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JA! JUSTIÇA AMBIENTAL 15 de Maio, 2014

Boletim # 33


Histórias do Monte Mabu O Monte Mabu, com uma extensão de aproximadamente 7.500 hectares e uma altitude de 1710m, localiza­se entre a localidade de Mabu e Mpemula, nos postos administrativos de Muabanama e Tacuane, ambos situados no Distrito de Lugela, na Zambézia e é o maior monte da região. Este famoso e misterioso monte, rico em recursos naturais, alguns desses, por sinal, raros em Mocambique, é zelado por 4 comunidades: Limbue, Nvava, Namadoe e Nangaze. Estas comunidades, constituídas por pessoas humildes e trabalhadoras, que sobrevivem da agricultura de pequena escala com culturas diversificadas, da apicultura periódica e de outros trabalhos, depositam no Monte Mabu a esperança de um dia poderem, directa ou indirectamente, beneficiar das riquezas que muitos dizem que este alberga. Segundo contam os régulos, reza o mito que em tempos remotos vivia no interior do monte um dragão de 6 patas que cuspia fogo sempre que fazia frio (fonte: secretaria DFA da localidade) e que nenhum ser humano se deveria aproximar para não ser devorado. O Monte continua envolto em grande superstição e as próprias comunidades nativas ainda têm receio de lá exercer algumas das actividades das quais dependem para sobreviver, como é o caso da caça e da apicultura. Contam também os régulos que há muito tempo, nas décadas de 50 a 70, haviam hábitos e costumes que tinham de ser cumpridos para visitar o Monte, e que quem desobedecesse a tais regras não regressava ao convívio das suas famílias independentemente de religião, raça e tribo, alegadamente ter ser levado pelos espíritos maus que viviam ao longo de uma gruta no monte. Por exemplo: os homens não deveriam frequentar o monte usando cintos nas calças, pois o cinto é um símbolo de agressão e ameaça e como tal era proibido, bem como roupa de cor vermelha, que acreditavam assustar animais e espíritos. Por sua vez, as mulheres não deveriam vestir blusas, nem brincos ou quaisquer tipos de instrumentos de caça. Contam ainda os mais velhos, que no período da guerra civil em Moçambique, apareceu no monte uma cobra de 5 cabeças que tinha umas patas enormes e que quem a visse de perto não sobrevivia.

Mabu é um monte bastante misterioso e que desperta a curiosidade de qualquer um que dele ouve falar, particularmente de quem ouve as suas histórias, de preferência contadas localmente, em língua nativa, numa daquelas noites de suas pertenças, isto é, ao som dos pássaros e do soprar calmo das árvores das comunidades em volta do monte. Actualmente, já não se ouve falar nestes mistérios, já não se fazem sentir e nem ouvir, já não se respeitam os hábitos e costumes cerimoniais para visitar o monte, recorrendo apenas a uma notificação às estruturas governamentais e locais, informando sobre os principais objectivos da visita e o período de permanência no monte. Frequentam o monte equipas de pesquisa oriundas do mundo inteiro, estudantes universitários, singulares, e as próprias comunidades que neste continuam a caçar e a realizar outras actividades. As cerimónias e os rituais e as regras para as visitas ao monte, o envolvimento dos líderes comunitários e membros da comunidade nestas fazia com que as comunidades participassem activamente no controle de quem e como entravam no monte, havia regras claras do que era permitido e do que não era permitido... A JA fez a primeira visita a Mabu em 2009, e pretendia visitar o monte. No entanto, a equipe da JA! tinha conhecimento da existência de alguns costumes a obedecer e da necessidade de se proceder a uma cerimónia em que deveriam estar presentes pelo menos os líderes das comunidades que circundam o monte. Infelizmente não se encontravam todos os líderes e a JA! decidiu que deveria aguardar uma próxima ocasião para visitar o monte, pois na altura a cerimónia era feita mas não era de carácter obrigatório cabendo aos que pretendiam visitar respeitar ou não. A equipe da JA! voltou a Mabu em inicio de 2010 e nessa ocasião e na presença de todos os líderes foi permitida a entrada no monte e explicadas as regras. O respeito pelas regras e costumes locais é uma ferramenta para a conservação de tão importante ecossistema e estas cerimónias e regras devem ser mantidas e respeitadas.


As Inquietações das Comunidades Afectadas pela Wambao Agriculture

Para quem ainda não sabe, a Wambao Agriculture é um projecto para produção de arroz do Governo Moçambicano e da China que se encontra inserido no Plano Estratégico para o Desenvolvimento Agrário (PEDSA) aprovado em 2011. O PEDSA tem por objectivo produzir cereais como o arroz, o trigo e o milho numa área de 20 mil hectares (que corresponde a 22% do total da área irrigável do Baixo Limpopo) por um período de 50 anos, e conta com um investimento de 250 milhões de dólares americanos.

Para agravar essa situação, dizem­se ainda vítimas de um processo de indemnização inadequado e pouco transparente que, entre outros problemas, não levou em conta o valor das culturas que foram inescrupulosamente destruídas pelas máquinas da Wambao Agriculture.

Como parte da monitoria que a JA está a fazer ao projecto Wambao Agriculture, temos vindo a acompanhar atenciosamente tudo o que se tem vindo a passar na área onde este está a ser implementado na província de Gaza por meio de encontros regulares junto às comunidades afectadas. Na nossa última deslocação ao terreno, dia 10 de Abril do ano em curso, reunimo­nos, em parceria com a FONGA, com 99 camponeses representando todas as comunidades afectadas pelo projecto supracitado (Marien N’gouabi, Patrice Lumumba, Bairro 01, Bairro 06, Bairro 13, Bairro 24, Inhamissa 01, Inhamissa 02, Chicumbane, Ndlangane e Chibomnhanine), de modo a que em conjunto planeássemos e concertássemos um plano de acção para repudiar e manifestar o seu desagrado pelos problemas que este projecto tem causado às suas comunidades desde que teve início. É importante referir que, dos vários problemas que causam a revolta e indignação destas comunidades, o principal e fundamental continua a ser declararem não terem sido correctamente informadas nem consultadas durante o processo do qual resultou a usurpação das suas terras a favor da Wambao. Terras essas onde produziam há mais de 30 anos e das quais muitos dependiam para sobreviver.

Entre muitas aflições, destacam­se a preocupação e indignação dos detentores de gado que ficaram sem áreas de pastagem e/ou áreas para o gado beber água, e a denúncia grave levantada por vários elementos da população no encontro, de violação sistemática da Lei de Trabalho Moçambicana. Segundo estes, a Wambao opera sem contratos, com salários abaixo do tabelado, horas extras sem remuneração entre outros Segundo os camponeses, o Governo, ausente, não tem auscultado as comunidades.

O projecto Wambao faz uso de agrotóxicos, alegadamente para controle de pragas, para prevenção de doenças causadas por micro­organismos e para impedir o crescimento de outras plantas que não sejam as do cultivo (também consideradas pragas) procurando assim obter um aumento de produtividade. Quando utilizados em larga escala os agrotóxicos causam problemas não só ambientais como também de saúde pública. No que ao requesito ambiental diz respeito, o uso dessas substâncias resulta na contaminação de solos e águas, consequentemente da flora e fauna, e eventualmente do ser humano. Dada a proximidade e importância que o Rio Limpopo tem para o projecto e paralelamente para dezenas de milhares de Moçambicanos, considerámos a situação deveras preocupante. Os agrotóxicos são utilizados em maior quantidade quando as culturas não são compatíveis com o clima, solo ou outras condições locais, ou quando se fazem plantações de uma só cultura (monoculturas), como a que é praticada em larga escala pela Wambao. Antes das cheias de 1977 a população vivia dentro do perímetro de regadio, tendo sido então obrigada a mudar­se para zonas mais altas. Na área de regadio mantiveram as suas actividades, algumas casas e as campas dos seus entes queridos. Por motivos tradicionais e culturais (de acordo com alguns


para se manterem nas boas graças dos antepassados que já lá se encontravam) continuaram a realizar alguns enterros na área.

Para dar início às suas operações, a Wambao teve obviamente que transladar essas campas, custeando algumas das despesas desse processo em alguns casos, e noutros, de acordo com os populares, pura e simplesmente removeu as campas sem qualquer notificação. Os que tiveram oportunidade de ver transladados os restos mortais dos seus familiares, optaram por colocá­los então em cemitérios familiares ou em cemitérios públicos. O Artigo 115 da Constituição da República de Moçambique preconiza que: “o Estado promove o desenvolvimento da cultura e personalidade nacionais e garante a livre expressão das tradições e valores da sociedade moçambicana e promove a difusão da cultura moçambicana e desenvolve acções para fazer beneficiar o povo moçambicano das conquistas culturais dos outros povos”.

Mais uma vez somos forçados a questionar: Será que os benefícios que a Wambao trará para o país serão maiores que a miséria que está a trazer para as gentes do baixo Limpopo? Terá esta sido a melhor solução? Será que equacionaram outras? Onde cabe “a livre expressão das tradições e valores da sociedade moçambicana” neste contexto?

Comunicado de Imprensa

Marcha de protesto contra a violação dos direitos dos camponeses A Justiça Ambiental/FOE Moçambique, em parceria com: ADECRU ­ Acção Académica para o Desenvolvimento das Comunidades Rurais, CIP ­ Centro de Integridade Pública; FONGA ­ Fórum das Organizações Nacionais de Gaza, LDH ­ Liga dos Direitos Humanos, UNAC ­ União Nacional dos Camponeses, apoiam os camponeses e camponesas na realização de uma marcha pacífica a ter lugar no dia 20 de Maio de 2014 na Província de Gaza, Cidade de Xai­xai. Na presente marcha pacífica pretende­se protestar perante o Governo contra a violação dos direitos comunitários no âmbito da implementação do projecto Wambao Agriculture e exigir a restituição dos direitos violados. As comunidades afectadas pelo projecto Wambao Agriculture protestam contra as actuais condições a que estão sujeitas, nomeadamente o facto de não terem sido consultadas durante todo o processo que culminou com a usurpação das suas terras a favor da Wambao. A expropriação das suas terras, onde produzem à mais de 30 anos e de que dependem directamente para a sua sobrevivência foi um processo caracterizado pela falta de informação, ausência de transparência, destruição de culturas ainda no campo em fase de maturação, conflitos entre representantes da empresa e as comunidades e ausência de qualquer indemnização. Outra questão são as constantes e persistentes violações da Lei do Trabalho, impondo regime de trabalho sem contrato, salários abaixo da tabela nacional, horas extras sem renumeração, rescisão de contratos sem justa causa e ainda casos de alegados maus tratos. A marcha de protesto terá início pelas 6 as 10horas, segundo a seguinte trajectória: Grupo 1: partida da Estátua Samora Machel até ao Gabinete do Senhor Governador; Grupo 2: Vai partir da Pontinha/rio Limpopo até ao Gabinete do Senhor Governador. Onde será entregue a petição com as preocupações dos camponeses e camponesas por volta das 10 horas. Maputo, 15 de Maio de 2014


Acesso à Informação como Base para uma Melhor Advocacia

O acesso à informação é uma das mais valiosas ferramentas para se poder fazer uma boa monitoria, advocacia, e exercício de cidadania. Para que os cidadãos possam tomar medidas e decisões conscientes e possam fazer escolhas informadas e eficientes, e dessa forma possam participar activamente na vida e no processo de desenvolvimento social, económico e cultural de um pais, o direito a esta é fundamental. Estas foram, sem dúvida alguma, as conclusões mais importantes a que chegámos após 7 (sete) dias de participação num programa de troca de experiências, formação e capacitação sobre o tema “como organizar campanhas efectivas sem comprometer os nossos valores”, realizado na capital Finlandesa, Helsínquia, de 22 a 28 de Abril do mês passado. O evento foi organizado pela KEPA e, contou com a presença de cerca de 25 participantes e representantes de diferentes organizações da sociedade civil e ONG’s do país anfitrião, a Finlândia. Moçambique foi representado por dois membros de duas OSC’s nacionais, nomeadamente a Justiça Ambiental e o Grupo Moçambicano da Dívida. Como parte da nossa agenda, encontrámo­nos também com diferentes organizações da sociedade civil daquele país (como a Church Aid – Change makers, Friends of The Earth Finlândia e a FinnWatch) no âmbito da partilha de informação e da troca de experiências, mas também para uma primeira troca de ideias sobre a possibilidade de futuros trabalhos conjuntos em matéria de campanhas, advocacia e publicações. É importante referir que estas são algumas das organizações mais activas e respeitadas na Finlândia, quer pela sua forma de trabalhar, como pelos seus resultados. Neste evento, entre os vários assuntos discutidos, foi dado particular ênfase ao papel dos valores nas campanhas e às diferentes formas de garantir que essas campanhas sejam orientadas por estes. Neste campo de acção, debateu­se como expressar valores nos objectivos das campanhas, quando já definidos pela pessoa/ organização, como promover e ver reflectidos esses valores na comunicação, como compreender e influenciar os valores e motivações das diferentes audiências, e como maximizar o nível de responsabilidade para com os grupos que representamos e com os quais trabalhamos. Esta oportunidade veio reforçar as ferramentas já existentes e utilizadas no que diz respeito às matérias de campanhas e advocacia. Ferramentas estas que, por sua vez, podem e devem ser utilmente utilizadas e aplicadas, sem dar azo a alguns sectores do governo, que continuam a classificar algumas OSC’s nacionais como organizações anti­ desenvolvimento, mesmo sabendo que o seu papel na sociedade é basilar. Infelizmente, apercebemo­nos que no caso de Moçambique, há muito ainda por fazer no que diz respeito ao acesso à informação; ou, melhor dizendo, no que diz respeito à falta de informação, à falta de acesso a informações claras e não manipuladas, e ainda à falta de espaço para diálogo com o governo e com os diferentes decisores. Esta é uma das maiores pedras no sapato das OSC’s e torna o seu trabalho extremamente difícil. Essa falta de transparência retira quase por completo às OSC’s a capacidade de monitorar e fazer advocacia efectivamente, tarefas fundamentais para garantir uma boa governação e um desenvolvimento sustentável em qualquer país.

Tristemente, a falta de acesso à informação e espaço para debate e discussão neste pais é quase absoluta. Para mais, segundo o MISA, apesar da Constituição da República de Moçambique afirmar no Artigo 48, no seu ponto 1, que todos os cidadãos têm direito à Liberdade de Expressão e o Direito à Informação, ainda não existe um regime estatutário sobre o Direito à Informação em Moçambique. Isto, apenas garante a institucionalidade do secretismo e a não transparência, que é uma prática comum em quase todas instituições tanto públicas como privadas.

Não se justifica que, por exemplo, num país em que vários projectos de exploração de recursos naturais estão a ser desenvolvidos (supostamente) em nome do povo, esse mesmo povo não tenha à sua disposição informação clara sobre esses tais projectos ditos de “interesse público”, e, pior que isso, que essa informação lhes seja sistematicamente negada quando solicitada. Um dos aspectos de salutar da Finlândia, quando comparando com a nossa realidade (à qual estamos habituados mas com a qual não estamos de modo algum resignados) é a forma como a informação circula e é fornecida ao seu povo, e ainda a abertura que existe por parte do governo para receber e trabalhar com as organizações da sociedade civil, que em alguns momentos chegam mesmo a ser consultadas por estes, para quem os seus pareceres e opiniões são importantes. Isto é, o Governo e os políticos daquele país e de alguns outros, diferentemente de Moçambique, olham para a sociedade civil não como um inimigo, mas sim como um parceiro, com quem podem trabalhar em prol de um desenvolvimento inclusivo, equilibrado e justo, tendo como prioridade a defesa dos interesses do seu povo. Importa referir que o acesso à informação, conforme estabelecido nos protocolos regionais, continentais e internacionais, cartas e convenções é um direito fundamental e, como tal, Moçambique tem o dever de respeitar, proteger e fazer cumprir este direito. Convém recordar também que o MISA submeteu em 2005 um projecto de lei sobre o Direito à Informação à Assembleia da República, mas que até à presente data, não foi presente à mesa de debate. O Direito à Informação constitui hoje para Moçambique, um desafio inalienável no que à participação e envolvimento da sociedade em geral no processo de desenvolvimento do país diz respeito.

Derretimento de geleiras na Antártida é 'irrefreável', dizem cientistas Dois novos estudos mostram que a água morna dos oceanos está corroendo a base da camada de gelo, em um processo que não pode mais ser interrompido. O derretimento das geleiras da Antártida Ocidental está avançando de forma gradual e "irrefreável", afirmaram dois novos estudos científicos. De acordo com os levantamentos, o derretimento que já começou não deve ter efeitos imediatos nos oceanos, mas poderá adicionar até 3,6 metros ao nível do mar nos próximos séculos, um ritmo de elevação mais rápido do que o previsto anteriormente. Fonte :http://veja.abril.com.br/noticia/ciencia/derretimento­de­geleiras­na­ antartida­e­irrefreavel­dizem­cientistas


ProSavana Avança Dissimuladamente Cerca de um ano depois de pouco mais de 20 organizações da sociedade civil, incluindo movimentos sociais, terem dirigido a Carta Aberta para Deter e Reflectir de Forma Urgente o Programa ProSavana aos presidentes de Moçambique, Brasil e ao Primeiro­ministro do Japão, continuamos à espera de resposta. No entanto, decorreu em Nampula nos dias 22 e 23 de Abril, o Seminário sobre Divulgação dos Resultados de Investigação Agrária no Corredor de Nacala no âmbito do programa triangular entre Moçambique, Japão e Brasil apelidado de ProSavana. No encontro, estiveram presentes a equipa de coordenação do ProSavana, o Director Geral do Instituto de Investigação Agronómica de Moçambique(IIAM,) o Director Provincial da Agricultura, parceiros, representantes e investigadores dos centros zonais do IIAM, Organizações da Sociedade Civil, académicos e representantes do sector privado. Segundo os organizadores (IIAM e parceiros), o seminário visava essencialmente partilhar os resultados até então obtidos nas pesquisas que estão a ser levadas a cabo naquela região conhecida como Corredor de Desenvolvimento Norte; facto que evidencia que já estamos diante de uma das fases programa (ProSavana – PI) que segundo os documentos disponíveis, tem como finalidade maximizar os actuais conhecimentos dos recursos naturais e socioeconómicos do Corredor de Nacala e identificar as tecnologias agrícolas mais adequadas ao desenvolvimento sustentável da agricultura regional. Posto isto, somos levados a concluir que a Carta Aberta das Organizações da Sociedade Civil foi taxativamente ignorada e que o projecto prossegue, como se tudo estivesse perfeito, indiferente às preocupações das muitas famílias que temem perder as suas terras para dar lugar ao agronegócio e outras actividades, como aliás se vê um pouco por todo país. Na verdade, este seminário não passou de mais uma acção para legitimar o avanço do programa. Camuflado por outros temas, notou­se que cerca de 60% das apresentações estavam focalizadas em exemplos relacionados com o incremento do rendimento da cultura de soja, desde a consociação com outras culturas, efeitos da adubação, tipo de solo, data de sementeira, entre outros. O que vem, sem dúvida, demonstrar o quão perigoso este programa pode ser, sobretudo quando não prioriza a investigação das principais culturas alimentares, que constituem o garante da sobrevivência da maioria da população moçambicana, os camponeses que vivem nas zonas rurais. Mais uma vez, chamamos a atenção aos programas que estão a ser implementados em Moçambique e suas semelhanças com tantos outros que falharam no passado. As Organizações da Sociedade Civil já alertaram sobre os perigos do ProSavana, e, o ritmo com que o processo está a seguir tendo em conta a contestação e preocupações já apresentadas pelos camponeses, denota uma tentativa clara de enganar os Moçambicanos ganhando tempo, enquanto nos bastidores se implementa efectivamente o programa como se este fosse consensual. O ProSavana não reúne consenso nacional. Nem a nível das comunidades locais, nem entre académicos e Organizações da Sociedade civil. Sabemos que em alguns casos, para criar essa ideia de aparente consenso, têm sido levadas a cabo acções de manipulação e intimidação visando líderes comunitários e organizações que lutam na defesa do direito à terra e à soberania alimentar.

É importante que se repense no programa e que se criem acções que vão de acordo com o cenário actual da agricultura moçambicana, onde o acesso a terra fértil e a erradicação da fome e da má nutrição deveriam constituir prioridade para o governo; por mais que isso implique a paralisação ou reformulação do programa até que se garanta que estejam criadas todas as condições para a materialização do mesmo sem por em causa o bem estar socioeconómico e cultural das comunidades locais, bem como a não marginalização e subsistência do mesmo grupo.

A Curiosa História da Floresta da Tijuca e a Importância de Áreas Verdes em Zonas Urbanas Situado no município do Rio de Janeiro, o Parque Nacional da Tijuca, com os seus 3.972 hectares, nem é uma das maiores áreas verdes urbanas do planeta, mas o que a torna numa área particularmente interessante é um pequeno grande detalhe. Com origem na língua Tupi, “tijuca” significa “água podre”; nome que a área herdou da Lagoa da Tijuca, uma lagoa situada no Parque, no sopé da floresta de mesmo nome, e cujas águas paradas lhe valeram a mal­afortunada designação. É essa floresta, a Floresta da Tijuca, que faz deste espaço um local muito especial...

Totalmente devastada pelos ciclos da cana e do café e pela extracção madeireira, que juntos duraram mais de 3 séculos, a Floresta da Tijuca foi replantada em 1862. Isso mesmo, replantada. Ou seja, é uma floresta de vegetação secundária, fruto de um reflorestamento promovido quando se tornou óbvio que o desmatamento causado pelas plantações de café estavam a comprometer o abastecimento de água potável da então capital do Império, o Rio de Janeiro. Ora, no início do século XIX, desprovidas de vegetação, as nascentes da região começaram a secar. Então, por ordem de Dom Pedro II, foi confiada a um Major da polícia militar chamado Gomes Archer, a tarefa de replantar a floresta. Sob sua tutela, foram plantadas 100.000 mudas em treze anos, principalmente de espécies nativas da Mata Atlântica. Todas essas 100.000 mudas foram plantadas por nada mais nada menos do que 6 (seis) escravos (Eleutério, Leopoldo, Constantino, Manuel, Mateus e Maria), aos quais se juntaram a determinada altura 22 trabalhadores assalariados.


O segundo administrador da Floresta da Tijuca foi o Tenente­ Coronel Luis Henrique Roberto d’Escragnolle, o Barão d’Escragnolle, que abandonou a carreira militar para se dedicar à floresta. Foi ele o responsável pelos novos traçados e pelo embelezamento do parque. O Barão também deu prosseguimento ao replantio de mudas, iniciado pelo Major Archer. Depois da Proclamação da República (1889), a floresta ficou abandonada cerca de 50 anos. Durante esse tempo, a natureza, incansável, com o seu poder de regeneração consolidou e expandiu o trabalho realizado. Finalmente, na década de 40, Raimundo de Castro Maya assumiu a direcção da floresta com a missão de a remodelar. Trabalho que realizou brilhantemente com a ajuda do paisagista Roberto Burle Marx. Transformada em Parque Nacional em 1961, a floresta foi em 1991 declarada pela Unesco Património Natural da Humanidade e Reserva da Biosfera, e conta hoje com dezenas de espécies animais como cobras, lagartos, morcegos, aves, preguiças e macacos, entre outros. A Floresta da Tijuca é hoje em dia uma importante área de lazer à disposição de todos os “cariocas” (como são denominados os habitantes do Rio de Janeiro) e dos milhões de turistas que visitam a região todos os anos. Com trilhas e espaços privilegiados para a prática de diversos desportos como o ciclismo, o atletismo e o montanhismo, a floresta dispõe de parques infantis, de espaços reservados para piqueniques e até de restaurantes para os mais ociosos e menos capazes. É um local adequado à educação ambiental de crianças e adultos e que possibilita a integração harmoniosa entre o homem e a natureza.

É importante mencionar que apesar de ser de acesso gratuito, a floresta é administrada e mantida por funcionários públicos de diversos ramos, devidamente qualificados para o efeito.

Áreas verdes como esta são fundamentais para a qualidade ambiental das cidades, já que assumem um papel de equilíbrio entre o espaço modificado para o assentamento urbano e o meio ambiente. Nas cidades de Moçambique e suas áreas adjacentes não temos nenhum espaço semelhante, nem de perto nem de longe, mas tal não é nada que não possa ser resolvido se houver vontade política pois ainda temos espaços verdes relativamente perto das urbes. O que não existe são infra­estruturas adequadas nos locais que poderiam funcionar como áreas verdes de lazer, e sem estas corremos o risco de gerar nessas áreas a mesma confusão que temos nas praias das nossas cidades, tornando a emenda pior do que o soneto. Mas é fácil dizer que as praias das nossas cidades são uma vergonha nacional e uma demonstração cabal da falta de civismo dos nossos cidadãos, no entanto, por vezes esquecemo­nos que o cidadão que procura um espaço de lazer ao fim de semana nessas cidades não tem muitas alternativas e que a insana afluência às nossas praias e marginais é também resultado da falta de espaços públicos de lazer alternativos; esquecemo­nos que para haver civismo são fundamentais as infra­estruturas (materiais e imateriais) adequadas de que falamos; esquecemo­nos que infelizmente, muitas vezes a educação cívica das pessoas é um reflexo do local onde se encontram (por exemplo, se a praia estiver cheia de lixo, é mais fácil para alguns deixar para trás também o seu); e “esquecemo­nos de lembrar” que talvez, se tivéssemos espaços verdes vocacionados para o lazer, teríamos também neles a oportunidade de gerar educação e consciencialização ambiental. Não seria maravilhoso se tivéssemos locais seguros, limpos, apelativos e adequados, onde pudéssemos ir passar o dia, fazer um piquenique, observar a natureza, fazer uma trilha de bicicleta ou a pé e levar os mais novos? Está ao nosso alcance, ainda temos áreas arborizadas suficientes para fazê­lo, falta somente a vontade de criar as infra­estruturas. O investimento não seria assim tão grande, sobretudo se tomarmos em conta os benefícios sociais e ambientais que este tipo de projecto poderia trazer. Empreitada muito mais difícil tiveram os 28 indivíduos que replantaram os quase 4.000 hectares da Floresta da Tijuca, Um feito que, pelo andar da carruagem, mais cedo ou mais tarde teremos que tentar imitar para recuperar as áreas florestais de algumas das nossas províncias. Mas essa é outra história...

"Só quando a última árvore for derrubada, o último peixe for morto e o último rio for poluído é que o homem perceberá que não pode comer dinheiro." Poverbio dos Indios Cree JA! JUSTIÇA AMBIENTAL AV: Mao­Tsé­Tung n°: 549,1°Dto. Maputo, Tel: 21496668 Mais informação na nossa pagina: Inglês: http://www.ja4change.org/index.php/en/ ; Português: http://www.ja4change.org/index.php/pt/ No nosso Blog: Inglês:https://ja4change.wordpress.com ; Português:http://justicaambiental.wordpress.com Conselho Editor: Anabela Lemos, Daniel Ribeiro, Janice Lemos, Vanessa Cabanelas e Ruben Manna Lay­out: Ticha

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