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Coexistência entre a arquitetura cristã e a muçulmana na Catedral de Sevilha, Espanha.


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Aluna: Julianna Prota G. de Oliveira Orientador: Prof.Dr. Paulo Y. Fugioka S達o Carlos - 2011


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Lista de Figuras

Fig.1 Catedral de Córdoba, Catedral de Sevilha e a Alhambra, respectivamente.___________9 Fig.2 Ilustração de arcos polilobados no exterior na igreja de Santa Catalina, em Sevilha.____10 Fig.3 Exemplo de um arco de herradura apuntada na mesquita de Córdoba.______________10 Fig.4 Ilustração bóveda de Mocárabe no Palacios Nazaríes na Alhambra.________________10 Fig.5 Imagem esquemática de uma armadura de par y nudillo, ou armadura españlo._______10 Fig.6 Alminar da mesquita de Samarra. Irak y mezquita de Ibn Tulun. Egito. Séc. IX d.C._____________11 Fig.7 Esquema volumétrico da Gran Mezquita de Damasco, Siria (705-715)______________11 Fig.8 Elevação oeste da Catedral de Sevilha, 1738__________________________________13 Fig.9 Elevação leste, 1805_____________________________________________________13 Fig.10 Elevação oeste, 1854__________________________________________________________13 Fig.11 Ilustração de Fray Ceferino Gonzalez, 1864__________________________________13 Fig.12 Vista interna do Patio de los Naranjos, 1868__________________________________13 Fig.13 Ilustração catedral de 1872_______________________________________________13 Fig.14 Vista da catedral desde a Plaza del Triunfo, 1880_____________________________13 Fig.15 Imagem da cidade de Sevilha com a catedral_________________________________14 Fig.16 Ilustração do Patio de los Naranjos___________________________________15

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Fig.17Corte da mesquite Aljama de Sevilha, através do pátio e nave da mesquita, 1172-1198_16 Fig.18 Sobreposição das plantas da mesquita com a catedral_________________________17 Fig. 19 Mesquita de Aljama Almohade de Sevilla ___________________________________18 Fig. 20 Catedral de Sevilla ____________________________________________________18 Fig.21 A torre Giralda_________________________________________________________20 Fig.22 Ilustração, sem data, da Giralda.__________________________________________20 Fig.23 Vistas superiores de Sevilha _____________________________________________21 Fig.24 Foto aérea de Sevilha tirada do topo da Giralda_______________________________21 Fig.25 Sevilha desde o bairro de Triana___________________________________________21 Fig.26 Torre Hassan, Rabat, Marrocos,(12 th c)._____________________________________22 Fig.27 Torre de Kutubia, Marrakesh _____________________________________________22 Fig.28 Ilustração de como evoluiu o almohad minaret da Catedral de Sevilha _____________23 Fig.29 Projeto de Restauro do minaret Giralda _____________________________________24 Fig.30 Fotos Real Alcázar_____________________________________________________25 Fig.31 Vista geral do edifício Arquivo das Índias de Sevilha______ _____________________25 Fig.32 Planta-baixa da cathedral ________________________________________________26 Fig.33 Ilustrações do interior da Catedral de Sevilha ________________________________27

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Índice

1. Introdução _________________________________________________5 1.1 Observações _____________________________________________7 2. Os muçulmanos e a Espanha__________________________________9 3. Na individualidade sevilhana – A Catedral de Sevilha______________12 4. Considerações finais_________________________________________28 5. Bibliografia_________________________________________________32 7


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1. Introdução

O

presente plano de trabalho faz parte do programa de pesquisa de

conhecimento acadêmico entre a Universidade de São Paulo e a Escuela Técnica Superior de Arquitectura de Sevilla, realizado durante um período de

intercâmbio na cidade de Sevilha, Espanha, e que tem como objetivo gerar material para a disciplina de Teoria e Historia da Arte (SAP611) da grade curricular do IAU/USP – Instituto de Arquitetura e Urbanismo de São Carlos da Universidade de São Paulo. O interesse pela cidade e sua arquitetura proveio da constatação da marcante influencia moura, fruto de um longo período de domínio dos muçulmanos na Espanha e, a partir disso, verificar como tal influência foi incorporada, resignificada e reutilizada. O enfoque destinado a Catedral de Sevilha deve-se a um conjunto de fatores, dentre eles: pela sua inserção e importância na cidade, pois em Sevilha a arquitetura religiosa, sobretudo após a reconquista pelos cristãos, tomou novas dimensões; a Catedral é considerada a mais bela e principal representante religioso da região de Andaluzia, além de ser a terceira maior edificação em tamanho, depois da Basílica de São Pedro, em Roma, e da Catedral de São Paulo, em Londres; é um representante vivo da coexistência entre as arquiteturas moura e cristã, já que foi construída sobre uma antiga mesquita. Embora eu estivesse residindo na cidade onde esta inserido o objeto de estudo desta pesquisa, a maioria do material levantado foi proveniente das cidades de Madri e Granada, devido a maior concentração e disposição digital de material, ou seja, de acesso e uso facilitados.

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A principal fonte bibliográfica proveio do acervo digital do Consejo Superior de Investigacion Cientifica (CSIC), que faz parte da Escuela de Estudos Arabes (EEA), grupos de pesquisa cuja linha de trabalho esta centrada na investigação arqueológica e histórica do urbanismo e da arquitetura islâmica num sentido amplo, especialmente referente ao al-Andalus. Um trabalho colaborativo entre arqueólogos, historiadores de arte, arquitetos, arquitetos técnicos e restauradores. Agradecimento especial deve ser deferido ao pesquisador Antonio Almagro Gorbea, professor doutor de investigação cientifica da EEA, que me orientou na pesquisa de material para o trabalho.

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1.1 Observações

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ste caderno vai acompanhado de um disco compacto (CD) com os seguintes arquivos selecionados e/ou produzidos:

Plantas, cortes, elevações, perspectivas axonométricas, detalhes de elementos arquitetônicos da Catedral de Sevilla presentes no Atlas arquitectónico de La Catedral de Sevilla, produzido Consejo Superior de Investigaciones Científicas (CSIC) em parceria com a Escuela de Estudios Árabes Cabildo de la Santa, Metropolitana y Patriarcal Iglesia Catedral de Sevilla, em 2007;

Arquivo DWG. das plantas da mesquita Aljama de Sevilha e da Catedral de Sevilha, através de sobreposição da imagem disponível em <http://3.bp.blogspot.com/1nPsMYUYuNI/Tb0Nzr5c1/AAAAAAAAA9w/iYEVw1sZ7rU/s1600/024-almohadesmezquita-aljama-catedral-sevilla.jpg>;

Todas as imagens utilizadas neste caderno, além de outras colocadas como anexo, por acreditar-se que são relevantes para o estudo.

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Link para o vídeo La mezquita almohade de Sevilla y su conversion em Catedral, realizado pelo Laboratorio de Arqueología y Arquitectura de la Ciudad (LAAC) da Escuela de Estúdios Árabes de Granada, pertencente ao Consejo uperior de Investigaciones Científicas (CSIC), em colaboração com o Cabildo Metropolitano de la Catedral

de

Sevilla

e

a

Fundación

El

Legado

Andalusí.

<http://www.cienciatk.csic.es/Videos/LA+MEZQUITA+ALMOHADE+DE+SEVILLA+Y+S U+CONVERSION+EN+CATEDRAL_25098.html>

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1. Os muçulmanos e a Espanha

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ituada ao sul da Espanha, a cidade de Sevilha, capital da região de Andaluzia, antigamente denominada de Hispalis, pertenceu primeiramente ao Império Romano.

Épocas posteriores foram marcadas pelo domínio mouro, com início na primeira metade do Século VIII. A regra moura se espalhou por toda a Espanha, mas tomou evidências em três períodos históricos: dos Emirados Árabes e Califados (759-1031), dos Almorávides e Almohads (10861212) e a Dinastia de Nasrid (1230-1492). Cada período histórico, por sua vez, foi realçado

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por um monumento excelente: a Catedral de Córdoba, em Córdoba (786-999), o minarete de Sevilha ou a Giralda, em Sevilha (completo em 1198) e a Alhambra (1238-1391) em Granada, respectivos aos períodos históricos a cima descritos. A pesquisa em questão vai se debruçar sobre o período histórico dos Almorávides e Almohads, uma vez que se interessa pela reflexão sobre as coexistências entre a arquitetura cristã e a arquitetura muçulmana na cidade de Sevilha e, em específico, na Catedral de Sevilha. Verificar como o extenso período do domínio mouro repercutiu na arquitetura e no modo de intervir na cidade: uma busca por esquecer esse passado de dominação moura, e, Fig1. Catedral de Córdoba, Catedral de Sevilha assim, apagar qualquer vestígio de sua arquitetura? Ou, se adotou uma intenção totalmente oposta, perseguindo entender e, até mesmo, preservar a arquitetura e quem sabe antigas tradições da cultura moura?

e a Alhambra, respectivamente.


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As invasões mouras no período de Almoravide e Almohade trouxeram consigo a AlAndalus, uma arquitetura e arte muçulmana cuja base se dá no uso da técnica de cantaria Fig2. Ilustração de arcos polilobados no exterior na igreja de Santa Catalina, em Sevilha.

ou construção com tijolo e argamassa (ainda que esta já era usada no mundo romano), o arco polilobados ou de herradura apuntada (túmido), bóvedas de mocárabes e artesonados de lazo e armaduras de par e nudillo. Foi neste contexto que o Império Almohade fixou a capital de Al-Andalus em Sevilha, onde foi erguida a mesquita de Aljama de Sevilha – mesquita essa que ganhou grande destaque, inclusive por ser maior que a já construída mesquita de Córdoba, com 17 naves e cinco cúpulas diantes do mihrad, que era até então a maior mesquita já construída e o grande

Fig3. Exemplo de um arco de herradura apuntada na mesquita de Córdoba.

monumento do período mouro anterior. No início da conquista, os muçulmanos faziam igual aos cristãos, ocupando edifícios de grande importância da cultura dominada, que eram então convertidos em residências e unidades políticas/administrativas. Só quando as ocupações mouras foram tomando corpo e intensidade, que surgiram os planos de construir mesquitas, “como expresion de que la província abbasí se había convertido em uma entidad política bien distinta e

Fig4. Ilustração bóveda de Mocárabe no Palacios Nazaríes na Alhambra.

Independiente”. As primeiras mesquitas deste período eram feitas sobre pilares de fábrica, do tipo de Samarra, ocidentalizadas seguindo o modelo da mesquita de Ibn Tulún no Cairo. Será no Norte da África em que se produzirá a síntese dessa época, cujo protótipo apresenta uma nave paralela a quibla, da qual, por sua vez, saem tramas perpendiculares.

Fig5. Imagem esquemática de uma armadura de par y nudillo, ou armadura español.

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Também iram se generalizar o uso do arco de lóbulos e o de herradura apuntado, proveniente das irregularidades ocorridas durante obras de ampliação de Almanzor (976-1002), na mesquita de Córdoba – estes se tornaram no modelo base para qualquer construção.1 As mesquitas, representantes simbólicas do Islamismo tanto de sua religião como de sua civilização, são o templo onde os muçulmanos se reúnem para rezar ao seu deus Alá. Tendo origem na organização em planta-baixa de basílicas do Mediterrâneo Oriental, as mesquitas Fig6. Alminar da mesquita de Samarra. Irak possuem elementos básicos que as estruturam: o haram é um espaço coberto onde os fiéis y mezquita de Ibn Tulun. Egito. Séc. IX d.C. se reúnem durante a reza; o sahn, pátio descoberto, unido ao haram e, na maioria das vezes, é rodeado, em três de seus lados, por arcadas, as riuaq – neste espaço também se situam reservatórios de água, com ou sem fonte, que são de uso comum onde os fiéis

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realizam o ritual de lavagem antes das orações; o alminar ou minaret é uma torre de planta quadrada ou circular, em geral situada no extremo norte do haram, onde o muecín ou o almuédano chama os fiéis para as orações (adhan); o mihrad, localizado na qibla, parede orientada para a Meca, é o ponto central e onde está concentrada a decoração mais rica e vistosa da mesquita – ao contrário do altar de uma igraja, este não é um lugar sagrado, mas ele indica a direção certa na hora da reza, está sim sagrada; situado a direita do mihrad, esta o minbar, local onde o imam dirige a oração aos seus fiéis (jutba). __________________ 1. Tradução do parágrafo retirado do texto: “Elementos primarios de la arquitectura andalusí mudéjar (VII): mezquitas”.

Fig7. Esquema volumétrico da Gran Mezquita de Damasco, Siria (705-715)


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2. Na individualidade sevilhana a Catedral de Sevilha

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evilha é uma cidade em que a arquitetura religiosa se destaca em sua paisagem. Imediatamente depois da reconquista da cidade pelos cristãos, no século XIV,

estabeleceram-se vinte e quatro paróquias em seu sítio, grande parte delas aproveitando mesquitas pré-existentes, construídas pelos mouros a partir do início das ocupações islâmicas em 712. Foi neste contexto em que se deu a construção da Catedral de Santa Maria de la Sede en Sevilla, realizada sobre terreno da antiga mesquita de Aljama de Sevilla (cuja construção data de maio de 1172 a marzo de 1198, orientada para sul como é o normal nos mesquitas construídas em Sevilha), imbricada no meio do traçado urbano da cidade de Sevilha segundo orientação do arquiteto andaluz Ahmad Bem Baso.

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Fig.8 Elevação oeste, Fig.9 Elevação leste, Fig.10 Elevação oeste, Fig.11 Ilustração de Ceferino Gonzalez, 1864

1738 1805 1854 Fray

Fig12. Vista interna do Patio de los Naranjos, 1868 Fig13. Ilustração catedral de 1872 Fig14. Vista da catedral desde a Plaza del Triunfo, 1880 Fig. Vista geral da catedral, 1887

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Segundo a tradição oral, os canônicos da catedral, após várias reuniões, chegaram a seguinte conclusão: “Hagamos una Iglesia que los que la vieren labrada nos tengan por locos”. Foi assim que surgiu o complexo religioso da catedral, de planta retangular de 113 por 135 metros. No século XIII, após a conquista de Sevilha por Fernando III, a mesquita servirá de templo cristão, empregando-se o haram ou sala de oração a tal fim, sem que se produzam alterações na estrutura arquitetônica da mesma. Mas, em 1402, tem início as obras de construção da Catedral de Sevilha, de estilo gótico, sobre antigo terreno da mesquita maior Aljama de Sevilla, respeitando unicamente dois elementos muçulmanos: a Giralda, reconvertida em campanário cristão e o Pátio de los Naranjos. Tal construção se prolongará Fig15. Imagem da cidade de Sevilha com a catedral, sem autor nem data. Faz referencia ao ditado: “Quien no ha ido a Sevilla, no ha visto maravilla”

ao largo dos séculos, com adições posteriores nas épocas Renascentista, Barroca e Neoclássica – de modo geral, a planta baixa da catedral seguiu o perímetro original da mesquita.

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Fig.16 Parte superior: A. ilustração da frente norte do Patio de los Naranjos, com vista da Puerta del Perdon, 1954 B. o Pátio de los Naranjos de 1928 Parte inferior: C. conjunto de vistas internas ao Pátio de los Naranjos

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A

B

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C


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Logo após a reconquista de Sevilha pelos cristãos, em 1248, as mesquitas foram transformadas em templos cristãos com ações muito sutis e pontuais: mudança do eixo de orientação da oração, primeiramente Norte-Sul, para um novo eixo Leste-Oeste; localizam no mihrad a capela da Santa Virgem ou santo padroeiro da paróquia; aproveitam do alminar, onde o muecín chama os fiéis para as rezas, como campanário; por último, utilizam o sahan, dotado de fontes, água corrente e suportes periféricos, como habitações ou instalações dos serviços da igreja.

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Fig 17. Corte da mesquite Aljama de Sevilha, através do pátio e nave da mesquita, 1172-1198.


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Fig18. Através da sobreposição das plantas da mesquita de Aljama de Sevilha com a da catedral, observa-se que foram conservados traços e ambientes da mesquita pré-existente. Percebe-se também como a organização de seus espaços em torno de três naves e torre minarete nos recorda suas raízes na mesquita – elementos arquitetônicos desta antiga edificação muçulmana que foram preservados e reincorporados à arquitetura da catedral: o minarete da mesquita, hoje a soberba torre Giralda (um símbolo da cidade), convertido em campanário e cujo acesso se da por rampas; o Patio de los Naranjos, a área mourisca destinada ao ritual de purificação dos fiéis, através da água, realizado antes das cinco orações diárias. Com um interior que combina grandiosidade, amplidão e solenidade, tem-se 26 capelas internas, 17 altares e 13 portas.


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Fig19. Mesquita de Aljama Almohade de Sevilla: Vista Isométrica; Vista virtual da sala de orações; Vista virtual do pátio.

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Fig20. Catedral de Sevilha: Vista isométrica; Vista virtual do entorno da Capela Real; Vista Virtual do pátio, com os arcos da antiga sala de orações tapados.

Como pode-se observar, o edifício da

antiga

mesquita

Aljama


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Almohade de Sevilla, obedecendo plenamente aos princípios da estética almohade, possui uma acentuada unidade formal, com uma pesada monotonia em sua estrutura e escassas concessões ao decorativo. Sua posterior conversão de mesquita para igreja será feita seguindo diversas modificações, mas que, de forma geral, só transformaram a fisionomia externa do edifício – as alterações realizadas no interior objetivavam alterar sua imagem de ícone da cultura muçulmana, mas preservaram a estrutura da antiga mesquita. Seguindo a forma de ritual de passagem dos locais de culto religioso entre as diferentes religiões, é que foi realizada a transformação da mesquita Aljama de Sevilla na catedral da cidade: colocar a cruz no topo do edifício, realizar a purificação dos ambientes, transformar os elementos figurativos mais significativos da antiga religião pelos da religião atual, rezar missas com a presença do monarca. Vale ressaltar que, entre as religiões islâmicas e a cristã, a primeira marca identificatória da estrutura e da função a que se referem estabelece relação com a orientação das cerimônias e dos atos religiosos, assim, dos espaços em que eles são feitos. É por isso que, como já descrito anteriormente, modifica-se a orientação da mesquita norte-sul para uma leste-oeste, uma vez que não mais se reza orientado a Meca, mas busca-se o alinhamento do orto del sol, imagem da ressurreição de Cristo. Do mesmo modo, o ponto de interesse da mesquita, o mihrab no muro da qibla, é substituído por uma ábside, como lugar de implantação do altar, em uma direção que marcará sempre noventa graus em respeito ao mihrab.

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Descrição a parte merece o antigo alminar da mesquita: a Giralda, declarada matrimônio da Humanidade em 1987, foi construída a imagem e semelhança do alminar Kutubía de Marrakech, em Marrocos – com posteriores acréscimos, no período do Renascimento, na sua parte superior, formado pelo campanário e o Giraldillo, uma estátua feminina de bronze com 4 metros de altura, representando a “fé vitoriosa” e cujo nome foi atribuído a torre. A Giralda, assim como a maioria dos campanários mudéjares dos próximos séculos, tem a estrutura clásica dos alminares almohades, composta por um prisma central de base quadrada, rodeada por quatro muros externos. Entre ambas estruturas tem-se rampas de Fig21 A torre Giralda

subida – no caso específico da Giralda, devido as suas grandes dimensões, as rampas permitem o acesso por cavalo, o que agiliza a subida ao topo da mesma. A decoração externa da Giralda apresenta janelas em caixilhos e janelas en arco (vanos bíforos o ajimeces), assim como arcos de herradura semicirculares o polilobulados, rodeados pelo alfiz (uma moldura, geralmente retangular, que demarca exteriromente um ou mais arcos concêntricos ou não, em elementos como portais ou janelas) e reunidos por outro arco ogival lobulado (arco túmido). Nas ruas laterais a Giralda tem-se arcos cegos e nelas se extendem os chamadas paños de "sebka", nome dado a retícula que forma os arcos polilobados quando se extendem por amplas superfícies murais e que, a certa distância, se assemelham a uma rede de diamantes. O último corpo da torre almohade foi substituído no século XVI por Hernán Ruiz segundo um arremate renascentista sobre o qual gira o Giraldillo.

Fig22 Ilustração, sem data, da Giralda.

A Giralda, considerada o principal alminar entre todos os seus semelhantes norteafrica-

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canos – fato atribuído a sua altura, bem como a sua decoração externa em franjas ou ruas verticais –, constitui o ponto mais alto da cidade de Sevilha, uma vez que, o estatuto da cidade faz constar que nenhuma edificação pode ter gabarito superior ao da Giralda, símbolo de Sevilha, com algumas poucas exceções por vezes concedidas a construções realizadas em áreas externas ao perímetro urbano.

31 Fig23. Vistas superiores de Sevilha, evidenciando o destque da catedral no skyline da cidade.

Fig24. Foto aérea de Sevilha tirada do topo da Giralda Fig25. Sevilha desde o bairro de Triana


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Atualmente a Giralda possui 101 metros de altura, sendo 51 metros do alminar primitivo, 46,5 metros da intervenção renascentista cristã e 3,5 metros do Giraldillo. Com a volta de Sevilha ao domínio espanhol, os reis católicos respeitaram e fizeram respeitar o legado recebido. Mas um terremoto no ano de 1356 forçou mudanças na decoração externa da torre, como pode-se observar na imagem abaixo:

.

o

desenho

da

esquerda,

representando

o

alminar

primitivo

antes

do

terremoto de 1356;

. no desenho da direita, observa-se a ausência das quatro bolas de bronze no arremate na torre, assim como a construção do campanário com sua correspondente cruz e veleta; Fig26. Torre Hassan, Rabat, Marrocos (12 th c).

. a imagem do meio, mostra a Giralda com sua elevação atual e, portanto, com o novo corpo renascentista projetado pelo arquiteto Herman Ruiz. Acredita-se que a torre Hasan, em Rabat, é o alminar inconcluso anterior a Giralda devido a similaridade observada nos elementos decorativos constitutivos de ambas as torres, próprios da arte e da técnica almohade. Ainda que a inspiração estivesse na arquitetura e ornamentação da torre Hasan, optou-se pelo modelo da torre de Kutubia em Marrakech que era mais portentoso. Com um interior que combina grandiosidade, amplidão e solenidade, a Catedral de Sevilha possui 26 capelas internas, 17 altares e 13 portas: dentre as capelas destacam-se a Capilla Real, a Capilla de la Concepción Grande, a Capilla del Mariscal ou de la Purificación, a Capilla de los Dolores ou Capilla de la Virgen de la Antigua. Quanto aos

Fig27. Torre de Kutubia, Marrakesh

portais da catedral temos a Puerta Del Perdón; Puerta de los Principes; os portais da

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Fig28. Ilustração de como evoluiu o almohad minaret da Catedral de Sevilha – atual campanário da catedral.


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cabeceira – com uma posição atípica para os acessos – denominadas de Puerta de los Palos e Puerta de las Campanillas; os grandes portais localizados no cruzamento das naves, que são as de San Cristóbal e a da Conscepción, a qual dá, por sua vez, no Pátio de los Naranjos. O acesso a grande catedral gótica, localizado na elevação posterior do complexo, se dá pelas Puertas del Nacimiento e del Bautismo. Juntamente com o Real Alcázar e o Arquivo das Índias de Sevilha, a Catedral de Sevilha formam um complexo de marcos históricos no coração da cidade, que, em 1987, foi declarado pelo UNESCO Patrimônio da Humanidade.

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Fig29. Projeto de Restauro do minarete Giralda. fonte: Archnet


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Fig32. Planta-baixa da cathedral: A. B. C. D. E. F. G. H. I. J. K. L. M.

Puerta del Perd贸n Paroquia del Sagrario Puerta de los Naranjos Puerta del Lagarto Puerta del Baptisterio Puerta Principal Puerta del Nacimiento (de San Miguel) Capilla Real Puertas de las Campanillas Sala Capitular Puerta de S. Cristobal Sacristia de los C谩lices Sacristia Mayor

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A B

C

D

E

F

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H

I

G

K

L

M

J


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Fig33. Ilustraçþes do interior da Catedral de Sevilha

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3. Considerações finais – Análise das possíveis razões que levaram a substituição do uso de mesquita para uma igreja

D

izer que foi devido ao longo período de tempo transcorrido da construção da mesquita até hoje o que tornou impossível sua integral preservação, parece demonstrar um desconhecimento de sua realidade - vale destacar que seriam necessárias constantes obras de restauro, sobretudo na parte da cobertura da mesquita, uma vez que esta é a parte mais frágil da mesma. Da mesma forma, não seriam as obras de adaptação da mesquita a um uso como igreja responsáveis por danos irreparáveis ao edifício. Mesmo a ocorrência de terremoto na cidade em um ano que precedeu a construção da Catedral, não justificaria a tamanha desconfiguração da mesquita pré-existente que se observa na atualidade. “El edificio almohade obedecía a un diseño estructural de gran robustez, perfectamente simétrico y por tanto bastante bien adaptado para resistir acciones sísmicas” 3

Outros aspectos devem ser considerados e enunciados, como o desejo por eliminar elementos arquitetônicos que fossem representantes diretos, seja do poder político, religioso ou bélico das ___________________________ 3. GORBEA, A. A.. La piedra postrera – V Centenário de la conclusión de la Catedral de Sevilla. Sevilla: TVRRIS FORTISSIMA, 2007.

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antigas nações que subjugavam as comunidades que agora ocupam a localidade. Era um período em que cada país queria evidenciar sua superioridade em relação à outra nação, sobretudo, se esta relação fora de dominantes e dominados e depois se inverteu. Alem disso, naquela época não existiam as mesmas preocupações com o patrimônio histórico, muito menos preocupações com a preservação do legado de outras culturas.

“Cuando en el momento de la conquista se adaptan las grandes mezquitas aljamas como iglesias, seguramente prevalecieron razones de economía y de propaganda política, pese a los graves inconvenientes funcionales que estas acomodaciones comportaban. El efecto que la imagen del edificio de la religión adversaria convertido en templo propio podía tener como muestra del triunfo de la fe, con el tiempo debió verse mitigado, máxime cuando los peligros de reacción por parte de los musulmanes, sobre todo de allende el estrecho, 4 quedaron neutralizados”.

Por outro lado, resulta compreensível que se desejasse empregar uma arquitetura mais próxima ao que se havia construído ou que estava em processo de construção nas outras cidades do reino e da ordem cristã, perseguindo adotar para a catedral formas e conceitos espaciais então em uso. Em comparação com a “gran mezquita de occidente”, na cidade de Córdoba, a mesquita Aljama de Sevilla apresentava problemas de visão e de unidade espacial menos críticos que sua semelhante. Isso foi um dos fatores que proporcionaram a marcada intervenção nos edifícios religiosos muçulmanos na cidade de Sevilha. Além disso, a consideração do poderio e do prestígio que a presença muçulmana pro___________________________ 4. idem.

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porcionou ao califado cordobês foi sempre superior a presente em Sevilha. No campo específico da religião, vale destacar que são grandes as diferenças notadas entre as cerimônias empregadas pelos muçulmanos e pelos cristãos: enquanto a oração muçulmana não tem mais requisitos ambientais que permitir a adequada postura dos fiéis, que devem estar orientados a uma determinada localidade e dispostos dentro do grupo em filas ordenadas e paralelas, a religião cristã tem na celebração eucarística seu principal ato da vida comunitária e, assim, traz a necessidade de um lugar concreto e reduzido, o altar, para o qual devem estar voltadas a atenção dos fiéis. Da mesma forma, ao largo do século XIV surgiram novos modelos de igreja que procuravam favorecer uma participação mais direta dos fiéis com as cerimônias litúrgicas, assim a incorporação de um sentido da cenografia no espaço religioso, ressaltava a necessidade de readequações nos ambientes de mesquita. Tais necessidades funcionais estavam longe de serem satisfeitas dentro da organização da antiga mesquita e tem notável diferença com o que ocorreu, por exemplo, na arquitetura residencial, na qual as necessidades em uma e outra cultura possuíam muito mais coincidentes. 43


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5. Bibliografia

ALMARGO, A. & ZÚÑIGA URBANO, J.I.. Atlas arquitectónico de La Catedral de Sevilla. Sevilha-Granada: Consejo Superior de Investigaciones Científicas (CSIC)-Escuela de Estudios Árabes Cabildo de la Santa, Metropolitana y Patriarcal Iglesia Catedral de Sevilla, 2007. Disponível em: <http://hdl.handle.net/10261/20324> Colegio Oficial de Arquitectos de Madrid. Giralda. Madrid : Colegio Oficial de Arquitectos de Madrid, Comisión de Cultura, 1982 funciones, compilación de transformaciones y demolición. Sevilla : Colegio Oficial de Arquitectos de Andalucía Occidental, 1992 Comisaria de La Ciudad de Sevilla para 1992. Ayuntamiento de Sevilla. La Catedral de Sevilla. Sevilla : Guadalquivir, 1991 [textos, Enrique Valdivieso ; fotos, Arenas] La catedral de Sevilla – más de cinco siglos de historia. [Sevilla] : Savitel Doc, D.L. 2007. MARTIN, FRANCISCO GRANERO. El corral de los olmos. Antiguos cabildos secular y eclesiástico de la ciudad. Sus orígenes, MARTOS, R. M. Elementos primaries de la arquitectura andalusí y mudéjar (VII): mezquitas. Conferencia Novembro de 2010, na Escola de Arquitetura da Universidade de Notre Dame, EEUU. Disponível em: <http://otraarquitecturaesposible.blogspot.com/2011/05/elementos-primarios-de-laarquitectura.html>

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na Catedral de Sevilha, Espanha.

PIJUÁN, J. El significado de la Mezquita en el mundo islâmico. <http://www.artencordoba.com/MEZQUITA-CATEDRAL/Mezquita-Catedral-Cordobasignificado.html> Site official da Catedral de Sevilla: <http://www.catedraldesevilla.es/> Iglesia del Salvasdor de Sevilla: <http://www.colegialsalvador.org/iglesia/descripcion/inmueble/txmezquita.htm> Vídeo sobre a mesquita e a catedral: http://www.cienciatk.csic.es/Videos/LA+MEZQUITA+ALMOHADE+DE+SEVILLA+Y+SU +CONVERSION+EN+CATEDRAL_25098.html

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Coexistência entre a arquitetura muçulmana e a cristã na Catedral de Sevilla, Espanha  

O presente plano de trabalho faz parte do programa de pesquisa de conhecimento acadêmico entre a Universidade de São Paulo e a Escuela Técn...

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