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JÚNIOR BUFFONI DIAS ETERNOS

Chiado Editora


Brasil | Portugal | Angola | Cabo Verde

“Não se pode ensinar coisa alguma a um homem; apenas ajudá-lo a encontrá-la dentro de si mesmo.”

(Galileu Galilei)


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E

Dezembro de 2008

ra sábado à tarde estava especialmente quente. Escaldante, mesmo à sombra. Eu conversava entusiasmado com o Willian sobre a partida de tênis que fazia pouco havíamos jogado. Era sábado e isso se passava na sala de estar da casa em que eu morava. Enquanto conversávamos percebi que ele estava fascinado pelo painel a óleo que havia na parede à nossa frente. Seus olhos esverdeados fixaram-se nele. Comprimia as pálpebras e meneava de leve a cabeça, parecendo buscar associar os traços da pintura, que não era exatamente figurativa, mas que, com técnicas abstracionistas formava sim uma figura: a de um rapaz sentado, com as pernas à frente do corpo, e um de seus braços sobre o ombro de um menino de cabelos dourados e cacheados, que mais pareciam cabelos de um querubim. Percebendo seu interesse, também mirei a imagem, e permaneci silente. Mas encarar aquela tela significou reviver um tempo intenso, não muito distante. Atrás daquelas pinceladas existia uma história, mas não qualquer história. Era a história da minha vida e da vida de pessoas que não posso esquecer. – Linda essa pintura, Klaus... Não me leve a mal, mas é você não é? – Sim, sou eu. Respondi com os olhos baixos, tentando um sorriso. – Lembra muito você mesmo. E quem é o menino sentado ao seu lado? Eu já vi esse menino em algum lugar... Voltei a fixar o olhar na tela, mergulhado em seus traços... Eis que o óleo criou vida. Pude ver o menino pulando pela casa,


gargalhando, soprando sua inseparável gaita de boca, depois de braços cruzados, depois de beicinho, como fazia quando era contrariado. – Quem é o menino? Aquela pergunta ecoou distante, meu pensamento insistia em voltar no tempo. – O menino? – alcei as sobrancelhas com ar alegre. Fui até a varanda, que dava para o jardim dos fundos. Era como se o visse lá pedalando, sorridente, me mostrando como conseguia guiá-la sem as mãos. Sorri mais ainda. Aquele sorriso, mesmo sendo fruto de uma lembrança, foi contagiante. Voltei à poltrona. Willian acompanhava meus movimentos com a cabeça, sem entender a razão de sua pergunta ter me feito sorrir e me calar ao mesmo tempo. Voltei a mergulhar os olhos na tela. Existem dias que a gente nunca esquece. Dias que, embora fiquem cada vez mais, distantes no tempo, permanecem intactos em nossa memória. Basta o passar um relance deles por nossas mentes para alargarmos o sorriso. Outras vezes sentimos o coração acelerar ou, até mesmo sentimos os olhos umedecerem. São dias eternos, porque neles estiveram pessoas e emoções inesquecíveis. Fevereiro de 1996 A história do menino da tela e tudo que ele trouxe, começou na sexta-feira do Carnaval. Eu era ainda um menino ou, propriamente, um adolescente. Tinha quinze anos e não era de muitos amigos. Tímido, caseiro e de pouca fala, mas de muitos pensamentos. Naquela época meus pensamentos ficavam retidos, raramente eu os expunha. Só conversava com Minh’ alma. O apartamento de Renato era na época um dos poucos lugares que minha mãe me deixava frequentar, ali eu continuava sob seu alcance. Renato e eu éramos amigos desde a primeira infância, morávamos no mesmo prédio desde sempre. Estudávamos no mesmo colégio e, lógico, jogávamos futebol juntos. O Renato era um ano mais novo do que eu, usava aparelho ortodôntico, e colecionava odiosos cravos e espinhas pelo rosto. Na noite de carnaval fui dormir na casa dele, jogar videogame. Naquela semana seus pais haviam viajado, o deixando sob os cuidados de Ana, uma prima mais velha. Ela apareceu por volta das duas da manhã. Ainda estávamos acordados, esquecidos da hora em frente àquela TV.. Vendo os desfiles das escolas de samba, encantados com as rainhas de baterias. Ana trouxe consigo uma amiga. Levantei a cabeça devagar para aquela moça de longas cabeleiras e rosto angelical, eclipsado pelos incríveis olhos verdes. A pele alva, os lábios grandes: substanciais. As pernas torneadas, tampouco passaram despercebidas. Ela foi a


primeira pessoa que o menino trouxe para minha vida, mesmo ele vindo só algum tempo depois. Ana nos apresentou sua amiga. Não disse seu nome, me deixando curioso e apatetado com sua presença. Ela subitamente sentou-se entre nós no sofá e colocou o pote de pipocas em seu colo. Um perfume almiscarado invadiu tudo, me deixando hipnótico. Abobalhado, na verdade. – Qual seu nome? – Perguntou me olhando. – Klaus Senti meu rosto arder e, mesmo estando sentado, minhas pernas tremiam. – Bonito seu nome, soa forte. Conheço um Klaus, mas é alemão. – Sim, Klaus é o nome do meu avô, ele é alemão – respondi raspando os polegares. – Legal! Prazer! Meu nome é Kelly Verônica, mas todo mundo me chama de Verônica. Finalmente soube seu nome. Levei a mão ao encontro da dela, senti seu calor e senti o calor brotar dentro de mim. Procurava desviar meu olhar dopar de esmeraldas que ela tinha como olhos, tentava interação, mas o acanhamento me torturava. Verônica parecia confortável e segura. Sentou cruzando as pernas, deixando à mostra parte das coxas. Insistia em manter a conversa: – Você mora no prédio? – Sim, no décimo segundo – respondi me esforçando pra não gaguejar, fitando o chão arregalado. Renato esboçou um sorriso debochado pela maneira apalermada que respondi. – Você faz o que? Qual é a sua idade? – Faço colegial, e... tenho quinze anos – respondi erguendo indeciso os olhos do chão. – Quinze aninhos? Parece ter mais! – Disse isso com um olhar morteiro. Seguiram outras perguntas, descobri que ela tinha vinte e cinco anos e morava sozinha. Até que elas saíram da sala. Isso me deu um conforto. Não me incomodava sua presença em si, mas fiquei sem jeito, ela parecia forçar intimidade e eu era tímido. Sua presença acelerava o meu coração e tremulava as minhas pernas. Tudo em poucos instantes, com poucas palavras. Renato não conteve o riso ao comentar meu comportamento. Disse que elas poderiam estar rindo de mim naquele momento. Eu sabia que havia ficado mexido com a presença de Verônica. Mas até então a via apenas como uma presença feminina notável. – Vamos dormir aqui Renato. Não tem problema? – Gritou Ana do quarto. – Não! Você está aqui pra isso. Pouco tempo depois nos preparávamos para dormir. Ainda estávamos na cozinha, tomando leite, quando desinibida Verônica surgiu com uma camisola curta e transparente. Ela se aproximou de mim e fechou o último


botão do meu pijama. Quis dizer algo, mas a voz não me saía da garganta. Quando cruzávamos a porta entre a cozinha e a sala de jantar: – Meninos, poderíamos tomar sol amanhã na piscina do prédio, o que vocês acham? – Sim, a que horas? – Falou Renato com os olhos saltados. – Não sei, estou meio resfriado – respondi inocentemente. Foi o que me veio à mente. Aquele fechar de botão no meu pijama me aterrou. – Mas até amanhã você estará melhor – retrucou Verônica. – Saudável é o sol antes das dez. E vocês tem uma piscina ótima aqui no prédio. Renato concordou e fomos deitar. Em geral nossas conversas antes de dormir eram sobre as meninas do colégio... Mas de repente todas pareciam sem graça. Depois de eu ter visto Verônica, que até no piscar de olhos ela emanava sensualidade, minhas colegas de aula pareceram insossas. Não consegui pegar no sono. Fiquei pensado em Verônica, que colocou as mãos em meus joelhos, fechou o último botão do meu pijama. “É bem mais velha do que eu, tem vinte e cinco anos, dez a mais. Como é linda, que corpo ela tem”, mas ao mesmo tempo pensava: “Está apenas sendo simpática. Apenas isso”. No dia seguinte fomos acordados por Ana, que já havia preparado o café-da manhã. Verônica nos aguardava na piscina. Subi ao meu apartamento para colocar uma sunga. Acabei colocando um calção que cobria as pernas até os joelhos. Olhei-me no espelho sem camisa, contrai o bíceps. Eu não era muito magro, mas também não era forte. Era apenas um adolescente, sofrendo as adaptações da idade, e explosões de hormônios. Com ar envergonhado desci. Ao longe vi Verônica em seu minúsculo biquíni, mostrando para Ana as marcas do sol na parte superior de sua nádega. Diminuí os passos, abaixando a cabeça, não sabia para que rumo direcionar meu olhar.Entrei na água. O tempo voou e minha timidez foi se desfazendo aos poucos. Eu já conversava com Verônica sobre alguma coisa. Às vezes de cabeça baixa, às vezes não, mas nunca olhava nos olhos dela. Verônica me pediu para passar óleo bronzeador em suas costas. Eu tocava sua pele suavemente, ardendo em vergonha. Ela insistia para passar com mais força, mais em baixo... Aquilo deixou meus hormônios em erupção. De repente elas se retiraram. Disseram que iriam almoçar com um amigo. Dessa vez Verônica se despediu de mim me beijando o rosto. O que me fez encolher a cabeça entre os ombros, e abrir um sorriso. À noite fui à casa de Renato na esperança de vê-la. Mal prestei atenção no filme, que até hoje não lembro qual foi.


Meu pensamento estava nela: “Onde estaria? Com quem estaria?” Relances das poucas horas na piscina invadiam meus pensamentos involuntariamente. As horas passaram. Era madrugada quando eu me revirava na cama e finalmente ouvi o burburinho que fizeram quando entraram alegres, tropeçando em objetos. Olhei no relógio: quatro horas. Ajeitei-me na cama e fingi dormir. Elas espiaram nosso sono e comentaram sobre mim no corredor: – O Klaus é bonito, tem corpo de homem, sobrancelhas grossas, cabelo bagunçado... – Ele é criança, um bobão – retrucou Ana rindo, o que fez Verônica rir mais alto. – Mas tem as pernas grossas, os ombros largos, uma sombra de barba no rosto... Será que é virgem? – Ele é criança, por favor – retrucou Ana. – Tem só quinze anos. Não deve saber nada. – Pode até ser. Mas você já viu o tamanho das mãos dele? Parecem esculpidas em marfim, com um pouco de treino darão uma boa pegada. Um virgem vai ser bom para o meu currículo. Ambas gargalharam rumo ao quarto em que dormiriam. Fiquei incomodado com o comentário de Ana, mas importava mesmo o de Verônica, que era o que eu precisava ouvir para alimentar minha ilusão, que germinava leve e doce. Mal dormi naquele resto de noite, pensando em suas palavras. Enquanto isso ouvia os sons da cidade. São Paulo nunca parava, mas à noite a cidade e seus sons eram agradáveis, diferente do movimento frenético do dia, me levantei e fui à janela olhar as luzes, os faróis coloridos que iam e vinham. No domingo pela manhã levantamos cedo e deixamos as duas dormindo. Nessa época, meus pais, Sophia e eu íamos ao sítio um domingo por mês visitar meu avô Klaus. Eu gostava das visitas, os avós maternos imigrantes italianos, não conheci. A avó paterna alemã; pouco me lembrava, mas do avô jamais esqueci. Uma mistura de raças, como a maioria das famílias brasileiras, nos traços e nos sobrenomes, Frateschi e Becker. Fisicamente eu me parecia com minha mãe, nos cabelos e nos olhos escuros, mas recebi o nome do avô alemão. Sophia, os olhos verdes e cabelos louros de meu pai, e tinha nome italiano. Quando chegamos ao sítio meu avô nos esperava sentado em sua cadeira de balanço na varanda, com a perna cruzada em uma diagonal alinhada. Seus imensos olhos verdes brilhavam ao nos ver. O conhecíamos de longe pelos olhos e o ralo contorno de cabelos brancos na cabeça. Renato e Sophia me chamaram para uma corrida de carrinho de controle remoto na varanda, me irritou esse convite. Meu avô, que ouvira nossa conversa, sentado em sua cadeira na varanda ergueu os olhos por cima dos óculos direcionando o olhar a mim: – Klauzinho já está um homem, é normal que não queira brincar – disse com ar de riso.


Meu avô tinha sotaque forte, arrastava os erres e não pronunciava o til das vogais, enrolava a língua dando ênfase a L. Mas se esforçava para falar português da maneira mais correta possível. – E jogar xadrez? – Perguntou Sophia. – Também não quero – respondi enrugando a testa. – Mas xadrez é um jogo para adultos. Eu já fiz parte do Clube de Xadrez, há muitos anos. Ganhei muitos troféus – respondeu meu avô. – Sério! –Sophia correu para seu colo ouvir suas narrativas. Nelas ele sempre era um herói, o que nos fascinava. Principalmente à Sophia que na época tinha doze anos. Renato e eu acabamos por jogar xadrez na sala, enquanto Sophia ouvia as proezas de meu avô. Perdi o jogo, lógico. Eu só pensava em Verônica. Meu avô vez ou outra me encarava com um sorriso, percebendo minha estranheza. Não foi demorada a visita ao sítio. Foi uma visita ao meu avô, visita de domingo, com direito a almoço na sala de jantar, conversas animadas, muitas histórias que ele e meu pai contavam entre sorrisos sinceros e contagiantes. No caminho todo de volta, imagine? Eu pensava só nela. Quando me perguntavam algo eu respondia com atraso, respostas inadequadas. A mãe de Renato fez contato com a minha dizendo que voltaria na quarta-feira. Novamente fui dormir na casa dele, mas dessa vez fui surpreendido. Verônica e Ana estavam lá, assistiam a um filme. Verônica se levantou do sofá, piscou para Ana e me cumprimentou, me dando um beijo no rosto e se mostrado eufórica com minha chegada. Disse que me esperava para comprarmos cigarros. Ana poderia ter ido com ela, pensei. Pensei, mas não falei. Renato fez menção de ir junto, mas ela foi rápida: – Só vamos comprar cigarros, e a Ana vai quer conversar com você... Renato era afeiçoado a Ana, aceitou logo. Verônica pegou a bolsa e um molho de chaves. Ao entrarmos no elevador ela apertou o botão da garagem. O carro vermelho era modesto, fora de linha. No seu interior havia roupas e calçados espalhados pelos bancos, e uma bijuteria pendurada no espelho. Assim que se acomodou no carro Verônica retocou seu batom com ajuda do retrovisor. No caminho falamos pouco, eu ainda não a olhava, a timidez me mordia. Naquele momento pensei em ser menos tímido, fazer alguma insinuação, mas me faltou a coragem. Verônica me apontou seu prédio. Resolvi enfrentar a timidez. Soltei o cinto de segurança e abri a porta dela antes que ela abrisse. Ponto pra mim. Ela apenas me olhou com um sorriso no canto dos lábios e com uma sobrancelha içada. No prédio não havia porteiro. Atravessamos uma grande porta antiga de bronze.


Adentramos ao pequeno saguão e palmilhamos a enorme escadaria em madeira, que rangia a cada degrau que pisávamos. Ao subir ouviam-se burburinhos, risos e um cheiro forte de comida, especificamente de alho queimado. Ao fim de quatro lances de escada nos deparamos com um corredor estreito, crivado de portas. –Sem dúvidas, esse prédio é do período entre guerras. Adoro essa arquitetura – disse eu puxando assunto. Verônica se dirigiu ao número vinte. Abriu a porta e me pediu para entrar e não reparar na falta de espaço. Realmente, não era espaçoso. Um exemplar de um dos primeiros prédios de quitinetes. Uma saleta com estofados de alvenaria, que ali eram cobertos por almofadas coloridas e uma minúscula cozinha dividida por um balcão. A porta de acesso ao único quarto ficava ao lado. Fiquei em pé enquanto Verônica fechou a porta de entrada com duas voltas e estalou o trinco. Dirigiu-se ao quarto, deixando pelo caminho a bolsa, as chaves e as sandálias. – Venha aqui – disse virando-se de costas, pois eu continuava parado próximo à porta. – Estou bem aqui – disse eu começando a entender o que ela faria em sua casa e comigo. Por mais que eu desejasse aquilo, sentia medo. – E o cigarro, você não vai comprar? – Disse e voltei meus olhos para o chão. – Tenho cigarros. Venha, relaxe, sente-se aqui na cama. Ela me puxou gentilmente pelo braço, me fazendo sentar em sua cama. – Bebe? Devo ter vinho, não é grande coisa, mas... – Eu bebo às vezes com amigos – Menti titubeante. Achei necessário mentir, não queria que ela me achasse infantil. Foi inútil, eu era infantil. Verônica serviu duas taças de vinho e me ofereceu uma. Peguei-a entre os dedos, imitando Verônica. Quando aproximei a taça das narinas o cheiro do vinho me causou náusea, mas acabei por forçar alguns goles. Logo senti o corpo relaxar. Começou pela nuca, atravessou a coluna, deixando por fim minhas pernas leves. – É bom? Ela entornou o vinho de sua taça e a deixou em uma mesa de cabeceira ao lado da cama. Retirou algumas roupas que estavam espalhadas sobre a cama e ligou a TV. – Que ver algo? – Perguntou enquanto caminhava sobre a cama sobre seus joelhos. – O que você quiser. Naquela noite os ventos sopravam para que aquele encontro se tronasse mais íntimo, e eu ser levado. Verônica continuava atrás de mim, de joelhos. Eu sentado na cama raspando os pés no chão, de olhos estatelados. Ela tomou a taça de minha mão e colocou junto da sua. – Quer uma massagem? – Disse fungando sobre meus ombros. – Pode ser – Foi tudo que consegui responder.


– Tire a camiseta e deite de bruços. Ela começou a massagear meus ombros, descendo sobre as costas. Meu coração galopava em batidas que estrondavam meus ouvidos, minha respiração ficou ofegante, mas era bom. – Por que não se vira? – disse com os lábios próximos à minha orelha. Imediatamente me virei, ela sentou pouco acima dos meus joelhos, encostou seus lábios nos meus e nos beijamos. Introvertido a envolvi suavemente em meus braços. Seus lábios tocaram meu pescoço, meu peito... Terminou de me despir despindose. Primeiro me fixei em seus seios com as marcas do biquíni. A vontade que tive de vê-los na piscina se concretizava, mas parecia sonho.

Júnior buffoni  

"Existem dias e pessoas que a gente jamais esquece"

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