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SALVADOR SEXTA-FEIRA 18/11/2011

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ESPECIAL CONSCIÊNCIA NEGRA

EPO PUPA A MARCA DO DENDÊ

HISTÓRIA A PROCURA PELOS DERIVADOS DO DENDEZEIRO GANHOU IMPORTÂNCIA SIGNIFICATIVA NAS RELAÇÕES COMERCIAIS ENTRE OS PAÍSES AFRICANOS E SUA DIÁSPORA, PRINCIPALMENTE APÓS O TRÁFICO DE ESCRAVOS

Status obtido na África manteve-se no Brasil

DENDÊ CONTINUA A OCUPAR DESTAQUE NA ECONOMIA

JULIANA DIAS

A

herança cultural legada pela África negra ao Brasil e, especialmente à Bahia, é extensa. O dendê faz parte desse patrimônio. Com uma importante função social e econômica para grupos étnicos africanos que foram escravizados no Brasil, o dendezeiro acabou por conquistar o mesmo status em território brasileiro. “O dendê veio para o Brasil como uma exigência do contingente escravo. Os negros africanos já consumiam o vegetal em sua terra natal, portanto, eles foram os responsáveis por introduzir na Bahia o hábito de usar o dendê como alimento”, explica Vilson Caetano, pós doutor em Antropologia pela Universidade Estadual de São Paulo (Unesp) e professor da Universidade Federal da Bahia (Ufba). O consumo levou, posteriormente, à adoção das práticas milenares de extração do azeite, que eram conhecidas por esses povos, assumindo significativa importância econômica. “ Aliada a isso tivemos também a sua importância no campo simbólico e religioso, principalmente durante o século XVIII”, completa o antropólogo.

T

he cultural heritage bequeathed by black Africa to Brazil, and especially Bahia, is extensive. Dendê is part of that legacy. With an important social and economic function for African ethnic groups who were enslaved in Brazil, dendezeiro was to win the same status in Brazilian territory."The palm came to Brazil as a demand of the slaves. Black Africans consumed the plant in their homeland, so they were responsible for introducing Bahia in the habit of using palm oil as food”, said Vilson Caetano, who holds post doctorate in Anthropology at the State University of São Paulo (UNESP) and is a professor at the Federal University of Bahia (UFBA).Consumption led subsequently to the adoption of the ancient practices of extracting the oil, that were known to these people, assuming significant economic importance. "Allied to this, we also had the importance of dendê in the symbolic and religious, especially during the eighteenth century," added the anthropologist. Crossing In addition to already using dendê for cooking, during the trip across the Atlantic Ocean to Brazil enslaved Africans received the almond and pulp extracted from oil palm as food.These foods also ended up serving as a supplement to the diet provided by the owners of slaves. Disposal of seeds by black Africans originated the early subspontaneous oil palm plantations in Brazilian flora.The habit of consuming dendê in Bahia has also led to the emergence of a local market and, consequently, increased demand for the product, which was responsible for the commercial expansion of the oil for culinary and religious use alike.To meet the demand, Bahia started an intense production of the oil, especially in regions of the Recôncavo, generating socio-economic impact from the activity due to its high capacity to generate employment and income. "Palm oil has played an important role in the economy between Africa and the diaspora, especially since the slave trade was forbidden," says Ubiratan de Araujo Castro, PhD in History. Industry In the twentieth century, beginning in the 1950s, commercial production of dendê has gained greater extent with the advent of industrial mills. Initially, the system was to replace traditional craft powered by small digester, which allowed for the mass production of palm oil.As a result of strong use in agribusiness operating system, palm oil has established itself in the world market, being used as raw material for several industries.Today, the largest producer of palm oil in the world is Malaysia, both in quantity and in quality. The country also has the largest plantation of the palm in the world.In Latin America, Colombia is the leading producer. In Brazil, the state that produces more oil from the palm is Pará, responsible for about 150 thousand tons a year. Read the complete story in www.atarde.com.br

english

History The quest for oil palm derived products has gained significant importance in trade relations among African countries and their diaspora, especially after the slave trade

brasileira. O hábito de consumo do dendê na Bahia originou também o surgimento de um mercado local e, consequentemente, o aumento da demanda pelo produto, que foi responsável pela expansão comercial do azeite tanto para o uso culinário como religioso. Para atender à procura, começou na Bahia uma intensa produção do azeite, principalmente em regiões do Recônca-

O HÁBITO DE CONSUMIR O FRUTO ATRAVESSOU O ATLÂNTICO E ESTABELECEU DEMANDA PRODUTIVA

vo, gerando impacto socioeconômico a partir da atividade, devido a sua elevada capacidade para gerar emprego e renda. “O dendê desempenhou um papel muito importante na economia entre a África e a diáspora, principalmente a partir da proibição do tráfico de escravos”, diz o doutor em História Ubiratan Castro de Araújo.

Indústria

Além de já fazerem uso culinário

Já no século XX, a partir da década de 1950, a produção comercial do dendê ganhou proporções maiores, com o advento das usinas industriais. Inicialmente ocorreu a substituição do sistema tradicional artesanal pela pequeno digestor motorizado, que permitiu a produção em massa do azeite de dendê. Em decorrência do forte uso no sistema de exploração agroindustrial, o óleo de dendê estabeleceu-se no mercado mundial, sendo utilizado como matéria-prima para os mais diversos segmentos industriais. Hoje, o maior produtor de óleo de dendê do mundo é a Malásia, tanto em quantidade como na qualidade. O país também concentra a maior plantação mundial da palmeira. Na América Latina, a Colômbia é o principal produtor. No Brasil, o estado que mais produz o óleo retirado do dendê é o Pará, responsável por cerca de 150 mil toneladas.

Produto passou a substituir o mercado da escravidão

Abertura de novos focos de interesse gerou riqueza e poder

O dendê desempenhou papel central na abolição do tráfico de escravos que era feito entre a África e o Brasil. “O único produto que o continente africano tinha para trocar pelos produtos europeus e brasileiros era o dendê”, diz Félix Ayoh’Omidire, doutor em Letras e professor de línguas e de estudos culturais e literários na Obafemi Awolowo University, instituição situada em Ile-Ife, Nigéria. Dessa forma, a região que antes era conhecida como a Costa dos Escravos passou a ser a Costa do Dendê, devido à intensa plantação de dendezais na costa ocidental da África. A substituição do tráfico de escravos pela venda do azeite de dendê é descrita por Pierre Verger, no livro Fluxo e Refluxo: O tráfico de escravos entre o Golfo de Benin e a Bahia de Todos os Santos como o “inocente” comércio, devido à pressão dos ingleses para o fim do tráfico de escravos.

Com a diminuição da demanda de escravos, devido ao fim do tráfico, aumentou o comércio de dendê na África Ocidental. Ele era enviado para as Américas e Europa onde era utilizado como matéria-prima para velas e sabão e na fabricação de produtos medicinais e industriais. O desenvolvimento da dendeicultura no cenário mundial fez com que muitos traficantes se tornassem senhores de dendezais, sem deixar a comercialização de escravos. De origem negra, Francisco Félix de Souza, conhecido como Chachá de Ajudá e que morou no Brasil, é tido como um dos maiores mercadores de escravos do século XIX. Ele se estabeleceu na Costa dos Escravos, em Uidá, no reino do Daomé (atualmente território da República do Benin). A região teve uma grande expansão do comércio do óleo de dendê, após a abolição do tráfico de escravos.

Britânicos

Influência

Travessia

STATUS ACHIEVED IN AFRICA REMAINED IN BRAZIL

do dendê, durante a viagem pelo Oceano Atlântico para chegar ao Brasil, os africanos escravizados recebiam como alimento a amêndoa e a polpa extraídas do dendezeiro. Esses alimentos acabaram também por servir como um complemento da dieta alimentar fornecida pelos proprietários de escravos. O descarte das sementes pelos negros africanos originaram os primitivos dendezais subespontâneos na flora

De acordo com Ubiratan Castro de Araújo, doutor em História e especialista em economia no período da escravidão, os britânicos estabeleceram o fim do tráfico com o intuito de reter a população negra na África, para incentivar a plantação de dendê na região. O óleo extraído do vegetal era necessário para fazer funcionar as engrenagens do sistema advindo da Revolução Industrial, iniciada na Inglaterra em meados do século XVIII. “Eles (os britânicos) não precisavam mais de tanta mão de obra física, porque as máquinas estavam para nascer naquele momento. A banha do dendê passou a ser o principal produto de interesse dos ingleses na região africana. O azeite de dendê é o liquido que resiste às mais altas temperaturas”, destacou o historiador.

Raul Spinassé / Ag. A TARDE

O AZEITE DE DENDÊ DESFRUTA DE RELEVANTE PAPEL HISTÓRICO

Com o comércio de gente e do óleo de dendê, Francisco Félix de Souza tornou-se rico, poderoso e influente em toda a região de Uidá. Apesar da forte repressão britânica contra o tráfico de escravos, Chachá e demais traficantes da região continuaram a exportar negros africanos. Eles inclusive, aproveitavam o comércio de dendê para fazer este tipo de transação comercial. Os comerciantes africanos trocavam dendê e escravos pela aguardente e tabaco oferecidos pelos comerciantes brasileiros. Essas trocas tornaram o vegetal uma forte fonte de renda para a região. Francisco Félix de Souza faleceu em 8 de maio de 1849, aos 94 anos, deixando 80 filhos e 12 mil escravos. Registros indicam que ele jamais voltou ao Brasil.

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Matéria Finalista no 2º Prêmio Nacional Jornalista Abdias do Nascimento  

Finalista no 2º Prêmio Nacional Jornalista Abdias do Nascimento, na categoria Mídia Impressa com o especial Epô Pupa: a marca do dendê, publ...

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