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campinas do cรณrrego omitido

O PARQUE Da VILA


Campinas do Córrego Omitido: o Parque da Vila JULIANA REIS orientação Rafael Urano tfg unicamp 2016


E SE O corrego FOSSE NOSSO?


campinas do cรณrrego omitido

O PARQUE DA VILA


As coisas tangíveis tornam-se insensíveis à palma da mão. Mas as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão.

Carlos Drummond de Andrade


agradecimentos

Ao meu orientador - e porquê não amigo? - Rafael Urano, por saber enxergar um eixo no meu projeto megalomaníaco. Este TFG é fruto de nossas infinitas conversas e devaneios. À querida professora Regina Tirello, que com sua sensibilidade mostrou os caminhos que eu deveria seguir. À professora Gabriela Celani por todo o cuidado e atenção. Aos meus queridos amigos, em especial à Voadora, por serem meu porto seguro, minhas risadas, exemplos e gratidão. Obrigada por esses 7 anos e por todo o futuro! Ao meu companheiro, conselheiro que nunca me desampara e amor da vida inteira, Mario. À minha família, as pessoas mais iluminadas e unidas, que me ensinaram o significado de proteção e amor incondicional. Agradeço principalmente ao meu amado Tio Fernando e à minha mãe e personal-guerreira Patrícia. Em especial, agradeço a minha querida avó Teresinha por ter me ensinando a amar Campinas. Sem suas histórias e passeios este trabalho não seria o mesmo.


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12 O PORQUÊ DO PARQUE DA VILA INTRODUÇÃO

14 A HISTÓRIA DE CAMPINAS CONTADA ATRAVÉS DOS RIOS FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

60 OS PARQUES E A CIDADE DE CAMPINAS FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

78 O CÓRREGO PIÇARRÃO OBJETOS DE ESTUDO

94 PATRIMÔNIO ESQUECIDO OU ABANDONADO? OBJETOS DE ESTUDO


Interações urbanas

ANÁLISE URBANA DO ENTORNO DO PROJETO

PROJETO

O PARQUE DA VILA

PROJETO

REEQUILÍBRIO DOS USOS: CURTUMES E MATADOURO

CONSIDERAÇÕES FINAIS

ANEXOS

CONSIDERAÇÕES FINAIS

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

140 154 180 220 226


O PORQUÊ DO PARQUE DA VILA


A questão principal deste trabalho é abordar a área central - e histórica - do Córrego Piçarrão frente às transformações do espaço urbano e do patrimônio. A ideia é conectar a região a partir do desenho urbano, preservando a paisagem que ainda existe no traçado e trazendo-a para o cotidiano do cidadão. De acordo com Eugênio Queiroga, Campinas se constituiu através de uma urbanização desconcentrada, horizontalidade e conectada somente pelo sistema viário, sem uma rede de espaços públicos que faça a ligação entre os bairros. Desde sua fundação, a Vila Industrial sempre foi um apêndice urbano: Campinas dependia do bairro mas não o incorporava. O entorno das águas do Piçarrão sempre foram responsáveis por abastecer a cidade, mas a partir de qual momento Campinas se apropria do córrego? Qual sua função urbana? A narrativa da bacia do Piçarrão pode ser contada através da história da produção da cidade, de seu patrimônio industrial e da intensa vida urbana.

A região se desenvolveu ao longo de um grande vazio, que integra o desenho desde o início do seu desenvolvimento. Em meados de 1930, foi proposto por Prestes Maia um parque que fizesse a conexão entre o centro e as novas áreas de Campinas, assim como sua preservação ambiental, já degradada na época. Somadas essas características específicas com a falta de grandes espaços livres públicos - parques - em Campinas (3,4 m² de parque por pessoa em 2016), o trabalho propõe a gestão urbana-patrimonial da região, como tentativa de retomar a vida coletiva associada à memória da cidade. O projeto se baseia na união de um espaço livre público com o uso cotidiano dos patrimônios industriais, os Curtumes. A ideia é que o cidadão entenda o parque como a extensão de sua casa e se aproprie do patrimônio a partir de usos triviais ao dia-a-dia.

“Descobrimos que o comportamento das pessoas depende do que você as convida a fazer. Quanto mais ruas houver, mas tráfego haverá. Um ambiente público mais atraente será usado por mais pessoas.” Jan Gehl

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A HISTÓRIA DE CAMPINAS CONTADA ATRÁVES Dos RIOS


Grandes como o oceano Fortes como os gelos Os gelos polares Que tudo arrebentam. Manuel Bandeira


A atual cidade de Campinas apresenta poucos parques, não prioriza os pedestres ou o transporte público e optou por esquecer seu patrimônio histórico. Com essa premissa, como podemos relacionar a cidade de 1842, que teve suas origens fundamentadas em um espaço público, com a cidade de 2016?

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O conceito do espaço público é bastante amplo - interpretativo - e pode ter características diversas, mesmo assim, ele sempre está associado a um local de trocas, sejam essas políticas, comerciais e, principalmente, sociais. Esses espaços são a característica primordial de uma cidade, responsáveis pelas articulações urbanas, entretanto sua implantação costuma ser desestimulada por não gerar lucros. Será que a especulação imobiliária, os interesses das elites e do capital sempre estiveram na agenda campineira? Campinas teve sua fundação ligada ao caminho dos Goyazes e ao ciclo da mineração1. A rota passava pela Vila de Jundiaí, caracterizada por mata bastante densa e com poucos espaços apropriados para abrigo. Durante essa travessia, existiam 3 “clarões” que eram usados para o descanso e alimentação dos viajantes, justificando assim a implantação de um pouso. Os “campinhos” estavam localizados

1  De acordo com Ricardo Badaró, a rota saia de São Paulo com destino aos atuais estados do Mato Grosso e Goiáses, ela seria uma rota tardia e secundária, que buscava evitar as Minas Gerais devido aos conflitos consequentes da Guerra dos Emboabas.

próximos a importantes córregos da região - Proença, Tanquinho e Serafim. Com a diminuição das viagens em busca de ouro, o trânsito ao longo da estrada diminuiu. Entretanto, estimulou-se a ocupação dessas terras. O bairro do Mato Grosso das Campinas desenvolveu seu núcleo urbano no entorno de um desses três campinhos (MELLO PUPO, 1969). Os três campinhos começaram a ser articulados ainda no século XVIII e continuam presentes na malha urbana atual (século XXI). A sua importância foi tão relevante que não foi apagada ao longo dos anos. A cidade se constituiu e se desenvolveu em torno de uma dessas áreas, o atual Largo do Carmo (antigo largo da Matriz). Contudo, esse largo desenrolou-se de maneira distinta aos padrões da época. Devido à demora na construção da Matriz, a população local resolveu construir uma pequena capela do lado contrário do canteiro de obras da futura igreja. Existia uma grande praça retangular com uma rua no meio, caracterizando uma rota que chegaria no espaço público, “obrigando-nos a cruzar o centro da praça, para que possamos atravessar o núcleo todo, no sentido norte-sul...”2.

2  MONTEIRO, Evandro Ziggiatti. “Três Largos Campineiros: Carmo, Rosário e Catedral”. Dissertação de mestrado em arquitetura. Pontifícia Universidade Católica de Campinas – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, 2001.


Campinas em 1842

fonte: Mello Pupo, 1969.

Largo do Carmo

Travessa da Matriz (Barreto Leme)

Travessa da Cadeia (Bernardino de Campos)

Travessa das Campinas Velhas (Moraes Sales)

N


Em sua dissertação de mestrado, Evandro Monteiro (2001) analisa o desenvolvimento de Campinas a partir das principais e mais antigas praças da cidade: Largos do Carmo, do Rosário e da Catedral. A consolidação do Largo do Carmo – antigo largo da Matriz – deu-se com o desenvolvimento da antiga rua do meio, na rua do comércio e no consequente surgimento de edifícios públicos, como a Casa de Câmara e Cadeia.

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No início do século XIX, a vila começou a se desenvolver devido ao ciclo do açúcar e, com isso, tornou-se mais rica e com maior qualificação da malha urbana. Assim, nasceria o Largo do Rosário e, posteriormente, o Largo da Catedral. Sua expansão não seguiria mais somente o eixo norte-sul (MONTEIRO, 2001) e a cidade passaria a crescer não só no entorno do Largo da antiga Matriz, mas também na direção oeste, ao longo de outros importantes nós urbanos, como os novos largos. A cultura começava a ser um dos importantes tópicos de lazer, sendo o Teatro São Carlos fundado no ano de 1817. Junto com sua construção, desenvolveu-se uma praça imediatamente à frente do local. Nota-se assim, que Campinas, desde os primórdios, já relacionava importantes marcos urbanos com espaços públicos. A maior produção agrícola – cafeeira - somada ao afastamento geográfico do porto de Santos, os agricultores tiveram que solucionar a questão do transporte, que era feito, até então, através de tropas de burros. A partir de 1868, com uma nova

fase de expansão da produção e exportação, as estradas de ferro estaduais começaram a ser implantadas. No ano de 1872 foi inaugurada a Cia. Paulista de Vias Férreas e Fluviais e, em 1875, a Cia Mogiana (BADARÓ, 1996). Devido à grande produção, a cidade tornava-se mais rica e o crescimento urbano foi inerente a esse processo. Durante a década de 1870, a população local era constituída por 33.000 habitantes, sendo que quase a metade se estabelecia no centro urbano. Ou seja, a cidade mostrava-se diferente do contexto populacional da época, uma vez que já apresentava 50% de seus habitantes vivendo fora do meio rural. No final do século XIX, a vida cultural passava a ser mais diversificada que no começo dos anos 1800, surgindo outros dois importantes espaços públicos: o largo da Estação, e com ele novas demandas, e o Passeio Público (1876), destinado ao lazer dominical – anos mais tarde, a praça ficaria conhecida como Imprensa Fluminense. Com esses novos aparatos urbanos, a cidade deixava de ser classificada como “rural”. Os córregos e rios de Campinas tiveram uma relação intrínseca com a cidade. Tanto o surgimento do núcleo inicial, quanto o crescimento da malha urbana estavam associados aos córregos Proença, Serafim e Tanquinho e a cidade do século XIX se desenvolveu entre os mesmos.


Campinas em 1878 fonte: CMU - Unicamp

linha férrea córregos 2.

1.

1.

2.

3.

3. 1. Serafim 2. Proença 3. Tanquinho 1. Largo do Carmo 2. Largo do Rosário 3. Largo da Catedral

N


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Com a crescente economia, possibilitou-se o início do desenvolvimento do setor industrial na região. Essa nova ordem social composta por operários, pela abolição da escravatura e pela chegada de imigrantes europeus, gerou a procura por bairros mais afastados do centro, fora do perímetro delimitado pelos 3 córregos e com moradias mais baratas. Com a expansão demográfica, foi necessário a busca por novas terras para abrigar a nova ordem social vigente. Elas estariam ligadas não só à questão da moradia, mas também à alocação dos equipamentos necessários para a manutenção de tal ordem social. O Matadouro Municipal3 e o Curtume tiveram que ser realocados ou inseridos em locais mais afastados do centro. Esses equipamentos precisariam ter ligação com as estradas de ferro e, ao mesmo tempo, estar próximos a regiões amplas e com água em abundância. A legislação sanitária do Estado recomendava que matadouros estivessem distantes das cidades.

Neste contexto, surge A Vila Industrial, localizada do outro lado da linha do trem, fora da malha urbana da época, próxima a outro córrego - o Piçarrão - e com função de “abastecer” a cidade. O novo bairro foi escolhido por estar na imediações tanto das linhas férreas, como do centro da cidade. Ali, os terrenos eram mais baixos e alagadiços, dada a proximidade com o córrego Piçarrão e seus afluentes – por isso, bastante desvalorizados (BADARÓ, 1996). Todos os equipamentos que compunham o “background” urbano estavam localizados nessa área marginal à cidade. Lá estavam os novos Cemitérios5, o Matadouro Municipal, os Curtumes, o Asilo dos Morféticos, o Hospital do Variolosos, a Hospedaria dos Imigrantes, o Asilo para Viúvas e Órfãos e as Vilas Operárias.

(...)collocado em ponto elevado, na encosta de uma montanha e próximo de cursos d’água, nunca em local, para cuja direção a cidade tendese a crescer4.

Com o crescimento rápido de Campinas, problemas com o saneamento básico começaram a existir. O aumento do perímetro urbano e seu consequente encontro com os córregos - que estavam nos arrabaldes da cidade - trouxe problemas relacionados a alagamentos e construções irregulares em áreas brejosas.

3 Até 1863, o Matadouro Municipal estava na Casa de Câmara e Cadeia, em uma sala no térreo do edifício. A pequena sala não conseguia atender à demanda de uma cidade em expansão e a matança de animais era feita em uma pequena praça na frente do edifício, esse “curral” era onde hoje está a rua Saldanha Marinho (LAPA, 1996).

Em sua tese, Antonio da Costa Santos (2002) afirma que devido à Lei nº 601 de 18 de setembro de 1850 (Lei de Terras), o imperador transforma antigos sesmeiros em proprietários absolutos das terras, ou seja, a partir daquela data, os latifundiários também se tornam donos das terras destinadas aos

4 Legislação Sanitária do Estado de São Paulo, 1880 apud LAPA, José Roberto do Amaral Lapa. A Cidade: Os Cantos e os Antros. São Paulo: Edusp, 1996.

5 Por normas sanitárias vigentes na época, os Cemitérios deveriam estar longe do perímetro urbano (PUPO, 1969).


fonte: MIS, 1889. Matadouro, em meados de 1880, logo após sua construção e o início da ocupação da Vila Industrial.


municípios e freguesias. Assim “o fazendeiro agora também poderia ser capitalista, comerciante e banqueiro, e manter suas grandes propriedades agrícolas orbitando ao redor do centro da cidade”6.Neste mesmo período, foram instaladas no município as primeiras empresas concessionárias de serviços públicos, como exemplo a Companhia Campineira de Iluminação a Gaz (1872), a Companhia Campineira de Águas e Esgotos (1887) e a Companhia Campineira de Tração, Luz e Fôrça (1911).

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Podemos concluir então, no período de 1880 a 1900, que os interesses de Campinas estariam ligados aos interesses da elite local, logo da elite fundiária, aquela que também tornar-se-ia proprietária das terras onde seriam alocadas as empresas de água, luz, bondes e trens. Nessa época, Paula Souza adentra a história de Campinas como um engenheiro-escritor que discorria sobre a questão da água em jornais locais. Logo foi chamado para assessorar a Câmara Municipal e, em decorrência disso, criou a “Associação de Obras Hydráulicas e Melhoramentos da Cidade de Campinas” com o objetivo de propiciar à região um sistema completo de saneamento básico7. O engenheiro realizou um estudo sobre as águas da cidade

6  SANTOS, Antonio da Costa. Campinas das origens ao futuro: compra e venda de terra e água e um tombamento na primeira sesmaria da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição das Campinas do Mato Grosso de Jundiaí (1732 – 1992). Campinas, SP: Unicamp, 2002.

7  O interesse de Paula Souza também estava voltado para a construção e consequente exploração da tal melhoria para a cidade. O próprio tinha interesses econômicos ligados a obra.

(estudo planialtimétrico), de modo a descrever seus mananciais, com maior foco naqueles fluxos de água que estariam no entorno próximo à cidade, pensando em uma obra mais econômica e descartando a captação de água de mananciais mais abundantes e distantes como é o caso do Atibaia e Pinheiro. A ideia era que essa captação mais distante fosse feita no futuro, com o crescimento de Campinas. Pela primeira vez, o estudo do engenheiro mostrou o abundante lençol freático em que se encontrava Campinas (bacias do Anhumas e do Piçarrão). Segundo estudos de Paula Souza, o uso das águas mais próximas seria de fácil execução, conseguiria abastecer a cidade e não precisaria de um sistema mecânico (reservatório elevado). Sua proposta, encaminhada para a Câmara, buscava a captação de água dentro dos limites urbanos. Com a apresentação do projeto, iniciou-se uma disputa sobre as obras de saneamento. Em posições opostas, Paula Souza propunha uma captação mais barata, que seria derivada da bacia do Anhumas e do Piçarrão, enquanto seus opositores apostavam em uma captação bastante mecanizada, que seria da bacia do Atibaia e do Ribeirão Pinheiros. No desenho da planta, percebe-se que a cidade estava envolta por fazendas das famílias de Bento Quirino dos Santos, Abreu Soares e Souza Aranha que, além de fazendeiros também eram capitalistas. Com o levantamento feito por Paula Souza e a história da cidade, podemos analisar para onde os “interesses públicos” se voltariam - e se voltam.


fonte: CMU, 1880. Estudo Planialtimétrico realizado por Paula Souza na década de 1880 na bacia do Atibaia, que, para o engenheiro, deveria ser usada para o futuro crescimento da cidade.

fonte: CMU, 1880. No detalhe, compreendemos os interesses privados sobrepostos aos interesses públicos de Campinas: a captação de água e as terras da família Quirino dos Santos.


Devido ao debate, a Câmara de Vereadores resolveu estabelecer uma comissão mista – formada por Luiz Pucci, Otto Langaard, Ramos de Azevedo, Bento Quirino e Robert Normanton - que analisaria os mananciais hídricos da cidade e, a partir de tal estudo, definir-se-ia qual a solução mais adequada. Foi proposta a criação da Companhia Campineira de Águas e Esgotos (Ccae) que prestaria o serviços de saneamento para a cidade. Os responsáveis seriam Bento Quirino dos Santos, Roberto Normanton e Antonio Francisco de Paula Souza, lembrando que os respectivos integrantes divergiam quanto as “intenções hídricas”.

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Paula Souza, antes de se afastar da companhia que foi fundador, ainda buscou reforços unindo-se a alguns republicanos da época, como Francisco Glicério, vereador da Comissão de Obras Públicas. Sem êxito, o engenheiro afasta-se de Campinas em direção a Rio Claro, para ser o responsável pela obra da Estrada de Ferro de Rio Claro a São Carlos. O projeto aprovado era baseado nos interesses da família Quirino dos Santos e faria a canalização de água do Ribeirão Iguatemi e Bom Jardim, afluentes do Pinheiros, sendo que a adutora ficaria sediada na atual cidade de Vinhedo, 18 quilômetros do centro de Campinas. Entre idas e vindas e tentativas sem sucesso de aproximar a captação de água da cidade, o contrato foi aprovado em abril de 1883 fonte: FAUUSP, 1904. Mapa que mostra as antigas fazendas, as ferrovias, os rios e a cidade de Campinas. O mapa foi editado exalta a malha urbana (amarelo) e os principais rios do estudo de Paula Souza (preto). Os círculos pontilhados indicam as distâncias da cidade até os respectivos córregos.


ANHUMAS

SERAFIM ATIBAIA

5K

M

PINHEIROS

18 K

PIÇARRÃO

M

PROENÇA


Enquanto isso, Paula Souza se estabelecia como um dos mais importantes engenheiros da província de São Paulo e logo seria o diretor da Superintendência de Obras Públicas do governo. Durante seu mandato, iniciou-se o surto de febre amarela em Campinas e o engenheiro propõe um sistema de abastecimento emergencial, trazendo seu projeto em cena novamente.

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Entretanto, seria necessário um financiamento externo. Isso porque a cidade passava por um período de estagnação econômica e o projeto sanitário escolhido, como já mencionado, era de grande porte e bastante oneroso, tendo a Companhia Campineira que recorrer à busca por financiamento estrangeiro. Assim como Paula Souza, a Companhia Campineira de Água e Esgoto não obteve sucesso no custeamento europeu. A melhor solução seria o subsídio do governo da província e o poder executivo emprestaria à cidade dois mil contos de réis8. Nas proximidades da proclamação da República, o crédito foi concedido e as obras foram iniciadas em novembro de 1889.

nhecidos sobre o saneamento básico, a drenagem urbana se tornava um problema a ser solucionado (BADARÓ, 1986). Em 1891, a cidade de Campinas começa a realizar o abastecimento público, com águas providas dos afluentes do Ribeirão Pinheiros. Lembrando que a finalização das obras ocorre mais de 10 anos após a constituição da “Associação de Obras Hydráulicas e Melhoramentos da Cidade de Campinas”, quando Paula Souza9 já propunha mudanças e melhorias. Se as propostas levantadas pelo engenheiro tivessem sido realizadas, a epidemia que devastou a cidade poderia ter sido minimizada.

Pouco tempo após o início das obras, várias denúncias sobre a qualidade da água de Campinas foram feitas para o governo estadual. Durante o ano de 1890, além dos problemas já co-

Os poucos registros históricos sobre o surto de febre amarela (MARTINS, 1997) indicam que Campinas apresentou números proeminentes. Durante o período que a febre se “instalou” na cidade (1889-1900), sua população foi reduzida pela metade, isso devido tanto a quantidade de mortes, quanto aos êxodos. Somente no primeiro ano, cerca de 1.000 pessoas faleceram. A epidemia não obteve tais números por fatores alheios e/ou fora do controle dos governantes da época, os fatores sociais e ambientais foram grandes responsáveis pela disseminação da doença, pelos seguintes motivos:

8  Tal empréstimo foi mais complicado que o relatado. O crédito para o saneamento da cidade foi feito pelo então governador Antonio Pinheiro de Ulhôa Cintra, o barão de Jaguara. Durante os acertos para concretizar o crédito, o general Couto Magalhães entrou no poder da província e negou a aprovação do empréstimo, alegando que ele estaria fundamentando em interesses políticos, dado que as eleições se realizariam em agosto daquele mesmo ano, 1889.

9  Cabe um comentário acerca dos projetos posteriormente realizados pelo engenheiro Paula Souza. Neste mesmo ano (1891), ele entregava a obra de saneamento da cidade de Itu, a qual começou os estudos após as propostas para Campinas.


1. As condições sanitárias da cidade eram pouco salubres, somadas com a demora em sanar o problema, seja por questões estruturais ou por interesses, Campinas sofreu com a carência de elementos urbanos, como saneamento básico e calçamento das ruas, que eram tidos como necessários na estruturação de uma cidade moderna.

2. Com a abolição da escravatura, milhares de negros, sem ter onde morar, amontoavam-se em cortiços no centro. O contingente habitacional de 1889 era de 31 mil pessoas, sendo que metade da população urbana era composta por negros e ex-escravos. Ou seja, dada a condição de subvida dos indivíduos acima citados, podemos concluir que a falta da qualidade urbana foi um dos motivos da expansão da febre.

fonte: Diário do Povo, 1889. Recortes de jornal acerca do surto de febre amarela.

3. Outro motivo seria a derrubada de matas tropicais da região sem qualquer estudo prévio ou de demanda. Vale ressaltar que, em 1889, as empresas ferroviárias estavam em período de expansão (a primeira havia chegado a cidade em 1872), logo o processo de corte das matas era bastante intenso. Com a intensificação no uso de ferrovias, com a produção de faíscas e a pouca fiscalização, muitas queimadas ocorriam. Desse modo, a destruição de ecossistemas e a perda do habitat natural de vários seres vivos foram responsáveis por este e por tantos outros surtos epidêmicos (MARTINS, 1997).

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ZONA 1: Maior intensidade de epidemia ZONA 2: Menor intensidade que em 1 ZONA 3: Moderado ZONA 4: Fraco

fonte: CMU, 1889. Mapa produzido em função de um levantamento das áreas mais críticas da Febre Amarela na cidade, fazendo sua correlação com os córregos mais próximos a malhar urbana.


De acordo com o texto “A Febre Amarela em Campinas 18891900”, morreram cerca de 2.500 pessoas ao longo dos 11 anos de epidemia, logo 8% da população local. Além das mortes, um grande contingente populacional fugiu para outras cidades ou para fazendas. Normalmente, esses tinham maiores condições financeiras, portanto boa parte dos cidadãos que faleceram deste mal era menos abastada. Apresentadas as conjunturas, em 1896, entra em cena a Comissão de Saneamento do Estado, a qual é dirigida por Saturnino de Brito, que foi designado a aumentar as obras já realizadas pela Ccae, de maneira a extinguir a mazela que ainda persistia na cidade. O projeto foi pautado em um “saneamento global” com a inclusão de drenagem para o centro, melhoria na captação de água, instalação de hidrômetros e um sistema de pavimentação pública. Além de obras de saneamento, “delegados de higiene” foram destinados à visitas e combate do flagelo, tanto em áreas públicas, como em áreas privadas. Uma das grandes preocupações de Brito era o saneamento e drenagem dos córregos Tanquinho e Serafim, ambos já eram subterrâneos em sua porção central e a céu aberto nos locais mais afastadas. O enfoque do projeto do engenheiro era o córrego do Saneamento, o qual tem como afluentes os córregos anteriormente citados. A proposta era transformar o riacho em um canal-avenida-parque, que anos mais tarde viria a ser a Avenida Orosimbo Maia.

Em seus manuscritos, Brito explica que o projeto idealizado para Campinas seria uma townscape, a qual seguiria a tradição de um jardim inglês, associada às propostas de avenidas-parques americanas e aos boulevards franceses. Francisco Saturnino Rodrigues de Brito foi responsável tanto pelas obras de saneamento básico e pelo início da remodelação de uma cidade tipicamente colonial, como pela mudança de mentalidade urbanística, que incentivou, anos mais tarde, as novas propostas urbanas executadas por Prestes Maia. Saturnino de Brito será pioneiro no projeto e execução de uma maquinaria urbana cuja função era construir a cidade higiênica; mas também pioneiro na formulação tanto de uma representação moderna da cidade quanto um método de levantamento das condições urbanas que marcou a gênese do planejamento urbano no Brasil10. De acordo com Santos (1999), existem indícios que o engenheiro tenha se baseado nos planos de Paula Souza para realizar suas propostas. Também de acordo com o autor, a empresa municipal responsável pelo saneamento básico da cidade (Ccae), omitiu os registros sobre aqueles 50 anos em que as crises de abastecimento e, consequentemente, epidêmica foram generalizados. Poucos mapas foram encontrados; um dos únicos refere -se 10  Carlos Roberto Monteiro Andrade apud SANTOS, Antonio da Costa. Campinas das origens ao futuro. Campinas, SP: Unicamp, 2002.

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ao Córrego Anhumas (composto pelo Canal do Saneamento e pelo córrego Proença). A base usada seria a de Paula Souza, a grande diferença estaria no plano integrado de remodelação urbana e o uso dos espaços públicos - proposta do Canal do Saneamento como parque urbano. Vale ressaltar que além da importância de Saturnino de Brito para instigar o nascimento do senso urbano campineiro, foi graças à fundação da Escola Politécnica de São Paulo, sendo o fundador Antonio Francisco de Paula Souza, que Prestes Maia e Anhaia Mello receberam uma ampla formação.

Mesmo sem um plano urbano integrado, as obras do século XIX e o constante medo sobre um possível retorno da febre amarela geraram uma consciência urbanística nos governantes locais e nos próprios habitantes de Campinas (BADARÓ, 1996), de modo a enxergarem a necessidade de um plano11 que proporcionasse melhorias urbanas em toda a cidade, e não somente associadas ao saneamento básico. Contudo, essa “consciência”, mencionada por Badaró, talvez nunca tenha saído do campo teórico, e quando saiu foi em favorecimento dos mais ricos.

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fonte: Bernardini 2007. Planta de Saturnino de Brito, pela comissão de Saneamento do Estado de São Paulo, para a cidade de Campinas em 1895.

11 Plano esse que somente viria a ser discutido no final dos anos 1920, pós crescimento urbano.


fonte: MIS, 1905.

Foto do inĂ­cio do sĂŠculo XX do Canal do Saneamento, atual Aveninda Orosimbo Maia.


A planta de Campinas, de 1900, mostra a expansão da cidade na virada da século, pós reformas urbanas e pós surto da Febre Amarela. Em comparação com o mapa de 1878, podemos notar algumas mudanças em relação ao desenvolvimento urbano da cidade. O córrego Tanquinho está todo submerso e o Córrego Serafim foi transformado no Canal - ou parque - do Saneamento. Na porção mais abastada de Campinas (centro - norte), a cidade passaria a ser mais integrada e com a existência de parques - Saneamento e Jequitibás - e diversas praças, como o Jardim Público e Praça Carlos Gomes. ___ 32

Ao mesmo tempo em que parte da cidade começava a se transformar naquilo que Saturnino Brito havia imaginado, a parte sul se desenvolvia de modo destoante e baseada no abastecimento da cidade, não preocupada com características urbanas e salubres. A Campinas que crescia depois da linha trem era desigual e pouco planejada. Mesmo estando sempre próximo ao núcleo urbano, é no mapa de 1900 que, pela primeira vez, notamos a presença do Córrego Piçarrão e todos os elementos urbanos do seu entorno: Matadouro, Curtume, Asilos, Hospitais e outros, anteriormente mencionados. fonte: CMU, 1900. Vila Industrial no início do século.


Campinas em 1900 fonte: CMU - Unicamp

linha férrea córregos 1. Canal do Saneamento 2. Proença 3. Piçarrão 1. 2.

3.

N


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fonte: CMU, 1900. Foto do início do século XX do Matadouro visto de uma das colinas do entorno do córrego Piçarrão.


Combatidos os principais problemas frente a epidemia da febre amarela, Campinas adentrava o século XX ainda com feições de uma cidade colonial. Em meados do século XIX, esboçava a convicção de uma cidade em vias de se industrializar, tornando-se um exemplo para outras regiões. Entretanto, em consequência dos problemas sanitários, urbanos e demográficos, nas primeiras décadas do “pós-surto” suas ruas eram estreitas e compartilhadas por distintos transportes, os cortiços ainda existiam em grande número e a questão do saneamento ainda era alvo de discussões (SANTOS, 1999).

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Em 1908, na primeira gestão de Orosimbo Maia, o novo Mercado Central de Campinas foi inaugurado. A área que foi destinada à sua construção reafirmou as ações governistas da época e mostrou a reincidente falta de preocupação com os córregos da cidade: o Mercado foi construído em área brejosa e em cima de várias nascentes de rios locais. De acordo com a dissertação de mestrado de Ana Luiza Couto Serra, ali estaria uma das nascentes do córrego Piçarrão, além de algumas nascentes do Córrego Serafim. Somente em 1912, a iluminação pública passaria a ser feita por eletricidade, e o fato foi entendido pelos cidadãos da época como um aspecto de “limpeza”, mascarando a realidade acerca de seu crescimento urbano e reincidentes problemas com o

saneamento da cidade. Ao longo desse ano, também foram calculados cerca de 80 estabelecimentos industriais alocados em Campinas. Contudo, a produção de café ainda era a principal fonte de renda da cidade. Também em 1912, em consequência de uma grande inundação no Matadouro Municipal, – também construído em áreas brejosas - o Córrego Piçarrão foi retificado12 próximo à Vila Industrial. Esta foi a primeira vez que, de fato, o córrego recebeu atenção dos governantes locais. O governo de Heitor Penteado (1911 a 1920) foi baseado no embelezamento da cidade, sendo um dos pilares de sua gestão o “ajardinamento” de Campinas. Em 1913, o antigo Largo Carlos Gomes foi transformado em um jardim. Durante sua gestão, houve a aquisição do Bosque dos Jequitibás, ativo desde 1881 e que foi incorporado pela Prefeitura em 1915. Esse reduto de Mata Nativa é o parque mais antigo da cidade – por muitos anos, foi a área mais relevante voltada ao lazer dos cidadãos (BARBOSA DE LIMA, 2001) - e pertencia a Francisco Bueno de Miranda, que resolveu torná-lo público em 1880. Importantes engenheiros-arquitetos foram responsáveis pelo surgimento e manutenção do Bosque: Ramos de Azevedo, que realizou o projeto de concepção (1881) baseando-se em um jardim inglês e, anos mais tarde, com propostas urbanísticas e paisagísticas, Anhaia Mello (1930) e Prestes Maia (1937).

12 O córrego começou a ser retificado em 1912, na porção mais próxima ao Matadouro, no intuito de impedir outros alagamentos na área, uma medida sem planos ou propostas integradas.


fonte: MIS, 1900. Fotografia do início do século do caminho para o Matadouro e do início da ocupação da Vila Industrial.


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Pedro Rossetto (2006), em sua dissertação de mestrado, mostra que a ação de ajardinamento ao longo das ruas trouxe a ideia de que, com os jardins, as praças, que são “sinônimo de local de comércio, lugar emblemático das trocas, não apenas econômicas, que caracterizavam e determinavam a existência da cidade como tal, eram substituídas pelo “passeio” – idílico, sem finalidade econômica e propício a uma fruição solitária, meramente subjetiva”. As obras de embelezamento da administração de Heitor Penteado não permitiam que a população convivesse com o cenário da pobreza, que estava nos arrabaldes da cidade, como a Vila Industrial e o Fundão. As principais características do governo Penteado foram: ajardinamento, tanto nas praças quanto nas ruas, e eletricidade, ambos enfatizando somente o cenário decorativo da urbe. Entre os anos de 1911 e 1920, a cidade passou por transformações modestas e bastante pontuais. O simples embelezamento de uma cidade não está relacionado com o urbanismo ou com a preocupação da qualidade de vida do cidadão. Esta atitude é meramente paliativa e mascara os reais problemas urbanos, que nunca deixaram de assombrar Campinas. O governo municipal bem pode ver que os prédios que se vendem não são pagos pelo seu valor, mesmo que se construam hoje e queira vender amanhã, só se consegue vende-los com um grande abatimento do custo. Porque? Por estar a nossa cidade em decadência. A prova pratica nos diz, de que valeram tantos melhoramentos feitos neste caso? Não seria melhor que se fizesse menos, ou na pro-

porção que obtivessem, os de meios lucrativos (...) ou que procurassem as fórmas pela qual, o commercio, a industria e a lavoura se desenvolvessem, nas proporções necessarias, para darem vida a cidade e ao municipio, para valorizarem o solo, porque sem esses elementos, os terrenos continuarão a não ter valor, e não poderão os propriearios iniciar a construção, porque só com melhoramentos, que não sejam de fontes lucrativas, não poderiam garantir o capital que nelles desejavam empregar13. No início do novo século, e após as melhorias urbanas do século XIX, a cidade voltava a se expandir. O grande êxodo interurbano de imigrantes e de trabalhadores operários fez com que a cidade crescesse em progressão geométrica. E, seguindo os mesmos parâmetros de décadas anteriores, o governo não se preocupou em adequar a urbe para o novo contingente de cidadãos. A década de 1920 também é marcada pelo “ressurgimento industrial” (ROSSETTO, 2006), quando foram alocadas na cidade novas indústrias, como a da seda – instalada na Vila Industrial - e a de tecidos. Começava a nascer a Campinas industrial, frente àquela cidade colonial de economia agrícola, que agora consolidar-se-ia com o capital industrial.

13  Francisco Bueno de Miranda e dezenas de outros à Câmara, manuscrita de 18.11.1920 apud ROSSETTO, Pedro. A cidade do curto século vinte. Uma história social do advento do padrão da casa urbana isolada no lote em Campinas como história da síntese (1917–1927) de um novo padrão de cidade. Dissertação de mestrado. FAU – USP. São Paulo, 2006.


fonte: CMU, 1900. Fotografia do início da Vila Industrial, no início do século XX. Podemos perceber o funcionamento do bairro, marginalizado na própria cidade. No horizonte, observamos a estrada em direção a São Paulo e o Córrego Piçarrão.


No decorrer das duas primeiras décadas do século XX, com o aumento populacional, a quantidade de moradias nos arrabaldes da cidade também foi elevada. Muitos dos novos habitantes eram de classe média ou baixa, sendo “obrigados” a se instalar em bairros um pouco mais afastados, desde a Vila Industrial até o Guanabara, mas sempre depois da linha do trem. Devido ao alargamento da cidade, nasce uma nova economia urbana, pautada no loteamento das fazendas que estavam próximas da malha urbana, criando espaços para as vilas operárias e bairros populares (SANTOS, 1999).

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Comparando os mapas de 1900 e 1929, podemos notar como Campinas cresceu e ocupou os subúrbios além da linha férrea.

Alguns bairros se expandiram, como foi o caso da Vila Industrial, Guanabara e Cambuí, e outros nasceram pós virada do século, como o Bonfim e o Taquaral. No mapa de 1929, o Córrego Piçarrão aparece com maior extensão e tendo maior conexão com alguns bairros da cidade. Também neste mapa, constatamos o surgimento de vizinhanças para além do córrego, o São Bernando e o Parque Industrial. Outro importante fato é que devido aos pastos do Matadouro as imediações próximas ao Piçarrão (área mais próxima do centro) não são ocupadas, gerando uma grande área verde - ou vazio - nesse entorno. Ao longo do trabalho iremos analisar a manutenção desse vazio no desenho urbano da cidade.

fonte: Semeghini, 1996. Infográfico do aumento populacional da cidade na virada do século XIX para XX.


Campinas em 1929 fonte: CMU - Unicamp N

linha férrea córregos 1. Canal do Saneamento 2. Proença 3. Piçarrão

1.

3.

1.

1. Parque Industrial 2. São Bernardo

2.

2.


Dado seu crescimento, Campinas volta a apresentar problemas de saneamento básico. A maior parte das novas residências estava em locais que não eram supridos pelas redes de água e esgoto, e esses cidadãos “voltavam” a se servir de água de poços e utilizar “casinhas” - como sanitários - nos quintais (ROSSETTO, 2006). Logo, o avanço obtido com o Plano de Saturnino de Brito era menosprezado pelos governantes da época e a situação voltava a se agravar. fonte: MIS, 1936. Propaganda da venda de terrenos nos arrabaldes da cidade.

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Ao longo desta década algumas avenidas foram alargadas, sem qualquer plano urbano. Normalmente tais modificações estavam ligadas aos interesses – pontuais - privados ou públicos. Como consequência de mais uma crise de abastecimento de água e saneamento básico, o Setor Municipal de Obras solicitava maiores atribuições para conseguir solucionar as problemáticas ali envolvidas. Para a compreensão da malha urbana


estado predial do subĂşrbio em 1929 fonte: Rossetto, 2006.


de Campinas e seu crescimento, fazia-se necessária uma planta cadastral. Pela primeira vez, realiza-se um levantamento de toda a cidade, o qual viria a ser o “ponto de partida” para os planos e propostas urbanas do município.

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A planta de 192914 foi responsável por mostrar a real dimensão da cidade e o modo como o subúrbio (não)se relacionava com a urbe. Como mostrado anteriormente, a cidade suprimia intervenções depois da linha do trem e pouco se preocupava com a qualidade urbana desses bairros. Na imagem ao lado podemos notar a expansão de Campinas e sua relação com o centro consolidado, com a linha do trem e com a busca por áreas mais afastadas. Em 1930, após a realização da planta cadastral de Campinas, o Setor de Obras se volta para a melhoria das redes sanitaristas nos subúrbios. Decidiu-se pela ampliação da rede captadora do rio Atibaia, que abasteceria os novos bairros e aumentaria o suprimento da região central. Também foi proposto um “sistema separador total para o conjunto da rede de esgotos articulado aos dois únicos emissários gerais da cidade, denominados Anhumas e Piçarrão” (SANTOS, 1999).

14  No governo de Orosimbo Maia, além da Implantação da cidade de 1929 (mostrada anteriormente), também foi realizada o Planta Cadastral de Campinas, em escala 1:1.000, onde podemos analisar o funcionamento da urbe no respectivo ano.

Concomitante a estas ações, o vereador Belfort de Mattos apresenta à câmara a “necessidade de se elaborar um plano, de acordo com os preceitos do urbanismo, para a remodelação de Campinas”. Devido a contatos pessoais do vereador, o engenheiro e professor da Escola Politécnica de São Paulo, Anhaia Mello, proporia o Plano de remodelação e expansão da cidade de Campinas. Mesmo com o início de um pensamento urbano, o quadro político da cidade era dominado pela oligarquia rural, ligada ao Partido Republicano Paulista. Durante esse cenário campineiro, Getúlio Vargas assumiria o poder e ali se instalaria pelos próximos 15 anos. O governo getulista configurava-se pelo poder centralizado no aparelho estatal, de modo a subordinar e criar uma relação de dependência, tanto com os estados como com os municípios (SANTOS, 1999). A descentralização do governo e a manutenção das oligarquias rurais no poder era o modus operandi da República Velha, em oposição ao estado centralizador e apoiado em novas classes dominantes, como se organizava a República Nova (SCHERER, 1991).


fonte: CMU, 1933. Imagem área que mostra a expansão da cidade de Campinas e seus novos bairros, a Vila Industrial se consolidando e o Bonfim e Guanabara iniciando sua ocupação.

linha férrea


Durante o primeiro governo de Vargas, Campinas apresentou 19 diferentes prefeitos interventores15 e somente 3 conselhos consultivos municipais, dificultando a organização de uma proposta linear para um plano urbano. As primeiras discussões, iniciadas por Anhaia Mello, foram pautadas na imagem popular da cidade ideal, que conteriam desde “traços técnicos” até “aspirações urbanas16”. Sua proposta era baseada nos preceitos americanos do master plan, somados ao civic survey, onde a qualidade de vida dos cidadãos era seu ponto norteador.

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O início da década de 30 foi marcado pela insatisfação de São Paulo frente ao governo Vargas e, durante a Revolução Constitucionalista17, o debate acerca de seus problemas urbanos foi suprimido. Com a retomada das discussões, Anhaia Mello seria o prefeito de São Paulo e não poderia seguir com suas propostas.

Formou-se o primeiro conselho consultivo, encabeçado pelo engenheiro Carlos Stevenson, que daria continuidade ao plano de Mello. A partir do projeto de remodelação da cidade, Stevenson propõe um esquema diferente do que pensava o engenheiro paulista, reduzindo a capacidade de atuação do plano, fundamentando-o em um planejamento urbano e prolongamentos de ruas. Após o desenvolvimento do projeto elaborado pelo engenheiro municipal, o conselho consultivo pediu a consultoria do engenheiro e arquiteto Prestes Maia. Ricardo de Souza Campos Badaró afirma, em sua dissertação de mestrado, que ambos os planos eram conceitualmente parecidos, indicando a existência de contatos anteriores entre os engenheiros acima citados. Na imagem podemos notar como o plano de Carlos Stevenson (1934) se relacionava com o de Prestes Maia (1938).

15  Interventores que eram nomeados pelo governador do estado, o qual era também nomeado, mas diretamente pelo próprio presidente do país. 16  Termos contidos na proposta do engenheiro Anhaia Mello e entregue à cidade de Campinas para o então prefeito interventor Orosimbo Maia. 17  Durante os anos de 1930 e 1933 e o movimento constitucionalista, Campinas e o cenário político da época estavam voltados para a resolução do conflito, não havendo condições necessárias para as discussões locais acerca do urbanismo.

fonte: AMC, 1933. Atas da Associação de Engenheiros formada para discutir os encaminhamentos urbanos da cidade.


proposta de carlos stevenson de 1934 fonte: Badarรณ, 1982.

N


O infográfico ao lado elucida o crescimento de Campinas no decorrer dos anos18. Os dois primeiros mapas (1842 e 1878) mostram uma cidade mais compacta. A partir de 1900, a cidade começa a aumentar de modo mais irregular, sem planos que regulassem tal crescimento.

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De acordo com Daisy Ribeiro, em sua tese de doutorado, a expansão urbana pós 1930 estava ligada à indústria e às perspectivas de uma cidade moderna e seus novos bairros, sobretudo os de população operária. Nessa década, as atividades urbanas - e também industriais - eram mais relevantes que as rurais (BEANINGER, 1996), ou seja, os interesses da cidade estariam ligados ao desenvolvimento urbano. Nesse sentido, Campinas precisou buscar regulamentação e direcionamentos para alargamento da cidade. Com esses preceitos, adentra o cenário municipal o urbanista Prestes Maia, que executaria um plano que “materializava a expansão de uma racionalidade que desejava controlar as funções espaciais da cidade19”.

O Plano de Melhoramentos Urbanos20, elaborado por Maia, era uma necessidade de Campinas na época, a fim da correção de defeitos da cidade e de modo a prepará-la para o crescimento urbano em maior escala (PUPO, 1969). A concepção do projeto estaria pautada na necessidade da produção e gestão do espaço da cidade pelo Estado. Entre 1936 e 1937, as propostas elaboradas visavam o equilíbrio das necessidades do período e num plano futuro. Em seus primeiros desenhos, Maia teve olhares distintos para cada região da cidade, propondo um tratamento específico para cada região, sendo para o centro histórico o mais específico. Além do planejamento da expansão e da circulação de Campinas, o urbanista preocupou-se com os espaços públicos e as áreas verdes, com a instalação de grandes parques. Sempre enfatizava que seu plano era para a comunidade, estudando o funcionamento do município, seus costumes e a estruturação de um diálogo com os cidadãos. Nota-se sua preocupação com elementos singulares no trecho abaixo, sobre o Bosque do Jequitibás: Repugna-me um pouco cortar e destruir parte de tão lindo e íntimo bosque com uma artéria. É todavia a solução

18  O infográfico é resultado da sobreposição dos mapas de 1842, 1878, 1900 e 1929. Todos previamente analisados por este trabalho. 19  ROXO, Rafael. A Vila Industrial e o patrimônio histórico arquitetônico de Campinas – SP: entre a conservação e a reestruturação urbana. Dissertação de Mestrado em geografia. Universidade Estadual de Campinas – Instituto de Geografia, 2013.

20 A princípio o plano elaborado por Prestes Maia e a Comissão de Urbanismo, composta por arquitetos, engenheiros, civis e poder público, chamava-se “Plano Municipal Sumário da cidade de Campinas”, mas como a proposta final não abrangia todo o perímetro urbano, mudou-se o nome do projeto.


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crescimento urbano fonte: ROXO, 2013. N

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1929

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mais fácil que conduz a rua Proença. Contornar o bosque não é impossível, mas depende de estudo topográfico local mais minucioso... O preferível parece ser a travessia com carácter de rua do próprio parque, só para automóveis de passageiros com obras complementares para conservar o pitoresco do local e a segurança dos passeantes21.

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O novo sistema viário seria composto por uma hierarquização das ruas e avenidas, composto por radiais e perimetrais, ambas internas e externas. No perímetro urbano já consolidado, Maia propunha a criação de outras praças22 e locais de uso público, como seria o caso de uma praça em frente ao Quartel da Polícia, na avenida João Jorge, o principal acesso à cidade.

práticas esportivas da população, baseando-se na correlação entre área verde e número de habitantes. Campinas, já na época, apresentava um índice muito baixo e a proposta do engenheiro-arquiteto visava o aumento deste número, a partir da arborização e criação de “playgrounds” na malha urbana mais rígida e a constituição de grandes parques. Um destes espaços seria o “Parque da Vila Industrial” e abrangeria todos os terrenos municipais da antiga chácara Frias e os pastos do Matadouro e o acesso feito pela avenida João Jorge.

Uma das grandes temáticas do Plano de Melhoramentos Urbanos era pautada entre a relação da comunidade e o ambiente, propondo a criação de cinco espaços23 destinados ao lazer e às

21  PRESTES MAIA apud BADARÓ, Ricardo de Souza Campos. Campinas: o despertar da modernidade. Campinas: CMU – Unicamp, 1996. 22  Também em sua proposta, Maia propunha o prolongamento da avenida Andrade de Neves, sendo que em seu ponto mais alto, o arquiteto propunha um marco. Anos mais tarde, nasceria a Torre do Castelo. 23  Os 5 grandes parques seriam: Parque na Vila Industrial, ao longo do Córrego Piçarrão, Parque do Saneamento, nas margens do Córrego Serafim e em área brejosas, uma grande praça urbana no local do antigo Hipódromo, a modernização e revitalização do Bosque dos Jequitibás e a construção do Parque do Taquaral. Os 3 primeiros não foram feitos e o Parque do Taquaral foi proposto anos depois.

fonte: CMU, 1899. Bilhete de acesso ao Bosque dos Jequitibás quando pertencia a Francisco Bueno Miranda, datado de 1899.


De acordo com os estudos desenvolvidos por Maia, Campinas apresentava um índice muito baixo de correlação proporcional entre área verde e número de habitantes. São Paulo, após a criação do Parque do Ibirapuera e do Parque da Água Branca, apresentava um índice de 8 m²/habitante, quase 3 vezes maior que o da cidade do oeste paulista. Os urbanista e higienistas da época indicavam que para uma qualidade de vida excelente seria necessário um índice entre 30 e 60 m²/habitante. A proposta do engenheiro-arquiteto pretendia chegar em um índice de 13 m²/habitante.

Após a exposição preliminar para a Comissão de Urbanismo, composta, nesta ocasião, pelo prefeito e pessoas de sua confiança, a amplitude do Plano – para todo o perímetro urbano e propondo uso de parte do perímetro rural – foi restringida e as intervenções ficariam mais restritas e próximas ao centro. Para a realização do plano, Prestes Maia contava com o suporte financeiro do município e com o capital oriundo das novas forças emergentes, como o setor imobiliário. O plano foi executado a partir da união dos capitais públicos e privados, onde

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Parques da Cidade em 1929

fonte: Badaró, 1996. Campinas em 1929 com os principais parques destacados.


o primeiro seria responsável pela remodelação do centro e o segundo pela ampliação da cidade e o loteamento das fazendas mais próximas (SANTOS, 1999). Dado esta configuração, podemos entender como nasceram os novos bairros da cidade: financiados pelo e para capital imobiliário. Todo o projeto desenvolvido entorno da qualidade de vida dos cidadãos foi posto à margem dos interesses desse novo agente, onde cada pequena porção de terra significaria possibilidade de lucro. Após anos de disputa entre contraditórias disposições e reviravoltas políticas, o anteprojeto do desejado Plano de remodelação da cidade é aprovado em 1938. ___ 52

O projeto final não foi assinado por Prestes Maia, sendo os engenheiros da cidade incumbidos de detalhar toda a remodelação central durante as 3 décadas seguintes. Toda a epopeia para a produção do Plano de Melhoramentos de Campinas pode ser interpretada como um objeto de trocas políticas e negócios urbanos (SANTOS, 1999). Essa afirmação pode ser embasada pela tese de Badaró (1986), onde o autor discorre sobre a falta de uma planta de zoneamento e indicações de densidade associadas ao plano, deixando a cargo da prefeitura a “responsabilidade de estimular e promover os usos mais adequados do solo”.

(...) E, ao centrarem ênfase nas questões viárias e estéticas, deixaram lacunas na legislação aprovada. Por estas lacunas, mais tarde permearam os interesses dos grupos vinculados ao capital imobiliário que passaram a pressionar a administração e os poderes públicos, quando se intensificou o processo de urbanização24. As obras do Plano de Melhoramentos Urbanos foram divididas em duas fases, as quais apresentaram encaminhamentos distintos. A primeira etapa (1938-1955) realizou as remodelações nas áreas centrais. Os parques do Taquaral e da Vila Industrial chegaram a ser delimitados neste intervalo, sendo somente o primeiro construído em meados dos anos 1970. Durante a segunda etapa (1956-1962), os melhoramentos ali preteridos foram estimulados em torno do capital privado e das vontades da elite, esquecendo-se de importantes ligações e dos tão planejados espaços públicos. Neste período, somente foram realizadas obras no sistema viário, interligando os novos bairros com o centro da cidade, e a construção de novas estruturas, como é o caso do Viaduto Miguel Vicente Cury, entregue em 1962.

24  BADARÓ, Ricardo de Souza Campos. Campinas: o despertar da modernidade. Campinas: CMU – Unicamp, 1996.


plano prestes maia fonte: AE, 1935.

2.

3.

1.

Linha Férrea 1. Parque da Vila Industrial 2. Parque do Taquaral 3. Bosque dos Jequitibás

fonte: Arquivo do Estado de São Paulo, 1935. Ante projeto entregue por Prestes Maia para a cidade de Campinas. O projeto era composto por muitos parques (em verde) e sistema viário interligado.


plano prestes maia fonte: Badarรณ, 1996.

2.

3.

1.

1. Parque da Vila Industrial 2. Parque do Taquaral 3. Parque do Saneamento e Proenรงa

Ante-projeto do Melhoramentos Urbanos. Em amarelo estรฃo as propostas de parques do plano.


fonte: MIS, 1974. Imagem área da década de 1970 e algumas das mudanças urbanas do Plano de Melhoramentos e, em amarelo, a localização do que seria o Parque da Vila Industrial e sua proporção perante a cidade.


Após o governo de Juscelino Kubitschek e o incentivo a indústria, as décadas de 1960 a 1980 foram marcadas pelo desenvolvimento dos setores produtivos de bens de consumo duráveis (FURTADO, 1981). Os investimentos estatais voltaram-se para as melhorias das condições ligadas a tal produção. Durante o regime militar, a concentração de capitais, cada vez mais intensa, procurava esses setores mais produtivos, ficando em desvantagem os setores ligados ao município e a questões de interesse social. Nessa época, os interesses por obras interurbanas minimizaram as obras intra-urbanas, gerando cidades ainda mais desconexas. ___ 56

Essa política resultou em um cenário urbano característico com a criação de novos bairros e favelas na periferia. No decurso do governo militar, Campinas expandiu tanto em área como em contingente populacional, onde áreas mais afastadas do núcleo urbano eram “descontroladamente horizontalizadas” e áreas centrais expressas pela verticalização e produção de vazios urbanos (SANTOS, 1999). Pouco se discutiu sobre o espaço urbano e novas propostas de melhorias integradas da cidade. No PPDI – Plano Preliminar

de Desenvolvimento Integrado – as decisões saíram dos patamares municipais e foram lançados a instituições que pouco conheciam e compreendiam a realidade campineira vigente, contribuindo assim para um maior distanciamento das noções de cidadania e pertencimento ao espaço urbano. O PPDI foi um extensivo estudo e diagnóstico, baseado na economia e demografia de Campinas, ele viria a substituir o plano anterior (Prestes Maia) e estimularia a cidade para a atividade industrial, consolidando-a como um polo nacional. Ele aponta a necessidade de implantar novos eixos viários conectando os distintos bairros, distritos e rodovias da cidade, sempre se preocupando com os eixos industriais e não com as áreas marginalizadas e carentes. O Plano foi o responsável pela construção do Parque Portugal – Lagoa do Taquaral, que fica próximo de áreas mais abastadas. Em contrapartida, o Parque da Vila Industrial se perdeu, provavelmente por estar próximo do Parque Industrial – bairro destinado às indústrias - e por não estar em áreas de interesses do governo e da elite.


fonte: Diário do Povo, 1965. Notícia de jornal que enaltecia a criação do Parque Portugal na antiga fazenda do Taquaral. A área foi adquirida pela prefeitura da cidade nos anos 1940, tendo sido transformada em parque somente na década de 1970.


A bacia do Anhumas e do Piçarrão refletem os interesses do poder público associado ao capital privado (SANTOS, 1999). A primeira se encontra na área mais nobre da cidade, onde problemas com alagamentos e falta de saneamento básico são intensamente combatidos. É nesta bacia que se encontra a Lagoa do Taquaral. Em compensação, os projetos para a bacia do Piçarrão efetivaram-no como coletor de esgotos e dejetos, proeminentes de fábricas e industrias, algumas vezes ilegais (PINHO, 2004). Muitos dos novos bairros da cidade se desenvolveram ao longo de sua bacia, do lado contrário da Campinas mais moderna, salubre e com incentivos econômicos. ___ 58

Podemos notar no mapa ao lado algumas das escolhas de Campinas. Foi preterida a construção de um parque que atenderia grande contingente populacional e que estaria localizado próximo a bairros em expansão.

Desde sua fundação, Campinas mostrou-se divergente nos panoramas teóricos e de ações. Muitos dos planos aqui mostrados, desenvolvidos por importantes engenheiros e arquitetos, foram suprimidos frente aos interesses econômicos de cada uma das elites predominantes. Os problemas urbanos ligados ao saneamento básico e a sua relação com os rios nunca conseguiram ser resolvidos. Esses temas foram contemplados em todas as propostas, mas o descaso frente ao desenvolvimento de cada um dos planos gerou a cidade desconexa que conhecemos. A malha urbana de Campinas é composta por vários recortes de diferentes (não)intervenções e (não)propostas, resultados da negligência do governo municipal. Nela, os bairros cresceram de maneira desordenada e apropriando-se das terras, economicamente, mais interessantes, sem qualquer relação com os parques e rios da cidade.

fonte:PMC, 1970. Mapa da divisão de bairros proposta pelo PPDI, onde a parte mais rica da cidade é beneficiada com um grande parque e bairros mais carentes são negligenciados com a exclusão do Parque da Vila Industrial.


ppdi | pmc em 1970 fonte: PMC, 1970. N

รกrea mais rica da cidade รกrea mais pobre da cidade


os parques e a cidade de campinas


A VIDA EM COMUNIDADE EXIGE ESPAÇOS COMUNS Oliver Mongin


1800

1850

1950

1970

Evolução da Malha Urbana de Campinas e sua relação com os Parques


Malha Urbana

Parques

1900

1920

1980

2010


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A urbanização de Campinas ocorreu de maneira descontínua e atendendo à lógica especulativa do capital, pela qual as áreas verdes foram suprimidas e esquecidas em meio à malha urbana. O processo de urbanização da cidade - desde sempre - é marcado pela especulação da terra frente à dinâmica econômica e aos interesses da elite local (SANTOS, 2002).

Com o declínio das ferrovias e a ascensão das rodovias, Campinas continuou sendo um grande entroncamento viário. A Rodovia Anhanguera, pavimentada em 1948, foi o primeiro eixo que deu início a tal ocupação não-linear. A instalação de bairros industriais próximos a autopista caracterizam a expansão descontinuada.

Como mostrado no infográfico da evolução da malha urbana, Campinas teve um acelerado processo de urbanização durante a década de 1970. Em A População em Movimento, Rosana Baeninger discorre sobre a “reversão metropolitana”25, em que o processo de desconcentração industrial da Região Metropolitana de São Paulo ocorreu em direção ao interior do estado. Durante essa migração, Campinas recebeu um grande contingente populacional: 85.018 pessoas (BAENINGER, 2001).

Com o Plano Preliminar de Desenvolvimento Urbano, muitas foram as mudanças viárias ocorridas na cidade. Essas novas infraestruturas seriam as responsáveis por ligar os novos bairros e melhorar os deslocamentos interurbanos. Com a duplicação da Rodovia Anhanguera e a construção das Rodovias Dom Pedro I, Bandeirantes e Santos Dumont, a rede viária da cidade tornou-se mais complexa (CISOTTO, 2009).

Essa expansão urbana, pós anos 1970, foi marcada pelos altos índices de crescimento populacional e uma ocupação urbana com pouca lógica espacial e sem planos norteadores. Foi nessa época que se optou pela construção do Parque Taquaral, a não construção do Parque da Vila e a implantação da Penitenciária do São Bernando26. 25  BAENINGER, R. A. A População em Movimento. In: GONÇALVES, M. F., Galvão, a. C., Brandão, C. A. (Orgs.). Livro Verde: Desafios para Gestão Região Metropolitana de Campinas. 1ª ed. Campinas- SP: Editora da UNICAMP, 2002. 26  A Penitenciária foi fundada em 1973 em parte do terreno que seria destinado ao Parque da Vila Industrial.

Em sua dissertação de mestrado, Mariana Cisotto expõe que essas “grandes transformações econômicas e sociais entre as décadas de 1970 e 1980 reestruturaram a configuração do território, por meio da instalação de vias de transporte, que forneceram fluidez”27. Esse tipo de crescimento urbano, pautado no sistema viário, configura espaços dispersos, desorganizados e, na maior parte das vezes, ineficientes, gerando uma cidade sem lógica, repleta de vazios urbanos e, portanto, desconexa (CISOTTO, 2009).

27  CISOTTO, M. F. Natureza e Cidade: relações entre os fragmentos florestais e a urbanização em Campinas (SP). Dissertação de mestrado. Instituto de Geociências - UNICAMP, 2009.


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Parte dessa desconexão é gerada pela falta de espaços públicos sociais, seja por meio de praças ou parques. Ao longo do processo de urbanização, a relação do urbano com o meio ambiente se perdeu e estes começaram a ser tratados em separado. Entretanto, a relação entre os dois é o que torna a cidade mais humana e com maior qualidade de vida.

parques, ficaram suprimidos. A distribuição dos parques é feita de maneira irregular - assim como a sua manutenção – sendo que a maior parte deles se encontra nas áreas mais abastadas da cidade e muitos não se configuram como uma área verde de uso social; muitas vezes são vazios urbanos à espera da especulação imobiliária.

De acordo com Eugênio Queiroga, Campinas cresceu sem o apoio de legislações urbanísticas específicas sobre o uso do solo ou zoneamento. A mancha urbana se espalhou de maneira fragmentada e segregada, graças aos “processos especulativos e de uma produção imobiliária onde os interesses privados dos empreendedores se sobrepõem ao interesse público”28.

Até o final da década de 1980, eram poucos os parques urbanos da cidade, sendo os mais frequentados a Lagoa do Taquaral e o Bosque dos Jequitibás. Com as discussões colocadas pela Constituição Federal de 1988, o meio ambiente - mesmo que dissociado do urbano - passou a ser um dos importantes tópicos a serem incorporados na cidade, de modo a tentar recuperar a qualidade de vida urbana, a qual dependeria da qualidade ambiental.

A conexão entre as áreas ocupadas após a década de 1970 não é feita de forma direta, com a continuação do tecido urbano, e sim de forma indireta, por meio de avenidas e rodovias (QUEIROGA, 2009). A expansão territorial de Campinas está associada aos eixos rodoviários, configurando um espaço complexo e gerador de grandes barreiras. Em oposição a esse cenário, a cidade não se preocupou em gerar “espaços livres públicos”, sendo a conexão campineira feita somente por rodovias e grandes avenidas, sem parques lineares na malha urbana consolidadaEm decorrência dessas políticas, os espaços livres públicos, que são compostos pelas ruas, praças e 28  QUEIROGA, E. F. A metrópole de Campinas diante da megalópole do Sudeste do Brasil. In: SOUZA, Maria Adélia Aparecida de (Org.). A metrópole e o futuro. Campinas: Edições Territorial, 2008.

No mapa ao lado, notamos como a área urbana consolidada se desenvolveu sem se preocupar com a questão ambiental e suas consequentes implicações. Também é possível compreender as proposições de Eugênio Queiroga quanto à falta de parques que conectem a cidade, que a deixariam mais humana.


áreas verdes de campinas em 2016 fonte: Secretaria Municipal do Verde, Meio Ambiente e Desenvolvimento, 2016.

Parques e Bosques Vegetação Natural Bens Tombados N

A camada cinza mostra a malha urbana da cidade. Em sobreposição a ela, estão representadas todas as áreas verdes do município, sejam urbanas ou não.


รกreas verdes sociais em 2016 fonte: Secretaria Municipal do Verde, Meio Ambiente e Desenvolvimento, 2016.

11. 23.

23.

12. 1.

25.

16. 21.

19.

3.

20.

10.

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4. 8.

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9.

14.

24.

7.

13.

2.

N

Cรณrrego Piรงarrรฃo


1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 10. 11. 12. 13.

Lago do Café Bosque dos Cambarás Pedreira do Chapadão Bosque dos Italianos Bosque São José Bosque Augusto Ruschi Bosque Valença Bosque dos Jequitibás Bosque dos Artistas Bosque dos Alemães Parque Ecológico Hermógenes Bosque Chico Mendes Parque das Águas

14. 15. 16. 17. 18. 19. 20. 21. 22. 23. 24. 25. 26.

Bosque dos Guarantãs Bosque da Paz Parque Portugal (Taquaral) Parque Ecológico Monsenhor E. J. Salim Parque Botânico Bosque Silvia Brandão B. Bellucci Parque do Aterro Santa Bàrbara PNM da Mata Parque Linear Ribeirão das Cabras Parque Linear Ribeirão das Pedras Parque Municipal Luciano do Vale Parque da Paz - Yasser Arafat Parque Ecológico Dom Bosco

As áreas verdes presentes - ou restantes - na malha urbana são um tipo de espaço público que é composto, fundamentalmente, por vegetação (CISOTTO, 2009). Essas áreas também são responsáveis por atender demandas ambientais, ecológicas, estéticas, sociais, educativas, de saúde e de lazer, mostrando-se fundamentais para a composição de uma cidade e para os seus respectivos cidadãos. (...) Os espaços livres destinados ao lazer vêm experimentando uma avassaladora ocupação imobiliária e deterioração, paralelamente, a um crescimento intenso e incontrolado da periferia urbana29. Em Campinas, a quantidade de parques aumentou, em relação aos anos 1980, mas ainda está muito aquém das necessidades urbanas, os quais refletem diretamente na qualidade de vida dos cidadãos. Em pesquisa recente, realizada pela Secretaria Municipal do Verde, Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, foram apontadas todas as áreas verdes: áreas de matas nativas, as unidades de conservação, os bens tombados, a reserva legal e os parques e bosques que estão dentro dos limites urbanos campineiros. A cidade apresenta 26 áreas verdes com função social - parques - que somadas representam pouco menos de 0,50% da área do município.

29  OLIVEIRA, E. G. de. Saneamento Ambiental e Regulação Urbana no Município de Campinas. Campinas, SP: Dissertação de Mestrado. Universidade Estadual de Campinas, Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo, 2006.

___ 69


A tabela e mapas anteriores mostram que além de serem limitadas, as áreas verdes com função social se concentram nas áreas mais ricas de Campinas. Podemos notar que a maior parte - e os maiores - está concentrada no perímetro interno ao centro expandido e às rodovias Dom Pedro I, Magalhães Teixeira e Anhanguera, de modo a não atender a toda a população. A tabela abaixo mostra em que bairro estão os parques pontuados na página anteior. Ou seja, podemos notar onde eles estão

localizados e qual sua área (m²) dentro do respectivo território. Outro ponto relevante é a existência de mais de um parque por bairro ou, ainda, a existência de parques que estão em dois ou mais bairros, deixando mais evidente tal concentração. Em contrapartida, dentro do perímetro urbano do município, existem espaços livres não-ocupados e ociosos que não foram tomados pela expansão urbana, seja pela espera da especu-

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*m² dos parques, sendo a quantidade que está dentro do bairro.

fonte: Secretaria Municipal do Verde, 2016.


lação imobiliária ou pela expansão horizontalizada e dispersa (CISOTTO, 2009). Dessa maneira, compreendemos que muitos são os espaços disponíveis e com potencial para a implantação de um parque urbano. Neste mesmo estudo, a Secretaria Municipal do Verde, Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável aponta que a cidade apresenta 86 distritos urbanos (bairros e unidades de habitação). Destes, 60 apresentam coeficiente nulo no Índice de Área Verde Social (IAVS), ou seja, 69,77% dos bairros não apresentam parques.

A população estimada de Campinas é de 1.164.098 habitantes (IBGE, 2015), ou seja, dividindo a área total dos parques, mostrados na tabela ao lado, pela quantidade de cidadãos chegamos à proporção de 3,4 m² de parques por pessoa, número parecido ao de quase 100 anos atrás, quando Prestes Maia já dizia ser uma relação extremamente baixa. De acordo com estudos realizados pelo arquiteto paulista, na década de 1930, essa relação deveria ser de pelo menos 13,0 m² por pessoa.

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fonte: IBGE e Secretaria do Verde, 2016. A população de Campinas é referente a última atualização do IBGE. A área total dos parques é a somatória da tabela da página anterior.


O mapa de Déficit de Áreas Verdes mostra como os parques de Campinas se relacionam dentro do município, de modo que quanto mais escura é a cor (amarelo forte), mais carente é a região de áreas verdes com função social. Este mapa foi desenvolvido, também pela Secretaria Municipal do Verde, Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, a partir de um primeiro mapa, que mostrava, dentro de progessivos raios, variando de 500 a 2.500 metros30, o quanto os parques municipais abrangiam a cidade e estavam próximos ao cidadão.

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Em continuidade a esse mapa, foi realizado o mapa apresentado lado, o qual relaciona as distâncias até os parques com o número de habitantes por quilômetro quadrado, indicando (em amerelo escuro) a necessidade de implantação de áreas de função sócio-ambiental. Ou seja, quanto mais escura a cor do mapa, maior a necessidade de um parque urbano.

destacada é carente de um parque urbano e um consequente eixo estruturador sócio-espacial e fluvial. Com os conflitos apresentados, notamos que Campinas se desenvolveu longe das questões sócio-ambientais. A cidade preferiu buscar soluções paliativas para mascarar seus problemas frente à expansão urbana e demográfica, fato que é comprovado pela a existência de poucos parques, em áreas concentradas (mais abastadas) e de grandes áreas carentes de um espaço livre público verde, ficando clara a expansão urbana sem planejamento, horizontalizada e dispersa. Os parques públicos urbanos, além de serem um “instrumento para a valorização do espaço urbano”31, também podem ser entendidos como a busca pela cidadania e o retorno do coletivo. Talvez seja a partir deles que as cidades brasileiras venham a se tornar mais humanas e para todos.

Em 1935, Prestes Maia propunha, no Plano de Melhoramentos Urbanos, o Parque da Vila Industrial. Boa parte da área reservada para este espaço é composta, em 2016, por um grande vazio urbano. A região além de ser um grande eixo estruturador da cidade, fazendo conexão com diversas áreas, é representada pelo tom mais forte do mapa, ou seja, carente de um espaço livre de qualidade. Dentro deste - complexo - território, ainda existe o Córrego Piçarrão e a Vila Industrial. Assim, a zona 30  Com base no padão “English Nature” e a Agência do Ambiente na União Europeia, uma pessoa deve morar, no máximo, a 300 metros de distância de um espaço livre verde natural de, pelo menos, 2 hectares.

31  CISOTTO, M. F. Natureza e Cidade: relações entre os fragmentos florestais e a urbanização em Campinas (SP). Dissertação de mestrado. Instituto de Geociências - UNICAMP, 2009


DÉFICIT DE ÁREAS VERDES SOCIAS

N

fonte: Secretaria Municipal do Verde, Meio Ambiente e Desenvolvimento, 2016.

áreas verdes com função social área rural

nível* 02 03 04 05 06

Onde se localizaria o parque de Prestes Maia e onde se pretende implementar o Parque da Vila.

*De acordo com a Secretaria do Verde, o legenda (nível) começa no número “2” porque o “1” seria o próprio parque. Quanto maior o número (de 2 a 8), maior a necessidade de implantação de um parque.

07 08


Os parques existentes somados com esses grandes espaços livres não-ocupados poderiam resultar em uma rede de parques que conectariam a malha urbana, tornando a cidade mais humana e gentil para os cidadãos. Um plano de sistema de espaços livres que priorize a implantação de parques fluviais pode enriquecer, portanto, os serviços ambientais das margens de corpos d’água da RMC, contribuindo para a drenagem urbana, para a biodiversidade e percepção dos elementos naturais do ambiente, para o convívio e práticas de lazer públicas e para alternativas de mobilidade de baixo impacto ambiental bastante viáveis no território metropolitano constituído em boa parte de colinas de declividades pouco acentuadas32. Na imagem ao lado, foram destacadas as principais áreas verdes da região central expandida: parques, grandes vazios urbanos e área de mata nativa. Dentre esses espaços, existe um que se mostra mais evidente.

É um grande vazio urbano na região central e por ter essa “função” desde sempre; Está intimamente ligada com a história do desenvolvimento - e nascimento - de Campinas; Está dentro da única bacia inteiramente campineira; Parte da área é representada por mata nativa, no centro da cidade; É um eixo interligador de Campinas e região; A região é carente de parques urbanos. Está em um dos bairros que, inesperadamente, mais preservou a memória da cidade;

32  QUEIROGA, E. F. A metrópole de Campinas diante da megalópole do Sudeste do Brasil. In: SOUZA, Maria Adélia Aparecida de (Org.). A metrópole e o futuro. Campinas: Edições Territorial, 2008.

Necessita a implantação de um parque urbano que venha a conectar estruturas viárias, pessoas e a memória.

___ 75


A crença de que a cidade é uma entidade separada da natureza, e até contrária a ela, dominou a maneira como a cidade é percebida e continua a afetar o modo como é construída Anne Spirn


o cรณrrego piรงarrรฃo


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Como já mencionado anteriormente, com a inauguração do sistema ferroviário paulista, outras áreas da cidade passaram a ser ocupadas. Dada a nova organização territorial, a porção sudoeste de Campinas passou a ser povoada com instalações ditas “insalubres” e, ao mesmo tempo, responsáveis por abastecer a cidade. Tanto o Matadouro Municipal quanto os Curtumes foram alocados ao longo do Córrego Piçarrrão e usufruíam de suas águas, seja para abastecimento ou escoamento.

Trata-se de um córrego de muito pequena declividade e que, como geralmente acontece em tais casos, possuí leito normal bastante sinuoso; além disso apresenta pequeno volume normal de água devido às obras da Paulista (canalização e diminuição do fluxo). Por causa das enchentes, retem-se as águas altas por muito tempo, quando são baixadas, o leito do córrego fica abarrotado de materiais de aluvião, portanto ainda em piores condições de declividade.34

A partir de 1907, o Matadouro começou a sofrer com enchentes e, em decorrência disso, o córrego teve sua primeira retificação feita em 1912. Entretanto, o problema não foi sanado. Em dezembro de 1921, o estabelecimento sofreu um grande alagamento:

Devido a sua extensão, o córrego apresentou distintas formas de exploração. Na parte mais central da cidade - e onde o Parque será alocado - os inúmeros processos de retificação e a criação de galerias subterrâneas foram responsáveis por descaracterizá-lo.

(...)as águas invadiram o Matadouro, tendo ellas attingido, dentro do estabelecimento, a um metro de altura. O córrego do Cortume muito concorre para essas innundações.33

No mapa ao lado podemos notar a dimensão das obras realizadas na parte central da bacia. Ao longo dos mais de 100 anos de remodelação, o Piçarrão passou a ser um “canal de concreto”, que continua a ser negligenciado pela administração local.

O córrego do Piçarrão é caracterizado por ser de pequena declividade e portanto, bastante sinuoso. Ao longo dos anos, muitas foram as cheias e, somados com sua morfologia, ele passou a ser retificado constantemente e em diversos pontos.

33  Prefeitura Municipal de Campinas, 1921 apud SERRA, Ana Luiza. Indicadores de pressão para o córrego Piçarrão. Dissertação de Mestrado em engenharia civil. Universidade Estadual de Campinas - Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo, 2002.

34  Prefeitura Municipal de Campinas, 1921 apud SERRA, Ana Luiza. Indicadores de pressão para o córrego Piçarrão. Dissertação de Mestrado em engenharia civil. Universidade Estadual de Campinas - Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo, 2002.


transformações do piçarrão entre 1900 e 2016

N

fonte: CMU, 1900; 1929; 1952.

1900

1930

1952

2016


analise cronolรณgica fotogrรกfica fonte: CMU, 1900; 1929; 1952.

7.

3. 11.

2.

10.

8. 12.

1. 5. 4.

9. 6.


1.

3.

fonte: MIS, 1960. Vegetação ciliar, Matadouro à direita e seus pastos ao fundo.

2.

fonte: MIS, 1970. Pequena vazão do córrego, ao fundo a Igreja São José.

fonte: MIS, 1980. Podemos notar, ao centro, uma bacia de retenção e, no primeiro plano, a estrutura - já abandonada - do antigo Curtume.


4.

6.

fonte: MIS, 1991. Pós-retificação e criação de canal de concreto.

5.

fonte: MIS, 1991. Obras para retificação e criação do canal no Córrego Piçarrão.

fonte: MIS, 1950. Ocupação do bairro São Bernardo, na porção mais próxima à Avenida Amoreiras. Podemos notar ao fundo o Córrego Piçarrão e uma cheia - lagoa.


fonte: Hemeroteca Municipal, 1995. Protesto devido aos constantes alagamentos e enchentes do Cรณrrego Piรงarrรฃo.


8.

fonte: outubro, 2016.

9.

fonte: outubro, 2016.


10.

fonte: outubro, 2016.

11.

fonte: outubro, 2016.


12.


fonte: 2016. Fotografia da Marginal do Piรงarrรฃo apรณs reforma de 2015.


___ 90

Na região posterior à Rodovia Anhanguera - e mantendo sua vocação em receber instalações indesejadas e insalubres encontram-se os aterros Delta I e Santa Bárbara (desativado desde 1992) e o “lixão” da Pirelli. Além dos espaços já citados, também foi alocado ao longo do córrego (próximo à Rodovia dos Bandeirantes) uma pedreira de extração de basalto. Mesmo assim, Ana Luiza Serra afirma, em sua dissertação de mestrado, que o córrego do Piçarrão se enquadra na classe 4 do Decreto Estadual 8.468/7635. Ou seja, suas águas podem ser destinadas ao abastecimento doméstico, após tratamento adequado, assim como para a navegação ou ainda para fins paisagísticos, sendo os últimos itens classificados com menor nível de qualidade. Os desenhos hidrográficos que passam a ser traçados para atender às diversas funções urbanas, reconfiguram a drenagem do espaço levando a um desenho antropizado, onde a figura tradicional em espinha de peixe de uma bacia hidrográfica se não perde o sentido, dificulta em muito o entendimento da questão de uma maneira holística, como um sistema dinâmico cujas alterações são promovidas pelas ações/reações antrópicas e reações/ações ecológicas em moto-contínuo36. 35  Decreto Estadual de São Paulo, 8.468/76, 2000. 36  RUTKOWSKI, Emillia. Desenhando a bacia ambiental: subsídios para o planejamento das águas doces metropolitan(izad)as. 1999. 158 f. Tese (Doutorado em Arquitetura e Urbanismo). Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, São Paulo.


Em amarelo estรก destacado onde o Parque da Vila serรก alocado.


Ao mesmo tempo, Emília Wanda Rutkowski (1999) nos apresenta a teoria segundo a qual as bacias hidrográficas devem levar em conta os aspectos sociais, de modo a flexibilizar os limites físicos, uma vez que interferências que modificam o espaço ocorrem, ainda mais em bacias que estão no perímetro urbano.

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A imagem apresentada na página anterior corresponde à bacia do Piçarrão e sua inserção na cidade de Campinas. Como podemos observar, sua composição espacial é bastante complexa, apresentando desde áreas densamente urbanizadas, vegetação nativa, área de proteção ambiental, regiões de extração de minérios, antigos aterros sanitários, duas rodovias de grande porte (Anhanguera e Bandeirantes), linha férrea, o cemitério da Saudade - o mais antigo da urbe, entre outras problemáticas. Dessa maneira, entende-se que a bacia não pode ser avaliada como uma unidade, e sim com diferentes seguimentos e diretrizes. Este trabalho pretende atuar na porção mais urbano-central do córrego Piçarrão, de forma a unir as questões ambientais com a memória urbana de Campinas. Somadas essas informações com o levantamento histórico, a proposta do Parque Linear surge como um primeiro posicionamento, frente a outras tantas intervenções possíveis. Pretende-se atuar por meio de uma leitura de Gestão Patrimonial-Urbana.

O modo de urbanização voltado aos interesses econômicos privados e à sombra do bem-estar coletivo (MATTOS, 2005) é responsável pela qualidade sócio-ambiental da bacia do Piçarrão. O processo foi responsável por reforçar a desigualdade e a exclusão social, assim como a degradação ambiental. Na tabela ao lado, podemos notar como as ações antrópicas foram impactantes na desqualificação do córrego e talvez, resultando na perda de sua função urbana. Tais ações modificaram - e modificam - o córrego antes mesmo de sua primeira retificação. Sem elementos de recreação, pesca, paisagismo ou abastecimento de água, as dinâmicas associadas à “missão” do córrego foram comprometidas, de modo que não só a qualidade de vida da população foi prejudicada, mas também gerou reflexos ecológicos, econômicos, estéticos e de saúde pública (SERRA, 2002). Seja pela impermeabilização elevada do solo, pela alta concentração populacional, pelas obras de retificação ou pelos processos erosivos, o córrego Piçarrão encontra-se em um estado de abandono urbano, onde a cidade - e as pessoas - pouco se relacionam com o mesmo. A recuperação do Ribeirão Piçarrão está intimamente ligada à solução dos problemas estruturais anteriormente citados e propostas que integrem a malha da cidade e devolvam a sua função urbana. É justamente na superação destas problemáticas que reside o grande desafio – e a maior esperança – do paradigma da sustentabilidade para o este ambiente urbano.


fonte: SERRA, 2002. Impactos causados no Córrego Piçarrão e melhorias com a implantação do Parque da Vila.


patrimĂ´nio esquecido ou abandonado?


O culto que se rende hoje ao patrimônio histórico deve merecer de nós mais do que simples aprovação. Ele requer um questionamento, porque se constitui num elemento revelador, negligenciado, mas brilhante, de uma condição da sociedade e das questões que ela encerra Françoise Choay


A proposta da delimitação do Parque da Vila se baseia, inicialmente, nos três patrimônios industriais apresentados na imagem ao lado, tentando reavivar valores e histórias esquecidas na porção central do Córrego do Piçarrão. A ideia é que o cada um desses lugares venha a se transformar em um importante nó urbano da cidade.

___ 96

A Planta Cadastral de 1929 foi a primeira a fazer um levantamento de lotes e edificações importantes da cidade. E, partir dela, pode-se notar como era a relação entre o centro de Campinas e a Vila Industrial e, mais especificamente, como era a ocupação na porção central do Córrego Piçarrão37. O patrimônio industrial ali implantado é bastante característico, sendo representado por três diferentes Curtumes (Cantusio ou Paulista, Firmino Costa - ou Brasil, e Companhia Curtidora de Campinas) e o Matadouro Municipal. Com a implantação das linhas férreas, a Vila Industrial começou a se desenvolver como o bairro que abastecia38 Campinas, e ali foi instalado, em um primeiro momento, o Matadouro Municipal. Em decorrência da alocação desse, foram instalados os Curtumes, também às margens do Córrego Piçarrão ou 37  A Planta Cadastral de 1929 foi consultada no Arquivo Municipal de Campinas. Infelizmente, devido a seu tamanho (escala 1:1.000), não foi possível colocar a imagem da porção desejada neste memorial. 38  O bairro era caracterizado por abastecer a cidade porque ali estariam as principais indústrias, dentre elas as a da carne (matadouro e curtumes).

de seus afluentes (Córrego do Curtume). Antes da virada do século XX, tanto o Matadouro como os Curtumes se localizam nas áreas mais afastadas da cidade, para onde ela não pretendia crescer (BADARÓ, 1982). Entretanto, a cidade cresceu para a porção sul e o mapa de 1929 já mostrava os primeiros loteamentos (São Bernardo e Parque Industrial) que foram implantados depois dos pastos do Matadouro. Esse grande vazio urbano, que está presente na cidade desde 1929, continua, mesmo que em menor tamanho, na malha urbana atual. Em sua dissertação de mestrado, Rafael Roxo (2013) elenca uma tríade de circunstâncias, que atravessam tempo e espaço, sobre a construção e caracterização atual da Vila Industrial. O primeiro tópico que o geógrafo aponta é a composição do loteamento a partir do isolamento, dado que o lugar estaria marginalizado em relação ao contexto urbano da época (fim do século XIX e início do XX). Devido a tal distanciamento, a área foi levada a criar uma própria dinâmica de funcionamento, gerando certa autonomia em relação ao centro da cidade. Anos depois, com a expansão da área central, a partir de 1990, o bairro passa a ser incorporado no contexto urbano, o que gerou novas dinâmicas de valorização, como a especulação imobiliária e a preservação patrimonial. Alguns dos bens patrimoniais que conseguiram sobreviver até a “descoberta” da Vila Industrial como parte da cidade de Campinas, foram tombados pelo CONDEPACC. Entretanto, dentre o patrimônio industrial o único tombado é Curtume Cantusio. O Curtume Firmino Costa e as ruínas da Companhia Curtidora Campinense continuam sem proteção ou qualquer tipo de valorização.


detalhe da รกrea em 1929

N

fonte: AMC, 1929.

3

1

companhia curtidora

2

matadouro

3

curtumes cantusio e firmino

1 2


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A professora Regina Tirello (2014) afirma que em muitas cidades brasileiras, como é o caso de Campinas, observa-se significativos exemplares e conjuntos industriais com localização privilegiada frente a composição da malha urbana. Infelizmente, a maior parte é subaproveitada e quase nunca tem relação com a vida cotidiana do cidadão, tornando-se um empecilho urbano à espera do desaparecimento ou da ruína, como o caso dos Curtumes. Sucede-se, assim, uma série de perdas, tanto ligadas à questões da memória, quanto à demandas econômicas.

da carta é que esse patrimônio não deveria ser estudado ou interpretado como um objeto isolado, e sim dentro de todo seu contexto urbano-histórico.

Esse desperdício de recursos, compostos por edifícios abandonados e vazios urbanos, faz com que a população e governantes locais prefiram “o desaparecimento de importantes testemunhos da nossa cultura material39”. Em Campinas, entre 2015 e 2016, foram demolidos alguns desses testemunhos, como o caso da Fábrica Mac-Hardy, no centro da cidade.

Mesmo com a ampliação do conceito de patrimônio cultural e a valorização do significado do conjunto, a maior parte das intervenções realizadas nessa tipologia arquitetônica continuam sendo no edifício isolado, sem qualquer relação com a cidade.

De acordo com a Carta de Nizhny Tagil (2003), o patrimônio industrial compreende os vestígios da cultura industrial que possuam, de alguma maneira, valor histórico, tecnológico, social, arquitetônico ou científico. Outro importante apontamento 39  TIRELLO, R. A.; BARROS, M. C. ; SFEIR, M. B. . Projetos de reabilitaçâo de conjuntos industriais históricos em centros urbanos paulistas:usos possíveis na contra corrente dos ?centros culturais. In: Arquimemória IV: Encontro Internacional sobre Preservação do Patrimônio Edificado, 2013,, 2013, Slavador,Bahia. Anais[do] Arquimemória IV: Encontro Internacional sobre Preservação do Patrimônio Edificado, 2013,. Salvador,Bahia: IAB-Ba e UFBA, 2013. v. 1. p. 1-25

O patrimônio industrial representa o testemunho de atividades que tiveram, e que ainda têm, profundas consequências históricas. As razões que justificam a proteção do patrimônio industrial decorrem essencialmente do valor universal daquela característica, e não da singularidade de quaisquer sítios excepcionais.

Dessa maneira, a proposta do trabalho final de graduação se encaixa na valorização do patrimônio industrial e natural da região, por meio da implantação de um parque linear. A ideia é que todo o patrimônio seja compreendido por meio de uma paisagem cultural, que será destinada aos cidadãos comuns, no uso diário, contra a corrente “turística-cultural espetacular” (TIRELLO, 2010).


COMPANHIA CURTIDORA


A Companhia Curtidora Campinense foi o primeiro curturme a ser instalado em Campinas, na Vila Industrial. Sua implantação foi motivada pela proximidade ao Matadouro Municipal e com o Córrego Piçarrão. Em sua época de glória, chegou a exportar matéria-prima para São Paulo e Rio de Janeiro. Entretanto, com a chegada de concorrência (Curtumes Cantusio e Firmino Costa) começou a diminuir as suas atividades. A Companhia fechou suas portas pouco depois que o Matadouro foi demolido, em 1974.

Pouco material foi encontrado sobre a Companhia Curtidora, mesmo estando em área urbana bastante consolidada e próxima a importantes edifícios e avenidas (próximo ao Hospital Mario Gatti - que ainda não havia sido construído na imagem abaixo - e à Avenida Amoreiras). Até 2012, as ruínas eram usadas para a Feira do Rolo e artigos nordestinos, entretanto a Defesa Civil impediu seu uso. Hoje, o local está abandonado e prestes a ser esquecido, assim como vários edifícios notórios de Campinas.

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fonte: MIS, 1970. Foto da inserção urbana da Companhia Curtidora de Campinas no início da década de 1970.


Companhia curtidora de campinas fonte: AMC, 1936.

Implantação da Companhia. Nota-se a sua proximidade com o Córrego do Curtume (afluente do Córrego Piçarrão).


matadouro


No ano de 1816, foi publicado um edital para a construção da primeira cadeia pública da cidade e procurou-se construir o prédio de modo que se pudesse atender o maior número possível de serviços e de utilização pública. O prédio possuía em seu andar superior a Câmara Municipal e, no térreo, o prédio se dividia entre as celas da cadeia e uma pequena sala onde, inicialmente, funcionaria o Matadouro Municipal.

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Essa pequena sala jamais poderia atender às necessidades de uma cidade que estava em fase de expansão. Dessa maneira, a matança dos animais ocorria em frente ao edifício, em uma pequena praça41. Ou seja, além de condições insalubres, matanças impiedosas – os animais eram mortos a machadadas – a quantidade de carne produzida era muito aquém do necessário. Dado o contexto, em 1863 foi proposta a construção de um prédio nos arredores da cidade que abrigasse o Matadouro Municipal, sendo somente constituído 20 anos depois. Com planta e direção do arquiteto Ramos de Azevedo, o Matadouro Municipal de Campinas foi inaugurado no dia 30 de outubro de 1885. Implantado nas proximidades do Riacho Piçarrão, na Vila Industrial, foi um dos primeiros do gênero no Brasil. Isto se deve ao fato de obedecer aos critérios sanitaristas e seguir o plano do Matadouro de Lisboa, Portugal, tendo um caráter de arquitetura eclética, muito usado na época (MONTEIRO, 2009). 41  Hoje em dia, essa praça se chama Antonio Pompeu e está localizada na frente do Jóquei Clube.

Sua construção foi possibilitada pela iniciativa privada de três influências campineiras: Bento Quirino dos Santos, General Francisco Glicério e Ramos de Azevedo. O edifício passou a ser denominado como Cia. Campineira do Matadouro Municipal (LAPA, 1996). No início do século XX, era comum as pessoas observarem, ao fundo, uma grande poeira proveniente da chegada das boiadas com destino ao Matadouro Municipal42. Os estabelecimentos comerciais eram obrigados a fechar as portas por um curto período de tempo devido ao barulho, mugidos e a forte poeira levantada durante tal transporte. Ao longo desse período, o Matadouro passou por uma série de melhoramentos, desde pequenos reparos até a mudança no sistema de matança. Consolidou-se como um dos melhores do Estado de São Paulo, além de gerar uma importante parte da fonte de renda do município. No ano de 1906, o Matadouro passou por uma reforma para melhorar o gerenciamento do transporte e produção. Porém, no ano seguinte, 1907, o edifício foi vítima de várias enchentes oriundas do córrego Piçarrão, tanto que, como já mencionado, seu leito foi canalizado em 1912. Entre 1909 e 1910, algumas melhorias aconteceram na Estrada 42  Normalmente tais boiadas vinham ou pelos trens da Mogiana ou do atual bairro da Ponte Preta, local próximo de algumas fazendas a criação.


matadouro em 1925 fonte: AMC, 1925.

Planta do Matadouro Municipal, onde nota-se sua distribuição e dimensão já na década de 1920.


de Itú e na Ponte do Piçarrão, época em que fora adquirido, pelo matadouro, o Pasto do Piquete, entre a Vila Industrial e o atual bairro São Bernardo. Com isso, o transporte foi melhorado devido à maior proximidade. Esse pasto viria a compor, mais tarde, parte do grande vazio urbano que a cidade apresenta em 2016.

___ 108

Em meados da década de 50, começou a decadência do Matadouro de Campinas. A população reclamava da situação do mesmo, do mal cheiro do lugar e da necessidade de um novo matadouro com uma infraestrutura condizente com a época. Como o crescimento de Campinas foi muito acelerado, o Matadouro acabou sendo englobado pela malha urbana e, novamente, um problema no seu entorno imediato (LAPA, 1996). Uma comissão foi reunida em 1965 para realizar um estudo completo do aproveitamento do prédio do Matadouro e da casa do Administrador. Essa comissão, formada pelo Dr. Ruyrillo de Magalhães, Engenheiro Orquídio Lopes Bardney e Sr. Eugenio de Azevedo Grauner, chegou à conclusão que o mesmo deveria ser transformado em “Casa da Fazenda”, a exemplo da Casa dos Bandeirantes43, em São Paulo.

43  Esta “Casa da Fazenda” seria um retrato das antigas propriedades rurais dos barões do café, com peças da época, tais como: móveis, rodas d’água, monjolos, lavouras de café, além de um museu tecnológico, etnográfico e folclórico. (Diário do Povo, 26/07/1972).

No entanto, apesar das boas ideias, o Matadouro continuou com a mesma função, concorrendo com muitos abatedouros particulares e perdendo ainda mais espaço. Devido à falta de uma câmara de resfriamento, a carne não podia ser mantida por muito tempo. Além disso, o quadro de funcionários era bastante deficitário para atender ao público. A decadência da empresa e a deterioração do edifício continuavam (Diário do Povo, 04/05/1971). Com isso, em 1972, o Matadouro Municipal de Campinas encerrou suas atividades. Em julho do mesmo ano, a demolição do edifício foi iniciada, não sendo cogitada a proposta de readequação do uso ou sequer lembrada a importância histórica do edifício. O Matadouro Municipal de Campinas, além da importância urbana já mencionada, foi a primeira grande obra do arquiteto Ramos de Azevedo, sendo considerada norteadora para sua carreira. Além disso, os edifícios do Matadouro tinham uma relação intrínseca com o Córrego Piçarrão e alguns de seus afluentes. Para este trabalho, a relevância do prédio do Matadouro é bastante grande. Acreditamos que a demolição do mesmo, assim como de outras importantes obras de Campinas, é resultado da escolha por “esquecer” parte da história da cidade e preferir contá-la de outra maneira. A ideia deste trabalho é trazer de volta a memória do Matadouro e sua importância frente à cidade e ao bairro, no qual estava localizado.


matadouro em 1956

N

fonte: AMC, 1956.

Cรณrrego Piรงarrรฃo


___ 110


fonte: MIS, 1925. Fotografia do início do século que retrata o pátio interno do Matadouro Municipal de Campinas.


curtume cantusio


O Curtume Cantusio foi fundado em 1911 por Felippe Cantusio, imigrante italiano que trabalhava como assistente do dono da Companhia Curtidora Campineira A empresa foi instalada às margens do Córrego Piçarrão, próxima aos trilhos da Sorocabana e à rua da Árvore (atual rua dr. Carlos de Campos). De acordo com Amyr Cantusio44, o primeiro prédio construído tinha pouco mais de 100 m² e foi demolido para a construção da primeira parte do complexo ainda existente hoje (planta de 1933).

___ 114

O desenvolvimento da Vila Industrial está bastante relacionado à história do Cantusio. A sirene, que indicava a entrada, saída e horário de almoço dos funcionários, funcionava como o relógio do bairro (ROSSETTO, 2009). O imóvel foi tombado em 29 de novembro de 2011. Seu processo de tombamento se mostrou bastante difícil porque ele se localiza em uma área brejosa e muito próxima ao córrego. O complexo não foi protegido como conjunto, e sim em algumas partes separadas, dentre elas as fachadas da rua dr. Carlos de Campos; a chaminé; a área onde funcionavam os tanques de curtição, no primeiro andar; os tanques do subsolo; o mezanino e a área do grande portão (CONDEPACC, 2011). Antes de decretar falência em 1991, tentou-e vender o complexo do Curtume Cantusio para dois possíveis compradores. 44  Em 24 de fevereiro de 2016, realizou-se uma entrevista com um dos proprietários do Curtume, Amyr Cantusio, que é bisneto do fundador.

Um deles era a Rede Cultura de Televisão, para a realização do programa Castelo Ra-Tim-Bum, e outro era o Grupo Pão de Açúcar. Ambos acabaram por não realizar a compra, o primeiro por conta do pé-direito insuficiente e o segundo pela impossibilidade de construir um subsolo para estacionamento. Ao longo dos mais de 100 anos de história, o Curtume Cantusio sofreu com inundações, assim como o Matadouro. A pior de todas ocorreu na década de 1980 e destruiu toda a documentação e os arquivos da empresa. De acordo com Amyr Cantusio, essa foi uma das causas que levaram o curtume à falência. Hoje em dia, a área é mantida fechada para evitar uma possível ocupação. Vários foram os usos do complexo desde 1991, entretanto nenhum deles chegou a durar. Em 1997, parte do terreno foi desmembrado e vendido para um condomínio de prédios, o qual divide muro com o que sobrou do Cantusio. Foi difícil encontrar material sobre o Curtume Cantusio. Em nenhum momento, mesmo nos arquivos do Condepacc, encontrou-se uma planta da situação atual. A partir das plantas originais e de reforma, a autora deste trabalho juntou os arquivos e gerou uma planta “possível”. Essa incerteza é expressa pela impossibilidade de entrar no Complexo45. 45  Foram inúmeras as tentativas de tentar conhecer o complexo. Todo o material conseguido originou-se de outros trabalhos (fotografias) e de visitas aos arquivos da cidade (desenhos técnicos).


fonte: CMU, 1940. Imagem do complexo do Curtume Cantusio com boa parte dos prĂŠdios e anexos. Foto da rua dr. Carlos de Campos.


Cantusio em 1933 fonte: AMC, 1933.

Fachado do Curtume Cantusio, de 1933.

Planta do Curtume Cantusio, de 1933.


Cantusio em 1934 fonte: AMC, 1934.

ChaminĂŠ do Curtume Cantusio, de 1934.


Cantusio em 1937 fonte: AMC, 1937.

Implantação, Planta e Corte de um dos barracões do Curtume Cantusio, de 1937.


Cantusio em 1938 fonte: AMC, 1938.

Implantação, Planta e Corte de um dos barracões do Curtume Cantusio, de 1938.


Cantusio em 1939 fonte: AMC, 1939.

Implantação, Planta e Corte de um dos barracões do Curtume Cantusio, de 1939.


Foto de 1940 de primeiras ampliaçþes do Curtume Cantusio..


Cantusio em 1941 fonte: AMC, 1941.

Implantação, Planta e Corte de uma das fachadas da rua dr. Carlos de Campos do Curtume Cantusio, de 1941.


Cantusio em 1960 fonte: AMC, 1960.

Implantação, Planta e Corte de um dos barracões, com fachada principal para a rua Carlos Campos, do Curtume Cantusio, de 1960.


Cantusio em 1962 fonte: AMC, 1962.

Implantação, Planta e Corte da nova entrada do Curtume Cantusio, de 1962.


Imagem de 1950, mostrando a produção e separação do couro.


Cantusio em 1997 fonte: AMC, 1997.

A área destacada em laranja mostra parte do terreno que foi desmembrada para a construção de um condomínio, entretanto a implantação usada é da década de 1960, anterior a construção de outros dois blocos do complexo.


Cantusio em 1997 fonte: AMC, 1997.

Documento da SEPLAMA que mostra as alterações feitas no Curtume Cantusio e no Firmino Costa. Boa parte do material é apresentada neste trabalho.


Cantusio em 2016

copilação de plantas N

Córrego Piçarrão Edifícios próximos

A partir do levantamento feito no Arquivo Municipal de Campinas, a planta do Curtume foi desenhada como imagina-se que o patrimônio industrial estaria. Entretanto, com o último arquivo é datado de 2003, mudanças podem ter ocorrido.


tombamento

fonte:CONDEPACC, 2008.

O processo do tombamento do Curtume Cantusio foi iniciado em 2008 e somente foi concretizado em novembro de 2011, mais de 3 anos depois. O motivo seria a falta de certeza sobre sua importância arquitetônica, política e cultural. Mesmo o processo sendo posterior a Carta de Nizhny Tagil (2003), o curtume foi tombado por elementos separados e só foram protegidos àqueles ligados a sua fundação, ou seja, os edifícios mais antigos do complexo. A ideia deste trabalho é entender o Cantusio como um complexo e trazê-lo para o cotidiano do cidadão, na forma mais íntegra possível, voltando a se relacionar com o bairro e com ele próprio.

___ 129


Área de produção

fonte: CONDEPACC, 2008.

Está destacado em amarelo, em ambas as imagens, a área que era ligada a produção do Curtume Cantusio.


cronologia

N

fonte: AMC, vários anos.

1961

1939

1943 1937

1941

1938

1942

1962 1938 1933

1911

sem informações de planta ou data.

construções até década de 1940. galpões da área de produção.

construções após década de 1940. edifícios administrativos (não produção)


1

2


3


Cantusio em 2016

fonte: 2016. Estudo preliminar das fachadas e sua relação direta com a rua dr. carlos de campos.

estado atual do complexo

3

2

1


fonte: Carlos Bassan, 2016. A relação do Curtume com o entorno imediato.


Cantusio em 2016 imagens internas

Foto que retrata os galpões construídos entre as décadas de 1940 e 1950. Com vigas de concreto, telhas cerâmicas (que podem ser vistas na imagem aérea) e tesouras de madeira.


Imagem do edifício “garagem”. Devido as tesouras em madeira, essa galpão foi construído entre 1933 e 1938.

O atual uso do patrimônio é um esporte conhecido com AirSoft (desde agosto de 2016). Na foto notamos a estrutura metálica do galpão, logo a construção foi entre 1941 e 1950.


A relação entre ausência de uso, de atividade e sentido de liberdade, de expectativa é fundamental para entender toda a potência evocativa, vazio como promessa, como expectação Solà Morales


anรกlise urbana do entorno do projeto


Córrego Piçarrão Vazios Urbanos Patrimônios Industriais edifícios

N


___ 144

Para a implantação do Parque da Vila, foi necessário um estudo específico dos bairros que se encontram no seu entorno imediato. Como mencionado nos capítulos anteriores, a região se desenvolveu no entorno de um grande vazio urbano, resultante dos pastos do antigo Matadouro e das margens do córrego Piçarrão. Mesmo o espaço sendo caracterizado por esse vazio, quando o uso não é residencial, ele costuma ser voltado ao cidadão (serviços). Dentre eles a existência de hospitais (Mario Gatti, Metropolitano e Centro do Coração), complexos esportivos (Sesi e Centro Esportivo Rogê Ferreira), edifícios ligados à Prefeitura de Campinas e ao estado de São Paulo (Defesa Civil, secretaria da saúde, COHAB, Patrulheiros), Receita Federal, 2º distrito policial, base da Guarda Municipal e a Penitenciária Feminina de Campinas (São Bernando). Na imagem ao lado, podemos notar a relação entre os espaços construídos e os vazios existentes. No entorno do projeto do Parque da Vila, podemos identificar diferentes bairros, com distintas formas de vivenciar a cidade. O bairro mais antigo do complexo é a Vila Industrial, caracterizada por uso residencial e sem a presença de equipamentos públicos de qualidade. Seguindo a mesma linha, também temos a Vila Dutra e o Parque Beatriz. O bairro São Bernardo e o Parque Industrial também são compostos por usos residencias, entretanto existe maior diversidade do uso do solo devido à presença da Avenida Amoreiras. A área onde propõe-se o Parque da Vila também é caracterizada por importantes vias de conexão intra e inter-urbanas, dentre

elas a Avenida Prestes Maia (conexão com a Rodovia Santos Dumont e com a Rodovia Anhanguera), a Avenida Amoreiras (que liga o centro da cidade com a região sul), o Túnel Joá Penteado (que também faz a conexão entre o centro e a zona sul, ajudando a dividir o tráfego) e a Avenida Prefeito Faria Lima (onde estão importantes serviços). Em decorrência desse nó urbano e de conexões, a quantidade de transporte público é relativamente suficiente, com bastantes ônibus nas avenidas e outros que adentram os bairros. De acordo com um relatório da PMC de 2016, uma linha de BRT será instalada na Avenida Amoreiras e a linha do VLT será retomada (EMDEC, 2016). Dessa maneira, podemos notar que a região é marcada pela conexão entre avenidas e pouca diversidade de usos. Poucos são os equipamentos urbanos que fazem com que as pessoas usem - e conheçam - a cidade. E mesmo quando o equipamento urbano existe, ele está cercado por grades de segurança. Outro importante foco é a presença de patrimônio cultural no entorno imediato do parque. A Vila Industrial é caracterizada por ser um bairro que, de alguma maneira, traz a memória urbana e de pertencimento ao lugar. A existência do Complexo dos Curtumes também carrega uma memória histórica, entretanto ela já não está mais presente no dia-a-dia dos cidadãos. Observando-se os mapas apresentados, é perceptível que a região se desenvolveu apesar do Córrego Piçarrão, marginalizando seu uso recreativo e paisagístico. Com o decorrer dos anos, ele foi se “escondendo” cada vez mais na malha urbana.


cheios e vazios em 2016

N

Córrego Piçarrão Construções


vazios urbanos em 2016

Cรณrrego Piรงarrรฃo Vazio Urbano

N


bens culturais e complexos esportivos em 2016

Cรณrrego Piรงarrรฃo Bens Culturais Complexos Esportivos

N


esquema de vias em 2016 fonte: PMC, 2016.

Cรณrrego Piรงarrรฃo

N

Maior intensidade de uso


transporte coletivo em 2016 fonte: PMC, 2016.

Cรณrrego Piรงarrรฃo N

VLT e BRT Maior Intensidade de Fluxo


uso majoritariamento residencial

Córrego Piçarrão Zonas Residenciais

N


Uso institucional em 2016

9.

6. 8. 7.

1. 2. 3.

Complexo Hospitais e Mario Gatti COHAB Receita Federal

4. 5. 6.

Patrulheiros Sesi e Senai Defesa Civil e predios PMC

7. 8. 9.

5. 1.

4. 3.

PenitenciĂĄria Feminina Complexo RogĂŞ Ferreira Metrocamp

2.

N


linhas de drenagem urbana

Cรณrrego Piรงarrรฃo

> linhas de escoamento

N


zonas “não-pedonais”

zonas perigosas e não convidativas ao pedestre

Córrego Piçarrão zonas não pedonais

N


parque da vila


eixos estruturantes do parque A proposta é que o parque seja entendido a partir de 3 importante eixos, os quais conectem o espaço com os bairros adjacentes, que integrem a macro região, que ajudem com os problemas ambientais e que tragam as pessoas ao convívio coletivo urbano. A proposta é que o parque se constitua a partir dos vazios urbanos, criando uma rede fluída de espaços livres públicos, que ajudem na drenagem da região, que constantemente apresenta problemas de enchentes e alagamentos.

Esses principais pontos estarão associados à malha urbana e à devolução da função urbana do Córrego Piçarrão e do Patrimônio Industrial da região. Assim, o objetivo deste trabalho é propor a gestão urbana-patrimonial do Parque da Vila. A partir da área levantada foram estabelecidos 5 pontos principais de intervenção.

___ 156

1.

Companhia Curtidora

2.

Antigo Matadouro

3.

Curtume Cantusio

4.

APP

5.

Renaturalização de nascente


pontos de conexĂŁo

drenagem

vazios urbanos

malha + cĂłrrego


partido e programa do parque A partir da leitura do território e da compreensão das dinâmicas sociais, culturais e históricas que caracterizam a região, foram estabelecidos quatros eixos para o reequilíbrio da estrutura urbana, permitindo um crescimento urbano inteligente e sustentável.

___ 160

A primeira proposta é trabalhar com Projetos de Borda, principalmente com a drenagem urbana, por meio de jardins drenantes nas linhas de escoamento e com a realocação de famílias que precisarão ser removidas de pontos estratégicos. A ideia é que o Parque da Vila se concentre, em sua maior parte, nos grandes vazios da área. Entretanto, para a requalificação do córrego e permeabilidade de fluxos, alguns quarteirões precisarão deixar de existir. Contudo, todas as casas que necessitarem - sem outra solução - ser transferidas, permanecerão no mesmo bairro. O Parque foi pensado de maneira a englobar usos para o bairros, como complexos esportivos, chamando as pessoas para a cidade a partir da vida cotidiana, ou seja, com usos comuns do dia-a-dia de qualquer cidadão, seja ele rico ou pobre. Para que todas as pessoas possam usufruir do espaço livre social, é necessário pensar na mobilidade e nos acessos. A conexão do Túnel Joá Penteado com a Avenida Prestes Maia precisará ser revista, assim como a reestruturação do sentido das vias. Por exemplo, algumas das ruas mais próximas ao

parque são de mão dupla e será necessário rever tais fluxos. Mesmo compreendendo que a região é, atualmente, composta por uma multidão de carros, optou-se por priorizar o transporte público - contanto com as linhas de VLT e BRT. Também serão priozados o transporte por bicicletas e de pedestres, aumentando o nível de caminhabilidade da região. Por se tratar de uma proposta de gestão urbana-patrimonial, o reequilíbrio dos usos dos três pontos focais do projeto é fundamental. A ideia é que os Curtumes recebam propostas de novos usos (públicos), incorporando-os novamente no cotidiano urbano, tirando-os da qualidade de não-lugar ou lugar esquecido. Unindo os conceitos anteriores e enfatizando que a vida pública é o eixo do projeto e do desenho urbano, o Parque da Vila funcionará como articulador espacial, que seja uma somatória de espaços livres púbicos que resultem em um parque fluvial. Contribuindo com a drenagem urbana, biodiversidade, convívio e práticas de lazer públicas e alternativas de transporte de baixo impacto ambiental. Além das características citadas, o Parque da Vila ajudará a rever os conceitos da urbanização fragmentada que encontramos em Campinas, onde, cada vez mais, loteamentos fechados são priorizados e espaços coletivos são abandonados, esquecidos.


espaços públicos

mobilidade e acessos

projetos de borda

reequilíbrio dos usos


Como conectar o parque da vila? VLT + BLT

NOVOS EDIFÍCIOS

SENTIDO RUAS MOBILIDADE E ACESSOS

FAIXAS DE ÔNIBUS

AVENIDA PARQUE

projetos de borda ESTAÇÃO VLT

PRAÇA MARIO GATTI

CONEXÃO TÚNEL E PRESTES MAIA

FEIRAS

PRAÇA ÁGUAS

CINEMA

mercado

MIRANTE

COMPANHIA CURTIDORA

creche

CANTUSIO

PARQUE DA VILA

bairro

ESPAÇO PÚBLICO SERVIÇOS

REEQUILÍBRIO DOS USOS

NATUREZA FIRMINO

ESPORTES

ARENA

função urbana

piçarrão

TEATRO renaturalização


4.

3. 1.

2.

2. 1.

4.

1.

Companhia Curtidora

2.

Antigo Matadouro

1.

Penitenciária Feminina

3.

Curtume Cantusio

2.

Complexo Esportivo

4.

APP

3.

área de alagamentos

5.

Renaturalização de nascente

4.

avenida sales de oliveira

3.

5.


Projeto do parque da vila


Qualificação dos sistemas de espaços livres é, portanto, contribuir com a educação, saúde, transportes, habitação (vida cotidiana), saneamento e meio ambiente, é construir uma cidade melhor, é pensar no indivíduo enquanto cidadão e não apenas como consumidor. Eugênio Queiroga


Comer, sentar, falar, andar, ficar sentado tomando um pouquinho de sol.... A arquitetura não é somente uma utopia, mas um meio para alcançar certos resultados coletivos. A cultura como convívio, livre escolha, liberdade de encontros e reuniões.

Lina Bo Bardi


master plan


implantação geral escala: 1:50.000

Córrego Piçarrão Caminho Pedestres Bens Culturais Novos Edifícios Edifícios Existentes

1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 10. 11. 12. 13. 14.

Mirante rua Sales de Oliveira Reconstituição Caminho Matadouro CIA Curtidora: Cinema e Flores Ressurgimento Córrego

15.

Praça Vista

Praça Matadouro

16. 17. 18. 19. 20.

Complexo Aquático

21. 22. 23. 24. 25.

Administração Parque

Lagoa Complexo Esportivo Parque Água-Spray Complexo de Bares Praça Cantusio Complexo Cantusio: Mercados Praça Encontro das Águas Estação de VLT Complexo Firmino: Teatro

Conjunto de Edifícios Penitenciária Feminina Esportes Radicais Urbanos Teatro de Arena Prainha Lagoa histórica Nascente Urbana APP

N


1.

11.

17. 10.

2. 9.

4.

13. 12.

5. 15.

14.

8. 16.

3.

6.

7. 20. 18. 19.

21.

17. 17.

25. 22.

23.

24.


Esses diversos aspectos de uma produção social, a produção da cidade e da sociedade urbana, estão situados em uma perspectiva de explicação e de previsão.

Henri Lefebvre


Mobilidade e projetos de borda


___ 172

via parque A Via Parque é responsável por fazer todo o contorno do Parque da Vila. A proposta é que ela seja a transição entre a cidade e o espaço livre, onde o viário e a calçada estão na mesma cota e apresentam o mesmo calçamento; a única diferença seriam as cores do material.


via parque escala: 1:200

ciclovia

calçada externa

viário

área permeável

calçada interna

edifício - tipo


___ 174

Jardim drenante Como o Parque da Vila está no fundo de uma vale, todas as vias que o cruzam são grandes linhas escoantes. Ou seja, para que a água não chegue com grande velocidade e não cause cheias, são propostos Jardins Drenantes ao longo das principais avenidas. A ideia é que eles estejam dispostos a cada 3 ou 4 metros de distância (como mostrado no desenho) nas grandes avenidas (Amoreiras, Prestes Maia e Faria Lima) e os principais eixos-drenantes pavimentados do entorno do Parque da Vila.


Jardim drenante escala: 1:200

calçada externa calçada interna área permeável viário edifício - tipo jardim drenante escoamento


___ 176

Avenida amoreiras A Avenida Amoreiras é um dos principais eixos que fazem a ligação do centro de Campinas com a zona sul da cidade. A ideia é que ela se mantenha com as mesmas proporções mas seria reformulada para ficar mais humana e convidativa ao pedestre. Ao atravessar o Parque da Vila, a proposta é que o usuário sinta-se inserido no espaço, mesmo estando em uma via bastante movimentada. A proposta é que o corredor de ônibus passe no centro do viaduto, em seguida estaria a ciclovia e depois, em duas faixas, os veículos particulares.


Avenida amoreiras escala: 1:250

ciclovia

calรงada externa

viรกrio

รกrea permeรกvel

calรงada interna

Parque


Avenida amoreiras escala: 1:250


O método empírico pode ser promovido a ciência, o método teórico a filosofia, mas o procedimento que permite enquadrar os fenômenos artísticos no contexto da civilização é a história da arte. Faz-se história da arte não apenas porque se pensa que se tenha de conservar e transmitir a memória dos fatos artísticos, mas porque se julga que o único modo de objetivá-los e explicá-los seja o de “historicizá-los

Giulio Argan


reequilibrio dos usos


1

COMPANHIA CURTIDORA

2

CAMINHO DO MATADOURO

3

PRAIA URBANA

4

NASCENTE URBANA

5

APP INTERATIVA

6

LAGOA CENTRAL

7

CURTUME CANTUSIO

___ 182

PROJETOS ESSENCIAIS Para a melhor compreensão da proposta deste trabalho, foram escolhidas sete diferentes áreas para detalhar, mostrando assim o desenho urbano e diretrizes de restauração.


2

7

1

6

5 3

4


___ 184

1

Companhia curtidora O projeto da Companhia foi proposto a partir da manutenção do edifício em forma de ruína, mostrando como estruturas como essa perduram ao longo do anos. Há alguns anos,o Ceasa tentou ocupar o espaço, na tentativa de se aproximar do centro, e a Defesa Civil não permitiu. A proposta para a Companhia é conciliar o uso do Ceasa com um cinema ao ar livre e feiras aos finais de semana (retornando com a antiga Feira do Rolo e Artigos Nordestinos)


companhia curtidora escala: 1: 2.000

N

ruĂ­nas

caminho cĂłrrego

banca de flores

bancos cinema


Companhia curtidora escala: 1:1.500


___ 190

matadouro O Matadouro Municipal de Campinas foi demolido em 1972, não sobrando nenhum resquício urbano de sua implantação. Entretanto, o caminho que as pessoas percorriam para chegar nele (centro-matadouro) ainda é passível de interpretação. A ideia é que, de alguma maneira, as pessoas saibam que ali existia um prédio grandioso, assim como sua história. A proposta é que esse “caminho” seja feito de saibro vermelho e que o roteiro comece na rua sales de oliveira (mirante) e venha descendo até uma grande praça seca, que se localiza, aproximadamente, onde estava o Matadouro Municipal. Essa descida, atualmente, é vazio urbano entre o túnel e a Vila Industrial, onde se propõe a criação de platôs para amenizar o grande declive.

2


Caminho do matadouro escala: 1: 4.000 N

Descida Platos Calรงada


Caminho matadouro escala: 1:2.000


___ 194

Praia urbana A proposta da Praia Urbana surgiu com o estudo aprofundado da região e a descoberta que a área em questão se encontra em um local bastante plano. Anos atrás, antes das retificações do Córrego Piçarrão, esse ponto era caracterizado por sempre estar com mais água parada que o normal, alargando as margens do rio. Dessa maneira, dada as características naturais, propõe-se fazer uma praia no meio da cidade. O entorno é residencial e bastante reservado, o que só contribui para a instalação do recurso.

3


Praia urbana escala: 1: 1.000

N

ciclovia

รกrea permeรกvel

deck

cรณrrego

muro de pedras

calรงada externa

calรงada interna

areia


___ 198

Nascente urbana Atualmente essa nascente se encontra no meio de uma praça com algumas ocupações no entorno imediato, logo com esgoto é despejado na mesma. A nascente urbana seria uma maneira de educar os cidadãos e ensiná-los à como conviver com o meio ambiente em harmônia, A ideia não é renaturalizá-la, mas torná-la saudável e que todos possam desfrutar de suas águas.

4


nascente urbana

fonte: Delva Landscape Architects

___ 199


___ 200

APP interativa Essa área de preservação permanente está no meio da cidade e, cada vez mais, perde espaço para condomínios e empresas. A ideia é que ela seja recuperada com a plantação de vegetação nativa (cerrado) e que as pessoas possam conviver com a natureza, em seu estado natural, no meio da cidade.

5


APp na cidade

fonte: Primeiro lugar do concurso para o Parque del Río Medellín, Colômbia.

___ 201


N

___ 202

Lagoa central Desde o primeiro projeto do Parque da Vila Industrial, de Prestes Maia, a Lagoa Central seria um dos principais eixos. Ela se localizaria, aproximadamente, onde estava o Matadouro devido a quantidade de afluentes do Córrego Piçarrão que se encontravam nessa região. Hoje, por conta da maior parte estar canalizado e em galeria subterrâneas, não temos noção de como, no passado, a área era alagadiça. A ideia é que a lagoa esteja em contato com áreas de lazer do parque, como a Parque Água-Spray, com as quadras e com o campo de futebol e com o ginásio (já existentes).

6


LAGOA CENTRAL escala: 1: 2.500

1.

3.

2.

4.

1.

Parque รgua-Spray

2.

Quadras e deck de encontro

3.

bar e sanitรกrios

4. mirante e bares


N

Curtume cantusio ___ 208

Desde o encerramento de suas atividades, o Curtume Cantusio é um grande problema urbano. Ele está em um área de grandes vazios urbanos e, por ser inteiro fechado, não tem conexão com a cidade. A proposta é que ele integre o Parque da Vila da maneira mais fluída possível, ou seja, sendo uma extensão do espaço livre público. Para isso, propõe-se a abertura de uma grande praça que liga a avenida dr. abelardo pompeu do amaral com o principal acesso do curtume. A proposta, para os 13.000 m² de área construída, é integrar complexo por meio de um Mercado Municipal, que usará a estrutura industrial como “casca”, deixando-a livre; um Mercado de bairro; um local para restaurantes e uma creche. Os três últimos foram levantados no estudo de necessidades do bairro, com visitas e entrevistas realizadas no dia 21-09-2016. A partir deses usos cotidianos, a ideia é trazer o curtume de volta ao dia-a-dia do bairro e dos cidadãos. Vale lembrar que o Mercado Municipal de Campinas, na rua benjamin constant, não super as necessidades da cidade. Sua demanda já não condiz com o edifício de 1908.

7


Praça curtume cantusio escala: 1: 5.000

2.

1.

3.

4.

1.

Curtume Cantusio

2.

praça Curtume - patamares

3.

espelho d’água

4. ponte conexão parque


Para que a proposta de integração do Parque da Vila com o Curtume Cantusio seja completa algumas remodelações precisarão ocorrer. Como mostrado anteriormente, o Curtume foi tombado por partes. Este trabalho entende que, por se tratar de um patrimônio industrial, tudo que é ligado à produção deve ser mantido e reinserido no contexto da cidade. Dado isso, a região destacada em amarelo, é datada de 1960 e foi construída como suporte administrativo, sem relação com a produção do curtume. Um dos grandes problemas que o complexo apresenta é a falta de visibilidade (não existem aberturas nas fachadas), tornando-o ainda mais inseguro.

___ 212

Logo, a proposta deste trabalho é que essa região seja uma “área de sacrifício” e seja demolida em prol de maior abertura e conexão com a cidade e com o Parque da Vila. A proposta, pós-sacrifício, é que existam marcas no chão que mostrem por onde percorriam as paredes do perímetro externo do edifício demolido. No corte da avenida dr. carlos de campos podemos notar a grande diferença entre as fachadas dos blocos que foram construídos com carácter industrial. O edifício em questão apresenta uma fachada repetitiva, com uma pequeno acesso e não tem relação com a lógica construtiva do Curtume Cantusio.


Praça curtume cantusio escala: 1: 2.000

2.

4.

1. 3.

5.

3.

1.

restaurantes e bares

2.

mercado de bairro

3.

mercado municipal

4. creche

5.

administração


cantusio - av. carlos de campos escala: 1:1.500

Área de sacrifício


Mercado cantusio escala: 1:1.500


___ 218


anexos


REFERÊNCIAS PROJETUAIS

___ 222

Centro de Interpretação da Batalha de Atoleiros Gonçalo Byrne

parque da juventude

Rosa Kliass


___ 223

MADRID RĂ?O

Burgos e Garrido

rosa luxemburgo

In Situ Architectes Paysagistes


PARQUE FLORESTAL

3.

___ 224 1.

2.

fonte: AMC, 1939. Planta do Parque Florestal de Campinas de 1939.


1.

2.

O Parque da Vila Industrial foi proposto pela primeira vez por Prestes Maia. A ideia era ele se localizar nos pastos do Matadouro Municipal40, onde já em 1935 o local era um entrave no crescimento urbano, atuando como uma barreira de “não-ocupação”. Compreendemos isto no mapa de 1929, com o crescimento de Campinas e a formação dos bairros São Bernando e o Parque Industrial, um grande vazio urbano foi gerado ao redor do Matadouro e seus pastos. A imagem ao lado mostra o desenho preliminar do Parque Florestal, poucas foram as informações obtidas acerca de sua implantação. Entretanto, nos detalhes, podemos encontrar a data de 1939 - pós Plano de Melhoramentos Urbanos - e uma legenda indicando a proximidade com um dos curtumes da cidade, que pressupõem que seja a Companhia Campineira Curtidora. Logo, sua localização atual seria entre o prédio do antigo Curtume e o túnel Joá Penteado. O projeto ainda conta com 12 repartições, marcadas por diferentes tipos de árvores de grande porte. Não conseguimos encontrar o motivo da não-implantação do Parque Florestal, sabemos que a terra chegou a ser adquirida. A planta ao lado nos mostra que o Parque Florestal não era o mesmo projetado por Maia, sua dimensão era razoavelmente menor, assim como sua caracterização.

3.

40  Com implantação do parque, o Matadouro iria ser transferido para os arrabaldes da cidade, distante do centro urbano e de bairros em expansão (BADARÓ, 1996).

___ 225


___ 226

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universidade estadual de campinas faculdade de arquitetura e urbanismo


Campinas do Córrego Omitido | O Parque da Vila  

TFG - Unicamp 2016

Campinas do Córrego Omitido | O Parque da Vila  

TFG - Unicamp 2016

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