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O UVRO POR VIR

DE UMA ARTE SEM FUTURO

nudada, enfim o esforço para transpor a porta do terror e buscar, junto ao nada, a salvação fora do desmembramento e da dispersão, esses não são motivos literários, mas a repercussão de "uma experiência mística inicial", que é o centro em torno do qual a obra se desenvolveu.

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bairros mais miseráveis da cidade. É a primeira parte, a

chegada, e o lento balanço da água. A segunda parte é ainda mais pobre de acontecimentos. Caiu a noite. Aquele que morre está só, embora seja hóspede do palácio imperial. Em certo momento, na inquietude da febre e ardendo num fogo, ele se levanta e vai à janela, de onde assiste a uma briga de bêbados, trio titubeante e zombeteiro, cujo riso é como uma emanação do abismo, a ruptura jovial do compromisso humano, perjúrio no qual ele se sente implicado, acusado, desnudado diante de si mesmo. Assim começa a descida às regiões onde tudo o que até então o justificou lhe falta: seu nome, sua obra, a beleza, a esperança de um verdadeiro conhecimento, a espera de um tempo sem destino. Explicação que ocorre nele e fora dele, que é um verdadeiro exame de consciência dentro do qual ele se vira e revira, exposto ao informe, entregue ao anõnimo, com a ilusão de avançar para a profundidade enquanto sua queda é apenas uma queda vã no intricamento superficial de um sonho terrestre. Pelo menos, a aproximação da morte, a escuta dele mesmo moribundo, o reconhecimento de sua condição de artista, estranho à verdade, fechado num mundo irreal de símbolos, contente com um jogo e exaltando-se com uma embriaguez solitária que o desviou de seu verdadeiro dever, a provação depois do terror, do silêncio e do vazio, leva-o a uma decisão: é preciso queimar a Eneida. A terceira parte é uma volta ao dia. É a espera, a confrontação das verdades da noite com as certezas da terra, a presentificação de Virg:t1io que deseja destruir sua obra e de seus amigos que querem salvá-la, de Virgnio que se abre a um outro mundo, um outro tempo, e de Augusto que mantém, contra a quimera do espírito profético e de

A fala interior do último dia Virgnio não é, entretanto, um simples nome emprestado. O mito protege Broch e lhe permite explorar o que não poderia ter atingido sob seu próprio nome. Mas Broch, quando escreve seu livro, não pretende apenas tornar sensível o que experimentou. Não é sua experiência imediata que lhe importa; o que pretende é prolongá-la, aprofundá-la e encontrar uma saída para ela, que seria sua própria obra, se essa obra conseguisse elevar à unidade os movimentos violentamente opostos entre os quais o homem se divide, quando chega a seu fim. É essa a ambição majestosa do escritor. Quando ele começa seu livro, vai morrer, assim como VirgJ1io vai morrer: dezoito horas o separam do último instante. Esse livro será o "monólogo interior" do último dia, mas o monólogo é bem diferente da forma que a tradição lhe atribui. É redigido na terceira pessoa, e essa passagem do Eu ao Ele, longe de ser uma comodidade de escrita, está ligada à aproximação do acontecimento' a seu poder impessoal, ao longínquo que é sua proximidade. De que é preenchido esse monólogo? Os fatos estão aí resumidos a quase nada, sem serem insignificantes. A galera que transporta Virgnio, o poeta agonizante, entra na baía de Bríndisi e, enquanto se adivinham os rumores da multidão que aclama César, é preciso que a liteira, guiada por um jovem camponês, Lisânias, imagem de Virgnio criança, abra uma passagem através dos

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Blanchot, maurice o livro por vir  
Blanchot, maurice o livro por vir  
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