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Propriedade da JA! Justiça Ambiental Av:Mao­Tse­Tung 549, 1o andar ­Maputo­Tel: 21496668

Foto:D.Ribeiro

Edição # 28: 5 de Novembro 2013

Papo na Praça

Aos Actores da Democracia Moçambicana: Eles e Nós Há meses, numa viagem de pesquisa testemunhamos uma situação certamente tão caricata quão lamentavelmente comum. Num trabalho de campo que efectuávamos na Zambézia sobre apropriação de terra, entrevistávamos um régulo que nos explicava que a sua comunidade havia recusado ceder as suas terras para uma plantação florestal mas, conforme nos explicou o régulo, o chefe do posto administrativo disse­lhe que tinha de aceitar e assim foi. – Mas como assim?! – perguntámos incrédulos. – Quem decide afinal?! Você representa a sua comunidade ou representa o chefe do posto? Este episódio marcou­nos, e de certa maneira, ilustra a maturidade da nossa democracia.

Pela segunda vez este ano, meses depois mas pelo mesmo deplorável motivo, vemo­nos compelidos a escrever algo sobre a situação política do país. As linhas que se seguem são certamente um posicionamento político, não o negamos. Mas não são, não poderiam ser e jamais serão um alinhamento. Podemos começar por aí mesmo (que por sinal foi onde parámos em Julho quando escrevemos sobre este tema pela primeira vez). NUNCA este país esteve politicamente tão desalinhado. Não fosse a guerra a razão desse desalinhamento político, tal até poderia ser considerado um sinal de uma democracia saudável, mas não é o caso. As duas maiores forças políticas do país, uma mascarada de Estado e a outra de Bandido Armado, degladeam­se sem dó nem piedade e sem sentido algum de responsabilidade social. Os Moçambicanos já perceberam que eles nada têm a ver com este conflito. Embora os seus filhos e filhas sejam os peões no tabuleiro, não é em seu nome que se trava esta partida. Somos um país riquíssimo em recursos mas paupérrimo em políticos com bom senso e boas ideias. Essas são as duas razões fundamentais desta guerra.

Do nosso governo já sabemos o que esperar, e quando o circo pega fogo são sempre as mesmas lengalengas: “a sociedade civil tem agendas ocultas”, “a comunicação social está a agitar o povo com inverdades”, enfim... Já ninguém acredita nisso. A bem da vossa credibilidade sugerimos que numa futura intervenção cuja mensagem seja desse teor, iniciem a prosa da seguinte forma: “Nós, autoridade máxima em agendas ocultas e inverdades em território nacional, vimos por este meio...” Talvez então alguém acredite. Falando de intervenções... Será que somos os únicos a pensar que o Chefe de Estado já se deveria ter dirigido à Nação? Porque não o faz? Não acham estranho? Será que o governo pensa que não nos deve explicações? Será que acha que todos achamos normal e perfeitamente justificável o ataque a Sathungira? Politicamente não teria sido muito mais hábil (uma vez que já tinha todo o exército às portas da base da RENAMO e ia em presidência aberta até Manica) o Presidente ir até à Gorongosa falar com Dhlakama? Teria demonstrado inequivocamente ao povo ser um homem de paz e um líder intrépido, teria evitado todo este problema e teria hoje muito mais tempo para se dedicar aos muitos e muito graves problemas que o país já tem.

Guerra?– perguntarão certamente alguns de vós.

Guerra sim. Há guerra em Manica, em Nampula, na Beira. O país está em guerra. Só ainda não chegou a todo o território... e então “tá­se bem”! Afinal de contas, à boa moda moçambicana (como li online num comentário bastante espirituoso à badalada entrevista dada o mês passado por Jorge Rebelo ao Savana) piri­piri no matako dos outros é refresco!

Conselho Editor: Anabela Lemos, Daniel Ribeiro,Janice Lemos, Ruben Mana e Vanessa Cabanelas/ Layout & design: Ticha / Editor : Ruben Mana


Quanto à RENAMO, também tem muito a explicar. Quando tudo isto acabar, e todos esperamos que seja em breve, há que apurar responsabilidades. Os seus homens, quer estejam a agir mediante ordens da liderança do partido, quer sejam acções levadas a cabo por iniciativa individual ou de grupos que dispersos se amotinaram no mato, estão a matar civis. Isso não é de modo algum aceitável e não tem justificação plausível. A RENAMO e/ou os seus homens deverão ser responsabilizados e deverão responder por esses crimes, assim como os membros do governo e das forças de segurança pública responsáveis por invasões a propriedades privadas e sedes partidárias, bem como por prisões arbitrárias deverão responder pelos seus.

Aqueles que no meio deste circo ainda querem e conseguem se alinhar, falam de “savimbizar” Dhlakama para acabar com o problema; ou, do outro lado da cerca, idolatram o líder da perdiz como se de um revolucionário se tratasse, um herói do povo. Bem, Afonso Dhlakama não é Jonas Savimbi, e já não é um revolucionário, é sim um funcionário de Estado. É o líder da oposição. Apesar de não se saber quem disparou o primeiro tiro, parece­nos óbvio que a gradual movimentação militar para a Gorongosa das FADM tenha sido o catalisador para este conflito propositadamente gerado ou não. A bem da verdade, Dhlakama refugiou­se na Gorongosa. Não se insurgiu contra o governo. Mas essa coisa da RENAMO ter exército é um pau de dois bicos...

Mas nem tudo é culpa do governo e da RENAMO. Esta dita crise politico militar, é espelho fiel de uma outra crise. É dessa que vos queremos falar. De uma profunda e deveras lastimável crise de valores, não só de quem controla este país, mas de todos nós. Nós cidadãos temos uma cota de responsabilidade enorme no que se passa hoje no nosso país. A nossa apatia, a nossa passividade como sociedade, foi o aliado perfeito para aqueles que activamente minaram a nossa democracia e a nossa paz. Colhemos hoje os frutos amargos que deixamos os nossos governantes irem plantando a seu bel­prazer na nossa machamba, como se deles fosse. Permitimos tudo. Foi preciso chegarmos ao ponto a que chegámos para sairmos à rua... E se não fosse a onda de raptos e criminalidade a juntar­se à contestação, talvez nem o tivéssemos feito em tão grande número. Apesar de vivermos em democracia, falta massa crítica na nossa sociedade. Aqueles cuja posição e profissão implica que sejam críticos, continuam a ter medo de contestar as decisões do Governo, de criticá­lo e de falar sobre a prestação dos governantes, quando tal é profundamente necessário para que tenhamos um exercício democrático real. Continuamos a deixar­nos manipular e a prestar cega vassalagem a indivíduos que sendo nossos representantes não nos dão qualquer satisfação. Onde é que isso já se viu? Acreditámos piamente naqueles que dizem que temos razão para ter medo. Que o poder instituído o fomenta. Mas também acreditámos que se houvessem mais vozes com cara na nossa sociedade, mais rapidamente o povo abandonaria a crença arcaica que criticar o Rei é perigoso e proibido. Consciencializemo­nos de uma vez por todas: o Excelentíssimo Senhor Presidente da República de Moçambique, bem como todo o seu Governo e Aparelho de Estado, trabalham para NÓS. Devem­nos satisfações. Temos o direito de exigi­las e a obrigação de o fazer sempre que necessário se estes não se pronunciarem por iniciativa própria. Nesse âmbito, a Lei de Acesso à Informação é fundamental. Porquê tanto adiamento e secretismo? Não é normal que o cidadão tenha o direito de saber da coisa pública?

Para andarmos para a frente temos de aprender a jogar este jogo chamado democracia. Temos de exercer cidadania. Quanto mais e melhor o fizermos, mais difícil será que voltem a fazer de nós vítimas de decisões tomadas em nosso nome. E exercer cidadania não é só ir votar...


Alerta REDD

(Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal) A 30 de Outubro, a JA e a Rede Contra o REDD em África (NRAN) organizaram um evento que visou comemorar o Mês de Ação Sobre a Energia e a Semana de Ação Contra as Falsas Soluções da Reclaim Power. Para o efeito, nós e um pequeno mas entusiástico grupo de cidadãos reunimo­nos em Maputo, no Museu de História Natural. O evento foi facilitado por Samuel Mondlane, que moderou o debate e tratou de apresentar as curtas metragens que exibimos, embora a introdução e nota de boas vindas tenham sido naturalmente deixadas a cargo da Diretora da JA, Anabela Lemos, que nessa intervenção inicial deixou logo matéria para posterior debate sobre o REDD ao afirmar que este era uma falsa solução para a crise climática. A primeira curta­metragem a ser exibida foi A História do Mercado de Crédito de Carbono (The Story of Cap and Trade: Why You Can’t Solve a Problem With The Thinking That Created It), um filme bastante popular de 10 minutos, que explica de modo bastante simples a verdade por detrás da mercantilização do carbono. O filme explica como o mercado de carbono é uma distração perigosa, e como evita que soluções reais, como a redução do uso de combustíveis fósseis, sejam implementadas para impedir alterações climáticas catastróficas. “O Diabo está no detalhe”, explica a narradora do filme referindo­se a “offsetting”, uma prática na qual uma companhia que supostamente reduz as suas emissões de carbono recebe em troca um título que pode então vender a outros poluidores que queiram aumentar o seu volume de emissões, e assim, teoricamente, um compensa o outro. Mas na realidade não é isso que acontece. Uma das formas como o “offsetting” funciona é através do REDD, que é uma solução falsa pois nem sequer tenta remediar o sistema inoperacional que devastou o ecosistema global. O REDD, como muitos outros esquemas de mercantilização de carbono, tem muito mais a haver com fazer dinheiro que com proteger florestas e reduzir emissões. O segundo filme que exibimos e que era cabeça de cartaz do evento foi “A Face Oculta do Verde: O REDD e o Futuro das Florestas”, que mostra claramente a oposição ao REDD de povos de diversos pontos do planeta: Uganda, México, Brasil, Bangladesh, Índia, Indonésia, Filipinas, entre outros. Após o filme terminar, abrimos um debate sobre o que tínhamos acabado de ver. Este exercício é muito importante, pois em Moçambique a discussão sobre se o REDD é ou não bom para o país nunca teve lugar. Assumiu­se que uma vez que havia dinheiro aliado ao programa, então Moçambique deveria aceitá­lo, sem discutir ou reflectir os eventuais perigos e incentivos perversos por trás deste. A JA havia dado inicio a este processo de discussão com um workshop sobre REDD que promovemos em Maputo em Agosto de 2013. A exibição destes filmes e subsequente debate foi somente mais uma oportunidade que criamos para dar continuidade a esta discussão.

Foi dito que o REDD não reduz emissões. No inicio deste ano, as emissões de carbono passaram a barreira das 400 ppm na atmosfera. Estão mais altas do que nunca. Mas o REDD também não reduz a desflorestação porque não aborda o que realmente a está a causar. E mais, o REDD é mais uma ferramenta de mercantilização da natureza; de por uma etiqueta em tudo o que esta nos dá, como se fosse possível calcular tudo o que se perde cada vez que uma floresta desaparece. O sistema económico vigente é totalmente incapaz de julgar o valor destes bens. Falou­se igualmente de soluções energéticas de pequena escala, a nível comunitário. A nosso ver, uma discussão importante para o futuro do planeta e uma visão do futuro em termos energéticos que apoiamos em pleno. As pessoas presentes demonstraram estar motivadas com o encontro e manifestaram interesse em promover mais discussões. Ao que a Directora da JA respondeu, disponibilizando o nosso escritório como espaço para futuros encontros, sessões de filmes e partilha de informações. Passo a passo, o que pretendemos é construir um movimento convosco, com as gentes.

Precisamos de “desenvolvimento”? Ou precisamos de quê?

Autora: Carolina Herrmann – membro dos Amigos da Terra/Brasil “O desenvolvimento não deu certo” afirma Wolfgang Sachs (2000). O autor conta que o “desenvolvimento” foi construído após a Segunda Guerra Mundial como um conceito a ser seguido, um marco de “chantagem e opressão” dirigido ao Sul. Sachs (2000) considera este início o dia 20 de janeiro de 1949 no discurso de Harry S. Truman em sua posse da presidência dos Estados Unidos, Truman referiu­se ao hemisfério sul como “áreas subdesenvolvidas”, no entendimento de que os Estados Unidos e outros países industrializados eram os avançados e deviam ser seguidos pelos outros. Porém, estes países nada tem de “avançado” reforça Sachs (2000), devido à destruição ambiental e desigualdades que provocam. Esteva (2000) considera que o “desenvolvimento” é um conceito de influência muito forte no pensamento e comportamento humano, e, ao mesmo tempo, é frágil e inconsistente. Vendido como “necessário e inevitável” este conceito significou de lá para cá metáforas, muito ligado com “crescimento”, “evolução”, “maturação” (ESTEVA, 2000). Assim, o discurso do desenvolvimento justifica a imposição de grandes projetos de governo e corporações. Tudo é “santificado” em seu nome (SACHS, 2000). Mas o que na verdade isto quer dizer, diante da desigualdade


Mas o que na verdade isto quer dizer, diante da desigualdade social em que vivemos, das violações de direitos humanos que presenciamos, das injustiças ambientais que afetam cada vez mais pessoas, o que as sociedades ainda deverão suportar por este nome? Será que um dia o alcançaremos ou será que ele já mostrou a sua face? Para Sachs (2000) a falência do desenvolvimento é algo bom, pois o perigo está nele. Escondido neste conceito, para o autor, está o interesse na “ocidentalização do mundo”. Esteva (2000) complementa que o “subdesenvolvimento” prevê uma homogeneidade e linearidade da evolução do mundo. Mas o que nos resta? Precisamos redefinir o desenvolvimento? Ou precisamos superá­lo e nos libertarmos dele em direção a um novo objetivo das nações, ou melhor: da vida? Alberto Acosta (2013) fala­nos do Sumak Kawsay, traduzido como “Bem Viver”, como uma filosofia de vida que rompe, promove uma quebra com o discurso hegemónico do desenvolvimento, do modelo único. A raiz do Sumak Kawsay está nos povos originários Andino e Amazónico na América Latina, e traz uma nova dimensão de direitos: o Direito da Mãe Terra em conjunto com os Direitos Humanos. Acosta (2013) menciona o Sumak Kawsay como uma oportunidade para construir e resgatar colectivamente formas de vida em harmonia entre si e com a natureza, estas outras formas que foram invisibilizadas e marginalizadas na busca cega pelo desenvolvimento. Trata­se de um novo pacto de condução da vida nos inspira Acosta (2013), de superação do pensamento antropocêntrico, que nos leva a repensar o Estado, a questionar a quem servem as corporações, a repensar o formato da democracia. O Sumak Kawsay tem a sua matriz comunitária, ele promove a visão da complexidade da vida, o reconhecimento dos diversos valores culturais existentes, demonstra a oportunidade de cooperação que proporciona a auto­ suficiência e autogestão sustentada na solidariedade, continua o autor. Acosta (2013) afirma que é um projecto libertador, advindo da soma das lutas e práticas vivenciais de resistência, que resgata as questões que interessam à humanidade, e potencializa os imaginários utópicos que conduzem a outro mundo possível. O Sumak Kawsay proporciona uma visão da Vida e da Mãe Terra em relação e complementaridade entre uns e outros (ACOSTA, 2013). No continente africano a sua consonância pode ser compreendida através da tradição expressa nos valores do “Ubuntu”, que diferentemente da noção individualista de “eu sou porque eu penso”, resgata o entendimento de “eu sou por causa dos outros”. Demonstrando que os direitos individuais não podem sobrepor­se aos direitos comunitários, pois “uma pessoa é uma pessoa por causa dos outros”, ensinam­nos as tradições. O “Ubuntu” também se relaciona com os “commons” ­ traduzido como os “comuns” ­ na compreensão de que a Mãe Terra nos dá recursos que são comunitários, que devem ser protegidos e manejados para o benefício de todos, e não

de uma minoria, pois só há ganho se o outro também tem ganho. São comuns o ar, a água, a biodiversidade, assim como o conhecimento, as criações humanas, há diversas dimensões sobre aquilo que é comum, tendo por princípio o compartilhamento. Enfim, diante da crise civilizacional que enfrentamos, é um alento e uma inspiração o surgimento/ressurgimento de relações homem­natureza que superam a imposição do mundo como nos é dado hoje ­ voltado ao económico, à competição, ao individualismo, à destruição ambiental, à desvalorização de culturas, promotor de desigualdades. A consciência de que há um pensamento colectivo crítico que não aceita mais discursos vazios, e o sentimento e força advindos dos povos tradicionais que nos mostram do que se trata a vida e as relações entre todos os seres, levam­me a abandonar a ideia vendida de desenvolvimento como objectivo, e a acolher o Sumak Kawsay, o Ubuntu, os Comuns como a nova visão de mundo em construção que está presente naqueles que acreditam que o caminho é outro. Referências:ACOSTA, A. El Buen Vivir: Sumak Kawsay, una oportunidad para imaginar otros mundos. Barcelona: Icaria Editorial, 2013.ESTEVA, Gustavo. "Desenvolvimento" In. W. Sachs (ed.) O Dicionário do Desenvolvimento. Petrópolis/RJ: Editora Vozes, 2000.SACHS, Wolfgang (ed.). "Introdução". O Dicionário do Desenvolvimento.

Petrópolis/RJ: Editora Vozes, 2000.Mais informações disponíveis para download:Mas Allá del Desarrollo, 2011. http://rio20.net/wp­content/uploads/2012/07/mas­alla­del­ desarrollo_30.pdf : Alternativas al capitalismo / colonialismo del siglo XXI, 2013.http://www.rebelion.org/docs/166924.pdf

Mphanda Nkuwa – por interesse de quem? Mphanda Nkwua volta a ser notícia.

Desta vez, um jornal sul africano Mail And Guardian (http://mg.co.za/article/2013­10­25­00­zuma­blood­thickens­ hydro­scheme), publica um artigo de Lionel Faull, onde acusa os presidentes Sul Africano e Moçambicano de abuso de poder para assegurar financiamento para a construção da Barragem de Mphanda Nkwua e ainda de conflito de interesses. O autor levanta algumas questões graves, entre estas menciona que têm sido alegadamente realizadas várias reuniões com os vários interessados no projecto, nomeadamente o próprio presidente sul africano Jacob Zuma, o presidente moçambicano Armando Guebuza, o presidente do Conselho de Administração do grupo Insitec Celso Correia e o director executivo da Eskom Brian Dames, organizadas pelo filho do presidente Zuma. Esta análise a ser verdade traz alguma luz ao que tem sido todo o longo e penoso processo de discussão do projecto Mphanda Nkwua desde a sua elaboração até à aprovação do Estudo de Impacto Ambiental. Sendo verdade, leva­nos a supor que as inúmeras questões por responder e as inúmeras e constantes dificuldades de aceder a documentação e informação tem razões de existir...os interesses poderão ser muito superiores ao que julgavamos!!!


ProSavana: Manipulações, Mentiras e Meias Verdades A Justiça Ambiental participou na II Conferência Internacional Camponesa sobre a Terra, organizada pela UNAC nos dias 15 e 16 de Outubro. Neste encontro, além do incontornável ProSavana, foram discutidas questões cruciais como a usurpação de terra, a necessidade urgente de apoio à agricultura familiar e a legislação sobre as sementes e o potencial perigo que alterações a esta para acomodar o agronegócio pode constituir. A forte adesão de camponeses e camponesas a esta conferência foi uma das suas grandes vitórias. É revoltante perceber que a agricultura de apoio ao sector familiar é mantida no esquecimento e ignorada sob a eterna justificação de falta de recursos financeiros e humanos. A resposta à apresentação de problemas por parte dos camponeses é sempre a mesma: “Somos um país pobre e sem recursos. Há uma grande necessidade de mecanizar a agricultura para reduzir o índice de pobreza em Moçambique.” Convenientemente, esquecem­se sempre que cerca de 90% da população moçambicana pratica agricultura familiar e que cerca de 80% dos alimentos consumidos em Moçambique provêm deste tipo de agricultura, que no entanto é sistemática e permanentemente desconsiderada. A prioridade são sempre os investimentos gigantescos. A moda surgiu com o sector mineiro e aparentemente o agronegócio veio institucionalizá­la. Os camponeses são deliberadamente mantidos na pobreza, sem acesso a crédito, sem acesso a apoio técnico através dos cada vez mais escassos serviços de extensão agrícola, e sem vias de escoamento do pouco excedente que conseguem produzir. Neste encontro, ouvimos os seus desafios, a sua situação e os inúmeros casos de usurpação de terra de que têm sido vítimas país a fora. Sempre com o mesmo denominador comum: a permissividade e/ou conivência do governo. É que, segundo os camponeses, carregados de promessas falsas de emprego, de centros de saúde, de escolas e de melhores condições de vida, os investidores vêm sempre apadrinhados pelo governo... O governo que os camponeses elegeram para servir e defender os seus interesses. No início do encontro, foram apresentados resumos das discussões e encontros regionais da UNAC. Para consternação daqueles que desconheciam o modus operandi de quem nos governa, como se de um disco riscado se tratasse, os representantes dos camponeses foram relatando os problemas das suas regiões. Mudava o local e os envolvidos, mas os problemas eram em tudo similares. Outra questão discutida no encontro foi a das sementes, e segundo tivemos conhecimento, existe já sobre a matéria uma proposta de regulamento depositada no Conselho de Ministros à espera apenas de aprovação. O conteúdo desse documento é ainda um mistério, pois nenhum dos presentes no encontro

(excepto obviamente os membros do governo) tinha sequer conhecimento da existência do mesmo até à data. O que por sua vez nos leva a crer que não houve consulta pública. O que constará nesse documento? – perguntámo­nos. Tudo leva a crer que será mais um entre muitos, perdidos nos corredores do direito de acesso à informação da nossa tão prestigiada democracia. Sobre as sementes, uma camponesa disse o seguinte: “Essas vossas sementes melhoradas não germinam, não produzem, esta vossa semente nós não precisamos! Queremos a nossa semente nativa! Queremos a nossa semente que germina! É um pedido que nós como camponeses estamos a fazer neste momento.” Num encontro desta natureza, com forte presença de camponeses, foi curioso ouvir do Sr. Director Nacional de Economia do MINAG, que um dos grandes desafios do sector agrícola é “num processo gradual, transformar estruturalmente o sector agrário, de uma agricultura de subsistência (extensiva) para uma agricultura orientada para o mercado (intensiva)”. E como será isto levado a cabo?!? Através dos vários programas de comprovado sucesso do Governo?!? Como quais?!?

Os oradores do evento não poderiam ter sido melhor escolhidos. As perspectivas apresentadas e a mensagem foram claras e consistentes como precisavam de ser, uma vez que a situação dos camponeses e camponesas só tem vindo a piorar. Os cada vez mais frequentes casos de usurpação de terra atentam contra a vida e bem estar de comunidades já demasiado fragilizadas e vulneráveis pela falta de apoio e de opções, os processos de consulta comunitária são deliberadamente mal conduzidos e não existe espaço para discussões construtivas. Para os nossos governantes, o papel do cidadão é concordar.


Como já seria de esperar, o Prosavana foi uma das questões debatidas, e mais uma vez o representante do governo demonstrou que veio a público para manipular os camponeses e a verdade. Brindou­nos com 40 minutos dum discurso político rendilhado para enganar os mais distraídos e fisgar os mais esperançados e desesperados, no qual voltou a insistir que este vergonhoso processo tem sido aberto (desta feita afirmando que têm sido feitas consultas públicas desde o ano passado, contrariando assim o seu discurso anterior sobre o tema, em que admitira publicamente falhas na comunicação) referindo que mais de 1200 pessoas já foram consultadas. Temos que admitir que o Sr. Diretor de Economia do MINAG é um homem muito corajoso. É preciso arrojo para, sem pestanejar, frente a cerca de 200 camponeses e camponesas e de umas boas dezenas de representantes de organizações diversas da sociedade civil que acompanham e conhecem o processo, mentir tão descaradamente! Haja vergonha na cara! Temos ainda que admirar o facto de se ter mantido em pé, firme, ao ser frontalmente desmetido, criticado e chamado de mentiroso num encontro destes! Acredito que num próximo encontro lá estará com a mesma atitude petulante de grande chefe e o mesmo discurso falso. Engana­ se quem pensa que um dos principais problemas da governação deste país é a falta de pessoal competente a nível distrital e provincial para implementar adequadamente o que se decide “no topo da pirâmide”. Não, falta competência e verticalidade a todos os níveis.

Uma mensagem que foi passada de forma bastante clara nesta conferência, foi quão fundamental é para a luta contra este monstro que os camponeses se organizem. Só unidos os camponeses poderão vencer este tipo de programas, caso contrário vão sim perder as suas terras, o seu trabalho, o seu sustento e a sua dignidade. O governo preocupa­se sim e muito, mas não é com os camponeses e camponesas. Preocupa­se com os investidores, com os lucros e com os grandes negócios. Não temos um Governo a trabalhar para o povo, a defende­lo e aos seus interesses, temos um governo cego de ganância, a fazer negócios irrefletidos, um atrás do outro e como se não houvesse amanhã. Encontraram a famosa galinha dos ovos de ouro e não a vão largar facilmente! Só resistindo, só levantando a nossa voz, só protestando mesmo! Pois de mansinho e à maneira da boa gente que somos, vamos ficar à parte, a ver da janela meia dúzia de esfomeados comer toda a riqueza do nosso país enquanto fingem governar­nos. Chega! Basta!

A Monsanto e o seu império geneticamente modificados Monsanto é uma gigantesca empresa multinacional do agronegócio e da biotecnologia, estabelecida nos Estados Unidos, é líder mundial na produção e venda de sementes geneticamente modificadas e na produção e venda de agrotóxicos específicos para as suas sementes. É produtor líder do herbicida glifosato, vendido sob a marca Roundup. http://pt.wikipedia.org/wiki/Monsanto_%28empresa%29

Os camponeses e camponesas falaram de sua própria voz nesta conferência. Não houve intermediários nem porta­vozes e o seu brado foi unânime: “Somos contra o ProSavana”. Foi bastante claro e os vários representantes do governo presentes ouviram­no a alto e bom som. O que vão dizer agora? Podem juntar às 1200 pessoas que dizem já ter consultado, pelo menos mais 200, mas lembrem­se de mencionar a opinião destes 1400! Falam em consultas públicas sem actas ou minutas, mas as comunidades que dizem ter sido consultadas contam uma história bem diferente. ­ Só nos informaram que iamos ter tractor, crédito e extensão... Ninguém nos perguntou nada. Só falaram! ­ Quem? ­ O Governo... O ProSavana tem sido apresentado aos camponeses como a solução de todos os seus problemas, mas nas entrelinhas do projeto e do modo como tem vindo a ser conduzido, dá para ler perfeitamente as “boas intenções” e os benefícios que por aí vêm se permitirmos que seja implementado.

A Monsanto tem vindo a acumular um inacreditável historial de casos de corrupção, de envenenamento e de mentira, a tal ponto que um dos tribunais nos Estados Unidos classificou o seu comportamento como "de natureza tão inacreditável e a um nível tão extremo que ultrapassa todos os limites da decência e deve ser visto como horrível e liminarmente intolerável numa sociedade civilizada". Na Indonésia a Monsanto foi condenada a pagar 1.5 milhoes de dolares por suborno a governantes para alteração de uma lei que define a Avaliação do Impacto Ambiental como condição para a autorização ou não de cultivo de OGM. Na França em 2009, foi condenada pelo Tribunal Supremo por publicidade enganosa sobre o seu herbicida Roundup, alegando que este é "biodegradável", e responsável por "deixar o solo limpo". O tribunal concluiu o contrário e aplicou uma multa de 15 mil euros. Na India em 2010, o seu ex­Director admitiu que era prática comum falsificar os resultados de estudos científicos.Nos Estados Unidos foi condenada a uma multa no valor de 2.5 milhões de dólares pela venda de sementes GM mal rotuladas.http://stopogm.net/faqs Muitos são os países que já proibiram os OGM e outros tantos tem um controle bastante restritivo. E Moçambique, se o Pro­Savana for em frente, o que fará a Monsanto?

"Só quando a última árvore for derrubada, o último peixe for morto e o último rio for poluído é que o homem perceberá que não pode comer dinheiro."Indios Cree


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