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II CONGRESSO DIREITO VIVO – UEL RESUMO DE TRABALHO

GT 7 ASSESSORIA JURÍDICA POPULAR, EDUCAÇÃO JURÍDICA E EDUCAÇÃO POPULAR TÍTULO: Eu, morador da Ocupação Jardim Bela Vista. Uma entrevista com Wagner Silva. Júlia Vieira juliaviera.vr@gmail.com Gabriel Vinicius silvagabrielvinicius@gmail.com

Discentes da UEL, integrantes do projeto LUTASAJUP e Comissão de Jataizinho. Ambos, enquanto integrantes da Comissão de Jataizinho, trazem ao II Congresso Direito Vivo a experiência direta de um morador da Ocupação Jardim Bela Vista.

Em 09 de abril de 2017, em meio à confraternização ocorrida na Ocupação do Jardim Bela Vista em Jataizinho/PR, tivemos uma conversa despretensiosa com o atual presidente da Associação dos Moradores do Jardim Bela Vista. Representante oficial da ocupação, bem como morador ocupante, este levantou seus sentimentos acerca de sua experiência na luta por moradia. Nesta oportunidade, decidimos tornar esse diálogo uma entrevista a qual demonstrasse uma vivência concreta e significativa da realidade social ali construída. Portanto, primeiramente, desenvolvemos quatro perguntas; e através de um gravador de celular, coletamos o depoimento de Wagner. Isto porque, no momento de redigir sua fala, queríamos trazê-la de forma original, sem qualquer correção ou juízo de valor. Dessa maneira, o presente trabalho tem por objetivo fomentar a compreensão dos participantes do GT – 7; ao passo que complementa o registro documental


apresentado no artigo “Ocupação Jardim Bela Vista: a construção popular e a extensão universitária”. Assim, em uma entrevista cativante com o morador Wagner, segue a sua história de luta pelo direito à moradia digna.

A caminhada: primeiros passos na ocupação do terreno. “Gabriel: Wagner, eu gostaria que você nos contasse como chegou até aqui?" “Meu nome é Wagner, eu cheguei aqui foi por acaso. Meu sogro ficou sabendo que teria uma invasão aqui no conjunto, logo no começo. Ai ele veio e pegou dois terreno, pegou um lá em cima e onde estou morando hoje. Eu morava na casa da minha mãe ainda lá. Ai ele pegou e falou assim: “- Vou dar uma data pra vocês”. Deu até pra minha mulher. Até na época falei: “ – Adriana, isso não vai funcionar, porque você vai construir um negócio no terreno dos outros, isso vai dar problema pra gente no futuro”. Ela disse: “ – Não, vamos meter a cara, vamos fazer!”. A gente fomo correndo atrás das coisas, compramos o material e fomo construindo. Chegamos lá no conjunto, não tinha luz e não tem nada. Na verdade, não tinha e não tem né. Hoje, a gente graças a Deus, nossa casinha tá boa, as ruas tá boa. Mas, quando a gente entrou mesmo, se você ponhasse um par de chuteira não andava, de tanto barro que era. Eu, por trabalhar dentro da prefeitura, a gente trazia pedra na concha da máquina; e ia jogando nas estradas pra poder arrumar.” Holter: altos e baixos da ocupação, de morador à presidência da Associação. “Gabriel: Como foi o desenvolvimento da ocupação junto à Associação dos Moradores?" “No começo da outra Associação foi meio conturbado, a gente tinha outro rapaz, era um cara bom, não é um cara ruim. Só que ele foi se perdendo no meio do caminho, ai ele acabou usando de má fé com os moradores. Aconteceu um fato estranho pra gente, o pessoal deixou de acreditar na Associação. Ai, quando o Renato me chamou pra ir no leilão né, ele chegou e falou assim: “ - Toma essa jaca, abraça ela aqui, se vira”. Depois ele veio e disse: “- Tem o pessoal do grupo Lutas, pessoal bom e bacana”. Eu disse: “- Vamo tentar fazer uma parceria”. E foi onde deu


certo, ai nois entramo na Associação com muito custo e muita luta. Sem recurso nenhum, que a gente não tem até hoje. Sem ajuda de prefeitura, sem ajuda de ninguém. Só o grupo Lutas e moradores daqui da Associação e do conjunto, que sempre deram a força e acreditou no trabalho da gente. E a gente conseguiu! Tá hoje na situação que tá, eu acredito que Associação tem um crédito muito grande com os moradores”. Contato

com

o

projeto

Lutas:

a

ressignificação

das

relações

sectarizadas. “Gabriel: Neste processo, de que forma a atuação conjunta com projeto Lutas foi importante?” “Com o tempo, a gente foi conversando entre o prefeito e o vereador, e o encarregado onde eu trabalho da firma da prefeitura. A gente conseguiu fazer um entrosamento através do pessoal do Lutas também né? Que veio em 2014, dar uma força pra gente, ajudou demais da conta, quer dizer, ajudou praticamente tudo. Quando o Renato apresentou o Lutas, eu até achei que não ia dar certo. Porque é diferente, porque eu falo pra todo mundo, o mundo das pessoas que tem ocupação e da UEL são diferente. Mas ai, a gente se engana, porque a convivência, todo dia batendo papo e conversa, ai você vai vendo que conhecendo as pessoas que ela não é daquela forma que a gente sempre pensa. Então, você vai ver que a pessoa é igual a gente, não muda nada (grifo nosso). Só a distância, a forma de trabalhar. Mas o trabalho em si, o que nós fizemos, a Associação dos Moradores daqui de Jataizinho do Bela Vista e o grupo Lutas né, então foi uma parceria muito boa, foi muito bom pra gente, até a gente agradece muito isso dai. Por causa, sem vocês a gente não ia conseguir entregar nossos boleto. Não é só você meter a mão na massa, ir lá fazer, tem que ter assessoria, tem que ter conhecimento, artimanha daqui e dali, porque advocacia tem que ter jogo de cintura, né? Todo lugar tem que ter jogo de cintura. Mas é assim, vocês fazendo o trabalho lá, a gente fazendo aqui; e vamo se ajudando (grifo nosso). Graças a Deus, tá dando certo, o resultado tá ai. A entrega do boletos hoje, daqui mais uns três meses a gente vai fazer todos os boletos geral certinho, pronto para os três ano que tem. Cada um ter sua casa, o direito de moradia que é o essencial pra todo mundo. O sonho de todo brasileiro ter o direito à sua casa (grifo nosso).


Expectativas: perspectivas futuras ao Direito à Moradia. “Gabriel: O que você espera daqui pra frente?” “AH, CARA! Eu espero muita coisa boa. Principalmente, a luz dentro do nosso conjunto. A rede de esgoto demora um pouquinho mais, o asfalto mais um pouquinho ainda. Mas hoje, como a prefeitura tá até bom pra trabalhar com ela, a câmera de vereadores é muito boa, tem interesse em ajudar a população, acredito que nosso bairro vai estar muito organizado, com luz e rede esgoto, quem sabe o asfalto, mas isso é futuro né? Futuro só à Deus pertence. Vamo lutando, não pode perder a esperança” (grifo nosso).

Entrevista eu, morador da ocupação jardim bela vista wagner da silva  
Entrevista eu, morador da ocupação jardim bela vista wagner da silva  
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