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o LIVRO POR VIR

PARA ONDE VAI A LITERATURA?

te, do outro, quer exercendo uma influência, quer recusando-se a exercê-la, encarnaram como dois tipos muito característicos. Dirão: "Mas jamais as pessoas que escrevem se meteram tanto na política. Vejam as petições que assinam, os interesses que mostram, a pressa com que se crêem autorizadas a emitir julgamentos sobre tudo, simplesmente porque escrevem." É verdade: quando dois escritores se encontram, nunca falam de literatura (felizmente), mas suas primeiras palavras são sempre sobre política. Sugerirei que, sendo no conjunto extremamente privados do desejo de desempenhar um papel, ou de afirmar um poder, ou de exercer uma magistratura, sendo, pelo contrário, de uma espantosa modéstia em sua própria notoriedade, e muito afastados do culto à pessoa (é mesmo por esse traço que poderemos sempre distinguir, entre dois contemporâneos, o escritor de hoje e o escritor de outrora), eles são tão mais atraídos pela política quanto mais se sentem na vibração exterior, à beira da inquietude pública e em busca da comunicação anterior à comunicação, cujo apelo se sentem constantemente convidados a respeitar. Isso pode resultar no pior. É o que produz" os curiosos universais, os tagarelas universais, os pedantes universais informados de tudo e opinando imediatamente sobre tudo, com pressa de julgar definitivamente o que acaba de acontecer, de modo que logo será impossível aprender qualquer coisa: já sabemos tudo", de que fala Dionys Mascolo em seu ensaio "sobre a miséria intelectual na França"l'. Mascolo acrescenta: "As pessoas aqui são informadas, inteligentes e curiosas. Compreendem tudo. Compreendem tão rapidamente qualquer coisa que não

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têm tempo para pensar em nenhuma. Não compreendem nada ... Tentem pois fazer com que aqueles que já compreenderam tudo admitam que algo de novo aconteceu!" Encontramos, nessa descrição, exatamente os traços, apenas um pouco acentuados e especializados, deteriorados também, da existência pública, entendimento neutro, abertura infinita, compreensão pelo faro e pelo pressentimento na qual todo o mundo está sempre informado do que aconteceu e já decidiu acerca de tudo, arruinando assim todo julgamento de valor. Isso resulta pois, aparentemente, no pior. Mas oferece também uma nova situação, na qual o escritor, perdendo de certa forma sua existência própria e sua certeza pessoal, passando pela prova de uma comunicação ainda indeterminada e tão poderosa quanto impotente, tão completa quanto nula, se vê, como

Mascolo observa bem, "reduzido à impotência", limas reduzido também à simplicidade". Pode-se dizer que, quando o escritor cuida hoje de política, com um entusiasmo que desagrada aos especialistas, ainda não cuida de política mas da relação nova, mal percebida, que a obra e a linguagem literárias gostariam de despertar, no contato da presença pública. É por isso que, falando de política, já é de outra coisa que ele fala: de ética; falando de ética, é de ontologia; de ontologia, é de poesia; falando enfim de literatura, "sua única paixão", ele o faz para voltar à política, "sua única paixão". Essa mobilidade é decepcionante e pode, uma vez mais, engendrar o pior: discussões vãs que os homens eficazes qualificam de bizantinas ou de intelectuais (qualificativos que, naturalmente, também fazem parte da nulidade tagarela' quando não servem para dissimular a fraqueza envergonhada dos homens de poder). Dessa mobilidade cujas dificuldades e facilidades, exigências e riscos, foram

17. Dionys Mascolo, Lettre polonaise Sur la misere intellectuelle en France.

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Blanchot, maurice o livro por vir  
Blanchot, maurice o livro por vir  
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