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— Mas, o que você pensa que está fazendo? — gritou Ky ara, subindo a plataforma. Eunice retirou a espada da bainha e a fez parar a milímetros da garganta de sua comandante. Ky ara estacou diante da fúria que havia no seu olhar. — Não ouse se aproximar dela — ela falou com os dentes cerrados. — E o que pretende fazer com o corpo? — gracejou Ky ara. — Vai levála para casa? — Entregarei ao povo dela, para que tenha um sepultamento digno. Ky ara cuspiu no chão, aos pés de Eunice. — Você está morta, Eunice. — Não é verdade — a voz da capitã era tranquila. — Eu acabei de renascer. Jael e Hulda se abraçaram ao ouvir o som das trombetas anunciando o final do sacrifício. Uma era incapaz de consolar a outra. Hulda, no entanto, tentou segurar a dor de Jael, ignorando a sua própria dor. A moça chorava feito criança em seus braços. Muito embora houvesse a visão e a certeza de que aquele não era o fim, o momento era real demais. A presença da morte era maior do que qualquer coisa, e a dor tomava todo o espaço. No acampamento, a Ordem de Zelofeade ajoelhou-se em reverência e ficaram ali, de cabeças baixas, sem acreditar que ela havia morrido. Trombetas começaram a ser tocadas por todo o acampamento. Eram notas fúnebres. Notas de lamento. Os exércitos se uniram em harmonia para chorar por aquela que lhes havia suprido com a esperança da vitória e da mudança. Os Queneus atiraram uma chuva de flechas para o ar. Em cada flecha havia uma tira azul escura amarrada. Eram as tiras que eles usavam para prender os cabelos. Aquele ato, para eles, era um sinal de luto e lamentação. Em meio a toda aquela dor, que cobria todo o acampamento, Finéias seguia com seu grupo em direção à tenda, onde Jael era mantida. Os olhos do velho sacerdote passavam incredulidade, pois não queria acreditar na verdade, mas também havia decisão. Por mais que fosse difícil, uma sentença teria que ser cumprida. Um ato grave havia sido cometido e não deveria ser ignorado. Antes, porém, que os sacerdotes alcançassem a tenda, o céu começou a trovejar. Rute correu colina acima em prantos. Não aceitava aquela morte. O seu mundo havia virado de cabeça para baixo. No caminho, jogou sua espada longe. De que adiantaria ser uma guerreira em um mundo decaído? Um mundo sem Deborah. Um mundo sem esperança. Ela não ligou para os gritos de Rebeca, que ainda tentou alcançá-la, mas desistiu no meio do caminho. A menina também estava sentindo o golpe do destino e, parando de correr, sentou-se no alto da colina e chorou. Deixaria Rute extravasar sua própria dor.

Saga Os Tronos da Luz : A Profecia de Hedhen - Cristina Aguiar  

A Profecia de Hedhen – Os Tronos eram forças que reinavam nos dias antigos com o título de “Luminares”, e através deles, a luz era derramada...

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