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ILUSTRAÇÃO DE PAUL MENNEA


Pensativa, Paula mastiga um pão com queijo. Sentada ao lado de Cinthia, veste um roupão branco e chinelos cinza, mira o horizonte azul ensolarado daquela manhã com olhos nervosos e distantes. “Já te mostrei essa revista?”, Paul Snake, o diretor, aparece atirando a última edição da Sexxy World em seu colo e resgatando-a de sua contemplação solitária. “Ontem coloquei o pôster na parede do meu quarto, na frente da cama”, prosseguiu pontuando com sorrisos provocadores e apontado para a foto sensual de Paula, em página dupla, no meio da revista. “Eu colocaria na parede do banheiro, pra facilitar”, brincou César enquanto organizava os equipamentos de fotografia. “Nada disso! Assim, quando eu acordar no meio da noite, não perco tempo. É só olhar pra Paula Galvão, A Felina do Pornô, ali, me encarando, e exercitar a mão”, completou Snake já um pouco entediado com essas mesmas piadas preliminares de sempre, mas sempre regozijado pelo poder de lograr um sorrir tímido porém satisfeito no canto dos lábios das atrizes que, como Paula, deixam o desejo dos homens acariciar seu ego.


“Puta merda, mas que banda chata!”, mudou o assunto Eddy, o programador de som, referindo-se à música Sabo, do Hurtmold, cujo o clipe rolava numa TV postada logo acima da porta que divide o quarto e suas intimidades da área aberta, onde estávamos espalhados ao lado da mesa, molhando os dedos na hidromassagem e imaginando possibilidades na cama d’água. A equipe conversava frases bocejadas sobre as músicas do Los Hermanos, e apesar do tácito que eram aqueles verbos, Eddy os conjugava como uma conexão melancólica entre os acordes que ressoavam na TV e os argentinos do Gotan Project. Naquele dia, tudo lembrava a Argentina para aquele gordinho de barba old dutch e negros cabelos compridos. Seus pais são portenhos e por pouco não embarcaram nos aviões assassinos de Videla, que decoraram os céus do Atlântico bombardeando o mar com morte e lembranças. Escaparam silenciosos para o Brasil que, da mesma forma, era território pouco seguro para um comunista ortodoxo como o pai de Eddy. Do arcabouço pouco libertário onde se constroem comunistas xiitas veio também este senhor, que só permitiu um aparelho de televisão em casa quando Eddy, contra suas ordens, postou uma caixinha de 12 polegadas no centro da


sala. E no epicentro de sua rebeldia adolescente de 15 anos. Hoje, 18 primaveras depois, é estudante de rádio e tv e programador de som em produções pornô. Seu pai desiludiu-se com a revolução. Sobre a mesa de mármore havia dois pacotes abandonados de Toddy litro, todos preferiam a Coca-cola e os sucos de pêssego que, segundo Cinthia, a maquiadora, combinam bem com o bolo de baunilha que já beliscavam desde as 10h30 da manhã. Kid Jamaica era o único realmente isolado, deitado na cama onde poucos minutos depois atuaria, concentrava-se assistindo um pornô do leste europeu. Era preciso aprender com os melhores. Assim que Cinthia disse a Paula que já era hora de maquiar-se e as duas caminharam até o quarto em frente, Kid foi tomar um banho. Apesar de seu porte musculoso, negro de traços fortes e pau de 26 centímetros, movimenta-se com timidez e delicadeza quando não está no vaivém impiedoso das estocadas. Mesmo após 11 anos de carreira permanece bastante retraído nas primeiras horas, enquanto a equipe organiza o cenário e pensa nas angulações.


Foi essa mesma timidez que o levou para o pornô, na época tinha 22 anos e lia fielmente a Revista Brazil para exercitar a mão e esporrar no ralo, já que galanteios nunca foram seu forte. A introspecção não permitia soltar-se nem com tragos e outros tragos duplos, aos 20 anos ainda era virgem. Decidiu ir até a Rua Augusta e pagar por sexo. Hoje, quem é pago é Kid. “Eu entrei por dinheiro e para comer mulher, por que nunca peguei ninguém na balada, todas as minhas relações vieram através de amigos, mas nunca cheguei numa menina, nunca tive lábia. Então liguei para o diretor da Brasilerinhas, ele marcou uma reunião comigo e pediu pra eu levar uma foto de pau duro. Levei a foto no dia seguinte, eles gostaram, fizeram o teste e comecei”, relembra Kid, que na época era apenas Marcos Aurélio Machado do Amaral, um rapaz acanhado que até aquele encontro havia usado apenas uma única vez seus invejados centímetros de pinto. Enquanto Kid relembra sua história, Osmar prepara uma dose dupla de uísque com muito gelo para que Paula relaxe. “Minha primeira cena foi com duas mulheres, pela Nacional Brasil”, prossegue Kid, “era uma loira e uma ruiva, lindas, eu nem acreditei, tanto que quando começou a cena, no oral, quase


gozei. Mas já na primeira penetração não aguentei mais de cinco segundos. O diretor ficou nervoso, ficou puto, mas me deu uns minutinhos pra eu me recompor. Então fui no canto com a ruiva, ela me ajudou e logo estava duro novamente, por que é mais fácil se recuperar quando não tem ninguém olhando, ainda mais um cara tímido como eu”. Kid pretende encerrar sua carreira de ator em breve, pensou nisso quando nasceu o primeiro filho, há oito anos, e o desejo de ter outra profissão intensificou-se quando nasceu a caçula. Internet não existe em sua casa, ele acredita que quanto menor for a facilidade para sua esposa acessar as cenas, menor será, da mesma forma, a repulsa. Ele pretende terminar de pagar seu apartamento até o final do ano e então aposentar-se. Por opção, nunca por paumolecência: “o problema é que não sei fazer outra coisa da vida, e sou muito bom no que faço”. Osmar termina de esticar os lençóis e interrompe Kid alertando para que se apresse pois Snake quer começar a gravação em breve. O álcool deixou Paula descontraída, falante, faceira. Ela é daquelas mulheres que priorizam a carreira, afinal, não se pode ser uma grande executiva ou uma estrela do pornô colocando o amor afrente da putaria. É preciso foder. Por isso não bebe muito, quase não


sobra tempo em sua agenda para relaxar ou namorar. Uma dose dupla de uísque em pequenas bebericadas basta. Enquanto Kid sai do banho tentando secar-se rápido para que as gotas não molhem a cueca, no quarto em frente Cinthia colore as pálpebras de Paula em tons violeta e rosa pausando sempre que uma coleira, um chicote ou guilhotina roubam-lhe a atenção, ela está nesse ramo há apenas alguns meses, decorações masoquistas são novidade. Natural é a cumplicidade quase instantânea que conquista das atrizes: “Ele é muito grande?”, apesar de ser apenas a terceira cena de Paula, e Kid o maior pau que veria até então na vida, ela não parece preocupada, puxa assunto para passar o tempo. “Olha, é sim”, responde Cinthia com sotaque paraibano, e com a experiência de quem já viu Kid ereto e em ação. “Então acho que não vou fazer anal”, respirou e levantou-se ainda pensando no assunto, “vamos ver como a cena vai rolar”, comentou antes de entrar num biquíni de oncinha preto e cinza, com contorno roxo, e partir para as fotos.


Kid permanece o lado de fora a fim de deixar Paula mais a vontade, passa o Rexona como um conhecido ritual, gargareja Listerine e senta-se para ler a página sete do jornal Destak sem qualquer preocupação com o fato de que o MEC reunirá os reitores das universidades federais para propor o fim dos vestibulares. Que porra é essa? Eles nunca haviam se visto antes e agora estão na mesma cama. Paula acaricia os 26 centímetros de Kid que, ainda um pouco moles, vão endurecendo entre os dedos que o apertam cada vez mais forte. Não é propriamente um “vício”, a intensa empatia entre ator e atriz que faz ambos estenderem ou anteciparem o melhor das cenas bem longe do diretor. Antes de tudo, Paula faz um mimo necessário, uma excitação imperativa. “Nossa! Já são 11h50, o tempo voa quando a gente está trabalhando”, comenta Paula buscando uma interação que não apenas tátil, e raspa a unha do indicador na glande de Kid aguardando uma reação libidinosa. “Quase meio-dia… o tempo voou mesmo”, ele se aproxima um pouco mais para que Paula consiga manuseá-lo melhor.


“Ouvi você comentando que é casado…”. “Sou sim, faz nove anos já, minha esposa é carioca”, responde a medida que apalpa os seios de Paula por debaixo do tecido arrancando dela um leve suspiro. “E sua mulher não liga?”, o bico de seus seios excitam-se antes mesmo de Kid tateá-los delicadamente com a ponta dos dedos. “Ela não gosta muito, é meio ciumenta, como eu. Mas quando nos conhecemos eu já era ator, a gente se conheceu e dois meses depois já estávamos morando juntos. Estava no início da minha carreira ainda, agora trabalho na Europa também, já faz cinco anos”, Kid retira a mão com cuidado e ajusta o biquíni para que cubra todo o seio. “Na Europa?!”. “Principalmente em Praga e na República Tcheca. O cachê lá é uns 30% maior e eu consegui fazer carreira solo, sou um dos poucos”, conta com orgulho e todos seus centímetros endurecem definitivamente. “Nossa, que legal, e como isso aconteceu?”, ela parecia interessada, Kid também, seu pênis latejava sutilmente e Paula o agarrava e massageava com mais firmeza agora. “Fui pra lá por indicação de um ator amigo do Rocco Siffredi, o Franco Roccaforte, depois que a


gente trabalhou junto numa produção do Titi Boy. A gente é amigo até hoje”. “Eu também tenho um namorado”, disse rebobinando o assunto e sentindo as mãos de Kid novamente em seu corpo, “ele é português, vem me ver a cada dois meses mais ou menos”, o membro de Kid pulsa à medida que Paula aumenta a velocidade dos movimentos, “ele deve chegar em Goiânia no próximo final de semana, é por que eu sou de lá, meu filho também mora lá, com minha mãe”. “Ah… você também tem um filho?! Que legal”, Kid desliza a mão pela barriga de Paula e toca seu clitóris sobre a calcinha. “Vamos começar a cena, pessoal”, Snake interrompe o papo pedindo atenção, permanecera calado todo o tempo demorando-se na escolha dos ângulos para que os atores se conhecessem um tanto. Todos ficam em silêncio quando Eddy explica: “os microfones são sensíveis, nem um pio”. Paula contorna a circunferência do pau de Kid com os lábios e lambe-o devagar de baixo para cima deixando que a saliva se acumule e crie teias qual um caminho de volta por onde a boca devolve-se ao pau encharcando-o. Kid segura-a pelos cabelos


enquanto bate com todos os 26 centímetros em seu rosto arrancando leves gemidos, que soam como palavras mágicas fazendo a mão negra relaxar para que Paula roce e sinta nas bochechas o sangue circulando ligeiro e quente pelas veias do pau, que ela percorre com a ponta da língua até encontrar as bolas e suga-las de olhos abertos. Kid pede para que Paula deite-se e abre suas pernas com violência expondo o úmido que escorre pelas virilhas e inebria a todos. As mãos brandem as coxas em angulações tão oblíquas que os grandes e pequenos lábios afastam-se confundindo em profundidade e secreção os tons de vermelho e desejo da boceta. Ele aproxima-se inspirando com volúpia aquela temperatura antes de banhar a lentas lambidas e cuspidelas toda a vulva para então pressionar o clitóris com a ponta da língua, indo e vindo rapidamente. A mão esquerda de Paula empurra a cabeça de Kid para que a direita esprema os seios fazendo o bico insinuar-se ouriçado entre o indicador e polegar. Paula geme qualquer pudor que ainda a amarre. Kid sobrevoa o umbigo de Paula e a segura pelos ombros impossibilitando qualquer escapatória. Após rápidas estocadas de reconhecimento, lentas e


suaves, para que a boceta possa molhar-se com as investidas de Kid e inquietar todo seu pau, Paula já está de quatro e Kid agarra-a pela cintura resvalando a cabecinha pelas pregas até acomodar-se entre as nádegas, convidando Paula a abri-las com as mãos enquanto raspa os peitos no lençol. À medida que Kid empurra o pau afagando-a por trás, Paula grita intermitente, porém alto, a glande raspa o esfíncter e, sem gel algum, desliza para dentro suavemente. A dupla se esforça em interpretações e grunhidos extremos, posições clichês que Paula consegue colorir com desconcertantes reboladas que em nada lembram uma novata. Logo ao lado, a equipe conversa sobre o cardápio do almoço. Decidem por salmão na manteiga, camarão na abóbora, batata frita e rondelli de parmesão. “Ok, valeu”, Snake aperta o pause, respira, e como se toda a excitação da cena desaparecesse com o vibrar de sua voz, os atores silenciam e viram-se para ele concentrados, aguardando novas ordens. “Tudo bem, Paula, agora é a parte final, vamos fazer um esforço, como ontem a noite lá em casa, no quarto”, e dá uma piscadela para depois sorrir.


“No quarto, na sala, na cozinha, no armário”, descontrai Eddy. Paula senta-se na cama, está cansada mas confortável como centro das atenções, por isso resolve entrar na brincadeira: “Se o assunto for sexo em lugares estranhos, eu já tenho história, fiz meu filho no estoque da loja”. Isso pode ser verdade, ela teve algumas experiências nos fundos de uma loja em Goiânia com o pai de seu filho, na época gerente do estabelecimento onde era vendedora. Naqueles idos Paula era somente uma jovem universitária, cursava Letras e trabalhava no shopping Flamboyant. Seu primeiro emprego foi aos 17 anos como vendedora, passou então por várias lojas até tornar-se, aos 20 anos, gerente da Triton, onde permaneceu um ano e meio. Quatro anos depois o marasmo da capital goiana levou Paula a rumar para o Rio de Janeiro em busca de novos horizontes, desta vez mais agitados e menos provincianos. Espreitou a carreira de modelo durante meses até que, em janeiro de 2009, seu telefone tocou. Era um representante da Sexxy World convidando-a para estrelar um filme pornô, e só então Paula recordou a boa participação que teve no concurso Felinas, ainda em 2002. Ela topou, mas havia um problema: seu namorado.


Eles se conheceram no Carnaval de 2007, em Florianópolis, foi uma paixão arrebatadora. Mas ela estava decidida, aquela parecia uma catapulta para os negócios de uma mulher que, como ela, sentia-se feliz e feroz na cama, artista ao manobrar um pau e contorcer-se no ritmo do homem por instinto e vocação. Assim, quando seu namorado chegou no Brasil, ela já estava com o contrato assinado. “Ele percebeu que tinha alguma coisa estranha, por que eu não conseguia agir normalmente”. Era uma noite como outra em que a novela das oito furta a atenção de todos, Paula aproveitou o ensejo e brincou: “o que você acharia se eu fosse uma atriz pornô?”. Ele deu de ombros e respondeu sem tirar os olhos da televisão: “jamais! Mulher minha não faz essas coisas”. Porém, depois de três dias Paula teve de pronunciar as palavras de onde nada, na história da hombridade, algo de bom surgiu: “Precisamos conversar”. Atônito, porém interessando, o namorado de Paula escutou todos os detalhes do contrato e como naquela assinatura ela depositara grande parte de seus sonhos e esperanças. “Falei também que o único jeito de voltar atrás era pagando dez vezes o que me pagariam, mas que era minha chance de saldar algumas dívidas, dar um jeito na minha vida financeira. Conversei muito com ele, ficou assustado, triste, chateado, mas agora


aceitou”. Eles continuam o namoro com um oceano de distância temperando o amor. A única nova cláusula no relacionamento é que ele não quer, de forma alguma, assistir às cenas. No mais, até a incentivou a assinar novos contratos caso surjam oportunidades. Snake estava com pressa: “Vamos finalizar a cena anterior, mas passamos para o vaginal de quatro por que preciso dar uns closes. Então, Jamaica, depois que eu der o sinal é contigo”, e poucas estocadas depois, acenou. Kid então acelerou os movimentos e Paula apenas pensava em fazer tudo certo, gemer como uma descontrolada, rebolar, aguentar firme aquele pau enorme que entrava e saia completamente para voltear-se um pouco de lado atacando a boceta em todos os flancos, com força e intensidade suficientes para que não fosse preciso refazer a cena. Isso é tudo que uma atriz em seu terceiro filme pode pensar neste momento. Paula foi convincente e logo o jato de Kid esguichou em seus lábios entreabertos, como um pêndulo grudou-se ao queixo e escorreu um pouco pelo pescoço, quente, espesso e num tom pérola.


Alterado pelas fortes contrações da próstata, Kid urrou e, entre suspiros altos, perguntou: “Que gosto tem? Que gosto tem?”. “Uhmmm… de caju”, respondeu Paula, de joelhos. “É mesmo?”, prosseguiu ainda revirando os olhos. “É, é bem docinho”, não era, ela sabia, o sabor lembrava manteiga com sal, mas ela queria que tudo desse certo, mais um dia de trabalho terminasse e ela pudesse voltar para casa pagar as contas, assistir televisão e dormir. Então Snake anuncia: “Corta! Fechamos, perfeito pessoal”, ele estava suado, era o mais próximo das luzes quentes. Os dois atores sorriem e relaxam. Paula se dirige para o chuveiro enquanto Kid a segue sentindo os músculos amolecerem e abrindo a torneira da pia. “Então quer dizer você tem mesmo um filhinho?”, retoma a conversa, Paula. “Na verdade são dois, um casal…”, responde seguindo a prosa.


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As cenas do quarto 41  

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