua culpa. Apesar de receber misericórdia com um sinal para que não fosse morto, e ter seu pedido atendido, é dito sobre ele que “És agora, pois, maldito por sobre a terra, cuja boca se abriu para receber de tuas mãos o sangue de teu irmão.” (Gn 4:11). Essa semelhança nos mostra que a Linhagem de Caim é ligada à profecia sobre a Linhagem da Serpente, e que infelizmente, todos aqueles entre os seres humanos que se aliam conscientemente ou não a esta Linhagem terão de enfrentar a justiça de Deus contra o Inimigo, e sofrer a mesma penalidade. A maldição sobre Caim para produzir a partir de uma terra amaldiçoada pelo sangue de seu irmão se encaixa bem na Idade da Pedra, onde a atividade agrícola e o uso de grãos era praticamente uma atividade inútil, quando os grãos ainda não eram domesticados e nutritivos. Esta passagem também joga fora a noção do “bom selvagem”. O homem é assassino desde o início dos tempos, e isso pôde ser constatado pelo esqueleto de um homem da Idade da Pedra assassinado nos Alpes, Otzi, que possuía uma ponta de flecha encravada em seu corpo. Sete foi um filho de Adão o qual nos é dito ter sido gerado à sua semelhança, o que nos liga diretamente ao fato de que Adão também havia sido feito por Deus à Sua semelhança. Por inferência é possível presumir que Sete fazia parte da Linhagem abençoada por Deus, assim como Homem e Criação haviam sido abençoados. O nome Sete parece semelhante ao hebraico para “concedeu, como um presente de Deus para Eva após a morte de seu filho. Ela continuou crendo na esperança de que através de sua Linhagem viria o Justo.

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2º Geração A mulher de Caim concebeu e deu à luz à Enoque, que deu nome à cidade fundada por Caim após sua fuga para Node. Em contraste o nome do filho de Sete é Enos, que significa “homem mortal”. Enquanto uma linhagem se preocupa com a exaltação de si mesmo e a criação de uma cidade e agrupamento para proteger-se contra uma retribuição justa pelo seu pecado, Sete humildemente aceita sua real e frágil condição: ele é simplesmente um homem mortal, nada mais. O autor anota que nesta época começou-se a invocar o nome do Senhor. Há um grande contraste entre o homem terreno que tentar fazer o próprio nome, e o homem com a mente nas coisas eternas, que se preocupa com o nome do Senhor. 3º Geração e 4º Gerações A linhagem de Caim prossegue com Irade, e posteriormente Meujael. É difícil de definir o significado do termo Irade, mas pode significar “rebelde”. Aparentemente Meujael significado “ferido por Deus” o que pode ter significado uma punição por algum ato violento ou uma morte repentina. A linhagem de Sete prossegue com Cainã e Maalalel. Cainã parece ser uma variação de Caim, mas que assume o significado de “possuidor” ou novamente poderia simplesmente querer dizer “adquirido”, o que pode indicar agradecimento por seu nascimento. Maalalel quer dizer “louvor de Deus”. Mesmo quando o texto bíblico se cala sobre os exatos acontecimentos decorridos, pode-se ter uma visão geral de alguns acontecimentos devido ao nome dos personagens. 5º Geração A linhagem de Caim prossegue com o filho de Meujael, Metusael. Este nome significa “homem de Deus”, mas provavelmente não indica que ele era um fiel. Como seu pai provavelmente foi “ferido por Deus” ele pode ter utilizado o nome como uma espécie de interpretação mágica do nome divino, pensando que Deus se agradaria dele por causa da grande “homenagem” de dar o Seu nome a um de seus filhos. Alguns também interpretam a frase “então começou-se a invocar o nome do Senhor” não como um sinal de reverência, mas como uma forma de utilizar o nome de Deus para outros propósitos, inclusive considerar a si mesmo uma divindade. Este poderia ser o caso aqui. 29


É difícil de definir o significado do nome Jarede, o pai do famoso Enoque da linhagem de Sete. Seguindo o que foi dito no primeiro capítulo sobre a linguagem de Gênesis, devemos estar atentos quanto ao propósito e uso das cronologias genealógicas do Antigo Oriente Médio. Em caso de uma visão literal das passagens, segue um quadro com as datas aproximadas para os diversos acontecimentos neste trecho das Escrituras. Não é raro que a palavra “gerou” não seja utilizada de forma direta, de pai para filho, sendo usado para indicar que alguém “gerou” um neto ou até mesmo uma nação. Neste caso deve tomar-se cuidado para não tomar a cronologia exata e literal de Usher como verdadeira. Mas o debate ainda está aberto.

Cronologia aproximada de Adão ao Dilúvio levando contando os anos de modo literal.

6º Geração O contraste entre as duas linhagens se torna muito evidente nesta geração. Lameque (não o pai de Noé) e Enoque (não o filho de Caim) são figuras que não poderiam ser menos semelhantes. Enquanto Lameque se aprofunda no pecado cheio de orgulho e violência, Enoque busca a Deus mais do que qualquer ser humano em sua época. Enquanto o mundo se 30


corrompe, a linhagem direta de Sete até Enoque continua mantendo sua fidelidade. Lameque foi a primeiro polígamo registrado na Bíblia, ou seja, o primeiro homem a abusar da instituição do casamento, que Deus pretendera que fosse apenas entre um homem e uma mulher (ver Gênesis 2.24). Este homem tomou para si duas esposas, Ada e Zilá, que lhe deram pelo menos quatro filhos. Ele era um homem truculento e vingativo. Ele não apenas abusava da instituição do casamento, mas também da justiça, distorcendo os conceitos de retribuição e de perdão, o que fica claro em sua canção pervertida, registrada em Gênesis 4:23-24: “Ada e Zilá, ouvi-me, Vós, mulheres de Lameque, Escutai o que tenho a dizer: Matei um homem que me feriu, E um rapaz que me pisou. Sete vezes se tomará vingança por Caim, De Lameque, porém, setenta vezes sete.” Lameque assume que sua justiça é maior não por retribuir segundo a ofensa que lhe causaram (que é o limite da vingança estabelecida por Deus para os homens), mas por vingar-se muito acima daquilo em que foi ofendido. Ao mesmo tempo seu conceito de perdão é distorcido. Se Caim foi perdoado após um assassinato, Lameque garante que a proteção divina sobre ele será multiplicada, já que ele matou duas pessoas. A mentalidade deste homem é invertida e maligna. Lameque exemplifica como seres humanos começavam a endurecer-se no pecado, gabando-se descaradamente de seu mal, ao invés de envergonhar-se. Até mesmo as maiores bênçãos de Deus aos homens: o casamento, a justiça social e a arte, começam a ser distorcidas e utilizadas para o mal. Os homens começam a considerar que suas vontades são o parâmetro correto pelo qual se medem todas as coisas (claro, que dentro do que parece conveniente a cada um deles). Os freios morais começam a ser esticados além de qualquer limite. O pecado apenas aumenta de geração para geração. Porém, enquanto o mundo se torna cada vez pior, um homem se destaca não por uma mera obediência ao Criador, mas por um relacionamento profundo e tão íntimo que, junto a Elias, é o único homem do qual é dito que não morreu, mas foi arrebatado. Enoque foi obediente em um mundo desobediente, fiel ao Criador em um mundo infiel. Ele é um sinal para os homens que arranjam todo tipo de desculpa para não obedecerem a Deus, como se não fossem abençoados o suficiente para poderem fazer isso. Não apenas isso, ele é um sinal claro tanto para fiéis 31


quanto para os infiéis, de que as coisas deste mundo são passageiras, mas que existe um mundo eterno que é infinitamente maior do que este. Ele também é um sinal de esperança para aqueles homens que talvez nunca tivessem ouvido falar da vida eterna, de que mesmo tendo sido exilados para fora do paraíso, ainda poderia haver um lugar para os homens junto com Deus. Ainda havia esperança. O Lameque da linhagem de Caim causou a morte. O Enoque da linhagem de Sete escapou da morte. 7º Geração Quando Moisés insere no Gênesis os “livros” genealógicos de Adão em contraposição aos registros da descendência de Caim, há um argumento subentendido por todo texto que se torna mais óbvio na sétima geração.

O instrumento mais antigo do mundo encontrado foi uma flauta de osso pré-histórica Gen 4:21.

É um claro questionamento à crença difundida na época de que grandes avanços culturais eram devidos aos ‘deuses’ e ‘semideuses’. O ápice da Armas primitivas de pedra (esquerda) linhagem de Caim é representado pelos e cobre (direita) - Gen.4-22 filhos de Lameque com suas duas mulheres. Jabal e Jubal, filhos de Ada, desenvolveram os primeiros instrumentos musicais, as primeiras moradias em tendas e o início do pastoreio de rebanhos de gado. Já os filhos de Zilá trazem invenções de intenção mais questionável, o nome Naamá, que significa ‘amada’ ou 32


‘agradável’, pode indicar que ela tenha sido a primeira prostituta, enquanto Tubalcaim foi, sem dúvida, o primeiro homem a fabricar armas de cobre e ferro. O argumento implícito do livro é o questionamento dos chamados “avanços da civilização”, creditados às divindades mesopotâmicas em relatos posteriores. Esta cultura avançada, com cidades, arte, pecuária, produtividade e até mesmo metalurgia é uma imagem ambígua: os grandes avanços culturais de um povo que retrocede cada vez mais espiritualmente, com sua imoralidade e violência. Esse foi um questionamento colocado pela Bíblia à época de Moisés, e é também um questionamento para a nossa sociedade contemporânea. Uma civilização que se gaba de ser “evoluída” e que descarta a “moralidade convencional” e a Bíblia como “velhos”. Mas essa mesma civilização possui terrores que nunca foram sonhados, uma arte degradada, um humor sem graça, vomitado por todos os meios de comunicação, livros cheios de futilidade e pornografia, multidões de viciados em narcóticos que mergulham em uma realidade da qual não conseguem voltar, extinção em massa da biosfera, um planeta afogado em dejetos e lixo reciclável, armas de destruição em massa. Não é raro que as civilizações mais “avançadas” sejam aquelas que têm a sua moral mais afrouxada. Não foi uma tribo bárbara, mas a Alemanha da década de 30, um dos países mais letrados do mundo, que trouxe a sombra do nazismo. Foi em Roma que surgiram Nero e Domiciano. Foram os assírios que inventaram os jardins suspensos e floresceram a arte de seus baixosrelevos, e foram o povo mais violento do mundo antigo. Desde a Belle Epóque, quando os homens achavam estar em paz, a guerra, a fome e a peste nunca cessaram, e a humanidade viu desgraça num nível nunca antes imaginado. Essa é uma história que começou na época de Lameque. Enquanto o tempo passa, Matusalém observa. O piedoso Matusalém não desfrutou dos ‘benefícios’ de tal civilização, mas tem a maior de todas as idades registradas na Bíblia, vivendo até a data do Dilúvio, cinco anos mais que seu filho. É possível que Deus estivesse apenas esperando a morte de Matusalém para eliminar o mundo corrompido e trazer um mundo novo. Já a linhagem amaldiçoada começa com CAIM e termina com TubalCAIM, ela começa e termina consigo mesma. Não só ela é egocêntrica, como todos os seus avanços foram inúteis, pura vaidade varrida pelas águas. Apressou-se para chegar a lugar algum. Fez-se grande para tornar-se nada.

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Da 8º geração até a 10º geração As notas sobre os últimos tempos anteriores ao Dilúvio são bem conhecidas entre cristãos e não cristãos. O texto bíblico afirma em Gênesis 6:1-4 “Como se foram multiplicando os homens na terra, e lhes nasceram filhas, vendo os filhos de Deus que as filhas dos homens eram formosas, tomaram para si mulheres, as que, entre todas, mais lhes agradaram. Então, disse o Senhor: O meu Espírito não agirá para sempre no Homem, pois este é carnal; e os seus dias serão cento e vinte anos. Ora, naquele tempo havia gigantes na terra; e também depois, quando os filhos de Deus possuíram as filhas dos homens, as quais lhes deram filhos; estes foram valentes, varões de renome na antiguidade.” Existem diversas polêmicas envolvendo estes quatro versículos. A primeira delas é a identidade dos filhos de Deus. Existem três teorias dominantes sobre quem seriam os filhos de Deus:  Descendentes de Sete ou outras linhagens não corrompidas;  Anjos;  Descendentes poderosos de Lameque que tomaram para si status divino. As três teorias são válidas e podem passar pelo crivo da interpretação bíblica. Deve-se ter em mente que o que possa ter sido esta mistura entre descendências, ela foi vista de modo tão abominável por Deus que motivou tanto a destruição da raça humana pelo Dilúvio quanto a retirada da proteção do Espírito Santo de sobre os homens. A primeira hipótese indica uma tentativa de mistura entre uma “linhagem santa” com uma “linhagem profana”, (julgo desigual) algo que sempre provocou o desagrado divino, desde o Antigo Testamento até o Novo. A segunda possibilidade pode indicar um tipo de ligação sexual abominável entre seres espirituais e físicos, algo que seria tão completamente fora dos limites impostos por Deus quanto a zoofilia (sexo entre homens e diferentes espécies animais). Esta última possibilidade também abre um perigo espiritual muito grande, já que aquele que se casa se torna uma só carne com aquele com quem mantém relação sexual, este tipo de ligação traria um grave risco de possessão demoníaca.2 A terceira possibilidade indicaria a tomada à força de mulheres. Este ato selaria a espiral descendente de perversão sexual que começou com a 2

William Schnoebelen, capíítulo 18, paí g. 190-191 de seu livro ‘Maçonaria: por traí s da fachada de luz’, descreve o tipo de implicaçaã o espiritual destes “casamentos” impuros.

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bigamia de Lameque, passou pela prostituição de Naamá e terminaria com o estupro cometido por estes homens poderosos. Também é possível que todas estas possibilidades apresentem um nível de verdade. Outra polêmica está ligada à identidade dos descendentes desta mistura de linhagens, os chamados gigantes. O texto deixa claro que mesmo após o Dilúvio ainda existiam gigantes. Outro termo utilizado para eles é valentes, no próprio texto. Estes guerreiros eram varões de renome na antiguidade, o que indica poder e força física devida à estatura, ou então poder e influência políticos. Os nomes dos valentes guerreiros não são citados, pois provavelmente já eram conhecidos popularmente. Após o Dilúvio pode-se citar Gilgamesh, por exemplo. A última polêmica gira em torno do limite de 120 anos em que o Espírito Santo permaneceria com os homens. Geralmente eles foram interpretados como os anos de vida que começaram a diminuir a partir desta época, porém, o primeiro patriarca bíblico a viver menos que 120 anos foi José, que viveu muito após o Dilúvio. É possível que os 120 anos sejam o tempo decorrido entre o aviso para a construção da arca e o Dilúvio, e a retirada da proteção do Espírito Santo esteja ligada à morte de Matusalém. A linhagem de Sete possui três gerações a mais do que a de Caim. Mesmo Matusalém também tendo um filho chamado Lameque, este morreu cinco anos antes do Dilúvio, enquanto Matusalém viveu até esta época. Também há contraste entre o Lameque da linhagem de Caim e o da linhagem de Sete. Um Lameque era terreno e depravado, o outro era espiritual e santo. É dito que Lameque sabia que seu filho Noé seria aquele que traria descanso e consolo dos trabalhos e fadigas das mãos da geração abençoada. Ele ouvira a voz de Deus. Provavelmente ele e Matusalém ajudaram Noé e seus filhos (assim como suas mulheres) na construção da grande Arca que salvaria a humanidade. E quando as águas do caos varreram todos os homens com suas “grandes criações”, o trabalho das mãos de Lameque permaneceu, além do “fim do mundo”. Noé e sua família foram os únicos a permanecerem puros em um mundo corrupto. Isso não foi esquecido pelo Senhor. Sem, Cam e Jafé, com suas mulheres, nasceram em um mundo antigo, e viveriam para pisar em um novo mundo.

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Holandês constrói sozinho réplica em tamanho real da Arca da Noé.

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Parte 2

As gerações dos filhos de Noé

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1- Os filhos de Noé “ (...) Fez o que era mal perante o Senhor, segundo as abominações dos gentios que o Senhor expulsara de suas possessões (...) queimou seus filhos no vale do filho de Hinom, adivinhava pelas nuvens, era agoureiro, praticava feitiçarias, tratava com necromantes e feiticeiros (...) fez errar a Judá e os moradores de Jerusalém, de maneira que fizeram pior do que as nações (dos cananeus) que o Senhor tinha destruído de diante dos filhos de Israel.” 2º Crônicas 33:1-9 Noé e seus filhos entraram na arca em um mundo e saíram dela em outro. Enquanto as águas do Dilúvio cobriam a face do mundo, os sobreviventes da humanidade foram separados do caos pelas tábuas de cipreste seladas com o betume impermeável. Cento e cinquenta dias se passam. Noé e os outros se perguntam o que está acontecendo do lado de fora, e quando chegará o dia da nova criação. Noé sabe que há um tempo certo para tudo, e é Deus quem o determina. Então ele e sua família esperam. Dimensões aproximadas da Arca e comparações ilustrativas. Por muitos dias houve barulho e tormenta, mais do que se podia suportar. O som do ribombar de todos os abismos se abrindo e terríveis tempestades fora um espetáculo assustador até mesmo para o maior dos justos. Deus era terrível em sua fúria contra o mal. A arca tremera como se fosse virar, balançara por dias nas ondas da destruição, e as finas tábuas de madeira não cobriram o rugido feroz dos mares. Apenas barulho, por dias e mais dias, até acostumarem-se. No princípio o terror constante de que as tábuas de madeira se quebrariam, 38


de que uma colisão com qualquer montanha que não vissem do lado de fora despedaçaria o cipreste, devia ser permanente. Uma argumentação contra Deus pode ter-lhes passado pela mente, “Como Deus pode ter se esquecido de colocar um leme nesta arca?”. A desconfiança cresce. Mas eles se recordam que a arca não precisa de leme, pois é Deus quem a guia Os dias se passam até que se acostume com o chacoalhar. A apreensão diminui, Noé sabe que o projeto da arca não é dele mesmo, mas que foi projetada por Deus. Ele não estava no cubo gigante de Gilgamesh3, ele estava em algo planejado especificamente para aguentar aquela situação. Ele seguiu as instruções? Se as seguiu não havia perigo. Mas mesmo assim é difícil não ficar ansioso e dar uma olhada escondido na impermeabilização para ver se está tudo certo, se não há vazamentos, se Deus realmente os estava protegendo. É difícil confiar, mesmo após ver todo o poder de Deus e sua provisão durante toda sua vida. Mas agora que esta agitação toda passara, estava tudo muito quieto. Sim, quieto demais. Tudo permanecia em silêncio, e nem sinal de terra seca. Teria Deus se esquecido deles? Teria Deus se esquecido de retirar as águas de sobre o abismo? Teria Deus se arrependido de salvá-los, assim como se arrependera de ter colocado o Homem sobre a Terra? Assim pode ter pensado a mente humana limitada dos sobreviventes escolhidos. Todo homem começa o seu relacionamento com Deus baseado na confiança como a de uma criança que prossegue para a maturidade. Lameque havia sido recolhido por Deus. Matusalém partira velho e sábio, entendido nos propósitos do Criador, antes do Dilúvio. Agora era a vez de Noé e sua família começarem a conhecer por si mesmos quem era o Senhor Deus, e era isso que estavam fazendo dentro da Arca. Se uma nova humanidade deveria começar, então deveria ser uma humanidade que sabia esperar o tempo de Deus para este novo mundo. Talvez no momento de maior angústia para todos, a pomba retorna com o sinal de esperança: há um ramo de oliveira em sua boca, Deus não havia se esquecido deles. Depois de sete dias Noé solta a pomba novamente, ela não retorna: existe terra seca. No dia 27 do segundo mês do ano 600 da vida de Noé, o solo está enxuto e firme, pronto para ser ocupado novamente pelos homens e animais. Depois de tanto tempo dentro da arca, não havia como não se sentir agradecido e com o coração pulsante de alegria diante da vastidão 3

No ÉÉ pico de Gilgamesh, o heroí i constroí i uma arca com o mesmo objetivo que Noeí , poreí m em apenas uma semana. Ésta embarcaçaã o da lenda sumeí ria possuíía a forma de um gigantesco cubo, o que a impossibilitaria de flutuar, mesmo que estivesse vazia. Poderiam suas proporçoã es simeí tricas revelar um propoí sito de perfeiçaã o e naã o literalidade no texto?

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que se estendia de horizonte a horizonte. Ar puro e fresco novamente. Os sobreviventes sentem o brilho do sol em suas peles. Deus abençoa os homens e os animais. Noé consagra a criação e sua descendência a Deus em uma oferta de agradecimento, dedicação e comunhão. Deus se agrada dele. Um arco-íris aparece como símbolo da aliança do Criador com sua nova criação. O arco de Deus guerreiro está pendurado para cima em sinal de paz. Deus não destruiria novamente a Terra pelas águas. Embora este novo mundo ainda não apresente pecado, é mostrado a Noé e sua família que o pecado está agarrado ao coração do homem desde sua juventude, como consequência da Queda, e isso não pode ser desfeito até o final dos tempos. Para impedir que a maldade do Homem rapidamente destrua o mundo novamente como havia sido feito anteriormente, Deus diminui drasticamente a duração da vida humana. Parece que uma longa vida no pecado tornava os homens ainda mais duros de coração e piores do que vemos nos dias atuais. Outra medida tomada por Deus para impedir que o Homem rapidamente trouxesse o caos à Criação é a delegação da autoridade do Homem para punição daqueles que derramassem o sangue inocente de outro Homem. A graça que fora concedida a Caim e a outros não seria concedida novamente. Essa coibição do assassinato se tornou uma obrigação social (embora a vingança não o seja), e não uma questão pessoal, já que Deus disse: “Certamente, requererei o sangue, (...), se alguém derramar o sangue do homem, pelo homem se derramará o seu, porque Deus fez o homem segundo a Sua Imagem.” Esta lei também se estende aos animais, que também deveriam ser protegidos, porém, infelizmente se toma nota de que o domínio do homem sobre os animais não seria mais como o ordenado para Adão, e sim, degradado pelo pecado, causando medo e terror aos animais. A base para os direitos dos animais está na vida e bondade da Criação de Deus, a base para os direitos humanos está ligada à Imagem de Deus no Homem. O Homem não possui direito à vida per se, ou seja, independentemente do modo que agir, ou independentemente do que fizer. A vida, a respiração e o sopro de Deus que lhe dá existência, são entregues ao Homem na medida em que Imagem de Deus nele permanece, e é uma graça. Se o Homem corrompe sua existência, destruindo a Imagem de Deus que foi colocada em seu coração, ele abre mão do seu direito à existência, pois ele não reflete mais a bondade de Deus, mas usou de sua própria vontade para perverter os atributos que tornavam sua existência em algo benéfico para a Criação. Essa perversão humana no pecado encontra sua expressão por toda história e é destacada nos filhos de Canaã, como veremos abaixo. Caso o leitor duvide ou desconsidere os relatos sobre os cananeus e a justiça de 40


Deus em sua destruição, peço que considere consigo mesmo se seus próprios padrões de justiça não poderiam estar corrompidos demais para entender isto, por fim sugiro que veja um filme chamado Apocalypto, e pense em até onde o pecado pode levar uma civilização.4 Após passado um tempo não especificado na Bíblia, algo estranho acontece, como se lê em Gênesis 9:20-24 “Sendo Noé lavrador, passou a plantar uma vinha. Bebendo do vinho, embriagou-se e se pôs nu dentro de sua tenda. Cam, pai de Canaã, vendo a nudez do pai, fê-lo saber, fora, a seus dois irmãos. Então, Sem e Jafé tomaram uma capa, puseram-na sobre os próprios ombros de ambos e, andando de costas, rostos desviados, cobriram a nudez do pai, sem que a vissem. Despertando Noé do seu vinho, soube o que lhe fizera o filho mais moço.” Esta curta passagem deixa muitos detalhes em aberto, como o motivo que levou Noé a embebedar-se. Teorias diversas são apresentadas para explicar este embaraço: 1-Como as relações entre o Homem e a natureza haviam se modificado, pode-se supor que o poder da natureza tenha se tornado maior em relação ao corpo humano, fazendo com que o álcool, antes sem nenhum efeito sobre o corpo humano, agora tivesse efeito significativo sobre este, mesmo o maior dos justos estaria sujeito aos males dos entorpecentes; 2-É possível que fosse a primeira vez que muitas das diversas culturas vegetais ainda estivessem sendo testadas. A videira é originária da região do Cáucaso, próxima aos montes de Ararate, onde a arca repousou, e é possível que Noé tenha sido o primeiro descobrir os seus efeitos; 3-Noé era um ser humano imperfeito, e este poderia ser um defeito pessoal; 4-Um filme atual propôs a teoria de que Noé pode ter sofrido de um mal muito comum em sobreviventes de grandes desastres ou situações de choque, denominado “culpa do sobrevivente”, associado ao luto 5, pessoas com esse mal podem se tornar muito tentadas ao alcoolismo.

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Neste filme sobre o declíínio da civilizaçaã o maia antes da colonizaçaã o pelos europeus, o personagem principal passa por todo o espetaí culo de horrores das cidades e “zigurates” da Ameí rica. Note que a Bííblia diz indiretamente que Noeí tinha irmaã os e irmaã s, em Geê nesis 5:30

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Ao descobrir que seu filho Cam viu sua nudez e espalhou esta notícia a seus irmãos, algo aparentemente ainda mais estranho acontece em Gênesis 9:25-27: “Então disse Noé: maldito seja Canaã ; Seja servo dos servos para seus irmãos. Bendito seja o Senhor, o Deus de Sem; e Canaã lhe seja servo. Engrandeça Deus a Jafé. e habite ele nas tendas de Sem; e Canaã lhe seja servo.” O leitor se interrompe refletindo sobre algo que parece não fazer sentido. Afinal seria injusto receber uma maldição simplesmente por ter visto o pai nu e contar aos irmãos. Como o texto permanece silencioso, talvez pressupondo que o leitor consiga decifrar o acontecimento, ou propositadamente fazendo trabalhar a mente do fiel, algumas teorias foram propostas para o rigor desta maldição: 1-Cam caçoou da situação de seu pai, desonrando-o, mesmo apesar de este ter se mostrado fiel a Deus por tanto tempo e merecendo ser honrado como pai e como o motivo de a raça humana ter sobrevivido; 2-O termo “viu a nudez de seu pai” é encontrado em Levítico 18:6-19 e 20:11,17-21 como um termo para ter qualquer tipo de ato sexual com alguém. Isso pode indicar que Cam tenha molestado seu próprio pai; 3-O termo “a nudez de seu pai” também pode ser aplicado à mulher de seu pai, e, neste caso, Cam pode ter atacado sexualmente sua mãe. As três explicações indicam um ato abominável e odioso, para o qual há uma justa retribuição da parte de Deus. Mas estranhamente a maldição não cai sobre Cam, e sim sobre Canaã, que era filho deste. Este fato indica que uma quantidade considerável de anos haviam se passado, o suficiente para que Cam tivesse um filho. A maldição cair sobre Canaã e não sobre Cam, parece indicar que, assim como Cam desonrara seu pai, a mesma punição lhe seria aplicada, e Canaã desonraria seu próprio pai de algum modo. A desonra contra a própria mãe poderia ter sido motivada pela tentativa de tomar o poder. Tomar a mulher do pai era uma afronta direta que visava subjugar a autoridade e humilhar publicamente, e é um ato repetido em outros trechos das Escrituras, como Rúben tomando a concubina de Abraão e o golpe de estado de Absalão contra Davi. Cam poderia ter feito isto não para tomar o poder para si mesmo, mas para seu 42


filho Canaã e agindo em acordo com este, o que explicaria o direcionamento da maldição para Canaã. A retirada da herança deste filho rebelde se daria no tempo devido, sendo passada ao descendente escolhido de Sem. Jafé e Sem agem honrosamente, cobrindo a vergonha do pai, do mesmo modo que Deus havia feito com Adão e Eva no Jardim do Éden. Jafé e Sem seriam aliados. A crença errônea de que a maldição foi direcionada a todos os filhos de Cam, usada durante a política racista do apartheid não é procedente.

Descendência simplificada de Noé.

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2-A Tábua das Nações “E eles cantavam um cântico novo: ‘Tu és digno de tomar o livro e de abrir seus selos, porque foste morto, e com o teu sangue compraste para Deus homens de toda tribo, língua, povo e nação.” Apocalipse 5:9 O capítulo dez de Gênesis é conhecido como A Tábua das Nações. É o maior dos registros genealógicos deste livro da Bíblia, e mostra um total de 70 nomes. Não é necessário assumir que os 70 nomes aqui foram os únicos descendentes de Noé. Antes, o número é escolhido para determinar a ideia de perfeição e completude através da multiplicação de 7 (número que representa perfeição) por 10 (número que representa completude). A ideia na Tábua das Nações é o cumprimento do plano de Deus para os homens através da benção da multiplicação sobre os filhos de Noé. Os homens foram ordenados a multiplicarem-se e encherem a terra. Embora os homens tenham desobedecido esta ordem juntando-se para fazer a Torre de Babel em oposição aos planos de Deus, Deus os espalhou para cumprir este objetivo. O objetivo de Deus era tanto o domínio do Homem sobre a Terra, quanto a criação de diversas culturas que expressassem a beleza, diversidade, completude e perfeição de Deus através de sua pluralidade. O objetivo de Deus não era criar uma cultura ou culturas completamente iguais umas às outras, muito pelo contrário: através da diversidade de ‘raças’, roupas, aparências, culinária, literatura, música etc., criar um mundo habitado pelos filhos de Noé que, estando unido na adoração ao único e verdadeiro Deus, refletiria a glória de Seu Filho. Quando os homens construíram a Torre de Babel, eles tentaram unir os Homens em uma única cultura, mas que poderia adorar a quem ou o que lhes agradasse, e isso era a imagem inversa do plano de Deus para a humanidade. Os planos de Deus não podem ser impedidos, e assim, Deus os dispersou para cumprirem seu plano. É preciso notar que esta desobediência no pecado causou a queda de todas estas nações, que pecaram e foram afastadas da glória de Deus. Geralmente, no Antigo Testamento, os animais puros e impuros são representantes das nações de Israel e de todas as outras nações, respectivamente. Na arca de Noé foram salvos tanto animais puros quanto impuros. Deus pretende salvar nada menos do que um 44


representante de cada tribo, língua, povo e nação para a glória de Seu Filho. Jesus Cristo é a Nova Arca, e Ele chama os Seus para ela. Os que forem salvos para a nova Terra e Céu habitarão com Ele em Sua glória, refletindo-a para sempre. Alguns consideram que a passagem “conforme seus clãs e línguas, em seus territórios e nações” não considera a divisão apenas por quesitos de genealogia, e sim por outros quesitos, geográficos, históricos e culturais. Outros consideram que esta frase está apenas falando sobre as divisões interna, presentes já na própria divisão genealógica de cada uma das três linhagens dos filhos de Noé: os jafetitas, os camitas e os semitas. A ideia de um Dilúvio local também deixa em aberto as outras linhagens de Adão espalhadas por todo restante do mundo que não haviam sido dizimadas pelo desastre no Mar Negro. O objetivo do Pai enviar Seu Filho foi em parte para salvar pessoas de todas as nações e culturas. Como na Arca: não todos os animais do mundo, mas representantes escolhidos, atraídos para a salvação pelo próprio Deus. Nem todos os homens foram salvos por Deus, apenas uma minoria, mas através dessa minoria, nada do que Deus tinha em mente será perdido no reino dos céus. As culturas humanas possuem belezas incomuns e diversas, mas foram todas distorcidas pelo pecado. Nenhuma cultura é pura e cristalina como Deus intenta. Mas chegará o tempo, em que o reino dos homens estará totalmente sob Deus, e será algo belo e glorioso de se ver. A Terra inteira se regozijará na Paz com Seu Rei, e todas as culturas humanas poderão representar a glória de Cristo perfeitamente, de um canto a outro de toda a Terra. Só Deus sabe a beleza e a grandeza que está preparada para a Nova Criação, na qual o Homem terá um lugar tão importante. Não será como nada que já vimos, mas muito do que já vimos, estará lá, mas no contexto e do modo como Deus quer que esteja.

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Os filhos de Jafé

“Engrandeça Deus a Jafé” Gênesis 9:27

Os descendentes de Jafé tornaram-se engrandecidos em parte devido à obediência de seu pai a Deus. A genealogia de Gênesis 10:1-5 dá uma breve descrição de sete de seus filhos, abrindo um parêntese em dois deles (Gômer e Javã) e sete de seus netos. Duas gerações com um número sete podem indicar uma dupla benção.

Descendentes de Jafé

Gômer "A dama do gelo", a mais bela das múmias O primogênito de Jafé foi Gômer, que é identificado como o pai do que posteriormente foram os povos cimerianos. Estes povos ultrapassaram o Cáucaso para ocuparem as regiões ao norte do Mar Negro. A profecia de 47


Noé de que Jafé seria engrandecido se torna verdadeira quando estes grupos humanos indo-europeus migram para o norte e oeste. Asquenaz Os descendentes de Asquenaz se espalharam tão longe quanto a própria região ao norte da China e Mongólia, tão longe que sai muito do mundo conhecido no Antigo Testamento. As vastas planícies e tundras congeladas russas foram ocupadas até as montanhas de Altai e a Sibéria. Seus descendentes mais conhecidos foram os citas, ferozes guerreiros nômades que vagavam com seus cavalos. Asquenaz foi o primogênito de Gômer, o que explica o fato de ter sido grandemente abençoado

Múmia incrivelmente preservada da região do Altai, perto da fronteiras chinesas.

com força e expansão territorial. A maior parte das informações que temos sobre os citas vêm do historiador grego Heródoto, e através de seus relatos se tem conhecimento das mulheres citas, as famosas amazonas. Estas eram mulheres muito altas, como todo o povo era, montadas sobre cavalos e ainda com longos artefatos erguidos sobre a cabeça, a altura total destas figuras era de aproximadamente três metros. Deviam ser terríveis de serem contempladas, e se tornaram a inspiração para lendas posteriores, como a das amazonas. Rifate A identificação de Rifate é muito difícil e a maioria das notas bíblicas sobre este nome simplesmente dirá que é um povo não identificado. Na ausência de dados sobre este grupo, arrisco-me a dizer que seria possível identificar seus descendentes como o povo do Vale do Rio Indo. 48

Estátua de homem desconhecido de Mohenjo Daro.


Este povo cuja escrita não foi decifrada é considerado como o maior dos chamados “berços da civilização”, ocupando uma vasta área na Índia. Esse fato coincide com a benção de expansão sobre Jafé. Pouco se sabe sobre este povo, mas aparentemente sacrificava cavalos, o que demonstra sua conexão com outros povos jafetitas. Suas cidades eram avançadas, com sistemas de esgoto e coleta de água da chuva, grandes piscinas usadas como reservatórios, e sistemas de coleta de lixo. Este povo era pacifista, e não foram encontradas armas na larga extensão de seus territórios, o que é algo incrivelmente raro, se não inédito. Sua civilização chegou a um fim misterioso, talvez migrando para outras áreas quando os rios do subcontinente indiano mudaram seus cursos. Também é possível que tenham sido conquistados facilmente, dada a possibilidade de não terem armas. Mas também é possível que a ausência de evidências para armas seja derivada de serem feitas de madeira.

Togarma Os armênios afirmam descender de “Haik, filho de Torgom”. A região da armênia, também chamada Ararate, foi o berço do poderoso reino de Urartu. Localizase em uma zona fronteiriça entre Turquia, Irã e a Colossais cabeças de pedra nas montanhas armênias Antiga União Soviética. Sua localização estratégica a fez ser palco de muitas guerras, mas na Antiguidade, sua defesa contra impérios como os assírios era facilitada por ser uma área montanhosa e bem fortificada.

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Magogue . Os lídios, aparentados dos citas, geralmente foram identificados com Magogue. Se espalharam pela região próxima ao Mar Negro. Possivelmente os comerciantes desta região foram os primeiros a utilizarem moedas. Por um tempo chegaram a governar a partir de sua capital, Sardes. São lembrados principalmente pelo papel nas profecias de Ezequiel e Apocalipse, onde são citados como tendo um rei ou general, “Gogue, de Magogue”, que lutará contra o povo de Deus no dia do Juízo com um vasto exército mundial, mas será derrotado. Poderosos cavaleiros lídios Tubal, Meseque e Tiras Tubal, Meseque e Tiras geralmente são associados a povos aparentados que viviam na região da Turquia, como a Frígia e a Trácia, região comumente chamada Ásia Menor. A capital da Frígia era Górdio, e o mais famoso de seus reis foi aquele que

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deu origem à lenda grega de Midas. 6 Outro rei imensamente rico e que ficou conhecido foi Creso, rei da Lídia. A proximidade entre estes filhos de Jafé e Magogue é grande. Alguns associam Tiras aos tirrenos, povo navegante do mar Tirreno, o que os colocaria mais próximos dos gregos. A interpretação errônea da profecia de Ezequiel é de que Meseque significa o mesmo que Moscou. Isso é errôneo, pois a região de Meseque está localizada juntamente aos outros reinos na extensão da atual Turquia. A Anatólia, região rica em recursos minerais da Turquia tornou-se importante para muitos impérios. Ouro, prata, cobre e outros recursos circulavam a partir desta região, e é dito que Salomão comerciava com estes povos, e que os cavalos da região da Cilícia, no sul da Turquia, eram trazidos para Israel por peças de prata. Na imagem ao lado está representado um casal de cavaleiros da região turca. Notar o grande aparato feminino sobre a cabeça da mulher à esquerda, influência da arte cita.

Madai Madai deu origem aos medos (lê-se médos) e persas. São os atuais curdos e iranianos, respectivamente. Os persas tornaram-se uma das mais esplêndidas civilizações dos tempos antigos. O primeiro rei de seu vasto império, unificado ao reino dos medos, foi Ciro, o Grande, escolhido por Deus para libertar o povo de Israel do cativeiro e permitir a reconstrução do Templo de Salomão. Este povo foi incrivelmente tolerante em comparação com os povos próximos, e isso fez com que seu reino fosse facilmente estabelecido sem muita resistência. Mesmo depois de ocuparem as planícies iranianas com belas cidades cheias de palácios revestidos de elegantes tecidos e ouro, permaneciam tendo habitações de inverno e de verão, preservando traços de sua cultura nômade. Os atuais iranianos, apesar de muçulmanos, não são árabes, nem semitas. São um povo caucasiano e de pele clara. Os 6

Na lenda de Midas, o famoso rei tem a aparente bençaã o de transformar todas as coisas que toca em ouro, poreí m esta bençaã o se torna em maldiçaã o, quando as proí prias pessoas e a comida e bebida que toca tambeí m se tornam ouro, o que o leva aà morte.

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persas sempre foram grandes engenheiros, principalmente na área relacionada a hidráulica, e não era raro o uso deste conhecimento para incríveis feitos militares. Os curdos atualmente não possuem um território que possam chamar país. Este povo permaneceu à margem de poderes maiores, quase sempre subordinados e traídos por alianças originadas no interesse de outras potências.

Atualmente são protegidos pelos americanos, que estabeleceram uma região no norte do Iraque chamada Curdistão, protegendo-os da perseguição e genocídio na época de Saddam Hussein. A região rapidamente se tornou desenvolvida, mas como estão acostumados a serem um joguete nas mãos de outras nações de acordo com a conveniência destas, a desconfiança de quanto tempo esse período de paz durará permanece. Talvez o traço cultural mais interessante dos curdos sejam as mulheres Peshmerga, treinadas nas artes militares desde cedo, e prontas para darem suas vidas em defesa de seu povo. As jovens curdas têm tido um papel importante na luta contra o Estado Islâmico. A coragem e delicadeza daquelas meninas é o extremo oposto da covardia e brutalidade do ISIS. Quer o movimento do Califado se espalhe ou não, temos uma dívida para com essas bravas guerreiras, e muito a aprender com sua bravura. Javã Javã deu origem aos gregos Jônicos, ou seja, aqueles que primeiramente habitaram a península grega, 52


mas foram expulsos e então passaram a habitar a costa leste da Turquia, fundando cidades importantes como Éfeso e Mileto. Em sua busca por sabedoria através do pensamento racional, foram os primeiros a teorizarem sobre o átomo e a composição da matéria, formação do Universo e tiveram grandes contribuições nas áreas da filosofia, pedagogia e astronomia. Junto com Gômer, Javã é o único filho de Jafé que recebe uma nota sobre seus descendentes: “Elisá, Társis, Quitim, Dodanim. Estes repartiram entre si as ilhas das nações nas suas terras, cada qual segundo a sua língua, segundo as suas famílias, em suas nações”. O texto descreve a colonização do mar Mediterrâneo, principalmente do mar Egeu. Identificam-se estes nomes com ilhas mediterrâneas como Chipre e Rodes, lar do famoso Colosso de Rodes, uma das sete maravilhas do mundo antigo. Acima, é possível notar a beleza da costa entrecortada das terras gregas, que os estimulou a se tornarem grandes navegadores, exploradores e colonizadores no mundo antigo. É possível que o destaque dado a Javã em Gênesis faça parte do propósito de Deus na profecia de Noé, que diz “Habite Javã nas tendas de Sem”: um prenúncio do Novo Testamento e da importância que os gregos teriam como um dos primeiros povos a se converterem a Cristo.

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Os filhos de Cam “Cuxe gerou a Ninrode, o qual começou a se fazer poderoso na terra. Foi valente caçador diante do Senhor (...) O princípio do seu reino foi Babel, Ereque, Acade e Calné, na terra de Sinar. Daquela terra partiu ele para a Assíria, Reobote-Ir e Calah, a grande cidade de Resém.”. Gênesis 10:8-12 Ao lado: descendentes de Cam. Era dito popularmente que os filhos de Cam povoaram a África. Isso é uma afirmação simplista e que convinha muito bem com as políticas racistas do início do século passado ou do período colonialista. Mas a maldição de Canaã não caiu sobre os seus irmãos. Na narrativa da Torre de Babel, fica claro que todas as nações pecaram juntamente contra Deus, e não apenas os filhos de Cam, isso se torna mais óbvio diante do fato de que todas as nações falam línguas diferentes a partir de Babel. Os citas e cimérios, por exemplo, pertenciam à linhagem de Jafé, mas também ofereciam sacrifício humano, inclusive enterrando bebês vivos. Todos os povos se entregaram a guerras violentas, cobiça, estupro e idolatria em rebelião contra o Senhor Deus. Fica dado o aviso, porém, de que foi na terra de Sinar que tudo isso começou, onde novamente os homens se rebelaram contra o Deus,

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gerando grande dor e miséria para a raça humana, que deveria ter sido esquecida sob as águas do Dilúvio. Ao todo são 30 descendentes de Cam listados: 4 na primeira geração, 14 na segunda e 12 na terceira. Cuxe Os versículos de abertura do capítulo 10 se encontram no centro da Tábua das Nações como um destaque a esta sessão bíblica. De acordo com o relato os homens falavam apenas uma “língua” quando chegaram na terra de Sinar (Suméria). Abaixo, arte suméria representando um zigurate, uma montanha artificial que é uma clonagem espiritual (uma paródia), da Montanha de Deus no Éden. A narrativa bíblica narra como os homens se uniram (alguns dizem que sob o comando de Ninrode, filho de Cuxe, outros dizem que isso é presumir mais do que o texto diz, e chamam a atenção para o fato de que isso pode ser apenas uma tradição sem base bíblica) para “fazer uma torre cujo topo chegasse aos céus” e “E disseram uns aos outros: vinde, façamos tijolos e queimemo-los bem. Os tijolos serviram de pedra, e o betume, de argamassa. Disseram: Vinde, edifiquemos para nós uma cidade e uma torre cujo topo chegue até aos céus e tornemos célebre o nosso nome, para que não sejamos espalhados por sobre a terra.” O ser humano possui uma ironia inerente. Quanto mais afastado de Deus, mais assustado ele se torna. Quanto mais inseguro, mais alto ele constrói. “Para que não sejamos espalhados pela face da terra” disseram os homens. Bem, mas esse era o plano de Deus para eles! Do que eles tinham medo afinal de contas? O homem sem Deus é incrivelmente paranoico em relação à boa vontade do Criador para ele, o suficiente para fugir de Seus presentes como um cachorro assustado foge do veterinário ou do banho! Este tipo de homem está sempre olhando por sobre seus ombros para ver se o “terrível ditador universal” não está ali o “importunando” (cuidando seria a palavra certa). 56


Este capítulo da Bíblia é cheio de ironia implícita. Os homens veem a obra de suas mãos como algo gigantesco que alcançaria até os céus, mas Deus tem que se abaixar para enxergá-la. O único modo de alguém acharse grande, ou sábio, ou forte é desconhecer a Deus. Os homens constroem uma escada para “subir” aos céus, mas é Deus quem “desce” por ela. É somente a ignorância humana que “capacita” alguém a erguer sua boca contra os céus. E veja o que estes homens alcançaram, tinham medo de serem dispersos por Deus para serem abençoados! Isso mostra que o ser humano não pode se unir, a não ser por Deus, que é o centro pelo qual todas as coisas podem ser ligadas. Foi assim naquela época e por toda a história. Os poderosos e os bilionários sempre tentam construir seu Uma "Torre de Babel" engolida pelo deserto. O uso excessivo “nome” e seu legado, do solo causou seu esgotamento, transformando a planície tentam parecer babilônica em deserto. imponentes e imortais, mas tudo que são é um bando de crianças assustadas brincando de chamar atenção. Seja um sheik poderoso que escreve seu nome em letras gigantescas no meio do deserto, sejam aqueles CEO´s ou donos de corporações que derrubam uns aos outros para chegar onde estão. Mas Babel é muito mais do que a classe rica, Babel é toda a civilização humana, que, de comum acordo, negou a Deus para exaltar a si mesma com sua falsa religião e piedade, sua falsa moral, seus falsos objetivos e sua falsa vida. Sejam ricos, sejam pobres, sejam “sábios” ou tolos, eles fazem a fila dos condenados que esperam chegar ao céu em sua torre de ilusões, mas que verão Deus como Ele realmente é e se espalharão em terror. Babel é o sistema humano falido, mas que todos “compram”, uma mentira enfeitada pelo marketing, uma grande bolha com nada mais que ar em seu interior. É o mundo que faz seu próprio caminho, vaidade de vaidades. Um monte eterno de escombros, uma escada nunca completada, uma estrada para lugar nenhum. Agora, no final dos tempos, é muito provável que se veja todo o mundo unido em torno de uma falsa ideologia e piedade. É perda de tempo gastar as horas procurando coisas sobre os Iluminattis no Youtube, 57


não são eles que controlam a história, é Deus. Cuide de seu próprio relacionamento com Deus, é possível que você seja apenas mais um tijolo nessa torre e não o saiba. Os homens tentarão se unir novamente, pela falsidade de tentar ter paz sem o Senhor. Eles inventarão mentiras e abominações como sempre fizeram por toda a história. Mas a cola que os une é muito frágil. Todos os impérios do mundo se fragmentaram, pois os homens não podem manter-se unidos por nenhum objetivo comum que não seja o verdadeiro temor do Senhor. Pentecostes é o oposto de Babel. A maldade e o egocentrismo nunca poderão unir os homens, mesmo que seja por uma aparente humildade ou causa justa. Não é isso que a História ensina? Que todos os impérios, seitas e ideologias humanas que se levantam contra o único Deus verdadeiro sempre geram mais confusão e não união? Uma seita gera outra seita, um império gera outro império, um ídolo gera outro ídolo. E no final ninguém sabe exatamente por onde começar o caminho de volta à verdade em meio a tantas “opções”. Pois é isso que significa a palavra Babel, “confuso”. Isso não é um caso isolado, essa é a própria situação da humanidade desde esta época. O resultado da tentativa de união dos homens acabou por gerar nada além A civilização se espalha pela Mesopotâmia, e as de guerras cidades começam a lutar uma contra a outra. intermináveis entre as cidades da Mesopotâmia. O texto diz que Ninrode foi o primeiro imperador, dominando desde a área da Babilônia até o território assírio, onde construiu Nínive e mais duas cidades. Ele foi o primeiro homem a ter a ideia de que poderia dominar todas as terras e reclamá-las como suas. Os homens amaram a lógica perversa de seus raciocínios e se deliciaram nelas. O primeiro império do mundo, o império de Ninrode, filho de Cuxe, na Mesopotâmia, foi a peça inaugural de toda a repetitiva história humana, suas guerras, suas intrigas, suas

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ideologias, seus imperadores, seu egocentrismo, e os inúmeros galões de sangue que sempre seguem a tudo isso.

Outros cinco filhos de Cuxe provavelmente tomaram parte no imperialismo de seu pai. Os nomes parecem semelhantes àqueles de regiões no sul da Arábia, mas é difícil dizer, pois nomes como Havilá, que são repetidos em outras genealogias da Bíblia, simplesmente querem dizer “região da areia”, um termo muito genérico, já que areia é o que não falta no Oriente Médio. Na imagem abaixo temos uma visão das muralhas de Nínive reconstruídas por Saddam Hussein. Essa região foi conquistada pelo primeiro império do mundo, sob Ninrode. Mizraim Mizraim é identificado na Bíblia como o Egito, e creio que este nome dispense apresentação. Conectando a ideia de que certos filhos de Cuxe poderiam ter se unido a seu pai na expansão em busca de riqueza e territórios, deve-se notar a enorme semelhança entre as culturas egípcia e mesopotâmica. Notamse alguns traços importantes que unem estas duas culturas: A primeira delas é a presença de enormes

Pintura representando barcos de papiro saindo de cidade litorânea.

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“montes sagrados”. A evolução das pirâmides egípcias deixa transparecer que são cópias de zigurates mesopotâmicos, mas que evoluíram por tentativa e erro até transformarem-se em formas mais lisas. Esse design reflete os mitos da criação envolvendo uma montanha que se ergue das águas do caos primordial, um chamado “Monte da Criação”, que cada centro religioso tenta reclamar para si por motivos econômicos7. Esse monte da criação que surge após as águas do caos apresenta uma grande semelhança com a memória do monte Ararate se erguendo das águas do Dilúvio. Some-se a isso que a versão egípcia possui quatro casais de ‘deuses’ em seu mito da criação e não é muito difícil pressupor que isso era uma lembrança distorcida do relato bíblico, no qual quatro casais sobrevivem à catástrofe. O relato bíblico apresenta pessoas reais, não seres idealizados. O que nos leva à outra semelhança entre as duas culturas, que é a grande centralização do poder na figura de uma pessoa distinta, representante dos ‘deuses’, ou no caso do Egito, uma A Pirâmide em Degraus denuncia a cópia do design dos figura considerada zigurates mesopotâmicos. As primeira pirâmides foram feitas o próprio ‘deus’ através de tentativa e erro, o que demonstra que seus artífices (faraó). É razoável não eram ‘deuses’ e sim, meros mortais. supor que Ninrode e seus descendentes deificaram seus antepassados e consideraram a si mesmos como ‘deuses’ como um meio de elevar seu status e aumentar seu poder, principalmente entre tribos nativas africanas, no caso de um cenário de um Dilúvio local. Mas seja como for, estes poderosos e antigos reis não conseguiram livrar-se do medo da morte, que suas falsas religiões tentaram afastar, cada uma a seu modo. O esplendor, poder e futilidade destes homens é melhor descrito pelas palavras da literatura fantástica mais do que pelas palavras dos arqueólogos. Nas palavras de J.R.R. Tolkien:

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Diversas cidades recebiam peregrinos, e, logo, obtinham lucro com o comeí rcio de itens e relííquias sagradas, assim como mantimentos para sacrifíícios e templos.

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“A morte esteve sempre presente, pois os numenorianos ainda estavam (como sempre estiveram em seu reino antigo e foi por isso que o perderam) com fome de vida eterna e imutável. Reis construíram túmulos mais esplêndidos que as casas dos viventes (...) Senhores sem filhos sentavam-se em salões antigos e ficavam meditando sobre heráldica; em câmaras secretas homens mirrando preparavam fortes elixires, ou nas altas e frias torres faziam perguntas às estrelas.” Os grandiosos faraós, e os “valentes” reis sumérios tiveram terror à ideia do fim de suas existências terrenas ou daquilo que poderia esperá-los depois dela. Os antigos reis e rainhas sumérios levavam consigo A 25º dinastia egípcia, a dinastia de Kush teve origem na para o túmulo invasão do Egito pelos etíopes, que assimilarem sua cultura, e servos e posteriormente, construíram mais pirâmides do que os próprios seus servas, esposas e egípcios. Note a “embarcação sagrada” na procissão. até animais, enterrando-os vivos. A tradição só foi abandonada posteriormente. Entretanto o Egito era rico, e mantinha uma tradição de sabedoria matemática, astronômica, médica, arquitetônica e de diversas áreas do conhecimento, que foi considerada grande até mesmo pelos autores bíblicos. O que é admirável no Egito é sua antiguidade e como permaneceu praticamente imutável por tantos séculos. Sua geografia isolada e seu clima previsível deram origem a uma cultura que parecia viver em um estado de atemporalidade, onde o passado o presente e o futuro seriam idealmente iguais. O reino egípcio é tão antigo, que até mesmo na época de Davi ou de Moisés ele já era milenar. Na verdade, há mais séculos entre o início da civilização egípcia e a época de Cristo, do que entre a época de Cristo e os nossos dias. Enquanto estamos no ano 2.017 depois de Cristo, o Egito volta mais de 3.000 anos antes da Encarnação do Verbo. Obviamente Cristo é em Si eterno e muito mais antigo que qualquer civilização. Mas há algo na antiguidade que parece

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dar um valor a mais e nos chamar a atenção, e isso possivelmente se deve ao desejo pela eternidade que Deus colocou no coração humano. Talvez quando lembramos destas antigas civilizações em toda sua glória, seja melhor pensarmos nelas não pelo que foram, mas pelo que poderiam ter sido caso tivessem vivido pela vontade de Deus. Os oito filhos de Mizraim são uma mistura de povos mais ou menos absorvidos pela cultura egípcia. Também é possível que representassem grupos de nomos egípcios antes da época dos faraós. Deve-se lembrar que o Egito não começou sua história Sereias e homens-peixe, típicos da como uma cultura dos filisteus. nação, mas sim como um conjunto de tribos não unificadas, chamadas nomos, cada nomo com sua identidade tribal própria. O Egito foi unificado apenas posteriormente, pelo Os afrescos da ilha de Creta foram primeiro Faraó da primeira Dinastia, incrivelmente bem preservados e Narmer. mantém cores vivas e belos Casluim e Caftorim se destacam por terem desenhos de paisagens. chegado até as ilhas do Mar Mediterrâneo, próximas ao mundo grego. A civilização da ilha de Creta originou-se a partir deles. Sua arte era fluída e colorida e seus afrescos permanecem com as cores vivas até os dias de hoje. Porém o salário do pecado chegou junto com seus habitantes a estas belas ilhas. O sacrifício humano era praticado em Creta, para agradar à Serpente. Não se podia evitar que onde o ser humano chegasse, a desgraça e a morte chegassem junto. O homem consegue transformar o paraíso de Deus em um inferno. A ilha de Creta criou tanto terror entre seus vizinhos que deu origem ao mito grego do Labirinto, em cujo centro havia o famoso Minotauro, a quem todo ano eram oferecidos jovens e moças virgens para aplacar sua sede de sangue.

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Este povo do mar geraria depois de muito tempo os filisteus. Este era um povo tecnologicamente avançado que sabia o segredo militar mais bem guardado da época: o ferro. O segredo de seu processo de produção era mantido guardado a sete chaves, e demorou séculos para ser descoberto por outros povos. Os filisteus aproveitaram seu conhecimento para lançar uma terrível onda de invasões que afogou o mundo mediterrâneo em caos, chegando a invadir o próprio Egito. Ramses III expulsou esses povos de seu território, mas os israelitas sofreram grande pressão dos filisteus no tempo dos juízes e início da monarquia. Pute Os líbios ocuparam parte do norte da África e originalmente foram os inventores ou descobridores da mumificação. A influência deste povo no Egito foi subestimada pelos historiadores até pouco tempo (e ainda o é). Além da mumificação, tribos líbias em contato com outras culturas africanas introduziram no Egito o uso das máscaras rituais, dando origem às representação de corpos híbridos de homens com animais. Os líbios viveram nas bordas do Saara em uma época em que ainda havia um grande número de oásis, água e vegetação tropical, porém com o passar do tempo, as dunas arrastadas pelo vento do deserto expulsaram estes habitantes da região, levando a maioria a se estabelecer no Nilo. Muitos líbios assimilaram-se à cultura egípcia tornando-se generais, ou até Busto de faraó líbio, um presente mesmo faraós. O faraó Sisaque, que para os reis fenícios. invadiu Judá durante o reinado do rei Roboão, foi o fundador da 22º dinastia egípcia, uma dinastia líbia. Sua capital estava no delta do Nilo, a cidade de Bubastis. Canaã Sídon

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Canaã, o filho amaldiçoado de Cam, habitou nas terras a que deu o nome. Na época em que colonizou esta região a terra era muito mais próspera do que posteriormente, e dizia-se que “manava leite e mel”. A localização de sua terra era estratégica, entre Mesopotâmia e Egito, tanto separando quanto ligando os dois centros de poder. O comércio fluía intensamente por esta região, e este é o motivo pelo qual a terra permaneceu com seu nome, que significa “mercador” ou “terra do mercador”. Alguns ligam o nome Canaã à púrpura, sua mercadoria mais valiosa, extremamente valiosa por sinal. Para cada gota de tinta deste pigmento era necessário esmagar centenas ou milhares de moluscos de uma determinada espécie, daí o preço do produto final. O primogênito de Canaã, Sídon seguiu a tradição de seu pai, originando um povo que navegaria do Oriente Médio até a Espanha, e até mesmo entraria no Oceano Atlântico com seus navios de cedro do Líbano. Sídon gerou os fenícios e outras cidades-estados que se espalharam pela costa mediterrânea. Seus negócios iam desde o transporte de matériasprimas essenciais até o tráfico de escravos humanos sequestrados. Seu tato para negócios encheu as nações de cobiça, tanto que mesmo se recusando a pagar tributos para impérios impiedosos, raramente era castigado, já que ninguém queria ficar sem seus bens. Podem bem ter sido os inventores da pirataria, e tinham um escrúpulo questionável quanto à lealdade. Sua necessidade de lidar com grande quantidade de informações comerciais nos legou uma invenção incrível: o alfabeto de 22 letras. É a base sobre a qual o leitor lê este livro ou escreve qualquer coisa em seu dia a dia. Antes do alfabeto havia apenas hieróglifos e escrita cuneiforme, ambos eram sistemas complexos de escrita, péssimos para os negócios. Os fenícios também foram os inventores da fundição de vidros, outra coisa sem a qual é difícil imaginar nossa vida. Porém, sua lealdade a qualquer custo à prosperidade material gerou um dos mais horrendos cultos registrados. Desde os tempos bíblicos mais remotos o sacrifício infantil para Representação de guerreiros hititas e seus armamentos. 64


as “divindades” baal e astarote se tornou motivo de escândalo até mesmo entre os povos pagãos. Nos tempos de Heródoto, milhares de anos após o início da civilização fenícia, a prática de sacrificar os filhos não havia cessado, por mais que assombrasse os negociantes que desembarcavam na região. Sua crença de que era o sangue desses sacrifícios que mantinha a fertilidade de suas terras foi uma armadilha para Israel. Hete Os especialistas discordam quanto à identidade dos heteus. Alguns dizem que os hititas e os heteus são aparentados ou até o mesmo povo. Outros descartam a hipótese baseados no fato de que os heteus de Canaã tem nomes semíticos e não hititas. Caso eles sejam o mesmo povo, eram considerados formidáveis guerreiros, capazes de entrar em batalhas em pé de igualdade com os egípcios. Urias, soldado de Davi, era heteu.

Heveus, Arqueus, Sineus, Arvadeus, Zemareus, Hamateus

A pequena ilha de Arwad se tornou o lar dos arvadeus.

Estes eram grupos cananeus localizados mais próximos ao limite norte de Canaã, com os quais os israelitas raramente mantiveram contato. Seu território variava do Líbano até a Síria. Os hamateus marcavam o limite norte de Canaã e das posteriores conquistas de Davi e Salomão, no Rio Orontes.

Os egípcios mantinham contato direto com alguns grupos cananeus, principalmente para o transporte de cedros do Líbano ou para o desembarque em épocas de guerra, aportando muitas vezes em Biblos. Muito do que conhecemos sobre a cultura dos cananeus é derivado da 65


vasta coleção de literatura que foi encontrada em Ugarite, capital dos sineus. Fica claro que os ‘deuses’ a quem eles cultuavam eram extremamente depravados, lutando em batalhas que eram uma carnificina e envolvendo-se nos atos mais imorais. Sua descrição de El é tão cheia de desprezo que é possível assumir que se trate de ódio contra o verdadeiro Deus. Os textos ugaríticos o descrevem como um bêbado idiota que não consegue se manter em pé, sujo com sua própria urina e excrementos. Enquanto astarote ri alegremente em meio aos crânios empilhados de seus inimigos e recebe o dinheiro da prostituição cultual (muitas vezes infantil) em seus templos, baal, chega a violentar sexualmente por setenta vezes sua própria irmã enquanto ela está na forma de uma vaca. Cometendo estupro, incesto e zoofilia no mesmo ato, mais vezes do que necessário para indicar falta de arrependimento, e sem qualquer repreensão por parte de seu “pai”, El. Se esta era a principal divindade adorada pelos cananeus, imagine qual o conceito de moralidade que este povo possuía. Hamurábi recebe o Código de Hamurábi, famosa compilação de leis escritas.

Amorreus

Em muita passagens se usa o termo amorreu para designar todos cananeus. Este era o povo de maior renome em Canaã. Há indícios de que tenham chegado a tomar o poder na Babilônia nos tempos antigos, e mantido este poder por séculos. Caso isto seja verdade, o famoso legislador Hamurábi era um representante deste povo.

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Quando as cidades dos cananeus são identificadas na conquista por Josué, elas são descritas como tendo “muralhas que sobem até os céus”, termo que ecoa a narrativa da Torre da Babel, e que liga Canaã à Mesopotâmia. Jebuseus, ferezeus, girgazeus Ao lado, representação de um guerreiro cananeu, note o tecido púrpura.

Os jebuseus são identificados como os fundadores de Jerusalém em tempos remotos. Em resumo, os cananeus eram um povo poderoso na terra, embora no tempo da conquista por Josué estivessem fora dos padrões morais de Deus de todos os modos

possíveis e imagináveis. Quando as nações foram formadas, Canaã provavelmente era o ser humano mais degradado moralmente na Tábua das Nações. Com o caráter do pai, que provavelmente tentou tomar o poder através de um abuso sexual (ver novamente o capítulo inicial desta seção), os filhos não poderiam ser muito melhores. A corrupção gerada pelo pecado acabou por se tornar insuportável aos olhos de Deus, que delegou a Josué e aos israelitas a destruição deste povo. Mesmo nos tempos de Abraão, porém, Deus mostrou paciência ao dizer que a conquista de Canaã deveria esperar por 400 anos “pois não se encheu ainda a medida da iniquidade dos amorreus” . Deus é incrivelmente paciente. Mas sua ira é justa. E se o destino final dos cananeus nas mãos de Josué nos parece duro demais, devemos refletir se realmente nossa noção de santidade não está tão corrompida que nos tornamos insensíveis aos piores pecados que a humanidade pode cometer. O coração de um povo pode tornar-se mal além do arrependimento, e quando isto acontece, Deus justamente o elimina.

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As “sete nações dos cananeus” na época da conquista por Josué.

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Os Filhos de Sem “Não vos teve o SENHOR afeição, nem vos escolheu porque fôsseis mais numerosos do que qualquer povo, pois éreis o menor de todos os povos, mas porque o SENHOR vos amava e, para guardar o juramento que fizera a vossos pais (...)” Deuteronômio 7:7-8

Descendência de Sem Talvez você tenha se esquecido da promessa de Deus que lemos no início deste guia, feita para Adão e Eva. Se você não se lembra, é bom saber que Deus não a esqueceu. A promessa do Criador de que nasceria um descendente da mulher para pisar a cabeça da Serpente ainda estava para ser cumprida. Mas aos olhos humanos, essa questão se perde facilmente de vista em meio ao tumulto e crescimento de todas as nações. Afinal, para muitos, cegos pelas circunstâncias, parece estar tudo bem. Parece haver 69


prosperidade, civilização, comércio, criatividade, escrita. Quem liga se os homens voltaram as suas costas para o Criador? Quem liga se a Imagem de Deus nos homens está sendo distorcida pelo pecado? Quem liga se pais estão entregando seus filhos para sacrifícios humanos e as filhas para prostituição cultual? Num piscar de olhos todas as nações voltaram suas costas para Deus e agora ninguém nem sequer lembra que Ele existe. Se existe uma espécie neste planeta com um destino trágico, esta foi a espécie humana. Demônios se passam por ‘deuses’, manipulando as pessoas a fazer todo tipo de absurdos com falsas promessas de sucesso e poder, mas aqueles que os servem morrem em desespero enterrando seus próprios parentes consigo. Homens como Ninrode conquistam e pilham, tomando tudo que pertence a outros para si mesmos, sem se preocupar com represálias. Onde está Deus no meio disso tudo? Enquanto homens tentam dominar o mundo, Ele prepara uma linhagem através de pessoas pequenas e acontecimentos humildes. Como se tivesse se cansado de demonstrar seu poder através de poderosos feitos para um mundo que não lhe ouvia, ele trabalha discretamente. Ele está cansado de poderosos que se acham escolhidos dos deuses por que tem muito ouro ou conquistaram muita terra. Ele busca simplesmente alguém que O queira de todo coração. Ele não precisa de muito, por que Ele tem tudo. Onde estará esse homem a quem Deus procura? Elam Os elamitas foram a primeira civilização desenvolvida do que é hoje a região sudoeste do Irã. Competiu frequentemente com as nações mesopotâmicas. Susa provavelmente foi sua capital por um tempo considerável. A organização desta civilização era matriarcal, o que é algo muito incomum. No ano 2000 uma descoberta no Irã surpreendeu Estatueta de um elamita. o mundo da arqueologia. Uma civilização ainda mais antiga do que a Suméria foi descoberta no distrito de Jiroft. Ela é tão antiga que é possível que até mesmo os sumérios se refiram a ela como lendária. Mas isso não é tudo. Os maiores zigurates babilônicos chegam a ter 120 metros de base. Mas um zigurate descoberto em Jiroft tem 120 metros apenas em seu patamar mais alto. A base da estrutura possui aproximadamente 500 metros por 500 metros, muitas vezes maior do que o maior dos zigurates babilônicos. 70


Alguns críticos contestaram a narrativa bíblica de que a Torre de Babel e a civilização teriam surgido em Sinar (Suméria), alegando que agora foi descoberta mais uma imprecisão na descrição bíblica de Gênesis. Seria a Torre de Babel uma estrutura elamita, afinal de contas? Uma leitura atenciosa de Gênesis 11 nos mostra que talvez nenhuma estrutura sobrevivente hoje, como os famosos zigurates de Ur e da Babilônia, são a Torre de Babel, já que na narrativa a construção nunca foi sequer terminada. Se a torre não foi terminada, e uma localidade específica na Suméria não é explicitada na narrativa, não é necessário presumir nenhuma localidade suméria ou época específica. O texto diz: “Na Terra de Sinar”, mas não identifica tal civilização. Existiram povos na mesopotâmia muito antes dos sumérios, embora não com o mesmo nível de sofisticação. Não é forçado admitir que todas as obras de “montes sagrados” religiosos que conhecemos hoje tenham sido construídas apenas posteriormente. Soma-se a isso que o texto se encontra naqueles 11 primeiros capítulos da Bíblia em que o estilo literário talvez não seja literal, e se tem a base para o entendimento do texto. Todos os homens (não apenas os babilônicos, caldeus, sumérios) descendentes de Noé tentaram unir-se contra a ordem divina de se espalharem por sobre a Terra, criando para si uma civilização urbana e religião próprias. A torre provavelmente tinha o formato de uma escadaria na qual os homens pudessem “erguer-se” (“ascender”, “evoluir”, “atingir um outro patamar”), subindo em uma escada para os céus. Para a sua surpresa, este foi um daqueles momentos no início do livro de Gênesis em que toda a Trindade age em acordo, dessa vez, Deus “desce” pela “escadaria” para batalhar contra a arrogância humana. A Torre de Babel original foi uma tentativa de chegar à divindade por si mesmos, contra as ordens de Deus, a resposta de Deus foi imediata. O Homem deve aprender que não pode ter tudo que quiser, e nem ter o que pode ter do jeito que quiser. Assim como a Vida Eterna dada pela Árvore da Vida não geraria benefício algum para os descendentes de Adão e Eva, sendo seu caminho barrado pelos querubins e a espada flamejante; ascender aos Céus e criar uma única civilização humana seria inútil para os povos pós-diluvianos. Como Santo Agostinho percebeu, a vida eterna neste corpo terreno para o homem seria nada mais que uma tortura eterna, a única esperança que o homem possui, paradoxalmente, para alcançar a vida eterna, é a morte de seu corpo, assim, Deus transforma até mesmo algo ruim como a morte, em algo bom, e a única chance de redenção. Aqueles que desejam acima de tudo a vida eterna nunca a alcançarão. Creio que estamos prestes a ver uma época em que será atestada a afirmação de que a unificação humana em uma única língua e cultura também não será capaz de trazer qualquer benefício 71


eterno ao Homem, isso acontece porque a tentativa de unificar o homem é nada além do que a sua tentativa de viver independentes de Deus, como se se bastassem a si mesmos. A realidade de viver separado de Deus se expressa de maneira visível na maior separação entre os homens de Deus, de seus semelhantes e de si mesmos que pode existir, o inferno, onde todos falarão a mesma língua, e ninguém falará a língua de seu vizinho. Assur Assur foi o descendente de Sem que gerou os assírios. Embora Nínive tenha sido fundada por Ninrode, este território provavelmente pertencia aos descendentes de Assur. Apesar de semita, o comportamento deste personagem foi muito semelhante ao de seu inimigo Ninrode. Quando se fala que este era um “grande caçador diante do Senhor”, não se podem esquecer os feitos Propaganda real assíria: o soberano mata um leão realizados pelos assírios. Se sozinho antigamente os leões eram uma praga no Oriente Médio, os assírios são os culpados por tê-los levado à extinção na região. “A caça aos Leões” é uma série de baixos-relevos assírios de cenas de caça do rei a estes animais. Paradoxalmente, a beleza e habilidade destes soberano para a arte é contrastada com a sua brutalidade. É possível sentir a agonia dos animais retratadas em seus últimos momentos. Sem sombra de dúvida, os assírios foram povo mais cruel da antiguidade, dando um tratamento horrendo aos inimigos capturados. Ao rei dos elamitas que se revoltou contra eles, uma pena foi dada, 72


desenterrar os ossos de seus pais e esmagá-los. A destruição do corpo no mundo antigo não era apenas uma horrenda tortura, mas era identificada com a própria destruição da alma imortal. Esse é apenas um dos pequenos exemplos do tipo de tratamento que os assírios impunham a seus inimigos. É por esse motivo que quando uma famosa arqueóloga fala com tanta admiração de um rei como Senaqueribe, e que está esperando um dia poder falar com ele (creio que só no inferno isso seria possível) eu fico furioso! Isso é nojento! É nesses momentos, quando vejo toda a “lucidez” desses tão cultos representantes da comunidade arqueológica, que percebo quão feliz sou em ser apenas um “cristão ignorante”. Esse é o tipo de pessoa que tem grande facilidade em desacreditar a Bíblia como uma história cheia de mentiras, mas se colocá-la ao lado de relatos históricos assírios ou egípcios, que ELES MESMOS afirmam serem cheios de mentiras e propaganda, vão dizer que é o relato bíblico que está incorreto. É o tipo de pessoa que mil anos a partir de agora, seria admiradora da Alemanha Nazista ou de Mussolini. Novamente, a civilização assíria era extremamente avançada, foram eles que criaram os primeiros aquedutos de que temos registro, além dos famosíssimos Jardins Suspensos da Babilônia, talvez erroneamente creditados a Nabucodonosor. Ao mesmo tempo, este povo acreditava piamente que seu dever era sair a guerra e conquistar territórios todos os anos, e que se falhasse nisso, seu mundo poderia acabar. Eles eram extremamente supersticiosos, assim como os babilônios. Sua relação com os babilônios era ambígua: se por um lado estavam militarmente engajados em constantes lutas por território, por outro respeitavam a Babilônia como centro religioso sagrado. Quando Senaqueribe, em um acesso de fúria destruiu a capital babilônica, seu próprio povo sentiu repúdio diante do fato, e ele foi rapidamente assassinado. Abaixo, representação de Saddam Hussein nos moldes dos antigos reis assírios.

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Arfaxade Sem foi o primogênito de Noé, logo, era seu herdeiro. Se as maiores bênçãos são guardadas para os primogênitos, então a promessa do salvador que pisaria a cabeça da serpente deveria vir de sua descendência. Arfaxade nasceu dois anos após o Dilúvio e acompanhou a volta da escalada do mal na civilização humana. Um de seus filhos, Salá, gerou a Héber. Héber foi o pai de todos os hebreus. É possível que tenha habitado a cidade de Ebla ou o território ao seu redor, ou mesmo sido rei da cidade. Ebla foi um centro de comércio e cultura importantíssimo e nela se encontra o primeiro “dicionário” conhecido. Foram encontrados nada menos que 17 mil tabuinhas de argila sobre prateleiras organizadas como bibliotecas. Coleção de textos em tabuinhas de barro Ebla significa “rocha branca” eblaítas empilhadas na queda de uma e recebe o nome devido à pedra estante. calcária sobre a qual foi construída. A cidade possuía cerca de 20 mil habitantes, mas a população ao redor somava até 200 mil pessoas. Estava situada na Síria. Filhos de Joctã (Sul da Arábia) Joctã e Pelegue foram netos de Arfaxade. Eles nasceram na época em que Deus confundiu as línguas e dividiu as nações, esse fato é aludido em Gênesis 10:25. O nome Joctã significa “vigilante”. Tanto ele quanto Pelegue devem ter permanecido de fora da confusão que cercou as nações em Babel, daí a afirmação de alguns de que o hebraico seria a língua Árabes de pele adâmica original, não corrompida pela confusão das línguas, mas pouco se pode presumir escura predominam na região sul da historicamente. Enquanto a Bíblia segue apenas um descendente de Pelegue a fim de dar realce à Península Arábica. transmissão da herança em linha direta, Joctã tem nada menos do que 13 74


descendentes listados. Todos os descendentes de Joctã seguiram o rumo do sul da península arábica e se estabeleceram naqueles ambientes isolados. A península arábica é um mundo mais complexo do que a maioria das pessoas imagina. Sua extensão territorial é grande, apesar de ser predominantemente desértica e montanhosa, com diferentes tipos de relevos em sua extensão. Quando falamos Arábia imaginamos um conjunto unificado de pessoas chamadas árabes. Mas nem mesmo hoje em dia existe essa relação tão simplista na região. A península arábica só foi unificada em cerca de 600 anos depois de Cristo, pelo líder religioso e militar Maomé. Antes disso o que existiam eram agrupamentos diversos que só entravam em contato entre si através do comércio ou migrações. A região possui uma grande variedade cultural e étnica, por ser uma zona de transição entre o Oriente e Ocidente. Por exemplo, quatro dos filhos de Joctã (Almodá, Salefe, Ofir e Havilá) migraram para a região do Iêmen, que é separada da África por apenas um pequeno estreito. Quando autores discutem se Ofir e Havilá, assim como Sabá, se encontravam na Arábia ou na África, talvez ambos estejam certos. Assim como hoje em dia Istambul é uma cidade que faz parte de dois continentes, estes reinos poderiam ter o pé tanto na África quanto na Ásia. Já Hazarmavé, na região do Hadhramaut, se encontra em áreas mais ao interior do Iêmen, e sua população tem pele mais clara. É de lá que datam os primeiros arranhacéus do mundo, edifícios de barro de até dez andares. Como a quantidade de terra para cultivo Primeiros “arranha-céus” do mundo, na região do Iêmem. é muito reduzida naquela região, esta foi a melhor solução encontrada para aumentar sua extensão. A estrutura alongada dos edifícios também é projetada para forçar a saída de ar quente e entrada de ar frio, criando um sistema de “ar- condicionado” natural. Outras tribos, como Dicla, que significa “terra da palmeira” Dicla obviamente representam oásis. O versículo final dá uma visão da 75


extensão total do território dos filhos de Joctã: ‘E habitaram desde Messa, indo para Sefar, montanha do Oriente’, (Gênesis 10:30), ou seja, do norte ao sul da Península Arábica. Atualmente o Iêmen se destaca como centro cultural do mundo islâmico, mas com problemas graves como a perseguição a minorias, o uso de drogas e o apoio a grupos terroristas. As adagas iemenitas tradicionais são feitas de marfim de elefante e rinocerontes, fazendo com que as espécies corram ainda maior risco de extinção.

Arã Arã é outra linhagem semita que recebe destaque, já que Abraão veio de uma terra próxima à Padã-Adã. Os arameus foram um grupo de povos que se espalhou principalmente pela Síria. Damasco é uma cidade fundada pelos arameus, e uma das mais antigas do mundo. Os arameus mantiveram os meios de vida nômade e urbano, dependendo da tribo específica e da época. A região passa por rotas comerciais e militares estratégicas, o que a tornou uma região instável e violenta desde tempos antigos. Antes de ISIS, dos atentados e revoltas dos sírios, já existiam pessoas como Hazael, que passavam em cima de mulheres grávidas com suas carruagens, cortando-as ao meio. A geografia pode influir muito na personalidade de um povo, tornando-o inclusive mais beligerante e violento. Tal influência pode refletir também influência assíria. A violência assíria também sofria influencia de sua falta de recursos minerais ou materiais, que viu na violência o único modo de expandir seu território e conseguir riquezas. O terror é uma técnica militar que visa diminuir a resistência de cidades próximas por medo de represália, criando um império de modo rápido. Mas tal violência levou estes povos a serem tão odiados que as revoltas contra eles eram constantes, e os aliados cada vez em menor número. O costume das mulheres usarem véus é tão antigo quanto a própria Damasco, e não foi inventado pelo islamismo. Os véus servem para barrar os raios do Sol e a areia do deserto sírio. 76


O aramaico, língua dos arameus, se tornou a língua dos documentos diplomáticos no mundo antigo devido à sua facilidade de aprendizado. Jesus e os judeus falavam em aramaico. Ainda hoje existem aldeias cuja língua é o aramaico. Camadas de assentamento se sobrepõem com o passar dos milênios e demonstram a antiguidade da cidade síria de Damasco, uma das mais antigas do mundo.

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Parte 3

A formação de Israel e dos povos circundantes

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1- As Gerações de Sem “Sarai era estéril, não tinha filhos.” Gênesis 11:30

Genealogia linear seguindo desde Sem até Tera e repartindo-se entre seus filhos.

A genealogia de Sem é repetida em Gênesis 11:10-32, como uma nova lista resumida, com mais cinco gerações sendo adicionadas. Assim como na genealogia de Adão até Noé, são dadas as idades de nascimento, da idade do patriarca ao ter um filho, e quantos anos viveu depois de ter o filho (ou seu tempo total de vida). É possível que esta lista siga os padrões das genealogias mesopotâmicas e os números sejam simbólicos. Há também a possibilidade de que estas listas sejam estilizadas, ou seja, possuem um padrão de escrita repetitivo, mas que não perfaz a lista completa de gerações, já que a palavra “gerou” muitas vezes é usada 79


não para a geração de filhos, mas sim de netos, bisnetos e até descendentes muito posteriores, como aldeias e nações. Neste caso, a retirada de um versículo da tradução grega do Antigo Testamento: “(Arfaxade) gerou a Cainã; e, depois que gerou a Cainã, viveu Arfaxade quatrocentos e três anos; e gerou filhos e filhas, e morreu. Viveu Cainã cento e trinta anos e gerou a Salá; e, depois que gerou a Salá, viveu Cainã trezentos e três anos; e gerou filhos e filhas” não acarretaria nenhum problema cronológico. Também é possível que o nome tenha sido incluído ou retirado da lista para perfazer um número total de gerações, já que 10 é um número importante para representar a completude. Isto seria outra evidência de que devemos ter cuidado ao tentar criar uma cronologia com base em listas genealógicas do antigo Oriente Próximo. Alguns nomes nesta lista, como Salá, que significa “broto, semente” não são identificados com pessoas ou locais conhecidos. Já Héber, foi o pai de todos os hebreus, como o próprio texto ressalta, e de quem Abraão seria apenas um dos descendentes. Essa genealogia não é exaustiva, e sim seletiva, já que ao final de cada versículo encontramos a nota ‘gerou filhos e filhas’. Esta é outra semelhança com a genealogia de Adão. Outro detalhe importante nesta lista é a diminuição gradual dos anos de vida dos representantes. É dito que Sem viveu 600 anos, Arfaxade 438, Cainã 433, Salá 433, Héber 464, Pelegue 239, Reú 239, Serugue 230, Naor 148, Tera, 205. Essa diminuição gradual, que também é encontrada após o Dilúvio na Lista dos Reis Sumérios, prossegue até o final do livro de Gênesis, estabilizando-se abaixo de 120 anos, com José. É possível que apenas esta linhagem, ou poucas linhagens tenham tido vidas tão longas, sendo herdeiros diretos da bênção de Sem. Em relato posterior do Épico de Gilgamesh, o herói da história, ao enfrentar o conflito inevitável com a morte, conversa com a moça que lhe serve bebida em uma taverna. Ela, ao entender o motivo da tristeza do guerreiro, lhe diz que ele deveria visitar o único homem a ser concedida vida eterna. Este homem vive isolado na ilha de Dilmum, que alguns identificam com o atual Bahrein. Lá chegando, ele tem uma conversa com o estranho homem, Utnapishtim (Ziusudra em sumério e Atrahasis em acádico, que quer dizer “muito sábio”), que lhe conta a história de como sobreviveu ao Dilúvio que destruiu a terra, construindo uma arca e que sua imortalidade era devida à semente de uma árvore, a qual ele dá a Gilgamesh, mas que mais tarde é devorada por uma serpente. O conto termina com Gilgamesh tendo de conformar-se com sua mortalidade em frente às muralhas de Ereque. Esta cena estranha aparentemente aponta para Noé. A história, apesar de distorcida pelo tempo, pode ter confundido a extensa vida de Noé (e seus descendentes) com imortalidade. Se Noé e sua mulher isolaram-se em Dilmum, gerando lendas posteriores, não é possível saber. Mas não seria difícil imaginar que tendo vivido 600 anos suportando a maldade humana, Noé e sua mulher não 80


tenham querido realmente se isolar da nova corrupção que se desencadeava neste novo mundo, vivendo seus últimos dias em paz e isolamento. Pelegue e Joctã parecem ter-se isolado do mundo para manter sua linhagem pura. O nome Pelegue indica ‘divisão, separação’ e também pode indicar sua separação do mundo e sua santidade. O nome de seu filho, Reú, quer dizer ‘companheiro, amigo’. Serugue têm sua localização a cerca de 70 quilômetros de Harã, lar temporário de Abrão, na Turquia, próxima à fronteira com a Síria. Enquanto escrevia estas passagens, tomei conhecimento de que, infelizmente, há apenas 11 dias (ao meio dia de 20 de julho de 2015), um grande atentado terrorista aconteceu na cidade de Suruç (Serugue). 104 pessoas ficaram feridas. 32 pessoas morreram. O ataque suicida foi assumido pelo Estado Islâmico, direcionado principalmente contra jovens que viajaram de suas cidades para participarem por três ou quatro dias da reconstrução da cidade de Kobanî, na Síria. Este foi o primeiro ataque do Estado Islâmico propositadamente feito na Turquia.

Refugiados curdos tentam ultrapassar a fronteira turca perto de Suruç.

Serugue gerou Naor, avô de Abrão. Naor dá nome a Til Nakhiri, “monte de Naor”, com localização provável perto do rio Balikh. Naor gerou Tera, que dá seu nome a Til Tirahi (Monte de Terá), também nas imediações de Harã. Terá significa ‘peregrino’, ‘andarilho’. Enquanto penso sobre as trágicas notícias que acabei de ler, é difícil não imaginar como a vida deve ter sido naquela região conturbada. Eram tempos de grandes migrações, quando homens, mulheres e crianças tomavam tudo que tinham e se dirigiam a outras terras que nunca tinham visto. Guerra, fome, seca, injustiças, regimes despóticos. Eram muitos os motivos para que Terá tenha saído de sua terra e se dirigido para Ur dos caldeus. Inevitavelmente minha mente acabou por ser dirigida a pensar nele como um refugiado. Alguém retirado de seu contexto de nascimento, que tinha uma vida e a perdeu, que vê seus filhos e não sabe qual será o futuro deles, nem como 81


será o dia de amanhã. Terá ‘empacota suas coisas’ e leva seus filhos para uma terra com ‘melhores oportunidades’, como muitos fazem ainda hoje, cruzando o Mediterrâneo em direção à Europa. Terá parte com seus filhos, Abrão, Harã e Naor, para Ur dos caldeus.

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2- Gerações de Terá “Então Josué disse a todo o povo: Assim diz o Senhor, Deus de Israel: ‘Antigamente vossos pais, Terá, pai de Abraão e de Naor, habitaram dalém do Eufrates e serviram a outros deuses. Eu, porém, tomei a Abraão, vosso pai, dalém do rio e o fiz percorrer toda a terra de Canaã.” Josué 24:2-3a A vida pode se tornar muito frustrante às vezes. A miséria, material ou espiritual, transforma a vida em algo seco, estéril, sem esperança. Assim era a vida do homem afastado de Deus, ‘pulando de galho em galho’, sem saber para que veio, e sem saber para onde ia. Terá buscou aquilo que parecia bom a seus olhos. Em Ur, dos caldeus ele pensava que estaria a esperança para ele e sua família.8 A cidade (como o resto do mundo) havia se tornado um antro de idolatria. Uma multidão de falsas divindades fervilhava como moscas, alimentando-se dos sonhos dos homens, aproveitando-se de suas necessidades e anseios, fossem estes bons ou maus. Como prostitutas, estavam prontos para ser aquilo que fossem requisitados a ser, tomando qualquer forma que agradasse aos homens. Talvez a intenção de Terá não fosse tão ruim. Talvez ele só quisesse dar algo bom para seus filhos, uma oportunidade de uma “vida melhor”. Então ele se comprometeu com as ‘deusas’ da fertilidade da cidade. O nome de sua filha, Sarai (filha dele com outra mulher que não a mãe de Abrão) e o de Milca, apresentam semelhança muito forte com os nomes da esposa e da filha do ‘deus lua’ (Sin), ‘Sharratu’ (‘princesa’) e ‘Malkah’ (‘rainha’). Terá deve ter-se sentido abençoado pela graça de ter tido pelo menos duas filhas e três filhos. Mas sua alegria não dura muito tempo. Seu filho Harã morre novo e sua filha Sarai (apesar de ter o nome de uma deusa da fertilidade) é estéril. Abrão adota Ló, e Naor casa-se com Milca. Abrão casa com Sarai, sua meia-irmã, algo que não era tão incomum na cultura degradada da época. Sarai não pode ter filhos, o que é um símbolo de uma das maiores desesperanças imagináveis: sua descendência acabaria ali, sua história chegaria ao fim com sua morte. Abrão e Sarai não tem esperanças, e o resto da família também parece não ter muitos motivos para ficarem nesta terra de falsas promessas. Terá toma novamente seus filhos, e parte em direção a Canaã, mas por algum motivo se 8

Há várias candidatas para a Ur, dos caldeus. Alguns a identificam com a grande Ur, a maior cidade do mundo na época, no sul da Babilônia. Outros, a identificam com uma cidade no norte da Mesopotâmia.

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detém em Harã, e ali permanece até sua morte. Para Abrão e Sarai, nada mais resta do que esperar a hora de seu próprio fim.

Descendência de Tera

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3- A questão de Ló, dos moabitas e amonitas “E olhou a mulher de Ló para trás, e converteu-se numa estátua de sal.” Gênesis 19:26 Antes de prosseguir com a história de Abraão e Isaque, devemos aprender com outras narrativas que se juntam à principal, observando as outras genealogias disponíveis. Abrão e Sarai, já que não podiam ter filhos, adotaram seu sobrinho Ló, já que seu pai, Haran, irmão de Abrão, falecera novo. Ló foi instruído desde cedo no caminho da justiça. Quando Deus levou Abrão para Canaã, Ló caminhou pelos mesmos caminhos. Porém, quando Deus mudou os nomes de Abrão e Sarai para Abraão e Sara, Ló não teve seu nome mudado. Ló podia estar fisicamente no mesmo caminho que Abraão, mas seu coração olhava mais para as coisas terrenas do que para as coisas eternas. Abraão, mesmo imaturo, passou a conhecer a Deus de pouco em pouco. Quando os pastores de Abraão e os de Ló começam a brigar por que o gado se multiplicou tanto que não havia espaço de pastoreio para os dois acampamentos juntos, Abraão confiantemente pede que Ló escolha uma direção para que ele siga na direção oposta. Então lemos o que segue em Gênesis 13:1011.

“Levantou Ló os olhos e viu toda a campina do Jordão, que era toda bem regada (antes de haver o Senhor destruído Sodoma e Gomorra), como o jardim do Senhor, como a terra do Egito, como quem vai para Zoar. Então, Ló escolheu para si toda a campina do Jordão e partiu para o Oriente; separaram-se um do outro.” Nos versículos anteriores é dito que “Nesse tempo os cananeus e os ferezeus habitavam essa terra”. Os ferezeus não eram um povo, motivo pelo qual não são citados nas listas dos filhos de Cam, e sim cananeus que não viviam mais em cidades muradas, e sim em cidades abertas no campo. O texto está dizendo que a terra estava não apenas cheia de cananeus, mas ‘transbordando’ deles. Na Tábua das Nações também lemos que “o limite dos

cananeus foi desde Sidom, indo para Gerar, até Gaza, indo para Sodoma, Gomorra, Admá e Zeboim, até Lasa”

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Acontece que Ló escolheu uma terra que estava apinhada com o pior dos povos sobre a face da Terra. Seus olhos carnais viam o verde dos campos e os canais de irrigação, belas cidades e oportunidades para a prosperidade material. O lugar era tão belo fisicamente que é comparado ‘aos jardins do Senhor’. Mas Deus via as coisas de um modo muito diferente. Para Deus, aquele lugar era morto e estéril espiritualmente. A partir deste momento Ló apenas decai. Ele se aproxima lentamente da cidade, passo por passo, até que no final é identificado como um cidadão de Sodoma. Ele constitui família e casa suas filhas com cidadãos desta cidade. Apesar de manter-se separado e ser o único na cidade a preocupar-se com a justiça (o fato de Ló estar sentado sozinho no portão da cidade, local onde aconteciam os processos judiciais deixa isso claro), os sinais vermelhos e os alarmes estavam escritos em letras enormes na frente de Ló e ele não os percebia. No local da justiça, Ló é o único a ver os juízes de Deus aproximando-se. Os anjos em forma humana testam sua justiça e a encontram. Mas mesmo assim o extremo materialismo de Ló o O Mar Morto recebe este nome devido à grande quantidade de faz atrasar-se a sair sal, que impede o desenvolvimento da vida. da cidade. Sempre um pouco mais e um pouco mais ele fica, adiando o momento. Os anjos têm que tomá-lo à força para que ele vá embora. Quando ele finalmente vai embora, ainda pede para ficar em uma das cidades menores próximas! Quando a justiça de Deus cai sobre as cidades da planície, todo o cenário que antes estava oculto aos olhos de Ló se torna visível. Tudo que parecia forte, vistoso e eterno é mostrado como realmente é: um lago salgado e estéril, morto e improdutivo. Os genros de Ló não fogem da cidade, nem o coração de sua mulher. A erupção vulcânica começa, o fluxo de enxofre, poeira, piche flamejante e gás incandescente consome tudo em seu caminho. Como em Pompeia, o fluxo de chamas engolfa aqueles que ficaram para trás, criando moldes de seu último momento. Ao ver a fumaça subindo durante o amanhecer, Ló reconhece que é mais seguro estar em uma caverna com Deus, do que em uma cidade sem Ele. Ló 86


reconhece a situação como ela é e se salva do desastre, porém o preço de seu materialismo e condescendência com o mal lhe custou tudo que ele tinha. Ele esperava riquezas, glória e honra. A última vez em que sabemos algo de Ló ele está morando em uma caverna: sem riquezas, sem gado, sem esposa, sem honra. Ló pode ter-se salvo por bem pouco, mas o custo de crescer sua família entre os piores dos cananeus foi muito alto. Suas filhas o embebedam e desonram para gerar filhos dele mesmo. A contribuição de Ló para a história da salvação? Duas das linhagens que mais ferrenhamente lutaram Os antigos habitantes de Pompeia foram engolfados pela erupção contra Israel durante vulcânica na região, deixando apenas moldes vazios de seus sua existência, os últimos momentos. O mesmo parece ter ocorrido com a mulher de amonitas e os Ló. moabitas; servir de exemplo a não ser seguido em praticamente nada. Os amonitas e os moabitas foram nações irmãs terríveis, com reis cruéis e um povo que chegava a sacrificar os próprios filhos para um ídolo chamado moloque, que consistia de uma figura horrenda com a boca escancarada dentro da qual havia chamas acesas para incendiar os bebês vivos diante dos próprios pais. A tentativa de converter os cidadãos de Sodoma e Gomorra à justiça por Ló surtiu o efeito oposto, a preservação de parte de uma Estátua de um rei moabita

Estátua de rei amonita

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linhagem espiritual que deveria ter sido destruĂ­da, mas que perdurou por causa de seus filhos.

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4-Descendência de Naor ‘Para que eu te faça jurar pelo Senhor, Deus do céu e da terra, que não tomarás para meu filho das filhas dos cananeus, entre os quais habito; mas irás à minha parentela e daí tomarás esposa para Isaque, meu filho. Disse-lhe o servo: Talvez não queira a mulher seguir-me para esta terra; neste caso, levarei teu filho à terra donde saíste? Respondeu-lhe Abraão: Cautela! Não faças voltar para lá meu filho (...) Caso não queira a mulher seguir-te ficarás desobrigado do teu juramento, entretanto não levarás para lá meu filho.' Gênesis 24:3-8

Descendência de Naor, com destaque à Arã e Rebeca.

A esterilidade espiritual de Sodoma e Gomorra é contrastada com a verdadeira fertilidade e frutificação espiritual de Abraão e Sara. Deus escolhe as coisas loucas deste mundo para virar de ponta cabeça os sábios. Aquilo que aparentemente fora feito para durar não mais existia. Mas seria de uma idosa estéril que surgiria a descendência espiritual daquele que pisaria a cabeça da Serpente e restauraria a humanidade. Não são os ‘deuses’ da fertilidade que dão a vida, é o próprio Deus. Os ‘deuses’ de Terá haviam sido inúteis, mas a promessa que Deus fez a Abraão de 89


que sua descendência seria numerosa como as estrelas dos céus e abençoaria todas as nações foi cumprida em Sara, uma idosa que achava não poder esperar mais nada, que parecia estar destinada a ser a última de sua linhagem. Ela achou que não teria filhos, mas quantos filhos teve Sara? Sara, assim como a humanidade, era estéril e não podia produzir vida por si mesma. A humanidade não podia salvar-se por sua própria força ou métodos. Era necessário que aquele que nascesse, ‘não nascesse da carne e sangue, mas do Espírito de Deus’. Este é o motivo pelo qual Sara, Rebeca e Raquel tiveram de dar à luz uma descendência que não era delas mesmas, mas de Deus. E este é o motivo pelo qual Jesus deveria nascer também de uma virgem, pelo Espírito, e não pela carne. Uma nova descendência estava pronta para nascer, algo novo estava para acontecer, não algo comum. Mas as pessoas que Deus usou, porém, eram comuns e de carne e osso, as quais precisavam ser trazidas para fora de seus caminhos para a terra que simbolicamente simbolizada as riquezas imensuráveis de Cristo. Deus, em sua santa providência, havia dado um irmão a Abraão chamado Naor, o qual lhe enviou notícias de que tinha agora 12 filhos. Era essencial que a linhagem permanecesse pura, e que não houvesse mistura entre Isaque e os cananeus. Foi necessário trazer uma esposa para Isaque, mas era imprescindível que Isaque não saísse da terra que Deus havia dado a Abraão, seguindo por caminhos que o levariam a outra terra que não a escolhida. Rebeca agiu pela fé naquilo que não havia visto, e identificou-se rapidamente com o servo de Abraão. Deus providenciara aquela que seria abençoada como Sara havia sido. Muitos dos parentes de Abraão estavam dispostos a conhecer seu Deus, ou já o conheciam por outros meios. Uz, o primogênito de Naor, era o nome da terra de Jó, o qual foi destacadamente justo perante Deus, e que possui um livro na Bíblia, mesmo não sendo israelita. Alguns consideram o livro do Jó uma das composições mais antigas da Bíblia, que pode ter sido passada pela tradição oral em forma de poesia, e reduzida à escrita nos tempos de Salomão. Buz era o nome de seu irmão mais chegado, ambos são localizados como estando próximos à região da Arábia. As rotas desta região eram importantíssimas, fazendo prosperar o comércio, ou seja, a riqueza de Jó (pela benção de Deus) não era apenas sua, mas algo que provavelmente vinha por várias gerações tementes a Deus. Quemuel foi pai de Arã, provavelmente ligado aos arameus na região da Síria, além de Rebeca, Arã é o único neto de Naor a ser listado. Isso deve ter acontecido porque Abraão mantinha contato com estes parentes, que já era um início da profecia de Deus de que ele seria uma benção para todas as nações. Hazo se encontra na costa árabe, próxima de Bahrein, ilha que poderia possuir uma conexão com Noé, que também poderia ser uma das fontes do conhecimento de Deus entre estas tribos. Betuel foi o pai de Rebeca e Labão (aquela bênção maravilhosa na vida de Jacó). Labão e sua mãe são citados com destaque dentro da narrativa sobre Rebeca, provavelmente por que Betuel já se encontrava velho demais para 90


administrar sua casa. Labão provavelmente nunca se esqueceu do encontro com o servo de Abraão. Enquanto Rebeca correu para sua mãe para contar a incrível história que se passara na fonte com o servo de Abraão, Labão correu ao encontro do ouro que aquele trazia na mala. Estes descendentes de Naor não são encontrados nas listas de Crônicas.

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5- Descendentes de Abraão e Quetura “Abraão deu tudo que possuía a Isaque. Porém, aos filhos das concubinas que tinha, deu ele presentes e, ainda em vida, os separou de seu filho Isaque, enviando-os para a terra oriental.” Gênesis 25: 5-6 Existe uma crença errônea de que a Bíblia aceita a poligamia, e que a endossa através das narrativas dos patriarcas. É necessário ser cuidadoso ao fazer uma pressuposição baseado em poucos versículos. A convivência de Terá em meio à cultura mesopotâmica alienou Abraão do conhecimento de Deus durante grande parte de sua vida, provavelmente até a sua velhice. Nenhuma narrativa bíblica lida com a poligamia como algo positivo. Nas narrativas patriarcais, apesar de ela ser existente, há uma crítica implícita quanto às consequências negativas, mesmo Deus fazendo surgir algo positivo dos erros humanos. Abraão teve de separar seus filhos, e no propósito original, teve concubinas apenas como um meio de tentar gerar uma descendência por métodos carnais, quando Deus a geraria milagrosamente. Jacó não teve dois casamentos por vontade própria, e as relações entre as suas mulheres e concubinas gerou sofrimento por quase toda sua vida. Davi quase perdeu seu reino nas mãos de tentativas de golpes dos diversos filhos. Salomão foi claramente contra as ordens da Lei de Moisés ao adotar um número astronômico de esposas, que desviaram seu coração de Deus e causaram a queda de seu reino. Quando se trata deste tema, estes são os exemplos de grandes homens que falharam terrivelmente. Se estes são os exemplos menos negativos da Bíblia sobre a poligamia, amenizados pelas virtudes dos homens de Deus, os outros casos encontrados nas Escrituras são totalmente negativos. Quanto a esta esposa de Abraão, Quetura, não se esclarece onde ela se encontra na cronologia da narrativa. Podemos apenas analisar as três únicas hipóteses possíveis: Ela era uma concubina anterior à vinda de Abraão para Canaã, quando ainda havia grande contaminação pela mentalidade mesopotâmica, assim como a necessidade de Abraão de gerar descendentes, sendo que Sara ainda era estéril, esta hipótese explicaria o grande número de filhos com tal mulher; Quetura poderia ser uma concubina que Abraão tomou na mesma época que Hagar, na tentativa de ‘ajudar Deus’ a fazer aquilo que Deus já havia prometido fazer, o número grande de filhos pode dever-se a uma expulsão de Ismael bem anterior ao afastamento destes filhos;

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E, finalmente, ela pode ter sido uma esposa que Abraão tomou após a morte de Sara, mas o texto bíblico diz claramente que era uma concubina. Após a morte de Sara, Abraão ainda viveu 35 anos, e seria possível gerar 6 filhos neste tempo caso ainda fosse fértil. Seja qual for a hipótese verdadeira, os seis filhos de Abraão com Quetura não são ignorados pelo autor. A genealogia a partir de Quetura segue até três gerações, com um total de 16 descendentes (6 filhos, 7 netos e 3 bisnetos). Na vida acabamos por fazer coisas de caráter questionável. Não devemos ser ingênuos e detalhar exaustivamente tudo que se passou. Muitas vezes o modo de lidar com estes erros não é tentar esconder nossas imperfeições, mas esperar que Deus nos liberte delas e use até nossos erros para Sua Glória e propósitos. A atitude de Abraão de separar seus filhos de Isaque, garante que Isaque será o herdeiro das bênçãos e da Terra Prometida sem disputas ou conflitos sangrentos pela tentativa de tomar o poder. Abraão não os despede de mãos vazias, mas lhes garante parte de sua riquíssima herança adiantada para que possam se sustentar e fundar seus próprios povoados. Estes descendentes se espalharam desde a Síria até ao sul da Arábia. Midiã foi aquele que gerou os famosos midianitas, do qual o mais famoso representante foi com certeza o sogro de Moisés. Eles eram habitantes do oeste da península arábica e parte do deserto do Sinai. Bildade, um dos amigos de Jó, habitava na terra de Suá, um dos filhos de Abraão com Quetura. De Jocsã vieram tribos misturadas de povos camíticos e semíticos, que tornaram-se ricos comerciantes, como Sebá. A rainha de Sabá mais tarde seria uma das que procuraria o verdadeiro Deus durante o reinado de Salomão. Os filhos de Midiã recebem maior destaque. Efa provavelmente era o primogênito e seu nome quer dizer ‘escuridão’, um modo de se referir à cor de sua pele. Éfer é um termo para ‘filhote de veado’, que eram animais admirados pela sua agilidade e beleza. Enoque é um nome interessante, principalmente quando aplicamos a hipótese de Noé ter habitado em Dilmum no final de sua vida (porém o termo pode apenas ser derivado do hebraico para alguém que foi dedicado a Deus pelos seus pais). Abida quer dizer ‘o pai me conheceu’, pode ser uma referência a Abraão ou a Deus. Elda pode significar tanto ‘Deus conheceu’ quanto ‘conhecimento de Deus’. Leumin, Assurim e Letusim provavelmente são nomes de povos originados posteriormente destas descendências. Esta descendência de Abraão adiciona outra camada de complexidade às terras que simplesmente denominamos como Arábia. Complexidade tal que será aumentada à medida que outros descendentes de Ismael e Esaú se instalem em diferentes áreas da região, e da qual não podemos esquecer todos os ancestrais já mencionados nas linhagens de Cam e Sem.

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6- As gerações de Isaque “Então lhe disse: Não estendas a mão sobre o rapaz e nada lhe faças; pois agora sei que temes a Deus, porquanto não me negaste o teu filho, o teu único filho. Tendo Abraão erguido os olhos, viu atrás de si um carneiro preso pelos chifres entre os arbustos; tomou Abraão o carneiro e o ofereceu em holocausto em lugar de seu filho. E pôs Abraão por nome àquele lugar – O Senhor proverá. Daí dizerse até ao dia de hoje: No monte do Senhor se proverá.” Gênesis 22: 12-14

O que teria sido abominável a qualquer ser humano fazer, para Abraão não o foi. Abraão não ofereceria o seu “único” filho como sacrifício a um ídolo abominável e sedento de sangue, que se alegrava na perversão moral e sexual, e atrás do qual se escondia um demônio que ansiava por assassinato como esta geração é sedenta por pornografia. Não era a moloque, nem aos baalins que Abraão dirigia sua atenção. Não era pedaços de pedra, feitos à semelhança da imagem corrompida do Homem, e que, sem qualquer prova de seu poder, exigiam aquilo que só Deus poderia exigir. Não era a um pedaço inútil e inerte de matéria, e também não era a um demônio vampírico sedento de sangue. Não era a ‘deuses’ desconhecidos e ocultos que Abraão se dirigia. Era ao Senhor Deus, o Criador do céu e da terra, e o doador da vida que Abraão caminhava. Houve um tempo em que Abraão não conhecia aquele Deus. Houve um tempo em que Abraão pensara que aquele Deus não era capaz de fazer todas as coisas. Houve um tempo em que Abraão pensara que Aquele Deus não era capaz de gerar vida onde só havia morte, no ventre estéril de sua velha esposa. Houve um tempo em que Abraão não considerava aquele Deus como Senhor de toda a vida. Então quando Deus pede o sacrifício mais derradeiro que poderia pedir a Abraão, este tinha motivos suficientes para fazer o que partiu a fazer. Não era um senhor de morte, era o Senhor da Vida. Abraão não estava insano, Abraão estava confiando tudo que tinha à Única base firme, pela qual todas as coisas podem permanecer firmes. Abraão entregou o seu filho para Deus, simplesmente por que conhecia Deus. Ele sabia com Quem estava lidando. Há pessoas que não compreendem essa história. Elas não podem compreender essa história porque elas não conhecem Deus, o Deus por trás desta história. Se o conhecessem, elas entenderiam do que se trata. Muitos livros tentam ensinar as pessoas sobre como ser abençoado ou bemsucedido, seja lá o que isso significa quando se torna a prioridade de uma vida. 96


Eu não posso fazer isso. Eu não posso ensinar o significado desta história, nem garantir que o leitor a entenda ou aceite. Afinal de contas, estive mentindo todo o caminho até aqui: este livro não é sobre genealogias, é sobre Aquele por trás de todas as genealogias. É por Ele e para Ele que são todas as coisas, e isso inclui as genealogias. Só Deus revela ao coração do Homem que ele precisa entregar todas as coisas para Deus e confiar em Sua soberania, que o Homem não é seu próprio dono, e que precisa de Alguém para prover expiação pela sua rebeldia e pecados contra Deus. Afinal, foi para isto que Deus instituiu o primeiro sacrifício após Adão e Eva pecarem. E é para isto que Ele proveu o Último dos Sacrifícios, para encerrar todos os sacrifícios, Jesus Cristo, o Seu Único Filho. Esta história não se trata apenas de Abraão e Isaque, ela está ali para revelar o que está atrás do véu de Deus, o prenúncio da crucificação de Jesus no Monte Moriáh. Neste monte Deus pediu que Abraão sacrificasse seu ‘único’ filho, neste monte seria construído o Templo de Salomão, e neste monte, Deus proveria o sacrifício para terminar todos os sacrifícios. Foi ali que Deus cumpriu a promessa que havia feito a Adão e Eva, a vergonha dos homens foi coberta pelo sacrifício perfeito, e o Filho de Deus encarnado em forma humana pisou a cabeça da Serpente. O poder da morte, que é o pecado, foi destruído para todo aquele que nEle crê. Esta é a vitória que vence o mundo. Mais de dois mil anos após a morte de Abraão e Isaque, Deus entraria na História, nascendo como perfeito Deus e Homem, viveria uma vida perfeita e sem pecado, morreria e ressuscitaria triunfante sobre a morte que entrou em Adão. Deus não providenciou provisão apenas para Abraão e Isaque naquele altar, ele providenciou para todos os homens, todos os homens que nEle cressem. Através do descendente de Abraão, Isaque e posteriormente Jacó, seriam abençoadas todas as nações da Terra em Cristo Jesus.

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7-Descendentes de Esaú “Isaque orou ao Senhor por sua mulher, porque ela era estéril; e o Senhor lhe ouviu as orações, e Rebeca, sua mulher, concebeu. Os filhos lutavam no ventre dela; então, disse: ‘Se é assim, porque vivo?’ E consultou ao Senhor. Respondeu-lhe o Senhor: ‘Duas nações há no teu ventre, Dois povos, nascidos de ti, se dividirão: Um povo será mais forte que o outro, E o mais velho servirá ao mais moço.’ Cumpridos os dias para que desse à luz, eis que se achavam gêmeos no seu ventre. Saiu o primeiro, ruivo e todo revestido de pelo; por isso, lhe chamaram Esaú. Depois, nasceu o irmão; segurava com a mão o calcanhar do irmão, lhe deram o nome de Jacó. Era Isaque de sessenta anos, quando Rebeca lhos deu à luz.” Gênesis 25:21-26 A primeira geração da promessa havia passado com Abraão e Sara. A segunda geração de Isaque e Rebeca agora daria lugar a um de seus filhos. Dois tipos de homem estavam no ventre de Rebeca. Um deles herdaria as promessas de Deus para a linhagem prometida. Esaú, o nascido primeiro, naturalmente herdaria as bênçãos de primogênito. Jacó não teria a herança, pois Esaú receberia bênçãos dobradas por ser primogênito. A promessa e a escolha de Deus, porém, não são escravas das vontades e convenções humanas. Não é Deus que se submete à promessa, mas as promessas que provém da autoridade livre de Deus. Rebeca era estéril, mas tanto ela quanto Isaque haviam aprendido uma importante lição com Abraão e Sara, que era não depender de métodos carnais para tentar gerar vida espiritual. Isaque não tomou outras esposas ou concubinas, Rebeca foi sua única esposa. Contudo, ainda havia lições importantes a serem aprendidas. Isaque tornou-se cego e sua preferência por Esaú sobrepujou os desígnios de Deus. Esaú era um tipo de homem que expirava virilidade e testosterona. Ele era peludo, forte, caçador perito, do tipo insensível e rude. Era um homem terreno, que dava pouca importância às promessas eternas de Deus para a linhagem da salvação. Sua visão era limitada, conseguindo pensar apenas nas suas ânsias e vontades presentes, além de ser violento como Caim, e posteriormente premeditar a morte do irmão. Embora Isaque de certo modo

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idolatrasse seu filho, este tinha pouca preocupação em honrar a seus pais, causando-lhes grande infelicidade ao casar-se com duas cananeias. Diferente de Isaque, que amava Esaú por se deliciar com a comida que este caçava para ele, Rebeca não perdeu de vista as promessas eternas de Deus. Deus havia lhe revelado que era Jacó que seria o herdeiro, e seu coração se agradava dele. Mas as preferências familiares geraram caos e discórdia dentro desta casa, e grande insegurança por parte de Jacó. Jacó não possuía a capacidade de dominar pela força como seu irmão, mas sua insegurança (provavelmente advinda, mas não justificada, pela rejeição do pai) o transformou em uma pessoa manipuladora. Ele planejava conseguir as coisas por oportunismo e engano. Rebeca não cometeu os mesmos erros de Sara, mas também precisava aprender a não depender de estratagemas humanos para cumprir a vontade divina. Sua preocupação com a passagem das promessas a Jacó era válida, mas suas atitudes de engano de seu marido foram ruins e tiveram péssimas consequências. Seu filho foi separado dela e de Isaque por 14 anos. Rebeca tinha de aprender que Deus tem o controle, independente de qualquer ‘ajuda’ humana. Jacó partiu para Padã-Arã, terra de nascimento de Rebeca. Rebeca novamente manipulou Isaque, dizendo que o motivo principal da ida de Jacó à sua terra natal era para que tivesse uma esposa que não fosse cananita. Ao saber do ocorrido, Esaú tenta fazer o mesmo, mas, com a linhagem carnal de Abraão, os ismaelitas. Em Gênesis 28:9 lê-se: ‘foi Esaú à casa de Ismael, e além das mulheres que já possuía, tomou por mulher a Maalate, filha de Ismael, filho de Abraão, e irmã de Nebaiote.’ Novamente vemos um tipo de clonagem espiritual, uma tentativa de copiar aquilo que Deus faz, mas de modo diferente. A viagem de Esaú foi apenas uma paródia, uma versão ‘pirateada’ da viagem de Jacó. Não lhe serviu de nada, a não ser para tornar-se ainda mais distante de Rebeca, e talvez, de Isaque. As mulheres cananeias de Esaú eram heteias e heveias (heveu pode significar ‘habitante das cavernas’). Enquanto os filhos de Abraão habitavam em tendas, pois sabiam que eram peregrinos na terra, Esaú começou a construir casas para morar. Ele era uma pessoa de mente materialista e imediatista. O filho de Esaú, Elifaz gerou a seu primogênito, Temã, que era conhecido por sua tradição e sabedoria. O livro de Jó cita Elifaz, o temanita, como um dos amigos de Jó. Temã foi uma importante cidade em Edom, e se encontrava a apenas cinco quilômetros de Petra. Da concubina de Elifaz, Timna, surgiu Amaleque. Amaleque gerou os amalequitas, que eram um povo temível de nômades do deserto. Os amalequitas são descritos como inescrupulosos e oportunistas, sequestrando e rapinando sem piedade qualquer pessoa ou povo que estivesse desprotegido. Enquanto Moisés e os israelitas estavam no deserto, os amalequitas tentaram um ataque de surpresa sobre o acampamento, e provavelmente se dirigiam para aproveitar-se da fraqueza do Egito, que havia acabado de ser devastado por diversas pragas. Essa hostilidade explica as ordens claras de 99


Samuel a Saul para destruir sem piedade todos os amalequitas. O ódio histórico dos amalequitas por esse evento pode ter motivado Hamã, o último dos amalequitas a ser citado na Bíblia, em sua tentativa de destruir Ester e os judeus no exílio. Um tempo após tomar Basemote, filha de Ismael, por esposa. Esaú se dirige para fora da Terra Prometida em direção ao Monte Seir, que seria o centro do futuro poderio edomita por um tempo. Se Babel é o oposto espiritual de Jerusalém, o monte Seir é oposto espiritualmente ao monte Sião de um modo diferente, como uma espécie de cópia que tenta projetar-se no lugar dela.

Descendentes de Esaú

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8- Descendentes de Seir “Os horeus também habitavam, outrora, em Seir; porém os filhos de Esaú os desapossaram, e os destruíram de diante de si, e habitaram no lugar deles, assim como Israel fez à terra da sua possessão, que o Senhor lhes tinha dado.” Deuteronômio 2:12 Seir era povoado pelos horeus. Alguns identificam estes horeus com os hurritas, embora haja discordâncias. Caso este povo seja o do hurritas, ou hurrianos, é deles a melodia mais antiga que conhecemos, o chamado ‘Hino Hurrita nº6’ de 1400 a.C. Caso a citada hipótese seja verdadeira, os horeus tiveram um amplo domínio, desde a Mesopotâmia e das cidades hititas, até a região próxima à Arábia. É possível que em Seir habitasse apenas um grupo aparentado a este povo. A questão se torna difícil, pois a Bíblia não fornece sua genealogia ascendente. Seja como for, Esaú parecia estar interessado em ter alianças políticas com eles. Já os filhos de Esaú se interessaram mais no território cheio de montanhas, e praticamente impenetrável da região. Seir possuía uma grande vantagem econômica, pois era cortado pela famosa Estrada Real, que comunicava a Mesopotâmia a esta parte do mundo. Quando os antigos reis formaram uma coalizão para atacar Sodoma e Gomorra, foi por esta estrada que eles vieram. Mesmo que Jacó e Esaú tenham se reconciliado antes de seguirem cada um o seu caminho, os israelitas e edomitas mantiveram um conflito encarniçado desde o início ao fim da existência de Edom. Logo, dentro de pouco tempo, toda a extensão de Seir pertenceria aos descendentes de Esaú. Os filhos e netos de Seir possuem nomes que lembram poder, força ou prosperidade material. Diso e Disã são duas variações de ‘antílope’ um animal admirado pela sua força, beleza e agilidade. Eser lembra a palavra para ‘armazenar’, Manaate está associada a 102


‘descansar, repousar’, Onã significa ‘poder generativo’ e Itrã passa a ideia de ‘mais que o suficiente, transbordante’. Uz pode, ou não, estar ligado à terra de Uz, da qual Jó era nativo. Conhecendo o caráter de Esaú, fica claro o motivo do seu interesse em Seir. De modo rápido, Esaú gerou seu próprio clã, que logo se tornou tão poderoso e rico que tornou-se um reino muito antes de Israel. A Bíblia é muito sincera nestes termos, e não tenta reescrever a história quando cita uma lista inteira de reis e príncipes de Edom em Gênesis 36: 31-43. Esta lista é ainda repetida em Crônicas 1:43-54, após o exílio de Israel, quando havia muita amargura pelo que havia sido feito pelos edomitas à Judá. Mas os filhos de Esaú não ficaram satisfeitos com o que possuíam, e logo, tomaram para si todo o território de Seir. Sua ganância mostra que seus xeques não pertenciam a uma família ou dinastia específica, e que a sucessão se dava através de líderes militares e conquistadores. O primeiro rei de Edom foi Bela, filho de Beor. O segundo foi Jobabe, filho de Zera, de Bozra, que quer dizer ‘lugar inacessível’. Hadade, filho de Bedade, entrou em guerra com os midianitas na região de Moabe. Saul, era de Reobote, que significa ‘lugar amplo’, uma cidade ou região na Mesopotâmia, o que pode indicar que os horeus realmente eram os hurritas, ou eram aparentados a eles. Baal-Hanã, ou ‘baal mostrou favor’, denota a idolatria da linhagem, assim como o nome de seu sucessor, Hadade. Hadade é o último nome da lista de reis edomitas, e parece mostrar um casamento por interesses econômicos, pois dá a linhagem ascendente de sua mulher através de sua mãe e sua avó, cujo nome era Me-Zaabe, traduzindo: ‘Águas de ouro’.

Israel e Edom eram semelhantes em muitas coisas: ambos tiveram a mesma origem, ambos casaram-se fora de sua terra natal, ambos se tornaram fortes, ambos possuíam uma montanha que servia de designação ao seu povo (Sião vs Seir), ambos expulsaram os habitantes originais das terras que ocuparam. De fato, Israel e Edom eram ‘gêmeos’, mas as promessas de Deus seriam passadas para Jacó, enquanto o que sobrou para Esaú foi apenas o proferido por Isaque em Gênesis 27: 39-40: “Longe dos lugares férteis da terra Será tua habitação, E sem orvalho que cai do alto. Viverás da tua espada E servirás a teu irmão; Quando, porém, te libertares, Sacudirás o seu jugo da tua cerviz.”

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Deus ironicamente e simbolicamente dá a Esaú uma habitação e modo de vida que representam o caráter do homem materialista. Como ele tinha uma mente terrena, Deus o fez habitar nas rochas. Edom nunca foi capaz de enxergar além do visível, e isso gerou grande hostilidade entre este reino e o reino de Israel. Sua hostilidade, assim como a Os descendentes de Esaú habitaram nas rochas, que de Caim, foi desde sempre. possuíam grande vantagem defensiva. Deus havia proibido os israelitas de tomarem qualquer parte, por mínima que fosse, do território edomita, já que eles e os israelitas eram um povo irmão. Os edomitas poderiam seguramente deixar que Moisés e os israelitas passassem pelo seu território, mas seu rei se voltou contra Moisés. Mesmo sabendo da libertação divina do povo de Deus no Egito, eles pouco se interessaram pela redenção de Israel, a única coisa que conseguiam enxergar em outros seres humanos era a ganância de seus próprios corações (Deuteronômio 20:14-21). Como Isaque disse da parte de Deus, eles viveram pela espada, e por causa de sua ferrenha hostilidade contra seu irmão Israel, Davi assegurou a conquista de seu território como uma tática defensiva. Sujeitar tanto os moabitas, quanto os amonitas e edomitas a trabalhos forçados era um modo de punir suas rebeliões traiçoeiras, mantê-los ocupados e cansados demais planejarem ataques Paredão de rochas de arenito no qual foram escavadas para conjuntos. Este não foi o residências. propósito original de Deus, que os queria livres, mas sua contínua revolta contra Deus e Seu povo causou o cumprimento da profecia de Isaque. Quando Israel pecou, porém, a parte final da profecia foi cumprida, e Edom libertou-se do seu julgo, atacando até mesmo a cidade de Jerusalém. Lê-se em 2 Reis 8: 20-22, “Nos dias de Jeorão, se revoltaram os edomitas contra o poder de Judá e constituíram o seu próprio rei. Pelo que Jeorão passou a 104


Zair, e todos os seus carros, com ele; ele se levantou de noite e feriu os edomitas que o cercavam e os capitães dos carros; o povo de Jeorão, porém, fugiu para as suas tendas. Assim se rebelou Edom para livrar-se do poder de Judá até ao dia de hoje”. A liberdade de Edom continuou, assim como sua ganância e seu lucro inescrupuloso. Os edomitas aproveitavam seu labirinto natural, seus corredores e caminhos secretos e desconhecidos, sua facilidade de acesso à Judá e seus vários parceiros comerciais para sequestrar e vender pessoas de Judá, ou qualquer israelita que fosse capturado pela cidade de Tiro ou pelos filisteus. Como é Os vales e caminhos pedregosos dos edomitas faziam com dito pelo Senhor através de que seu território dificilmente fosse invadido, o que Amós 1:11-12: “Por três estimulou um grande senso de superioridade e transgressões de Edom e invencibilidade, que se demonstraria falso. por quatro, não sustarei o castigo, porque perseguiu seu irmão à espada e baniu toda a misericórdia; e a sua ira não cessou de despedaçar, e reteve a sua indignação para sempre. Por isso, meterei fogo à Temã, fogo que consumirá os palácios de Bozra”. Mas a punição de Edom se aproximava, e quando mensageiros vieram daquela terra para perguntar ao profeta Isaías no capítulo 21: 11-12, de maneira poética o que aconteceria ao seu reino, Isaías os previne: “Gritaram-me de Seir: Guarda, a que hora estamos da noite? Guarda, a que horas? Respondeu o guarda: Vem a manhã, e também a noite; se quereis perguntar, perguntai; voltai, vinde.” A profecia garantia que haveria salvação para Edom das grandes invasões assírias, mas que se aproximava o fim inevitável do seu reino ganancioso e impenitente. A ‘noite’ chegou com um último aviso profético por Obadias, que sucintamente proclama a justiça de Deus contra o reino materialista e a retribuição igual ao que estes haviam feito ao seu povo irmão. A mensagem é muito clara pelo capítulo único do livro de Obadias: “A soberba do teu coração te enganou, ó tu que habitas nas fendas as rochas, na tua alta morada, e dizes no teu coração: Quem me deitará por terra? Se te remontares como águia e puseres o teu ninho entre as estrelas, de lá te derribarei, diz o Senhor.” Obadias 1:3-4. 105


Os edomitas haviam traído seu irmão Israel, e nos ataques de outros povos contra Jerusalém, eles esperavam nas encruzilhadas para vender qualquer um que vissem escapar com vida, ou até mesmo matá-los por puro ódio gratuito. O mesmo aconteceria com eles, pois seriam traídos pelos babilônios, a quem deram auxílio na destruição do Templo de Como o próprio salmista admite no Salmo 108, as cidades Jerusalém. Os caminhos fortificadas de Edom eram praticamente inconquistáveis, secretos e tortuosos de mas através de Deus, Davi conseguiu sujeitá-las. suas terras foram trilhados por Nabucodonosor e Nabonido, que utilizaria este conhecimento para destruir Edom até reduzi-la a nada. Os nabateus ocupariam posteriormente não só o assentamento que se tornaria a famosa Petra, mas todo o território edomita. Os edomitas nunca mais puderam retornar do exílio, como Israel havia retornado. Eles habitaram dentro da região de Judá que se tornou posteriormente nomeada de Iduméia pelos romanos. João Hircano obrigou-os, nos meados de 120 a.C. a ‘converterem-se’ ao judaísmo, ou serem expulsos de Judá. A ‘conversão’ forçada foi aceita. Quando Israel foi destruída em 70 d.C., os idumeus deixaram de existir como povo. O destino de Edom será o destino de todos os reinos terrenos, que vivem para si mesmos.

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9-Descendentes de Jacó “Perguntou-lhe, pois: Como te chamas? Ele respondeu: Jacó. Então, disse: Já não te chamarás Jacó, e sim Israel, pois como príncipe lutaste com Deus, e com os homens e prevaleceste.” Gênesis 32: 27-28 É difícil de saber por onde começar a história de Jacó. Ele foi uma pessoa complexa e multifacetada. Ele não tinha um caráter muito elevado, nem grande prestígio social, nem uma vida muito fácil, nem sequer a preferência paterna, e nem mesmo era o primogênito. Ele não era moralmente melhor que seu irmão Esaú. A única coisa que ele tinha era Deus. Um Deus que o amava sem motivos para isso, não pelo que ele era, mas pelo que Deus faria ele se tornar (pela Imagem de Seu Filho à qual ele seria moldado). A maior diferença entre Jacó e Esaú não estava em seu caráter ou em seus métodos. A diferença entre eles estava na santificação gradual à que Jacó estava sendo submetido, em contraste com o rumo de Esaú como seu ‘próprio dono’. Primeiramente este agir começa com a revelação do Senhor Deus a Jacó, a qual nunca foi dada a Esaú. A revelação que é dada a Jacó é um dos pontos centrais e mais subestimados da Bíblia, assim como muitas vezes distorcido e mal interpretado com sentidos místicos. O que é revelado a Jacó é o que se lê: “E (Jacó) sonhou: Eis posta na terra uma escada cujo topo atingia o Céu, e os anjos de Deus subiam e desciam por ela. Perto dele estava o Senhor e lhe disse: Eu sou o Senhor, Deus de Abraão, teu pai, e Deus de Isaque. A terra em que agora estás deitado, eu ta darei, a ti e à tua descendência. A tua descendência será como o pó da terra; estender-teás para o Ocidente e para o Oriente, para o Norte e para o Sul. Em ti e na tua descendência serão abençoadas todas as famílias da Terra. Eis que Eu estou contigo, e te guardarei por onde quer que fores, e te farei voltar a esta terra, porque não te desampararei, até cumprir aquilo que te hei referido.” (Gênesis 28:12-15). Talvez o leitor se recorde da escada que em vão os homens tentaram construir para chegar ao Céu, contra a vontade de Deus. A tentativa humana de engrandecer-se e chegar aos céus com a sua própria ‘montanha’ ou ‘escada’ artificial em forma da construção de um zigurate é muito diferente do caráter de Deus. A tentativa humana é baseada em soberba e vaidade. O que Deus revelou a Jacó foi o Seu próprio ‘zigurate’. A verdadeira conexão do Céu com a Terra, a qual nenhum Homem nem sequer pode pensar em 107


fazer. O que Deus mostra a Jacó é o Seu completo domínio e agir invisível e misterioso, escondido aos olhos humanos e aos poderosos, mas nem por isso menos real. Não foi através do levantamento de grandes povos e exércitos que Deus trabalharia para estabelecer Seu reino. Ao invés disso Ele escolheu um casal de idosos dos quais nada poderia sair, dos quais os filhos e netos foram uma família cheia de problemas e até certo ponto disfuncional. Em quatro gerações a partir daquele humilde casal, Deus subjugaria toda a ambição humana e salvaria o mundo antigo do caos, pois foi através de José, filho de Jacó, que foi salvo o mundo antigo da fome e anarquia. Deus tem o completo controle: não foi por coincidência que Jacó encontrou Raquel naquele poço, assim como os patriarcas antigos haviam encontrado suas mulheres. Não era coincidência que Sodoma e Gomorra estavam localizadas precisa e simbolicamente no local mais baixo que os homens podiam chegar, tanto moral como geograficamente (pois o Mar Morto se encontra 700m abaixo do nível do mar). Não foi coincidência que esta cidade tenha sido destruída do mesmo modo que a pervertida Pompeia o foi. O caos que o pecado causou não saiu do controle absoluto de Deus, Ele não foi surpreendido. Um começo humilde. Deus não usou pessoas prontas. Deus usaria a descendência de Jacó para abençoar todas as famílias da Terra através do nascimento dAquele que pisaria a cabeça da Serpente e redimiria aqueles que cressem. Mas Deus ainda tinha muito a fazer na vida de Jacó. O modo pelo qual Deus santifica é um processo muito dolorido chamado quebrantamento. Quebrantamento não é simplesmente sofrimento, uma pessoa pode sofrer a vida inteira e se tornar ainda pior do que era no início. Quebrantamento é a disciplina de Deus sobre o Homem aliada à fé que o próprio Deus coloca dentro deste Homem para que este sofrimento não seja inútil. Ele quebra o ego, mas vivifica o Espírito. Como um pé de cabra abrindo a concha da alma dobrada sobre si mesma, Deus usa um sofrimento especificamente programado para transformar Seus filhos adotivos à Semelhança de Seu Filho Unigênito. O desprezo de Deus por Esaú foi revelado pelo fato de Esaú possuir tudo que desejou, expandir-se, possuir territórios, ser ‘livre’ e viver a ‘própria vida’. O amor de Deus por Jacó era grande demais para que Ele deixasse Jacó sem sofrimento. Jacó era um ímpio imoral, aproveitador, manipulador, egocêntrico, rebelde e inimigo de Deus. Jacó significa ‘Enganador’, e era exatamente essa sua especialidade. Não foi exatamente por isso que Deus fez com que ele fosse enganado pela sua vida inteira? Para que ele realmente entendesse o quão odiáveis eram os seus caminhos diante de Deus? Jacó foi enganado por Labão por 14 anos. Ele foi manipulado e tratado como um joguete nas mãos de Lia e Raquel, gerando um grande desgaste emocional. Ele foi enganado pelos próprios filhos quando eles trouxeram 108


a roupa de José ensanguentada, quase do mesmo modo como ele havia enganado seu pai décadas atrás. O Jacó que luta com Deus misteriosamente no meio da noite, sem saber quem era Aquele que o atacava não possuía mais recursos. Quando lhe é perguntado, ‘Qual o teu nome?’, ele não tinha opção a não ser reconhecer e declarar exatamente o que era. Seu nome era Jacó, ‘Enganador’. Um homem destituído e sujo, que tentou ser forte por si mesmo através de seus próprios meios. Mas Deus tinha outros planos. Ele queria um homem chamado Israel, e queria que ele fosse manco e não se apoiasse na própria força. Um novo nome identificou a nova criatura: Israel. Mas não foi da noite para o dia que isto aconteceu, ele teve de se cansar bastante de ser ‘forte’ e ‘esperto’. Devido ao pecado, isso é uma grande dificuldade até para o maior dos santos. Muito do sofrimento causado em sua vida foi consequência da desestruturação emocional de Lia e de Raquel, tratadas como animais pelo seu pai Labão. Assim como Sara e Rebeca, elas também tinham lições a aprender. Raquel tinha formosura, mas não fertilidade. Lia tinha fertilidade, mas não formosura. Ambas possuíam algo que a outra não tinha, mas invés de se sentirem abençoadas por isso, sentiam-se infelizes a ponto de morrer. Alguém poderia argumentar que Deus poderia dar tudo para as duas e o problema estaria resolvido, mas creio que dificilmente elas seriam felizes com isso. Elas sentiam uma necessidade de serem amadas que não lhes foi dada pelo bruto e mesquinho Labão. Sendo criadas por este, só conheciam como arma a manipulação. Jacó amava Raquel, e Lia morria por dentro com isso. Ela achava que tendo filhos poderia conquistar a atenção de Jacó. Ela teve filhos e mais filhos com ele, mas isso não satisfazia seu coração. Lia precisava aprender um pouco sobre o verdadeiro amor e felicidade. Já Raquel, que geraria a linhagem da promessa, precisava aprender o que Sara e Rebeca já haviam aprendido antes, que era não depender dos meios carnais para gerar seus filhos. É muito fácil esperar que o esforço da carne produza o que queremos, mas é engraçado como ‘o tiro sai sempre pela culatra’ para um filho de Deus. Ao ver que sua irmã tinha dado a Jacó três filhos, ela tenta a mesma coisa que Sara havia tentado: gerar uma descendência carnal através de sua serva. Bem, aparentemente ela foi bem-sucedida, tendo dois filhos. Mas os métodos carnais sempre podem ser copiados. Se Raquel conseguiu dois filhos com esse método, sua irmã rival também fez o mesmo. Raquel então tenta outro método, usando mandrágoras, uma espécie de afrodisíaco famoso na época. Mas isto piora a sua situação, por que ela não conseguiu gerar nenhum filho através disso, mas sua irmã conseguiu gerar mais três. 109


Placar 8 x 2 para Lia. Após tentar usar concubinas, afrodisíacos e 'deuses' da fertilidade, Raquel finalmente dobra os joelhos e clama a Deus. José finalmente pôde nascer. E antes de ela morrer, o pequeno Benjamim. Tanto Raquel quanto Jacó caminharam uma jornada dura e difícil para aprender as verdades de Deus. Sua força natural havia chegado ao fim. Para Raquel, a morte prematura no parto. Para Jacó, a retirada da força natural de sua perna. Morre um Jacó e uma Raquel antigos, e nasce uma outra etapa na história da salvação: Israel nasce e as doze tribos estão completas. A história de José, e de seus irmãos, e o final da vida de Jacó não podem ser contados melhor do que nas páginas de Gênesis, e por isso me calo. Não é minha intenção que qualquer pessoa utilize este guia para substituir uma leitura de passagens bíblicas. Apenas ajudar o leitor a visualizar um mundo que as pessoas já conheciam na época, mas que para os dias atuais apresenta dificuldades de compreensão. A fé não vem pelo ver, mas apresento o ver apenas como complemento para melhor compreensão das coisas reveladas por Deus. Este guia pode ser considerado apenas como um serviço de tradução de nomes difíceis em imagens e identificações, e espero que nada aqui tenha sido inventado por mim. Sobre a história dos filhos de Israel, que antes fora chamado de Jacó, será mais bem explicada no decurso deste livro, pois a história dos filhos de Jacó e o destino da nação de Israel estão intimamente ligados. A vida de Jacó foi curta e sofrida, como ele mesmo disse ao Faraó. Mas o seu filho José foi a coroa de sua vida. Em apenas quatro gerações, desde Abraão até José, a ordem do mundo foi virada de ponta cabeça. Um casal de idosos lutou contra o mundo inteiro, e o casal de idosos venceu através de José. José foi uma figura daquele que viria a salvar a humanidade de seus pecados, como prometido por Deus. Ao entrar no Egito Jacó deve ter-se lembrado do sonho que teve com o zigurate que subia até o Céu. Ele observa de longe as pirâmides, não construídas por nenhum deles, mas que o lembravam do significado de seu sonho: Deus tem o controle completo da História, e usa as coisas

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absurdas e inesperadas deste mundo para subjugar a aquilo que os poderosos acham ser sรกbio.

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Divisão das 12 Tribos de Israel Divisão das Tribos na Visão de Ezequiel

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Aqui termina a primeira parte deste livro, sobre como as genealogias levaram de toda a humanidade a um ponto único, uma pessoa a quem Deus chamou Israel. A segunda parte deste livro tratará de como esta pessoa Israel, por meio de seus descendentes, expandiu sua genealogia de um modo a alcançar toda a humanidade. Os filhos de Israel, terão suas vidas e descendências examinadas de um por um. A ordem escolhida para isto não é a ordem cronológica e nem o caráter geográfico. A última visão do profeta Ezequiel será a base para a ordem dos capítulos seguintes. A última visão do profeta, tão mal interpretada, tem sido alvo de muita especulação. Enquanto vejo com grande decepção um número crescente de pessoas utilizando-a como a visão literal de um cumprimento futuro em um pretenso Milênio, pessoas como Don Carson, explicam a mais (talvez) complexa e mal compreendida visão das Escrituras com o máximo de facilidade, coerência e compromisso com a hermenêutica correta. O “cristianismo” atual se tornou corrompido como o judaísmo da época de Jesus, onde as visões dos homens e suas tradições tomaram mais importância no coração dos homens do que tentar entender a palavra de Deus de modo coerente e desapegado das próprias visões e ideologias. A visão será esclarecida de modo gradual através das genealogias, a medida em que entrarmos em contato com elas. Tenho de deixar claro o desprezo pela atual visão de alguns, que creem que cristianismo é nada mais do que apoiar a existência do estado de Israel, e ficam mais ofendidos quando alguém não compartilha esta visão do que quando se comete algum pecado que a Bíblia considera mais grave, como o divórcio por conveniência. Uma análise clara da Visão, e do próprio Cristianismo, não endossa e muito menos exige o apoio idólatra ao atual Estado de Israel dado pelos sionistas. Se este tipo de cristão quer tanto ver a volta de Cristo, que viva de acordo com o evangelho e o pregue a todo o mundo, e não apoie uma nação que para cumprir seus objetivos usa dos mesmos atos vis com que foi agredida durante toda a história. O Israel atual usou de tortura, assassinato, guerra e opressão, e ainda os usa, para chegar onde está. Os palestinos não tem nenhuma semelhança com os cananeus, embora a “agenda” sionista e de muitas “igrejas” seja tratá-los do mesmo modo. Digo isto embora não apoie e não considere que a causa palestina jamais chegará a lugar algum, e acredite os seus métodos para garantir seus direitos sejam ainda piores do que os dos israelenses. Não se pode usar como desculpa um evento terrível como o holocausto para fazer outro ato terrível quanto foi a invasão da terra dos palestinos. Assim como não se pode usar a ocupação israelense como desculpa para apedrejar, torturar e assassinar civis israelitas inocentes. Ser cristão não consiste em apoiar nenhum dos dois lados, assim como não o consistia em apoiar as duas facções irlandesas de católicos ou anglicanos.

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Sessão 2

De Israel às Nações

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Parte 1 Os Filhos das Concubinas

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1- A Tribo de Dã

“Dã julgará o seu povo, como uma das tribos de Israel, Dã será serpente junto ao caminho, uma víbora junto à vereda, que morde os talões dos cavalos por detrás, … A tua salvação eu espero, ó Senhor!” Gênesis 49:16-17

Dentre as Tribos de Israel, a única que não será visualmente delineada será a Tribo de Dã. O motivo é que tanto no livro de Gênesis quanto no de Números, fica claro que este filho de Israel teve apenas um descendente, e, logo, não necessita de maiores esclarecimentos. Em Gênesis este filho é chamado de Husim, e é claramente mencionado no singular como filho único: “O filho de Dã foi Husim”(Gn 46:23). A listagem de Números, mesmo usando o termo famílias, também lista apenas uma pessoa, “São estes os filhos de Dã, segundo as suas famílias: de Suão, a família dos suamitas” (Nm 26:42). Ter apenas um filho na época patriarcal, por si só, já chama atenção. Os relatos anteriores mostram que naquela época era comum um casal ter um grande número de filhos, e isso é comprovado tanto por Jacó quanto pelas genealogias de seus filhos. Muitas vezes neste livro até agora vimos a questão do perigo de presumir mais do que o texto pode estar querendo dizer. As listas dadas em Gênesis e Números são representativas de um resultado final de pessoas que formou o povo de Deus através de líderes de clãs. As famílias patriarcais do Médio Oriente organizavam-se em tendas ou construções dispostas em círculo, que possuíam um líder do sexo masculino para comandá-los. A liderança masculina era um traço necessário para tais comunidades se manterem. A genealogia pelas filhas só era contada em casos especiais. A conclusão é que o texto, embora diga que “o filho de Dã foi Husim”, não precisa ter uma análise completamente literal e fixa: Dã pode ter tido um grande número de filhas mulheres, ou pode ter tido outros filhos homens que não entraram na contagem final do povo de Deus que participou do êxodo. Foi sugerido por alguns, tanto no meio cristão como não cristão, uma afirmação que não pode ser ignorada, mas que é altamente 119


especulativa A afirmação é de que os micenos, a antiga civilização que habitou a península grega muito antes da formação da Grécia clássica, eram na verdade, descendentes de filhos de Dã. A afirmação não é tirada da cartola de algum louco fingido a teólogo, mas possui certas premissas. Vamos utilizar esta questão para inserir todo o contexto cronológico da formação das doze tribos. No final do livro de Gênesis, os filhos de Jacó, e ele próprio, dirigemse à Terra do Egito para escapar da seca e da fome que assolaram a região de Canaã. O Nilo manteve-se graças ao Senhor, que cuidou tanto do Egito quanto dos filhos de Jacó, e do restante do mundo, em uma época tão calamitosa. Um dos objetivos de Deus com estes eventos climáticos era manter Seu povo escolhido separado da contaminação das outras nações. Abraão, Isaque e Jacó tiveram um relacionamento amistoso com os cananeus, mas sua corrupção gradual poria em risco as gerações futuras, e Deus então trouxe seus filhos para a terra do Nilo. Pela providência e permissão do Senhor, muitos dos animais (como ovelhas e touros) que os israelitas estavam acostumados a sacrificar em holocausto eram sagrados para os egípcios, e seria uma ofensa muito grande ter este povo residindo em seu meio e causando transtorno para a população nativa. Por este motivo os israelitas habitaram em uma terra de separada, dada por Faraó a eles, no canto leste do delta Mas é possível que mesmo neste isolamento, alguns dos israelitas tenham se corrompido e se tornado idólatras, e diante de tal, entregues por Deus a si mesmos em sua escravidão. O contato cultural entre os povos da Tábua das Nações nesta época é maior do que muitos historiadores estariam prontamente dispostos a visualizar. Houve um contato muito grande entre os egípcios, Canaã, Ebla, a Mesopotâmia, Creta e até mesmo a Grécia, nesta época, O 'portão dos leões', em Micenas, a figura dos sendo o comércio e a migração querubins está espalhada por todo o Oriente a maior causa de intercâmbio Médio, e está presente na Arca da Aliança.

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cultural. Neste cenário não é nem um pouco improvável o contato dos israelitas com a Grécia Antiga.9 Mas que semelhanças culturais poderiam evidenciar tal relação? Um dos argumentos levantados é a descrição da origem da civilização micênica através de suas lendas. A descrição é de que os descendentes de um certo Danaus (Danaois) fundou uma “nação” ou colônia na península grega após fugir do Egito para salvar suas 50 filhas de um casamento forçado com cinquenta filhos de seu irmão, Aegyptus. Esta história talvez seja uma possível ligação e explicação de porque a tribo de Dã tenha tão poucos representantes masculinos. Dã pode ter tido várias filhas, e à medida que a população israelita crescia demais na terra de Goshen, uma tribo sem a força de clãs masculinos representativos poderia ter sido ameaçada pela assimilação cultural egípcia com líderes nativos importantes. Tal fato não é nem um pouco improvável, o mesmo problema havia acontecido com Abraão, e com Isaque na “terra dos filisteus”. 50 pode ser um número representativo não literal para indicar um grande número de filhas de Dã. Para evitar assimilação, casamento forçado, guerras (como a que havia acontecido após o estupro de Diná), ou simplesmente uma tensão política crescente, um líder danita (senão o próprio Dã) poderia ter retirado suas filhas de tal situação e criado colônias distantes do Egito. Dã também pode ter tido filhos estrangeiros responsáveis pela migração. Israelitas em navios pode ser uma imagem estranha de se imaginar, mas o delta do Nilo pode ter estimulado as habilidades navais de seus novos colonos. Uma semelhança entre nomes e um contexto histórico lendário não são evidências suficientes para se chegar a uma conclusão, mas ainda há outros traços interessantes nesta hipótese. Muitas pessoas se lembram de Micenas pela grande quantidade de artefatos dourados e as belas máscaras funerárias encontradas em seus túmulos O belo trabalho de ourivesaria dos gigantescos (ciclópicos, termo Micenos. Teriam parentesco com Aoliabe, utilizado para descrevê-los, também da tribo de Dã? 9

Alguns chegaram a argumentar sobre a possibilidade do mito grego de Hércules ser baseado no personagem bíblico Sansão. Mas personagens com força sobre humana foram idealizados por várias culturas diferentes.

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é o mesmo termo usado para designar certos elementos da arquitetura cananeia). Tais tesouros são mais antigos do que a própria guerra de Troia, entre os habitantes desta e os micenos, e datam aproximadamente do êxodo bíblico. É uma coincidência interessante ter tesouros que são fruto de um belo trabalho de ourivesaria e uma das funções designadas à tribo de Dã no deserto: “Eis que lhe dei por companheiro Aoliabe, filho de Aisamaque, da tribo de Dã; e dei habilidade a todos os homens hábeis, para que façam tudo que tenho ordenado: A Tenda da Congregação e a Arca do Testemunho (…) e o candelabro de ouro puro com todos os seus utensílios” (Êxodo 31:6-8). Neste contexto, outra suposta evidência seria a diferença cultural significativa entre civilização grega micênica e a Grécia clássica posterior. Os micenos possuem barbas como os israelitas e a língua deles povo nunca foi decifrada, sendo até o seu nome designativo derivado de línguas desconhecidas. O nome da civilização micênica, que em grego não possui significado, em hebraico pode simplesmente traduzir-se como “Mi Sinai”, aqueles que vêm do Monte Sinai. Deixo a conclusão sobre este tema em aberto, pois é a narrativa bíblica o que realmente importa neste livro. Só tratei deste assunto por estar em uma intersecção com o tema das genealogias. O que realmente podemos ter certeza é que Dã, e logo, Husim, são descendentes de Jacó, ou Israel. Eles fazem parte daquele povo que Deus quis separar entre todos os povos da Terra para Si, e isto os torna especiais o suficiente. É triste que entre a nação escolhida do Antigo Testamento, membros da Tribo de Dã, assim como outras, não acharam bom o suficiente ser especiais por Deus tê-los escolhido. A maior parte dos israelitas pensaram que precisavam de algo mais que a escolha divina. É ainda mais triste, que os cristãos, o povo escolhido do Novo Testamento, para quem o próprio Deus derramou o Seu sangue, passem tanto tempo pensando do mesmo modo que os antigos israelitas: “Eu fui escolhido, mas tenho que ser famoso”; “Eu fui escolhido, mas tenho que ser rico”; “Eu fui escolhido, mas tenho que ser bem-sucedido”. Quão pouco valor damos ao fato de que Deus nos ama. A Tribo de Dã parece, no entanto, ser mais problemática do que as outras.. Durante toda a sua história ela parece ter estado associada à rebelião de um modo mais proeminente. A Tribo de Dã é um aviso, de que mesmo entre o povo de Deus há aqueles que não Lhe pertencem. Eles estão ali, receberam o chamado e a misericórdia, mas não há um amor genuíno por Deus em seus corações. Há dois fatos incomuns na benção de Jacó sobre esta tribo. O primeiro é a associação de Dã com a figura com possível caráter negativo, 122


uma serpente a atacar. Usualmente se tem tomado essa expressão como uma visão negativa e maléfica, como uma pedra de tropeço para as outras tribos. Segundo tal interpretação, Dã representaria uma porção de pessoas que aparentam ser o povo de Deus e não o são, e esse é o motivo pelo qual há uma tradição que afirma que o “Anticristo” viria da Tribo de Dã, o que também é mera especulação. É uma interpretação interessante da passagem bíblica, mas não é necessário ver essa menção à serpente como algo ruim. Na passagem, esta serpente a beira do caminho está atacando um grande animal de guerra, e é possível que a referência a Dã seja a seu papel militar. No deserto, a proteção da retaguarda do Acampamento do Povo de Deus (que se estabelecia em formação militar) tinha Dã à sua retaguarda, para protegê-los de perseguições e ataques surpresa. “(…) estes marcharão no último lugar, segundo os seus estandartes” (Nm 2:31). Também há os feitos militares de Sansão, juiz desta tribo, e o versículo sugere uma participação importante de Dã no período do juízes. A segunda característica estranha nesta benção de Jacó os danitas, é a exclamação “A tua salvação eu espero, Senhor”. Nas bençãos sobre as outras tribos Jacó não faz este tipo de observação súbita. Novamente há duas possíveis linhas de interpretação, sendo que ou essa declaração é benéfica, na espera do papel a ser desempenhado pelo juiz de Dã sobre as tribos de Israel, ou então é a esperança para a resolução de um conflito entre o povo de Deus em aparência, na forma de uma serpente, e o povo real de Deus. O texto é, no final das contas, aparentemente ambíguo, o que se encaixa no perfil da Tribo de Dã. Uma Tribo Problemática Quando Deus distribuiu os territórios entre o povo escolhido, Dã recebeu a seguinte herança: “A sétima sorte saiu para a tribo de Dã, segundo as suas famílias. E o limite da sua herança era Zorá, Estaol, IrSemes, Saalabim, Aijalom, Itla, Elom, Timná, Ecrom, Eltequé, Gibetom, Baalate, Jeúde, Bene-Beraque, Gate-Rimom, Me-Jarcom e Racom, com a fronteira em frente a Jope”. Em alguns casos Deus dá o nome das cidades em que os israelitas habitarão, para Dã foi dado um certo limite interior a um conjunto de terras, dentro da qual poderiam habitar. Deus tinha um local de habitação e um limite específico para os danitas viverem. Como todas as outras tribos, os danitas tiveram dificuldades em conquistar sua terra, mas de todas as tribos, foram a única a querer um espaço de terra muito além do que Deus tinha planejado a eles. “Mas o território de Dã era pequeno demais para eles. Por isso eles foram lutar contra Lesém e a tomaram, 123


golpeando-a com a espada. Depois tomaram posse dela e se estabeleceram nela, e deram a Lesém o nome de Dã, segundo o nome de Dã, seu antepassado. Essa foi a herança da tribo de Dã, segundo as suas famílias. Essas foram as cidades e seus povoados” (Josué 19:47-48). A única tribo a ter dois territórios. A desculpa dos danitas é que eles não tinham território suficiente. Mas isto é meio paradoxal, já que o Mar Mediterrâneo poderia lançar-lhes em uma exploração marítima como nenhuma outra tribo. Ao invés disso, uma parte de seus homens deu as costas ao mar, adentrou o terreno montanhoso no extremo norte de Israel e lá criou uma herança própria, em uma localização estratégica de controle sobre as outras tribos, nas nascentes do Rio Jordão. Se Deus lhe dá um território em um determinado lugar, e você vira as costas, não está sendo sincero. Os danitas deveriam ter pedido ajuda para Deus e conquistado o litoral, poderiam até mesmo pedir ajuda a outras tribos, mas não o fizeram. Sua decisão foi virar as costas aos planos que Deus tinha para eles. Quando deveriam conquistar o litoral eles não o fizeram, mas quando o conquistaram, não contribuíram com as outras tribos de Israel em suas batalhas. “Entre as facções de Ruben houve grande discussão, Gileade ficou dalém do Jordão, e Dã, porque se deteve junto a seus navios?” (Juízes 5:17). Um juiz desobediente Entre as cidades de Dã, havia uma cidade chamada Zorá, em sua fronteira com Judá. Foi nela que nasceu o mais famoso de todos os juízes de Israel, Sansão, como se lê “Depois deu a mulher à luz um filho e lhe chamou Sansão; e o menino cresceu, e o Senhor o abençoou. E o Espírito do Senhor passou a incitá-lo em Maané-Dã, entre Zorá e Estaol.” No livro de Juízes, Sansão pode ser considerado a maior das quebras de expectativa. Um anjo anunciara o seu nascimento e foi dito que seria ele o que daria início a destruição dos filisteus e a libertação do reino de Israel do domínio desse feroz e poderoso povo. Sansão foi consagrado por seus pais para o nazirato, uma aliança especial de santidade com o Senhor. Ele recebeu dons especiais de força sobre humana. Mas Sansão parece nunca ter ligado muito para tudo isso. De todos os votos de nazirato que eram necessários, apenas seu cabelo cumprido (símbolo da consagração do nazireu) parecia lhe importar. Ele manteve contato com animais mortos, comendo o mel de uma colmeia de abelhas dentro de um leão morto; ele comprometeu seus pais ao dar-lhes tal comida impura; ele se envolveu sexualmente repetidas vezes com mulheres filisteias e prostitutas; além de, envolver-se nas batalhas mais motivado pelo ódio e vingança do que pelo dever de proteger o seu povo. 124


É muito comum ouvir a mentira de que uma pessoa pode fazer o que quiser pois já está salva. Sansão não dava provas de que era um indivíduo salvo, por mais que tivesse sido consagrado em seu nascimento. Ele se levanta como uma placa de Deus para aqueles que dizem que nasceram em um lar cristão católico, evangélico, ou mais especialmente presbiteriano e calvinista, e que por terem feito uma confissão de fé ou sido batizados quando crianças, eles não podem perder a salvação. “Uma vez salvo, para sempre salvo”, eles dizem. O.K., isso é verdade, mas para alguém ser salvo é necessário muito mais do que ter as coisas que Sansão teve. Nascer dentro de um lar e ser consagrado em uma cerimônia não fazem uma pessoa ser salva, isso era verdade para o nazireato e para a circuncisão e o é para o batismo. Entender princípios morais e teológicos o suficiente para ser um juiz em Israel, ter uma função na Igreja ou até mesmo escrever este livro não são provas de que uma pessoa seja salva. Quantos presbiterianos e cristãos em geral chegarão diante de Deus tendo vivido uma vida de constante desobediência e irreverência e achando que escaparão livres do juízo de Deus. Se você está em lua de mel com o mundo, você está casado com o mundo, e terá o mesmo destino dele. Desculpe, se você ainda tem a mesma vida que tinha antes de sua conversão, consegue ouvir as mesmas músicas e as mesmas piadas, e fazer as mesmas coisas que fazia, não é para o Céu que você vai. Você foi chamado por Deus, ele te deu um dom espiritual e a capacidade para fazer milagres? Isso também não é indício de que você foi salvo: Saul pode ter falado em línguas, Balaão profetizou, Judas curou e expulsou demônios, nenhum deles foi salvo. Ter dons do Espírito não significa que você tenha os frutos do Espírito. Sansão possuía força sobrenatural para levantar os portões de Gate e jogar onde quisesse. Eu fico imaginando o tipo de coisa que ele poderia fazer hoje em dia, levantar o Estátua da Liberdade ou sei lá o que. Não era o cabelo de Sansão que lhe dava força, era o Espírito Santo. Mas ser usado Estátua de Sansão em Asdode, antiga pelo Espírito Santo não significa que cidade filisteia que hoje pertence a se tenha sido salvo por Ele. O Israel. problema não era o que Sansão 125


podia fazer, mas o que ele fazia. Todos os juízes que Deus deu a Israel deram períodos variáveis de paz à nação. Mas Sansão é o único do qual se entende que não houve paz em seus dias, sua narrativa termina apenas com a frase: “Julgou ele a Israel vinte anos”. Às vezes pessoas acham que foram salvas por Deus e não o foram. Sansão, como muitos, brincou com o pecado e com o mundo. Quanto mais o fazia, menos se sentia culpado, e menos estava propenso a se arrepender. O pecado nos torna insensíveis e escravizados, se nos entregamos a ele. Muitos se entregam pensando que poderão voltar depois, mas terminam seus dias como Sansão: cegos, aprisionados, girando em círculos e expostos ao ridículo. A aparência sedutora do mundo nos atrai, e precisamos ter cuidado para não terminarmos no reino de Dagom, presos além de qualquer retorno, sem qualquer esperança de voltar, sem a presença do Espirito Santo. É uma aventura arriscada em um reino que não tem nada a oferecer, e para a maioria ela não tem retorno, e se pode apenas assumir que é o fim, e acabou sem esperanças. Há poucos sortudos, há poucos que Deus passa pelo fogo da provação no lugar miserável que nós mesmos escolhemos e podem voltar. Sansão foi em destes. Nos trabalhos forçados e no sol, com seus olhos arrancados e sem poder ver para onde ia, suas tranças começam a voltar. Sansão foi salvo, mas poderia muito bem não ter sido. Ali, no meio de uma multidão sádica ele permanece, ridículo, acorrentado a duas pilastras. Sem ver nada, seus ouvidos escutam como é o som do inferno. Amarrado no pior lugar do mundo para ele estar, os braços estendidos como Cristo, mas presos à duas colunas por cadeias de bronze. “Todas as coisas colaboram para o bem dos que temem a Deus”, os erros e o pecar de Sansão o trouxeram dor e desespero, mas Deus usou tudo isso para colocá-lo no centro do reino inimigo. Ali estava o modo de destruir a “Estrela da Morte”. Sansão afasta de si as duas malditas colunas para ser esmagado sob o peso do mundo, e começar a livrar o seu povo do julgo da escravidão. Sansão falhou por toda a sua vida e recebeu a chance de arrependimento no momento derradeiro. Cristo morreu na Cruz e inaugurou do mesmo modo o início da libertação do Seu povo, Ele nunca pecou. Não há motivo algum para nos orgulharmos de uma vida de desobediência que sabemos que no final só nos trará mais dor. Que não sejamos como Sansão, mas como Cristo, nosso Rei. Que possamos fugir de nossa estupidez antes que seja tarde demais.

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Um sacerdócio corrupto Seguindo a morte de Sansão no livro de Juízes, somos apresentados àquela que talvez seja a expressão máxima da rebeldia da Tribo de Dã. Juízes 17-18 apresenta a história de como um grupo de 600 danitas oriundos da cidade de Zorá e Estaol, armados, partiram As grandes muralhas de pedra da cidade de Dã. em busca de um local para a tribo que não aquele que foi dado por Deus. História onde outros israelitas corruptos se juntam para formar a abominável narrativa da tomada de uma cidade fenícia inocente e a destruição de todos os seus cidadãos de modo covarde e friamente calculado. O nome da cidade conquistada era Laís, que após a destruição de seus cidadãos foi chamada de Dã. Um sacerdote levita corrupto trouxe os seus ídolos e estola sacerdotal e criou em Dã um culto idólatra distorcido. Essa continuação do tema de um “povo de Deus” que não está nem aí para a Sua vontade deixa muito claro que existem homens malignos, assassinos, ladrões, idólatras gananciosos que amam mais a si mesmos do que qualquer outra coisa, disfarçados de povo de Deus e falando em Seu santo nome. Uma nova cidade e culto nascidos em sangue, cobiça, ataque aos inocentes e a completa inversão da vontade de Deus. Olhe para o texto e veja a descrição destes homens miseráveis e da característica principal do sacerdote que ELES escolheram para si mesmos. São homens que desprezam a vontade de Deus e suas ordenanças, mas que professam temê-lo. São homens que procuram para si apenas aqueles que fortalecerão suas próprias mentiras e vontade egoístas. O tipo de líder religioso que procuram obviamente fala em Deus, mas não tem nada a ver com Ele. São líderes religiosos que buscam apenas seu próprio engrandecimento, acham que a quantidade de seguidores que tem é um sinal divino de aprovação, e dizem apenas aquilo que as pessoas que os cercam querem ouvir. Estes homens dizem que seguem a Deus e procuram Sua vontade, mas, na verdade, o seu pai é nenhum outro que 127


não Satanás, a quem o Senhor os enviou, cheio de espíritos mentirosos, para que sejam entregues à própria vontade para a destruição.

Um rei apóstata Algumas centenas de anos após estes acontecimentos, quando o reino de Salomão foi dividido devido à sua desobediência, um funcionário de confiança de Salomão a quem Deus falara, voltou do Egito, onde se escondia com medo de ser morto por dizer a verdade. O nome deste homem era Jeroboão, das tribos do norte de Israel. Deus separou Seu povo em dois reinos, Judá ao sul, e Israel10 ao norte, como punição pela idolatria de Salomão. Deus havia claramente decidido que o centro da adoração de todo o Seu povo seria em um local apenas, em Jerusalém, em Seu Templo. Apesar de Jerusalém ser em Judá, e haver uma cisma entre este reino e Israel ao norte, o povo de Deus ainda deveria ser apenas um em adoração. Deus prometera a Jeroboão que se este fosse fiel, teria uma dinastia eterna como a de Davi, e aparentemente tudo estava se cumprindo de acordo esta promessa. Mas infelizmente o rei Jeroboão, assim como a nação de Israel, após permanecer tanto tempo habitando na terra da escravidão, o Egito, estava com sua mente cheia dos pensamentos deste sistema mundano. Após a morte de Salomão, Jeroboão retorna para sua terra como fora ordenado por Deus, para tomar o trono das dez tribos do norte. Mas após isso, não me pergunte como, Jeroboão dá uma guinada de 180 graus e agora decide que as coisas não serão do jeito divino, mas do seu próprio jeito. O medo de perder o poder que Deus o dera, motivou-o a criar um culto próprio e corrupto para que os israelitas não fossem até o Templo em Judá, e diminuíssem sua autoridade real sobre Israel. Como acontece com muitos homens a quem Deus levantou, as coisas agora não eram mais sobre Deus, eram sobre eles mesmos. Para diminuir o fluxo de pessoas de seu reino para o Templo, Jeroboão criou um culto a “Deus” que era nada mais do que uma paródia do culto verdeiro. Invés de levar os primeiros frutos imediatamente após a colheita, o culto de Jeroboão esperava um mês até que as pessoas tivessem feito o que bem entendiam de suas posses. Deus não teria mais a prioridade, a vontade humana sim. 10 O reino de Judá acabou por ser composto por sua tribo mais uma outra tribo, provavelmente Simeão ou Benjamim, Todas as outras 10 tribos formariam a nação Israel pós- Salomão.

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Depois disso, ele cercou-se de um sacerdócio que não pertencia a tribo dos levitas, mas a uma casta de homens baixos, tanto em importância social quanto em caráter, ou seja, sacerdotes comprados e presos à própria conveniência e agenda do rei. Em terceiro lugar, as pessoas não seriam mais obrigadas a caminhar até a distante Jerusalém, mas haveria dois centros de culto em Israel, um ao sul, próximo a própria Jerusalém e deste lado das fronteiras, e outro ao norte. Ambos os centros de adoração tinham a figura de um bezerro dourado, reminiscência da primeira abominação dos israelitas no deserto. Um centro de adoração era a tradicional Betel, já o outro, dou um chocolate para quem descobrir que cidade adorável Jeroboão escolheu como principal assento e centro religioso de seu reino. A posição estratégica de Dã como nascente de metade das águas do rio Jordão e lugar aprazível, o mais distante o possível de Jerusalém que se podia estar, foram motivos que atraíram Jeroboão para a cidade, somados a isso claro, uma longa tradição em heresias e corrupção sacerdotal. A criação religiosa de Jeroboão apelava ao visível, ao poder, ao Principal centro religioso do Reino do Norte, Dã. dinheiro, ao ego, à comodidade e as próprias vontades e o maior atrativo de todos, era poder entregar-se a tudo isso fingindo descaradamente que era em nome de Deus. Embora muitos tenham se mantido fiéis ao culto verdadeiro, e ido para Judá continuando com a tradição de ir para Jerusalém na época apropriada, a maioria das pessoas cedeu alegremente a esta paródia mesquinha e ridícula. De uma cidade que não fora planejada e nem dada aos israelitas como parte de sua herança, o veneno de Dã se espalhou por todas as dez tribos, matando o relacionamento dos homens com Deus, e levando o Senhor a destruir toda a nação de Israel e mandá-la para o exílio na Babilônia.

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Um profeta obtuso A cidade e porto de Jope eram o único porto em toda a Terra Prometida a ser plenamente conquistado por Israel. Seu nome significa “Cidade Bela”. Na extremidade do território de Dã, esse porto, atualmente chamado de Tel-Aviv pelos israelenses, ou Jaffa pelos palestinos, abre a nação do povo escolhido para o mundo dos gentios. A nação de Israel nunca teve o objetivo de ser abençoada para si mesma, mas sim para que toda a Terra fosse abençoada por Deus. Essa fora a promessa dada à Abraão. Jope tornou-se muito importante na época de Davi e principalmente Salomão, quando Israel finalmente havia se tornado a grande nação que havia sido planejada por Deus. O rei de Tiro, amigo de longa data de Davi, tornou-se também amigo de Salomão e ofereceu grande quantidade de material para a construção do Templo, material que desembarcou neste porto. Mas após a separação de Israel em dois reinos, o porto permaneceu em território apenas de Jeroboão, embora estivesse a apenas cerca de 50 quilômetros de Jerusalém. Antes dos grandes prédios e dos navios de metal, uma pequena sombra passa escondida o mais rápido que pode pelas ruas de Jope e entra no navio para a terra mais distante que consegue pensar. Um profeta que pregara a prosperidade de Deus para o povo do Reino do Norte, uma graça dada por Deus ao povo de Israel quando eles finalmente deixaram o culto a Baal introduzido pela família de Acabe. O período do reinado de Jeroboão II foi chamado de Era de Ouro de Israel, e para muitos, parecia o sinal de que agora que o baalismo havia sido expurgado, Tel-Aviv Yaffo, a extensão do que um dia foi o porto tudo estava muito bem. de Jope. Mas a benção de Deus tinha apenas o objetivo de fornecer material para a gratidão, o bem-estar e o desenvolvimento espiritual de um povo que já havia sofrido muito em tempos anteriores. Não era um sinal de que eles mereciam essas bençãos, nem de que eram bons, e muito menos de que estavam agindo como Deus queria. O falso culto continuou em Dã sem o menor sinal de perturbação, as pessoas tornaram-se abastadas, mas 130


não usaram seu dinheiro para abençoar os outros povos, e provavelmente houve um despertar de nacionalismo durante o extenso reinado de Jeroboão II. Por algum motivo a pequena figura que transitara pelas ruas cheias de mercadorias de importação e exportação em Jope fugiu para o porão do navio e lá ficou. Pouco sabemos sobre os motivos deste homem, o famoso profeta Jonas. Deus o manda pregar para os assírios, o pior povo na face da Terra naquela época, e ele simplesmente não o quis. Sua motivação não era o medo, mas o puro desprezo que tinha por aqueles seres humanos. A motivação de Jonas não era tão mesquinha quanto parece, já que os assírios realmente eram desprezíveis. Os descendentes de Assur realmente mereciam algo como o pior dos infernos, e um Deus justo realmente não poderia fazer vista grossa a tudo que eles faziam. Mas se a ira de Jonas tinha um motivo justo, porque então ele estava errado? Jonas, como muitos de nós, esquecem muito fácil de que não são tão bons. A misericórdia de Deus nos faz bons, mas nós somos tão desprezíveis e estamos em condição tão deplorável quanto aqueles assírios. Jonas se esqueceu que era um pecador salvo pela graça de Deus, e não um bom cidadão de um reino maravilhoso. Jonas é o oposto do que se espera da história de um profeta, e creio que estamos acostumados com ela. Mas sua história se interliga com a história da Tribo de Dã em Jope, e é um alerta para nós. Um alerta para que não nos esqueçamos que nossa vida e nossa prosperidade material e espiritual não são para nós, mas para os outros. A salvação não se trata de termos nossa vida maravilhosa e do jeito que queremos, não se trata sequer de nossos maiores sonhos e desejos se concretizarem. O reino de Deus trata de restaurar vidas que estavam perdidas para a glória de Deus, e este livro é um aviso claro, embora de certo modo, cômico, de como um grande profeta como Jonas, e mesmo cristãos santos e devotos podem tornar-se centrados em si mesmos e tornarem-se completamente insensíveis aos problemas daqueles que não conhecem a Deus. É uma história que creio que muitos de nós nos identifiquemos, e isso é de no mínimo trágico. Infelizmente Israel não aprendeu com a história que Deus quis mostrar através da vida de Jonas. Israel foi destruído em seu orgulho, pensando que estava bem espiritualmente. É muito fácil para uma espécie egocêntrica confundir todas as bençãos que o Senhor nos concede, com algo que é realmente nosso. Mas tudo que temos vem de Deus, seja a benção material ou espiritual. Não temos motivo algum para nos orgulharmos. Os assírios de Níneve receberam a pregação de Jonas e se converteram. Isso pode ter poupado os israelitas de um ataque estrangeiro por mais tempo do que imaginavam. Os israelitas se tornaram orgulhosos demais para perceber que era o amor pelos seus inimigos a chave para a segurança do reino. Entregues a si mesmos em sua vaidade, 131


deixaram com que os assírios seguissem o mesmo rumo orgulhoso. Menos de um século depois da pregação de Jonas o reino de Israel foi destruído pelos assírios. O prisma do rei assírio Senaqueribe, em aparente vitória, reza: sitiei Bete-Dagom, Jope, Bane-Beraque … Visões sobre Dã: No contexto das visões de Ezequiel, que lida com o povo restabelecido de Deus em perfeição, dentre as doze tribos, Dã é a que se encontra mais distante do Local do Príncipe. O que isso significa? Primeiro pode relembrar o papel da tribo como um guerreiro valente da retaguarda durante a peregrinação no deserto. Ser o último no povo de Deus não é sinal de humilhação. Mas novamente, como sempre há em relação a esta tribo, há uma ambiguidade nos termos. Dã quase sempre esteve associada a grandes eventos negativos em relação ao povo de Deus. Há uma lição importante a ser aprendida pelo lugar que Dã ocupa neste reino. Mesmo para aquele que é salvo, manter-se no pecado traz consequências eternas. Mesmo que um indivíduo seja salvo, ainda há consequências eternas tanto para ele quanto para outras pessoas que são atingidas por seus atos ou omissões. Isso não tem nada a ver com salvação por obras, mas é uma questão de lógica. É claro que o peso de glória de qualquer dos salvos é tão inimaginavelmente grande que torna impossível dizer que haja qualquer infelicidade em ter menor tesouro no reino de Deus, mas isso não afasta a questão de que almas morrem todos os dias por que estamos preocupados demais assistindo jogos de futebol. Há sim sangue em nossas mãos, e sim, ele será lavado, mas levamos conosco parte de tudo que plantamos. Já no livro de Apocalipse, entre os 144.000 selados não se encontra a Tribo de Dã, que é substituída por Levi. Isso revela uma verdade importantíssima. Nos termos da antiga aliança, havia pessoas salvas e não salvas entre todas as tribos de Israel. No Novo Testamento não existem não salvos no meio do povo de Deus. Dã não é contado pois não há infidelidade dentro do povo de Deus no Novo Testamento, o que há são pessoas que dizem ser cristãs e não o são. João foi o apóstolo que escreveu o Apocalipse, ele se lembrava muito bem de alguém que aparentava ser discípulo de Jesus e na verdade nunca foi salvo. Se por todo o Antigo Testamento temos notícia de representantes de pessoas de todos os níveis que desobedeceram a Deus, de juízes a sacerdotes, então no Novo Testamento temos o ápice de uma pessoa chamada por Deus, mas que não escapou da condenação eterna. João se lembrava muito bem de Judas Iscariotes. Este Judas recebeu uma graça que pouquíssimos homens viram na História, a graça de ser um dos doze homens que durante três anos 132


esteve com Jesus, dormir sobre o mesmo teto, comer com ele, ouvir suas belas palavras, estar ali ao lado de Nosso Senhor! Pode haver maior desproporcionalidade entre a graça recebida por Deus e a atitude de um homem para com ela? Judas é o alerta mais claro possível de que nenhum ato externo pode mudar o coração de um homem morto. Judas foi cortado dos apóstolos e substituído por Barnabé, há um paralelo muito claro com a retirada de Dã da lista das tribos, sendo substituído por Levi, ou José. A maior parte daqueles que se dizem cristãos não têm a mínima ideia do que estão falando, nunca foram salvos e estão condenados ao inferno. Muitos dizem que fazem parte dos “predestinados” e por isso nada mudará o fato de estarem salvos, mas a verdade é que só entender que existe algo chamado “predestinação” e sentir-se bem com tal ideia, não significa que uma pessoa realmente seja salva. O mundo não entende isso e não esperamos que entenda. Para o mundo, o cristianismo é apenas mais uma religião, expressa por aqueles que se autodenominam cristãos, independentemente de como agem, se bem ou mal. Isso é baboseira. O nome cristianismo foi dado por não cristãos ao verem pessoas que agiam de acordo com Cristo, logo, é um nome daqueles que receberam uma nova natureza de Jesus Cristo, e não porque “autodenominavam-se” nada. Trocar o Nosso Deus por dinheiro. Foi isso que Dalila, Mica, Jeroboão e Judas fizeram. Receberam a oportunidade de se prostrarem perante Aquele de onde sai o próprio valor de todas as coisas. Trair Jesus por um salário de um dia de trabalho é o cúmulo da insanidade. Mas trocar Jesus por qualquer coisa, mesmo que fosse o planeta inteiro em ouro seria igualmente estúpido. Contudo, a maioria dos autodenominados cristãos o faz. Eles não O negam diretamente, assim como os danitas não negavam amar a Deus em palavras. Eles dizem amálo, segui-lo, vivê-lo, mas para a maioria é tudo que isso significa, apenas palavras. O Deus deles nunca foi o Deus vivo, mas um escravo criado por sua própria mente. Como Mica eles dizem o que as pessoas querem ouvir, amaciam seus sentimentos para lucrarem com isso. Colocam um chapéu de vaqueiro e vomitam suas blasfêmias para um monte de interesseiros que não amam a Cristo, mas estão loucos pelo que Ele pode oferecer. Ganham bilhões nas costas de pessoas desesperadas, pois são lobos. Desde Mica existem aqueles tolos que pensam que o número de “fiéis” significa aprovação divina, a mesma história se repete, basta ver quais são as “igrejas” que possuem os maiores “rebanhos”. Jeroboão construiu seu falso culto e foi aprovado por todos aqueles que não entendiam nada sobre Deus. Templo de Salomão? Aquele monte de pedras no Brás significa para Deus a mesma coisa que Dã significou, uma ofensa cujo destino final é a destruição total. Falsos profetas. Uma música de “louvor” toca com legendas enquanto a televisão está ligada, ao fundo as imagens 133


são de propriedades caras, helicópteros, jatos particulares e carros luxuosos. Nunca ouviram o que Jesus falou? Não se pode servir a Deus e o dinheiro? Mas servem sim, a mamôn, à conveniência e às mentiras. Servem bem a seu pai, Satanás, assim como Jeroboão o fez, e é para este que Deus os entregou para blasfemarem o Seu nome. Altar! Altar! Sobre ti se queimarão os ossos daqueles sacerdotes que oferecem sacrifícios sobre ti! Se alguém acha fortes as minhas palavras, saiba que não são minhas, mas o próprio Deus as disse através de seu servo Malaquias. Quem poderá suportar a vinda do Senhor? Um dia em que 90% daqueles que se dizem cristãos será julgada como culpada, com o restante deste mundo perverso? Não importa se 10 tribos servem aos bezerros de ouro em Dã, o que importa é o que o verdadeiro povo de Deus quer, Seu Pai. São poucas e leves as palavras que falo, as palavras do Senhor serão mais duras quando Ele vier para julgar, o Único Juiz Perfeito, assim como julgou a Tribo de Dã por seus atos: “Apartai-vos de mim, nunca vos conheci”.

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2- A Tribo de Gade “Gade, uma guerrilha o acometerá; mas ele a acometerá por sua retaguarda.” Gênesis 49:19

Os filhos de Gade Jacó teve quatro filhos com as suas concubinas. Dã e Naftali nasceram da serva de Raquel chamada Bila; e Gade e Aser pela serva de Lia, Zilpa. Tratamos de Dã no capítulo passado e falaremos mais sobre Naftali no último capítulo desta sessão. Neste momento analisaremos Gade e Aser, filhos “adotivos” da desafortunada Lia, a moça dos olhos baços que não conseguira chamar a atenção de seu marido. Os filhos das concubinas e suas tribos sempre ficaram em segundo plano, o que faz o completo sentido. O fato de Raquel utilizar a tradição da adoção dos filhos das servas é compreensível, afinal de contas ela era estéril, e seria uma honra e um grande ato de devoção e amor poder dar um filho a uma pessoa que de outro modo viveria toda sua existência terrena com a tristeza da esterilidade. Então Dã e Naftali são frutos esperados de um desejo compreensível de ter filhos e amá-los, tudo certo para Raquel. Agora, o que Lia fez foi completamente egoísta. A obsessão de querer ter a atenção do marido não é motivação boa para forçar uma serva a ter filhos para você, se ela não vai poder criá-los. Parece que para Lia tudo começou com um desejo válido de ser amada por Jacó, mas descambou em uma competição mesquinha para deixar a irmã Raquel infeliz. É incrível como o desejo obsessivo por amor provavelmente gerará ódio e não carinho. O erro de Lia começou quando se submeteu a ser usada como um joguete por Labão para enganar Jacó em sua lua de mel. 135


Sua vontade de ter o amor de um homem a fez concordar em um esquema que arruinou o que provavelmente seria o dia mais importante na vida de Jacó. Ele foi embebedado e a tradição de usar pesados véus foi usada para que o pobre homem pensasse estar se casando com Raquel. Jacó e Raquel esperaram aquele dia por 7 anos, era para ser uma celebração maravilhosa, e se transformou em um choque traumático. Esse é o tipo de coisa que pode destruir a vida de uma pessoa, ou, pelo menos, chegar perto disso. Vamos relevar essa atitude de Lia porque Raquel também não fez nada para impedir, e isso é muito estranho. A única explicação razoável para isso é que o pai abusivo das duas mulheres estava realmente fazendo alguma ameaça pesada sobre as duas, que eu não quero nem imaginar o que pode ter sido. Podemos achar engraçado o modo como alguém avarento age as vezes, inclusive Labão, mas o homem era um monstro! Olhe o que ele fez com a vida do seu parente Jacó, olhe o que ele fez com a vida das próprias filhas. Mas é bem compreensível que essa tentativa de trazer Jacó para perto de si na verdade o tenha afastado ainda mais. A cerimônia de casamento de Jacó com Raquel alguns dias depois deve ter parecido mais com um velório. As tentativas seguintes de Lia ter filhos com Jacó foram válidas, mas se torna muito claro que quando ela chama uma serva para ter filhos com Jacó, seu comportamento se desviou para o mesmo tipo de abuso emocional que seu pai praticava em casa. Se no começo tudo que ela queria era atenção e amor, quando não conseguiu o conseguiu, pareceu mais estava disposta a destruir a felicidade dos outros. Ela queria aquele negócio chamado amor, mas para falar a verdade ela não fazia a mínima ideia do que significava essa palavra. Obrigar uma pessoa a ter filhos para você e não poder criá-los? Forçar o marido a ter mais filhos por pura competição com Raquel, a mulher que ele amava, sabendo que isso era como matá-lo de pouco em pouco? Mostrar para sua irmã que estava sendo bem mais sucedida que ela, lembrando constantemente sua esterilidade? O que ela diria aos pequenos Gade e Aser quando eles crescessem, que tinham nascido apenas para ser um joguete e fazer os outros sofrerem? O que ela queria, afeto e admiração? Pelo amor de Deus, olhe o quanto de sofrimento e ódio essa mulher trouxe para si e para os outros. Lia com certeza não se tornou mais amada por isso, e menos ainda admirada. Gade e Aser, filhos biológicos de uma pessoa que não podia chamálos de filhos. Joguetes de uma longa tradição humana de transformar outras pessoas em objetos. Nascidos querendo o amor, e vivendo desprezados. Que tipo de afeto estes dois tinham, tendo irmãos não biológicos mais velhos que provavelmente não viam com bons olhos seu

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nascimento? Gade e Aser, secundários. Gade e Aser, meios para um fim. Gade e Aser, o resto do resto. A tragédia deste tipo de pessoa que quer ser feliz a expensa da desgraça alheia é sua tentativa de parecer felizes para os outros. O nome Gade significa “Com boa sorte”. Mas somente Deus mudaria a sorte destas pessoas e poderia transformar esse bando de desajustados em Seu povo santo. Deus estava trabalhando. Essa história conturbada era proposital para a formação do povo de Deus. Deus transformaria toda a desgraça e desestruturação em bênçãos e estruturas sólidas. É isso que Deus faz. Uma vez que Deus mudasse a história daquelas pessoas, não haveria mais lugar para que Lia, Gade ou Aser sentissem pena de si mesmos. Os filhos das concubinas e suas tribos aparecem de modo mais discreto, e na visão de Ezequiel, Gade é a tribo que se encontra mais distante do centro localizada no extremo sul da Israel restaurada. Alguém poderia dizer que suas tribos são as menos importantes por não estarem no “centro da mesa”. Creio que isso seja tanto verdadeiro quanto falso. Esqueça o conceito ridículo deste mundo de que alguém precisa estar no centro ou ter notoriedade para ser importante. Aliás, esqueça o próprio conceito de importância dentro do reino de Deus. Ao mesmo tempo que sabemos que o círculo interno de Jesus tinha três apóstolos, e que a Tribo de Judá e Levi eram mais importantes, também sabemos que elas não o eram. É apenas no reino de Deus que existem estes belos paradoxos, e eles podem existir desavergonhados e imperceptíveis, porque ninguém no Reino dos Céus dá a mínima para eles. Hoje em dia todos estão todos loucos para chamarem a atenção para si mesmos. Estão atrás dos seus direitos, estão atrás de poderem fazer a sua própria vontade, estão babando de expectativa por mostrar sua importância, e o porque são importantes. São importantes porque são minorias, são importantes porque não são reconhecidos, são importantes porque sofrem, são importantes porque fazem parte de uma tradição, são importantes por causa disso e daquilo. Como é insuportável viver com o tipo de pessoa que só quer ser importante. Pro inferno com isso! O caminho da redenção das doze tribos na formação do povo de Deus não passou por esse tipo de atitude. Gade e Aser, Dã e Naftali não foram redimidos por procurar o seu valor próprio à mesa, por tentarem ser reconhecidos ou choramingarem com pena de si mesmos. Essas duas duplas de irmãos tem um paralelo no Novo Testamento e nos dá a visão de Deus sobre o tema da importância. Há duas duplas de irmãos entre os 12 apóstolos, Simão Pedro e André, Tiago e João, filhos de Zebedeu.

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“Então se chegou a ele (Jesus) a mulher de Zebedeu, com seus filhos, e, adorando-o, pediu-lhe um favor. Perguntou-lhe Ele: Que queres? Ela respondeu: Manda que, no teu reino, estes meus dois filhos se assentem, um à tua direita, e outro à tua esquerda. Mas Jesus respondeu: Não sabeis o que pedis (…) mas o assentar-se a minha direita e minha esquerda não compete concedê-lo; é, porém, para aqueles a quem está preparado por meu Pai. Ora, ouvindo isto os dez, indignaram-se contra os dois irmãos. Então, Jesus, chamando-os, disse: Sabeis que os governadores dos povos os dominam e que os maiorais exercem autoridade sobre eles. Não é assim entre vós; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva; e quem quiser ser o primeiro entre vós será vosso servo; tal como o Filho do Homem, que não veio ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate por muitos.” (Mateus 20:20-28). Gade e Aser, e seus descendentes, não se tornaram as maiores tribos e foram pouco destacadas. Eles eram coadjuvantes, pois essa era a verdadeira essência de sua natureza. Não havia problema nenhum nisso, pois foi este o lugar que Deus escolheu para eles. Em um daqueles grandes e maravilhosos paradoxos do reino dos céus, era um papel muito importante que eles fossem secundários. O importante no reino nos céus não é estar no lugar de destaque, e muito menos estar onde se quer, mas o segredo é estar onde Deus quer, pois a vontade de Deus é agradável e perfeita, e ele criou cada pessoa para ser e ocupar um determinado lugar. E este é o lugar que Gade deveria ocupar. Talvez isso pareça besteira para certas pessoas, até cristãos. Talvez escrever um livro sobre genealogias bíblicas pareça uma ideia idiota. Existem pessoas para as quais Deus reservou papeis que ninguém entende ou parece dar importância, e as pessoas, até aqueles cristãos convertidos podem dizer a estas pessoas que aquilo é loucura, que aquilo não é de Deus, que aquilo não se aplica ao modo como Deus se revelou. Mas estas pessoas reconhecem aquilo que Deus tem preparado para elas, pois foi Deus quem formou seu coração. Há uma bela intimidade entre Deus e Seus filhos aqui, onde se torna evidente para tais cristãos que Deus e eles se conhecem em um nível mais profundo do que qualquer outro ser humano pode conhecer. O que quero dizer com isso? Gade era criador de gado, mas todos os israelitas eram criadores de gado. Quando Deus reservou um lugar especial para os israelitas na terra de Goshen, José admoestou-os a dizerem quem eram, pastores de gado. Isso foi providencial, porque já foi dito que ser pastor de gado no Egito seria semelhante a querer ser um açougueiro na Índia: por alguma razão, não daria certo. Quando a peregrinação no deserto estava quase terminada, e Moisés e os israelitas ainda não haviam cruzado o rio Jordão para adentrarem à 138


Terra Prometida, a Tribo de Gade, junto com Ruben e metade de Manassés vieram ter uma conversa com Moisés. Eles perguntaram a Moisés se poderiam ter as terras ao leste do Jordão e não ter que esperar uma herança no outro lado deste rio. Eu me enquadro com a maioria das pessoas que ao lerem essa passagem não a entenderam e tiveram a sadia reação de querer chamar esses caras de loucos, materialistas, preguiçosos e pessoas que não estavam interessadas no que Deus tinha prometido para elas. A justificativa para a pergunta de Gade e companhia era que eles eram criadores de gado e que aquelas terras ao leste eram perfeitas para isso. Os outros israelitas devem ter ficado loucos e respondido: “Qual é a de vocês, todo mundo aqui cria gado e ninguém tá pedindo pra ficar aqui, tomem vergonha e voltem ao trabalho”. A prova de que poucos entendem essa passagem ao darem de frente com ela é que Moisés afirma que os gaditas podem fazer o que pediram, mas que seria injusto se eles não cruzassem o Jordão e lutassem as batalhas com seus irmãos das outras tribos. O próprio Moisés parece ter ficado furioso com eles no primeiro momento. Muitos dizem que essa atitude destas tribos era reprovável e que isso possui um simbolismo materialista oculto por trás do fato. Mas isso está errado, Deus deu as sortes específicas e os territórios certos para que cada uma das tribos chamadas transjordânicas (de “Além do Jordão”) habitassem, ele as nomeou e concedeu como herança, até mesmo designou que metade das cidades de refúgio levitas seria do lado leste do Jordão! Leiamos a passagem de Números 32:34-36, que fala especificamente da herança da Tribo de Gade:

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“Deu Moisés aos filhos de Gade, e aos filhos de Ruben e à meia tribo de Manassés, filho de José, o reino de Seom, rei dos amorreus, e o reino de Ogue, rei de Basã: a terra com as cidades e seus distritos, as cidades em toda a extensão do país. Os filhos de Gade edificaram Dibom, Atarote e Aroer, Atarote-Sofã, Jazer e Jogbeá, Bete-Ninra e BeteHarã, cidades fortificadas e currais de ovelhas”. Deus não seria complacente e não teria dado um nível tão específico de detalhes e atribuições se isso não tivesse sido da Sua vontade. O que então aconteceu ali? O que aconteceu ali foi que Deus colocara um desejo e uma visão em seus corações para perceberem que ali era o seu lugar, e eles o reconheceram pois já era seu lugar. De certo modo, o que Deus mostrou a eles é que já estavam na Terra Prometida. Eles conseguiram enxergar esta realidade e as outras tribos não, pois estas não pertenciam a tal lugar. Na verdade eram as outras tribos que não conseguiam ver a realidade. Se Canaã é por vezes comparada ao céu, então parte da Terra Santa ao leste do rio Jordão seria como um preâmbulo do Céu, seu jardim da frente, seu portão. Talvez este tenha sido o motivo de Deus não ter deixado que Moisés cruzasse o Jordão mesmo após ele insistir tantas vezes. Há unidade indivisível entre o povo de Deus, e é por isso que após cumprirem a promessa de que lutariam na frente dos israelitas na conquista da Terra Prometida, os gaditas e os outros membros das tribos transjordânicas fizeram um memorial para lembrarem-se de tudo que Deus havia lhes concedido. Mas também há multiforme graça no povo de Deus, e gloriosa diferença, o suficiente para que uma revelação individual de Deus para determinada pessoa seja mal interpretada, pois ela é tão inspirada e pessoal. Foi por esse motivo que Josué e os homens santos a quem Deus deu a conquista da terra ficaram tão alarmados que quiseram matar aqueles homens de Gade e companhia quando souberam que eles tinham construído um enorme altar junto ao Jordão. Josué e as outras tribos pensaram que eles estavam construindo um altar idólatra. Mas longe disso, era um memorial belo e espontâneo nascido no coração daqueles homens para lembrarem-se sempre da maravilhosa graça de Deus. Quantos cristãos com uma visão inspirada não foram compreendidos justamente porque foi a eles a quem o Senhor deu ver o que precisava ser feito? Há um mundo de diferença entre os oportunistas e os legalistas que tentam se aproveitar da situação ou crucificar os homens de Deus de seu tempo porque não são de Deus, daqueles que são cristãos sinceros e tem dificuldade em entender o que Deus quer fazer através de tais homens inspirados. Quase sempre todos pensam que são apenas homens cheios de si tentando aparecer e alimentar seu ego, quando na verdade há um objetivo divino por detrás. Há um universo de 140


diferença entre o que a tribo de Dã fez em Laís e o que Gade fez na transjordânia. O ponto chave é: você faz o que faz porque é sua vontade e está tentando dizer que é a de Deus, ou é porque é a vontade de Deus e Ele lhe revelou isso? Duas coisas são extremamente importantes. As aprendemos pela diferença entre Gade e Dã. A primeira é, você está em busca da vontade de Deus para sua vida e o seu lugar em Seus planos ou está interpretando (até mesmo inconscientemente) a vontade de Deus de acordo com sua própria agenda? Qual a sua reação a ter tal vontade contrariada e descobrir que está seguindo apenas seus próprios planos, e não os de Deus? Josafá construiu navios para ir a Ofir, isso não era a vontade de Deus, Deus os destruiu e ele resignou-se. Moisés queria passar o Jordão, essa não era a vontade de Deus, ele perguntou e ao receber a negativa resignou-se. Davi queria fazer um censo, essa não era a vontade de Deus, Davi insistiu, o resultado não foi bom. Dã queria uma herança, Deus queria lhes dar outra, eles não aceitaram. Gade queria uma herança, eles perguntaram, Deus lhes deu. Junto com esta questão existe outra, talvez igualmente importante. O que Deus designou a uma pessoa não é necessariamente o que designou para outra. Um cristão pode fazer algo e isso ser errado, outro cristão pode fazer a mesma coisa e isso não ser. Isso não é parte de nenhuma agenda relativista, é apenas realidade. Aquela terra era para os gaditas e rubenitas, não era para as outras tribos. Não tente copiar a missão de nenhum outro irmão e fazê-la sua ou um padrão, não vai dar certo. Se um cristão do século I reagisse e matasse seus perseguidores isso seria errado. Pode-se dizer o mesmo de um soldado cristão lutando na segunda guerra mundial ou de um policial nos dias de hoje, ou alguém como Sam Childers? Creio que não. Sexo oral é pecado? Creio que se determinada pessoa o fizer seja errado, e se outro determinado casal o fizer seja natural. Uma mulher pode ser uma pregadora? Não tente fazer da exceção a regra. Não é uma questão de áreas cinzentas, são questões preto no branco, e isso decorre do fato de que Deus criou pessoas de um jeito e outras de outro, só Deus sabe. C.S. Lewis e Tolkien estavam certos ou errados em usar o tipo de literatura fantástica e linguagem mitológica para apresentarem verdades teológicas com figuras pagãs? Realmente não sei, mas creio que exista uma resposta de certo ou errado para essa pergunta, quer eu tenha a resposta ou não. Não é o lixo relativista pósmoderno que diz “cada um faz o que acha ser certo aos seus próprios olhos”, o que nos faz terminar em um mundo caótico como no tempo de Juizes. É uma questão de que cada pessoa foi feita com um destino e local específico, para as obras que Deus determinou em sua vida, e não outras.

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A herança de Gade Gade ocupou um trecho de falésias e ravinas ao leste do Jordão, localizada na atual Jordânia. É um terreno belamente retorcido sobre o qual há um planalto com terras férteis produto de antigas erupções vulcânicas e decomposição de rochas. Como Dã, Gade também era aquele que guardava a retaguarda do acampamento do povo de Deus. Os últimos das fileiras, mas não os mais fracos, pois quando necessário se dispuseram corajosamente a estar na linha de frente lutando pela terra de outras tribos. A beleza de sua disposição no acampamento é que aqueles que estão atrás não são vistos, mas é necessário confiar muito em alguém para deixá-lo guardar suas costas. A verdade é que os bravos gaditas cuidariam de fronteiras extremamente disputadas, com edomitas, moabitas, amonitas, árabes e sírios constantemente querendo alargar os seus reinos ali, cidade por cidade. Daí a benção de Jacó falar sobre guerrilhas. Uma estela moabita testemunha A pedra moabita. com um certo exagero sobre a vitória do rei Mesa sobre as tribos israelitas e de usar israelitas prisioneiros em suas construções nos vaus (parte de um rio com facilidade de ser cruzada) para atravessar os leitos secos dos rios sazonais (uádis), estradas e fortalezas. Palavras da pedra moabita: “Ora, os homens de Gade sempre haviam morado na terra de Atarote, e o rei de Israel construíra para eles em Atarote; mas eu lutei contra a cidade e a tomei, e matei o povo desta cidade (…) E eu o trouxe de volta de lá Arel, seu maioral (…) e fixei ali homens de Sarom e homens de Maarite”. Atarote é uma cidade cujo nome significa “cercados circulares”. No texto bíblico encontramos que muitas construções defensivas foram construídas para que Gade pudesse lutar ao lado das outras tribos além do Jordão. Essas construções serviriam de proteção para as mulheres e crianças que ficassem lá por causa de seus inimigos. Os inimigos mais próximos eram os amonitas, sendo que Aroer ficava defronte de Rabá, capital dos amonitas. Esta Rabá existe hoje sob o nome Amã, capital do reino da Jordânia. Ou seja, está mais do que provado que os gaditas não estavam querendo fazer corpo mole para evitar a guerra, eles se estabeleceram no lugar geograficamente mais instável o possível, e a meu ver, era 142


exatamente estes homens que Deus queria cuidando da segurança física de Israel. A benção de Moisés também mostra o caráter guerreiro de Gade: “Bendito é aquele que alarga as fronteiras de Gade. Tem de residir como leão, e tem de dilacerar o braço, sim, o alto da cabeça. E selecionará para si a primeira parte, pois ali se reserva o lote dum legislador. E os cabeças do povo se ajuntarão. Ele certamente executará a justiça de Jeová e suas decisões judiciais para com Israel.” A descrição dada pelo cronista em 1Cr 12:1 reza sobre guerreiros de Gade“o mínimo era igual a cem (em valor de luta) e o maior igual a mil”. Em Crônicas também se encontra a descrição de que as tribos transjordânicas lutaram contra os descendentes de Hagar e prevaleceram porque clamaram a Deus e confiaram Nele. É dito que venceram sua guerra com eles pois era uma guerra do Senhor, e que o território conquistado permaneceu com as tribos do leste até o exílio.

A estrada real já estava presente no território de Gade há milhares de anos, hoje em dia ela ainda permanece. Na visão de Ezequiel, a Gade da Israel restaurada está no outro extremo. Se Dã está no extremo norte, Gade está no extremo sul. Não subestimemos o valor daqueles homens que não estão no centro, mas sim na retaguarda. Vemos homens de Deus aparecerem e fazerem grandes obras pelo Senhor, mas em sua retaguarda há um grande número de cristãos desconhecidos orando por cada um deles e orando para que o Senhor use alguém para fazer a Sua obra.

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3-A Tribo de Aser “Aser, o seu pão será abundante e ele motivará delícias reais.”

Gênesis 49:20

Os quatro filhos de Aser e sua filha Sera No capítulo anterior discorreu bastante sobre a natureza dos filhos das concubinas Zilpa e Bilá, e que eles formam duas duplas de irmãos, assim como existem duas duplas de apóstolos que são irmãos e que vieram da região norte de Israel. Aser é um dos personagens não notórios na Bíblia, mesmo sendo um dos 12 filhos de Jacó. Também disse no capítulo anterior sobre como a notoriedade não está necessariamente vinculada a importância ou ao sucesso e bençãos que alguém recebe de Deus. As bençãos relativas a Aser descrevem seu território como esplendidamente exuberante e abençoado, produzindo víveres em abundância e qualidade. A benção de Moisés também o apresenta nestes termos: “De Aser disse: Bendito seja Aser entre os filhos de Jacó, agrade a seus irmãos e banhe em azeite o seu pé. Sejam de bronze e de ferro os teus ferrolhos, e como os teus dias, durará a tua paz” (Dt 33:24-25). É um homem abençoado para abençoar, um verdadeiro servo, que se regozija mais em fazer do que em ser reconhecido. Isso coloca Aser como um exemplo a ser seguido e admirado, e não alguém a ser menosprezado. Alguém poderia exclamar “mas não sabemos nada sobre esse Aser”, mas isso não importa, o que importa não é quem ele é, mas o que ele faz. “Não sei quem é o chef, mas a comida está deliciosa, é por isso que sua comida está na mesa do rei”.

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Aser é frutífero. O azeite era usado não apenas na alimentação, mas também iluminava e colocado em ferimentos servia de remédio. Então há uma grande presença de frutos espirituais na vida deste homem. Além do mais suas trancas são de ferro e bronze, materiais caros na época de Moisés, além de resistentes. Suas trancas são resistentes pois isso simboliza sua segurança e paz inconquistáveis. Enquanto este homem vivesse ele seria feliz e abençoado e aqueles ao seu redor também o seriam. Muitos nomes de cidades do território de Aser tem localização desconhecida. O Monte Carmelo era o ponto mais destacado, e as regiões próximas são cheias de vinhedos, pomares, olivais e campos floridos. O próprio nome Carmelo significa “pomar”. Isso contrasta fortemente com a imagem de Israel nos tempos do profeta Elias, quando nem mesmo o Carmelo produzia. Deus enviou uma seca terrível para demonstrar ao povo de Israel que não era baal, a pseudo-divindade fenícia, quem lhes estava dando prosperidade, colheitas e chuvas Monte Carmelo, a montanha junto à costa no norte de Israel. no tempo certo. Creio que todos conheçamos a história de Elias o suficiente. É importante notar que no Monte Carmelo ocorreu o desafio de Elias e a derrota dos profetas de baal. Se alguém tem frutos espirituais ou benção material, é necessário reconhecer que Deus é a fonte destes, e que se Ele as reter nada sobrará de nós. A idolatria e o culto a baal entraram em Israel porque o povo de Deus falhou em eliminar seus inimigos. Isso foi particularmente verdadeiro no caso dos aseritas, pois seus inimigos eram os fenícios. Os fenícios possuíam recursos e poderio tão superior aos israelitas que seria impossível vencê-los, e, nem mesmo os babilônios e os assírios conseguiram vencê-los. Seria demais pedir a uma pequena tribo como Aser para investir contra cidades que tinham o apoio naval de um 145


poderio capaz de buscar ouro até mesmo no Senegal. Seria mais fácil ganhar uma luta contra os assírios em pessoa, como aconteceu milagrosamente com Ezequias. Mas o poder e o coração dos fenícios não era um reino de terras, mas a vastidão dos mares. Os mares na Bíblia, símbolo de forças sobrenaturais caóticas e malignas que governam as nações. “Aser não expulsou os habitantes de Aco, nem os habitantes de Sídon, de Alabe, de Aczibe, de Helba, de Afeque e de Reobe. Assim, os aseritas continuaram morando no meio dos cananeus que viviam naquela terra, visto que não os expulsaram.” Nenhuma das doze tribos conseguiu expulsar totalmente os cananeus, e Aser não seria capaz de manobrar contra Sídon, ou Aco, ou Aczibe, ou Hamom. Isso não poderia acontecer porque as cidades filisteias não eram isoladas, elas tinham o suporte e o apoio de inúmeras cidades fenícias, impossíveis de Cidade litorânea no território da tribo de Aser. serem atacadas, não só ao norte de Israel, mas na África e até na Europa. Um sistema vasto, poderoso, com suprimentos constantes e adaptável. Não era possível vencer o mar. No entanto Deus pediu isso dos israelitas sabendo que não seria possível vêlo feito. Não seria possível, pois a conquista da Terra Prometida é como a conquista de todo o nosso ser. Cada cidade, cada território, é um aspecto ou Hamom, cidade litorânea de Aser, nunca conquistada. 146


um nicho de nossa vida. Nossa carne rebelde é como as cidades cananeias não conquistadas, os fenícios são como o sistema inteiro do mundo controlado pelo próprio Satanás. Jesus nos pede para sermos perfeitos e não menos do que isso. É uma tarefa impossível, nunca conseguiremos neste corpo. Então é necessário o alerta saudável de que não importa quão frutífero e cheio do Espírito Santo alguém seja, ainda não foi manifestado aquilo que seremos. É ao mesmo tempo trágico e cheio de esperança e alegria. Somos uma versão caída de uma realidade ainda não alcançada, mas que todo cristão verdadeiro sabe que um dia será alcançada. É como o espinho na carne de Paulo. Por enquanto, temos a maravilha da santidade de Deus operando em nossa carne, levando e lavando as nossas vontades como as águas do litoral varrem soprando o ar fresco em nossos pulmões. Agora vemos em partes, mas em breve veremos face a face, e Deus conquistará para nós todo o nosso ser perdido, as áreas não conquistadas de nossas vidas. É bom sabermos que temos um General maior do que qualquer coisa. Cristo nos deu o pão da vida. Que possamos agradá-lo com os frutos dignos de uma mesa real.

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4-A tribo de Naftali “Naftali é uma gazela solta; ele profere palavras formosas.”

Gênesis 49:21

O maior desejo de Raquel era ter filhos, mas ela era estéril. O problema da infertilidade foi enfrentado por Sara e por Rebeca e agora estava sendo enfrentado por Raquel. Gerar uma descendência prometida foi o foco das duas primeiras mães do povo de Deus, mas não de Raquel. Ver seu marido ter três filhos de outra pessoa enquanto ela não conseguia fazê-lo foi difícil para ela. Já teria sido difícil ter visto apenas seu marido ter um primogênito, mas três filhos era demais. A motivação de Raquel não foi o desejo de ser usada para Deus ou ter qualquer papel na linhagem messiânica para abençoar todas as pessoas da Terra. Nenhuma das irmãs estava disposta a ver a outra mais feliz do que ela mesma. A motivação de Raquel foi ciúmes (compreensível) e competição. Como Sara, ela trouxe uma linhagem de sua carne na forma de dois filhos, Dã e Naftali. O nome de Dã significa Juízo, e Raquel lhe colocou este nome em seu primeiro filho adotivo por achar que isso fora um julgamento de Deus para sua causa. Duvido que a observação dela estivesse correta, Raquel teve apenas dois filhos adotivos enquanto Lia já tinha três naturais, e ela desistiu de usar a estratégia das concubinas logo que Lia usou o mesmo método para gerar Gade e Aser. A visão de Raquel estava turva, ela usara um método carnal e obtivera um resultado carnal, o juízo justo de Deus foi para com Lia, dando filhos a mulher desprezada e que não se sentia amada. A amargura de Raquel impediu-a de ver o sofrimento de sua irmã ou se alegrar com os filhos desta. O nome de Naftali, o segundo filho,

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também está ligado à sua competição. Raquel pensou ter vencido a competição com sua irmã, mas isso estava longe de ser verdade. Naftali foi um daqueles filhos de menor destaque de Jacó. Nada sabemos sobre ele, a não ser o que sabemos sobre os outros, e que teve pelo menos quatro filhos. Novamente, a redenção dos filhos de Jacó transformando-os em filhos de Israel fez deles uma benção, isso já foi citado anteriormente. Se alguém conhece a Cristo e é redimido não ficará remoendo para sempre sobre sua pequenez ou seu passado difícil, essa pessoa está livre para saltar de alegria e dizer palavras boas. Essa foi a descrição de José em seu leito de morte sobre Naftali. Remoer a própria necessidade gera dor, escravidão e morte. Alegrarse com a redenção de Deus gera alegria, liberdade e vida, assim como uma tremenda força. Esse é o novo Naftali. Moisés também dirigiu sua visão de Naftali antes de partir: “Naftali está satisfeito com a aprovação e cheio da benção de Jeová. Toma deveras posse do oeste e do sul”.

Deus escolheu talvez a mais bela região de Israel para a tribo de Naftali, a terra ao redor do “Mar de Quinerete”. Os israelitas o chamavam de mar devido ao seu tamanho, mas, na verdade, era um lago, chamado mais tarde de Mar da Galileia ou Lago de Genesaré. Essa é a região do Norte de Israel, ao sul da grande montanha do Hermon, e é bela e agradável. Alguns comparam o Hermon à montanha de Deus, e de suas neves eternas desce o Rio Jordão, que enche de vida o que de outro modo seria deserto. Ao oeste do Jordão está a bela terra que Naftali recebeu. A força e bênção que recebeu de Deus tornaram a tribo ligeira como uma corça, capaz para as lutas que se fariam necessárias sob Débora e Gideão 149


no tempo dos juízes. Naftali. Monte Hermon, um rio de vida que sai de uma grande montanha. A Galileia é como um retrato do Éden e das maiores bençãos de Deus. É interessante notar, que como no Jardim de Deus havia uma árvore da Vida, em Naftali existia uma árvore tão grande e significativa que recebeu atenção como marco da terra: “A sexta sorte saiu para os descendentes de Naftali, para os descendentes de Naftali segundo as suas famílias. O limite do seu território começava em Helefe, na árvore grande em Zaananim, passava por AdamiNequebe e Jabneel, ia até Lacum e terminava no Jordão. O limite voltava para o oeste até Aznote-Tabor e se estendia dali para Ruínas de Hazor. Hucoque, e chegava a Zebulão ao sul, a Aser ao oeste, e a Judá, no Jordão, ao leste. E as cidades fortificadas eram Zidim, Zer, Hamate, Racate, Quinerete, Adamá, Ramá, Hazor, Quedes, Edrei, En-Hazor, Irom, Migdal-El, Horém, Bete-Anate e Bete-Semes, com suas cidades e seus povoados. Essa foi a herança da tribo de Naftali, segundo as suas famílias, as cidades e seus povoados”(Josué 19:32). Essa terra foi conquistada na época de Josué de poderosos inimigos. Hazor era uma poderosa fortaleza cananita, e tanto Josué, como Débora e Baraque travaram guerra contra a grande cidade da região. Hazor deveria ter cerca de 30.000 habitantes na época, o que era muito. Nada vem de graça, a beleza, a glória, a paz e a

Vista da área da antiga cidade forte de Racate.

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santidade devem ser conquistadas, assim como são recebidas de Deus, é uma graça ativa. Outra cidade a ser conquistada foi Racate. O inimigo não cederia facilmente as áreas mais preciosas que ele tem. O inimigo não está disposto a entregar as áreas mais importantes para a nossa vida espiritual. Quanto mais gloriosa uma área de nossa vida tem potencial para ser, mais ele lutará para manter tal fortaleza, e haverá o maior número das que ele conseguir implantar. Como as outras tribos, Naftali também deixou algumas cidades a serem conquistadas. Bete-Shemesh e Bete-Anate. Shemesh era o nome de um ídolo, uma falsa deidade solar. Bete-Shemesh, ou, a “Casa do Sol” era um possível centro de adoração deste falso deus de mesmo Ruína na cidade de Quedes-Naftali, lar do antigo juiz nome. Infelizmente, Baraque. Tropas de Naftali e Zebulom encontraram-se contra o povo de Naftali os cananeus aqui um dia. Hoje, isso é o que sobrou. cairia, assim como todos os seus irmãos caíram, em pecado, perdendo sua força. Infelizmente, nada do que é bom e belo dura por si só. Sem Deus, o povo de Naftali foi submetido à destruição pelos terríveis assírios. A camada de destruição e cinzas das cidades israelitas da região eram tão grandes que alguns arqueólogos afirmaram ter sido os piores sítios de destruição que já haviam visto. Pelo que sabemos dos assírios, podemos apenas presumir o tipo de violência e desespero que se apossou destas terras quando o Senhor abandonou Naftali a sua própria força. “Nos dias de Peca, rei de Israel, Tiglath Pileser, rei da Assíria, invadiu e tomou Ijom, Abel-BeteMaacá, Janoa, Quedes, Hazor, Gileade e a Galileia, toda a terra de Naftali, e levou os seus habitantes para o exílio na Assíria” (2 Rs 15:29). Levados para o exílio, expulsos de sua terra, destruídos de modo quase absoluto como tribo, Naftali e as tribos de Israel se tornaram a habitação de povos pagãos e misturados, trazidos pelos assírios e assentados na primeira amostra da “política do liquidificador” da história, quase três mil anos antes que Stálin fizesse coisa semelhante na 151


União Soviética. Os israelitas perdem sua força, sua identidade e de certo modo, sua própria existência, devido aos seus pecados. Por 700 anos não houve nada além de ruínas e cidades miseráveis aos olhos dos judeus nesta região. É neste contexto que o profeta Isaías declara a profecia: “Mas para a terra que estava aflita não continuará a obscuridade. Deus, nos primeiros tempos, tornou desprezível a terra de Zebulom e a terra de Naftali; mas nos últimos, tornará glorioso o caminho do mar, além do Jordão, Galileia dos gentios. O povo que andava em trevas viu uma grande luz, e aos que viviam na região da sombra da morte, resplandeceulhes a luz” (Isaías 9: 1-2). 700 anos depois da destruição de Israel pelos assírios, um novo morador chega à cidade de Cafarnaum, antes terra de Naftali. Ele tinha um jeito firme de andar, um jeito manso de falar, e as belas palavras que se esperava de Naftali: “Ouvindo, porém, que João fora preso, retirou-se para a Galileia; e, deixando Nazaré, foi morar em Cafarnaum, situada à beira-mar, nos confins de Zebulom e Naftali; para que se cumprisse o que fora dito por intermédio do profeta Isaías: Terra de Zebulom, terra de Naftali (…) Daí por diante, passou Jesus a pregar e a dizer: Arrependeivos, porque está próximo o reino dos céus. Caminhando junto ao mar da Galileia, viu dois irmãos, Simão, chamado Pedro, e André, que lançavam as redes ao mar, porque eram pescadores. E disse-lhes: vinde após mim e eu vos farei pescadores de homens. Então eles deixaram imediatamente as redes e o seguiram. Passando adiante, viu outros dois irmãos, Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, que estavam no barco em companhia de seu pai, consertando as redes, e chamou-os. Então, eles, no mesmo instante, deixando o barco de seu pai, o seguiram.” (Mateus 4:12-22). Esse homem era Jesus Cristo, e ele seria o restaurador não apenas do povo perdido de Naftali ou de Israel, mas de todos os seres humanos que Nele cressem. A profecia sobre as palavras formosas de Naftali não poderia ter um cumprimento maior do que as palavras saídas da boca do próprio Deus, vagando pelas ruínas de uma terra destruída, restaurando tudo que fora despedaçado, mas desta vez, com fundamentos eternos, que nunca mais serão abalados.

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Parte 2 Filhos de Lia: Zebulom, Issacar, SimeĂŁo.

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1- A Tribo de Zebulom “Zebulom habitará na praia dos mares e servirá de porto de navios, e o seu limite se estenderá até Sidom.” Gênesis 49:13

Filhos de Zebulom Entramos em uma nova fase da história de Raquel, Lia e Jacó. Após ter tido 3 filhos biológicos, o Senhor achou que isso era benção o suficiente para Lia, e parou de dar-lhe mais filhos. Se Raquel tivesse orado e servido a Deus, ela poderia ter sofrido muito menos e tido seu sonho realizado, mas ela ainda confiava em suas próprias estratégias. Deus estava pronto para abençoar, mas suas filhas não estavam prontas para receber a benção. Provavelmente Deus parou de dar filhos a Lia por amor a Raquel. Mas Raquel não confiava em Deus ainda, ela guardava uma série de ídolos de seu pai, e tentou conseguir algo por suas próprias estratégias, chamando sua concubina para fazer o trabalho. Se ela não tivesse feito isso provavelmente ela teria sido abençoada e sua irmã teria tido apenas três filhos. Não é incrível como logo após Raquel ter tido apenas dois filhos adotivos por esse método, Lia tenha conseguido copiála exatamente, tendo tido também dois filhos adotivos? Foi a justa medida que Deus deu a ela pelo que ela fez, não mais e nem menos. Não é surpreendente que quando tentamos fazer algo pela nossa própria força e nossa própria carne, conseguimos exatamente o efeito oposto ao que esperávamos? Depois de dada esta lição por Deus, seria de esperar que Raquel tivesse aprendido a não depender de si mesma para conseguir superar 155


sua própria limitação. Não havia o que ela pudesse fazer, ela precisava de Deus, e se tivesse aprendido isso e se contentado em errar apenas uma vez, não iria sentir-se frustrada por mais alguns anos. Deus já a havia repreendido e provavelmente era o ventre de Lia que estava fechado agora, já que era o filho desta que estava trazendo as mandrágoras afrodisíacas secretas, o que significava que esta questão já poderia estar encerrada. Mas Raquel não conseguia aceitar que não podia fazer algo, nem que dependia de Deus para a coisa mais importante em sua vida. “O sonho é meu, e sou eu que vou realizá-lo” dizia ela para si mesma. Se Lia queria usar as técnicas carnais para conquistar Jacó, Raquel poderia ter sido esperta e usar um pouco mais o espiritual, e creio que isso realmente fosse a solução para todos os problemas. Ela poderia ter sido uma esposa doce e conselheira que conquistaria ainda mais o coração de Jacó através de gentileza e oração. Mas quantas vezes os filhos espirituais de Deus, a Igreja, tentam copiar todo tipo de técnica do mundo para resolver os seus assuntos? Não vamos culpar Raquel tão enfaticamente. Se Lia estava usando as mandrágoras afrodisíacas secretas então era ela que estava querendo algo e não estava conseguindo. Teoricamente, se Raquel copiasse sua irmã e conseguisse apimentar seu relacionamento o suficiente, seria ela que teria os filhos e tudo ficaria certo: sua irmã ficaria sem as mandrágoras afrodisíacas secretas de Rúben, e continuaria com o ventre fechado por Deus Raquel estava apostando as fichas que ESSA estratégia era a que ia dar certo. Mas as coisas nunca dão certo quando um filho de Deus tenta usar as mesmas técnicas que o mundo para obter seus resultados, certo? Misteriosamente agora é Lia que tem seu útero, ovários e tudo mais restaurado, e não Raquel. Cuidado, Deus pode ressuscitar seus velhos inimigos se você tentar fazer de suas próprias estratégias suas novas amigas. O pesadelo que devia ter passado retorna, infelizmente para Raquel, sua tentativa de acender um fogo no seu marido fez com que Lia tivesse mais 3 filhos. Todo mundo saiu perdendo, não é todo homem que é tolo o suficiente para gostar de ser tratado como um objeto, embora nossa cultura diga o contrário. Leia Gênesis 30:16 e ficará muito claro que o relacionamento de Jacó com suas esposas havia se tornado um mero contrato comercial. Zebulom e Issacar foram os últimos filhos de Lia com Jacó, Diná nasceu logo depois. Creio que mais alguns bons anos tenham passado em frustração para Raquel. Porque? Porque ela não quis obedecer Deus. Quantas vezes nós culpamos a Deus pelo nosso sofrimento e o único culpado é aquele que você vê no espelho. Zebulom e Issacar são o último suspiro do esforço carnal, tanto de Lia, quanto de Jacó, e mais ainda de Raquel. A chegada de Diná, a filha mulher, é como a entrada suave da voz da Graça chegando a toda a 156


família. Porque apenas depois de Diná Deus ouviu Raquel? Eu não sei. Mas talvez olhando para Diná, Raquel e Lia possam ter visto a si mesmas, e pensado um pouco sobre quem realmente eram. Eram mulheres que haviam sofrido nas mãos de um pai abusivo e nunca tinham conhecido amor verdadeiro. Provavelmente quando Lia ficou grávida novamente, todos imaginavam que nasceria outro filho homem, afinal de contas, Lia já havia dado a luz a 7 varões. Talvez quando Diná nasceu, Jacó, Lia e Raquel tenham se olhado e finalmente entendido que eram pessoas machucadas, e pensaram, “não, essa garota não pode sofrer como nós”. O instinto paterno protetor para com uma filha é algo que não pode ser subestimado. Mas o instinto maternal de Lia e Raquel, reconhecendo a si mesmas naquela menina e dizendo: “Chega, essa luta acaba aqui, nós já nos machucamos demais uma a outra, e essa garota não vai pagar por nossas frustrações. Chegou a hora de parar de levar isso adiante para nossos filhos”. Algum tempo depois de Diná nascer, Raquel finalmente tem seu tão esperado filho, José. O nome Zebulom significa “Honra”. O nome está ligado ao fato de Lia ter se convencido de que dar seis filhos varões a seu marido Jacó seria o que o faria a amar e dar-lhe valor. Creio que ela estivesse enganada. Quando Diná nasceu, ela sim, foi a coroa. Talvez tenha sido a chave para Jacó compreender quem eram suas esposas, e talvez tenha sido a chave para que elas compreendessem quem elas mesmas eram. Provérbios afirma que buscar a própria honra não é honra, assim foi com as duas irmãs. Sua honra chegou não de onde esperavam, mas de outro lugar e pessoa. Zebulom veio a ter 3 filhos: Serede, Elom e Jaleel, que deram origem às famílias desta tribo (Gn 46:14). Pouco se sabe sobre estes homens. Os nomes Serede e Jaleel não são encontrados em outro lugar das Escrituras, Elom só aparece uma vez, onde a Bíblia diz que houve um juiz de Zebulom com este nome, e nada mais: Jz 12:11-12 diz “Depois dele veio Elom, o zebulonita, que julgou Israel dez anos. Faleceu Elom, o zebulonita, e foi sepultado em Aijalom, na terra de Zebulom”. Obviamente não se trata do mesmo Elom, mas o seu descendente foi batizado em homenagem a um dos três chefes das famílias da tribo. A benção sobre Zebulom se estender até Sídon provavelmente está falando mais em um domínio comercial do que territorial. Zebulom é chamado de “caminho para o mar” e não se encontra diretamente no Mar Mediterrâneo, a leste, e nem no grande lago da Galileia, a oeste, e sim no meio. Isso faz com que eles fossem mais uma ponte de ligação do que um navio, embora a benção de José diga que eles serviriam de porto de navios. Talvez a chave para entender esta passagem seja considerar que mesmo sem portos, eles eram o “porto” ou elemento de ligação entre os dois corpos de água e os verdadeiros intermediários de Israel. 157


Zebulom e seu irmão Issacar são mencionados juntos na última benção de Moisés, em Deuteronômio 33:18-19: “De Zebulom disse: alegrate, Zebulom, nas tuas saídas marítimas, e tu, Issacar, nas tuas tendas. Os dois chamarão os povos ao monte; ali apresentarão ofertas legítimas, porque extrairão a abundância dos mares e os tesouros escondidos da areia”. O texto fala dos dois no contexto comercial, e Issacar também não tinha saída direta para o mar da Galileia. Junto com Naftali, Zebulom lutou nas guerras nos tempos dos juízes, vemos em Juízes 5:18-22, no Cântico de Débora: “Zebulom é povo que expôs a sua vida à morte, como também Naftali, nas alturas do campo Vieram reis e pelejaram os reis de Canaã em Taanaque, junto às águas de Megido; porém não levaram nenhum despojo de prata. Desde os céus pelejaram as estrelas contra Sísera, desde a sua órbita o fizeram. O ribeiro Quisom os arrastou, o Quisom, ribeiro das batalhas. Avante, ó minha alma, firme! Então, as unhas dos cavalos socavam pelo galopar, o galopar dos seus guerreiros.” Nota-se que Zebulom está bastante ligado a outras tribos e citado junto a elas. Quando o povo de Deus O obedece e o ama, não há facções ou divisões, eles estão todos unidos. Cristo é a ponte que une não somente a Deus, mas os Seus filhos, uns aos outros. Em Deus, Seus filhos arriscarão as suas vidas uns pelos outros e darão tudo de si. Sem Deus as tribos apenas guerreariam entre si até a aniquilação, pois a facciosidade é obra da carne. Uma das palavras que eu mais odeio é “denominação”. Porque eu odeio tanto essa palavra? Porque no contexto usual ela representa um estado contraditório à natureza do povo de Deus. Não existem presbiterianos, batistas, pentecostais. Existem cristãos. Em Deus esses irmãos estarão em comunhão buscando entender a natureza de Deus biblicamente, ainda que discutam ardentemente suas questões teológicas. Esse é o estado saudável da Igreja, e na verdade, penso que este é o único estado verdadeiro da Igreja. Sem Deus a obra de satanás, Babel, entra em ação, e os homens não podem entender-se. Então nos jogamos em questões mesquinhas e ridículas sobre supostas diferenças doutrinárias, roupas, história e blá-blá-blá. Com uma devoção fervorosa ao que pensam ser Deus, estão O alfabeto fenício e sua adoção em outras culturas. na verdade adorando ao próprio Satanás, o pai da discórdia. Será 158


surpreendente quando no dia do julgamento, a maioria das pessoas que todos veem como as mais “puras” terão seu coração exposto e serão lançadas para bem longe da presença de Deus. O comércio no mundo antigo capacitava e criava a necessidade de se escrever e calcular de modo rápido e preciso. É dito que os negócios de Zebulom se estenderiam até Sídon. Sídon, a mais famosa das cidades fenícias, e a mais importante, era uma cidade em que predominava a cultura dos cananeus. Mas nesta benção Deus não está falando de modo negativo com Zebulom pelo comércio com este povo paganizado. Foi o ritmo do comércio fenício que fez necessário e possível ao leitor deste livro ler como está lendo. Você pode não saber, mas desde criança, o alfabeto que aprendeu na escola é o praticamente o mesmo que os sidônios inventaram, e que mais tarde foi aproveitado pelos gregos e todos os que comerciavam com os cananeus. O primeiro alfabeto do mundo, e o mais bem-sucedido. Estou dizendo isso porque algumas traduções de Juízes 5:14 trazem, ao invés do termo “vara de comando”, a expressão “que manejam equipamento de escrevente”, como os homens que contribuíram nas guerras dos juízes. Homens letrados e pessoas para fazerem o senso e os cálculos de logística nas guerras teriam sido muito importantes no mundo antigo, onde o analfabetismo era muito grande. Essa foi a função de Zebulom em Juízes 15, contribuir para a guerra não com soldados, mas homens letrados. No tempo do Novo Testamento temos um apóstolo que também lidava com cálculos e números, homem letrado e que tinha uma relação muito próxima com uma potência estrangeira inimiga de Israel. Uma ponte com os gentios. Mateus era um coletor de impostos para o Império Romano, e provavelmente odiado pelos próprios judeus por isso. O fato de ser um homem letrado é o motivo de termos o Evangelho de Mateus. Muitas pessoas nunca repararam o fato Monte Tabor, nas fronteiras dentro de Zebulom. o mesmo estranho de que não monte será visto novamente de outro lado. Deus é nosso temos doze relatos do único Monte, não importa de que perspectiva se olhe esta realidade, Ele continua o mesmo.

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evangelho, mas apenas quatro, sendo só dois deles de apóstolos que andaram com Jesus. É possível que alguns dos próprios apóstolos fossem analfabetos. A união das tribos na verdadeira argamassa de Cristo era a vontade de Deus tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. Sem a reverência a Deus, não demorou muito para que o espírito de união e sacrifício entre as tribos fosse substituído por rivalidade, facciosidade e ódio. As tribos passaram a lutar encarniçadamente umas com as outras até que a glória de Israel fosse perdida. Irmãos lutando por uma herança. Irmãos assassinando uns aos outros na terra que o Senhor lhes havia dado. Assim como Zebulom era a ponte entre várias tribos, Jesus É o único que pode ligar pessoas tão diferentes. O modo de lidar com as coisas de Simeão e Zebulom eram completamente opostos. Assim o eram Mateus, o publicano, e Simão, o zelote. Zebulom lidava com estrangeiros, Simeão, como veremos, os odiava fatalmente. Mateus era um extremo político do que uns chamariam hoje de direita, dando apoio e trabalhando para o domínio romano em Israel. Simão era um zelote, para muitos uma força terrorista cujo passatempo era matar romanos e lutar contra a ocupação romana, alguns o chamariam de esquerda. Não é maravilhoso que Jesus tenha chamado apóstolos dos dois extremos políticos para viver consigo? Mateus provavelmente dormia com um olho aberto perto de Simão. Simão provavelmente sentia desejo de pendurar a cabeça de Mateus em uma estaca em frente aos romanos. Apenas Jesus fornece a cola espiritual verdadeira que mantêm os irmãos unidos. Mediterrâneo ou Mar da Galileia? Norte ou Sul? Floresta ou deserto? Estar entre os irmãos com uma tribo unida, ou ter sua herança dispersa? Zebulom ou Simeão? O povo de Deus deveria se gloriar nas diferenças (dentro do contexto bíblico) e não rivalizar por questões mesquinhas e orgulho diabólico. Eu vou apenas dar um exemplo de algo que aconteceu ontem, mas que acontece todos os dias : ontem um irmão da igreja de meu pai foi sepultado. Meu pai sentiu-se incomodado e acabou não indo ao enterro, o motivo? Os irmãos o incomodaram tanto de que ele deveria fazer a barba que ele achou tudo desagradável demais para comparecer. Uma pessoa havia acabado de morrer, e eles estavam preocupados com pelos na pele. Sem querer julgar ninguém, isso faz alguém se perguntar: “Quantos mortos é preciso para enterrar um vivo”. Temos o sangue de Cristo para nos unir. Cabelo, barba, bigode? Somos barbeiros ou cristãos? Calça jeans, bermuda, terno, camiseta? Somos mais alfaiates do que cristãos? Predestinação ou livre-arbítrio? Falar exaltado do coração, ou uma mente e culto intelectuais? Direita ou esquerda? Apolo ou Paulo? Até quando usaremos o menos importante para separarmos do que É mais importante? Será que realmente fomos salvos por Cristo? Ou tudo que temos é religiosidade o suficiente para 160


irmos mais rápido para o inferno pensando estar salvos? A facciosidade dentro da Igreja não provêm de Deus, mas do inferno. Cuidado. Como diz a canção: Jesus Cristo é a ponte, que nos fez como a um só.

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2- A Tribo de Issacar “Issacar é jumento de ossos fortes, de repouso entre os rebanhos de ovelhas, viu que o repouso era bom e que a terra era deliciosa; baixou os ombros à carga e sujeitou-se ao trabalho servil.” Gênesis 49:14-15

Estamos para terminar o relato daquelas tribos menos destacadas. Na visão de Ezequiel do reino restaurado de Israel, as tribos de Zebulom, Issacar e Simeão se encontram ao sul do que um dia será a “porção do príncipe”, ou, “o centro de todas as coisas”. Eu disse que a distribuição das tribos na visão de Ezequiel seria a base para a distribuição dos capítulos da segunda metade deste livro, mas não expliquei ainda sobre do que se trata tal visão. A visão do final do livro de Ezequiel, escrita pelo profeta como os últimos oito capítulos de seu livro em separado, trata da restauração de todas as coisas. É uma visão simbólica de como Deus restauraria seu povo após Ele mesmo tê-los destruído. É uma visão de uma nova aliança que começou com o retorno dos israelitas do cativeiro babilônico, e que dali por diante apenas se expandiria para sempre, sem nunca falhar novamente. É uma visão da extensão progressiva de Deus em círculos que se expandem até envolver todo o Universo. 162


A restauração começa com um pequeno ponto central, o altar que havia sido destruído. Depois disso, Deus reconstruiria o Seu Templo. Então a cidade santa voltaria a ser habitada, e logo após suas muralhas seriam restauradas. Finalmente todas as tribos de Israel seriam novamente restauradas, mas em uma distribuição completamente diversa daquela da primeira distribuição da terra por Josué. O Templo e o Príncipe estariam no centro desta terra, junto com os levitas. As tribos seriam distribuídas a partir deste centro, com as tribos mais destacadas de Israel mais próximas ao centro, e as menos notórias ao redor. Mas milagrosamente a visão não termina aí. Um rio sai do Templo e segue seu caminho para o Mar Morto. As águas da Vida curam todos os desertos e os caminhos salgados e transformam o Mar Morto em um lago resplandecente de água doce e uma terra luxuriante, onde o alimento é abundante e mais que o suficiente para que todas as nações venham a alimentar-se e curar-se de seus males. A distribuição das tribos na visão é muito diferente das fronteiras estabelecidas por Deus nos tempos de Moisés. Em vez de cidades sorteadas e distribuídas e inimigos para enfrentar e expulsar destas, a herança parece estar pronta com antecedência, e distribuída sem luta. Não há sinal de conflito ou inimigos nesta visão. Os territórios são distribuídos em faixas paralelas, quase como capitanias hereditárias, só que desta vez daria certo. Simeão, Issacar e Zebulom são distribuídos em ordem de seu nascimento, quanto mais próximo do primogênito, mais próximo do centro, ao Norte. Na distribuição original da terra, Issacar e Zebulom estavam no norte de Israel, em terra boa e fértil, e Simeão estava no sul, em cidades espalhadas por uma região árida e desértica, como punição pela sua violência contra os cananeus em Siquém. Na visão de Ezequiel todas estas tribos estão na região do Mar Morto, ao sul. Isso poderia indicar que essas tribos teriam um lugar de menor importância no reino dos céus, e menor benção. Mas o reino dos céus não funciona assim. Quando nosso Senhor restaurar todas as coisas, aqueles locais que pareciam mais duros e menos produtivos serão tão belos que não haverá nenhum desagrado em permanecer um pouco mais longe do “centro de todas as coisas”. Isso acontecerá porque Deus reinará sobre TODAS as coisas, e TODAS as pessoas. A visão de Ezequiel expressa isso nas maravilhosas palavras: “Tendo eu voltado, eis que à margem do rio havia grande abundância de árvores, de um e de outro lado. Então me disse: Estas águas saem para a região oriental, e descem à campina e entram no mar Morto, cujas águas ficarão saudáveis. Toda criatura vivente que vive em enxames viverá por onde quer que passe esse rio, e haverá muitíssimo peixe, e, aonde chegarem estas águas, tornarão saudáveis as do mar, e tudo viverá por onde quer que passe esse rio. Junto a ele se acharão pescadores; desde En-Gedi até En-Eglaim haverá lugar 163


para estenderem redes; o seu peixe, segundo as suas espécies, será como o peixe do mar Grande, em multidão excessiva” (Ezequiel 47: 7-10). Resumindo, estas tribos “não tão importantes” terão um lago maravilhoso muitas vezes maior do que o pequeno Mar da Galileia, e será maravilhoso de se ver, no Reino dos Céus. A comparação que um padre me deu para entender quão completo é o reino dos céus, não é a de que não existirão maiores e menores em glória no reino dos céus. A própria Bíblia diz que haverá pessoas maiores e menores, pois “O menor no reino dos Céus será maior que João Batista”. O padre pediu que visualizássemos copos de diferentes tamanhos, cada um com uma capacidade maior ou menor para volume de água. Cada pessoa no Reino de Deus é como um copo. Alguns são maiores e outros menores, mas todos estão totalmente cheios, eles não podem ficar nem mais e nem menos cheios. Aquele que possui um volume menor não se sentirá menos cheio, ao mesmo tempo que não lhe faria falta ou não lhe caberia o volume de água de um copo maior. Deste modo, todos serão igualmente transbordantes de glória e gozo, de acordo com o que podem desfrutar da Glória de Deus. Não haverá inveja, e nem haverá senso de superioridade ou inferioridade. Acima, temos um mapa que mostra os locais aproximados de cada uma das tribos de Israel segundo a visão dada por Deus ao profeta Ezequiel sobre a Nação Restaurada. É melhor não ser mesquinho o suficiente para esperar um cumprimento literal desta passagem neste mundo, e sim entender que a visão usa as figuras conhecidas pelo público original da mensagem para expressar as realidades divinas e futuras, que superarão qualquer de nossas expectativas. 164


Mas voltemos ao mundo de agora, nossa velha e caída criação. Issacar ter nascido foi o resultado conjunto de motivações erradas, sendo que até mesmo Ruben, o primogênito de Lia teve um papel no nascimento dele. O nome dele quer dizer “Recompensa” e Lia pensou que era uma compensação de Deus por ter dado sua serva para seu marido. Já O Monte Tabor, desta vez visto pelo território de Issacar. vimos que provavelmente o nascimento de Issacar nada teve a ver com isso. Ele foi o penúltimo filho varão de Lia. A benção de Jacó lhe chama de jumento de ossos fortes. Issacar e seus descendentes eram fortes e receberam uma terra maravilhosa, pronta para ser cultivada e receber com intensidade atividades agrícolas e pastoris. A tribo transformou sua benção em bençãos ainda maiores, como na parábola dos talentos. A terra de Issacar era pequena, mas sua recompensa eterna seria muito melhor. Como na tribo de Zebulom, um dos juízes recebeu o nome de um dos pais fundadores de suas famílias, Tola. Juízes 10:1-2: “Depois de Abimeleque, se levantou, para livrar Israel, Tola, filho de Puá, filho de Dodô, homem de Issacar; e habitava em Samir, na região montanhosa de Efraim. Julgou Israel por 23 anos, e morreu, e foi A bela vista de Suném, lá os filisteus juntaram-se para sepultado em Samir”. A terra de Issacar se derrotar Saul, primeiro rei de Israel encontrava em uma 165


posição privilegiada, e o belo vale de Jezreel era um local tão estratégico que possivelmente viu mais batalhas que qualquer outro lugar da História. Desde antes de Tutmés III até a 1º Guerra Mundial, esse vale serviu de palco para momentos decisivos em todas as épocas. Nele encontra-se a grande cidade e fortaleza de Megido, que dá nome da última batalha que ocorrerá, Armagedom. Ali Baasa, terceiro rei da Israel dividida exterminou a dinastia de Jeroboão, reinando 24 anos depois disso. O vale de Jezreel também foi a residência de Acabe e seu filho Jeorão. Ali também foi exterminada a casa de Acabe através de Jeú.

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3- A Tribo de Simeão “Simeão e Levi são irmãos, as suas espadas são instrumentos de violência. No seu conselho, não entre minha alma; com o seu agrupamento, minha glória não se ajunte; porque no seu furor mataram homens, e na sua vontade perversa jarretaram touros. Maldito o seu furor, pois era forte, e a sua ira, pois era dura; dividi-los-ei em Jacó e os espalharei em Israel.” Gênesis 49:5-7

Simeão foi o segundo filho de Jacó e Lia. Na visão de Ezequiel ele está ao lado sul de Benjamim. Há uma ligação entre Simeão e Benjamim na narrativa bíblica, sendo Benjamim o segundo filho de Raquel. Antes de 167


entendermos qual é essa ligação, deve-se citar a primeira menção aos atos de Simeão na Bíblia, e eles não são bons. Na época em que Jacó e seus filhos começaram a habitar na Terra Prometida, o filho do rei da cidade cananeia de Siquém estuprou a irmã biológica de Simeão, Diná. Esse ato horrível e indesculpável merecia uma retribuição certeira, mas o que os irmãos Simeão e Levi fizeram passou em muito os limites do razoável. Aproveitando-se da tradição sagrada da circuncisão, eles usaram um tratado de paz entre os cidadãos de Siquém e o ancião Israel para deixar seus inimigos enfraquecidos e invadir o vilarejo, matando todos no local. O ato foi abominável porque não se tratou de justiça, mas de uma vingança sanguinária, além do mais, usando de traição e invertendo o propósito de uma tradição sagrada que para eles nada significava. Ele usou a Graça para gerar desgraça. “Sobrevieram os filhos de Jacó aos mortos e saquearam a cidade, porque sua irmã fora violada. Levaram deles os rebanhos, os bois, os jumentos e o que havia na cidade e no campo; todos os seus bens, e todos os seus meninos, e as suas mulheres levaram cativos e pilharam tudo o que havia nas casas”. (Gênesis 34:2729). Simeão e Levi instigaram os seus irmãos a fazer coisas terríveis. Simeão, como segundo mais velho, tinha a capacidade de liderança quase tanto quanto Ruben, e se aproveitou disso. O texto bíblico deixa muito claro que Ruben era um líder responsável, então pode inferir-se que Simeão deve ter instigado ou colaborado grandemente para vender seu irmão José como escravo. O atrito natural entre os irmãos de mães diferentes era compreensível, mas parece haver um atrito bem maior entre Simeão e seu irmão mais velho Ruben, e com toda certeza, isso era resultado da diferença de caráter dos dois, assim como do direito à primogenitura do filho mais velho. É significativo que a pessoa escolhida por José para ficar presa no Egito sob sua supervisão enquanto os outros irmãos trariam o pequeno Benjamim tenha sido Simeão. José conhecia o caráter violento e manipulador daquele homem. Se Simeão não tivesse o caráter mudado por Deus, seria um risco deixá-lo ir com seus irmãos pelo deserto. Ele poderia matar Ruben e ter seu direito de primogenitura, e logo depois matar o único filho restante de Raquel, Benjamim. Isso evidencia, por outro lado, uma certa confiança no irmão mais velho Ruben, da parte de José. Simeão desprezava as tradições sagradas de seu pai, a circuncisão e a santificação, Ele teve filhos de mulher cananeia, que era algo que doía no coração de seu pai. O aprisionamento de Simeão foi o modo que Deus encontrou de santificá-lo e mudar o seu caráter hostil, violento e imprevisível.

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Na benção de Jacó ele é mencionado apenas com Levi. Na benção de Moisés ele nem sequer é mencionado. A promessa de que sua tribo seria dispersada aconteceu quando pela distribuição das tribos por Deus, suas cidades não formavam um território unido, mas um conjunto esparso espalhado pelo território de Judá. Gradualmente o território de Simeão foi sendo diminuído até perder população e importância. “Simei teve 16 filhos e 6 filhas. Mas seus irmãos não tiveram muitos filhos, e nenhuma das suas famílias teve tantos filhos quanto os homens de Judá tiveram”. O livro de Crônicas nos dá o relato de que alguns grupos familiares pertencentes a Simeão conseguiram aumentar em número nos dias de Ezequias, e buscaram pastagens e terras tanto em territórios de povos camitas, quanto de árabes, amalequitas e edomitas. Ainda nos tempos pós-exílicos, estes agrupamentos se encontravam nestas terras. Parte da tribo de Simeão escapou de ser totalmente dizimada, já que estavam misturados à Tribo de Judá, principais sobreviventes do exílio. A área que foi distribuída para a Tribo de Simeão incluía a famosa Berseba, usada como marco para a fronteira sul do reino de Israel, em oposição à Dã, no norte. A região beirava o deserto e só era frutífera na medida em que se escavassem poços e se encontrassem fontes de água. Ruínas de Berseba. Berseba era o centro de um longo caminho de postos comerciais no deserto que dispunham de fontes e poços, dentro de um dos quais José foi lançado. Alguns destes poços só se mantinham com água na estação chuvosa. Por ser fronteiriça, esta região tinha contato com outras nações comerciais, o que incluía o Egito, para onde José foi levado pelos ismaelitas. Toda a secura e aridez, tanto física quanto espiritual, serão retiradas da Tribo de Simeão quando o Senhor fizer jorrar todas as fontes do Rio da Vida. Então os poços de Simeão se encherão e nunca mais haverá sede ou deserto. 169


Parte 3 Os Filhos de Raquel

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1-A Tribo de Manassés “José é ramo frutífero, ramo frutífero junto à fonte; seus galhos se estendem sobre o muro. Os flecheiros lhe dão amargura, atiram contra ele e o aborrecem. O seu arco, porém, permanece firme, e seus braços são feitos ativos pelas mãos do Deus deJacó, sim, pelo Pastor e pela Pedra de Israel, pelo Deus de Teu pai, o qual te abençoará com bençãos dos altos céus, com bençãos das profundezas, com bençãos do seios e da madre. As bençãos de teu pai excederão as bençãos de meus pais , até o cimo dos montes eternos; estejam elas sobre José e sobre o alto da cabeça do que foi distinguido entre seus irmãos.”

Gênesis 49:22-26

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Leitores desatentos correm o risco de pensar que Manassés e Efraim têm uma herança em meio as tribos por terem sido filhos de Jacó, mas isso não é verdade. Manassés e Efraim são netos de Jacó, filhos de José. José foi o primogênito de Raquel, e tomou o lugar de Ruben ao receber a porção dupla da herança dada aos primogênitos. Provavelmente daí veio o ódio mortal de Simeão, que teria o direito de primogenitura no lugar de Ruben, por motivos que serão explicados adiante. A mudança de foco de Jacó em relação à porção dobrada não foi de filho, e sim, de esposa. Por meio de uma preferência justificada e da visão espiritual que Deus deve ter lhe dado, ele percebeu que a benção que viera através de Abraão e a estéril Sara, Isaque e a estéril Rebeca, agora seria transmitida através de Israel e a ex-estéril Raquel. José não representava a mera transmissão de uma descendência carnal, mas sim a geração de herdeiros frutos do Espírito Santo, uma obra que não poderia ser feita por força ou técnica humana. José seria o escolhido para ser o representante da linhagem prometida. A porção dobrada de José foi então transferida para os seus dois filhos, Manassés e Efraim. O nome de José não se encontra na genealogia de nosso Senhor Cristo, pois esta vem por Judá. Então como é que a obra da salvação foi passada a José? José é uma figura de Cristo, um “tipo”, ou sombra, do que Jesus Cristo fez. Vemos pelo sonho que teve quando era criança, que o reino lhe foi entregue sobre todos os seus irmãos, inclusive seu pai biológico e sua mãe biológica. Eu não vou citar as passagens da vida de José pois acho essencial que todos leiam este livro com a Bíblia em mãos, assim como seria impossível fazer um comentário digno sobre a história. A narrativa de José é uma das minhas histórias favoritas na Bíblia, e eu não me sinto à vontade para comentar sobre tão excelente sessão das Escrituras. Eu não me sinto nem sequer digno de comentar sobre ele, eu simplesmente queria ser mais como José. Sua retidão moral, sua vida incólume, sua integridade nos caminhos de Deus são tão admiráveis que sobressaem muito maiores que a maioria das histórias de milagres na Bíblia. Sua perfeição moral contrasta tanto com a de seus irmãos que só não pode ser maior que a de Cristo e seus “irmãos”, a Igreja. Há algo nele que desperta admiração e reverência, o suficiente para que o Rei lhe ofereça um assento a seu lado, assim como o Pai deu a Seu Filho o domínio sobre este mundo. Embora José tenha sido um pecador, o texto bíblico não cita qualquer falha moral nele. Já seus irmãos raramente apresentam qualquer virtude. Os filhos de Jacó foram redimidos apenas na medida em que se arrependeram de terem condenado um inocente e o vendido por peças de prata. Apesar de começarem sua jornada da mesma terra que Abraão veio, Padã-Arã, e cruzarem o longo caminho que seu pai na fé cruzara para chegar à Terra Prometida, foi apenas quando José encontrou um espírito arrependido neles que foram dados como redimidos, caso 172


contrário estariam condenados à morte ou à prisão. Conosco ocorre algo semelhante. Não há comparação justa entre nós e Cristo. Ele é Tudo, e nós somos apenas um bando de mesquinhos e miseráveis, psicopatas e assassinos, ladrões e enganadores, sem nada para oferecer a não ser nossas vidas, que não valem muita coisa. Se “José” encontrar dolo em nós, se não encontrar arrependimento genuíno, então estaremos abandonados para morrer de fome e sede em Canaã. Pois Canaã sem José não é a Terra Prometida, mas o local de morte. Se José nos remete a Jesus, então seus filhos devem representar os filhos de Deus, os mais velhos e os mais novos. Manassés foi o seu primogênito, ou seja, representa os próprios israelitas salvos. Efraim, o filho mais velho, em um daqueles momentos em que Deus inverte a ordem humana e natural de ver as coisas, recebeu a bênção dobrada, o direito de primogenitura. Efraim, cujo nome significa “Duplamente Frutífero” representa a Igreja. Esse é o sentido da cena da bênção de Jacó sobre os dois filhos de José adotados por ele (novamente uma figura do Pai adotando aqueles que vieram de Seu Filho) em que Jacó inverte as mãos para abençoar o mais novo com a Primogenitura. A herança da Igreja é muito maior do que qualquer herança que Israel já tenha tido. Se as bençãos que recaíram sobre Manassés foram tão abundantes, maiores que qualquer bênção de qualquer outra nação na face da Terra, a bênção de Deus no Novo Testamento sobre Sua Igreja é inimaginável. Nós só não o percebemos porque nos tornamos insensíveis, além de ser realmente incompreensível o tamanho da Graça recebida por nós como cristãos (os verdadeiros, nascidos de novo, não a sua contraparte na forma de uma Dã espiritual, Laodiceia). Manassés, que nome maravilhoso. “Esquecimento, Perdão”. Não existe palavra melhor para definir o Povo de Deus do que esta palavra. Os irmãos de José só puderam sobreviver para formar nação de Israel por que foram perdoados e tiveram seus pecados esquecidos. Novamente, é uma história linda demais para eu a estrague contando, é melhor que seja lida nas palavras do autor. Tudo isso é mais do que o suficiente para que possamos entender o porque uma tribo como Manassés recebeu uma extensão territorial tão grande. É enorme, é desproporcional com a maioria das outras tribos, à exceção talvez de Judá. É a única tribo que tem uma herança que ultrapassa os limites do Jordão, estando tanto de um lado quanto do outro. É por isso que se fala em meia tribo de Manassés na transjordânia, e meia tribo de Manassés ao oeste do Jordão. Apenas isso já possui outro significado simbólico, já que o povo de Israel e a Antiga Aliança foram feitos tanto com pessoas que vieram depois de Josué e da conquista (e logo, atravessaram o Jordão), como de pessoas que viveram antes da conquista (Paulo cita Abraão, que viveu pela fé antes da Lei). 173


Junto com Gade e Ruben, a Tribo de Manassés conquistou os mais poderosos reis de Canaã, os “gigantes” Seon e Ogue, e ocupou suas poderosas cidades. Mas foi Manassés que ficou com a região mais fértil e mais próxima ao grandioso Monte Hermon, que já dissemos ser quase uma lembrança da Montanha de Deus no Éden. As terras ao leste do Jordão foram conquistadas segundo se lê em Números 32:39-42: “Os filhos de Maquir, filho de Manassés, foram-se para Gileade, e a tomaram, e desapossaram os amorreus que estavam nela. Deu, pois, Moisés Gileade a Maquir, filho de Manassés, o qual habitou nela. Foi Jair, filho de Manassés, e tomou a suas aldeias; e chamou-lhe Havote-Jair. Foi Noba e tomou Quenate com as suas aldeias; e chamou-lhe Noba, segundo seu nome”. Entre os filhos de Maquir e José há no mínimo 5 gerações. No livro de Crônicas, capítulo dois, versículos 21 e 24, lemos: “Então Hezrom coabitou com a filha de Maquir, pai de Gileade; tinha ele 60 anos quando a tomou, e ela deu a luz à Segube.. Segube gerou a Jair, que teve 23 cidades na terra de Gileade. Gesur e Arã tomaram as aldeias de Jair, juntamente com Quenate e suas aldeias, a saber, 60 lugare; todos estes foram filhos de Maquir, pai de Gileade. Depois da morte de Hezrom, em CalebeEfrata, Abia, mulher de Hezrom, lhe deu a Azur, pai de Tecoa”. É importante notar que Manassés teve uma concubina Síria, chamada Maacá. Este é o último nome na lista de descendentes de Naor, aparentados de Abraão, e logo, estrangeiros que conheciam a Palavra de Deus. A presença de uma estrangeira é importante e faz Edrei, no território de Manassés ao leste do Jordão lembrar que a promessa de Deus era para abençoar todas as nações, e não apenas Israel. O próprio José era casado com uma mulher egípcia, Asenate. Isso mostra que a questão da salvação nada tinha de racial, mas sim, era uma questão de fé. Se Asenate foi a mais abençoada, por ter José como marido, ou se José foi o mais abençoado, por não ter de aprender as duras lições através de sagas de concubinas e mulheres estéreis, fica como questão para ponderação.

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Muitos estrangeiros estavam adentrando ao Egito na época da grande seca, e Arã, de onde vinha Maacá, foi um local fronteiriço entre a Síria e a Terra Prometida. Maacá formava um pequeno reino na parte setentrional de Israel, na parte norte das atuais Colinas de Golã. O território é disputadíssimo nos dias de hoje por ter parte das fontes do rio Jordão, e entregá-la aos inimigos é como pedir que se envenene a própria água. Mas a relação entre Israel e Maacá nestes tempos era muito íntima e positiva. A fronteira norte de Israel do outro lado do Jordão era montanhosa e o Monte Hermon assomava com suas neves eternas. Que terra de contrastes e Deus preparou aos seus filhos mais velhos: um mar salgado e desertos no extremo sul, e montanhas com neves que nunca derretem Neve sobre vilarejo no Hermon, também chamado Senir. no norte. Além de toda a diversidade que fez com que o profeta Daniel se referisse à Terra Prometida como Terra Maravilhosa. Entre os filhos de Maquir, gerados por sua concubina síria, estava Gileade, que gerou Zelofeade. Este homem pereceu com a geração pecadora no A fertilidade e beleza do território de Manassés, aos pés do Hermon. deserto, e nunca entrou 175


na Terra Prometida. Suas filhas mulheres ocupam praticamente todo o capítulo 27 de Números. Elas haviam chegado a Moisés com uma queixa de que seu pai não deixara filhos homens. Elas tornaram-se então as líderes e as donas das terras de uma porção significativa da herança de Manassés. O fato de não poderem se casar com membros de outras tribos assegurava que tal herança não seria perdida. Elas abriram uma questão importante que mais tarde serviu como base jurisprudencial para a questão da manutenção de terras dentro de uma família por várias gerações. A ordenança divina de que cada tribo deveria ter a sua herança de modo fixo é tão central ao Antigo Testamento que o livro de Números termina com uma reanálise do caso das filhas de Zelofeade: Macla, Tirza, Hogla, Milca e Noa. Em tempos posteriores, os juízes de Manassés, Gideão e Jefté, embora líderes falhos, tiveram de lutar e relembrar a história desta herança para mantê-la sob o domínio dos israelitas. As tribos de José são comparadas a uma grande vinha, que não pára de crescer, e que está sempre se expandindo, cheia de vida e alegria. Tudo isso apesar das constantes ameaças que vêm contra esta tribo e contra o povo de Deus. Jesus nos ensina que Ele é a videira verdadeira, e que é nosso dever permanecer Nele. Sair desta videira e deixar de estar enxertado Nela é um pedido para murchar e morrer, inevitavelmente. Somos apenas filhos adotivos deste Deus, e não temos nada que não tenha sido dado por Ele. Nos últimos dias de Israel, um poderoso general assírio reformou um império que se encontrava à beira da ruína. No livro de Crônicas, que lista tantos nomes, o único nome de um rei estrangeiro que aparece é o do terrível inimigo, Tiglath-Pileser III. Porque? Porque o nome deste homem era um trauma para os judeus, e ainda mais para os israelitas que retornaram Tiglath-Pileser III, também chamado de Pulu, ou Pul. do exílio. Este homem, reformou completamente as táticas militares e a administração imperial assíria. Ele reformulou as táticas de guerra, a logística e a natureza do exército. Ele liderou tantas campanhas vitoriosas 176


que até hoje é considerado como um dos grandes generais, e por alguns, o melhor dos generais da História, comparado a Napoleão e Alexandre, o Grande. Mas ele não era um bom homem. Quando o rei de Judá, Acaz, foi ameaçado pelos reinos covardes da Síria e Israel, ao norte, foi a este homem que ele pediu ajuda. Após ser usado como instrumento de julgamento de Deus sobre os conspiradores, Pulu exigiu o dinheiro do próprio homem que lhe pedira ajuda, Acaz. Isso nos deixa uma lição muito importante: nunca peça ajuda à máfia. Depender de homens malignos ou até homens bons não é um ensinamento bíblico. Nem lutar contra eles sem a força e direção de Deus. Homens da Tribo de Manassés, Héfer, Isi, Eliel, Azriel, Jeremias, Hodavias e Jadiel, quiseram lutar contra este homem. Eles eram poderosos guerreiros, e Azriel e Héfer eram até mesmo, nomes de patriarcas da sua tribo. Eles eram poderosos e fortes, mas não tinham temor a Deus, eram idólatras. O resultado de sua batalha contra o grande imperador assírio foi o seu extermínio. Gideão e Jefté, que não eram homens fortes, nem corajosos e sábios (basta ler suas histórias) teriam obtido um resultado muito melhor contra este general formidável. Os homens fortes de Manassés foram levados cativos, mas poderiam ter vencido, se tivessem apenas confiado em Deus.

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2- A Tribo de Efraim “Vendo José que seu pai pusera a mão direita sobre a cabeça de Efraim, foi-lhe isto desagradável, e tomou a mão de seu pai para mudar da cabeça de Efraim para a cabeça de Manassés. E disse José a seu pai: Não assim, meu pai, pois o primogênito é este, põem a mão sobre a cabeça dele. Mas seu pai se recusou e disse: Eu sei meu filho, eu o sei; ele também será um povo, também ele será grande; contudo, seu irmão menor será maior do que ele e a sua descendência será uma multidão de nações. Assim, os abençoou naquele dia, declarando: Por vós Israel abençoará, dizendo: Deus te faça como a Efraim e a Manassés. E pôs o nome de Efraim adiante do de Manassés.”

Gênesis 48:17-20

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Efraim, filho mais novo e herdeiro das heranças de José, teve ao menos cinco filhos. A linhagem de seu primogênito é descrita em Crônicas até a sexta geração. Porém, pouco mais é dito sobre Sutela, seu herdeiro principal. Era de se esperar que o filho que receberia as maiores bençãos fosse aquele que tivesse o maior território ou menos infortúnios. Mas o território de Efraim, apesar de muito fértil e protegido, não possuía nem de longe o tamanho da herança de Manassés, e era menor que o de Judá, Gade ou Ruben. Além do mais, e infelizmente, dois de seus filhos, Ézer e Eleade foram assassinados pelos nativos da cidade de Gate, posteriormente, uma cidade filisteia. Os homens tiveram inveja e ao, roubar o gado desses filhos de Efraim, os mataram. Entre os outros filhos de Jacó não ouvimos nenhum outro caso parecido de tragédia familiar ligado à perda de seus filhos, mas infelizmente isto aconteceu a este filho de José. Em uma passagem curta e pouco conhecida das Escrituras, especificamente em 1 Crônicas 7:21-22, lemos: “(…) e ainda Ezer e Eleade, mortos pelos homens de Gate, naturais da terra, pois eles desceram para roubar o gado deles. Pelo que por muitos dias os chorou Efraim, seu pai, cujos irmãos vieram para o consolar”. Nesta passagem tomamos conhecimento de que os irmãos de Efraim vieram consolá-lo. Mas Efraim possuía apenas um irmão, Manassés. A passagem provavelmente está se referindo aos outros filhos de Jacó, que o adotaram como irmão. Se isto for verdade, é incrível ver a diferença na reação destes diante do acontecido. Homens que venderam seu irmão como escravo, homens que dizimaram uma cidade inteira como vingança pelo estupro de sua irmã mais nova, e homens que não tinham nenhum interesse a não ser os próprios. Agora, é dito que eles vieram para consolar seu “irmão” adotivo, e não que foram vingar-se dos homens de Gate e dizimá-los. Que diferença entre o coração destes homens antes e depois da salvação. O nome do próximo filho de Efraim foi Berias, nome que está ligado ao infortúnio dos acontecimentos acima descritos. Por vezes parece que o Senhor traz mais sofrimento àqueles que são mais tementes a Ele do que a outros. Mas esta dor causada pela injustiça de outros homens está intrinsecamente ligada à guerra espiritual desde os dias de Caim, e à natureza messiânica do Filho de Deus. Nenhum outro povo foi mais perseguido e teve mais filhos mortos do que a verdadeira Igreja de Cristo. Esta hostilidade, fruto tanto da inveja quanto das disposições malignas homicidas do reino dos homens, é dirigida em todas as gerações à Igreja e aos seus verdadeiros membros. Como disse nosso Senhor, “não se surpreendam se o mundo vos odeia”. Há um considerável número de gerações entre Berias e Josué, filho de Num. Se Efraim representa a Igreja, então sabemos quem Josué representa: Aquele que foi nascido nas dores e infortúnios da condição humana, mas que ao final de todas as coisas terá 179


todo o Reino entregue em Suas mãos para apresentar vingança perfeita contra toda injustiça. Josué é o mesmo nome que Jesus, Aquele que sofreu sem culpa nas mãos dos homens. Josué, este é o último nome apresentado na linhagem de José. Alguns o chamam de genocida, mas o que Josué trouxe foi nada mais, nada menos do que o julgamento justo sobre um povo incapaz de arrepender-se, e mergulhado em todo tipo de pecado. Devemos ter noção de que a ira do Cordeiro se aproxima, e que o mesmo Jesus que foi injustamente assassinado por homens, virá com uma espada de julgamento que mergulhará as nações em sangue. Não é um Jesus Hello Kitty, e não é um Deus domesticado. Se a justiça de Deus tarda em vir a este mundo, isto é apenas uma amostra da misericórdia e paciência do Pai sobre aqueles que assassinaram Seu filho e o desprezaram em todas as épocas. Mas não pense que o Pai verá Seu Filho ser humilhado e menosprezado para sempre, isso estaria muito além da justiça divina. Creio que nenhuma geração seja tão escarnecedora como a nossa tem sido. Crianças têm mais acesso a prostituição e perversidade do que durante toda história qualquer adulto pôde ter tido. Mesmo os santos hoje são bombardeados com mais mulheres nuas e cenas dos piores pecados sexuais do que qualquer geração anterior pôde contemplar por vontade própria. Não se engane, se aqueles homens de Gate não se arrependeram, é o mesmo Filho de Deus que os exterminará. Se nossa cultura não se arrepender, e eu duvido que se arrependa, é Jesus (Josué) quem virá julgar para Seu Pai, e não para Si mesmo, toda esta humanidade corrompida. O dia está muito próximo. Por último, Efraim teve uma filha, Seerá. Esta mulher era forte e construiu Os vales da Sefelá, região de Efraim entre o Mar e as montanhas, cortada por vales estratégicos e caminhos para o interior. cidades importantes na região dos vales. O território de Efraim era recortado por montanhas que iam do norte ao sul, e vales as cortavam de leste a oeste, 180


sendo estradas estratégicas que ligavam o litoral e o interior. Cada vale tinha importância, e a proteção deles era essencial. Veja o caso de duas cidades edificadas por Seerá e seus descendentes, Beth Horom baixa e Beth Horom alta. Elas estavam há poucos quilômetros uma da outra no mesmo vale, mas se uma caísse a outra seguraria a posição e ofereceria resistência contra os filisteus ou qualquer outro inimigo. A divisão da herança das tribos foi finalizada em Siló, e lá a presença de Deus na forma da Arca da Aliança permaneceu por centenas de anos. Mas o povo de Israel se corrompeu e foi entregue à destruição quando tentou usar Deus para seus próprios fins egoístas. Isso acontece na história da igreja institucional, quando Deus quer um povo obediente e o limpa através de Sua Ira. A Igreja, no entanto, nunca é derrotada, e se em um local ela parece cair, logo outros irmãos e filhos de Deus aparecem em outro lugar para recompô-la e cumprir a missão e o testemunho que nos foi confiado. Na cidade de Caná, na herança de Efraim, nasceu um homem chamado Natanael. Este Natanael se tornou discípulo de Jesus e três dias depois desse acontecimento, ele presenciou em sua própria cidade, o primeiro milagre de Nosso Senhor: a transformação da água em vinho nas bodas de Caná. Ali se iniciava o período do Novo Testamento, em que a Antiga Aliança seria ampliada e transformada através da graça do Deus Encarnado. Como Efraim, Natanael (ou Bartolomeu) tinha alguém muito chegado, não Manassés, mas Filipe. A observação de Jesus sobre Natanael nos lembra a integridade de José quando exclama: “Eis um israelita de verdade, em quem não há fraude”. As bençãos de José alcançaram não só as 12 tribos de Israel. Na Nova Aliança, diferente da Antiga como o vinho é diferente da água, todas as nações foram alcançadas pela glória de Deus e tomadas como herança. Foi assim que, mesmo sem pertencer a genealogia de Jesus, José se tornou o cumprimento da linhagem da salvação que pisaria na cabeça da Serpente.

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3- A Tribo de Benjamim “Benjamim é lobo que despedaça ;

pela manhã devora a presa e à tarde reparte os despojos” Gênesis 49:27

O pequeno Benjamin A história de cada tribo ou nação começa com o nascimento de uma pessoa, e não é possível escapar deste fato. O último dos filhos de Jacó, o único que não nasceu em Padã-Arã, mas na própria Terra Prometida, foi o pequeno Benjamin. Quando leio a história de José, a parte mais triste de todas é quando percebo que depois de todos os conflitos com suas 182


mulheres cessarem e ele finalmente poder apreciar a infância de José com Raquel, ela morre durante o parto. O autor bíblico não deixou de registrar a amarga ironia de sua frase anos atrás, “dá-me um filho ou morrerei”. Ela morre justamento pelo motivo contrário, durante o parto de Benjamin. O nome que ela dá a seu filho é Benoni, “filho da dor”. Mas Jacó diz que seu nome deve ser Benjamin “filho da minha mão direita” ou ”filho da minha alegria”, pois Raquel havia sido a única alegria na vida de Jacó. Os anos seguintes da vida de Israel são vividos com a dor da perda de José, o filho que mais amava, e aquele que mais lhe lembrava Raquel, e pelo medo de perder Benjamin, seu último elo com ela. Na visão de Ezequiel, Benjamin ocupa um lugar de destaque, logo ao sul da Terra do Príncipe. É um local de honra. Paulo nos diz que a criação chora as dores de parto, esperando a revelação dos filhos de Deus. Os verdadeiros cristãos serão transformados gloriosa e sobrenaturalmente em filhos de Deus, em uma glória indizível e essa terra será cheia da presença visível de Deus. Por enquanto somos perseguidos, mortos, torturados, atormentados por nossos pecados e nossa carne, as tentações mundanas e as setas de Satanás. Filhos da dor? Não, não. Filhos da Alegria. Filhos da Mão Direita do Pai. Nós nascemos nesta terra, como os outros irmãos de José. Mas José possui apenas um irmão com sua natureza, Benjamin. Se José foi levantado da prisão e da morte e lhe foi dado o domínio deste mundo, então, aí sim, Benjamin será trazido para perto dele. Que visão gloriosa. Não é possível contemplar o tipo de ser que seremos, cheios de uma luz e glória imperecível, com uma alegria inabalável e uma natureza incorruptível, sem pecado ou egoísmo, nem dor, nem lágrima. Benjamin, um glorioso nome afinal de contas. É interessante notar que não foi sem filhos que Benjamin entrou na Terra Prometida, embora o enfoque de Gênesis e de Crônicas seja diferente. A ligação de Benjamin com a promessa da vida eterna parece se refletir na região de sua herança original. O neto de Benjamin, filho de Rafa, Berias foi para as regiões próximas à cidade de Jerusalém, em Aijalom.

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A Tribo de Benjamin recebe local de destaque na herança, sendo a primeira das tribos a ter sua sorte lançada e a primeira cidade a ser conquistada na Terra Prometida estava no território de Benjamin, e era Jericó. A genealogia de Benjamin recebe uma atenção extensa no livro de Crônicas, e em parte é destacada neste capítulo. O primeiro rei de Israel também era da Tribo de Benjamin, o tão conhecido Saul. A primeira cidade conquistada Jericó foi a primeira cidade a ser conquistada no lado oeste do Jordão. Ela é considerada como as primícias da conquista. Mas esta cidade não fez parte da herança, pois, como primícia, foi destruída completamente. Jericó teve uma história incomum. A própria cidade é considerada a mais antiga do mundo. Suas camadas arqueológicas são profundas, e sua população alcança milhares de anos dentro da préhistória. Ela era chamada de Cidade das Palmeiras, e foi avistada por Moisés e os israelitas dalém do Jordão. Nenhuma cidade cananeia recebeu um destino tão duro da parte de Deus, tendo todos os seus homens, mulheres, crianças e até mesmo animais sido destruídos. Mas em consideração, nenhuma cidade teve mais avisos de que Deus era real, de que Ele fazia milagres, de que condenaria a cidade se não se arrependesse, e de que seus inimigos estavam se aproximando. Logo, nenhuma cidade teve tantas oportunidades de voltar atrás e de que seus cidadãos sãos fugissem pela porta dos fundos. Primeiramente, todas as terras já haviam tomado conhecimento 40 anos antes, de que Deus libertara Seu povo e derrotara a mais poderosa das nações para eles, isso já é quase o tempo de duas gerações de aviso. Se alguém daquela geração não tivesse tido conhecimento destes acontecimentos sobrenaturais, a divisão das águas do Jordão na passagem dos israelitas com Josué relembrava a passagem do Mar Vermelho e garantia que aquilo realmente havia acontecido. Os israelitas circuncidaram-se e tiveram de esperar sua fraqueza passar, assim como comemoraram a Páscoa na região da campina em frente a cidade, indefesos, e isso garantia que eles não eram um exército comum e oportunista, mas divinamente inspirado. Os cidadãos de Jericó se sentiam seguros atrás de suas poderosas e antigas muralhas.

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Antes de alguém acusar Josué de genocida, nunca tomei conhecimento de que a propaganda de superioridade étnica se preocupasse em conscientizar o seu próprio povo de que eles não eram melhores que seus piores inimigos. E é isso o que o texto bíblico faz, pois o Anjo do Senhor, uma possível aparição de Cristo como o guerreiro divino fala sobre isso com Josué. Josué lhe pergunta, sem saber quem Ele é, de que lado Ele está lutando, se é dos israelitas ou dos cananeus. O Anjo prontamente responde que não está nem de um lado e nem do outro, mas que foi enviado por Deus. O texto bíblico de Josué exalta sempre que pode as qualidades de Raabe e sua família, ao passo que um julgamento Monastérios sobre os rochedos na região de Jericó contra um israelita e sua família contrasta fortemente com o temor dela a Deus. Raabe, a prostituta cananeia, é descrita como tendo mais fé e visão do que os próprios espias israelitas encarregados do reconhecimento da cidade. Aliás, é Raabe quem mais tarde é desposada e que passa a ser parte da linhagem de Jesus Cristo. Então, não existe nenhuma questão racial aqui, a questão é um julgamento por parte de Deus contra uma cidade impiedosa que tivera mais tempo que qualquer outra no mundo para apodrecer ou para se arrepender. Os israelitas são várias vezes advertidos de que não são incondicionalmente eleitos, mas que se se portarem como estes cananeus, com toda certeza terão o mesmo destino, e nós sabemos que foi exatamente isso que aconteceu em sua história, tanto na derrota por Nabucodonosor quanto na destruição pelos romanos. Por último, as altíssimas muralhas de Jericó não caíram por força humana, mas pelo poder divino. Os israelitas nunca gritaram uma canção de guerra, nem uma ofensa contra seus inimigos, mas a eles foi ordenado que circulassem 7 vezes a cidade em máximo silêncio. Talvez alguém esteja muito tentado a defender Jericó contra Josué, mas gostaria de saber se defenderia Jericó contra Raabe. Raabe, a melhor das cidadãs de Jericó, uma prostituta. Se ela era prostituta cultual ou não, 186


não sabemos, mas ela provavelmente conhecia cada homem e cada segredo podre como ninguém. Destruir tudo em Jericó era injustiça? Pergunte a Raabe, creio que ela teria uma resposta diferente. Se ela já não havia se deitado com cada homem e mulher na cidade decadente. O tipo de coisa que fazia ou que era obrigada a fazer. Adultério, prostituição, fornicação? Estes eram provavelmente os menores pecados em sua lista de conhecimento da depravação humana naquela cidade condenada. Injustiça? Ela conhecia muito bem o que era injustiça. Maldade? Ela conhecia muito bem o que era maldade. Ao mesmo tempo, ela não é apresentada como alguém cheia de amargura ou desejo de vingança, e muito menos felicidade pela condenação de seus conterrâneos mortos. Parece ser simplesmente a constatação de um fato diante dela: estes homens merecem seu destino, e os forasteiros são o instrumento do Deus verdadeiro, que realmente existe, e vieram julgá-los. Eles serão destruídos. Ponto final. “Ao amanhecer, esta cidade infernal não vai mais existir”, é o que ela pensa. Pela manhã A benção de Jacó sobre Benjamin diz que ele devora como um animal feroz na manhã e ao entardecer. Se aplicarmos estes versículos à história desta tribo veremos que sua manhã se deu no início do livro de Juízes, ou seja, no despertar de sua existência. O segundo juiz de Israel foi Eúde, filho de Gera, canhoto. Fato interessante notar que o livro de Juízes diz que um grande número de benjamitas era canhoto (alguns pensam que isso quer dizer ambidestro, ou seja, igualmente habilidoso com as duas mãos), porém, habilidoso o suficiente para acertar um fio de cabelo lançando uma pedra de funda. Seja como for, foi o fato de Eúde ser canhoto que o tornou apto para a missão de assassinar o grande (em mais de um sentido) opressor de Israel, Eglom. Para quem não conhece a história, ela está em Juízes 3. Essa passagem mostra desde cedo o valor da Tribo de Benjamin. Um tropeço no meio do caminho Mas o livro de Juízes também narra, em seu final, Juízes 19-21, como a tribo ofereceu refúgio e proteção a um criminoso e foi punida por todas as demais tribos por isso. É uma história longa para ser descrita em detalhes, mas em resumo, devido à sua rebeldia durante este momento, a Benjamim quase pereceu para sempre. Eram os tempos confusos de Juízes, um verdadeiro velho oeste de Israel, onde não havia lei, mas sim, onde se fazia o que se desse na cabeça do povo. Então as tribos exclamaram em um justo e sincero pranto “Ah, Senhor, Deus de Israel, 187


por que sucedeu isto em Israel, que hoje, lhe falte uma tribo?” (Juízes 21:4). Depois disso os israelitas sequestraram moças o suficiente para dar aos guerreiros de Benjamin que haviam sobrevivido e isso foi o suficiente para que a tribo não desaparecesse por completo. Neste tom de anarquia termina o livro dos Juízes, com as palavras finais: “Naqueles tempos não havia rei em Israel, cada um fazia o que achava mais reto.” O primeiro rei O primeiro rei de Israel, foi Saul, escolhido por Deus por pertencer à menor família da menor das tribos de Israel. O objetivo de Deus fica claro, já que o povo estava querendo colocar suas aspirações em um ser humano invés de Deus. Saul é descrito como um homem belo e alto, mas cuja aparência escondia a personalidade confusa, tola e covarde de um apóstata.

Gibeá, cidade natal de Saul, foi a primeira capital de Israel.

A cidade natal de Saul foi a mesma citada no final desastroso no livro de Juízes, Gibeá. Saul, primeiro rei de Israel, não passou no teste divino, e deixou claro a Israel, que um representante humano nunca poderia ser melhor do que ter o próprio Deus como rei. A monarquia em Israel é encarada desde Juízes, ou até Deuteronômio, não como uma bênção inevitável, mas mais como um mal necessário para restringir a anarquia do tempo dos líderes locais que não seguiam a Deus.

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A história deste rei e como ele foi amaldiçoado por Deus, finalmente suicidando-se na batalha com os filisteus, se encontra no livro de Samuel. Seu corpo e o corpo de seus filhos foram pendurados para fora dos muros das cidades em domínio filisteu, mas homens corajosos tomaram os levaram para serem enterrados na mesma cidade em que Quis, pai de Saul, tinha seu túmulo, Zela. O filho mais importante de Saul era Jônatas, grande amigo de Davi, que não sobreviveu às investidas filisteias contra seu pai. Posteriormente, conhecemos a história do filho de Jônatas, Mefibosete, outro dos meus personagens favoritos na Bíblia. Eu amo Mefibosete pois ele sabia quem era e não deu uma de fraco ou ficou culpando Deus pelos trágicos eventos de sua infância. Seu nome original era uma homenagem a baal, o nome que lhe deram, Mefibosete, significava algo como uma “uma grande vergonha”. Mas ele mudou seu nome para Meribe-baal, ou seja, “Inimigo de baal”. A história de Meribe-baal é que quando Saul perdeu a batalha para os filisteus, Davi se tornou rei, e sua mãe teve medo de que este rei exterminasse sua descendência. Ao fugir apressadamente da cidade, ela derrubou seu filho, que se tornou paralítico da cintura para baixo. Anos mais tarde Davi procurou o último dos descendentes de seu amigo Jônatas, e lhe chamou para morar em seu palácio e comer de sua mesa todos os dias. A amizade entre os dois foi muito forte, e não tinha traço algum de condescendência por parte de Davi. Mefibosete foi a continuidade de Jônatas na vida de Davi, que sentia falta de seu amigo. A descendência deste homem forte, Meribe-baal, é registrada em Crônicas com especial atenção, passando por um dos possíveis reis de Israel, Zinri, no reino do Norte. Se este Zinri na genealogia de Saul, for realmente o mesmo rei que tentou dar um golpe de estado no reino do Norte, esperando a aprovação popular, então a personalidade daquele homem se explica. Zinri reinou uma semana, e foi apenas um homem mesquinho, que ao perceber que não teria o apoio do povo, incendiou a cidade de Tirza, então capital do reino do Norte. Foi por causa deste incêndio que uma nova capital, Samaria, teve de ser construída, pela nova dinastia então coroada, a dinastia de Omri, pai de Acabe. As gerações seguem até termos notícia de que os descendentes de Mefibosete deram origem a um poderoso grupo de centenas de arqueiros. Homens que sentem pena de si mesmos e veem apenas a situação momentânea não são capazes de ver o resultado final de suas vidas e quantidade de homens corajosos e feitos incríveis que pode sair de sua história.

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O entardecer Ao entardecer, Benjamin continuou a sua batalha. O último benjamita significativo de que temos notícia no Antigo Testamento foi nada menos do que Mardoqueu, tio de Ester. Mesmo em uma terra estrangeira, Mardoqueu foi uma bênção para o povo de Deus, livrando-o da destruição engendrada pela pior das falhas na carreira de Saul, a sobrevivência dos amalequitas. A falha de Saul em eliminar o rei dos amalequitas, 500 anos depois quase gerou o extermínio do povo de Deus. Mas o notório Mardoqueu terminou esta batalha, e graças à providência de Deus, os amalequitas foram perseguidos e destruídos e o povo de Deus celebra até hoje o Purim, a mudança na sorte do povo eleito. Assim como Deus mudou a sorte de Mefibosete, Deus constantemente muda a sorte de Seu povo, de fracasso total, para vitória absoluta. Muitos membros da Tribo de Benjamim voltaram do exílio e sobreviveram, pois seu destino estava ligado à Tribo de Judá, e não às tribos rebeldes do Norte, as quais Deus enviara à destruição. As cidades no território de Benjamin também voltaram a ser habitadas depois do exílio. No Novo Testamento, o apóstolo Paulo, antes chamado de Saul(o) de Tarso, foi o mais influente de todos os benjamitas. Deus usou tanto Paulo no Novo Testamento, que alguns o chamam de Décimo Terceiro apóstolo. Como membro da Tribo de Benjamin, Paulo foi um habilidoso Mausoléu de Mordecai e Ester em Ramadã, Irã. guerreiro, com uma visão espiritual dada por Cristo muito além do que outros apóstolos estavam tendo. Ele também foi plenamente “ambidestro” compreendendo e utilizando com habilidade, a compreensão divina tanto da Lei quanto da Graça. Se Benjamin foi o filho de Israel que já nasceu na Terra Prometida, poderíamos considerar Paulo como o apóstolo que já nasceu na época da Igreja e no desenrolar do Novo Testamento. 190


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SessĂŁo 3 Rei e Sacerdote

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Parte 1 Rúben

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1- A Tribo de Rúben “Rúben, tu és meu primogênito, minha força e as primícias do meu vigor, o mais excelente em altivez e o mais excelente em poder. Impetuoso como a água, não serás o mais excelente, porque subiste ao leito de teu pai e o profanaste; subiste à minha cama.” Gênesis 49:3-4

Ruben, filho de Jacó, foi o seu primogênito. Ele era filho de Lia, e Deus o fez nascer por amor e compaixão a ela. Ruben nasceu antes dos conflitos intermináveis entre os filhos de Jacó e as confusões de identidade entre os filhos, que se seguiram a isso. Deve ser por este motivo que ele se mostrou um pouco mais disposto que seus irmãos, tendo o caráter de um líder. Ele tinha o direito de primogenitura e não se sentia inferiorizado, aparentemente. A Bíblia nos diz que foi ele quem impediu que José fosse morto por seus irmãos, dando a ideia de que ele fosse colocado em um poço para ser vendido. O propósito de Ruben não era vender José, mas de algum modo ter tempo de resgatar seu irmão. Anos mais tarde, ele ofereceu a seu pai a vida de seus filhos caso Benjamin morresse durante a peregrinação ao Egito. Não foi uma boa ideia, mas mostra que ele estava disposto a perder algo e se importava

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tanto com seu irmão como com seu pai. Ruben teve 4 filhos, sendo que na época da ida ao Egito ele possuía ao menos dois.

Os rios Aroer e o Jaboque, assim como Jordão, eram as fronteiras N, S e O do território de Ruben.

Mas infelizmente, Ruben estava longe de ter a capacidade de liderança necessária para ser o cabeça das doze tribos. Ruben foi impulsivo e por algum motivo se deitou com Bila, concubina de Jacó. Se isso aconteceu por uma tentativa sua de ganhar controle sobre o acampamento ou se foi por pura lascívia, o texto não explica. Seja qual for o caso, isso demonstrou sua inabilidade para lidar tanto consigo, quanto com a liderança das tribos de Israel. Seu território foi dado por Deus, junto com Gade e a meia-tribo de Manassés, quando eles pediram para ficar com as terras da transjordânia. Ruben, impetuoso como as águas, teve seu território limitado pelas fronteiras de 3 rios, o Jaboque, o Aroer e o Jordão. Outro importante corpo de água que delimitava sua fronteira, era o Mar Morto, em grande extensão ao seu oeste. Na visão de Ezequiel, Ruben está muito próximo ao território central, separado dele apenas pela tribo de Judá. Mas a sua herança terrena na conquista foram as terras ao leste do Mar Morto, planaltos secos e pedregosos, porém férteis. A sequidão do território próximo ao 195


deserto foi compensada quando seus habitantes cavaram poços e fizeram diques e reservatórios. No meio de seu território estava Hesbom, que ficou conhecida por suas “piscinas” artificiais Ruben esteve em conflito constante com os moabitas fronteiros ao seu território. Baal-Meom, por exemplo, esteve muitas vezes sob o controle moabita, o que se vê em várias profecias contra estes inimigos de Israel. Pelo nome da localidade, pode-se notar que era um centro de práticas idólatras. Baal-Meom, note o reservatório que forma uma cachoeira, que Sempre que o povo foi aproveitado pelo hotel para fazer uma piscina natural. de Deus se envolvia com estas práticas, Deus entregava seus territórios novamente àqueles que originalmente usavam as mesmas divindades falsas. Essa foi a razão dos moabitas conquistarem esta cidade de Ruben. Se uma área de nossa vida não for ocupada por Deus, ela, com certeza, será ocupada pelo inimigo ou inimigos de nossas almas, mas não sejamos tolos em pensar que tal área nos pertence: Nós não somos livres.

Ruínas de Hesbom, onde havia uma série de piscinas naturais em sequencia. 196


Parte 2

Levi

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2- Levi “Ao terceiro dia, quando os homens sentiam mais forte a dor,

dois filhos de Jacó, Simeão e Levi, irmãos de Diná, tomaram cada um a sua espada, entraram inesperadamente na cidade e mataram os homens todos.” Gênesis 34:25 Já citamos anteriormente que Simeão, assim como Levi, foi um dos dois únicos filhos a não receberem a benção profética final de Jacó. Os motivos para isso foram o engano, a violência e a profanação de uma tradição sagrada: a circuncisão. A circuncisão foi um mandamento dado a Abraão para demarcar o povo de Deus, e era dada obrigatoriamente aos descendentes de Abraão, assim como a todos aqueles gentios que estivessem dispostos a seguir ao seu Deus. O contexto para entender o terrível ato desses irmãos está no capítulo 34 de Gênesis. A irmã deles, Diná, fora violentada pelo príncipe de uma pequena cidade, Siquém. Os irmãos usaram a tradição da circuncisão para enfraquecer todos os soldados da cidade, já que o ritual deixava o sistema imunológico concentrado no ferimento, causando fraqueza e febre por alguns dias. A reação dos irmãos foi injusta e desproporcional, por diversos motivos: 1- Usou de engano ao fazer um pacto, o que revela premeditação, além de falso juramento, quando o Senhor diz “não darás falso testemunho para com teu próximo”; 2- A decisão foi tomada sem que seu pai Jacó soubesse, e a despeito de que ele jamais a aprovaria, contrariando o mandamento que diz “Honrarás teu pai e tua mãe”; 3- Perverteu o uso de um ritual sagrado que traria os gentios para mais perto de Deus, dando um mau testemunho do Altíssimo às cidades próximas, lançando ignomínia sobre o nome do Senhor e sobre o seu pai. Embora de modo indireto, isso quebra o princípio por detrás de “Não usarás o nome do Senhor, teu Deus em vão”; 4- Há desproporcionalidade entre quem ofendeu e quem foi punido. Quem pecou foi o príncipe da cidade, mas eles mataram todos os homens da cidade. Isso demonstra um coração assassino, e quebra o mandamento “Não matarás”; 5- É bem possível que sua motivação não tivesse nada a ver com a honra de sua irmã, mas sim com a perspectiva de despojos

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materiais, o que vai contra o mandamento “não cobiçarás”, e se manifestou com a destruição da ordem “não roubarás”; 6- O seu desejo por vingança ou riqueza material e sua falta de zelo pela honra divina mostram que seus corações estavam afastados do primeiro mandamento também. Em resumo, se Rúben perderia seu direito de primogenitura por ser impetuoso e “esquentado”, Levi e Simeão, os próximos na linha de sucessão à primogenitura, o perderam por falta de caráter. Rúben foi o primogênito de Jacó com sua mulher Lia, e ele ainda não tinha perdido o direito de primogenitura nesta época. Simeão era o segundo na linha de sucessão, e Levi era o terceiro. É possível que se Rúben já tivesse perdido seu direito, esses irmãos tivessem sido mais cuidadosos em não ofender seu pai, mas, sem direito à primogenitura, sua cobiça queria ser satisfeita de outro modo. Este é o motivo de a “benção dobrada” de filho mais velho não ter caído nem sobre Rúben, nem Simeão e nem Levi, mas sim sobre Judá, o quarto filho de Jacó, com Lia. Este é o motivo de Jesus ser “filho de Judá” e não “filho de Rúben, Simeão ou Levi”. Estudaremos Judá na próxima parte do livro, sendo sua tribo a mais importante de todas. Veremos que ele não foi um filho perfeito, e falhou seriamente em outros aspectos, mas de modo algum foi tão rebelde e obstinado. Se Judá também tivesse falhado, a descendência passaria ao próximo filho da serva de Raquel, Bila, cujo nome era Dã. O que seria péssimo. Ou, caso os filhos das concubinas não pudessem ter primogenitura, o direito passaria a Issacar, algo bem inesperado. Pequenas ações mudam o curso inteiro da história. O nome Levi significa “unido” ou “ligado”. Ele recebeu esse nome, pois Lia esperava que ao dar a seu marido um terceiro filho, ele se tornaria mais ‘conectado’ a ela. Nos outros capítulos já exploramos a dinâmica por detrás do comportamento das filhas de Labão. O nome Levi, de certo modo, apresenta um duplo sentido, já que seria esta tribo que no futuro, “ligaria” os israelitas de volta a Deus, através do sistema sacerdotal levítico. Vemos as duras consequências de suas ações no ‘testamento’ de Jacó. Quando Moisés foi chamado por Deus, esta tribo não possuía a mínima notoriedade. O nome Levi era uma lembrança de fracasso, rebelião e humilhação. Não houve sinal de arrependimento por parte de Simeão e Levi. Eles tomaram as mulheres e crianças, como escravos para vendê-los, o que nos lembra que mais tarde eles fariam a mesma coisa com seu próprio irmão José. Estranhamente Jacó não parece ter tido meio de fazê-los se livrarem de suas riquezas ilícitas, e parece preocupado com a destruição de “sua própria casa” (Gênesis 34:30). Aparentemente já havia um distanciamento entre Jacó e estes filhos mais velhos, e 199


possivelmente eles já tinham seu “próprio acampamento”, o que realça seu caráter forte e insubordinado. Eles não eram bons líderes. Todas estas coisas se sucederam antes do nascimento de Benjamim e da morte de Raquel. Antes do final do livro de Gênesis não há mais nenhum acontecimento importante ligado à vida de Levi, ao menos nada que também não tenha acontecido com seus outros irmãos. Todos eles se arrependeram e se tornaram bons homens depois disso. Levi teve três filhos homens, Gérson, Coate e Merari, e vemos que eles estavam entre os 70 que vieram com Jacó nos dias em que José era o segundo no comando do Egito. É importante notar que todas estas coisas aconteceram antes de Moisés e antes que o sacerdócio levítico fosse levantado por Deus. Deste modo, a tipologia “messiânica” de José, mostra que, assim como Abraão foi inferior a Melquisedeque, os levitas em sua origem dependeram sua salvação do tipo de Cristo que veio antes do Tabernáculo, e isso se deu na pessoa de José. Algumas das características tipológicas que fazem de José uma figura do Messias são: 1- O éfode do sumo sacerdote levita, com suas pedras preciosas de várias cores, nos lembra o “manto de várias cores” que José recebera de seu pai; 2- José foi traído e vendido por vinte moedas de prata; 3- José sofreu injustamente por causa de seus irmãos, mas não se irou contra eles; 4- O sonho de José mostra que “o Sol, a Lua e as estrelas” se ajoelhariam perante ele, o que indica sua “superioridade” sobre todos os seus irmãos, inclusive Levi, assim como sobre Raquel e até mesmo Israel; 5- José se tornou o segundo Homem mais poderoso do mundo, recebendo autoridade do mais poderoso de todos os reis; 6- Pela autoridade e poder que lhe foram conferidos, José se tornou o salvador não apenas de seus irmãos, mas de todo o mundo. Por várias vezes Deus havia repelido do Egito o seu povo, protegendo-os de misturarem-se ao mundo. Abraão e Isaque estiveram no Egito, mas não permaneceram por providência divina. Porque simbolicamente José não se tornou o rei de Israel, mas sim do Egito, e de certo modo, do mundo todo? Ele fez isso depois de dado como morto por Israel, seu pai. Esta é uma clara tipologia ao sofrimento, morte, ressurreição e ascensão de Jesus ao Trono do mundo.

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Logo, se torna óbvio que a figura messiânica não foi Levi, que era apenas um homem terrível que necessitava de salvação, mas sim o seu irmão José. Também é digno de nota que a profecia de Jacó sobre Levi aponta para a dispersão de sua tribo, e que ele não teria para si um território próprio. Isso aconteceria mais tarde, quando a tribo de Levi passou a receber os dízimos dos territórios de outras tribos. Levi não possui valor ou importância por si mesmo, nem seus irmãos. Sem a transformação interna e a aprovação de José eles eram apenas pecadores dignos de destruição. Assim como o Novo Testamento deixa clara a limitação de Pedro antes que ele fosse considerado o maior dos apóstolos, o mesmo se dá com Levi na Antiga Aliança. A narrativa de Gênesis termina então com o filho de Israel sobre o trono do mundo. Ele se torna o provedor e sustentador em nome do Grande Rei, Faraó. Em relação a estes acontecimentos e os que se seguem, eu vejo a necessidade de detalhar a cronologia e achados arqueológicos significativos que conectam as histórias de Israel e do Egito, assim como as evidências do Êxodo. Por qual motivo? Tirando o fato de que é uma dos assuntos mais interessantes para mim, eu vou revelar que há uma confusão muito grande e desnecessária nos dias atuais sobre esses assuntos. Estudei de modo recorrente os relatos e cronologias bíblicos em suas interações com a cronologia egípcia. Vi muitos documentários se tornarem famosos com “teorias alternativas” e “ajustes cronológicos” que achei muito convincentes no início, mas que depois de uma análise pormenorizada, se mostram (pelo menos para mim) tanto enfadonhos quanto desnecessários. Tais “teorias” e “ajustes cronológicos” causam grande confusão e, a meu ver, afetam a credibilidade da arqueologia bíblica. Além dos documentários e livros, como os de David Rohl e James Cameron, há os muitos filmes e novelas que se passam dentro da “cronologia antiga” aceita pela maioria dos egiptólogos. A “sétima arte” tem seguido o pressuposto de que os eventos do Êxodo se passaram em cerca de 1200 a.C., durante o reinado de Ramsés II. Eles fazem isso baseados na passagem de Êxodo 1.11, onde os israelitas constroem as cidades-celeiro de Pitom e Ramessés. Isso encaixa a janela dos acontecimentos bíblicos em um período muito específico de tempo. Período de tempo em que os cientistas podem, com toda firmeza, dizer não haver nenhuma evidência histórica para os acontecimentos narrados na Bíblia. Quando os céticos fazem tal afirmação, baseados em seus estudos, e logo, descartam o relato do Êxodo como um mito engendrado muito depois, eles o fazem de modo muito acertado. Não há evidências para o Êxodo no século XI a.C.! Eu quase cheguei ao ponto de dizer que, tirando esta conclusão baseados na falta de evidência os cientistas não estão sendo tendenciosos. 201


Mas eu estudei o suficiente para descobrir que isso também não é verdade, os cientistas céticos se mostram tão tendenciosos quanto qualquer religioso médio, embora eu considere que isso é mais grave da parte deles, dada o seu vasto conhecimento. O leitor poderá compreender o que eu digo mais do que os egiptólogos, quando eu lhes fizer uma pergunta: os cientistas argumentam que os israelitas construíram a cidade de Ramsés em Êxodo 1.11 e isso mostra que eles viveram na época de seu reinado em cerca de 1200 a.C. Mas se é assim, o que fazer com a passagem de Gênesis 47:11, que se dá séculos antes? O que se torna claro aqui é que a simples menção de um nome não deve levar à uma identificação de uma época e cidade específica de modo desnecessário. Porque? É tão simples como alguém dizer que o Rio de Janeiro foi fundado em 1º de março 1585 (o nome da cidade não era Rio de Janeiro, mas São Sebastião do Rio de Janeiro), ou ainda, dizer que pelo ano 1000, a região do Rio de Janeiro foi conquistada pelos índios tupi. É óbvio que não estamos nos referindo à Cidade do Rio de Janeiro como a conhecemos. Também deveria ser óbvio que o texto bíblico está se referindo à região pelo nome que ficou conhecido posteriormente. Logo, quando o texto bíblico fala de Ramsés, ou Pi-Ramsés, ele está na verdade se referindo à região e à construção de uma cidade mais antiga, batizada como Avaris, sobre a qual mais tarde se construiu Ramsés.11 Além do mais existe um modo muito simples de datar o Êxodo bíblico, basta ler a referência em 1 Reis 6:1, que diz que o Templo de Salomão foi construído 480 anos após o Êxodo. Já que o reinado de Salomão tem seu início pelos idos de 970 a.C. é questão de aritmética básica descobrir a data do Êxodo: 970 + 480 = 1450. Você consegue calcular isso? Você consegue entender, meu caro leitor, como uma diferença de 250 anos pode ser fatal na hora de encontrar evidências arqueológicas? Pois é, parece que você consegue fazer algo que a maioria dos egiptólogos não consegue. Mas vamos relevar, talvez os cientistas não sejam tão ignorantes assim. Esse pode ser apenas um efeito colateral de se trabalhar sob a supervisão e autoridade do país em que foi fundada a Irmandade Muçulmana, bem no meio de 20 países islâmicos que, se fosse dada a oportunidade, jogariam todos os judeus ao mar junto com qualquer evidência de que eles existiram. O discurso de muitos desses países é por exemplo, de que o próprio Holocausto foi uma mentira dos judeus para conseguirem a terra ocupada pelos palestinos. Então não é de se surpreender o depoimento de um palestino em seu livro, discorrendo sobre como os próprios palestinos usavam equipamentos de escavação para retirar e destruir muitos artefatos históricos na cidade de Jerusalém. 11 The Biblical City of Ramses, Charles F. Aling, June 1982 JETS 25/2 pags. 129-137. 202


Não deveríamos ser ingênuos em ignorar a influência política sobre as instituições de pesquisa em países que ainda lutam por democracia. Mas é claro, isso é apenas uma suposição minha a favor da integridade intelectual do meio acadêmico, e nisso posso estar errado. Além destas confusões causadas por documentários e arqueólogos, ainda se encontram na internet vídeos com tantas ideias malucas sobre a cronologia de Êxodo, e sobre quem seria o seu possível faraó, que o pesquisador iniciante é deixado em confusão. Os candidatos vêm aos montes, e as teorias são, na superfície, interessantes. Mas olhando com mais cuidado se vê uma falta de sistematização e metodologia destas teorias, o que faz delas nada mais do que achismos desconexos. Mas se me perdoam a divagação, eu apenas introduzi o tema para que se entendesse qual é a evidência levantada para a presença israelita no Egito Antigo e sua historicidade, tão questionados (desnecessariamente) hoje em dia. Em outras partes do livro eu segui de um modo mais narrativo, mas nessa questão específica me senti forçado a examinar todas as evidências por mim mesmo, para ter uma visão objetiva do que elas podem ou não implicar. A primeira evidência que muitos apresentam são as pinturas em Beni Hassan. Este é um conjunto de túmulos nos quais estão muitos faraós e oficiais egípcios. Como de costume, os túmulos são recobertos por pinturas de cenas importantes na vida dos falecidos. Na tumba de Khnumhotep II há algumas cenas interessantes sendo retratadas. Khnumhotep II era “Administrador do deserto oriental”, o que significa que ele lidava com as “portas de entrada” do Egito. Seu filho Khnumhotep III, quando adulto, recebeu o título de “Portal para as terras estrangeiras”. Sua mastaba possui inscrições que tratam de eventos na região da Siro-palestina. Um autor descreve uma das pinturas encontradas dentro do túmulo de Khnumhotp II: essa cena é única no repertório da arte funerária egípcia. Sua natureza incomum, e a aparente exatidão dos detalhes, mostram que ela deve ser uma representação, ou ao menos uma alusão a um evento específico. O que vemos nesta pintura é o que segue abaixo:

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O texto diz que 37 Aamu (povo não identificado) foram trazidos, mas é incerto se esse número representa todos na pintura, ou se refere apenas aos representantes do sexo masculino, que junto às mulheres e crianças, somariam um número de mais de 100 pessoas. A palavra usada é determinante de uma figura masculina, o que dá peso à possibilidade de que fossem 37 homens mais suas famílias. Há indícios de linguagem Semita Ocidental que conectam a palavra aos amorreus, pastores originários da Síria. O nome de seu líder significa “meu pai é ‘rei’, ou ‘um nobre’. A pintura do segundo homem possui “outro estranho detalhe, é uma lágrima, pintada de branco e contornada em preto, que cai por sua barba. Novamente, análises futuras serão necessárias para descobrir qual o significado disso”. Quatro mulheres estão nesta pintura, duas delas são líderes. O número de pessoas não condiz com o de uma caravana, pois traz muitas mulheres e crianças, e o número de animais de carga é reduzido. O fato de que eles vieram com suas famílias implica que eles vieram para ficar na terra. Eles possuem autorização para portar armas’’ o que fora de cenas de batalha é algo muito incomum na arte monumental egípcia. 12 Os eventos se passaram no ano sexto do reinado de Senusret II. Levi e seus irmãos partiram para viver no Egito sob a autoridade de José. Sobrepondo a cronologia bíblica à egípcia, isso ocorreu aproximadamente em 1880 a.C. (1450 + 430 anos de estadia no Egito: Êxodo 12:40, Atos 7:6, Gálatas 3:17). Há discordâncias sobre quanto tempo efetivamente os israelitas passaram no Egito. As passagens citadas acima parecem concordar que foram cerca de 400 anos. Alguns, porém, interpretam que a profecia dada a Abraão em Gênesis 15 não está se referindo apenas ao período de estadia no Egito, mas sim ao fato de que “a tua posteridade será peregrina em terra alheia (não apenas no Egito, mas na própria Canaã também, pois a terra não pertencia a eles ainda) (...) e será afligida por 400 anos”. O que podemos saber realmente é que os israelitas permaneceram no Egito ao menos quatro gerações. Gênesis 15:16 lê “Na quarta geração, tornarão para aqui; porque não se encheu ainda a medida da iniquidade dos 12 The Aamu of Shu in the tomb of Khnumhotep II at Beni Hassan. Janice Kamrim. American Research Center in Egypt – Cairo.

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amorreus”. A linhagem levítica realmente permaneceu quatro gerações no Egito: Levi > Coate > Anrão > Moisés. Para contarmos de volta a linhagem até Abraão seria necessário adicionar Jacó > Isaque > Abraão, o que totalizaria 7 gerações. Sejam os aproximadamente 400 anos um relato desde a época de Abraão ou contem eles apenas a partir da ida dos filhos de Israel para o Egito, podemos ver como a cena retratada na tumba de Beni Hassan condiz com um influxo cada vez maior de pessoas vindas da região da siro-palestina para sua terra e recebendo permissão para lá habitar. Embora eu veja semelhanças entre a pintura de Beni Hassan e a história de Jacó (há quatro mulheres representadas nos hieróglifos, sendo duas delas de maior importância; o segundo homem apresenta uma estranha lágrima contornada no desenho, Gn 47:7-10; o número de pessoas na caravana pode condizer com Gn 46:27), eu não vou presumir que esta seja uma imagem dos israelitas. Eu não vou fazer isso, pois não quero dar certeza em algo que não é 100 por cento confirmado. Mas a evidência de chegadas de estrangeiros e seu assentamento condiz tanto com a história de Abraão quanto com a de José. Podemos ver pela história egípcia, que os reinados dos faraós Sesóstris II e Sesóstris III também condizem com o padrão geral da história bíblica: O Médio Império experimentou uma significativa queda no nível da água, talvez encorajando Sesóstris II-III e Amenenhat III-IV a expandirem a irrigação, agricultura, assentamentos, e atividades religiosas para a região de Fayum (...) Sesóstris II cortou canal de Bahr Yusuf até o Lago Qarun, criou bacias de coleta de água, e colocou um dique em El-Lahun. Amenenhat III, introduziu outras bacias e diques, obtendo mais terras aráveis perto de Medinet El-Fayum (Leprohon 1999:512).13 A tentação de colocar um nome e um rosto no Faraó desta época é muito grande, mas eu vou evitar fazer aquilo já que nem o autor bíblico o fez. Podemos notar, porém, que um padrão começa a ser visto entre as várias secas registradas nas Escrituras e aquelas que ocorrem no Egito, assim como as diversas migrações de população asiática para este reino. Portanto, a evidência existe. A segunda evidência que tem sido apresentada é a estátua de um homem semita, muito fragmentada, encontrada em Tell El- Dabba, a antiga Avaris. Selecionei uma descrição básica para entendermos a estátua.

13 A Companion to Ancient Egypt, John Wiley & Sons, 6 de mai de 2010, pág. 343.

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Foi descoberta no contexto das XII ou XIII dinastias, entre 1820 – 1710 a.C. A área em que foi descoberta continuou a ser usada como cemitério na época dos hicsos, da XIII até a XV dinastia. Portanto, a datação exata da estátua permanece ambígua. Ela tem a forma da figura de um homem sentada, com cerca de 2 m de altura (...) Estátuas colossais de indivíduos fora da realeza são muito raras (...) O estilo do cabelo, ruivo, e em forma de cogumelo, o “bumerangue” ou bastão (...) a pele amarelada (...) combinados, constituem a descrição egípcia para os asiáticos. (...)Aparentemente sua capa possui uma mistura de características egípcias com asiáticas (...)Das centenas de tumbas em Tell el-Dabba, apenas três possuíam estátuas, e todas eram ligadas aos asiáticos. (...) A estátua é um raro exemplo de auto-representação dos estrangeiros vivendo no Egito e enfatizando os estereótipos egípcios de cor de pele e estilo de penteado, transformando-os em um monumento de autoconfiança. 14 A especulaçaã o eí de que esta estaí tua eí uma representaçaã o do patriarca bííblico Joseí . A importaê ncia, o local, os traços histoí rico-culturais, todos apontam para algueí m como Joseí , ou algueí m que teve uma histoí ria muito semelhante aà sua. A estaí tua possui uma tuí nica multicolorida, e a tumba onde foi encontrada estava vazia, ambos os traços saã o consistentes com a histoí ria bííblica de Joseí . A imagem reconstruíída foi a capa do livro Pharaohs and Kings: a Biblical Quest (Faraós e Reis: uma busca bíblica) de David Rohl. Ém seu livro Rohl destaca outros aspectos significativos das imediaçoã es. O palaí cio possuíía doze tuí mulos, assim como doze colunas em seu poí rtico, o que indicaria a presença dos irmaã os de Joseí , assim como a simbologia das doze tribos, e os doze filhos de Jacoí . A que conclusaã o podemos chegar de modo objetivo? A possibilidade a favor de José parece ser surpreendente, mas não é um fato consumado. Dizer que não há evidência, ainda mais acumulando-se os outros argumentos citados, seria intelectualmente desonesto. Mas as características que vemos nos achados são as que deveriam existir caso a resposta fosse afirmativa. Se a estátua deve pertencer a algum asiático importante, que veio da região siro-palestina, que conquistou poder e prestígio dignos de uma corte egípcia, por qual motivo deveríamos procurar um candidato menor do que José? Ao mesmo tempo, não é possível ser enfático sobre isso, pois não há nomes ou qualquer outra coisa registrada. A segunda evidência, então, nos ajuda a confirmar objetivamente, que mesmo que esta estátua não pertença a José, sua história de ascensão não foi um absurdo histórico e nem um anacronismo, tenha ela ocorrido na XII dinastia, ou ainda, no período dos hicsos. 14The statue of an asiatic man from Tell el-Dabba, Egypt. Robert Schiestl. International Journal for Egyptian Archeology and Related Disciplines. Harausgeber/Editor Manfred Bietak.

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A terceira evidência são os nove selos reais encontrados por Manfred Bietak, e que carregam o nome “Jacó”. 15 Embora essa seja a evidência mais clara até este momento, há muita oposição a seu caráter de evidência, até mesmo por Bietak. Um dos argumentos usados é o que de Jacó é um nome muito comum entre os hicsos que vieram da siropalestina. Embora isso demonstre que os selos encontrados não são necessariamente de Jacó, isso parece corroborar ainda mais a história bíblica em seus menores detalhes. O outro argumento é de que Jacó nunca governou o Egito, e sim José. Pelo menos este argumento demonstra algum conhecimento bíblico entre os críticos. Mas eu devo salientar que o texto em Gênesis 47 diz que “Jacó abençoou a Faraó”. Por mais absurdo que isso pareça, demonstra que este Faraó não era um líder comum, que se via como uma divindade, mas que teve humildade suficiente para se prostrar diante de um peregrino frágil e idoso e reconheceu nele a autoridade divina. Todos estes pontos podem não ser provas definitivas, nem sobre Jacó, e nem sobre José. Mas cada traço citado, sejam as secas e políticas de irrigação, sejam as migrações estrangeiras para a terra egípcia, seja a vestimenta e aparência desses migrantes, sejam seus nomes, todos eles condizem perfeitamente com o momento histórico. Resumindo: há coerência entre o que se deveria encontrar caso a história bíblica fosse verdadeira, e aquilo que realmente se encontra. Neste capítulo tratei apenas de algumas evidências de presença israelita no Egito, embora hajam outras. Evidências e correlações com a história egípcia vão aparecer em outros capítulos. O que podemos ver, mostra que não há motivos para não ver Levi e seus irmãos permanecendo no Egito, sob a autoridade de José, crescendo e se multiplicando na benção de Deus. Com o tempo, eles se foram, e seus filhos, e netos e bisnetos tomaram seu lugar, à medida que a influência estrangeira crescia no Egito. Não concordo com a cronologia do documentário de Jacobovici, que afirma que os israelitas eram os hicsos, assim como a maior parte dos historiadores não concorda. Os israelitas não entraram sozinhos no Egito, pois “todas as terras vinham ao Egito, para comprar de José, porque a fome prevaleceu em todo o mundo”. Gn 41:57. O Egito caiu sob o poder de várias tribos vindas do Oriente Médio, que se chamavam de hicsos, e não sob o poder dos israelitas. Como José se encaixa nisso tudo deve ser visto de acordo com a cronologia que se adota para a estadia dos israelitas no Egito, se foram 400 anos, os israelitas prosperaram sob o domínio de faraós genuinamente egípcios, na XII dinastia. Se os israelitas só permaneceram 215 anos no Egito, os israelitas vieram ao Egito apenas como um 15 Exodus Decoded, Simcha Jacobovici, 2006, 93 min. 207


subgrupo dentro de uma nação já ocupada por numerosos estrangeiros semitas, o que poderia explicar a rápida ascensão de José.

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2– Moisés e o êxodo “Foi-se um homem da casa de Levi e casou com uma descendente de Levi. E a mulher concebeu e deu à luz um filho (...)”

Êxodo 2:1 Este será o único capítulo deste livro em que trocarei a ordem da genealogia. Moisés aparece na quarta geração de levitas, contudo, como será através dele que Deus estabelecerá os deveres dos filhos das três casas levitas, e como cronologicamente o Êxodo tem grande importância, tendo acontecido antes da construção do Tabernáculo, estudaremos Moisés e o êxodo primeiro. Se pudéssemos escolher uma pessoa como a mais importante (talvez à exceção de Adão e Eva) em todo o Antigo Testamento, Moisés sem dúvida seria essa pessoa. A quase totalidade do que está escrito nos cinco primeiros livros das Escrituras pode ser atribuída à sua redação ou edição de fontes. Deus o escolheu para receber a Lei da Antiga Aliança. Ele viu um relance de Deus no Horebe. Ele vagou por 40 anos no deserto com seu povo. Ele foi o agente humano principal no confronto com Faraó. Para os judeus, ele é o mais importante ser humano que já andou sobre a Terra. Mas Moisés era um homem comum, de carne e osso. Por que exatamente ele foi o escolhido? Alguém adicionou uma descrição sua ao final do Pentateuco, dizendo ser Moisés o mais humilde dos homens. Se existe uma característica que é importante diante de Deus, é a humildade. O orgulho é o maior sinal da inutilidade de um homem perante Deus, pois é o pecado por definição. O orgulho é a raiz satânica que tenta uma criatura a se dizer mais importante do que Deus, ou do que os outros. Não existe homem que seja totalmente humilde, pois todo o Homem é pecador, e logo, orgulhoso por definição. O orgulho faz parte de nossa natureza caída, mas em certas pessoas parece se manifestar de modo mais pronunciado. Nos salmos descobrimos que existem dois tipos de ser humano, aqueles que colocam sua fé em Deus, ou aquele que colocam sua fé em si mesmo. Por mais humilde que este último tipo possa parecer, dentro dele existe uma raiz podre de não arrependimento, que mesmo que não desperte visivelmente durante sua vida, se tornará absoluta no dia do julgamento. Mas existe aquele ser humano que confia em Deus e depende dEle. Este será disciplinado sempre que se orgulhar, e a sua carne pecaminosa que se volta contra Deus um dia será destruída e um novo corpo lhe será dado, compatível com a natureza da humildade, 209


então será manifestada uma vida que nunca mais será capaz de pecar e desobedecer a Deus. Uma vida completamente humilde. Mas esse embate da carne é real e terrível, e vemos que mesmo nesta vida, quanto mais simples e humilde for o servo de Deus, maiores coisas Ele confia a um homem. Pois é deste modo que funciona o reino de Deus, não de acordo com o que o Homem vê, mas sim com o que Deus vê. Então não é de se estranhar que Moisés tenha sido chamado de o homem mais humilde por aqueles que o conheceram. Mesmo quando vemos ele se levantar erroneamente em busca de justiça própria, ele o faz baseado na preocupação com seu semelhante. Sempre que ele comete um erro, ele rapidamente aceita a repreensão e se volta à obediência. Moisés considerou, como um dos homens mais poderosos do mundo em sua época, que seria de maior valor lutar ao lado de um povo esfarrapado e em escravidão. Ele trocou magnífico palácio por uma tenda de 3x3m. E ainda assim, àqueles que se revoltavam contra ele constantemente por 40 anos, ele demonstrava preocupação mais do que pastoral, e um verdadeiro amor, sem recorrer a seu passado ou aparente posição. Isso não é trabalho para qualquer um. A humilhação constante, a exaustão física, e o desafio à paciência exigiam alguém que dependesse poderosamente da força de Deus, e não se visse como mais importante do que os mais mesquinhos entre os homens. Na verdade, ele estava ali para servi-los. Ser esse tipo de líder não é o que aqueles que estão em busca de poder estão procurando. Quantos de nós estaríamos dispostos nesta mesma motivação, agradar a Deus a qualquer custo? Duvido da melhor das intenções por trás de nosso desejo de sermos homens de Deus, e de quantos sentimentos e expectativas egoístas estão misturadas à verdadeira chama espiritual. Graças a Deus por Ele ser piedoso. Aqueles que conhecem a vida de Moisés sabem que sua ela se dividiu em três grandes capítulos. Os primeiros 40 anos ele passou dentro da Corte egípcia, sendo um homem de alto status, obtendo conhecimento técnico da maior qualidade em diversas áreas, como era o costume. Nos 40 anos seguintes, ele foi privado de sua posição e passou a ter uma vida simples, sendo preparado na jornada da humildade por Deus, sem saber a missão que viria. E então Deus o usou magnificamente nos 40 anos seguintes, libertando Israel e sendo comissionado como o maior de todos os profetas. Nesta parte do texto usarei a cronologia bem estabelecida da 18º dinastia, adianto que o que escrevo não é fato comprovado, mas tanto a cronologia bíblica quanto a egípcia são bem estabelecidas para esta época, veremos o que provavelmente aconteceu com uma margem segura de realidade.

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OS PRIMEIROS 40 ANOS Mas vamos começar a história de Moisés um pouco antes de seu nascimento, dando o contexto para a queda dos israelitas no Egito, e o quadro dramático que se seguiu. Os israelitas permaneceram de 450 a 215 anos no Egito. No início eles prosperaram, junto à população estrangeira que dominou o delta do Nilo, e que expulsou os egípcios nativos daquela área de seu próprio país. Os egípcios também sofreram grandemente a perda de território para os núbios, perdendo grande parte do Sul de seu país. O Egito se encontrava em uma situação dramática e desesperadora. Antes, gloriosos, agora os egípcios poderiam, sem exageros, ter deixado de existir. Os irmãos egípcios Kamósis e Amósis lutaram ferozmente contra os hicsos para recuperar o seu território. Kamósis, assim como seu pai, morreu nessas guerras, o que deve ter gerado em Amósis um terrível desejo de vingança. Amósis, então, foi para o norte e conseguiu expulsar os hicsos para longe, seguindo até mesmo até Canaã e Síria. Ele expulsou os inimigos para bem longe e se certificou de que a ameaça que quase destruíra o Egito nunca mais voltaria a pôr os pés naquela terra. Ele foi então o fundador da 18º dinastia, começando a reinar por volta de 1570 a.C., governando até cerca de 1546 a.C. Ele iniciou o uso bem-sucedido das carroças e da alta tecnologia militar que tomou dos hicsos. É entendendo este contexto que devemos ler os versículos “... se levantou um novo rei sobre o Egito, que não conhecera a José. Ele disse ao seu povo: Eis que o povo dos filhos de Israel é mais numeroso e mais forte do que nós. Eia, usemos de astúcia para com ele, para que não se multiplique, e seja o caso que, vindo a guerra, ele se junte com os nossos inimigos, peleje contra nós e saia da terra”. Êxodo 1:8-10. Essa descrição cai como uma luva nestes acontecimentos históricos. Amósis e seus generais realmente deviam “usar de astúcia”, pois em relativamente pouco tempo reverteram a situação de estranhos na própria terra, para donos do Egito. Eles não só conseguiram expulsar os diversos grupos estrangeiros que ocupavam mais de dois terços de suas terras ao norte, como mantiveram uma linha defensiva surpreendente, e logo, prosseguiram para o sul, reconquistando os territórios núbios. Ele realmente conseguiu conquistar inimigos maiores e em maior número. E isso explica também a sua preocupação com os israelitas, e sua ânsia de submetê-los. Amósis tinha medo de que os israelitas se unissem com os 211


núbios ou com os hicsos e trouxesse novamente o caos sobre o Egito. Sua política foi transformá-los em escravos. Porque Amósis não conhecia José? Porque sua dinastia era egípcia nativa e não tinha nada a ver com as dinastias dos faraós hicsos estrangeiros que provavelmente tiveram contato com os descendentes de José. Ele não sabia que, na verdade, tinha sido por causa de José que o Egito não tinha sido destruído pelas secas e pela fome. Ele não fazia ideia do quanto devia aos israelitas, mas agora se voltava contra eles com ódio mortal. O Egito se esquecera de seu salvador, assim como copeiro-chefe esqueceu de José na prisão (Gn 40:23). Já falamos como José é uma tipologia de Jesus, e como o Egito representa o Mundo. É muito triste perceber o quanto o Mundo luta e luta, blasfema, e caçoa de Jesus e do Cristianismo, como se agora que o século XXI chegou, ele tivesse encontrado ideias realmente mais avançadas. É muito triste ver que o mundo nem sequer se lembra que muitos dos princípios que ele toma como certos, muito de sua ciência, e valores, teve origem com os cristãos. E, no entanto, batalham contra ele como se fosse uma crença retrógrada e perigosa. Eles pensam que conhecem a História, mas sabem pouquíssimas coisas, e muito do que sabem são estereótipos distorcidos por centenas de anos de mentiras. É ainda mais triste ver o nível de ignorância que as pessoas têm de Deus, das Escrituras, e de Jesus, nas coisas mais básicas. Mesmo aqueles que se dizem sábios! Mesmo aqueles que se dizem cientistas ou historiadores! As pessoas não sabem! Elas sabem de tantas coisas, tantas informações sem importância. Mas vivem décadas de sua vida sem sequer gastar uma hora para se perguntar quem É Aquele que fez todas as coisas! Eles sabem que existe um Deus, eles ouviram falar que Jesus morreu em uma cruz para salvá-los! Mas não gastam nem sequer uma semana de sua vida se perguntando sobre isso! E então, eles zombam daqueles que o fazem. Do mesmo modo, Israel não era ameaça para Amósis, ele não tinha porque temê-los. Mas ele não fazia ideia de que Deus salvara o Egito antes! O Deus daquele povo que agora ele escravizara. Quão terrível o simples esquecimento pode ser! As políticas egípcias continuaram, com o avanço na Palestina, na Núbia e suprimindo rebeliões na Líbia. Os egípcios passaram seu ódio contra os estrangeiros aos israelitas e outros escravos, enquanto seu reino crescia em esplendor arquitetônico, na arte e decoração, nos próximos 21 anos do reinado de Amenhotep I, “então, os egípcios, com tirania, faziam servir os filhos de Israel e lhes fizeram amargar a vida com dura servidão, em barro e tijolos, e com todo o trabalho no campo; com todo o serviço em que em tirania os serviam”. O Papiro Brooklyn 35:1446 apresenta lista de escravos estrangeiros no Egito. Ele é geralmente datado da XII ou XIII dinastias. Uma lista contém 79 212


escravos, sendo 33 egípcios, e 45 asiáticos (e um desconhecido). 20 eram homens, 43 eram mulheres e o restante eram crianças. Ao menos 30 dos escravos possuem nomes hebraicos/semitas. O nome Aser é citado, assim como Sifrá, o nome de uma das parteiras em Êxodo 1:15. 16 Críticos afirmarão que estas datas não condizem com a escravidão egípcia. Mas, mesmo antes da escravidão em Êxodo já se encontravam escravos hebreus, amorreus e de outras nacionalidades no Egito, sendo que o próprio José chegou a ser um deles. Se a datação deste papiro estiver correta, os historiadores estão certos em dizer que os nomes registrados eram de muito antes da época do Êxodo. Mas encontrar nomes bíblicos em um contexto tão similar ao das pessoas neste papiro apenas corrobora detalhes do texto bíblico. Depois disto o Egito foi governado por um homem chamado Tutmósis, que piorou ainda mais a situação dos hebreus. Ele instruiu as parteiras que matassem todos os meninos hebreus que nascessem. Moisés nasceu neste contexto, e Êxodo conta como sua mãe o escondeu em uma “arca” calafetada e ele foi posto no Nilo. Conhecemos a história de como ele sobreviveu, foi pego pela filha de Faraó e acabou sendo criado alguns anos por sua mãe. O texto enfatiza a arca, pois ela relembra o início de uma aliança com Deus e outro passo na história da humanidade, e a ligação é que Moisés também teria papelExtensão Máxima do Império semelhante ao de Noé e sua arca, trazendo Egípcio na 18º Dinastia uma nova época ao povo de Deus. A tentativa do Faraó de tentar destruir os hebreus apenas colocou dentro do palácio aquele que libertaria o Egito. A providência divina já estava em ação. O bebê foi nomeado Moisés. É interessante notar a semelhança fonética entre os nomes dos faraós da XVIII dinastia (Amósis, Tutmósis) com o nome de Moisés. Tutmósis não tinha filhos homens, e não pertencia à família real, sendo apenas um militar. Moisés em egípcio significa filho, e é possível que Tutmósis, que não possuía herdeiros homens, o tenha mantido vivo exatamente por este motivo. Ele só possuía uma filha, Hatshepsute. O texto bíblico diz “Desceu a filha de Faraó para se banhar no rio, e suas donzelas passeavam pelo rio; vendo ela o cesto no carriçal, enviou a sua criada e o tomou. Abrindo-o, viu a criança; e eis que o menino chorava. Teve compaixão dele (...)” 16 The Exodus Case, Lennart Miller, Scandinavia Publishing House, 2015.

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A filha de Faraó teve compaixão do menino mesmo sabendo que ele era hebreu. Deus providenciou então que Moisés fosse criado nos primeiros anos por sua mãe, e conhecesse a Ele, assim como soubesse sua identidade. Mas depois disso, aparentemente Moisés não teve muito contato com seu povo até os 40 anos de idade. Ele provavelmente estava sendo doutrinado com o ensino egípcio para se tornar um possível sucessor ao trono. Hatshepsute, sua possível mãe adotiva, casou-se com seu meio-irmão, Tutmósis II, sendo que para ele, filho de uma esposa menor de seu pai, era necessário ter um filho com sangue real para ter um sucessor ao trono Moisés cresceu sob o domínio dos Faraós Tutmósis, a época que veio a ser a mais próspera em toda a longa história do Egito. O Egito se expandiu sob Tutmósis I, e as riquezas fluíram das áreas conquistadas. O comércio se expandiu para regiões longínquas além do controle militar do Egito, como a África Central, a Arábia, Mesopotâmia e Ásia Menor. Os navios avançaram pela costa jônica e chegaram até a Grécia e também à Somália. Vemos aqui traços interessantes que com toda certeza influenciaram Moisés: ele passou a ter um vasto conhecimento geográfico, de classificação das nações existentes no mundo naquela época, o que pode ser visto na Tábua das Nações (Gn. 10, ver Capítulo 2, na parte 2, Sessão 1 deste livro). Ele também deve ter conhecido a cultura e os modos de muitas nações, e textos antigos, mitológicos ou religiosos. Uma análise cuidadosa de Gênesis revela que ele utilizou muitas fontes literárias e listas genealógicas diversas (a gênese do céu e da terra, o livro da genealogia de Adão, a história de Noé). O uso de figuras de linguagem ou mitológicas poderia estar presente na história de Adão e Eva, onde o Inimigo é representado na forma de uma serpente, sendo apophis, a divindade egípcia que representava o caos. Matemática, astronomia, literatura, história desde o início do mundo até os dias da XVIII dinastia, quem ler o Gênesis nota toda esta vasta influência cultural e amplo conhecimento, quer tenha Moisés escrito todas as histórias, ou as tenha compilado de outras fontes. Como possível sucessor, e membro da família real, Moisés também deve ter tido intenso treinamento marcial e até em campo de batalha, o que pode ser percebido na facilidade com que ele entendeu os comandos de Deus relacionados à formação do acampamento israelita e distribuição das tribos, ordem de marcha, batalhas etc.. Um observador atento de Números e Deuteronômio notará a disposição militar do acampamento israelita, assim o fato de Deus ser o Senhor dos Exércitos do céu e da Terra. O conhecimento de medicina e higiene pode ter facilitado a compreensão dos mandamentos divinos relativos à rituais de limpeza, quarentenas e outras normas higiênicas reveladas em Levítico.

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Deus estava preparando Moisés através da vasta benção da graça comum que Deus dera mesmo às nações idólatras. Além disso ele estava “conhecendo o inimigo”, tendo vivência na vida palaciana, entre homens espertos e desejosos de poder. Não é difícil imaginar que ele também pode ter passado por humilhações por não ser um egípcio nativo. Todo homem de Deus é preparado antes de ser enviado. Abraão precisou de muitos anos para deixar seu passado para trás, Jacó demorou 14 anos de sofrimento sob Labão, Paulo passou três anos na Arábia e mais dez anos antes de sair em sua primeira viagem missionária, Davi fugiu por anos antes de se tornar rei. E quanto maior a responsabilidade e a missão, mais treinamento e mais quebrantamento um homem de Deus deve passar: Moisés foi treinado de 40 a 80 anos, o tempo de uma vida inteira. Se a cronologia estiver correta, e neste ponto é provável que esteja, depois da morte de Tutmósis, os anos restantes de Moisés na corte egípcia foram dominados pela presença de sua possível mãe adotiva, Hatshepsute. Primeiramente ela agiu como corregente de seu marido e meio-irmão Tutmósis II, que possuía uma saúde debilitada. Após sua morte, o trono deveria passar para Tutmósis III, seu filho, mas este era apenas uma criança na época. Logo, Hatshepsute se tornou corregente também com seu Hatshepsute sobrinho. No início as estátuas mostram Tutmósis III governando, à frente de sua tia, que ficava atrás, mas logo, as imagens passaram a apresentar apenas Hatshepsute, e ela passou a dizer que fora designada como sucessora por seu pai. Não demorou para que ela criasse histórias de como os deuses haviam participado de sua concepção e nascimento. Ela enviou seu sobrinho para longe para treinar no exército, e se cercou de oficiais e pessoas competentes que a apoiassem. Josefo cita nas suas Antiguidades dos Hebreus que Moisés comandou tropas egípcias contra os etíopes, e que a rainha da Etiópia se apaixonou por ele, e de que eles se casaram na cidade conquistada. Esta seria a esposa cushita de Moisés citada mais tarde no Pentateuco. Mas é difícil saber de onde Josefo tirou esta tradição, e algumas de suas alegações, como a de que os etíopes vieram atacar até mesmo Mênfis, não fazem sentido. Mas o que faria sentido seriam as idas de Moisés a Punt. Hatshepsute não era uma A rainha de Punt 215


guerreira, mas seu reinado se concentrou no comércio, e suas expedições a Punt, na Etiópia pode ser considerada a primeira expedição científica da história. De lá, foram trazidas especiarias, fauna e flora, além de precioso ouro. Isso também explicaria a grande facilidade com que Moisés parece identificar muitas tribos entre a África e a Arábia (ver o capítulo sobre a Tábua das Nações). Moisés cita um número muito grande de tribos da península arábica, em grande detalhe. Se ele escreveu a Tábua das Nações, esse conhecimento deve ter vindo de suas fontes egípcias, bem como de seus quarenta anos em Midiã.

Também condiz com as leis do Antigo Testamento e a cronologia egípcia, a grande importância que os obeliscos passaram a ter por esta época. Acima vemos uma foto do maior obelisco do Egito, o obelisco inacabado de Hatshepsute. Ele deveria ter 42 metros de altura e 1200 toneladas. Depois de meses ou até anos sendo esculpido da própria rocha, ele apresentou rachaduras e o projeto foi abandonando, provavelmente para a frustração de todos. Outra evidência bíblica de que o Êxodo está corretamente datado e é coerente com a arqueologia. Essa emergência deste modelo arquitetônico condiz com a lei mosaica, que demanda a destruição de qualquer obelisco na Terra Prometida. Eles eram símbolos da idolatria egípcia e adoração ao Sol. Enquanto o Egito prosperava e se erguia a um esplendor nunca visto, os israelitas permaneciam escravizados, em uma terrível situação. Não há sinal de que Moisés tenha voltado a manter contato com seu povo até os 40 anos de idade, e se ele foi enviado para o sul, isso pode ter sido uma maneira de afastá-lo de seu povo. Ou ainda, poderia ser uma maneira de sua mãe adotiva governar despreocupada, com tanto Tutmósis e Moisés ocupados em seu próprio treinamento. “Naqueles dias, sendo Moisés já homem, saiu a seus irmãos e viu os seus labores penosos(...)” Aparentemente Moisés nunca teve completa noção de como era a vida de um escravo hebreu. Ele não estava preparado para isso. Em sua revolta ele matou o homem que espancava um de seu povo. Esta revolta e homicídio nos fazem lembrar de Levi. Levi também se revoltou contra o estupro de sua irmã em uma reação de violência e 216


justiça própria. O sentimento de revolta contra a injustiça deve ter sido mais acertado em relação a Moisés, pois é garantido que ele não tinha nada a ganhar com esta situação. O salmista diz “irai-vos e não pequeis”, pois há uma grande diferença entre o sentimento de revolta, e a busca de vingança e punição. Moisés pensou que era seu dever consertar as coisas e mudar a situação, mas fez isso através do assassinato. Se nos colocarmos no lugar de Moisés, é bem possível que compreendamos o que se passou. Não apenas a revolta, mas a história de seu nascimento, de como ele foi salvo providencialmente quando um bebê, de como Deus lhe entregou nas mãos de sua própria mãe para ser cuidado. Ele com certeza via que Deus tinha um papel para ele ao colocálo dentro do palácio de Faraó. Ele deve ter conhecido as histórias sobre José, e como Deus o colocara por cabeça de todo o Egito e salvara a nação. Moisés devia imaginar que agora havia chegado a sua hora, que Deus o usaria para libertar os israelitas da injustiça. Deus tinha um plano de usálo, e era agora! OS 40 ANOS SEGUINTES Os planos de Moisés não saíram do modo que ele esperava. Depois de fugir do Egito ele segue pelo Sinai para fora do reino egípcio e se refugia nas bordas do golfo de Ácaba, na península arábica. A terra era então chamada de Midiã. Lá segue a história que conhecemos de Gênesis, onde ele conhece sua mulher, tem seu filho e vive por 40 anos em uma vida pacata e rural. Os próximos quarenta anos da vida de Moisés são completamente diferente do que os anteriores. Ele não vive mais em um palácio luxuoso, cercado de todo o conforto e facilidades da corte egípcia. Os primeiros dias devem ter sido muito estranhos, mas ao conhecer Jetro e sua filha, algo me diz que ele passou a se sentir mais em casa. De início ele deve ter pensado em voltar. Há alguns dias de viagem estão seus irmãos israelitas, assim como sua família, estão ainda presos no Egito. Mas agora ele está fora de controle. Ele poderia ter sido paciente e esperado, feito tudo direito. Agora ele havia se colocado fora do alcance deles, o único que poderia fazer alguma coisa por sua situação (era o que ele pensava). Ele não deveria ter agido daquele modo, infantil, e precipitado. E agora, ele estragou a sua única chance de libertar o seu povo, de poder fazer alguma coisa. Será que Deus ainda poderia usá-lo. Quantas dúvidas e que choque cultural ele deve ter tido. Então um dia passa, e depois o outro. Ele ajuda as filhas de Jetro e cuida dos rebanhos e vai aprendendo como é viver de um modo mais simples. E então mais um dia, e mais outro. Uma semana fora de casa. E depois mais outra. E o sol sobe, e então desce. Mais uma tarde, e mais 217


uma manhã. E os meses passam, e mais meses passam. E então um ano inteiro. E ele ouve sobre as notícias de terras estrangeiras, e sobre as revoltas das cidades dos cananeus contra o Egito, e pensa que talvez este seja o momento. E então mais uns meses passam e ele recebe a notícia. Tutmósis venceu esplendorosamente em Megido. Ele não foi derrotado, mas continua vivo. Ele leva ricos despejos ao Egito, mas não antes de chegar tão longe quanto o próprio rio Eufrates, onde ele estabelece uma estela de vitória. O Egito foi vitorioso, e Tutmósis III consolidou seu poder. Notícias de Hatshepsut? Nenhuma, apenas sua morte misteriosa, assim Tutmósis III representado em suas como a de alguns de seus vitórias sobre os cananeus conselheiros mais confiáveis. Assassinato? Talvez. Isso seria improvável? Creio que o esperado. O inimigo agora reina jovem, e poderoso, e inconteste. Com pouco mais de 20 anos de idade. 20 anos ... Moisés poderia morrer de velhice antes de seu adversário. Ou Deus poderia derrubá-lo certo? E então haveria uma chance de que ele voltasse como um sucessor legítimo ao trono do Egito e libertasse seu povo. Talvez ele devesse esperar e ver o que Deus faria. E então ele esperou, e esperou, e esperou. E um ano se passou. E outro. E então eram 5, e depois 10, e então 20. E lá estava Tutmósis III, vivo, ainda mais poderoso e formidável. Alguns diziam que ele era agora o maior de todos os faraós a terem governado o Egito em seus mais de mil anos de história. Ele era um líder forte, e aliás, 3 mil anos depois ele seria conhecido o Napoleão do Antigo Egito. E Moisés? Estava com 60 anos. E agora a esperança de que um dia ele poderia voltar e ser o grande homem que libertaria o Egito, e que seria um grande Rei, já desvanecia no horizonte. Os sonhos de grandeza são para os jovens, e a velhice os toma cruelmente. Quem sabe ele ainda voltasse, ou outra pessoa tomasse seu lugar para isso. Talvez quando Tutmósis III morresse, aí haveria uma chance. Mas sejamos sinceros, que chance? Que chance poderia haver? O Egito nunca tinha sido tão poderoso, rico, próspero. E os escravos israelitas poderiam fazer o que em relação a isso? Ele tinha que ser honesto consigo mesmo, esses sonhos que não deixavam sua mente, esse desejo mesquinho por fazer grandes coisas, talvez até tivesse tido uma pequena chance de existir no início, e ele a desperdiçara com um erro estúpido. E agora Deus o punia por seu homicídio, ele estava desqualificado para o trabalho. Seus parentes e seu 218


povo permaneceriam como escravos sem escape, presos a um sistema indestrutível que os forçava a serem menos do que humanos. Talvez se ele não tivesse confiado tanto em sua própria força isso não teria acontecido, e o sangue de seus irmãos não estaria em suas mãos. Mas para falar a verdade, a vida não era apenas decepção, muito pelo contrário. Se existia algo que ele não sentia falta no Egito, eram os ídolos, a falsidade, e a futilidade que cercavam a vida palaciana. Por 40 anos ele tivera de suportar todos os dias os deuses, preces e rituais, a falsidade dos homens que adoravam pau e pedra, ouro e prata. Um povo egoísta construído sobre mão de obra escrava e mentiras. E o pior de tudo ... é que ele funcionava. Os homens com ídolos falsos governavam o mundo, e o povo do Deus invisível, onde estava? Talvez eles estivessem errados afinal de contas. Mas não, era besteira pensar assim. Ele mesmo não foi tão feliz no Egito quanto era agora, casado, vivendo em um vilarejo simples, cuidando de animais, e ouvindo seu sogro falar sobre Deus. Moisés pensara que deveria salvar a todos, mas e se fosse o contrário, e se ele tivesse sido trazido pelo deserto para que ele fosse salvo. Ele poderia ter morrido no Egito, e ali, com seu sogro, ele realmente ouvia alguém falando sobre o Deus Altíssimo. Não, ele estava feliz apesar de tudo. Ele não tinha mais tantos livros e pergaminhos, mas havia coisas que ele não poderia aprender neles. Durante toda sua vida ele aprendera a ciência e sabedoria do mundo, até o ponto da saturação. Não que não houvessem coisas válidas ali, mas tinha algo faltando. Em Midiã ele aprendeu o mais importante. O silêncio, a oração, a vida livre de futilidades. A companhia de um pequeno grupo, que mesmo imperfeito, não estava ali para adorar ídolos, mas o único Deus do Universo. Alguns midianitas aprenderam com Abraão, assim como muitas outras tribos que vimos nas genealogias anteriores, sobre o Único Deus. E por mais que essas tribos não fossem tão ‘educadas’ e ‘sofisticadas’, eles conheciam a Deus e isso era tudo que ele queria. A vida não foi ruim em Midiã. É lógico que os sonhos fúteis tinham que morrer. E o orgulho. É difícil ter de realizar certas tarefas humilhantes do dia a dia quando se cresce como um rei. Resolver pequenos problemas em uma vila, questões diárias que não vão mudar o mundo, que não vão lhe tornar conhecido, que não vão trazê-lo de volta ao lugar onde você pode mudar as coisas, o lugar onde se tomam as decisões, tudo isso é humilhante. Apenas aceitar que não se é especial, que você não é diferente de nenhuma outra pessoa. Que você não precisa ser importante, ou grande, e sim que precisa apenas amar a Deus ... não se aprendia isso nos pergaminhos egípcios. A morte do ego. Não era essa vida em si que o trazia felicidade e contentamento, mas agora ele deveria sentir que conhecia mais a Deus. É bem provável 219


que Moisés tenha escrito o Salmo 90 nesta fase de sua vida. Depois de um tempo ele deve ter parado de procurar notícias do Egito. Tudo que ele considerava agora, em sua velhice, aos setenta, oitenta anos, era a eternidade de Deus e a brevidade da vida humana. Ele, que por metade da sua vida vivera como um faraó, e a outra metade como um pastor de ovelhas. Ele pôde ver que a vida humana é como pó, tanto a do rico quanto a do simples. E agora ele via que sua vida havia passado, e o mundo continuava ali. Ele deve ter considerado no Salmo 90, como o povo israelita ainda estava preso à terrível situação da escravidão. Mas agora, ele tinha certeza que não possuía força nenhuma para salvá-los. Só Deus poderia salvá-los. “Decorridos muitos dias, morreu o rei do Egito”. Êx.2:23. No Egito morre o Faraó Tutmósis III. Depois de quase 40 anos de reinado. Como incontáveis outras vezes os reis do Egito, eles, que eram considerados deuses, desceram ao túmulo em suas ilusões de grandeza. Pois Deus “reduz o homem ao pó e diz: tornai-vos, filhos dos homens. Pois mil anos são para ti como o dia de ontem que se foi e como a vigília da noite. Tu os arrasta como na torrente, são como um sono, como a relva que nasce de madrugada e à tarde já murchou”. Palavras de Moisés. Podemos ainda ver a face de alguns faraós, como a de Tutmósis III, mas mais um pouco de tempo, e inevitavelmente ele se tornará em pó. Moisés termina sua oração com um pedido para que os israelitas sejam salvos e abençoados por mais dias do que sofreram escravidão no Egito. Moisés finalmente abriu mão de qualquer esperança que tinha em sua carne, e depositou suas esperanças nas mãos do Senhor. OS ÚLTIMOS 40 ANOS “ Pois o clamor dos filhos de Israel chegou até mim”. Ex. 3:7. O tempo de preparação de Moisés havia terminado. Seu maior inimigo fora derrotado: a esperança em libertar o povo por sua própria força. O maior inimigo de Moisés não era o Faraó, mas ele mesmo. E agora um novo, jovem e forte Faraó subiu ao trono do Egito. Se Moisés fosse por si mesmo libertar os egípcios ele estaria perdido. Amenhotep II é o mais provável candidato ao Faraó do Êxodo. Ele era forte e arrogante, e tinha sob si um império fortemente consolidado por seus antecessores. Ele foi o sétimo Faraó da XVIII dinastia egípcia. E sua vida é cheia de propaganda política relacionada a suas habilidades físicas, embora ele tenha cessado as hostilidades e não tenha sido nem de longe um conquistador ao nível de seu pai. A queda nas hostilidades com os reinos asiáticos pode estar relacionada a humilhação do poderio e Império egípcios pelo Êxodo.

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A revelação de Deus a Moisés de Seu verdadeiro nome deve ser tida como um dos maiores acontecimentos em toda a Escritura. “Eu Sou” nos mostra o caráter eterno e autoexistente de Deus, Sua suficiência e Sua identificação não com adjetivos que o caracterizassem, nem com um substantivo, como se alguém tivesse dado um nome a Ele, mas sim com um Verbo. Ele É. Fará bem ao leitor pensar um pouco sobre este fato. Isso é diferente de qualquer outro deus ou filosofia, ou algo que a mente humana pudesse chegar sozinha, isso é simplesmente Revelação. O que estava sendo dado a Moisés, assim como o que nos é dado no Gênesis, é algo que possui uma qualidade tão peculiar e diferente de tudo aquilo que existia na época, que se tivesse sido inventado, deveria ser chamado de genial. Porém, não foi inventado, a qualidade que essa Revelação possui não é a do raciocínio humano, nem da filosofia, nem sequer da ciência, mas é algo muito mais profundo e superior, onde a mente humana não conseguiria chega sozinha. É racional, mas além da capacidade mental, e ao mesmo tempo não é intelectual, mas move o coração, sem, contudo, ser um mero sentimento. É a verdadeira natureza e caráter de Deus. Outro indício a favor da historicidade do que é dito na Bíblia é que Deus diz a Moisés que tire as sandálias de seus pés, pois o lugar é santo. Não que o lugar seja santo por si, mas a presença de Deus o santifica. Se o leitor voltar à imagem no início do capítulo anterior, na pintura de Beni Hassan, poderá verificar que os adoradores naquela época, ao adentrarem os templos egípcios, o faziam descalços. Talvez isso esteja relacionado a não trazer terra e lama para dentro dos locais religiosos, conectadas à impureza. Que o leitor leia a narrativa, pois eu não posso descrevê-la melhor do que ela mesma o faz. Deus demonstra a Moisés que Ele é quem tem o poder sobre a vida e a morte, sobre a natureza inanimada, animal e humana. As divindades egípcias eram muito limitadas, e possuíam uma área de atuação geográfica ou simbólica muito específica. Mas não o Deus da Bíblia, ele É ilimitado, pois a característica que identifica o seu domínio é a ‘existência’, o Verbo ser. Toda a existência provém Dele e é o Seu domínio. Esse Deus tem para si um povo separado, que tem comunhão com Ele e O adora. Mas este povo estava preso por um sistema mundano que fazia tudo em seu poder para impedir-lhes de adorar. Eles eram escravos do mundo, e não podiam fazer nada a este respeito. O tema maior de Êxodo é a adoração ao verdadeiro Deus, e o contraste em como o Homem cria para si deuses falsos para substituir a verdadeira adoração. Quando Deus criou o sistema levítico, este era uma sombra da realidade celestial e devia levar as pessoas a conheceram a Deus e a adorá-lo, mas antes disso,

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os falsos deuses deviam ser mostrados em sua verdadeira natureza: mentiras e impotência. É importante entender que Moisés era um levita, e que a sua missão principal estava relacionada à revelação de Deus para sua adoração adequada. Não há como adorar a Deus quando se confunde a criatura com o criador! E nós vivemos em um mundo que faz isso todos os dias. Talvez não tenhamos tantas estátuas e ídolos do lar, mas não existe geração mais idólatra do que a atual. O Verdadeiro não nos preocupa mais, e a Bíblia ou até a ciência parecem tediosos perante a imersão em mundos fictícios. Quantas séries e quanto tempo as pessoas gastam imergindo e dando o valor de sua existência a personagens, tramas e mundos imaginários? (2 Timóteo 4:3-4).E a times de futebol? E a artistas que para satisfazer a ânsia do mercado, devem inventar música atrás de música todas as estações? Deveríamos falar do consumismo? E aquelas pequenas marcas que colocamos em camisetas ou tênis e aumentam o seu valor de modo absurdo, sendo que a maior parte delas é feita com trabalho escravo em países como a China. Nós valorizamos uma realidade alternativa que criamos diante dos nossos olhos. Seja a “mãe terra”, sejam pessoas de carne e osso como os artistas, ou intelectuais, ou até mesmo personagens que não existem. Ou a nós mesmos e nossos prazeres. Quando foi a última vez que você viu em sua televisão ou em um filme a gratidão por tudo que Deus tem nos dado, que os artistas se ajoelharam, e os canais de televisão pararam e deram glória Àquele que os fez, e que os mantém. Eu creio que faz um bom tempo, e creio que veremos cada vez menos isso. Basta olhar os comerciais, nós vivemos em um “Egito”. Este é o motivo de antes dos novos céus e nova terra serem criados, Deus envia grandes devastações e sinais como no Egito no livro de Apocalipse. Deus destruirá todos os ídolos deste mundo antes de trazer o novo. É bom que você ame as coisas eternas, pois, se as coisas que você mais ama são as coisas temporais ... em breve não restará nada que você possa amar. O faraó era a primeira falsa divindade egípcia, um ser humano deificado. Ele sabia muito bem que não era deus, mas por milênios o Egito via-o como o responsável pela estabilidade, provisão, saúde, até mesmo o amanhecer e o anoitecer. Talvez não nos ajoelhemos diante de líderes, nem oremos para eles, nem os tenhamos como divindades, como foi como no Japão, ou como é na Coréia do Norte. Talvez nem gostemos tanto assim de nossos líderes. Mas eu garanto que, se você não consegue viver sem seus artistas, ou astros do pop favoritos, eles não deverão estar nos céus. Assim como, provavelmente, seus jogadores favoritos, ou apresentadores. E isso é muito fácil de se dizer, pois eles permitem que as pessoas os idolatrem, e nenhum idólatra entrará no reino dos céus.

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Então, este era o caso com o Egito, eles idolatravam o faraó como um deus. É por este motivo que Deus diz que fará Moisés como “Deus” perante Faraó. Só que diferente de Faraó, Moisés realmente demonstra o poder de Deus. Como ele demonstra? Deus desfere uma série de ataques ao Egito na forma de pragas, sendo que cada praga específica tem o objetivo de mostrar que Deus tem o domínio sobre a área de atuação de um ídolo egípcio. Vejamos a ilustração abaixo: Hapi

Herket

Khefri

Hathor

Heka Nut e Geb Ra

Deus demonstra ter poder sobre todas as coisas que os falsos deuses egípcios alegadamente deveriam ter. Ele começa pelo Nilo, que era adorado como um deus. Sem o Nilo não haveria vida no Egito, que está nas franjas do deserto do Saara, e isso fazia dele uma das principais divindades, essencial para a existência da própria nação. O rio também era associado a uma divindade protetora chamada Hapi. A seguir Deus envia pragas de sapos e insetos que podem ser ligados a divindades egípcias grotescas como Herket e Khefri. O gado foi afetado em diversas pragas, e ele estava associado à divindade Hathor, que posteriormente seria adorada como o bezerro de ouro no deserto egípcio, assim como pelas estátuas que Jeroboão fez para o reino de Israel. Divindades associadas à saúde, como Heka, se mostravam impotentes na cura dos furúnculos da população afetada. O granizo mostrou o poder de Deus sobre os céus e sobre as plantações da terra, assim, o casal de deuses, Nut e Geb se mostraram impotentes em recuperar todas as plantações perdidas naquele ano pelos egípcios, o que trouxe fome, falta de recursos e instabilidade econômica desde os mais pobres aos mais ricos. A última das pragas naturais foi a mais aterradora para os egípcios, pois bloqueou o próprio Sol, a famosíssima figura deificada, Ra. Teologicamente, o papel destes acontecimentos é um dos mais significativos das Escrituras, pois, demonstra a impotência e falsidade de todo o panteão da maior civilização existente na época diante do poderio de um Deus único e Todo Poderoso. Se tornava claro, ali, não só aos israelitas, mas a todo o mundo conhecido, que as “divindades” do grandioso Egito não serviam para ajudar a ninguém, nem mesmo o seu 223


próprio povo. Ficava claro a todas as nações também, que o Deus que libertou Israel era mais poderoso do que qualquer divindade conhecida, se importava com Seu povo e não deveria ser desafiado. A Queda do Egito se tornou tão conhecida pelo mundo afora que 40 anos depois, quando os cananeus estavam para serem conquistados, Raabe e sua família entenderam o que deveriam fazer, e todas as nações de Canaã estavam apavoradas diante dos israelitas. Logo, não foi sem aviso e oportunidade de arrependimento que os cananeus resistiram a Deus. Mas, historicamente, um evento de tal magnitude teria que ter deixado evidências de sua existência. Elas estão disponíveis? Um texto que geralmente é trazido como evidência é o famoso “Admoestações de um sábio egípcio”, também conhecido como Papiro Ipuwer. Há referências em seu texto a várias calamidades que teriam ocorrido durante e em consequência das 10 pragas. Há frases como “o sangue está por toda a parte (...) o rio é sangue”, “Os homens são poucos, muitos morreram e poucos nasceram. Aquele que enterra seu irmão está em todo o canto”, “há muito barulho, incessante, não há fim para este barulho. Plantas e animais sofrem pelo estado da terra. Grandes e pequenos dizem: eu queria estar morto. Criancinhas dizem: eu queria que nunca tivessem me feito nascer. Um parágrafo obscuro parece indicar que homens se jogaram voluntariamente no rio para serem devorados por crocodilos. Esta menção a barulho incessante poderia ser uma referência ao som de uma grande praga de gafanhotos e o bater de suas asas. Outras calamidades citadas no texto são a falta de grãos, produtos básicos como comida e cevada, poucas mulheres e crianças concebidas, apropriação de grãos pelo estado egípcio e pelos ricos, organização política em total confusão e grandes revoltas da população contra os poderosos, aliás, se vê neste papiro uma demonstração clara de insatisfação da população com o faraó governante, a quem a culpa pelas pragas é colocada (o próprio texto bíblico afirma que os próprios sábios de faraó insistiam ao final das pragas, que ele deixasse os israelitas irem, mas que eles o tinham como um louco). Alguns afirmam que a escrita do sábio egípcio é uma clara hipérbole e na opinião de sua primeira tradutora ele apresenta contradições claras como o fato de que não só os ricos estão em miséria, mas os pobres estão se tornando ricos. “Os pobres da terra se tornaram homens de riqueza. O príncipe o louva. Os pobres da terra se tornaram ricos, e o que era dono de terras agora não possui nada ... ouro e lápis lazuli, prata e malaquita, carmélio e bronze, pedra de Yebhet e ... são colocados sobre os pescoços das escravas. Há boas coisas na terra, ainda assim, as senhoras dizem: melhor seria ter o que comer”. Mas, logicamente, tal contradição seria facilmente explicada dentro do contexto do Êxodo, onde Deus falou que os israelitas pedissem aos egípcios doações de todos esses materiais, e no fato de eles terem 224


encontrado tal graça aos olhos dos egípcios. Mas como eles poderiam ter encontrado tal graça se o Deus deles destruíra o país terrivelmente? As primeiras pragas no Egito afetaram pessoas de ambos os lados, inclusive os israelitas, mas à medida que o tempo passava, as pragas se tornaram mais seletivas, e todos aqueles egípcios que acreditavam nos avisos, como guardar o gado antes da praga de saraiva, foram poupados por terem crido e tomado providências. Os que não acreditaram e não se preveniram não podiam acusar Deus de não ter lhes dado aviso. Mas muitos não ligam tal papiro aos acontecimentos listados em Êxodo. Tudo depende de como se data a composição de tal texto. O problema é que o preâmbulo do texto, que explicava os detalhes do momento histórico, foi perdido. Assim os egiptólogos têm dificuldade em entender seu contexto histórico ou data de composição. A única informação clara no sumário é a de que os asiáticos se adaptaram às condições internas do Egito. Com relação à data de sua composição, a questão a que está intrinsecamente ligada é a que problema e de qual época o autor tem em mente. “Se torna visível que as bases para qualquer decisão não são convincentes em nenhum dos lados. O ponto de vista de que o papiro de Leiden contém alusões aos hicsos possui um melhor suporte do ponto de vista histórico, mas a filologia e outras considerações parecem apontar da sétima à décima dinastias (...) Sem dúvida, seria mais sábio deixar esta questão aberta neste momento”.17 Seja qual for o caso, esteja o papiro informando eventos relacionados às pragas egípcias ou a eventos catastróficos em outros períodos históricos, podemos ter uma visão de como deve ter sido o caos que se instalou na nação após o Êxodo israelita. Outra evidência, que alguns cristãos recebem com felicidade, e outros com antipatia, poderia esclarecer a cadeia de pragas bíblicas como eventos naturais relacionados à explosão da ilha de Santorini. Aqueles que veem nas pragas bíblicas não necessariamente a manifestação de milagres sobrenaturais, mas sim à ação de Deus por meios de providência natural tendem a conectar os dois eventos. A erupção de Santorini foi um dos maiores desastres naturais da humanidade e causou consequências climáticas em todo o planeta. A cadeia de eventos começaria com vazamentos de gás ou algum outro gatilho físico-químico que tornaria as águas do Nilo avermelhadas como o sangue, seja por excesso de algas ou óxido de ferro. Os sapos, fugindo da água infestariam a terra causando a segunda praga. A falta de água potável geraria as infestações por insetos. O terrível granizo que caiu sobre o Egito seria o resultado da erupção vulcânica de Thera, Santorini. Com a diminuição da temperatura os gafanhotos acordariam em enxames 17 The Admonitions of an Egyptian Sage –from a Hieratic Papyrus in Leiden (pap. Leiden 344 recto) by Alan H. Gardiner. 1969, Georg Olms Verlag, Hildesheim.

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e devastariam as plantações. A erupção de Thera também explicaria a prolongada escuridão que caiu sobre o Egito, quando o Sol foi coberto em desafio às divindades solares. Creio que em vez de entrar em polêmicas relacionadas a se os eventos descritos em Êxodo foram todos completamente sobrenaturais, ou se eram ao menos em parte um evento natural anteriormente planejado por Deus para ocorrer em seu tempo determinado, devamos apenas olhar para a cronologia e ver como os acontecimentos se encaixam. Ou seja, o que aconteceu historicamente e o que a Bíblia diz que aconteceu se alinham? Primeiramente, a erupção de Thera ocorreu dentro do cronograma bíblico? Cientistas geralmente apontam datas diferentes para a erupção de Thera, alguns a datam antes de 1600 a.C. enquanto outros a colocam até mesmo perto de 1300 a.C. Evidências para a datação são raras e contraditórias, e além do mais, cientistas chegam a conclusões diferentes para as mesmas amostras. Logo, alguns a encaixam dentro da cronologia bíblica e outros não. LaMoreaux chegou a uma conclusão que elucida todos os pontos de modo satisfatório (pelo menos para alguns), sua opinião é de que ambas as datas estão corretas, tendo ocorrido, como não é raro que aconteça com vulcões “várias erupções, desde 1628 a.C. até a mais cataclísmica em 1450 a.C. Essa teoria oferece uma solução à questão da datação antiga e datação nova (...)Amostras de gelo mostram três grandes deposições de sulfato, em 1715, 1624 e 1450 a.C.” A evidência de uma grande erupção em 1450 a.C. é fascinante, pois se encaixaria exatamente na data prevista para o Êxodo. E os efeitos se encaixam na descrição das 10 pragas bíblicas? A nível local, como vimos nas fotos anteriores, todo o processo das pragas se encaixa muito bem em fenômenos ocorridos em outros lugares e épocas. Mas a nona das pragas foi tão avassaladora que podemos encontrar registros dela por todo o mundo na própria época do Êxodo, e isso torna o argumento em favor da Bíblia muito forte em termos históricos. Um filósofo do século XV a.C., Mozi, descreve: “O gelo veio no verão ... os cinco grãos apresentaram modificações (...) Quando veio o rei Jie de Xia, o Céu deu as mesmas ordens, o Sol e a Lua não apareceram em seu tempo. Verão e inverno vieram em ordem irregular. Os cinco grãos secaram até perecerem”. Os “anais de bambu” que descrevem a primeira lenda chinesa registrada, dizem: no ano 10 do rei Jie, os cinco planetas saíram de seus cursos. De noite, as estrelas caíam como chuva. A terra tremeu (...) os céus foram cobertos de neblinas por três dias” As névoas ocorreram durante o reinado do rei Tai Jia, o quarto governante da dinastia Shang, que subiu ao trono em 1530 a.C. O reinado de Jie de Xia terminou o reinado em aproximadamente 1600 a.C. e a de Tai Jia setenta anos depois, ambas ocorreram dentro do período de 1670-1520 a.C. (...)Quando da erupção de Pinatubo, a temperatura global diminuiu em cerca de 0,5ºC por cerca 226


de dois anos. (...) Outro texto que pode corroborar o impacto da erupção de Thera em outras civilizações é a estela do faraó Amósis I (aprox.. 1500 a.C.). Conhecida como a Estela da Tempestade, descreve uma grande tempestade com ventos cheios de neblina e uma terrível inundação que destruiu templos e outras construções. A tempestade produziu barulho, escuridão, chuvas tais que nenhuma tocha podia ser acesa, inundações em casas e destruição de templos. (...) anais acadianos e sumérios descrevem fenômenos como pores do sol muito avermelhados, halos lunares e solares, prevalência de escuridão e tempestades violentas. (...) certamente a erupção vulcânica poderia fornecer um pilar de fumaça para guialos (os israelitas) no caminho e um pilar de fogo lhes daria luz, assim poderiam viajar tanto de dia quanto de noite. 18

18 The Theran Disruption: The Minoan Eruption of Thera and its Possible Impact on Civilizations. Jason Freewalt, World History Seminar, American Military University, July 2013.

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Correlação entre eventos catastróficos e as pragas bíblicas: 1) águas avermelhadas na região de Camarões; 2) infestação urbana de sapos; 3) Gafanhotos em nuvem no Egito; 4) morte de bovinos após as águas do Lago Nyos, em Camarões, se tornarem vermelhas (provavelmente devido à envenenamento por gás; 5) extensão das cinzas da erupção de Santorini nos tempos bíblicos; 6) exemplo de uma erupção vulcânica cobrindo o céu.

Logo, podemos ver que os eventos descritos em Êxodo são corroborados por acontecimentos não apenas na região do Mediterrâneo ou Oriente Médio, mas até mesmo na distante China. De fato, a grande erupção de Thera em 1450 a.C. foi uma das maiores nos últimos 100.000 anos. Tal erupção não só mudou todo o cenário comercial do mundo 228


mediterrâneo, extinguindo a poderosa civilização micênica (que alguns atribuem à lenda de Atlântida destruída pelas ondas), mas gerou instabilidade econômica de tal modo que suas consequências de longo prazo podem ter sido um dos motivos do surgimento da grande Idade das Trevas do mundo antigo, quando várias civilizações desapareceram ou apresentaram significativo retrocesso. Deus trouxera Moisés para ser representante diante de Faraó, de um evento tão dramático que mudaria toda a história. Onde estavam os deuses das nações para socorrê-las diante de tal desastre? É óbvio, que nem o Faraó, o Homem mais poderoso do mundo, pôde resistir à mão de Deus, e se tornou aparente sua total fraqueza. O arrogante Amenhotep II viveu o restante de sua vida humilhado pela derrota de seu poderio no Mar Vermelho. Um homem é apenas um homem. Após o início do seu reinado, o Egito passou por um processo de esfriamento em seu imperialismo e domínio de outras terras. O sucessor de Amenhotep II foi Tutmósis IV, cujas histórias de ‘sonhos’ e do descobrimento da ‘antiga esfinge’ sob as areias, parece conter traços de realidade misturados à ficção política, uma evidência de que ele não era o sucessor original planejado, mas que o primogênito de Faraó morrera na décima praga, deixando um vácuo de poder que precisava ser preenchido por legitimação. Logicamente, não encontramos registros destas derrotas nos anais dos faraós, pois estes não se importavam com a verdade, apenas com propaganda. Os arqueólogos que afirmam não haver prova documental do Êxodo pela história egípcia, e por isso o descartam como conto de fadas deveriam se mudar para a Coréia do Norte ou Irã para entender um pouco mais sobre o tipo de homem cuja história eles orgulhosamente escrevem. Mas a destruição de tudo que é falso foi apenas metade do processo representado por Moisés. Deus ainda usaria este homem nos 39 anos seguintes, para apresentar o verdadeiro, o modelo da santidade de Deus e a sombra de todas as coisas que haveriam de vir. No deserto Moisés recebeu a Lei de Deus, os 10 mandamentos, que são a base e a demonstração da natureza divina. Ele também recebeu o modelo do Tabernáculo e as leis específicas para Israel. Ele também guiou o povo pelo deserto e lutou nas primeiras guerras do Senhor, antes de “ser enterrado por Deus”, o que em minha opinião mostra um evento misterioso no qual é possível que Moisés tenha sido arrebatado como Elias, pois ninguém nunca mais viu seu corpo. É claro, que isto é apenas especulação. Sobre todas estas coisas os 4 livros restantes do Pentateuco discorrem detalhadamente, e aqui não há espaço para a análise de tão vasto compêndio de leis e histórias. Muitos homens mais capazes e sábios escreveram sobre estes assuntos por séculos, e eu pouco teria a acrescentar. 229


É interessante notar que apesar de toda a importância de Moisés na história de Israel, sua linhagem não é de israelitas, mas seus filhos se tornaram, ou fizeram parte de um grupo de estrangeiros chamados queneus, que são ligados aos midianitas, e estes não seguiram com Josué para a conquista da Terra Prometida. Moisés também instituiu o sacerdócio levítico por Deus através de seu irmão Arão, e este, seguindo a genealogia dos levitas, merece um exame de algumas páginas no próximo capítulo.

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3-Arão e o Sacerdócio Levítico “Porque todo sumo sacerdote, sendo tomado entre os homens, é constituído nas coisas concernentes a Deus, a favor dos homens (...) Ninguém toma esta honra para si mesmo, senão quando chamado por Deus, como aconteceu com Arão”. Hebreus 5:1-4 Escrever em detalhes sobre Arão e sobre todas as ordenanças do sacerdócio levítico seria uma tarefa exaustiva para qualquer um. O próprio autor de Hebreus, aquele que dá o maior e melhor comentário bíblico sobre Levítico e os deveres sacerdotais, diz que por falta de tempo, não explicará todos os detalhes que apontavam para Cristo na ordenança da Lei. Levítico é provavelmente o livro menos amado da Bíblia, e o mais difícil de ler. Mas ele é também aquele onde Deus fala de modo mais direto ao povo de Deus no Antigo Testamento. Suas instruções são específicas e, ainda assim, possuem princípios que podem ser aplicados à Igreja do Novo Testamento, apesar de devermos ter cuidado com os judaizantes, e com heresias como as dos Testemunhas de Jeová e os Adventistas. Eu realmente aconselho aqueles que quiserem se aprofundar na Palavra de Deus e procurarem sobre a revelação de Cristo em Levítico, a lerem bons comentários sobre a carta aos Hebreus. Arão, o irmão de Moisés, recebeu a honra de ser chamado, junto à sua descendência, como uma linhagem separada das demais, e eles deveriam cuidar e instruir Israel em sua vida com Deus. Eles, apesar de não possuírem um território, foram espalhados de modo diferente da tribo de Simeão. Se a tribo de Simeão se perdeu e se diluiu, a Tribo de Levi recebeu uma décima parte de todas as tribos, e esteve presente no meio de todos os seus irmãos, recebendo um décimo das cidades israelitas espalhadas por todo o território. Isso garantiu a sua sobrevivência e uma grande benção sobre todas as outras tribos. Como existem muitos comentários melhores e mais detalhados, seria redundante repetir certas passagens de modo superficial, e sem aprofundamento. Se vou contribuir de algum modo para uma compreensão deste livro, devo fazer algo semelhante ao que foi feito até aqui, ou seja, uma explicação ou “tradução” da linguagem complicada em algo compreensível. Também acho que seria útil ver a aplicação imediata de princípios do sacerdócio do Antigo Testamento aos dias de hoje. Apenas relembrando, um comentário sobre Hebreus tirará qualquer possibilidade de utilizarmos a Lei de modo errado, mas Deus, que é o mesmo ontem, hoje e sempre, se manifesta por princípios eternos e 231


imutáveis, e por isso, mesmo Levítico e as ordenanças do Antigo Testamento podem ser úteis hoje, se não forem lidas pela letra. Então, faremos uma divisão simples dos principais temas de Levítico e sua aplicação aos dias atuais. 1- Os sacrifícios e as festas do povo de Israel Talvez estas sejam as ordenanças mais difíceis de entender para a mente moderna. Nós ligamos os sacrifícios a religiões primitivas, a uma visão ultrapassada da realidade ou algo que foi superado por nossa tecnologia do século XXI. Mas nada está mais longe da realidade. Todas as culturas apresentaram a ideia de sacrifício de um modo ou de outro, pois este não estava ligado a uma religião específica, mas foi dado por Deus após a Queda e a saída do Jardim do Éden. Os sacrifícios do Antigo Testamento, e as festas, são aspectos que estão presentes em outras culturas, e basicamente apontam para o relacionamento humano com a divindade. A realidade interna é que sabemos que somos culpados, e que deve existir um substituto perfeito e sem pecado para tomar nosso lugar, e a realidade é que somente Cristo pode cumprir este papel de modo satisfatório. Se não fazemos sacrifícios hoje, isso talvez esteja mais relacionado à centralidade do sacrifício de Cristo, que cumpriu de uma vez por todas o pagamento por nossos pecados, do que à racionalidade do século XXI. Esse é motivo de o centro do livro de Levítico, e o centro de todo o Pentateuco ser um capítulo sobre o Dia da Expiação, em Levítico 16. Esta festa era comemorada todos os anos, e nela a culpa de todo o povo era jogada sobre um bode expiatório, um animal era sacrificado e outro era enviado para o deserto, e tudo isso simbolizava a maldição do pecado sendo jogada sobre uma vítima e levando os pecados do povo. Jesus cumpriu este papel e, por isso, não há necessidade de se repetir nenhum dos sacrifícios ou festas do Antigo Testamento (ler Gálatas e Hebreus). É inevitável que se o Homem não olhar para o verdadeiro sacrifício de Jesus na cruz do calvário, ele tentará encontrar um modo inútil de “tornar-se” bom, seja por obras, seja relativizando a moral de maneira freudiana e dizendo que “não há pecado”. Mas ele não conseguirá fazer de modo completo nenhum dos dois e entrará em contradição frequentemente. Além disso, o ódio humano e a culpa sempre acabarão sendo levadas ao objeto errado, e deste modo se sucedem genocídios, perseguições e todo tipo de abominação. Como um padre uma vez analisou: este é o motivo teológico pelo qual toda a história de Jogos Vorazes pode acontecer: sem Cristo, o próprio sacrifício humano se torna inevitável, não importa quão avançada seja uma civilização. Satanás, o pai das mentiras, e seus demônios, sempre tentarão tomar para 232


si a adoração devida, e é por isso que ainda hoje, vemos sacrifícios profanos e impuros, hediondos e nojentos, sendo oferecidos, sejam os sacrifícios animais e humanos em religiões pagãs, seja com ataques terroristas suicidas cada vez mais frequentes, seja pela perseguição comunista pela Antiga União soviética ou o Holocausto dos judeus. 2- Os materiais e tipos do Tabernáculo O Tabernáculo e o Templo eram uma tipologia de Jesus Cristo. Existem muitas analogias que podem ser traçadas, como por exemplo, os pregos de bronze que prendiam o acampamento com os pregos que prenderam Jesus na cruz, a água com que os sacerdotes se limpavam e que acabava por estar cheia de sangue, assim como a água com sangue que saiu do lado de Jesus quando ele foi perfurado por uma lança. Mas o que quero focar são apenas três materiais, dos quais nunca ouvi uma análise pormenorizada. A maior parte dos utensílios do lado de fora do Santo dos santos era de bronze, e para aqueles que entendem de sua composição sabem que ele é uma liga formada por duas substâncias transformadas em uma coisa só, e do mesmo modo, Jesus possuía duas naturezas, a humana e a divina. Outras partes do Tabernáculo eram de prata, e todos sabemos que a prata, por si só, precisa ser constantemente limpa, ou se torna negra e perde sua beleza, e isso está ligado ao sacerdócio do Antigo Testamento, que sem a purificação de Jesus se tornou corrupto a ponto de matar o próprio filho de Deus. Já o Santo dos Santos possuía tudo revestido em ouro, o metal mais precioso, e que também é eterno. O ouro não se decompõem, não muda e nem é destruído, logo, os três itens principais dentro do Santo dos Santos podem ser comparados com a Trindade em seus eternos desígnios ... os dez mandamentos também são guardados dentro da Arca da Aliança, imutáveis em todas as épocas. 3- Unção, deveres e porções dos sacerdotes Um sacerdote nunca deveria tentar representar suas próprias ideias ou opiniões, antes deve descobrir qual a vontade de Deus. Sua unção não vem dele mesmo, mas só Deus pode designar alguém para ser usado por Ele. Isso põem em cheque o sacerdócio dos dias de Jesus, onde muitos dos cargos eram comprados por dinheiro ou favores políticos. Nadabe e Abiú foram mortos por se aproximarem de Deus com o intento incorreto e oferecerem fogo estranho sobre o altar DO SENHOR. Os sacerdotes também eram honrados, e agir em nome de Deus não é uma obrigação, mas uma honra e uma alegria.

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4- Animais limpos e imundos O Novo Testamento por diversas vezes nos alerta sobre o perigo de tratarmos as leis de dieta do Antigo Testamento como algo obrigatório na Nova Aliança. Os princípios que norteavam esta dieta e podem ser usados hoje devem ser apenas dois: a saúde, e nisso devemos ser responsáveis em relação ao que comemos ou não, pela quantidade de açúcar ingerido, gorduras e todas as outras coisas; e a separação, que servia para que Israel não se misturasse com as nações estrangeiras, este é o motivo de isso ter sido abolido no Novo Testamento, pois agora Israel e os gentios são um só povo. Mesmo assim, devemos ter cuidado para não nos misturarmos ao mundo em seu modo de vida diário. Organismos geneticamente modificados e outras questões bioéticas devem ser levadas em conta quando usamos engenharia genética, pois o domínio da natureza pelo Homem deve ser segundo a vontade perfeita e agradável de Deus e para Deus, e não segundo o egoísmo humano ou em busca de quebrar os limites estabelecidos por Deus, o que é profanação. 5 -Doenças e purificação A distinção entre o que é impuro e puro não está necessariamente relacionada entre o que é santo ou não. Mas algo impuro nunca deve tocar aquilo que é Santo, pois isso é uma abominação. Cuidar do templo do Espírito Santo (nosso corpo) é importante, tanto por gratidão, como para não nos tornarmos um peso para outros quando poderíamos ter saúde por longos dias. Se tiver algo que possa ser feito em relação a alguma impureza física, tanto na casa (mofos, saneamento, separação de lixo ou reciclagem, compostagem) quanto com o corpo (exames, alimentação, prevenção) o faça. A impureza física não é da vontade perfeita de Deus. Também existem modos genéticos de se descobrir quais são as doenças mais prováveis de se ter e dar prioridade a evitá-las, como exames genéticos ou traçar as doenças mais comuns pela genealogia ascendente da família. 6- Sobre os direitos dos animais Nenhum cristão salvo se alegrará com maus tratos à criação de Deus. A preocupação de Deus com a maternidade e os animais foi tamanho que Ele proibiu que um filho de animal fosse cozido no leite de sua mãe, o que era uma abominação. Também deu ordens em relação ao corte desnecessário de árvores mesmo em tempo de guerra, e até sobre coleta de ovos em ninhos. Embora o cristão deva tomar cuidado para não adorar a criatura sobre o criador, ele deveria estar mais envolvido nas 234


questões ecológicas e fazer o que estiver ao seu alcance para a manutenção do mundo natural, seja evitando o consumismo ou se engajando em outras atividades como plantio de árvores e jardins, uso eficiente de energia e água, abatedouros justos que não torturem os animais que comemos, etc. 7-Proibições de contato com sangue ou com mortos Nossa cultura se tornou um antro de imundícia em relação a estes mandamentos. Basta irmos a uma livraria e encontraremos centenas de livros sobre vampiros, lobisomens, zumbis etc, prontos a glorificar a morte e tudo que é impuro. O Senhor dotou os homens de gatilhos e medos naturais para evitar o contato com este tipo de profanação ou com espíritos malignos (demônios), mas estes, aliados a homens que não têm temor pela Lei do Senhor, estão sempre utilizando a dessensibilização progressiva destes instintos naturais e até, invertendo-os em um desejo abominável por aquilo que deveria nos causar repúdio. O ser humano possui um instinto natural contra a morte ou a separação entre corpo, alma (mente) e espírito, nosso instinto primitivo nos faz sentir desconforto a fim de nos protegermos em relação a isso. Veja, por exemplo, alguns exemplos abaixo de coisas que deveríamos evitar OU que causam desconforto psicológico naturalmente, porém se tornaram abundantes em nossa cultura: Fantasmas – um espírito/alma/mente sem um corpo; Vampiros – corpos podem até ter uma mente, mas não tem espírito /alma; Zumbis – corpos sem alma, mente ou espírito; Lobisomens – corpos com alma (emoção/vontade), mas sem mente; Bonecas- não existe nada de errado com bonecas, mas o desconforto que certas pessoas sentem com relação a elas está ligado ao fato de serem um corpo sem alma/espírito. Palhaços- também não há nada de errado com eles (pelo menos a maioria) mas para algumas pessoas eles trazem um desconforto, que é causado pelo fato de serem pessoas com um disfarce aparente, uma mente por detrás de uma máscara, que pode ou não ser aquilo que quer aparentar ser. Seu medo está associado ao primitivo conhecimento humano de que existem seres por detrás das aparições mencionadas acima, mas que não são exatamente aquilo que aparentam ser. Essas histórias e aparições são basicamente seres espirituais malignos disfarçados, que estão sempre ligados à impureza ou à morte, sendo que alguns até se disfarçam de anjo de luz, mas na verdade são espíritos

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destruidores. Logo, um cristão deveria manter o máximo de distância possível deste tipo de “entretenimento” ou atividade. 8-Necromantes, astrólogos e adivinhos Deus exigia dos israelitas sob pena de perderem a vida, que não entrassem em contato com este tipo de pessoa. O problema deles não é apenas que rejeitavam a vontade de Deus, que era Aquele no qual deveriam confiar, mas que se voltavam para suas cisternas rotas que não podiam suprir suas necessidades espirituais. Ao se afastarem da verdade eles se abriam a espíritos mentirosos que começariam lentamente a desconstruir todas as verdades bíblicas e a destruí-los intencionalmente com conselhos de trevas. Como um sapo que é cozinhado lentamente na panela e não percebe o perigo, logo toda a nação estaria espiritualmente morta sem perceber. Os espíritos malignos são muito piores do que as máscaras que eles usam, e que vimos acima, e o intento de Satanás é fazer de uma sociedade o mais abominável o possível. E nossa sociedade é abominável, e cada vez mais insensível ao que antes, eram coisas que só se faziam escondidas. Que o leitor não duvide que o intento final de Satanás nunca será menor do que aquilo que é mostrado no filme Apolypto, de Mel Gibson. Ele nunca se satisfaz, pois, um espírito maligno nunca é satisfeito, já que perdeu a Única Fonte de toda a satisfação. O que vou fazer agora é traçar um paralelo entre a atividade dos espíritos malignos e os vírus de computador, como descritos, por exemplo, em uma cartilha de segurança da computação do CERT (Centro de Estudos, Respostas e Tratamentos de Incidentes de Segurança no Brasil): Vírus - é um programa ou parte de um programa de computador, normalmente malicioso, que se propaga inserindo cópias de si mesmo e se tornando parte de outros programas e arquivos. Para que possa se tornar ativo e dar continuidade ao processo de infecção, o vírus depende da execução do programa ou arquivo hospedeiro, ou seja, para que o seu computador seja infectado é preciso que um programa já infectado seja executado. Há diferentes tipos de vírus. Alguns procuram permanecer ocultos, infectando arquivos do disco e executando uma série de atividades sem o conhecimento do usuário. Há outros que permanecem inativos durante certos períodos, entrando em atividade apenas em datas específicas. Um vírus não inicia seu funcionamento a não ser que executemos alguma armadilha, como por exemplo, abrir um link do qual não sabemos a origem, ou fazer determinada tarefa que irá ativá-lo. Do mesmo modo, quando uma pessoa entra em contato com um “médium”, ou cai na 236


armadilha de que deve “aprimorar sua mediunidade”, ou “falar com um parente falecido”, ou “incorporar”, ele está se abrindo a coisas das quais não faz a mínima ideia da origem. Não importa de onde um espírito diz que é, nem quem ele diz ser, pois não se pode verificar as coisas que dizem, apenas confiar cegamente em “quem está do outro lado da linha”. Rituais são perigosos do mesmo modo, pois são a linguagem do mundo espiritual, onde os acontecimentos não se baseiam apenas em um desenrolar determinista de eventos, mas onde verdadeiros significados se escondem. Ao realizar rituais disparamos conexões como ao executar um programa malicioso, e nos tornamos hospedeiros de visitantes indesejados, quer percebamos isso ou não. Worm- é um programa capaz de se propagar automaticamente pelas redes, enviando cópias de si mesmo de computador para computador. Diferente do vírus, o worm não se propaga por meio da inclusão de cópias de si mesmo em outros programas ou arquivos, mas sim pela execução direta de suas cópias ou pela exploração automática de vulnerabilidades existentes em programas instalados em computadores. Certas atividades, como relações sexuais ilícitas, ou qualquer pecado, se torna replicante, e começa a destruir a sociedade como um todo, e não só os indivíduos. É a velha questão da imitação. Não consigo lembrar onde foi a primeira vez que vi uma camiseta de caveira mexicana pintada e enfeitada, mas agora elas estão por toda parte. Imitamos principalmente pessoas que damos bastante valor, como artistas, cantores, famosos, e se eles estão envolvidos neste tipo de atividades, logo, temos milhões de pessoas usando sua simbologia claramente ocultista ou agindo de modo inapropriado. Muitas destas pessoas possuem tantas vulnerabilidades e são de tal modo consumidas pelo vazio existencial que se envolvem nos maiores problemas emocionais, com drogas ou qualquer outro ritual que os direcionará para a autodestruição, sendo que os casos de suicídio não são raros. Bot - é um programa que dispõe de mecanismos de comunicação com o invasor que permitem que ele seja controlado remotamente. Possui processo de infecção e propagação similar ao do worm, ou seja, é capaz de se propagar automaticamente, explorando vulnerabilidades existentes em programas instalados em computadores. Este é o grande perigo da incorporação ou canalização, quando alguém se torna um hospedeiro que agirá de acordo com os comandos de alguém que está por trás da cortina. Mas a canalização não é o único problema, pois a rebelião contra o Senhor é como pecado de feitiçaria. 237


Devemos apenas lembrar o caso de Judas ou de Saul e de seu destino final. Spyware - é um programa projetado para monitorar as atividades de um sistema e enviar as informações coletadas para terceiros. No livro Reencarnação e Evolução o que se expõem de modo muito claro é de que argumentos espíritas, como a lembrança de vidas passadas, não são válidos dentro do contexto do próprio espiritismo. Por qual motivo? Pelo fato de que muitos eventos de percepção extrassensorial, são percepções de acontecimentos no presente em outras partes do mundo. Ora, estes são uma boa comprovação de que certas “memórias” não precisam ter absolutamente nenhuma conexão com reencarnação, pois a pessoa que percebe estas situações simultâneas o faz através pessoas que ainda estão vivas. Neste caso estas “lembranças” do passado não necessitam ser experiências “da própria pessoa que as experimenta, mas em encarnações passadas”, mas podem ser memórias que pertencem a outras pessoas. Como? Através de outras canalizações e captura de informações através de espíritos, que, quando entram em contato com outras pessoas canalizadas, agem como um pendrive ou um dispositivo acoplado transmitindo informações capturadas de outras indivíduos, como lembranças e sensações. Backdoor- é um programa que permite o retorno de um invasor a um computador comprometido, por meio da inclusão de serviços criados ou modificados para este fim. Pode ser incluído pela ação de outros códigos maliciosos, que tenham previamente infectado o computador, ou por atacantes, que exploram vulnerabilidades existentes nos programas instalados no computador para invadi-lo. Após incluído, o backdoor é usado para assegurar o acesso futuro ao computador comprometido, permitindo que ele seja acessado remotamente, sem que haja necessidade de recorrer novamente aos métodos utilizados na realização da invasão ou infecção e, na maioria dos casos, sem que seja notado. O backdoor nos lembra claramente a parábola em que um homem é comparado a uma casa que foi limpa por seu dono (Deus), e da qual um espírito maligno sai. Mas que é invadida novamente e desta vez o espírito traz consigo mais sete demônios para habitá-la. Trata-se de um alerta para aqueles que se convertem a Deus, mas que não guardam a sua vida espiritual ou que cometem apostasia. O controle absoluto de uma vontade sobre a outra sem qualquer possível resistência pode ser vista no caso do endemoninhado Gesareno, onde a Legião tomou todo o controle de seu corpo. 238


Cavalo de troia, trojan ou trojan-horse, é um programa que, além de executar as funções para as quais foi aparentemente projetado, também executa outras funções, normalmente maliciosas, e sem o conhecimento do usuário. Exemplos de trojans são programas que você recebe ou obtém de sites na Internet e que parecem ser apenas cartões virtuais animados, álbuns de fotos, jogos e protetores de tela, entre outros. Estes programas, geralmente, consistem de um único arquivo e necessitam ser explicitamente executados para que sejam instalados no computador. Trojans também podem ser instalados por atacantes que, após invadirem um computador, alteram programas já existentes para que, além de continuarem a desempenhar as funções originais, também executem ações maliciosas. Ídolos, amuletos e o próprio pecado agem desta maneira. O pecado em si não pode criar nada, mas distorce funções naturais, desejos e instintos. Nenhum de nós está totalmente livre disso, pois o coração do homem é uma fábrica de ídolos, mas quanto mais pecado um homem tem pior se torna sua situação. O estado final de um computador pode ser terrível, assim como o de um homem endemoninhado. Basta olhar quão dominado se tornou o gezareno apresentado no Evangelho. É importante notar que a maior parte das expulsões de demônios por Jesus se deu nos territórios do norte, onde a influência destas práticas pagãs era proeminente.

9- Imoralidades sexuais Estas se tornam cada vez mais comuns, devido principalmente a dessensibilização progressiva instalada em nossa cultura. Devo apenas dizer que no atual contexto do ativismo gay, muitos pastores e ativistas possuem uma visão cientificamente errada. Citando indevidamente o diretor do Projeto Genoma Humano, Francis S. Collins, muitos ativistas disseram que os estudos de gêmeos comprovam que a influência genética do homossexualismo é de 100 por cento, ou seja, que todos os irmãos gêmeos inevitavelmente terão a mesma orientação sexual. Líderes evangélicos ou de direita, porém, citavam o cientista dizendo que não havia nenhuma influência genética para o homossexualismo. Collins rechaçou ambas as citações como falaciosas e mal-intencionadas, e em ambos os seus livros ele afirma que existe uma influência genética significativa, cerca de 40% para o homossexualismo masculino, mas que 60% (mais da metade) dos outros fatores que influenciam este comportamento não são genéticos. Existem muitas outras imoralidades sexuais citadas em Levítico, mas esta é a que tem enfrentado a maior 239


polêmica nos dias atuais. Infelizmente o sexo depois do casamento se tornou algo tão comum que mal se fala sobre isso, embora muitos lidem com ele de modo errado, já que ele pode ser classificado como incidental, certas vezes. 10-Leis de caráter social, monetário ou de propriedade. Estas leis distinguiam Israel de todas as nações. Eram essenciais para a justiça social e o tratamento humano de escravos, como o Ano do Jubileu, o descanso no sábado, a proteção física e os direitos dos escravos. O escravo e o estrangeiro em Israel possuíam um status muito superior ao de outras nações, e garantias que não se viram por centenas de anos até a época moderna. No Jubileu, as dívidas eram perdoadas, os escravos libertos e as pessoas voltavam a ter as suas propriedades que tinham sido perdidas, o que impedia a destruição da herança que Deus dera às doze tribos e aos indivíduos, e o que permitia que eles não necessitassem ficar desesperados, por mais que estivessem em uma situação de penúria. Uma parte dos dízimos, tudo o que sobrasse das plantações e o produto do sétimo ano, eram dados aos pobres, estrangeiros, órfãos e viúvas, o que garantia, enquanto o sistema funcionasse, uma redistribuição justa de renda, que evitava o acúmulo excessivo de riquezas e a terrível miséria dos pobres. O sistema financeiro do mundo atual é completamente injusto, sendo que 62 pessoas possuem o equivalente à metade da riqueza do mundo, aproximadamente de 3,5 bilhões de pessoas. E o 1% mais rico detém tanto quanto todos o restante do planeta.

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4- Cidades dos levitas “Os sacerdotes terão uma herança, Eu sou a sua herança. Não dareis possessão em Israel, Eu sou a sua possessão” Ezequiel 44:28

Levi teve três filhos, Gérson, Coate e Merari. Estes foram juntamente com as outras tribos ao Egito nos dias de Jacó. Nesta época o sacerdócio levítico não fora ainda designado. Quando o sistema do Tabernáculo foi criado, os descendentes destes três ancestrais tomaram suas tarefas. Do

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mesmo modo estes receberam uma décima parte das terras de Israel para habitarem, e assim Deus transformou sua dispersão em uma benção. A distribuição das terras à Tribo de Levi foi um pouco diferente das demais. Cada uma das tribos deu uma parte de suas cidades, e às sortes caíram às famílias de Coate, Gérson e Merari, com um total de 48 cidades levitas. Seis delas se tornaram cidades de refúgio, onde uma pessoa que cometesse homicídio sem querer poderia se refugiar caso fossem atrás dela por vingança. Lá, ele permaneceria até a morte do sumo sacerdote, quando então poderia voltar para casa sem medo de ser punido. Uma lista completa das cidades dadas aos levitas é o tema do capítulo 21 de Josué. A primeira família a ser sorteada para receber cidades foi a dos coatitas. Eles receberam cidades de Judá, Benjamim, Efraim, Dã e da meiatribo de Manassés. A primeira de todas as cidades foi QuiriateArba, também conhecida como Hebrom, mas seus campos foram dados a Calebe, que foi um dos dois únicos homens da geração do deserto a entrarem na Terra Prometida. Abraão, Isaque e Jacó moraram nesta cidade, e ali, Sara foi enterrada. Ainda hoje continua sendo uma das cidades mais significativas para Israel, devido à sua importância histórica. Ela foi designada como uma das cidades de refúgio. Davi também começou seu reinado morando sete anos na cidade de Hebrom, onde teve diversos filhos. No território de Benjamim, os levitas receberam a poderosa cidade de Gibeá, e habitaram pacificamente com os cananeus que temeram ao Senhor, ensinando-lhes o Seu caminho. Os gibeonitas, mesmo mais poderosos que muitos outros cananeus, não 242


ousaram lutar contra os israelitas, sabendo que sua força de nada seria útil contra os desígnios divinos. Uma das minhas histórias favoritas na Bíblia é a de como os gibeonitas enganaram os israelitas por medo de que pudessem ser conquistados, e depois de descobertos, ofereceram suas vidas para que “se fizesse o que o Senhor decidisse”, o que poderia envolver a sua morte por terem usado de engano. Isso mostra uma fé inabalável no Senhor, que originalmente era seu próprio “inimigo”. Eles o reverenciaram com tamanha fé, que mesmo sendo “inimigos” estavam rendidos à Sua vontade, quer Ele mesmo pudesse destruí-los. Os israelitas então encontraram um amigo valioso onde esperavam encontrar um inimigo, e creio que aqueles que se conheceram nestas circunstâncias e depois e passaram por tal mudança possuem as mais profundas amizades. O Senhor honrou aquele cananeus de tal forma, que quando a culpa de sangue por Saul ter matado vários cananeus de Gibeão pensando estar fazendo um serviço ao Senhor não foi paga, três anos de fome abalaram o reino de Davi até que os envolvidos nos assassinatos fossem encontrados e punidos. Este é um dos pontos que demonstra que as guerras de Josué nunca tiveram o caráter de ‘limpeza étnica’ como alguns acusam. No território de Efraim, os gersonitas receberam outra cidade que deveria ser usada como uma das seis cidades de refúgio, Siquém. Esta cidade foi construída em um vale entre os Montes Ebal e Gerizim, onde eram pronunciadas de um lado as bênçãos da Aliança e do outro as maldições. Ela estava no centro da Terra Prometida. A colina na qual eram pronunciadas as maldições ficava para o sul, apontava para o deserto, que representava a vida sem Deus e a esterilidade, e a morte. O monte que ficava para o norte apontava para as terras férteis e abundantes de onde vinha o Jordão, as chuvas e a neve, e logo, a vida. Outra cidade que deveria ser dada aos levitas por Efraim era Gézer, mas aparentemente os filisteus a dominaram. A cidade era extremamente fortificada, e ficou de pé até que os assírios a destruíram.

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O território de Dã contribuiu com quatro cidades, sendo que uma delas foi um pequeno vilarejo no Vale de Aijalom, um local muito importante, pois foi ali onde Moisés permaneceu enquanto o Sol e a Lua pararam, durante a luta contra os cananeus. O vale está localizado na Sefelá, região de vales que ligam o mar ao interior, zona estratégica e disputada tanto por Judá como pelos filisteus. Manassés deu aos levitas cidade de Golã, nas formosas colinas, para ser uma das cidades de refúgio ao leste do Jordão. Hoje, uma região disputada nas fronteiras de Israel e Síria, devido às nascentes do Jordão estarem pelas bandas do norte. Golã e Beesterá foram dadas à família levita dos meraritas pela meia-tribo de Manassés ao leste do Jordão, mas a outra meia-tribo localizada ao oeste separou duas cidades para os coatitas: Taanaque e Gate-Rimon. Issacar contribuiu com quatro cidades, sendo que Jarmute, ao lado, hoje está em ruínas. O território que antes pertencia a reis rebeldes que se aliaram para destruir os gibeonitas, foi então dado à família dos gersonitas. Os Aseritas também deram quatro cidades, mas três delas têm localização desconhecida e uma delas, Abdom, está em ruínas. Quedes, “lugar santo”, foi uma grande cidade na região da Galiléia. Foi dada pela tribo de Naftali à família dos gersonitas. Ela também servia como uma das seis cidades de refúgio. Foi a 244


residência do juiz Baraque, e de lá, Naftali e Zebulom saíram para a vitória sobre os cananeus chefiados por Sísera, comandante do poderoso rei Jabim. A família dos meraritas recebeu cidades de Zebulom (4), Rúben (4) e Gade (4). Ao lado vemos imagens Tell Jawa, antiga Mefaate, cidade cedida por Rúben, que por este motivo se encontra hoje no território da Jordânia. Além do Jordão, Deus também estabeleceu 3 cidades de refúgio. Sendo Ramote, da tribo de Gade, uma delas. Logo, vemos como o território da Tribo de Levi na Terra Prometida era tão diferente dos demais, sendo formado pelo dízimo das cidades de todas as Tribos. Levi não possuía terras próprias, mas sim as doações separadas pelo Senhor. A Tribo de Levi surgiu em meio à violência. O pai da tribo, junto a Simeão, destruiu toda a cidade de Siquém de modo repugnante. Moisés cometeu um homicídio contra um egípcio e por isto fugiu para o deserto midianita. Foi apenas quando estavam prestes a entrar na Terra Prometida, após Israel cometer terrível pecado com as filhas dos moabitas em Baal-Peor, um culto “ecumênico” de adoração falsa, que a violência foi direcionada corretamente. Finéias, filho de Elezar, filho de Arão, em Números 25, é o primeiro a acatar as ordens do Senhor contra aqueles que apostataram em sua adoração à baal. O homem que foi morto por Finéias, para que a peste enviada pelo Senhor fosse finalizada, foi Zinri, da Tribo de Simeão. Tal acontecimento é muito significativo, já que tinha sido com Simeão que Levi desobedecera a Deus em um episódio de rebelião aberta contra Deus. Mas desta vez Finéias, um membro da Tribo de Levi se levantou para obedecer a Deus em oposição a um membro da Tribo de Simeão. E isso marca um contraste entre os destinos das duas tribos, pois Levi nunca foi extinta e passou a ter um papel proeminente até o fim de Israel, e sua dispersão se tornou uma benção. Já a dispersão de Simeão fez com que a tribo lentamente deixasse de existir, diluindo-se no meio de Judá. Depois deste episódio, a Tribo de Levi nunca mais seria ordenada por Deus a cometer atos de violência, e quando esta o fazia, era apenas em desobediência. Levi foi a única tribo a não tomar armas para a conquista da Terra Prometida, pois a tribo dos sacerdotes não podia ter sangue em suas mãos, este também foi outro motivo de ser necessário que as tribos contribuíssem juntas ao oferecer suas cidades conquistadas para os levitas. Em troca, os levitas deveriam ministrar em meio a eles.

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5- Reformas e saúde espiritual “Se, portanto, a perfeição houvera sido mediante o sacerdócio levítico (pois nele baseado o povo recebeu a Lei), que necessidade haveria ainda de que se levantasse outro sacerdote, segundo a ordem de Melquisideque, e que não fosse contado segundo a ordem de Arão? (…) Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque.” Hebreus 7:11-17 No livro de Hebreus aprendemos sobre a extensão e limitação do sacerdócio levítico e, como Jesus, embora seja nosso Sumo Sacerdote, não pertencia à Tribo de Levi, e sim à de Judá. O sacerdócio de Jesus é segundo a ordem de Melquisedeque, aquele que fora tanto rei quanto sacerdote, sendo que tal era proibido aos reis de Israel e aos sacerdotes levitas. Um Rei que fosse Sacerdote seria uma tarefa a ser cumprida apenas na figura do Messias, como vemos no Salmo 110, e Cristo foi o cumprimento desta promessa. Nenhum Homem seria capaz de se colocar entre os pecados humanos e a santidade de Deus, mesmo que este nunca tivesse pecado. Pelo mesmo motivo o sangue dos animais da Antiga Aliança não era capaz de satisfazer a ira de Deus. Nem mesmo um anjo poderia fazê-lo. Novamente, Hebreus é a melhor descrição bíblica sobre este tópico, e muitos homens fizeram comentários extensos e muito melhores do que eu poderia fazer. Mas então, isso significa que o sacerdócio não teve nenhuma importância na História? Se assim o fosse, a profecia de Ezequiel não mencionaria que o Território do Príncipe, a porção central da Israel Restaurada, teria a presença da Tribo de Levi, ou seja, sua posição é destacada das outras tribos. Esta Porção no centro desta Israel Restaurada, é chamada de Terra Sagrada, é ali que reina o Príncipe (Jesus) na visão de Ezequiel. Novamente devemos ter em mente que esta visão não é literal, e Don Carson pode explicar de modo melhor que eu 19, mas existem verdades por trás desta Revelação. Deste modo, mesmo na Nova Aliança profetizada por Jeremias, que se iniciou com o retorno dos israelitas do Exílio, os levitas continuariam a ter um papel importante. Desde o início de sua história, os levitas guiaram o povo de Deus no entendimento da Pessoa Divina, pois sem este não há adoração. Algumas pessoas dirão que Akhenáton, no Egito, o Faraó da 18º dinastia, foi o primeiro monoteísta da História, mas isto é mentira. É muito mais fácil que os eventos do Êxodo e o sacerdócio levítico tenham influenciado a teologia egípcia do que o oposto. Este foi o único momento da história 19 Pregação de Don Carson, “The Lord is There- O Senhor está ali”.

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egípcia a ter um sacerdócio monoteísta, assim como o zoroastrismo só se tornou proeminente aproximadamente na mesma época em que os judeus e levitas estavam no cativeiro babilônico. Então, antes mesmo que Israel se tornasse um reino centralizado, a influência levítica já alcançava terras além das suas fronteiras. Não apenas isso, mas a falsa religião de Akhenáton não conseguiu existir por mais de uma geração, e sua nova capital foi um desastre a ser abandonado e enterrado pelas areias da História egípcia. Já o sacerdócio levítico durou 1500 anos, do início das peregrinações do povo de Deus à destruição do Templo em 70 d.C. A destruição do Templo foi um sinal de Deus de que Ele não aceitaria mais as ofertas e sacrifícios animais, pois o Sacrifício Final já fora feito de uma vez por todas, em Seu Filho. Do mesmo modo a religião egípcia, assim como todas as outras religiões, mudou com o tempo, e nem seus deuses e panteão permaneciam imunes a ao passar dos séculos. Mas o Deus bíblico, e a verdadeira religião dos israelitas nunca mudou. Ela pode ter tido uma revelação gradual, mas não há contradições nem grandes discrepâncias entre o que vemos em seu início e aquilo que vemos em seu final (enquanto permanecia bíblica, sem os acréscimos e interpretações equivocadas dos escribas e mestres da lei farisaicos). Basta olhar o Templo egípcio de Karnak, sempre em desenvolvimento, sempre mudando, e crescendo e sendo acrescido de invenções, e às vezes até de apropriações de um Faraó sobre outro em suas colunas, além de falsificações. Ele é o maior templo do mundo, e representa bem o modo como o mundo vê a religião, como uma atividade do Homem, focada no Homem, em suas prioridades, visão de mundo em constante mutação e por isso, relativa e em desenvolvimento. Mas não era assim como o Deus Único tinha se revelado: nenhum altar poderia ser feito de pedras lavradas, e durante a própria construção do Templo de Jerusalém, nenhum cinzel jamais tocou as pedras do Monte, pois isso significaria que o esforço e a mente humana teriam moldado a religião, quando apenas Deus se auto revelou. Já no período dos reis, quando Davi subiu ao trono, a adoração foi centralizada em apenas um local, o Templo em Jerusalém. Isso não significava que os israelitas imaginassem que Deus morava ali dentro, mas sim que todo o povo de Deus deveria ter apenas um foco. Naqueles dias, Davi e o profeta Gade reuniram os levitas e pela revelação de Deus, instituíram os músicos para o Templo. Asafe, Hemã e Etã, cujas genealogias estão registradas no capítulo anterior, foram os responsáveis pela organização dos músicos levitas. Hemã foi o autor do Salmo 88, o salmo mais triste das Escrituras, e o único que não apresenta um sinal de esperança (ele termina com a palavra trevas). Os filhos de Corá (uma família levita que foi poupada da destruição que veio sobre seu antepassado) produziram muitos salmos, como os de 42-49, 84,85.Asafe e 247


sua família compuseram os salmos 50 (profético), 73-83. Etã, ezraíta, escreveu o salmo 89. Embora muitos levitas não fossem pessoas salvas, e tivessem o coração corrompido, o sacerdócio teve a importante função de manter Israel e, posteriormente, Judá, nos trilhos. De todas as tribos de Israel, 10 delas se perderam, corrompidas pelo pecado e destruídas, mas Deus manteve Judá, e remanescentes de Benjamim e Levi com eles, e alguns membros esparsos das outras tribos, que retornaram junto com Judá do exílio. A fidelidade à palavra de Deus e à Aliança no Sinai eram o padrão pelo qual a vida espiritual das 12 tribos podia ser vista. E sempre que havia fidelidade os levitas estavam envolvidos em sua ministração correta dos deveres que lhes haviam sido delegados. Não há um desenvolvimento da religião, e nem mudanças, mas cada vez que Judá se corrompia e depois voltava à fidelidade, a mesma velha mensagem era pregada. Isto é uma lição para os dias de hoje, em que a cada ano que se passa muitas igrejas (mesmo as fiéis) tentam trazer “novidades” para o culto. Os livros de 1º e 2º Crônicas apresentam mais genealogias que qualquer outro. Eles trazem a história das tribos, mas o foco principal que aparece do começo ao final dele é a adoração apropriada a Deus e o papel que os levitas desempenharam nestes momentos. Um ensino extenso sobre todas as referências aos levitas seria moroso, mas também desnecessário aqui, pois a mensagem era sempre a mesma, arrependimento e uma visão correta devotada à palavra revelada de Deus! Não precisamos de outra coisa, e não precisamos das muitas novidades que aparecem por aí. Mas faria bem ao leitor, acompanhar por si mesmo o papel que esta tribo separada por Deus desempenhou desde os dias de Davi até o retorno do exílio, e eu não posso explicá-las melhor do que elas explicam a si mesmas. Há ali muito mais listas, mas estas possuem um caráter ainda mais específico do que as listas das outras tribos. Algumas são apenas registros genealógicos necessários para o exercício de atividades no Templo, pois não se poderia empregar lá pessoas que não pudessem comprovar que eram, de fato, da linhagem sacerdotal (e muitos exilados haviam perdido suas genealogias, e por este motivo não puderam mais ministrar ao povo de Deus). Mesmo que não sigamos o sacerdócio levítico, e tenhamos um sacerdote muito superior, segundo a ordem de Melquisedeque, faria bem observar os exemplos de devoção e fidelidade desta tribo por toda a história do Antigo Testamento. Eles são um exemplo principalmente nestes dias em que qualquer cantor “gospel” se chama de levita, e em que a abominação musical e teológica está preocupada em agradar aos homens e não a Deus. Como disse Paul Washer uma vez “levar os 248


homens à adoração é algo muito sério, ninguém nunca foi morto por pregar no Antigo Testamento, mas Deus fulminou ministros de louvor que vieram trazer ‘fogo estranho’ e conclamaram o povo a adorar (Nadabe e Abiú, sendo que Uzá também foi morto)”! O mundanismo entrou na teologia, e principalmente na chamada “adoração” que se vê hoje, mais baseada em sentimentalismo e autoestima do que no conhecimento de Deus. Que nossas reformas e pureza possam ser justamente do modo como a dos levitas, de volta à Palavra, ao arrependimento e ao temor do Senhor! Os principais acontecimentos relacionados aos levitas a partir do início da realeza em Israel e Judá. 1- “Então, disse Davi: ninguém pode levar a arca de Deus, senão os levitas; porque o Senhor os elegeu para levarem a arca de Deus e o servirem para sempre”. – Lista de levitas designados para levarem a arca 1 Cr. 15:1-15; 2- Davi designa músicos para o Templo 1 Cr 15:16-24; 3- Davi designa levitas para ministrar diante da Arca 1 Cr 16:4-6, 1 Cr 16:3743; 4- “Sendo, pois, Davi já velho e farto e dias, constituiu a seu filho Salomão rei sobre Israel. Ajuntou todos os príncipes de Israel, como também os sacerdotes e os levitas.” 1 Cr. 23:1 à 1 Cr 27:15 (turnos e funções; turnos dos sacerdotes; cantores; porteiros; guardas dos tesouros, oficiais e juízes, turnos de serviço por mês”; 5- Jeroboão institui um sacerdócio corrupto controlado pelo Estado no Reino do Norte, para desmotivar a ida à Jerusalém; os levitas e sacerdotes fiéis migram para o Reino do Sul, 2 Cr. 11:13-17; 6- Reformas de Asa 2 Cr. 15:1-19; 7- Reformas de Josafá, que envia príncipes junto com os levitas para ensinarem nas cidades de Judá, no terceiro ano de seu reinado, depois de tirar os altos do reino 2 Cr. 17:7-9; 8-Josafá institui Juízes e levitas para julgarem questões de modo justo, mesmo após ser repreendido pelo profeta Jeú, filho de Hanani, 2 Cr. 19:811; 249


9- Uma batalha ganha pelo louvor ao Senhor, os levitas na frente de batalha trazem vitória a Judá contra os inimigos através do louvor ao Senhor, 2 Cr. 20:1-30; 10- Joás é escondido dentro do Templo, preservando a linhagem real, o sacerdote Joiada conclama o povo e os levitas a entronizar o rei e depor a usurpadora Atalia, 2 Cr. 23:1-19; 11- Joás restaura a casa do Senhor 2 Cr. 24:4-16, o sacerdote Joiada é sepultado com os reis na Cidade de Davi; 12- Joás, seduzido pelos príncipes de Judá, assassina o filho do sacerdote Joiada, no Templo, a ira do Senhor vem sobre ele 2 Cr. 24:17-24; 13- Uzias segue ao Senhor durante os dias do sacerdote Zacarias 2 Cr. 26:5; 14- Uzias se orgulha e tenta unir o reinado ao sacerdócio, o que só era permitido ao futuro Messias, Deus o ataca com lepra, e ele vive o restante de seus dias em isolamento 2 Cr. 26:16-23; 15- Jotão edifica a porta de cima da Casa do Senhor, 2 Cr. 27:3; 16- Ezequias, no primeiro ano, no primeiro mês, reabre a Casa do Senhor, que tinha sido fechada por seu pai, e conclama novamente os levitas, 2 Cr. 29: 1-5; 17- Os levitas purificam o Templo, o culto a Deus é restabelecido e uma grande festa da Páscoa é celebrada, Ezequias regula também as contribuições para os sacerdotes e levitas, 2 Cr. 29:12 à 2 Cr. 31:21; 18- Manassés impõem idolatria generalizada em Judá e persegue os levitas, destruindo qualquer rolo da Lei disponível no reino 2 Cr.33; 19- Josias começa a purificar Judá aos 16 anos de idade, repara o Templo, Hilquias encontra um Livro da Lei escondido nas ruínas do Templo, renovação da aliança e celebração da Grande Páscoa 2 Cr. 34 e 35; 20- Corrupção do sacerdócio e dos levitas, rituais secretos no Templo, vistos em visão por Ezequiel; 21- Decreto de Ciro, os judeus e os levitas podem retornar para Jerusalém, o rei Ciro toma novamente os objetos que tinham sido profanados por Nabucodonosor e sua descendência, Esdras 1:5 até Esdras 2:70; 250


22- Todo o livro de Esdras trata da reconstrução do Templo por Jesua e por Zorobabel. Este é o início do cumprimento da Nova Aliança, e da visão de Ezequiel para o mundo redimido, que começa com a restauração do Altar e do Templo, e culminará com as “águas que saem do Templo”, que simbolizam a Igreja do Novo Testamento; 23- Neemias, mesmo estando direcionado à reconstrução dos muros, também deve ser ligado aos levitas, pois na visão de Ezequiel, a santidade de Deus domina toda a cidade até se expandir para o mundo inteiro, logo, a reedificação das muralhas de Jerusalém é apenas outro passo na direção da completude da visão de Ezequiel, há alianças para o povo guardar a Lei e não se casar com estrangeiras e pessoas estranhas à fé. Vê-se uma última tentativa de o povo judeu e os levitas salvarem Israel e Judá de si mesmas, que parece tremendamente falha, e implica que a Nova Aliança do retorno do exílio exigirá um novo povo além do judeu. Tal tipologia de uma Igreja no Novo Testamento pode ser vista no livro seguinte, Ester, onde o Rei do Mundo rejeita sua primeira esposa, orgulhosa, em busca de uma esposa preciosa, fiel e humilde, o livro termina com o julgamento de todos aqueles que perseguiram sua completa destruição.

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Parte 3

Judรก

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1-Judá, a linhagem messiânica – de Abraão ao rei Davi “Judá, teus irmãos te louvarão; a tua mão estará sobre a cerviz de teus inimigos; os filhos de teu pai se inclinarão a ti, Judá é leãozinho; da presa subiste, filho meu. Encurva-se e deita-se como leão e como leoa; quem o despertará? O cetro não se arredará de Judá, nem o bastão de entre seus pés, até que venha Siló; e a ele obedecerão os povos. Ele amarrará o seu jumentinho à vide e o filho de sua jumenta à videira mais excelente; lavará as suas vestes no vinho e a sua capa, no sangue das uvas. Os seus olhos são cintilantes de vinho e os dentes, brancos de leite.” Gênesis 49:8-12 Finalmente chegamos à última das tribos a ser analisada neste livro. A Tribo de Judá se tornou a mais importante, pois já desde seu início, a profecia de Jacó a apontava como a Tribo da qual viria o Rei. As genealogias de Lucas e de Mateus conectam Jesus pela linhagem de Judá tanto à Abraão quanto à Adão, e assim demonstram o cumprimento das promessas de Deus dadas aos antepassados: à Adão e Eva, para quem havia sido prometido um descendente para pisar a cabeça da serpente e reverter toda a maldição do pecado sobre a humanidade; e sobre Abraão, a quem Deus prometeu que sua descendência abençoaria a toda a humanidade. O Filho de Deus se tornou homem, com tribo, endereço e etnia, embora isso não indique superioridade alguma para os judeus. Apenas demonstra o quão histórica é a base do cristianismo, e quão semelhante a nós Deus se mostrou disposto a se tornar. Mas ali, neste momento e condição tão específica e limitada, Ele apresentou o ponto de virada, para abençoar não apenas os israelitas ou judeus, mas toda a Humanidade.

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Até aqui apresentamos os elos da corrente genealógica do Messias de Adão até Jacó, e não teremos necessidade de falar novamente sobre eles. Neste capítulo seguiremos a divisão apresentada na genealogia de Mateus, que inicia o relato dos evangelhos. Esta genealogia, que não é extensiva, mas representativa, se apresenta dividida para fins didáticos, em três partes: Abraão até Davi, Davi até Jeconias, e Jeconias até Cristo, cada uma com 14 gerações. Estas gerações não são literais, e há nomes omitidos, que analisaremos a seu tempo. Como já vimos, Judá não foi o primogênito de Jacó, mas seu quarto filho. Rúben foi o primogênito, mas perdeu este direito por ter tentado tomar o poder de seu pai através de uma relação com sua concubina. Simeão e Levi, que seriam os próximos na linha de sucessão, perderam seu direito pela violência cometida contra os cananeus de Siquém. Logo, Judá foi qualificado como o herdeiro da linhagem real. Quando seus irmãos tentaram assassinar José, Judá os preveniu de fazê-lo através de uma artimanha, dizendo que deveriam vender o pobre garoto e obter lucro com ele. Isso já demonstra um caráter ligeiramente diferente da parte deste filho de Jacó. Em Gênesis 38 encontramos uma história que levanta as sobrancelhas de muitos leitores. A história mostra a vida de Judá após a venda de José aos ismaelitas, quando ele se separou de seus irmãos e partiu para viver com seu amigo cananeu, Hira. Hira vivia na região de Adulão, que nos dias de Josué seria Caverna na região de Adulão, em Judá incluída no território de Judá. Na história da Tribo de Judá também vemos como ela e as outras tribos não tiveram o mesmo destino, sendo que com a Queda de Samaria todas as tribos do norte foram levadas para o Exílio. Judá era um reino separado (como veremos no próximo capítulo). Mas mesmo se mostrando levemente diferente de seus irmãos com respeito à José, Judá se mostrou imoral ao começar a se envolver com os cananeus da terra, e mostrou sua falta de sabedoria ao tomar por mulher uma cananita, de nome Sua. Com ela ele teve três filhos, Er, Onã e Selá. Vemos aqui outra similaridade entre a sua história e a de sua tribo, que mesmo sobrevivendo à queda de Israel, 254


continuou se corrompendo junto com os cananeus até finalmente ser destruída e levada ao exílio por Nabucodonosor. Enquanto José permaneceu sexualmente puro no Egito, Judá se mostrou impuro na Terra Prometida. E é neste ponto que a história começa a se tornar estranha. A Bíblia diz que Er, o primogênito de Judá, era maligno, e por isto Deus o matou. Então, Judá entrega Tamar, esposa deste, a seu segundo filho, Onã. Todas as vezes que Onã se encontra com Tamar, para dar-lhe um filho, ele deixa que seu sêmen caia do lado de fora. Por este motivo, Deus também mata Onã. Após isso, Judá teme entregar seu último filho à Tamar. Depois de alguns anos, Tamar resolve seduzir Judá para ter um filho dele, e faz isso escondendo sua identidade. Mas ela é apanhada após este ato, porém Judá diz que ela é mais justa do que ele. O que se passa aqui? É em passagens como essa que entender o contexto se torna importante. A primeira vez que li a história, interpretei-a do modo habitual que um católico interpretaria, crendo que o grande pecado de Onã foi o de evitar a gravidez de Tamar, e que isso mostrava a desaprovação clara de Deus contra os métodos contraceptivos. Mas isso está errado. Deus não condena o uso de métodos contraceptivos de modo claro nas Escrituras (obviamente isso não se aplica a casos de fornicação, prostituição ou outra imoralidade sexual qualquer). A situação era a seguinte. No mundo antigo existia uma lei chamada de levirato onde se uma mulher perdesse o marido sem ter filhos deste, ela deveria ter um filho com o irmão dele. Ser viúva e sem filhos no mundo antigo, que era baseado na agricultura, era quase um sinônimo de abandono total, o que poderia levar à prostituição ou modos ilegítimos de obter riqueza. Logo, era necessário que houvesse ao menos um filho para cuidar de uma viúva. Isso garantia não apenas que a sua linhagem seria preservada, mas que ela não teria que recorrer à criminalidade para sobreviver. Como Er morrera sem deixar filhos, o dever do levirato era responsabilidade de Onã. Mas o que Onã fez foi abusar do dever sagrado para com seu irmão e a mulher deste. Evitando que ela ficasse grávida ele continuaria a ter relações com ela prolongadamente, e isso é abuso sexual. Além do mais, se Tamar não tivesse filhos, após sua morte, a herança dela passaria para Onã. Então Onã se mostrou tão maligno quanto seu irmão, e por isso, Deus também o matou.

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Judá ficou tão abalado com as mortes de seus dois primeiros filhos que temeu entregar o último para Tamar ter relações (Judá era viúvo agora). O desastre terrível na vida de Judá fez parte do processo de quebrantamento de Deus sobre um homem que vendera seu irmão como escravo, e que mentira para seu pai sobre o destino de José. Agora, Judá podia sentir a mesma coisa que seu pai sentia. Mas Tamar, que agora estava abandonada, não deixou que sua linhagem fosse extinta. Ela fez com que Judá, inconscientemente, pagasse aquilo que a justiça exigia. Deste modo, Tamar foi uma pessoa de coragem, que arriscou a própria vida para obter justiça, e por isso é incluída na linhagem messiânica de Jesus no livro de Mateus. Deste modo a linhagem messiânica não segue através do filho que Judá teve com Suá, a cananita, mas através dos filhos de Tamar. A história dos filhos de Tamar nos lembra um pouco a história de Esaú e Jacó, pois eles eram gêmeos. Mas ambos são incluídos na genealogia de Mateus. Os nomes deles são Perez e Zerá. Zerá nascia primeiro, e a parteira colocou uma fita para identificá-lo como primogênito, mas Perez puxou-o para dentro do ventre de sua mãe a seu irmão e, este saiu primeiro. Deste modo, Perez se tornou o “primogênito” e por ele veio a linhagem messiânica. Podemos ver a mão de Deus na História nestes pequenos momentos, e Sua proteção à linhagem messiânica. Vagamente, isso nos faz lembrar Daquele Filho de Judá, Jesus, que teve dois “filhos”, o povo de Israel no Antigo Testamento, e a Igreja no 256


Novo Testamento, o “filho” que foi selado na carne, porém, foi menos abençoado do que o outro. Na lista daqueles que foram para o Egito com Jacó, encontramos Perez e Zerá junto com Selá, entre os filhos de Judá. Zerá gerou 4 grandes sábios da antiguidade, com os quais Salomão é comparado em 1 Reis 4:31, “Ele era mais sábio do que qualquer outro homem, mais do que Etã, o ezraíta, e Hemã, e Calcol, e Darda, filhos de Maol; sua fama se espalhou por todas as nações em redor.” Por algum motivo, Zerá nesta passagem é chamado de Maol. Este Etã, o ezraíta, assim como Hemã, parecem ter servido de inspiração para os nomes dos salmistas da corte de Davi. Perez gerou Esrom e Hamul, e a linhagem de Jesus segue através de Esrom. Esrom, quando tinha 60 anos, casou com a filha de Maquir (da Tribo de Manassés), e eles tiveram um filho chamado Segube, e este partiu para a terra de Gileade, em Manassés. Rão (às vezes chamado de Arão) foi filho de Esrom. Ele gerou Aminadabe, e estes estão na genealogia de Jesus. Aminadabe teve dois filhos importantes, Naassom, e Eliseba, que foi a mulher de Arão. Deste modo vemos há um encontro entre a história real e sacerdotal neste momento da história de Israel. Naassom foi um dos príncipes das doze tribos no período do deserto. A linhagem de Cristo segue seu filho, Salmom. A esposa de Salmom também está registrada na genealogia de Jesus em Mateus, pois ela não é ninguém menos do que Raabe. Raabe é uma das minhas personagens favoritas nas Escrituras. Raabe foi uma exprostituta cananita de Jericó. Mas ela e sua família creram no Senhor e na justiça que Ele traria à grande cidade. Ela, entre todas as pessoas, deveria saber muito bem que as pessoas em Jericó mereciam o julgamento divino, ela, que conhecia os segredos mais sujos das pessoas naquela cidade e na Terra dos Cananeus. Ela soube que diante do Deus que derrubara o Egito, as muralhas de Jericó não significavam nada. No livro de Josué vemos como ela ajudou os espias, que a pediram para sinalizar qual era sua casa com uma fita escarlate, para que não fosse destruída no julgamento divino. Esta fita vermelha nos lembra tanto o sangue do cordeiro da Páscoa, quanto o sangue de Jesus, que é a nossa única segurança contra o terrível julgamento que será trazido pelo verdadeiro Josué (Jesus). Eu fico muito feliz que um homem da estirpe de Salmom tenha escolhido tal mulher para se casar. Pois o que importa não é o quanta sujeira já passou pelo rio da vida de uma pessoa, mas sim o quão cristalino e limpo ele se tornou. Onde abundou o pecado, superabundou a graça. Depois disso, a linhagem parece omitir alguns nomes, pois é muito improvável que entre Raabe e Davi tenham se passado apenas 4 gerações. A lista em Mateus lê: “Raabe gerou a Boaz: este, de Rute, gerou a Obede; e Obede gerou a Jessé; Jessé gerou o rei Davi.” Este parece ser um resumo do período dos Juízes, que durou cerca de 300 a 400 anos. Nas 257


listas genealógicas em Crônicas podemos ver como o autor se preocupou mais em registrar a genealogia desta tribo do que as demais, obviamente, pelo fato de que aqueles que voltaram do exílio da Babilônia serem praticamente todos descendentes de Judá. Na lista genealógica abaixo notamos muitos nomes de localidades, cidades e vilarejos no território de Judá aparecendo, como Efrata, Hebrom etc. A lista das terras dadas à Tribo de Judá em Josué é muito extensa, e seu território era realmente vasto, tanto que pôde sobreviver como um reino separado por muito tempo. Já vimos que Calebe tomou Hebrom para si, que se tornou também cidade de refúgio separada para os levitas. Por falta de espaço, não transcreverei todo o capítulo 15 de Josué, que trata especificamente da distribuição da terra de Judá. Mas farei um resumo comentado com algumas fotos, para o entendimento desta tribo tão importante na História. Este capítulo de Josué divide a terra segundo algumas orientações: Fronteiras: Há uma extensa descrição das fronteiras de Judá. Ao lado vemos uma das primeiras referências, o deserto de Zim, próximo à Edom. Judá fazia fronteira com as terras mais secas e inóspitas entre todas as tribos. Berseba era a cidade mais meridional de sua herança. Esta sequidão é devida à proximidade do maior deserto do mundo, o Saara, que tem o tamanho aproximado do Brasil. Isto torna seu território um total oposto à luxuriante Galiléia. É incrível como um país tão pequeno quanto Israel, menor do que o Estado de São Paulo, pode possuir tanta diversidade, sendo que cada território tribal possui geografia única. Israel é como uma miniatura do planeta Terra em sua diversidade. O deserto é o símbolo de maldição por excelência: seco, estéril, tedioso, morto, um aviso claro de Deus à Judá e a Israel do que aconteceria com eles caso permanecessem em seus pecados. A fronteira com Edom lembra como Esaú, o filho desobediente de Israel, perdera sua herança. O limite então circulava o Mar Salgado (Mar Morto) que fora a próspera e verde terra de Sodoma e Gomorra, mas amaldiçoada por Deus se tornara em um local tão estéril que só as mais resistentes formas de vida microbiana conseguem sobreviver à sua secura. A subida de Acrabim, com suas belas formas retorcidas, pode ser traduzida como “subida dos escorpiões”. O deserto de Zim lembrava que o povo de Deus foi amaldiçoado a vagar no deserto, 258


perambulando em uma vida inútil, improdutiva, resultado de seu coração idólatra e ingrato. O limite ao oeste era o ribeiro do Egito, que alguns erroneamente identificam com o Nilo. Na verdade é um uádi, um leito de rio que só se enche nas épocas chuvosas. Aquele extremo devia lembrar aos israelitas do que acontecera com o poderoso império egípcio quando Deus condenara Faraó. O Jordão fornecia um limite ao leste, um lembrete de como sob Josué haviam cruzado o rio, e o destino da primeira cidade conquistada, Jericó. Próximo a Jerusalém, o Vale do Filho de Hinom evocava uma outra terrível maldição. Lá, os israelitas sacrificavam seus filhos ao ídolo Moloque em seus terríveis rituais de sacrifício humano, o que era proibido a Israel. Mas ali Deus enviaria toda a maldição do pecado sobre o Seu único Filho, Jesus Cristo, no Gólgota, o lugar da Caveira. O único sacrifício do Único Filho que poderia ser aceito, e não houve maldição maior do que a dos pecados pagos naquela Cruz. A maldição que deveria ter caído sobre nós. O território segue mais algumas curvas e desce até Beth-Shemesh, onde o rei Amazias foi trancafiado por Deus após se orgulhar, o termo significa “Casa do Sol”, pois na época dos cananeus ele era um centro de adoração pagã à divindades solares. De lá a fronteira ia para as enseadas e cidades litorâneas dos filisteus e chegavam ao Grande Mar, que nós chamamos de Mediterrâneo. Para os israelitas, ele deveria representar quase uma espécie de “final do mundo”. Vemos, portanto, que as fronteiras de Judá, as fronteiras do sul de Israel, eram cheias de “avisos” sobre o que significava estar fora da presença de Deus como uma ilustração física e real. Jesus nos lembra do perigo do pecado que pode nos jogar na Gehena, que ficava no Vale de Hinom. O termo passou a se tornar sinônimo do inferno. O rei Josias transformara Gehena em um lixão para impedir que ele voltasse a ser um local de culto e sacrifício infantil, e lá subia sempre o fogo e a fumaça do lixo queimado de Jerusalém. Cidades do extremo sul: Eram as cidades que ficavam na região mais seca e árida, e para as quais geralmente eram necessários poços artificiais para obter a água. Constituíam 29 cidades ao todo. Berseba, a qual já mostramos anteriormente, servia como referência geográfica quando se usava a expressão “de Dã à Berseba” , como do extremo norte ao extremo sul. Esse território possuía uma grande quantidade de cidades dos simeonitas dispersas em seu meio. Depois de um tempo, Berseba passou para as mãos de Judá.

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Cidades nas planícies: Estas cidades se encontravam na região da Sefelá e iam para as baixadas litorâneas dos filisteus. Há vários subgrupos listados neste capítulo de Crônicas, o primeiro dele têm 14 cidades, dentre as quais Adulão é listada. Já citamos Adulão com uma foto no início deste capítulo. Davi se escondeu nas cavernas de Adulão, assim como em muitas paragens de Judá. Uma segunda subdivisão aparece com mais 16 cidades e aldeias, entre elas Laquis, ilustrada à esquerda. Esta era uma poderosa cidade murada, que se tornou famosa no grande cerco de Senaqueribe, e mais tarde nos dias de Nabucodonosor. Uma correspondência de emergência foi encontrada nas escavações e dizia “estamos atentos aos sinais de Laquis, segundo as indicações que meu senhor deu, não podemos mais ver Azeca”. Não importava quão fortificadas fossem as cidades, uma vez que Deus havia entregado Judá à destruição. A terceira subdivisão menciona mais nove cidades e suas aldeias. Uma quarta divisão cita Ecrom, uma das cidades filisteias e diz que de lá

Bombardeio de Israel à cidade de Gaza 260


até Asdode, todas as vilas e cidades pertencem a Judá. Estas cidades filisteias estiveram em guerra constante com Judá e é possível que algumas nunca tenham sido totalmente conquistadas. A última sessão lista Asdode até Gaza e as fronteiras de Judá. Ainda hoje Gaza, a antiga capital dos filisteus, é alvo de terríveis combates. O nome palestina foi dado pelos romanos após a destruição de Judá para lembrar ao povo conquistado de seus mais terríveis adversários, os filisteus. A faixa de Gaza hoje permanece como uma das principais faixas de litígio do planeta. Cidades na região montanhosa: São cidades mais para o interior. Há cinco subdivisões, com onze, nove, dez, seis e duas cidades, cada. Entre elas Hebrom e QuiriateJearim, a “Cidade das Florestas”. QuiriateJearim ficava na fronteira entre Judá e Benjamim, e lá, a Arca da Aliança permaneceu Quiriate-Jearim nos dias de hoje após ser devolvida pelos filisteus à Israel. A Arca então permaneceu ali até que Davi a levasse para Jerusalém. Cidades no deserto: Apenas seis cidades no deserto são citadas, “Bete-Arabá, Midim, Secaca, Nibsã, Cidade do Sal e En-Gedi, ao todo, seis cidades com suas aldeias.” En-Gedi é uma das poucas cidades citadas por nome na profecia de Ezequiel sobre a Pequena vila de En-Gedi restauração de Israel. Ela é citada no contexto da transformação do Mar Morto em um Mar de Vida 261


com florestas, cardumes e água doce, quando o Rio da Vida penetra nas águas do Mar Salgado transformando-o em um lago de águas doces. Estes locais, que sofreram com a maldição desde os dias de Sodoma e Gomorra, serão nos dias dos Novos Céus e Nova Terra, transformados em um Jardim Verdejante. Glória a Deus por isso. Em último lugar, e separada de todas as outras cidades, Jerusalém é citada em um outro contexto: “Não puderam, porém, os filhos de Judá expulsar os jebuseus que habitavam em Jerusalém; assim, habitam os jebuseus com os filhos de Judá em Jerusalém até os dias de hoje.” Josué 15:63. Jerusalém um dia já foi chamada de Salém. Ela possuía um rei chamado Melquisedeque, um rei sacerdote, cuja ordem era superior à ordem de Levi e à quem Abraão deu o dízimo. Quem leu Hebreus sabe muito bem as implicações da figura de Melquisedeque, que, como mostra o Salmo 110, apontam para Cristo, o nosso Sacerdote Rei. Nos dias de Davi, a cidade de Jerusalém foi conquistada e expandida, e nela, Davi comprou um campo onde vira o Anjo da Destruição parar a morte dos israelitas. Ali, naquele monte, ele comprou o terreno de Araúna (Ornam) o jebuseu, para separá-lo para a construção do grande Templo que seu filho Salomão ergueria para colocar a Arca da Recriação digital de Jerusalém na época de Salomão Aliança.

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7- A Linhagem Real “Porém a tua casa e o teu reino serão firmados para sempre diante de ti; teu trono será estabelecido para sempre. Segundo todas estas palavras e conforme toda esta visão, assim falou Natã a Davi.” 2 Samuel 7:16-17 No livro de Samuel vemos como Deus honrou Davi prometendolhe uma linhagem que jamais se extinguiria. Desafio o leitor a comparar a perene descendência dos reis de Israel com as de outras nações, e ver como Deus a preservou de modo espetacular. Neste capítulo seguiremos a linhagem messiânica de Davi até o exílio na Babilônia.

Davi, filho de Jessé, de Belém, foi o segundo rei de Israel. O primeiro rei foi Saul, da Tribo de Benjamim, que foi rejeitado por Deus. Mas a linhagem de Davi jamais seria abalada. Infelizmente, Davi, como a maioria dos homens, teve alguma dificuldade em se conter com as mulheres, e desobedeceu à Lei de Moisés de que um rei não deveria ter muitas esposas. Até onde isso foi justificável e onde o limite foi cruzado? Aparentemente a esposa oficial de Davi foi Ainoã. Com ela ele teve seu filho primogênito, Amnom. Este filho foi desqualificado por Deus e morto por seu irmão, Absalão, após abusar sexualmente de sua meia-irmã, Tamar. Esses acontecimentos foram consequência do terrível 264


adultério de Davi com Bate-Seba. Ainoã também foi o nome da mulher de Saul, mas creio que seja improvável que Davi preservasse a linhagem dele tendo um filho com sua mulher, é mais provável que ela tenha tido o mesmo nome de sua mãe. O segundo casamento de Davi com certeza foi baseado emuma espécie de levirato para gerar um filho para Abigail. Ela era a esposa de Nabal, o estúpido homem a quem Deus amaldiçoou à morte, e que provavelmente não tinha irmãos. Neste caso, o relacionamento de Davi com ela seria justificável, notando-se que com ela ele teve apenas um filho (a quantidade necessária em um levirato). O filho da sábia Abigail foi Quileabe. Mas Davi também teve casamentos políticos, e um deles foi com Maaca, filha do rei de Gesur, um dos reis transjordânicos. Isso se tornou um problema depois, quando Absalão, fugido, refugiou-se em terras estrangeiras e absorveu a cultura pagã da realeza, a qual via o apontamento divino do reinado de um modo bem diferente de Israel. As culturas vizinhas criam que se um irmão ou um rei fosse bem sucedido em matar todos os seus irmãos ou aquele que ocupasse o trono, isso simbolizava a benção das divindades sobre ele. Assim, a infeliz ausência paterna e falta de perdão de Davi para com seu filho Absalão, abriram a oportunidade para cumprir a maldição de que a espada nunca se apartaria da Casa de Davi. O jovem Absalão já possuía três filhos e uma filha, ou seja, sucessores ao trono, ele também tinha sua beleza e astúcia e buscou o apoio popular através do engano. Infelizmente ele teve o apoio do avô de Bate-Seba, que era o principal conselheiro de Davi. Aparentemente a vingança pela morte de Urias e a tomada de Bate-Seba foram a força motriz que motivou Aitofel em sua perversão junto a Absalão. Absalão foi morto em sua tentativa de golpe de estado. Hagite foi a quarta esposa que Davi tomou, e com quem teve filhos em seus sete primeiros anos de reinado em Hebrom. Seu filho, Adonias, foi quem tentou tomar o poder no final da vida de Davi, no incidente com Salomão. Por este motivo ele foi morto, pois um revoltoso deveria morrer. Mas pela misericórdia de Davi, ele esperou até o fim de seus dias para que tal ordem fosse executada. Davi teve mais dois filhos em Hebrom, Sefatias, de Abital, e Itreão, de Eglá. Vemos então a tendência de Davi em ter apenas um filho com suas esposas, o que pode indicar um tipo derivado de “levirato” ou cuidado com viúvas, ou a presença de casamentos políticos, nos quais apenas um filho já era o suficiente para consolidar uma aliança. Mas ainda assim, a situação parece demonstrar um início de falta de controle de Davi sobre sua própria sexualidade e cobiça. A próxima esposa de Davi citada, foi sem dúvida a que ele mais amava, Bate-Seba. Creio que todos vejamos nela o ápice do pecado de 265


Davi, com seu adultério e o posterior assassinato de Urias, o heteu, de modo frio e calculista. Neste contexto ele escreveu o Salmo 51. Ele teve quatro filhos com ela, Simeia, Sobabe, Natã e Salomão. É interessante que Davi tenha colocado em seu filho um nome que o lembrava da repreensão de Natã sobre seu pecado com Bate-Seba, um sinal de verdadeira amizade e humildade da parte de um rei, em uma época em que se pensava que o poder real estava sempre certo, “the king can do no wrong”, “o rei não pode cometer erros”. Salomão foi aquele que se tornou o herdeiro da linhagem real. Vemos que Davi teve outros filhos, muitos outros, mas não são citadas suas mães, e assim, não sabemos de quem eles nasceram. “Elisama, Elifelete, Nogá, Nefegue, Jafia, Elisama, Eliada, Elifelete e Tamar. Notamos que dois nomes se repetem, Elisama e Elifelete. Alguns poderiam pensar que isso foi um erro, mas é provável que seja uma menção à maldição do Senhor de que o primeiro filho de Bate-Seba e Davi morreria como consequência de seu adultério, logo, um dos dois pode ter sido natimorto, e neste caso um irmão mais velho com o mesmo nome seria uma homenagem àquele que nasceu morto. Isso também nos lembra que os frutos de nosso pecado são sempre morte, e não alegria ou vida. Todos estes filhos nasceram sob os 33 anos de reinado de Davi em Jerusalém. Isso sem contar os filhos das concubinas. Aqui já vemos uma clara quebra do mandamento de Deus dado por Moisés de que um rei não deveria ter muitas mulheres. Essa poligamia desenfreada, como sempre acontece no relato bíblico, é mostrada como algo negativo e que gerou mais problemas durante seu reinado do que seriam necessários, assim como foram uma grande fonte de sofrimento, ainda mais quando Absalão tomou temporariamente o trono, humilhando Davi ao tomar sexualmente todas as suas concubinas diante do povo. Mical, filha de Saul, não teve filhos, pois Deus amaldiçoou-a com esterilidade quando ela desprezou a humildade de Davi em não se tornar um rei sacerdote, apenas um rei. O sucessor de Davi foi um de seus filhos nascidos em Expansão de Israel sob Saul, Davi e Jerusalém, Salomão. Sabemos que Salomão 266


infelizmente o grande rei Salomão levou ao extremo a tendência de Davi em ter muitas esposas. Salomão teve impressionantes 700 esposas e 300 concubinas, que por razões óbvias, não serão enumerados aqui e nem o são na Bíblia. Sua primeira mulher foi a filha de Faraó. Algumas pessoas pensam que este primeiro casamento não foi correto, porém, não haveria problema de se casar com a filha de Faraó se ela fosse temente a Deus. Mas a Bíblia não fala nada sobre o estado do coração dela. O número surpreendente de esposas parece ser parte de um arranjo político com todos os reinos possíveis que existiam na época. Naquele tempo Israel se tornou a mais influente nação do Oriente Médio, e muitos reis, inclusive de cidades-estado queriam estar em aliança com Salomão. O reino se expandiu até as bordas do rei Eufrates. Salomão então se tornou um rei de paz e não de guerra. Deus deu a ele sabedoria administrativa, e ele dividiu a nação em províncias administrativas tributárias, cujas fronteiras não correspondiam exatamente às fronteiras das tribos. Administrativamente esse foi um modo de tornar justos os tributos mensais ( que eram sempre iguais: todo mês uma região administrativa era responsável por ofertas, o que tornava o fluxo de riqueza constante).

Os 12 distritos administrativos de Salomão Israel então se ergueu a um esplendor que nunca seria igualado em sua história. Nesta época, o Templo foi construído, segundo a planta que Davi recebera de Deus. A descrição detalhada de todas estas coisas estão no início do livro de Reis. Aqui, as “traduzimos” visualmente.

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Planta do Templo de Jerusalém Infelizmente, este filho de Davi não cumpriu a visão do Salmo 72, pois apenas Cristo poderia trazer tal reinado. Em sua desobediência, Salomão desvirtuou-se, seguindo os deuses de suas esposas e diluindo seus propósitos. Seu reino foi então dividido por Deus, sendo que as 10 tribos ao norte se tornaram o Reino de Israel, que Deus deu a Jeroboão. Judá se tornou um reino separado ao sul. Ele também não soube escolher um filho sábio para sucedê-lo, mas escolheu Roboão, o filho de sua esposa amonita. Roboão não tinha a capacidade administrativa, nem a visão, nem o temor ao Senhor necessários para ser um bom rei. Vemos em uma passagem sua visão limitada da realidade: “Amava Roboão mais a Maaca, filha de Absalão, do que a todas as suas outras mulheres e concubinas; porque ele havia tomado dezoito mulheres e sessenta concubinas; e gerou vinte e oito filhos e sessenta filhas. Roboão designou Abias, Mapa dos Reinos Divididos: Judá e filho de Maaca, para ser chefe, príncipe Israel, sob Roboão 268


entre seus irmãos, porque o queria fazer rei. Procedeu prudentemente e distribuiu todos os seus filhos por todas as terras de Judá e Benjamin, por todas as cidades fortificadas; deu-lhes víveres em abundância e lhes procurou muitas mulheres.” 2 Cr 11: 18-23. Ele distribuiu os filhos para evitar uma guerra civil, e nisto foi prudente, mas também teve muitas mulheres, contrariando a Lei de Moisés. Para ser o líder e sucessor ele escolheu Abias. Porque isso é importante? Ele era filho de sua esposa mais amada, filha de Absalão. Isso é um modo sutil de descrever que Roboão só se importava com a aparência física, e não que amava suas esposas pela virtude delas. Absalão tinha sido um homem de aparência física excepcional e beleza proverbial, e com certeza, podemos dizer o mesmo de sua filha. O seu filho Abias não era muito melhor do que ele, pois dizia seguir o Senhor, embora agindo de modo muito hipócrita. Nenhum mal ou reforma religiosa foi feita em seu reinado, e ele apenas se gabava de que os judeus eram melhores do que os israelitas ao norte. “Abias, porém, se fortificou, e tomou para si catorze mulheres, e gerou vinte e dois filhos e dezesseis filhas”. 2 Cr 13:21. Seu filho Asa e seu neto Josafá foram reis melhores, que foram os primeiros a trazer reformas religiosas e morais ao povo de Judá, os pioneiros da restauração moral do povo de Deus entre os reis. Logicamente, esta é uma versão resumida dos acontecimentos, e o leitor fará bem em ler um relato completo da história de Israel e Judá no livro de Reis, ou, se quiser focar apenas na linhagem de Jesus, poderá ler o relato mais focado no livro de Crônicas, onde apenas a história de Judá é representada. Josafá Conexão das linhagens de Judá e Israel nos dias de foi um ótimo rei, Josafá mas ele cometeu 269


erros estratégicos e aparentemente era muito ingênuo. Ele pensou que seria algo bom unir novamente os reinos de Israel e Judá, mas essa estratégia ecumênica ignorava que a separação entre os dois reinos tinha sido da vontade de Deus. Josafá não foi sábio em se unir a Acabe para implementar este propósito. Acabe era o rei de Israel, ao norte, que havia casado com a terrível Jezabel, filha dos idólatras reis fenícios adoradores de baal. “Descansou Josafá com seus pais e foi sepultado com eles na Cidade de Davi; e Jeorão, seu filho, reinou em seu lugar. Teve este irmãos, filhos de Josafá:Azarias, Jeiel, Zacarias, Azarias, Micael e Sefatias;todos estes foram filhos de Josafá, rei de Israel. Seu pai lhes deu muitas dádivas de prata, ouro, e coisas preciosas e ainda de cidades fortificadas em Judá; porém o reino deu a Jeorão, por ser o primogênito. Tendo Jeorão assumido o reino de seu pai e havendo-se fortificado, matou todos os seus irmãos à espada, como também alguns dos príncipes de Israel (...) porém o Senhor não quis destruir a casa de Davi por causa da aliança que com ele fizera, segundo a promessa que lhe havia feito de dar a ele sempre, uma lâmpada, e a seus filhos (...) e se foi sem deixar saudades; sepultaram-no na Cidade de Davi, porém, não nos sepulcros dos reis.” 2 Cr. 21:17. Um leitor atento da genealogia de Jesus notará algumas ausências de nomes. A lista vai de Jeorão diretamente para Uzias. O reinado do filho maligno de Jeorão, Acazias, e de sua mãe israelita-fenícia são omitidos. Eles não são considerados judeus, mas são quase uma intromissão e uma tentativa satânica de destruir a linhagem messiânica: “Vendo Atalia, mãe de Acazias, que seu filho era morto, levantou-se e destruiu toda a descendência real da casa de Judá. Mas Jeosabeate, filha do rei, tomou a Joás, filho de Acazias, e o furtou dentre os filhos do rei, aos quais matavam, e o pôs e à sua ama numa câmara interior (do Templo), o escondeu de Atalia, e não foi morto.” 2 Cr 22:10-11 Satanás tentou destruir a linhagem messiânica de vários modos, fisicamente pelas guerras contra Davi (Salmo 2), pelo comprometimento cultural de Salomão, que levou 10 tribos e fragmentou seu reino, pela guerra civil de Roboão e Abias entre as tribos, e novamente fisicamente nas épocas de Asa e Josafá. Mas o casamento do filho de Josafá foi quase fatal. Na verdade, Joás, o sucessor, ficou escondido no Templo por anos, e as pessoas realmente pensaram que a linhagem de Davi fora destruída. Mas Joás foi corado rei, e a usurpadora foi morta. Infelizmente Joás matou o filho do sacerdote que o criara, e seu nome foi excluído da Linhagem de

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Jesus. Seu filho, Amazias, também é omitido. Ele era um rei “mais ou menos”. O próximo rei a aparecer na linhagem de Jesus é Uzias, que antes era conhecido como Azarias. Ele foi um bom rei e muito competente no início de seu reinado, mas infelizmente deixou que o orgulho entrasse em seu coração e tentou unir o reinado ao sacerdócio, algo que somente o Messias poderia fazer. Como resultado Deus lhe tornou leproso e impuro, e ele teve de viver em isolamento por todo resto de sua vida. Josefo nos diz que ele morreu de desgosto. Jotão reinou em seu lugar, e pouco é registrado sobre ele, a não ser que foi um bom rei. Seu filho foi o famoso rei Ezequias. Ezequias quase morreu sem ter filhos, mas Deus salvou sua vida de uma terrível doença e deu a ele mais quinze anos, nos quais ele teve Manassés a Amarias. Manassés reinou por mais de cinco décadas, e foi um homem terrível, o pior de todos os filhos dos reis. Ele e seu avô Acaz mostraram uma nova estratégia de Satanás para destruir a linhagem prometida (e que era consequência de seu pecado), a autodestruição. Acaz e Manassés foram reis idólatras que ofereceram alguns de seus filhos em sacrifício humano às entidades pagãs. No reinado de Manassés, a destruição de Judá se tornou irreversível, pois o reino se tornou mais idólatra e maligno do que as próprias nações dos cananeus que tinham sido expulsos da terra. A história de como Deus salvou Manassés está registrada em 2 Crônicas 33, e é uma das mais belas demonstrações da graça de nosso Deus sobre os piores dos pecadores. Manassés tolamente deu o nome de Amon a seu filho sucessor. Provavelmente ele o fez em sua época de idolatria em uma homenagem ao deus egípcio Amon, cuja cidade, a grande Tebas, tinha sido destruída durante o seu reinado, um dos eventos mais significativos da História Antiga. Amon também sacrificou seu primogênito aos demônios, mas Josias, seu filho sobreviveu. Josias e o profeta Sofonias eram aparentados, e curiosamente Sofonias provavelmente era negro, pois o nome de seu pai era Cusi 271


(escuro). Haviam muitos etíopes em Judá nesta época, desde os dias de Ezequias, e na verdade, foi um etíope que ajudou Jeremias a sair da cisterna na qual foi preso. Sofonias profetizou que o final do reinado de Judá estava próximo, e depois dos dias de Josias, Judá nunca mais teve um bom rei. Salum, seu filho, reinou 3 meses e foi levado prisioneiro para o Egito. Jeoaquim reinou por onze anos, sendo um homem corrupto e ganancioso, perseguidor dos profetas de Deus, e que provavelmente cometeu suicídio com a vinda de Nabucodonosor. Joaquim (Conias) reinou 3 meses, e Deus deu a mensagem aos profetas que não importava o que acontecesse, Ele expulsaria Joaquim de seu reino, mesmo que ele fosse o Seu anel de selar. Após seu reinado fugaz, Joaquim foi levado para o cativeiro na Babilônia. Ele foi considerado o último rei legítimo de Judá, e Zedequias, que ficou em seu lugar, era considerado apenas uma marionete de Nabucodonosor.

Os cinco últimos reis de Judá Joaquim ficou preso na Babilônia por 36 anos. Quando a linhagem dos reis de Judá parecia ter terminado sem esperanças, misteriosamente ele é libertado da prisão por Evil-Merodaque, um dos sucessores de Nabucodonosor. Deus ainda manteria viva a linhagem dos reis, mesmo que Judá tivesse sido reduzida a cinzas.

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3 – O Período Intertestamentário “E então é como se cada homem, o mais mesquinho e triste, tivesse dentro da alma um sino de ouro. Quando vem o forasteiro de olhar aceso de ambição, e propõem negócios, fala em estradas, bancos, dinheiro, obras, progresso, corrupção – dizem que esses goianos olham o forasteiro com um olhar lento e indefinível sorriso e guardam um modesto silêncio. O goiano está quieto, ouvindo bater dentro de si, com um som de extrema pureza e alegria, seu particular sino de ouro. E o forasteiro parte, e a povoação continua pequena, humilde e mansa, mas louvando a Deus com o sino de ouro. Ouro que não serve para perverter, nem o homem nem a mulher, mas para louvar a Deus. Pois cada um de nós quando criança tem dentro seu sino de ouro que depois, por nossa culpa e miséria e pecado e corrupção, vai virando ferro e chumbo, vai virando pedra e terra, e lama e podridão.” O sino de ouro, de Rubem Braga, de A Borboleta Amarela. Deus não falou diretamente aos homens entre o final do Antigo Testamento e o início do Novo. Mas isso não significa que Ele não tenha falado de outros modos ou parado de trabalhar. Por cerca de 400 anos a profecia foi interrompida, ao menos do modo como havia sido entregue até então. Os reis de Judá não mais se sentavam no Trono de Davi. Mas por quê? O leitor habitual não tem muito conhecimento deste período tão significativo da história mundial, e é por este motivo que descrevo resumidamente algumas profecias de Daniel, Ezequiel e Zacarias. Muitas pessoas pensam que por Deus não falar diretamente ao Seu povo no período intertestamentário, isso significa que não há nada sobre ele nas Escrituras. Isso é um engano de iniciantes, mas é para surpreendê-lo e informá-lo do contrário que este capítulo foi escrito. Então o leitor poderá ver por si mesmo quão volumosa carga profética foi destinada por Deus ao Seu povo, para que eles não ficassem em trevas durante tal período. Quando eu era criança, minha irmã me leu um pequeno conto, do qual, uma parte está escrita no início deste capítulo. Eu nunca esqueci esse conto, e eu o conheci antes das profecias de Daniel. Creio que ele ilustre bem sobre o que se trata o Período Intertestamentário. Muitas pessoas estão familiarizadas com o Sonho de Nabucodonosor no capítulo 2 do livro de Daniel. Este capítulo trata de uma revelação dada por Deus ao rei e a sua interpretação por Daniel. Este sonho é uma revelação de como a História se desenrolaria dos dias de Nabucodonosor até a vinda de Cristo. Antes de analisarmos parte a parte a profecia, vamos entender o motivo de Deus fazer o que é descrito no livro. 274


No início da História, a Humanidade rejeitara Deus, escolhendo seu pecado ao invés Dele, e assim, todas as nações se esqueceram de Deus. Tendo a humanidade inteira rejeitado ao Criador, Ele escolheu para Si um povo separado. Mas este povo desde o início o rejeitara, à exceção de alguns entre eles que permaneciam fiéis em todas as gerações. Uma linhagem real fora escolhida dentre eles, mas esta também rejeitara a Deus, tornando-se pior do que as nações pagãs que habitavam a terra antes deles. Deus então destruíra a nação e a condenara a 70 anos de exílio sob o domínio dos terríveis babilônios. Mas nem isso servira para purificar completamente o povo escolhido. Então Deus lhes daria uma última oportunidade, e se este povo não se arrependesse, Ele o destruiria e escolheria a outro povo, no qual gravaria a Sua Lei. Este povo seria escolhido dentre as nações pagãs da humanidade que tinham rejeitado a Deus antes de Israel. Quando os 70 anos de exílio babilônico haviam se completado, essa revelação chegou da parte de Deus então para Daniel, que a escreveu: “Estando eu, digo, ainda falando na oração, o homem Gabriel, que eu tinha visto na minha visão ao princípio, veio, voando rapidamente, e tocou-me, à hora do sacrifício da tarde. Ele me instruiu, e falou comigo, dizendo: Daniel, agora saí para fazer-te entender o sentido.No princípio das tuas súplicas, saiu a ordem, e eu vim, para to declarar, porque és mui amado; considera, pois, a palavra, e entende a visão. Setenta semanas estão determinadas sobre o teu povo, e sobre a tua santa cidade, para cessar a transgressão, e para dar fim aos pecados, e para expiar a iniqüidade, e trazer a justiça eterna, e selar a visão e a profecia, e para ungir o Santíssimo. Sabe e entende: desde a saída da ordem para restaurar, e para edificar a Jerusalém, até ao Messias, o Príncipe, haverá sete semanas, e sessenta e duas semanas; as ruas e o muro se reedificarão, mas em tempos angustiosos. E depois das sessenta e duas semanas será cortado o Messias, mas não para si mesmo; e o povo do príncipe, que há de vir, destruirá a cidade e o santuário, e o seu fim será com uma inundação; e até ao fim haverá guerra; estão determinadas as assolações. E ele firmará aliança com muitos por uma semana; e na metade da semana fará cessar o sacrifício e a oblação; e sobre a asa das abominações virá o assolador, e isso até a consumação; e o que está determinado será derramado sobre o assolador”. Daniel 9:21-27 Vamos entender a visão então. Estas 70 semanas de anos devem ser tomadas como o que são. Cada semana de anos possui 7 anos. E estas 70 semanas são um bloco único e indivisível. Infelizmente, no meio pentecostal e entre os adventistas, muitas interpretações distorcem este texto para tentarem acomodar o texto bíblico à sua visão de mundo, e 275


assim, geram confusão desnecessária. Vamos tomar o texto pelo que ele diz, sem mudar ou acrescentar nada. A visão diz que do edito para a reconstrução de Jerusalém (que foi no final dos 70 anos de exílio de Israel) sete semanas de anos seriam necessárias para reconstruir a cidade santa. A visão teve o início de seu cumprimento em 538 a.C. Literalmente temos (7 x 7 anos) 49 anos para a reconstrução tanto do Templo quanto da Cidade por Esdras e Neemias. A visão diz que isto não aconteceria sem oposição, e aqueles que leem os livros de Esdras e Neemias sabem que tal reconstrução não foi tão fácil, e as nações ao redor os ameaçaram de diversos modos, mas a cidade ficou pronta e o Templo foi finalizado. Depois disto a visão diz que seguiriam 62 semanas de anos (62 x 7 anos = 434 anos). Ao final destes 434 anos viria o Messias, que foi o que aconteceu. Deste modo, os judeus se tornam indesculpáveis por não aceitarem Jesus como o Messias. Primeiramente, a visão não se refere, como alguns querem, ao Fim do Mundo. A profecia fala explicitamente que as 70 semanas virão sobre o “teu povo”,e a “tua santa cidade”, que são Israel e Jerusalém. “Para fazer cessar a iniquidadade” está se referindo então à iniqüidade deste povo, e não do mundo inteiro. Para expiar a iniqüidade não está se referindo, portanto à Segunda Vinda de Jesus, e sim à Sua morte na Cruz e ressurreição. Infelizmente as pessoas dão tão pouco valor ao que foi realizado na Cruz que só tem olhos para se interessar por eventos apocalípticos. “Para selar a visão e a profecia” nos lembra o início da Carta aos Hebreus, onde vemos que antigamente Deus falou de muitos modos a Israel, mas “nestes últimos dias” falou a “nós” através de Seu Filho. “Pois a Lei e os Profetas foram até João”. A profecia então fala sobre Ungir o Santíssimo. Muitos pensam em termos do Templo de Jerusalém, do mesmo modo os inimigos de Jesus não entenderam que quando Ele falou que “destruiria e reconstruiria o Templo em 3 dias”, Ele falava de Seu próprio corpo. A Unção do Santíssimo então não aponta para o Templo, mas para o momento do Batismo de Jesus, quando tem início o Seu ministério. A profecia segue dizendo que Ele então firmaria uma Aliança por uma semana, e na metade da semana seria morto. Aqui a profecia se refere à Crucificação que findou os anos de ministério de Jesus. A Nova Aliança de Jesus então findou o sacrifício e todo o sistema sacerdotal levítico, pois instituiu uma Nova Aliança, a Santa Ceia. Jesus então finaliza toda a necessidade de sacrifícios de animais, pois Ele apagou os pecados de Israel e da humanidade em Sua cruz. A visão então termina dizendo que depois destas coisas o povo de um príncipe viria para destruir a cidade 276


sobre as Asas da Desolação, e até o final dos dias de Jerusalém haveria guerra. Jesus se refere a estes eventos futuros quando fala a Seus apóstolos que não sobraria pedra sobre pedra do Templo, e que os exércitos romanos cercariam e destruiriam Jerusalém.

Este é um breve resumo de tudo que aconteceria entre o retorno dos israelitas e judeus à sua cidade e a vinda do Messias. Em menos de 50 anos as profecias sobre Jerusalém e o Templo já começavam a se concretizar. E disse-lhe: Corre, fala a este jovem, Um resumo da profecia das 70 semanas de Daniel dizendo: Jerusalém será habitada como as aldeias sem muros, por causa da multidão dos homens e dos animais que haverá nela. Pois eu, diz o Senhor, serei para ela um muro de fogo em redor, e para glória estarei no meio dela. Ah, ah! Fugi agora da terra do norte, diz o Senhor, porque vos espalhei pelos quatro ventos do céu, diz o Senhor.Ah! Sião! Escapa, tu, que habitas com a filha de babilônia. Zacarias 2:4-7 O Senhor realmente foi como uma muralha de fogo ao redor de Israel. Depois das políticas de Ciro para a reconstrução do Templo, sob o reinado do rei persa Cambises, o trabalho de restauração foi proibido. Estranhamente o reinado de Cambises terminou de modo turbulento, e há histórias de que ele perdeu cerca de 50.000 soldados persas em uma campanha no Egito durante uma violenta tempestade de areia. Toma, digo, prata e ouro, e faze coroas, e põe-nas na cabeça do sumo sacerdote Josué, filho de Jozadaque.E fala-lhe, dizendo: Assim diz o SENHOR dos Exércitos: Eis aqui o homem cujo nome é RENOVO; ele brotará do seu lugar, e edificará o Templo do SENHOR. Ele mesmo edificará o Templo do Senhor, e ele levará a glória; assentar-se-á no seu 277


trono e dominará, e será sacerdote no seu trono, e conselho de paz haverá entre ambos os ofícios. Zacarias 6:11-13 Durante os trabalhos de reconstrução, Deus separou um homem para ser um prenúncio simbólico do Messias (o próprio texto afirma que ele seria um homem-símbolo). O sacerdote Josué seria coroado, e ele seria tanto Rei quanto Sacerdote, algo que só o Messias poderia fazer. Incrivelmente, Jesus, de modo transliterado, é uma variação do nome Josué. Logo, o simbolismo do Sacerdote Rei, Josué, filho de Jozadaque, era uma referência a Jesus, que viria no final do período das 70 semanas. A visão de Daniel na Babilônia já tinha começado a se cumprir. O sonho de Nabucodonosor, que Daniel interpretara, era o de uma estátua colossal com cabeça de ouro, peitoral e braços de prata, ventre de bronze, pernas de metal e pés de metal e barro. E agora voltamos à abertura deste capítulo, ao poema sobre um sino de ouro. Eu o escolhi como uma abertura para este capítulo final porque ele pessoalmente se tornou uma ilustração muito clara para o período intertestamentário. A estátua de Nabucodonosor mostra um período de domínio dos gentios sobre Israel, e este domínio dos gentios começaria como algo A estátua de Nabucodonosor e precioso que se tornava cada vez menos as 4 bestas vistas por Daniel glorioso. O pecado de Israel e o pecado dos gentios faria com que os impérios mundiais começassem como ouro e terminassem com a brutalidade do metal romano, onde a violência, a brutalidade e a perversão eram a regra. Daniel também teve outra visão sobre quatro bestas, que recorda a visão sobre a estátua dividida em quatro partes, estas quatro bestas são também representações dos impérios que dominariam o mundo e Israel até a vinda do Messias. A cabeça de ouro que coroava a estátua era ninguém menos do que o próprio Nabucodonosor, que deu início aos primeiros 70 anos de exílio na Babilônia, e foi o instrumento

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Moeda com o rosto de Nabucodonosor


de ira divina sobre as nações e sobre Judá, quando causou a Queda de Jerusalém. “Tu, ó rei, és rei de reis; a quem o Deus do céu tem dado o reino, o poder, a força, e a glória.E onde quer que habitem os filhos de homens, na tua mão entregou os animais do campo, e as aves do céu, e fez que reinasse sobre todos eles; tu és a cabeça de ouro. Daniel 2:37-38. O primeiro (animal) era como leão, e tinha asas de águia; enquanto eu olhava, foram-lhe arrancadas as asas, e foi levantado da terra, e posto em pé como um homem, e foi-lhe dado um coração de homem. Daniel 7:4” A visão das quatro bestas de Daniel também faz menção a Nabucodonosor como o poderoso leão alado, símbolo proeminente da Babilônia. A menção ao arrancar de suas asas se refere à punição de Nabucodonosor por se orgulhar, quando Deus o entregou à loucura por sete anos, para viver como um animal, até que ele reconhecesse em seu coração que “O Céu domina sobre a Terra”. Deste modo, Nabucodonosor foi “levantado da terra e posto em pé como um homem” ao reconhecer a soberania de Deus sobre toda a Terra. Alguns reis governaram até a queda da Babilônia, entre eles Evil-Merodaque, que pela providência divina, retirou o rei deportado Joaquim de Judá da prisão. Deste modo, a linhagem real de Judá não foi perdida, mas seguiu até os dias de Jesus. Mas a linhagem real permaneceria “em exílio” até que se completassem as 70 semanas de anos, e por isso, Israel não teve um rei legítimo até a vinda de Jesus. O último rei "O branquete de Belsazar", de babilônico foi o tolo Belsazar. A Rembrandt degradação moral da Babilônia, talvez uma representação da corrupção dos últimos dias, foi expressa quando ele achou que seria divertido dar uma festa à moda babilônica usando os utensílios sagrados que haviam sido capturados com a Queda de Jerusalém de forma profana. Vemos isso nos dias de hoje em muitos programas de televisão (e David Wilkerson já previra isso nos anos 70), em que o sagrado é explicitamente ridicularizado. Belsazar perdeu o seu reino na mesma noite e foi morto pelos persas, que desviaram o fluxo do 279


rio, e invadiram a cidade da Babilônia. Isso é um símbolo de nossos tempos, em que meio à profanação e blasfêmia, Deus virá acabar com a “festa” quando as pessoas menos esperarem. A lista dos reis da Babilônia nem sequer o acha digno de ser colocado como rei, e passa de Nabonido (seu pai) para Ciro, o Grande (o conquistador persa). E depois de ti se levantará outro reino, inferior ao teu (Daniel 2). Continuei olhando, e eis aqui o segundo animal, semelhante a um urso, o qual se levantou de um lado, tendo na boca três costelas entre os seus dentes; e foi-lhe dito assim: Levanta-te, devora muita carne. Daniel 7:5 A visão de Daniel então prossegue para o segundo grande império, o império medo-persa. A medo-pérsia foi formada pela união de dois povos, os medos e os Ciro, o Grande persas (ver capítulo sobre a Tábua das Nações), e essa dualidade sempre aparece nas visões relativas a ele. Por exemplo, os dois braços de prata unidos por um peitoral no sonho de Nabucodonosor. A segunda besta, um urso, se levanta sobre um lado, sinal da significância dos persas e não dos medos. O próprio Ciro era persa. As três costelas que o urso devora na visão são usualmente aceitas como as principais conquistas de Ciro, a Frígia, as províncias do leste e a Babilônia. O profeta Isaías previra a chegada de Ciro 150 anos antes, e o chama de Ungido. Ciro foi o único gentio chamado de Ungido (Messias). A profecia é tão exata em sua linguagem e conteúdo que muitos céticos afirmam que ela foi escrita depois dos acontecimentos. O caráter de Ciro foi tão diferente do dos seus predecessores assírios e babilônios que as populações aceitaram o conquistador com alegria, preferindo o domínio persa que seus próprios governantes. As nações anteriores usaram de violência indizível, tortura e assimilação cultural. Ciro usava de paz, benignidade e não só deixava que as culturas conquistadas mantivessem seus modos de vida, mas os promovia e financiava. “Assim diz o SENHOR ao seu ungido, A Ciro, a quem tomo pela mão direita,para abater as nações diante de sua face e descingir os lombos dos reis, para abrir diante dele as portas, e as portas não se fecharão. Eu irei adiante de ti, e endireitarei os caminhos tortuosos; quebrarei as portas de bronze, e despedaçarei os ferrolhos de ferro. Dar-te-ei os tesouros escondidos, e as riquezas encobertas, para que saibas que eu 280


sou o SENHOR, o Deus de Israel, que te chama pelo teu nome. Por amor de meu servo Jacó, e de Israel, meu eleito, eu te chamei pelo teu nome, pus o teu sobrenome, ainda que não me conhecesses.” Isaías 45:14

A expansão do Império Persa até os dias de Dario I

Um dos motivos pelo qual os céticos afirmam que a profecia de Isaías é propaganda feita após os acontecimentos, é a linguagem usada, a mesma usada em vários documentos de Ciro aos povos conquistados. Eles afirmam também que Ciro não tinha o objetivo de louvar ao Deus de Israel, nem de beneficiar o povo judeu de maneira especial. Isso pode muito bem ser verdade. A motivação de Ciro talvez sempre permaneça desconhecida, mas ele dizia aos povos ter sido enviado pelos seus deuses principais, e usou o nome do Senhor tanto quanto o de marduk quanto o de qualquer outro. Ele pode muito bem ter utilizado de tal propaganda, mas os historiadores perdem de vista que não importa a motivação, a ironia é que se Ciro estivesse dizendo falsamente ter sido levantado pelo Deus de Israel como um subterfúgio, ele não tinha a ideia de que realmente era isso que estava acontecendo. Não importa a motivação de Ciro, sua benevolência foi sem precedentes na História até os dias de hoje, e ele foi a inspiração para os primeiros presidentes americanos. Seu famoso cilindro real se encontra hoje na sede das Nações Unidas em NY, como um modelo a ser seguido ainda nos dias atuais.

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Por centenas de anos os reis persas mantiveram o maior império que havia existido até então, com aproximadamente metade da população mundial. Sua organização e administração são até hoje surpreendentes. Se a profecia diz que o reino dele seria menor que o de Nabucodonosor, talvez esteja se referindo apenas ao fato de a Babilônica ter sido historicamente mais importante, remontando ao início da civilização humana. Estranhamente (mas não da perspectiva bíblica) muitos reis persas, como Dario e Xerxes, parecem ter sido monoteístas. Muitos deles são citados de modo positivo nas Escrituras, e Xerxes foi o marido da famosa Ester. Ele apresentou reformas religiosas e parece ter proibido alguns “cultos aos demônios” em seu reino. Mas a prata persa, como todas as culturas humanas, não deixaria de se tornar negra e suja, pois onde as riquezas abundam, a corrupção não demora a seguir. Depois de cerca de dois séculos de domínio sobre praticamente todo o mundo conhecido, chegava a hora de um pequeno reino tomar o seu lugar entre os grandes impérios da História. E eis que alguém, semelhante aos filhos dos homens, tocou-me os lábios; então abri a minha boca, e falei, dizendo àquele que estava em pé diante de mim: senhor meu, por causa da visão sobrevieram-me dores, e não me ficou força alguma. Como, pois, pode o servo do meu senhor falar com o meu senhor? Porque, quanto a mim, desde agora Alexandre, o Grande não resta força em mim, e nem fôlego ficou em mim. E aquele, que tinha aparência de um homem, tocou-me outra vez, e fortaleceu-me. E disse: Não temas, homem muito amado, paz seja contigo; anima-te, sim, anima-te. E, falando ele comigo, fiquei fortalecido, e disse: Fala, meu senhor, porque me fortaleceste. E ele disse: Sabes por que eu vim a ti? Agora, pois, tornarei a pelejar contra o príncipe dos persas; e, saindo eu, eis que virá o príncipe da Grécia. Mas eu te declararei o que está registrado na escritura da verdade; e ninguém há que me anime contra aqueles, senão Miguel, vosso príncipe. Daniel 10:10-21 282


“Depois disto, eu continuei olhando, e eis aqui outro, semelhante a um leopardo, e tinha quatro asas de ave nas suas costas; tinha também este animal quatro cabeças, e foi-lhe dado domínio.” Daniel 7:6 “um terceiro reino, de bronze, o qual dominará sobre toda a terra. Daniel 2:39 Quem poderia adivinhar que o poderoso império persa, durante os poucos anos de conquista de Alexandre, o Grande, cairia totalmente nas mãos de um império grego helenístico? A visão nos mostra que sobre as nações da História existem forças espirituais poderosas. O jovem e ambicioso Alexandre crescera sob a instrução de seu mestre, Aristóteles, amando a cultura persa e sonhando em ser um grande conquistador como Ciro, o Grande. E assim o peitoral de prata deu lugar a um forte abdome de bronze, o qual os gregos usavam para proteger-se, atrás de seus redondos escudos, também de bronze, os hoplitas.

Guerreiros gregos com seus escudos hoplitas de bronze

Alexandre, o Grande, herdou um exército disciplinado por seu pai, Filipe II. Mas ele não tinha apenas força, mas também uma mente afiada, rápida e estratégica. Com o poder da falange grega, ele partiu da Europa em direção à Turquia, depois para Israel e Egito. Como os persas ele soube conquistar o coração dos povos conquistados e tratá-los com benevolência, e Josefo diz que ele esteve no Templo de Jerusalém para oferecer sacrifícios, embora aparentemente não entendesse quem era o único Deus. O império macedônio foi o primeiro dos grandes impérios europeus do mundo, e sua arma principal foi a terrível falange grega.

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A poderosa falange grega Alexandre, o Grande, então cumpriu uma das profecias bíblicas que muitos viam como impossível de ser cumprida. Nem mesmo Nabucodonosor, nem os assírios, nem os persas ou qualquer outro povo fora capaz de tomar a ilha de Tiro e seu poderio. Séculos atrás Nabucodonosor havia desistido após 13 anos de um cerco fracassado. Mas a Palavra do Senhor é certeira, e não há quem possa resistir ao Seu poder. “O peso da palavra do SENHOR contra a terra de Hadraque, e Damasco, o seu repouso; porque o olhar do homem, e de todas as tribos de Israel, se volta para o SENHOR. E também Hamate que confina com ela, e Tiro e Sidom, ainda que sejam mais sábias. E Tiro edificou para si fortalezas, e amontoou prata como o pó, e ouro fino como a lama das ruas. Eis que o Senhor a despojará e ferirá no mar a sua força, e ela será consumida pelo fogo.” Zacarias 9:1-4

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Representação do cerco de Tiro por Alexandre, o Grande Alexandre, o Grande, construiu pontes artificiais que cruzaram o mar para atacar a tão confiante cidade. Diferente do que fez em outras ocasiões, Alexandre ficou tão furioso que destruiu metade da cidade. E assim, a ira do Senhor atingiu aquela que era vista como a inexpugnável e inconquistável cidade no meio do mar. Após seguir suas conquistas de outras terras, Alexandre se dirigiu para a conquista da Pérsia, em uma das maiores batalhas da Antiguidade, a batalha de Gaugamela, onde derrotou Dario III, e conquistou o grande império para si. Em cerca de dez anos, Alexandre havia conquistado todo o mundo conhecido, da Europa até a Índia. A visão de Daniel o representa como um leopardo com asas, dada a velocidade de sua conquista, algo nunca visto na História. Este leopardo possuía quatro cabeças, simbolizando os quatro generais de Alexandre, para quem o Império seria dividido. Novamente vemos na visão de Daniel 8, o Império medo-persa representado com uma certa dualidade, um carneiro de dois chifres, sendo que um deles (persa) era maior. “E levantei os meus olhos, e vi, e eis que um carneiro estava diante do rio, o qual tinha dois chifres; e os dois chifres eram altos, mas um era mais alto do que o outro; e o mais alto subiu por último. Vi que o carneiro dava marradas para o ocidente, e para o norte e para o sul; e nenhum dos animais lhe podia resistir; nem havia quem pudesse livrarse da sua mão; e ele fazia conforme a sua vontade, e se engrandecia. E, 285


estando eu considerando, eis que um bode vinha do ocidente sobre toda a terra, mas sem tocar no chão; e aquele bode tinha um chifre insigne entre os olhos.E dirigiu-se ao carneiro que tinha os dois chifres, ao qual eu tinha visto em pé diante do rio, e correu contra ele no ímpeto da sua força.” Daniel 8:3-6

O avanço e as batalhas travadas por Alexandre

“E o bode se engrandeceu sobremaneira; mas, estando na sua maior força, aquele grande chifre foi quebrado; e no seu lugar subiram outros quatro também insignes, para os quatro ventos do céu.” Daniel 8:8 Divisão do Império de Alexandre entre seus 4 generais O bode que vem sem tocar o chão, dada a sua velocidade, são os gregos, e o chifre é Alexandre. Para sua infelicidade, Alexandre, após 286


conquistar todo o mundo conhecido até regiões tão distantes quanto os Himalaias, morreu repentinamente. Alguns atribuem sua morte à malária. Após a sua morte, aos 33 anos de idade, sem um sucessor que fosse visto com bons olhos, seu grandioso Império foi dividido entre seus quatro generais: Cassandro, Lisímaco, Seleuco e Ptolomeu. Israel foi pega no conflito entre os impérios de Seleuco e Ptolomeu, eles são referidos como reis do norte (Seleuco) e do sul (Ptolomeu) no complexo capítulo 11 de Daniel. Dada a complexa relação entre as duas dinastias, ele será resumido no quadro abaixo.

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Antíoco Epifânio foi o governante do Império Selêucida de 175 a 164 a.C. Ele foi o notório “pequeno chifre” da visão de Daniel 11. Alguns não entendem porque ele se revela como um chifre saído da quarta besta (Roma) e não da terceira (Grécia), mas o fato é que, apesar de grego, ele se tornou Rei devido a um acordo com o Senado Romano. Embora Roma não dominasse ainda a Terra Prometida, podemos ver o avanço gradual e constante daquela pequena cidade, Roma, até conquistar a Itália, o Mediterrâneo, e cada vez maior, dominando o mundo antigo. Ele foi um homem abominável que usou de engano e traição, e de violência terrível contra o povo de Deus. “E se fortalecerá o seu poder, mas não pela sua própria força; e destruirá maravilhosamente, e prosperará, e fará o que lhe aprouver; e destruirá os poderosos e o povo santo. E pelo seu entendimento também fará prosperar o engano na sua mão; e no seu coração se engrandecerá, e destruirá a muitos que vivem em segurança; e se levantará contra o Príncipe dos príncipes, mas sem mão será quebrado.” Daniel 8:24,25 Antíoco Epífanio lançou uma terrível campanha contra o culto ao Senhor, fazendo o máximo possível em Jerusalém para provocar e humilhar aos israelitas fiéis. Ele proibiu a leitura da Torá e queimou todas as cópias existentes, transformando em crime o seu porte, ele encorajou os homens mais imorais e malignos em sua desobediência e perseguição aos honestos e fiéis de Israel, ele sacrificou um porco sobre o altar do Templo de Jerusalém, e trouxe prostitutas e uma estátua de Zeus, afirmando que este era o novo deus que os israelitas tinham de adorar. Ele não apenas era louco e mal, mas sádico. Não demorou muito para que uma revolta despontasse entre alguns do povo de Deus. A família dos macabeus, com quatro irmãos, liderou uma guerrilha contra este domínio helenista, e por incrível que pareça, depois de anos de um conflito violento, eles finalmente venceram. O livro de Macabeus foi adicionado posteriormente à Bíblia apenas como um registro histórico destes acontecimentos, sem valor teológico. Através dele, o leitor pode notar a intensidade das batalhas, com “lança-chamas” e elefantes de batalha. Antíoco posteriormente morreria “pelas mãos do Senhor”, por doença, e não por guerra. Antíoco IV Epifânio 288


“Porque curvei Judá para mim, enchi com Efraim o arco; suscitarei a teus filhos, ó Sião, contra os teus filhos, ó Grécia! E pôr-teei, ó Sião, como a espada de um poderoso. E o SENHOR será visto sobre eles, e as suas flechas sairão como o relâmpago; e o Senhor DEUS fará soar a trombeta, e irá com os redemoinhos do sul. O Senhor dos Exércitos os amparará; eles devorarão, depois que os tiverem sujeitado, as pedras da funda; também beberão e farão barulho como excitados pelo vinho; e encher-se-ão como bacias de sacrifício, como os cantos do altar.E o Senhor seu Deus naquele dia os salvará, como ao rebanho do seu povo: porque como pedras de uma coroa eles resplandecerão na sua terra.” Zacarias 9:13-16 O início da revolta dos macabeus tinha o propósito de trazer a pureza e a restauração ao culto e ao povo de Deus, mas não demorou muito para que ele se tornasse um desvirtuado sistema político em conluio com a casta sacerdotal. Israel conseguiu por alguns anos sua independência política, e parecia que a maldição das 70 semanas tinha sido lavada pelo arrependimento. Mas Israel tomou para si reis que não pertenciam à linhagem messiânica dos reis de Judá, e os sacerdotes também passaram a ser indicados por motivos políticos e monetários. Cargos comprados e por indicação se tornaram comuns, e assim, a linhagem dos levitas foi corrompida de modo descarado, e os reis e o povo pareciam ver isso como algo comum. E então, com um reino e sacerdócio corrompido, a ira do Senhor continuou sobre o povo, e desta vez uma quarta besta dominaria Israel, pior do que todas as anteriores. “E o quarto reino será forte como ferro; pois, como o ferro, esmiúça e quebra tudo; como o ferro que quebra todas as coisas, assim ele esmiuçará e fará em pedaços. E, quanto ao que viste dos pés e dos dedos, em parte de barro de oleiro, e em parte de ferro, isso será um reino dividido; contudo haverá nele alguma coisa da firmeza do ferro, pois viste o ferro misturado com barro de lodo. E como os dedos dos pés eram em parte de ferro e em parte de barro, assim por uma parte o reino será forte, e por outra será frágil. Quanto ao que viste do ferro misturado com barro de lodo, misturar-se-ão com semente humana, mas não se ligarão um ao outro, assim como o ferro não se mistura com o barro. Mas, nos dias desses reis, o Deus do céu levantará um reino que não será jamais destruído; e este reino não passará a outro povo; esmiuçará e consumirá todos esses reinos, mas ele mesmo subsistirá para sempre. Da maneira que viste que do monte foi cortada uma pedra, sem auxílio de mãos, e ela esmiuçou o ferro, o bronze, o barro, a prata e o ouro; o grande Deus fez saber ao rei o que há de ser depois disto. Certo é o sonho, e fiel a sua interpretação.” Daniel 2:40-45 289


Depois disto eu continuei olhando nas visões da noite, e eis aqui o quarto animal, terrível e espantoso, e muito forte, o qual tinha dentes grandes de ferro; ele devorava e fazia em pedaços, e pisava aos pés o que sobejava; era diferente de todos os animais que apareceram antes dele, e tinha dez chifres. Estando eu a considerar os chifres, eis que, entre eles subiu outro chifre pequeno, diante do qual três dos primeiros chifres foram arrancados; e eis que neste chifre havia olhos, como os de homem, e uma boca que falava grandes coisas.” Daniel 7:7-8 Disse assim: O quarto animal será o quarto reino na terra, o qual será diferente de todos os reinos; e devorará toda a terra, e a pisará aos pés, e a fará em pedaços. E, quanto aos dez chifres, daquele mesmo reino se levantarão dez reis; e depois deles se levantará outro, o qual será diferente dos primeiros, e abaterá a três reis. E proferirá palavras contra o Altíssimo, e destruirá os santos do Altíssimo, e cuidará em mudar os tempos e a lei; e eles serão entregues na sua mão, por um tempo, e tempos, e a metade de um tempo. Mas o juízo será estabelecido, e eles tirarão o seu domínio, para o destruir e para o desfazer até ao fim. E o reino, e o domínio, e a majestade dos reinos debaixo de todo o céu serão dados ao povo dos santos do Altíssimo; o seu reino será um reino eterno, e todos os domínios o servirão, e lhe obedecerão. Daniel 7:23-27 Roma foi representada nas visões de Daniel como uma besta de ferro, e como as pernas de uma estátua de ferro. Roma foi, por centenas de anos, uma República, mas próximo à época do nascimento de Cristo, ela se tornou um Império governado por figuras influentes. Até a Queda de Jerusalém dez césares subiram ao trono romano. Eles são representados Júlio César na visão das quatro bestas como sendo 10 chifres. No sonho da estátua, em Daniel 2, vemos que esta fase final consiste de um reino dividido e instável, e eles são um símbolo das províncias romanas sob a autoridade militar, tão diferentes umas das outras, e odiosas do Poder Imperial sobre elas. Como os dedos dos pés somados (os pés da visão da Estátua em Daniel 2) são em número de 10, assim também reinaram os 10 césares antes da destruição do Templo e de Israel.

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Foi nos dias mais terríveis de todos, quando os reinos dos gentios chegaram ao ápice de seu pecado, que um Rei diferente dos demais veio reclamar Seu Trono. O cenário foi preparado pelo primeiro dos césares, Júlio César. Ele foi um administrador capaz, e um grande conquistador, que expandiu o Império sobre o que hoje é o território francês, na Gália, onde em um de seus cercos deixou 20.000 gauleses morrerem de fome, entre os quais haviam também mulheres e crianças. Ambicioso e cruel orgulhoso e manipulador, ele representava a visão romana deste novo Império.. Jesus nasceu no quarto ano do segundo césar, Augusto. “Naqueles dias, foi publicado um decreto de César Augusto, convocando toda a população do império para recensear-se (...) o anjo, porém, lhes disse: Não temais; eis que trago boa-nova de grande alegria, que será para todo o povo: é que vos nasceu hoje, na cidade de Davi, o Salvador, que é Cristo, o Senhor.” Augusto nunca imaginou que o censo que ele fizera para saber o poder do Império que estava sob ele levaria ao cumprimento de uma profecia feita tantos séculos atrás. E assim, um Rei humilde nasceu em uma manjedoura. Um rei muito diferente dos poderosos césares, cujos arautos celestiais Augusto César anunciaram um dos acontecimentos mais importantes da História do Universo a alguns pastores (profissionais desprezados e solitários, pois eram tomados muitas vezes por bandidos), nascido em meio aos animais de Sua criação. José e Maria eram descendentes da linhagem real. Eles eram, apesar de não exercerem sua autoridade, um rei e uma rainha exilados, enquanto os reis ilegítimos estavam no trono. Herodes, o Grande, que comandou o assassinato das crianças nascidas em Belém, não era o herdeiro legítimo do trono. Ele foi uma mistura de várias linhagens que, desde o Antigo Testamento, haviam sido rejeitadas por Deus. Ele era um idumeu (os descendentes de Edom, “Esaú”), sua mãe era árabe nabateia, da linhagem associada a Ismael. Ele tentou legitimar seu poder casando-se com uma descendente da família real dos hasmoneus (descendentes dos Macabeus), que haviam se tornado os reis “oficiais” de Israel depois de expulsarem os gregos. Mas a linhagem do Messias não era a dos hasmoneus. Seu poder estava sujeito à besta romana, Augusto. Herodes era um homem paranóico e sanguinário, que por medo de perder o poder assassinara várias de suas mulheres e filhos para,

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supostamente, manter o poder. Augusto criou um provérbio de que era melhor ser o porco de Herodes do que ser um filho seu. Mas por muitos anos, nosso Senhor passou despercebido, humilde, sem ser reconhecido ... quão diferente isso era do orgulho humano. O ministério do Nosso Rei se deu nos dias do terceiro César, Tibério. Neste tempo ele cumpriu as profecias do Antigo Testamento com Sua vida, e muitas outras com Sua morte, Ressurreição e Ascensão. Ele É a pequena pedra que caía sobre a grandiosa estátua da visão de Nabucodonosor. O que uma pequena pedra poderia fazer? O que a pedra que os construtores rejeitaram poderia fazer? Os israelitas esperavam alguém que viesse destruir o Império Romano, mas eles falharam Tibério César em ver que o domínio romano era apenas um prolongamento das 70 semanas de anos que Deus impusera sobre eles diante de sua rebelião. Jesus veio para destruir todo o sistema do Mundo e todo o domínio do Príncipe deste Mundo. Roma era apenas uma pequena consequência deste domínio. E foi isso que Ele fez, cumprindo as promessas de Deus para Adão e Eva, aos patriarcas e aos profetas, e até sobre as nações gentias. Até mesmo os gentios vieram reconhecer Seu reinado, e puderam fazê-lo baseados nas informações há muito deixadas por Daniel em suas profecias. Mas sobre a casa de Davi, e sobre os habitantes de Jerusalém, derramarei o Espírito de graça e de súplicas; e olharão para mim, a quem traspassaram; e prantearão sobre ele, como quem pranteia pelo filho unigênito; e chorarão amargamente por ele, como se chora amargamente pelo primogênito. Naquele dia será grande o pranto em Jerusalém, como o pranto de Hadade-Rimom no vale de Megido. Zacarias 12:10-11 E foi-lhe dado o domínio, e a honra, e o reino, para que todos os povos, nações e línguas o servissem; o seu domínio é um domínio eterno, que não passará, e o seu reino tal, que não será destruído.(...) Mas os santos do Altíssimo receberão o reino, e o possuirão para todo o sempre, e de eternidade em eternidade. (Daniel)

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Calígula, o quarto César, e Cláudio, o quinto César Nestes dias nasceu a Igreja, e o muro da Separação entre os judeus e os gentios foi quebrado. Mas a Igreja se expandiu grandemente sob os dias dos reinados dos quartos e quinto césares, sob os primeiros apóstolos e sob o apóstolo Paulo, designado não para as doze Tribos de Israel, mas para os gentios. O insano Calígula foi o quarto César, e o justo Cláudio foi o quinto. Sob os dias de Cláudio, o cristianismo já se espalhara tanto que os judeus e cristãos foram expulsos de Roma, como contam os historiadores romanos. “Como os judeus, por instigação de Chrestus, estivessem constantemente provocando distúrbios, ele [Claudio] os expulsou de Roma”. Isso mostra que, apesar de não entenderem exatamente o que estava acontecendo, o nome de Jesus já se espalhara por todo o mundo. Será, porém, que a sorteareis para vossa herança, e para a dos estrangeiros que habitam no meio de vós, que gerarão filhos no meio de vós; e vos serão como naturais entre os filhos de Israel; convosco entrarão em herança, no meio das tribos de Israel. E será que na tribo em que habitar o estrangeiro, ali lhe dareis a sua herança, diz o Senhor DEUS. Ezequiel 47:22,23 Então me levou para fora, para o átrio exterior, e me fez passar pelos quatro cantos do átrio; e eis que em cada canto do átrio havia outro átrio. Nos quatro cantos do átrio havia outros átrios juntos, de quarenta côvados de comprimento e de trinta de largura; estes quatro cantos tinham uma mesma medida. E havia uma fileira construída ao redor deles, ao redor dos quatro; e havia cozinhas feitas por baixo das fileiras ao redor. E me disse: Estas são as cozinhas, onde os ministros da casa cozerão o sacrifício do povo. Ezequiel 46:21-24

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Assim virão muitos povos e poderosas nações, a buscar em Jerusalém ao Senhor dos Exércitos, e a suplicar o favor do Senhor. Assim diz o Senhor dos Exércitos: Naquele dia sucederá que pegarão dez homens, de todas as línguas das nações, pegarão, sim, na orla das vestes de um judeu, dizendo: Iremos convosco, porque temos ouvido que Deus está convosco. Zacarias 8:22,23 Mas a maioria dos judeus da época de Jesus não dava a mínima para as promessas feitas por Deus a Abraão, de abençoar todas as nações. Toda sua visão de mundo se resumia ao ódio aos estrangeiros, ao legalismo e tradições humanos, e no orgulho diabólico que os levara a entregar O próprio Deus À Cruz. Eles odiavam a Deus, e tinham o diabo por pai. Por isso eles se opuseram grandemente aos apóstolos e perseguiram Paulo, por isso eles são chamados de Sinagoga de Satanás. Na verdade, o judaísmo do século primeiro se tornara tão deformado e corrompido que quase nada tinha a ver com a religião do Antigo Testamento. A menção de vários átrios na profecia de Zacarias mostra que não havia apenas um “átrio” para os judeus, mas que a abundância sobre outras nações que buscavam a Deus seria tão grande que haveria “vários átrios”. Mas o Evangelho salvara primeiramente muitos judeus, e agora, os gentios vinham à sua sombra. E a pequena “pedra” começava a se tornar uma “montanha que preencheria toda a Terra”. “Ninguém de maneira alguma vos engane; porque não será assim sem que antes venha a apostasia, e se manifeste o homem do pecado, o filho da perdição. O qual se opõe, e se levanta contra tudo o que se chama Deus, ou se adora; de sorte que se assentará, como Deus, no templo de Deus, querendo parecer Deus.” 2 Tessalonicenses 2:3,4 Mas Paulo sabia que a perseguição por parte dos gentios também viria de forma terrível, e advertiu a Igreja de que ainda se levantariam homens terríveis e a apostasia frente a perseguições tão cruéis como nada jamais visto. Nero, o maligno sexto E foi na época de Nero, o sexto chifre, que as César coisas se tornaram violentas. A primeira grande perseguição aos cristãos aconteceu com todo o furor do inferno. Apocalipse lê: Aqui está o sentido, que tem sabedoria: as sete cabeças são sete montes, nos quais a mulher está sentada. São também sete reis, dos quais caíram cinco, um existe, e o outro ainda não chegou; e, quando 294


chegar, tem de durar pouco. E a besta, que era e não é, também é ele, o oitavo rei, e procede dos sete, e caminha para a destruição” Apocalipse 17:9-11 A mulher em Apocalipse, a Grande Babilônia, é uma cidade construída sobre sete colinas, obviamente, Roma. Cinco reis tinham caído (e aqui existem muitas disputas cronológicas, mas uma interpretação muito provável é a que segue), sendo eles os cinco primeiros césares, Júlio, Augusto, Tibério, Calígula e Cláudio. Um existia, e provavelmente era o sexto César, Nero. A gematria (uso de números hebraicos para simbolizar letras), para César Nero, NVRN RSQ, é, de fato, 666. Aqui a profecia de Apocalipse não bate com os 10 chifres e nem com os 10 dedos da Estátua, pois diz que o fim viria depois de um oitavo rei, que viria. Mas isso faz sentido pelo o contexto, pois depois de Nero a situação de Roma se tornou tão tumultuosa que quatro reis subiram ao trono em apenas um ano, e o décimo César foi o que destruiu Jerusalém. Alguns destes imperadores não foram considerados legítimos césares.

No ano 69, Roma teve 4 imperadores: Galba, Óton, Vitélio e Vespasiano (Tito)

A situação de Roma e de Jerusalém se tornou tão caótica que muitos realmente pensaram que o mundo estava para terminar. Acima, os quatro reis do Império Romano que reinaram em 69 d.C. Vespasiano, também conhecido como Tito, foi o César responsável pela destruição de Jerusalém. Ele não foi um homem terrível como Calígula ou Nero, mas não vamos perder o foco aqui: o principal motivo para o domínio dos gentios era a ira de Deus sobre o povo de Israel, que rejeitara não só a Antiga Aliança, mas agora, também rejeitara o Messias. Israel rejeitou Jesus em favor de Barrabás. O que eles disseram? “Que o sangue Dele caia sobre nós”. E então, seu destino foi selado, como disse Jesus, naquela geração. Deus não mais aceitaria os sacrifícios e ofertas levíticos quando o 295


Sangue de Seu Filho já havia sido derramado em favor de toda a humanidade. O povo impenitente de Israel ESCOLHERA a Ira de Deus! E assim, as predições de Jesus sobre a destruição do Templo e de Jerusalém eram iminentes. A profecia de Zacarias nos conta sobre a rejeição do Messias e ira de Deus manifestada pelo poderio do décimo chifre da máquina de guerra romana, a besta de ferro, também fala da rejeição dos líderes religiosos e políticos: “Abre, ó Líbano, as tuas portas para que o fogo consuma os teus cedros.Geme, ó cipreste, porque o cedro caiu, porque os mais poderosos são destruídos; gemei, ó carvalhos de Basã, porque o bosque forte é derrubado. Voz de uivo dos pastores! Porque a sua glória é destruída; voz de bramido dos filhos de leões, porque foi destruída a soberba do Jordão. Assim diz o Senhor meu Deus: Apascenta as ovelhas da matança. Cujos possuidores as matam, e não se têm por culpados; e cujos vendedores dizem: Louvado seja o Senhor, porque tenho enriquecido; e os seus pastores não têm piedade delas. Certamente não terei mais piedade dos moradores desta terra, diz o Senhor; mas, eis que entregarei os homens cada um na mão do seu próximo e na mão do seu rei; eles ferirão a terra, e eu não os livrarei da sua mão. Eu, pois, apascentei as ovelhas da matança, as pobres ovelhas do rebanho. Tomei para mim duas varas: a uma chamei Graça, e à outra chamei União; e apascentei as ovelhas. E destruí os três pastores num mês; porque a minha alma se impacientou deles, e também a alma deles se enfastiou de mim. E eu disse: Não vos apascentarei mais; o que morrer, morra; e o que for destruído, seja destruído; e as que restarem comam cada uma a carne da outra. E tomei a minha vara Graça, e a quebrei, para desfazer a minha aliança, que tinha estabelecido com todos estes povos. E foi desfeita naquele dia; e assim conheceram os pobres do rebanho, que me respeitavam, que isto era palavra do Senhor. Porque eu lhes disse: Se parece bem aos vossos olhos, dai-me o meu salário e, se não, deixai-o. E pesaram o meu salário, trinta moedas de prata. O Senhor, pois, disseme: Arroja isso ao oleiro, esse belo preço em que fui avaliado por eles. E tomei as trinta moedas de prata, e as arrojei ao oleiro, na casa do Senhor. Então quebrei a minha segunda vara União, para romper a irmandade entre Judá e Israel.” Zacarias 11:1-14

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Soldados romanos levam os despejos do Templo destruído de Jerusalém, cena retratada no Arco de vitória de Tito “Eis que vem o dia do SENHOR, em que teus despojos se repartirão no meio de ti. Porque eu ajuntarei todas as nações para a peleja contra Jerusalém; e a cidade será tomada, e as casas serão saqueadas, e as mulheres forçadas; e metade da cidade sairá para o cativeiro, mas o restante do povo não será extirpado da cidade. E o Senhor sairá, e pelejará contra estas nações, como pelejou, sim, no dia da batalha. Zacarias 14:1-3” “E naquele tempo se levantará Miguel, o grande príncipe, que se levanta a favor dos filhos do teu povo, e haverá um tempo de angústia, qual nunca houve, desde que houve nação até àquele tempo; mas naquele tempo livrar-se-á o teu povo, todo aquele que for achado escrito no livro. E muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para vida eterna, e outros para vergonha e desprezo eterno. Os que forem sábios, pois, resplandecerão como o fulgor do firmamento; e os que a muitos ensinam a justiça, como as estrelas sempre e eternamente. E tu, Daniel, encerra estas palavras e sela este livro, até ao fim do tempo; muitos correrão de uma parte para outra, e o conhecimento se multiplicará.” Daniel 12:1-4 A queda de Jerusalém não pode ser descrita como nada menos do que apocalíptica. Movimentos radicais e zelotes queimaram todo o alimento da população para forçá-los a lutar contra os romanos (a vara União foi quebrada). Fome, guerra civil, estupro, extremismo, 297


canibalismo, suicídio coletivo, e a calamidade da guerra que tornou os campos de Israel em cinzas e pintou as águas com o sangue dos milhares de mortos. Aqueles que ouviram o alerta de Jesus sobre aqueles dias não confiariam em Jerusalém como sua segurança (Jesus já referira que aqueles dias seriam piores em calamidade do que qualquer outro desde o início da Terra). Proporcionalmente à população judaica viva na época, o que aconteceu no ano 70 d.C. foi pior do que o Holocausto no século XX. A Queda de Jerusalém aconteceu no aniversário de seu Exílio para a Babilônia, que tinha acontecido cinco séculos antes. Eu continuei olhando, até que foram postos uns tronos, e um ancião de dias se assentou; a sua veste era branca como a neve, e o cabelo da sua cabeça como a pura lã; e seu trono era de chamas de fogo, e as suas rodas de fogo ardente. Um rio de fogo manava e saía de diante dele; milhares de milhares o serviam, e milhões de milhões assistiam diante dele; assentou-se o juízo, e abriram-se os livros. Então estive olhando, por causa da voz das grandes palavras que o chifre proferia; estive olhando até que o animal foi morto, e o seu corpo desfeito, e entregue para ser queimado pelo fogo; E, quanto aos outros animais, foi-lhes tirado o domínio; todavia foi-lhes prolongada a vida até certo espaço de tempo. Eu estava olhando nas minhas visões da noite, e eis que vinha nas nuvens do céu um como o filho do homem; e dirigiu-se ao ancião de dias, e o fizeram chegar até ele. E foi-lhe dado o domínio, e a honra, e o reino, para que todos os povos, nações e línguas o servissem; o seu domínio é um domínio eterno, que não passará, e o seu reino tal, que não será destruído. Daniel 7:9-14 Os cristãos judeus sobreviveram fugindo da cidade, e assim, viram o julgamento de Deus sobre a geração que os perseguira. E a grande besta de ferro, que levou o fim aos judeus, teve muitos de seus cidadãos se convertendo ao Reino do Messias, que diferentemente de todos os reinos desta Terra, domina com a Paz. E Roma foi apenas o início, quando a força do Império começou a se fragmentar, Deus trouxe para si os bárbaros e muitos povos que começaram a adentrar as fronteiras do Império Romano. Diferente das outras bestas da visão de Daniel, Roma não chegou a um fim, nem chegará até o final do mundo. [1] Ela criou um “paganismo batizado” a partir de Constantino, e por muito tempo perseguiu a verdadeira Igreja. Mas essa não é a questão principal. Roma não durará para sempre, e se engana quem pensa que é sob ela que se encontra o controle do mundo. O Reino passou para as mãos do Cordeiro, do Filho de Deus. Não somos Israel, e não vivemos sob o domínio das bestas, mas vivemos sob o domínio e poderio do Príncipe da Paz. O Reino de Deus já veio! Jesus é o Filho do Homem, o Filho do 298


Ancião de Dias. E o período da História em que vivemos agora é o Seu domínio, e nenhuma nação ou povo pode resistir a Ele. Milhares, milhões, bilhões. Bilhões de santos foram salvos não só do Império Romano, mas do Império do Pecado, do príncipe deste mundo, dos aguilhões da morte. E então as profecias do tempo de Ezequias se cumprem, quando os maiores inimigos podem se reunir na Mesa do Messias: “E o Senhor se dará a conhecer ao Egito, e os egípcios conhecerão ao Senhor naquele dia, e o adorarão com sacrifícios e ofertas, e farão votos ao Senhor, e os cumprirão. E ferirá o Senhor ao Egito, ferirá e o curará; e converter-se-ão ao Senhor, e mover-se-á às suas orações, e os curará. Naquele dia haverá estrada do Egito até à Assíria, e os assírios virão ao Egito, e os egípcios irão à Assíria; e os egípcios servirão com os assírios. Naquele dia Israel será o terceiro com os egípcios e os assírios, uma bênção no meio da terra. Porque o Senhor dos Exércitos os abençoará, dizendo: Bendito seja o Egito, meu povo, e a Assíria, obra de minhas mãos, e Israel, minha herança.” Isaías 19:21-25

Principais cidades onde o Cristianismo despontou no Século I “Um ramo surgirá do tronco de Jessé, e das suas raízes brotará um renovo.O Espírito do Senhor repousará sobre ele, o Espírito que dá sabedoria e entendimento, o Espírito que traz conselho e poder, o Espírito que dá conhecimento e temor do Senhor. E ele se inspirará no temor do Senhor. Não julgará pela aparência, nem decidirá com base no 299


que ouviu; mas com retidão julgará os necessitados, com justiça tomará decisões em favor dos pobres. Com suas palavras, como se fossem um cajado, ferirá a terra; com o sopro de sua boca matará os ímpios. A retidão será a faixa de seu peito, e a fidelidade o seu cinturão. O lobo viverá com o cordeiro, o leopardo se deitará com o bode, o bezerro, o leão e o novilho gordo pastarão juntos; e uma criança os guiará. A vaca se alimentará com o urso, seus filhotes se deitarão juntos, e o leão comerá palha como o boi. A criancinha brincará perto do esconderijo da cobra, a criança colocará a mão no ninho da víbora. Ninguém fará nenhum mal, nem destruirá coisa alguma em todo o meu santo monte, pois a terra se encherá do conhecimento do Senhor como as águas cobrem o mar. Naquele dia as nações buscarão a Raiz de Jessé, que será como uma bandeira para os povos, e o seu lugar de descanso será glorioso.” Isaías 11:1-10 As genealogias deste Reino são diferentes de todas as outras, e não passam pelo nascimento, nem pela força da carne. Elas nasceram com Jesus Cristo, passaram pelos apóstolos, e chegaram a todos os reinos dos homens, de boca a boca, de oração em oração, nada além de missões. E nele, pessoas mais novas podem receber a graça de serem “pais e mães” na fé de pessoas mais velhas do que elas, e assim, este reino não é constituído nem por uma raça, e nem por uma terra, mas sim por um Deus, e um povo, um batismo, um evangelho, e um Pai Celestial. E assim se cumpre o Salmo 87, falando da Jerusalém de cima, e não da terrena, quando diz “O Senhor escreverá no Livro dos povos: Lá,(em Jerusalém) este nasceu. E dançando cantarão, “em ti estão minhas fontes todas”. E assim prosseguem as histórias nestes tempos, que são os últimos, com as histórias de ex-pecadores de todos os tipos, tamanhos e formatos, nacionalidades, raças e tribos. Salvos e trazidos ao Senhor como as feras foram trazidas à Arca, antes que as águas encerrassem o mundo. E destas histórias maravilhosas, o mundo pouco sabe, e até mesmo a Igreja nestes últimos dias não tem sido devidamente lembrada. E quem poderia contar os bilhões de histórias daqueles irmãos que se juntam a nós desde o começo do Reino de Nosso Rei? Tome um globo ou um mapa, veja o tamanho de Israel, e considere, como de um simples homem, Abraão, todas as nações têm sido abençoadas. E até mesmo nós, que vivemos do outro lado dos oceanos, nos confins mais profundos da Terra, temos sido preenchidos com o conhecimento do Deus, o único Deus. Toda a Terra se encheu da Sua Glória. Embora nem eu, nem qualquer outro possa escrever um livro que conte estes bilhões de histórias, tenho certeza que Nosso Senhor os está registrando (ou já os têm registrado) no glorioso Livro da Vida. E então, podemos viver alegres 300


e desejosos, e já sabendo que os salvos já desfrutam desta comunhão, mais poderosa que qualquer Império de ouro, prata, bronze ou ferro. E na companhia daqueles que viveram pela fé no Senhor durante a Antiga Aliança, e na companhia daqueles que vivem pela fé no Senhor da Nova Aliança, permaneço na esperança de encontrá-los um dia na presença de Nosso Rei. E todos nós temos a esperança de encontrá-Lo, não apenas como súditos, mas como amigos e filhos. E vi um novo céu, e uma nova terra. Porque já o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existe. E eu, João, vi a santa cidade, a nova Jerusalém, que de Deus descia do céu, adereçada como uma esposa ataviada para o seu marido. E ouvi uma grande voz do céu, que dizia: Eis aqui o tabernáculo de Deus com os homens, pois com eles habitará, e eles serão o seu povo, e o mesmo Deus estará com eles, e será o seu Deus. E Deus limpará de seus olhos toda a lágrima; e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor; porque já as primeiras coisas são passadas. E o que estava assentado sobre o trono disse: Eis que faço novas todas as coisas. E disse-me: Escreve; porque estas palavras são verdadeiras e fiéis. E disse-me mais: Está cumprido. Eu sou o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim. A quem quer que tiver sede, de graça lhe darei da fonte da água da vida. Quem vencer, herdará todas as coisas; e eu serei seu Deus, e ele será meu filho. Apocalipse 21:1-7 (...) E nela não vi templo, porque o seu templo é o Senhor Deus Todo-Poderoso, e o Cordeiro. E a cidade não necessita de sol nem de lua, para que nela resplandeçam, porque a glória de Deus a tem iluminado, e o Cordeiro é a sua lâmpada. E as nações dos salvos andarão à sua luz; e os reis da terra trarão para ela a sua glória e honra. E as suas portas não se fecharão de dia, porque ali não haverá noite. E a ela trarão a glória e honra das nações. E não entrará nela coisa alguma que contamine, e cometa abominação e mentira; mas só os que estão inscritos no livro da vida do Cordeiro. Apocalipse 21:22-27

Amém, vem Senhor Jesus.

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Cronologia com os principais acontecimentos presenciados pela genealogia de Jesus desde os dias de Jeconias Datas Aproximadas (a.C.) 562-560 – Jeconias (Joaquim) é liberto da prisão; 537 – Zorobabel (da linhagem de Jesus) é apontado como primeiro governador dos judeus repatriados em Judá (apontado por Ciro); Nos dias de Eliaquim (10º geração) – 421-375: -Malaquias escreve as últimas profecias do Antigo Testamento; -Sambalate ameaça depor o Sumo-Sacerdote Manassés com a ajuda do rei da Pérsia, e constrói um novo “templo” em Samaria, no Monte Gerizim, para os samaritanos; -Início do Reinado de Artaxerxes II; -Xenofonte e Sócrates, na Grécia;

III; Jado;

Nos dias de Azor (9º geração) – 375-329: -Platão e Aristóteles na Grécia, Aristóteles torna-se tutor de Alexandre; -333- Alexandre, o Grande cumpre a profecia contra Tiro, derrota Dario -Alexandre oferece sacrifícios no Templo sob a instrução do sacerdote

-Alexandre isenta os judeus de impostos no sétimo ano, benefício estendido aos exilados e aos que se alistarem em seu exército; Nos dias de Zadoque (8º geração) – 329-283: -Ptolomeu Sóter se aproveita do sábado para conquistar Jerusalém sem uma luta, captura judeus e os envia ao Egito; -323- Morre Alexandre, o Grande; Nos dias de Aquim (7º geração)- 283-237: -Ptolomeu Filadelfo, liberta 120.000 judeus para voltarem à Israel, ele paga aos donos de escravos por eles; -Ptolomeu Filadelfo deseja oferecer uma mesa de sacrifícios cinco vezes maior ao Templo, mas com medo de torná-la inútil, a faz do tamanho exigido, mas cinco vezes mais cara; -Demétrio Falero, Diretor da Biblioteca de Alexandria traz os sacerdotes de Jerusalém para o Egito e lhes dá o dever de traduzir a primeira versão das Escrituras para outra língua, nasce a Septuaginta (versão grega do Antigo Testamento), também chamada de a Bíblia dos LXX; -280-275- Guerras Pírricas; -265-241- Primeira Guerra Púnica, Roma se expande; 302


Nos dias de Eliúde (6º geração)- 237-191: -219-202 – Segunda Guerra Púnica; -197- Roma derrota Filipe, da Madedônia; Nos dias de Eleazar (5º geração)- 191-145: -Senado Romano humilha Antíoco IV Epífanes; -168-165- Revolta dos Macabeus; -É levantado o Átrio dos Estrangeiros Nos dias de Matã (4º geração)- 145-99: -140-135- Simão Hasmoneu (Macabeu) usurpa o trono da linhagem messiânica e se torna “rei-sacerdote”reconhecido por Roma; -134-104- João Hircano adiciona os territórios da antiga Edom e os “força” a se converterem, também expande seu domínio para Samaria e Galiléia; -103-76- Alexandre Janeu no trono de Israel; Nos dias de Jacó (3º geração)- 99-53: -76-63 – João Hircano II, Filho de Janeu, e seu irmão lutam pelo poder; -63- Pompeu intervem e coloca Israel sob o poder romano; -60- Primeiro Triumvirato; -53- Morte de Crasso e de Julia, Trimvirato se desfaz; Nos dias de José (2º geração)- 53-4 a.C.: -49- 44- Guerra Civil em Roma; -Ptolomeu XIII mata Pompeu, Cleópatra se torna a última representante da linhagem dos Faraós do Egito; -Conquistas de Júlio César, que destrói cerca de 800 cidades, aniquila 300 tribos e mata aproximadamente 1.000.000 de pessoas; -40- Herodes, o Grande foge para Roma, o Senado o declara “rei dos judeus”; -37- Herodes toma Jerusalém com a ajuda de Marco Antônio; -36- Herodes aponta Aristóbulo III como sumo-sacerdote; -35- Aristóbulo morre “por acidente”; -32- Revolta nabateia; -32-31- Guerra civil em Roma; -30- Herodes se submete à César Augusto; -29- Herodes assassina sua esposa Marianne; -28- Herodes executa seu cunhado; -20- Projeto de “construção” do Templo; -4 – Hedores executa Antípater, seu terceiro filho. -4- A Encarnação do Verbo (Jesus Cristo)

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Guia ilustrado de genealogias bíblicas  

Rascunho de um livro. Autor: Kalel Henrique Ferro de Oliveira

Guia ilustrado de genealogias bíblicas  

Rascunho de um livro. Autor: Kalel Henrique Ferro de Oliveira

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