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a cidade para as pessoas, a arquitertura como interface centro de artes e ofĂ­cios no centro de SĂŁo Paulo


UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE FACULDADE DE ARQUITETURA E URBANISMO julyana gama wlassow

A CIDADE PARA AS PESSOAS, A ARQUITERTURA COMO INTERFACE centro de artes e ofícios no centro de são paulo

são paulo / sp 2018 3


Trabalho final de Graduação apresentado à Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie como parte das exigências para a obtenção do título de Bacharel em Arquitetura e Urbanismo. Orientador: Prof. Dr. Rafael Manzo

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agradecimentos

Agradeço primeiramente aos meus pais por sempre me incentivarem à seguir meus sonhos, me apoiarem nos momentos dificeis e acreditarem em mim quando nem eu mesma acreditei. Por terem feito o possível e o impossível para que eu pudesse buscar o meu futuro. Agradeço minha mãe por todas as horas de dedicação me ajudando a concluir maquetes. Agradeço ao meu namorado pela paciência durante os períodos de maior estresse, pela compreensão com minha frequente ausência devido à faculdade e pela companheirismo durante essa jornada. Agradeço as minhas colegas de grupo que se tornaram grandes amigas. Por todo o apoio, pelos ombros e ouvidos, pelas noites de projeto de desespero compartilhado, por todos os aprendizados, ajuda e, principalmente, diversão. E pelas amigas de longa data que muitas vezes me incentivaram e foram muito companheiras em alguns momentos difíceis, Agradeço aos meus mestres da FAU Mackenzie, que me ensinaram tanto, muitas vezes de forma harmônica, outras de forma dolorosa. Em especial, ao meu orientador Rafael Manzo, por ter me orientado na monografia, ajudado a tomar importantes decisões, sempre me mostrando o caminho que o trabalho deveria seguir, e ao Guilherme Motta, por ter orientado meu projeto e me incentivado sempre a buscar o melhor. Por fim, gostaria de agradecer aos meus chefes e colegas de trabalho durantes esses últimos quatro anos, por acreditarem em mim, compartilharem conhecimentos e terem paciência de me ensinar sempre. Obrigada a todos que participaram da minha trajetória durante essa fase importante da minha vida.

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resumo

Esse trabalho tem como objetivo compreender como se deu a evolução urbana desde a revolução industrial até o período contemporâneo, e quais foram as consequências deste percurso até os dias atuais. A partir desse levantamento, busca-se entender como a arquitetura e o urbanismo podem, através do conhecimento adquirido, contribuir para a construção de uma cidade mais humana, com o foco no pedestre e com edifícios mais integrados ao espaço público e à paisagem urbana. Palavras-chave: cidade humana, evolução urbana, urbanismo, moderno, contemporâneo, pedestre.

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abstract

This work aims to understand how the urban evolution took place from the industrial revolution to the contemporary period, and what were the consequences of this journey to the present day. From this survey, it is sought to understand how the architecture and urban planning can, through acquired knowledge, contribute to the construction of a more humane city, with a focus on the pedestrian and with more integrated to the public space and the urban landscape buildings. Keywords: humane city, urban evolution, urbanism, modern, contemporary, pedestrian.

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“Entendo a arquitetura em sentido positivo, como uma criação inseparável da vida civil e da sociedade em que se manifesta; ela é por natureza coletiva. Do mesmo modo que os primeiros homens construíram habitações e na sua primeira construção tendiam a realizar um ambiente mais favorável à sua vida, a construir um clima artificial, também construíram de acordo com uma intencionalidade estética. Iniciaram a arquitetura ao mesmo tempo em que os primeiros esboços das cidades; a arquitetura é, assim, inseparável da formação da civilização e é um fato permanente, universal e necessário”. (ROSSI, 1966, p. 19)


lista de figuras

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Capa – Centro da cidade de São Paulo. Fonte: Jornal Estação, 2018. Disponível em: https:// www.jornalestacao.com.br/portal/2018/04/02/mesde-abril-comeca-com-tempo-nublado-e-previsaode-chuva-em-sp/relatos-de-tremores-na-av-paulistasp-02-04-2018/. Figura 1 – Cidade de Maringá, no Paraná. Planejada a partir do conceito de cidade jardim. Fonte: Wordpress, 2015. Disponível em https://diariodeumaforasteira.wordpress.com/2015/07/07/maringa-cidade-verde/. Figura 2 – Ilustração de Tony Garnier da cidade industrial. Vias largas e quadras simétricas. Fonte: Frampton, 1997. Disponível em https://www. treehugger.com/urban-design/2012-ted-prize-winneridea-not-individual-city-20.html. Figura 3 – Sistema Dominó desenhado por Le Corbusier. Fonte: Le Corbusier, 1914. Disponível em http://maquinademorar.blogspot.com. Figura 4 – Foto aérea da cidade de Brasília, capital do Brasil. Pode-se notar o traçado linear e as superquadras, propostas pelo modernismo. Fonte: Archdaily, 2015. Disponível em https://www. archdaily.com/872496/the-residential-monumental-gregarious-and-bucolic-scales-of-lucio-costas-brasilia/. Figura 5 – Foto aérea da Piazza de San Pietro, no Vaticano. Fonte: Depositphotos, 2016. Disponível em https:// www.thecatholicthing.org/2018/05/02/decimo-anno/ incredible-view-of-piazza-san-pietro/. Figura 6 – Villa Savoye, projeto de Le Corbusier. Fonte: Archdaily, 2013. Disponível em https://www.archdaily.com/84524/ad-classics-villa-savoye-le-corbusier. Figura 7 – Foto de Walt Disney Concert Hall, de Frank Gehry, em Los Angeles, na Califórnia (2004). A exuberante cobertura de aço envolve o edifício por completo. Disponível em https://www.archdaily.com/441358/adclassics-walt-disney-concert-hall-frank-gehry.


Figura 8 – Vista aérea do complexo Sony Center em Berlim. Fonte: Archdaily, 2011. Disponível em https://www. archdaily.com/173305/flashback-sony-center-berlin-murphy-jahn?ad_medium=gallery Figura 9 – Sony Center – Diagrama de fluxos e acessos no Térreo. Fonte: Acervo pessoal, 2018. Figura 10 – Sony Center – Implantação com usos no Térreo. Fonte: Acervo pessoal, 2018. Figura 11 – Sony Center – Implantação com usos das Torres. Fonte: Acervo pessoal, 2018. Figura 12 – Sony Center – Corte com identificação de usos. Fonte: Acervo pessoal, 2018. Figura 13 – Sony Center – Vista da estrutura da cobertura metálica. Fonte: Archiweb, 2014. https://www.archiweb.cz/en/b/ sony-center Figura 14 – Sony Center – Praça interna. Fonte: Archdaily, 2011. Disponível em https://www. archdaily.com/173305/flashback-sony-center-berlin-murphy-jahn?ad_medium=gallery Figura 15 – Sony Center – Detalhe da fachada. Fonte: Archdaily, 2011. Disponível em https://www. archdaily.com/173305/flashback-sony-center-berlin-murphy-jahn?ad_medium=gallery Figura 16 – Sony Center – Fachada 1 Fonte: Archdaily, 2011. Disponível em https://www. archdaily.com/173305/flashback-sony-center-berlin-murphy-jahn?ad_medium=gallery Figura 17 – Sony Center – Fachada 3 Fonte: Archdaily, 2011. Disponível em https://www. archdaily.com/173305/flashback-sony-center-berlin-murphy-jahn?ad_medium=gallery Figura 18 – Sony Center – Fachada 4

Fonte: Archdaily, 2011. Disponível em https://www. archdaily.com/173305/flashback-sony-center-berlin-murphy-jahn?ad_medium=gallery Figura 19 – Sony Center – Fachada 5 Fonte: Archdaily, 2011. Disponível em https://www. archdaily.com/173305/flashback-sony-center-berlin-murphy-jahn?ad_medium=gallery Figura 20 – Sony Center – Fachada 2 Fonte: Archdaily, 2011. Disponível em https://www. archdaily.com/173305/flashback-sony-center-berlin-murphy-jahn?ad_medium=gallery Figura 21 – Sony Center – Fachada 6 Fonte: Archdaily, 2011. Disponível em https://www. archdaily.com/173305/flashback-sony-center-berlin-murphy-jahn?ad_medium=gallery Figura 22 – Sony Center – Fachada 4 Fonte: Archdaily, 2011. Disponível em https://www. archdaily.com/173305/flashback-sony-center-berlin-murphy-jahn?ad_medium=gallery Figura 23 – Teatro Polivalente – Diagrama da estrutura da edificação. Fonte: Lacaton e Vassal, 2013. Disponível em https:// www.lacatonvassal.com/index.php?idp=73 Figura 24 – Teatro Polivalente – Diagrama de usos. Fonte: Lacaton e Vassal, 2013. Disponível em https:// www.lacatonvassal.com/index.php?idp=73 Figura 25 – Teatro Polivalente – Diagrama estrutural e Sala de Espetáculos. Fonte: Lacaton e Vassal, 2013. Disponível em https:// www.lacatonvassal.com/index.php?idp=73 Figura 26 – Teatro Polivalente – Configuração 1 - Sala de Espetáculos. Fonte: Lacaton e Vassal, 2013. Disponível em https:// www.lacatonvassal.com/index.php?idp=73 Figura 27 – Teatro Polivalente – Configuração 2 - Sala de Espetáculos. Fonte: Lacaton e Vassal, 2013. Disponível em https:// www.lacatonvassal.com/index.php?idp=73

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lista de figuras

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Figura 28 – Teatro Polivalente – Configuração 3 - Sala de Espetáculos. Fonte: Lacaton e Vassal, 2013. Disponível em https:// www.lacatonvassal.com/index.php?idp=73 Figura 29 – Teatro Polivalente – Corte longitudinal evidenciando estrutura metálica e cobertura jardim. Fonte: Lacaton e Vassal, 2013. Disponível em https:// www.lacatonvassal.com/index.php?idp=73 Figura 30 – Teatro Polivalente – Fachada principal com visão para o jardim. Fonte: Lacaton e Vassal, 2013. Disponível em https:// www.lacatonvassal.com/index.php?idp=73 Figura 31 – Teatro Polivalente – Detalhe da cortina lateral móvel da Sala de Espetáculos. Fonte: Lacaton e Vassal, 2013. Disponível em https:// www.lacatonvassal.com/index.php?idp=73 Figura 32 – MASP – Vista aérea Avenida Paulista. Fonte: Archdaily, 2017. Disponível em https://www. archdaily.com.br/br/905090/masp-de-lina-bo-bardi-completa-50-anos Figura 33 – MASP – Corte transversal identificando espacialização dos usos no edifício. Fonte: Acervo pessoal, 2018. Figura 34 – MASP – Corte longitudinal identificando espacialização dos usos no edifício. Fonte: Acervo pessoal, 2018. Figura 35 – MASP – Diagrama estrutural Fonte: Wordpress, 2015. Disponível em https://teoriacritica13ufu.wordpress.com/2010/12/21/fernandacunha-e-nathalia-assis/ Figura 36 – MASP – Ocupação do vão: Feira de artesanatos. Fonte: Arcoweb, 2014. Disponível em https://www. arcoweb.com.br/projetodesign/artigos/artigo-masp--breve-historia-de-um-mito Figura 37 – MASP – Vista da Avenida Paulista. Fonte Arcoweb, 2014. Disponível em https://www. arcoweb.com.br/projetodesign/artigos/artigo-masp---

breve-historia-de-um-mito Figura 38 – MASP – Área de exposição no nível inferior. Fonte Arcoweb, 2014. Disponível em https://www. arcoweb.com.br/projetodesign/artigos/artigo-masp--breve-historia-de-um-mito Figura 39 – MASP – Área de exposição no nível superior. Fonte Arcoweb, 2014. Disponível em https://arcoweb. com.br/noticias/noticias/masp-retoma-cavaletes-vidro-lina-bardi Figura 40 – IMS – Fachada Avenida Paulista. Fonte: Estadão, 2018. Disponível em https://cultura. estadao.com.br/blogs/divirta-se/evento-na-paulista-reune-atracoes-gratuitas-em-centros-culturais-neste-domingo/ Figura 41 – IMS – Diagrama de usos. Fonte: Andrade e Morettin, 2017. Disponível em http:// www.andrademorettin.com.br/projetos/ims/ Figura 42 – IMS – Diagrama de usos em corte Fonte: Andrade e Morettin, 2017. Disponível em http:// www.andrademorettin.com.br/projetos/ims/ Figura 43 – IMS – Térreo – Acesso e Restaurante Fonte: Andrade e Morettin, 2017. Disponível em http:// www.andrademorettin.com.br/projetos/ims/ Figura 44 – IMS – 1° pavimento – Biblioteca e Administração Fonte: Andrade e Morettin, 2017. Disponível em http:// www.andrademorettin.com.br/projetos/ims/ Figura 45 – IMS – 2° pavimento – Salas de aula Fonte: Andrade e Morettin, 2017. Disponível em http:// www.andrademorettin.com.br/projetos/ims/ Figura 46 – IMS – 3° pavimento – Auditório Fonte: Andrade e Morettin, 2017. Disponível em http:// www.andrademorettin.com.br/projetos/ims/ Figura 47 – IMS – 4° pavimento – Apoio Fonte: Andrade e Morettin, 2017. Disponível em http:// www.andrademorettin.com.br/projetos/ims/ Figura 48 – IMS – 5° pavimento – Térreo elevado e distribuição do programa


Fonte: Andrade e Morettin, 2017. Disponível em http:// www.andrademorettin.com.br/projetos/ims/ Figura 49 – IMS – 6° pavimento – Exposição temporária Fonte: Andrade e Morettin, 2017. Disponível em http:// www.andrademorettin.com.br/projetos/ims/ Figura 50 – IMS – 7° pavimento – Exposição temporária Fonte: Andrade e Morettin, 2017. Disponível em http:// www.andrademorettin.com.br/projetos/ims/ Figura 51 – IMS – 8° pavimento – Exposição temporária Fonte: Andrade e Morettin, 2017. Disponível em http:// www.andrademorettin.com.br/projetos/ims/ Figura 52 – IMS – Diagrama estrutural Fonte: Andrade e Morettin, 2017. Disponível em http:// www.andrademorettin.com.br/projetos/ims/ Figura 53 – IMS – Aplicação da materialidade. Fonte: Andrade e Morettin, 2017. Disponível em http:// www.andrademorettin.com.br/projetos/ims/ Figura 54 – IMS – Foto da maquete física. Fica perceptível os cheios e vazios do edifício, bem como a fachada “pele” translúcida. Fonte: Andrade e Morettin, 2017. Disponível em http:// www.andrademorettin.com.br/projetos/ims/ Figura 55 – Vale do Anhangabaú e Viaduto do Chá no centro de São Paulo, em meados de 1940. Já com grande fluxo de automóveis e pedestres. A cidade já começava a apresentar verticalização das construções, porém ainda mantinha espaços públicos e praças. Fonte: Skyscrapercity, 2013. Disponível em https://www. skyscrapercity.com/showthread.php?t=754080 Figura 56 – Avenida São João no centro de São Paulo na década de 1940, uma das principais avenidas da cidade na época, concentrava comércio, serviços e grande fluxo de pedestres e automóveis. Fonte: Skyscrapercity, 2013. Disponível em https://www. skyscrapercity.com/showthread.php?t=754080 Figuras 57, 58 e 59 – Fotos do centro da Cidade de São Paulo em meados de 1950. Já é possível perceber verticalização das construções da região, bem como grande

fluxo de automóveis e pedestres e o uso do “bonde” como transporte público. Fonte: Skyscrapercity, 2013. Disponível em https://www. skyscrapercity.com/showthread.php?t=754080 Figura 60 – Foto aérea da Avenida Paulista, em meados de 1930, com foco no Parque Trianon e Vila Fortunata, hoje destruída. Fonte: Wordpress, 2015. Disponível em https://arvoresdesaopaulo.wordpress.com/2010/03/29/arvores-rarasno-novo-parque-da-avenida-paulista/ Figura 61 – Conjunto Habitacional construído nas periferias de São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, na Grande São Paulo, onde até hoje ainda existem muitas indústrias. Pode-se perceber o tipo de construção dos Conjuntos característico dos anos 2000, quando eram construídos junto às favelas, sem qualquer preocupação arquitetônica estética. Fonte: Estadão, 2013. Disponível em http://pt-br. toque105.wikia.com/wiki/estadao Figura 62 – Foto aérea da Avenida Paulista junto ao MASP e Parque Trianon no ano de 2010. Forte verticalização, fluxo de automóveis e pedestres, poucos espaços públicos e áreas verdes isoladas. Fonte: Sp Turismo, 2017. Disponível em http://www. sp-turismo.com/sao-paulo/avenida-paulista.htm Figura 63 – Rua 25 de Março em um dia comum. Fluxo intenso de pessoas e mercadorias. Fonte: Estação, 2015. Disponível em https://www. jornalestacao.com.br/portal/2017/03/02/rua-25-de-marco-pode-se-tornar-polo-cultural-historico-e-turistico/rua25-de-marco-paulo-pinto-fotos-publicas/ Figura 64 – Usuários de drogas nas ruas da Cracolândia, no centro da cidade de São Paulo. Fonte: Jota, 2017. Disponível em https://www.jota. info/opiniao-e-analise/colunas/coluna-da-anis-instituto-de-bioetica/havia-esperanca-na-cracolandia-antes-de-21-de-maio-29052017 Figura 65 – Estação da Luz em 1900.

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lista de figuras

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Fonte: Estação da Luz, 2014. Disponível em https://estacaodaluz.org.br/fotos-da-estacao-da-luz/ Figura 66 – Estação da Luz em 2015. Fonte: Thiago Leite, 2015. Disponível em http:// www.thiagoleitefotografia.com.br/produto/estacao-da-luz-trens/ Figura 67 – Mapa da cidade de São Paulo. Em vermelho detaca-se a região central. Fonte: Acervo pessoal, 2018. Figura 68 – Mapa do Centro da cidade de São Paulo. Em cinza escuro destacam-se os distritos da Sé, Bom Retitro e Repúbli- ca. Em vermelho, destaca-se a área de estudo. Fonte: Acervo pessoal, 2018. Figura 69 – Ampliação da área de estudo. Em destaque, vermelho, o terreno de projeto. Fonte: Acervo pessoal, 2018. Figura 70 – Mapa de usos do solo da área de estudo. Em destaque, vermelho, o terreno de projeto. Fonte: Acervo pessoal, 2018. Figura 71 – Mapa de ocupação do solo da área de estudo. Em destaque, vermelho, o terreno de projeto. Fonte: Acervo pessoal, 2018. Figura 72 – Mapa do sistema viário da área de estudo. Em destaque, vermelho, o terreno de projeto. Fonte: Acervo pessoal, 2018. Figura 73 – Mapa com levantamento de áreas verdes (árvores na calçada e parque), e edifícios notáveis na área de estudo. Em destaque, vermelho, o terreno de projeto. Fonte: Acervo pessoal, 2018. Figura 74 – Fachada principal vista da Praça. Fonte: Acervo pessoal, 2018. Figura 75 – Diagrama de distribuição do programa arquitetônico. Fonte: Acervo pessoal, 2018. Figura 76 – Diagrama de intenção do partido arquitetônico.

Fonte: Acervo pessoal, 2018. Figura 77 – Implantação de cobertura do projeto. Fonte: Acervo pessoal, 2018. Figura 78 – Implantação do térreo do projeto. Fonte: Acervo pessoal, 2018. Figura 79 – Planta do 1° pavimento. Fonte: Acervo pessoal, 2018. Figura 80 – Planta do mezanino, com café e espaço de descanso. Fonte: Acervo pessoal, 2018. Figura 81 – Ampliação em planta da sala de aula teórica da oficina de marcenaria. Fonte: Acervo pessoal, 2018. Figura 82 – Vista da escada e arquiban- cada no acesso no térreo. Criação de um espaço lúdico. Fonte: Acervo pessoal, 2018. Figura 83 – Planta do 2° pavimento. Fonte: Acervo pessoal, 2018. Figura 84 – Planta do 3° pavimento e cobertura do bloco da escola. Fonte: Acervo pessoal, 2018. Figura 85 – Detalhe do pergolado na cobertura da escola. Fonte: Acervo pessoal, 2018. Figura 86 – Vista do espaço lúdico na cobertura da escola, com redes para descanso. Fonte: Acervo pessoal, 2018. Figura 87 – Planta do pavimento tipo da torre de alojamentos. Fonte: Acervo pessoal, 2018. Figura 88 – Planta da cobertura da torre. Fonte: Acervo pessoal, 2018. Figura 89 – Corte CC. Corte transversal da escada e arquibancada de acesso e da sala de espetáculos. Fonte: Acervo pessoal, 2018. Figura 90 – Perspectiva do pavimento tipo da torre. Vizualização da materialidade e ambientes. Fonte: Acervo pessoal, 2018.


Figura 91 – Corte BB. Corte longitudinal da escola. Em evidência, a dinâmica da escada principal da escola. Atrás, vista da torre. Fonte: Acervo pessoal, 2018. Figura 92 – Vista da chegada da escada principal no primeiro pavimento. Fonte: Acervo pessoal, 2018. Figura 93 – Corte DD. Corte londitudinal da escola (salas de aula) e da sala de espetáculo. Atrás, vista da torre, à esquerda, e da empena que serve como tela do cinema ao ar livre, à direita Fonte: Acervo pessoal, 2018. Figura 94 – Corte AA. Corte transversal da escola (salas de aula) e escada principal, e vista da torre, atrás. Fonte: Acervo pessoal, 2018. Figura 95 – Corte EE. Corte transversal da torre. Fonte: Acervo pessoal, 2018. Figura 96 – Elevação da Avenida Cásper Líbero. Fonte: Acervo pessoal, 2018. Figura 97 – Elevação da Rua Brigadeiro Tobias. Fonte: Acervo pessoal, 2018. Figura 98 – Elevação da Praça principal. Fonte: Acervo pessoal, 2018. Figura 99 – Elevação da parte de trás (vista da fachada das salas de aula) e das empenas que encostam nas empenas existentes. Fonte: Acervo pessoal, 2018 Figura 100 – Elevação, Corte e Planta do detalhe. Fonte: Acervo pessoal, 2018. Figura 101 – Vista da escola, do pergolado na cobertura e da praça na parte de trás. Fonte: Acervo pessoal, 2018. Figura 102 – Detalhe de encaixe do brise no piso de con- creto. Fonte: Acervo pessoal, 2018. Figura 103 – Ampliação da sala de aula de dança, com materialidade em evidência. Fonte: Acervo pessoal, 2018.

Figura 104 – Ampliação das camadas do drywall acústico. Fonte: Acervo pessoal, 2018. Figura 105 – Detalhe de encaixe do brise no piso de concreto. Fonte: Acervo pessoal, 2018. Figura 106 – Detalhe de encaixe da estrutura de concreto. Viga, pilar e console. Fonte: Acervo pessoal, 2018. Figura 107 – Ampliação das camadas do piso flutuante das salas de aula de dança. Fonte: Acervo pessoal, 2018. Figura 108 – Ampliação detalhamento de fachada. Encaixe brise, caixilharia e piso flutuante. Fonte: Acervo pessoal, 2018. Figura 109 – Vista da fachada e acesso da Avenida Cásper Líbero. Fonte: Acervo pessoal, 2018. Figura 110 – Vista da fachada e acesso da Rua brigadeiro Tobias. Fonte: Acervo pessoal, 2018. Figura 111 - Perspectiva da estrutura de concreto armado pré moldado (pilares e vigas) e lajes moldadas in loco. Fonte: Acervo pessoal, 2018. Figura 112 – Mapa de medição de ruídos. Fonte: Acervo pessoal, 2018. Figura 113 – Desenho das placas refletoras para a Sala de Espetáculos. Fonte: Acervo pessoal, 2018. Figura 114 – Mapa com identificação das principais fontes de ruído. Fonte: Acervo pessoal, 2018. Figura 115 – Mapeamento dos revesti- mentos acústicos identificados na tabela ao lado. Fonte: Acervo pessoal, 2018. Figura 116 – Vista aérea da cidade de São Paulo. Fonte: Autor desconhecido, 2014. Disponível em https://lightrappingdaytime.files.wordpress. com/2010/09/dsc2291.jpg

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sumário

introdução

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a cidade para as pessoas as transformações do espaço a influência da arquitetura e do urbanismo na vida urbana nos séculos xx e xxi

estudo de casos

o centro da cidade de são paulo

18

urbano da cidade industrial à contemporânea

24

a cidade para as pessoas e o urbanismo contemporâneo

37

sony center, berlim

44

teatro polivalente, lille

53

masp, são paulo

56

ims paulista, são paulo

60

breve histórico

68

o centro hoje

77

inserção urbana

82

82

localização e situação


centro de artes e ofícios

uso e ocupação do solo e sistema viário

92

visão serial

96

conceito

103

programa

104

partido

106

peças gráficas

108

experimentação

140

considerações finais

143

referências bibliográficas

144

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introdução A partir da Revolução Industrial as transformações nas cidades aconteceram de forma desordenada e acelerada. Com o desenvolvimento da indústria o automóvel tornou-se protagonista e a escala humana coadjuvante. Observando a vida urbana hoje, surgiu a motivação de estudar este tema, focando o estudo nos problemas da cidade de São Paulo, uma das maiores metrópoles do mundo, que apresenta muitos déficits para com seus habitantes. Alguns dos pontos que saltam aos olhos é a existência de muros ou cercas que separam os edifícios da cidade e a precariedade e escassez dos espaços públicos. Este estudo busca compreender como o desenho urbano e os projetos de arquitetura podem tornar a cidades mais humanas e os edifícios mais integrados ao espaço público e à paisagem urbana. Entende-se por “mais humanas” as cidades que têm como partido urbanístico o foco no pedestre e habitante. Para a realização deste trabalho foi feito um levantamento bibliográfico a fim de entender o processo histórico da evolução urbana desde a Revolução Industrial até a cidade contemporânea. Buscou-se, então, na teoria da arquitetura, autores que explicassem algumas dessas transformações e também urbanistas que investigam soluções. Destaca-se aqui Jan Gehl, arquiteto dinamarquês, autor do livro Cidades para pessoas, no qual faz uma análise de diversas cidades e propõe intervenções com a finalidade de torná-las mais humanas. Usou-se também, análise de estudo de casos de projetos que cumprem esse papel na cidade, tanto na Europa, quanto em São Paulo. A última etapa investigativa tem foco na cidade de São Paulo, primeiro na sua transformação durante o último século e então, na compreensão da sua dinâmica urbana no centro hoje. Por fim, a proposta de um objeto de projeto que contemple as soluções encontradas nessa investigação.

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capítulo 1 A CIDADE PARA AS PESSOAS a influência da arquitetura e urbanismo na vida urbana nos séculos xx e xxi


capítulo 1.1 as transformações do espaço urbano da cidade industrial à contemporânea

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A dinâmica de modernização da cidade ao longo da história esteve relacionada com o desenvolvimento dos meios de transporte, armazenamento de bens necessários, abastecimento e técnicas de construção. Conforme a tecnologia progredia, evoluíam também as cidades e o potencial de interação entre elas. A longa transformação da cidade e da sociedade, desde o período paleolítico até os dias de hoje, aconteceu, segundo Ascher1, através da interação de três dinâmicas socioantropológicas. Na sociedade paleolítica cada indivíduo tinha o seu papel, e todos trabalhavam para o bem comum – sobrevivência. Conforme os grupos iam crescendo o pensamento coletivo foi se perdendo e dando espaço para a individualização de cada cidadão – as pessoas passaram a lutar por seu futuro, vontades e crenças. Ainda, com a fragmentação do bem comum e aumento da luta individual, muitas tradições foram substituídas pelo uso da razão em determinados atos. Por fim, a diferenciação social faz o coroamento do processo de transformação da sociedade e dá início a uma nova era de milhares de possibilidades. A diversidade das funções, crenças e grupos produz uma sociedade cada vez mais complexa. O período de transição da Idade Média2 – cidade medieval - para a Revolução Industrial – cidade clássica – chamado de Primeira Modernidade, foi marcado pela transformação do pensamento e religião, desenvolvimento da tecnologia, expansão do capitalismo de mercado e transformação da cidade - alargamento de calçadas, ruas e avenidas e diferenciação funcional e social das mesmas; criação de praças e jardins; separação entre o público e o privado e proliferação de bairros periféricos.

François Ascher (Metz, 1946 – Paris, 2009) foi urbanista e sociólogo francês, estudou os fenômenos metropolitanos e explorou os conceitos de “metapolis” e “hipermodernidade”, autor do livro

1

Os novos princípios do urbanismo (2001).

Período histórico europeu que se iniciou no século VI e se estendeu até o século XVI.

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Revolução Industrial foi um período de transição na história. Teve início na Inglaterra e atingiu toda a Europa, modificando radicalmente os meios de produção e o modo de vida da população nos séculos XVIII e XIX. Responsável pela transformação da produção de bens e serviços subordinada às lógicas capitalistas, desenvolvimento do pensamento técnico e constituição do estado de bem-estar. 4 Ebenezer Howard (Londres, 1950 – Hertfordshire, 1928) escreveu o livro As Cidades Jardins de Amanhã (1898). 3

A Segunda Modernidade, período em que acontece a Revolução Industrial3, teve início na Revolução Agrícola, que resultou no aumento da produção alimentar e expulsão de grande quantidade de agricultores do campo – que migraram para a cidade - concomitantemente ao desenvolvimento do capitalismo industrial, processo duplo que provocou enorme crescimento demográfico e consequente crescimento espacial acelerado. As cidades, em processo de transformação, não estavam preparadas para receber tamanho número de pessoas, resultando no aumento da população com uma condição de vida muito precária. Além disso, a cidade teve que se adaptar também às exigências vindas do novo modo de produção capitalista, criando uma malha de circulação e comunicação, priorizando a mobilidade de pessoas, bens e informações. Com foco na busca por soluções destas questões de adaptação das cidades à sociedade industrial, começa-se então um planejamento urbano mais racional, fundamentado no ideal da industrialização – fascinação pela máquina, produção em série e metodologias sistematizadas. Surge o urbanismo moderno, no final do século XIX, trazendo um novo conceito, o zoneamento, que iria modificar para sempre o planejamento e desenho urbanos e a dinâmica da vida na cidade. Teve grandes representantes que sucederam na urbanização e modernização de bairros nas maiores cidades da Europa, como Haussmann (responsável por Paris), Cerdá (Barcelona), Sitte (Viena), Howard e Garnier, e suas principais correntes são o urbanismo humanista e o urbanismo progressista. A primeira, representada principalmente por Ebenezer Howard4, tem como princípio o conceito de “cidade-jardim”, que surgiu após um estudo feito por ele para entender ambos funcionamento e dinâmica da vida no campo e na cidade. Chegou à conclusão de que na cidade havia espaço para socialização, oportunidades e emprego, porém apresentava problemas de excesso de população e insalubridade. Já no campo, havia contato com a natureza, produção de alimentos, falta de emprego e

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capítulo 1.1 | as transformações do espaço urbano da cidade industrial à contemporânea

infraestrutura. Com a intenção de juntar as qualidades do campo com as da cidade, criou o conceito de cidade-jardim, limitada a 30 mil habitantes e rodeada por um cinturão verde para impedir aglomeração indesejada, dividida em área urbana e agrícola, com estrutura radial, bulevares, parques e praças verdes e uma grande avenida principal. No Brasil, a cidade de Maringá, no Paraná, e Goiânia, em Goiás, foram planejadas e construídas com base nesses ideais. O urbanismo de Howard trouxe uma solução muito interessante para o problema na época, porém no mundo contemporâneo essa ideia beira a utopia. Esse conceito pode ser aplicado a pequenas cidades, porém é inconcebível em grandes metrópoles como São Paulo, que abriga 21 milhões de habitantes5 em sua região metropolitana. A segunda, corrente progressista, muito conhecida através de Tony Garnier6, propõe uma cidade industrial, funcional e geométrica, negando referências às cidades antecedentes, passando a se preocupar principalmente com a técnica e a estética. Sugere uma cidade dividida em zonas: residencial, comercial, cultura e lazer, preocupando-se em atender estritamente às funções urbanas, não considerando obrigatoriamente características do local, história, cultura ou morfologia do território.

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Figura 1 - Cidade de Maringá, no Paraná. Planejada a partir do conceito de cidade jardim. Fonte Wordpress, 2015.

Figura 2 - Ilustração de Tony Garnier da cidade industrial. Vias largas e quadras simétricas. Fonte Frampton, 1997. IBGE/2017 Tony Garnier (Lyon, 1869 – Roquefort, 1948) foi um arquiteto e urbanista francês. Elaborou um projeto para sua cidade natal, Lyon, conhecido como a Cidade Industrial.

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Figura 3 - Sistema Dominó desenhado por Le Corbusier. Fonte Le Corbusier, 1914.

“Arts and Crafts é um movimento estético e social inglês, da segunda metade do século XIX, que defende o artesanato criativo como alternativa à mecanização e à produção em massa. Reunindo teóricos e artistas, o movimento busca revalorizar o trabalho manual e recupera a dimensão estética dos objetos produzidos industrialmente para uso cotidiano. A expressão significa ‘artes e ofícios’”. Fonte: http://enciclopedia.itaucultural.org.br/ termo4986/arts-and-crafts 8 Le Corbusier (La Chaux-de-Fonds, 1887 - Roquebrune-Cap-Martin, 1965) foi um dos maiores nomes da Arquitetura e Urbanismo no século XX, autor do livro Vers une architecture (Por uma arquitetura, em português), onde descreveu os princípios funcionalistas do movimento moderno. Sua obra abriu caminho para o que mais tarde seria chamado de international style que teria representantes como Ludwig Mies van der Rohe e Walter Gropius. 7

Esse período, precedente às grandes guerras, culminou em graves crises, não só habitacional, mas também em todos os âmbitos. Nesse cenário surgiram vários movimentos impulsionando uma mudança de pensamento e comportamento da sociedade e na produção de arte em todas as suas vertentes, traduzindo uma nova forma de ver o mundo. Um deles, o movimento Arts and Crafts7, totalmente contrário à industrialização, foi o antecessor ao movimento moderno que estava para florescer por toda a Europa e, mais tarde, América. Um dos principais contribuintes para a arquitetura e urbanismo modernos foi Le Corbusier8, que introduziu no pensamento moderno seus princípios de arquitetura. São eles: suspensão do edifício em pilotis; exclusão de paredes dos pavimentos, projetando com uma planta livre; transformação da cobertura em teto-jardim, dando melhor aproveitamento a ¬este espaço antes abandonado e utilização de grandes aberturas horizontais nas fachadas, proporcionando maior entrada de luz natural. Criou, ainda, um sistema construtivo de fabricação em série, baseado na racionalização da construção, chama de “Dominó”, no qual os elementos construtivos – lajes, pilares, vigas, vedações – são independentes entre si, possibilitando infinita replicação. Esses ideais foram adotados em praticamente todas as vertentes de produção mod-

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capítulo 1.1 | as transformações do espaço urbano da cidade industrial à contemporânea

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ernistas. Além disso, Le Corbusier é contemporâneo à corrente de urbanismo progressista, ou racionalista, de Garnier, o que justifica a espacialidade das funções tanto nos seus projetos arquitetônicos quanto urbanísticos. Um exemplo disso é a cidade de Brasília, projetada por Oscar Niemeyer e Lucio Costa, onde fica clara a utilização destes elementos citados acima, além de um planejamento urbano racional e funcional, como defendia o modelo de cidade industrial. O movimento moderno teve forte influência na dinâmica urbana das cidades e no modo como elas foram planejadas e projetadas a partir de então. Destaca-se que teve efetiva participação no pós-guerra, uma vez que seu ideal de produção em série tornou mais rápido o processo de reconstrução das cidades. Porém, ao planejar as cidades a partir de uma tabula rasa, foram ignoradas referências históricas e geográficas do lugar. Desenharam cidades inteiras no papel, transformando um processo natural de surgimento e expansão da mesma, em um processo planejado, construindo assim cidades engessadas, onde a possibilidade de expansão e atuação da população não foi prevista. A partir de uma folha em branco, fluxos foram traçados, quadras delineadas e objetos arquitetônicos foram dispostos em extensas áreas livres, criando uma continuidade de vazios entre edifícios, muitas vezes

sem sentido. Além disso, a produção em série e a unidade estética dos sistemas construtivos resultaram em uma cidade monótona e sem diversidade. Um dos ideais desse movimento foi a prioridade do automóvel na cidade, resultando na redução das oportunidades para o pedestre, e assim, dos locais de encontro. Outro ideal foi a construção de uma cidade setorizada em zonas de habitação, trabalho, lazer e circulação (de veículos), áreas monofuncionais, não apenas de usos, mas também de populações. Além disso, a influência da escala moderna, transformou um conglomerado urbano em espaços isolados, a arquitetura passou a ser o centro de ocupação de um espaço, e as áreas livres o seu entorno, construindo assim cidades onde os edifícios ocupam o centro do terreno e dispõem de uma área livre ajardinada ao seu redor que, ao invés de se tornar um lugar de convivência, torna-se um não lugar. Com essa prática, a função social do espaço urbano foi reduzida, ameaçada e progressivamente comprometida – foi o início do que Jane Jacobs9 chamou de “morte das grandes cidades”. Jane Jacobs (Scranton, 1916 – Toronto, 2006) escritora e ativista política, ficou conhecida por sua obra Morte e Vida das Grandes Cidades (1961), na qual critica as práticas de renovação do espaço público da década de 1950 nos Estados Unidos. 9


Figura 4 - Foto aérea da cidade de Brasília, capital do Brasil. Pode-se notar o traçado linear e as superquadras, propostas pelo modernismo. Fonte Archdaily, 2015.


capítulo 1.1 | as transformações do espaço urbano da cidade industrial à contemporânea

Uma simples amostra disso pode ser exemplificada através da comparação de uma obra clássica e outra moderna. A primeira, Piazza de San Pietro, projetada por Bernini10 no século XVII no Vaticano é uma das obras clássicas mais conhecidas e se difere das praças atuais pois é constituída de dois espaços: a Piazza Retta, um espaço central vazio com colunatas dóricas contornando todo seu comprimento de ambos os lados, conectando-a com a Piazza Obliqua, onde há um Obelisco central de 40m de altura rodeado também por colunatas. Do outro lado do círculo se encontra o acesso para a Basílica. Analisando graficamente o desenho da Piazza podemos entender que se trata de um espaço vazio contornado por uma construção, algo que delimita este espaço. A Piazza é completamente aberta, e ainda assim ainda se tem a sensação de estar “dentro” de um espaço. Em oposto a isso, pode-se fazer uma breve leitura da obra de Le Corbusier, a Villa Savoye, construída em Poissy, na França, em 1929. Esta residência, ícone da arquitetura moderna, foi posicionada no centro do terreno, deixando todo o entorno livre e jardinado, vazio. Desde então, a arquitetura seguiu majoritariamente este padrão de implantação. Pode-se observar em grandes cidades, assim como São Paulo, edifícios localizados no centro do terreno rodeados por um jardim muitas vezes “intocável”, gradeado. Não há transição alguma entre o edifício e a cidade, mas sim uma quebra completa de continuidade, uma linha onde termina a cidade e começa o terreno, isolado.

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“Arquitetura moderna inverteu a proporção entre espaço livre e espaço construído. Privilegiando a construção de objetos, o modernismo criou áreas sem vida no espaço urbano, as quais dividiram vizinhanças, isolaram pessoas e edificações do seu entorno “. (NESBITT, 2006, p. 293)

Ao lado: Figura 5 (acima) - Foto aérea da Piazza de San Pietro, no Vaticano. Fonte Depositphotos, 2016. Figura 6 (abaixo) - Villa Savoye, projeto de Le Corbusier. Fonte Archdaily, 2013.

Gian Lorenzo Bernini (Napoles, 1598 – Roma, 1680) foi um arquiteto, pintor e escultor do barroco italiano.

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Depois do período de guerras e reconstrução das cidades, a hegemonia da arquitetura e urbanismo modernos passaram a ser repensados, e a preocupação com o crescimento e desenvolvimento das cidades levantaram questionamentos, buscando novas soluções e gerando novos discursos que, consequentemente, resultaram em uma pluralidade de rupturas com o período anterior. Esse novo período, chamado de pós-moderno, identificou os principais problemas causados pelo planejamento urbano modernista. Marca a retomada da importância do espaço tanto na arquitetura como na cidade, e da espacialidade clássica - a percepção a partir da perspectiva humana - completamente ignorada no período anterior. Crítica a falta de diversidade urbana e ausência de identidade desses espaços. Rowe e Koetter11, criam o termo cidade-colagem, para expressar uma cidade que incorpora em seu tecido a cidade antiga – produtora de espaços – e a cidade moderna – produtora de objetos – permitindo diversidade e experiência, gerando uma cidade complexa de identidade única, a partir de fragmentos individuais e independentes. Semelhante ao conceito de cidade-colagem, nesse período também foi apresentado e discutido o conceito da cidade como palimpsesto – em constante transformação – onde camadas de tempo são agregadas sem que as camadas anteriores desapareçam completamente. Jane Jacobs, citada anteriormente, e seus colegas Rem Koolhas, Robert Venturi e Aldo Rossi foram nomes importantes nesse período, produtores de material de crítica e questionamentos das produções arquitetônicas e urbanísticas anteriores. Koolhas12 explica a cidade pós-moderna a partir de termos como junkspace – ou espaço lixo, produto da modernização acelerada das cidades, segundo ele, são os espaços residuais e sem uso; star-system e JunkSignature – sistema de produção imagética das cidades, criando uma arquitetura que chame atenção e atraia investimentos, eventos e olhares para seu lugar de inserção, gerando competitividade entre cidades – city

Colin Rowe (Rotherham, 1920 – 1999) foi um arquiteto inglês. Fred Koetter (1938 – 2017) foi um arquiteto americano. Juntos escreveram o livro Cidade Colagem no ano de 1978. 12 Rem Koolhas (Rotterdam, 1944) é arquiteto e urbanista e teórico holandês, leciona na universidade de Harvard. Faz parte do movimento desconstrutivista na arquitetura, autor de diversos artigos e livros, recebeu o Prêmio Pritzker no ano de 2000. 11


marketing. Zaha Hadid, Frank Gehry e Santiago Calatrava são arquitetos muito conhecidos por este tipo de produção iconográfica. Guy Debord13 em seu livro A Sociedade do Espetáculo identifica o papel da imagem nas relações sociais na cultura contemporânea “o que aparece é bom, e o que é bom aparece”.

Figura 7 - Foto de Walt Disney Concert Hall, de Frank Gehry, em Los Angeles, na California (2004). A exuberante cobertura de aço envolve o edifício por completo. Fonte Archdaily 2014.

Guy Debord (Paris, 1931 – 1994) foi um escritor francês, autor do livro A Sociedade do Espetáculo (1967).

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A inauguração do período contemporâneo foi contextualizada pelo capitalismo tardio e neoliberal, caracterizado pela intensificação dos fluxos internacionais financeiros e globalização, expansão das tecnologias de comunicação, internacionalização de investimentos financeiros, concepção de uma cultura global conectada, através do consumo em massa. Um dos grandes marcos desse período é a identificação de enclaves contemporâneos: os espaços pseudo-públicos, coletivos, segregados, não-lugares, como shoppings e condomínios fechados. São sítios de exclusão social, completamente alheios ao seu contexto, controlados pela condição capitalista. Esses espaços representam o poder da sociedade de consumo – de maneira imponente, e excludente – da mesma maneira que os templos greco-romanos, e as igrejas barrocas e góticas representavam o poder do estado e da igreja no século passado.

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capítulo 1.1 | as transformações do espaço urbano da cidade industrial à contemporânea

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Zygmunt Bauman14 identifica que essas tipologias sociais contemporâneas diminuem a interação social, tornando-a breve e superficial; repelem e excluem corpos estranhos e indesejáveis dos lugares públicos; deslocam a cidadania ao consumo e desencorajam a permanência no espaço público, uma vez que os espaços pós-modernos, pela falta de identidade, produzem uma sensação desorientadora, afastando a sensação de acolhimento e pertencimento que motiva um indivíduo, como ser social, a permanecer nesse espaço. Esse isolamento proposital na cidade contemporânea simula uma experiência comunitária plena, uma vez que a semelhança dos indivíduos motiva uma intenção coletiva. Expõe, ainda, que as praças no térreo dos edifícios empresariais, muito comum na cidade contemporânea, explicitam a relação com a economia global, além da imponência da economia na sociedade. Sua função pública é a projeção de uma imagem de poder na cidade. James Hillman15, autor do livro Cidade e Alma, identifica problemas do modo de vida nas cidades contemporâneas: lazer maníaco, instituições opressoras, ambientes urbanos hostis, espaços deprimidos e uma constante repressão da beleza – alma. Segundo ele, não só a alma do homem, mas principalmente a alma das cidades está doente, e nós, cidadãos, somos diariamente atingidos por isso. Uma cidade doente só pode gerar uma sociedade doente e vice-versa, uma vez que a cidade é o espelho – símbolo – de uma sociedade, representando seu passado, modo de vida e objetivos. Os questionamentos levantados no período pós-moderno e a evolução da cidade até o período contemporâneo, resultaram na criação de uma nova política urbana, o neourbanismo – em resposta a essas questões dessa nova sociedade do século XXI, tendo a diversidade como palavra-chave. Este movimento apoia-se em atitudes e ideias mais reflexivas, adaptadas a uma sociedade complexa, efêmera e a um futuro incerto; elabora múltiplos projetos de natureza variada e integra modelos novos de produtividade e gestão; considera o processo de individualiza-

Zygmunt Bauman (Poznań, 1925 – Leeds, 2017) foi um sociólogo e filósofo polonês. 15 James Hillman (Atlantic City, 1926 — Connecticut, 2011) foi um psicólogo, analista junguiano, criador da "psicologia arquetípica" pós-junguiana e autor de diversos livros sobre o assunto. 14


ção, oposto ao início da vida humana em sociedade; respeita a diversidade de grupos sociais, de indivíduos de múltiplas origens, territórios social e espacialmente heterogêneos, demonstrando preocupação com a integração das minorias; infraestruturas e equipamentos misturam intervenções públicas e privadas sob formas diversificadas de parcerias, não existe mais o ideal de Estado-nação; admite a complexidade, variação de formas e ambientes urbanos e uma sociedade cada vez mais diversificada; busca soluções multifuncionais – abandono do ideal de bairros monofuncionais; interação de diferentes atividades em um mesmo espaço ou edifício, priorizando menor deslocamento do indivíduo e maior dinamismo na cidade; reforço das áreas de pedestres para uma política urbana integrada e estímulo do uso de bicicletas e transporte público, bem como o estímulo da função social do espaço urbano, contribuindo para os objetivos da sustentabilidade social e para uma sociedade democrática e aberta. O urbanismo hoje se preocupa em compreender os cenários da cidade. Entende-se, que, não só a análise do uso e ocupação do solo, história e geografia é importante, mas também a compreensão do espirito do lugar – genius-loci – reforçando a ideia de que cada lugar é único e permanentemente mutável – através das estações do ano, horas do dia ou tipo de ocupação. Embora o movimento moderno tenha dado origem e muitas cidades a partir de um planejamento técnico e cartesiano, compreende-se hoje que a cidade que surge espontaneamente e cresce gradativamente apresenta em seu tecido urbano relações mais complexas, já que as coisas surgem a partir da necessidade do lugar e da atuação do indivíduo e/ou grupo. Cria-se assim uma infinidade de interações que não podem ser equacionados num projeto urbano e possibilita número infinito de centros em movimento – cidade policentrica. Usos combinados atrai um público heterogêneo em diversas horas do dia, além de minimizar o deslocamento obrigatório da população

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capítulo 1.1 | as transformações do espaço urbano da cidade industrial à contemporânea

pela cidade; quadras curtas, com possibilidade de caminhos diferentes; mistura de edifícios novos e antigos – evita a degradação acentuada, uma vez que os edifícios envelhecerão em épocas diferentes, além de favorecer a diversidade de renda, pois os edifícios mais novos tendem a ser mais caros que os antigos; adensamento populacional – também importante para manter a circulação de pessoas na área, independente do dia ou horário. Interessante ressaltar que conceito de densidade ideal pode variar de país para país e cidade para cidade. Edward Hall16, no seu livro A Dimensão Oculta, evidencia que distâncias individuais variam de acordo com valores socioculturais. O urbanismo hoje também prevê possíveis mudanças em seus espaços e tecidos, uma vez que o caráter impermanente das ocupações traduz uma sociedade efêmera; diversidade social, étnica, cultural e de renda; priorização dos pedestres – à medida que o espaço público melhora, as pessoas têm vontade de nele circular e permanecer, e lugares agradáveis e muito frequentados reforçam senso de pertencimento – necessário na vida do ser humano como ser social. Hoje um projeto urbano serve, principalmente, para viabilizar transformações, e não engessar um desenho.

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Edward Hall (Missouri, 1914 – Santa Fe, 2009) foi antropólogo e pesquisador cultural. Desenvolveu e explorou o conceito da comunicação proxêmica e a coesão cultural e social, descrevendo como as pessoas se comportam e reagem em diferentes tipos de espaços pessoais já culturalmente definidos.

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capítulo 1.2 a cidade para as pessoas e o urbanismo contemporâneo “Primeiro nós moldamos a cidade e então ela nos molda” GEHL, Jan. Cidades para Pessoas. A estrutura urbana de uma cidade influencia diretamente no seu funcionamento e no comportamento de seu habitante ou visitante. A cidade é o cenário onde a vida urbana acontece, é um local de encontros, troca de ideias, mercadorias e experiências, e os espaços da cidade, ou seja, ruas, parques, praças, são o “palco” dessas atividades. Uma cidade que privilegia o ser humano em seu planejamento urbano – “primeiro nós moldamos a cidade” -, nos proporciona uma experiência mais completa e mais saudável, uma vez que cede mais espaços para que essas atividades aconteçam, estimulando assim seus habitantes a vivenciarem essas experiências – “então elas nos moldam”.

“[...] gradativamente, as forças do mercado e as tendências arquitetônicas afins mudaram seu foco, saindo da inter-relações e espaços comuns da cidade para edifícios individuais, os quais, durante o processo, tornaram-se cada vez mais isolados, autossuficientes e indiferentes. [...] No processo de planejamento, em vez da sequência que prioriza os edifícios, depois os espaços e depois (talvez) um pouco de vida, o trabalho com a dimensão humana requer que a vida e os espaços sejam considerados antes das edificações.” (GEHL, 2013, p.23)

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capítulo 1.2 | a cidade para as pessoas e o urbanismo contemporâneo

Para Jan Gehl17, o pré-requisito para uma vida urbana de qualidade tem quatro patamares que se inter-relacionam, os quais um não existe sem o outro, são eles: Cidade viva: convida o indivíduo a caminhar, pedalar ou permanecer no espaço público. O convívio na cidade e o uso do espaço é praticado pela grande maioria dos habitantes. Para uma cidade viva, é necessário que as pessoas tenham contato direto com a sociedade ao seu redor. Uma cidade viva é onde há interação social, movimentos nas ruas, praças e parques, locais de encontro, espaços que convidam o indivíduo que caminha ou pedala à permanência, espaços com significado. A vida na cidade é um processo de auto reforço, ou seja, a movimentação de pessoas na cidade é um convite às demais pessoas também usufruírem deste espaço. Como dizia Jane Jacobs “As praças precisam de pessoas mais do que as pessoas precisam das praças”.

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Cidade segura: A segurança é crucial para que as pessoas abracem o espaço urbano. Quanto mais pessoas se movimentam pela cidade e permanecem nos espaços urbanos, mais segura se torna a cidade. Com o crescimento da participação do automóvel na cidade, o espaço para o pedestre se deteriorou, diminuiu e até sumiu em algumas regiões. Postes e luminárias, foram colocados de acordo para não serem um obstáculo para os automóveis, e tornaram-se obstáculos na calçada. Somado a isso, frequentes interrupções causadas por longas paradas em semáforos, difíceis cruzamentos de ruas, travessias elevadas e túneis desertos. Caminhar tornou-se mais difícil e menos atrativo. Ruas compartilhadas, que eram muito facilmente encontradas nas cidades medievais (pedestres, charretes, cavalos, feiras/mercados na mesma via) dão hoje uma oportunidade de convivência entre automóveis, pedestres e ciclistas. Além disso, conforme coloca Jeff Speck18 em seu

Jan Gehl (Copenhagem, 1936) é arquiteto e urbanista dinamarquês. Construiu sua carreira com o princípio de melhorar a qualidade de vida urbana e é escritor do livro

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Cidades para Pessoas

(2010). 18 Jeff Speck é um urbanista americano autor do livro Cidade Caminhável (2016).


livro, essa combinação gera um certo “medo” no motorista, que, consequentemente, tende a ter mais atenção e cuidado com os obstáculos em seu entorno, o que traz mais segurança para o pedestre e ciclista, diferente de uma via normal, onde o automóvel tem espaço para circular em alta velocidade, apresentando mais risco para quem está nas calçadas. Essa ocorrência pode ser observada ainda, em vias mais estreitas, com muitos cruzamentos e muitas faixas de pedestre. Além disso, as vias com limitação de tráfego de veículos, também têm apresentado grande vantagem em algumas regiões. Existe no centro de São Paulo, algumas ruas bloqueadas para veículos, onde há grande circulação de pedestres e comércio intenso nas calçadas. Outra contribuição à sensação de segurança é um bom desenho urbano que facilite o deslocamento das pessoas. Cidade sustentável: a partir do desincentivo do uso do automóvel, grande parte de seu sistema de transporte se dá pela mobilidade verde: a pé, bicicletas ou transporte público. Há assim, benefícios econômicos e ambientais. A priorização dos pedestres e bicicletas dá mais oportunidade para espaços públicos na cidade, já que, ambos ocupam muito me-

nos espaço que o automóvel. Além disso, também desenvolve a sustentabilidade social, que foca em dar aos vários grupos da sociedade oportunidades iguais de acesso ao espaço público e de se movimentar pela cidade. A igualdade é incentivada quando as pessoas caminham, andam de bicicleta, em combinação com o transporte público. Também tem uma importante dimensão democrática que prioriza acessos iguais para que encontremos outras pessoas no espaço público – diversidade social. Cidade saudável: Caminhar e/ou pedalar como etapas naturais do dia-a-dia. Menos carros, menos sedentarismo e mais saúde e qualidade de vida. Resumindo, Jan Gehl defende que um espaço urbano de qualidade é desenvolvido a partir da escala do pedestre, depois bicicleta, e só então o automóvel. A cidade deve dar espaço ao indivíduo caminhante, e a partir daí alcançará os patamares de qualidade urbana explicitados acima. Um planejamento urbano que considera a dimensão humana, requer que os espaços sejam considerados antes das edificações. Gehl e Speck defendem a “caminhabilidade” da cidade. O caminhar não é só um meio de transporte, mas também um potencial para outras atividades. Antigamente as ci-

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capítulo 1.2 | a cidade para as pessoas e o urbanismo contemporâneo

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dades eram de domínio do pedestre. Com a invasão dos carros os pedestres foram empurrados, e as calçadas lotadas são um problema no mundo todo. Os carros não levam o maior número de pessoas, mas ocupam maior espaço. Os espaços de transição são uma oportunidade para a vida dentro das edificações interagir com a vida na cidade. Os espaços no térreo dos edifícios são chamados de “espaços de transição”. É neles que acontece o encontro do Edifício com a Cidade. Os espaços de transição da cidade limitam o campo visual e definem o espaço individual. O tratamento desses espaços, principalmente os andares mais baixos, são decisivos na vida no espaço urbano. Trata-se da zona onde se caminha quando se está na cidade; são as fachadas que se vê e se experimenta de perto, mais intensamente. É o local onde se entra e sai dos edifícios, onde pode haver interação da vida dentro das edificações e da vida ao ar livre. Um edifício sem espaço de transição tem função bem mais empobrecida do que o espaço urbano onde a vida é diretamente reforçada por um espaço atraente de transição. Os espaços de transição da cidade limitam o campo visual e definem o espaço público, semiprivado e privado. São eles que dão a oportunidade de a vida interior do edifício interagir com a vida na cidade; fazem a troca do interior com o exterior. Em locais onde não existem espaços interessantes de transição, ou onde os térreos são fechados e monótonos, a caminhada parece longa e pobre em termos de experiência e o processo torna-se cansativo e sem sentido. Alguns estudos fisiológicos feitos com pessoas em um ambiente sem qualquer estímulo mostram que nossos sentidos precisam de estímulos a intervalos bastante curtos de até 5 segundos. As fachadas ativas provam eficiência para um ambiente de transição. Quando há este tipo de construção, os pedestres diminuem a velocidade e até param, resultando no aumento de fluxo e movimento. Quando as fachadas são fechadas, as caminhadas se tornam aceleradas e sem movimentação.


Também em zonas residenciais, o espaço de transição consiste na zona de intercâmbio entre a esfera pública e privada. É aí que as atividades ao ar livre das áreas residenciais acontecem, no terraço ou recuo ajardinado, em contato com o espaço público. O arquiteto Ralph Erskine19 disse: “Se o conjunto for interessante

Ralph Erskine (Londres, 1914 – Suécia, 2005) foi um arquiteto e urbanista inglês.

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e estimulante ao nível dos olhos, toda a área será interessante. Portanto, tente fazer uma zona de transição convidativa e rica em detalhes, economize seus esforços nos andares superiores, que têm muito menos importância, tanto funcional quanto visualmente”. Quando os espaços de transição funcionam, eles reforçam a vida na cidade.

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capítulo 2 ESTUDO DE CASOS


capítulo 2 | estudo de casos

capítulo 2.1 sony center, berlim

local BERLIM, ALEMANHA

Localizado na Potsdamer Platz , é um complexo de uso misto projetado por Murphy Jahn Architects em 1998 e construído em 2000, para abrigar a sede da Sony na Europa. 20

Figura 8 - Vista aérea do complexo em Berlim. Fonte Archdaily, 2017.

uso MISTO escritório ano

2000

MURPHY JAHN ARCHITECTS


análise funcional É composto por 7 torres, que além do escritório da Sony, abrigam ainda escritórios, hotel, cinema, museu, lojas, apartamentos, restaurantes e cafés. As torres se dispõem radialmente, formando uma praça no centro delas. A área do terreno é de 26,5 mil m² e a área total construída é de 132 mil m². O edifício da Deutsche Bahn é o mais alto, com 26 pavimentos, mas os outros 6 têm em torno de 8 a 10 andares. O edifício foi projetado para ser parte da cidade e não um bloco isolado. O projeto permite a permeabilidade do caminhante, dando continuidade ao ambiente da cidade. O visitante não tem a sensação de estar saindo” do ambiente urbano e “entrando” no projeto ou vice-versa.

Figura 9 - Diagrama de fluxos e acessos no Térreo. Fonte: Acervo pessoal, 2018. A Potsdamer Platz foi completamente destruída durante a Segunda Guerra Mundial e atravessada pelo Muro de Berlim durante sua existência. No pós-guerra a área foi reconstruída e tornou-se um polo comercial, econômico e cultural.

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capítulo 2 | estudo de casos

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Figura 10 - Diagrama de implantação com usos no Térreo. Fonte: Acervo pessoal, 2018.


Figura 11 - Diagrama de implantação com usos das Torres. Fonte: Acervo pessoal, 2018.

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capítulo 2 | estudo de casos

análise técnica

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As sete torres que compõem o complexo são conectadas apenas por uma cobertura independente composta de metal, vidro e membrana têxtil. A estrutura da cobertura é semelhante à uma roda de bicicleta. Possui uma viga circular central e uma treliça em forma de elipse que a contorna e se apoia sobre os 7 edifícios que compõem o projeto. Seu comprimento total é de 102m e largura de 78m, com altura de 67m no ponto mais alto. O ponto de apoio central é um pilar de 42,5m de altura que é atirantado por cabos tensionados pela treliça externa. O sistema todo é protendido, totalizando 920 toneladas de aço. Como acabamento, foram utilizados ainda 105 toneladas de vidro, distribuídos em 3500m² e 48 peças de uma membrana têxtil – composta de teflon auto limpante – também tensionada, ocupando uma área de 5250m². Esta cobertura demorou 2 anos para ser construída.


Página anterior Figura 12 - Diagrama em corte com identificação de usos. Fonte: Acervo pessoal, 2018. Figura 13 - Vista da estrutura da cobertura metálica. Fonte Wordpress, 2011. Nesta página Figura 14 - Praça interna. Fonte Archdaily, 2017.


análise estética Os principais materiais aplicados no projeto são o aço e o vidro. O primeiro, compõe toda a estrutura das torres, da cobertura e os caixilhos. Todas as fachadas são revestidas de vidro.

Figura 15 – Detalhe da fachada. Fonte Archdaily, 2017.


Figura 16 - Fachada 1 Figura 19 - Fachada 5

Figura 17 - Fachada 3

Figura 18 - Fachada 4

Figura 20 - Fachada 2

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Acima Figura 21 - Fachada 6 Ao lado Figura 22 - Fachada 4

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Fachadas de vidro com caixilharia e painéis de fechamento metálicos. Numeração das fachadas indicadas nas plantas. Fonte Archdaily, 2017.


capítulo 2.2 teatro polivalente, lille local LILLE, FRANÇA uso

CULTURAL, TEATRO

escritório ano

LACATON & VASSAL

2013

análise funcional

Obra do escritório francês Lacaton & Vassal, o projeto é um teatro e possui espaços flexíveis onde acontecem oficinas e atividades ligadas a este tema, e faz parte de um incentivo à reestruturação urbana cultural da cidade de Lille, na França. Foi construído em 2013, totalizando uma área de 3791 m². O volume do edifício se insere sob a topografia existente e apresenta assim apenas duas fachadas com pé direito variado, que segue a topografia do jardim.

Figura 23 - Diagrama da estrutura da edificação.

Figura 24 – Diagrama de usos.

Figura 25 - Diagrama estrutural e Sala de Espetáculos.

Figura 26 – Configuração 1 - Sala de Espetáculos.

53


capítulo 2 | estudo de casos

Figura 27 – Configuração 2 - Sala de Espetáculos.

Figura 28 – Configuração 3 - Sala de Espetáculos. Fonte Lacaton e Vassal, 2013.

O hall abre possibilidade para programas múltiplos, é um espaço flexível e versátil e se adapta, juntamente ao auditório, de acordo com as necessidades. O auditório se localiza na parte central da planta, livre de elementos estruturais e equipado com um sistema de portas e cortinas modulares móveis, com desempenho acústico, que podem se abrir completamente, estendendo a área do auditório por todo o hall, ou criar outras configurações, de acordo com a lotação. As portas de 2,5m de altura no térreo podem ser completamente abertas, integrando o espaço interno do edifício com o jardim.

análise técnica A estrutura é de concreto, com alguns itens de estrutura metálica – parte da estrutura móvel da sala de espetáculo.

análise estética 54

Figura 29 - Corte longitudinal evidenciando estrutura metálica e cobertura jardim. Fonte Lacaton e Vassal, 2013.

Fechamentos em policarbonato translúcido e leitoso, com caixilharia metálica.


Acima Figura 30 - Fachada principal com visรฃo para o jardim. Ao lado Figura 31 - Detalhe da cortina lateral mรณvel da Sala de Fonte Espetรกculos. Fonte Lacaton e Vassal, 2013.

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capítulo 2 | estudo de casos

capítulo 2.3 masp, são paulo local SÃO PAULO, BRASIL uso

CULTURAL, MUSEU

escritório

LINA BO BARDI

ano 1968

O Museu de Arte de São Paulo, localizado na Avenida Paulista, foi projetado pela arquiteta modernista Lina Bo Bardi21, em 1968, para ser um container de arte. O museu tem aproximadamente 10 mil m² e o seu térreo é na verdade uma grande praça, uma continuação da calçada que se estende por debaixo do bloco. Essa praça tornou-se nos últimos anos um local emblemático para a cidade, palco para diversas manifestações, shows, feiras. Denominada algumas vezes como “a arquitetura da liberdade”, o projeto não determina ao visitante, o espaço em que ele deve permanecer, no térreo, ou ainda, a linha de fronteira entre o edifício e a cidade. Pelo contrário, a calçada penetra e transpassa todo o Belvedere do museu. É interessante perceber como ela, com uma simples atitude projetual, transforma um espaço vazio, sem definição, em um lugar, impregnado de possibilidades, repleto de significados.

Lina Bo Bardi (Roma, 1914 – São Paulo, 1992) foi uma arquiteta modernista ítalo-brasileira, responsável por grandes obras na cidade de São Paulo como o MASP, Sesc Pompeia, Casa de Vidro.

21

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Figura 32 - Vista aérea Avenida Paulista. Fonte Archdaily, 2017.


análise funcional O volume principal (superior) abriga toda a parte de exposições, administração, depósitos e arquivos. Há ainda, um volume inferior, invisível para quem está na Paulista, escalonado nas cotas do terreno que descende em direção à Nove de Julho, onde encontram-se auditórios, loja, restaurante e café.

análise técnica O edifício apresenta uma forma simples de paralelepípedo envidraçado de 70x30m elevado a 8,4m sustentado por 4 pilares de concreto de 4x2,5m, formando um vão lateral de 15m e um vão frontal de 74m de comprimento. Acima Figura 33 - Diagrama em corte transversal identificando espacialização dos usos no edifício. Ao lado Figura 34 - Diagrama em corte longitudinal identificando espacialização dos usos no edifício. Fonte: Acervo pessoal, 2018.

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capítulo 2 | estudo de casos

Os quatro pilares e as duas vigas aparentes externamente no edifício são pintador da cor vermelha, e dão a sensação de sustentarem o edifício acima do chão, como duas alças. A estrutura é majoritariamente de concreto, com alguns tirantes de aço. O vão de 74m é um dos vãos mais notáveis do mundo, principalmente pela a época que foi construído.

análise estética O edifício é de concreto na cor natural e pigmentado vermelho, nos quatro pilares e ambas vigas. As duas fachadas são compostas de vidro com caixilhos metálicos na cor preta. No seu vão de entrada, o piso é composto de pedra, paralelepípedo. Nesta página Figura 35 - Diagrama estrutural. Fonte Wordpress, 2015. Figura 36 - Ocupação do vão: Feira de artesanatos. Fonte Arcoweb, 2014.

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Página ao lado Acima Figura 37- Vista da Avenida Paulista. Fonte Arcoweb, 2014. Esquerda para direita Figura 38 - Área de exposição no nível inferior. Fonte Arcoweb, 2014. Figura 39 - Área de exposição no nível superior. Fonte Arcoweb, 2014.

Figura 35 - Diagrama estrutural. Fonte Wordpress, 2015.


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capítulo 2.4 ims paulista, são paulo local SÃO PAULO, BRASIL uso

CULTURAL, MUSEU

escritório

ANDRADE E MORETTIN

ano 2017 Resultado de um concurso vencido pelo escritório paulista Andrade e Morettin22, o projeto abriga um museu, café, restaurante, loja, auditório, midiateca e biblioteca. Está localizado na Avenida Paulista, e sua obra foi concluída no ano de 2017. Situado entre dois edifícios existentes, o terreno em questão tem uma área total de mil m² e só recebe sol através da fachada da própria avenida.

François Ascher (Metz, 1946 – Paris, 2009) foi urbanista e sociólogo francês, estudou os fenômenos metropolitanos e explorou os conceitos de “metapolis” e “hipermodernidade”, autor do livro Os novos princípios do urbanismo (2001).

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análise funcional Foi desenvolvido a partir do conceito de cheios e vazios, e o elemento articulador do projeto foi elevar o térreo a 15m do nível da rua, sendo acessível através de escadas e elevadores, criando uma espécie de mirante para a avenida para quem acaba de adentrar o edifício. O térreo elevado foi então pensado como uma praça, que serviria como espaço de convívio e orientação de fluxos. A distribuição dos demais espaços no projeto segue a premissa de reforçar as conexões e dar continuidade entre os ambientes. O núcleo rígido – core – é um volume de concreto que abriga elevadores, banheiros e escadas de emergência. Outro volume independente é o da Midiateca – vermelho, opaco - composto de auditório, salas de aula, espaço multimídia e biblioteca.

Figura 43 - Térreo - Acesso e Restaurante.

Figura 44 - 1° Pavimento - Biblioteca e Administração.

Página anterior Figura 40 - Fachada Avenida Paulista. Fonte Estadão, 2018. Figura 41 - Diagrama de usos. Fonte Andrade e Morettin, 2017. Nesta página Ao lado: Figura 42 - Diagrama de usos em corte. Fonte Andrade e Morettin, 2017.

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capítulo 2 | estudo de casos

Figura 45 - 2° Pavimento - Salas de aula.

Figura 49 - 6° Pavimento - Exposição temporária.

Figura 46 - 3° Pavimento – Auditório. Figura 50 - 7° Pavimento - Exposição temporária.

Figura 47 - 4° Pavimento – Apoio.

Figura 51- 8° Pavimento - Exposição temporária.

Figura 48 - 5° Pavimento - Térreo elevado e distribuição do programa.

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Fonte Andrade e Morettin, 2017.


análise técnica A estrutura do edifício é majoritariamente metálica, assim como o fechamento do bloco da midiateca. O core central com escadas de emergência, elevadores e banheiros é composto de concreto moldado in loco, dando estabilidade e apoio para a estrutura metálica.

Figura 52 - Diagrama estrutural. Estrutura metálica e de concreto em evidência. Fonte Andrade e Morettin, 2017.

análise estética Os materiais empregados foram o vidro – translúcido e autoportante – funciona como uma segunda pele que deixa a luz entrar, porém abandona o caos da cidade de São Paulo do lado externo; painéis metálicos para a vedação da midiateca; cabos e estrutura metálica e de concreto; mosaico português, utilizado no térreo elevado, recriando as ruas da São Paulo antiga e, no nível da rua foi utilizado o mesmo tipo de pavimentação da calçada, criando uma continuidade visual e espacial para o pedestre.

Página seguinte Figura 53 - Aplicação da materialidade. Fonte Andrade e Morettin, 2017. Figura 54 - Foto da maquete física. Fica perceptível os cheios e vazios do edifício, bem como a fachada “pele” translúcida. Fonte Andrade e Morettin, 2017.

63


capĂ­tulo 3

o centro da cidade de sĂŁo paulo


capítulo 3.1 breve histórico

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A partir de 1930 o padrão de crescimento da cidade de São Paulo é marcado pela substituição do transporte ferroviário pelo transporte rodoviário. Com essa mudança, aumento de investimentos no mercado e indústria (principalmente metalúrgica, química e mecânica), houve um grande crescimento do número de imigrantes, o que acabou por acarretar uma crise de moradia. Milhares de pessoas recém-chegadas de outros estados e países em busca de melhores oportunidades esperavam encontrar em São Paulo um emprego, uma casa e um futuro mais promissor para suas famílias. Encontraram na verdade uma cidade despreparada para comportar tamanha expansão, ocasionando crescimento do número de cortiços na região central. A procura por abrigo na área era grande, a oferta cada vez menor e os preços subiam mais, levando as pessoas a procurarem por opções mais afastadas dali. Esse movimento aos poucos foi se tornando comum e causou um espraiamento progressivo e marginalização das camadas de renda mais baixa, que se acomodaram nas periferias da cidade, em amontoados habitacionais mais conhecidos no Brasil como Favelas. A partir de 1940, com o enriquecimen-

to da cidade, a verticalização das zonas centrais tornou-se uma prática comum, e a região sudoeste da capital consolida-se como polo privilegiado de centralidade, concentrando os principais serviços, comércios e as áreas residenciais de alta renda, onde foram criadas “cidades” – bairros – jardins. Nessa década ainda, foram pavimentadas as rodovias Dutra e Anchieta, duas grandes rodovias do estado, dando margem para maior expansão industrial, que alcançou a zona do ABC e Guarulhos. Já nesse momento, a cidade de São Paulo passa a ser o centro industrial e financeiro, além de ser a maior cidade do país, totalizando uma população de 2 milhões de habitantes em 1950. De 1950 em diante a imigração estrangeira diminuiu e cresce ainda mais a migração interna, principalmente de Minas Gerais e região Nordeste. Esse movimento marca as transformações e espacialização cultural na cidade. Até então, o centro da cidade23 abrigava a vida cultural, econômica e política de todas as camadas da sociedade – “a boca do lixo e do luxo” compartilhavam o mesmo espaço na cidade. Só então, na década de 70, aconte-


Figura 55 - Vale do Anhangabaú e Viaduto do Chá no centro de São Paulo, em meados de 1940. Já com grande fluxo de automóveis e pedestres. A cidade já começava a apresentar verticalização das construções, porém ainda mantinha espaços públicos e praças. Fonte Skyscrapercity, 2013.

Figura 56 - Avenida São João no centro de São Paulo na década de 1940, uma das principais avenidas da cidade na época, concentrava comércio, serviços e grande fluxo de pedestres e automóveis. Fonte Skyscrapercity, 2013.

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Figuras 57, 58 (páginas anteriores) e 59 - Fotos do centro da Cidade de São Paulo em meados de 1950. Já é possível perceber verticalização das construções da região, bem como grande fluxo de automóveis e pedestres e o uso do “bonde” como transporte público. Fonte Skyscrapercity, 2013.


Considerado toda a região desde o Centro Tradicional – Praça da Sé – até o então chamado Centro Novo, região considerada entre a Praça Ramos e a Praça da República, que se desenvolveu no pós-guerra.

23

ce um deslocamento do centro de consumo, que se implanta em torno da Avenida Paulista. Paralelamente a isso, começavam-se os investimentos para a construção do metrô. Com a vinda do metrô e construção dos terminais de ônibus facilitou-se o acesso e deslocamento na região. Por outro lado, com o boom da indústria automobilística, só fazia uso do transporte público quem não podia pagar por um carro. Nesse momento ainda, implantam-se os grandes calçadões, transformando algumas ruas do centro em zonas exclusivas de pedestre, esboçando assim um destino de fácil acesso através do transporte público e restrito aos veículos privados. O resultado foi a popularização do centro e seu abandono progressivo pela elite. Enquanto isso, a Avenida Paulista e região só cresciam, ganhando fama e glamour, investimentos e o status de Zona Comercial de Uso Misto de Alta Densidade. Em 1972 foi expedido o primeiro Zoneamento do município, que previa verticalização nas zonas onde a mesma já acontecia, definindo as zonas predominantemente industriais e permitindo expansão nos eixos e núcleos onde o comércio já ocupava. Para o restante da cidade (70%), predominantemente residencial de baixa/média renda, o zoneamento propunha uma zona mista de baixa densidade. Com essa ação, o governo estruturou legalmente uma cidade em que os potenciais de uso e construção são concentrados em menos de 10% do seu território, isolando as periferias com uma barreira industrial. Alguns anos mais tarde, devido ao grande aumento do número de favelas, começaram a ser construídos os grandes conjuntos habitacionais nas periferias, o que acabou por aumentar o número de ocupações irregulares na área. E não se pode esquecer que esses assentamentos não têm ligação legal de água, luz ou saneamento, o que justifica o índice de domicílios ligados à rede de coleta de esgoto da época ser menor que 50% de toda a população total da cidade. Em 1970 ainda, cria-se o primeiro Plano Diretor de Desenvolvimento, a fim de estabelecer diretrizes para o encaminhamento das

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capítulo 3.1 | breve histórico da cidade de são paulo

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políticas urbanas municipais: desenvolvimento urbano, econômico e social, administração da prefeitura, uso do solo, áreas verdes, controle da poluição, sistemas de transporte, etc. No final da década, já havia sido definida a Região Metropolitana de São Paulo como um conglomerado de 39 municípios. A partir de 1980 começou-se a reduzir a força industrial no Estado. Atualmente, porém, a Região Metropolitana ainda abriga milhares de indústrias e recebeu desde 1990 investimentos principalmente de indústrias de tecnologia, informática e alimentícia. A cidade, entretanto, concentra hoje maior número de empregos e capital na área de comércio e serviços. No entanto, a diminuição da atividade industrial na cidade, somada à adoção da tecnologia pela indústria – implantação de sistemas de automatização – e ao aumento do setor terciário acaba por gerar uma crise de desemprego. Com a diminuição da atividade industrial na cidade, as barreiras formadas na periferia foram se esvaziando e os vazios deixados pela indústria foram se tornando áreas residenciais, comerciais e de lazer. Foram surgindo também megaempreendimentos como shopping centers, condomínios residenciais, edifícios empresariais. os empresariais. O pedestre foi cada vez mais perdendo seu espaço para o automóvel e o espaço público perdeu primazia para o espaço privado.

Curiosamente, a partir dos anos 90, intensifica-se a exclusão territorial do centro da cidade que, apesar de possuir mais cobertura de serviços e equipamentos urbanos, foi sendo esvaziado progressivamente através dos anos, “exportando” populações para as periferias mais distantes – não só de baixa renda, mas também como média e alta renda, que procuram por mais espaço e melhor qualidade de vida nas cidades “dormitório” vizinhas. A falta de oportunidades para a população que está em posição desfavorável gera um desconforto social e aumenta também a violência, causando enclausuramento da população mais abastada em seus condomínios fechados, carros blindados, e acabando com o progresso do espaço urbano, que vem a sofrer, também, as consequências dessa exclusão e violência urbana, sendo continuamente degradado – o espaço público é tratado como “terra de ninguém”. Por um lado, São Paulo se torna, rapidamente, a cidade mais economicamente ativa do país, com intensa movimentação comercial, serviços, nos aeroportos, por outro lado a violência, o desemprego e a população favelada crescem; o espaço urbano é escasso, mal utilizado e a crise de transporte só aumenta, alcançando altos índices de congestionamento. É com esse cenário que a cidade inicia o Século XXI.


Figura 60 - Foto aérea da Avenida Paulista, com foco no Parque Trianon e Vila Fortunata, em meados de 1930, hoje destruída. Fonte Wordpress, 2015.

Figura 61 - Conjunto Habitacional construído nas periferias de São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, na Grande São Paulo, onde até hoje ainda existem muitas indústrias. Pode-se perceber o tipo de construção dos Conjuntos característico dos anos 2000, quando eram construídos junto às favelas, sem qualquer preocupação arquitetônica estética. Fonte Estadão, 2013.

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capítulo 3.1 | breve histórico da cidade de são paulo

Figura 62 - Foto aérea da Avenida Paulista junto ao MASP e Parque Trianon no ano de 2010. Forte verticalização, fluxo de automóveis e pedestres, poucos espaços públicos e áreas verdes isoladas. Fonte Sp Turismo, 2017.

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capítulo 3.2 o centro hoje

O centro da cidade de São Paulo passou por anos de decadência, porém, após muitas ações da prefeitura e muitos projetos urbanos a região está pouco a pouco sendo restaurada e se reafirmando na cidade. Atualmente, é caracterizado pela presença de muitos edifícios históricos, ainda malconservados e, muitos deles, desocupados. Possui uma rica infraestrutura viária e de transportes (trem, metrô, ônibus e agora também, a bicicleta foi incorporada); variedade de equipamentos culturais e de lazer, para qualquer tipo de público; intensa atividade no setor de comércio e serviços e grande número de equipamentos educacionais que também já ocupam a região desde o início do século passado. A apropriação da região é dada por grupos de menor poder aquisitivo e por atividades comerciais menos rentáveis – quem é habitante de São Paulo sabe que, se quer encontrar algo por um preço melhor, deve-se procurar pelas ruas do centro (R. Vinte Cinco de Março, Rua do Gasômetro, Rua São Caetano, Rua José Paulino, Largo da Concórdia,

Zona Cerealista) – ilegais e informais – também há intenso comércio de mercadorias contrabandeadas ou falsificadas e grande número de vendedores ambulantes não oficiais, os chamados “camelôs” pelos paulistas, que expõem suas mercadorias nas próprias calçadas. Essa intensa atividade comercial gera grande movimentação durante o dia, porém, com a falta de densidade populacional, caminhar pelas ruas do centro ao escurecer pode não ser uma boa ideia. Somado a isso, o alto índice de população sem-teto e grande número de vazios edificados, trouxe para o centro muitos movimentos sociais de cunho habitacional, gerando uma série de invasões e ocupações desses edifícios. Abriga, ainda, uma área denominada “Cracolândia” onde muitas pessoas que fazem uso de drogas vivem nas ruas. Todo esse cenário, intensifica a violência na região, e gera medo na população flutuante diária de caminhar por ali e, principalmente, de usufruir do espaço público (praças) e dos equipamentos urbanos – culturais, educacionais - causando um desincentivo à ocupação do centro.

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Figura 63 - Rua 25 de Março em um dia comum. Fluxo intenso de pessoas e mercadorias. Fonte Estação, 2015.

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capítulo 3.2 | o centro hoje

80

Figura 64 - Usuários de drogas nas ruas da Cracolândia, no centro da cidade de São Paulo. Fonte Jota, 2017.


capítulo 3.3 inserção urbana 3.3.1 localização e situação

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A área de estudo está localizada no centro da cidade de São Paulo, no antigo Bairro da Luz, em frente à estação ferroviária (inaugurada em 1867) onde há intensa circulação de pessoas e profusão de hotéis, o que se intensifica com a inauguração da rodoviária (1970) e da estação Luz de metrô da Linha Azul (1975), transformando-a em uma estação Intermodal. Essa movimentação gerou um declínio do uso residencial, atraindo público flutuante associado a atividades diárias. Devido a isso, e ao alto índice de uso do automóvel na cidade, mesmo com o avanço do transporte público, muitas pessoas ainda priorizam o uso do carro, o que significa um expressivo número de estacionamentos – territórios vazios subutilizados. Tanto o distrito da República quanto o da Sé apresentam diversas opções de equipamentos culturais, porém a área de enfoque abriga, apenas, o Museu na Língua Portuguesa (na Estação da Luz) e a Pinacoteca do Estado. Ambos edifícios fazem parte do Patrimônio Histórico da cidade e foram tombados pelo CONDEPHAAT nos anos de 1867 e 1905, respectivamente.

O Parque da Luz é a única área verde na região, ainda com remanescentes da Mata Atlântica. É um parque com muitos monumentos, é iluminado, e com elevada incidência de visitantes, porém cercado por grades desde 1905. É um território de fácil acesso, seja por veículo particular, bicicleta, trem, metrô ou ônibus. Apesar das calçadas serem muitas vezes precárias, a região também é acessada a pé com facilidade. Pode-se ainda, notar a falta de espaços públicos de permanência na região. Além do Parque da Luz, há uma praça junto à saída da estação de metrô, também cercada por grades e sem muita vegetação. A presença de vazios urbanos também é uma característica da área, muitas vezes utilizados como estacionamentos, além de muitos edifícios abandonados, algumas vezes bloqueados por paredes de alvenaria para impedimento de ocupações clandestinas.


“(…) os espaços residuais, gerados pelo processo capitalista de construção e reconstrução permanente da cidade, e que se expressam como uma descontinuidade, um vazio a preencher de informação e de novos usos, e os lugares, territórios e edifícios em situação de esvaziamento — espaços abandonados, espaços ocupados por estruturas obsoletas, ruínas, terrenos baldios, terrenos subutilizados e imóveis ociosos — qualificados como urbanos, configuram um fenômeno urbano diferenciado: os vazios urbanos. Embora os diferentes termos utilizados nos estudos recentes — terrain vague, friches urbaines, wastelands, derolict lands, tierras vacantes — patenteiem as diferentes possibilidades de compreensão deste fenômeno, optou-se pela denominação vazio urbano, sublinhando a importância de compreendê-lo em sua dupla condição: vazio e urbano.” (BORDE, 2006, p. 120)

É um território sem uniformidade, e não há conexão alguma dos edifícios recentemente construídos com os edifícios históricos. O gabarito é predominantemente médio/ baixo, salvo algumas exceções, principalmente no distrito da República. O uso do solo predominante é de comércio e serviços, com enfoque no mercado de produtos eletrônicos e com algumas poucas áreas residenciais de baixo/médio padrão, o que torna a área muito movimentada durante o dia, porém deserta à noite. Somado a isso, a presença de muros e a deficiente iluminação urbana, em alguns pontos, qualificam o território como hostil, e indicam que, apesar de ser uma região central, de fácil acesso, o convite ao caminhar do pedestre não existe. Há, atualmente, um plano de uso e ocupação do solo em andamento na região. O projeto, que tem como base a ideia de uma cidade compacta, chama-se Projeto urbanístico da Nova Luz, e tem como principais objetivos a preservação e recuperação do patrimônio histórico; incremento da área residencial, propiciando aumento da densidade demográfica; produção de unidades habitacionais de interesse social e criação de uma rede de espaços públicos.

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capítulo 3.3 | inserção urbana

Página anterior Figura 65 - Estação da Luz em 1900. Fonte Archdaily, 2014.

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Está página Figura 66 - Estação da Luz 2015. Fonte Thiago Leite, 2015.


capítulo 3.3 | inserção urbana

mapa da cidade de são paulo

Figura 67 - Mapa da cidade de São Paulo. Em vermelho detaca-se a região central. Fonte: Acervo pessoal, 2018.

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ampliação do centro da cidade de são paulo

Figura 68 - Mapa do Centro da cidade de São Paulo. Em cinza escuro destacam-se os distritos da Sé, Bom Retitro e República. Em vermelho, destaca-se a área de estudo. Fonte: Acervo pessoal, 2018.


capítulo 3.3 | inserção urbana

ampliação da área de estudo

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Figura 69 - Ampliação da área de estudo. Em destaque, vermelho, o terreno de projeto. Fonte: Acervo pessoal, 2018.

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3.3.2 uso e ocupação do solo e sistema viário O terreno em questão é uma Zona de Centralidade e Preservação Ambiental, segundo o Zoneamento de 2016, e a região está prevista no Plano Diretor da cidade (2014) como uma Macrozona de Estruturação e Qualificação Urbana e Macroárea de Estruturação Metropolitana.

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usos do solo

Figura 70 - Mapa de usos do solo da รกrea de estudo. Em destaque, vermelho, o terreno de projeto. Fonte: Acervo pessoal, 2018. legenda


ocupação do solo

Figura 71 - Mapa de ocupação do solo da área de estudo. Em destaque, vermelho, o terreno de projeto. Fonte: Acervo pessoal, 2018. legenda


sistema viário

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Figura 72 - Mapa do sistema viário da área de estudo. Em destaque, vermelho, o terreno de projeto. Fonte: Acervo pessoal, 2018.

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Figura 73 - Mapa com levantamento de áreas verdes (árvores na calçada e parque), e edifícios notáveis na área de estudo. Em destaque, vermelho, o terreno de projeto. Fonte: Acervo pessoal, 2018.


capítulo 3.3 | inserção urbana

1. Praça gradeada vista da Avenida Casper Líbero. Fonte: Acervo pessoal, 2018.

7. Empena vista da calçada da Avenida Casper Líbero. Fonte: Acervo pessoal, 2018.

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2. Vista de frente da escadaria de acesso à Praça na esquina da Rua Maua com Rua Washington Luis. Fonte: Acervo pessoal, 2018. 8. Vista da Avenida Cásper Líbero: terreno murado, empenas no fundo do terreno e edíficios altos da Rua Washington Luis. Fonte: Acervo pessoal, 2018.


3. Praça e Terreno vistos da Passarela que cruza a Avenida Tirantentes. Fonte: Acervo pessoal, 2018.

6. Terreno e empenas vistos da Praça. Fonte: Acervo pessoal, 2018.

4. Vista lateral da escadaria de acesso à Praça na esquina da Rua Maua. Atrás, da esquerda para direita, a Estação da Luz, o edifício tombado e o edifício mais alto da área. Fonte: Acervo pessoal, 2018. 5. Praça e empenas vistas da Rua Brigadeiro Tobias. Edificação em azul à esquerda é a saída da estação de metrô. Fonte: Acervo pessoal, 2018.

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capĂ­tulo 4

centro de artes e ofĂ­cios


Figura 74 - Fachada principal vista da Praรงa. Fonte: Acervo pessoal, 2018.


capítulo 4 | centro de artes e ofícios

arte

As artes, desde os primórdios da vida humana, sempre foram uma forma de expressão. A pintura rupestre, por exemplo, aparece antes mesmo do que a linguagem verbal na história das civilizações. A Grécia Antiga, é conhecida por suas peças de teatro, as tragédias gregas. Rituais de tribos indígenasne povos antigos também acontecem ao som de cantos, tambores, e outros instrumentos musicais. E esses mesmos rituais são, muitas vezes, realizados através de danças e expressões corporais. Nós, como seres humanos, temos histórica e tradicionalmente um espirito expressivo. Com o passar dos anos, a distribuição das tarefas e a segregação da sociedade, esse espirito foi se encolhendo, e hoje, muitas pessoas passam a vida toda com pouco ou quase nada de contato com o ramo artístico. O estudo de artes no Brasil ainda é muito caro e exclusivo. Pequena parcela da população pode financiar um curso de música, dança, atuação ou expressão, tornando-o assim, elitizado.

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ofício

1. qualquer atividade de trabalho que requer técnica e habilidade específicas. Fonte: Michaelis, 2018.

Os ofícios acompanham a história humana há milhares de anos. Eram ofícios passados de geração em geração, em uma sociedade na qual tudo era produzido artesanalmente para consumo próprio. Com o crescimento e expansão da população pelo globo, essas tradições foram se perdendo e, hoje, cada vez menos pessoas sabem costurar um botão que caiu ou arrumar uma gaveta quebrada. Busca-se então alguém que o faça, muitas vezes que aprendeu pela necessidade, e trabalha com isso sem muita infraestrutura ou conhecimento. Além disso, este ramo de profissões descendentes dos ofícios, tendem a ser muito mal valorizadas no Brasil. O mundo atual globalizado possibilita uma economia global aberta e acessível, porém financeiramente nem todos tem acesso a esses bens de consumo. Além de incentivar a exploração de mão de obra barata, esse


sistema inviabiliza o mercado local, autoral e artesanal muitas vezes de maior qualidade e maior preço, por não ser produzido em massa. Além disso, a disponibilidade de espaços para este uso ainda é escassa na cidade, obrigando o produtor a comprar máquinas e dispor de um espaço para se dedicar ao oficio. Hoje, já é possível encontrar algumas escolas que ofereçam cursos nessas áreas como marcenaria, serralheria, carpintaria, artesanato, pintura, costura - porém o custo ainda é muito alto, devido a necessidade de máquinas caras, espaços amplos e matéria prima, o que impede grande parte da população de aprendê-los. Concomitantemente, o mercado artesanal e autoral também cresce mundo afora, o que indica um crescente desejo de parte da população de fugir do sistema capitalista mundial. Além de contribuir com o mercado independente, esse movimento também gera valorização da mão de obra do produtor. O Centro de Artes e Ofícios é o resultado dessa vontade de exploração desses conhecimentos adquiridos ao longo da evolução humana, que foram sendo esquecidos com a expansão capitalista.

capítulo 4.1 conceito

Permeabilidade. O edifício deveria ser erguido de forma a não criar uma barreira nem física nem visual para o pedestre, mas sim proporcionar uma continuação do olhar e do caminhar. Um edifício aberto para a cidade representaria uma escola aberta, acessível a todos. Edifício conectado com a praça e a cidade. Criação de espaços públicos de diferentes escalas. Vida para a cidade. Uma vez que o uso predominante na região é comercial, o fluxo de pessoas a noite diminui bastante, tornando-a hostil, principalmente para o pedestre. O adensamento traz mais movimento e, consequentemente, vida para o lugar nas horas não comerciais. Além de propiciar abrigo para artistas, professores e alunos da escola. Lugar. Partindo do princípio de que o programa deveria estar localizado no centro de São Paulo, a escolha do terreno se norteou pelo fácil acesso e abertura do projeto. A região escolhida, da Luz, além de sua importância histórica e cultural, atendia esses requisitos.

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capítulo 4 | centro de artes e ofícios

Além disso, o edifício da Pinacoteca, a 300m do terreno, abrigava antigamente o Liceu de Artes e Ofícios, uma escola gratuita de artes aplicadas. Inserir o projeto ali seria uma forma de tentar resgatar uma parte da história da cidade. Criação de uma intervenção inclusiva com oportunidades para todos os grupos socioeconômicos; mistura de usos residenciais, comerciais, culturais e educacionais; comércio sustentável e utilização dos potenciais que o terreno e a área oferecem.

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Página seguinte Figura 75 - Diagrama de distribuição do programa arquitetônico. Fonte: Acervo pessoal, 2018.

capítulo 4.2 programa escola + centro de treinamento + oficina para todos Sala de Espetáculos - lotação 342 pessoas Foyer, banheiros, quartelada, camarins, depósitos, coxias, sala para controle de luz e som, sala de estar para os artistas e área de carga e descarga. Escola Salas de aula de dança, salas de aula de música, salas de ensaio para teatro e espetáculos, oficina de costura, oficina de marcenaria e oficina de artesanato, banheiros, administração e espaços de lazer e estudos. Alojamentos A torre abriga, no embasamento, salas e espaços a serem utilizados tanto pelos moradores quanto pelos alunos, professores e artistas da escola. São eles: área de convívio, salão para práticas corporais, área de estudos com biblioteca, salão de jogos, lavanderia e refeitório coletivos e solarium. A torre é composta de seis pavimentos com seis alojamentos cada. Um alojamento é composto por quarto e banheiro. Cada andar possui uma sala e uma cozinha coletiva.


diagrama de distribuição vertical do programa


capítulo 4 | centro de artes e ofícios

capítulo 4.3 partido - Utilização dos potenciais que o terreno e a área oferecem: utilização das empenas existentes para posicionamento das torres do projeto. Utilização de uma empena como tela de cinema ao ar livre na cobertura. - Edifício principal, da escola, sobre pilotis, criando continuidade da praça e das calçadas adjacentes. - Espaço livre para apropriação espontânea e para realização de feiras e mercados ambulantes, onde a produção da escola poderá ser exposta e vendida. - Brises na fachada principal traz permeabilidade visual de quem está na praça, possibilitando enxergar o movimento das aulas de dança. - Visuais para o Parque da Luz, Pinacoteca e Estação da Luz. - Escada de acesso na Avenida Cásper Líbero funciona como uma arquibancada para a cidade, um espaço de descanso, uma arena informal onde podem acontecer apresentações. - Praça se mistura com espaços livres cobertos, no térreo da escola. - Cobertura da saída da estação de metrô é conectada com o edifício, criando continuidade.

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- Marcenaria deslocada da escola a fim de diminuir o ruído - Restaurante na esquina da Rua Brigadeiro Tobias, para atender tanto a escola e alojamentos, quanto ao bairro. - Marcenaria e restaurante foram alocados na entrada da Rua Brigadeiro Tobias por questões logísticas de abastecimento. - Teatro foi alocado na Avenida Cásper Líbero por questões de abastecimento (carga e descarga), por ser uma via de maior fluxo e mais fácil acesso. - Criação de níveis de espaços públicos de permanência, ora mais abertos (como na praça da estação) ora mais reservados (como na praça atrás). Na cobertura, o bar foi colocado à frente, onde o ruído externo não é um problema e o ruído causado também não tem impacto na praça. A área de descanso com redes foi colocada atrás para ser um espaço mais reservado, tranquilo. - Escada principal cria uma dinâmica na circulação vertical da escola e facilita o acesso de ambos os lados. - Formato da torre, em U, pensando em melhor ventilação e iluminação em todos os alojamentos. Também existem dois rasgos, um de cada lado da caixa de circulação da torre, a partir dos 10m de altura. Servem para a entrada de luz e ventilação na parte de trás, ao lado das empenas.


diagrama de partido arquitetônico

Figura 76 - Diagrama de intenção do partido arquitetônico. Primeiro a extrusão das empenas existentes para a criação dos dois volume. Depois a diminuição da altura e extensão londitudinal do volume principal, onde a empena será usada como tela de cinema. Na torre, ajuste da fachada para melhor ventilação e incidência de luz. Por fim, a elevação do volume principal sobre pilotis, criando uma continuidade para o pedestre. E elevação da torre, desconectando-a do embasamento, a fim de criar uma segregação progrmática. Fonte: Acervo pessoal, 2018.


capítulo 4 | centro de artes e ofícios

capítulo 4.4 peças gráficas

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implantação cobertura

Figura 77 - Implantação de cobertura do projeto. Fonte: Acervo pessoal, 2018.


implantação térreo | + 0.00


capítulo 4 | centro de artes e ofícios Página anterior Figura 78 - Implantação do térreo do projeto. Fonte: Acervo pessoal, 2018.

1° pavimento | + 6.90

110

Figura 79 - Planta do 1° pavimento. Fonte: Acervo pessoal, 2018.


marcenaria | + 4.00 Figura 81 - Ampliação em planta da sala de aula teórica da oficina de marcenaria. Fonte: Acervo pessoal, 2018.

mezanino | + 3.40

Figura 80 - Planta do mezanino, com café e espaço de descanso. Fonte: Acervo pessoal, 2018.

Figura 82 - Vista da escada e arquibancada no acesso no térreo. Criação de um espaço lúdico. Fonte: Acervo pessoal, 2018.


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2° pavimento | + 11.00

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Figura 83 - Planta do 2° pavimento. Fonte: Acervo pessoal, 2018.


3° pavimento (cobertura escola) | + 15.00

Figura 84 - Planta do 3° pavimento e cobertura do bloco da escola. Fonte: Acervo pessoal, 2018.

Figura 85 - Detalhe do pergolado na cobertura da escola. Fonte: Acervo pessoal, 2018.

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capítulo 4 | centro de artes e ofícios Página anterior Figura 86 - Vista do espaço lúdico na cobertura da escola, com redes para descanso. Fonte: Acervo pessoal, 2018.

pavimento tipo | + 18.50

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Figura 87 - Planta do pavimento tipo da torre de alojamentos. Fonte: Acervo pessoal, 2018.


cobertura torre | + 39.50 sem escala

Figura 88 - Planta da cobertura da torre. Fonte: Acervo pessoal, 2018.

Figura 89 - Corte CC. Corte transversal da escada e arquibancada de acesso e da sala de espetรกculos. Fonte: Acervo pessoal, 2018.

corte cc


capĂ­tulo 4 | centro de artes e ofĂ­cios

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Figura 90 - Perspectiva do pavimento tipo da torre. Vizualização da materialidade e ambientes. Fonte: Acervo pessoal, 2018.

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capítulo 4 | centro de artes e ofícios

CORTE BB 120


Figura 91 - Corte BB. Corte longitudinal da escola. Em evidência, a dinâmica da escada principal da escola. Atrás, vista da torre. Fonte: Acervo pessoal, 2018.

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Figura 92 - Vista da chegada da escada principal no primeiro pavimento. Fonte: Acervo pessoal, 2018.


capítulo 4 | centro de artes e ofícios

CORTE DD 124


Figura 93 - Corte DD. Corte londitudinal da escola (salas de aula) e da sala de espetáculo. Atrás, vista da torre, à esquerda, e da empena que serve como tela do cinema ao ar livre, à direita Fonte: Acervo pessoal, 2018.

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capítulo 4 | centro de artes e ofícios

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corte aa

Figura 94 - Corte AA. Corte transversal da escola (salas de aula) e escada principal, e vista da torre, atrás. Fonte: Acervo pessoal, 2018.


corte ee

Figura 95 - Corte EE. Corte transversal da torre. Fonte: Acervo pessoal, 2018.

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capítulo 4 | centro de artes e ofícios

Figura 96 - Elevação da Avenida Cásper Líbero. Fonte: Acervo pessoal, 2018.


Figura 97 - Elevação da Rua Brigadeiro Tobias. Fonte: Acervo pessoal, 2018.


capĂ­tulo 4 | centro de artes e ofĂ­cios

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Figura 98 - Elevação da Praça principal. Fonte: Acervo pessoal, 2018.

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capĂ­tulo 4 | centro de artes e ofĂ­cios

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Figura 99 - Elevação da parte de trås (vista da fachada das salas de aula) e das empenas que encostam nas empenas existentes. Fonte: Acervo pessoal, 2018.

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capítulo 4 | centro de artes e ofícios

Figura 100 - Elevação, Corte e Planta do detalhe. Fonte: Acervo pessoal, 2018.

Figura 101 - Vista da escola, do pergolado na cobertura e da praça na parte de trás. Fonte: Acervo pessoal, 2018.


Figura 104 - Ampliação das camadas do drywall acústico. Fonte: Acervo pessoal, 2018.

Figura 102 - Detalhe de encaixe do brise no piso de concreto. Fonte: Acervo pessoal, 2018.

Figura 105 - Detalhe de encaixe do brise no piso de concreto. Fonte: Acervo pessoal, 2018.

Figura 103 - Ampliação da sala de aula de dança, com materialidade em evidência. Fonte: Acervo pessoal, 2018.

Figura 106 - Detalhe de encaixe da estrutura de concreto. Viga, pilar e console. Fonte: Acervo pessoal, 2018.

Figura 107 - Ampliação das camadas do piso flutuante das salas de aula de dança. Fonte: Acervo pessoal, 2018.

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capítulo 4 | centro de artes e ofícios

caixilharia

metálica

com vidro duplo

linóleo placas de compensado ripas transversais ripas longitudinais amortecedores contrapiso manta acústica

laje de concreto fixação metálica do brise de madeira na laje de concreto

Figura 108 - Ampliação detalhamento de fachada. Encaixe brise, caixilharia e piso flutuante. Fonte: Acervo pessoal, 2018. Figura 109 - Vista da fachada e acesso da Avenida Cásper Líbero. Fonte: Acervo pessoal, 2018.

136


Figura 110 - Vista da fachada e acesso da Rua Brigadeiro Tobias. Fonte: Acervo pessoal, 2018. Figura 111 - Perspectiva da estrutura de concreto armado prĂŠ moldado (pilares e vigas) e lajes moldadas in loco. Fonte: Acervo pessoal, 2018.

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capítulo 4 | centro de artes e ofícios

capítulo 4.5 experimentação Acústica da Sala de Espetáculos

Figura 112 - Mapa de medição de ruídos. Fonte: Acervo pessoal, 2018.

Acima: Figura 113 - Desenho das placas refletoras para a Sala de Espetáculos. Fonte: Acervo pessoal, 2018.

Ao lado: Figura 114 - Mapa com identificação das principais fontes de ruído. Fonte: Acervo pessoal, 2018.

140 Fontes de ruído


Figura 115 - Mapeamento dos revestimentos acĂşsticos identificados na tabela ao lado. Fonte: Acervo pessoal, 2018.

141


Figura 116 - Vista aĂŠrea da cidade de SĂŁo Paulo. Fonte: Autor desconhecido, 2014.


considerações finais

Após meses de pesquisas e leituras sobre o assunto, buscando entender a dinâmica de construção da vida urbana e de evolução das cidades, mais intensa nos últimos dois séculos, fica evidente a influência da Revolução Industrial como um marco de mudança nessa trajetória. Porém, não basta estudar os fenômenos urbanos e arquitetônicos – externos – também é importante entender como eles refletiram na sociedade naquela época. Como citado no início da pesquisa “Primeiro nós moldamos a cidade e então ela nos molda” GEHL, Jan. Na reta final de um curso de Graduação de Arquitetura e Urbanismo é obrigatório que o aluno entenda a complexidade dos tecidos que formam uma cidade, sua história, geografia, topografia, hidrografia, camadas sociais, sistema viários e de transportes, flux-

os, permanências, a pulsação da vida urbana. Sem essa compreensão é muito provável que o arquiteto não contemple aspectos importantes no partido arquitetônico do projeto, que se insira naquele tecido, que se introduza naquele espaço de maneira a suscitar seus visitantes à apropriação. Entender, hoje, a cidade globalizada é entender que ela é muito complexa, mas ao mesmo tempo carece de coisas básicas como o espaço para o lúdico, para o espontâneo. A arquitetura deve encarar essa realidade efêmera e efervescente da cidade do século XXI, projetando ambientes que se abram à cidade e à infinitas possibilidades, na tentativa de resgaste da qualidade da vida urbana da cidade clássica, que foi evidentemente esquecida ao longo dos últimos séculos.

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julyana gama wlassow tfg | fau mackenzie 2018

A CIDADE PARA AS PESSOAS, A ARQUITETURA COMO INTERFACE  

Undergraduate Thesis (in portuguese). "City for people, architecture as an interface". This work aims to understand how the urban evolution...

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Undergraduate Thesis (in portuguese). "City for people, architecture as an interface". This work aims to understand how the urban evolution...

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