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o LIVRO POR VIR

uma redenção imprecisa, os valores do Estado e a importância da Eneida que pertence ao Estado. Esse capítulo, o mais longo da obra e no qual se evidencia o virtuosismo técnico de Broch, é o único em que a realidade histórica adquire maior importância. Entretanto, o princípio do monólogo interior na terceira pessoa não é abandonado. É no espaço desse imenso pensamento impessoal que ressoam os diálogos, no entanto precisos e firmemente expressos; algo de mais vasto do que eles se lembra deles. Disso decorre que tudo o que poderia haver de artificial na evocação realista das personagens, e de uma época que não nos interessa mais, se atenua; é também por isso que, sem demasiada inverossimilhança, o longo debate entre Augusto e VirgJ1io, entre a parte terrestre e a parte supraterrestre, entre a Roma temporal e a Roma espiritual, colocando em jogo, sob o nome da Eneida, a sorte de todo o Ocidente, pode representar o debate mais atual que interessava a Broch. A cultura poderá ser salva? Da obra de arte, fruto precioso de uma civilização em declínio, poesia que ignora a simplicidade do escravo, que ignora até mesmo os deuses e acolheu, destes, meras imagens, que não é, afinal, senão "uma contrafação mediocremente realizada da epopéia homérica", "um nada fatigado", dessa criação que é apenas um símbolo, qual será o destino? Aquilo que o poeta escreveu não deve ser queimado no fogo da realidade? Será necessário que ele se abandone à horrível imortalidade dos anciãos soberanos, Homero, Ésquilo? Não, é preciso queimar a Eneida. Entretanto, no fim, Broch e VirgJ1io salvam sua obra e, aparentemente, salvam o Ocidente. Por quê? Isso não fica claro'- Parece ser 3. Virgílio concede a Otávio o que recusou a Augusto. Quando Augusto lhe diz "Tu me odeias", ele não pode suportar essa suspeita. É pois à amizade que, finalmente, ele entrega sua obra.

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DE UMA ARTE SEM FUTURO

uma aposta em favor do futuro. É também o pressentimento da salvação que, no decorrer da quarta parte, enquanto Virgílio começa a última migração, vai permitir que o monólogo atinja seu centro, o poço da simultaneidade, o jorro em que a morte e a criação coincidem, em que o fim é começo e, na anulação que sela a unidade, pronunciase a palavra à qual Broch se confia, para salvar sua obra e salvar o que está em jogo, pensa ele, em sua obra: a volta às fontes, a felicidade da unidade recuperada.

A tentação da unidade É com efeito em direção à unidade que não cessa de tender seu livro, através do desespero, das incertezas e das experiências negativas. A busca da unidade foi a grande paixão de Broch, seu tormento, sua nostalgia: a unidade, a esperança de atingir o ponto de fechamento do círculo, quando aquele que avançou até determinado ponto recebe o direito de se voltar e de surpreender, como um todo unido, as forças infinitamente opostas que o dividem. Os sonâmbulos descreve essa divisão: a dispersão dos valores em sistemas irredutíveis, a vertigem da infinidade que impele cada um deles a ocupar todo o espaço e, ao mesmo tempo, a se esvaecer no abstrato em que ela reina, a lógica que introduz sua própria dissolução, o irracional que triunfa sob a máscara da razão. Entretanto, Os sonâmbulos terminava com uma promessa indecisa de salvação: quanto maior é a angústia do homem, consciente de sua solidão, mais ele aspira a um guia, o portador da redenção que o tomará pela mão e o fará entender, por seus atos, o acontecimento incompreensível de seu tempo. "Tal é a nostalgia", diz Broch, nostalgia do Führer da qual, a partir de 1928, ele tinha razão de desconfiar. ti; ;"

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Blanchot, maurice o livro por vir  
Blanchot, maurice o livro por vir  
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