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r o b s o n

p i n h e i r o

pelo espírito ângelo inácio

trilogia O Reino das Sombras volume

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Os direitos autorais desta obra foram cedidos gratuitamente pelo médium Robson Pinheiro à Casa dos Espíritos, que apoia a Sociedade Espírita Everilda Batista, instituição de ação social e promoção humana, sem fins lucrativos.

1ª edição degustação | julho de 2010 | 70.000 exemplares Copyright © 2010 by Casa dos Espíritos Editora Todos os direitos reservados Casa dos Espíritos Editora Rua Floriano Peixoto, 438 | Novo Progresso Contagem | MG | 32140-580 | Brasil Tel./Fax: +55 (31) 3304-8300 editora@casadosespiritos.com.br www.casadosespiritos.com.br

Coordenação, preparação de originais e notas leonardo möller Projeto gráfico e editoração andrei polessi Revisão laura martins


Capítulo 1 Prólogo Capítulo 2 O prenúncio do fim Capítulo 3 Os tempos do fim Capítulo 4 Os maiorais do inferno

sumário

Capítulo 5 Matrix, o poder da mídia Capítulo 6 Salto entre as dimensões Capítulo 7 Obsessões modernas Capítulo 8 Agênere Capítulo 9 Esclarecimentos finais Capítulo 10 Os daimons


2 o prenúncio do fim (…) Na região central da metrópole, teve início intensa atividade. O apartamento ficava em um prédio abandonado, nas imediações de uma grande praça, em cujo centro se encontrava uma catedral conhecida. Um farfalhar, certo rebuliço, um grito, talvez um ruído agudo e, a seguir, um som mais sinistro ressoava no ambiente. Movimento ligeiro, cada vez mais rápido, como se fora uma sombra com vida própria, esgueirava-se por entre as paredes do velho apartamento. O ser movia-se de um lugar a outro como se um felino fora, perseguido por seus predadores. Repentino silêncio se instalara; um silêncio constrangedor, que incomodava os sentidos, as percepções. A sombra parecia agora irradiar uma luz embaçada, quase uma emanação de fuligem iluminada por ignota lamparina de uma vivenda tosca. Logo depois, barulho infernal sucedia ao silêncio enganador. Luz muito forte, que lembrava um holofote, parecia perseguir a sombra em cada cômodo, de cada 6


apartamento daquele edifício central. Algo como o reluzir de uma espada ou um relâmpago cuja luminosidade houvera sido congelada no tempo brandia de um lado a outro, enquanto a sombra se esgueirava tentando escapulir de um destino quase certo. O estranho ente das trevas saiu correndo do prédio e dirigiu-se para o meio da multidão de homens e de almas. Tentava dissipar seu rastro em meio aos transeuntes, bêbados e boêmios que disputavam seus desejos inquietos com outros tantos que se vendiam, se alugavam, ou simplesmente se davam a tantas outras criaturas de desejos equivalentes. Junto daquele ser estranho, criaturas da noite se alvoroçaram; voavam atrás dela, quem sabe espantadas por algum sentido que fora acionado, percebendo o imperceptível para a maioria dos mortais. Insetos, ratazanas, lacraias e alguns escorpiões pareciam correr instintivamente pelos corredores do prédio vazio, em debandada diante do farfalhar produzido pela estranha criatura. E atrás, alguma coisa, alguém que luzia como as luzes de uma viatura, movimentando-se em intensa atividade, porém sem barulho, sem ruído, sem incomodar. Outra presença, outro ser, movimentava-se por entre as paredes, cruzando a barreira da matéria… O ser sombrio esgueirava-se por entre as pessoas que vagavam diante da catedral. Seu hálito mental causava arrepios naqueles em quem tocava ou que lhe percebiam, ainda que instintivamente, a presença doentia. Ele tentava correr, quase na tentativa de levitar; mas 7


nada. Não conseguiria, tamanha sua falta de imaterialidade. Devido à sua condição quase material, quem sabe? — humana, ao menos no que concerne ao aspecto físico. Ele simplesmente se arrastava num gorgorejo, uivando, sinistro como algum personagem de Stephen King. Sua aparência esquelética lembrava a de um vampiro que há muito não saciava sua sede de sangue. Porém, no seu caso, era sede de fluidos, de energias, de um tipo de alimento não material. De perseguidor, agora era perseguido; não completara seu mandato, não cumprira o intento para o qual fora convocado. Atrás de si, as luzes chamejantes, o relâmpago que se locomovia com vida própria, ou simplesmente um dos miseráveis e abomináveis guardiões do Cordeiro, pelos quais nutria intenso ódio, devido a sua impotência ao enfrentá-los. Enfim, não divisara muito mais do que o ofuscar de um clarão; uma aberração da natureza, segundo pensava, a qual se movia perigosamente em direção a ele, impedindo-o de cumprir sua missão. Será que existiam anjos, conforme ouvira falar certa ocasião? Seria aquele relâmpago maldito uma espécie de anjo do juízo, que viera para cobrar-lhe os atos criminosos cometidos em nome do seu sistema de vida? Ou os anjos seriam apenas os odiosos sentinelas do Cordeiro? (…) Anton parecia brilhar mesmo sob a luz do sol, que nascia do outro lado do mundo. Seus cabelos reluziam 8


uma aura dourada, conferindo tom especial à sua face, que exprimia firmeza e convicção. A seu lado, Jamar ardia internamente no fervor de seu trabalho e na expectativa de acontecimentos que definiriam a política do novo mundo, que estava surgindo ou renascendo das cinzas da civilização. Como guardião do alto escalão, Jamar também se envolvia numa luminosidade dificilmente disfarçada. E Watab, o africano, participava mentalmente da conversa, deixando seu psiquismo livre para ser penetrado pela força mental dos companheiros. Altivo, o guardião da cor de ébano erguia-se, junto com os demais, observando a movimentação abaixo de si, mantendo a sintonia com os objetivos e incumbências dos quais instâncias superiores os encarregaram. Receberam, logo após ter com outro emissário, um agente da justiça que estava de prontidão naquele continente. Alguém que recebera a incumbência de seguir de perto os últimos acontecimentos do plano extrafísico. Ramón foi logo se pronunciando, pois trazia importantes observações a seus superiores: — Antigos opositores a nosso trabalho foram encaminhados a locais de transição, onde são averiguados e catalogados enquanto aguardam novas determinações de instâncias superiores. Cientistas da escuridão e alguns magos de representatividade já foram atendidos por agentes no plano físico, parceiros nossos no continente sul-americano. Ao que tudo indica, em breve teremos um desfecho satisfatório dos últimos eventos. Julius 9


Hallervorden, o antigo cientista da escuridão, está sendo preparado para reencarnar, e o especialista em hipnose, um dos espíritos mais renitentes, também é atendido em esfera próxima à Crosta e dentro em pouco deve assumir roupagem física compatível com sua necessidade. “Porém — continuou seu relatório pessoal — temos sérias preocupações no que concerne à politica nas regiões inferiores. Os sistemas de poder estão se reconfigurando em face do que ocorreu com seus últimos líderes. Parece que os poderosos dragões têm reorganizado diligentemente o poder no submundo, e, com esse intuito, acabam de convocar uma reunião urgente entre os maiorais.” Anton lançou significativo olhar a Jamar e Watab, para em seguida deixar-se penetrar novamente pelo pensamento do agente de segurança planetária Ramón: (…) — Tudo está perdido! Nossa missão falhou, comprometi nossa posição… Meus mais eficientes colaboradores se foram, capturados pelos sentinelas que acompanhavam o odioso filho do Cordeiro. A esta altura, por certo foram conquistados, encerrados em algum lugar ao qual não tenho acesso. Está tudo perdido, perdido, perdido! — gritou, finalmente. Um forte bofetão fez com que o espírito rodopiasse, sem se dar conta do que ocorria. Sua cabeça deu reviravoltas no ar, dando impressão de que o restante do 10


corpo semimaterial seguia a cabeça, que recebera o golpe, — quem sabe? — desferido na tentativa de arrancála do pescoço esquelético. — Deixe de reclamações, seu miserável! Incompetente! Você me causa repulsa; é uma lástima para nossa organização. — Mas, comandante, o senhor não viu de perto o que ocorreu. Deparei com um dos poderosos! Rascal, o espírito que governava a cidade do alto de um dos seus morros, lembrava a figura de um animal escamoso, com uma cabeleira solta sobre os ombros, na tentativa infrutífera de imitar os soberanos. Olhos injetados de vermelho, e a pele, mais amarela do que branca, como se fumaça de cigarros a tivesse manchado por inteiro. Globos oculares pronunciados, que lhe conferiam aspecto ainda mais degradante, pareciam revolucionarse em sua órbita, inquietos, indo de um lado a outro, talvez como sintoma de sua ansiedade. Não era loucura; apenas inquietação. Uma alma atormentada, dileto representante de outros seres mais truculentos, mais atormentados ainda, de comportamento insalubre. Indignado pelo bofetão que recebera de seu imediato, o líder do bando estava também frustrado, amedrontado. — Você se demonstrou incapaz de cumprir as ordens que lhe transmiti. Você não é somente um miserável do escalão inferior, como também me comprometeu a posição diante de nossos soberanos. 11


O espírito ensaiava uma objeção. — Se tivesse cumprido sua tarefa, com certeza seria convocado para a reunião dos representantes do poder. Estaria agora entre os comandantes da desordem! — Eu falhei, meu senhor! O comandante bufava ao represar o ódio. Se pudesse, mataria ali mesmo o infame e desafortunado serviçal. Mas ele já era morto; não saberia como lançá-lo à escuridão mais profunda do que sua própria alma já se encontrava. Tentou avaliar a situação, mensurar as implicações da derrota causada pelo maldito que representava a política superior. (…) “Mas vocês parecem amedrontados! — tentava assim passar uma ideia de segurança a seus subordinados. — A derrota de vocês foi um revés transitório, mas, caso permaneçam assim, o objetivo maior de nossa empreitada fatalmente rumará para a destruição! Não podemos nos dar ao luxo de perder o foco central de nossa ação… Tudo isso por causa de um miserável filho do Cordeiro? O espírito sombrio, que correra da presença dos guardiões, respondeu ao chefe tremendo, e em pranto: — Acho que não podemos desconsiderar a importância do inimigo. Com certeza, meu senhor, o tal representante do Cordeiro é uma pessoa muito comum, mas as ideias por ele disseminadas, o trabalho que está por trás de sua pessoa devem justificar o apoio que vem 12


recebendo dos guardiões… Rascal olhou furioso para o subalterno e depois fechou o punho, levantando-o, como a desafiar algum ser invisível para ele. Conteve-se para não atirá-lo rua abaixo ou contra algum muro. Bradou de plena frustração e temor quanto ao futuro. Balbuciando, o espírito medroso, que trazia a notícia, preferiu arriscar mais uma vez: — Nem sei como levar a mensagem dos guardiões até os maiorais; não faço ideia de como enfrentar a ira dos chefes de legião e dos soberanos… Outro espírito, especializado em assassinato, ergueu a voz quase melancólico: — Se ousarmos enfrentar os chefes de legião e os maiorais transmitindo-lhes a notícia trazida por este vândalo, com certeza seremos abatidos pelas mãos poderosas dos nossos superiores. Eles não perdoam a derrota. E aqueles que sobreviveram incólumes à perseguição dos guardiões poderão ser abatidos pela espada dos chefes maiores. (…)

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3 os tempos do fim Antes mesmo que iniciássemos nossa tarefa, enquanto ainda nos preparávamos em uma das bases de nossa metrópole espiritual, junto aos guardiões, surgiu o espírito Edgar Cayce, envolto por uma multidão de espíritos outros que queriam a todo custo um momento de conversa com ele. Ele era um dos espíritos que participaria da incursão à área restrita dos dragões, conforme convocação de Anton e Jamar. Estranhei muito ao ver Cayce com esse ibope todo do lado de cá, pois era alguém muito tímido. Deduzi que a notoriedade que amealhou na Terra tornou-o conhecido e respeitado também em alguns recantos da espiritualidade. Ele olhou para mim como a pedir socorro, pois diversos alunos da universidade local, junto com outras equipes espirituais de plantão, que futuramente integrariam o corpo de guardiões, queriam muito tirar dúvidas relativas aos chamados eventos finais, de ordem escatológica, ou seja, os acontecimentos que marcariam o início da era de transição no planeta Terra. Edgard 14


Cayce caminhou em minha direção na esperança de que eu o livrasse da multidão. Sinceramente, eu não saberia o que fazer, não fosse o aparecimento súbito de Ranieri e de Voltz, que sugeriram nos reuníssemos por alguns instantes no auditório da universidade antes de partirmos na excursão. Essa ideia foi a salvação de Cayce, pois somente assim se esquivaria do grupo que se acotovelava a seu redor, sedento por informações. (…) — Comecemos nossas considerações — disse ele — fazendo uma passagem pelos escritos que são tidos como sagrados pelos cristãos: a Bíblia e, mais precisamente, o livro das revelações ou Apocalipse. Talvez assim possamos compreender melhor a questão do simbolismo e da literalidade dos ensinamentos proféticos que você chama de antefinais, conforme estão escritos primariamente nesse livro. “No Apocalipse, emerge a imagem representativa do dragão, que, segundo afirma o apóstolo João, ‘levou após si a terça parte das estrelas do céu, e lançou-as sobre a terra’.1 Podemos entender esse elemento pelo menos de acordo com dois ângulos distintos, e nem por isso excludentes, uma vez que esta é uma das propriedades da linguagem simbólica: pode ser aplicada a diversas épocas e lugares. 1 

Ap 12:4. Outras referências aos feitos do dragão em Ap 12-13. 15


“Primeiramente, vemos na figura do dragão os espíritos rebeldes que decaíram de sua pretendida intelectualidade, de seu éden, de seu mundo de origem, e foram degredados para o planeta Terra2 em épocas imemoriais. Desse modo, o símbolo do dragão torna-se algo antigo, muito mais antigo do que a história humana, pois que está presente desde a ocasião em que os espíritos rebeldes vieram para nosso mundo, em épocas recuadas no tempo e difíceis de precisar. “Porém, se quisermos trazer o simbolismo para algo contemporâneo, podemos identificar no dragão a imagem da China — cuja tradição milenar é fortemente associada a esse animal mitológico, em vários aspectos — e da maneira como tem galgado posições no cenário global, tendendo brevemente à sucessão na liderança econômica, em detrimento dos protagonistas que a exercem nos dias atuais. Esse fenômeno pode ser expresso como arrastar a terça parte das estrelas do céu. (…) — Podemos considerar, e eu creio nisso de maneira literal, que uma das formas como ocorrerá a partida de milhares e possivelmente milhões de seres da esfera física para a dimensão astral, no contexto de um expurgo planetário, é através de um cataclismo de grandes proporções, talvez um cometa ou asteroide que ponha em 2 

Cf. Ap 12:9,13.

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risco a vida na Terra. Quem sabe, em virtude de uma ameaça comum a todos, os homens cessem suas vãs lutas e guerras e se unam para proteger sua morada planetária? É o que podemos depreender das palavras do Apocalipse, descritas há pouco, ao citarem a estrela de nome Absinto. Eis apenas uma das maneiras pela qual se dará o ingresso de vasta porção da humanidade na esfera mais próxima da Terra. “Outro mecanismo é o recrudescimento de pragas e pestes no cenário global, conforme prevê o livro profético ao discorrer sobre as ‘sete últimas pragas’.3 O texto sugere-nos a ação de algum agente patogênico capaz de provocar o que João chama de praga, isto é, um inimigo invisível que ocasionará o desencarne de grande parte da população, pronta a deixar a morada terrena por meio de uma transmigração. “Como podemos imaginar que parcela significativa — o Apocalipse fala em um terço 4 — da humanidade abandone a indumentária carnal a não ser através de eventos drásticos? Por certo não se alcançará tal façanha pelos meios convencionais. E, por mais chocante que isso possa parecer ao homem encarnado, é importante lembrar que a verdadeira civilização é a que se compõe 3 

Ap 15:1. As sete últimas pragas são objeto de Ap 15:6-8; 16.

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Assevera o texto bíblico: “(…) a fim de matarem a terça parte dos

homens”; “Por estas três pragas foi morta a terça parte dos homens” (Ap 9:15,18). 17


de espíritos. Em cataclismos e mortes aparentemente violentas e em massa, o que morre é apenas o corpo, não o indivíduo. “Também entram em cena no Apocalipse grandes abalos de ordem climática, apontados quando os sete anjos derramam sobre a Terra ‘as sete taças da ira de Deus’,5 simbolizando seu furor. Trata-se de eventos atmosféricos e geológicos que assolariam o globo, tais como tempestades de granizo,6 contaminação das águas de rios e oceanos,7 terremotos, maremotos8 e outros eventos próprios da natureza terrestre. Tais modificações que o planeta vem sofrendo são necessárias, a fim de abrigar a nova humanidade, que surgirá das cinzas da antiga, num período que ainda não se pode precisar, embora haja evidências suficientes para inferir sua aproximação.

  Ap 16:1.

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 ���������������������������������������������������������������������� Cf. Ap 16:21. Contudo, a sétima trombeta, anterior à sétima das últi-

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mas pragas, já mencionava “grande chuva de pedras” (Ap 11:19).   O segundo e o terceiro anjos derramam as respectivas taças sobre os

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mares (Ap 16:3) e, em seguida, rios e fontes (Ap 16:4).  �������������������������������������������������������������� O Apocalipse aponta “um grande terremoto, como nunca tinha ha-

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vido desde que há homens sobre a terra, tal foi o terremoto, forte e grande” (Ap 16:18). Outras referências a terremotos: Ap 6:12; 8:5; 11:13,19. 18


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Marca da besta