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João Morais apresenta o Serviço de Cardiologia do Centro Hospitalar de Leiria

diretor: José Alberto soares Trimestral | ABR./MAI./JUN. 2018 Ano 5 | Número 17 | 3 euros

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Publicações

www.justnews.pt

7.ª Reunião Anual do GEDMP Miocardiopatias vão ter documentos de consenso adaptados à realidade portuguesa

Henrique Cyrne de Carvalho, diretor do Laboratório de Hemodinâmica do CHP:

“Continuo apaixonado pela Cardiologia de Intervenção”

7.ª Reunião do Grupo VaP-APIC

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entrevista

Henrique Cyrne de Carvalho, diretor do Laboratório de Hemodinâmica do Serviço de Car

“Continuo apaixonado pela Cardiologia Muito ativo e cheio de grandes projetos, pessoais e profissionais, Henrique Cyrne de Carvalho, diretor do Laboratório de Hemodinâmica do Centro Hospitalar do Porto, recebeu a Just News para contar um pouco da sua história e do percurso pela Cardiologia de Intervenção. Área pela qual ainda se sente, “todos os dias, apaixonado”. Haveria também de nos fazer uma “pequena visita guiada” pelo Porto, a cidade do seu coração. Just News (JN) – O que representa a Cardiologia de Intervenção na sua vida? Henrique Cyrne de Carvalho (HCC) – Pelo menos, em tempo, a Cardiologia de Intervenção representa uma parcela muito grande da minha vida, independentemente do que significa para mim enquanto atividade que escolhi seguir. Há muitos anos, quando houve intenção de se criar um Laboratório de Hemodinâmica no Hospital de Santo António, o então diretor do Serviço de Cardiologia perguntou quem estava disponível e interessado em se dedicar a esta área, em ir aprender e treinar. Ainda ele não tinha terminado a frase e já eu levantara a mão! Estávamos numa fase muito embrionária da Cardiologia de Intervenção, que se chamava PTCA. Tinham passado cerca de 10 anos desde a primeira angioplastia, as revistas estavam cheias de informação científica sobre a área e eu percebi logo que viria a ter um impacto enorme. Ficou decidido que eu iria treinar para, posteriormente, se abrir aquele que veio a ser o Laboratório de Hemodinâmica do Hospital de Santo António. Na época, existiam apenas três ou quatro grandes centros no país a realizar estas técnicas. Fui para o Hospital de São João e treinei com o Prof. Damião Cunha, um dos pioneiros em Portugal, com formação feita nos EUA. A partir daí, tive a sorte de acompanhar na primeira pessoa o percurso e a evolução desta grande área da Cardiologia que revolucionou completamente o resultado do tratamento dos doentes. Posteriormente, fui para Toulouse, em França, onde pude treinar com alguns dos pioneiros. Quando voltei, em 1994,

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montámos o Laboratório de Hemodinâmica. JN – É uma área da Cardiologia muito gratificante? HCC – Sim. Porque é possível ver, exatamente no momento, aquilo que conseguimos atingir. O doente entra muito mal na sala e, felizmente, na maior parte das vezes, sai muitíssimo melhor. É muito gratificante! Muito exigente e pesado em termos de disponibilidade física, mas muito gratificante. Eu continuo apaixonado por isto. Sinto-o todos os dias. JN – Como é que lida com o stress dentro do laboratório? Ou já não é stressante para si? HCC – É diferente. Faço-o com prazer. Continua a haver respeito pelo procedimento e a dificuldade mantém-se, não se pode facilitar em nada. Cada caso é um caso, até mesmo aqueles que aparentemente são mais simples. Mas tenho uma adrenalina boa! É uma sensação de algum conforto pela experiência, apesar de continuar a ser desafiante. É um stress bom! JN – E a Medicina, quando percebeu que seria o seu futuro? HCC – O meu pai era médico e o meu irmão também é. O meu pai nunca fez pressão, nem em relação a mim, nem ao meu irmão. Contudo, talvez existam coisas que se aprendem e se absorvem por difusão passiva…Por algum motivo nunca tive dúvidas. Sinto-me satisfeito com a opção que fiz. Foi um gosto que começou muito cedo. JN – Em que altura da licenciatura decidiu fazer o internato de Cardiologia?


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diologia do Centro Hospitalar do Porto - Hospital de Santo António:

de Intervenção. Sinto-o todos os dias”

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HCC – Eu queria uma especialidade médica. Quando acabei o curso já era monitor de Medicina 1, que era a semiologia médico-cirúrgica. A minha intervenção fazia-a no campo da Medicina Interna, de que na altura gostava. Porém, apercebi-me rapidamente de que não me chegava, por ser demasiado generalista e, por outro lado, tão absorvente que não me permitia uma especialização numa área médica. Fiquei entre a Nefrologia e a Cardiologia, sendo que esta última era a que mais me agradava. Tive a sorte de conseguir ficar com a vaga de Cardiologia, ou seja, numa área médica e naquela que foi a minha primeira opção. JN – Consegue explicar esse gosto pela Cardiologia? HCC – Não sei! Sempre gostei, mesmo

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durante o curso. Por um lado, por ter patologia muito diferenciada. Por outro, porque, apesar de não haver as opções terapêuticas que temos hoje, já se caracterizava por registar uma grande evolução. Não encontro outra especialidade médica em que isso aconteça, com uma capacidade de tratamento tão eficaz. JN – Como já referiu, em 1993, foi para Toulouse, onde fez um estágio de um ano em Cardiologia de Intervenção. Como foi a experiência? HCC – Tive a sorte da minha candidatura ter sido aceite! Na altura, só recebiam um cardiologista estrangeiro por ano e havia muitos médicos a concorrer. Passei pelas várias fases e, felizmente, consegui. A Unité de Cardiologie Interventionnelle da Clínica Pasteur era, indiscutivelmente,

e continua a ser, um dos centros de referência mundiais e ter a possibilidade de trabalhar ali foi excelente. Sabia que tinha de fazer render este investimento pessoal, que o Hospital de Santo António e o Serviço de Cardiologia apoiaram. Nesse ano, participei num número de procedimentos, tanto diagnósticos, como terapêuticos, superior ao que se fez em Portugal inteiro! Mas não fui apenas para treinar. Também fui aprender como se organizava um modelo de laboratório de Hemodinâmica, tendo esta sido uma parte muito importante da minha formação. Eu era muito novo e esta experiência deu-me uma grande bagagem, que me permitiu encarar um desafio muito difícil, vir para Portugal montar o primeiro laboratório de Hemodinâmica num hospital sem Cirurgia Cardíaca. Correu bem, de tal forma

que logo de seguida o Dr. Hélder Pereira e o Dr. Leitão Marques também abriram os seus laboratórios e, atualmente, há muitos mais, em hospitais sem cirurgia. No início, a Cirurgia Cardíaca funcionava como apoio às dificuldades e às complicações associadas à angioplastia que não podiam ser resolvidas no laboratório. Não foi um início com um trajeto simples. Acautelei todo o sistema para a proteção dos doentes. Tinha um protocolo com o Prof. Rodrigues Gomes, diretor do Serviço de Cirurgia Cardíaca do Hospital de São João, que recebia os doentes se houvesse alguma complicação. Tinha à porta do Laboratório de Hemodinâmica uma ambulância medicalizada, para um eventual transporte urgente do doente. Felizmente, nunca foi necessário utilizá-la, a não ser por condições asso-


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- Lema de vida: Ser feliz e fazer felizes os outros. - Último livro que leu: Até que as pedras se tornem mais leves que a água, de António Lobo Antunes. - Cidade favorita: Tenho o Porto no coração, mas adoro Paris. - Local a conhecer: Sou um fã do mar. Gostava de conhecer mais praias exóticas e melhor a Austrália. - Prato preferido: Como mais por necessidade do que por prazer gastronómico, mas gosto de um bom cozido à portuguesa. - Uma pessoa que admira: Como figura, o Prof. Nuno Grande. Para mim, é um marco e uma memória. Foi um dos fundadores do ICBAS e foi meu professor. A sua vertente humanista marcou-me muito. Dos afetos, o Pai e a Mãe. sinto um grande orgulho neste percurso e na equipa que consegui constituir. Isso é indiscutível! Provavelmente, haverá coisas que poderia ter feito de outra maneira, mas sinto-me satisfeito com a forma como tudo aconteceu e foi progredindo. Tenho a certeza de que, quando eu sair, estarão reunidas todas as condições para o laboratório continuar a evoluir. Isso não estará, de forma alguma, dependente de mim! Sempre tive o cuidado de individualizar a formação dos meus colaboradores e de lhes conceder condições semelhantes às que tive. Nenhum deles deixou de ir fazer o seu treino. Até agora, todos têm ido para Toulouse, até porque se criou uma relação de proximidade muito grande com aquele centro.

ciadas à doença. Mais tarde, constatou-se que era um modelo que funcionava, era adequado e permitia tratar, de forma eficaz, um número muitíssimo maior de doentes. Hoje em dia, temos a felicidade de dispor, em todo o país, de condições que permitem tratar os doentes de forma semelhante. Contudo, devo dizer que, para se chegar a esse ponto, dependeu muito mais das pessoas e de boas vontades do que das estruturas ligadas ao Estado. Sem dúvida alguma. JN – Como foi a experiência? Sentia-se preparado? HCC – Seria sempre difícil! Nessa altura, tinha 36 anos e estava a encabeçar um projeto em que tinha a responsabilidade de promover a inovação, sendo que se tratava de um laboratório instalado num

centro sem cirurgia. Tinha a idade que tinha, para além de um percurso profissional que, apesar de rico, era ainda curto em tempo e que estava sob escrutínio. Foi, obviamente, uma fase intensa. JN – E era o diretor do laboratório… HCC – Pois, e era o diretor do laboratório… Entretanto, constituímos uma equipa com médicos que treinaram no Hospital de São João, enquanto estive fora, para que já tivessem a sua formação básica assegurada e pudéssemos constituir uma equipa logo que eu voltasse. Porém, durante muito tempo, estive a fazer a prevenção da angioplastia sozinho… Nem sempre foi fácil. JN – Mas correu sempre tudo bem? HCC – Felizmente, sim! Olho para trás e

JN – E, já agora, como foi viver um ano em Toulouse? HCC – Foi uma cidade que me acolheu muitíssimo bem. Só tenho boas recordações. Foi difícil, porque já era casado e tinha dois filhos pequenos. Como eles andavam num colégio francês, ainda ponderámos transferi-los para uma escola em Toulouse e irmos todos. Contudo, por tão pouco tempo, não fazia sentido e o esforço acabou por ser mais individual. É muito fácil viver em Toulouse. Naquela zona de França, as pessoas são muito diferentes dos parisienses, sendo mais parecidas com os latinos, de Espanha e de Portugal. São muito acolhedoras. Tive a melhor receção e apoio possíveis! Toda a gente é muito simpática. Não nos convidam para jantar fora, mas sim em sua casa. Isto diz muito! Tirando o calor do verão, que é insuportável, e a falta do mar, é uma cidade muito simpática. Tenho as melhores recordações desse período, com um princípio difícil, porque

larguei tudo e entrei num modelo diferente, mas a verdade é que rapidamente me enquadrei. Foi um ano em que vivi um momento muito importante da minha vida e em que criei amizades que mantenho vivas e em proximidade. A diferença era muita comparativamente a Portugal, sobretudo em termos de organização. Tudo se passava com uma fluidez a que eu não estava habituado. Durante muito tempo, fui lá uma ou duas semanas por ano para estar com eles, mas, entretanto, passei por um período em que já não tinha tanta disponibilidade. Voltei depois, durante um ano, repartido em episódios – o que me permitiu manter a minha vida aqui –, quando fiz a formação na área estrutural das válvulas aórticas. Foi um pouco o recordar as origens, passados tantos anos... Foi muito bom! JN – Também é coordenador do Laboratório de Hemodinâmica de Leiria? HCC – Sou. Foi por convite do Prof. João Morais e do Conselho de Administração do Centro Hospitalar de Leiria. Nessa altura, foram montados o Laboratório de Hemodinâmica, o novo Serviço de Cardiologia e os Cuidados Intensivos. O Prof. João Morais convidou-me a mim e ao Prof. José Batista para formar e coordenar a equipa que irá ficar, no futuro, a assegurar este modelo da atividade em Leiria. Começámos há cerca de 8 anos. Temos os tempos distribuídos. Eu vou a Leiria fazer cateterismos à quinta e à sexta, de 15 em 15 dias, alternando com o Prof. José Batista. Temos também a colaboração do Dr. Hilário Oliveira e do Dr. Jorge Guardado. É um projeto que tem evoluído muito bem. Tem um número de angioplastias muito elevado. É mais um contributo! Não é a

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entrevista primeira vez que desenvolvo um modelo desta natureza. Fiz o mesmo no Hospital de Vila Real, entre 2008 e 2014.

que ou subo agora o degrau seguinte ou, mais tarde, já não será possível. Assim sendo, vou-me propor a fazê-lo!

JN – Começou a dar aulas muito cedo, ainda durante o seu internato, sendo hoje professor catedrático do ICBAS-UP. Qual o espaço que a docência ocupa na sua vida? HCC – Muito. E cada vez mais. Fiz todo o percurso. Comecei como monitor e passei pelas várias fases, assistente, professor auxiliar, etc., até chegar, por concurso, a professor catedrático. Além disso, sou diretor do Curso de Medicina. Sou regente da Unidade Curricular de Medicina 1, que é a que mais unidades de crédito tem. Tenho 36 assistentes. É algo que funciona de forma organizada e piramidal, mas ocupa-me muito tempo, e a Direção do Curso cada vez mais. Contudo, é algo que me dá um prazer especial! Enquanto aluno, também passei pelos vários degraus do percurso académico. Pertenci a quase todos os órgãos de Direção da Escola, como o Conselho Diretivo e o Conselho Pedagógico, para além de ter sido presidente da Associação de Estudantes. Portanto, estou muito por dentro, não apenas do ambiente relacionado com a docência, mas igualmente do meio académico. É algo que me ocupa muito do meu tempo e da minha cabeça... Além disso, possivelmente, vou concorrer a um cargo mais diferenciado… Vamos ver o que acontece nos próximos meses!

JN – Costuma conversar com os seus alunos e internos? HCC – Muito. Temos uma proximidade grande, tanto com os alunos como com os seus representantes. Dei aulas práticas durante muitos anos e tenho uma quantidade de médicos de várias gerações que são meus amigos! Tive a sorte de os ver progredir, tornando-se muitos deles excelentes médicos em várias áreas, o que, para mim, é uma satisfação pessoal muito grande. Eles sentem essa proximidade desde que eu sou diretor de curso, tal como sentiam durante o tempo em que fui regente e docente. Gosto de os ouvir e que me ouçam. É como digo aos meus filhos: não lhes dou conselhos, mas dou-lhes a minha opinião. Eles fazem o que entenderem. É uma partilha muito enriquecedora e reconfortante. Completa-me.

JN – A que cargo se refere? HCC – Neste momento, já é mais ou menos público que me vou candidatar a diretor do ICBAS. Vou propor-me. Vamos ver o que vai acontecer. JN – Ia perguntar-lhe se gosta mais de dar aulas ou se prefere a vertente da gestão/organização… Assim sendo, depreendo que será a da organização… HCC – Não sei do que gosto mais! Quando se chega a esta fase é muito difícil conciliar as duas coisas. Não é possível manter a funcionalidade de uma unidade curricular, dar aulas e ter disponibilidade para um modelo de organização e de gestão de uma estrutura muito grande. Na realidade, não sei do que gosto mais. Estou sempre um pouco em “perda”, porém, penso que há um tempo para tudo. Dou aulas desde 1984, ou seja, há 34 anos. Fiz este trajeto nas várias plataformas relacionadas com a docência e acho

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JN – Nasceu há 59 anos, no Porto, e afirma-se um apaixonado por esta cidade… HCC – Sim, sim! Sou um portuense à séria! JN – O que o fascina tanto? HCC – O Porto tem o caráter em que me revejo. É uma franqueza, mas, por vezes, também com alguma dureza. Tem esta cor, mas também brilha. Tem um rio maravilhoso e toda a sua zona envolvente. Sinto esta paixão pelo Porto porque convivo com grande satisfação com os melhoramentos que vou vendo. Sinto imenso orgulho cada dia que vejo mais um prédio reconstruído numa baixa que conheci viva, depois morta e agora recuperada. Sou um portuense orgulhoso! Sei das limitações que o Porto tem. Algum provincianismo, entre outras relacionadas com as cidades com esta dimensão, com as pessoas e a sua maneira de viver. Os meus pais não eram do Porto. A minha mãe é minhota, de Viana do Castelo, o meu pai transmontano, de Vila Real. O meu pai formou-se em Medicina, no Porto, e ficou cá a trabalhar. Começou a namorar com a minha mãe quando acabou o curso. Era militar. O meu avô materno era, na altura, governador civil de Viana do Castelo e, como oficial, teve de organizar um baile de despedida dos oficiais milicianos. A minha mãe era membro de uma comissão de raparigas que ajudava na organização. E foi assim

que tudo começou! As circunstâncias, por vezes… Mantenho também uma relação muito próxima com o Douro, que adoro, porque íamos para lá de férias, para a quinta dos meus avós. Muito menos com o Minho. Esta relação com o Porto e com o Douro é uma continuação. É o rio que junta tudo. Sou totalmente apaixonado por aquela paisagem, que é também uma forma de viver e de estar de uma zona de Portugal e de uma parte do povo português. JN – Então viveu no Porto toda a sua infância? HCC – Sim, sempre!

JN – Que recordações tem? HCC – Lembro-me de ter uma infância boa, feliz, apesar de ter tido uma perda grande. Tive um irmão, um ano mais novo, que morreu cedo… Mas, para além desta circunstância muito difícil, tive uma infância fantástica, de um modelo que era a convivência muito mais com o físico e com o exterior do que com o estar dentro de casa, tal como a nova geração. Passava o tempo na rua, com os amigos. Algumas das coisas que fazíamos ainda mantenho, como a prática de desportos e a relação com o mundo. Porque a Medicina é uma parte importante da minha vida, mas não é a minha vida! Tenho uma boa recordação de tudo o que se passou.


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Uma intervenção de sucesso A meio da entrevista, Henrique Cyrne de Carvalho foi chamado à sala de Hemodinâmica para a realização de um procedimento a um doente considerado grave. Voltou feliz e aliviado. “A grande satisfação é o reconhecimento por parte do doente, quando acabamos um procedimento que era complexo e tudo corre bem. Era disto que falava há pouco”, afirma, acrescentando que “esta é uma área muito gratificante”. Segundo conta, enquanto for diretor do Laboratório de Hemodinâmica, assume todas as dificuldades. “Pen-

so que é assim que deve ser.” Admite que “é muito doloroso” para estes especialistas não conseguir salvar algum doente: “Dizemos uns aos outros que o resultado não dependeu de uma falha técnica ou de incompetência, mas sim da gravidade do caso, mas, obviamente, não é suficiente para nos aliviar.” “Felizmente”, segundo acrescenta, trata-se de situações cada vez mais raras. “Daí ser um trabalho gratificante. Ter a noção das dificuldades que foram ultrapassadas com sucesso e o que isso repercute em vida”, conclui.

Caso clínico

Tive uma infância e uma juventude felizes, tal como o ambiente académico. Tenho muito boas lembranças mesmo. As menos boas já esqueci!… JN – Mas tem outro irmão… HCC – Sim, mais velho, que também é médico. Seguiu a área do meu pai, que era patologista clínico. Eu nunca gostei, embora tenha trabalhado no laboratório do meu pai durante uns anos, na sequência do Serviço Cívico, para aprender a organizar o tempo. Foi-me extremamente útil. Estive a trabalhar no laboratório do meu pai, com o meu irmão, durante todo o meu curso, até entrar no Internato de Cardiologia. Não tínhamos horário, tínhamos tarefas e obrigavam-me a organizar o tempo de forma a ter disponibilidade para tudo. Foi uma escola fantástica! JN – E a sua mãe, cuidava dos filhos? HCC – A minha mãe tirou Educação Físi-

ca. Na altura, ainda não havia esse curso no Porto e, por isso, foi estudar para Lisboa. Ainda deu aulas em liceus durante vários anos, até que eu e o meu irmão entrámos no liceu. Nessa altura, achou que fazia mais falta em casa e parou. Ficou a tratar e a cuidar de nós e foi sempre uma mãe fantástica!

Homem de 59 anos, com antecedentes de hipertensão arterial, insuficiência renal crónica secundária a provável glomerulonefrite crónica (transplante renal em 1999), hiperparatiroidismo e hepatite B. Internado eletivamente para realização de paratiroidectomia. Durante pós-operatório, teve episódio súbito de dor torácica retroesternal com irradiação para o dorso. O eletrocardiograma revelou alterações de novo, sugestivas de isquemia aguda. Analiticamente, apresentava subida de marcadores de necrose cardíaca. Assumido diagnóstico de enfarte agudo do miocárdio. Foi encaminhado para cateterismo cardíaco emergente (realizado por Henrique Cyrne de Carvalho), que revelou doença coronária grave muito calcificada. Mais especificamente, apresentava uma lesão suboclusiva na artéria descendente anterior (DA), considerado o vaso “culprit”. Fez intervenção coronária percutânea (ICP) da DA: pré-dilatou-se a lesão com balões de perfil crescente. Em seguida, foi implantado um stent revestido por fármaco. Não ocorreram complicações e o resultado final foi satisfatório.

JN – Se não fosse médico, o que poderia ter sido? HCC – Engenheiro agrónomo! Coloquei Agronomia em segundo lugar. Talvez este gosto esteja relacionado com a minha relação com o Douro, com as férias e os fins de semana de sempre. JN – É casado e tem filhos? HCC – Sou casado segunda vez e tenho uma família muito numerosa. Tenho três filhos do primeiro casamento e a minha atual mulher tem quatro filhos. E já tenho um genro e uma neta. O meu filho

Coronariografia pré-ICP

Coronariografia pós-ICP

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mais novo tem 18 anos, a minha filha do meio tem 29 e o mais velho 33. Foi a minha filha que teve um bebé. Tenho uma neta com 6 meses que adoro! É uma casa cheia. Tenho muito gosto. Todos se dão bem. Têm idades muito seguidas. É animado! JN – Nenhum dos seus filhos seguiu ou vai seguir Medicina? HCC – Ninguém! O meu filho mais velho é formado em Gestão e a minha filha em Direito. O mais novo está no 12.º ano, mas também vai seguir a área da Economia/Gestão. Acho que segui o exemplo do meu pai porque me motivou. Pelo contrário, penso que nenhum deles quis seguir Medicina porque viu como era o meu modelo de vida. Não tenho a certeza se foi essa a razão, mas eles percebem a intensidade, o meu envolvimento… E, provavelmente, pensaram que não precisavam de viver a 200%. Preferem viver a 100, de forma mais controlada! Também nenhum dos filhos da minha mulher vai seguir Medicina. A mais velha fez Gestão, a segunda está a acabar Economia

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e o terceiro está em Gestão. O mais novo tem 16 anos, está no secundário. Não vai haver médicos.

um equilíbrio. Saio do hospital, vou para o ginásio e desconecto totalmente. Preciso disso!

JN – A sua mulher é médica? HCC – Não. É formada em Gestão. Fala-se muito pouco de Medicina, tanto em casa como com os amigos. Apesar de eu ser o único médico, num grupo muito forte e muito intenso, de grande proximidade e amizade, só me perguntam alguma coisa quando estão doentes, mas sem grandes conversas sobre o tema. E a mim também não me apetece falar de Medicina.

JN – E lá, tratam-no por professor? HCC – Nada disso. Sou o Henrique! Ninguém quer saber. Estamos todos vestidos da mesma forma, ninguém é diferente e toda a gente está ali pelo mesmo motivo. Isso, para mim, é muito relaxante e faz-me imensa falta.

JN – Além de médico e professor, assume vários outros cargos em sociedades científicas e outras instituições ligadas à área. Como é que gere o seu tempo e o concilia com a vida pessoal e familiar tão preenchida? HCC – Exatamente com essa gestão de tempo que consigo ter e de que lhe falei. E ainda consigo ir ao ginásio três vezes por semana e fazer desportos radicais com alguma regularidade. Para mim, é

JN – Que desportos radicais pratica? HCC – Durante muito tempo, fiz Enduro (mota no monte). Tive alguns acidentes e prometi aos meus filhos que ia deixar de fazer, até porque as mãos, para mim, são instrumentos especiais. Faço Ski na água e na neve. Mas continuo a ser um fanático pelas motas… JN – O que gosta de fazer com a sua família e amigos mais chegados? HCC – No verão, muitos destes desportos faço-os com o meu grupo de amigos nucleares. Durante o inverno, procuro estar aqui pelo Porto e ter uma relação

de proximidade, jantar com a família e os amigos. Gostamos de sair, passar os fins de semana fora, viajar. O tempo que me sobra é pouco, mas consegui resguardar os fins de semana e não trabalho. O facto de ter esses dias disponíveis para mim e para a minha família e amigos é uma riqueza enorme. Sinto que é um privilégio. JN – Como imagina o seu futuro em termos pessoais e profissionais? HCC – Está um pouco dependente do passo de que lhe falei! Se se concretizar o ser eleito diretor do ICBAS terei de deixar o hospital. Vai modificar muito o meu dia-a-dia. Os mandatos são de quatro anos e poderei estar ou não na Direção por dois mandatos. Seguramente, quando sair não vou tratar de corações nem de mais nada. Há alturas para tudo, vou fazer outras coisas mais relacionadas com os meus gostos pessoais, fora da Medicina. Seguramente, vou continuar a viver num sítio perto do mar… Ainda não sei onde! Vou modificar totalmente a minha vida.

LIVE Cardiovascular - Henrique Cyrne de Carvalho  

Muito ativo e cheio de grandes projetos, pessoais e profissionais, Henrique Cyrne de Carvalho, diretor do Laboratório de Hemodinâmica do Cen...

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Muito ativo e cheio de grandes projetos, pessoais e profissionais, Henrique Cyrne de Carvalho, diretor do Laboratório de Hemodinâmica do Cen...

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