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Entrevista

Opinião

Arons de Carvalho

José Leitão

Primeiro Director do Jovem Socialista

Primeiro Secretário-Geral da Juventude Socialista

Página 7

Páginas 4 e 5

Jovem

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nº 500 28 Fev 2011

Socıalista ÓRGÃO OFICIAL DA JUVENTUDE SOCIALISTA

Director Igor Carvalho Directores-Adjuntos André Valentim, João Correia e Susana Guimarães Equipa Responsável Alexandra Domingos, Bruno Domingos, Guido Teles, Mariana Burguette, Marta Pereira, Richad Majid e Vasco Casimiro

Edição Comemorativa

Edição

500


2|nopassado JovemSocialista ›› 28 Fevereiro 2011

Termó A história dos metro nossos líderes A JS teve como primeiro líder (Secretário -Coordenador) Alberto Arons de Carvalho, eleito no I Congresso Nacional da JS, realizado a 15 e 16 de Fevereiro de 1975 na Costa da Caparica. Arons de Carvalho aderiu à ASP com 18 anos, em 1968, convidado por Pedro Coelho, tendo vista o apoio à CEUD na campanha eleitoral relativa às eleições de 1969, para a Assembleia Nacional.

A democracia venceu no Egipto e na Tunísia

“A JS estava empenhada, principalmente, nos grandes debates nacionais, na participação em comissões de trabalhadores, nos problemas de autogestão nas empresas e na questão estudantil”

Após as revoltas e os protestos no Egipto e na Tunísia às ditaduras de Osni Mubarak e Ben Ali caíram finalmente tendo o povo e a democracia ganho esta dura batalha.

Alberto Arons de Carvalho José Leitão foi eleito Secretário-Coordenador da JS no Congresso Nacional, realizado em Tróia de 1 a 3 de Dezembro de 1978. Participou na ASP e foi membro fundador do PS. “Uma das minhas prioridades ia de encontro ao desemprego juvenil e formas de criar emprego”

José Leitão

Fórum Defender Portugal No passado dia 12, os socialistas reuniram-se no Centro de Congressos de Lisboa, para debater vários temas sobre o País. Destaca-se a grande qualidade dos oradores e a elevado participação.

Margarida Marques foi a primeira mulher portuguesa a ascender à liderança de uma organização política de juventude. Desde a fundação da JS que pertencia aos corpos dirigentes, nomeadamente na área da organização.

PSD propõe precariedade O PSD continua a mostrar o seu programa político liberal. Agora veio propor que a legislação laboral fosse alterada, aumentando a precariedade através da perpetuação dos contratos a termo certo que não significam uma forma de aumento de empregos disponíveis, mas apenas a flexibilização da rotação de trabalhadores.

“Compete à JS dar voz e corpo às esperanças dos jovens e explicitar a forma como se ligam as lutas nas diferentes áreas de intervenção, que tem a ver com o quotidiano dos jovens e com a construção do Socialismo”

Margarida Marques José Apolinário foi eleito no V congresso Nacional da Juventude Socialista que se realizou de 3 a 5 de Fevereiro em de 1984, em Tróia, nele ocorre a primeira ruptura em termos de liderança na organização, dando-se o realinhamento da Direcção da JS com a Direcção do Partido. “Os jornais focaram muito o conflito de pessoas e pouco a parte de conteúdo político. Mas a eleição em Tróia marca a consolidação de algumas ideias de força, autonomia universitária, associações de estudantes, trabalhadores estudantes, etc.”

José Apolinário

Muammar Khadafi As mortes de civis líbios e a contratação de mercenários pelo Coronel Khadafi fazem capas de jornais no mundo inteiro. A situação está descontrolada e a comunidade internacional tem reunido para tomar decisões em relação ao massacre que está a acontecer neste país. por Richad Majid ›› richadmajid@juventudesocialista.org

António José Seguro entra na JS, em Fevereiro de 1980, motivado pela derrota do PS nas Eleições Legislativas de 1979, em que a AD se constitui e ganha. “Tózé” Seguro, como ainda hoje é conhecido foi eleito do dia 29 de Abril de 1990 com a moção “Vamos fazer os dias diferentes”. “Achámos que ali se jogava a vida da JS, a JS não estava no momento de fazer opções, a opção era entre viver ou acabar, havia muita gente que achava que devia acabar, que a JS devia ser um departamento de Juventude do PS”

António José Seguro


O “Esquerda” foi um jornal clandestino dos Jovens Socialistas Portugueses que teve dois exemplares, redigido sobretudo por Mário Mesquita, Jaime Gama e Arons de Carvalho.

Sérgio Sousa Pinto começa a ter notabilidade na JS por ser Presidente da Associação de Estudantes do liceu Gil Vicente, além de ter feito parte da direcção do movimento de estudantes contra a Prova Geral de Acesso. Posteriormente integra o Secretariado Nacional durante a liderança de António José Seguro. A sua candidatura ao IX Congresso em Março de 1994, na Figueira da Foz, aparece na sequência do apelo da geração mais velha do Secretariado Nacional. “É nessa fase que se calam as vozes contra as juventudes partidárias, á a fase de afirmação histórica da JS e o princípio do declínio da JSD. É nesse momento da JSD, na recta final do mandato de Pedro Passos Coelho, que a JS começa a sua grande afirmação, quando já se falava de uma onda rosa. Foi de facto um período empolgante.”

Sérgio Sousa Pinto No XII Congresso Nacional realizado de 12 a 14 de Maio de 2000 em Espinho, foram a votos duas moções, “Uma Nova Geração de Cidadãos” apresentada por Jamila Madeira e “Geração de Desafios” por Ana Catarina Mendes, tenho ganho Jamila Madeira por 1 voto, numa altura em que a JS atingia os 50 mil militantes. Jamila Madeira candidata-se a Secretária-Geral da JS aceitando o apelo de diversas pessoas com responsabilidades na organização. “O que pretendo demonstrar é que por trás dos nossos projectos existem sempre contributos das estruturas, o que quer dizer que nos alargámos qualitativamente e quantitativamente, porque pomos em pé de igualmente os 50 mil militantes da JS.”

Jamila Madeira Pedro Nuno Santos, natural de São João da Madeira foi eleito Secretário-Geral da JS em Julho de 2004, no congresso de Guimarães com a moção “Uma JS” que tinha como objectivo iniciar um novo ciclo na Juventude Socialista em torno de um projecto político. “Há batalhas que foram sempre da JS… foram marcas incontornáveis: a IVG, os direitos LGBT e a Emancipação Jovem, pela habitação, na luta contra os falsos recibos verdes, contra a precariedade no emprego jovem ou contra os estágios não remunerados”

Pedro Nuno Santos Duarte Cordeiro começou a sua militância na JS no núcleo de estudantes socialistas do ISEG, tendo feito um percurso notável que culminou na sua eleição como Secretário-Geral em 2008 no Congresso Nacional que se realizou no Porto. Foi um momento de união em torno de um candidato e da sua moção“Agir por mais Igualdade.” “O meu mandato na Juventude Socialista fica marcado pela concretização, no Parlamento, de muitas das nossas propostas. Destaco o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a Educação Sexual nas escolas, o sistema de empréstimo de manuais escolares e a obrigatoriedade de divulgação da factura energética do Estado. Todas elas reflectem linhas fundamentais para a JS, o combate a todas as formas de discriminação, a redução das desigualdades sociais entre os jovens e a luta por um país ambientalmente sustentável.”

Duarte Cordeiro

|3 Editorial Igor Carvalho Director do Jovem Socialista ›› igorcarvalho@juventudesocialista.org

500 Edições O Jovem Socialista atingiu um marco histórico! Enquanto Director deste jornal é um prazer assistir a este momento e poder fazer parte dele juntamente com todos vós. O Jovem Socialista tem uma história de vida que começa em Setembro de 1975 com José Leitão como responsável por este órgão de comunicação. Os tempos eram outros e a tecnologia a que hoje temos acesso não é mesma, pelo que as dificuldades, além de muitas, tinham como pano de fundo momentos políticos diferentes e conjunturas complicadas. Como afirma José Leitão no seu artigo A nossa de opinião publicado responsabilidade na página 7, o Jovem é transmitir-vos, Socialista tinha uma da melhor forma possível, informação componente ideopolítica, social lógica e pedagógica e cultural com muito grande, sendo uma pitada de que a publicação de irreverência “textos doutrinários e entrevistas” era uma prioridade. Olhar para o “Jovem” é olhar para toda a história da nossa estrutura e perceber que a grande característica deste órgão é a capacidade de adaptação aos novos tempos. A nossa responsabilidade é transmitir-vos, da melhor forma possível, informação política, social e cultural com uma pitada de irreverência. Neste jornal podem encontrar opiniões e visões que nem sempre são as vossas, mas que acrescentam riqueza de pensamento e nobreza de espírito a este espaço que é vosso. Não posso deixar de agradecer aos camaradas Arons de Carvalho e José Leitão por terem colaborado nesta edição comemorativa com os seus depoimentos e histórias de vida. Devemos-lhes a eles e a muitos outros, o ponto de partida histórico da nossa estrutura e do nosso jornal! Um grande abraço e que venham mais 500!


4|entrevista JovemSocialista ›› 28 Fevereiro 2011

Um percurso político Alberto Arons de Carvalho, primeiro

Secretário-Coordenador (actualmente denominado Secretário-Geral) da Juventude Socialista, é licenciado em Direito, pela Universidade de Lisboa. Foi jornalista e actualmente é Professor da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

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m 1973, foi candidato a deputado pela Oposição Democrática. Em 1975, foi deputado à Assembleia Constituinte e depois disso foi deputado à Assembleia da República durante 9 legislaturas, até 2009. Ingressou no Partido Socialista em 1974, e foi um dos fundadores da Juventude Socialista. Na entrevista que se segue podemos conhecer um pouco do seu percurso político.

Habitualmente os jornalistas vivem dentro dos círculos políticos. No seu caso, era um jornalista que era politico. Eu comecei a minha curta carreira de jornalista em 1974. A minha colaboração com “A Republica” começou uns anos antes do 25 de Abril e foi já uma forma de participação na política. Nessa altura entraram para o jornalismo e para o jornal uma série de pessoas como o Jaime Gama e o Mário Mesquita, e eu mais tarde acabei por entrar, também numa forma de participação política. Mas fiquei no jornalismo apenas até 1975. Estive n’ A Republica, mas depois aquilo fechou e um grupo de pessoas que saiu criou A Luta. Depois vieram as eleições para a constituinte e eu saí. Depois mais tarde voltei ao jornalismo, mas acabei por ter de optar entre o jornalismo e a política, e escolhi a segunda opção. Como é que veio parar à política? Vim por questões evidentemente familiares. O meu pai estava exilado e a minha família conhecia muitíssimo bem a família Mário Soares. Fui colega, no Liceu Francês do João Soares, e vivíamos muito próximos, vendo neles um exemplo. Depois de estar no Partido o que o levou a criar a JS? Era a participação. Eu entrei na Acção Socialista Portuguesa nas eleições de 1969. Aliás, de uma forma curiosa, porque nessa altura a minha família já

não se dava tanto com a família Soares. Em todo o caso, nós ouvíamos muito a BBC, e todas as semanas ouvíamos os resumos da imprensa britânica. Um dia ouvi uma reportagem sobre um artigo do The Financial Times, que acusava o Mário Soares de ter feito um acordo tácito com o Marcelo Caetano e de estar na abertura do regime, etc., e resolvi escrever uma carta ao The Financial Times, questionando sobre o assunto, que achei estranho ser verdade. Um dia a minha mãe encontrou a Maria Barroso na rua e contou-lhe a história. Isto há-de ter chegado aos ouvidos do Mário Soares e um dia o Pedro Coelho telefonou-me e convidou-me para criar o grupo de jovens na candidatura da CEUD, em 1969. Depois disso continuei e criámos os Jovens Socialistas. Primeiro fazíamos uns boletins clandestinos, depois como já estávamos na Universidade começámos a criar uma rede de contactos e foi daí que nasceu uma presença nossa na Juventude Universitária Católica, através do José Leitão. Em 1974, na criação da JS, quais eram as grandes prioridades? A JS foi criada logo após o 25 de Abril, passados poucos dias resolvemos fazer uma reunião com os Jovens Socialistas, que já tinham uma forte participação nas Universidades. A primeira grande questão foi o nome da organização e a segunda era seguir ou não o modelo da União das Juventudes Comunistas, ou seja preparar estudantes-trabalha-


A JS foi criada logo após o 25 de Abril, passados poucos dias resolvemos fazer uma reunião com os Jovens Socialistas, que já tinham uma forte participação nas Universidades. A primeira grande questão foi o nome da organização e a segunda era seguir ou não o modelo da União das Juventudes Comunistas, ou seja preparar estudantes-trabalhadores. Na altura achámos que não fazia sentido.

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dores. Na altura achámos que não fazia sentido. As grandes prioridades foram basicamente organização e colaboração com o Partido. Os anos de 1974 e 1975 foram anos de grande combate político. As grande tarefas era ajudar o Partido e mobilizá-lo e por outro lado a organização. Nós nascemos com um grupo de pessoas em Lisboa e no Porto e à medida que íamos crescendo e as sedes do PS foram abrindo, por todo o país, muitos jovens quiseram aderir. A nossa prioridade era ir às federações, organizá-las, marcar eleições, fazer estatutos, etc. Por exemplo, na primeira Convenção, em Dezembro de 1974, há poucas matérias exclusivamente dos jovens. A principal preocupação é a política ideológica, a afirmação dos ideais do socialismo em liberdade. A pouco e pouco fomos criando um programa para os jovens, mas inicialmente era um combate político de fundo. Trabalhando dessa forma para o Partido, eram bem vistos? Sempre fomos apoiados pelo Partido, mas tal como o Partido se dividiu a certa altura nós também tivemos a nossa divisão, e uma das facções mais radicais tinha uma presença Trotskista evidente, que foi vencida. Mas no fundo, há um período de crescimento de organização que alinha com as direcções partidárias até ao final de 1975. Em 1976, o país acalma politicamente, e a JS começa a ter um programa de preocupação para resolver os problemas dos jovens, e não tanto um programa ideológico. O facto de ser deputado trouxe alguma vantagem para a estrutura? O facto de ser deputado dava-me tempo para a estrutura. Consegui facilmente conciliar. Depois tinha uma grande vantagem, pois tinha voz em vários fóruns, tanto no Parlamento, como no Partido. Há alguma bandeira desse tempo, que tenha ficado por resolver, e que ainda hoje faça sentido? A memória já não ajuda, mas os tempos eram outros. Não me recordo de nada que a JS tivesse combatido que ainda seja transporto para hoje. Mas ouve vários documentos da origem da JS que eu doei à Fundação Mário Soares, onde pode haver alguma coisa. Qual é o momento mais marcante do seu percurso na JS? O momento mais marcante acaba por ser o 25 de Abril, que eu soube antes, e estava com o rádio ligado à espera dos sinais. Mas ainda não havia JS. Houve vários momentos marcantes, alguns Congressos disputados, o momento de partida da JS, em 1978, a eleição para Presidente da Comissão de Controlo da União Europeia das Juventudes Socialistas, mas não há assim um marcante. Hoje, sendo Professor, como é que vê o papel dos jovens na política? No meu tempo havia uma curiosidade pela política muito maior. Hoje quem quer participar civicamente não precisa de ir para um partido politico, pode ir para os mais diversos movimentos sociais. Mas acho que há um interesse das pessoas pela participação e pela militância. ›› Entrevista realizada por André Valentim ›› andrevalentim@juventudesocialista.org da JS


6|artigodeopinião JovemSocialista ›› 28 Fevereiro 2011

500 vezes no centro do debate Ocasionalmente, quando em arrumações pontuais, ou quando a curiosidade fala mais alto e sentimos a tentação de procurar o socialismo dentro de alguma velha gaveta ou baú perdidos algures numa sede da JS ou do PS, temos a felicidade de nos depararmos com um exemplar mais antigo do Jovem Socialista.

É

quase sempre uma oportunidade para sermos confrontados com o nosso ADN, com as causas dos nossos antecessores e com a história da nossa organização. Para além disso, é um momento em nos apercebemos da estranha actualidade e recorrência de muitas das temáticas que têm animado a JS ao longo das últimas três décadas e meia, desde a luta por melhores condições de empregabilidade, passando pelo reforço de políticas públicas para o ensino superior ou pelos avanços nas áreas dos direitos e das liberdades fundamentais.

É, portanto, com especial satisfação que tenho a oportunidade e o privilégio de me associar à comemoração da 500.ª edição, deixando um breve depoimento, assente não só na tal relação nostálgica que cada um de nós estabelece com o “Jovem”, sempre que folheia edições mais antigas, mas também procurando lançar algumas ideias e desafios para o debate sobre qual tem sido e deve ser primordialmente a função de um órgão como o Jovem Socialista. No entanto, ao comemorarmos a efeméride da edição n.º 500, importa igualmente recordar aquele que hoje poderemos reconhecer como o imediato antecessor do Jovem Socialista, editado e distribuído num período em que a imprensa não era livre e a participação livre e democrática era ainda apenas um ideal a conquistar pelos nossos camaradas da década de 70. Ao saudarmos os 500 exemplares de uma publicação pontuada pelo debate plural e pela difusão de ideias políticas, é incontornável uma palavra de reconhecimento da coragem em editar o “Esquerda Socialista”, o jornal clandestino dos jovens da Acção Socialista Portuguesa, dinamizado em primeira linha por Mário Mesquita, Jaime Gama e Arons de Carvalho. Ao longo dos 35 anos que se seguiram à decisão que levou à sua criação, no I Congresso Nacional da JS, o Jovem Socialista foi capaz de se reinventar várias vezes, ora apostando na vertente informativa virada para o exterior (sendo mesmo colocado à venda em condições de igualdade com outros órgãos de imprensa escrita), ora vocacionando o seu trabalho para os militantes da estrutura e para as suas actividades. Ao longo de todo esse percurso, porém, o Jovem foi capaz de manter uma personalidade própria e autónoma, que o diferenciam de muitos dos seus congéneres órgãos de informação de partidos ou organizações partidárias. É inegável que o desafio que se lança a um órgão de comunicação social de

uma organização política é, quase sempre, um invariável apelo à esquizofrenia e à contradição, em que a vontade da imparcialidade jornalística e a natureza de órgão de tendência se digladiam pela alma dos conteúdos apresentados. Achar a média via virtuosa e equilibrada tem sido o desafio que sucessivos directores do Jovem foram superando com mestria ao longo dos anos: não perder sentido crítico em relação aos nossos próprios erros e omissões, ao mesmo tempo que conseguimos passar a nossa mensagem de transformação social e de empenho no jogo democrático, mobilizando os militantes e simpatizantes. Ao longo dos anos, o Jovem Socialista soube ser um espaço de opinião livre e diversificada, confrontando-se nas suas páginas diferentes projectos políticos, leituras ideológicas e personalidades que marcaram a história da JS. Para além disso, o Jovem Socialista conseguiu também recolher a sua boa dose de “furos jornalísticos”, depoimentos dos mais variados actores políticos, sociais e culturais que enriqueceram o seu conteúdo e alargaram o seu espectro de destinatários. A recente entrevista a Aminetu Haidar, é apenas o mais recente exemplo dessa tradição, que consegue contar ainda com vultos do socialismo democrático como Felipe Gonzaléz ou com uma formidável entrevista a Bob Marley, numa edição da década de 80, aquando de uma sua passagem por Lisboa. Conforme nos relata, nesta mesma edição, o seu primeiro director, José Leitão, o Jovem Socialista disse também presente nos momentos de debate ideológico determinantes para a vida da JS e do PS, procurando recolher contributos enriquecedores do trabalho político quotidiano e que permitissem traçar um rumo claro e plural. Este foi, e continua a ser, sem dúvida, um fórum privilegiado do debate político da área do socialismo democrático. Hoje, ao celebrarmos as 500 edições, importa em primeira linha aproveitar o momento para celebrar a nossa história enquanto organização comprometida com os valores da República, do Socialismo e com a construção da Democracia e em saudar o Jovem Socialista enquanto veículo privilegiado de transmissão dessa mesma história. É imbuídos desse espírito que esperamos poder vir a concluir, no decurso do actual mandato, uma tarefa ambiciosa de colocação online de todos os exemplares disponíveis do Jovem Socialista, acrescendo àqueles que já podem ser lidos online desde 2004. Finalmente, chegados à marca das 500 edições é, acima de tudo, o momento de agradecer a todos os camaradas que passaram pela direcção e pela redacção do Jovem Socialista ao longo dos últimos 36 anos, dedicando o seu tempo, talento e convicções para fazer do Jovem bem mais do que um mero órgão oficial de uma juventude partidária, assegurando a qualidade dos seus textos e a abrangência de opiniões e temáticas que desejamos numa organização aberta, plural e democrática. Estou convicto de que poderemos voltar a dizer o mesmo quando celebrarmos a edição n.º 1000…


A publicação do Jovem Socialista tinha resultado de uma decisão do I

Congresso Nacional da Juventude Socialista e tinha nessa altura uma função fundamental, ser um organizador colectivo, contribuir para criar uma linha política coerente, suportada em posições ideológicas claras, difundindo as orientações dos órgãos nacionais.

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José Leitão 1º Director do Jovem Socialista

editorial do Jovem Socialista escrevi: “Temos que analisar a situação dos jovens trabalhadores, dos jovens aprendizes, dos estudantes trabalhadores (…). Nas escolas, temos de coordenar a nossa acção e debater entre nós mais profundamente a nossa linha estudantil (…)”. Os nossos camaradas soldados, marinheiros e oficiais têm de merecer a nosso apoio (…). Nas comissões de trabalhadores e moradores, os jovens socialistas (…). Temos de procurar conhecer melhor a situação dos nossos jovens camaradas camponeses (…)” - mais tarde passámos a designá-los por agricultores. “Há que ser um elemento dinamizador nas Casas do Povo, nas associações recreativas e desportivas.” Estas referências não eram retóricas, o Jovem Socialista, falava da luta dos jovens estudantes, mas também dava a palavra a jovens trabalhadores socialistas, alguns deles activistas sindicais, divulgando as conclusões dos encontros de jovens trabalhadores. Na Assembleia da República os deputados da Juventude Socialista, cujo número variou entre um e três, batiam-se por questões, que tinham a ver com a situação nas escolas, ao combate ao desemprego juvenil, propondo medidas para criação de empregos, incluindo medidas que tinham a ver com a situação dos jovens agricultores. O interessante livro “Juventude Socialista – 30 Anos de Estórias de Portugal e do Mundo”, organizado por iniciativa de Jamila Madeira mostra que houve continuidades na intervenção política da Juventude Socialista, mas essa é apenas uma parte da realidade. Se lermos os depoimentos de Arons de Carvalho e de Duarte Cordeiro no livro “ Socialismo no Século XXI”, uma excelente iniciativa de Duarte Cordeiro, constatamos que para além das continuidades, se verificaram profundas mudanças de agenda política e ideológicas.

“É necessário elaborar novos projectos colectivos que traduzam os valores do socialismo democrático”

1.

O aparecimento do Jovem Socialista O primeiro número do Jovem Socialista foi publicado em Setembro de 1975. Era um jornal que se vendia ao preço de 3$50 nos quiosques, em geral nos mesmos locais que os restantes jornais. Continuou a ser distribuído e vender-se nos anos seguintes da mesma forma, tendo o seu preço passado no segundo ano para 5$00. Era feito numa base totalmente militante. Ser director do Jovem Socialista era uma tarefa exaltante, mas muito responsabilizadora. Muitos dos textos eram escritos por mim na máquina de escrever, muitas vezes durante a noite. Tínhamos apenas a colaboração de um paginador profissional, mas acompanhávamos directamente a paginação na tipografia. A nossa maior angústia nessa fase era conseguir fotografias e ilustrações. Os camaradas enviavam informações e tomadas de posição, que procurávamos trabalhar com critérios jornalísticos que íamos aprendendo. A publicação do Jovem Socialista tinha resultado de uma decisão do I Congresso Nacional da Juventude Socialista e tinha nessa altura uma função fundamental, ser um organizador colectivo, contribuir para criar uma linha política coerente, suportada em posições ideológicas claras, difundindo as orientações dos órgãos nacionais. Nessa altura a Juventude Socialista estava num rápido processo de crescimento e era necessário que o Jovem Socialista contribuísse para a formação ideológica desses jovens. Recorde-se que na altura da realização do I congresso a JS já tinha cerca de oito mil militantes e que no II Congresso já tinha 15 mil militantes, como escreveu recentemente Arons de Carvalho, o nosso primeiro Secretário - Coordenador. Tornava-se necessário definir o Socialismo por que lutávamos, demarcando-nos da direita, mas também do leninismo e do estalinismo. A Juventude Socialista combatia a(s) esquerda(s) comunista(s) a partir de posições de esquerda e não é por acaso que no primeiro editorial, que publiquei se dizia “Da sua iniciativa [da Juventude Socialista] depende, em grande medida, a libertação da imaginação e das energias criadoras da juventude portuguesa para um combate sem tréguas por uma sociedade sem classes, em que os trabalhadores sejam produtores associados, o poder expressão da vontade popular e a cultura obra da capacidade criadora de todos”. Estas frases eram respigadas, é preciso dizê-lo do que era então a Declaração de Princípios do Partido Socialista, mas o nosso socialismo em liberdade foi sendo substantivado na linha do socialismo democrático e autogestionário, que foi definida progressivamente como a grande orientação ideológica da Juventude Socialista. Na linha de contribuir para o aprofundamento ideológico da JS, como vanguarda para o próprio PS, publicávamos textos doutrinários e entrevistas. Recordo textos de António Reis, Lélio Basso, Carlos Lage, António Barreto, Michel Rocard, Friedrich Engels, Anton Pannekoek, Geoges Gurvitch, J.B. Fages, Mário Sottomayor Cardia, Pierre Chaulieu, Vitorino Magalhães Godinho, Max Adler, Pierre Ronsanvallon, Jiri Peliken, Alain Touraine, Gisele Halimi, Eduardo Lourenço, Grupo Socialismo em Liberdade, Karl Marx, Jean Ziegler, Filipe González, Gilles Martinet, Didier Motchane, Marcelo Curto, Rosa Luxemburgo, Cornelius Castoriadis, CFDT e Jorge Sampaio.

2.

O mesmo e o diferente A Juventude Socialista, como recordou recentemente Arons de Carvalho não era apenas uma organização de jovens estudantes, mas também de jovens trabalhadores, tendo recusado o modelo do PCP, que ao lado de uma organização de estudantes tinha uma organização de jovens trabalhadores. A nossa preocupação exprimia-se nesta palavra de ordem, onde está Juventude aí está a JS. Não é por acaso que no primeiro

3.

Perante a crise e a incerteza, a importância de definir prioridades O mundo mudou profundamente e o processo histórico colocou desafios diferentes. Nós acreditávamos no socialismo democrático como um projecto de uma sociedade sem classes e de um Estado diferente marcado pela liberdade, pela igualdade, pela autonomia e pela solidariedade. Depois dos momentos fortes de afirmação na Constituição da República e de construção do Estado Social, entre nós, o projecto socialista deu lugar a programas socialistas mais flexíveis de acordo com o espírito do tempo e a lógica dominante na construção europeia. Tony Judt, um dos maiores historiadores do século XX, no seu testamento político “Um Tratado sobre os nossos actuais descontentamentos” criticou o processo que levou a que a narrativa emancipadora que servia de suporte à luta pela social-democracia, no sentido do que designamos por socialismo democrático, deu lugar primeiro a uma política de causas e depois a uma mera política de direitos humanos. Estamos num novo momento de viragem, devemos valorizar tudo que foi feito na linha dos valores do socialismo democrático no período mais recente, mas temos de combater as profundas desigualdades sociais existentes, sem esquecer que temos de ter respostas inovadoras e eficazes para as angústias e aspirações da grande maioria dos jovens deste tempo, que são confrontados com questões vitais, como o desemprego, a precariedade, a dificuldade de acesso à habitação, a falta de condições para constituir família, a necessidade de que a escola, a saúde, a segurança social continuem a ser asseguradas pelo Estado Social, a necessidade de assegurar um ambiente sustentável no futuro, prevenindo, simultaneamente, o racismo e todas as formas de discriminação. Continua a ser tarefa de todos nós não nos resignarmos à exclusão, à desigualdade, à opressão, a recusar tudo o que ponha em causa a dignidade de cada ser humano e de agirmos uns para com os outros em espírito de fraternidade. Para isso não basta somar causas, é necessário elaborar novos projectos colectivos que traduzam os valores do socialismo democrático.

›› Artigo escrito por José Leitão, Primeiro Director do Jovem Socialista e Secretário-Geral da JS


Edições antigas do Jovem Socialista

A ICIAL ST F I O AL CI O S EDIÇÃO º 1 OVEM J 1 Setembro 1975

17 Novembro 1988

5 Janeiro 1995

18 Junho 2005


Jovem Socialista 500