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DISTRIBUIÇÃO GRATUITA EDIÇÃO 01 AGOSTO/2016 CURSO DE JORNALISMO FACULDADE ASSIS GURGACZ - FAG

Não mereço ser assediada: jornalistas relatam casos de abusos no cotidiano jornalístico

IMAGEM: DOMÍNIO PÚBLICO

Propaganda produzida por J. Howard Miller em 1943 utilizada na década de 1980 como forma de promover o feminismo e outras questões políticas.

O que as leitoras consomem no jornalismo local?

Em que editorias as mulheres mais aparecem? Nós contamos.

Tudo está no discurso: reflexão sobre a raiz do problema

Ontem e hoje: a mulher numa profissão de homens

Mulheres em campo - e nos campos: o jornalismo esportivo

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CARTA AO LEITOR

O código machista que a gente (não) vê POR CAMILA AGNER

Desde meados de 2011, me entendo como defensora dos direitos das mulheres. Em 2012, iniciei o curso de Direito esperando atuar nas delegacias da mulher. Em 2014, iniciei o curso de Jornalismo esperando fazer a mulher se enxergar, se perceber como ser. Hoje, em pleno ano de 2016, eu já estou na vigésima tentativa para finalizar esse editorial. Para a detentora do deadline, eu digo que falta inspiração. Mas, na verdade, bem aqui dentro, eu sei que não falta inspiração... O que falta mesmo é coragem de juntar as letras necessárias para formar as palavras que vão compor esse texto. Para mim, sinceramente, a responsabilidade vai além de qualquer outra coisa. Eu, como jovem, mulher e acadêmica de jornalismo, estou me sentindo numa obrigação tão ferrenha de representar bem o papel feminino que travo. Engulo as palavras. Me deixo levar por um mar de inspirações que me deixam perdida. Eu, Camila, de 21 anos, sei bem o que eu quero. Mas e todas aquelas mulheres que não sabem? E todas aquelas jornalistas maravilhosas que não se enxergam como boas profissionais e se deixam levar por balelas baseadas em elogios vazios? Podemos, sim, ser musas inspiradoras dos grandes artistas. Mas mais do que isso, nós precisamos fazer arte – e aqui, meus amigos, eu falo justamente desse nosso grande amigo jornalismo. Esse mesmo, que diz ter espaço para todos, mas diminui casos de estupro dizendo que a vítima ‘se expôs em lugar inadequado’ e faz questão de dar dicas de como emagrecer 10 quilos em uma semana. O nosso jornalismo é machista e não faz questão de mascarar. Mas, calma lá... Não é o nosso jornalismo – é o de vocês. Pelo menos aqui, nesta primeira edição do Jornal Interativo, nós, alunos, propusemos fazer um jornalismo mais justo, que entende a mulher como ela é e que a representa de maneira quase

que polida. O nosso jornalismo, pelo menos nestas páginas, enxerga a mulher – principalmente a jornalista. Para chegar até esse patamar, no entanto, as pedras no caminho não foram pequenas, dessas que a gente dá um passo mais largo e consegue ultrapassar. Ouvimos histórias dolorosas e revoltantes de jornalistas que foram assediadas no seu próprio local de trabalho. Falamos com uma especialista na área que comprovou: o machismo está, sim, calcado no jornalismo. Acompanhamos, durante 24 horas, todas as notícias que saíram na mídia cascavelense para comprovarmos que, realmente, a mulher só é fonte em casos muito específicos. Nós fomos a campo: vivemos, mesmo que indiretamente, a maneira que a mulher é retratada na imprensa de Cascavel – e o resultado foi tão impactante quanto o momento em que eu jogo a culpa desse jornalismo em vocês. Somos um coletivo. Somos parte de uma categoria que, embora não muito unida, deve trabalhar em prol de uma sociedade que seja, pelo menos, bem menos machista – com licença para a repetição das palavras. No rap, Karol Conká representa. No cinema, Angelina Jolie luta. Na justiça, Maria da Penha inspira. E no jornalismo, pra quem recorremos? Temos, sim, Olga Bongiovani, Eliane Alexandrino, Patricia Cabral e Franciele Orsato. Mas seriam essas mulheres o suficiente? Por quanto – e quais – elas passaram para chegar até aqui? Nosso jornal Interativo renasce com uma proposta metalinguística, que usa o jornalismo para discutir o próprio jornalismo. Vamos discutir o jornalismo porque sabemos que, na vida real, na correria do dia a dia, a discussão se torna inexistente. Especialmente nesta primeira edição, nosso jornal interagiu com um cenário triste – e preocupante – dos resultados do machismo no nosso meio. Hoje é o nosso dia de tentar mudar isso propondo a reflexão. E quanto a você, colega... O que você fará para que a mulher exista nos jornais, portais, revistas e programas de tevê? Parafraseando a representação do rap feminino, eu sou mulher e tô na luta... Mas e as Marias, Joanas, Joyces, Gabrielas e Micheles – no seu dia a dia, tem espaço pra elas também?

EXPEDIENTE O Jornal Interativo é uma publicação acadêmica produzida pelos alunos do sexto período do Curso de Jornalismo do Centro Universitário Fundação Assis Gurgacz para a disciplina de práticas em Jornalismo Impresso. Professora e Jornalista responsável: Julliane Birta | Coordendor do Curso de Jornalismo: Ralph Willians de Camargo | Projeto Gráfico: Ralph Willians | Reportagens: André Lucas, Andressa Cavalheiro, Bianca Azevedo, Etthiany Berger, Jeferson Espósito, Matheus Bez Batti, Patricia Magri, Roberta Petrosk, Emilâini Thierizi, Luiza Vaz, Juliane Albuquerque, Leonardo Doro | Diagramação: Andressa de Carli, Áquila Daniela, Bryan Henrique, Jamile Erdmann, Luana Schmitt, Natália Onetta, Renan Wrubleski, Fernanda Ferreira, Sandro Carbonera, José Roberto Virgulino, Valdineia Rodrigues | Editora-chefe: Camila Agner | Revisão e edição: Camila Agner, Fernanda Ferreira e Roberta Petrosk | Fotos: arquivo pessoal, Luiza Vaz e Juliane Albuquerque


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CRÔNICA

Mulheres poderosas POR EMILAINE THIERIZI

Sendo a maioria na profissão de Jornalista, as mulheres continuam donas de casa, esposas, mães e poderosas, exercendo uma das mais difíceis profissões. Há pouco mais de cinco décadas elas decidiram mudar o perfil do jornalismo e passaram a enfrentar preconceitos e limitações. No Brasil, o racismo ainda é um dos maiores problemas enfrentados, principalmente na mídia televisiva. No ano de 1974, Glória Maria foi a primeira repórter negra a aparecer na Rede Globo, depois disso foi um passo para o sucesso. A jornalista superou todo e qualquer tipo de preconceito mostrando seu talento e deixando bem claro que a cor da sua pele jamais influenciaria no tamanho da sua competência. O sexo frágil como diz o senso comum já viajou o mundo para mostrar diversas culturas, o sexo frágil também já foi para a guerra no Afeganistão, o sexo frágil já sofreu preconceito nas redes sociais e esse

mesmo sexo frágil continua sendo uma das melhores jornalistas da Rede Globo, Glória Maria, fazendo matérias em vários lugares do mundo, continua sendo a repórter que representou a Folha de S. Paulo no Iraque e no Afeganistão, Patrícia Campus Mello e continua também apresentando a previsão do tempo no jornal brasileiro de maior importância e audiência, Maria Julia Coutinho que sofreu racismo no Facebook. Mas o preconceito com as mulheres não faz parte da nossa realidade! Engano seu! Infelizmente recentemente uma apresentadora de um jornal locas foi vítima do machismo do seu colega de bancada. A sua beleza admirada por muitos foi motivo de desvalorização profissional e o mais impressionante, o ato aconteceu no dia internacional da mulher. Ser mãe, amiga, esposa, dona de casa, negra, mulher e jornalista, característica de mulheres poderosas, capazes de absorver toda falta de respeito e usar da delicadeza feminina para tornar emocionante cada matéria e principalmente para entender cada personagem, olhando para essência.

CRÔNICA

Manual de etiqueta da mulher feia POR JULLIANE BRITA

A mulher feia acorda todos os dias e não cabe nas roupas, não cabe no espelho, não cabe no espaço minúsculo que deixaram para ela na fila da satisfação. O sorriso da mulher feia não cabe na boca, na fotografia, no rosto distorcido de lágrimas. Não é permitido sorrir, dizem à mulher feia, que engole a gargalhada, envergonhada, e depois de um tempo não se lembra mais de como é ter motivos para gargalhar. A mulher feia sobra. Dos lados, na festa, na escolha, na lembrança de quem não sabe o nome dela. “Aquela feia”, aponta, sem nenhum dedo, para a fotografia repleta de gente linda que tem nome, mas não tem parcela de culpa. A saída da mulher feia é encher. O boletim de nota, o corpo de roupa, o peito de angústia, a mente de nãos. Não pode usar saia não pode usar decote não pode usar shorts ou roupa colada não pode a perna de fora o braço de fora a vergonha de fora não pode vestir branco bolinhas listras aberturas tubinhos roupa larga e tremelique. A mulher feia não pode ter tique batom vermelho estampa grande não pode sair sem maquiagem

sem carona certa sem salto alto sem saber exatamente o que dizer para fazer alguém rir. Não pode deixar à mostra as feiuras, escancarar a barriga grande ou a perna fina. Não deve ofender o olhar, a mulher feia, com mais que o argumento fundamental de sua fealdade. Já que está, que não se dê. Não use chapéu, cor demais, tinta demais no cabelo. Não ouse usar o que é de mulher que não é feia. Não use ousar no geral. A mulher feia não pode beber, não pode chorar, não deve reclamar. Não pode falar alto, não deve gostar em demasia de chocolate, não pode ter preguiça, dormir até tarde, ouvir música no máximo. Não deve deixar de pedalar, de abrir portas, de desentupir pia, de saber o significado de parcimônia, a Equação de Torricelli, os 12 trabalhos de Hércules e de ler Affonso Romano de Sant’Anna e Proust no original. Não pode, jamais, a mulher feia dizer que é feia. A ela, resta ocupar o espaço de não estar apta, de não ser acolhida, de não ser amenizada. A mulher feia pode ser amiga, mas não deve ser avistada. Acima de tudo, a mulher feia deve estar para não incomodar e não deve se ressentir. Ressentimento só cabe em lábios bem traçados e corações delicados, o que também não cabe na mulher feia.

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QUEM VÊ

Você é o que consome? Elas consomem cultura, saúde e entretenimento, mas não se sentem representadas pela cobertura jornalística POR JEFERSON ESPÓSITO O que a mulher cascavelense consome no jornalismo? Uma pesquisa foi realizada com 50 mulheres de 16 a 41 anos para responder a essa pergunta. A editoria mais comum entre as entrevistadas de 16 a 25 anos é o Entretenimento. Já de 26 a 30, o mais visto é o Jornalismo Cultural. De 31 a 40, o Entretenimento é o mais consumido, e as mulheres com mais de 41 anos buscam mais informações sobre Saúde. Os meios de comunicação mais utilizados entre elas são a Internet e, em seguida, a Televisão.

Qual o meio de comunicação mais utilizado? 16 a 20

Internet, TV, revista e rádio

21 a 25 Internet, TV, jornal e rádio 26 a 30

Internet, TV, revista e rádio

31 a 40

Internet, TV, jornal e rádio

mais de 41 TV, internet e jornal

16 a 20 Entretenimento Moda Cultura Saúde Esporte Educação Política Economia

21 a 25 Entretenimento Moda Saúde Cultura Esporte Educação Agronegócio Policial Política

26 a 30 Cultura Educação Entretenimento Saúde Economia Política Moda Esportes

31 a 40 Entretenimento Saúde Cultura Educação Moda Agronegócio Policial Economia Política

mais de 41 Saúde Educação Entretenimento Política Cultura Economia Policial Moda

As editorias foram colocadas na ordem em que aparecem


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QUEM FALA

Protagonistas por 24 horas (só que não) O resultado de uma análise de 24 horas das notícias de todos os veículos de comunicação de Cascavel POR LUIZA VAZ

234 PAUTAS

247

ENTREVISTADOS Foram 234 pautas, de todos os veículos comunicacionais de Cascavel: rádio, TV, impresso, web. No total, 247 entrevistados: homens e mulheres no holofote da mídia, mas com destaques diferentes. Para averiguar se a diminuição da mulher na mídia existe aqui, foi desenvolvida essa pesquisa durante um dia analisando todas as notícias publicadas nos veículos locais. Durante 24 horas, 83 mulheres foram destaque em notícias, nas editorias de polícia, bem-estar e saúde, cultura e cotidiano. Mas, se o número parece gritante, eis o choque: no mesmo dia, 157 homens foram, de alguma maneira, parte de alguma notícia. Ambos os dados incluindo fontes oficiais. Mas, enquanto as vozes femininas ecoam no ambiente, as vozes masculinas continuam sendo destaque no megafone.

157

HOMENS

PERFIL Nas revistas, a mulher apresenta maioria, mas na área de beleza e ensaios sensuais. Na política, as mulheres apareceram com citações curtas ou com destaque em acusações, como o de Dilma e o processo de impeachment. Na área policial, na maioria das vezes, a mulher era vítima, como o caso das duas mulheres que perderam a vida em um acidente na PR 545 em Londrina. Neste dia, também ganharam destaque as notícias do acidente envolvendo uma menor de idade, que pilotava uma moto no bairro Brasmadeira e da mulher e sua mãe, que foram vítimas do ex-marido que ateou fogo na casa, sendo que dentro do local estavam as duas acompanhadas de uma criança. Também ganhava destaque em casos inusitados, como uma foto em protesto da proibição de amamentação dentro de uma loja e a mulher que está lutando judicialmente para ter relação amorosa com o filho. E o sequestro da sogra do ˜chefão” da F-1. Neste caso, nem mesmo o fato de que a mulher é uma vítima de sequestro foi maior do que o cargo do homem envolvido. Com grandeza, tivemos as atletas olímpicas brasileiras que conquistaram lugares importantes nas competições: a judoca, Mayara Aguiar conquistou a terceira medalha dos Jogos que acontecem aqui no Brasil, ficando com a bronze no esporte. Essa notícia foi destaque em grande parte dos nossos veículos. Tivemos também a vitória da seleção brasileira sobre a seleção australiana. Todas essas notícias com destaque em quase todos os veículos e merecendo a capa dos jornais impressos. Sempre existiu a dúvida se a mulher de fato é ofuscada pelo homem na mídia. Nas salas de aula, as teorias e os professores já indicavam: no “fontismo”de cada dia, a mulher é um ser percebido – para grande parte dos veículos de comunicação, nós não existimos. Somos, por fim coadjuvantes e daquela velha história em que a mulher é um pescoço enquanto o homem é a cabeça, pelo menos em Cascavel, nem mesmo o pescoço garantimos. E se ainda existem dúvidas, as 24 horas do jornalismo local estão aí para comprovar tal constatação.

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MULHERES

AS EDITORIAS EM QUE AS MULHERES MAIS APARECERAM FORAM: COTIDIANO, POLICIAL, SAÚDE E BEM-ESTAR.


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Escreva sobre o que não se pode falar até que vire um

grito.


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DISCURSO

Da piada de loira à mulher do fulano Observar o machismo nos discursos do dia a dia – e principalmente no jornalismo – mostra como ele ainda é um problema a ser combatido POR PATRÍCIA MAGRI

“Allison Stokke, a atleta que vai prender você no salto com vara no Rio 2016”. Esse título parece normal para você? Se a resposta for sim, você é mais uma vítima dos discursos machistas no jornalismo. Esse é o titulo de um artigo do site Marca Buzz, que tem como objetivo mostrar a beleza da atleta, deixando de lado suas conquistas esportivas. É comum encontrarmos essas situações no cotidiano jornalístico. Tanto nas mídias sociais e televisivas como nos veículos impressos, fazendo parte das revistas femininas, e também das publicações masculinas. A mulher não tem suas opiniões levadas a sério por mais que possuam as qualificações necessárias para a função. Elas lutam para conseguir mudar essa situação, mas ainda existem muitos casos em que os homens são colocados em cargos mais valorizados, e as mulheres colocadas em funções mais leves e desvalorizadas. No jornalismo, as fontes também são selecionadas seguindo um padrão machista, deixando os homens para assuntos considerados mais aprofundados e sérios, como política, esportes, economia, entre outros, deixando as mulheres para assuntos relacionados à beleza, cuidados com a casa e com os filhos. É comum as mulheres serem retratadas como “musas” da beleza. A mulher é questionada ou comentada quando se trata de escândalos de sua vida amorosa ou de críticas feitas pela sociedade, raramente são lembradas e homenageadas por sua carreira profissional e por seus trabalhos. Um bom exemplo disso é uma matéria publicada pela Chicago Tribune, depois que a atiradora norte-americana Corey Cogdell ficou com o terceiro lugar na categoria de tiro ao prato. O título nem cita o nome da atleta, apenas destaca com quem ela se relaciona: “A mulher de um jogador dos Bears ganhou hoje uma medalha de bronze na Olimpíada do Rio”. Muitas vezes, quando há casos de estupros ou assédios contra as mulheres, as notícias são minimizadas e expressões são trocadas e deixadas de uma forma mais leve, colocando a mulher como culpada por estar sendo vulgar ou provocando o agressor. Até no consumo as mulheres são colocadas como referência em propagandas de produtos que as fazem parecer um objeto de venda. Os comerciais televisivos de cerveja, para o público masculino, costumam usar essa estratégia. E também os comerciais de produtos de limpeza, que mostram de forma indireta qual é o lugar da mulher. O Interativo conversou com a professora Franciele Orsatto, que é formada em jornalismo e letras, com mestrado e doutorado em Letras: Linguagem e Sociedade e trabalha com análise do discurso. Ela fala dos discursos, de como afetam a sociedade, e nos ajuda a identificar e evitar o machismo no jornalismo.

INTERATIVO: Como podemos identificar o machismo no discurso jornalístico? Franciele Orsatto: O jornalismo filtra o que é notícia a partir da ideologia; não há manifestação linguística, no jornalismo ou fora dele, desvinculada de valores ideológicos. Sendo assim, o jornalismo apenas deixa vir à tona o que está na sociedade, o que fala em nós sem que muitas vezes nos demos conta. Quando se diz, por exemplo, que uma atleta é tão boa que parece “Fulano de saia”, vemos que o masculino está sendo adotado como parâmetro de comparação e excelência, enquanto o feminino está sendo subordinado a ele. Isto é reflexo não de uma visão individual de quem enuncia, mas do modo como a sociedade compreende o mundo – e o jornalista é porta-voz dessa compreensão. Até mesmo a ideia de empoderamento feminino pode ser usada como uma forma dissimulada de reforço de velhos hábitos e/ou valores. Às vezes, as águas parecem mudar, mas continuam movimentando o mesmo velho moinho... Por exemplo, quando uma revista feminina aposta na questão do poder, tentando “ensinar” a mulher a como ser confiante, independente, “poderosa”. Paradoxalmente, esse poder está calcado na sedução e, no fundo, ainda permanece a centralidade do masculino. Não é um poder calcado principalmente em sua intelectualidade, mas em seu corpo. O homem continua sendo importantíssimo para a vida da mulher; suas ações ainda devem estar voltadas a agradá-lo, conquistá-lo, etc. Assim, toda essa suposta independência, portanto, se relativiza, já que ela tem de atender às imposições impostas historicamente por uma sociedade centrada no homem. Esse padrão centrado no masculino é interessante porque se coaduna com a lógica capitalista: a necessidade de agradar o outro pelo corpo vem a calhar com o propósito de vender cosméticos, roupas, tratamentos de beleza...

I: Quais as características de um discurso machista? Franciele Orsatto: O discurso machista coloca a mulher numa situação secundária, de subordinação – o que muitas vezes acontece de maneira velada, o que é ainda mais eficaz para evitar questionamento. Vou ilustrar a questão fazendo referência a um estudo feito pelo linguista Sírio Possenti que, embora não se refira diretamente ao discurso jornalístico, é bastante esclarecedor. As piadas de loiras se valem do humor para serem reproduzidas infinitas vezes e, à primeira vista, podem parecer apenas distrações inocentes para provocar o riso. Acontece que elas geram o riso por pintarem a mulher loira como ignorante, bela e sexualmente disponível – menos capacitadas que o homem para o trabalho e a atividade intelectual. Assim, tal visão é reproduzida e reforçada, muitas vezes livre de questionamento: por que é a mulher que está nessa posição de chacota? Não se considera que tais piadas tenham se popularizado numa época em que a mulher adentrava no mercado de trabalho e o homem procurava manter um espaço, antes exclusivamente masculino. I: O que pode ser feito para mudar essa situação? Franciele Orsatto: O primeiro passo é a reflexão. É olhar para si mesmo e tirar-se do lugar de sujeito completamente livre, consciente, todo poderoso. Jornalistas ou não, não temos todo esse controle: somos frutos de visões de mundo anteriores e precisamos a todo o momento estar reconhecendo e refletindo sobre essas visões. Em que medida elas são benéficas ou opressoras? A quem elas favorecem e a quem prejudicam? Esse exercício deve ser diário, permanente, incessante. O segundo passo é agir para mudar aspectos da cobertura jornalística, do lado “de dentro” no caso dos profissionais, ou questionar aquilo com o que não concordamos, no caso dos leitores/espectadores. A internet é uma ferramenta poderosa para isso hoje, já que não precisamos aceitar passivamente o que é produzido pela mídia: a interação e o debate devem ser aproveitados ao máximo.


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ONTEM X HOJE

Os degraus do Jornalismo Feminino A mulher numa profissão de homens, uma história baseada em conquistas e prova de competência POR ANDRESSA CAVALHEIRO

Que as mulheres estão conquistando cada vez mais espaço na sociedade, é fato, e felizmente não está sendo diferente com o jornalismo. A mulher vem adquirindo cargos cada vez mais importantes na imprensa, e hoje já é maioria dentro das redações, mas será que sempre foi assim? Faz pouquíssimo tempo que a imprensa concedeu espaço para elas, mas, claro, apenas em cargos mais baixos, geralmente na reportagem. Eugênia Brandão é um exemplo disso. A primeira repórter brasileira precisava se vestir de homem para poder atuar na área, pois até então o jornalismo era considerado uma profissão apenas de homens. Em Cascavel, essa tradição também precisou ser quebrada para que fosse escrito um capítulo na história do jornalismo de que a mulher fosse protagonista. Tudo começou assim... Olga Bongiovanni é uma das pioneiras do jornalismo em nossa cidade, e hoje, com 42 anos de profissão, conta como foi difícil para as mulheres conseguir um espaço nesse meio. Ela ingressou no jornalismo como radialista em 1972, e confessa que não foi nada fácil. “Eu venho de uma família muito pobre, meus pais não tinham condições de comprar nem um livro e achavam que filha mulher tinha que aprender a lavar, passar e costurar para ser uma boa esposa e mãe. Eles não podiam nem pensar em ter uma filha no rádio”. Dona de uma desenvoltura considerável, Olga soube aproveitar as oportunidades que provavelmente ninguém enxergaria. Quando ainda era adolescente, já sabia negociar muito bem, colocou suas habilidades em prática, propondo aos seus colegas de escola que faria os trabalhos e em troca ganharia livros que, em casa, ficavam escondidos de seus pais. Além de ser amante da leitura, Olga também reconhece que sempre foi curiosa, o que Olga iniciou sua carreira no rádio e está até hoje. (Fotos: Arquivo Pessoal)


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Atualmente Beatriz é a apresentadora do Jornal Catve 2ª edição. (Foto: Juliane Albuquerque)

a ajudou muito em seu primeiro trabalho no rádio, pois se tratava de um conteúdo a moça, na época com 20 anos, já tinha algum domínio. “Era um programa de cinco minutos que passava aos domingos e contava histórias de cidades. A pessoa que apresentava na época teve um problema de saúde, então me chamaram para substituir e na hora eu já disse que estava pronta”. Mesmo depois de certa experiência no rádio, as dificuldades ainda eram notáveis naquela época. Ao se mudar para Cascavel, Olga conta que muitas portas se fecharam. “Quando cheguei aqui, fui pedir emprego em todas as rádios da cidade, e todas me disseram não, me falaram para aprender a falar, que eu não tinha dicção, que minha voz era uma porcaria... Eu não desisti”. E mais uma vez Olga aproveitou o máximo que pode, começou a gravar comerciais; era, na época, uma das únicas vozes nas propagandas. Mais uma vez Olga colocou a cara a tapa e foi pedir trabalho nas rádios. Conseguiu uma oportunidade na Rádio Cidade, mas não como radialista e sim como vendedora. “Eu saí para vender e voltei com contratos fechados, então viram que eu não era tão louca e incompetente, e decidiram me dar um programa”. A atração se tornou um grande sucesso, tanto de audiência quanto de vendas. De lá para cá, Olga ganhou um espaço nobre no meio jornalístico, migrando também para a internet e para a TV, onde trabalhou como repórter, apresentadora de programa de variedades, âncora de jornal e alcançou até programas nacionais, na rede Bandeirantes. Mesmo depois de todos esses anos de experiência, a jornalista de voz firme comenta que ainda tem muito que aprender com o jornalismo e que os jornalistas devem estar em constante aprendizado. Seu gosto pela leitura ainda é notável ao citar grandes jornais e revistas que costuma ler, como a Revista Piauí. Para ela, o jornalismo está abrindo grandes portas para a mulher, mas ainda há muito que melhorar. Opinião semelhante à de Beatriz Frehner que, ao contrário de Olga, está começando no jornalismo. Muita coisa mudou... Beatriz considera que seu início no jornalismo foi quase que por acaso. Gostava muito de escrever, fotografar e se diz muito curiosa, porém, ainda não tinha certeza de que jornalismo era sua paixão. A dúvida surgiu ainda na época do vesti-

bular, quando estava dividida entre jornalismo e publicidade e propaganda. Escolheu o jornalismo e deixa claro que não se arrepende nem um pouco da decisão. Suas experiências ainda são poucas, mas pelo tempo que está na profissão, já obteve muito sucesso. Apesar do gosto por jornalismo de revista, ela acabou se descobrindo também no telejornalismo, que foi seu primeiro contato com a área. Ainda em ambiente acadêmico, estagiou na TV laboratório da faculdade. “No meu terceiro ano da faculdade, decidi fazer estágio da TV FAG, e essa foi a minha primeira experiência mais direta com o cotidiano, a linguagem e a parte técnica de uma TV e me identifiquei muito com isso”. No mesmo ano, Beatriz conseguiu sua primeira experiência no mercado de trabalho, onde está até hoje. Ela conta que foi através de um colega de trabalho que a chance surgiu, e que tudo aconteceu muito rápido, em pouco tempo já estava efetivada. Iniciou sua carreira na Catve como redatora. As dificuldades aliadas à pouca experiência apareceram. “O jornalismo diário é muito diferente do que eu imaginava, era uma realidade bem diferente da rotina que tive na TV FAG, achei que não iria aprender. Eu demorei, mas consegui”. A insistência e a fome pelo conhecimento não deixaram Beatriz para trás; quando ganhou mais credibilidade na redação, passou a apresentar a previsão do tempo, e hoje é âncora do telejornal da noite. Apesar de seu progresso em tão pouco tempo, Beatriz diz que ainda tem muito para aprender e que nunca estará satisfeita com o que já conhece do mundo. “O jornalista deve estar em constante aprendizado, sempre buscando mais conhecimento”, outra posição bem semelhante entre Beatriz e Olga. A jornalista acha positivo o fato de estar começando agora na profissão e tem em mente que nunca quer perder essa essência de novata, conquistando cada dia mais espaço em sua carreira. Conhecer boas histórias como a de Olga e de Beatriz dá ainda mais certeza de que o jornalismo para as mulheres já cresceu muito, mas que ainda há muito para evoluir. A jornada é longa, as dificuldades não são poucas, mas a recompensa de um trabalho bem feito e bem representado mostra cada dia mais que mulheres, tanto quanto homens, têm competência para fazer um bom jornalismo.

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ASSÉDIO

Eu não mereço ser assediada Mulheres jornalistas relatam casos de constrangimento e raiva nas redações. Para elas, a pauta já toma tempo demais da rotina e já não há mais paciência nem estômago para ter de lidar com assédio POR MATHEUS BEZ BATTI

O “fiu-fiu” durante a caminhada, os comentários misóginos no bar, a apalpada no ônibus, é o assédio que aterroriza e enraivece mulheres de todas as idades: 77% delas já se sentiram assediadas, de acordo com pesquisa da organização Énois Inteligência Jovem, publicada no ano passado. “Art. 216-A. Constranger alguém com o intuito de obter vantagem ou favorecimento sexual, prevalecendo-se o agente da sua condição de superior hierárquico ou ascendência inerentes ao exercício de emprego, cargo ou função”. É o que, segundo o Código Penal Brasileiro, caracteriza-se como assédio, seja ele moral ou sexual. Em suma, praticado em local de trabalho e punido com um a dois anos de cadeia. Historicamente, as mulheres têm galgado espaço no mercado, lutando por remunerações justas e, sobretudo, respeito, a elas e aos direitos já conquistados. No entanto, a sombra do assédio permanece constante e parece ter encontrado terreno fértil nos veículos de comunicação. Redações majoritariamente masculinas e uma presença feminina ainda precoce dão margem à certeza de que, após constranger e amedrontar, o algoz não será punido. Isso faz com que o assediador, geralmente uma figura de autoridade, tenha ainda mais liberdade para agir, e a vítima, mais motivos para permanecer calada. Quando as luzes do estúdio se apagam, o portal já está atualizado, a próxima edição do jornal já está na prensa e o microfone está desligado, as jornalistas têm histórias para contar. Assim, anonimamente, sem medo de represálias, elas relatam episódios, antes ocultos, para uma “caixa dos segredos”, sem apontar nomes, mas compartilhando sua vivência, para que outras colegas não se intimidem ou até para que os assediadores percebam o constrangimento que causaram não foi esquecido.

RELATO Nº1 “Por se tratar de uma fonte oficial, eu

já o havia entrevistado uma porção de vezes. As entrevistas eram sempre pelo telefone, ele sempre teve uma postura bastante profissional e se mostrava bastante solícito. Um dia precisei entrevistá-lo em um horário em que a telefonista já havia ido embora. Sendo assim, tive que usar meu celular para fazer a ligação. Para a minha surpresa, poucos dias depois, este homem começou a me assediar através de mensagens do WhatsApp. Ignorei cada uma delas e, depois de certo tempo, elas cessaram”.

RELATO Nº2 Eu nunca sofri nenhum episódio “grave” de assédio sexual, mas me lembro de ficar incomodada com olhares tortos em alguns momentos. Já senti desconfiança por parte de fontes que achavam que, por ser mulher, não entendia o suficiente do assunto, principalmente, no jornalismo esportivo. Mas acabei me acostumando com esse tipo de coisa. Sei que, aonde eu for, tenho que provar a boa profissional que sou.

RELATO Nº3 “Mais um dia comum. Eu acordei, me arrumei, segui a formalidade da camisa, salto e maquiagem e fui trabalhar. Mais um dia comum, cheguei ao trabalho e dois colegas lançaram comentários ofensivos, assédio. Epa! Isso é comum? Pois é, parece que hoje em dia a mulher passar na rua e ouvir um “linda, hein, posso levar pra casa?”, ou ainda “por essa eu vendia minha mulher e pagava mais um pouco”, se tornou banal, comum, e normal. Sim, eu ouvi isso enquanto chegava para mais um dia de trabalho. Mas não, eu não acho isso normal e acho desagradável conviver com a possibilidade de ser assediada em qualquer lugar, a qualquer momento. É triste saber que coisas piores acontecem com outras mulheres e é humilhante saber que todas estamos suscetíveis a passar por situações como essas pelo simples fato de pertencermos ao sexo feminino, o ‘sexo frágil’, que a

cada dia prova que de frágil não tem nada... que tem peito de aço pra aguentar situações machistas, invasivas e fingir que está sempre tudo bem”.

RELATO Nº4 “Trabalho no jornalismo há muito tempo, atuei no impresso e em assessoria. Nunca passei por nenhum episódio de assédio nesses ambientes, ou pelo menos não percebi. Mas acabei passando por isso recentemente, e o que é mais incrível, sofri assédio moral por parte de outra mulher. E numa relação de trabalho sem hierarquia, ou seja, eu não era funcionária. Era sócia. Fria, sutil e perversa, criou um clima extremamente desagradável no local de trabalho, invadindo minha privacidade e tendo atitudes grosseiras do tipo bater portas e janelas, colar recadinhos nas paredes e até fazer insinuações abusivas e sarcásticas, sempre ao vento ou em falsas ligações telefônicas, longe de testemunhas. O assediador é uma pessoa essencialmente má, com um ‘modus operandi’ próprio. O objetivo é minar a resistência da vítima, fazendo com que ela não consiga mais trabalhar. Foi o que aconteceu. Para não prejudicar um projeto de anos, tive de me afastar e escrever em casa. Neste período, orientada por um advogado, gravei diversas situações e montei uma espécie de dossiê. Mas, confesso, o assédio é um massacre silencioso, e o assediador não muda de atitude, só muda de vítima”.

RELATO Nº5 “Como repórteres de rua, em contato com vários entrevistados, sei de colegas que são diariamente cantadas. Sei de casos em que elas foram vigiadas ao se trocar no camarim. Por trabalhar internamente na redação, não passo por essas situações. Entretanto, dentro da empresa, dominada por homens (especialmente na parte técnica), os comentários com relação a meu corpo são frequentes também, em grande parte vindos de homens casados. Eles passam despercebidos, como cantadas de brincadeira, se disfarçam de elogios à minha pessoa, como forma de socialização. Mas nem sempre representam apenas isso. E por vezes se tornam abraços longos e desconfortáveis. Na medida do possível eu evito algumas situações, mas nem sempre é possível e eu acabo preferindo não me indispor, em favor da boa convivência. Mas só tive problemas maiores em uma situação. Como jornalista, faço plantões no fim de semana e por vezes trabalho até tarde da noite, sendo a única a ficar na redação


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INTERATIVO - ANO 12 11

Esse é o nome do coletivo criado após a demissão da repórter do portal IG, assediada pelo cantor Biel. O movimento busca combater o machismo nas redações.

nesses horários incomuns. Ao ir embora, eu sempre cruzava com um porteiro que fazia cantadas pesadas e insistentes, me exigindo reciprocidade para que eu pudesse passar pela porta, que ele bloqueava, às vezes trancando com a chave. Eu enrolava, fazia brincadeiras de volta até que ele cedesse e abrisse pra eu passar. Era constrangedor e por vezes eu ficava 10, 15 minutos tentando ir embora. Sempre que possível, eu dizia que tinha compromisso ou tentava sair acompanhada. Mas como eu disse, nos plantões era muito difícil. Eu não fiz nada, porque num próximo plantão seria só eu e ele ali de novo. Eu estaria sempre sozinha e não queria dar motivos para que ele sentisse raiva de mim e fizesse algo pior. Até que uma vez que ele exigiu um beijo para me deixar sair. No mesmo instante, ele me segurou pelo braço e me puxou. Eu virei o rosto e ele beijou minha bochecha. Como ele não tinha trancado a porta, eu virei as costas e saí às pressas assim que ele me largou. Passei a virar o rosto e literalmente fugir dele. Passava na portaria sempre ao celular, fingindo falar com alguém no telefone e evitar contato com ele. Cogitei seriamente em fazer algo, mas, depois disso, ele não falou mais comigo e não demorou muitos dias para que fosse mandado embora, por outro motivo. Para grande alívio meu. Acredito que minha atitude pode ser mais incisiva no intuito de cortar esse tipo de aproximação e em parte acabo me culpando. Mas nenhuma mulher deveria precisar se impor para ganhar respeito. Isso deveria ser natural da educação de todos os homens”. Há também outras jornalistas cansadas da tarja anônima, que já se sentiram acuadas pelos homens enquanto atuavam, e, hoje, sentem-se na obrigação de contar pelo que passaram, olhos nos olhos:

Trabalhei pouco tempo como repórter de rua e passei por algumas situações assim. Muitas vezes, o entrevistado confundia simpatia com flerte e passava dos limites. Nenhuma das tentativas passou do limite ou precisou de intervenção mais severa, mas houve três casos que mais me marcaram. Um deles de um dirigente sindical com o qual tinha contato constante para produção de matérias, o qual passou a me ligar, muitas vezes embriagado, para ‘tomarmos uma cerveja’. Foram vários ‘nãos’ até que ele desse sossego. Um outro rapaz, sempre envolvido com a polícia (embora não fosse policial), insistia em me ligar com muita frequência e, por mais que eu dissesse que era casada, ele dizia que eu mentia e me fazia sentir acuada, com medo. Tanto que isso aconteceu em 1999 e até hoje eu tenho medo dele. O outro caso envolvia um vereador, que me cercou algumas vezes dentro da Câmara e, ao menos em duas situações, em seu gabinete, no qual fui chamada para ‘entrevista’, tive medo de que as coisas pudessem sair do controle. Como sou alta e sempre tive porte atlético e ele era bem mais baixo que eu, confiei no meu ‘tamanho’ para reagir a qualquer investida física. O que, ainda bem, não chegou a acontecer. Depois disso nunca mais me deixei ficar sozinha com ele no mesmo ambiente, passei a tratá-lo com indiferença e comecei a usar aliança na mão esquerda, indicando que era casada. Isso me ajudou bastante a fugir das cantadas, mas também foi preciso manter sempre alerta a postura para que o entrevistado não misturasse simpatia com outra coisa. Como atuei poucos anos como repórter e logo passei a ser editora-chefe (dos meus 17 anos de carreira, ao menos 13 foram como editora-chefe), esse tipo de assédio cai bastante, pois o entrevistado passa a ter mais respeito, ou medo, pela nossa posição”.

CARLA HACHMANN, EDITORA-CHEFE

OLGA BONGIOVANNI, APRESENTADORA E RADIALISTA

“A diferença entre uma simples paquera e um assédio sexual nem sempre é fácil de ser percebida. Qual o mal de um entrevistado se interessar por uma jornalista que acha bonita e investir um sorriso e até mesmo um convite? Afinal, são duas pessoas normais. O assédio fica um pouco mais caracterizado quando, apesar do não e de a jornalista deixar claro que não está disponível (casada, namora ou apenas não tem interesse), a pessoa insiste na cantada, tentando trocar uma boa informação por algo mais que uma entrevista.

“Se para uma jornalista dos tempos atuais é complicado lidar com assédio, imagine há 40 anos. Era um meio muito masculino, hoje, nós temos um mundo mais feminino em todas as áreas do jornalismo. Eu não permitia o assédio mostrando muito trabalho, isso era penoso, claro, porque se o locutor trabalhasse duas ou três horas, eu trabalhava o triplo, o que era terrível, havia uma dedicação muito maior para dizer: ‘Eu existo como ser humano, como profissional, eu sei fazer, estou aqui e não vou permitir o assédio!’”.


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RÁDIO

A voz da mulher No radiojornalismo, elas ainda estão mais ligadas ao entretenimento do que à informação POR ETTHIANNY BERGER Pamela Giacomini radialista da rádio Capital FM. (Foto: Arquivo Pessoal)

Valéria Bellafronte é radialista da Rádio T. (Foto: Luiza Vaz)

O rádio tem a capacidade criativa de envolver seus ouvintes, e mesmo numa sociedade tão visual como a nossa, esta força ainda se mantém. Em Cascavel, as grandes rádios são conhecidas principalmente por seus programas jornalísticos, e também pelos de entretenimento, que contam com uma programação diferente, como a musical. Os avanços na tecnologia e na forma de passar informação não são as únicas mudanças na área, o mercado de trabalho também tem mudado constantemente. Cargos importantes que antes eram ocupados por uma figura masculina hoje são cada vez mais ocupados por mulheres, dando cada vez mais espaço à voz feminina. Pamela Giacomini é jornalista e, atualmente, locutora na Rádio Capital. A vontade de trabalhar em rádio sempre esteve presente, porém, nunca havia surgido uma oportunidade. Certa vez, estava apresentando o programa Ver Mais na Rictv Record, e o

diretor artístico da Nova FM na época, Edson Pelisari, precisava de alguém que acompanhasse Geovani Pinheiro no programa da manhã, que na época era um morning show, o Rachando o Bico. Ela fez o teste, foi aprovada e está trabalhando lá há oito anos. A trajetória jornalística de Pamela é completa. Fez o curso de Jornalismo em 2005 e se formou em 2009, mas já trabalhava como apresentadora. Começou com um telejornal diário em uma TV por assinatura, mas também já fez campanhas políticas, programas esportivos, plantão policial e entretenimento. Sobre o pouco espaço da mulher nas rádios, Pamela acredita ser algo de nossa região, e explica, “se você for para a região centro-oeste, você vai encontrar mais locutoras do que aqui em nossa região. Aqui, nem toda locutora tem voz padrão, mas eu me sinto feliz e não vejo preconceito dos locutores. Em questão de salários, pode ser que o homem ganhe mais que a mulher, mas isso está mudando e hoje o que conta é o profissionalismo”. Mas, infelizmente, o preconceito está presente em alguns lugares. Nos meios de comunicação em que trabalhou, Pamela diz que sofreu esse preconceito. “Na rádio, eu não senti diretamente essa questão, por estar ocupando uma vaga que é muitas vezes ocupada por homens, porque rádio é interação com o ouvinte, você acaba criando uma identificação com seu ouvinte. Em contrapartida, na TV, quando comecei a apresentar um programa esportivo aqui na região passei por preconceitos. Primeiro porque esse programa já vinha com um conteúdo diferente e geralmente você acaba vendo as mulheres vestidas de um tipo diferente, e no meu caso pediram para eu me vestir de forma mais feminina, e estar sempre muito bem maquiada; segundo, os homens não estavam acostumados a ver uma mulher falar de igual para igual sobre futebol, mas hoje eu consegui conquistar meu espaço e sou muito respeitada por isso”. Em algumas rádios aqui em Cascavel, a voz da mulher é ouvida semanalmente. Algumas rádios têm parcerias com o meio televisivo e as repórteres fazem matérias tanto para a TV quanto para o rádio. Essa troca de informações é comum, mas, por falta de tempo, algumas vezes, escutamos mais a voz masculina por conta das matérias que vão ao ar no dia em questão. Valeria Bellafronte trabalha no radio há 14 anos. Atualmente é radialista na Rádio T, onde apresenta os programas T News, Manhã da T e o T e Você. Ela trabalha tanto no meio jornalístico como no entretenimento. A maioria de seus colegas são homens e quando a questiono se a parceria feminina lhe faz falta, ela diz que é comum, pelo fato de os programas serem pequenos e a equipe também. “O rádio mudou bastante nas últimas décadas e hoje os profissionais podem ser homens e mulheres, a gente não pode enxergar profissionalismo com essa forma machista, de que porque é mulher pode ser desrespeitada. O ouvinte gosta de ouvir uma voz feminina, tudo vai depender do tipo de programa. Aqui na rádio temos um quadro de receitas e é agradável ouvir uma mulher cozinhando, mas hoje temos muitos cozinheiros homens, tudo vai depender do tipo de programa que a emissora quer transmitir”. A voz da mulher embala os programas de rádio e vai continuar, seja em programas jornalísticos ou de entretenimento.


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INTERATIVO - ANO 12 13

ESPORTE

Mulheres em campo – e nos campos

Para a editora de esportes da Catve, mulheres têm sim espaço na área POR ANDRÉ LUCAS DOS SANTOS

meçar a produzir conteúdo – e conteúdo de qualidade. Estamos sendo vistas de uma maneira melhor e eu acho que podemos ir ainda mais longe”, comenta.

PRECONCEITO Patrícia Cabral realizando a cobertura da etapa da Stock Car em Cascavel. (Foto: Arquivo Pessoal)

Segundo as estatísticas, o número de mulheres no jornalismo tem crescido a passos largos nos últimos anos. De acordo com dados de 2014 da Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas), 64% dos profissionais do país são mulheres. O número, no entanto, é cerca de 10 vezes maior em relação à quantidade de mulheres atuando no jornalismo esportivo. A maior parte delas (68%) está em assessorias de imprensa, conforme a mesma pesquisa.

MOTIVOS Para o jornalista Rafael Reis, que atuou por nove anos na editoria de esportes da Folha de São Paulo – inclusive ao lado de mulheres –, além do machismo presente de forma expressiva nas redações esportivas, outro fator que diminui o espaço das mulheres na área é o histórico. “Há alguns anos, muitas jornalistas acabaram ‘queimando o filme’ de suas sucessoras ao ficarem marcadas por se envolverem com atletas ou então por estarem ali pela beleza, e não pelo conhecimento”, declarou Reis, em um curso ministrado na FAG em maio. Este cenário, porém, vem mudando. Ainda de acordo com os dados da Fenaj, em 2012, eram apenas oito mulheres atuando na área, considerando os principais veículos de comunicação esportiva do Brasil. Dois anos depois, o número subiu para 90.

EXPERIÊNCIA Em Cascavel, uma das principais especialistas da área é Patrícia Cabral, editora de esportes da Catve. Atuando na área há alguns anos, Patrícia trabalhou com esporte no impresso, no rádio, na assessoria de imprensa e, agora, na TV e no portal. “Diariamente gravo de três a cinco VTs por dia, procurando dar espaço a todas as modalidades”, explica. Além das reportagens, ela também produz um programete diário de 15 minutos para a Catve. Para ela, nos últimos anos as mulheres estão conquistando funções mais importantes na área. “Deixamos de ser apenas apresentadoras para co-

Segundo Patrícia, no início da carreira, a desconfiança dos homens era nítida. “Eles juravam que não se sentiam ameaçados, mas não suportavam a ideia de ter que dividir páginas, espaço, entrevistados, entre outras coisas, com as mulheres”, comenta. “Mas aos poucos, pelo menos comigo, eles foram se adaptando, acostumando e se rendendo. Tem lugar para todo mundo”, declara, completando que atualmente a ‘estranheza’ é ver alguém se surpreender com uma mulher numa redação. “Já é algo do cotidiano”, declara. “Fui assessora das equipes do Cascavel no Futsal e no Futebol. Viajava com a equipe no mesmo ônibus e ficava nos mesmos hotéis. E hoje, muitas das minhas melhores amigas eram as namoradas ou esposas deles. Tudo depende da postura, de como você direciona as coisas”, encerra. Com o cenário das coberturas jornalísticas mais aberto para as mulheres, o jornalismo brasileiro caminha, aos poucos, para ser, quem sabe, um pouco menos machista. Mulheres dispostas a assumir tais papéis existem – o que falta mesmo é criar espaço para tamanha disposição.

NA MÍDIA NACIONAL O crescimento das mulheres no jornalismo esportivo pode ser observado também nacionalmente. Cristiane Dias, Carol Barcellos, Glenda Koslowski, Fernanda Gentil e Maíra Lemos ocupam lugares de destaque na TV Globo, comandando e produzindo conteúdo para os principais programas esportivos da emissora, como Globo Esporte e Esporte Espetacular. Na Bandeirantes, uma grande parcela das repórteres também é do sexo feminino. Natalie Gedra, Paloma Tocci e Aline Bordalo são algumas das que se destacaram nos últimos anos. A Record tem duas no comando de seu principal programa esportivo, o Esporte Fantástico: Cláudia Reis e Mylena Ciribelli. A ESPN, considerada o maior canal esportivo do Brasil, vem dando bastante espaço para as mulheres. Prova disso é que neste ano, no dia da mulher, a emissora lançou um portal exclusivamente voltado para elas. O objetivo, segundo o canal, é fomentar o esporte feminino brasileiro, além do interesse das mulheres pelo esporte, reunindo matérias, artigos e conteúdo multimídia sobre o universo esportivo de maneira geral, não se restringindo somente às competições e atletas de alto rendimento. Em relação à produção de conteúdo, a ESPN deu carta branca para que a repórter Gabriela Moreira produzisse grande parte dos conteúdos especiais que vão ao ar, enquanto Juliana Veiga comanda um dos principais programas: o Sportcenter. Considerada uma das revelações do jornalismo esportivo dos últimos anos, Camila Mattoso é uma das principais repórteres da editoria na Folha de SP, além de atuar também na ESPN. Recentemente, Camila lançou o livro que conta a trajetória do técnico Tite, um dos mais vendidos do ano.


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14 INTERATIVO - ANO 12

PERFIL

Do analógico para o digital Depois de anos na televisão, Alexandra Oliveira aceitou o desafio de desbravar um novo meio, a internet POR BIANCA ALVES

Alexandra Oliveira, editora-chefe no portal CATVE há mais de um ano. (Foto: Luiza Vaz)

“Trabalho como editora-chefe na CATVE desde a fundação, em 2004”. Essa foi a primeira resposta que a jornalista Alexandra Oliveira deu, deixando exposto seu orgulho e felicidade. Ela não entrou neste ramo por acaso, sua trajetória profissional carrega uma grande bagagem de experiência e aprendizado. E voltar no tempo é importantíssimo para entendermos sua paixão pelo trabalho. A jovem de cabelos claros e curtos começou a trabalhar muito cedo. O primeiro emprego foi na extinta TVC, uma televisão a cabo de Cascavel. Na época, era secretária do apresentador Neto e colaborava com a produção do programa diário comandado por ele. Um ano foi tempo suficiente para descobrir seu desejo de trabalhar com TV. A vontade de estudar na área era cada vez mais forte e se tornar jornalista virou um objetivo. Entre 2001, teve a oportunidade de estagiar na TV Tarobá, com 17 anos. O contato mais próximo fez com que aprendesse a editar, fazer pautas e participar de reportagens. Em 2004, foi contratada para trabalhar na CATVE e entendeu que ali teria uma oportunidade única de crescer e fazer novos projetos. No início, sentiu insegurança, mas o apoio da família e amigos só a fortaleceu. Estava disposta a passar por todos os problemas e dificuldades que viriam. Durante quase dez anos, Alexandra se especializou em televisão. Em outubro de 2015, veio a promoção a editora-chefe do portal CATVE, onde já atua há um ano. Uma proposta desafiadora que continua nova mesmo depois de iniciada. Agora tem a grande responsabilidade de orientar o trabalho dos repórteres, direcionar a equipe, organizar no site o que será publicado e acompanhar todo o conteúdo jornalístico, um trabalho de grande responsabilidade. Quando recebeu a missão, não soube como expressar todo o sentimento de felicidade e gratidão, entendeu que o trabalho estava sendo realizado com sucesso e que ser editora-chefe do portal seria um dos maiores desafios vivenciados por ela. Durante a entrevista, o telefone não parava de tocar e fomos interrompidas por uma ligação. É um trabalho agitado. “Ser editora exige saber um pouco de tudo, estar ligada na TV, na rádio, saber sobre os concorrentes, e eu comecei a trabalhar muito esse meu perfil quando entrei aqui, eu sou assim, meu estilo é assim, não consigo me imaginar mais tranquila”. Sua personalidade foi desenvolvida através de seu trabalho, sempre atenta a tudo, sendo curiosa, acompanhando todas as informações. Alexandra busca a cada dia aprender mais, afinal, a internet está sempre se atualizando e crescendo. No final da entrevista, acrescenta: “Minha verdadeira escola foi aqui na CATVE, aqui aprendi tudo, tive a oportunidade de passar por todos os setores. A própria internet tem uma linguagem muito diferenciada da televisão e isso pra mim foi um desafio. Tudo que eu sou, tudo que eu construí mesmo foi aqui”.


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PERFIL

A jornalista que foi além da reportagem A trajetória de mais de uma década da jornalista cascavelense Eliane Alexandrino POR LEONARDO DORO

Eliane Alexandrino gravando reportagem sobre o inverno rigoroso em Cascavel (Foto: Arquivo Pessoal)

Eliane Alexandrino é uma figura marcante no jornalismo de Cascavel. Sua trajetória foi iniciada há quase 12 anos, atuando nos mais importantes veículos de nossa cidade, entre eles o principal foi a TV Tarobá, que deu um início certeiro a carreira bem-sucedida como divulgadora de boa informação. Uma simples cobertura no lugar de sua amiga que estava de férias no início da carreira deu entrada para a sua prática no jornalismo. Essa experiência se deu ainda quando ela era estagiária, lá foi sua “real faculdade”. A função dentro dos arquivos da emissora abriu a possibilidade de produção de um conteúdo dinâmico, factual e competente. Nesse local havia diversas produções e reportagens que já tinham sido exibidas em edições de jornais, e, conforme essas produções precisavam ser resgatadas para serem reexibidas, Eliane entrava em ação e resgatava esse material para que ele pudesse ir ao ar novamente. Essa foi a função que abriu as portas da redação jornalística para Eliane. O comprometimento com o estágio se tornara ainda maior, pois agora Eliane estava dando apoio direto à produção do jornal local diário, distribuindo laudas, produzindo chamadas para o jornal e até fazendo rondas policiais para que o jornal pudesse ser fechado e entrasse no ar. Isso tudo ocorreu por cerca de dois anos, e foi a porta principal para sua efetivação profissional como jornalista na TV Tarobá. Os boletins de notícias da emissora também foram feitos por Eliane. Aquelas notícias de última hora que mereciam destaque no meio da programação fizeram com que Eliane ganhasse ainda mais espaço no vídeo, aparecendo todos os dias ao vivo com informações de importância para a região. Foi na redação da TV Tarobá que ela conseguiu o aprendizado que ainda faltava para que se tornasse uma profissional capacitada para o mercado de trabalho, foi ali que ela recebeu o suporte de como fazer uma boa apuração com credibilidade para ir ao ar.

A “mulher do tempo” também foi uma das funções de Eliane como jornalista de TV. “Ali eu consegui aprender uma nova linguagem, algo que poderia não ser tão jornalístico, mas que ao mesmo tempo sempre foi de grande importância dentro do jornal”. A maior parte de tudo que pode ser feito dentro de um jornal de TV foi realizado por Eliane, dentre elas a reportagem na rua e a edição dessas reportagens. Os conteúdos que eram produzidos pelos repórteres e cinegrafistas também foram editados por ela, indo ao ar nas duas principais edições do telejornal. Entre os diversos acontecimentos nesse tempo de estagiária da redação e editora de reportagens, o que mais marcou para Eliane foram as coberturas de eleições para prefeito de Cascavel. “Nós sempre tentávamos sair na frente entre as demais emissoras, tanto nos debates quanto no dia da eleição, ficávamos mais de 12 horas na redação, tentando levar a melhor informação, isso fazia a diferença para o nosso telespectador”. O jornal impresso também fez parte da carreira de Eliane Alexandrino. Foram cerca de três anos apurando notícias e participando de investigações jornalísticas para o Jornal O Paraná, que para ela foi mais do que essencial para a produção de bons conteúdos investigativos e de suma importância no fator notícia dentro do jornalismo. Nesse tempo, entre suas diversas ocupações, Eliane se especializou em duas pós-graduações, uma em telejornalismo e outra em assessoria de imprensa. São várias as segmentações dentro do jornalismo nesses quase 12 anos de atuação de Eliane. Hoje ela atua como assessora de imprensa, possui a própria assessoria, auxiliando há cerca de um ano e meio diversas empresas de Cascavel. Essa é uma atividade que ainda tem espaço no mercado e na qual Eliane está conseguindo aprimorar ainda mais seus conhecimentos profissionais. Sonhos ainda fazem parte da carreira de Eliane, e um deles é trabalhar fora do Brasil, em outros lugares como os Estados Unidos e países da Europa. “Ainda sinto que falta essa experiência para mim, quero ir pra fora do Brasil, quero atuar lá fora no mínimo dois ou três meses”. Uma das questões que Eliane defende que ainda precisa ser melhorada é a respeito do preconceito com a figura feminina dentro jornalismo. “Infelizmente, ainda possuímos um jornalismo machista. Na maioria das redações, quem comanda é o homem, e a mulher continua em segundo plano, isso que somos a maioria dentro do jornalismo”. Ela acredita que, não apenas no jornalismo, mas em todas as áreas isso deveria mudar, tanto em questões salariais quanto em questões administrativas. “Pra que isso realmente aconteça, devemos participar mais, nos envolver mais nos projetos da sociedade, e com o tempo, se agirmos assim, vamos conseguir atingir o nosso potencial”. Para aqueles que estão iniciando suas carreiras como jornalistas, Eliane aconselha que a persistência deve estar aliada com a força de vontade. “O feeling tem que estar junto com o jornalista, devemos ver as coisas de forma diferente, enxergar algo além daquilo que está amostra”. Eliane acredita que o novo jornalista deve estar preparado e com vontade de entregar algo além da boa notícia, e que o mercado ainda depende desse novo jornalismo, o diferencial além do factual.


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AGOSTO/2016

Interativo 2016 - Edição 1  

Pela primeira vez, o Interativo se propõe a discutir o próprio jornalismo. O tema central da primeira edição foi o papel da mulher - produto...

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