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Capítulo Um A chuva fina caía na imagem cinza da cidade. As poucas pessoas que passavam na rua mal sabiam o que estava acontecendo. Continuavam suas vidas comuns, caminhando em passos largos, apressadas em seus afazeres. – Vamos, meninas, a van já está ali. As seis meninas de calça preta e blusa camuflada se esgueiravam pela ruela sem ser minimamente notadas. Jogaram oito malas cheias atrás da van e entraram com todo o cuidado e descrição. A mais baixinha fechou a porta e a van saiu com toda a calma, percorrendo a rua úmida. – Deu tudo certo, Jeniffer? – Um homem velho e parrudo segurando um charuto perguntou do banco do passageiro. – Perfeitamente. Tudo ocorreu como planejado. – Ótimo. – Ele sorriu discretamente enquanto olhava pela janela embaçada. Estavam entrando na rua que ia em direção a saída da cidade. O caminho que seguiriam era praticamente dentro da floresta. A rua era fina e o asfalto era desgastado. O sol estava começando a nascer. Uma menina de seus 16 anos chegava à ruela que poucos minutos antes estiveram seis meninas com mochilas cheias. Ela observava tudo ao seu redor enquanto digitava uma mensagem de texto para dois números diferentes. Logo as outras duas apareceriam ali para observar junto com ela. Logo que o sol terminasse de nascer.  A música batia em meus ouvidos. Constantemente. Minha cabeça doía como nunca. Cada vez que aquelas luzes passavam pelos meus olhos era como se fossem sangrar. – Georgette! – Louise ria como uma bêbada enquanto me chamava. – Por que você não dança? Ela tinha que gritar pra falar comigo e mesmo assim eu mal a ouvia. – É melhor não! – Gritei em resposta. Eu não iria dançar nem se a minha vida dependesse disso. Ela fez uma cara triste e voltou a pular em um ritmo qualquer junto com o resto das pessoas. Eu costumava ser mais animada. Meu relógio dizia que eram duas da manhã. Levantei da cadeira que estava sentada confortavelmente e subi as escadas mais próximas. No final do corredor havia uma grande janela que me chamava pra dar uma olhada.

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Lá embaixo, na margem da rua, duas meninas passaram correndo, fazendo o mais alto silêncio e começaram a se esgueirar pela calçada, indo para longe. As pessoas se esgueiravam demais ultimamente. Um garoto apareceu do meu lado do nada e se inclinou na janela, olhando a rua também. – Semana passada um cara se jogou daqui e quebrou um braço. – Ele disse. Assim mesmo, do nada. Completamente do nada. – Nossa, isso é tão não problema meu. – Me inclinei mais na janela pra tentar ver aonde o cara poderia ter caído. O garoto deu um meio sorriso com aquela expressão idiota de quem está achando tudo ao seu redor muito engraçado. Mas só internamente. Coisa que eu fazia muito, aliás. A queda não era muito alta. Deveria ter menos de cinco metros. – Hã... tchau. – Eu disse. E daí pulei. O detalhe, meu caro leitor, é que eu não iria me machucar nem mesmo se eu quisesse. Abaixo de mim havia grama e eu estava de tênis. Ah, e eu me segurei em uma ripa de madeira que se prolongava da garagem e onde estavam vários pisca-pisca. Devia estar há dois metros do chão. Ok. Ginástica. Desde os 4 anos. Eu não queria me matar então não iria morrer. Soltei a ripa e caí com os joelhos pouco dobrados. E fui embora. Desci a rua pelo mesmo caminho que as duas garotas tinham se esgueirado poucos minutos antes. Com as mãos no bolso e na boca um pirulito de maçã recém aberto, tudo o que eu conseguia pensar era que o cara sem noção que estava na janela deveria ter ficado com uma expressão mais cômica ainda. Isso me fez sorrir. Quando cheguei em casa, minha mãe estava na sala, pintando dois cavalos tomando chá em uma montanha russa numa tela 90x70. – Ah, olá Gegê. O que está achando de Walrus e Matthew? – Ela costumava dar nomes aos seus desenhos. – Walrus parece o tio Joe. – Eu sei. – Ela deu uma risadinha. – Me inspirei nele. – E continuou a criar traços na gravata do cavalo que imaginei ser Walrus. Sabe aquele pensamento que costumamos ter quando as coisas mais estranhas acontecem ao nosso redor? Bom, eu não. Porque tudo ao meu redor era assim desde sempre e, enquanto nenhum povo de outro planeta mandava naves para me buscar, eu acreditava que aquele era meu lugar. Pelo menos era o melhor. 

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– GEORGIE! – Dois livros foram largados a minha frente. Eu estava deitada com a cabeça na mesa enquanto a aula de biologia não começava e os livros pertenciam a Louise, o que não ajudava em nada. – Oi, Louise. – Levantei a cabeça e olhei pra ela. – Aonde você foi parar ontem a noite, minha filha? Eu fiquei te procurando até desistir e ir pra casa, umas 5 da manhã. – Eu fui pra casa dormir. – como se não fosse óbvio. Bom, não era óbvio. – Eu nem dormi ainda. Há há há! – E ela sentou na cadeira a minha frente. – E pretende fazer isso quando? – Eu não tinha que perguntar, mas ela já estava ali então eu não tinha nada a perder. – Talvez na aula de Química. – Ela bocejou. – A propósito, a Janice, - você não a conhece, é uma colega -, ela disse que viu ontem uma menina se jogar da janela do segundo andar. – Ah, que engraçado. Fui eu, Louise. Não sei como não percebeu na hora. – É, imaginei que tivesse sido. Você não tem medo de nada. – Ela deitou a cabeça na mesa dela. A professora de Biologia, senhorita Martinez, entrou na sala com aquela cara de buldogue feliz que ela sempre tem. – Pessoal, abram o livro na página 138 enquanto eu faço a chamada.

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