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Que tipo de escritos são esses, afinal? Que tipo de escritor é esse? Os únicos tipos que identifico de imediato nessa obra são a letra Times New Roman, o papel branco, o negrito, o itálico, relato, relato de viagem, autobiografia, fantástico maravilhoso, tropical, equatorial, senegalense, indígena, português, INTERATIVIDADE

I – Parte 1 Era tardezinha no dia 16 de janeiro de 2009 quando recebi o inacreditável e-mail da Isadora, principal responsável pela radical e completa mudança no rumo de minha viagem. O destino seria o mesmo: Belém do Pará, Fórum Social Mundial de 2009, 26 a 31 de janeiro, mas certamente não seria a mesma a maneira de chegar lá, e muito menos seria igual o que ocorreria no caminho. Dia 16 de Janeiro, tardezinha. A luz da cidade começa a se misturar com os últimos tons de vermelho do céu. Fumaça. Barulho. Olhos sujos na janela. O relógio da torre obstruído pelo concreto. O mar de tráfego sorri e convida para chorar. Em breve estarei bem longe daqui. Foi-se o Crepúsculo. Email. Isadora, grande amiga, caso tórrido de tempos imemoriais. Muita bebida, muita farra, muito exagero, logo pouca memória. É, gostei dessa nova significação para os tempos imemoriais. Mas fora isso faz algum tempo mesmo, uns dois anos ou mais desde que nos separamos; mas o fogo deixou alguma brasa, ou revelou algo ainda mais brilhante lá dentro do carvão. Sentíamos carinho um pelo outro, nos víamos de vez em quando. Ah, quem sou eu para falar da amizade? O email é dela. Palavras que mudarão meus próximos dias de maneiras inimagináveis. Ela sempre foi boa nisso. Escandalosamente, provocar o inimaginável. A viagem era a minha única certeza, até esse instante. A viagem e o caos diante dos olhos sujos. E o destino: Belém do Pará, Fórum Social Mundial de 2009. Sim, eu sei, programa de índio. E daí? Além disso fui uma vez no Fórum e foi inesquecível, em Florianópolis. Conheci minha última namorada, e um grande amigo. Não um colega, não um brother, não um mano. Amigos: poucos e bons; queria que fosse diferente, mas é assim. E quem é que tem tempo para ser amigo de verdade de dezenas de pessoas? Amizade denovo. Acho que estou meio saudoso, deve ser porque finjo estar escrevendo no tempo presente, mas na verdade é tudo lembrança refabulada para caber num relato que faça o menor sentido. Ou não. É, a viagem deixou saudades. Se deixou também bons amigos acho que vou ter de esperar ainda mais um pouco para descobrir. Amigos: difíceis, poucos e bons. Vou contando a história do meu jeito, algumas partes são transcrições diretas do meu diário, outras são rememórias. Enfim, o intuito não é lançar tudo em seus pormenores. Isso aqui não é jornalismo, não é documentário. Mesmo porque, se fosse narrar a coisa toda sem cortes nem invenção era capaz de acabar todo mundo em cana. Ou jogado num manicômio sujo qualquer. Ok, viagem, Belém do Pará. Sozinho, dessa vez. Não seria a primeira, nem a última. Na verdade prefiro viajar sozinho, meu plano era mesmo viajar sozinho. Simpatizo muito com aquele trecho do o companheiro de viagem do João Cabral: “Sou Viajante calado,/para ouvir histórias bom,/a quem podeis falar/ sem que eu tente me interpor;/ junto a quem podeis/ pensar alto, falar só./ Sempre


em qualquer viagem/ o rio é o companheiro melhor.” Esse negócio de “Sempre” acho exagero, e também não sou nenhum solitário. Na verdade, gosto de viajar sozinho pra conhecer o povo melhor, tecer laços no caminho. Mas mesmo assim gosto desse trecho do Cabral. Sei lá porque. Vai ver que é porque fala de viagem. Talvez seja alguma coisa a mais, a poesia. (...) Enfim, estou perdendo o foco. Email, Isadora, uma nova via se abre para a viagem. Ainda bem, porque não estava gostando muito da idéia de atravessar o Brasil de sul a norte às pressas num ônibus convencional. Eu iria, mas ia ser osso, passeio caro, e penoso; na melhor da hipóteses conhecer alguma paraense no caminho que me fosse revelando aos poucos os segredos de suas terras. Possível, mas não sei não. A estrada é lugar difícil, e isso eu iria comprovar algumas vezes ainda mais tarde. Mas tudo isso para dizer que a Isa tinha lembrado de mim quando ficou sabendo que um amigo seu ia viajar com um bando de artistas para o Fórum, e iam num ônibus alugado por eles, e precisavam de mais gente para deixar a viagem num preço mais acessível. Olhei aquele convide indecente que só poderia ser coisa da Isadora e já surgiram na minha cabeça a centena de loucuras envolvidas no simples ato de aceitar entrar nessa parada. Loucuras. Primeiro, porque eles iam levar nada menos que nove dias para chegar no Pará, pingando no caminho, parando em cidades para fazer shows e apresentações, segundo porque eles eram todos loucos mesmo, e artistas. Dos bons. Na verdade não gostavam muito do termo “shows”. Espetáculos, Performances, Happenings, sei lá qual a palavra mais chegada do pessoal do Canil. Eles falam bastante em Espaço Fluxus, e isso sei que é coisa do povo da Performance. Mas eu é que não sou besta nem dono de feirinha para colocar etiqueta em arte, e além disso, que importa? Estava só de passagem, só queria uma carona. Bom, pelo menos isso é o que eu pensava. O preço compensava muito. Era exatamente o mesmo do ônibus convencional, 370 paus, com a diferença de que pararíamos no caminho, com lugar para dormir incluso, e eu poderia conhecer diversos lugares interessantes. Parecia um bom plano. Só restava checar o quão irresponsável poderia ser o pessoal: como eu disse, o destino era Belém do Pará, e não estava nos planos ficar preso na estrada num hospital, blitz policial, comunidade hippie, dimensão paralela ou qualquer outra encrenca que um bando de jovens artistas com um ônibus inteiro e centenas de instrumentos a disposição poderia arranjar. Tem mais uma coisa. No email diz também que eles farão uma festa amanhã, para confratenizar com os tripulantes da viagem. Está resolvido: vou nessa festa para me certificar de que eles não vão me impedir de chegar em Belém. E pra não julgar com a esperada parcialidade para o lado da arte e da loucura vou levar a Aline comigo. Gatinha loira, bancária, perfumada. Não sei qual é a dela, mas já sei que é bem caretinha. Vai ser o detector de confusão perfeito pra essa ocasião. (...) Cacete. A festa é hoje. Preciso ligar já para a Aline. Ela morá lá perto, acho que vai rolar.


O meu plano inicial era simples: pegar um ônibus da Transbrasiliana ou da Itapemirim lá pelo dia 24, pagar 370 paus e chegar em pouco mais de 51 horas no destino Paraense. Já estava conformado com a perspectiva de atravessar o Brasil de sul a norte , numa tacada, enlatado dentro de um ônibus, e tudo para alcançar aquele grande evento mundial cheio de pessoas de cada canto do mundo, cheio de novidades e vida daquela região equatorial para mim ainda desconhecida. Sim, valeria a pena percorrer àquela via interminável, metido numa poltrona - que nem “semileito” era, se ao final encontrasse um destino tão promissor. E assim eu faria, na esperança de depois voltar com mais calma, parando nos lugares que quisesse, dando o tempo para a viagem acontecer. Mas as coisas correram de uma maneira maravilhosa e inesperada, e a tal via norte-sul nesse imenso Brasil mudou-se de um imenso deserto de asfalto a ser percorrido com sofrimento e dores musculares em uma série de destinos tão incríveis e histórias que eu não poderia sequer tê-las imaginado antes de efetivamente acontecerem. A grande mudança, portanto, se deu justamente por causa do e-mail de Isadora, no dia 16 de janeiro. O conteúdo, em suma, era o seguinte: um convite a quem recebesse aquele para juntar-se ao ônibus de um grupo de artistas sediado na mais respeitada universidade do país, que seguiria rumo ao fórum social mundial, mas no caminho aproveitaria para fazer algumas paradas e executar performances. Junto com o convite da viagem vinha também um convite para uma festa com o pessoal que viajaria. Parecia até uma brincadeira, mas mesmo assim resolvi comparecer na festa que ocorreria na noite seguinte para conhecer o pessoal que viajaria e descobrir do que se tratava. Convidei a Aline, que morava lá por perto para ir comigo e dar sua opinião sobre a galera. Uma garota bem ajuizada (até demais, às vezes!), pensei, seria a conselheira ideal para me impedir de embarcar numa aventura muito furada. Depois fui percebendo que ela não era exatamente a caretona que eu imaginava, mas segui seu conselho: seguir com aquele pessoal. Mesmo sem ser careta, ela continuava uma respeitável opinião para mim. Sem falar que eu já estava decidido a ir de qualquer maneira, desde quando recebera o tal email, no dia anterior.


17 de janeiro. Primeira noite sem dormir. A festa, em suma, foi uma tremenda orgia, com mais de uma dezena de músicos produzindo uma massa sonora de peso, e excepcionalmente bem conjuntada, harmoniosa. Carrom, agogô, bateria, teclado, guitarra, baixo, djambê, chocalhos mil, flauta transversal, berimbaus, tambores variados e até um cone de trânsito gigantesco. Era uma batucada dos infernos sim, de colocar as velhinhas para babar, mas era uma batucada de imensa qualidade. Não era de se esperar menos: as faculdades de música que grande parte deles cursava era simplesmente as melhores. Esses cursos têm um exame de ingresso tão rígido como o exame de conclusão de curso da maioria das faculdades que se vê hoje por aí. Com o tempo vou perceber que além de fazer uma batucada poderosa eles ainda são capazes de fazer sons mais amenos, também para velhinhas dançarem, crianças dançarem e adolescentes pirarem, como realmente vai acontecer nas cidades em que passamos. Perceberei também que junto com os músicos embarcava naquela jornada ainda uma série de outros artistas e profissionais, entre dançarinas, artistas plásticos, atores, jornalistas e até um malabarista. Comigo, enfim, contam ainda com um estudante de filosofia quase formado e um advogado não conformado. Da parte da filosofia, talvez a mais importante função: palpiteiro profissional. Como advogado, sou mais um pesquisador, dos direitos humanos e direito penal. Espero não ter de usar minha experiência com advocacia penal. Os problemas com direitos humanos, já sei, serão inevitáveis.Temos um território indígena ameaçado e um assentamento de sem-terras sobreviventes do massacre de Eldorado dos Carajás no itinerário. A Aline não encrencou com a galera, então vou nessa numa boa. Na verdade fiquei tentado a convencer de ir comigo, pra ver se ela mandava alguma justificativa do tipo “eles são loucos demais para mim”, mas que nada. Ela não vai porque não pode mesmo, uma pena.


II. A partida 18 de janeiro. Fiquei sabendo do ônibus no dia 16, fim da tarde. Dia 16 pela noite estava na festa e já dia 18 de manhã estou partindo, ou preparado para partir. Observo com os olhos meio vidrados um sujeito magrelo ensinar malabarismo para uma turma. Todos vão viajar. Nesse meio tempo fiz o que pude arrumando as malas e corri para comprar um celular que viesse também com máquina fotográfica para poder registrar as imagens da viagem e ainda substituir meu aparelho, que já estava tão velho que nem carga segurava mais. Os vendedores olhavam pra ele com desdém e diziam que não valia a pena trocar a bateria. Porcaria de obsolescência programada. Mais um monte de lixo na conta dos nossos filhos. Essa noite não dormi também, fiquei enchendo as malas na maior correria. Uma cacetada de malas. Quase nem percebi que estava fazendo tudo o que queria não fazer em minha próxima viagem: sair sem um minuncioso planejamento e, além disso, sair acompanhado, carregando um peso muito maior que o necessário, cheio de livros e roupas para um mês inteiro. Quanto a sair sem planejamento quero dizer não só sair sem saber bem o trajeto da viagem, ou fazer uma pesquisa sobre cada lugar onde iria estar, ou mesmo adquirir os equipamentos e roupas necessários para a viagem. Quero dizer planejamento num sentido mesmo profundo, como um método elaborado de interagir com cada destino, com cada via. Um método que me preparasse para absorver o máximo de experiências que pudesse encontrar e, mais do que isso, um método para verdadeiramente encontrar os lugares e, especialmente, as pessoas de cada lugar. Não, mais do que um simples método, queria a fundamentação desse método também, e os critérios de tal fundamentação, e as reflexões sobre se essa fundamentação mesma era necessária. E sobre o próprio conceito de viagem... pensando a sério sobre a intensidade do ato de viajar. Para isso vinha lendo há meses diversos clássicos da literatura de viagem, vendo filmes sobre viagens, refletindo com filosofia sobre o ato de viajar. Estava vibrando pela segunda vez com o “On the road” e já havia lido diversos guias de viagem dos mais diversos destinos. Coisas variadas como a Odisséia, a primeira viagem documentada do Amyr Klink, as expedições aos pólos, Hans Staden, Darwin, Supertrump, Easy Rider, as cidades invisíveis do Ítalo Calvino, enfim, estava mesmo querendo me aprofundar. Na verdade, como estava também lendo para a faculdade muita coisa de epistemologia e de Kant já enveredava por criar uma verdadeira ciência de viagem. Tudo isso, enfim, se enriqueceria no percurso, mas não da maneira cartesiana como eu primeiramente foi levado a imaginar. Além de não ter esse planejamento finalizado partiria ainda com companhia para essa viagem, e muita companhia: só no dia da partida éramos mais de 30. O motivo de eu não querer viajar acompanhado é conhecido dos experimentados viajantes: quando se está sozinho, está-se inteiramente voltado ao que os lugares têm para oferecer. Viajando sozinho, além disso, dispensa aquela chatisse que é esperar, discutir, ceder, convencer etc. (Nota sobre o que vojo: nossa, se metade dessas meninas estiverem desacompanhadas ainda saio daqui casado). Sim, eu tinha bons motivos para querer viajar sozinho. Mas também tinha bons motivos para, desta vez, abrir mão desse precioso estilo de viagem: não conhecia absolutamente ninguém das dezenas de pessoas que iam comigo no ônibus e, embora elas não fossem exatamente a expressão


cultural dos locais nos quais estaria, elas eram pareciam ser simplesmente maravilhosas, e eu tinha a impressão de que mesmo se o ônibus ficasse aqueles 9 dias que nos separavam de Belém circulando sem parar, apenas nas estradas, eu já seria feliz de poder conviver com aquele bando de loucos e conhecê-los um pouco também. Há pessoas que mesmo morando na casa ao lado podem ser tão ricas em novidades e particularidades quanto o habitante de um país muito distante. No fundo, é também um pouco de falta de sensibilidade essa necessidade urgente de querer viajar. De qualquer forma, um pensamento cosola: o bando de artistas não é um bando de viajantes comum... tem uma tendência natural de atrair as pessoas para eles, ao invés de afastá-las como os grupinhos normais de turistas. Partirei deixando de lado muitas das regras e planejamentos que tinha para viajar, mas nem por isso vou contra meus princípios. Pelo contrário: se tem uma coisa que eu aprendi de sólido após ler tanto sobre viagens e viajantes, e após algumas viagens eu mesmo, é que é preciso estar sempre pronto para o imprevisível. Na estrada simplesmente não existem caminhos retos; não apenas porque a terra em si é esférica, mas também porque não se pode buscar o desconhecido, as novas experiências, e saber onde está indo ao mesmo tempo. Subirei naquele ônibus cansado e atordoado, dias sem dormir, com um sincero sorriso na alma, e uma sensação de que algo incrível está por vir. (...) O embarque em si foi tranquilo. Cheguei carregado com minhas tralhas, cumprimentei quem encontrei e depois de eu insistir um bocado o pessoal deixou que eu ajudasse com algumas tarefas, como embalar os jornais que tinham feito para divulgar “o coletivo”, e levar para o ônibus um pouco da parafernalha das apresentação. Luzes, mesa de som, panos, caixas de som, fios, tinta e, especialmente, instrumentos: UM MONTE instrumentos. Eu mesmo levava meu violão, dois berimbaus e uma flauta boliviana chamada Quena. Ah, sim, antes de partirmos definitivamente rolou ainda a primeira roda de conversa, de nem tantas que ainda rolariam, do grupo todo, justamente dentro do espaço chamado CANIL, que era bem próximo do ponto de embarque. Nos olhamos um pouco, sentimos mais ou menos a dinâmica do pessoal. Alguém lamentou uns problemas que não quis revelar mas no fim a galera estava animada demais para deixar qualquer baixaria atingir-nos. Terminou a coisa toda com uma animada sinfonia de uivos, latidos e ganidos, como é o costume desse pessoal, muito mais do que bater palmas.

III – Estrada A primeira nota do meu caderno de viagem, do meu diário de bordo, a primeira nota da estrada diz literalmente o seguinte, com erros de pontuação, gramática, concordância, ortografia, assim: “Dia 1. Aprox. 18:30: em VIAGEM Embora a origem faça parte da viagem, essa só começa quando se atinge a via, e muita vez também termina antes de atingir o último destino planejado: é a lei da imprevisibilidade da via, da esburacada e dinâmica via.


1. Olhos no No horizonte, sob o sol, as imensidões: imensidão de casas que desconheço; imensidão de campos que desconheço; imensidão de lagos e nuvens, infinitas torres e cabos elétricos, e cercas, e aves que alcançam tão fundo e a vertigem dessas profundidades ameaça romper superficial pano de fundo e chamar a imaginação para preencher esse espaço todo: Curiosidade que insiste em habitar: a curiosidade que é capaz mesmo de esquecer da via. 2. Olhos no asfalto AMO também o que a via tem de monótona, a sucessão de faixas e placas e curvas e morros todos tão parecidos que me trazem paz: escuto nessa vibração os destinos todos que um dia encontrei, os destinos que ainda não encontrei e ainda aqueles que jamais poderia, em uma só mortal existência, a todos conhecer. 3. Olhos no destino “ Sim, fragmentos que nem sei bem o sentido, mas ainda assim creio que dignos de transcrever. A primeira parte é sobre a relação da origem, o ponto de partida, com as outras partes que julgo existirem na viagem: a via, ou o caminho, e o(s) destino(s). A origem, defendo, faz parte da viagem mesmo que a viagem efetivamente só começe quando se atinge a estrada, a via. A origem fica num lugar pré-temporal da viagem, e ao mesmo tempo acompanha o viajante a cada instante. A razão que até agora encontrei de a origem fazer sim parte da viagem é o simples fato de que sem ter uma origem não se pode dizer que está em movimento. No sentido mais básico da física, aliás, sem um ponto de referência, não se pode dizer que qualquer corpo está em movimento ou não. Por outro lado há uma questão mais complexa, que envolve os citérios sobre o que seria uma viagem. A rigor, pois, observo que um nômade, o exemplo mais próximo do que seria um viajante sem origem, por nunca atingir sua origem de volta, estaria sempre viajando. Defendo, porém, que a vida nômade não é, segundo minha concepção, uma vida de viajante. Isso se dá pelo simples fato de nesse caso faltar o marco diferencial da viagem: a quebra da rotina fixada na origem. Pelo mesmo motivo um nômade não viaja enquanto segue seu movimento pelos desertos e um paulistano não viaja quando fica mais de 30 horas por semana movendo-se centenas se quilômetros para atingir distantes pontos: porque ambos seguem apenas uma rotina. São exemplos grosseiros para expressar não que é preciso ter um ponto de origem para viajar, mas antes que a viagem é muito mais do que o deslocamento espacial. Outra reflexão sobre a origem que me assalta é um tanto menos filófica, mas também essencial: com a nossa origem temos vínculos que não se desfazem quando viajamos, e que podem mesmo acabar com o gosto de se viajar ou impedir a viagem. Não adianta, pois, deixar a casa para perdê-la depois; e em troca do que se ganhou durante a via e os destinos perder a origem. Não se pode simplesmente ignorar que a ausência do viajante na origem tem consequências assim como sua presença nos destinos tem outras consequências. Há que considerar tais consequências não como quem cogita colocar em risco a viagem para cuidar de sua casa (e com casa aqui digo tanto as obrigações básicas da manutenção do núcleo familiar como as obrigações com a nação, a família humana e o planeta terra e além), mas antes como quem quer assegurar de que haja uma viagem; viagem que não haveria mesmo que o sujeito cruzasse fronteiras físicas, se deixasse de ter a referência de seu próprio lar. Ademais, sobre a importância do cuidado com a origem, vejam o exemplo de Odisseu e A... . Ambos fizeram a viagem para a guerra de Tróia e ambos depois voltaram ao lar. Odisseu, embora tenha


demorado muitos anos em suas aventuras quando da volta, ainda assim, quando finalmente venceu todas as barreiras que o separavam do lar, encontrou sua esposa heroicamente resistindo a todas as investidas de pretendentes que o odiavam, e seu filho que arriscara a própria vida para tentar resgatá-lo. Conclui a Odisséia, assim, num lar sólido e viveu depois com uma mulher valiosa e um filho que tal. A... , por outro lado, embora tenha retornado sem os problemas que enfrentou Odisseu, tão logo pisou em sua terra foi assassinado pelo traidor que tinha se aliado à sua mulher Clitemnestra. Melhor não tivesse viajado (se é que viajou, sem ter uma origem que lhe sustentasse) do que isso: encontrar a morte na volta à “origem”. Sim, fragmentos de um pensamento de viagem ainda rústico mas acredito ser uma defesa válida da manutenção de um sentimento de origem tão importante para aquele que viaja. Por profunda que seja a imersão em uma cultura, pois, não parece desejável ao que viaja abdicar de sua própria cultura, esquecendo indiscriminadamente de suas origens apenas para sentir-se mais próximo de um determinado local. O mesmo viajante, como tenho visto por aí, que se desprende completamente de sua identidade e suas raízes ao viajar é aquele que voltará para sua origem para agir da exata maneira que agia anteriormente, deixando assim de lado o aprendizado que a diferença de cada local tem a oferecer. Por fim, conforme aprendi nessa viagem mesmo, ter consigo a consciência de sua origem é também a melhor maneira de tomar consciência dos preconceitos que dessa origem o viajante carrega. Poderá assim o viajante mudar sim, mas SABENDO porque se está mudando e onde está a raiz de seu preconceito. O viajante que abdica de sua identidade ao encontrar outra cultura está, no fim, executando também uma rotina: a rotina de servir aos desejos do meio em que se encontra. A rigor, portanto, não é sequer um viajante. Quanto ao trecho que diz sobre os olhos no horizonte, isso é brisa antiga de viagem. No começo era apenas ínfimo que me sentia, quilômetros de horizontes a todo instante na janela, com o tempo aprendi: há tanto blues, nascente e nascido, que se pode pegar a estrada agora sinto-me ínfimo não porque meu corpo é pequeno diante dos vastos horizontes que vejo, mas porque minha vontade de estar em todos os lugares que vejo é muito maior do que minhas possibilidades humanas. Aí detecto, enfim, um perigo para o viajante, talvez o maior perigo da via: apaixonar-se por alguma visão na estrada antes de atingir seu destino e assim finalizar a viagem antes do tempo. É o poeta exclamando na viagem: “Quanta coisa não vou deixando para trás, à direita e à esquerda, apenas para concretizar uma única idéia, que já se fez quase velha demais em minha alma!”. Mas detecto também o sentimento contrário que parece manter-me no rumo: a calma e a esperança guardada em cada horizonte de via, e a certeza de que se há algo que está, necessariamente, em contato com todos os destinos do mundo esse algo é simplesmente a própria via. Não há que abandoná-la em nome da curiosidade, não há que abandoná-la em nome das paixões: é ela que leva a todos os lugares, é ela que leva a todas as paixões. Quanto ao amor, nada impede que ele embarque, pois é apenas uma contingência histórica isso de o sedentarismo acompanhar a união feliz. Sim, viagens de viagem. Deixo essas reflexões a partir de agora marcadas em destaque para aqueles que gostam apenas dos relatos fáticos poderem pular as reflexões sobre origem, via e destino da viagem. 1a Parada na estrada))


19:30 de 17/02, mais ou menos 130 km rodados, Limeira, “Churrascaria Serra Gaúcha” A primeira parada, diferente do restante da viagem, foi conturbada. Discussões sobre a parada. Uns acharam cedo demais, outros acharam barato o bastante. Uns comeram, outros também; uns mais, outros. Eraldo viu que grande parte da turma resolvera ficar de for a do lugar e levou uma marmita cheia de carne para a galera parada ao do lado do ônibus. Eraldo, sem dúvida a primeiríssima figura que me apareceu na viagem, era mesmo assim generoso e andava quase sempre com alguma frase espirituosa na ponta da língua. Uma delas, que tem tudo a ver com o momento e se comprovaria durante a viagem, conforme eu observava a insaciável vontade de comer daquele negro esguio, quase magrelo, cheio de dreads naturais e um olhar de preto velho: “Eu gosto do meu pai, da minha mãe, e de carne”. Há ainda uma outra frase que ele falava muito mais do que essa e que na verdade tem também muito mais a ver com esse momento, mas essa guardo para depois. No fim das contas, discussões sobre a melhor parada ou não à parte, o fato é que quem mais queria parar naquele lugar eram os motoristas, fonte da informação não sei se tão verdadeira de que ali a comida era boa e barata e demque dali para frente só postos caros. Cito meu diário de bordo na íntegra: “A verdade é que os motoristas quiseram parar. Agora arrumam, sob protestos (por causa da demora), o espelho esquerdo do ônibus.” (que ao que parece estava prestes a cair) “Escurece nos campos que se vêem pela janela: uma palmeira solitária no horizonte, horti-culturas. mais demora! Todos no ônibus, exceto pelos condutores.” Partimos daquela encalhada, segundo o diário, apenas 20:52 e com as luzes desligadas, talvez os motoristas esperassem que pudéssemos de dormir. Mas qual! Em poucos minutos a luz ia ligada outra vez e a música era tocada sem parar. Luzes desligadas denovo sabe-se lá porquê e a música continua. Tento dormir mas apesar de estar virado há duas noites tudo o que sinto é uma vontade de estar ali, desperto, presenciado o torpor daquela galera incansável a produzir sons muitos distintos daqueles que se esperaria ouvir em um ônibus qualquer. Aproveito o clima para seguir em meus pensamentos sobre viagens e também sobre os planos da minha vida, que além de tudo passava por momentos decisivos, com relação à profissão e todos esses estresses que o homem gosta de se impor. Naquela estranha e caótica via sentia uma calma inesperada para tais pensamentos. Mas isso tudo foi apenas por umas breves horas. Às onze da noite finalmente, depois de anunciarem por uma meia hora, conseguiram fazer rodar na televisão do ônibus o filme que muitos dias depois, mas ainda nessa viagem, faria eu e o australiano Alex darmos boas risadas. Alex era um australiano bem diferente: parecia em tudo um perfeito surfista da maromba mas na verdade não surfava, vivia dentro de casa no interior da sua terra e adorava filmes, até mesmo os brasileiros. O filme que ele me disse ter visto antes de ir para o Pará - onde nos encontramos - e que era o mesmo desse momento no ônibus, porém, é mais espantoso e fantástico ainda: e ele ficou até mesmo com vontade de ler o Mário, encantado pelo nosso Macunaíma. Quem dera nosso pessoal soubesse dar o mesmo valor a essa pérola. Não que eu seja grandes máximos de um estudioso da obra: foi justamente nessa viagem que fui descobrir que há todo um significado religioso por detrás das aventuras do herói sem caráter. Quem contou foi mesmo o Eraldo. Terreiros e tambores rondando meus conhecimentos nessa viagem: não seria a primeira vez.


2a Parada na estrada)) 3:33 do dia 18/02, Araguari, Auto Posto “Brasileirão” A segunda parada foi mais breve, e num lugar mais aprumado, com uma grande e um tanto exótica fonte interna ao lado dos banheiros, e não tão mais caro. As simpáticas moças da recepção sorriam, apesar da hora e uma delas ficou doida por saber de onde vínhamos, para onde íamos, o que fazíamos etc. e conversamos um bocado enquanto eu comia um pão de queijo e bebia um grande pingado num copo descartável de 300 ml. Consegui me desvencilhar das perguntas um instante e aproveitei para usar a internet grátis que o lugar oferecia. Descobri que não havia mais tempo para me inscrever pela internet nas atividades do fórum, mas não importava porque com a inscrição do acampamento da juventude eu já tinha o suficiente para as atividades (a inscrição específica das atividades, como eu descobriria mais tarde, servia apenas para ganhar um certificado de comparecimento). Lendo os jornais da minha provedora de internet foi nesse momento que descobri também sobre o trágico desabamento do teto da igreja renascer em São Paulo. Mal sabia mas estaria conversando sobre isso em poucas horas com um grupo desconhecido de feirantes, em frente à uma igreja evangélica. Na saída tive tempo ainda de ouvir uma piada que não ouvia desde os tempos de cursinho, e agora teve muito mais graça que antes: “Aqui, meu rapaz, aqui é Araguari, um dos três grandes “B”s do triângulo mineiro! Temos Beraba, Berlândia e Beleza de Araguari!”.

IV – Dia 2 - Chegada em Brasília Notas do diário: (amanheci poético) “Amanhece na estrada e a luz do sol vem redimir o obstinado esforço daquele que durante a noite toda só fez suportar o escuro e perseguir o breu. A antiga mesmisse de uma vista curta-de-luz dá lugar aos policromáticos firmamento e coisas da terra. -Esparramo minha alma sobre esse amplo planalto central. Faltam apenas algumas horas para que alcancemos a capital do país. Galpões de Agropecuária, borracharias, lojas de insumos agrícolas, maquinário, propagandas de “fabricantes” de sementes contra sementes piratas (?!) num outdoor solitário na beira-de-estrada. Não sei se já cruzamos a fronteira do DF, mas acho que não faz difereça, pois até atingirmos as cidades satélites será tudo como agora vejo: o que não está aqui para o campo e para o povo do campo, então está aqui para os que passam na estrada: borracharias e insumos agrícolas: uma simplicidade nítida para quem acaba de ver o primeiro pôr-do-sol for a do frenesi paulistano. Aqui não encontro mais sinais daquela abundância estupidificante de atividades, lojas, taras, passeios: nestes campos que vejo ou és do campo ou és viajante; ou trabalha na terra, ou está de passagem.”


A chegada em Brasília foi incerta, todos meio perdidos, ligando, perguntando nas ruas onde era... a comida boa e barata, o mercado municipal, a rodoviária, a praça dos três poderes. Marcamos, finalmente, com uns simpáticos amigos da trupe (que muito ainda iria encontrar durante essa viagem, mesmo depois de nos separarmos todos em Belém do Pará) na frente da Catedral. Descemos do ônibus e pude conhecer, numas barraquinhas que ficavam por ali, um interessante trabalho de artesanato que o povo de lá chama “flores do cerrado”. Eram pedaços secos de diversos vegetais combinados de tal forma que pareciam mesmo flores, com cores e tudo, embora secas a ponto de durarem anos sem mudar de aspecto. Sim, as flores estavam lindas e o simpático vendedor distribuía presentes para todas as meninas, e além


disso o nosso tempo estava escasseando. Mas não era hora para vacilar: ali estava a catedral, logo ali. Percebi que os cumprimentos de reencontro ainda duravam um pouco e que nosso compromisso da tarde ainda poderia esperar um pouquinho. Aproveitei a deixa, avisei o pessoal e corri, ou melhor, corremos (eu, o zé leo, a maria, o andré, o Jeff primeiro e acho que quase todo mundo também), para o célebre prédio de Nyemeier, onde fomos recebido por um sorriso. Na verdade, dois, de um casal de sexagenários parados logo na entrada. A mulher fazia propriamente as boas-vindas e o homem “montava guarda” atrás da caixa de doações. Pouquissimo tempo tive para sentir o lugar, parte do qual passei tirando fotos e filmando os vitrais, esculturas, os quadros de portinari e até mesmo uma réplica da Piedade do Da Vinci que surpreendentemente estava lá. Era de chorar, mas não havia tempo sequer para as lágrimas caírem. De volta ao ônibus, o rumo agora era o supermercado e depois: bananal, território sagrado dos pajés, quiçá jamais o setor noroeste. (http://oglobo.globo.com/pais/noblat/post.asp?t=setor-noroeste-falacia-de-um-projeto-

ecologico&cod_post=161696 ) - Blog do Noblat Enviado por Frederico Flósculo Pinheiro Barreto 15.2.2009 | 9h29m

ARTIGO

Setor Noroeste: a falácia de um projeto O Setor Noroeste é objeto de polêmica acerca de sua correção como projeto de expansão urbana do Plano Piloto de Brasília, entre outros aspectos de sua concepção – como a alegada característica de ser um inovador “bairro verde”, ecologicamente correto. A questão urbana envolvida é elementar: o Plano Piloto de Brasília não previa, de forma alguma, essa expansão formada pelos setores Noroeste e Sudoeste, reflexos dos espaços das Asas Norte e Sul, respectivamente. Desde sua concepção original, a proposta de Lúcio Costa, de 1957, primava por sua elegância, concisão e limpeza. As formas desse extraordinário Plano Piloto foram comparadas com pássaros, aviões, borboletas... E não com gordas mariposas, ou com cidades de urbanismo pretensioso e cafona, como Las Vegas e Miami. No passado, no início, o Plano Piloto era esguio e elegante. O Setor Sudoeste foi projetado de forma ambientalmente agressiva, ocupando todos os espaços vazios disponíveis acima da Asa Sul e do Parque da Cidade, entre o Eixo Monumental e o Setor Octogonal. O Setor Noroeste será ocupado da mesma forma imobiliariamente exaustiva. A alegação dos vendedores, de que será um “bairro verde”, é falaciosa, pois: a) o Setor Noroeste não é fruto de nenhuma análise ambiental que o coloque como forma de defesa do ambiente, ou de manejo claramente orientado para a preservação daquela enorme gleba; b) não há um projeto de educação ambiental ou de organização comunitária concomitante com esse episódio de urbanização, central a esse projeto, gerador de suas formas. Isso, sim, seria inovador, revolucionário, exemplar, digno de Brasília. Ao contrário, trata-se de um empreendimento com um padrão comercial que é o ideal para os espertos empreendedores imobiliários de Brasília, pois usa algumas das características do urbanismo de Lúcio Costa para promover um produto, uma mercadoria, de magna lucratividade. Não há sequer a previsão das condições básicas de organização comunitária já conquistada pelas comunidades das superquadras de Brasília, como as sedes de Prefeituras Comunitárias. O Setor Noroeste abrigará, isto sim, a imponente sede de uma Administração Regional, da confiança do governador, que fará o mesmo trabalho de desmobilização da comunidade, de um “peleguismo comunitário”, que é fatal à organização de uma comunidade que defenda a qualidade ambiental de seu habitat.


Frederico Flósculo Pinheiro Barreto é professor do departamento de Projeto, Expressão e Representação em Arquitetura e Urbanismo da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da UnB.

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Licença ambiental para Setor Noroeste está pronta Helena Mader - Do Correio Braziliense Gizella Rodrigues - Correio Braziliense

Monique Renne/Esp. CB/D.A Press - 6/4/08 área do Noroeste tem quase 40 anos

Vinte e sete pessoas de quatro tribos dizem que a ocupação indígena na

Falta muito pouco para o Setor Noroeste começar a sair do papel. O Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) assegurou que a licença já ficou pronta e será emitida assim que a Companhia Imobiliária de Brasília (Terracap) encontrar uma solução para o problema da ocupação indígena na região do novo setor. O superintendente do Ibama no Distrito Federal, Francisco Palhares, fez duras críticas aos índios por permanecerem no local, acusando-os até de “fazer chantagem”. O procurador da República Peterson de Paula Pereira, que acabou de assumir as negociações do acordo para a liberação do Setor Noroeste, tenta desenrolar o imbróglio. Ele visitou na terça-feira (10/6) o lugar para conversar com os índios sobre a proposta de transferência da comunidade para uma área do GDF no Recanto das Emas. Os indígenas se comprometeram a conhecer o terreno oferecido pela Terracap na próxima sexta-feira. A empresa vai colocar um ônibus à disposição das 27 pessoas que vivem na área do Noroeste (veja onde fica) para levá-las até a Fazenda Monjolo, a 35 quilômetros de Brasília. Durante a visita de ontem, o procurador explicou aos indígenas que as terras onde estão instalados é de propriedade da Terracap, mas lembrou que a companhia ofereceu um local com infra-estrutura para transferir a comunidade. A assessoria de imprensa do Ministério Público Federal informou que, após a visita à área do Noroeste, o procurador vai finalizar o Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), que será assinado entre o MPF e o governo local. Enquanto isso, Francisco Palhares reitera que já está tudo preparado para a emissão da licença ambiental e não poupa os indígenas. “São dois ou três índios que emperram todo o processo, acho isso surreal. E quando eles vêm me procurar, aparecem representantes brancos, de olhos azuis, com sotaque francês. Para mim, eles são ocupantes de área pública como outro qualquer”, disparou o superintende do Ibama. Ele também condenou o fato de os índios exigirem indenização de R$ 3 milhões para serem transferidos. “Isso é oportunismo, chantagem barata”, acrescentou Palhares. Pressa para o TAC A Terracap tem pressa para resolver o destino dos índios e assinar o TAC com o MPF, já que essa é a última pendência para a liberação da licença ambiental de instalação do setor. O presidente da Terracap, Antônio Gomes, contou que foi ao Ministério Público Federal na última segunda-feira, na expectativa de fechar o acordo. “Mas o procurador que estava à frente de tudo (Wellington Divino Marques de Oliveira) está de licença médica e o processo teve que ser redistribuído”, explicou Antônio Gomes. “O procurador que assumiu disse que quer negociar com os índios antes da assinatura do TAC. Na próxima sexta-feira, vamos oferecer um ônibus para mostrar a eles o terreno no Recanto das Emas que estamos colocando à disposição”, disse. Gomes frisou que a área onde será erguido o Setor Noroeste e os indígenas vivem pertence à Terracap. “Estamos confiantes de que tudo vai ser resolvido pacificamente. Não queremos agir com violência, mas também não queremos atrasar ainda mais o início do Noroeste”, observou o presidente da empresa. “Nossa expectativa é assinar o TAC na sexta-feira, após a visita, ou na próxima segunda-feira”, finalizou Antônio Gomes. Ao todo, 27 pessoas das tribos Fulniô, Tapuaya, Kariri-xocó e Tuxá ocupam parte da área de 825 hectares onde serão construídas 20 novas quadras residenciais para a classe média alta. A comunidade se formou quando alguns índios vieram a Brasília em busca de tratamento médico e se instalou no terreno da Terracap. Eles afirmam que a ocupação já tem quase 40 anos. A Fundação Nacional do Índio (Funai), por sua vez, critica a falta de consulta à comunidade e à instituição durante as discussões para a assinatura do TAC. “Tanto a Funai como os índios que moram na área foram alijados da assinatura desse termo. Não sei como ele terá efeitos concretos se não há participação dos maiores interessados no assunto, que são os índios”, queixou-se o assessor da Diretoria de Assuntos Fundiários da Funai, Aluísio Azanha. Segundo ele, a Funai é contra a transferência das comunidades indígenas do local porque isso contraria a vontade delas. “Aquilo é uma terra indígena, independentemente de ser regularizada ou não. A Funai vai defender a posição dos índios”, concluiu o assessor da fundação.


http://admin.correiobraziliense.vrum.com.br/imoveis/templates/template_interna_noticias? id_noticias=26921&id_sessoes=198 Notícias (06/04/08)

Licença ambiental para Setor Noroeste está pronta Helena Mader - Do Correio Braziliense Gizella Rodrigues - Correio Braziliense

Monique Renne/Esp. CB/D.A Press - 6/4/08 ocupação indígena na área do Noroeste tem quase 40 anos

Vinte e sete pessoas de quatro tribos dizem que a

Falta muito pouco para o Setor Noroeste começar a sair do papel. O Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) assegurou que a licença já ficou pronta e será emitida assim que a Companhia Imobiliária de Brasília (Terracap) encontrar uma solução para o problema da ocupação indígena na região do novo setor. O superintendente do Ibama no Distrito Federal, Francisco Palhares, fez duras críticas aos índios por permanecerem no local, acusando-os até de “fazer chantagem”. O procurador da República Peterson de Paula Pereira, que acabou de assumir as negociações do acordo para a liberação do Setor Noroeste, tenta desenrolar o imbróglio. Ele visitou na terça-feira (10/6) o lugar para conversar com os índios sobre a proposta de transferência da comunidade para uma área do GDF no Recanto das Emas. Os indígenas se comprometeram a conhecer o terreno oferecido pela Terracap na próxima sexta-feira. A empresa vai colocar um ônibus à disposição das 27 pessoas que vivem na área do Noroeste (veja onde fica) para levá-las até a Fazenda Monjolo, a 35 quilômetros de Brasília. Durante a visita de ontem, o procurador explicou aos indígenas que as terras onde estão instalados é de propriedade da Terracap, mas lembrou que a companhia ofereceu um local com infra-estrutura para transferir a comunidade. A assessoria de imprensa do Ministério Público Federal informou que, após a visita à área do Noroeste, o procurador vai finalizar o Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), que será assinado entre o MPF e o governo local. Enquanto isso, Francisco Palhares reitera que já está tudo preparado para a emissão da licença ambiental e não poupa os indígenas. “São dois ou três índios que emperram todo o processo, acho isso surreal. E quando eles vêm me procurar, aparecem representantes brancos, de olhos azuis, com sotaque francês. Para mim, eles são ocupantes de área pública como outro qualquer”, disparou o superintende do Ibama. Ele também condenou o fato de os índios exigirem indenização de R$ 3 milhões para serem transferidos. “Isso é oportunismo, chantagem barata”, acrescentou Palhares. Pressa para o TAC A Terracap tem pressa para resolver o destino dos índios e assinar o TAC com o MPF, já que essa é a última pendência para a liberação da licença ambiental de instalação do setor. O presidente da Terracap, Antônio Gomes, contou que foi ao Ministério Público Federal na última segunda-feira, na expectativa de fechar o acordo. “Mas o procurador que estava à frente de tudo (Wellington Divino Marques de Oliveira) está de licença médica e o processo teve que ser redistribuído”, explicou Antônio Gomes. “O procurador que


assumiu disse que quer negociar com os índios antes da assinatura do TAC. Na próxima sexta-feira, vamos oferecer um ônibus para mostrar a eles o terreno no Recanto das Emas que estamos colocando à disposição”, disse. Gomes frisou que a área onde será erguido o Setor Noroeste e os indígenas vivem pertence à Terracap. “Estamos confiantes de que tudo vai ser resolvido pacificamente. Não queremos agir com violência, mas também não queremos atrasar ainda mais o início do Noroeste”, observou o presidente da empresa. “Nossa expectativa é assinar o TAC na sexta-feira, após a visita, ou na próxima segunda-feira”, finalizou Antônio Gomes. Ao todo, 27 pessoas das tribos Fulniô, Tapuaya, Kariri-xocó e Tuxá ocupam parte da área de 825 hectares onde serão construídas 20 novas quadras residenciais para a classe média alta. A comunidade se formou quando alguns índios vieram a Brasília em busca de tratamento médico e se instalou no terreno da Terracap. Eles afirmam que a ocupação já tem quase 40 anos. A Fundação Nacional do Índio (Funai), por sua vez, critica a falta de consulta à comunidade e à instituição durante as discussões para a assinatura do TAC. “Tanto a Funai como os índios que moram na área foram alijados da assinatura desse termo. Não sei como ele terá efeitos concretos se não há participação dos maiores interessados no assunto, que são os índios”, queixou-se o assessor da Diretoria de Assuntos Fundiários da Funai, Aluísio Azanha. Segundo ele, a Funai é contra a transferência das comunidades indígenas do local porque isso contraria a vontade delas. “Aquilo é uma terra indígena, independentemente de ser regularizada ou não. A Funai vai defender a posição dos índios”, concluiu o assessor da fundação.

V – Dia 2 – Rumo aos índios No supermercado a coisa foi supreendentemente ágil. Divididas as equipes zarpamos na mesma hora e eu, que tinha ficado encarregado dos cinquenta pães, fui junto com o Tadeu e o Davi, que tinham ficado encarregado dos frios ou algo assim. No caminho travamos discussão sobre o autoritarismo, iniciando um tema que iria dar o tom para mim naquela parte da viagem: o Preston tinha tomado a iniciativa de dividir os grupos e despachar o pessoal para comprar as coisas no supermercado organizadamente e o Davi estava falando que era assim mesmo que tinha que ser: autoritarismo era o que funcionava. Eu insistia que autoritarismo era outra coisa e que aquilo na verdade era um consenso prático imediato, e que se todos obedeceram foi porque ninguém viu qualquer razão para objeções, como uma proposta que passa em assembléia por consenso. Teimoso que era, o Davi queria mesmo insistir que tinha o melhor é o centralismo e quase me deixou chateado, mas no fim percebi que era mais um caso de mal uso do termo autoritarismo do que uma verdadeira opção politica do nosso incansável malabarista. Terminou com eu dizendo pra ele tomar cuidado com os termos usados, pois um dia o verdadeiro autoritarismo poderia aparecer e ele não saberia mais como dizê-lo, mas ele não deu muita bola. Comprados os pães e tudo o mais voltamos todos para o ônibus, onde encontramos o Zé Leo, o João Gabriel, a galera de Brasília e o pessoal todo no maior batuque e dança. Subimos todas as compras e eles subiram também, fazendo ritmo para encontrar os índios. Uma pequena volta a mais por conta dos nossos motoristas e do pessoal – que estava mais interessado em conversar e batucar do que orientá-los - , e chegamos em tempo na entrada da trilha para a aldeia. O lugar não era mesmo muito convidativo, com lixo pelas beiradas e cercas espalhadas. Conforme adentrávamos, porém, foi melhorando e a certa altura chegamos num cruzamento onde o pessoal quis fazer uma roda, dar as mãos, lembrar que a encruzilhada era a morada de exu e outras rezas mais (por sorte, essas religiosidades iriam se esvair conforme o tempo fosse passando). Alguém


quis aproveitar o momento para nos apresentarmos todos mas não havia tempo, então seguimos a trilha para sua parte mais interessante. Os próximos metros eram cheios de placas sobre a reserva , uma delas inclusive uma que indicava “peligro de guerra”.

De fato, o papo da tarde seria bem belicoso, mas por sorte o povo daquele lugar já lutava com as palavras e leis e direitos que qualquer outra arma. Até o fim da minha estada em brasília ainda teria a oportunidade de assistir ao jovem líder indígena da aldeia defender o artigo __ da constituição federal da república contra os ilícitos desmandos da liderança política local. Resistência contra Sem-Vergonhas ( sem vergonhas!! Toré-Festa ________ estratégia Contra Sem-Vergonhas! Brancos não dizem quem é índio! Sem vergonhas toda terra indígina é patrimônio da União ! Índio tem CIÊNCIA, sabedoria. Direitos sobre a terra. MÃE TERRA. O Pagé foi GRANDE ESPÏRITO que escolheu. Não podemos deixar território aberto. Ameaça constante da chegada de PAULO OTÄVIO e seus políticos. FUNAI & IBAMA: contra a LEI, contra nós. Lei não funciona. Queremos guerreiros: 300 índios sobre o aquífero PARANOÁ em defesa da terra /(PACHA MAMA( Condomínios de luxo! (Com projeto sob o nome de Lúcio Costa, que teria repudiado tal feito! Violentam direitos e pessoas: Violentam a todos na figura dos Índios: A Constituição não vale nada: audiência pública é pouco: licitação dia 29/o1/o9. Façamos PAGELANÇA na frente da casa do presidente: Minc: vendido/ Justiça: ficção. Vamos jogar a constituição na cada do LULA!! ÍNDIOS defendem a Constituição contra o Poder da GRANA. Movimentos sociais Vendidos. Queimar LULA MESMO o mundo tem que saber. Só dispomos de computadores monitorados. É PRECISO deixar o mundo saber. Guerra de informação Quando outros Índios vem aqui a polícia fica em polvorosa. E HAVERÁ ENCONTRO DE MÚSICA EM ABRIL. É Preciso UNIR os ÏNDIOS “o índio da Amazônia não sabe do Índio no sul. VAMOS À GRANJA DO TORTO. Somos poucos queremos fazer jornal. Índio que quiser ficar, fica pra guerra. Era de certa forma belo para mim ver o índio falando com eloquência, mas o primeiro grande impulso que tive foi novamente me lançar sobre seu discurso e lhe dizer que ele não tinha ciência, e


que nem precisava ter: que ciência era uma coisa greco-romanóide, enredada em séculos de discussões com as quais a sua tribo nada tinha a ver. Que eles não precisavam dizer que tinham ciência para provar o valor de seus costumes. No fundo seria capaz de dizer que sequer eles tinham de falar em direitos ou prestar contas à FUNAI, ou quem quer que fosse; que aquele direito também era uma imposição que não lhes dizia respeito. Mas nesse ponto comecei a, além de criticar, admirar o exemplo de tolerância que os próprios índios davam ao falar na língua legislativa dos seus adversários. Afinal, quem diria que eles não precisam falar “língua dos dominadores”? Quem diria isso e viveria com os efeitos práticos dessa opção. Mais do que isso: com base em que Justiça se poderia dizer A certa altura, depois que o _______________ tinha feito seu discurso, todos passamos a preparar o que íamos comer, para depois esperar o Chefe que mostraria o resto da aldeia para todos. Comemos, dançaram, tocaram, descansamos e até mesmo discutimos sobre o que fazer para ajudar os índios. Defendi a tese de que deveríamos confeccionar uma faixa sobre o encontro musical dos índios para colocar no fórum mas como não encontrei apoio a não ser o do Eraldo, acabamos nos retirando da “discussão” um pouco desapontados, mas não sem antes tentar apoiar a iniciativa da Cissa para adiar o papo sobre a importância da agenda indígena no colendário do grupo, ou seja, para parar de discutir, NA PRESENÇA dos Índios sobre se era mais importante ficar ali ou ir conhecer outro pessoal. Não que deixássemos o grupo como o vencido que não quer mais brincar, como o candidato vencido que acusa o vício na eleição; mas antes perceberamos que não tínhamos voz naquele coletivo, que já se conhecia de outras aventuras. É muito mais duro ver propostas ignoradas do que rejeitadas e com pesar vi nesse momento nascer no Eraldo uma indignação que em pouco tempo iria causar o seu desligamento do grupo. Apoiamos a Cissa na sensata sugestão, mas a galera também não disse nada. O índio tampouco demonstrou qualquer sentimento. Parecia que ninguém tava mesmo ligando muito ou que estavam em outro nível de consciência, ou sei lá que coisa. Foi então que zarpamos para caminhar um pouco pela Aldeia e conhecer o que mais havia sob aquele sol escaldante. Depois que eu havia até treinado uns movimentos da minha capoeira no campinho de futebol da molecada da aldeia, o pessoal tinha feito uma batucada com direito a dança indígena e tudo, depois de comermos com calma o pão com presunto, queijo e Guaca-Mole, e maçãs denovo mais guacamole servido direto das mãozonas lambuzadas das cozinheiras, sem falar da costelinha de porco defumada que o Eraldo colocou novamente, na gentileza, à disposição para todos degustarem... Depois de (quase) tudo acontecer no tempo e sem pressa foi que chegou o chefe, e logo que o vi já tive vontade de sorrir. Era de um carisma incrível e de uma oratória impressionante até para mim, que trabalhei quase 1 ano direto escutando os discursos dos melhores Defensores e Primotores nos tribunais do júri de São Paulo. Nem isso, porém, me convenceu a juntar-me a ele e ao pessoal no próximo ponto da visita, o lugar de culto. A verdade é que aquela farra toda tinha me dado um sono enorme e quando eu vi a possibilidade de me estender na rede daquele território sagrado dos pajés, cercado de galinhas e patos e cães e daquele denso cerrado todo que me abraçava. Deitei para compensar um instante os três dias que passara praticamente em claro, mas simplesmente não consegui pegar no solo. Tampouco fui me juntar a todos no templo. Simplesmente fiquei ali, curtindo sozinho, em paz, sem ouvir sequer uma voz


humana, num momento do meu próprio território sagrado. Quando voltaram eu já estava mais alerta e como não parecia legal estar simplesmente esparramado ali na área de estar do pessoal, aderi à terceira parte da visita:o herbário. Lá escutei a função terapêutica de uma centena de plantas e flores e galhos e sementes e todas as partes da planta. Tentava ao máximo prender a atenção naquelas complicadas explicações sobre o preparo, as advertências do consumo enquanto o hilariante Eraldo fazia das suas, perguntando ao chefe a toda hora, da maneira mais engraçada que se pode imaginar, quando chegaria a vez da planta que faz a mulher ficar excitada, ou quando chegaria o viagra ou algo parecido. Mesmo assim anotei alguma coisa: “ Receitas terápicas do chefe (indígena, não francês) 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8.

Usar folha de amora na Salada 2. Broto... Favos de Mucuna Boldo para útero inflamado Fava do Jatobá: xarope. Ingá-Açu (comida dos Caiapó) Óleo de Linhaça: artrite e artrose Abacateiro (semente seca, tritura no ralador e deixa num vidrinho) : 1 colher com mel para pedra no rim

Terminada a lição fitoterápica, mais umas palavras do grupo e dos índios e tocamos de volta para o ônibus, e de lá para o bar-restaurante onde o povo ia tocar de noite. O sol ainda se punha e aquele foi o lugar ideal para uma cervejinha, e depois o jantar, com um preço negociado de algo como 7 paus para cada, num buffet bem razoável. O pedaço da cidade onde o bar ficava tinha um pouco mais de calor humano do que o restante de brasília: havia calçadas. De lá fomos finalmente ao alojamento daquela noite: o conjunto residencial estudantil da universidade de brasília. A chegada foi um tanto atribulada e diante da demora em descobrirmos onde iríamos enfim dormir, o nego Eraldo já tinha conseguido arranjar-se em um dos apartamentos, simplesmente gritando em direção das janelas daqueles simpáticos predinhos instalados em volta de um jardim com uma série de árvores frutíferas. A maioria, porém, como eu, dormiu num salão do andar térreo, usando a inrretocável hospitalidade dos estudantes que estavam por ali apenas para tomar banho e usar os computadores. Mas nesse dia o pessoal não tomou banho: a parte que não ficou direto no bar esperando o pessoal foi para o alojamento só para descarregar algumas coisas e ajeitar o lugar e rapidamento voltou para o show da noite. Eu fiquei. Tinha sono, estava cansado, precisava usar a internet com calma para escrever para o pessoal, dar os parabéns para uma pessoa querida: era dia 19 de janeiro. VI -DIA 3 : Protesto, Pequi e Picuinhas Nesse dia saí com tamanha pressa do alojamento que nem pude pegar minha carteira. Estava com o Eraldo conversando num dos apartamentos dos amigos calangos, comendo uma das mangas apanhadas do pé quando vimos o ônibus quase partir pela janela. Nem preciso dizer quem emprestou o dinheiro sem vacilar para aquele dia todo na rua. A manhã foi toda dedicada ao combinado com os índios no dia anterior: um ato protesto contra


a ilegal remoção dos índios do território sagrado dos pajés. O lugar onde o protesto começou era algo como nunca tinha visto antes, do tipo que só em brasília mesmo se vê: uma espécie de Copan gigantesco, uma cidade de concreto vertical, sem ruas mas com tudo o mais: restaurante, becos, óticas, farmácias, empresas, escritórios, boates e aquela infinidades de cacarecos que um sujeito gosta de precisar quando vive em grandes cidades. Foi o atendente de uma loja de discos de rock'n'n roll pesado que usava uma cartola, a barba sinistra de um mago, anéis de caveira, casaco “sobretudo” e botas pretas, mas falava com a brandura de um monge (e sorria um sorriso banguela e infantil, simpático) quem me explicou: realmente haviam pessoas que não deixavam o enorme complexo de concreto para nada, e que até zona de prostituição tinha por ali. A imagem que me vinha era daquele filme “Blade Runner”, uma espécie de futurismo decadente, de muitos andares e muitas histórias e tanto concreto. Era o condomínio centro comercial boulevard, e conforme fiquei sabendo, como ele havia ainda pelo menos outro. O protesto começou numa praça ao lado desse centro, ao pé de um busto do Zumbi com os discursos do índio mais jovem e gritos de guerra puxados pelo pajé, sempre em algum dialeto indígena incompreensível mas muito sonoro e pleno de expressão. O pessoal acompanhava respondendo o coro e tocando maracas e chocalhos. Depois fui perguntar o que queria dizer uma das partes que mais gostara do coro e a resposta do pajé, taduzida pelo jovem índio foi a seguinte: é a língua do Grande Espírito. Choveu, fomos para baixo da marquise, parou de chover e tocamos de volta para o lado do busto, sempre ou com alguém discursando no megafone ou respondendo aos gritos do pajé. O discurso do jovem índio novamente cheio de ímpetos e razão, críticas ao prefeito, governador e especialmente ao vice-governador do distrito federal, o famigerado Paulo Otávio. O ponto alto mesmo, pra mim, foi vê-lo defendendo a constituição, citando mesmo seus artigos de cabeça contra as notórias e banais corrupções governamentais. Imaginem só: o índio, justamente aquele que tem todos os motivos para recusar submissão à nossa constituição tão europeizada em sua forma e conteúdo, tão cheia de piadas sem graça, tão intrusa em sua cultura quanto o primeiro português que pisou aqui, justamente o índio fazendo a defesa da nossa Constituição, acusando sua ficção. Índios semi-nus com penas e pés descalços de megafone em punho ensinando direito constitucional para os passantes engravatados, acusando as ilegalidades do governador: para mim, ao menos, era uma imagem curiosa. E foi justamente com esses índios que descemos pelo termina de ônibus, faixas em punho, cruzamndo a ponte de onde se vê o esplêndido palácio do planalto ladeado por fileira caríssima de ministérios - Sempre seguidos de perto por um bando mau-encarado de policiais da tropa de choque -, que finalmente cheguamos de verdade ao planalto das negociatas, ao violentado projeto de lucio costa e niemeyer, à sede do sistema nervoso de nosso país. Findo o percurso, acalmados os gritos, demos as mãos em um círculo e nos despedimos de quem ficava. O pajé entrou no ônibus, fazendo de conta que seguiria conosco. Deixamos ele em um estacionamente perto da aldeia. Enquanto partíamos não tirei a cabeça da janela para ver até o fim aquele verdadeiro pajé, aquela figura anciã e misteriosa segurando sua maraca e acenando para o ônibus, calmamente acenando, até sumir no horizonte de concreto com a mão ainda erguida, amistosa, marcada, como a mão de Niemeyer, como a mão de um brasileiro. ***


Havia fome. Meu café da manhã havia sido um pastel e um pingado ali mesmo no terminal de ônibus, pouco antes da passeata, e o do pessoal não havia sido muito melhor. Ah, sim! Comi também umas duas goiabas lá na universidade, logo pela manhã. Cortesia novamente do nego Eraldo, que logo pela manhã, fazendo coisas de sarapantar, já tinha descoberto uma goiabeira carregadinha das goiabas mais gostosas e madurinhas que se pode imaginar. Deu-me uma e a outra me ajudou a tirar direto do pé, segurando antes que caísse no chão para não precisar nem mesmo lavar. Nesse mesmo bosque ainda comeria, antes de partir, mangas docinhas e aprenderia com o nego que as menores mangas são mesmo, sem dúvida, as melhores, mais doces e com menos fiapos. Mas a atividade da tarde tinha sido completa, com chuva, gritos e marcha. A fome apertava, e o informe que rolava no ônibus era de que o pessoal do espaço pra onde rumávamos, em Taguatinga, tinha aprontado um rango especial para todos. Eu só não imaginava era que podia ser tão bom. O lugar era em Taguatinga, espaço autogestionado artístico e antenado mutirou, que ficava numa ruazinha incrível. Já na chegada o Eraldo detectou uma lutieria à moda antiga, com um mestre e vários outros trabalhadores, todos obedecendo ao mestre e confeccionando violões. Era mesmo uma coisa especial: o mestre tinha mais de 60, mas seus assistentes não ficavam para trás. Experiência o pessoal ali tinha, e muita hospitalidade para aguentar nosso enxame de curiosos no meio daquele dia tranquilo. E conversaríamos muito ainda com o pessoal do mutirou e com o pessoal da rua, mas antes de tudo, como na antiga grécia, foi encher o bucho. Eis o rango: strogonoff, arroz, berinjela, pequi e mandioca. O cozinheiro era um calango firmeza que ficou o tempo inteiro mexendo a berinjela numa panela de ferro bem ampla, sobre o fogo. Servi-me com satisfação, fui um dos últimos da fila mas ainda tinha comida de sobra para mim e para o repeteco de vários outros A comida estava mesmo boa. Mas curioso foi o que aconteceu com o tal do Pequi. Pequi é uma frutinha do tamanho de um caqui, amarelo também e com gosto de giló, do qual se come apenas uma fina camada que fica em volta do imenso caroço. Como não conhecia aquilo, porém, perguntei para o cozinheiro o que era e como comia. Ele me disse que era pequi e comia normal, mas que não podia morder a semente de jeito nenhum porque dentro tinha espinhos. Eu disse que parecia pegadinha e perguntei se ele tinha avisado todo mundo. A resposta quem deu não foi ele. No mesmo instante ouvi um grito vindo da calçada, onde alguns comiam sentados conversando. Era a Maria anunciando sua língua dolorosamente cheia de espinhos de Pequi. Que doía aquilo tudo não precisava nem sentir para saber. Bastava ver as lágrimas nos olhos da pobrezinha e o tempo que demorou para tirarem aqueles espinhos todos da língua, bochecha, céu da boca, um por um, com uma pinça que também não foi fácil de encontrar. Só depois que fui descobrir um jeito mais simples de realizar aquela dolorosa tarefa, e quem me contou foi um bonequeiro (isso mesmo, fazia os mais incríveis bonecos para teatro e para quem precisar de bonecos de madeira com cabelo natural, movimentos ariculados, pequenos, grandes, enormes etc. Diz que atende encomendas no Brasil todo.). A dica era simples: farinha de mandioca, daquela grossa. Sujeito coloca a farinha na língua e vai rolando ela no céu da boca. Comi como um rei, sentado numa cadeirinha na frente da grande tela de projeções usada pelo pessoal do espaço para passar os filmes da videoteca, que eram dos melhores. The Corporation, um dos meus prediletos, estava lá entre eles. Num computador, enquanto terminava de comer e bebia um licorzinho de genipapo, o Renato se divertia com o pessoal passando umas tirinhas da mafalda que


tinha encontrado na internet. Subi no andar de cima e lavei meu prato e talheres, e fiquei enxendo o pessoal pra que fizesse o mesmo. Claro que nem precisava, pois o cozinheiro já estava lá com a mão na massa, mas sabe como é... certos hábitos que se aprendem cedo são difíceis de largar. E como já dizia o Eraldo (e usava uma camiseta com o dito estampado): Gentileza gera gentileza. O nego, aliás, já estava sentado na calçada socializando novamente com o pessoal da terra, sentando ao lado de uma morena tão maravilhosa que só podia estar casada, e de fato estava, bebendo umas cervejas e falando da vida, ou do trabalho do nego com os doidos, ou as três coisas juntas. Só sei que o papo tava bom e tive de ir lá, sob a gentil insistência para que eu aceitasse uma das cervejas. (Na estrada) Hoje, na via, grande parte do pessoal da nave adoeceu de indignação quando um patrulheiro mandou os motoristas pararem e exigiu uma certa soma para que pudéssemos seguir viagem. Os motoristas confirmaram que isso era prática comum por aquelas paragens, e eles já conheciam aquele oficial de outras cobranças, que era melhor pagar e pronto, senão era capaz de ele subir e querer autoridarizar o ônibus todo. Mesmo esse conselho dos experimentados motoristas, grande parte do povo alvoroçou, e recusavam tirar do bolso a pequena quantia (que se dividida daria uns dois cafezinhos pra cada), argumentando que embora a coisa não fosse cara, era altamente antiética, imoral, corrupta e coisas do gênero. Mas não havia tempo para argumento. Lançou-se logo a tese seguinte, que prevaleceu enfim: se nós levávamos conosco um certo cachimbo que não agradava ao patrulheiro, e não daríamos-lhe o direito de contestar nosso caximbo, também não contestaríamos a prática do patrulheiro, não pedindo que ele tolerasse em nós o que condenava, sem nele tolerar o que nos incomodava. Um terceiro observador poderia dizer que ambos estavam errados, e que patrulheiro e caximbadores deveriam se dar mal, mas o fato é que éramos só nós, e algo precisava ser decidido. Aliás, éramos nós e os motoristas, que só faziam confirmar que aquilo de combrança era mesmo um costume daqueles lados. Costume condenável por costume condenável, absolvemo-nos os dois, que também não convém arrumar confusão em terra desconhecida por divergências sobre qual lei deve ou não ser cumprida. Dia 0 Amanheci para ver o que havia restado naquele terreno irregular, naquelas valas tão cheias de lama, mato, aranhas e, até ontem, barracas. Mas não hoje. Hoje a manhã é silêncio e vazio. Saio da barraca e vejo por perto apenas a barraca do Zé Leo e da Maria. Os postes que até ontem sustentava nosso teto e mais nada. Só muito ao longe despontam outras tendas solitárias, esporádicos acampantes caminhando com toalhas do banho matinal ou a escova de dentes em mãos, um café para despertar os ânimos. Não há tristeza, apenas a evidência do fim, e um certo sentimento de vitória, de desbravamento por ter resistido até agora. Gostaria, é claro, de ter aquela trupe tão querida para conversar. Gostaria de olhar para a cara


tragicômica matinal do nosso fotógrafo André, que a essas horas já estaria provavelmente amaldiçoando a chuva que molharia sua barraca durante a noite, ou alguma aranha gigantesca a visitarlhe durante a noite. Gostaria de ver o Eraldo, agitando o café da manhã, cheio de ditados malucos e animacão e fome. Mas desde há muito que o Eraldo não nos acompanha. E desde ontem que o André, junto com todos, estão já na estrada novamente, fazendo música, contando casos, gritando, voando por entre os imensos campos desse nosso imenso país. Quase todos, na verdade. Na barraca da frente ainda aqui está Maria, e o Zé. Mas não por muito tempo. Hoje partimos também, eu para o norte, eles para oeste. Estarei sozinho depois de tanto tempo, na estrada, enfim. Mas tampouco foram todos que embarcaram naquele ônibus para São Paulo, aquele ônibus onde por 9 dias vimos Adão e Luciano se revezando no volante, dormindo no bagageiro, consertando o espelho, sendo multados pelo guarda em brasília, extorquidos por um outro em Tocantins. Aquele ônibus que estivera conosco em lugares que há 10 dias eu seria incapaz de sequer imaginar. E por dez dias estivemos juntos na viagem, mas agora não mais. Os que não estão na estrada rumo a São Paulo, estão na estrada rumo a um outro lugar. Também de volta na estrada, ou melhor, de volta na via, estaremos nós que por hoje restamos. Eles para o coração da amazônia, eu para a ilha de Marajó, ambos de barco. Essa parte do norte não precisa de asfalto, e não não precisamos ir para o sul. Desfiz minha barraca sem grandes dificuldades, depois de escovar os dentes e lamentar que não havia ninguém mais naquele acampamento para vender um desjejum decente. Nem indecente. Dobrei a lona azul que servia-me de teto (a barraca não aguentava chuva, então precisava de alguma cobertura adicional) com o pensamento fixo no misto quente da simpática família que morava bem de frente ao campus onde era o acampamento. Zé e Maria arrumavam suas coisas também, ágeis mas sem pressa. Nossos violões calados encostados no poste davam o tom daquele momento, daquela falta que nos cercava. Eles não eram muito de jogar conversa fora, e nem eu. Dividimos o que havia ficado para trás; eu fiquei com uma grande tesoura e as cordas que sobraram das lonas, e a tesoura foi mesmo muito útil nas aventuras que seguiram. Eles terminaram antes e decidiram me esperar, planejando como chegariam ao terminal fluvial de onde sairia o barco que os levaria rumo à Santarém. Amarrei a lona azul que me acompanhava desde São Paulo, agarrei minhas malas e partimos rumo ao portão principal. Pela primeira vez senti que levava peso demais, em malas demais. Pela primeira vez não tinha um ônibus fretado me esperando, ia seguir a pé por Belém, e de lá para Marajó, e de Marajó adiante. Até o caminho até o portão já parecia longe. Chegamos finalmente no ponto e tomei a primeira decisão errada do dia. Nada como pensar de barriga vazia.


Listas de preços São Luis do Maranhão Hora na internet (em média, no centro histórico) : R$ 2,00 Diária no Hostel Solar das Pedras: R$ 17,00 (com carteirinha) Mocotó no mercado central: R$ 7,00 Prato Feito no “Crioula”(rua do reviver): R$ 5,00 Kilo no Dom Francisco (rua da Pça do Tambor de Crioula): 19,99 Cachaça seleta na pizzaria (em frente à Pça do Tambor de Crioula): R$ 3,00 Entrada na casa de Reggae “Chama-maré”: R$ 8,00 Cerveja 600ml na rua: R$ 3,50 Bohemia longneck no “Antigamente”: R$ 3,80 Passagem para Teresina: 38 Passagem para Recife: 185 Passagem de ônibus: 1,70 Camiseta de São Luis: 12,00 15 ovos de codorna no quiosque da praia de São Marcos: R$ 3,00 Belém do Pará Frutas no Ver-o-Peso: Rambutam: R$ 3,00/Kg Mangustão: R$ 0,60/unidade Pitaia: R$ 5,00/unidade Peixe com açaí no Ver-o-Peso

belempa  

Dia 16 de Janeiro, tardezinha. A luz da cidade começa a se misturar com os últimos tons de vermelho do céu. Fumaça. Barulho. Olhos sujos na...