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seu lado, chorava copiosamente. Míriam orava em silêncio com os olhos fechados. Seus dedos polegares amputados foram colocados dentro de um cesto e incinerados aos pés da estátua. O sangue que escorria pela pedra, em seus quatro cantos, começava a encher o lagar e entrar pela fenda da terra. Eunice manteve-se ao lado dela para evitar mais algum tipo de agressão. Ela não se importava com o que ia lhe acontecer futuramente, apenas sentia que havia escolhido o caminho certo. A perda de sangue começava a causar reações no organismo de Deborah. Ela tremia de frio em uma manhã quente e sem nuvens, por causa da febre e da perda de sangue. Seus olhos, que antes eram capazes de ver até mesmo o pensamento das pessoas, não conseguiam vencer a escuridão. No entanto, ela os mantinha abertos, olhando em direção ao céu, buscando algum sinal de luz. A rainha olhava para ela com ar de triunfo, um sorriso nos lábios. No pátio, embaixo, as amazonas formavam um grupo homogêneo a espera do último suspiro para comemorar. A sacerdotisa-chefe e Onri se ocupavam em oferecer as libações que vinham acompanhadas com a oferta do sacrifício. Ninguém pareceu notar as nuvens escuras que se formavam sobre a cidade. Não eram nuvens de chuva, mas de tempestade. Deborah estava pálida e um suor gelado banhava o seu rosto, enquanto ela continuava a tremer de frio. O coração batia forte, como se fosse explodir de seu peito, e ela começou a buscar oxigênio. Já havia perdido muito sangue e quando sentiu que o corpo não respondia mais, ela inspirou e se preparou para um último fôlego. Queria se livrar de tudo aquilo e descansar. Dessa forma, ela soltou o ar pela última vez. Deborah morreu com os olhos fitos no céu. Eunice ficou na plataforma, ao lado do altar. Durante a execução, ela se manteve de guarda, no lugar que Ky ara deveria estar ocupando. A sua intenção era evitar mais atitudes hostis por parte das amazonas. Ela ficou ali observando a respiração de Deborah ficar cada vez mais fraca, até se extinguir de vez. Ela baixou a cabeça por alguns minutos, enquanto Ky ara liderava às amazonas em um grito de comemoração. A um sinal da comandante, trombetas foram tocadas nas muralhas, anunciando que o sacrifício fora oferecido. Eunice, ignorando as comemorações e o olhar ameaçador da rainha, caminhou até o altar e, segurando as lágrimas de revolta, fechou os olhos de Deborah. Em seguida, sem dar atenção às nuvens escuras que se aglomeravam sobre a cidade e o vento forte que começara a soprar, ela abriu as argolas de metal que prendiam os braços e as pernas da valorosa guerreira, colocando-a numa posição digna.

Saga Os Tronos da Luz : A Profecia de Hedhen - Cristina Aguiar  

A Profecia de Hedhen – Os Tronos eram forças que reinavam nos dias antigos com o título de “Luminares”, e através deles, a luz era derramada...

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