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NOVEMBRO ‘09

Jornal da Academia do Porto || Ano XX || Publicação Mensal || Distribuição Gratuita Directora Filipa Mora || Director de Fotografia Manuel Ribeiro || Directora de paginação Joana Koch Ferreira

Destaque 2 || Educação 6 || Sociedade 10 || JUPBOX 13 || U.Porto 14 || FLASH 16 || Desporto 18 || Cultura 22 || Críticas 27 || Cardápio 28 || Opinião 29 || Devaneios 31

Admirável Porto Novo: fenómeno sociológico ou ilusão noctívaga?


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Destaque

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E depois da Festa, há vida no Porto? manuel ribeiro

A noite do Porto está diferente. À medida que a semana se aproxima do descanso o centro é tomado por uma “movida” cativante e que confere traços de um cosmopolitismo que, indiscutivelmente, dão pinta à cidade.

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Feira na Baixa do Porto

de analfabetismo elevados em algumas zonas da cidade e esses parecem nunca ser atacados de frente. É, de resto, uma visão já levada a cabo em várias cidades europeias, tendo muitas das vezes um resultado dual: por um lado assistiu-se a um movimento de atracção de profissionais dessas indústrias e algum florescimento das mesmas, mas apenas na exacta medida em que os trabalhadores manuais, o pequeno comércio, os desempossados, no fundo a cidade tradicional vai sendo expulsa do centro, sendo que no caso Porto nem sequer se nota um aumento significativo de empresas no domínio da ciência, muito menos algum acréscimo no campo da cultura. Concluí falando de um grande ecrã que nos desvia daquilo que é importante e de estratégias políticas que, muito em linha com a agenda das “cidades criativas e do conhecimento”, tem a gentrificação no horizonte: o plano esquece quem lá vive, para se concentrar nos consumidores que potencialmente pode atrair. “Entre o grande imaginário das “cidades criativas” veiculado nos documentos de orientação política e o que se verifica na realidade vai uma grande distância”. A partir dos estudos, também se verificou uma “afinidade ideológica” entre muitos intermediários culturais (programadores, proprietários) e quem conduz as estratégias para a cidade: tanto a reabilitação urbana (responsabilidade da Sociedade de Reabilitação Urbana) como a produção cultural são feitas quase exclusivamente pela via do mercado. Uma “ideia” que gera sequelas também na forma como se relacionam com a cidade aqueles que nela vivem.

Mas que trama, que vida e que gente (e que história feita por esta gente) possibilita este cenário? Catarina Martins, directora artística da Visões Úteis, companhia com trabalho artístico realizado sobre o espaço urbano, lamenta que estejam a ser expulsas aquelas pessoas que foram criando mais raízes com a cidade. A gente que tem memórias de infância e laços com a cidade, que nela cresceu e que desenvolveu uma ligação são as mesmas pessoas que hoje não tem dinheiro para poder pagar uma casa no centro. Acredita que o aumento do consumo da noite no centro se trata de uma forma fruir e de viver a cidade que pode não se traduzir forçosamente num compromisso com aquele espaço No fim do dia vão descansar a outro lado, vão acordar noutro sítio. Lança ao ar uma questão que inclui uma crítica: porque é que há zonas da cidade que permanecem degradadas à espera que algum especulador apareça para fazer maisvalias? E aclara: “as pessoas não vivem na cidade não porque não haja casas. Há imensas casas! Estão é degradadas, podres, fechadas. As próprias pessoas que saem à noite não podem lá viver porque não tem capacidade para comprar uma casa no centro. As poucas que são reabilitadas destinam-se às classes mais altas. Portanto, ou temos casas de luxo ou temos casas degradadas. Esta lógica económica em que cada um faz o melhor para si, sem uma ideia de conjunto subjacente, traznos este tipo de resultados. E depois caem fachadas...”, numa referência à fachada de um prédio na rua Formosa que recentemente desabou. Estava devoluta à mais de 30 anos. Catarina Martins defende uma cidade plural em que se cruzam várias gerações tem necessariamente de ser uma cidade na qual toda a gente tenha acesso a viver nela, o que, sustenta, não tem acontecido. Como exemplo, relembra um projecto que desenvolveu nas ruas da Foz velha. Ali, verificou como

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O aumento do consumo da noite no centro trata-se de viver a cidade

estavam desertas e sem vida quem habita essa zona da cidade são idosos que lá permaneceram ou então habitantes dos novos condomínios fechados. Falando da nova afluência ao centro para a noite, não nota significativa diferença do que existia na Ribeira há uns anos. Nem pensa que haja uma maior dinâmica cultural. Tanto porque as pessoas não sentem necessidade dela, como porque a aposta dos intermediários nem sempre é constante, a longo prazo. Muitas vezes a ligação destes espaços à arte aparece unicamente como uma forma de o diferenciar dos outros (e de ter mais visibilidade pública ou mediática) mas é difícil de manter quando não há um circuito que o alimente. Por não haver políticas de formação de públicos nem de promoção da cultura também acaba por não haver a necessidade de bens culturais. “A não ser em eleições, não há um apoio ao sector criativo, que consequentemente também não tem público que sinta essa necessidade e que por sua vez também não vai pedir esses bens,

Locais da noite

pelo que também não está disposto a pagar por eles.” Assim como Catarina Martins, também João Queiroz questiona a vertente cultural deste fenómeno e pergunta, mais em jeito de provocação, se não teremos mais perante nós uma “cultura dos copos” do que propriamente um fenómeno artístico ou de consumo cultural (entenda-se pintura, escultura, instalações, workshops, etc). E são os próprios intermediários

que admitem que a sua oferta segue uma estratégia de ampliação que, de certa maneira, subalterniza a programação em função da diversão e que tem a ver com o novo público no centro, que não é apenas um público da cultura. Será também esta postura dos intermediários, que a par da ausência de uma politica cultural para a cidade, nos fazem acreditar que esta nova dinâmica no centro é muito mais uma de noite que de consumo cultural. IG s

nova noite do centro faz-se em deambulações nocturnas, mais ou menos embriagadas, e por uma visível apropriação do espaço público, algo que já existia na Ribeira e que parece agora ter-se transferido para a Baixa. Mas será esta nova dinâmica da noite suficiente para podermos falar de um retorno ao centro, de uma nova vida na cidade ou até mesmo de uma maior ligação às linguagens artísticas e contemporâneas? João Queiroz, investigador no Instituto de Sociologia da Faculdade de Letras e que tem estudado as dinâmicas culturais emergentes e a reabilitação urbana da baixa do Porto, discorda e afirma mesmo ser abusivo tratar-se este aumento do consumo da noite no centro do Porto como um processo de revitalização - “trata-se de uma dinâmica cultural de diversão nocturna mais de carácter comercial e menos de revitalização urbana”. Esta “nova” noite da baixa portuense não será assim tão nova. Ela precisa de ser enquadrada no pós-A

Porto 2001, nas sementes que foram lançadas à época (é por esta altura que surgem os Maus Hábitos e outros projectos que estabelecem um compromisso entre programação cultural e diversão), ao mesmo tempo que assistimos a um definhar da noite da Ribeira (donde parece ter sido transferida a movida que agora percorre o centro) e, como é obvio, também se relaciona com uma certa decadência da noite tradicional, por exemplo, da “zona industrial”. Mas João Queiroz rejeita esta ideia de revitalização do centro propalada pela autarquia, encarando-a quase como poeira que não nos permite debater os reais problemas da cidade. Mais importante são as marcas, que diz encontrar na cidade, de um processo de gentrificação, um fenómeno estudado em sociologia, que diz respeito aos processos de revitalização dos centros urbanos que resultam na expulsão das classes populares dos mesmos. Segundo o investigador, este fenómeno está relacionado com uma estratégia de revitalização que assenta na lógica da “cidade criativa” e que tem por objectivo atrair as indústrias criativas e do conhecimento. Uma forma de pensar a cidade na qual se perspectiva “a cidade que há-de vir” a partir das próprias projecções que são desenvolvidas e nunca partindo dos problemas reais com que a cidade se confronta. Porque, assegura, os grandes problemas continuam aí: pobreza, degradação habitacional, desemprego, índices

“...trata-se de uma dinâmica cultural de diversão nocturna mais de carácter comercial e menos de revitalização urbana...”


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O JUP saiu à noite. Foi para rua ouvir os protagonistas noctívagos e tentou perceber as suas motivações. De um lado: quem consome, sejam estudantes portugueses ou estrangeiros. Do outro lado: os proprietários dos estabelecimentos em voga. Desde as casas mais antigas e tradicionais da cidade, passando pelas mais recentes, tentámos desmistificar as opiniões por trás do boom explosivo da Baixa portuense.

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Indiscreta” que se dizem mais impressionado com o “boom” da Baixa. Afirmam que “a Zona Industrial era um espaço limitado, fechado e até irreal porque estávamos fechados num mundo à parte”, sentia-se a necessidade de um espaço mais aberto ao que a Foz e a Ribeira souberam responder e os empresários da Baixa decidiram aproveitar a onda. Agora, “as pessoas continuam a querer uma zona mais ampla com mais possibilidades de situações diferentes”, “tanto se pode estar na rua e estar bem, como se pode entrar e sai de uma discoteca e continuar a ter para onde ir!”:

O que mudou?

O JUP saiu à noite da baixa portuense

“Agora andamos aí todos os dias”, é este o novo lema dos estudantes do Porto. “O Porto ganhou uma nova vitalidade, limpou a imagem da Baixa” e deu-lhe mais uma oportunidade para viver, referem os estudantes portuenses com quem o JUP conversou. Todos responderam com determinação e hoje a noite da Baixa da Invicta é a maior referência da cidade. Desde o centenário Piolho, passando pelo Café Au Lait até às Galerias de Paris parece visível a diária

multidão que aparece para “tomar um copo ou beber um café”, mas não é assim tão óbvio. Para muitos a zona da Baixa “continua igual ao que sempre esteve”.

Será que é um público específico que vê as diferenças? Nem sempre é bem assim, mas até é. São, em geral, os estudantes que procuram uma noite mais “alternativa”, como “ir a um concerto no Passos Manuel, passar pelo Plano B, Maus Hábitos ou descobrir o novo Janela

Aqui é onde as opiniões dos estudantes mais se dividem. Muitos dizem que “foram os jovens que mostraram a necessidade de sair daqueles mesmos sítios de sempre”, outros dizem que “os empresários souberam ver o que se passava e decidiram precipitar algo que acabaria por acontecer mais cedo ou mais tarde.” Ou ainda “tudo se deve aos programas de reabilitação da Câmara Municipal para a Baixa”. A verdade é que todos tiveram um papel importante, mas foram certamente os jovens, a procura por música e espaços alternativos que mostraram os potenciais de negócio que existem naquela zona. Outro aspecto relevante é que, além do já referido, o Porto é feito por épocas e existe uma “rotatividade” entre zonas e “à partida não há mais pessoas, mas sim as pessoas transferem-se de um lugar para outro. Como da Zona Industrial para a Foz, Ribeira e agora para a Baixa até que algo de novo aconteça”.

“Zona Industrial, música mais pesada, zona da Baixa, musica mais alternativa” “Nos bares da Baixa a música que se ouve ajuda a cultivar o ouvido” é como se fosse uma zona de aprendi-

zagem e cultura ao ar livre, onde “a música consegue fazer evoluir a própria população, já que é passada de forma diferente dos outros lugares” Também a nível social a Baixa parece estar a fazer uma revolução. “A Zona Industrial é uma zona de concentração onde existe um padrão tanto físico, mental ou psicológico, na Baixa as pessoas são as mesmas, mas a cultura envolvente cria uma situação diferente que leva a uma evolução a nível geral. Não obriga as pessoas a serem assim ou assado.”. Parece haver, na opinião dos entrevistados, mais oportunidade de conhecer pessoas diferente e uma maior “consciência do mundo real”, “As alternâncias de situações culturais existem e são aceites quase a 100%”

O que procuram os estudantes? Um sítio calmo em que possa estar com os meus amigos a conversar e possa ouvir música” é isto que mais se procura no Porto, como as sempre mencionadas “Galerias de Paris onde se pode estar cá fora e lá dentro”, mas o Piolho continua a ser o ponto de partida para as noites dos estudantes. “Mas como nunca se pára”, o Plano B e o Pitch são os preferidos dos mais alternativos nas horas mais agitadas, ou para os querem uma música mais main stream o Twins da Baixa é também uma escolha possível.

“Isto está mal!” A falta de segurança é o problema mais apontado, tanto pela falta de policiamento como pela falta de civismo de muitas pessoas. Os transportes são o segundo maior problema, pedindo-se mais linhas de autocarros nocturnos. Mas de resto, e como pensa a maioria das pessoas, “Na Baixa está tudo bem!”. E a verdade é que aparte da necessidade de uma forte ainda mais variada, está mesmo “tudo bem.” al

Porto dos Estudantes

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Estrangeiros na baixa Os estudantes estrangeiros já representam grande parte dos consumidores de ofertas da noite, o que faz com que o mercado fique cada vez mais de olho neles. É o caso da abertura de novos espaços como o Erasmus Meeting Point, inaugurado no café/restaurante Galerias de Paris no fim de Outubro. Já o Estrela D’Ouro é um dos sítios veteranos onde se apostou em salões de bilhar para atrair a clientela. “Eu frequento a baixa porque é onde eu encontro festas que privilegiam elementos culturais com os quais eu me identifico, normalmente aqueles que estão relacionados à cultura latina, que é a minha”, afirma a estudante brasileira Paola Botelho. Além disso, outras programações também favorecem a região. “Ao chegar ao Porto, fui à procura de teatro e todos os que me indicaram localizavam-se relativamente próximos um do outro, como o Teatro Nacional S. João e o Rivoli”, afirmou Elisabete Raimundo. “Se eu não tivesse encontrado outros Erasmus como eu, eu estaria sozinha até hoje”, ainda comenta Elizabete, que nasceu em Portugal mas mora desde criança na cidade de Genebra, Suíça. A dificuldade de integração com os portugueses é um dos factores citados pelos estudantes estrangeiros para justificar os nichos. “Como é difícil a interacção com estudantes portugueses, nós formamos um núcleo de amizade com pessoas que estão na mesma situação que a nossa, longe da família e dos amigos, e assim acabamos por frequentar os mesmos lugares para encontrar o pessoal”, explica Laurisson Albuquerque. O estudante de Medicina ainda relata ter ido à Zona Industrial e conta que achou “a parte nova da cidade muito igual a qualquer outro centro urbano. Eu tinha a sensação de estar na minha cidade no Brasil. Assim, decidi viver na baixa porque o local me propicia sentir uma atmosfera diferente, com mais cara de Europa”, conclui. MA

O Café Piolho, que comemora este ano o seu centésimo aniversário, não nota tanto as diferenças que se fazem sentir na noite

Poncha no Porto prepara-se a típica bebida madeirense

De olho no mercado: a visão de quem oferece “Há mais concentração de bares na zona centro”, diz o proprietário do Bar Altar, “Os preços são melhores e as pessoas procuram sítios movimentados. Se houver gente o pessoal fica”. Existe também uma visão de negócio, os sítios não nascem de qualquer maneira, muitos deles são espaços acolhedores e dinâmicos, com várias pistas de dança e bares. “Temos a preocupação de tornar um espaço interessante, a nível arquitectónico”, afirma Sérgio Ribeiro proprietário do Armazém do Chá. Diz-nos ainda que existem outras razões evidentes, “Todas as grandes cidades europeias têm o seu centro de divertimento nocturno localizado nas zonas privilegiadas da cidade, assim as pessoas podem evitar pegar nos carros à noite e a diversidade é tanta que cada noite se pode optar por um sítio diferente (...), As pessoas pediam a noite no centro do Porto e foi o que aconteceu”. O “boom” ocorreu, dizem-nos ao balcão do Rendez-Vous, “no verão de 2008 - a partir dessa altura começaram a abrir mais bares”. A data

não é consensual entre os vários entrevistados mas a ideia permanece; a explosão de abertura de bares na zona central da cidade é recente. Para perceber a massa de pessoas que agora se aglomera no centro, e de onde é que ela vem, visitámos a periferia da cidade. Os bares na zona da Ribeira, outrora área de diversão nocturna de eleição, encontram hoje muito menos movimento. Mesmo assim, alguns dos proprietários de bares da Praça do Cubo não dramatizam e preferem assumir que têm uma faixa de clientes diferente, nomeadamente mais turística. Existem ainda as segundas-feiras à noite em que o espaço da Ribeira enche realmente e as pessoas, movidas pelos “baldes” de bebida baratos, vão ao encontro de diversão. Para o proprietário de “O Meu Mercedes é Maior que o Teu”, a noite perde a sua identidade quando “se cultiva a filosofia de beber copos e do rebanho de ovelhas”, diz que as pessoas vão ao encontro das massas sem haver tanto uma preocupação em relação ao que se consome e

como se consome. Fala da música. Diz mesmo que o que mantém vivo “O Meu Mercedes”, é a identidade específica que aquele espaço tem e que conseguiu cultivar ao longo dos anos: os clientes habituais, a música e concertos. Considera que as dificuldades fazem visivelmente sentir-se, “fecharam dois clássicos da cidade do Porto, o Meia Cave e o Aniki Bobó” mas mantém-se positivo pois acredita que o Porto tem público interessado em noites mais culturais. Para além das razões acima apresentadas, a visão de negócio, os espaços acolhedores, a boa localização, houve ainda o facto da Ribeira ter sido em tempos palco de alguma violência e roubos. Ainda segundo o proprietário d’O Meu Mercedes, “A violência afastou, de facto, algumas pessoas da Ribeira (...) e acaba por ser uma característica normal da noite, devido ao álcool, ainda que não deixe de ser lamentável ”. Para outros comerciantes foi talvez “a falta de policiamento suficiente”. De qualquer

forma todos concordam que a zona está hoje “muito melhor em termos de segurança”. O Café Piolho, que comemora este ano o seu centésimo aniversário, não nota tanto as diferenças que se fazem sentir na noite, pelo menos em termos de número de pessoas. José Martins, proprietário do café, confirma que durante os trinta anos que tem de casa, a clientela tem sido quase sempre igual em quantidade. Um espaço em que se cruzam todo o tipo de pessoas, nacionalidades e idades, “O Piolho tem a característica de ter sido um espaço de eleição dos estudantes durante muitos anos”. É um café assumidamente direccionado para a comunidade estudantil, ainda que não só, e isso faz com que tenha o privilégio de o tornar um espaço de encontro de gerações. IG

André Lameiras, Igor Gonçalves, José Miranda, Manaíra Athaíde aml.lameiras@gmail.com, dimitri.igor@ gmail.com, josemirand@hotmail.com, mana_aires@hotmail.com


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Igor Gonçalves

Entrevista Arnaldo Saraiva

Ligação intrínseca entre a Palavra e o Futuro

O acordo ortográfico é um instrumento de aproximação entre os países

A criação de uma grande biblioteca de cultura brasileira é outro dos objectivos

Não há nada melhor do que a literatura para conhecer a alma dos povos

A elevação do nível cultural da língua portuguesa e a evolução nas formas de ensino sempre foram objectivos primordiais ao longo da sua carreira. Fica difícil definir uma actividade concreta na vida de Arnaldo Saraiva. Foi professor universitário, investigador científico e literário, ensaísta, cronista e poeta. Mas há um elo em comum: o encanto incontornável pela literatura. Nesta entrevista Arnaldo Saraiva explora este envolvimento sentido e fundamentado que o levou até terras brasileiras em busca de mais formas de expressão. Estudou no Brasil e em França, que principais diferenças aponta no ensino desses países e em Portugal? Arnaldo Saraiva - Estudei em tempos distintos dos de hoje. O ensi-

no em Portugal não ficava nada atrás do ensino comum brasileiro ou francês nos tempos em que estudei. Tive alguma surpresa quando cheguei a Paris e vi que os nossos estudos não deveriam inferiorizar-nos. Paris tinha um nível médio que depois de Maio de 68 não era famoso e estava em reorganização. Mas tinha estudos superiores que eram dados por pessoas muito competentes e inovadoras como Roland Barthes. Anos mais tarde, quando fui professor na Universidade da Sourbonne, reforcei a ideia de que a França prepara os seus melhores estudantes, sobretudo para as áre-

as de crítica, reflexão e ensaísmo. Mas quem se esforça, trabalha e estuda pode sempre suprir algum condicionamento do local. Dedicou grande parte dos seus estudos a Fernando Pessoa. Porquê? AS - Nos anos 60 empenhei-me em conhecer a arca de Fernando Pessoa - o famoso baú que continha os seus manuscritos. E consegui, um dia, ir à casa da sua meia-irmã, a dona Henriqueta, onde estive com grande estremecimento e emoção a mexer nos papéis que havia na arca. Na altura, dei-me conta que Pessoa não tinha a projecção nacional e internacional

que a obra genial dele justificava. Por isso, quando tive oportunidade criei o Centro de Estudos Pessoanos, no Porto. Editei também a revista “Persona” que foi um grande instrumento de divulgação nos seus 12 números. Mas, sobretudo, empenhei-me em criar os congressos internacionais que, sem dúvida, projectaram internacionalmente Pessoa. Conseguimos também que o espólio saísse da casa de Pessoa para um local seguro. Assim, os papéis foram para a Biblioteca Nacional de Lisboa. O que distingue a literatura brasileira da portuguesa? AS - Até aos inícios do séc. XX pra-

Perfil Fundou o Centro de Estudos Pessoanos e preside à fundação Eugénio de Andrade. Foi também dirigente do Boavista Futebol Clube, pois nunca quis cingir-se apenas ao mundo académico. Foi jubilado a 12 de Outubro, mas reafirma o seu empenho declarado na evolução do entendimento literário. É o mais novo sócio correspondente da Academia Brasileira de Letras.

ticamente não há diferenças ao nível da escrita. E a partir do modernismo a oralidade foi entrando cada vez mais na literatura. Havia uma preocupação em captar os modos típicos da gíria e calões que alguns ignoravam. No Brasil, percebeu-se que isto era um filão para a renovação literária. Do ponto de vista morfo-sintáctico a língua tem poucas diferenças. E concorda com o Acordo Ortográfico? AS - Claro, não é senão um acordo político-diplomático ou pedagógico. Atinge poucas palavras e que não cria problemas em termos de leitura. Não interfere em nada na

língua a não ser que quase obriga os falantes e os escreventes a conhecerem-se melhor. Porque a escrita não é a fala. Há uma grande diferença entre os sons da fala e os grafemas que representam os sons. Todas as línguas têm ambiguidades, e estas não desaparecem com a uniformização. O acordo ortográfico é um instrumento de aproximação entre os países. Mas também é necessário alfabetização, circulação de escritos e intercâmbio de pessoas. Recentemente tornou-se sócio correspondente da Academia Brasileira de Letras. Aproxima ainda mais a sua relação com o Brasil?

AS - Sim, é uma cortesia e honra mas que traz obrigações. Esta academia trabalha para a divulgação da língua portuguesa e dos seus autores, e também da cultura em geral. Tem feito um grande trabalho na defesa e promoção da língua portuguesa. Vou continuar o papel que sempre tive: estudar a grande literatura brasileira. Há muito preconceito que nasce só da ignorância, como aconteceu no acordo ortográfico. Tenho a obrigação de fazer algo para que os autores brasileiros sejam mais conhecidos em Portugal. Seremos mais fortes ao lado do Brasil, e culturalmente também. A criação de uma grande

biblioteca de cultura brasileira é outro dos objectivos. Como especialista noto que há dificuldade no acesso a livros brasileiros fundamentais. Estou ainda empenhado em promover encontros de intelectuais brasileiros e portugueses. É presidente da fundação Eugénio de Andrade. Quais as principais iniciativas? AS - Tenho vários projectos. Um deles é abrir a casa do Eugénio à visita das pessoas e que esta se torne uma casa museu. Ainda não o pude fazer porque isso implica uma despesa que a fundação não pode suportar. Gostava que fosse uma instituição activa, ao serviço

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da poesia e da língua e literatura portuguesas. Não só pelo Eugénio de Andrade, mas também pelos autores portugueses. Nesse sentido, tenho ainda projectos de cursos de poesia ou de literatura em geral. Contudo, a fundação não tem por si grandes possibilidades de arranjar fundos, até os do Ministério da Cultura foram escasseando. Fora da área da governamental, contamos com apoios da BPI. Na medida do possível mantemos as actividades, sobretudo as que não trazem custos, porque achamos que a obra de Eugénio de Andrade e a poesia portuguesa justifica a existência da fundação. E o plano nacional de leitura? Funciona? O que acha da selecção dos autores que são incluídos neste plano? AS - Eu acho que é um bom plano. Não se podem estudar todos os autores, em todo o tempo e em todos os lugares. Tem que haver um cuidado selectivo sobretudo aos jovens na proposta de alguns autores mas não podem ser só autores de um só tipo e textos de um só tipo. Por exemplo, uma boa quadra pode ser um texto perfeito, todos podem perceber e ser bela. É inventivo, criativo, há ali uma chama e não se deve desprezar isso. O que importa é chamar a atenção para a criatividade verbal, a boa comunicação e boa linguagem, a nível emotivo, intelectual, afectivo, cultural, etc. Eu sou pela abertura à pluralidade dos textos, à diversidade dos estilos mas também sou pela selectividade. O que gostava que mudasse no ensino das letras em Portugal? AS - Gostava que a literatura viesse a ocupar o espaço de que tem sido desalojada porque a literatura foi ao longo dos séculos um instrumento de educação e pedagogia e desenvolvimento nos leitores das capacidades intelectuais e imaginativas. Dá-nos as dimensões todas do Homem, os mundos exteriores, das sociedades vivas ou arcaicas. Interessam-me os seus sentimentos e pensamentos, hesitações, dúvidas e problemas emotivos. Portanto, não há nada melhor do que a literatura para conhecer a alma dos povos porque fá-lo de uma forma mais englobante que a psicanálise, por exemplo. TAtiana Henriques tatehenriques@gmail.com


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Ensino da Economia: onde está a pluralidade? A expansão do mercado em quase todas as esferas sociais não trouxe mais prosperidade nem estabilidade e nem tudo caminhava no melhor dos mundos. O contexto da crise em que a economia mundial mergulhou tem propiciado algumas reflexões sobre o ensino da economia, a evolução desta ciência e o próprio papel social do economista. Isto porque a crise não é inocente e a ciência económica terá, assim como os decisores políticos, que acartar com a sua quota de responsabilidades. Isto é tanto mais urgente se virmos que a ciência económica não só falhou na leitura dos padrões gerais de evolução que indicavam a forte possibilidade de crise, como as suas teorias foram conquistando o estatuto de técnica privilegiada da decisão política. Ou, como coloca Jacques Sapir (que muito desenvolveu sobre a relação entre economia, política e direito), “economista, quem te fez rei?”. As várias correntes críticas à ortodoxia têm ganho outro peso mediático, que não tinham antes da crise, e a academia Sueca do Nobel tem tido um papel muito importante a dar-lhes credibilidade e visibilidade pública. A atribuição do Nobel de 2008 a Paul Krugman no exacto momento em que ia criticando publicamente a sua própria classe dos “economistas, que como grupo, tomaram a beleza, trajada em vistosas equações matemáticas, por verdade” e ridicularizando o velho ideal “de uma economia em que indivíduos racionais interagem em mercados perfeitos”, e atribuição de 2009 a Elinor Ostrom (da escola de pensamento institucional, tendo estudado a gestão colectiva de bens comuns) são um sinal importante de que a mudança pode estar a fazer o seu caminho sobre as ruínas desta crise. João Rodrigues, economista, investigador e bloguer no importante Ladrões de Bicicletas que junta eco-

nomistas críticos do pensamento dominante, em conversa com o JUP, observou como o processo de liberalização financeira iniciado nos anos 70 acabou por aumentar a instabilidade e a desigualdade. O aumento dos mercados não trouxe mais progresso nem mais estabilidade, nem agora nem antes, faz questão de salientar, e reconhece que os economistas têm muita responsabilidade na prescrição das políticas. “Os economistas participaram, por um lado, como engenheiros de produtos financeiros que aumentaram a opacidade, assim como participaram activamente na definição das políticas”. Verifica que a tendência nas últimas décadas para um ataque às instituições públicas com responsabilidades na redistribuição, o dificultar da organização sindical e agravamento da precariedade laboral, que o incremento da especulação, a par quer de um aumento do endividamento nas

classes trabalhadoras, quer de um crescimento dos mercados financeiros, que conduziu a uma maior instabilidade. Segundo João Rodrigues os economistas, sendo umas vezes conselheiros do poder político, outras vezes engenheiros de produtos financeiros ou políticas, têm tido um importante papel legitimador. Sobre os recentes prémios Nobel, o investigador concorda que a atribuição a Krugman deu sem dúvida uma maior visibilidade pública ao keynesianismo, lembrando, contudo, que Krugman desenvolveu o trabalho sobre comercio internacional que lhe deu o prémio a partir de modelos neo-clássicos, tornandoos mais realistas na admissão da imperfeição dos mercados. Considera mais original o contributo de Elinor Ostrom por estudar a acção colectiva e a gestão dos recursos comuns, que se revelaram mais eficazes em determinadas condições,

e “por romper com a dicotomia entre estado vs mercado, no qual os economistas muitas vezes se aprisionam, oferecendo um menu mais alargado de soluções”. É da opinião de que a crise favoreceu o contexto para atribuir o prémio a estes investigadores menos convencionais, lembrando ainda que estes se encontram metodologicamente dentro da teoria neo-clássica. Sobre o ensino da economia defende a importância dos progra-

A ciência económica deve alargar o seu objecto e estar mais atenta a outras questões como a pobreza, as desigualdades e as alterações sociais manuel ribeiro

Com a crise económica nem tudo caminha no melhor sentido

mas curriculares contarem com mais disciplinas em áreas como economia do desenvolvimento, história do pensamento económico, com a presença de outras escolas como o marxismo e o institucionalismo, que segundo João Rodrigues dão mais relevo às análises históricas comparativas, ao papel da interacção nas relações sociais e ao desenvolvimento tecnológico, abordagens que considera mais realistas. Em fim de conversa enuncia que, no ensino da economia, o importante é tentar perceber “quem é, como faz, e porquê”. Mas não deixa a questão enublada e explica que é preciso perceber quais as consequências políticas e quem se apropria do excedente. No fundo, quem beneficia com este tipo de ensino da economia.

Romper com a lógica da avestruz O pensamento económico apenas se conseguirá regenerar se não continuar na lógica da avestruz. A ciência económica, tanto no campo do ensino como no da investigação, deve alargar o seu objecto e estar mais atenta a outras questões como a pobreza, as desigualdades e as alterações sociais. Uma regeneração que terá necessariamente que passar por um ensino da economia mais plural. Assim como uma reflexão epistemológica, ainda em falta, que de uma vez por todas questione alguns dos pressupostos fundacionais da teoria neo-clássica que é ensinada na grande maioria das escolas de economia e gestão (reflectir sobre a cientificidade dos postulados do “homoeconomicus” e medir o afastamento da realidade que o “ceteris paribus” consagra). É também urgente uma maior confrontação teórica de diversas escolas económicas, assim como o cruzamento da economia com outras ciências sociais. Uma Economia que pressuponha vários tipos de racionalidade (e não apenas a motivação económica), que seja prudente e que não pretenda fechar numa equação matemática toda a complexidade do real, uma ciência que estude as determinações e as regularidades mas sem pretensões de explicar e adivinhar tudo. Isto porque, como terá dito um dia um economista, mais vale estar vagamente certo do que rigorosamente errado. josé miranda

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Grupo de Arqueologia na Faculdade de Letras Cerca de 30 pessoas assistiram no dia 22 de Outubro à apresentação oficial do Grupo de Arqueologia do Porto. Cheio de projectos em mente, o Grupo de Arqueologia do Porto (GAP) apresentou-se à comunidade universitária, no dia 22 de Outubro, no Salão Nobre da Faculdade de Letras da Fundação Universidade do Porto (FLUP). A sessão de apresentação que durou cerca de uma hora expôs os principais objectivos do Grupo e o calendário de actividades a uma assembleia composta por estudantes de História e Arqueologia. Algumas das actividades do plano já decorreram e há muitas outras marcadas para os próximos meses. Desde, visitas a locais de interesse arqueológico, a conferências e workshops, são várias as propostas do GAP. Estão também previstas com diversas Câmaras Municipais e outras entidades ligadas à arqueologia na zona Norte. De acordo com João Madureira, principal mentor do projecto, pretende-se “criar uma escola prática para todos os alunos de Arqueologia”. A importância da criação de parcerias com Instituições é o ponto mais focado pelos estudantes, que acham o GAP uma ideia “muito interessante”. Segundo Francisco Mota, estudante do 3º ano de História, não só alunos ganham com iniciativas deste género, mas também a faculdade. “Tudo isto demonstra que a Faculdade está a crescer no sentido qualitativo, e os alunos mais que nunca. Ter experiência, quer adquirida no curso, quer fora, demonstra-se fundamental para o sucesso do mercado de trabalho”, afirma o estudante. Ruben Coelho, presidente da Associação de Estudantes da Faculdade de Letras (AEFLUP), considera a iniciativa positiva e já demonstrou também o apoio: “Podem sempre recorrer aos fun-

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Apresentação oficial do Grupo de Arqueologia

dos e apoios da associação nomeadamente os apoios do IPJ” A afluência na sessão de apresentação foi considerada positiva, tendo em conta que no mesmo dia se realizou o “comboio do caloiro” com destino a Coimbra (actividade da Semana da Recepção ao Caloiro da Academia do Porto) e uma visita no âmbito das IV Jornadas Rainas, subordinadas à temática das “Estelas e Estátuas-menir: da Pré à Proto-história”, no Sabugal. O GAP vai chegar a quem não pôde estar presente através de flyers, cartazes e mensagens de correio electrónico. Até ao momento, o clube conta já com trinta e sete inscrições. Apesar dos estudantes de História e de Arqueologia serem os principais interessados neste projecto, qualquer aluno, independentemente do curso, pode integrar este Grupo. O GAP conta com quinze elementos fundadores, que se dividem por áreas temáticas que correspondem às várias épocas históricas. É mais uma iniciativa ao dispor dos alunos dada a existência do Núcleo de Arqueologia da Universidade do Porto (NAUP). João Madureira destaca a diferença entre ambos

os grupos: “O GAP quer operar mais fora da Faculdade, enquanto o NAUP funciona principalmente a nível interno”, o estudante destaca ainda o objectivo do grupo recentemente fundado se tornar no “maior grupo de divulgação e apoio à arqueologia na zona norte”. Vera Covêlo Tavares

"Quando escrita em chinês a palavra crise decompõe-se em dois caracteres: um representa perigo e o outro representa oportunidade."

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Agenda 7 de Novembro Circuito pela cidade do Porto Medieval - 14h30m Rota dos cinco locais de interesse histórico-arqueológicos da época medieval na cidade de Porto Ponto de Partida: Praça do Cubo, Ribeira 14-15 Novembro Saída de campo 2 dias :Foz Coa, Freixo de Numão e Marialva Visita às Estações arqueológicas de Castelo Velho, Castanheiro do Vento, Prazo e Rumansil e às gravuras do Parque Arqueológico do Coa

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André Cepada

Museus universitários: um novo rosto para antigas estruturas?

Em Setembro de 2000, chefes de Estado e de Governo de 189 países, incluindo Portugal, reuniram-se nas Nações Unidas.

Projecto coloca em questão como os núcleos museológicos são capazes de promover maior integração entre as faculdades e firmar a imagem da UP

Exposição Depósito, realizada nas instalações da Reitoria

André Cepada

Um dos actuais projectos da UP é reavivar a importância dos museus universitários para amenizar a dispersão das faculdades, que resulta do processo histórico em que cada faculdade cresceu em torno do seu próprio círculo. O que se coloca em discussão é se, efectivamente, é possível utilizar os museus como integradores dos estudantes e como propiciador da construção de uma imagem identitária e colectiva da Universidade. A UP possui entre 15 e 20 núcleos museológicos, dentre eles a Casa Museu Abel Salazar, o Museu de História Natural, o Museu de Ciência, o Museu de Engenharia, o Museu de Belas-Artes e o Museu da História da Medicina, além das colecções dos núcleos residentes da Reitoria (Fundo Antigo da Biblioteca da Universidade do Porto, Mineralogia, Estratigrafia e Paleontologia, Zoologia, Arqueologia e Etnologia, Física e Química) e de espaços destinados a exposições temporárias ou mesmo sítios como o Centro de Documentação de Arquitectura. Segundo o pró-reitor de cultu-

ra da Universidade do Porto, Manuel Janeira, os museus universitários podem ser importantes na construção de uma identidade institucional. Para isso, é necessário “vivificar a imagem dos museus como parte fundamental da Universidade e possibilitar aos estudantes que executem investigações científicas dentro dos próprios museus”, corrobora Janeira. O pró-reitor ainda completa: “percebemos que os museus são um património integrador, já que há uma dispersão na universidade que resulta do facto de muitas faculdades sobreviverem apenas nas suas próprias atmosferas. Os museus e suas colecções podem formar um importantíssimo corpo académico”, assegura.

A reinvenção As colecções surgem da reunião de objectos preciosos à investigação e ao ensino, tornados obsoletos com a evolução tecnológica e com a passagem do tempo e, por isso, abatidos, armazenados ou musealizados.

“No geral, os museus derivam de colecções departamentais, sendo as colecções e os seus lugares tão heterogéneos e diferenciados quanto as disciplinas do seu conhecimento e as histórias dos personagens que os desencadearam”, afirma a arquitecta Inês Moreira, curadora da exposição Depósito, que no início de 2007 reuniu na Reitoria diversos objectos de diferentes acervos universitários. Os museus incluem doações de investigadores e personalidades que muitas vezes lhes dão o nome, como é o caso de Montenegro de Andrade, Augusto Nobre, Abel Salazar, Marques da Silva. Há também outros tipos de doações, como ocorre com os espólios vindos da Alemanha como contrapartida da guerra. Para Inês, a informalidade com que os objectos estão actualmente dispostos na maior parte dos núcleos museológicos traz uma grande potencialidade: a reinvenção da própria ideia de museu universitário. “Inesperadamente, enquanto

Como cumprir os objectivos de desenvolvimento do Milénio?

A informalidade com que os objectos estão actualmente dispostos traz uma grande potencialidade: a reinvenção da própria ideia de museu universitário. aguardavam uma maior abertura ao público e ao tempo presente, os objectos foram adquirindo um leque de funções informais que os aproximou do pensamento contemporâneo sobre os museus: estruturas abertas, flexíveis, com programação temporária e actividades complementares próximas do visitante”, conclui a arquitecta, que actualmente desenvolve doutoramento no Goldsmiths College, University of London.

brasileira Leda Almeida. A actividade é resultado do Projecto Cátedras, em que um dos intuitos é viabilizar o intercâmbio entre as colecções de museus da UP e da Universidade Federal de Alagoas (Brasil), a qual a historiadora representa. Leda explica que “é muito importante ter acesso a novas directrizes de estruturação museológica, o que faz com que modelos que estão sendo aplicados e estão dando certo em instituições europeias possam servir de embasamento para que criemos ou até reformulemos a identidade de nossas instituições com novas ideias e perspectivas”, afirma. “É bom percebermos que o conceito de museu está sendo ressignificado. O que antes era um espaço visto para uma espécie de acúmulo do passado, começa a ser visto hoje como um lugar que precisa ganhar a interactividade intrínseca ao mundo em que vivemos”, conclui.

Intercâmbio com o Brasil Os museus da UP receberam, no último mês, a visita da historiadora

MANAÍRA Athayde mana_aires@hotmail.com

Pela primeira vez, uma exposição reuniu diferentes colecções de vários museus universitários da UP

Ali assinaram a Declaração do Milénio, comprometendo-se a lutar por melhorias da qualidade de vida em todo o globo. Para avaliar a observância desse compromisso, estabeleceram oito Objectivos de Desenvolvimento do Milénio (ODM), a alcançar até 2015: erradicar a pobreza extrema e a fome; atingir o ensino primário universal; promover a igualdade de género; reduzir a mortalidade infantil; melhorar a saúde materna; combater a SIDA, a malária e outras doenças graves a nível pandémico; garantir a sustentabilidade ambiental; fortalecer uma parceria global para o desenvolvimento. Os ODM foram enquadrados numa agenda clara, com prazos a cumprir e metas a alcançar para cada um dos indicadores de monitorização dos progressos conseguidos em diferentes escalas. Para que isso seja alcançado, devem ser promovidas sinergias entre os países desenvolvidos e os países em desenvolvimento, numa óptica responsável, solidária e de partilha. Por um lado, os países em desenvolvimento têm de fazer mais para atingir os ODM, mobilizando recursos próprios, eliminando barreiras aos serviços e reforçando a boa governação. Por outro, muitos desses objectivos serão abortadas caso os países ricos não cumpram a promessa de cancelar a dívida externa e auxiliar refor-

mas políticas e comerciais. Portugal tem continuado a faltar aos compromissos assumidos em termos de ajuda aos países desfavorecidos. Estes, por exemplo, que não tiveram melhorias no acesso de seus produtos ao mercado português. A promessa de direccionar 0,7% do PNB para a Ajuda Pública ao Desenvolvimento está longe de se tornar real. Além de que é necessário aumentar a qualidade, a eficácia, a previsibilidade e a coerência desses suportes. O cumprimento dos ODM passa também pela sua divulgação junto da sociedade civil, quer nos países em desenvolvimento, quer nos países desenvolvidos – só uma sociedade informada é capaz de exigir aos seus Governos que mantenham as promessas feitas. Por isso, a Associação PAR e a Campanha Objectivo 2015 das Nações Unidas criaram um projecto de capacitação de 100 jovens, a nível nacional, denominado Agência ODM. Os/as participantes no projecto são, neste momento, agentes dinamizadores de dois núcleos ODM (Porto e Lisboa), forças de mudança em prol dos ODM no espaço do ensino superior e das comunidades envolventes. Se, por um lado, é exigido aos governos que se unam pela promoção de um mundo mais justo e pelo bem-estar global, é pedido aos e às cidadãs que lutem para que es-

sas aspirações sejam executadas – sem vontade e consciência pública a agenda política não se comove. É da necessidade urgente de sensibilizar a comunidade portuguesa para a importância crescente de causas como essa que surge a agência ODM e o apelo à participação e empenho dos e das jovens na divulgação do Objectivos de Desenvolvimento do Milénio e da dívida de Portugal para com a igualdade de oportunidades. A agência ODM mostra-se assim aberta a colaboradores e voluntários que queiram participar e a observadores que pretendam aprofundar o seu conhecimento nesta área, disponibilizando-se para acções de sensibilização e formação. Mariana Branco [integra a Agência ODM. Para mais informações, pode-se entrar em contacto por meio do correio electrónico: agencia.odm@par.org.pt. Está também à disposição o espaço virtual interactivo do projecto (www.agenciaodm.org), que funciona como plataforma de discussão, reflexão, troca de conhecimento e canal de informação.]


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manuel ribeiro

Agência ODM e o comércio internacional Alcançar os objectivos depende de três questões fulcrais situadas num patamar acima do ético e burocrático Mais que da boa vontade, o sucesso dos ODM depende da ajuda pública ao desenvolvimento -os países doadores cedem 0,7% do seu PIB aos subdesenvolvidos e o Governos português, como tantos outros, não está a cumprir com o prometido -, do cancelamento da dívida externa - grande parte da produção interna dos países subdesenvolvidos serve para pagar a dívida externa, sendo que este ponto passa pela obrigação moral dos países ricos cancelarem as dívidas aos subdesenvolvidos e, por último, depende de regras de comércio internacional mais justas. Aos olhos da coordenadora da Agência ODM Portugal, Joana Branco Lopes, as regras de comércio internacional actuais “não são concorrenciais porque há desequilíbrios”, por serem traçadas consoante os interesses de uns países, prejudicando outros.

Comércio Justo Uma abordagem alternativa que visa prática de um comércio justo e consumo responsável é, precisamente, a aplicação de um movimento social e económico cujo objectivo passa pelo “respeito e preocupação pelas pessoas”, protegendo as condições os produtores, por vezes, pequenos e totalmente dependentes do negócio para sobreviverem. O Comércio Justo afirma-se como uma maneira de estar, produzir e consumir baseada na “transparência e sustentabilidade que assegurem as condições de vida de trabalhadores marginalizados, especialmente no Sul do mundo”, segundo a definição da FINE (associação informal Internacional que reúne as quatro principais organizações de Comércio Justo.

O que significa para ti esta imagem?

Para João Mesquita, agente ODM, o comércio justo apesar de estar a crescer “ainda não tem capacidade e dimensão para ser a alternativa de comércio internacional.” Acrescenta serem “expressões muito locais e de definição muito dúbia” cujo cerne remete para a “responsabilidade, ética na compra, abolição taxas alfandegárias, formação de cooperativas em países subdesenvolvidos”.

Comércio Justo no Porto A Associação Reviravolta, criada em 2000, sita actualmente no Parque da Cidade (Núcleo Rural de Aldoar) por uma módica quantia à Câmara do Porto e é uma associação sem fins lucrativos de âmbito local cujo objectivo é a promoção do Comércio Justo e Solidário, promovendo acções de sensibilização e vendendo produtos, pelo que é a única loja ainda aberta no Porto. A manutenção da loja depende inteiramente da “disponibilidade dos voluntários”, como explica Ana Luísa Urbano, da Associação. O voluntariado acaba por ser a única solução para um cenário de crise que obrigou ao encerramento das lojas de Lisboa, Coimbra e outra do Porto (antigamente em Cedofeita), apesar dos 10 anos passados desde a abertura da primeira em Portugal. Questionado sobre o encerramento das lojas, Miguel Pinto – responsável pela introdução deste conceito de comércio em Portugal e membro fundador d’A Equação (Cooperativa fundada por seis organizações de Comércio Justo, entre elas a Associação Reviravolta ) – reage: “Arriscámos tudo na pior altura, mesmo antes do boom da crise. Neste momento não geramos dinheiro para

pagar os custos fixos. Enquanto que nos outros países o comércio justo é um conceito consolidado há 15/20 anos, em Portugal ainda está longe disso, confunde-se muito o conceito.” Os representantes de comércio justo em Portugal tentam passar a mensagem que parece simples: o consumidor responsável compra com base em valores éticos, estando, por isso, disposto a pagar mais pelo comércio justo. Justo para os produtores e todos intervenientes na cadeia comercial, para a estrutura das cooperativas, para as crianças que não sofrem de exploração infantil e justo pela promoção de igualdade de oportunidades em países em desenvolvimento. Miguel aponta ainda outra causa para o fracasso em território nacional: “Outra causa é a falta de elo apoio do sector social que em Portugal não tem expressão. Bastava o sector social comprar ao Comércio Justo, não seria necessário venderse ao privado. Não temos um sector das ONG forte. Falam todos muito mas…Desde a Igreja aos mais da es-

querda. Optam pelos preços baixos. Todos nos adoram mas na hora da decisão vão comprar ao mais barato. É um dedo que aponto a essas organizações. Elas têm consciência mas a seguir à consciência vem o compromisso. Se não reagirmos, tornar-nos-emos incipientes.”

“Antes do Justo, está o comércio” Miguel Pinto clarifica que em 1999, o Parlamento Europeu lançou uma directiva que o Comércio Justo seria, provavelmente, uma das formas de cooperação para o desenvolvimento. Resolução esta sem qualquer poder executivo. Só em 2006 é tomada uma decisão executiva da Comissão Europeia com a introdução de uma cláusula ética e social, incentivando as entidades públicas a favorecer (o favorecimento a menos que seja por lei, é ilegal na União Europeia – os contratos públicos devem ser todos isentos – dai a celeuma na altura, explicada por Miguel Pinto) propostas que tenham, pelo menos, um produto de comércio justo.

O comércio justo tem por regra cumprir as normas do comércio internacional e tenta influenciar os consumidores, classe política, “administração pública” em geral. Miguel Pinto reforça: “Nós não somos contra as empresas porque sim. As cooperativas são empresas, é importante que fique claro. Não há mal nenhum em criar lucro. De forma desproporcional, violando regras de comércio internacional e prejudicando os produtores é que não.” Por este motivo e na opinião de muitos – ainda que demasiado insuficientes - o Comércio Justo é uma via de Cooperação para o Desenvolvimento. Ainda que com expressões muito variadas de país para país e através de trâmites, mais ou menos acessíveis - seja por desconhecimento, desconfiança, falta de formação cívica ou vontade, (des)crença – o respeito pela dignidade humana e a responsabilidade ética e social são os pilares basilares do Comércio Justo, fundamentos extensíveis e essenciais para o cumprimento dos ODM. FILIPA MORA

MANAÍRA Athayde mana_aires@hotmail.com

Janaila Silva Psicóloga

Ana Matos Estudante de Direito

Wagner Sena Estudante de Economia

Adeilto Lima Gestor de projectos

“O sono da razão produz monstros” é uma frase que se observa num quadro de Francisco de Goya. Foi o que pensei ao ver pela primeira vez esta imagem. A penumbra, a bruxa, os chapéis e suas supostas magias são elementos que parecem expostos como que para nos remeter a um mistério perdido num canto qualquer da rotina da vida urbana. Um instante para lembrar que viver envolve fantasia e que nossos sonhos nos humanizam. É fantasiar-se para ficar mais desperto e escapar do sono da razão.

Apesar de retratar o comércio na época do Halloween, a fotografia faz-me pensar em rituais e tribos urbanas, na forma como as pessoas se organizam em torno de crença, superstições, sortilégios. A imagem também significa para mim voltar à infância, fingir ser o que não se é, ser actor por um dia. Por isso, significa também diversão e criatividade.

A fotografia me lembra uma digressão de elementos: o dia das bruxas, o esoterismo, o mistério, o ocultismo, o sobrenatural. Recorda-me uma necessidade que as pessoas têm de estar à procura de uma força, de uma energia que não seja apenas Deus, o que resulta na negação da existência de um único ser superior por meio da busca de deuses pagãos.

Uma maneira de despertar a curiosidade e atrair o consumidor, de fazer publicidade explorando elementos de uma época específica, que no caso é o Halloween. A imagem ainda me lembra da minha infância, dos tempos em o mundo das bruxas fazia parte do meu universo infantil, isso me atraía bastante. Eu tinha medo mas ao mesmo tempo uma atracção muito grande a tudo o que relacionasse com bruxas, feitiços e aquelas histórias que escutamos quando pequenos, eu queria estar inserido naquele ambiente de mistério.


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direitos reservados

AGENDA ÚLTIMA AULA DO PROFESSOR MOTA FREITAS Grande Auditório da FEUP, às 17h30

13 DE NOVEMBRO

7 DE NOVEMBRO

E-LEARNING CAFÉ 12 DE NOVEMBRO JAZZ - “THE BASSIST AS COMPOSER”, A partir das 21h30

O papel do baixista evoluiu ao longo da história do Jazz, mas manteve-se inalterado um conceito a ele associado: é a coluna vertebral do som do grupo. Os baixistas não são apenas suporte da secção rítmica e solistas, mas também compositores influentes e respeitados. O repertório desta actuação será constituído por composições de alguns dos mais notáveis baixistas de Jazz: Charles Mingus, Jaco Pastorious, Dave Holland, Ron Carter, Scott Lafaro, Jimmy Garrison e Steve Swallow.

OFICINA DA SOPA Na FCNAUP, entre as 10h e as 13h. ORGANIZAÇÃO: Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto (FCNAUP). PORTUSCALLE 09 - FESTIVAL DE TUNAS DA TEUP Coliseu do Porto MAIS INFORMAÇÕES: http//:www. portuscalle.com

7, 8 E 9 DE NOVEMBRO 11TH BEST ENGINEERING COMPETITION Aberto a estudantes da Faculdade de Engenharia e da Faculdade de Ciências. ORGANIZAÇÃO: BEST - Board of European Students of Technology

9 DE NOVEMBRO DE 2009 CICLO CONFERÊNCIAS DO MESTRADO EM SOCIOLOGIA - “DA INTRANSPARÊNCIA AO CRIME NA CIÊNCIA E NO ENSINO SUPERIOR” Sala 203 da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, pelas 17h30 Conferencista: Rita Faria (FDUP).

DE 9 A 12 DE NOVEMBRO LIÇÕES ARMINDO DE SOUSA DE HISTÓRIA MEDIEVAL IBÉRICA – “TRADE AND SHIPPING IN THE LATER MIDDLE AGES: IBERIA AND ENGLAND”, POR WENDY R. CHILDS (U. LEEDS) Faculdade de Letras da U. Porto

10 DE NOVEMBRO

Dave Holland MÚSICOS: Bruno da Silva- guitarra Hugo Lopes - saxofone Manuel Brito - contrabaixo Michael Lauren – bateria INFORMAÇÕES PERMANENTEMENTE ACTUALIZADAS EM: http://elearningcafe.up.pt

9ª JORNADAS DE QUÍMICA DO DEQ “OS DESAFIOS DA GESTÃO NA ÁREA DA ENGENHARIA” Grande Auditório da FEUP. Com Fernando Santo e Luís Mira Amaral.

11 DE NOVEMBRO DIA DA FPCEUP 2009 Sessão Solene do Dia da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto realiza-se às 14h30, no auditório central. INFORMAÇÕES: pgomes@fpce.up.pt

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SEMINÁRIO DA PÓSGRADUAÇÃO EM GESTÃO EM DESPORTO PROFISSIONAL: “A PROFISSIONALIZAÇÃO DO DESPORTO E O EXEMPLO DO FC PORTO”. EGP - UPBS (pólo dos Salazares), às 18h30 na Sala 631 Com Fernando Gomes, administrador da FC Porto SAD- Futebol, e João F. Proença e Pedro Sarmento, coordenadores da Pós-Graduação em Gestão do Desporto Profissional. Entrada livre.

13 E 14 DE NOVEMBRO XXIX ENCONTRO DA ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE HISTÓRIA ECONÓMICA E SOCIAL - MEMÓRIA SOCIAL, PATRIMÓNIOS E IDENTIDADES ORGANIZAÇÃO: DHEPI/CITCEM

14 DE NOVEMBRO A 12 DE DEZEMBRO CURSO DE CULINÁRIA SAUDÁVEL 20ª EDIÇÃO Na FCNAUP, aos sábados. As inscrições terão que ser efectuadas online em: http://www.fcna.up.pt/ cursos/index.php?pagina=Curso&Id=11. Basta seleccionar o ícon que está ao lado do nome da formação. Para mais informações, contacte: ceciliamorais@fcna.up.pt. ORGANIZAÇÃO: Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto (FCNAUP)

Saúde e Estudantes de Licenciatura em áreas de Ciências da Saúde. Coordenação: Prof. Doutor Nuno Borges ORGANIZAÇÃO: Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto (FCNAUP)

19 E 20 DE NOVEMBRO RETÓRICA E CIVILIZAÇÃO UNIVERSAL: DE S. PAULO A PADRE ANTÓNIO VIEIRA Sala de reuniões, 2. piso da FLUP. ORGANIZAÇÃO: Área de estudos clássicos do Departamento de Estudos Portugueses e Estudos Românicos (DEPER)

19 A 21 DE NOVEMBRO CAROLINA MICHAËLIS E JOAQUIM DE VASCONCELOS - UM ENCONTRO DE CULTURAS E DE SABERES Na FLUP e Fundação Eng.º António de Almeida CONTACTOS E INFORMAÇÕES: Câmara Municipal do Porto; Palacete Viscondes de Balsemão, Praça Carlos Alberto, 71, T. 223393481; John Greenfield, professor da Faculdade de Letras da U.Porto e director do Departamento de Estudos Germanísticos, Faculdade de Letras da U.Porto, T. 226077100, ext. 3191, jgreenfi@letras.up.pt

de cada um, com o objectivo de partilhar as experiências de investigação que viveram na Unidade acolhedora. Entrada Livre.

26 DE NOVEMBRO APRESENTAÇÃO DA REVISTA “ARTE E SOCIEDADE” Sala de Reuniões da Faculdade de Letras da Fundação Universidade do Porto, das 17h30 às 19h30 Comissão científica: João Teixeira Lopes (DSFLUP-ISFLUP); José Virgílio Borges Pereira (DSFLUP-ISFLUP); João Valente Aguiar (ISFLUP). Conferencistas: Vítor Sérgio Ferreira (ICS-UL); Claúdia Marisa (ESMAE; ISFLUP)

ATÉ 28 DE NOVEMBRO

ANUÁRIA 09 – TRABALHOS DOS ALUNOS DA FAUP Espaço de exposições da FAUP.

NOMADIC.0910 – ENCONTROS ENTRE ARTE E CIÊNCIA - EXPOSIÇÃO DESIGN4SCIENCE. Reitoria, Átrio de Química. Terça a Sábado, das 12h às 18h. No âmbito do Nomadic.0910, a Universidade traz ao Porto a exposição Design4Science, comissariada por Shirley Wheeler. Esta exposição trata da comunicação visual de ciência a partir do caso da Biologia Molecular. Entrada Livre Mais informação: http://nomadic.up.pt/

18 DE NOVEMBRO

23 DE NOVEMBRO

ATÉ 7 DE JANEIRO DE 2010

WORKSHOP: “CURSO PRÁTICO DE PREPARAÇÃO PARA EXAMES - 1.º ANO” Para estudantes do 1.ano do Mestrado Integrado em Medicina As inscrições devem ser realizadas no Gabinete de Apoio ao Estudante do CEM-FMUP até ao dia 11 de Novembro. A frequência do workshop está sujeita ao pagamento de 2,5 euros. ORGANIZAÇÃO: Centro de Educação Médica da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (CEM-FMUP)

CONFERÊNCIAS DE BROMATOLOGIA 2009/2010 - “COMPOSTOS BIOACTIVOS DOS ALIMENTOS” Faculdade de Farmácia da U. Porto. ORGANIZAÇÃO: Serviço de Bromatologia da Faculdade de Farmácia da U. Porto e pelo REQUIMTE, Laboratório Associado.

CURSO “NUTRIÇÃO E SAÚDE CARDIOVASCULAR” FCNAUP. O curso tem como público-alvo: Nutricionistas e outros Profissionais de

20 DE NOVEMBRO SEMINÁRIO DA PÓS-GRADUAÇÃO EM ANÁLISE FINANCEIRA Faculdade de Economia, na Sala 631 (Auditório EPG), pelas 18h30.

ATÉ 20 DE NOVEMBRO

27 DE NOVEMBRO SESSÃO PÚBLICA “INVESTIGAR NO ISFLUP: VIVER EXPERIÊNCIAS” - BOLSAS DE INTEGRAÇÃO NA INVESTIGAÇÃO Sala 104 da FLUP, 11h00-13h00 Nesta sessão pública, serão apresentados os trabalhos individuais

Geneticista em potência

27 E 28 DE NOVEMBRO 1ªS JORNADAS DE BIOENGENHARIA (IJB) Auditório da FEUP ORGANIZAÇÃO: Alunos do Mestrado Integrado em Bioengenharia (MIB), curso que conta com a parceria de duas faculdades da FEUP e do ICBAS. CONTACTOS E INFORMAÇÕES: ijbioengenharia@gmail.com.

Pedro Guiomar gostaria de se dedicar à genética

Caloiro olímpico quer expandir conhecimento Pedro Guiomar, estreante em Bioquímica na U.Porto, conquistou bronze em Olimpíadas de Física

EXPOSIÇÃO - DIÁRIO DE UM ESTUDANTE DE BELAS ARTES HENRIQUE POUSÃO (1859 - 1884) Museu Nacional de Soares dos Reis Horário - Terça-feira, das 14 às 18h; de quarta-feira a domingo das 10h às 18h Comissária: Lúcia Matos, professora da Faculdade de Belas Artes da U.Porto.

de saber mais, mas também uma semana inesquecível passada numa cidade fantástica”. Semanas antes, Pedro Guiomar tinha conseguido o 4. lugar no Concurso Nacional de Jovens Cientistas e Investigadores 2009, entre cerca de 300 participantes e 100 projectos. O trabalho apresentado, intitulado “A Nova Música das Esferas”, aborda temas como a Astronomia, Física, Música, suportadas nas novas tecnologias da informação.

Empenhado na “expansão das fronteiras do conhecimento”, como afirmava em entrevista na newsletter da Universidade do Porto (http:// noticias.up.pt), o jovem Pedro Guiomar, 17 anos e caloiro de Bioquímica na Universidade do Porto, já começou a mostrar quanto a sério

leva o desafio que para si próprio traçou. Recentemente, conquistou a medalha de bronze nas XIV Olimpíadas de Ibero-Americanas de Física, que decorreram em Santiago do Chile. Para Pedro Guiomar, a medalha simboliza “não só o gosto pela Física, o empenho e o desejo

Pedro Guiomar, entrou na Universidade do Porto com média de 19,3, conseguindo 20 a todas as disciplinas menos Educação Física. Actualmente, estuda Bioquímica na Universidade do Porto, curso de primeira escolha numa Universidade que considera conceituada e que já conhecia como participante nas actividades da Universidade Júnior, desde o 9.ºano. Bioquímica uma escolha natural para quem gosta de Física, de Química e Biologia e, sobretudo, para quem sonha em trabalhar, um dia, em Genética. Antes, ainda houve alguns momentos de hesitação entre o curso de Física, de Bioquímica e de Medicina. Para Pedro Guiomar, o último foi o mais fácil de excluir, dado que os temas são abordados à macroescala, conduzindo, na sua opinião, essencialmente à vida clínica. É a abordagem micro que lhe interessa, o que está “na base de toda a vida” e que poderá vir a influenciar muito mais a Medicina e a vida das pessoas, em geral. Para a sua escolha terá sido decisiva a curta experiência num laboratório de genética hospitalar em Vila Real. O pouco tempo que conta na Faculdade de Ciências, desde o início deste ano lectivo, já foi suficiente para comprovar, afirma, que é “uma faculdade belísssima, com pessoas fantásticas”. Com um ponto negativo: quando chega a hora de ir almoçar, a afluência à cantina é tão grande que o tempo que se passa na fila para conseguir almoçar parece infinito. A conversa com os amigos, o cinema, a leitura e a música vão ocupando os seus tempos livres. Com formação musical, deixou recentemente o piano e preferiu a flauta transversal que pode usar quando quiser, ao contrário do que acontecia com o piano. Também gosta de rock e pop-rock, como por exemplo, dos Muse. JC/REIT

UPorto

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breves

Astrofísico do CAUP anuncia 32 novos planetas Nuno Santos, astrofísico do Centro de Astrofísica da Universidade do Porto, participou no mais recente passo rumo à descoberta de vida extra-terrestre. Embora ainda longe deste último desígnio, dia 19 deste mês foram anunciados 32 novos planetas extra-solares, no âmbito do trabalho efectuado pelo detector de planetas HARPS (High Accuracy Radial velocity Planet Searcher). O HARPS é um espectógrafo de alta precisão construído para procurar planetas semelhantes à Terra, à volta de estrelas de tipo semelhante ao Sol, a funcionar com os telescópios do Observatório Europeu (ESO) em La Silla, Chile. É, actualmente, o principal detector de planetas extrasolares de baixa massa. O anúncio foi feito em conferência de imprensa no âmbito da conferência internacional “Towards Other Earths” que decorreu na Biblioteca Almeida Garrett. Prevê-se que, em

breve, possam ser anunciados mais algumas dezenas de novos planetas na sequência do trabalho que tem vindo a ser desenvolvido pela equipa do HARPS. Uma das novidades do estudo foi a descoberta de uma quantidade de planetas - algumas super-Terras e planetas gigantes em torno de estrelas de pequena massa (estrelas anãs de tipo M) que desafia as actuais teorias de formação de planetas. As super-Terras são planetas extra-solares, rochosos ou gelados, com uma massa até 10 vezes a massa da Terra. Nuno Cardoso, tal como Alexander Kesse do Centro de Estudos Africanos da U.Porto, foi um dos 240 investigadores de todo o mundo que consegui um milhão de euros com as prestigiadas bolsas do European Research Council, a agência de financiamento criada pela Comissão Europeia para apoiar investigação científica de excelência. TR/REIT + JC/REIT

“Blue Lounge” em carris com assinatura FBAUP Seis estudantes e dois professores da Faculdade de Belas Artes da U.Porto (FBAUP) revolucionaram o aspecto de três carruagens do Metro do Porto, durante pouco mais de duas semanas. O resultado chama-se “Blue Lounge” e começou a circular dia 26 de Outubro pela rede do Metro, assinalando o arranque do projecto CIN REMAKE’09. A CIN e a Brandfiction desafiaram oito escolas nacionais nas áreas da arquitectura e design a transformar os transportes públicos do Porto e Lisboa em “obras de arte”. À FBAUP, foi dado um tema ligado à música Jazz e uma série de cinco tons de azul. O prazo apertado para a conclusão dos trabalhos acabou por ser a maior dificuldade sentida pela equipa orientada pelos professores Norberto Fonseca e Rui Ferro no âmbito dos Projectos Vivos, unidade do Departamento de Escultura da FBAUP

que colabora na realização de várias intervenções no espaço público. No grupo alinham ainda André Fonseca (4. ano de Artes Plásticas – Multimédia), Paulo Santos (4. ano de Design da Comunicação), Rui Vieira (mestrando em Arte e Design para o Espaço Público), Catarina Braga e Leonor Pimentel (4.ºano de Artes Plásticas – Escultura). No âmbito do CIN REMAKE’09, circulam no Porto uma outra carruagem de metro assinada pela ESAD e dois autocarros da STCP decorados pelos alunos da ESAP e da Escola de Artes da Universidade Católica. TR/REIT + JC/REIT


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XXII FITU: ”Cidade do Porto” Quatro dias de rondas e Serenatas pelos estabelecimentos de ensino, bares e ruas do Porto, culminam na mais emblemática sala de espectáculos do Porto – O Coliseu. A parte competitiva do certame consiste na actuação das Tunas convidadas, durante dois dias. A vencedora desta edição foi a TUIST – Tuna Universitária do Instituto Superior Técnico de Lisboa.

2 A TUP – Tuna Universitária do Porto, é sempre a última a actuar e enquanto anfitriã, não entra na competição.

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A “bandola”, guitarra portuguesa pelo mestre Fernando Meireles de Coimbra.

A Tuna do Técnico de Lisboa, TUIST, foi das mais entusiásticas durante os ensaios tendo captado grande simpatia por parte do público.

6 Os pandeiretas da tuna vencedora da XXIII edição despedem-se do coliseu repleto.

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Todos os locais dos bastidores servem para ensaiar os últimos acordes antes de entrar em palco.

O inesperado elemento da TUM, Tuna da Universidade do Minho, surge no plano do fotógrafo.

manuel ribeiro jozeribeiro@gmail.com


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josé Ferreira

grande parte desse dinheiro serve para pagar o policiamento dos encontros. De resto, os pagamentos à Polícia, cuja presença é obrigatória para a realização dos jogos, é uma das principais queixas dos clubes amadores, que estão revoltados com a situação actual.

Clubes sem reembolso da Polícia

Campeonato amador ainda arrasta adeptos

Futebol Amador do Porto em vias de extinção Nos últimos 5 anos, mais de metade dos clubes do Campeonato de Futebol Amador da AF Porto fecharam as portas. Os emblemas culpam a própria Associação, o Estado e a crise económica pelo que está a acontecer.

Durante muitos anos, o Campeonato de Futebol Amador do Porto animou as tardes de muitos adeptos, que vibravam com os jogos da equipa lá da rua ou lá do bairro. Hoje, a realidade é completamente diferente. Se os grandes clubes da cidade, como o Boavista e o Salgueiros, atravessam grandes problemas, no Futebol Amador o cenário é desastroso. Os números são claros: em 2003, competiam quase 60 clubes, divididos por 3 Divisões. Esta época, apenas 23 clubes disputam a única divisão do Campeonato Amador do Porto. A culpa é da falta de apoios

e dos custos demasiado elevados, afirmam dirigentes, treinadores e jogadores.

Inscrições chegam aos 3000€ Apesar de amador, o Campeonato promovido pela Associação de Futebol do Porto (AFP) obriga a despesas bastante significativas, tendo em conta que a maior parte dos clubes não têm qualquer tipo de receitas. Os custos inerentes à participação no Campeonato Amador são maiores do que se imagina inicialmente. As colectividades têm que pagar a inscrição da equipa e

dos jogadores na Associação, o aluguer de campos para treinar e jogar, e têm que assegurar todos os elementos indispensáveis à organização dos jogos (como o policiamento ou arbitragem). Pedro Silva, presidente do histórico Passarinhos da Ribeira, adianta que o clube gastou cerca de 3000€ na inscrição dos 20 jogadores que compõem o plantel desta época. “É um valor elevado e que não corresponde à realidade dos clubes amadores”, defende. O Dirigente refere que o Passarinhos gasta à volta de 300€ nos jogos disputados em casa, e

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Há alguns anos, o dinheiro gasto em policiamento era parcialmente devolvido ao clubes algumas semanas após o pagamento. Na altura, o Estado reembolsava, pelo menos, entre 40% e 70% do total, o que ajudava as equipas a equilibrar o orçamento. Actualmente, este dinheiro já não chega aos cofres dos clubes. João Sousa, Vice-Presidente do Rechousa, clube de Gaia, garante que este é um dos principais problemas do Futebol Amador. “Antigamente, chegámos a receber 60% do dinheiro gasto na polícia. Agora não é assim, há muitos meses que ninguém nos paga nada”, adianta. “Era uma grande ajuda para os clubes, e estou convencido que muitos clubes não tinham fechado se o dinheiro continuasse a ser devolvido”, assegura o dirigente do emblema gaiense. O policiamento de um jogo do Campeonato Amador ronda os 170€. Nalguns casos, em jogos que sejam considerados de “alto risco”, essa verba pode mesmo atingir os 300€. Pedro Gomes, jogador do Juventude de Pedrouços, e antigo jogador e dirigente do Racing Portugal – clube que fechou portas no fim da época passada – classifica a situação actual como “uma autêntica vergonha”. “A época passada o Racing gastou 3600€ em policiamento, e devolveram ao clube apenas 98€, ou seja, pouco mais de 5% do que se pagou”, adianta. Ernesto Santos, Vice-Presidente da AFP, afirma que a Associação compreende o descontentamento dos clubes, mas sublinha que esta questão diz respeito ao Ministério da Administração Interna. “É um facto que os clubes, há alguns anos, recebiam uma maior percentagem desse dinheiro, mas isso são situações que ultrapassam a AFP”, refere o responsável.

Muitas despesas para poucas receitas Os responsáveis dos clubes Amadores acusam a AFP de tentar “fazer negócio” à custa do Campeonato Amador. Artur Moreira, antigo diri-

gente do Leões da Agra – clube de Matosinhos, que também já não compete – diz que os custos se tornam incomportáveis, porque existem muito poucas receitas. “Além das inscrições e dos custos dos jogos, as equipas ainda têm que pagar o aluguer de espaços para jogar e treinar”, adianta. Apesar de se ter afastado do dirigismo desportivo, Artur Moreira mantém um Blog sobre Futebol Distrital e Amador, que conta com quase 2 milhões de visitas. O antigo responsável do Leões da Agra assegura que o orçamento anual de um clube amador é pelo menos 15.000€, e que pode até ultrapassar os 20.000€. Pedro Gomes, do Juventude de Pedrouços, critica também os preços da arbitragem. “São 65€, dos quais 32,5€ vão directamente para a AFP”. Também as multas aplicadas pela AFP têm pesado no orçamento dos clubes, já que a Associação obriga a que todas as equipas tenham um treinador com Curso Nível 1 no banco, e esta época passou a ser obrigatório que o massagista do clube também seja encartado. Uma fonte ligada ao Racing Portugal diz que estas multas são “um absurdo”, e que fazem com que os clubes tenham que pagar valores que ultrapassam os 50€ por jogo. “Um curso de Treinador custa 500€, e o de Massagista ronda o mesmo valor. Os clubes não podem comportar estes custos, e a maioria das pessoas também não. A AFP sabe disso e decide aplicar estas multas”, disse um antigo jogador, que prefere manter o anonimato. Ernesto Santos, da AFP, admite que os custos podem parecer elevados, mas salienta que a AFP não aumenta os valores relativos ao Campeonato Amador há vários anos. “Temos sensisibilidade para o que se passa nos clubes, também me custa assistir a esta situação. Mas a verdade é que a AFP também tem despesas elevadas”, garante o Vice-Presidente da AFP. Muitos dos valores, afirma o dirigente, são impostos directamente pela FPF, o que, na sua opinião, explica alguns dos preços elevados no Futebol Amador. No passado, a AFP já deu sinais de preocupação, mas ainda não houve qualquer mudança. No início da época 2008/2009, os responsáveis garantiram aos clubes que estavam atentos à crise que afectava o Campeonato, e adiantaram que tudo indicava que na época seguinte existiria um forte patrocinador,

que compraria o naming do Campeonato. Os clubes garantem que a AFP assegurou que, com este patrocinador, o preço das inscrições ia baixar consideravelmente, e estariam criadas as condições para que muitos clubes históricos voltassem à competição. No entanto, passado mais de um ano, ainda nada se concretizou. Ernesto Santos explica que isso se deve exclusivamente à crise económica que afecta o país. “As empresas não têm dinheiro para investir, muito menos em campeonatos com pouca visibilidade nos media”, comenta o dirigente da AFP. No entanto, o Vice-Presidente garante que continuam a existir negociações com várias empresas, e salienta que tudo será feito para concretizar esta possibilidade já na próxima temporada.

Os números são claros: em 2003, competiam quase 60 clubes, divididos por 3 Divisões. Esta época, apenas 23 clubes disputam a única divisão do Campeonato Amador do Porto

AFP sabe da crise

Jogadores suportam despesas

Apesar de os clubes acusarem a AFP de não responder às suas queixas e preocupações, o JUP sabe que a situação tem sido motivo de acesa discussão dentro da própria AFP. Num documento a que o JUP teve acesso, Domingos Santos, Secretário Geral da AFP, alerta Lourenço Pinto, Presidente da Direcção, para o caos financeiro que se vive nos clubes. Domingos Santos fala sobre uma reunião entre a AFP e responsáveis do Ministério da Administração Interna, da FPF e de outras entidades, que ocorreu a 16 de Setembro de 2009. O Secretário-Geral escreve no documento que “os clubes estão, na sua grande parte, na iminência de fechar portas, porque não podem suportar tantos encargos”. Ao longo deste documento, Domingos Santos salienta também os problemas com o policiamento nos últimos anos, ao referir que “desde a época 2007/2008 que os clubes nada recebem, nem são informados pelos representantes do que se passa”. O responsável da AFP escreve que esta situação “é grave”, e adianta que as verbas gastas pelos clubes de Futebol Distrital do Porto em policiamento, até Março de 2009, ultrapassa os 1,3 M€. Domingos Santos adianta ainda que, em 2002, os clubes eram reembolsados na ordem dos 95%, e em pouco mais de 5 anos, chegou-se praticamente aos 0%. No mesmo documento, o Secretário Geral da AFP denuncia a Lourenço Pinto que, sem motivos aparentes, “a Polícia passou a cobrar 4 horas de serviço por um jogo que dura 90 minutos, quando

anteriormente (...) 4 horas sobejavam para fazer dois jogos”. O dirigente da AFP encerra o documento endereçado a Lourenço Pinto com uma ideia clara: “nada foi resolvido, apesar do empenho de todos os presentes (...). Não há verbas”.

Apesar das dificuldades de todos os clubes, alguns ainda conseguem manter as equipas a competir, muitas vezes à custa dos atletas ou do esforço pessoal de alguns elementos das Direcções. Pedro Cunha, Jornalista e jogador do Marechal Gomes da Costa (MGC), conhece bem a realidade dos clubes com poucos recursos. No início da sua carreira no Campeonato Amador, alinhou pelo GD Montalegre, que fechou as portas em 2005. “No Montalegre, já eram os jogadores que suportavam a maior parte dos custos”, revela. Depois do desaparecimento do Montalegre, Pedro Cunha rumou ao Racing Portugal, onde a situação era mais complicada. “Além da inscrição, os jogadores pagavam uma mensalidade, que rondava os 25€, para que o clube não fechasse. Era tudo pago pelos jogadores e treinadores, desde aluguer de instalações a equipamentos”. No MGC, a situação não é tão grave, mas ainda assim, são os jogadores que pagam o valor da sua inscrição na AFP, que ultrapassa os 150€. Apesar de estar situado numa das zonas mais nobres da cidade do Porto, o MGC não escapa às dificuldades económicas, e a Direcção até já pediu ajuda financeira a alguns jogadores. A falta de verbas também afasta as Autarquias dos emblemas amadores. Artur Moreira refere que, com tantos clubes a abandonar a competição, o Campeonato Amador “deixa de ser atractivo e rentável”, e por isso “há pouca gente interessada em investir”. As únicas Autarquias que

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ainda apoiam substancialmente os clubes amadores são as de localidades mais afastadas do Porto, como Lousada ou Paços de Ferreira. No entanto, na Invicta, os clubes garantem que as ajudas são quase nulas, o que explica o desaparecimento de emblemas históricos como o Miragaia (campeão em 2006), o Ribeirenses, o Café Lisbonense ou o Mocidade Invicta, entre muitos outros.

Clubes exigem redução de custos As soluções defendidas pelas várias partes rondam sempre os mesmos pontos. Do lado dos clubes, defendese que o policiamento passe a ser gratuito, que o preço das inscrições diminua substancialmente, e que as Autarquias se aproximem e ajudem a financiar as equipas locais. Pedro Silva, do Passarinhos da Ribeira, é um dos que apela ao fim dos “pagamentos exagerados à polícia”, e defende que a solução passaria por diminuir os custos nas inscrições. Pedro Gomes e João Sousa defendem que essa mesma inscrição devia ter apenas um “custo simbólico”. Já Artur Moreira critica também a postura dos dirigentes do Futebol Amador, e acusa a maior parte destes responsáveis de se “preocuparem apenas com o seu próprio clube”. O antigo dirigente do Leões da Agra afirma que o Amador beneficiava muito se os clubes “se unissem mais”. Já do lado da AFP, Ernesto Santos refere que “alguma coisa terá que ser feita”, e incentiva os clubes a exigirem mais do Governo. O dirigente da AFP considera que os clubes prestam um serviço importante à sociedade, e não podem desaparecer. “O Estado devia apoiar mais estes Campeonatos e estes clubes”, afirma. No documento que Domingos Santos enviou a Lourenço Pinto, pode ler-se que uma das soluções passaria pela canalização de uma pequena parte dos lucros dos Jogos da Santa Casa, que ascendem a 168 Milhões de €, para financiar este tipo de competição. Pedro Cunha, do MGC, lança o alerta: se o cenário não se alterar, o mais provável é que o Campeonato de Futebol Amador chegue ao fim. “Estes clubes dão muito à sociedade e não recebem nada em troca”, lamenta o jogador do MGC. “Há falta de apoio e falta de atenção. Assim, a paixão acaba por desaparecer”. francisco ferreira fd.francisco@gmail.com


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direitos reservados

bruno almeida

Serviços Desportivos Universitários: uma realidade Entre os dias 4 e 8 de Novembro realiza-se em Telavive (Israel) a 12ª ENAS Conference. Esta conferência anual faz parte do programa da European Network of Academic Sports Services (ENAS), que, como o nome indica, é uma Associação Europeia de Serviços Desportivos Universitários. Desta fazem parte cerca de 70 instituições de ensino superior (IES), oriundas de 19 países europeus. Portugal está representado por 7 IES: U.Porto, IPPorto, U.Minho, U.Lisboa, U. Évora, U. Algarve e o Estádio Universitário de Lisboa. Através dos respectivos serviços desportivos, estas IES participam activamente na Associação Europeia desde a sua constituição, em 1997. A troca de ideias e experiências entre os diversos serviços desportivos e a discussão dos problemas que mais afectam o Desporto Universitário (DU) a nível europeu são, a nosso ver, as grandes vantagens que advêm da participação na ENAS. O tema central da conferência deste ano é a “Criatividade e Inovação nos Serviços Desportivos Universitários”. Neste sentido, constatamos que a realidade europeia é consideravelmente diferente da Portuguesa no que diz respeito aos Serviços Desportivos Universitários. Enquanto na generalidade dos países os Serviços Desportivos Universitários fizeram, desde sempre, parte da estrutura organizativa das Universidades Europeias, promovendo e organizando actividades físicas para as suas comunidades e gerindo as infra-estruturas desportivas da sua IES, em Portugal, a activação destes serviços é relativamente recente. Só a partir de meados dos anos 90 é que algumas IES começaram a entender estes serviços como uma das formas mais

importantes de integração dos novos estudantes e de divulgação da própria instituição, tanto a nível nacional como internacional. A importância e apoio que são dados aos Serviços Desportivos são evidentes, e o facto das três maiores IES Portuguesas (U.Porto, U.Lisboa e IPPorto) considerarem a aposta no Desporto Universitário estratégica, fez com que nestas IES fossem criados Gabinetes/ Departamentos que promovem, organizam e disponibilizam para as suas comunidades académicas actividades desportivas de lazer e competição. Existe por isso uma nova “onda” de mudança no DU em Portugal, onde as IES pretendem que as suas comunidades sejam saudavelmente activas, e ao mesmo tempo que esta actividade seja um mais um factor de atractividade de estudantes para as IES. No entanto, o esforço que está a ser realizado pelas IES deverá ser apoiado e acompanhado pelas respectivas Associações de Estudantes, que deverão entender o surgimento destas estruturas como uma mais valia para a promoção e qualificação do Desporto Universitário. À semelhança do que acontece no resto da Europa, os Serviços Desportivos deverão ser considerados um parceiro no desenvolvimento dos programas desportivos das AAEE, colocando ao dispor dos estudantes todos os recursos necessários para que a prática da actividade física nas IES seja uma realidade. Foi com este intuito que foi criado em 2004 o Gabinete de Actividades Desportivas da U.Porto (GADUP), que, apesar de relativamente recente, tem vindo a implementar-se a nível interno e obtendo resultados desportivos de excelência no panorama do Desporto Universitário Nacional.

Manuel Campos destaca-se como um dos melhores ginastas do país

Manuel Campos faz história na Ginástica Estudante da FADEUP consegue o melhor resultado de sempre num Mundial de Ginástica Manuel Campos entrou na história da Ginástica portuguesa, ao terminar os Campeonatos Mundiais de Londres no 15º lugar. Aos 28 anos, o atleta português conseguiu o melhor resultado de sempre para Portugal num Mundial, graças à sua excelente prestação na final do “all around” masculino, onde chegou aos 84.900 pontos. Nas provas de acesso à final, Campos já se tinha destacado, qualificando-se na 14ª posição. É o culminar de um grande ano para o atleta português, que já se tinha mostrado em bom nível noutras provas importantes da modalidade. O ginasta também marca pon-

Campos já se tinha destacado, qualificando-se na 14ª posição. É o culminar de um grande ano para o atleta português, que já se tinha mostrado em bom nível noutras provas importantes da modalidade.

tos na UP. Campos é estudante na Faculdade de Desporto da Universidade do Porto, no Mestrado em Alto Rendimento na Ginástica. Antes disso, já tinha concluído a licenciatura em Desporto e Educação Física. Manuel Campos conta com um vasto currículo na modalidade, e destaca-se como um dos melhores ginastas de sempre do nosso país. Nestes mundiais, superou claramente a marca de Filipe Bezugo, que em 2003 tinha conquistado um modesto 42º lugar. Ao serviço do Boavista FC, seu clube de sempre, amealhou 9 títulos nacionais. No Campeonato Europeu, terminou por duas vezes num muito honroso 6º lugar, e já conta com cinco participações em Campeonatos do Mundo. No Desporto Universitário, Manuel Campos conta com um 4º lugar nas Universíadas de Belgrado, em 2009, competição que juntou alguns dos melhores ginastas a nível mundial. FRANCISCO FERREIRA

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Oito selecções já confirmaram presença Portugal, Austrália, Brasil, Canadá, China, Espanha, Guam e Rússia são as primeiras selecções a confirmarem a presença no Campeonato Mundial Universitário de Rugby Sevens, que se realiza pela primeira vez no Porto. A organização espera que, nas próximas semanas, diversos países que já mostraram interesse em participar na prova formalizem a candidatura. É o caso da França, Itália, África do Sul ou do Quénia, selecções que já contactaram a Organização do Mundial, mas que ainda não confirmaram a sua presença. A Austrália é uma das grandes potências da modalidade, e os Wallabies (alcunha da equipa de Rugby australiana) surgem no lote de candidatos à vitória. A Rússia tem vindo a melhorar as suas prestações, e nos dois últimos campeonatos mundiais universitários conquistaram duas medalhas de bronze. Por outro lado, Guam confirmou a presença da sua selecção feminina. Esta pequena ilha do pacífico, que conta com pouco mais de 178 mil habitantes, dará um toque exótico à competição. O IV Campeonato Mundial Universitário de Rugby Sevens 2010

josé ferreira

O próximo Campeonato Mundial Universitário de Rugby Sevens vai ser organizado pela UP

vai ser organizado pela Universidade do Porto, em parceria com a Federação Académica do Desporto Universitário e a Federação Portuguesa de Rugby. O Estádio

Vem colaborar com o JUP! Rua Miguel Bombarda, 187 espacosjup.blogspot.com

do Bessa Séc. XXI, propriedade do Boavista FC, será o palco desta competição, que decorre entre os dias 21 e 24 de Julho de 2010. Vera Covêlo Tavares

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josé ferreira

O Pavilhão Rosa Mota recebeu entre os dias 13 e 15 de Setembro, a primeira edição do Festival Enorme.

Ceux Qui Marchent Debout encerram o festival

Com cabeças de cartaz como os alemães De Phaz e o francês Erik Truffaz, a participar no projecto Istanbul Sessions, estava lançada a promessa de um festival de jazz sólido e de qualidade para a principal cidade do norte. Para a história ficam os concertos de uma qualidade técnica e profissionalismo irrepreensível e um público que primou pela ausência. Com a organização a cargo da Associação de Estudantes da Escola Superior de Música e das Artes do Espectáculo e os apoios da Câmara Municipal e do Instituto Português da Juventude, o festival começou no dia 13 com a actuação dos portugueses Zelig para uma plateia diminuta. Seguiram-se os De Phazz que vieram apresentar o álbum “Big”, lançado este ano. Os alemães subiram ao palco à 00h00 para “cerca de 500 pessoas”, segundo Rui Ralha da organização do festival. Durante uma hora e meia encantaram o público presente com alguns clássicos, como Hell Alright e Mambo Craze.

Enorme festival sem público

A falta de público e as particularidades portuguesas Se no primeiro dia o público ainda respondeu ao aliciamento de um nome familiar, no segundo dia do festival isso não aconteceu. O cartaz indicava que os concertos começavam com os portugueses Intersound, às 20h00, seguidos às 22h00 pelos franceses Electro Deluxe, banda de jazz-funk com uma vertente electrónica vincada. O dia encerrava às 00h00 com os Instambul Sessions, que contavam com a participação do nome mais sonante do festival, o francês Erik Truffaz, considerado por muitos como um dos maiores trompetistas jazz contemporâneos. Os Intersound e o seu funkpop-rock, apesar do esforço, não conseguiram convencer as poucas dezenas de pessoas presentes nos jardins do palácio – isto provou que até na música claramente comercial e quase cliché há perigos, já que há públicos a quem isso não agrada, quer seja cantado em português ou inglês. Uma das surpresas do festival, os franceses Electro Deluxe, subiram a um palco nacional pela primeira vez para uma plateia mais composta. Com uma sonoridade de qualidade, na encruzilhada da melhor tradição jazzística e funk com as potencialidades musicais da electrónica, encantaram o público que aderiu à festa que continuaria, num registo mais contemplativo, com a actuação de um virtuosismo técnico exemplar dos turcos Instambul Sessions acompanhados de Erik Truffaz. O festival terminou no dia 15 com as actuações dos portugueses Fanfarra Kaustica, que ofereceram ao público uma prenda quando desceram do palco para tocar entre os presentes, e dos franceses Ceux Qui Marchent Debout, agrupamento musical algo peculiar já que aposta nos instrumentos de sopro para criar um jazz muito funky onde se encontram influências do reggae.

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Três cantos a cantar Pedro Ferreira

3 Cantos - um projecto musical inédito na música popular portuguesa, com José Mário Branco, Fausto e Sérgio Godinho, subiram aos palcos do Coliseu do Porto com casa cheia. Faz parte fazer parte. Faz parte que neste tipo de concertos as salas encham e os concertos sejam memoráveis. Assim foi e assim se chama um dos inéditos cantados pelas três vozes, José Mário Branco, Fausto e Sérgio Godinho. Foi com o Coliseu do Porto cheio que no último fim-de-semana os portuenses se puderam deliciar com músicas dos três, com novos e diferentes arranjos, com coros e com uma boa dose de percussão. Um

alinhamento muito coeso a puxar o público para letras já conhecidas e foi com a plateia de pé e a bater palmas que terminaram com a última música com toda a gente na linha da frente do palco com bombos, baquetas e tambores a fechar a festa. Depois das enchentes nos Coliseus do Porto e Lisboa resta esperar pelo CD e DVD e deixar que a memória se escreva e prolongue para quem lá esteve e para quem não pode estar. PEDRO FERREIRA

3 Cantos no palco do Coliseu do Porto Pedro Ferreira

Pedro Ferreira

Nem só de música se fez o festival

Fausto

Além das atracções musicais no Pavilhão Rosa Mota, até dia 18 de Setembro houve a Enorme Semana Cultural, que visava promover e melhorar as sinergias criadas entre as várias instituições de ensino participantes. josé ferreira hermesmarana@hotmail.com

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3 cantos

José Mário Branco no momento em que fica a solo no palco

Um projecto musical inédito na música popular portuguesa, com José Mário Branco, Fausto e Sérgio Godinho, subiram aos palcos do Coliseu de Lisboa e Porto com casa cheia.


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joão habitualmente poeta

conta-me como é...

Epitáfios Os epitáfios raramente dão origem a grandes prosas. Escrever epitáfios não é o mesmo que escrever sonetos: é uma tarefa pungente, que fazemos sabendo de antemão que o principal interessado já não está interessado. Um epitáfio é pois normalmente uma frase esconsa, que a família redige para não deixar a campa entregue à figura triste do analfabetismo, posto que todas as outras em redor têm vistosas frases apostas pelos entes queridos. Um epitáfio deve ser sóbrio como tudo o que envolve os rituais funerários, elegante como queríamos que fosse a memória que em nós perdura do defunto, cingido como o branco e profundo como o negro, que são as ausências de cor com que enfeitamos a morte. Quando morre um parente, os outros ficam tão abananados e imersos em tantos pensamentos sobre o que é que cá andamos a fazer, sobre esta vida serem dois dias, sobre o não valerem a pena a ganância, a inveja, a vaidade ou o exibicionismo porque toda a vã glória baixa sem glória à terra-mãe, que não há cabeça para o assomo literário. Daí que se recorra com frequência às frases feitas do Evangelho, ou a fórmulas que já cristalizaram no imaginário de todos, como “Saudade eterna”. O epitáfio é uma pedra perante a qual ninguém se ri, pois da sua quase mudez emana o convite a pensarmos na inscrição com que nos brindarão quando nos virem na pose com que enfrentamos o descanso eterno. Mesmo Bocage, que era um desbocado, parou perante o sopro da morte no cachaço, debitando o último soneto transido pelo arrepio da contemplação do grande túnel que aí vinha. E não exercitou a pena para mais uma das suas destemperadas brejeirices: inclinado perante o mistério, balbuciou que já não era Bocage e que a sua alma à cova escura ia

manuel ribeiro

parar desfeita em vento. O epitáfio é, pois, o portal da morte, o granítico anúncio perante o qual lembramos quem já partiu, suspendemos o sorriso e afivelamos o ar de quem não quer ser apanhado no flagrante delito da falta de sentimentos perante as coisas fundas da vida. Outras vezes, porém, um pouco à laia do exemplo de Bocage com o seu clarividente soneto de moribundo, dão-se ao trabalho de redigir o seu próprio epitáfio. É essa uma atitude que merecia ser interrogada, tenho para mim que, mais do que querermos preparar a nossa imagem para um futuro que já não poderemos influenciar, é o medo da falta de gosto da família que nos leva a redigir uma prosa que seja digna de quem somos quando já não formos. Digo-o com o à vontade de quem já escreveu o seu próprio epitáfio, que não recordo aqui porque já não me recordo, mas que consta do meu pobre livro Notícias do Pensamento Desconexo. Outra possibilidade, que enceto aqui e agora, seria a de constituirmos um catálogo de epitáfios disponíveis, à semelhança daqueles catálogos das confeitarias com a foto do bolo de anos, com um variado leque desde o palhaço Batatoon às pirâmides do Egipto. De modo que, dando início à ideia deste pronto-a-vestir da campa, alinho a seguir os três primeiros epitáfios daquilo que poderá vir a ser uma colecção outonal para estrear no dia de fiéis defuntos. O primeiro são os meus pêsames a essa grande figura nacional que povoa o país de lés-a-lés, o Zé: ZÉ FINI O segundo é a lápide para um grande preguiçoso: Morri, morri. E foi já bem deitado que vim para aqui E o último o Epitáfio para uma pessoa sem interesse nenhum: Mesmo um grande tanso tem direito a este grande descanso Ámen!

Eva Cordeiro, presidente do Orfeão no FITU

para pertencer a essa grande família: “há pessoas que não se apresentam porque têm medo de ser rejeitadas, mas aqui não se rejeita ninguém. Nunca se bate a porta a ninguém”. E não faltam outras lutas onde os inimigos são a concorrência ou aquela certa maneira de pensar que gera esteriótipos do tipo: “ouçam lá, vocês são estudantes mas aqui só há pessoas sérias, portanto deixem tudo assim como está”. Nesse caso, “depois da exibição, vieram pedir desculpa e cumprimentar-nos”. Portanto o segredo está todo concentrado em poucas palavras: a atitude, a qualidade da prestação, o modus operandi. Resumindo: proporcionar profissionalismo; “ser profissional entre amadores”…que será uma frase já ouvida em milhentas outras ocasiões, mas que, no caso do Orfeão, necessita ser levada a serio. Quando se assume o comando tudo pode entrar em jogo. Também um certo “espírito empresarial”, o qual pode ao mesmo tempo ajudar e ser ajudado, acrescentado-se qualitati-

...ser Presidente do Orfeão O Orfeão Universitário do Porto continua vivo e vital, também graças ao trabalho da figura do Presidente, que na actualidade é exercido por Eva Cordeiro. O Orfeão é a clássica experiência marcante. Porque pode acontecer “em contexto hospitalar, de ser assistido por um ex-orfeonista”; ou porque, durante uma entrevista de trabalho, não é raro virar a conversa para o Orfeão, pois “a geração dos nossos pais ainda sabe o que quer dizer ser orfeonista”. Sintetizando: nunca se deixa de sê-lo. “A nossa vida é ligada ao Orfeão porque no Orfeão há tudo. Quase não concebemos a nossa vida académica sem o Orfeão”. E isto não tem a ver só com a possibilidade de conhecer um grande número de estudantes: “nessa fase de passagem entre a universidade e o mundo do trabalho, há de tudo um pouco: nos

somos estudantes mas lidamos continuamente com médicos, arquitectos, engenheiros, jornalistas…”. Cruzam-se idades, disciplinas; há uma diversificação de orfeonistas entre estudantes e ex-estudantes (os quais gozam da possibilidade de poder ficar mais dois anos depois de ter acabado o curso e posteriormente passar para o grupo dos Antigos). Por isso, trabalhar aqui “é também um aproveitamento para a futura vida profissional, um enriquecimento curricular, não uma cunha”. Mas não se esqueçam que viver o Orfeão requer atitude, esforço, dedicação, “espírito aventureiro”, amizade e camaradagem. De facto não há outra forma para se dedicar a ele, sobretudo a nível presidencial, se não a da entrega de generosas porções de tempo e de paixão. Isto é, também, lutar para a ruptura de uma série de maus costumes, como o receio de não ter as capacidades

vamente durante o mandato. “Ontem estivemos até as duas da manha. Trata-se de encaixar essa coisa no meio dos empenhos. O segredo? Gerir o nosso tempo”. Graças a Deus, hoje em dia a tecnologia facilita algumas coisas ao nível da gestão. O Orfeão é composto por vários grupos e cada inscrito participa, no mínimo, em três grupos simultaneamente. Mesmo assim, a totalidade das comunicações é feita também por e-mail. Mas isso, não desmonta a importância do trabalho de grupo, fundamental para que “se hoje corre mal alguma coisa, na próxima já não será assim”. Qualidade, valor, sobriedade, é isso que tem que se alcançar quando se escolhe estar no lado da condução, porque em jogo está o respeito e a continuação da historicidade do Orfeão. E em 2010, a familia vai festejar 98 anos. Edgardo Cecchini

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Paulinho Braga: com a bateria toda manaíra aires

Um dos maiores bateristas do mundo fala sobre a sua carreira ao lado de importantes nomes da música mundial Tom Jobim, Elis Regina, Milton Nascimento, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tim Maia, Ivan Lins, Simone, Joe Henderson: Paulinho Braga é nome ligado a todos esses importantes artistas que marcaram a história da música. Considerado um dos maiores bateristas do mundo, Paulinho esteve em terras lusitanas a fazer uma digressão durante o mês de Outubro como convidado especial do projecto liderado pelos músicos portugueses Filipe Melo e Bruno Santos. Mais de quatro décadas de carreira e um dos seus maiores atributos é ter introduzido na bateria moderna as influências das escolas de samba. Esse é o segredo: miscelânea musical? Paulinho Braga – Minha cabeça é aberta, gosto de criar raps com o pandeiro, por exemplo, e ir tocar isso num bar de jazz no Japão. Eu vou abrindo o leque, me arrisco até a cantar. É preciso mexer nas coisas que estão muito acentuadas. Faço mesclas, por exemplo, de funks com música instrumental ou baião misturado com orquestra e isso dá certo, agrada. Essa abertura é importante porque não podemos deixar de interagir com os jovens e eu não sou nada saudosista. Tantos anos de estrada e eu quero cada vez mais instrumentos novos e boas tecnologias. Para mim, as músicas do Tom [Jobim], por exemplo, não têm nada de tradicional; se você pensar em termos harmônicos são totalmente modernas. Você trabalhou mais de quinze anos com o Tom Jobim e, juntamente com ele, é um dos responsáveis pelo surgimento e pela

afirmação da Bossa Nova… PB – Em 1992, o Tom Jobim me falou uma coisa muito importante antes de um show no Canecão [Rio de Janeiro]: “quando eu fizer aquela grande viagem, vocês continuam tocando a minha obra”. Eu fiquei com aquilo na minha cabeça. Um dia, ainda em Nova Iorque, eu tive a ideia de fazer um projecto em conjunto com o filho e o neto do Tom, Paulo e Daniel Jobim, respectivamente. Foi daí que surgiu o Jobim Trio, que já dura quatro anos. Nesse trabalho fazemos releituras das músicas do Tom e em 2008 gravamos com o Milton Nascimento o álbum “Novas Bossas”. Há muitas intersecções entre o jazz brasileiro e o jazz português? PB – Por incrível que pareça, eu acho que o jazz no Brasil e em Portugal tem uma reciprocidade muitas vezes maior do que o jazz brasileiro e o jazz americano, pelo menos no que se refere a um baterista. Para um baterista norte-americano, por exemplo, é mais complicado tocar um samba dentro de um jazz, fica com um “sotaque instrumental” forte demais. Pode-se pensar que não, mas a língua influencia muito em todo esse processo. Qual a principal diferença entre o cenário de jazz actual e o cenário de jazz da sua geração? PB – Eu acho que a diferença está na mistura de géneros musicais. Apesar de ainda existir quem queira tocar o jazz tradicional, hoje se coloca um DJ para mixar um jazz e o resultado é maravilhoso. Quer um exemplo? O Free Jazz Festival, no Rio de Janeiro e em São Paulo. Quando eu fui com a Elis Regina

o processo de criação não é o envelhecimento do conhecimento mas aprender a tornar jovem em 1978, eu só via grupos de jazz bem tradicionais, e não presenciei mistura musical alguma com a maior novidade naquela altura, o rock n’roll. Quando eu fui agora ao festival, vi de tudo, big bands africanas tocando um jazz com fortes influências da MPB. O jazz se abriu muito. Você acredita que existe hoje um tecnicismo acentuado, muitas vezes a imergir a criatividade? PB – Para ser um bom músico é

importante não ficar só na técnica, no imediatismo. O talento vai sempre prevalecer. Acho que hoje há muita gente técnica, o que faz com que muitos sejam grandes instrumentistas com uma música pequena, pouco criativa. O meu processo criativo, por exemplo, surge de observar tudo o que está ao meu redor e criar misturas com aquilo. Eu ouvia muitas escolas de samba e depois comecei a colocar as batidas nas músicas da Elis Regina. Picasso dizia: “eu demorei muitos anos para me tornar um jovem”. É aquela coisa, o processo de criação não é o envelhecimento do conhecimento, como muitos pensam, mas aprender a tornar jovem, actual o conhecimento que já se tem edificado. É preciso ir amadurecendo com a vida e quebrando preconceitos. Então esse é o grande aprendizado depois de tantos anos de estrada… PB – Quando eu era garoto, me lembro certa vez de um cara chegar para mim, depois de um show, e me dizer: “ei, Santos Dumont”.

Eu senti o tom pejorativo, como se ele estivesse dizendo: “ei, o que é que você está inventando aí?”. E a vida provou que eu estava certo ao insistir naquilo em que eu tocava, naquilo em que eu acreditava. Depois de trabalhar com tantos artistas de renome, como fazer com que a obra permaneça mais importante do que a fama do músico? PB – A obra vai sempre permanecer porque é ela que se torna a referência para as coisas novas. O contexto muda e as tendências musicais vão e voltam sempre com coisas diferentes, com acréscimos. A música é um bocado a somatória de influências, muitos garotos “pegam” hoje o que a gente fez há algumas décadas e vão contribuindo para novas formações. É o processo de continuidade. Não quero que fique só comigo aquilo que eu fiz, eu acho legal passar para os jovens aquilo que eu sei. O importante é ser provocativo, causar reflexões. Temos que estar sempre contestando, no bom sentindo. Manaíra Aires


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Desinspiração e fluência A desinspiração é uma coisa tramada. E quando os nossos compromissos dependem dela consegue ser algo ainda pior. É como me sinto neste momento. Passei aqui horas a dar voltas sobre mim mesmo na esperança de ter uma qualquer espécie de revelação inspiracional que não aconteceu. Nada surpreendente na realidade, pois por norma, não é algo que se force, mas que acaba por nos atingir eventualmente e inadvertidamente. No meu quotidiano tenho dezenas, ou mesmo centenas, de temas que gostaria de abordar, no entanto esta é daquelas alturas em que isso não se aplica. A verdade é que agora, pura e simplesmente não estou para aí virado. Acontece… Mas também não é propriamente motivo para não se fazer nada. E agora? Dei mais umas quantas voltas,

tente. Não, para isso mais vale mesmo é estar quietinho. Depois acabei por reparar que nestas alturas tenho um sentimento idêntico àquele que tinha quando era ainda criança e tinha uma série de trabalhos de casa que não tinha a mínima vontade de fazer, porque simplesmente me apetecia continuar a divagar nas minhas fantasias. Também aí dava voltas sobre mim mesmo, andava em casa de um lado para o outro feito barata tonta, ligava e desligava a TV, etc. Queria era ocupar-me com algo mais divertido, ou manter-me simplesmente a flutuar no mundo dos sonhos, mas ao mesmo tempo pairava sobre mim um sentimento de intranquilidade por não estar a cumprir as minhas obrigações e saber as inevitáveis consequências que o seu incumprimento iria acarretar. Depois era a frustração e o desanimo… Estou certo que haverá muitos mais como eu que se identificam nisto. Naquela altura não tinha grandes opções para estes dilemas. Ou me sujeitava ou sofria as consequências. Agora já não é bem assim, porque nem os problemas são assim tão lineares, nem as soluções tão obtusas. Como tal, preferi não forçar nada, deixar que tudo fluísse com a maior das calmas e naturalidade. O dia-adia já nos dá exemplos suficientes da borrada que sai sempre que forçamos as coisas. Decidi então pegar nesta pequena lição do quotidiano e aplicá-la. O resultado não é nada de especial, mas é melhor que nada.

“...tenho dezenas, ou mesmo centenas, de temas que gostaria de abordar, no entanto esta é daquelas alturas em que isso não se aplica.” e perguntei a mim mesmo: “Porque não falar disso mesmo?” Afinal de contas, também é um “lugar-comum” para as almas dos restantes mortais, e como tal também é assunto valido de ser abordado. E nestes casos, mais vale manter as coisas simples, do que cair no erro de tentar realizar algo mais elaborado e acabar a fazer aquilo a que chamamos de “figura de urso” com uma qualquer verborreia inconsis-

josé ferreira

Armando Pêra

Qual a finalidade do Homem? Qual o sentido da vida? Claro que ninguém responde satisfatoriamente a estas questões. Porém, julgo que em todos os planos de vida que façamos, temos como meta a felicidade. Haverá, então, alguma razão que justifique os empecilhos legais que impedem a felicidade dos outros? É urgente pensar nos outros! A declaração dos Direitos Universais do Homem, datada de 10 de Dezembro de 1948, é um marco na História da humanidade. Uma manifestação da extrema importância do Outro. Aqui, ficam três dos artigos presentes na referida declaração: 1. Artigo:“Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos, devendo contudo, agir para com os outros em espírito de fraternidade”; 2. Artigo: “Todos os seres humanos são iguais perante a lei independentemente da cor, sexo, língua, (…) ou de qualquer outra situação”; 16.ºArtigo:”A partir da idade nú-

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Welcome Philippe Lioret

Escravos do Preconceito bil, o homem e a mulher têm o direito de casar e constituir família sem restrição alguma, de raça (…)”; Esta declaração foi um enorme passo para a humanidade. Nela encontramos uma mensagem de salutar integração do outro sem discriminação alguma. Devendo ser a base para uma nova educação na qual impere o lema “todos diferentes mas todos iguais”! Só na libertação das correntes do preconceito viveremos numa liberdade digna de uma harmonia fraterna e justa entre os homens. O respeito e tolerância pela dignidade e idiossincrasia de cada um fluirão naturalmente como parte intrínseca do homem. Temos que pensar, constantemente, no que é mais correcto e agir, livre de quaisquer preconceitos, em conformidade com essa rectidão. Necessitamos de ser autónomos, íntegros, livres e responsáveis na criação de um mundo melhor. Tal, só acontecerá se adoptarmos o lado do injustiçado, sentindo como nossas as dores do sofredor da discriminação, da in-

Críticas

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justiça. Devemos, assim, ser responsáveis pelo destino do mundo. Hoje podemos, e é nosso dever, fazer com que não haja distinção entre casais heterosexuais e casais homossexuais. O processo de adopção de uma criança deve ser determinado, indiscriminadamente, pelo mérito, competência e amor dos pais adoptivos, sem que haja influência do preconceito, no processo de escolha do destino da criança. Obviamente, qualquer criança prefere o amor familiar à incompetência familiar de outros pretendentes, isto sem esquecer a catástrofe de crianças que permanecem sem serem adoptadas, quando, simultaneamente, há lares cheios de amor para dar. Todavia, o mundo está a mudar… Não se iludam aqueles que se conformam com a obsoleta estagnação, aplaudindo-a. Seja com Barack Obama, que se manifestou contra a lei de 1993 - “dont ask dont tell” -, prometendo mudança e, assim, fazendo renascer a esperança; seja, ainda, através do governador da Califórnia,

Arnold Schwarsznegger, ao homenagear a luta do político homossexual – imortalizado, recentemente, por Sean Penn no filme Milk – e nomeando o dia 22 de Maio como o dia dedicado a Harvey Milk. O mundo progride na mudança e ela surge todos os dias. Contudo, temos a obrigação moral de fazer com que haja maior celeridade no processo evolutivo da civilização! Lamento que o Homem, por vezes, desprovido da sua humanidade, se concentre mais em procurar a infelicidade do outro, do que em encontrar a própria realização. Ficando, por isso, impedido de constatar que permitir e provocar a felicidade no outro brota, em cada um de nós, a própria felicidade. A tolerância, o respeito e a solidariedade para com o outro são o mais eficiente acto de egoísmo, o derradeiro acto narcisista - o que faz sentir e tornar alguém melhor, verdadeiramente realizado: tornando alguém profundamente humano! Márcio Magalhães

Welcome, de Philippe Lioret, venceu o Prémio de Melhor Filme Europeu na Mostra Panorama e o Prémio Lable Europa Cinemas no Festival de Berlim 2009. O filme expõe as lamentáveis condições dos muitos imigrantes ilegais retidos em Calais, que tentam chegar a Inglaterra. Simon é um instrutor de natação divorciado e Bial é um adolescente curdo que veio do Iraque e quer ir para Londres. Como é que estas duas personagens se encontram? Bial vai ter aulas de natação porque quer atravessar o canal da Mancha a nado e reencontrar a sua namorada, que vai ser obrigada a casar com um primo. Porque é que Simon se arrisca a ajudá-lo? No inicio move-o apenas a vontade de reconquistar a ex-mulher - voluntária no apoio aos imigrantes – mas algo se vai revelar mais intenso na relação de Simon com Bial. Welcome não é perfeito a jogar com estes dois panoramas. Algo falha no enquadramento entre o quase melodrama e o quase documentário. À parte isso, tanto pelas interpretações e a forma como está filmado, como pela reflexão a que nos obriga, recomendo-o vivamente. Há aqui um forte compromisso: acordar-nos para o flagelo que é ilegalizar seres humanos. Actualmente, em França, o “delito de solidariedade” penaliza com prisão de cinco anos e multa de 30 mil euros quem ajudar, transportar ou abrigar qualquer imigrante ilegal. Quem já esteve em Calais e fez a travessia do canal da Mancha saberá quão fácil é apanhar o Ferry para Inglaterra, o único incómodo será tirar o BI da carteira. Ao sair da sala de cinema preenchenos uma sensação inquietante: Que bem que nos venderam esta Europa… e tão feiinha que ela é. Amarílis Felizes

Emilia Galotti Nuno M. Cardoso

7/10 XX the XX Xx é o albúm de estreia dos britânicos The xx, lançado pela Young Turk Records em finais de Agosto. Se por ventura existir uma fórmula para o sucesso na cultura pop, os quatro miúdos do sul de Londres que formaram este grupo há cerca de quatro anos certamente a desvendaram. Tornaram-se uma referência incontornável e quase obsessiva em revistas de música e de cultura urbana, em playlists mas também em palcos, com mais de trinta gigs agendados até ao final do ano nas principais salas de concerto europeias e americanas. Sem grande complexidade ou virtuosismo, a música dos The xx é constituída por finas camadas melódicas que parcimoniosamente misturam matéria-prima postpunk, new wave e do trip-hop de Bristol. Sempre guiada por downbeats e uma linha de baixo profusamente minimal e cristalina, esta límpida massa sonora entrelaça-se nas vozes da guitarrista Romy Madley e do baixista Oliver Sim, fechando o círculo de composições de grande tensão afectiva, sensual e jovialmente sexual. Crystalized, o primeiro single, abre o disco e deixa antever uma viagem onírica por universos ora atmosféricos ora terrenos, que se confirma nas grandes músicas Basic Space, Starts e Hot Like Fire, pontos altos deste trabalho. Um disco recomendado, para saborear e descobrir aos poucos, com uma grande capacidade de adaptação e de resistência ao tempo, particularmente pela inteligência com que junta peças do passado musical britânico com um toque de originalidade e de ingenuidade absolutamente desarmante. Joaquim Guilherme Blanc

8/10 Contra a Manhã Burra Miguel-Manso Depois de uma edição de autor de 250 exemplares rapidamente esgotados, foi este ano reeditado o primeiro livro de poesia de MiguelManso, Contra a Manhã Burra. O livro está dividido em duas partes, Abrindo a cadeira de pano e Fechando a cadeira de pano. Títulos significativos. De facto, os poemas incluídos na primeira metade parecem definir-se por um ritmo acelerado e uma temperatura quente – «das páginas de Loi Nui / tão quentes que fizeram esgotar o stock de cerveja gelada» (pág. 40) – próprios de quem acaba de chegar, ainda que por vezes com o único intuito de dizer que chegou, pois «parece que o homem foi à lua só para, regressado, / poder dizer deste modo à mulher // “então, viste-me lá em cima?”» (pág. 48). Todavia, os da segunda metade mostram-se tristes, sob o signo dos meses de outono e decididos a contribuirem para a melancolia nacional, como com o poema curiosamente intitulado O Meu Contributo para o Estudo da Melancolia: «caderno / de bolso das ideias chuvosas / de Lisboa» (pág. 70) onde a divisão dos versos desta estância pode levar a interessantes leituras. As referências intertextuais são constantes ao longo de todo o livro: «lembro a primeira frase de Os passos em volta / onde // querendo / se enlouquece» (pág. 85). De verso curto e quase sem pontuação, Miguel-Manso é um nome a reter na poesia portuguesa. Tiago Sousa Garcia

É a língua frívola da sedução, subtil e ardente que invade toda a textura desta tragédia. “A força da sedução é a verdadeira violência”, pois esta é indisfarçável e intensa, tal como o impacto dos diálogos e a interacção física dos actores. Lessing, o autor considerado como o grande reformador do teatro alemão, renovou a tragédia clássica, usando uma morte em palco e relevando a figura feminina. Contudo, é Marinelli, o servo do protagonista, que tece racionalmente todos os fios de uma trama passional preenchida pela tentação e desejos irrealizáveis. Mas como “querer pecar já é pecado”, como diz a certa altura Emilia, é a imaginação e a permanência do enigma que são os imperativos, deixando para segundo plano a explanação dos acontecimentos. Daí que estes não sejam mostrados ao público. Tal dá azo a que o espectador faça a sua própria interpretação e idealize o que terá, de facto, acontecido em alguns momentos, num conjunto de verdades que não são ditas, apenas sentidas nas cenas consequentes. A inquietação musical e a conjugação da luz contribuem para este ambiente de mistério indesvendável... Emilia Galotti consegue envolver o espectador até ao último momento de tensão inesperado. Fica apenas por explicar o contexto político que persegue o enredo, embora tal seja compensado com a vivacidade e dinamismo textual. O figurino simplista contrasta com a densidade dos jogos psicológicos das personagens, materializados na expressividade irrepreensível dos actores que lhes dão vida. Tatiana Henriques


música

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teatro

Eventos

Vários

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Opinião

Cardápio

Macy Gray e Marcelo D2 vêem neste mês ao Porto

Palavras leva-as o vento pedro ferreira

7 de Novembro

2 a 6 de Novembro

7 de Novembro

Até 14 de Novembro

Kavinsky, Xinobi, Chewy Chocolate Cookies Clash Club Teatro Sá da Bandeira Industri Royal Casa da Música Gomo Casa da Música

“Cisco e a espiral do conhecimento” Teatro Campo Alegre

Inaugurações de Exposições Quarteirão Miguel Bombarda, , 16h

Exposição de Maria Keil AMIarte

11 de Novembro Tiny Vipers, Grouper, Inca Ore Plano B macy gray Coliseu

Nova peça da Palmilha Dentada Teatro Sá da Bandeira “Maria Stuart” Teatro Helena Sá Costa

14 de Novembro

Até 22 de Novembro

Marcelo D2, DJ Ride, Bezegol: Clubbing Casa da Música Laura Gibson Janela Indiescreta Smartini CDGO Delfins Coliseu

História da Ilha do Tesouro Cace Cultural

20 de Novembro Micachu & The Shapes Plano B Aló Django Contagiarte

“Nas Fronteiras do Mar” “J. Laurent e Portugal” Centro Português de Fotografia

“Emilia Galotti” Teatro Carlos Alberto

Até 15 de Novembro

Até 29 de Novembro Cinderela Balleteatro Auditório

VERA MANTERO , PECC - Fórum Dança Fundação C.G.Depósitos - Culturgest

“Ratos e Borboletas na Barriga” Teatro da Vilarinha

Até 27 de Dezembro

XI Grande Noite do Fado Alfândega do Porto 21h30

8 de Novembro “O Sabor do Cinema” Serralves, 16h

Até 20 de Novembro

11 de Novembro comunidade de leitores Biblioteca Almeida Garrett, 21h

19 de novembro

Porcupine Tree Teatro Sá da Bandeira

Nelson Freire Casa da Música Rodrigo Leão Coliseu

29 de Novembro Isis Teatro Sá da Bandeira

30 de Novembro autoKratz, The Subs, Housemeister: Clash Club Teatro Sá da Bandeira

Até 17 de Novembro “Cidade, Abstracção e Flores” Galeria Espaço t

21 de Novembro

28 de Novembro

Autárquicas no Porto em balanço

até 15 de Novembro

Até 8 de Novembro

“Um pormenor em cada detalhe” Fund. Juventude

Até 22 de Novembro Exposição “De Ponte em Ponte” Museu Soares dos Reis

Vão-se os dedos e vão-se os anéis

Até 26 de Novembro Festival de Artes Digitais “Olhares de Outono” Citar, Unversidade Católica, Mosteiro São Bento da Vitória

“Querida Televisão” Teatro Rivoli

Até 31 De dezembro Conversas Sustentáveis à 5ª — “As alterações climáticas” Fnac NorteShopping

XI PortoCartoon Museu Nacional de Imprensa

até de Janeiro

20 de novembro J&B INVITES TO FIEIS BIRTHDAY PARTY Inst. Sup. de Agronomia-Tapada Ajuda

23 de Novembro As obras completas de William Shakespeare em 97 min São Luiz Teatro Municipal

26 de Novembro Pedro Tochas nas Quintas de Leitura Auditório Teatro Campo Alegre, 22h

Exposição de Augusto Alves da Silva —“A Colecção” Museu Serralves

Esta semana Jorge Reis-Sá anunciou a insolvência da Quasi e consequente processo de falência. Fica a marca de uma editora com altos e baixos e com um catalogo muitas vezes improvável. Valeu pelas revelações como Ana Paula Inácio, Rui Lage e Nuno Rocha Morais, pelo aparecimento de valter hugo mãe e pela publicação de algumas obras de Harold Pinter. Nestes últimos anos são muitas as editoras que vão e vem, são muitas as livrarias que fecham ou se vêem obrigadas a alargar o espectro da sua orientação comercial. Somos dos países europeus em que mais se publica mas ao mesmo tempo somos dos países em que menos se lê. Nesta mesma semana a ex-directora do Plano Nacional de Leitura, a escritora Isabel Alçada foi “promovida” a ministra da Educação mas por outro lado o Ministério da Cultura vê o seu orçamento permanecer abaixo dos 1% que são já regra por todos os países da UE.

Não restam dúvidas de que é também um problema socio-económico, o de acesso ao livro, quer pelo preço que tem no mercado completamente desfasado do preço de produção e edição quer pela acessibilidade à Rede Nacional de Bibliotecas. A ainda baixa escolaridade e iliteracia e a má qualidade da educação fazem com que para muitos a leitura seja um estorvo, um desafio para uma elite cultural. A aquisição de um livro continua a não ser uma prioridade nas escolhas de uma família. Para além do dinheiro, há também a questão do tempo. Crianças, jovens e adultos perdem uma boa parte do seu tempo a deslocarem-se entre local de trabalho e casa. Os jovens restringem ao obrigatório as suas leituras, os mais adultos procuram leituras mais rápidas nas revistas e nos jornais. Nas políticas de promoção da cultura voltam a falhar as interacções com outros sectores e aspectos das vidas das pessoas. Falta o

tempo para viver, falta o tempo para o lazer. A cultura envolve duas vertentes, uma mais activa e a outra mais passiva, a criação e a fruição cultural. Na verdade, sendo um direito consagrado na Constituição, nem por isso significa que todos têm acesso à criação e à fruição. Sendo que, mais facilmente fruímos um bem cultural, do que o criamos. Nem todos podemos ser pintores, ou escritores. No entanto, todos podemos observar um quadro, ler um livro. A escrita é, de facto, a primeira grande revolução de ordem intelectual e de uma importância que é inegável, não seria possível imaginarmos a nossa realidade sem a escrita, ainda que pensemos nos avanços tecnológicos, ela lá está, nos telemóveis, nos computadores, na Internet, enquanto meio de comunicação e enquanto suporte de transmissão e aquisição de informação. A leitura é um hábito como outro qualquer: cria-se. E cria-se mais facilmente quando se é mais novo. E cria-se mais facilmente quando o contexto envolvente o propicia. Contexto é um país onde a cultura seja uma aposta a sério e não um aparato de figuras, eventos e inaugurações para aparecer na televisão e nos jornais. Poderemos distinguir educação e cultura? pedro ferreira

Os portuenses e as portuenses decidiram. Manter a confiança no candidato da coligação PSD/CDS, Dr. Rui Rio. A vitória que obteve no Porto, duas semanas após a vitória do PS nas eleições legislativas, tem com certeza toda a legitimidade e muita pouca margem para dúvida. Não restará qualquer dúvida em analisar que o, novamente eleito, Presidente da Câmara é a escolha maioritária das pessoas que votam no Porto (que em oito anos, são menos quinze mil). Esta vitória, não tirando qualquer mérito, surge de várias derrotas por parte de outras candidaturas. Em jeito de lembrança, recordemos o começo apoteótico de Elisa Ferreira, candidata independente do PS. Embora com todas as condições e apoio de gente tão ilustre e influente da cidade do Porto, cometeu a ingenuidade política, que já não seria de esperar de alguém com um currículo como o seu, de não se mostrar “com os dois pés no Porto”. A primeira derrota que Rui Rio aproveitou engenhosamente e é de certa maneira legítimo afirmar que praticamente lhe deu a vitória. Elisa Ferreira abriu as portas à campanha e vitória de Rui Rio. Aliás, deulhe a oportunidade de fazer uma campanha francamente fácil num distrito onde as condições laborais e sociais espelham bastantes lacunas a nível político, embora, seja dita a verdade, não só de agora. Foi uma campanha à volta do erro estratégico da campanha do PS e muito bem aproveitado: “Com os dois pés no Porto”, “O Porto em primeiro”. Apesar de tudo, é de frisar que, comparativamente, os resultados de ambos não são muito diferentes dos de há 4 anos. Uma diminuição da candidatura PSD/CDS e do PS de sensivelmente mil e quatro mil votos respectivamente. Noutro plano, encontra-se as candidaturas já habituais da CDU com

Rui Sá e do Bloco de Esquerda com João Teixeira Lopes. Escusado será dizer que, embora ambos tenham crescido residualmente, a CDU tirou melhor partido da conjuntura política destas eleições. Rui Rio pediu a maioria absoluta, e tendo Rui Sá já anteriormente coligado com o Presidente da Câmara do Porto surge como agregador de votos de algum eleitorado indeciso na esquerda. Uma aposta segura em alguém que já tem experiência no município e em cargos municipais. João Teixeira Lopes e a candidatura do Bloco tiveram um crescimento residual que espelha a pequena evolução em termos da sua implementação na cidade do Porto autarquicamente. Em termos políticos passou, para o Porto, ao lado. Pediu a sua eleição como vereador, e publicamente dirigiu a campanha ao objectivo de tirar a maioria absoluta a Rio. Objectivo este que seria de esperar que fosse admitido embora, não se imaginasse que o alcançar desse objectivo passasse por desvio de forças contra a campanha encabeçada por Elisa Ferreira. Ficou patente na campanha do Bloco algo de enfadonho e com incapacidade de crescimento ao longo da campanha. Falhou o seu objectivo, e aliás, por incrível que pareça, foi o partido que em duas semanas (apesar das reconhecidas diferenças que existe em termos de votação para as eleições legislativas e autárquicas), mais desceu: dez mil votos. Resumindo o pouco que se pode retirar desta campanha, o PS e Bloco de Esquerda perderam, PCP e PSD/CDS ganharam. Rui Rio reforçou a maioria, Elisa Ferreira revelou-se um flop. Rui Sá conseguiu renovar a sua eleição que certamente seria ameaçada se o PS tivesse vingado com a sua aposta, e Teixeira Lopes cumpriu mais uma campanha sem que haja muito mais a acrescentar. nuno moniz


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Nesta data querida mariana teixeira

Sem mais nem menos, passaram 10 anos. Eu conheci-o quando tinha uns 3 ou por aí. Era a altura em que achava que gastar o meu tempo na biblioteca valia mais que participar nas aulas teóricas. Obviamente era uma implícita mentira, mas também não

podia ficar calado perante às chatices da minha consciência. Naquelas salas silenciosas não procurava nada em particular se não uma sugestão que me atraísse. Por vezes, invés de ir para frente, volta a ver e rever o mesmo projecto. Foi assim que conheci o Museu de Arte

FICHA TÉCNICA DIRECÇÃO DIRECÇÃO DO NJAP/JUP - PRESIDENTE Sara Moreira VICE-PRESIDENTE Rita Falcão TESOURARIA Rita Bastos VOGAIS Pedro Ferreira (JUP) || Filipa Mora (aguasfurtadas) || Bárbara Rêgo (espaçosJUP) || Manaíra Athayde (galerias) DIRECÇÃO DO JUP Filipa Mora DIRECTORA DE PAGINAÇÃO Joana Koch Ferreira DIRECTOR DE FOTOGRAFIA Manuel Ribeiro chefe de redacção Mariana Teixeira EDITORES E SUB-EDITORES EDUCAÇÃO Filipa Mora SOCIEDADE Manaíra Athayde CULTURA Filipa Mora e Tiago Sousa Garcia OPINIÃO Pedro Ferreira DESPORTO Francisco Ferreira

Ao longo dos anos foram bem poucas as exposições que apreciei, e dentro delas ainda não tenho a certeza de te-las percebidas todas. Contemporânea de Serralves, cujo autor eu começava a apreciar há pouco tempo. De vez em quando, parava a analise e virava a cabeça para a enorme janela que olhava para o pátio. E pensava... Passados uns tempos, o destino encenou o primeiro encontro cara a cara entre os dois. Eu já acreditava nele, mas sabe-se como é: os arquitectos precisam estacionar no local do crime; vive-lo; cheirar por aí um algo que só eles conseguem captar (porque são homens de arte e de poesia e não de ciência). Entre as coisas, a mais importante era tocar, apalpar o detalhe arquitectónico, enfiar o dedo mesmo ali, como um São Tomé na Santa Costela de Cristo. Mas repito: eu já acreditava! Eis os volumes puríssimos que se cruzam; eis a “mesa que guarda a luz” colada ao tecto com a barriga virada para baixo; eis o “tudo branco” ou “branco à Siza” como gosto de o chamar; eis o “sempre tudo em madeira” dos pavimentos; eis as duas paredes que se enrolam como dois amantes e eis surgir, dentro do olho do furacão, o fruto da paixão delas: um elevador! Já vos disse que também somos poetas. Eis a “sala

COLABORARAM NESTA EDIÇÃO Amarílis Felizes || André Lameiras || Armando Pêra || Bruno Almeida || Bruno Silva || Edgardo Cecchini || Filipa Mora || Francisco Ferreira || Igor Gonçalves || João Habitualmente || Joaquim Guilherme Blanc || José Ferreira || José Miranda || Manaira Athaide || Manuel Ribeiro || Márcio Magalhães, Mariana Branco, Mariana Teixeira, Nuno Moniz || Pedro Ferreira || Rita Bastos || Tatiana Henriques || Tiago Sousa Garcia || Vera Covêlo Tavares imagem da capa Manuel Ribeiro Depósito Legal nº23502/88 Tiragem 10.000 exemplares Design logo JUP Bolos Quentes Design Editorial/Grafismo Joana Koch Ferreira Paginação Joana Koch Ferreira Pré-Impressão Jornal de Notícias, S.A Impressão NavePrinter - Indústria Gráfica do Norte, S.A. Proprie-

grande” com as esquinas cortadas assim como uma faca trata da manteiga, e dentro da sala grande (e acrescento: finalmente!) eis o cruzamento das duas rampas gémeas. Estava com tonturas... Entretanto, cresceu a barriga, apareceram os primeiros cabelos brancos (da fase “cinzentos” nem pensar), começaram-se a perceber com alguma dificuldade as palavras dos outros interlocutores, mas o Museu continuou mais ou menos na mesma. Ao longo dos anos foram bem poucas as exposições que apreciei, e dentro delas ainda não tenho a certeza de te-las percebidas todas. Costumam chama-la: falta de preparação. Infelizmente, poucos artistas dão um passo em direcção do visitante. Para a maioria, é o visitante que tem que perceber o que lá está, e se não o percebe quer dizer que entre o artista e ele há um abismo cultural. Eu era da opinião que um Museu deveria ajudar a estreitar essa distancia, mas se os outros “colegas” não o querem, para mim tudo bem. Porque afinal é sempre a mesma historia: chego ali com uma grande vontade de ver as novidades, passo em frente da primeira obra, passo em frente da segunda obra, passo, passo,…e lentamente, mas com ritmo constante, a minha concentração migra em outras direcções. Eis os volumes puríssimos que se cruzam; eis a “mesa que guarda a luz” colada ao tecto com a barriga virada para baixo; eis o “tudo branco” ou “branco à Siza”… Edgardo Cecchini

dade Núcleo de Jornalismo Académico do Porto/Jornal Universitário Redacção e Administração Rua Miguel Bombarda, 187 - R/C e Cave 4050-381 Porto, Portugal || Telefone 222039041 || Fax 222082375 || E-mail jup@jup.pt Apoios Reitoria da Universidade do Porto, Serviços da Acção Social da Universidade do Porto, Universidade Lusófona do Porto, Instituto Português da Juventude.

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JUP || NOVEMBRO 09

editorial

A Bela e o Monstro Vivemos, em oposição ao pequeno grande marasmo dos últimos anos, rodeados de ofertas ditas de culturais, na cidade que parece terse esquecido de alguns dos esforços reunidos enquanto capital europeia da Cultura. Apesar desses tempos e apoios que já vão longe, o Porto pompeia hábitos novos. Chega a apresentar, por vezes, ofertas semelhantes e irresistíveis no mesmo dia, à mesma hora. Compete na oferta “cultural”. Finalmente. A isto, junta-se outro factor: migrações de públicos. Independentemente de como se vive o novo ar noctívago urbano, o sentimento predominante é o reconhecimento da mudança. Presenças assíduas e crescentes, em momentos, timidamente, confundidos com oferta cultural de elite. A festa faz-se na rua, estende-se a outras ruas, ganha novos contornos. Respira-se sangue novo. Sai-se para se ver e serse visto. Vestem-se atenções e passeiam-se vaidades. Tudo pela cultura, essa bela cultura. A cultura que se despe, restando o entretenimento e/ ou confundindo-se com lazer. Entretenimento vestido de cultura. O Monstro disfarçado de Bela. A propósito, há praticamente um ano, Desidério Murcho na sua “habitual crónica das terças-feiras” de um jornal, intitulou de “A Alegria da Caserna” uma reflexão sobre essa Dona Besta Cultura. Citando: “Para o aristocrata, a cultura é como o mijo para os cães: serve apenas para demarcar territórios. Até coisas banais (…) são vistas pelo aristocrata como instrumentos de demarcação territorial. Mas há coisas mais importantes na vida do que isto. Nomeadamente, a cultura — que não devia ser vista como instrumento de opressão social, mas como algo que vale por si.” filipa mora

Últim(o)acto. Let’s put things straight.

Devaneios

E antes que te convencas do contrário, deixa-me dizer que não sou uma principiante nestas coisas do amor. Os meus vinte anos são tenros e cheiram a leite, mas levam ás costas outros tantos de batalhas até á morte e duelos de titãs. Este jogo do silêncio e dos travões a derrapar no gelo , já eu o fiz há muito tempo, sem armaduras nem capacetes, chagas feitas corpo. Este braço-de-ferro cordial, de irritações mudas e conversas ofendidas, é-me tão familiar como o afecto a meio-gás que proporciona. Uma festa, mas só ás vezes. Um abraço quando for conveniente. Um beijo aqui e ali, a ter a certeza que é bem-vindo e não deixa mácula, cuidado que alguém vê. Todas as estratégias de não-fazer e não-dizer, já eu pus em prática mil vezes, ensaiadas e estudadas ao pormenor, dissecadas em frente ao espelho. Não matam, mas vao moendo, até reduzirem a pó o gineceu de qualquer flor, por mais que esta queira vingar. Como te disse, eu não sou principiante nestas coisas do amor. Palavras ácidas e díficeis, como-as eu ao pequeno-almoço, de cara lavada e sorriso no rosto, costas prontas para o açoite verbal. Na verdade, sou é meia-mulher meio-bicho, uma fera ferida como dizia o outro, que morre de medo de outra surra. Maria Teresa Coutinho


JUP Novembro 2009  

Capa: Admirável Porto Novo: fenómeno sociológico ou ilusão noctívaga? Jornal da Academia do Porto Ano XX Publicação Mensal Distribuição Gra...