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o LIVRO FOR VIR

mostradas pelo Surrealismo, que Mascolo designa e define com justeza 18 -, apenas podemos dizer que ela nunca é móvel o bastante, nunca suficientemente fiel à angustiosa e extenuante instabilidade que, crescendo sem cessar, desenvolve em toda fala a recusa de se deter em alguma afirmação definitiva. É preciso acrescentar que, se o escritor, em razão des-

sa mobilidade desviada de todo emprego de especialista, é incapaz até mesmo de ser um especialista da literatura, e ainda menos de um gênero literário particular, ele não visa entretanto à universalidade que o honnête homme do século XVII, depois o homem goethiano e enfim o homem da sociedade sem classes, para não falar do homem mais longínquo de Teilhard de Charclin, nos propõem como ilusão e como objetivo. Assim como o entendimento público já entendeu tudo de antemão, mas impede toda Compreensão própria, assim como o rumor público é a ausência e o vazio de toda fala firme e decidida, dizendo sempre algo diverso daquilo que diz (donde um perpétuo e terrível mal-entendido, do qual lonesco nos permite rir), assim como o público é a indeterminação que arruína todo grupo e toda classe, da mesma forma o escritor, quando cai sob o fascínio do que está em jogo, pelo fato de publicar", corno Orfeu com Eurídice nos infernos, orienta -se para uma fala que não será de ninguém e que ninguém ouvirá, pois ela se dirige sempre a outra pessoa, desperU

18. "É preciso insistir sobre a extrema importância do único movimento de pensamento que a França conheceu na primeira metade do século XX: o Surrealismo... Somente ele, entre as duas guerras, soube colocar, com um rigor que nada permite dizer ultrapassado, exigências que são ao mesmo tempo as do pensamento puro e as da parte imediata do homem. Somente ele soube, com uma tenacidade incansável, lembrar que revolução e poesia são uma coisa SÓ."

PARA ONDE VAI A LITERATURA?

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tando, naquele que a acolhe, sempre um outro e sempre a espera de outra coisa. Nada de universal, nada que faça da literatura uma potência prometéica ou divina, com direito sobre tudo, mas o movimento de uma palavra despossuída e desenraizada, que prefere nada dizer à pretensão de dizer tudo e, cada vez que diz algo, não faz mais do que designar o nível abaixo do qual é preciso descer ainda mais, se desejamos começar a falar. Em nossa "mi-

séria intelectual", há portanto também a fortuna de um pensamento, há a indigência que nos faz pressentir que pensar é sempre aprender a pensar menos do que se pensa' pensar a falta que é também o pensamento e, falando, preservar essa falta levando-a à fala, mesmo que seja, como acontece hoje, pelo excesso da prolixidade repetitiva. Entretanto, quando o escritor se encaminha, com tal treinamento, para a preocupação com a existência anônima e neutra que é a existência pública, quando parece não ter mais outro interesse nem outro horizonte, não estará ele preocupado com aquilo que jamais deveria ocupá-lo, ou somente de maneira indireta? Quando Orfeu desce aos infernos em busca da obra, enfrenta um Estige muito diverso: o da separação noturna, que ele deve encantar com um olhar que não a fixa. Experiência essencial, a única na qual deve empenhar-se inteiramente. De volta à luz, seu papel com relação às potências exteriores se limita a desaparecer, logo despedaçado por seus delegados, as Mênades, enquanto o Estige diurno, o rio do rumor público em que seu corpo foi dispersado, carrega a obra cantante, e não apenas a carrega, mas quer fazer-se canto nela, manter nela sua realidade fluida, seu devir infinitamente murmurante, estranho a toda margem. Se hoje o escritor, acreditando descer aos infernos, se contenta em descer à rua, é que os dois rios, os dois gran-

Blanchot, maurice o livro por vir  
Blanchot, maurice o livro por vir  
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