Page 52

92

o LIVRO POR VIR

A QUESTÃO LITERÁRIA

uma fórmula mágica: "(Cáustico. Dores cáusticas.! A sabedoria é o repouso na luz" (22 de outubro de 1821). 24 de outubro: "E pela última vez, assim espero. A sabedoria é o repouso na luz."Por que essa volta obsessiva? Porque aí se juntam, na densidade de poucas palavras, as duas inclinações de seu espírito, e também a ambigüidade de um pensamento com duas inclinações, pois o repouso na luz talvez tenda a ser a paz pela luz, luz que se acalma e que dá a paz, mas é também o repouso - privação de toda ajuda e impulsão exteriores - para que nada venha perturbá-lo, nem pacificar o puro movimento da luzI'. Necessidade de luz, grande necessidade do dia, dessa abertura espaçosa que é o dia ("Sem espaço não há luz"), e do ponto de claridade única que constitui o dia e que o dá ("Ponto luminoso. Buscá-lo em tudo. Nunca está senão numa palavra numa frase, numa idéia num discurso."). Aversão por tudo o que é obscuro, impenetrável, opaco: "Um ponto obscuro em seu espírito é-lhe tão insuportável quanto um grão de areia no olho"; "Estreita? Sim, é estreita a parte de minha cabeça destinada a receber idéias que não sejam claras." Estreita demais, talvez, pois é esse afastamento da obscuridade que o faz também evitar o dia, o que há de demasiadamente vivo no dia que começa, ao qual ele prefere, dirá num pensamento revelador, o amanhecer: "O amanhecer é encantador, porque é um dia acomodado e diminuído. Mas a alvorada é menos encantadora, porque ainda não é um dia. É ainda apenas um começo ou, como se diz bem, a 'ponta' do dia." O que ele quer é "uma luz mediana", expressão em que se detém para confirmar seu gosto pela

93

medida, mas que busca também aprofundar, chamando-a de mediana, não só porque ela é comedida, mas também porque, dela, falta-nos sempre a metade: luz então dividida e que nos divide, de modo que é nessa divisão dolorosa de nós mesmos que devemos pôr nosso contentamento. O repouso na luz: será a calma suave trazida pela luz? será a dura privação de si mesmo e de todo movimento próprio, posição na luz sem repouso? Um nada separa aqui duas experiências infinitamente diversas. O interesse de Joubert reside ainda em nos lembrar, por seu exemplo privilegiado, o quanto é essencial, mas difícil, manter firmemente esse nada que separa o pensamento.

I

19. "... o repouso não é um nada para ela [a alma1. Representa um estado em que ela está entregue unicamente a seu próprio movimento, sem impulsões estranhas,"

1

j

Blanchot, maurice o livro por vir  
Blanchot, maurice o livro por vir  
Advertisement