Page 187

362

o LIVRO POR VIR

Publicar não é fazer-se lido, nem dar a ler qualquer coisa. O que é público não tem, precisamente, necessidade de ser lido; aquilo é sempre já conhecido de antemão, por um conhecimento que sabe tudo e não quer saber nada. O interesse público, sempre desperto, insaciável e, no entanto, sempre satisfeito, que acha tudo interessante ao mesmo tempo que não se interessa por nada, é um movimento que foi indevidamente descrito com intenção denegridora. Vemos aí, sob uma forma na verdade relaxada e estabilizada, a mesma potência impessoal que, como obstáculo e como recurso, está na origem do esforço literário. É contra uma fala indefinida e incessante, sem começo nem fim, contra ela mas também com sua ajuda, que o autor se exprime. É contra o interesse público, contra a curiosidade distraída, instável, universal e onisciente que o leitor vem a ler, emergindo penosamente daquela primeira leitura que, antes de ter lido, já leu; lendo contra ela, mas apesar de tudo através dela. O leitor e o autor participam, um numa escuta neutra' outro numa fala neutra, que eles gostariam de suspender por um instante para dar lugar a uma expressão mais bem entendida. Evoquemos a instituição dos prêmios literários. Será fácil explicá -la pela estrutura da edição moderna e pela organização social e econômica da vida intelectual. Mas se pensarmos na satisfação que, com raras exceções, o escritor experimenta ao receber um prêmio que, freqüentemente, nada representa, nós a explicaremos não por algum prazer de vaidade, mas pela forte necessidade dessa comunicação anterior àquela que é a escuta pública, pelo apelo ao rumor profundo, superficial, em que tudo se mantém, aparecendo, desaparecendo, numa presença vaga, espécie de rio Estige que corre em plena luz nas nos-

PARA ONDE VAi A LITERATURA?

363

sas ruas e atrai irresistivelmente os vivos, como se estes já fossem sombras, ávidas de se tornarem memoráveis para serem mais perfeitamente esquecidas. Ainda não se trata de influência. Não se trata nem mesmo do prazer de ser visto pela multidão cega, nem de ser conhecido pelos desconhecidos, prazer que supõe a transformação da presença indeterminada em um público já definido, isto é, a degradação do movimento incaptável numa realidade perfeitamente manejável e acessível. Um pouco mais abaixo, teremos todas as frivolidades políticas do espetáculo. Mas o escritor, nesse último jogo, estará sempre mal servido. O mais célebre é sempre menos nomeado do que o locutor cotidiano do rádio. E, se ele é ávido de poder intelectual, sabe que o está esbanjando nessa notoriedade insignificante. Creio que o escritor não deseja nada, nem para si, nem para sua obra. Mas a necessidade de ser publicado - isto é, de atingir a existência exterior, a abertura para fora, a divulgação-dissolução de que nossas cidades são o lugar - pertence à obra, como uma lembrança do movimento do qual vem, que ela deve prolongar incessantemente, que ela gostaria, entretanto' de ultrapassar radicalmente e ao qual dá um fim, de fato, por um instante, cada vez que é obra. Esse reino do "público", entendido no sentido do" exterior" (a força de atração de uma presença sempre ali, nem próxima, nem longinqua, nem familiar, nem estranha, privada de centro, espécie de espaço que assimila tudo e nada conserva), modificou a destinação do escritor. Assim como ele se tornou estranho à glória, prefere uma busca anônima ao renome e perdeu todo desejo de imortalidade, da mesma forma - isto, à primeira vista, pode parecer menos certo - ele abandona pouco a pouco a ambição de poder que Barres, de um lado, e MonsieurTes-

Blanchot, maurice o livro por vir  
Blanchot, maurice o livro por vir  
Advertisement