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Universidade Federal de Alagoas Faculdade de Arquitetura e Urbanismo - FAU

(IM)PERMANÊNCIAS E (IN)SEGURANÇAS DA MULHER NA CIDADE: Pensando os espaços públicos a partir de uma perspectiva feminista no bairro da Jatiúca – Maceió/AL

Júlia de Freitas Correia Lyra

MACEIÓ - AL 2018


Universidade Federal de Alagoas Faculdade de Arquitetura e Urbanismo - FAU

(IM)PERMANÊNCIAS E (IN)SEGURANÇAS DA MULHER NA CIDADE: Pensando os espaços públicos a partir de uma perspectiva feminista no bairro da Jatiúca – Maceió/AL

Júlia de Freitas Correia Lyra Orientadora: Juliana Michaello Macêdo Dias Trabalho Final de Graduação apresentado ao Curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Alagoas como requisito parcial para obtenção do grau de Bacharel em Arquitetura e Urbanismo.

MACEIÓ - AL 2018


Em especial às mulheres da minha vida: Á minha mãe, Simone, pelo amor e apoio incondicional em todas as horas, e à todas as mulheres da minha família; À Malena, pela parceria e companheirismo nessa caminhada e na vida; À minha tia Péu, pelo suporte e incentivo; Às mulheres que vieram antes de mim e que, graças à suas lutas, estamos aqui hoje traçando novas; Às usuárias anônimas da Jatiúca que não conheci, mas que por muitas vezes me senti próxima; Ao Coletivo de Intervenção Urbana Severinas e à todas as envolvidas na ação promovida no bairro; À minha orientadora, Ju, por tornar o processo mais simples e leve; E à todas as mulheres que resistem diariamente na cidade. Ao meu pai, Lula, por todo o carinho e apoio em tudo que faço; Aos meus irmãos, Jovino, Pedro, Felipe e Patrícia, pessoas nas quais me espelho; Aos meus companheiros de curso, em especial à Alê, Ka, Bela, Yasmin, Gabi e Mury, pelo aprendizado cotidiano; Ao PET e à todos os petianos, pela troca de conhecimento; Às minhas professoras e professores do Curso de Arquitetura e Urbanismo; E à cada pessoa que contribuiu de alguma forma para que eu pudesse estar exatamente onde estou, falando sobre mulher e cidade.


RESUMO

A cidade - entendida como agente ativo na produção e reprodução das relações sociais e não apenas como cenário – reproduz a lógica de dominação e expressa as desigualdades do sistema capitalista. O trabalho tem como objetivo analisar a ocupação (ou não) dos espaços públicos do bairro da Jatiúca, em Maceió/Alagoas, pelas mulheres, identificando os espaços e suas características que geram insegurança e, consequentemente, o sentimento de medo e vulnerabilidade da mulher. O estudo pretende responder às seguintes perguntas: 1) Quais são esses espaços de medo que não são vivenciados plenamente pela mulher?; 2) Que tipos de espaço inibem a presença ou permanência da mulher? E 3) Quais os conflitos e barreiras que a mulher enfrenta nos espaços públicos?. Para tal, serão realizadas intervenções urbanas, mapeamentos colaborativos e questionários online, com objetivo de dar voz a essas sujeitas de forma anônima. O que se pretende, a partir dos resultados, é avaliar como é possível trabalhar o espaço para garantir a autonomia dessas mulheres em estruturas urbanas. Palavras-chave: Mulher, feminismo, cidade.


LISTA DE FIGURAS

Figura 01: A (não)metodologia..............................................................................................................................................11 Figura 02: Localização do bairro da Jatiúca...........................................................................................................................15 Figura 03: A Jatiúca e seus bairros vizinhos...................................................................................... ......................................17 Figura 04: Para se localizar: os pontos principais do bairro da Jatiúca....................................................................................18 Figura 05: Mapa do bairro da Jatiúca................................................................................................................................ ....22 Figura 06: Interseccionalidade de opressões...........................................................................................................................26 Figura 07: Mapa de percursos pessoais..................................................................................................................................61 Figura 08: Espaço Viver Bem, da Unimed, situado no Corredor Vera Arruda............................................................................62 Figura 09: Academia pública do Corredor Vera Arruda...........................................................................................................63 Figura 10: Esquema de percursos diferenciados para mulheres e homens. ..............................................................................85 Figura 11: Plataforma digital desenvolvida pela autora...........................................................................................................87 Figura 12: Passo-a-passo dos relatos anônimos no website.....................................................................................................68 Figura 13: Gráfico da faixa etária das respondentes do questionário.......................................................................................69 Figura 14: Gráfico de onde moram, estudam e trabalham as respondentes. ..........................................................................70 Figura 15: Gráfico de locais de frequentam as respondentes. .................................................................................................71 Figura 16: Gráfico de cor/raça das respondentes...................................................................................................................73 Figuras 17: Gráfico de horários/dias que frequentam o bairro. ..............................................................................................73 Figura 18: Gráfico de renda familiar mensal das respondentes...............................................................................................75 Figura 19: Gráfico de meios de transporte. ........................................................................................................................... 76 Figura 20: Medos e sentimentos da mulher na Jatiúca. ..........................................................................................................77 Figura 21: Características positivas e negativas do bairro da Jatiúca segundo as respondentes. ...............................................79 Figura 22: Locais críticos do bairro da Jatiúca segundo as respondentes. ................................................................................81 Figura 23: Estratégias de sobrevivência das respondentes. .....................................................................................................83 Figura 24: Propostas de melhorias. .......................................................................................................................................84


Figura 25: Resultados do mapeamento colaborativo desenvolvido pela autora. .......................................................................85 Figura 26: Mapeamento colaborativo de medos e violências de gênero...................................................................................86 Figura 27: Exemplos de perseguição contra a mulher mapeados anonimamente.....................................................................87 Figura 28: Exemplos de assédio contra a mulher mapeados anonimamente............................................................................88 Figura 29: Intervenções urbanas realizadas no barro..............................................................................................................89 Figura 30: Intervenções urbanas realizadas no barro..............................................................................................................90 Figura 31: Intervenções urbanas realizadas no barro..............................................................................................................90 Figura 32: Cartazes espalhados pelo bairro............................................................................................................................91 Figura 33: Cartaz situado no Corredor Vera Arruda. ..............................................................................................................92 Figura 34: Cartaz situado no Corredor Vera Arruda............................................................................................................. ...92 Figura 35: Cartaz situado no Corredor Vera Arruda............................................................................................................. ...93 Figura 36: Cartaz situado na Rua Prof. Manoel Coelho Neto...................................................................................................94 Figura 37: Entrevista realizada para o site G1. .......................................................................................................................94 Figura 38: Cartaz situado na Rua Prof. Manoel Coelho Neto. .................................................................................................95 Figura 39: Cartaz no Botequim Paulista. ................................................................................................................................96 Figura 40: Cartaz no Botequim Paulista. ................................................................................................................................96 Figura 41: Cartaz situado na Av. Amélia Rosa. .......................................................................................................................97 Figura 42: Cartaz situado na Av. Amélia Rosa.........................................................................................................................97 Figura 43: Cartaz situado nas proximidades do Centro Especializado de Atendimento à Mulher................................................98 Figura 44: Cartaz situado nas proximidades do Centro Especializado de Atendimento à Mulher................................................99 Figura 45: Diário de percursos e sensações............................................................................................................................101 Figura 46: Diário de percursos e sensações........................................................................................................................... .101 Figura 47: Reunião de preparação da intervenção urbana em conjunto com o Coletivo de Intervenção Urbana Feminista Severinas...............................................................................................................................................................................104 Figura 48: Reunião de preparação da intervenção urbana em conjunto com o Coletivo de Intervenção Urbana Feminista Severinas...............................................................................................................................................................................104


Figura 49: Reunião de preparação da intervenção urbana em conjunto com o Coletivo de Intervenção Urbana Feminista Severinas...............................................................................................................................................................................104 Figura 50: Reunião de preparação da intervenção urbana em conjunto com o Coletivo de Intervenção Urbana Feminista Severinas...............................................................................................................................................................................104 Figura 51: Divulgação da intervenção urbana “Não mexe comigo que eu não ando só”...........................................................105 Figura 52: Intervenção urbana realizada no bairro..................................................................................................................107 Figura 53: Intervenção urbana realizada no bairro..................................................................................................................107 Figura 54: Intervenção urbana realizada no bairro..................................................................................................................107 Figura 55: Intervenção urbana realizada no bairro..................................................................................................................107 Figura 56: Intervenção urbana realizada no bairro................................................................................................................. .109 Figura 57: Intervenção urbana realizada no bairro................................................................................................................. .109 Figura 58: Intervenção urbana realizada no bairro..................................................................................................................109 Figura 59: Intervenção urbana realizada no bairro..................................................................................................................109 Figura 60: Intervenção urbana realizada no bairro................................................................................................................. .110 Figura 61: Intervenção urbana realizada no bairro..................................................................................................................110 Figura 62: Intervenção urbana realizada no bairro................................................................................................................. .110 Figura 63: Intervenção urbana realizada no bairro................................................................................................................. .110 Figura 64: Intervenção urbana realizada no bairro..................................................................................................................111 Figura 65: Intervenção urbana realizada no bairro................................................................................................................. .112 Figura 66: Mapeamento de caracterização - edificações..........................................................................................................117 FIgura 67: Mapeamento de caracterização – fachadas/perfis...................................................................................................120 FIgura 68: Mapeamento de caracterização – vias/desenho urbano...........................................................................................122 FIgura 69: Mapeamento de caracterização – iluminação..........................................................................................................124


SUMÁRIO

INTRODUÇÃO................................................................................................................... ...................................................01 Estrutura de capítulos.............................................................................................................................................................07 1. (DES)CONSTRUINDO UM CAMINHO..............................................................................................................................09 1.1.

Leituras sobre o tema..................................................................................................................................................11

1.2. (Re)conhecendo o bairro da Jatiúca..............................................................................................................................14 2. ESCLARECENDO PREMISSAS, CONCEITOS E REFLEXÕES PESSOAIS.................................................................................19 2.1.

O que significa ser mulher?........................................................................................................................................20

2.2.

Por que falar de feminismo?.......................................................................................................................................26

3. PÚBLICO X PRIVADO, HOMEM X MULHER......................................................................................................................29 3.1.

O espaço urbano enquanto construção social.............................................................................................................30

3.2.

O papel social da mulher na cidade...........................................................................................................................32

3.2.1. O contexto brasileiro.................................................................................................................................................38 3.3.

Se essa cidade fosse minha? EU mandava ladrilhar....................................................................................................43

3.3.1. Dá para especializar minha experiência?: A geografia feminista e a territorialização das desigualdades de gênero.................................................................................................................. .........................45


3.3.2. Quem pensa a minha cidade?: Compreendendo a importância da perspectiva de gênero no planejamento urbano............................................................................................................................................47 3.3.3. Delas para elas: Essa cidade É minha.........................................................................................................................51 3.4.

Eu só quero é ser feliz e andar tranquilamente com a roupa que eu escolhi: O medo da violação no espaço urbano............................................................................................................................................. ............55

4. NARRATIVAS FEMININAS................................................................................................................................................59 4.1.

Por onde andei: Meus relatos pessoais........................................................................................................................61

4.2.

Me diga como tu andas e te direi quem és: Diálogos anônimos, sujeitas ocultas...........................................................68

4.2.1. Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim: reconhecendo e mapeando medo e violência...................................68 4.2.2. A cidade que fala: intervenções urbanas como instrumento de escuta anônima.............................................................91 4.3.

Andanças exploratórias: Diálogos não-anônimos, sujeitas reveladas...........................................................................102

4.3.1. Elas também andam: Relatos pessoais de outras mulheres..........................................................................................102 4.3.2. Não mexe comigo que eu não ando só: ação coletiva no bairro da Jatiúca.................................................................104 4.4.

Mulher, medo e espaço: uma caracterização do bairro da Jatiúca..............................................................................115

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS.............................................................................................................................................125 6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.....................................................................................................................................127 APÊNDICE.........................................................................................................................................................................131


Primeiramente, o espaço. De início, as mulheres parecem confinadas. A sedentariedade é uma virtude feminina, um dever das mulheres ligadas à terra, à família, ao lar. Penélope, as vestais, figuram seus antigos modelos, as que esperam e velam. Para Kant, a mulher é a casa. O direito doméstico assegura o triunfo da razão; ele enraíza e disciplina a mulher, abolindo toda a vontade de fuga. Pois a mulher é uma rebelde em potencial, uma chama dançante, que é preciso capturar, impedir de escapar. As formas de confinamento, de enclausuramento das mulheres, são muitas: o gineceu, o harém, o quarto das mulheres do castelo feudal retratado por Jeanne Bourin num romance recente, o convento, a casa de estilo vitoriano, o bordel. É preciso proteger as mulheres, ocultar sua sedução. Cobri-las de véus. ‘Uma mulher em público está sempre fora do lugar’, diz Pitágoras. ‘Toda mulher que se mostra se desonra’, escreve Rousseau a D’Alembert. O que se teme: as mulheres em público, as mulheres em movimento. A dissimetria do vocabulário ilustra esses desafios: homem público é uma honra; mulher pública é uma vergonha, mulher da rua, do trottoir, do bordel. O aventureiro é o herói dos tempos modernos; a aventureira, uma criatura inquietante. A suspeita pesa sobre os deslocamentos das mulheres, principalmente das mulheres sozinhas

(PERROT, 2008, p. 135-136 apud VIANNA, 2014, p. 6).


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com a conservação desta estrutura (GOUVEIA, 2005, p. 1).

“Como seria um distrito planejado a partir da perspectiva de gênero?”1. Essa foi a pergunta lançada num concurso realizado pelo projeto Oficina de Mulheres em Viena no ano de 1993, mas que poderia ser aplicada em todo o mundo, ainda que com certas peculiaridades locais. Isto se dá porque apesar da mulher se fazer presente na vida urbana, as cidades em geral “não são pensadas para (e nem por) mulheres” (VIANNA, 2014, p. 37). Considerando que “as mulheres não vivem a ocupação do espaço público de maneira igual aos homens” (Ibidem, p. 7), Gouveia (2005) pontua que:

O trabalho parte do pressuposto que a cidade é, majoritariamente, um espaço de dominação masculina e que os “espaços públicos são raramente designados e planejados para facilitar e melhorar [ou melhor, garantir] o acesso das mulheres a esses espaços” 2, configurando-se enquanto barreiras na vivência das mesmas no âmbito urbano. Para ilustrar tal conjectura, imagine uma cidade com:

Falar das desigualdades não é apenas tratar do problema do ponto de vista do acesso desigual aos espaços e processos das cidades é, acima de tudo, reconhecer que as desigualdades entre mulheres e homens não atravessam a produção e reprodução das cidades, mas são, por princípio, elementos constituintes das mesmas. Esta é uma distinção importante, na medida em que se atuamos apenas no plano das desigualdades de acesso estaremos trabalhando os impactos da estrutura na vida das mulheres - o que é importante, mas não o suficiente – enquanto que ao assumirmos as desigualdades de gênero como estruturadoras e dinamizadoras das cidades estaremos enfrentando a questão do poder e consequentemente dos privilégios que os homens têm

[...] várias esquinas cheias de mulheres sentadas conversando, passeando, alimentando as crianças, trocando receitas e livros, planejando a festa do bairro ou apenas se entregando ao tempo que passa. Imagine esquinas cheias de mulheres jovens assistindo o mundo passar enquanto saboreiam um chá e discutem política, novelas e o mais recente orçamento financeiro. Imagine esquinas cheias de mulheres mais velhas contemplando o estado do mundo e relembrando suas vidas. Imagine esquinas cheias de mulheres trabalhadoras domésticas planejando sua próxima greve para um aumento no salário mínimo. Se se pode imaginar tudo isso, podese imaginar uma cidade radicalmente alterada (PHADKE et al., 2011, p. 180, tradução nossa) 3.

Disponível em: <http://www.caubr.gov.br/wpcontent/uploads/2017/03/artigo_Renata_3-projetos-em-Viena.pdf> Acesso em: 11 de fevereiro de 2018. 2 Documentário Gender and Space, redigido pela OneWorld Foundation, em 2011. 1

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“Imagine varied street corners full of women sitting aroung talking, strolling, feeding children, exchanging recipes and books, planning the neighbourhood festival or just indulging some ‘time pass’. Imagine street corners full of Young women whatching the world go by as they ship tea and discuss politics, soap operas and the latest final budger. Imagine street corners full of older women contemplating the state of the world and reminiscing about their lives. Imagine


Isto se dá porque para a mulher estar presente ou permanecer no espaço público, são exigidas uma série de condutas e comportamentos intrínsecos 4 que ela deve seguir quais locais em que podem estar, em quais horários, com que roupa devem andar e com quem devem estar acompanhadas são apenas algumas das questões que envolvem a ocupação da mulher no espaço urbano e que as são ensinadas desde muito pequenas.

Se mulheres são vistas abusando da "liberdade" que lhes é concedida ou desempenho inadequadamente de suas regras como "boas" mulheres, então o peso do olhar vigilante torna-se visível na forma de códigos articulados relativos às vestimentas, normas de comportamento e modos de conduta aceitável. [...]. Esses códigos são aplicados em vários níveis pela família, pela comunidade e até mesmo pelo Estado através de limites implícitos e explícitos que delimitam street corners full of female domestic workers planning their next strike for a rais in minimun wage. I fone can imagine all of this, one can imagine a radically alterated city” (PHADKE et al., 2011, p. 180). 4 A contextualização histórica e social em que se insere a mulher varia de acordo com o local e, consequentemente, alteram-se também tais comportamentos que envolvem a experiência urbana feminina – e é justamente por isso que trataremos, neste trabalho, especificamente da mulher ocidental contemporânea, alagoana, maceioense e frequentadora da Jatiúca. Explanar sobre outras mulheres envolveria uma série de questões particulares de outros contextos e recortes de análise, que não serão seriam cabíveis no espaço de tempo deste estudo. Entretanto, é preciso esclarecer que, quando nos referimos a essa(s) mulher(es), não temos a intenção de reduzi-las a uma generalização, porque reconhecemos que existe uma série de nuances dentro desse próprio contexto que diferencia, por exemplo, as mulheres negras das brancas, as ricas

o acesso das mulheres ao público (PHADKE et al., 2011, p. 36, tradução nossa) 5.

Tais condutas se caracterizam pela dualidade: de um lado o controle, domínio e a moralidade que expressam que a presença da mulher no espaço é (e deve ser) controlada, demonstrando que o corpo da mulher é domínio público 6; por outro lado, o discurso da preocupação e o cuidado com o “sexo frágil”, que aponta para a vulnerabilidade da mulher enquanto ser público. Ambas situações desencadeiam o sentimento que acompanha grande parte das mulheres ao longo de sua vida: o medo pelo simples fato de serem mulheres.

Elas vivenciam o risco constante de serem vítimas de violência sexual e os assédios diários que sofrem (as ditas “cantadas”), que de uma maneira ou de outra, acabam por reafirmar que aquele espaço, o público, das pobres, entre outras. No Capítulo 3, será esclarecida a construção do papel social da mulher, que ilustra o panorama da diferenciação dessas múltiplas mulheres. 5 “If women are seen to misuse the ‘freedom’ granted to them or to inadequately perform their roles as ‘good’ women, then the weight of the watchful gaze becomes visible in the shape o articulated codes relating to dress, norms of behaviour and modes of acceptable conduct. [...] These codes are enforced at various levels by the family, community and even the state through inplicit and explicit boundaries that delimit women’s access to the public” (PHADKE et al., 2011, p. 36). 6 Em função da construção social da cultura machista, o corpo da mulher pública é automaticamente compreendido como público, tendo seu espaço privado invadido constantemente por homens com assédios, toques ou até mesmo estupros.

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a rua, a cidade, não lhes pertence. Sair à rua, ainda que atividade cotidiana de todos e todas, tem um peso muito diferente para as mulheres, que devem sempre se defender e reafirmar o seu direito de estar ali (VIANNA, 2014, p. 36).

É importante esclarecer que inicialmente este trabalho pretendia investigar como nós mulheres ocupamos os espaços públicos e quais desses espaços eram utilizados plenamente, entretanto as vivências em campo direcionaram o trabalho a um caminho oposto: a discussão passou a centrar nos espaços que não ocupamos7 – ou não ocupamos plenamente -, entendidos nesse trabalho como espaços de medo. O foco, portanto, passa a ser não apenas a violência em si, mas apenas a ideia dela que precede à própria ação, gerando uma constante sensação de insegurança e vulnerabilidade na mulher por questões específicas de gênero.

Na realidade, as mulheres parecem ter um crime adicional a temer – a violação – o qual os homens usualmente não temem (Riger et al., 1978). De acordo com esta ideia, Warr (1984, cit. por Stanko,1993), refere a probabilidade do medo do crime sentido pelas mulheres seja o medo da violação e, do mesmo modo, Gordon e Riger (1989) denominaram o medo da violação como “female fear”, o medo feminino, dada a sua proeminência e

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O sentido de ocupar para este estudo não cabe em sua definição de dicionário – que traz o sentido de “preencher; encontrar-se em [um espaço]” -, mas está

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transversalidade neste gênero (BERTA; ORNELAS; MARIA, 2007, p. 136).

Neste sentido, o trabalho busca responder às seguintes perguntas de pesquisa:

Compreendemos, neste estudo, que “a cidade não é cenário – um palco neutro das relações sociais – mas agente na produção e reprodução das relações humanas” (VIANNA, 2014, p. 8). Sendo o espaço urbano local que funciona ativam ente como um elemento de ordenamento das relações humanas, é relevante um estudo que se proponha a especializar essas relações e é justamente dentro deste panorama que se torna pertinente analisar especificamente a ocupação da mulher nos espaços públicos. O interesse pessoal pela relação entre mulher e cidade veio a partir da minha experiência diária na cidade de Maceió, especificamente no bairro da Jatiúca, e a intenção de trabalhar o relacionado ao significado de tomar como seu, apropriar-se ou fazer uso pleno do espaço.


tema vem dessa própria vivência urbana, “de experienciar nas práticas cotidianas o impacto do planejamento urbano que torna homogênea a sociedade e não se atém as necessidades das minorias8” (SARAIVA, 2017, p. 3). No trabalho me posiciono enquanto usuária do espaço e trago parte da minha vivência pessoal, pois posso afirmar com propriedade que existem dificuldades e medos a serem enfrentados por ser mulher a partir do momento em que me coloco na rua – seja por vontade ou necessidade. Nesse sentido, é importante esclarecer que a construção desse trabalho parte do pressuposto de que para saber como se sente tem que sentir – e é nesse sentido que ele será todo redigido em primeira pessoa, enfatizando a necessidade de me colocar enquanto sujeito de análise. O estudo surge da urgência de reconhecer que a mulher enquanto usuária do espaço possui necessidades particulares e precisa estar incluída no processo de pensar a cidade. Além disso, enquanto arquitetos e urbanistas precisamos considerar as singularidades humanas, promovendo uma cidade para todos e todas que englobe também as questões de gênero. É pertinente, portanto, aproximar o debate, visto que é na cidade onde a diversidade se expressa e também se esconde. A discussão específica sobre a temática de gênero é uma constante nos estudos antropológicos, porém é preciso articular a discussão sobre produção do espaço urbano com as O termo “minoria” diferente do que espera-se, não se refere a grupos que se encontram em menor quantidade em uma sociedade, mas sim aos grupos marginalizados que, por consequência, encontram-se em desvantagem social. 8

desigualdades de gênero. No Brasil, a produção acadêmica sobre relações de gênero e espaço possuía “um número reduzido de pesquisadores com produção sistemática na área” (SILVA, 2007, p. 119), mas é possível notar um crescimento significativo na exploração acadêmica do tema, inclusive dentro do campo da Arquitetura e Urbanismo. É notório que a maioria dos trabalhos que relacionam gênero e espaço urbano estão concentrados entre o ano de 2010 e os dias atuais, resultado da ascensão do debate últimos anos. Trabalhos como os de Pinto (2011), Gonzaga (2011), Vianna (2014), Peccini (2016), Saraiva (2017), Tavares (2017) e diversos outros estudos utilizados aqui ilustram o panorama temporal em que se insere tal temática. A vivência na universidade e, em especial, no curso de Arquitetura e Urbanismo, abre um leque de novas formas de ver a cidade. Essas novas perspectivas possibilitam uma série de percepções distintas, quebrando a visão exclusiva construída através de cada realidade pessoal, que compreende o espaço urbano de Maceió de forma restrita. A relevância do trabalho é justamente em tentar apreender a visão das usuárias – mesmo que anônimas - a partir de perspectivas nunca abordadas no bairro da Jatiúca, a fim de compreender questões de gênero ainda inexploradas, mas pertinentes à cidade. Para a construção do trabalho, optou-se por analisar um bairro de classe média, marcado pela presença de uma variedade As mulheres, por exemplo, representam 51,6% da população brasileira (PNAD, 2014), mas são consideradas minorias devido a uma herança histórica que posicionou-as numa posição de submissão com relação aos homens.

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de usos e, consequentemente, uma diversidade de pessoas, com classes sociais e grupos distintos convivendo num mesmo espaço – ou ao menos em espaços muito próximos 9. Deste modo, tornase possível apreender perspectivas variadas, considerando e respeitando que dentro da categoria gênero há distinções entre as próprias mulheres – como, por exemplo, a própria questão de classe10 - que são relevantes na diferenciação dessas múltiplas vivências e que, portanto, devem ser consideradas.

percebi que ao circular pelo bairro, mesmo que subconscientemente, muitas vezes optei por caminhos mais longos, rotas específicas, com mais visibilidade, iluminação e movimentação.

[...] A observação da categoria gênero, usada primeiramente para analisar diferenças entre os sexos, foi estendida à questão das diferenças dentro da diferença (gênero feminino): mulheres de cor [...], mulheres trabalhadoras pobres, mulheres lésbicas, mães solteiras, todas desafiando a hegemonia heterossexual da classe média branca do termo “mulheres” - argumentado que as diferenças fundamentais da experiência tornaram impossível reivindicar uma identidade isolada (ARAÚJO, 2004, p. 27).

Em síntese, o trabalho tem por objetivo geral analisar a ocupação (ou não) dos espaços públicos do bairro da Jatiúca pelas mulheres, identificando os espaços e/ou características dos espaços que geram insegurança e, consequentemente, o sentimento de medo e vulnerabilidade da mulher. Além disso, visa espacializar e visualizar como a questão de gênero se materializa territorialmente (ou não) na cidade, relacionando a construção social do papel da mulher com a sua experiência urbana.

O principal motivo que levou a escolha foi o fato de ser moradora do local e participar diariamente da dinâmica do bairro, vivenciando diretamente as problemáticas. Ao longo do tempo,

Parte-se do pressuposto que a “produção desse espaço não se dá de forma imparcial, ou seja, se dá pelos olhos e mãos do patriarcado11 e do Capital e pode funcionar, portanto, como agente de manutenção das desigualdades frutos destes sistemas” (PECCINI, 2016, p. 17) e que as relações de opressão de gênero

Essa ocupação diversificada do bairro se dá desde a sua formação, visto que o bairro consistia numa parte afastada do núcleo urbano, onde emergiram ocupações de baixa renda, como os edifícios de habitação popular do Conjunto Castello Branco. 10 É importante salientar que neste trabalho o termo classe não está referindose a renda ou dados específicos do IBGE, mas a rituais de consumo. Considero,

portanto, que pessoas permeiam em uma mesma classe não necessariamente por possuírem uma renda aproximada, mas por efetuarem consumos parecidos, visto que tratar e categorizar classe social no brasil abrange uma infinidade de questões e variações que não cabem nessa generalização. 11 Patriarcado e outros conceitos intrínsecos serão esclarecidos no Capítulo 3 deste trabalho.

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Ademais, minha vivência do espaço é restrita e opcional, visto que gozo de privilégios inacessíveis a maioria da população, como o carro. Neste sentido, o contato direto com outras mulheres se faz extremamente necessário para a ampliação da minha visão sobre o bairro.


se expressam também no espaço urbano e não apenas nele, visto que as mesmas decorrem de uma construção social, que “tem uma base material e não é unicamente ideológica; em outros termos a ‘mudança de mentalidades’ jamais acontecerá de forma espontânea, se estiver desconectada da divisão do trabalho concreta” (PINTO, 2011, p. 20 apud KERGOÀT, 2009). O que se pretende no dado momento é, através da compreensão de como as mulheres se sentem e utilizam (ou deixam de utilizar) os espaços públicos da Jatiúca, avaliar e discutir como é possível trabalhar o espaço para promover a autonomia das mulheres em estruturas urbanas contemporâneas. A partir da diversidade do bairro, o estudo propõe-se a avaliar se o bairro da Jatiúca estimula e/ou inibe a presença das mulheres, sejam as que trabalham, moram ou aquelas que o visitam, por exemplo, por lazer, fazendo com que as mesmas se sintam ou não convidadas a permanecer no mesmo. O trabalho visa, portanto, identificar quais locais e fatores favorecem e coíbem a ocupação ou desocupação urbana feminina, reconhecendo os espaços de medo e vulnerabilidade. Para tal, os seguintes aspectos instrumentais nortearão o alcance da meta geral do trabalho: 

Visualizar geograficamente quais espaços públicos da Jatiúca são frequentados e quais não são frequentados pelas mulheres e compreender quais os motivos que envolvem a relação da mulher com tais espaços;

Perceber como as relações de poder/opressão se configuram territorialmente nos espaços públicos da Jatiúca (praça, praia, ruas e nas proximidades de estabelecimentos como bares, instituições de ensino, lojas, entre outros), focando na mulher; Associar como as relações de gênero influenciam na ocupação ou esvaziamento de determinados espaços pela mulher; Mapear coletivamente os espaços que geram medo e violência de gênero através da participação direta das usuárias – anonimamente ou não -, identificando suas características; Buscar estratégias de garantir a autonomia da mulher e seu amplo direito a cidade.

Estrutura de capítulos O primeiro capítulo deste trabalho, denominado (Des)construindo um caminho, apresenta o processo metodológico empregado no estudo, desde a estruturação e organização do método a ser aplicado na análise até o aporte teórico adotado. Ele leva esse nome justamente por não apresentar, inicialmente, uma metodologia definida, cuja construção se deu (e ainda se dá) continuamente até a conclusão do trabalho. Num segundo momento, (a) Leituras sobre o tema destrincha o referencial teórico que norteou e embasou todas as etapas do estudo. Para situar o contexto do objeto de estudo deste |


trabalho, o capítulo traz também (b) (Re)conhecendo o bairro da Jatiúca, que apresenta a área do recorte em estudo, o bairro da Jatiúca, fazendo um breve descritivo do mesmo. Por sua vez, o segundo capítulo, intitulado Esclarecendo premissas, conceitos e reflexões pessoais, traz definições importantes para o entendimento do trabalho. Além de esclarecer conceitos inerentes como feminismo, gênero e patriarcado, constam algumas definições relativas e como entenderemos eles especificamente neste estudo, como, por exemplo, a visão do que é ser mulher. O terceiro capítulo, Público – privado x homem - mulher, busca trazer uma contextualização histórica da construção social que delineou as relações de gênero e a forma como nossas cidades se configuram hoje. Inicialmente, em (a) O espaço urbano enquanto construção social, será introduzido brevemente o processo histórico, político e social no qual as cidades foram geradas e se reconstroem diariamente, buscando também posicionar o leitor numa noção temporal dos acontecimentos. Em seguida, (b) O papel social da mulher na cidade, é um complemento do que foi relatado anteriormente, enfatizando a posição da mulher dentro desse contexto social e a evolução da conquista dos direitos femininos ao longo do tempo. Além de apresentar ao leitor o panorama histórico que desenhou a condição da mulher no espaço urbano, será exposto como a teoria feminista influenciou as lutas urbanas e passou a reivindicar espaço nas teorias que tratam de cidade, através do Urbanismo com perspectiva de gênero e da Geografia Feminista. A fim de |

demonstrar a aplicação dessas teorias no âmbito urbano, serão explanadas experiências práticas de planejamento urbano com enfoque de gênero para depois, em (c) Eu só quero é ser feliz e andar tranquilamente com a roupa que eu escolhi: o medo da violação no espaço urbano, inserir o debate sobre o medo e a (in)segurança da mulher no espaço público. A quarta etapa do trabalho, Narrativas femininas, consiste numa compilação de relatos de mulheres coletados a partir de metodologias distintas: inicialmente, do meu ponto de vista pessoal em (a) Por onde andei: meus relatos pessoais, seguido de (b) Me diga como tu andas e te direi quem és: diálogos anônimos, sujeitas ocultas, que baseia-se em relatos anônimos de mulheres sobre suas experiências no bairro da Jatiúca. Os dados foram coletados através de questionários e mapeamentos online e através de intervenções urbanas pontuais pelo bairro. Depois, (c) Andanças exploratórias: diálogos não-anônimos, sujeitas reveladas descreve as experiências de usuárias nãoanônimas do bairro, retratando a experiência coletiva de observação, apreensão da dinâmica e intervenção no espaço através de caminhada noturna grupal. Por fim, em (d) Mulher, medo e espaço: uma caracterização do bairro da Jatiúca foi realizado um copilado das informações obtidas anteriormente através da elaboração de mapeamentos, possibilitando uma análise mais detalhada do objeto de estudo.


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Para uma melhor compreensão das etapas subsequentes, o presente capítulo descreve os métodos adotados ao longo do trabalho, bem como o referencial teórico que embasa o estudo. A metodologia do trabalho consiste numa investigação empírica que tem como base uma avaliação qualitativa dos espaços públicos da Jatiúca. Optou-se por adotar uma análise pautada por resultados qualitativos em detrimento de avaliações quantitativas por considerar que o mesmo “trabalha com o universo de significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes, o que corresponde a um espaço mais profundo das relações, dos processos e dos fenômenos” (MINAYO, 1999, p. 21 apud SIQUEIRA, 2015, p. 48).

Figura 01: A (não)metodologia. Fonte: Material elaborado pela autora, 2018.

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Trata-se sobretudo de uma atitude experiencial, na qual a observação atenta e detalhada toma por princípio a necessidade de uma imersão total e de um olhar minucioso dos usos, práticas, manipulações espaciais e relacionamento das pessoas com seus lugares (DUARTE; VILLANOVA, 2011, p. 43)

O maior desafio do trabalho consistiu em construir maneiras de contatar e debater com as protagonistas do estudo: as mulheres usuárias do bairro da Jatiúca. Trato aqui de medo e violência, assunto delicado entre as mulheres, considerando que lidamos diariamente com a vulnerabilidade, tanto no âmbito


público quanto no privado. Sendo assim, dialogar sobre o tema demanda ainda mais do que abertura e confiabilidade, o que levou o trabalho a optar por mecanismos de escuta que obtivessem autonarrativas anônimas. Para tal, o caminho mais lógico e simples foi, inicialmente, trabalhar com aplicação de questionários e mapeamentos através de uma plataforma colaborativa online. É sabido, entretanto, que apesar de extremamente eficaz – seja por atingir um grande número de respondentes territorialmente dispersos, por ser um espaço de coleta de dados rápida ou pela própria sensação de anonimato que a internet proporciona -, a própria divulgação direciona-se para um público específico, resultando num diálogo que tende a permanecer restrito ao ciclo pessoal de quem divulga.

espaço e, portanto, dando a real importância a minha narrativa cotidiana pessoal.

Considerando tais questões, definiu-se como alternativa a implementação de uma pesquisa-ação, utilizando-se de intervenções urbanas temporárias para promover o diálogo com mulheres de forma indireta e completamente anônima, afastando a figura da autora das usuárias e ainda assim obtendo respostas presenciais a partir do “olhar de dentro e de perto” (MAGNANI, 2002, apud DUARTE; VILLANOVA, 2013, p. 33). A estratégia busca descentralizar meu olhar restrito sobre o objeto de estudo, focando na perspectiva das demais usuárias e compreendendo a sujeita coletiva através de métodos variados.

1.1. Leituras sobre o tema

Por outro lado, seria contraditório excluir a minha perspectiva do trabalho, se considerarmos que também me coloco enquanto usuária do bairro. Optei por quebrar a relação entre sujeita e objeto, posicionando-me também como agente do

Por fim, o método se resumiu em registrar graficamente o objeto de estudo, construindo uma narrativa gráfica através de um mapeamento de conflitos e ocorrências – “um mapa feito de descontinuidades e contatos entre os lugares tecidos e hierarquizados pelas experiências emocionais, as lembranças seletivas, tal ou tal atividade” (DUARTE; VILLANOVA, 2011. P. 11) -, onde o produto de cada experiência descrita acima foi posteriormente analisado e relacionado com os demais, gerando uma leitura comparativa da realidade posta.

As referências bibliográficas que basearam o trabalho abrangem uma série de pesquisas e reflexões que tratam de questões específicas que envolvem ser mulher no espaço urbano. Para situar melhor o leitor na síntese teórica, subdividimos tais referências em quatro abordagens especificas: metodologia, urbano, área de estudo e mulher. Inicialmente, o direcionamento metodológico do estudo, ou mais especificamente a categoria analítica do trabalho, teve como base o comportamento lúdico construtivo e subjetivo proposto pelos situacionistas, ou mais especificamente por Guy Debord em A Teoria da Deriva, utilizando da psicogeografia e da deambulação para a análise e apreensão da ambiência local, |


além de conceituações como a Corpografia de Paola Berenstein Jacques e métodos de análise urbanística a partir da perspectiva de gênero do Manual de Análisis Urbano (2011). Tais abordagens nortearão a forma de olhar e apreender a dinâmica da ocupação urbana pelas mulheres, visto que a questão do corpo como instância pública é fundamental dentro da perspectiva de sexo/gênero e do pensamento feminista. E que

A cidade é lida pelo corpo como conjunto de condições interativas e o corpo expressa a síntese dessa interação descrevendo em sua corporalidade, o que passamos a chamar de corpografia urbana. A corpografia é uma cartografia corporal (ou corpocartografia, daí corpografia), ou seja, parte da hipótese de que a experiência urbana fica inscrita, em diversas escalas de temporalidade, no próprio corpo daquele que a experimenta, e dessa forma também o define, mesmo que involuntariamente – o que pode ser determinante nas cartografias de coreografias ou carto-coreografias (JACQUES, 2008).

Para a construção do trabalho, o espaço urbano será compreendido como ator social, componente ativo e elemento dinâmico, descartando a ideia de “espaço-palco” – ou espaço como elemento mútuo, alheio às relações sociais (VIANNA, 2014, p. 10). No tocante à discussão urbano, também será defendido o direito à cidade e à diversidade a partir da perspectiva de autores como Henri Lefebvre, em “O direito à cidade” (1968) e Jane Jacobs, em “Morte e Vida das grandes cidades” (1961). |

No que se refere à área de estudo, o trabalho de Taís Normande, intitulado História de uma permanência: A Jatiúca velha: pobres e ricos na orla marítima de Maceió (2000) traz estudos históricos sobre a formação do bairro da Jatiúca, indispensáveis à compreensão da dinâmica de ocupação do mesmo – que reflete diretamente no perfil da mulher que o habita. Além disso, trabalhos como As Marias que não calam: Perfil das mulheres vítimas de violência após a implementação da lei Maria da Penha em Maceió/AL, demonstram a trajetória da violência contra a mulher em Maceió, servindo de subsídio para o entendimento da situação da mulher na cidade. A bibliografia adotada neste trabalho para tratar especificamente da relação entre gênero e espaço tem o propósito de centrar o olhar na perspectiva das próprias mulheres e basearse em iniciativas delas para elas. Sendo assim, o material coletado não se restringe a trabalhos acadêmicos, mas abrange também publicações em sites de movimentos feministas urbanos, como o Chega de fiufiu, Cidades seguras para mulheres e Feminismurbana, além de blogs que relatam experiências pessoais de mulheres. Ademais, são inúmeras as produções acadêmicas – dentre monografias, teses, dissertações e artigos científicos - que relatam experiências e estudos correspondentes e que, portanto, servirão como base para a análise deste trabalho, como por exemplo os Mulheres na cidade: A invisibilidade e a exploração da condição da mulher no espaço urbano, de Fabíola Vianna (2014), Indiferença à diferença: espaços urbanos de resistência na perspectiva das desigualdades de gênero, de Rossana Tavares


(2016) e Cidade, substantivo feminino: as desigualdades de gênero e o espaços público (não) vivenciado pela mulher, de Isabela Peccini (2016). É importante destacar os livros “Why loiter? Women and risk in Mumbai streets”, de Shilpa Phadke, Sameera Khan e Shilpa Ranade (2011) e “A cidade e a arquitetura também mulher: planejamento urbano, projetos arquitetônicos e gênero”, de Terezinha Gonzaga (2011), que levantam apontamentos sobre o debate e indicam como o desenho urbano pode influenciar a ocupação (ou não) da cidade por mulheres.

Quando se trata de mulheres e do espaço público, a resposta à pergunta cética "o desenho pode realmente mudar a sociedade?" deve ser um "sim" qualificado. Enquanto o "mau desenho" dos espaços públicos pode não causar diretamente assalto verbal ou sexual, o inverso detém a verdade. [...] Da mesma forma, embora o projeto por si só possa não ser capaz de criar um espaço público equitativo e acolhedor para as mulheres, pode criar a situação para que a mudança aconteça e reforçá-la quando o faz (PHADKE et al., 2011, p. 98, tradução nossa).

Outro quesito indispensável para o trabalho ao tratarmos de mulher foi trazer a discussão sobre medo, vulnerabilidade e violência. Não foi difícil coletar leituras sobre o tema, visto que tal assunto é intrínseco à questão da mulher no espaço urbano, 12

Isso não significa que não constem trabalhos escritos por homens, mas que optou-se por adotá-los apenas nas categorias de conceituações de assuntos que

estando presente em quase todas as obras que tratam do mesmo. Destaco aqui os trabalhos “As mulheres e a rua: entre o medo e as apropriações feministas na cidade de Goiás, Goiânia (MACHADO; RATTS, 2017), Por onde andam as mulheres?: percursos e medos que limitam a experiência de mulheres no centro do Recife (SIQUEIRA, 2015) e Sobreviver ao medo da violação: constrangimentos enfrentados pelas mulheres (BERTA; ORNELAS; MARIA, 2007). O material adotado, em sua maioria, será composto de escritos realizados por mulheres, salvo em alguns casos específicos 12, buscando compor o pensamento do viver urbano a partir de perspectivas femininas, considerando que a perspectiva da mulher é não somente o ponto central do trabalho, mas também uma experiência muito particular que não pode (e não deve) ser descrita por quem não a vivencia e, consequentemente, não a compreende. Além disso, tal postura reforça a ruptura do machismo acadêmico, fortalecendo a produção feminina. De maneira a complementar o estudo, será consultada também a legislação vigente no tocante à proteção da mulher, os direitos da cidade e dados estatísticos, tanto do IBGE quanto de instâncias públicas de segurança e combate à violência de gênero em Maceió.

não tratam especificamente de mulheres e que não destoam o foco da protagonista do trabalho: a mulher e sua experiência urbana.

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1.2. (Re)conhecendo o bairro da Jatiúca A fim de espacializar as questões de gênero nos espaços públicos, ponto central deste trabalho, optamos por analisar o bairro da Jatiúca, situado na cidade de Maceió, Alagoas. Explanaremos a seguir um breve descritivo do bairro, para que sejam esclarecidos os motivos da escolha e para que o leitor possa se situar no contexto em que o objeto de estudo está inserido. Jatiúca, ou y-ati-ucá de acordo com a língua indígena tupiguarani, significa carrapato. Tal nomenclatura foi adotada pelo folclorista Théo Brandão ao seu sítio, supõe-se que “em função do aracnídeo ou fruto da carrapateira, planta que, antigamente, era comum da região” 13. Muito antes de se configurar enquanto bairro, Jatiúca resumia-se a este pequeno sítio com nome indígena; hoje, com 2,9 km² de extensão e 38.027 habitantes (CENSO, 2010), o bairro é um dos mais valorizados da cidade. O ponto peculiar do bairro é sua característica multifacetada, que abriga desde conjuntos habitacionais e pequenas residências a edifícios de alta renda. Ao longo da extensão de uma mesma rua é possível perceber características bem distintas entre si, fazendo com que o bairro remeta a existência de uma diversidade de “mini-bairros” em sua composição.

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Disponível em: < http://www.bairrosdemaceio.net/bairros/jatiuca> Acesso em: 11 de fevereiro de 2018.

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Figura 02: Localização do bairro da Jatiúca. Fonte: Wikipedia, com alterações da autora, 2018, sem escala.

A heterogeneidade na composição social constituída no decorrer dos últimos trinta anos apresenta como um de seus reflexos uma hierarquização na distribuição espacial da população. À medida que partimos da orla marítima em direção ao interior do bairro, as quadras que se localizam mais próximas ao mar são ocupadas, predominantemente, pela parcela da população situada nas camadas de média e alta renda da cidade; quando adentramos no bairro e nos aproximamos da Av. Dona Constança, encontramos


um núcleo expressivo da população de baixa renda (NORMANDE, 2000, p. 114-115).

Isto se dá porque o bairro da Jatiúca localiza-se num ponto relativamente distante do núcleo originário da cidade, o Centro de Maceió e, deste modo, no período de sua formação, o território do bairro foi ocupado pela “[...] população de baixa renda, sofrendo posteriormente as influências das transformações ocorridas no local com a valorização da área enquanto zona residencial de classe média, de exploração turística e de lazer” (Ibidem, p. 115). Tal fator também caracterizou uma heterogenia no perfil dos moradores do bairro.

A composição socioeconômica dos moradores é heterogênea. O rendimento nominal médio mensal da maioria da população e a tipologia habitacional existente evidenciam que, embora o bairro seja considerado atualmente um dos mais atraentes para a moradia de camadas sociais de alta e média renda e para investimentos imobiliários, comerciais e turísticos, concentra ainda um grande contingente populacional de baixa renda (Ibidem, p. 114).

É possível notar não apenas uma convivência de classes distintas, mas também a existência de uma hierarquização na distribuição e configuração dos espaços – públicos e privados – do bairro.

As diferenças não se situam somente no âmbito socioeconômico e na distribuição espacial. Elas estão presentes nos usos diversificados dos espaços públicos e privados, nos hábitos e no modo de vida da população, na demarcação de relações e referenciais quanto ao lugar e à forma de enxergar o bairro. Uma dessas relações apresenta-se na contraposição de denominações atribuídas, pelos próprios moradores, às localidades internas do bairro, e aqui extrapolam os seus limites territoriais oficiais, quando a própria população distingue o bairro em duas Jatiúcas, a chamada “Jatiúca Velha” e a “Jatiúca Nova”. A distinção não reflete apenas uma relação de tempo ou de antiguidade entre as comunidades no bairro, mas incorpora à linguagem e ao cotidiano a imagem da segregação social existente no espaço urbano, já que por trás da Jatiúca “velha” é identificada também a Jatiúca pobre, enquanto que a “Nova” é a Jatiúca rica (Ibidem, p. 115).

Tal diferenciação espacial do bairro é expressiva, também, quando observamos a caracterização de diferentes tipologias de habitações, que podem ser identificadas se compararmos a parcela do bairro situada próxima à orla marítima e seu extremo oposto, adentrando no sentido contrário à praia.

Nos dois primeiros alinhamentos de quadras é significativa a presença de edificações verticais,

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multifamiliares, de padrões médio e alto [...]. Em seguida, há uma presença maior de edificações horizontais e unifamiliares com o mesmo padrão [...]. Após a quarta rua [...], embora ainda mesclado, o padrão das casas vai se modificando em direção ao popular até torna-lo predominante (Ibidem, p. 145146).

com um grande espaço livre público de lazer da parte baixa da cidade, o Corredor Vera Arruda, que consiste em uma praça linear à beira-mar utilizada por diferentes grupos.

Apesar de possuir caráter predominantemente residencial, a Jatiúca detém uma quantidade significativa de usos comerciais e serviços, que tem crescido significativamente nos últimos anos “[...] decorrentes, sobretudo, do crescimento populacional do bairro e seus vizinhos da orla e de sua exploração com equipamentos de lazer e turismo” (Ibidem, p. 114). O bairro possui uma das principais zonas de lazer noturno da cidade, em especial da parte baixa, contando com bares, restaurantes e casas de festas dos mais variados padrões e públicos, além de contar com inúmeras lojas e serviços que funcionam ao longo do dia. Sendo assim, a região é também o local de serviço de muitos trabalhadores, atraindo o fluxo de classes populares para a região. Há também uma forte presença de empregadas domésticas e diaristas, preenchendo a demanda de trabalho das residências da área nobre do bairro. Entretanto, o trabalho e o comércio de rua não são os únicos fatores que agregam a presença da população de baixa renda na Jatiúca. A praia, muito frequentada aos finais de semana, e o Shopping Maceió, situado no entorno imediato, também são pontos de convivência mútua de classes distintas. Além disso, o bairro conta |

Figura 03: A Jatiúca e seus bairros vizinhos. Fonte: SEMPLA, com alterações da autora, 2018 sem escala.

Posteriormente, nos Capítulos 4, 5 e 6 deste trabalho, aprofundaremos a caracterização do bairro da Jatiúca e questões mais específicas que o envolvem.


Figura 04: Para se localizar: os pontos principais do bairro da Jatiúca. Fonte: SEMPLA, com alterações da autora, 2018, sem escala.

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Figura 04: Mapa do bairro da Jatiúca. Fonte: SEMPLA, com alterações da autora, 2018.

2. ESCLARECENDO PREMISSAS, CONCEITOS E REFLEXÕES PESSOAIS

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Serão abordados ao longo do trabalho os debates de gênero, medo e cidade, relacionando-os entre si. Contudo, não é possível referir-se ao tema sem mencionar constantemente assuntos inerentes à discussão, como feminismo, gênero e opressão. Este capítulo busca apresentar significados e pontos de vista de temáticas específicas adotadas no estudo, construindo e esclarecendo os conceitos abordados.

2.1. O que significa ser mulher? Primeiro e mais importante: o que, para este trabalho, significa ser mulher? Para abordar tal questão, precisamos inicialmente esclarecer a diferença entre sexo, orientação afetiva e identidade de gênero. Cascelli (2016) coloca que essas são as três características que “moldam as pessoas e definem quem ela é e como ela se projeta no mundo” (CASCELLI, 2016, p. 9). Compreender tais definições é importante para o estudo porque “o sujeito mulher ao qual nos referimos não é definido apenas pelo biológico, este sujeito é produto da construção social do feminino e do masculino que atribui a esses o seu papel na sociedade” (SIQUEIRA, 2015, p. 55). De maneira bastante sucinta, sexo refere-se a uma questão genética. Trata das características biológicas, definidas pela combinação dos cromossomos que determina a genitália: vagina ou pênis. Orientação afetiva ou orientação sexual, por sua vez, se refere a atração sexual e afeto, ou seja, a que gênero determinada |

pessoa se atrai. Se há a atração por alguém do mesmo gênero, por exemplo, denomina-se homossexual; quando a atração é por alguém de outro gênero, define-se por heterossexual; e quando há atração por ambos os gêneros, denominamos bissexual. Já o termo gênero, por sua vez, “é algo mais subjetivo, pois é uma construção cultural binária (feminino e masculino) que atribui a cada lado formas de poder” (CASCELLI, 2016, p. 9), ou seja, algo que foi historicamente e culturalmente atribuído a mulher e/ou ao homem. Deste modo, gênero “diz respeito à dimensão socialmente construída do feminino e do masculino. Ou seja, ao conjunto de regras segundo as quais as sociedades transformaram as condições biológicas da diferença em verdadeiras normas sociais” (CALIÓ, 1997, p. 1 apud SIQUEIRA, 2015, p. 13).

É claro que estas questões são bem mais complexas e precisam ser aprofundadas, pois apesar de termos criado formas de caracterização (compostas apenas por extremos), existe toda uma diversidade e pluralidade que oscila entre um e outro. Por exemplo, existem pessoas que não se identificam nem com o gênero masculino, nem com o feminino. Ou pessoas que se sentem atraídas por ambos os gêneros. Ou até pessoas que biologicamente têm mais de um sexo. A complexidade humana não cabe nesse padrão binário aqui apresentado, mas é importante entender essa divisão pois ela tem desdobramentos práticos na construção do espaço e na forma como se dão as relações em nossa sociedade (CASCELLI, 2016, p. 9).


Apesar de descritas separadamente, as três categorias – em especial sexo e gênero, que serão tratadas aqui no estudo - não se separam em uma lógica cartesiana dualista. Gayle Rubin (1975), primeira mulher a de fato adentrar os estudos de gênero, conceitua o que chama de sistema de sexo/gênero, colocando-o como um fenômeno em que “a sexualidade biológica é transformada pela atividade humana” (SAFFIOTI, 2015, p. 115). Heleieth Saffioti (2015), importante feminista brasileira, considera “sexo e gênero uma unidade, uma vez que não existe uma sexualidade biológica independente do contexto social em que é exercida” (SAFFIOTI, 2015, p. 116). Segundo a autora, gênero não pode:

[...] jamais ser visto de forma definitivamente separada do sexo, na medida em que também está inscrito na natureza. Ambos fazem parte desta totalidade aberta, que engloba natureza e ser social. Corpo e psique, por conseguinte, constituem uma unidade. [...] O gênero independe do sexo apenas no sentido de que não se apoia necessariamente no sexo para proceder à formatação do agente social [...] Obviamente, o gênero não se reduz ao sexo, da mesma forma como é impensável o sexo como fenômeno puramente biológico (SAFFIOTI, 2015, p. 144).

Tal afirmação se comprova a partir do conceito de performatividade de Butler (2003), que conforme explica Ornat (2008), refere-se:

[...] a reiteração de um conjunto de normas que são anteriores aos sujeitos. Esses papéis de gênero seriam cotidianamente retrabalhados, demonstrando sua característica de instabilidade, temporalidade e espacialidade. Pelo fato de não existir um gênero ideal localizado em alguma posição social, os elementos ou normas de gênero seriam apropriados e re-significados pelos sujeitos. Esses papéis são sustentados pela imposição aos corpos da linearidade de sexo-gênero-desejo, pois espera-se que corpos nomeados como macho ou fêmea desempenhem papéis correspondentes de masculinidade e feminilidade. Alguns corpos escapam desta imposição, sendo nomeados como desviantes e doentes, e tendo outras espacialidades (ORNAT, 2008, p. 311).

É preciso salientar que, neste trabalho, utilizaremos o conceito de gênero enquanto categoria sociológica que funciona como uma lente de aumento para analisarmos as relações humanas (GONZAGA, 2011, p. 52), demonstrando que aquilo que compreendemos enquanto feminino e masculino é apenas uma construção social que, portanto, pode ser desconstruída. Ademais, consideramos que o corpo - e, consequentemente, o sexo - é parte indissociável desta construção histórico-social, posto que o ser humano deve ser compreendido como uma totalidade. O gênero, portanto, “não é tão somente social, dele participando também o corpo” (SAFFIOTI, 2015, p. 133) e, deste modo, buscamos relacionar gênero e sexo, na medida em que consideramos uma “elaboração social do sexo” (SAFFIOTI, 2015 apud SAFFIOTI, 1969). |


Figura 05: Diferença entre gênero, orientação afetiva e sexo biológico. Fonte: Material elaborado pela autora, 2018.

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Apesar do termo gênero ter sido empregado pela primeira vez em 1968 por Robert Stoller, os fundamentos do conceito - que reivindica o essencialismo biológico - já aparecem na fala de Simone de Beauvoir, quando afirma que “todo ser humano do sexo feminino não é, portanto, necessariamente mulher” (BEAUVOIR, 1970, p. 7) porque “ninguém nasce mulher, mas se torna mulher” (Ibidem, p. 16). Em seu livro O Segundo Sexo, a autora já apresenta uma “tentativa poderosa de entender a construção social do “feminino” como um conjunto de determinações e expectativas destinado a cercear a capacidade de agência autônoma das mulheres” (MIGUEL; BIROLI, 2014, p. 25). Entretanto, é apenas em 1975, através de Gayle Rubin, que o debate de gênero ganha força. É inegável que, com o emprego do termo, “deu-se, indubitavelmente, um passo importante, chamando-se a atenção para as relações homem-mulher, que nem sempre pareciam preocupar (ou ocupar) as(os) cientistas” (SAFFIOTI, 2015, p. 117). Entretanto, dentro das relações de gênero, é possível elencar questões específicas, como é o caso da organização social que hierarquiza homens e mulheres, marcada pela primazia masculina (SAFFIOTI, 2015, p. 145), definida por patriarcado. Dentro do conceito de patriarcado reside as relações de poder, dominação e exploração masculina e a sua discussão “abriu portas para tematizar, questionar e complexificar as categorias centrais por meio das quais era pensado o universo da 14

Consiste na ideologia que afirma que o poder deve ser exercido unicamente por homens.

política, tais como as noções de indivíduo, de espaço público, de autonomia, de igualdade, de justiça ou de democracia” (MIGUEL; BIROLI, 2014, p. 17), pois “quem lida com gênero de uma perspectiva feminista contesta a dominação-exploração masculina. Por via de consequência, estrutura, bem ou mal, uma estratégia de luta para a construção de uma sociedade igualitária” (SAFFIOTI, 2015, p. 120). Ao tratarmos de gênero falamos também, 14 15 incontestavelmente, de falocracia e androcentrismo , inerentes à lógica do patriarcado, que “é, por conseguinte, um conceito de ordem política” (SAFFIOTI, 2015). Ao reconhecermos esta lógica, admitimos que o processo de dominação masculina presume um sistema de opressão, no qual a mulher representa a figura de subalternidade. Em outras palavras, se uma figura “é privilegiada, ela domina a outra e tudo faz para mantê-la na opressão. Compreende-se pois que o homem tenha tido vontade de dominar a mulher” (BEAUVOIR, 1970, p. 81). Isso não significa que a mulher enquanto sujeito submisso seja posta apenas como objeto de propriedade e dominação masculina, mas que “os grupos em posição subalterna, como é o caso das mulheres, tendem a ser reduzidos a uma ‘essência’ simplificadora e estereotipada, que tanto nega a multiplicidade de suas experiências quanto naturaliza os efeitos da dominação” (MIGUEL; BIROLI, 2014, p. 83).

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Intimamente ligado ao conceito de patriarcado, o androcentrismo aponta o homem como o centro do universo, afirmando que a experiência masculina é a base da sociedade.

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Assim, a avaliação prioritária pela aparência física, a responsabilização automática pela gestão da vida doméstica e pelo cuidado com os mais vulneráveis, a expectativa de que sejam menos racionais e mais emotivas, a menor atenção concedida a seus interesses e desejos ou o temor difuso da violência sexual são elementos da experiência de “ser mulher” numa sociedade marcada pela dominação masculina, que os homens – por mais solidários ou feministas que sejam – tipicamente não vivenciam (Ibidem, p. 84).

Em complemento, Gonzaga (2011) pontua que:

distinções, e que “o conceito de gênero, por não incorporar dimensões de raça e de classe, levou a uma generalização da opressão das mulheres a partir da experiência das mulheres brancas e de classe média e média alta” (SILVA; FARIA; PIMENTA, 2017, p. 7). Entretanto, o estudo não é e não poderia ser apenas “sobre mulher, e sim sobre mulheres, pois entre as mulheres existem diversidades segundo sua raça/etnia, cultura religiosa, classe social, orientação sexual” (GONZAGA, 2011, p. 52), visto que “há uma estrutura de poder que unifica as três ordens – de gênero, de raça-etnia e de classe social -, embora as análises tentam a separá-las” (SAFFIOTI, 2015, p. 134). .

O sistema patriarcal/machista é mantido por uma ideologia. E que foi construído como o resultado da vitória dos homens sobre as mulheres, que lutaram, resistiram e resistem a esta dominação. E digo eu que eles estabeleceram um conjunto de representações de como as mulheres devem comporta-se encurralandoas no espaço privado e reproduzindo o tratamento dado neste espaço nos espaços públicos, proprietários de seus corpos (GONZAGA, 2011, p. 25)

Até então, abordamos o conceito de gênero para diferenciar a posição dos homens e das mulheres na sociedade, mas é preciso salientar que dentro da categoria mulher existem 16

O conceito de interseccionalidade foi definido por Kimberlé Crenshaw no ano de 1991 em seu artigo “Mapping the Margins: Intersectionality, Identity Politics and Violence Against Women of Color” (ou em português ‘Mapeando as

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[...] não pretende considerar que a dimensão de gênero é mais ou menos produtora de desigualdades que outras dimensões da estrutura sócio-política e econômica, como classe e raça/etnia, mas sim indicar que não é possível entender e atuar com vistas às mudanças estruturais se não consideramos a complexa trama de interações e determinações mútuas que são produzidas por estas três dimensões (GOUVEIA, 2005, p.1).

Para tal, cabe aplicar o conceito de interseccionalidade16, que admite que as opressões não se somam – e, portanto, não são quantitativas -, mas podem gerar outras formas de opressões específicas. Se considerarmos, por exemplo, uma mulher negra, margens: interseccionalidade, política de identidade e violência contra mulheres não-brancas’).


percebemos que ela não sofre a opressão de gênero (machismo) e a opressão de classe (racismo) apenas como “sistemas opressores que se somam, mas como sistemas que se relacionam e modificam gerando outro tipo de opressão” 17. Pela perspectiva de Saffioti:

Não se trata de somar racismo + gênero + classe social, mas de perceber a realidade compósita e nova que resulta desta fusão. Como afirma Kergoat (1978), o conceito de superexploração não dá conta da realidade, uma vez que não existem apenas discriminações quantitativas, mas também qualitativas. Uma pessoa não é discriminada por ser mulher, trabalhadora e negra. Efetivamente, uma mulher não é duplamente discriminada, porque, além de mulher, é ainda uma trabalhadora assalariada. Ou, ainda, não é triplamente discriminada. Não se trata de variáveis quantitativas, mensuráveis, mas sim de determinações, de qualidades, que tornam a situação destas mulheres muito mais complexa (SAFFIOTI, 2015, p. 122-123).

Figura 06: Interseccionalidade de opressões. Fonte: Material elaborado pela autora, 2018.

É importante frisar que entendendo-se um campo de dominação – ou uma forma de opressão -, tende-se a tornar mais acessível e fluida a compreensão de outro. Não pretende-se, com este trabalho, aprofundar-se em debates de classe e raça/etnia, mas é preciso reconhecer que os mesmos atravessam a questão de gênero e influenciam nas diferentes experiências vivenciadas por diferentes mulheres 18. Feitas as devidas apresentações, retomaremos a pergunta inicial deste capítulo: o que significa, neste trabalho, ser mulher? Para o estudo consideraremos por mulher qualquer pessoa que se identifique como tal, independentemente de seu sexo – ou, em

17

Disponível em: <http://blogueirasfeministas.com/2016/12/interseccionalidade-na-praticadescobertas-e-taticas/#more-22553> Acesso em: 11 de fevereiro de 2018.

18

Tal assunto será melhor aprofundado no Capítulo 4.

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outras palavras, de sua genitália -, sem desconsiderar, entretanto, a importância do corpo dentro dessa construção. Enfatizamos que, na perspectiva do trabalho, o termo mulher está diretamente relacionado ao gênero feminino, e neste sentido vem acompanhado de uma construção social historicamente atribuída, que “não pode ser considerada universal e muito menos rígida, podendo ser modificada de acordo com o tempo e os costumes de cada sociedade” (SIQUEIRA, 2016, p. 15). E é justamente por variar de acordo com o contexto que trataremos aqui especificamente da mulher contemporânea ocidental, brasileira, alagoana, maceioense e usuária da Jatiúca.

2.2. Por que falar de feminismo?

assumida como um reflexo da natureza diferenciada dos dois sexos e necessária para a sobrevivência e o progresso da espécie. Ao recusar essa compreensão, ao denunciar a situação das mulheres como efeito de padrões de opressão, o pensamento feminista caminhou para uma crítica ampla do mundo social, que reproduz assimetrias e impede a ação autônoma de muitos de seus integrantes (MIGUEL; BIROLI, 2014, p. 17).

Para compreender a importância do feminismo na construção deste trabalho, bastaria elencar sua relevância na “produção e alteração das relações sociais e do espaço construído” (GONZAGA, 2011, p. 47), mas atentaremos inicialmente em esclarecer o que de fato consiste a teoria feminista para, posteriormente, elencarmos seu panorama histórico, relacionando-o com as lutas urbanas.

Apresentamos anteriormente o conceito de gênero e as implicações da dominação masculina na “construção social do feminino”, afirmando que neste trabalho entenderemos a mulher a partir da perspectiva de gênero, sem desvincular o contexto histórico e social que as oprime. Entretanto, é inegável que “a introdução da categoria de gênero representou o aprofundamento e a expansão das teorias críticas feministas” (GONZAGA, 2011, p. 51), que confrontam as desigualdades deste sistema de opressão. Isto se deu porque:

Em síntese, o feminismo é entendido simultaneamente como “movimento político e como teoria que contribui de maneira fundamental para a compreensão das desigualdades entre homens e mulheres e para a luta social” (SILVA; FARIA; PIMENTA, 2017, p. 3). Em outras palavras, “a teoria política feminista é uma corrente profundamente plural e diversificada, que investiga a organização social tendo como ponto de partida as desigualdades de gênero” (MIGUEL; BIROLI, 2014, p. 7). Contudo,

Na maior parte da história, essa desigualdade não foi camuflada nem escamoteada; pelo contrário, foi

Como outros movimentos sociais e correntes teóricas, o feminismo possui várias vertentes. Portanto não existe um feminismo, mas vários. O que unifica essas

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linhas de pensamento e ação seria o reconhecimento de que as mulheres ocupam um lugar de sistemática opressão e que esse lugar não é natural, mas socialmente construído e, portanto, passível de ser transformado. Feminismo designa correntes bastante distintas do movimento como feminismo liberal ou burguês, feminismo radical, feminismo ou mulheres marxistas, libertárias, socialistas, o feminismo lésbico, negro, pós e decolonial entre vários outros (SILVA; FARIA; PIMENTA, 2017, p. 4).

Seguindo tal lógica, Flávia Biroli e Luis Felipe Miguel defendem que, diante desta pluralidade de vertentes e abordagens, que demonstra a hegemonia do movimento, seria mais cabível definir tal epistemologia como feminismos, no plural (MIGUEL; BIROLI, 2014, p. 3). O movimento, entendido também como teoria política e corrente intelectual (Ibidem, p. 7), busca combinar:

movimento, tais pensamentos têm influenciado ativamente nas pautas de gênero dentro do planejamento urbano, aproximando o debate de opressão à cidade. Nesta perspectiva, trataremos de feminismo não apenas porque o mesmo está diretamente ligado à crítica das relações de opressão de gênero, mas também porque este carrega como uma de suas pautas centrais a crítica à dualidade entre o público e o privado, ou seja, a “crítica que vincula a submissão da mulher na esfera doméstica à sua exclusão da esfera pública” (MIGUEL; BIROLI, 2014, p. 19). Tais críticas desencadearam uma série de lutas por direitos que, não somente se manifestaram na cidade, como também a modificaram – e talvez seja essa a maior importância do feminismo neste trabalho: compreender que ele foi e é fundamental nas reivindicações urbanas que “reclamam acesso integral para as mulheres a tudo o que a cidade tem a oferecer” (HARKOT, 2015).

[...] a militância pela igualdade de gênero com a investigação relativa às causas e aos mecanismos de reprodução da dominação masculina. Pertence, portanto, à mesma linhagem do pensamento socialista, em que o ímpeto para mudar o mundo está sempre colado à necessidade de interpretá-lo (Ibidem, p. 17).

Deste modo, observamos que o feminismo em sua totalidade engloba simultaneamente teoria e prática e se reconstrói com o passar do tempo. Dentro das discussões do |


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3. PÚBLICO – PRIVADO x HOMEM - MULHER

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Explanamos até então conceitos que envolvem ser mulher e a relevância dos estudos de gênero e feminismo para o trabalho. No presente capítulo, relacionaremos tais assuntos com a cidade, entendendo-a enquanto elemento material que, não apenas abriga as questões imateriais, como também é utilizada para pensa-las.

3.1. O espaço urbano enquanto construção social

algo enrijecido, neutro e alheio ao sistema de produção. O espaço urbano é produzido socialmente, e não só é reflexo do modo de produção atual, como é dele produto. A cidade tem aparecido como elemento exterior à sociedade, mas na realidade a cidade tem história, é uma obra e está sempre em construção (Ibidem, p. 9).

O espaço é visto não apenas como sede de todas as atividades da sociedade, mas enquanto processo e movimento, que:

A leitura e o entendimento da posição da mulher na cidade - que é possivelmente a questão central deste trabalho -, não é praticável sem antes compreendermos o que, para o estudo, será definido por espaço urbano. Começaremos, então, com a afirmação de que “todo o social realiza-se no espaço e, portanto, as relações sociais de gênero não saem dessa regra” (FARRET, 1985, p. 12 apud GONZAGA, 2011, p. 2). Considerar o espaço das cidades como um dos lugares do fazer social é, por consequência, indicar que o mesmo, “ao reproduzir relações sociais, reproduzirá também inevitavelmente a lógica de dominação. Vai expressar as desigualdades estruturantes do sistema, quais sejam classe, raça e gênero. Estas determinarão o espaço urbano e nele se manifestarão” (VIANNA, 2014, p. 16). Neste sentido,

Neste trabalho, a cidade não é entendida como “apenas um cenário onde ocorrem determinadas relações” (PINTO, 2011, p. 22), mas como “produto de uma construção histórica, política e social gerada pelo fato da vida coletiva. É meio e produto das relações de uma sociedade“ (PECCINI, 2016, p. 42). Mas qual seria este panorama em que a cidade se fundamenta (ou ao menos tem se fundamentado até então)?

Não se pode entender o espaço urbano como um palco no qual as relações sociais acontecem, como

Consideramos aqui que o alicerce das cidades – e entendemos a cidade como um reflexo da sociedade - são as relações de poder e, consequentemente, de dominação.

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[...] tem seu conteúdo definido e determinado pelo conjunto das relações sociais em seus momentos constitutivos específicos. Nessa direção, o espaço é o lugar da reprodução social de forma indissociável: produto, meio e condição dessa reprodução (CARLOS, 2014 apud VIANNA, 2014, p. 10-11).


Obviamente que tais relações são relativas ao seu período histórico: alteram-se com o tempo e, na medida em que se modificam, transformam também a cidade. Isto se dá porque, segundo Peccini (2016),

Através da fixação das populações em um território como lugar de moradia e trabalho e a consequente produção de excedentes, se desencadeia uma série de outras necessidades como a de gestão, organização das relações, memorização e registro. Estes espaços e estas relações se constroem e se influenciam sem início e fim, sempre indo e voltando, concretizando de forma abstrata e espacial diversas relações de poder e trabalho (PECCINI, 2016, p. 42).

Entendemos, portanto, que:

A urbanização é um fenômeno de classe 19. É necessário nesse processo que seja extraído um excedente de alguém e de algum lugar, enquanto que o controle sobre sua destinação concentra-se na mão de poucos, quais sejam, os detentores dos meios de produção (VIANNA, 2014, p. 13).

campo “ocorre enquanto desigualdade e não apenas como diferenciação, visto que já em sua gênese a cidade sobrepuja-se em importância social, subordinando o campo” (PINTO, 2011, p. 21). E é dentro desta lógica de dominação e exploração que situase não apenas o espaço urbano, mas principalmente seus sujeitos – dentre eles, a mulher.

Assim como a cidade, nós mesmas/mos somos resultados de construções sociais que estão sempre relacionadas: se produzimos cidades que proporcionam vivências desiguais para homens e mulheres, é porque fomos socialmente construídos para naturalizar estas diferenças e hierarquias e, portanto, naturalizamos também a própria construção destas cidades, pautadas pela lógica patriarcal (PECCINI, 2016, p. 52).

Sendo assim, “a cidade e o urbano não podem ser compreendidos sem as instituições oriundas das relações de classe e propriedade” (LEFEBVRE, 1991 apud GONZAGA, 2011, p. 83) e, conforme complementa Gonzaga (2011), das próprias relações de gênero.

Neste sentido, as cidades geram - e ao mesmo tempo são estruturadas pelas - desigualdades. Pinto (2011) coloca que o próprio surgimento das cidades e a consequente separação do 19

Segundo Lefebvre, a primeira opressão de classe foi a “dominação da mulher pelo homem, que, para garantir a propriedade em geral, primeiro transformou-

a em propriedade, e, depois, os filhos e escravos” (LEFEBVRE, 1991 apud GONZAGA, 2011, p. 83).

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3.2. O papel social da mulher na cidade20

essencial para compreender por que a cidade continua sendo um espaço que as segrega (VIANNA, 2014, p. 49).

Marina Harkot (2015) complementa que:

Ao olhar o espaço urbano a partir da perspectiva de gênero, pressupomos que as mulheres vivenciam a cidade de maneira diferente que os homens, e destacamos a inserção na trama das relações sociais de gênero como algo que é cultural e construído no processo histórico da humanidade” (GONZAGA, 2011, p. 47). As mulheres estão, de fato, nas cidades. Entretanto, “estar e transitar fisicamente em um dado território não significa automaticamente a ocupação do mesmo” (Ibidem, p. 1).

[...] A grande presença destas na rua não significa que dela se apropriam de fato. [...] O acesso desigual ao espaço não é simplesmente resultado da produção e reprodução das cidades: é elemento constituinte delas. Não será, portanto, apenas uma questão de impacto da (falta de) estrutura urbana na vida das mulheres, mas principalmente como as desigualdades de gênero, em associação e interseccionalidade com as outras opressões, estruturam e criam a cidade. É uma questão de poder, de como a cidade é criada por homens e para homens (da classe social dominante) e que se privilegiam com a manutenção dessa estrutura. Por isso, constatar a falta de mulheres nos espaços políticos (espaços públicos por excelência) é fator Quanto me refiro neste trabalho ao papel social da mulher, não pretendo reafirmá-lo como algo natural, mas reconhecendo que o mesmo foi atribuído historicamente, aprisionando as mulheres em determinados papeis. O papel do feminismo é justamente questionar naturalização desses papeis, mas é preciso assumir que eles existem, atuam e produzem efeito na sociedade.

Parte da população ainda reproduz um discurso que questiona o “direito” da mulher em, por exemplo, andar desacompanhada à noite pela cidade e culpabiliza as vítimas de estupro, associando os ataques ao comprimento das suas roupas e por simplesmente circularem pelas ruas21 (HARKOT, 2015).

Seria então a reclusão doméstica a solução dos problemas de violência e assédio sofridos pelas mulheres? As ocorrências de crimes comprovam que é exatamente no núcleo familiar que a violência contra a mulher se expressa, considerando dados estatísticos que apontam que 70% dos casos estupros são cometidos por parentes, namorados ou amigos/conhecidos da

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Em uma pesquisa realizada pelo IPEA no ano de 2014, quase três quintos dos entrevistados (58%), concordaram, total ou parcialmente, que “se as mulheres soubessem se comportar haveria menos estupros”. Disponível em: <http://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/SIPS/140327_sips_violen cia_mulheres_novo.pdf> Acesso em: 01 de abril de 2017.


vítima 22 e que 70% da população brasileira acredita que a mulher sofre mais violência dentro de casa do que em espaços públicos23. [...] estatisticamente, as mulheres estão mais sujeitas à violência no espaço privado, sendo que quem está mais sujeito a violência no espaço público são os homens. Porém, com todo o espaço público hostilizado e com a dominação masculina, as mulheres sentem-se inseguras nos espaços públicos das cidades (VIANNA, 2014, p. 37).

De fato, “o acesso das mulheres à cidade nunca se deu da mesma maneira que os homens” (GONZAGA, 2011, p. 21). Mas como, historicamente, se deu a construção do espaço urbano a partir desta visão sexista e patriarcal? A princípio, é necessário elucidar que o panorama da mulher na história – em especial num passado remoto - é, em termos gerais, marcado pela “exclusão, invisibilidade, opressão e exploração, que perpassa todos os séculos, todas as idades e todos os países do mundo” (ALAMBERT, 2004, p. 26). Em complemento da afirmação anterior, devemos esclarecer que a experiência de mulheres em diferentes locais e diferentes categorias de opressão (classe, raça/etnia, sexualidade, entre outras) apresenta características distintas e não é cabível em uma generalização universal. Conforme já foi citado, neste trabalho focamos na 22

Disponível em: <http://www.agenciapatriciagalvao.org.br/dossie/pesquisas/estupro-nobrasil-uma-radiografia-segundo-os-dados-da-saude-ipea-2014/> Acesso em: 31 de março de 2017.

mulher contemporânea ocidental – em especial o contexto da(s) mulher(es) brasileira(s) – e, para tal, traremos inicialmente um breve resumo do cenário da mulher na história para compreendermos o papel social da mulher nos dias atuais. Posteriormente, adentraremos no contexto brasileiro, explorando a conjuntura do país desde o período colonial até hoje. Para a construção desse panorama, utilizamos majoritariamente os escritos de Zuleika Alambert (1997 e 2004), feminista brasileira e importante estudiosa da história da mulher, que em suas publicações discorre sobre a história da mulher na cidade. Dentro do que a autora apresenta, destacaremos algumas considerações: (a) a mulher das classes mais baixas, ou seja, a mulher trabalhadora, sempre esteve em situações de desigualdade, sofrendo de maneira mais violenta o patriarcado; (b) as mulheres nobres estiveram, na maior parte da história, reclusas em suas casas e somente frequentavam as cidades acompanhadas ou em caso de extrema desordem; (c) apesar das diferenças entre classes, a situação da mulher foi marcada pelo completo silenciamento e ausência de participação na vida pública; e, por fim, (d) a história, principalmente a história antiga, foi escrita majoritariamente por homens e, deste modo, as mulheres estão muitas vezes omissas e excluídas nos livros. Não é à toa que, para falarmos da história da mulher na cidade, temos que inevitavelmente falar de propriedade, trabalho 23

Segundo a pesquisa Percepção da sociedade sobre violência e assassinatos de mulheres (Data Popular/Instituto Patrícia Galvão, 2013).

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e religião (cristianismo) – e, consequentemente, de exploração – ao longo do tempo. Falamos porque estes moldaram a experiência da mulher e foram responsáveis pela construção social de seu papel na sociedade. Primeiramente, a propriedade privada. Responsável, segundo Alambert (1997), pelo fim da igualdade dentro dos clãs, seu surgimento foi ponto de partida da exploração da mulher e do surgimento do patriarcado. É importante contextualizar que, “na aurora da humanidade, [...] não haviam povos nem estados separados. [...] Ninguém dispunha de propriedade. A família não existia e, portanto, a desigualdade era desconhecida” (ALAMBERT, 2004, p. 27). A sociedade era marcada pela presença de “clãs maternos, em que as gerações eram transmitidas por linha matrilinear” (ALAMBERT, 1997, p. 23-24). A partir do desenvolvimento de novas técnicas – como a invenção do arado em substituição da enxada primitiva da mulher - é que, segundo Alambert:

Desaparece a igualdade existente nos clãs. Surgem os primeiros escravos, os dominados e os dominadores. A mulher foi a primeira escrava do homem. O homem precisava de uma mulher só para ele, para ter certeza de que o filho era seu, elemento necessário para a transmissão da herança a mãos legítimas (Ibidem, p. 28).

Em outras palavras, a desigualdade vem acompanhada da propriedade privada: com a possibilidade de acumulação de bens |

e o desenvolvimento do comércio, somados ao surgimento do Estado e da consequente divisão de classes, dá início ao sistema patriarcal, ainda na pré-história. Isto significa que foi neste momento que “o trabalho do homem adquiriu maior importância. O trabalho da mulher passa a ser desprezado. Em consequência, o lugar principal dos clãs passou a ser ocupado pelos homens” (ALAMBERT, 1997).

A igualdade que existia nos clãs começou a desaparecer, já que apareceu a propriedade privada. [...] Apareceram assim as classes: dominados e dominadores. E a mulher tornou-se a primeira escrava do homem. Ela, que antes trabalhava para todo o grupo, passou a trabalhar apenas para um homem. Acabou a sua liberdade sexual. O homem determinou que a mulher só o tivesse, para ter a certeza de que seus filhos, aqueles que deveriam receber sua herança, eram seus legítimos herdeiros (ALAMBERT, 1997, p. 26)

Neste momento, a sociedade transforma-se. A desigualdade proveniente das questões de gênero não apenas ordena as cidades a partir da dicotomia homem - público x mulher - privado, mas tem como uma de suas bases estruturantes a ausência do direito da mulher à propriedade. Historicamente, os homens detiveram o monopólio das terras – e, portanto, do capital – e, deste modo, sustentaram um ciclo de poder que estava externo à mulher. A manutenção da propriedade em suas mãos foi definidora para a soberania masculina.


Depois, o trabalho. Ele é separado e hierarquizado em dois tipos: o reprodutivo, ou aquele que trata das necessidades básicas do lar e do ser humano (se alimentar, habitar e existir), que “[...] acontece no âmbito doméstico e privado e não é remunerado a quem o exerce; e trabalho produtivo – aquele que produz mercadoria, que gera mais valia para o dono do meio de produção e, normalmente, é remunerado” (PECCINI, 2016, p. 59). Tal divisão é denominada “divisão sexual do trabalho”, que, apesar de variar de acordo com cada sociedade, tem por característica geral “a destinação prioritária dos homens à esfera produtiva e das mulheres à esfera reprodutiva e, simultaneamente, a apreensão pelos homens das funções de forte valor social agregado (políticas, religiosas, militares, etc)” (KERGOAT, 2000, p. 1). Portanto, “a divisão sexual do trabalho é a forma de divisão do trabalho social decorrente das relações sociais entre os sexos; mais do que isso, é um fator prioritário para a sobrevivência da relação social entre os sexos” (SAFFIOTTI, 2013, p. 234 apud VIANNA, 2014, p. 22-23).

A divisão sexual do trabalho hierarquiza o trabalho reprodutivo em relação ao produtivo: o primeiro não é valorizado pela sociedade, em primeiro lugar porque não é enxergado enquanto trabalho, e sim como algo que a mulher/esposa/mãe faz por amor e dedicação a sua família, e em segundo lugar pois não é remunerado. Essa hierarquização torna o trabalho doméstico feminino completamente invisibilizado em relação ao trabalho produtivo, pois é este último que traz a renda para a família, enquanto, pela lógica do capital, o trabalho reprodutivo não cria nem agrega

valor, e assim seria inferior em relação ao produtivo, que é o único valorizado socialmente. Cria-se uma base dual para a família: o homem provedor e a mulher na função de dona-de-casa e mãe, e mesmo que ela trabalhe, sua renda será vista como simplesmente complementar à do homem (VIANNA, 2014, p. 23-24).

Essa configuração é extremamente importante na dicotomia público privado, transformando as mulheres nas “grandes (e únicas) responsáveis do espaço privado, e privando-as da vivência mais intensa, da própria apropriação do espaço público, local das atividades produtivas, que são vistas como “naturalmente” masculinas (VIANNA, 2014, p. 33).

Essa divisão faz com que o espaço público seja de dominação masculina, excluindo as mulheres. Essa exclusão é grave se pensarmos que o espaço público é considerado o espaço político por excelência, sendo que o lar sempre foi colocado como espaço unicamente de competência da família (ou seja, realiza-se uma hierarquização de esferas, considerando a casa/lar/família como algo “apolítico”, que não deve ser publicizado)

Tal questão fica ainda mais expressiva quando a mulher passa a estar presente no mercado de trabalho, porque o trabalho doméstico continua sendo de sua responsabilidade. “Surge, então, o que é denominado de ‘dupla jornada de trabalho’, que é a |


presença das mulheres no mundo do trabalho, mas a continuidade de sua responsabilidade pelos cuidados dos trabalhos da casa, da família e dos filhos e das filhas” (VIANNA, 2014, p. 28). O apelo para as diferenças das condições biológicas entre homem e mulher foi indispensável para tal divisão do trabalho e a consequente dominação masculina. Atribuíram à mulher o direito e a responsabilidade de cuidar – da casa, dos filhos, do marido –, mas retiram dela o direito a seu próprio corpo. E, nesse quesito, o cristianismo e o Estado foram indispensáveis. Foi percebida a centralidade que a regulação da sexualidade feminina e sua contraface, o direito de acesso dos homens ao corpo das mulheres, tinham na manutenção da dominação masculina. [...] A luta pelo direito ao aborto, pela tipificação do crime de estupro dentro do casamento, contra o duplo padrão da moral sexual, pelo direito à busca pelo prazer ou contra a objetificação das mulheres são diferentes facetas da compreensão básica de que cada mulher deve controlar o próprio corpo (MIGUEL; BIROLI, 2014, p. 66-67).

“O cristianismo [...] surge como ‘força redentora’, também das mulheres” (ALAMBERT, 1997, p. 37) e realiza o que a autora denomina de uma “revolução moral”, defendendo aquela que até hoje molda os costumes e pautas da sociedade: a civilização ocidental e cristã. E o cristianismo, tal qual o islamismo no Oriente, 24

Segundo Alambert, é neste momento também que a Igreja cristã “criou e tornou triunfante o tabu sexual” (ALAMBERT, 1997, p. 43).

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configura-se enquanto uma corrente de repressão, desprezo, dominação – e ao mesmo tempo exaltação e divinização – da mulher. Surge, então, uma série de princípios24 que vão reger de forma mais severa a vida da mulher.

Os chamados ‘princípios morais e cristãos’ não só abalaram as sociedades como despertaram e moldaram a consciência humana. Ao surgir, o cristianismo, de certo modo, deu dignidade a mulher no plano espiritual, já que ela, a mais oprimida e aviltada criatura, sentiu-se reabilitada e com maiores esperanças. Mas, objetivamente, o cristianismo (especialmente o católico) traz também, em suas concepções, toda a misoginia dos judeus em relação à mulher. Estes sempre consideraram a mulher uma criatura inferior, impura pela própria natureza, culpada de todos os males que afligem o gênero humano, por ter atraído sobre ele o pecado original, a maldição de Deus (ALAMBERT, 1997, p. 37).

Não é de se espantar que tal pensamento venha – coincidentemente ou não - seguido de uma época extremamente patriarcal, machista e misógina. A Igreja afirmou: “’o corpo da mulher é uma fonte de pecado e desgraça dos homens’ (alusão à tese cristã do pecado original)” (ALAMBERT, 2004, p. 99). Deste modo, seu discurso “oscilava entre Eva e Maria. De um lado, promovia a mulher, de outro lado, mantinha sua submissão secular, que ela acreditava estar de acordo com a ordem das


coisas” (ALAMBERT, 1997, p. 31). E até os dias atuais, a “Santa Igreja, somada aos fundamentalistas, tenta, por todas as maneiras, barrar nossos avanços como, por exemplo, impedindo o aborto às meninas estupradas” (ALAMBERT, 2004, p. 52). Sem dúvidas, a perseguição religiosa do caça-às-bruxas foi essencial para que, através do discurso divino, a Igreja pudesse impor um domínio sobre os corpos das mulheres.

O acesso às universidades e escolas foi proibido às moças, que continuaram a ser educadas nos conventos. As mulheres foram expulsas das profissões liberais que exerciam e excluídas das atividades burocráticas. [...] Algumas esposas de artesãos e pequenos comerciantes acabavam por empregar-se como assalariadas em pequenas manufaturas de tipo industrial. Outras apoiaram as heresias. E, para enfrenta-las, a Igreja e a burguesia criaram a ideia de feitiçaria e uma nova legislação familiar que considerava a mulher juridicamente incapaz (ALAMBERT, 1997, p. 44).

Esse processo foi fundamental para a constituição do sistema capitalista que necessitava estabelecer o controle sobre os corpos e a capacidade reprodutiva das mulheres, sobre os seus saberes e sua força de trabalho, para a implantação do trabalho assalariado e das relações modernas de produção e reprodução (SILVA, FARIA, PIMENTA, 2017, p. 4).

Em síntese, Alambert (2004) discorre sobre o que, dentro do contexto mundial, foi conquistado pela mulher:

O peso da Igreja cristã resultou neste que foi um dos mais brutos períodos de tortura e genocídio da história, “superado apenas pela ação hitlerista na Europa de nosso tempo” (ALAMBERT, 1997, p. 45). Sob o pretexto de controle, milhares de mulheres foram queimadas vivas na fogueira, veladas pelo discurso de que “as feiticeiras atacavam a força sexual dos homens, o poder reprodutor das mulheres e agiam para exterminar a fé” (ALAMBERT, 1997, p 45). Tal postura cristã configurou-se enquanto um retrocesso para a mulher, que reflete até os dias atuais:

1) a garantia de sua sobrevivência em épocas remotas da história da humanidade; 2) a defesa de suas posições ortodoxas na Idade Média e a garantia de algumas posições adquiridas anteriormente; 3) o estabelecimento de um debate que trouxe à tona apaixonantes teses e ideias sobre a libertação da mulher e a garantia de seus direitos; 4) a colocação em pauta da igualdade jurídica da mulher (direitos iguais no trabalho, na família e na sociedade); 5) conquistas de reivindicações pontuais: direito de votar e ser votada; direito a exercer profissões liberais; direito ao salário igual; direito à instrução; direito ao divórcio, direito ao aborto etc. 6) a descoberta de outros direitos relativos ao seu corpo e a sua sexualidade: os direitos reprodutivos, o direito à maternidade como função social, o direito à

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igualdade na relação de gênero etc. (ALAMBERT, 2004, p. 37-38).

compreender a conjuntura atual da mesma nas cidades brasileiras, em especial Maceió, nosso objeto de estudo.

Diante do exposto, Toledo (2011) afirma que: 3.2.1. O contexto brasileiro A opressão das mulheres foi e ainda é indispensável à (re) produção do capital. Primeiramente, por determinações que antecedem o capitalismo, as mulheres constituem uma força de trabalho menos onerosa que os homens, ampliando o exército industrial de reserva. Segundo, a entrada da mulher nas fábricas não significou a sua liberação das tarefas domésticas, tendo ela, agora, de enfrentar múltiplas jornadas, o que é favorável ao processo de extração da mais valia. E ainda, a consequente diminuição do tempo das mulheres para as atividades domésticas demandará a compra de produtos manufaturados das indústrias (TOLEDO, 2001 apud PINTO, 2011, p. 27).

Apesar de tratarmos até aqui de um panorama majoritariamente ocidental-europeu, histórias muito semelhantes ocorreram e ocorrem paralelamente em todo o mundo. Muda-se o lugar, muda-se o tempo, mas repete-se o contexto de exploração e objetificação da mulher. Explanaremos a seguir o cenário da mulher no Brasil25, a fim de chegarmos, posteriormente, a

25

Para tal, utilizamos como base os escritos de Zuleika Alambert em A história da mulher: a mulher na história (2004).

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Inicialmente, Alambert (2004) destaca que: [...] a história foi escrita pelo homem de elite, o homem das classes dominantes e a serviço delas. E estes sempre esconderam os relacionamentos entre as camadas mais desprivilegiadas da sociedade e os homens que as dirigiam. Assim, as relações entre índios, negros e brancos nunca ficaram bem claras. Por isso, principalmente no período colonial, as mulheres aparecem tão pouco. Elas eram negras, escravas, índias e brancas prostitutas. Só com a chegada da mulher branca das classes dominantes, que antecede a chegada da corte de Portugal (criação do Reino Unido, em 1808), se consegue alguma documentação referente à mulher. Mas a história da mulher só pôde começar a ser verdadeiramente contada quando ela própria começou a escrever em revistas e jornais dirigidos ao público feminino, o que só ocorreu em 1850 [...] (ALAMBERT, 2004, p. 77).

Para narrar a história, que será exposta aqui de maneira bem reduzida e sucinta, a autora divide-a em passado longínquo, passado próximo e presente: o primeiro abrange o período


colonial (1500-1822), o período imperial (1822-1889) e o início do período republicano, a primeira república (1889-1930); o segundo trata do período entre 1934 e 1945; e o terceiro esboça desde 1945 até os dias atuais. Apesar da autora centrar sua análise no passado longínquo, passando rapidamente pelos outros dois períodos, abordaremos aqui algumas considerações complementares para enriquecer a contextualização. Começaremos a história com a invasão dos portugueses no Brasil – apesar de sabermos que a história dos índios e das índias no país precede bastante tal feito. Iniciaremos porque, com sua chegada, os portugueses “trouxeram em sua bagagem não apenas a catequese forçada, mas, inclusive, todo o sistema patriarcal imperante em Portugal com seus usos, costumes e comportamentos arcaicos” (ALAMBERT, 2004, p. 78). Trouxeram, muito além disso, a exploração e a escravidão. As condições da mulher no período colonial eram as piores possíveis, como podemos verificar:

[...] primeiro, a índia, depois as primeiras brancas e, finalmente, a negra escrava vinda dos confins da África. Sua situação era de submissão e humilhação constantes. Exerciam as funções de objeto sexual dos homens, parideiras e burros de carga, tanto nos serviços domésticos, como nas zonas rurais. As índias serviram para esposas, concubinas e empregadas domésticas. As brancas, primeiro para prostitutas, depois para mães, esposas e donas de casa sem direito algum de escolher marido, de andar sozinhas nas ruas ou de desenvolver atividades independentes fora de casa. Sabiam apenas organizar a cozinha,

comandar os escravos, fiar, tecer, fazer rendas e bordados. Se se rebelavam contra sua sina, iam direto para o convento, no qual também terminavam aquelas que não se casavam. Sua instrução era mínima: o suficiente para rezar o missal e ler receitas para fazer as geléias caseiras. Por isso, em geral, eram tímidas, ignorantes e submissas ao homem. E assim ajudavam a manter o status quo, transmitindo muito atraso para seus filhos. A negra foi o melhor instrumento de trabalho e o melhor instrumento de prazer sexual para o homem branco. Podia até mesmo ser alugada a outros senhores. Ficando ao lado dos colonizadores ou daqueles que lutavam contra eles, todas as mulheres foram esquecidas pela história. Se algumas delas destacaram-se na historiografia tradicional, aparecem sempre envolvidas por “qualidades” como a loucura ou a prostituição que servem para desvalorizá-las (ALAMBERT, 2004, p. 78).

Apesar de poucos e pontuais, há registros de mulheres que fizeram história e se destacaram em batalhas, como Maria Oritz na invasão holandesa na Bahia, Bárbara Eliodora na Inconfidência Mineira no Ceará e Maria Quitéria, baiana que vestia-se de homem para combater os portugueses (ALAMBERT, 1997, p. 7980).

Suas ações são isoladas e intermitentes. Mas, considerando-se tudo isso, temos de ver que tais ações constituem a gênese do que seria, num futuro distante, o movimento de mulheres em suas mais variadas formas. Rejeitar essas formas de luta seria relegar a um segundo plano e tornar mais invisível

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ainda o importante papel de provedora que a mulher realiza há séculos (ALAMBERT, 2004, p. 81).

Trabalhavam em jornadas de 12 a 15 horas [...] (ALAMBERT, 2004, p. 81-82).

Também registram-se mulheres importantes no período imperial, como a destacada figura da escrava negra Anita Garibaldi na Guerra dos Farrapos e Chiquinha Gonzaga na campanha antimonarquista e abolicionista. Estas, aliás, foram pautas que marcaram esse período e foi nas últimas décadas do século XIX que a militância política tomou frente da luta pela abolição. Neste momento, as mulheres negras foram fundamentais. Elas, que foram também – e são até hoje – as figuras mais exploradas, porque “as mulheres negras, enquanto trabalhadoras, não podiam ser tratadas como o ‘sexo frágil’ ou ‘donas de casa’” (DAVIS, 1994, p. 20).

É importante enfatizar, apesar da situação do escravo negro também ser de submissão, as mulheres negras:

Foram importante instrumento de trabalho, sobretudo no campo em que realizavam todos os tipos de atividade. Cultivavam a terra. Usavam foice e enxada como os homens. Faziam feixes de cana; nos engenhos colocavam a cana-de-açúcar para moer e tiravam os bagaços. [...] Nas pequenas propriedades, elas participavam do desmatamento e corte de lenha. Eram empregadas na manufatura do açúcar, no descaroçamento do algodão, no beneficiamento da mandioca, na limpeza da roça de milho, na colheita de produtos silvestres e na ordenha. As mais velhas cuidavam dos galinheiros e colhiam café.

É possível notar na fala de Alambert que elas também estavam – e sempre estiveram – mais presentes nas ruas 26 em função de seu trabalho. Por exercerem muitas atividades, estas frequentaram tanto os espaços públicos – seja por determinação de seus senhores ou para exercer um comércio informal – quanto nos espaços privados da casa grande - onde muitas delas trabalhavam ou executavam serviços. Desse modo, aquelas que iam às ruas tornaram-se intermediárias dos quilombos e tinham

Em seu livro, Angela Davis (1994) traz um estudo de W. E. B. Du Bois (1920), colocando que “proporcionalmente, as mulheres negras sempre trabalharam mais fora de casa do que suas irmãs brancas” (DU BOIS, 1920). Apesar da fala referir-se ao contexto de escravidão norte-americana, ela, assim como muitos

outros discursos do livro, é cabível também no cenário brasileiro. Ela complementa que “o ponto de partida de qualquer exploração da vida das mulheres negras na escravidão seria uma avaliação de seu papel como trabalhadoras” (DAVIS, 1994, p. 17).

26

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[...] sofriam de forma diferente, porque eram vítimas de abuso sexual e outros maus-tratos bárbaros que só poderiam ser infligidos a elas. A postura dos senhores em relação às escravas era regida pela conveniência: quando era lucrativo explorá-las como se fossem homens, eram vistas como desprovidas de gênero; mas, quando podiam ser exploradas, punidas e reprimidas de modos cabíveis apenas às mulheres, elas eram reduzidas exclusivamente à sua condição de fêmeas” (DAVIS, 1994, p. 19)


proximidade com os escravos fugidos, enquanto as que permaneciam na casa grande ouviam as conversas dos seus senhores e ficavam por dentro do que ocorria no engenho e para além dele (ALAMBERT, 2004, p. 82). Por tais motivos, “elas foram importante veículo para agitar a luta contra a escravidão, transmitindo informações, socorrendo negros fugidos, alforriando outros e mesmo integrando os quilombos” (ALAMBERT, 2004, p. 82). O movimento abolicionista do final do século XIX foi de extrema importância para as mulheres porque, segundo Alambert, esta “talvez tenha sido a primeira experiência de militância política organizada, nacionalmente. Foi aí que muitas se iniciaram na política, o que lhes deu experiências para enfrentar, depois, a batalha do sufrágio feminino e os movimentos contra a carestia” (ALAMBERT, 2004, p. 82-83), mas, antes disso, em meados do século XIX, elas também fundaram diversas publicações – dentre eles os jornais Senhoras, Belo Sexo, Sexo Feminino e O Eco das Damas e a revista A Mensageira. Naquele momento, “o feminismo se gestava ainda como ideia e abria seu caminho numa sociedade conservadora e preconceituosa” (ALAMBERT, 2004, p. 84). Para fechar o passado longínquo, o período da primeira república marca um novo momento no Brasil: crescem as cidades e, com a abolição, o trabalho passa a ser assalariado, nascendo assim a classe operária – esta era formada majoritariamente por 27

A Constituição teve importância não apenas pela garantia do voto feminino, mas porque também afirmou outros direitos: fica proibida a diferenciação de salário para um mesmo serviço de acordo com o sexo, as mulheres passam a não poder trabalhar em indústrias insalubres e é garantida a assistência médica

negros. Tanto mulheres quanto homens foram sujeitos a jornadas de trabalho exaustivas e baixa remuneração, apesar da mulher ainda se encontrar em situações muito mais alarmantes. À mulher negra ficou também atribuído o trabalho de doméstica. Em geral, as moças recebiam menos e tiveram que lutar por direitos básicos, como a proibição do trabalho noturno para elas e seus filhos, que alcançariam posteriormente. É importante frisar que a Constituição de 1824 ainda não considerava a mulher enquanto cidadã, podendo esta trabalhar, mas sem exercer cargos públicos. Em meio a um contexto de transformação e esperança que marcava o país, fundou-se a Liga pela Emancipação Internacional da Mulher, mais uma publicação feminina – a Revista Renascença – e a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, que discutiam pautas como a igualdade e emancipação das mulheres e seus direitos políticos. Tais ações foram fundamentais para a movimentação da luta pelo sufrágio feminino, campanha esta que iniciou em 1924 e foi vitoriosa anos depois, através da Constituição brasileira de 193227. É a conquista do voto que, segundo Alambert, marca a passagem do período republicano para o que ela chama de passado próximo, e posteriormente, o presente (ALAMBERT, 2004, p. 85). É neste momento que “a burguesia nacional entra em cena” (ALAMBERT, 2004, p. 85). As mulheres têm participações importantes, como são os exemplos da Aliança Nacional e sanitária à gestante, além de seu direito de reclusão pré e pós-parto, através da Previdência Social.

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Libertadora, da Insurreição de 1935, da luta contra a ditadura de Vargas e da retaguarda da Segunda Guerra. Cria-se, em 1947 o primeiro jornal feminino, chamado Movimento Feminino (ALAMBERT, 2004, p. 85-86) e o panorama é de uma crescente visibilidade da mulher: apesar de sua ainda estreita participação política,

[...] já são centenas de mulheres que se movimentaram politicamente. São intelectuais, operárias, brancas e negras. Seus movimentos têm muitas diferenças em relação ao passado longínquo, embora muitas de suas reivindicações ainda sejam as mesmas. Mas, como antes, não conseguem se articular de modo permanente. São movimentos esporádicos, intermitentes, embora de grande valia a conscientização das populações femininas (ALAMBERT, 2004, p. 86).

Apesar disso, é no século XIX que se formam as primeiras correntes feministas e estas impulsionam lutas que, segundo a autora, estavam limitadas a reivindicações específicas. Conquistase, por exemplo, a alteração do Código Civil de 1917 com a Lei nº 4.121 (Estatuto Civil da Mulher), no ano de 1962, que derrubou a determinação da incapacidade da mulher casada para prática de atos civis. Com a censura do golpe de 1964, o foco da militância passou a ser outro e as mulheres se dispersaram. É só em meados da Terceira República, ou mais especificamente a datar de 1975 com o Ano Internacional da

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Mulher que o movimento feminista se reestrutura e começa a traçar o que viria a ser o nosso presente (ALAMBERT, 2004, p. 88).

A partir dos anos 1980, realizou-se no mercado de trabalho brasileiro um grande aumento da participação feminina. Mesmo que já existisse antes dessa data mulheres que participavam da esfera produtiva, foi a partir daí que o mercado assistiu um expressivo crescimento das mulheres, que remodelou a vida feminina e a própria sistemática dessa esfera da vida social, caracterizando um processo de feminilização do mundo do trabalho (VIANNA, 2014, p. 28).

Entretanto, Gonzaga pontua que “apesar da inserção massiva da mulher no mercado de trabalho, o espaço público não foi readequado para recebe-la” (GONZAGA, 2011, p. 47). O que ocorreu foi a tentativa de implementação de algumas medidas paliativas pontuais, firmadas a partir de 1985, como a criação do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM), de delegacias especializadas e serviços de atendimento às mulheres pelo país. A Constituição de 1988 também teve a sua importância, garantindo a igualdade a direitos e obrigações igual para homens e mulheres. A partir dos anos 2000, importantes leis são sancionadas, garantindo a concessão de direitos trabalhistas – com a Lei Federal nº 10208/2001, que faculta o acesso ao FGTS e ao Segurodesemprego para emprego doméstico -, de proteção contra a violência - com a Lei Maria da Penha, Lei Federal nº 11.340 de 2006 - e a recente Lei nº 13.104 de 2015, que prevê o


feminicídio28 como circunstância qualificadora do crime de homicídio. Entretanto, apesar dos direitos conquistados, a relação construída socialmente que hierarquiza o que é ser homem e o que é ser mulher (VIANNA, 2014, p. 22) ainda reflete numa clara divisão de papeis de acordo com o gênero e a mulher permanece em uma condição subalterna. Analisando um panorama geral do país e, conforme visto anteriormente, a contextualização ocidental do papel social da mulher, concluímos que:

Na história das mulheres, a cidade é um espaço em que se evidencia sua presença, suas discriminações são exacerbadas, as mesmas que elas enfrentam no espaço privado, como sua constante desqualificação, a permissão apenas para se comportarem como objeto de uso e abuso, e, muitas vezes, de troca” (GONZAGA, 2011, p. 86).

É neste cenário que os movimentos feministas reclamam o acesso das mulheres à cidade, buscando desconstruir os papeis socialmente atribuídos para garantir sua autonomia através de importantes ações urbanas, como a Marcha das Vadias 29. Além disso, começam a exigir a ampla participação de mulheres nas entidades de poder e na elaboração de políticas urbanas que as 28

Segundo a Lei Federal nº 13.104 de 2015, considera-se feminicídio os crimes realizados contra mulheres por razões da condição de sexo feminino, especificamente quando o crime envolve: I - violência doméstica e familiar; II menosprezo ou discriminação à condição de mulher.

representem. É a partir daí que as pautas feministas começam a aproximar-se do planejamento territorial.

3.3. Se essa cidade fosse minha? EU mandava ladrilhar Como percebemos até então, “desde que existe sociedade, as mulheres participam das lutas e dos movimentos políticos. Há registros da participação de mulheres em várias revoltas ao longo da história” (SILVA; FARIA; PIMENTA, 2017, p. 4). Sua presença foi importante não apenas para a representatividade feminina nas batalhas e a consequente desconstrução dos estereótipos de gênero, mas para fortalece-las dentro da militância política, fazendo com que, posteriormente, pudessem defender suas pautas internas. As lutas femininas têm tomado cada vez mais as ruas – resultado da popularização do movimento feminista –, e nesse cenário, novas estratégias vem surgindo, reivindicando mais conquistas e buscando a consolidação do direito de ir e vir na cidade. Segundo Vianna (2014),

A cidade é palco privilegiado de lutas sociais e de movimentos organizados que buscam uma nova 29

Consiste em uma manifestação mundial que ocupa os espaços públicos desde 2011 e levanta pautas como a liberdade da mulher, o direito ao seu próprio corpo e à cidade, ressignificando o termo “vadia”.

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forma de construir o urbano. E, exatamente pelo fato de a cidade ser fruto das relações sociais e do sistema econômico, lutar por uma mudança nela implica também lutar por uma mudança no próprio sistema econômico. Visto que a cidade é um produto social, se existe vontade e necessidade de transformá-la por grupos organizados, também estarão em busca de transformações estruturantes no sistema de produção, o que resulta que as movimentações por mudança na cidade possuem em si próprias um potencial revolucionário (VIANNA, 2014, p. 17).

Assim, afirmamos que a luta feminista tem ido além do próprio direito a cidade: busca-se, também, um direito ao poder e entendemos aqui que tais conquistas estão intimamente ligadas, de modo que a autonomia no âmbito urbano depende indissociavelmente do acesso da mulher ao poder. É preciso que fique claro que quando tratamos de poder aqui, nos referimos também a uma atuação da mulher nas instâncias públicas de trabalho em cargos de gestão, para que a mesma participe ativamente30, não apenas enquanto mão-de-obra, na tomada de decisões dentro do planejamento urbano. Este é um dos principais fatores que demandam atenção, visto que, segundo Terezinha Gonzaga (2004), “o grau de democracia de uma sociedade se mede pelo grau de participação e poder que as mulheres exercem nesta”. Sendo assim, pressupõe-se que: 30

“ Segundo pesquisa realizada pela ONG Etapas apud Cymbalista (s.n.t.) sobre a presença das mulheres no Orçamento Participativo do Município de Recife em 2004, constatou-se que embora 58% dos participantes fossem mulheres, 64,3% afirmaram nunca ter expressado seus pensamentos durante as reuniões. Essa constatação coloca em cheque a eficácia da participação feminina, que acaba

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[...] a mudança do lugar que a mulher ocupa na sociedade e na cidade depende também do fortalecimento de sua participação nos espaços de poder. Para tanto é necessário alcançar uma representatividade que reflita sobre a ampla participação da mulher na vida cotidiana da cidade, possibilitando que suas experiências contribuam para aprimorar a política de desenvolvimento urbano e a formulação de políticas específicas de promoção do direito das mulheres à cidade (SANTORO, 2008: p. 17).

Peccini (2016) complementa:

É importante colocar que, apesar de essencial, a transformação do espaço pelo viés da segurança não é a única medida necessária para que as cidades sejam receptivas às mulheres. Além do âmbito da construção física do espaço, é urgente considerar a falta de representatividade das mulheres nos espaços de decisão das transformações urbanas e a representatividade simbólica tanto na mídia como no próprio espaço da cidade (PECCINI, 2016, p. 22).

se tornando apenas alegoria, legitimando decisões que não só não combatem as segregações, como também acaba por promovê-las” (BYMBALISTA et al., s.n.t., p. 6 apud SARAIVA, 2017, p. 10-11).


Além da necessidade da representatividade da mulher na gestão urbana, é importante falar sobre a importância do olhar de gênero na regularização fundiária – ou seja, voltemos a falar de propriedade privada. De acordo com os dados do GLTN (Global Land Tool Network) do ano de 2010, a posse legal da terra alcança somente 30% das áreas habitadas nos países em desenvolvimento. Desse total, apenas 3% das mulheres possuem documentos de registro do imóvel (GLTN, 2010). Em contraponto, um estudo apontou que:

[...] as mulheres vendem menos suas casas que os homens. [...] Nesse sentido, estabelecer a mulher como figura prioritária para receber uma titulação pode significar uma opção na direção de garantir a permanência na área, preocupação constante dos programas públicos de regularização fundiária (SANTORO, 2008: p. 10).

Em âmbito nacional, a Lei 11.977 de 2009 marca uma importante modificação na política habitacional para mulheres, determinando que registros e contratos do Programa Minha Casa Minha Vida deveriam ser formalizados, preferencialmente, em nome da mulher. Em seguida, a Medida Provisória nº. 561 de 8 de março de 2012, dia da mulher, concede à mulher o título da propriedade do imóvel adquirido no PMCMV em casos de dissolução de união estável, separação ou divórcio.

dentre suas ações, destacaremos dois produtos importantes que resultaram da junção do debate urbano e feminismo: (a) o surgimento de novas teorias que associam o planejamento territorial às necessidades de gênero a partir da lógica feminista, como a Geografia Feminista e o próprio debate de gênero dentro do urbanismo; e (b) o surgimento de diversos coletivos e iniciativas de mulheres para mulheres, que tem como pautas centrais o direito da mulher à cidade. Abordaremos tais estratégias a seguir.

3.3.1. Dá para espacializar minha experiência?: a geografia feminista e a territorialização das desigualdades de gênero A Geografia Feminista, “subcampo da geografia que foca na relação entre espaço e gênero, surge como uma reação contra o androcentrismo da geografia oficial, que colocava o homem como protagonista, excluindo as mulheres no meio geográfico” (SIQUEIRA, 2015, p. 22). Ela é, portanto, uma área que explicita as desigualdades e inclui as contribuições feministas na análise geográfica (SILVA, 1998, p. 108). Segundo Martinez (1995), é importante acrescentar a perspectiva de gênero em, principalmente, três grandes áreas da geografia. São elas:

De

fato, o movimento feminista tem sido essencial na reivindicação do espaço da mulher na produção das cidades e, |


1) as relações existentes entre gênero e conceitos chaves na Geografia como são o espaço, o lugar e a natureza; • o espaço enquanto construção social e de gênero, • o conceito de lugar e a importância que em sua definição introduzem as diferenças de gênero, • a relação entre gênero e natureza (o meio ambiente em seu sentido amplo); 2) as diferenças territoriais nos papéis e relações de gênero; 3) o uso e experiência diferenciais do espaço entre homens e mulheres, em distintas escalas: desde a escala local (utilização do espaço cotidiano, por exemplo) a global (movimentos migratórios transnacionais) (MARTINEZ, 1995, p. 18 apud SILVA, 1998, p. 108).

Para Silva (1998), trabalhar em cima das práticas do cotidiano é uma forma de dar visibilidade às questões de gênero. Deste modo, entram em pauta questões como a:

Essas afirmações ilustram um pressuposto de que a vivência da mulher no espaço urbano é distinta da masculina, mas que a Geografia, em geral, tem ignorado tal diferenciação. Silva exemplifica com o estudo de população, que, segundo ela, é uma abstração que, apesar de considerar as diferenças de classe, examina a sociedade enquanto um conjunto neutro, assexuado e homogêneo (SILVA, 1998, p, 108) – e arrisco complementar que tal conjunto “neutro” é, mesmo que inconsequentemente, apoiado num padrão social masculino31.

Nessa aproximação entre geografia e cotidiano, o olhar passa a centrar no corpo (SIQUEIRA, 2015, p. 23) e, desse modo, pautas importantes entram em questão, como por exemplo “o medo e questões sobre uso do espaço público por quem, como, quando e a associação a diferentes tipos de espaços - em suma, sobre como espaços são tomados, usados e modificados por meio de ações cotidianas” (SIQUEIRA, 2015, p. 23).

Nesse sentido, cabe a fala de Gouveia, que questiona: “[...] se mulheres, negros/as, povos indígenas, crianças adolescentes, jovens, idosos, portadores /as de necessidades especiais são os grupos sociais discriminados e que

merecem essa menção específica, quem são os outros ? Os homens brancos adultos que não portam nenhuma necessidade especial, heterossexuais e cristãos? São eles os sujeitos gerais a partir do qual se denominam os sujeitos específicos para políticas específicas?” (GOUVEIA, 2005, p. 3).

31

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[...] organização da vida cotidiana em áreas rurais e urbanas; o mercado de trabalho segundo o gênero e a localização espacial das indústrias e dos serviços (creches, escolas, transportes, etc.); a utilização do espaço (público e/ou privado) segundo o gênero; o trabalho doméstico e o número crescente de mulheres que sustentam economicamente a família; a queda da taxa da fecundidade e os direitos reprodutivos (SILVA, 1998, p. 109).

Siqueira complementa, referindo-se às conclusões de Ornat (2008), que tal subcampo dá pistas para compreendermos de forma mais aprofundada como os “fenômenos envolvidos nas relações de poder, na dualidade entre espaço público e privado


como o medo da mulher no espaço público” (SIQUEIRA, 2015, p. 24). É relevante pontuar trabalhos importantes, como os de Oberhauser (et al., 2003) e de McDowell (2003), e explanar que a contribuição da geografia feminista é significante dentro do debate territorial de gênero porque, “se no campo da arquitetura e urbanismo a produção sobre gênero e cidade é exígua, na geografia percebe-se um maior acúmulo de reflexões e estudos referentes à temática do olhar feminino sobre a cidade” (SIQUEIRA, 2015, p. 22), que podem trazer apontamentos importantes para os estudos urbanísticos. Para concluir, Silva destaca que:

[...] as contribuições teóricas feministas não se restringem a categoria gênero. A epistemologia feminista ao criticar a dicotomia natureza/cultura aproxima-se da Geografia e amplia esta crítica para a relação mulher/ natureza e homem/cultura. Portanto muito ainda temos que apreender desta contribuição (SILVA, 1998, p. 109-110).

Apresentamos, de maneira breve e sucinta, a importância da teoria feminista na análise territorial. A seguir, explanaremos sobre “a experiência do movimento social feminista na produção “El diseño y la organización de la ciudad están directamente relacionadas con la violencia que existe en las calles. Las mujeres no deberían ser consideradas por más tiempo como las únicas responsables de su propia seguridad personal. 32

e alteração das relações sociais e do espaço construído” (GOUVEIA, 2011, p. 47), ou em outras palavras, do planejamento urbano.

3.3.2. Quem pensa a minha cidade?: compreendendo a importância da perspectiva de gênero no planejamento urbano

Coincidentemente (ou não), é em meados do século XX – mesma época em que se inicia o debate da geografia feminista -, a partir do advento da segunda onda do feminismo, que tais contribuições teóricas começaram a fazer parte da discussão do planejamento urbano (UN-Habitat, 2012, p. 18 apud SARAIVA, 2017, p. 8). Já no ano de 1995, é redigida pela União Europeia a Carta por el Derecho de las Mujeres a la Ciudad, que reconhece que “o desenho e a organização da cidade estão diretamente relacionados com a violência que existe nas ruas. As mulheres não deveriam ser consideradas por mais tempo como as únicas responsáveis pela sua própria segurança pessoal” (MANUAL DE ANALISIS, p. 13-14), tradução nossa)32. Passados mais de 20 anos de tal publicação, ainda é perceptível que os esforços de incluir a questão de gênero no planejamento urbano são acanhados e

Para conseguir esta meta, lo esencial es que la seguridad en la ciudad debería llegar a ser la expresión de una sociedad de respeto mutuo” (Manual de Análisis Urbano, 2011).

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reconhecer que as desigualdades entre mulheres e homens não atravessam a produção e reprodução das cidades, mas são, por princípio, elementos constituintes das mesmas (GOUVEIA, 2014 apud VIANNA, 2014, p. 34).

pontuais – mas se fazem mais urgentes do que nunca. Isto se dá por que: O contexto de crise – e, por que não?, reinvenção – que nossas cidades estão atravessando sinaliza a necessidade de novas maneiras de se pensar o planejamento e a gestão urbana. A sociedade civil se organizando de formas inovadoras e a apropriação pela população da discussão sobre o futuro que se quer para as cidades mostram que existe abertura e necessidade de se incluir a discussão sobre gênero como pauta transversal a todas as políticas. Como falar em combate à violência doméstica ou às desigualdades salariais entre homens e mulheres sem levar em conta que o meio urbano é cenário desses conflitos? Com mais de 80% da população brasileira vivendo em cidades, é evidente que o espaço construído exerce influência fundamental na manutenção ou superação de tal assimetria na relação entre homens e mulheres – e que muito pode se avançar ao se abordar a questão a partir da perspectiva do planejamento e desenho urbanos (HARKOT, 2015).

Neste sentido, é importante reconhecermos que: Uma coisa é constatar a presença das mulheres na cidade, outra completamente distinta é pensar a produção desse espaço tendo como preocupação política e analítica a estrutura e a dinâmica das relações das desigualdades entre mulheres e homens. Falar das desigualdades não é apenas tratar do problema do ponto de vista do acesso desigual aos espaços e processos das cidades, é, acima de tudo,

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Ao falarmos de urbanismo pela perspectiva de gênero, falamos, assim como na geografia feminista, da aproximação com o cotidiano e com a individualidade da necessidade de grupos distintos, rompendo com o padrão masculino heteronormativo branco que tem baseado a construção das cidades. Em suma, A luta feminista é uma luta por justiça social. Desta forma, a justiça urbana deve incorporar também as reflexões feministas. A teoria da justiça de Nancy Fraser (2002) elabora critérios de justiça baseado em três pilares: redistribuição, reconhecimento e representação/participação. A redistribuição implica em influir na esfera econômica, se contrapondo a acumulação capitalista a partir da exploração do trabalho e da espoliação dos recursos, não perdendo de vista a questão de classe. O reconhecimento vai ter como foco as lutas das identidades políticas e suas reivindicações. Não se limitando à classe, a justiça precisa contemplar uma gama mais complexa da experiência dos sujeitos como gênero, relações étnico-raciais, religiosidade e nacionalidade, em que atuam sistemas de opressão. A paridade de participação é entendida como a criação de condições para que todos os sujeitos possam participar das decisões políticas com independência de voz, dentre elas a própria distribuição econômica;


além da não hierarquização das diferenças culturais e respeito às diferenças. As três dimensões são interdependentes e igualmente necessárias para a produção de justiça social (SILVA; FARIA; PIMENTA, 2017, p. 11)

Apesar das leis vigentes apresentarem diretrizes que buscam garantir o direito à cidade e à moradia para todos os cidadãos, é necessário um olhar específico sobre a questão de gênero no planejamento urbano, pois é de extrema importância a existência de ações afirmativas voltadas exclusivamente para tais disparidades. Tanto a Constituição Federal de 1988 e seu capítulo sobre Política Urbana quanto o Estatuto da Cidade (Lei 10.257/2001) apresentam medidas que não consideram as diferenciações das vivências da mulher e do homem dentro do espaço urbano. É preciso, portanto, aproximar o pensar e o fazer as cidades das próprias mulheres. “É essencial que as mulheres sejam ouvidas e participem ativamente no desenho e construção das políticas urbanas” (HARKOT, 2015) e, nesse sentido, conforme já citado anteriormente, apontamos o viés da participação como fator fundamental – e é através da implementação de mecanismos de escuta da mulher que as cidadãs se aproximarão dos espaços de discussão territorial e da elaboração de instrumentos como Estatuto da Cidade e o Plano Diretor. Tratando de gestão pública, e falando aqui especificamente da cidade de Maceió, os dados apontam que a antiga SEMPLA (Secretaria Municipal de Planejamento e Desenvolvimento) – hoje

vinculada à SEDET (Secretaria de Desenvolvimento Territorial e Meio Ambiente) - vem sendo gerida majoritariamente por homens, apesar das demais funções serem distribuídas em sua grande maioria para mulheres (Tabela 1). Ao longo dos últimos 15 anos, apenas uma mulher foi Secretária de Planejamento, justamente na gestão de uma prefeita mulher – a primeira a exercer tal cargo na história da cidade, no ano de 1996. Entretanto, nos mesmos 15 anos, apenas mulheres ocuparam o cargo de Secretária Adjunta, o que confirma que elas estão presentes na administração da gestão urbana, mas raramente ocupam o cargo de maior poder no órgão, ou seja, aquele responsável pela deliberação de tais propostas. Atualmente a Secretaria de Planejamento conta com um total de 18 funcionários, dentre eles 16 mulheres e apenas 2 homens.

Gestão

Prefeito(a)

Secretários Municipais de Planejamento e Desenvolvimento de Maceió nos últimos 15 anos Secretário(a)

Adjunto(a)

Mac Merrhon

Adriana Cavalcanti

Manoel Messias

Andreia Lessa

Marzio Delmoni

Andreia Estebam

2005-2008

Cícero Almeida

Alírio Ismael

Informação não obtida

2001-2004

Kátia Born

Iara Lane

Carmem Menezes

2017-2021 Rui Palmeira 2013-2016 2009-2014

Estebam/Juliana

Tabela 02: Secretários Municipais de Planejamento e Desenvolvimento de Maceió nos últimos 15 anos. Fonte: SEDET – Secretaria de Desenvolvimento Territorial e Meio Ambiente, com edição da autora.

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Os dados comprovam que:

Se por um lado a mulher está mais presente no mercado de trabalho (mesmo que ainda tenha muito a galgar na competitividade com homens em termos de cargos e salários), em termos de representatividade política, não tem aumentado a participação de mulheres como representantes: são poucas conselheiras, vereadoras, deputadas, senadoras, líderes dos movimentos sociais, entre outros (SANTORO, 2008: p. 5).

Obviamente que “a superação da situação atual urbana pressupõe uma transformação radical na organização econômica da sociedade” (PINTO, 2011, p. 16), mas a implementação de estratégias pontuais é essencial, como por exemplo, considerar:

[...] os diversos deslocamentos que as mulheres fazem no espaço urbano e a sua relação com a divisão sexual do trabalho. Ter uma dupla jornada de trabalho significa se deslocar para o emprego formal e remunerado e ainda levar filhos à escola, acompanhar doentes ao hospital, pessoas dependentes em suas necessidades, o que requer múltiplos deslocamentos pela cidade. Nesse sentido, a divisão entre áreas residenciais e o centro, que normalmente concentra os serviços e atividades produtivas, marca das cidades modernistas, honera o cotidiano das mulheres. Tal modelo de cidade reflete um padrão dicotômico entre espaço público (produtivo) e o privado (reprodutivo), bem como desconsidera que os papéis sociais diferenciados

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entre homens e mulheres determinam diferentes experiências na cidade (SILVA; FARIA, PIMENTA, 2017, p. 13).

Entretanto, apesar de reconhecer tais diferenciações enquanto pautas importantes, é preciso ter cautela para que as estratégias relacionadas ao planejamento urbano a partir de uma perspectiva de gênero não acabem por reforçar ainda mais os estereótipos de gênero. Silva, Faria e Pimenta (2017) colocam que:

Adotar uma perspectiva de gênero no planejamento urbano é bem diferente do que naturalizar papéis que são socialmente construídos. Afirmar a necessidade de um planejamento que leve em conta os múltiplos deslocamentos que uma mulher faz na cidade para executar uma dupla ou tripla jornada de trabalho não significa normatizar a divisão sexual do trabalho. Significa sim pensar que as tarefas produtivas e reprodutivas não deveriam estar fragmentadas no espaço urbano, assim como não deveriam estar segregados os sujeitos (SILVA; FARIA, PIMENTA, 2017, p. 15)

Em contraponto, Bandeira (2004) reclama que diversas políticas públicas são implementadas centrando o olhar no feminino, mas não na questão de gênero, o que acaba por reforçar certos papéis designados para a mulher – em especial a relação mulher x família e, consequentemente, a relação mulher x privado - enquanto parte da reprodução social.


[...] Configura-se, portanto, numa política pública que enfatiza a responsabilidade feminina pela reprodução social, pela educação dos filhos, pela demanda por creches, por saúde e outras necessidades que garantam a manutenção e permanência da família e não necessariamente seu “empoderamento” e autonomia (BANDEIRA, 2004: p. 9).

É necessário trabalhar questões que envolvem, por exemplo, a maternidade porque é uma realidade na vida da maioria das mulheres, mas precisamos também ir além da resolução das questões da opressão feminina. É preciso garantir a autonomia das mulheres na ocupação do espaço e considerar que essas possuem desejos e necessidades pessoais – que não envolvam o cuidado com terceiros. Diante do exposto, constatamos também que:

[...] pelo papel de estruturadora que a mulher exerce na sociedade, suas iniciativas estão sempre muito ligadas aos interesses coletivos. Portanto, ao expor organizadamente e de forma autônoma suas propostas do ponto de vista de gênero, sempre contribuirá para a transformação das relações sociais e ajudará nas soluções para o espaço construído (GONZAGA, 2011, p. 30).

Para ilustrar tais questões, Terezinha Gonzaga (2004) apontou dois Planos Diretores no Brasil que apresentaram “várias tentativas de aprovação de projeto de lei contendo a mulher como

prioridade, como preferência, cotas de habitação, entre outros” (SANTORO, 2008: p. 11). O primeiro deles, o Plano Diretor de Santo André, em São Paulo – que consiste na primeira experiência no Brasil onde o movimento de mulheres discutiu a questão de gênero associada à gestão e reordenação democrática da cidade em conjunto com o município – acrescentou no Plano Diretor medidas como o “estabelecimento [...] de políticas específicas voltadas para as mulheres; garantia de representação das mulheres [...] nos programas sociais da municipalidade” (SANTORO, 2008: p. 11). Terezinha também pontua o Plano Diretor de São Paulo, que incorpora que “as ações do Poder Público devem garantir a transversalidade das políticas de gênero e raça, [...] buscando alterar a lógica da desigualdade e discriminação nas diversas áreas” (Plano Diretor Estratégico do Município de São Paulo, 2002). Críticas à parte, tais exemplos foram essenciais enquanto instrumentos pioneiros na inserção do debate de gênero e cidade no Brasil. Seguiremos este capítulo apresentando iniciativas feministas que também merecem destaque pelo comprometimento com as questões urbanas.

3.3.3.

Delas para elas: essa cidade É minha

Apesar da explosão de inúmeras ações alternativas feministas pelo Brasil e pelo mundo, em especial nos últimos

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anos, remeteremos aqui a algumas que consideramos essenciais dentro do quesito urbano. Com o intuito de “construir coletivamente e de forma solidária um pensamento crítico feminista sobre os estudos urbanos no Brasil”33, o blog FeminismUrbana traz uma coletânea de textos, artigos, imagens e opiniões sobre mulher e cidade e busca “juntar quem está pensando as cidades na perspectiva feminista, no Brasil e na América Latina”. Quem toma a frente do projeto é Diana Helene Ramos 34 e Rossana Brandão Tavares35, motivadas pelo número escasso de trabalhos sobre desigualdades de gênero na Arquitetura, Urbanismo e no Planejamento Urbano. Figura 05: Blog FeminismUrbana. Fonte: <https://feminismurbana.wordpress.com/> Acesso em: 12 de fevereiro de 2018.

Enquanto isso, um grupo de mulheres encontrou nas redes sociais uma forma interessante de “conhecer, mapear, compreender, questionar, melhorar a relação da mulher com o espaço urbano” 36. Através de uma página criada no Facebook, intitulada Se essa rua fosse nossa, suas fundadoras falam de Disponível em: < https://feminismurbana.wordpress.com/sobre-nos/> Acesso em: 12 de fevereiro de 2018. 34 “Diana Helene Ramos - cartunista, comunicadora popular, feminista, professora de graduação (UNIGRANRIO), arquiteta e urbanista (FEC/UNICAMP), mestre em planejamento urbano e regional (FAU/USP), doutoranda em planejamento urbano e regional (IPPUR/UFRJ) orientada pela prof.ª. Dra. Soraya S. Simões, com doutorado sanduíche na EHESS (Paris, França)” (SIQUEIRA, 2015, p. 20). 33

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35

“Rossana Brandão Tavares - educadora popular, feminista, professora de graduação (UNIGRANRIO/UFRJ), arquiteta e urbanista (EAU/UFF), especialista e mestre em planejamento urbano e regional (IPPUR/UFRJ), doutoranda em urbanismo (PROURB/UFRJ) orientada pela profª. Dra. Rachel Coutinho, com doutorado sanduíche na AgroParisTech (Paris, França)” (Ibidem, p. 20). 36 Disponível em: <https://www.facebook.com/pg/seessaruafossenossa> Acesso em: 12 de fevereiro de 2018.


mulheres, mas afirmam que, para tal, precisavam inicialmente escutá-las. “Pra isso, coletamos relatos. Ouvimos histórias. Então, dividimos vivências e compartilhamos problemas. Encontramos dificuldades, medos, fragilidades. E buscamos, enfim, soluções” 37. A página funciona como uma rede de denúncias anônimas e, dentro dela, é possível observar relatos também anônimos de outras mulheres, como forma de alertar e demonstrar que somos muitas e passamos por situações parecidas. Desconforto, medo, abuso, assédio. Insegurança simplesmente por existir. Nosso coletivo surgiu para materializar um sonho: fazer com que as mulheres se apropriem da cidade. Que tenham consciência do seu livre arbítrio, que possam viver com seus direitos assegurados e que possam caminhar seguras. Para isso, propomos o debate a partir de relatos, vivências, experiências que coletamos. Entendemos que nenhuma mulher é responsável por qualquer violência sofrida por ser mulher. Acreditamos que é fundamental denunciar qualquer tipo de violência sofrida e contemplar a voz de qualquer mulher que queira compartilhar seu relato. Estamos em uma fase inicial: escutamos. Entrevistamos, perguntamos, procuramos aquelas que se sintam inseguras e possam nos ajudar a tentar mudar a cultura machista que é imposta. Queremos unir forças e deixar nossa voz ainda mais alta. [...] Queremos visibilizar as problemáticas das mulheres no cotidiano. Queremos poder gritar liberdade através dos nossos corpos. Queremos um mundo onde o machismo não seja naturalizado - e nossa luta é pra isso. Porque nós, mulheres, temos força. E um dia essa rua vai ser nossa 38 . 37 38

Ibidem, 2018. Ibidem, 2018.

Figura 06: Movimento “Se essa rua fosse nossa?” Fonte: < https://www.facebook.com/pg/seessaruafossenossa/> Acesso em: 12 de fevereiro de 2018.

Outro movimento virtual importante é o “Vamos juntas?”. Fundado despretensiosamente pela jornalista Babi Souza, o movimento veio da própria experiência da autora num dia de medo e insegurança na cidade, que teve a ideia através do pensamento que “se as mulheres se unissem nas ruas se sentiriam mais seguras. Afinal, só as mulheres entendem o medo que as outras mulheres sentem na rua”39. O que era apenas uma postagem em seu perfil do Facebook, se tornou um site e até um livro, intitulado “Vamos juntas?: Um guia da sororidade para todas” (2016).

Disponível em: < http://www.movimentovamosjuntas.com.br/index.php/ovamos-juntas> Acesso em: 15 de fevereiro de 2018. 39

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mulheres dão seus depoimentos anônimos de assédio sexual sofridos nas cidades, é gerada uma espacialização dessas ocorrências através de um mapeamento que pode ser acessado por qualquer pessoa através do próprio site42. Inicialmente, A expectativa era de algumas dezenas de respostas, mas em apenas duas semanas, foram quase 8 mil participantes – e os números encontrados eram parte surpreendentes e parte esperados: 98% delas já haviam sofrido assédio, 83% não achavam legal, 90% já trocaram de roupa antes de sair de casa pensando onde iam por causa de assédio e 81% já haviam deixado de fazer algo (ir a algum lugar, passar na frente de uma obra, sair a pé) por esse motivo 43

Figura 07: Movimento “Vamos juntas?” Fonte: < http://www.movimentovamosjuntas.com.br//> Acesso em: 12 de fevereiro de 2018.

Ainda sobre plataformas digitais brasileiras, a Olga é uma “ONG feminista criada em 2013, com o objetivo de empoderar mulheres por meio da informação. O projeto é um hub de conteúdo que aborda temas importantes para o público feminino de forma acessível” 40. Liderado pela jornalista Juliana Farias, o site é construído coletivamente por seis mulheres e dentre suas publicações estão artigos e projetos do grupo, que visam “oferecer espaço de fala para quem antes não tinha onde ecoar sua voz. [...] De mulheres, sobre mulheres, para mulheres. Conscientização, representatividade, educação, acolhimento” 41. Uma de suas campanhas, a Chega de Fiu Fiu, é uma das principais ferramentas de luta online contra o assédio e a violência urbana contra a mulher. Através de um portal virtual onde as Disponível em: < https://thinkolga.com/sobre/> Acesso em: 13 de fevereiro de 2018. 41 Ibidem, 2018. 40

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Figura 08: Campanha “Chega de Fiu Fiu”, da ONG Think Olga. Fonte: < http://chegadefiufiu.com.br/> Acesso em: 12 de fevereiro de 2018.

42

http://chegadefiufiu.com.br/ Disponível em: <https://thinkolga.com /2018/01/31/chega-de-fiu-fiu/> Acesso em: 13 de fevereiro de 2018. 43


Vale destacar também a ação de alguns grupos de estudo e pesquisa acadêmica no Brasil, como o NEG (Núcleo de Estudos de Espaço e Gênero), da Universidade Federal de Pernambuco – que tem como objetivo “trazer a discussão sobre gênero e sexualidade ao âmbito da Arquitetura, Urbanismo e Paisagem”44 – e o Arquitetas Invisíveis – que busca “dar espaço e voz às geniais mulheres que são não só arquitetas, mas também artistas e representantes de um tempo” 45. Além disso, evidenciamos iniciativas estrangeiras, como a Cooperativa Col·lectiu Punt 646, de Barcelona, e o projeto Womenability47, que nasceu em Paris, mas já tomou diversos países pelo mundo. Dentre seus trabalhos, suas publicações tiveram destaque e trazem importantes reflexões para a leitura da mulher na cidade. Analisando tais experiências, arriscamos dizer que a pauta principal, ao menos na maioria delas, é a questão do medo e insegurança presente na experiência urbana feminina.

3.4. Eu só quero é ser feliz e andar tranquilamente com a roupa que eu escolhi: o medo da violação no espaço urbano

Diante do contexto atual das cidades brasileiras, fortemente marcado pela violência, o medo é um sentimento presente em boa parte da população. Por que, então, falamos aqui do medo da mulher? Para iniciarmos tal debate, começaremos demonstrando os resultados da pesquisa Sistema de Indicadores de Percepção Social (SIPS) sobre segurança pública (IPEA, 2012 apud SIQUEIRA, 2015, p. 24). Ela aponta que o medo não somente está mais presente na vida da mulher, como que os maiores medos da mulher são distintos daqueles que têm os homens: “o medo delas está relacionado à sua integridade física, o assalto à mão armada e o assassinato. Os homens sentem mais medo dos crimes relacionados ao patrimônio, o arrombamento de residência” (SIQUEIRA, 2015, p. 24). Se baseando unicamente nesses dados, já é possível fazer uma consideração inicial: os maiores medos da mulher envolvem, majoritariamente, os seus corpos, enquanto os dos homens envolvem os seus bens. Isso não significa que as mulheres não temam pelos seus bens e os homens por seus corpos, mas o fato de um medo se sobressair ao outro – e isso variar de acordo com o gênero – tem algo significativo para nos dizer. Conforme já citado anteriormente, quando relacionamos o medo no espaço público com gênero, pressupomos que:

44

Disponível em: <https://www.facebook.com/neg.ufpe/> Acesso em: 20 de fevereiro de 2018. 45 Disponível em: <https://www.arquitetasinvisiveis.com/por-que-invisveis> Acesso em: 20 de fevereiro de 2018.

46

Disponível em: <http://www.punt6.org/en/ Acesso em: 20 de fevereiro de 2018. 47 Disponível em: <http://www.womenability.org/ Acesso em: 20 de fevereiro de 2018.

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[...] apenas as mulheres parecem ter um crime adicional a temer – a violação – e que os homens usualmente não temem (Riger et al., 1978). A abordagem dos mitos, como estando na origem do medo da violação, vai no sentido das conclusões de Gordon e Riger (1989) que afirmam estar o medo da violação associado não apenas ao risco percebido e real do abuso sexual, mas também (e de um modo complexo) aos mitos sociais e tabus relacionados com a sexualidade, no geral, e com o crime de violação, em particular (BERTA; ORNELAS; MARIA, 2007, p. 144).

Mas o que é o medo? De acordo com o dicionário Aurélio, consiste no “sentimento de viva inquietação ante a noção de perigo real ou imaginário, de ameaça”. O medo é, portanto, um sentimento que precede à própria violência, mas que está intimamente ligado a ela, mesmo que no plano da imaginação. Mas quando se trata de um “imaginário” coletivo, de um sentimento comum a um grupo extenso de pessoas, pressupõe-se que, apesar de o próprio medo nesse caso tratar-se de uma forma de imaginação ou suposição, ele se fundamenta com base num contexto real – ou ao menos próximo do real. Relacionando tal definição com o caso específico das mulheres, Berta, Ornelas e Maria (2007) colocam que as mesmas “[...] podem não ter sido vitimadas mas que, no entanto, estão e sentem-se sujeitas à ameaça de violação e ao controle social que este crime incentiva” (BERTA; ORNELAS; MARIA, 2007, p. 136). E complementa: |

Não só as mulheres parecem ser mais receosas, como também usam com maior frequência medidas de precaução, para evitarem a vitimação (Lavrakas et al., 1980, cit. por Riger, Gordon & LeBailly, 1978) e mesmo aquelas que não indicam preocupação face à violação, tomam precauções para o prevenir (Gordon & Riger, 1989).Poder-se-á demarcar em linhas gerais que a maioria das mulheres receia, designadamente, meios públicos (rua), sítios isolados, à noite, visibilidade limitada, locais ou situações desconhecidas e pessoas estranhas (Day, 1994). Porém, a tomada de precauções pode, muitas vezes, não proteger (por não se dirigir, na maioria das vezes, às características e contexto em que a violação usualmente ocorre), mas condiciona o acesso ao espaço comunitário e constrangem a liberdade das mulheres. Considerando as estratégias de precaução, assim como as suas consequências, as mulheres procuram um equilíbrio, ainda que precário, entre segurança, bem-estar psicológico e independência (BERTA; ORNELAS; MARIA, 2007, p. 136).

Deste modo, o ato de violação por si só “não apresenta somente consequências para a sobrevivente, mas igualmente precedências, influenciando a vida das mulheres, ainda antes da sua ocorrência e sob a forma de medo” (BERTA; ORNELAS; MARIA, 2007, p. 136). Segundo a autora, uma série de questões influenciam de fato essa sensação constante de medo:

[...] a existência do crime de violação propriamente dito (sua prevalência e deficiente resposta legal e social face a este crime), assim como o assédio e todo


o tipo de incivilidades públicas percebidas como intrusivas; a própria cultura social e seus valores que incluem a desigualdade dos papéis sexuais e sociais de ambos os gêneros; as consequências da violação; os mitos sociais sobre o crime em questão; a educação; e a comunicação social (BERTA; ORNELAS; MARIA, 2007, p. 137).

É preciso salientar que o crime da violação está intimamente ligado à “exigência de um acesso irrestrito dos homens ao corpo das mulheres” (SILVA; FARIA; PIMENTA, 2017, p. 12), que molda a sensação de (in)segurança desses corpos na cidade. Deste modo,

O medo que a mulheres parecem reter do abuso sexual não deve ser explicado pelo funcionamento individual de cada pessoa, ou até no ser feminino em geral, mas apresenta-se como um fenómeno social. O receio que se revela em ansiedade e sentimentos de insegurança não são nem devem ser tomados, como uma emoção ou percepção privada e idiossincrática, mas sim como um fenómeno com um impacto considerável na sociedade e qualidade de vida de todos os cidadãos (BERTA; ORNELAS; MARIA, 2007, p. 137)

comparada um homem, ela será vista como um alvo mais fácil. Além disso, tal diferenciação biológica justificou, como já citamos neste trabalho, um jogo de poder que elevou o homem a uma condição de superioridade e dominação, que objetificou a mulher e tornou-a sua propriedade. Em suma, a violação é, segundo a autora, “um crime motivado pelo poder e domínio exercido sobre as sobreviventes e não pelo desejo sexual de acordo com uma análise feminista” (BERTA; ORNELAS; MARIA, 2007, p. 137) e a sua existência serve como instrumento de manutenção das mulheres “numa posição vulnerável e oprimida numa sociedade essencialmente patriarcal” (Ibidem, p. 137). É a perspectiva do medo (e a ausência dele) que move o trabalho a partir daqui. No próximo capítulo, sairemos da teoria e adentraremos na prática no objeto de estudo, o bairro da Jatiúca e, a partir de diversas estratégias de escuta e análise, buscamos responder: quais as barreiras (e se existem) e quais os sentimentos envolvidos na experiência da mulher nos espaços públicos da Jatiúca?

É importante pontuar que, para além da violação, pressupõe-se que a mulher seja também em outros tipos de crime a vítima mais visada, dada a sua construção social que, pautada pela diferenciação biológica, a colocou numa posição de delicadeza e vulnerabilidade. Portanto, de um modo geral, se |


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4. NARRATIVAS FEMININAS

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Memória, diagnóstico, participação e urbanidade. A partir de agora, serão relacionados os conceitos e ensaios reflexivos explanados até então com os relatos coletados nesse trabalho, com o objetivo de realizar uma análise das subjetividades do bairro da Jatiúca e, a partir de uma perspectiva feminista, tratar especificamente da vulnerabilidade e o medo da mulher ao vivenciar tal espaço. Os dados que relacionam mulher e espaço público são alarmantes 48 e confirmam a necessidade de se empregar ferramentas de escuta para captar o imaginário dessas mulheres que, assim como a cidade, tem muito o que falar. E é a partir desse caráter reflexivo, onde “os habitantes narram a cidade ao mesmo tempo que a cidade narra seus moradores” (ROCHA; ECKERT, 2010 apud DUARTE; VILLANOVA, 2011, p. 36), que os espaços urbanos e seus usuários se moldam constantemente. Compreendendo tais apontamentos, o trabalho utilizou de um conjunto de estratégias que visam fazer ouvir e relatar as nossas experiências enquanto sujeitas desse contexto urbano. Tais narrativas foram coletadas e posteriormente passaram por uma análise fundamentada num paradigma indiciário, que consiste numa série de procedimentos que centram o olhar minuciosamente nos detalhes fornecidos de forma direta ou indireta pelas fontes e dados coletados. Em outras palavras, 48

Segundo pesquisa realizada pelo Instituto YouGov e divulgada pela ActionAid, movimento global para promover os direitos humanos e superar a pobreza, 86% das mulheres brasileiras entrevistadas já sofreram algum tipo de assédio em público nas cidades que residem. Durante a campanha Cidades Seguras para as Mulheres, lançada pela ActionAid em 2014, foram divulgados

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consiste em atentar-se às metáforas, indícios e estar sensível a vestígios que passam desapercebidos, mas que podem legitimar (ou desqualificar) a hipótese do trabalho. Mas qual seria essa hipótese? Em suma, todas as análises buscam demonstrar que a condição de ser mulher interfere em seu acesso, mobilidade, convivência, segurança e diversos fatores que envolvem a ocupação dos espaços públicos – mas muito além disso, interferem na sua (im)permanência nesses locais. Para compreender tais relações de ocupação e esvaziamento do bairro, analisei a experiência de mulheres através de estratégias anônimas e não-anônimas, entendendo que cada tipo de abordagem abre espaço para diferentes tipos de discursos. Cada relato, em sua particularidade, tem algo importante a dizer e cada não-relato – ou a identificação de sujeitas que não estão presentes ou não se mostraram abertas para a discussão – também remete a alguns questionamentos: até que ponto o papel social que nos foi atribuído tem limitado: (a) a nossa capacidade de enxergar nossas próprias opressões; (b) a nossa abertura para dialogar sobre tais situações de opressão; e (c) nosso sentimento de empatia com a experiência de outras mulheres (ou sororidade). É sabido que, “na maior parte das vezes, nossa percepção da cidade não é íntegra, mas sim bastante parcial, fragmentária, envolvida noutras referências. Quase todos os sentidos estão dados que mostram que 98% das mulheres entrevistadas acreditam que iluminação pública dá mais segurança nas ruas, 79% acreditam que a má qualidade dos serviços públicos dificulta suas vidas, limitando o acesso de 33% delas ao trabalho e de 22% à educação. Para 53% das mulheres, o problema aumenta casos de assédio, assalto e estupro (SARAIVA, 2017, p. 8)


envolvidos, e a imagem é o composto resultante de todos eles (LYNCH, 1960, p. 10 apud GONZAGA, 2011, p. 166). Por este motivo, utilizei de uma série de metodologias experimentais, visando não apenas atingir grupos distintos de mulheres, mas a partir do uso de variadas categorias de análises, apreender questões específicas que se distinguem entre si. Por fim, os dados foram compilados e especializados através de mapas síntese. É importante frisar que todos os métodos e abordagens foram adotados inicialmente de forma experimental e, depois de observados seus resultados, optou-se por prosseguir com os mesmos ou focar nas demais estratégias. Além disso, ambos ocorreram de forma não-sequencial, podendo ser aplicados simultaneamente ou não. A seguir, apresentarei minha visão pessoal e cotidiana do bairro enquanto mulher e usuária.

4.1. Por onde andei: meus relatos pessoais Optei por abrir o debate com a minha perspectiva não apenas porque ela foi, de fato, o pontapé inicial deste trabalho, mas porque a partir dela já pude traçar o começo da construção mental do bairro da Jatiúca. Primeiramente, é importante pontuar que sou moradora do bairro há mais de três anos e resido em um condomínio fechado de classe média alta, situado nas intermediações da orla. Isso

indica que a minha vivência do bairro é e sempre foi marcada pelo privilégio: não dependo de transporte público e tenho condições de optar por utilizar ou não determinado espaço em determinado horário. De fato, compreendo que minha perspectiva é, por diversos fatores, distinta das perspectivas de outras mulheres, mas ao analisar minhas experiências nos espaços públicos da Jatiúca e conversando com outras mulheres sobre suas próprias, percebi alguns fatores em comum: de início, o medo; não bastante, notei um sentimento constante de limitação – como devo me portar? Como devo me vestir? Por onde devo andar? Em qual horário circular? Será que devo circular?. Todos esses questionamentos apontavam para um ponto de vista central: apesar de nossas experiências serem únicas e particulares, tais questões em comum permeavam nossas realidades. E foi aí que eu percebi a importância de me posicionar no trabalho, de maneira a comparar o cotidiano de todas nós, usuárias do bairro, sujeitas distintas entre si, mas acima de tudo, mulheres – no plural. É pertinente esclarecer que algumas observações que colocarei a partir de então não foram percebidas durante as andanças, mas tomaram um tempo para serem processadas. Isso é reflexo da postura que adotei nessas caminhadas, que apesar de analítica, esforçava-se para não se prender a perguntas e respostas premeditadas. Busquei, portanto, realizar os trajetos da maneira mais livre possível. Entretanto, assumir tal comportamento foi consequência da minha postura na primeira vivência, antes mesmo de iniciar a |


escrita deste trabalho, na qual pude notar a presença de várias mulheres na rua. Reconhecê-las no espaço automaticamente me levou a acreditar que minha hipótese inicial – de que as mulheres não ocupavam a cidade – poderia não ser tão verdadeira. Não encontrar imediatamente a resposta que buscava me levou a desistir rapidamente do percurso e, consequentemente, voltar para casa. Analisando posteriormente tal postura, percebi que: (a) sair de casa atrás de uma resposta específica me impediu de ampliar minha experiência para outras percepções e respostas que estavam presentes; (b) não há, de fato, como desvincular e desconsiderar que a caminhada é produto de um estudo e que, portanto, não seria neutra e imparcial 49; (c) era preferível não premeditar os percursos da vivência, deixando-se levar, permitindo a dispersão; e (d) realizar tais experiências antes de iniciar as etapas de diálogos com outras mulheres seria essencial para formular minhas análises baseadas unicamente na minha visão pessoal. Foram realizadas quatro caminhadas principais ao longo do trabalho. A experiência do primeiro percurso serviu especialmente enquanto reflexão da minha conduta de vivência e análise e me levou a uma segunda caminhada. Nessa, pude atentar-me, finalmente, a questões de maneira mais aberta. Foi durante ela que comecei a identificar umas atitudes que permearam todas as experiências posteriores: (a) um processo de 49

Sabemos que não existe imparcialidade e que tal conceito já pressupõe a escolha de um lado. De fato, me posiciono neste trabalho a partir de uma perspectiva específica, mas quando me refiro a tais termos – neutralidade e imparcialidade - aqui, quero dizer que, apesar da memória individual por si só

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individualização, onde quase que automaticamente me coloquei em modo de defesa durante os percursos – e isso inclusive foi algo recorrente ao longo de todas as minhas experiências ao caminhar sozinha nas cidades que já frequentei; (b) o fato de eu optar por caminhos livres e não pré-determinados fez com que, inconscientemente ou não, eu optasse por caminhar sempre em ruas específicas, seja porque eu as considerava mais seguras pelos fatores que irei descrever posteriormente, ou porque elas me pareciam apenas mais familiares; e (c) passei a adotar um padrão de vestimenta, que permeava numa linha tênue entre a ideia de masculino e feminino – não poderia estar demasiadamente um, tampouco o outro. Para simplificar o entendimento do bairro, organizei a minha análise em dois momentos. Inicialmente, a partir das vivências, pontuei locais específicos que notei (des)conforto e/ou (in)segurança. Não me prenderei, neste momento inicial, a detalhar espacialmente a minha experiência descrevendo rua a rua e mapeando cada vivência, visto que tal aprofundamento estará presente nos mapas do item 4.3 deste estudo, mas atentarei em elencar questões que considerei importantes ao longo dessas perambulações, que refletiram diretamente na necessidade da etapa de análise espacial; e nesse segundo momento, no qual analisei o bairro a partir de uma escala maior, sem deixar de lado questões anteriores - que, posteriormente, apareceram também na já destruir a ideia de neutralidade na apreensão do espaço, vivenciar o espaço investigando e rastreando determinados aspectos conduz para uma postura ainda mais tendenciosa, que beira o exagero. É justamente por isso que optei por (tentar) analisar as experiências após seus términos e não durante.


narrativa de outras mulheres -, mas atentando de uma maneira mais ampla para todos os espaços de forma conectada. Começaremos falando da primeira. Figura 07: Mapa de percursos pessoais. Fonte: SEMPLA, com alterações da autora, 2018, sem escala.

De uma maneira geral, poderia elencar algumas questões iniciais que foram perceptíveis dentro das vivências. Primeiramente, existem perfis de mulheres distintas e que realizam atividades distintas no bairro, refletindo na forma como essas sujeitas ocupam (ou não) os espaços. Como já falamos anteriormente, quando tratamos de mulher aqui estamos falando de mulheres, sem desconsiderar suas multiplicidades. Ao caminhar

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pela Jatiúca pude perceber como é notória a presença de diferentes sujeitas, caracterizadas por distintas raças/etnias, idades, classes, orientações sexuais e tipos de atividades que realizam no bairro. A priori, tal observação não traz nenhuma novidade: a cidade, como já vimos, é um espaço heterogêneo e pressupõe-se que a Jatiúca configure-se como tal 50. Entretanto, torna-se relevante quando pensarmos que essas diferenciações resultam também em ocupações distintas entre si dentro do próprio bairro. Notar que simultaneamente existem mulheres que utilizam os espaços públicos apenas para se deslocar do ponto de ônibus para o trabalho, outras que utilizam apenas as calçadas enquanto extensão do próprio espaço privado em que se encontram – suas casas, comércio e serviços -, mulheres que caminham de suas casas para suas atividades físicas, mulheres domésticas que passeiam com as crianças e/ou cachorros de suas patroas, dentre outras atividades, é reconhecer que há uma diversidade de aspectos a se analisar dentro do termo usuária da Jatiúca. Além disso, é importante reconhecer que alguns locais são espaços majoritariamente de mulheres, mas são mulheres específicas. Um exemplo disso é o ambiente Viver Bem, situado no Corredor Vera Arruda, que consiste em um espaço promovido pela Unimed onde são realizadas atividades físicas aeróbicas e anaeróbicas. Entretanto, apesar de - ao menos na teoria - o 50

Cada lugar possui sua especificidade e afirmar que a cidade é heterogênea não significa dizer que tal característica se expresse em todos os bairros. De fato, a Jatiúca possui características que fomentam a existência de múltiplas sujeitas, como, por exemplo, a presença de serviços e comércios, de conjuntos

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mesmo ser aberto para a comunidade em geral, o equipamento é utilizado, majoritariamente, por mulheres brancas de classe média moradoras do entorno imediato, ou seja, uma região nobre do bairro. Isso indica que tal equipamento não apenas é ocupado por um grupo específico de mulheres de uma faixa etária específica, mas também envolve uma questão de classe – e talvez seja esse um dos motivos pelo qual este configure-se, ao meu ver, enquanto o ponto mais seguro da praça em que se insere 51. É importante pontuar que tal espaço é, também, o único espaço que identifiquei como lazer de ocupação específica da mulher em todo o bairro. Isso nos leva à próxima questão.

Figura 08: Espaço Viver Bem, da Unimed, situado no Corredor Vera Arruda. Fonte: Acervo pessoal, 2017.

habitacionais e edifícios de alta renda convivendo entre si, da orla marítima e da proximidade com o Maceió Shopping. 51 No item 4.4, apresentarei outras questões que, somadas a esta, justificam de forma mais clara tal afirmação.


Foi identificado que, não somente alguns pontos de ocupação são distintos dentre as próprias mulheres como, principalmente, entre homens e mulheres, e além disso, como as atividades exercidas por ambos muitas vezes se diferenciam entre si. Percebi que a ocupação e relação dessas sujeitas com o espaço é muito distinta dos homens por diversas questões. Primeiramente, muitas mulheres utilizam o espaço para realizar atividades que envolvem o cuidado com outros indivíduos (filhos e cachorros, por exemplo), função que não identifiquei nenhum homem realizando durante as caminhadas. Eles, por sua vez, dominam outras funções, como a prática de esportes de skate e futebol, realizadas em espaços especificamente pensados para tal encargo. Isso significa dizer que, observando a configuração do bairro, podemos pressupor a prevalência de espaços masculinizados, pensados para homens. Mas o que quero dizer quando me refiro a tais ambientes? Quero atestar que é notória uma dominação da figura masculina sob a feminina dentro daquela esfera, que é ocupada majoritariamente – se não unicamente – por esses sujeitos. Isso não significa afirmar que tais atividades sejam exclusivas de homens, reforçando os estereótipos de gênero, mas compreender que de fato a maioria das mulheres não se sentem confortáveis de ocupa-los, e quando o fazem, são muitas vezes sexualizadas, constrangidas ou apenas o podem fazê-lo na companhia de outros homens ou em grandes grupos. Peccini (2016) complementa que: [...] a presença massiva de homens em um espaço, por sua vez, pode ser ameaçadora para muitas mulheres, que vivem diariamente com assédios no

espaço público que são praticados principalmente por homens desconhecidos. Nessa realidade, ela deixa de ver aquele local como um local seguro ou como uma possibilidade, também como forma de evitar qualquer tipo de situação de violência ou constrangimento (PECCINI, 2016, p. 113).

Figura 09: Academia pública do Corredor Vera Arruda. Fonte: Acervo pessoal, 2017.

Outro fator interessante de pensar esse ponto foi porque me questionei sobre quais, na minha opinião, seriam de fato atividades ou espaços pensados para mulheres que não reforçassem um estereótipo de gênero e não acabasse por centrar o olhar unicamente na característica de cuidado da mulher. Isso me levou a perceber que ainda não tenho tal resposta porque acredito que nem eu, nem outras mulheres, sequer pensamos sobre o que nós almejamos nos espaços públicos para além da sensação de segurança – que acaba por ser nossa principal preocupação. E é exatamente por tal fator que existem zonas específicas em que não foi constatada a presença de mulheres, |


levando a crer que elas permeiam entre pontos e ruas especificas – e estes muitas vezes possuem características semelhantes. Os próprios pontos onde concentra-se um grupo homogêneo de homens inibem a passagem e permanência dessas mulheres, como é o caso de canteiros de obras – apenas um exemplo de locais em que atravessei a rua para me sentir segura. Observando outros aspectos que me causaram a sensação de medo, posso pontuar os locais mal iluminados, com pouca presença de comércios e serviços em funcionamento e que contem com poucas pessoas na rua como os espaços em que tive receio de circular. Em termos gerais, as ruas adjacentes às principais avenidas se encaixam como um exemplo perfeito do conjunto de características supracitadas. É possível perceber discrepâncias como a ocupação das principais avenidas quando comparadas com tais ruas adjacentes, onde não foi detectada a presença de prevalentemente nenhuma mulher. Claro que tais ruas são esvaziadas de pessoas em geral, independente do gênero, mas ainda pude perceber a disparidade da quantidade de mulheres e homens nesses espaços, demonstrando uma clara identificação de zonas de perigo e sua consequente segregação de gênero. Isso ocorre porque também são nesses espaços que muitas vezes se encontram terrenos baldios e imóveis abandonados – que propiciam a ocorrência de violências sexuais – e construções com muros altos e

predominantemente residenciais – que funcionam enquanto barreiras visuais do ambiente privado e espaço público.

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o país e diversas mulheres compartilharam fotos e textos contrapondo o papel atribuído às mulheres. Disponível em: <https://veja.abril.com.br/brasil/marcela-temer-bela-recatada-e-do-lar/> Acesso em: 01 de maio de 2018.

O termo “bela, recatada e do lar” foi utilizado pela Revista Veja em uma reportagem machista que atribui a Marcela Temer, esposa do presidente Michel Temer, um perfil de mulher “ideal”. Como crítica ao estereótipo de mulher subserviente imposto pela revista, uma hashtag com o termo viralizou em todo

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Pude observar que os tipos de deslocamento e a postura com que elas o fazem são notoriamente distintos dos homens. Geralmente essas mulheres não andam sozinhas, andam em grupos e a velocidade de seus passos é maior, em especial no período da noite. Além disso, andam atentas e o modo como se portam no espaço condiz com a lógica de repressão em somos criadas: recatadas e do lar 52. A experiência diferencia-se também porque caminhei sem nenhum pertence e permaneci com medo, sempre apressando o passo. Não havia, portanto, receio de perdas materiais, mas sim de violência de gênero – sentimento esse que o homem desconhece. No geral, verifiquei que as mulheres permanecem nos espaços públicos como praças e mobiliários urbanos quando estão em grupos - seja na companhia de outras mulheres ou também de homens – ou com alguma figura de cuidado – que conforme citado anteriormente, são os filhos/animais domésticos seus ou de suas patroas -, mas raramente estão sozinhas. Um exemplo que ilustra tal situação é a existência dos bancos situados ao longo do canteiro central da Av. Amélia Rosa, ocupados majoritariamente por homens. Primeiro porque tal mobiliário não consiste em um


local de permanência e lazer como é o caso do Corredor Vera Arruda, que possui espaços para crianças e realização de atividades de lazer pessoal, mas está localizado em um lugar de passagem e funciona enquanto espaço de espera – função cujas mulheres tendem a não exercer nos espaços públicos à exceção de casos de extrema necessidade, como a espera em pontos de ônibus. De fato, as mulheres tendem a não vagar ou ocupar espaços permanentemente de forma espontânea e optativa, mas percorrer caminhos que as levem de um ponto a outro da maneira mais rápida e segura possível.

Pela noite, há um esvaziamento dos espaços públicos de uma maneira geral, com exceção do entorno imediato dos estabelecimentos comerciais abertos no mesmo horário, onde concentram-se as atividades e grupos de pessoas. Por se tratar de um ponto de referência de vida noturna, há um grande deslocamento dessas sujeitas para o bairro, mas a ocupação massiva de mulheres nos pontos de ônibus prevalece apenas em horários comerciais. Isso se dá supostamente porque (a) a configuração do bairro a noite não é convidativa para a utilização desse tipo de transporte, seja por homens ou principalmente por mulheres; (b) não há funcionamento noturno eficaz do transporte público; (c) independentemente do bairro ou da configuração dessas paradas de ônibus, há um risco iminente de utilizar tal transporte no período noturno e, consequentemente, transitar do ponto para o destino final; ou (d) o espaço é frequentado hegemonicamente por figuras de maior poder aquisitivo, que realizam o itinerário através de carros ou serviços alternativos de transporte particular, como taxi ou Uber. Por outro lado, os percursos pedonais realizados por essas mulheres a noite são, a grosso modo, realizados em grupos e caracterizam-se por pequenos trajetos como o deslocamento de um estabelecimento para outro, de um ponto comercial para casa ou do estabelecimento para o carro, por exemplo, mas concentram-se nas proximidades comerciais.

Figura 10: Esquema de percursos diferenciados para mulheres e homens. Fonte: Material elaborado pela autora, 2018.

Apesar de consistirem nos espaços que aparentam ser os mais seguros do bairro dada a forte movimentação, a minha própria experiência é marcada por inúmeros assédios nas |


proximidades desses bares, no trajeto dos estabelecimentos para casa e no caminho de um comércio para outro. Todavia, as situações de maior desconforto parecem concentrar-se em espaços (a) onde há uma proporção de homens consideravelmente maior do que de mulheres; (b) onde há trechos não-comerciais ou com comércios fechados; ou (c) onde existem barreiras de visibilidade que ocultam a situação dos olhos externos. É importante frisar que, apesar da constatação da ausência de mulheres ocupando ou circulando livremente nos espaços públicos em especial no período da noite, os dados coletados neste trabalho apontam que é no período da manhã onde grande parte das violências de gênero cotidianas ocorrem. É o que veremos a seguir.

4.2. Me diga como tu andas e te direi quem és: diálogos anônimos, sujeitas ocultas Tratarei neste momento das narrativas anônimas coletadas através de três metodologias distintas: um questionário e mapeamento colaborativo online, que foram associados a uma plataforma digital online, e intervenções urbanas pontuais, realizadas em alguns pontos do bairro.

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4.2.1. Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim: reconhecendo e mapeando medo e violência

Na fase inicial do trabalho, quando foi ponderada uma forma de dialogar com essas mulheres, o primeiro recurso que veio à tona foi a utilização da ferramenta digital. Essa plataforma possibilita o contato com mulheres dispersas no território, ao mesmo tempo que foge do extrapola um ciclo homogêneo de respondentes, que geralmente se restringe a pessoas próximas ou conhecidas. Num primeiro momento, foi elaborado um questionário online com perguntas rápidas que levantavam tanto questões pessoais - que possibilitaram traçar um possível perfil das entrevistadas -, como perguntas relativas ao próprio bairro da Jatiúca, que questionavam sobre violências que as mesmas já presenciaram (ou não), características do bairro que chamavam atenção nas suas experiências e opiniões em geral sobre a região. Entretanto, para tornar a análise mais completa, surgiu a ideia de especializar de maneira mais específica esses depoimentos, inserindo-os no contexto urbano e compreendendo a relação de tais ocorrências e narrativas com o espaço. Para tal, foi elaborado um mapeamento colaborativo online onde essas mulheres pudessem acrescentar pontos com relatos também anônimos. Tanto o questionário quanto o mapeamento foram vinculados a um site para facilitar o acesso das respondentes a ambas plataformas.


Logo quando acessa a página da internet, a usuária tem uma breve explicação do que se pretende com o estudo e é esclarecido o caráter anônimo da coleta de dados. Para facilitar o entendimento, o questionário e o mapeamento de ocorrências foram colocados como duas etapas distintas, iniciando pelo primeiro deles por dois motivos estratégicos: (a) a medida em que a respondente vai formulando suas respostas, ela passa por um processo de reflexão e recordação das situações vivenciadas, tornando mais fácil a espacialização posterior de determinada ocorrência no mapa e (b) posicionar o mapeamento como primeira etapa no site poderia inibir o preenchimento do questionário pelas mulheres que não identificaram nenhuma situação específica para mapear, fazendo com que as mesmas desistissem logo no início do processo.

Figura 11: Plataforma digital desenvolvida pela autora Fonte: <www.sermulhernajatiuca.wixsite.com/pesquisa> Acesso em: 22 de fevereiro de 2018.

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Figura 12: Passo-a-passo dos relatos anônimos no website. Fonte: Material elaborado pela autora, 2018.

O questionário, desenvolvido através da plataforma Typeform, teve 939 acessos, mas apenas 8.2% das pessoas chegaram a completa-lo. Algumas hipóteses sugerem o número reduzido de respostas: (a) a quantidade de perguntas, que foram dez no total, e o tempo levado para completar o questionário, que foi em média 7 minutos e 45 segundos, demandava uma disponibilidade de tempo e empenho por parte das respondentes; (b) a própria estrutura das perguntas, que contava com quatro perguntas discursivas e questões pessoais como renda e cor/raça pode ter coibido as respostas; e (c) das 54 participações, 53 foram |

realizadas pelo computador, o que indica uma provável dificuldade de acessar o formulário por dispositivos móveis, confirmada pelo contato direto de mulheres que informaram seu insucesso em preenche-lo. Tendo em vista tais apontamentos, a solução encontrada foi acrescentar no final do site um espaço para envio de mensagens anônimas livres. Dentre as seis perguntas objetivas, três referiam-se especificamente ao perfil da respondente – faixa etária, renda e cor/raça - e as outras três referiam-se a sua relação com o bairro da Jatiúca, investigando quais funções exerciam no bairro, de que modo se locomoviam e em quais circunstâncias (dias, horários ou locais) frequentavam.


A grande maioria das participantes foram jovens entre 18 e 29 anos (75,9%), seguidas por mulheres de até 39 anos (20,4%), havendo ainda poucos registros entre 40 e 49 anos (3,7%) e nenhum de mulheres com idade superior a 50. Tal recorte demonstra a prevalência de uma faixa etária mais jovem, indicando que: (a) elas compreendem a fração de sujeitas que, conforme pressuposto inicial, sofre de forma mais violenta com o assédio sexual em espaços públicos; (b) o acesso à plataforma digital e das redes sociais, onde o site foi divulgado, é majoritariamente realizado por mulheres mais jovens; e (c) a própria discussão sobre a temática do questionário, que trata de um assunto emergente que é a violência de gênero, acanha ou causa certo estranhamento de mulheres mais velhas. Em contraposição, é importante frisar que o site foi divulgado em importantes meios de comunicação de massa do Estado, tanto na internet quanto na televisão, extrapolando as publicações em redes sociais e ampliando o acesso a mulheres que provavelmente não seriam atingidas. A maioria das entrevistadas não são moradoras do bairro (49,9%), reafirmando a presença massiva de mulheres provenientes de outras partes da cidade, sejam de bairros adjacentes (24%) ou mais distantes (25,5%). Isso ocorre porque devido à carência de comércios, serviços e infraestrutura em pontos específicos da cidade, parte da população opta por deslocar-se, em especial para a parte baixa da cidade, para frequentar espaços de lazer, que concentram-se em sua maioria na Jatiúca.

Figura 13: Gráfico da faixa etária das respondentes do questionário. Fonte: Material elaborado pela autora, 2018 .

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Apesar da quantidade significativa de respondentes moradoras do bairro (44,4%) e do supracitado caráter comercial do bairro, o número de mulheres que afirmaram trabalhar ou estudar na Jatiúca foi pequeno. Isso indica não somente a ausência das mulheres trabalhadoras locais na participação do questionário, mas ilustra o que move as transeuntes para o bairro: não é de se espantar que o lazer seja, de longe, a atividade mais procurada pelas entrevistadas. Figura 14: Gráfico de onde moram, estudam e trabalham as respondentes. Fonte: Material elaborado pela autora, 2018.

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Também não é por acaso, considerando a predominância da faixa etária jovem e a efervescente vida noturna do bairro, que os locais mais frequentados sejam bares/festas (77,8%) e, apesar de muitas demonstrarem medo de frequentar os espaços públicos do bairro no período da noite, é neste horário durante os finais de semana que a maioria delas o utilizam (48,1%). Entretanto, subentende-se a partir de suas respostas que as mesmas permaneçam reclusas em espaços comerciais (bares e restaurantes) que, mesmo sendo privados, possuem relação com o espaço público (calçadas, canteiros e ruas).


A presença da praia é também importante motivadora de deslocamentos dessas mulheres para o bairro. Dentre as entrevistadas, 72,2% afirmam frequentar a praia da Jatiúca e 61,9% delas decorrem de outros bairros. É importante frisar que das 24 entrevistadas que moram no local, apenas 66,6% afirmam utilizá-la, o que é um número bastante expressivo considerando que trata-se de uma praia mais popular em contraposição ao caráter elitizado do bairro. Não bastante a segregação de classe

presente na praia, a orla também é marcada pela presença de homens de idade avançada que ocupam os espaços observando e causando desconforto nas pedestres que passam e homens que constantemente se masturbam em horários de pouco movimento, intimidando a circulação de mulheres.

Figura 15: Gráfico de locais de frequentam as respondentes. Fonte: Material elaborado pela autora, 2018.

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“Só por alto, tenho cinco amigas que deixaram de correr de manhã porque era um ‘festival da masturbação’. [...] Reclamaram com o policial e ele não fez nada” (Relato anônimo espontâneo em conversa informal).

Por outro lado, apesar de considerado um importante segmento de lazer do bairro e da parte baixa da cidade, o Corredor Vera Arruda é utilizado por apenas 20,4% das respondentes – a grande maioria delas moradoras do bairro e entorno imediato. Tal constatação ilustra que o lazer público, mesmo sendo bastante utilizado pelo público feminino, perde para o comércio em geral, que agrega o maior número de mulheres para o bairro. Mesmo com a aglomeração de comércio noturno em funcionamento, é também pela noite, mas dessa vez em dias úteis, que há o menor número de usuárias utilizando o bairro (5,6%), que pode ser justificado por suposições como (a) a própria característica cultural de baixa movimentação e vida noturna em basicamente toda a cidade durante os dias de semana; (b) o fato do deslocamento de não-moradoras do bairro até a Jatiúca para fins de lazer noturno ocorrer quase que exclusivamente nos finais de semana em função da diversidade de eventos que ocorrem nesses dias; ou até mesmo (c) por essas sujeitas estarem no lar cuidando da casa e filhos, fruto da cultura machista. Essa última ressalta-se por ser uma hipótese que decorre de outra observação pessoal: a notória predominância da quantidade homens em |

relação as mulheres nos bares em dias úteis, seja em função das transmissões de partidas de futebol, de reuniões após o trabalho, de encontros com os amigos ou apenas consumo de bebidas alcoólicas sozinhos. Para facilitar o entendimento das perguntas, iniciei elencando o que apareceu com mais força nas falas, ancorandose nos pontos mais recorrentes, podendo notar que não apenas o sentimento é mútuo entre as mulheres, mas que as formulações das características de espaços (in)seguros são, em geral, muito parecidas. Nesse momento, apesar de notar que o medo permeia essencialmente quase todas essas narrativas, ficam ainda mais claras as disparidades nas experiências dessas diferentes mulheres. É possível perceber que sujeitas que sofrem outras formas de opressão falam naturalmente de suas vivências enquanto mulher de forma indissociável de suas vivências enquanto negras, homossexuais/bissexuais, gordas, entre outras, reafirmando a interseccionalidade das opressões citada anteriormente nesse trabalho. Isso fica ainda mais evidente quando o racismo aparece nas narrativas das experiências de todas as mulheres que se identificaram enquanto negras. Além disso, muitos dos relatos apontam que os comentários e a forma como essas mulheres são tratadas possuem uma série de peculiaridades e se tratam de situações em que outras mulheres – sejam brancas, pardas ou amarelas, cis, magras, heterossexuais ou com outras características impostas enquanto padrões - nunca vão vivenciar, sem diminuir, entretanto, suas próprias experiências.


Figuras 16 e 17: Gráfico de cor/raça das respondentes e horários/dias que frequentam o bairro, respectivamente. Fonte: Material elaborado pela autora, 2018.

“Enquanto mulher (somente) me sinto insegura e limitada. Sinto que tudo o que eu sou (mulher, negra, gorda, de esquerda, homossexual) não me permite viver o bairro do jeito que as pessoas consideradas padrão vivem” (Participante 51, negra, 18-29 anos).

“Quando adolescente, já presenciei mulheres sendo agredidas na porta de casa e travestis serem humilhadas por sua condição sexual” (Participante 05, parda, 30-39 anos).

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“Há alguns anos, estava com uma amiga que ficava com outra menina na praça Vera Arruda. Alguns meninos passaram de bicicleta e ficaram incentivando-as a se beijar, de forma desrespeitosa e até agressiva. Um amigo, também homossexual, tentou colocar limite nos meninos verbalmente. Foi ameaçado de ser agredido. Não chegou a ocorrer agressão física, mas foi uma situação de exposição gritante e temo o que teria ocorrido se não tivéssemos a presença de um homem que nos ajudou no momento” (Participante 47, parda, 18-29 53 anos ).

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Dada a anonimidade do questionário, refiro-me às respondentes como “Participantes nº X, organizadas de acordo com a ordem das respostas

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“Eu sou negra e mantenho meu cabelo crespo natural. Quando comecei a usá-lo, coisa mais frequente atualmente, eu percebia mais olhares de estranhamento e recriminação. É bastante incômodo, porque mesmo diminuindo a frequência desses olhares, o incômodo é o mesmo. Por ser mulher e às vezes andar à noite (principalmente saindo com amigas pra bares, festas) era comum ouvir "cantadas" ou até "conselhos" agressivos, insinuando como eu deveria me comportar, já que tava na rua à noite bebendo. [....] Enquanto reproduzir-se essa lógica branca e machista de uso e manutenção dos espaços, não haverá lugar pra igualdade” (Participante 50, preta, 30-39 anos).

submetidas. Além disso, foi acrescido a cor/raça e a idade na tentativa de caracterizar essas anônimas e situar a pessoa que lê.


Quando observamos o gráfico do número de respondentes de acordo com o parâmetro étnico-racial, fica clara também a preponderância de mulheres brancas e pardas, havendo uma parcela pequena de participantes negras. Isso demonstra que há não somente um recorte de raça, mas também um recorte de classe dentro das respondentes.

Há uma predominância das rendas familiares mensais que variam entre R$1.100 a R$3.000 e R$3.100 a R$6.000 e é possível perceber a pequena parcela que corresponde as mulheres com renda familiar mensal de até R$1.000. Se relacionarmos os números (maiores ou menores) expressos nas categorias dos gráficos étnico-racial e de renda, podemos confirmar a predominância de um recorte específico de mulheres – de pele clara e alta renda - que responderam ao questionário54, que pode estar diretamente relacionada à (a) a configuração do próprio bairro enquanto espaço de classe média/alta; e (b) a dificuldade de acesso do restante das mulheres ao questionário. Atentar-se à renda das respondentes é importante se considerarmos que este é um quesito definidor da mobilidade da mulher nos espaços. Aquelas com menor renda consistem, muitas vezes, nas principais vítimas da violência nos espaços públicos – ou ao menos naquelas que não tem opção de não estar ali -, justamente porque vão utilizá-los pela necessidade de se locomover.

Figura 18: Gráfico de renda familiar mensal das respondentes. Fonte: Material elaborado pela autora, 2018.

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Conforme dados do IBGE, Alagoas tem a segunda pior renda nominal mensal domiciliar per capita do país, estimada em R$658,00 no ano de 2017, e ainda

Como seguimento aos dados de renda, o modal mais utilizado pelas mulheres é o carro particular (79,6%) – ficando explícito que sua presença nos espaços públicos se dá exclusivamente por opção -, e, logo em seguida, predomina os percursos pedonais (68,5%), reafirmando que, sim, essas mulheres estão circulando nas ruas.

assim, apenas 5,6% das respondentes apresentam renda familiar de até R$1.000,00.

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certas situações enquanto violências de gênero; (b) as ocorrências são tão corriqueiras e constantes no cotidiano da mulher que não nos recordamos de situações específicas e consideramos algumas – como é o caso do popular “fiu fiu” – irrelevantes; e (c) o fato de que há um ideal machista entre as próprias mulheres que as constrange de descrever tais assédios para não parecer esnobe.

“O assédio pode assumir muitas formas, algumas delas são tão sutis ou tão cotidianas que nos conformamos com elas. [...] É como se a rua, prioritariamente, fosse o lugar de homem” (Participante 16, parda, 30-39 anos).

Figura 19: Gráfico de meios de transporte. Fonte: Material elaborado pela autora, 2018.

Quando passei das perguntas objetivas para as discursivas, percebi que o “discurso pleno de contradições reflete a complexidade da realidade” (DUARTE; VILLANOVA, 2013, p. 211). Quando questionadas se já sofreram ou presenciaram algum tipo de violência de gênero, muitas colocam inicialmente que não, mas se contradisseram por relatarem posteriormente alguns casos. Isso pode ocorrer porque: (a) elas não identificam |

“Não me recordo de ter sofrido, mas já presenciei cenas de assédio em bares localizados no bairro. [...] Me sinto muito restrita. Antes de sair de casa preciso conferir o tamanho da minha roupa, pra não me sentir desconfortável com os olhares ou comentários de assédio” (Participante 23, branca, 18-29 anos).

Há também uma contradição dentro dos discursos de medo. Algumas afirmam se sentir confortáveis no espaço, porém relatam que assumem uma postura específica como a utilização de roupas específicas, evitar circular por alguns espaços e horários, entre outros.


“Sempre que vou na Praça Vera Arruda, fico apavorada com a falta de iluminação e policiamento. [...] Sinto falta da segunda parte da praça Vera Arruda que não foi construída, movimentaria ainda mais o bairro” (Participante 02, branca, 18-29 anos). “Eu me sinto bem, até porque muitas vezes nem dou atenção e nem percebo se houver olhares sobre mim. Para eu perceber precisa ser algo escancarado, digo isso sobre o dia-a-dia na rua. Porque nos bares, em determinados bares, há as vezes algum desconforto na maneira de ser tratada” (Participante 37, parda, 30-39 anos).

algumas pequenas ressalvas – e 12 mulheres (22,2%) não responderam à pergunta de maneira clara. Dentre os medos, foram identificadas três categorias que se destacaram: (a) o medo da violação – ou seja, de assédio sexual nas suas mais diversas formas; (b) o medo de perdas materiais – furto ou assalto; (c) o medo de pessoas marginalizadas – flanelinhas e moradores de rua; e (d) medo de prejuízos à integridade física de maneira geral.

“Confortável, evitando lugares pouco movimentados e canteiros de obras” (Participante 38, branca, 18-29 anos). “Me sinto privilegiada. Na maioria das vezes que ando a pé tenho que ouvir cantadas e piadas relacionadas a roupa que visto. Cheguei a ouvir gracinhas mesmo estando gestante com barriga de 9 meses. Na maioria das vezes estava sozinha. Quando estou acompanhada não escuto nenhum tipo de intervenção” (Participante 49, parda, 3039 anos).

É devido a esse constante paradoxo que a pergunta “como você se sente na Jatiúca?” se tornou mais complexa do que o previsto. De acordo com a minha interpretação pessoal das falas, 26 mulheres (48,1%) demonstraram-se inseguras no bairro, 5 (9,2%) apresentaram simultaneamente inseguranças e confortos, 11 (20,3%) declararam-se confortáveis no bairro - apesar de

Figura 20: Medos e sentimentos da mulher na Jatiúca. Fonte: Material elaborado pela autora.

Observar os discursos é comprovar a diferenciação da vivência feminina e masculina: o medo da violação é presente na grande maioria das falas, verificando sua presença no cotidiano feminino, ao passo que mesmo sem o porte de objetos de valor, ressalta-se a vulnerabilidade e o medo das sujeitas nos espaços públicos.

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“[...] Não tenho medo de ser assaltada, tenho medo de ser estuprada” (Participante 05, parda, 30-39 anos). “Não me sinto segura, assim como em todas as outras partes da cidade. Apesar de frequentar lugares muito próximos à minha casa, se for sair à noite, preciso ir de carro, por que mesmo que não saia com objetos de valor, andar sozinha é perigoso. Me sinto muito restrita. Antes de sair de casa preciso conferir o tamanho da minha roupa, pra não me sentir desconfortável com os olhares ou comentários de assédio” (Participante 23, branca, 18-29 anos).

Para compreender o medo inserido no espaço, muitas atribuíram características positivas e negativas dos espaços públicos que causavam desconforto, insegurança e até mesmo a completa privação do acesso dessas mulheres a determinados espaços. Dentre as características citadas, foi possível elencar categorias que chamaram a atenção. Primeiramente, as falas centravam, de modo geral, nas pessoas (ou na ausência delas) como determinantes da segurança do espaço. Tanto o movimento, como a diversidade, a presença de vigias/porteiros, flanelinhas, policiais ou pessoas machistas eram definidores do espaço sem, entretanto, se configurarem enquanto características físicas.

“Me sinto insegura sempre no horário da noite, mas sei que estar cedo não anula possibilidades. Acho o bairro sempre movimentado, o que facilita na minha locomoção. Espaços de convívio são sempre os mais perigosos, na minha opinião. Me sinto mais à vontade passando pela frente de prédios com vigias e porteiros, mas me sinto oprimida pelos muros. Gosto de andar pelo bairro, não sinto dificuldades” (Participante 52, branca, 18-29 anos).

Por outro lado, estavam presentes as configurações gerais do bairro, ou seja, as características físicas do próprio bairro e seus espaços, como sua infraestrutura, arborização, iluminação, tipos de espaços específicos, perfis de vias, tipos de edificações, entre outros fatores que, tanto arquitetonicamente quanto urbanisticamente, interferiam no espaço.

“Eu nem me atrevo a andar só por entre as ruas locais, nos prédios residenciais... tenho medo de ser surpreendida entre os muros altos que cercam as ruas. Mas no geral, as áreas de bares, restaurantes e lojas são tranquilas. A orla também me transmite segurança” (Participante 44, amarela, 18-29 anos).

Foram citados também horários específicos - destacandose o período da noite como problemático -, locais específicos - que |


serviam como espaços de substituição de percurso quando mulheres evitavam passar por determinados locais – e características de mobilidade - que demonstravam não somente a dificuldade da realização dos determinados percursos, mas apresentavam algumas características que prolongavam ou inibiam completamente a circulação de mulheres, como as condições físicas da própria via que ocasionavam uma diminuição da velocidade forçada. Além disso, a problemática mais citada pelas sujeitas foi a ausência de iluminação, seguida da falta de policiamento e da ausência de movimento nas vias.

Figura 21: Características positivas e negativas do bairro da Jatiúca segundo as respondentes. Fonte: Material elaborado pela autora, 2018.

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Ao mesmo tempo em que as falas de uma mesma mulher por muitas vezes apresentavam contradições, foi marcante o contraste das falas de mulheres distintas: enquanto para umas o policiamento é sinônimo de segurança, para outras é indiferente ou até sinônimo de medo, de repreensão; enquanto para umas a existência de edifícios com guaritas é sinônimo de segurança, para outras é sinônimo de privatização e elitização do espaço.

“Esses tipos de projeto são importantes, passar informação, falar sobre.... Não acho que policiamento seja a solução” (Participante 01, branca, 18-29 anos). “Já presenciei abordagens desnecessárias de policiais com revistas, que sempre são mais incisivas com quem é negra, já recebi psiu, e piadinhas ao andar por ruas desse bairro e adjacências, já vi muitos homens em comportamentos abusivos nas festinhas também” (Participante 48, preta, 18-29 anos). “[...] O bairro está cada vez mais ‘privado’, a maioria dos espaços são pagos e a vigilância em determinados pontos criam ilhas de segurança que só servem a quem circula de carro. As pessoas e principalmente as mulheres que andam a pé são vítimas preferenciais e, por saber disso, Devo frisar que, apesar da orla não ter sido citada enquanto problemática no questionário, diversas mulheres apontaram tal local como crítico durante conversas informais. 55

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andamos sempre com medo. Caminhadas, bicicletadas, feiras e outras atividades de ocupação do espaço de forma democrática com certeza resolveriam o problema” (Participante 08, não declarou cor, 18-29 anos).

A própria descrição dos pontos negativos e dos relatos de medo e assédio levou essas mulheres a apontarem exemplos de espaços que englobavam conjuntos de características problemáticas, postos enquanto locais críticos no bairro55. O mais citado foi o Corredor Vera Arruda, seguido das ruas adjacentes às grandes avenidas, que são predominantemente residenciais. Na Vera Arruda, há uma ênfase na parcela não construída da praça, que configura-se enquanto um grande descampado e apesar de ser um ponto de rota de pedestres, não possui infraestrutura básica para a permanência e circulação. Alguns pontos citados, apesar de distintos entre si, aparecem nas falas por disporem de características semelhantes. É o caso dos espaços próximos à concentração de flanelinhas e moradores de ruas - como a região do Mc Donald´s, do Posto 7 e do Corredor Vera Arruda – e dos locais com grandes paredões que não possuem aberturas e pontos de fuga – como o exemplo da faixa que fica próxima ao Edf. Harmony, ao Supermercado G Barbosa e ao Hotel Ritz Lagoa da Anta.


Figura 22: Locais críticos do bairro da Jatiúca segundo as respondentes. Fonte: SEMPLA, com alterações da autora, 2018, sem escala.

Em contraposição, as próprias avenidas principais do bairro foram citadas, inclusive a Amélia Rosa. Isso nos leva a pensar que se determinadas situações ocorrem com frequência no ponto considerado mais seguro e movimentado do bairro, o quão alarmante é a situação dos locais com maiores índices de desocupação?

“Já presenciei diversos assédios verbais em bares e enquanto caminhava pelo canteiro central, além de algumas discussões em bares” (Participante 10, não declarou cor, 18-29 anos). “Há alguns anos, indo para a escola (Colégio Contato) enfrentei duas situações. As duas aconteceram a caminho do colégio, o qual eu fazia a pé. Me deparei nas duas vezes com |


tarados se masturbando, o trajeto de manhã cedo não era muito ocupado. Uma ocorreu na rua do restaurante Massarela e a outra já próximo ao Corredor Vera Arruda” (Participante 31, branca, 18-29 anos).

Em suma, as características mais citadas desses espaços resumem-se em:       

Ruas desertas; Ruas sem iluminação; Muito muro; Ruas sem saída ou becos; Pontos de ônibus distantes; Falta de policiamento; Predominância residencial.

Para frequentar os espaços públicos do bairro, as respondentes elencaram – mesmo não havendo uma pergunta específica para essa resposta no formulário - uma série de estratégias de defesa pessoal adotadas cotidianamente com objetivo de resistir e sobreviver na cidade. A principal delas? A escolha do modo de se vestir adequado.

“Quando eu ando de moto e casaco moletom, as pessoas me confundem com assaltante e correm de perto, mudam de calçada, apressam o passo. Quando eu ando mais arrumada, as pessoas costumam olhar (ou não) normalmente” (Participante 18, branca, 18-29 anos). |

“Eu sempre morei lá, durante o dia, e nas vias principais, não há problema algum, conheço os vizinhos, donos das lojas menores. No entanto, durante a noite, a coisa muda de figura, eu costumo sair de Moletom e calça comprida, aproveitando do meu cabelo curto, pra parecer um homem. Porque não me sinto segura nem em ir até a esquina” (Participante 30, parda, 18-29 anos).

Dentre as outras táticas mais adotadas estão a atenção redobrada ao entorno, a utilização de elementos de defesa pessoal, a realização de percursos com desvios de rotas e o cuidado com a hora, local e pessoas que estão andando.


respondentes, superando a questão da sobrevivência e garantindo mais conforto e autonomia. A grosso modo, grande parte das propostas pareciam tratar de pontos de vista semelhantes: (a) trazer mais mulheres para ocupar a rua de maneira coletiva; (b) garantir policiamento preparado especificamente para lidar com a violência de gênero; (c) melhorar a mobilidade, encurtando percursos através do incentivo à diversidade e da adequação dos pontos de ônibus; (d) promover a adoção de fachadas ativas e relações público x privado; e (e) melhorar a iluminação noturna, bem como incentivar atividades neste período, impulsionando o movimento nas ruas.

Figura 23: Estratégias de sobrevivência das respondentes. Fonte: Material elaborado pela autora, 2018.

Tais estratégias estão centradas majoritariamente na forma de se portar e nos tipos de percursos realizados por essas mulheres, focando em soluções práticas adotadas pelas mesmas que, apesar de exercerem uma relação direta com o espaço e sua ocupação (ou não), são artifícios pessoais. De forma complementar a essas ações, o questionário buscou identificar quais seriam as sugestões de melhorias efetivas para o bairro do ponto de vista das |


Contudo, apesar das características espaciais estarem muito presentes nas narrativas, muitas afirmaram que a violência é algo cultural e enraizado na sociedade e, portanto, ocorre em qualquer local. De fato, é preciso considerar que, apesar de certas situações serem potencializadas por um determinado espaço, é necessário fugir do determinismo arquitetônico que o afirma enquanto único motivador desses problemas. O espaço não é única e exclusivamente físico, mas tem a ver com as relações sociais que nele se expressam e que acontecem junto com ele. Logo, um mesmo ambiente, se inserido em outro contexto ou sociedade, poderia não apresentar os mesmos problemas.

“Por mais que a sociedade transmute e cresça, parece que menos liberdade nossas mulheres passam a ter, diante da violência existente em cada esquina. Mudar a melhoria de espaço para as mulheres é pedir, suplicante ao Estado, melhores condições de vida para todos os cidadãos” (Participante 04, parda, 18-29 anos).

Figura 24: Propostas de melhorias segundo as respondentes. Fonte: Material elaborado pela autora, 2018.

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“A Jatiúca é um ponto de recorte enquanto área de estudo... mas é apenas um recorte para pensar a cidade. O todo, dentre as muitas formas de opressão que nós mulheres sofremos no cotidiano, posso dizer que a cidade é apenas mais uma delas. Dentre as formas de mudar a situação de nós mulheres nas cidades a principal delas é mudar a cultura do estupro nas cidades. Depois, a principal delas é participar do planejamento das cidades. Ter participação ativa


no planejamento de cidades é um outro ponto” (Participante 16, parda, 30-39 anos).

Ainda que as características não se encaixem apenas nesse local, podendo se desdobrar em outros, o trabalho parte de uma leitura enraizada no lugar e, assim sendo, sustenta-se no contexto em que se insere. Para melhor visualizar o problema no sítio em estudo, a segunda etapa do site abriu espaço para um mapeamento colaborativo onde foram inseridos os pontos onde essas mulheres já sofreram ou presenciaram alguma situação de violência de gênero.

Figura 25: Resultados do mapeamento colaborativo desenvolvido pela autora. Fonte: <www.sermulhernajatiuca.wixsite.com/pesquisa> Acesso em: 22 de fevereiro de 2018.

Pontuo que, para além da dificuldade em mapear e relatar tais narrativas por questões de dificuldades técnicas supracitadas, há também a dificuldade da vítima de descrever e compartilhar tais experiências, mesmo que através do anonimato. Afirmo isso não apenas por supor que tal dificuldade exista, mas porque mulheres me procuraram para contar suas histórias ou histórias de conhecidas devido ao fato de não conseguirem narrá-las virtualmente. Alguns lugares não apareceram nos relatos, me levando a presumir que: (a) consistem em ruas ou espaços que inibem completamente a presença de mulheres – e até de pessoas em geral -, não havendo assim movimentação ativa que justificasse um volume significativo de ocorrências; ou (b) as pessoas que frequentam esses trajetos não tiveram acesso ao questionário ou de fato não sofrem violências no local. Dentre as respostas, prevalecem os casos de assédio verbal (50%), situação extremamente presente na nossa realidade cotidiana, mas muitas situações chamam a atenção. Destacam-se: (a) os relatos de abordagem com crianças, entre 8 e 12 anos, mesmo estando dentro de suas casas; (b) casos de perseguição onde a vítima conseguiu abrigar-se em um ponto comercial próximo; e (c) assédios provocados por homens em seus veículos. Além disso, os casos de masturbação pública e agressão física também marcam a vida dessas mulheres. |


Figura 26: Mapeamento colaborativo de medos e violências de gênero. Fonte: SEMPLA, com alterações da autora, 2018, sem escala.

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É possível notar uma concentração de relatos em uma mancha específica do mapa, havendo ainda a predominância de relatos na Av Amélia Rosa (7 relatos), no Corredor Vera Arruda (6) relatos) e na faixa do bairro que aproxima-se da Mangabeiras. Além disso, apesar do chamamento do mapa abordar apenas narrativas de violências de gênero, algumas mulheres se sentiram convidadas a mapear também os espaços que consideravam inseguros.

Por hora, não vou me ater em aprofundar a espacialização dos relatos, visto que tal investigação estará presente no item 4.3 deste trabalho. Nele, serão relacionadas tais ocorrências com as características morfológicas do bairro. Antes de iniciar a análise dos mapas, devo esclarecer que, apesar de extremamente funcional, a ferramenta do site acaba por restringir-se tanto a um ciclo social de conhecidas, como permear entre pessoas de uma mesma classe social. Deste modo, o modo mais eficaz encontrado para o diálogo anônimo de outras mulheres foi a aplicação de intervenções urbanas pontuais em locais distintos do bairro.

Figura 27: Exemplos de perseguição contra a mulher mapeados anonimamente. Fonte: SEMPLA, com alterações da autora, 2018, sem escala.

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Figura 28: Exemplos de assédio contra a mulher mapeados anonimamente. Fonte: SEMPLA, com alterações da autora, 2018, sem escala.

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4.2.2. A cidade que fala: intervenções urbanas como instrumento de escuta anônima

Neste momento, assim como ocorreu nas minhas vivências pessoais, optei pela pela observação dos fatos e fenômenos através de idas a campo, mas dessa vez com objetivo de apreender e coletar relatos também anônimos de outras mulheres.

Optei por utilizar do artifício de cartazes espalhados por pontos considerados críticos por mim e pelos relatos das mulheres colhidos através dos métodos acima citados, mas busquei fazer, inicialmente, uma intervenção experimental, de modo que fossem ponderados os resultados para o prosseguimento da metodologia. Num primeiro momento, foram implantados cinco cartazes em pontos específicos da Jatiúca.

Para tal etapa, iniciei analisando o bairro para definir quais pontos seriam adotados nessas intervenções e percebi como diferentes tipos de espaço poderiam gerar diferentes tipos de ocupações e, consequentemente, diferentes tipos de interações com o material exposto. Inicialmente, subdividi o bairro em dois tipos de espaços distintos: espaços de passagem – ruas, calçadas e espaços de passagem em geral que sirvam majoritariamente para deslocamento dessas mulheres – e espaços de permanência – pontos de lazer, pontos de ônibus, mobiliário urbano, entre outros locais de maior permanência de tempo. Isso serviu para que eu pudesse pensar melhor nas estratégias de intervenção. Elaborei dois modelos de cartazes diferentes para esses diferentes tipos de lugar. Nos locais de passagem, o cartaz visa um diálogo rápido, portanto optei pelo artifício da colagem, onde a mulher poderia expor seus medos (ou não) a partir da fixação de bonequinhas que as representavam ou escrevendo de maneira mais detalhada algo que a chamasse atenção. Nos locais de espera, buscou-se a aplicação de cartazes cujo diálogo fosse mais elaborado, esperando-se que as respostas fossem mais completas e descritivas.

Figuras 29, 30 e 31: Intervenções urbanas realizadas no barro. Fonte: Acervo da autora, 2018.

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Figuras 32, 33 e 34: Cartazes espalhados pelo bairro e cartaz situado no Corredor Vera Arruda, respectivamente. Fonte: Material elaborado pela autora, 2018.

O primeiro cartaz posto no local foi o do Corredor Vera Arruda, não somente porque esse foi o ponto do bairro mais citado pelas respondentes do questionário, mas também porque consiste em um local muito frequentado por mulheres e poderia me fornecer uma resposta rápida e definidora. Caso não tivesse um retorno expressivo ali, dificilmente o faria em outros pontos da Jatiúca. Após menos de 24 horas, o cartaz já apresentava vários relatos e não haviam mais bonecas disponíveis para fixação, demonstrando uma interação massiva das mulheres.

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O cartaz foi devidamente posicionado na proximidade do Espaço Viver Bem da Unimed, muito frequentado por mulheres, e da área de concentração do maior número de mulheres na praça.


Figura 35: Cartaz situado no Corredor Vera Arruda. Fonte: Acervo da autora, 2018.

A partir desse cartaz específico, surgiram algumas observações iniciais: (a) todas as mulheres que interagiram com o cartaz demonstraram sentir medo; (b) houve a participação de homens, afirmando que também tem medo no local; (c) haviam diversas mensagens de sororidade de uma mulher para outra, falando que não estávamos sozinhas; (d) algumas mulheres enfatizaram a ausência da polícia como um problema, ao passo em que houveram também críticas às abordagens policiais que questionavam nosso direito de ir e vir na cidade; e (e) houveram relatos de assaltos às vítimas.

“Não tinha até ser assaltada e o policial me culpar: ‘e o que foi fazer andando a essa hora?”. “Muito! Sim!!! Já vi três assaltos ao meio-dia neste corredor próximo ao Contato”. “Não sou mulher, mas mesmo assim tive medo e ainda tenho”. “Ainda assim, acredite, não somos o sexo frágil”. “Sim, mas sozinhas não estamos”.

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O modelo foi importante para demonstrar que a metodologia poderia trazer considerações importantes do trabalho e, dado tamanho impacto da intervenção, foram elaborados os demais cartazes. O segundo deles foi implantado na Rua Prof. Manoel Coelho Neto, situada por trás do Edf. Harmony.

Figuras 36 e 37: Cartaz situado na Rua Prof. Manoel Coelho Neto e entrevista realizada para o site G1, respectivamente. Fonte: Acervo da autora, 2018.

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O resultado foi igualmente surpreendente: em menos de 24 horas, já havia uma participação significativa de mulheres. Destaco que não haviam relatos como no cartaz anterior e as mensagens escritas limitavam-se a “sim”, o que pode indicar a necessidade de uma interação mais rápida com o cartaz neste ponto específico. Tal suposição é reforçada quando a única mensagem presente no cartaz consistia em palavras de xingamento utilizadas por um homem como forma de ataque. A localização em uma rua movimentada chamou a atenção da mídia local e ocasionou em uma repercussão importante para o trabalho, que foi essencial para a divulgação das intervenções e, consequentemente, do site. Após sete entrevistas, o número de respostas foi elevado consideravelmente e outras mulheres foram atingidas, além de fazer refletir também os homens.


Figura 38: Cartaz situado na Rua Prof. Manoel Coelho Neto. Fonte: Acervo da autora, 2018.

O cartaz seguinte foi fixado no Botequim Paulista, que para além de ser um dos bares onde várias mulheres relataram ter presenciado casos de assédio, está situado ao lado de um ponto de ônibus muito utilizado por mulheres da região, em especial as que trabalham ou estudam nas proximidades. Por se tratar de um estabelecimento privado, conversei com o dono, que autorizou a fixação do mesmo. Entretanto, dois dias depois o cartaz foi retirado, impossibilitando um acompanhamento mais específico das interações. Até então, o cartaz contou com apenas quatro mensagens: duas delas relatavam situações negativas ocorridas e duas demonstravam a liberdade das mulheres no local que, conforme interpretação pessoal, parecia expressar um tom de ironia com a proposta da intervenção.

“Só beijei várias bocas por me sentir à vontade”. “Coloquei uma calça jeans para não me olharem”. “Transei, mas não beijei”. “Fui assediada por ter bebido demais”.

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Figuras 39 e 40: Cartaz situado no Botequim Paulista. Fonte: Acervo da autora, 2018.

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O quarto cartaz foi posicionado no entorno de um ponto de ônibus situado na Av. Amélia Rosa e foi retirado em menos de 24h. Isso me levou à hipótese de que o cartaz incomodou, seja porque o comércio do entorno imediato é ocupado majoritariamente por homens - sendo cercado por uma seguradora, uma academia e um bar -, ou porque a movimentação da rua é maior e, consequentemente, mais pessoas visualizaram o mesmo.

Figuras 41 e 42: Cartaz situado na Av. Amélia Rosa. Fonte: Material elaborado pela autora, 2018.

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Por último, foi colocado um cartaz no Centro Especializado de Atendimento à Mulher (CEAM), localizado na Rua Dr. Augusto Cardoso, rua adjacente à Av. Amélia Rosa. Sua importância consistia na aproximação com as diversas mulheres que frequentavam o local, tanto para realizar denúncias 56 quanto para cursos de empoderamento feminino. Contudo, ao aproximar-me do local no dia seguinte, o cartaz encontrava-se no chão, jogado, amassado e sujo. Ao me avistar, uma funcionária do CEAM afirmou ter o visto quando ainda estava fixado na parede e ter notado a interação de algumas mulheres. Apesar do pouco tempo

Vale ressaltar que no CEAM constam apenas duas denúncias de violência de gênero registradas no bairro da Jatiúca, sendo ambas casos de violência doméstica. 56

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em que permaneceu no local, três bonecas haviam sido coladas no cartaz.

Figura 43: Cartaz situado nas proximidades do Centro Especializado de Atendimento à Mulher. Fonte: Material elaborado pela autora, 2018


Figura 44: Cartaz situado nas proximidades do Centro Especializado de Atendimento à Mulher. Fonte: Material elaborado pela autora, 2018

Em síntese, a utilização dos cartazes traz alguns apontamentos: (a) todos os cartazes, hora ou outra, foram retirados, porém alguns não permaneceram o suficiente para poder fornecer dados específicos; (b) tudo indica que o cartaz com espaço para colagem dialogou melhor com as mulheres e teve um destaque considerável, que pode ter sido motivado pela própria estética diferenciada ou pela possibilidade de uma interação rápida e impessoal; (c) os relatos confirmam alguns medos e posturas já citados pelas mulheres no questionário – como ponderar a roupa que usa e compreender que o policiamento não pode ser a única solução; e (d) para além desse trabalho, sua importância residiu em dar visibilidade à violência contra a mulher, trazendo essa pauta de maneira participativa aos espaços públicos.

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4.3. Andanças exploratórias: Diálogos não-anônimos, sujeitas reveladas Tratarei agora das experiências de andanças no bairro da Jatiúca e, para tal, subdividirei as mesmas em dois momentos: (a) a vivência pessoal de outras mulheres; e (b) a vivência coletiva de várias mulheres. Todos os relatos que apresentarei aqui são de mulheres não-anônimas que, apesar de preservados os nomes, seus perfis foram traçados – delineados a partir do contato direto das mesmas comigo. Seguiremos, então, para a primeira parte, onde apresento a estratégia de diálogo e pessoal.

4.3.1. Elas também andam: Relatos pessoais de outras mulheres

Para estudar empiricamente a ocupação de um espaço por determinadas pessoas – que no meu caso específico são as mulheres – entendo que, incialmente, é preciso:

[...] deslocar nosso olhar sobre a noção de ambiência: trata-se não de estudar sobre a composição de um conjunto de fenômenos perceptíveis emergindo em determinado lugar (fenômenos sonoros, luminosos, térmicos, olfativos, etc.), e sim de dar conta dos incessantes processos de mobilização corporal e solicitação motora do mundo circundante (DUARTE; VILLANOVA, 2013, p. 101).

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Retomando a importância da participação das usuárias no pensar a cidade, o segundo método adotado foi a aplicação de um Diário de percursos e sensações, cujo objetivo resumiu-se em apreender a experimentação pessoal de outras mulheres a partir do relato de seus percursos cotidianos. Trata-se, portanto, de um processo multilateral, onde o diagnóstico afasta-se do que observei enquanto moradora para centrar nos discursos de outras citadinas.


Nesse diário, constavam dois momentos: primeiro um espaço para a descrição de deslocamentos pelo bairro, contendo informações de hora, data, com quem foi, que atividade realizou e o que sentiu; depois, o espaço para a espacialização de tais percursos, sensações ou situações específicas dentro do mapa do bairro. Devo frisar que, no ato da entrega do modelo, não houveram quaisquer explicações sobre como elas deveriam utilizálos, deixando livre seus preenchimentos. Figuras 45 e 46: Diário de percursos e sensações. Fonte: Material elaborado pela autora, 2018.

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O Diário foi entregue a cinco mulheres que conhecia intimamente, o que por si só já reduz o recorte ao meu ciclo de amigas e conhecidas. Todas permeavam entre 20 e 29 anos e frequentavam diariamente ou semanalmente o bairro através de diferentes modais (a pé, de carro ou de ônibus). Pretendia-se inicialmente observar as respostas obtidas e avaliar se tal metodologia trazia uma resposta significativa, para que posteriormente esse número ampliasse para abranger uma diversidade maior de maior de mulheres, entretanto, como já citado anteriormente, falar de medos pessoais e violência não é fácil e tratar com pessoas que tinha abertura para conversa parecia ser um facilitador no tocante a confiabilidade já existente. Por fim, o que ocorreu foi que nenhum diário foi devolvido até a presente data, o que levantou algumas hipóteses: [a] essas mulheres não se sentiram confortáveis em expor as situações vivenciadas de forma não-anônima; [b] elas não vivenciaram nada que consideraram marcante para si ou relevante pro trabalho durante esse tempo; [c] a configuração do próprio diário inibiu a participação delas; ou [d] a nossa relação de proximidade passou de um fator favorável para um dificultador, visto que há uma exposição de situações e fragilidades para alguém que faz parte do seu dia-a-dia. Em termos gerais, essa metodologia demonstrou que para tratar de um tema tão sensível e pessoal, às vezes é necessário partir para a impessoalidade, seja através do afastamento da figura de pesquisadora - e até mesmo amiga-pesquisadora – ou |

utilizando de abordagens coletivas, provocando um olhar compartilhado sobre o espaço. E foi justamente seguindo tal linha de pensamento que foi adotada a estratégia de caminhada coletiva, a qual tratarei a seguir.

4.3.2. Não mexe comigo que eu não ando só: ação coletiva no bairro da Jatiúca

Outra estratégia encontrada para a de coleta de relato de mulheres não-anônimas foi a realização de uma caminhada coletiva pelo bairro da Jatiúca. Como já foi dito, não é fácil para uma mulher se posicionar enquanto vítima ou demonstrar seus medos, mesmo que de forma anônima. Tal alternativa foi pensada para que, através de um espaço grupal, essas mulheres pudessem se sentir mais confortáveis e acolhidas para relatar situações e/ou, para além disso, sintam-se convidadas a fazer parte da ação de pensar o bairro. Inicialmente, esperava-se que durante a caminhada as mulheres pudessem perceber as sensações que envolviam sua experiência no espaço para que, ao término, pudéssemos juntas debater tanto sobre as sensações individuais de cada uma, como sobre nossas percepções coletivas. Deste modo, as mulheres poderiam, também, apontar locais onde sentiram desconforto ou narrar alguma situação vivenciada. Entretanto, ao longo do processo do trabalho, percebi que os relatos coletados na etapa anterior já apresentavam subsídios para a análise do trabalho, mas mais que isso, eram alarmantes o suficiente para aparecerem


somente neste estudo. A partir de então, surgiu a ideia de mobilizar uma intervenção urbana coletiva para dar visibilidade às falas dessas anônimas através da colagem de lambe-lambes 57.

a ação para esse local não seria coerente. Focamos em definir um percurso que abrangesse parcelas do mapa muito presentes nos discursos.

Todo o processo que envolveu a ação começou com o contato com coletivos feministas, na tentativa de, através delas, conseguir um contato mais amplo com outros segmentos dos movimentos de mulheres do Estado. Foi nesse momento em que consegui um retorno positivo do Coletivo de Intervenção Urbana Feminista Severinas. A partir desse momento, foi marcada uma reunião com o grupo, onde foram explanadas as ideias e os produtos do trabalho - mapas e relatos coletados nas etapas anteriores - e as propostas de lambes com os relatos previamente selecionado, buscando definir coletivamente a atividade.

Algumas manchas com muita concentração de relatos foram perceptíveis, mas consistiam em pontos com baixa movimentação de pessoas, que não trazia um destaque necessário para a ação em si. Deste modo, optou-se por soluções de caminhos que chamassem a atenção de pessoas ao mesmo tempo em que refletisse uma necessidade real das mulheres que já haviam narrado suas histórias. O caminho escolhido iniciava no Corredor Vera arruda, percorrendo parte de sua extensão até alcançar a Av. Engenheiro Paulo Brandão Nogueira, cortando para Amélia Rosa no sentido contrário à praia.

Ao longo do processo de conversa, as próprias integrantes foram relatando uma série de situações que ocorreram tanto com elas quanto com conhecidas e, na sua grande maioria, aconteceram na praia. Eram cenários que se referiam a homens se masturbando no período da manhã e, justamente por conta dessa movimentação, elas deixaram de frequenta-la. Talvez por esse motivo, a partir do momento em que começamos a discutir sobre os mapas que tinham sido elaborados para tentar definir um percurso prévio, o olhar delas parecia estar centrado quase que unicamente na praia. Contudo, quando houve uma observação mais específica da espacialização dos relatos anteriores, ficou claro que a praia não estava em evidencia nessas falas e transferir

No momento em que a divulgação foi iniciada – através de evento no Facebook e postagens no Instagram - a resposta já foi automaticamente positiva. É importante evidenciar que a concentração da atividade foi marcada em um ponto que contava com vigilância noturna, que apesar de consistir em segurança patrimonial, garantia uma maior sensação de conforto para as presentes.

Figuras 47, 48, 49 e 50: Reunião de preparação da intervenção urbana em conjunto com o Coletivo de Intervenção Urbana Feminista Severinas. Fonte: Acervo da autora, 2018.

Lambes são cartazes de cunho artístico ou político colados em espaços públicos sem fins comerciais. 57

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Figura 51: Divulgação da intervenção urbana “Não mexe comigo que eu não ando só”. Fonte: Acervo da autora, 2018.

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Chegado o dia, conforme combinado, a atividade teve início às 19:30 e estima-se que compareceram cerca de 30 pessoas no total. Num primeiro momento, foi esclarecido para as presentes a importância da decisão coletiva e da definição da própria atividade de forma conjunta. Iniciou-se preparando o material para a colagem dos lambe-lambes, ao passo em que fomos introduzindo a ideia geral da intervenção e sua relação com o local, explicando os pontos motivadores. Foi também colocado um mapa do bairro onde descrevemos o trajeto previamente pensado, a fim de esclarecer os pontos onde foram identificadas conjuntamente para posteriormente abrir a discussão, e folhas em branco para que as mulheres pudessem elaborar suas próprias mensagens e relatos pessoais. De cara, algumas manifestaram que os locais escolhidos eram espaços de convergência de muitas mulheres e que consistiam não somente nos pontos de maior movimentação do bairro, mas também de maior segurança. Todavia, por serem pontos centrais dos trajetos dessas sujeitas, consistem justamente nos locais onde acontecem com mais evidência tais situações. Além disso, houve um consenso coletivo de que pouco adiantaria fixar os lambes em pontos que não trariam impacto para um número significativo de pessoas. Foi exercida uma leitura conjunta do conteúdo dos lambes, na tentativa de identificar quais seriam os pontos adequados para É relevante frisar que uma das integrantes da atividade sofreu recentemente um caso de homofobia num bar situado na Av. Amélia Rosa, sendo convidada a se retirar do recinto juntamente de sua companheira por demonstrar afeto. 58

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posicionar cada relato. Desse modo, ambos foram separados, diferenciando o que caberia em uma praça, em uma rua, em um mobiliário urbano, nas proximidades de um bar, entre outros. Algumas observações chamaram a atenção: (a) houve uma imediata identificação de algumas sujeita com os relatos ali presentes; (b) nas falas, ficou clara uma ênfase quase unânime em bares considerados machistas na região da Av. Amélia Rosa, indicando que são locais incômodos nas vivências dessas mulheres; e (c) os discursos de mulheres distintas eram muito próximos entre si, evidenciando que, apesar da vivência diferenciada, as questões gerais que envolvem ser mulher são as mesmas. É importante evidenciar que tinham mulheres de jovens a idosas – havendo uma variação de faixa etária dessas mulheres – , haviam diversas moradoras de outros bairros, haviam homossexuais/bissexuais 58, mas não haviam mulheres negras ou trans – permanecendo o recorte étnico-racial constantemente citado no trabalho. No tocante à idade, o próprio perfil das Severinas foi definidor da diversidade dessas sujeitas, abrangendo mulheres mais velhas que provavelmente não seriam atingidas pelas redes sociais.


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Determinamos que a atividade seria iniciada espalhando os lambes por onde acreditava-se que seria cabível. Por consequência, os mesmos foram colados em espaços com boa visibilidade, iluminação e movimentação – mesmo que não naquele horário específico -, apontando para espaços teoricamente mais seguros, onde as passantes tivessem condições de parar para ler o material. As superfícies escolhidas para colagem foram postes, bancos, lixeiras, muros de terrenos abandonados e equipamentos de academias públicas que fossem situados nas proximidades de locais que chamaram a atenção, em especial por sua evidente dominação masculina. Destacaram-se: (a) o Corredor Vera Arruda, com ênfase específica na academia pública; (b) as proximidades de colégios da região; (c) o entorno imediato de bares considerados machistas. Ao longo da caminhada, sentiu-se a necessidade de interagir diretamente com as pessoas que se encontravam nos bares, surgindo a ideia de realizar a leitura coletiva de algumas das falas presentes nos lambes. Deste modo, as mulheres foram aglomeradas na frente de dois bares que já concentram uma série de denúncias de casos de assedio e homofobia. Dois relatos foram escolhidos:

Figuras 52, 53, 54 e 55: Intervenção urbana realizada no bairro. Fonte: Acervo da autora, 2018.

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“Eu tinha 12 anos. [...] Lembro do short que estava usando, já que na época fiquei pensando que o cara tinha feito isso por conta do meu short e não por ele ser um babaca escroto”. “Não tenho medo de ser assaltada, tenho medo de ser estuprada”.

As reações foram diversas: olhares estranhos, aplausos, risadas irônicas, comentários ofensivos e até aproximações invasivas de homens perguntando do que se tratava a ação. No mais, foi inegável o impacto de aproximar-se desses comércios para, além de colar os lambes, passar a mensagem coletivamente.


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Figuras 56, 57, 58, 59, 60, 61, 62 e 63: Intervenção urbana realizada no bairro. Fonte: Acervo da autora, 2018.

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Figuras 64 e 65: Intervenção urbana realizada no bairro. Fonte: Acervo da autora, 2018.

Próximo aos mesmos bares, também foi implantado o mapa elaborado conjuntamente que, seguindo a proposta dos cartazes colados anteriormente, buscava uma interação das usuárias do bairro – dessa vez, com uma lógica espacial. No dia seguinte, 17 bonecas já haviam sido posicionadas, indicando alguns pontos de medo: nas proximidades do Maceió Shopping, no Corredor Vera Arruda, na orla, na Av. Amélia Rosa e na região da “Jatiúca Velha”, situada à esquerda do mapa. Comparando com o mapeamento de ocorrências do site, é possível perceber que alguns locais permanecem em destaque e surgem novas manchas, ampliando as regiões de medo do bairro.

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Analisando a atividade de um modo geral, foi possível perceber a diferença dos lambes que foram produzidos com os relatos das mulheres anônimas dos que foram produzidos no local. As frases elaboradas no momento abordavam mensagens de empoderamento, isentando-se de qualquer abertura de depoimentos pessoais. Em nenhum momento essas mulheres demonstraram abertura para relatar suas experiências, reafirmando a dificuldade de tratar sobre o tema. Apesar de ter conhecimento de algumas situações vivenciadas por mulheres que estavam presentes e de algumas falarem de maneira superficial que haviam sofrido casos de violência, tais narrativas não estavam presentes nos lambe-lambes. Vale ressaltar que mesmo durante o trajeto da intervenção, ocorreram uma série de assédios com as integrantes que por hora se dispersaram do grupo. No mais, todas as estratégias utilizadas até então serviram de embasamento para a etapa seguinte.

4.4. Mulher, medo e espaço: uma caracterização do bairro da Jatiúca Foi a partir de observações levantadas até o momento que senti a necessidade de trabalhar de maneira mais geral o bairro como um todo, elaborando um mapeamento de caracterização e espacialização de fatores que produzem mais medo ou afastam as mulheres de determinados espaços. Vale salientar que esses mapas foram realizados a partir da minha perspectiva individual, consistindo em uma síntese que busca referendar e testar o que observei inicialmente. Tal mapeamento baseou-se, através do olhar específico de gênero, em demarcar características gerais que rebatem no uso feminino do espaço, passando por pontos como as formas das fachadas, os usos das edificações e a morfologia das vias. O objetivo consiste em cruzar essas múltiplas questões que dizem respeito ao espaço, mas que não necessariamente encaixam-se em uma categoria única de análise e que, se lidas separadamente ou inseridas em um outro contexto, poderiam não fazer sentido. Para elaborar os mapas, voltei aos resultados das entrevistas para identificar as características espaciais que eram temidas pelas mulheres. Foi então que elenquei alguns pontos de destaque. O primeiro deles foi a movimentação de pessoas nas ruas, vista como um fator crucial de segurança e que estava, de modo geral, relacionado à existência de estabelecimentos comerciais em funcionamento ou de atividades de lazer. O comércio, por sua vez, |


traz não somente um movimento dentro de seus espaços privados, mas também reflete numa maior relação do espaço externo com o interno e, em caso de funcionamento noturno, torna o espaço mais iluminado. Além disso, quando aberto, serve de ponto de fuga em uma possível situação de risco da vítima. Do mesmo modo, outra característica que aparentemente não teria relação direta com o comércio é a existência de edificações privadas com guaritas. Esta também exerce a função de ponto de fuga em caso de necessidade, além de contar com vigilância que, apesar de privada, exerce uma guarda e observação das transeuntes. Por outro lado, existem certos pontos que revelam uma ausência de pessoas, servindo enquanto barreira de visibilidade e espaço propício para ocorrência de violências. Um exemplo são as proximidades de edificações privadas sem guarita, frequentadas majoritariamente por moradores locais, e terrenos baldios ou desocupados, espaços ociosos que funcionam como esconderijo para possíveis assediadores e terreno perfeito para violências como estupros. Outro aspecto temido pelas mulheres são os espaços de dominação masculina, como é o caso de canteiros de obra. O medo de passar por esses locais é unânime devido à grande possibilidade de assédio, dentre outras violências físicas. Apesar de estar tratando de aspectos subjetivos atribuídos ao espaço, como por exemplo sua ocupação, num primeiro momento optei por trabalhar num mapa que elencasse as características das edificações de maneira mais específica, tratando cada uma delas de maneira pontual. Para tal, optei por |

levantar cinco características: (a) propriedade privada com guarita; (b) propriedade privada sem guarita; (c) comércio/ institucional/ serviços; (d) uso misto; (e) terrenos baldios/desocupados; e (f) obras. Deste modo, não interessa aqui saber unicamente se determinado terreno é constituído de habitação unifamiliar ou multifamiliar, mas se, por exemplo, ele possui guarita ou não. Isso importa porque, em caso de perseguição ou possível abuso/assédio sexual, a mulher tem – ao menos em teoria – a quem recorrer. Isso pode ir apontando locais e caminhos que podem ser mais seguros dessas mulheres circularem – e isso tem muito a nos dizer para esse trabalho. É claro que essa categoria, por si só, não deve ser compreendida enquanto problema se não for vinculada a outros fatores que também atribuem medo. Por exemplo, se você passa por uma rua que é composta apenas de residências privadas, mas essas casas não possuem muros e suas portas e janelas estão voltadas para o espaço externo, isso aparenta ser menos assustador que uma rua completamente murada, ainda que também composta de edificações terem um mesmo uso. Ao mesmo tempo, é diferente se você passa por um conjunto habitacional que possui relação direta com a rua sem muros de outro totalmente murado. Por outro lado, se destrinchássemos a categoria muro, ainda haveria uma diferenciação de seus tipos: aquele que é feito de tijolo é mais nocivo à rua do que o gradil, que possibilita uma visibilidade do ambiente interno e externo.


Figura 66: Mapeamento de caracterização - edificações. Fonte: Acervo da autora, 2018.

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É a partir dessa consideração que surgiram outros grupos de categorização que, para facilitar a leitura, foram especializados em mapas distintos, podendo se sobrepor entre si. Obviamente, o trabalho não pretende esgotar tal análise e por isso restringiu-se aos principais pontos elencados nas falas das mulheres e na minha experiência pessoal. Como pode-se observar no primeiro mapa, o bairro apresenta uma diversidade de usos e ocupações, que promove uma vitalidade importante para as usuárias. O mapa aponta uma concentração de serviços especialmente nas margens das grandes avenidas, a prevalência de ruas residenciais nas adjacências dessas avenidas e a aglomeração de edifícios verticais com guarita nas proximidades da praia, do Stella Maris e do Corredor Vera Arruda. Há também um número considerável de edificações abandonadas e terrenos baldios de grande porte espalhados pelo bairro. A fim de compreender melhor como se configuravam essas construções, analisei uma a uma as quadras do bairro, tentando identificar padrões nos perfis e fachadas, respeitando a escala da pedestre. O que interessa nesse momento não é se determinada edificação é residência ou comércio em si, por exemplo, mas como se configuram suas fachadas e como isso reflete na sensação de vulnerabilidade da mulher. Pude notar a existência de nove padrões específicos nessa categoria:

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1 | Predominância residencial, com construções de menor porte e sem muros.

2 | Predominância residencial, com construções de maior porte e com muros.

3 | Predominância residencial, com construções de maior porte com guarita e presença de poucas pequenas residências que resistem.


4 | Predominância residencial, com construções de maior porte com guarita e sem quarita com muro em semelhante proporção.

5 | Conjuntos habitacionais com baixo gabarito e gradil.

6 | Conjuntos habitacionais com baixo gabarito e sem muro.

7 | Quadra com grande edificação murada, ocupando toda/quase toda sua extensão.

8 | Quadra predominantemente comercial.

9 | Espaços livres com existência ou não de equipamentos urbanos.

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Figura 67: Mapeamento de caracterização – fachadas/perfis. Fonte: Acervo da autora, 2018.

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Apresentar essas diferenciações se fez necessário para entender de forma mais ampla as zonas do bairro que apresentam características semelhantes, ainda que com peculiaridades individuais, visto que algumas categorias do mapa anterior se mesclaram com outras e passaram a ser vistas com outro sentido e pertencer a outro recorte.

2 | Ruas sem saída.

Entretanto, tais aspectos ainda permaneciam isolados do desenho urbano e característica das vias, que possuem fundamental importância na vivência da mulher. Passar por um beco a noite, por exemplo, é sinônimo de terror. Do mesmo modo, um edifício em uma avenida tem um impacto distinto de edifício em uma ruela. Sendo assim, elenquei outros padrões, agora relacionados a essa abordagem, para visualizar no bairro. 3 | Ruas com canteiro central.

1 | Becos com passagem exclusiva de pedestres.

4 | Ruas comuns com calçada.

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Figura 68: Mapeamento de caracterização – vias/desenho urbano. Fonte: Acervo da autora, 2018.

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Dentre as categorias pontuadas até então, há um aspecto que permeia e influencia toda a região: a iluminação. Compreendendo a relevância desse ponto, mapeei os pontos mais bem iluminados do bairro e os comércios que permanecem em funcionamento no horário da noite. Ao observar o mapa, é perceptível a concentração desses estabelecimentos de maneira expressiva na Av. Amélia Rosa e na Av. Engenheiro Paulo Brandão Nogueira. Observados as categorias de análise, pontuei características que se destacaram quando foi realizada a sobreposição dos mapas com os relatos anônimos das vítimas. 

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Todos os casos de perseguição relatados ocorreram em grandes avenidas, ambos nas proximidades de colégios (Anchieta e Contato) ou de pontos de ônibus. Coincidentemente ou não, os horários escolhidos eram justamente de finais de expediente escolar; Por sua vez, os relatos de assalto concentravam-se nas ruas adjacentes, estreitas, predominantemente residenciais e com pouca movimentação de pessoas; As ruas que possuem maior movimentação de veículos característica que poderia remeter a uma maior segurança ao entorno - são os locais onde mais ocorrem os assédios verbais, provenientes de carros em movimento; Na maioria dos relatos de assédio, a vítima estava atravessando a rua; Os relatos de abordagens com crianças ocorriam, em sua maioria, enquanto as mesmas se encontravam dentro dos próprios prédios, situados em vias residenciais de menor movimento;

Todos casos de masturbação ocorreram numa faixa próxima à orla ou na praia, ambas durante o dia;

Desde modo, é possível afirmar que, por se tratar de algo corriqueiro e naturalizado na sociedade, os casos de assédio e até mesmo de perseguição ocorreram de maneira evidente, em locais expostos e com muita movimentação, diferentemente dos assaltos e abordagens com crianças, que acontecem de maneira isolada. Pela lógica, é mais aceitável violar uma mulher do que violar bens materiais. É importante frisar que a importância dos mapas extrapola as considerações pontuadas após a contraposição com os relatos do site, visto que essas revelam apenas um recorte restrito do cenário geral do bairro. Ao sobrepor as categorias elencadas, a usuária pode visualizar pontos críticos da região de acordo com sua visão pessoal e dos elementos que compõem sua vivência.

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Figura 69: Mapeamento de caracterização - iluminação. Fonte: Acervo da autora, 2018.

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5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

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É sabido que a ocupação dos espaços públicos em Maceió, de maneira geral e não apenas para as mulheres, é muito restrita. Apesar da Jatiúca ser reconhecida pelo seu funcionamento noturno com caráter comercial que agrega sujeitas de outras partes da cidade, é errôneo achar que tal característica se aplica a toda a sua extensão. É interessante notar como o bairro se altera e configura-se de maneira distinta com a diferença de uma única rua e como essas dinâmicas funcionam paralelamente com públicos e ordenamentos distintos. Por esse motivo, suas ocupações são múltiplas e, consequentemente, não é cabível generalizar a experiência do que consiste, de fato, ser mulher na Jatiúca. Quando olho para os espaços do bairro enquanto arquiteta e urbanista, percebo que sua configuração morfológica no tocante à ocupação feminina é, a grosso modo, satisfatória em comparação ao restante da cidade. Obviamente que tal afirmação não visa excluir ou reduzir os relatos de medo e violência, bem como minimizar os riscos de ocupar os espaços públicos do bairro, entretanto é preciso reconhecer também suas qualidades. Ser mulher na cidade envolve vulnerabilidade e estudar a Jatiúca é compreender apenas uma fração do problema, inserida dentro de um contexto muito específico, mas que assemelha-se com diversos outros bairros e espaços urbanos. O desafio do trabalho consistiu em apreender a subjetividade do medo, ponderando quanto dele era espaço, o quanto era imaginário e o quanto era tradição. Talvez seja essa a maior contribuição do trabalho: esboçar caminhos para pensar a cidade a partir da perspectiva da mulher. |


6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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CIDADES SEGURAS PARA AS MULHERES. Disponível em: < http://www.cidadesseguras.org.br/>. Acesso em: 03 de maio de 2018.


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Diário de Percursos e Sensações. |


Diário de Percursos e Sensações. |


Diário de Percursos e Sensações. |


Cartaz Corredor Vera Arruda. |


Cartaz Botequim Paulista.

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Cartaz Rua Prof. Manoel Coelho Neto. |


RELATOS MAPEAMENTO COLABORATIVO INSEGURANÇA - Este ponto tem diversos flanelinhas. São bastante agressivos e intimidadores principalmente com as motoristas mulheres. Evito passar por lá mesmo no carro. PERSEGUIÇÃO - Estava indo ao trabalho e um homem começou a me perseguir. Virei na primeira esquina e saí correndo. ASSÉDIO - Estava indo para o trabalho, as 8:00 e um homem na bicicleta passou por mim bem devagar e se aproximando enquanto se masturbava. ASSÉDIO - O pessoal desse bar costuma oferecer drinks em troca troca de beijos ASSÉDIO - Estava na praia com um namorado, eu tinha 15 anos. Um homem velho sentou um pouco atras de nós e começou a se masturbar. ASSÉDIO - Era 4 da tarde e eu estava esperando para atravessar a rua quando um homem no caminhão veio tirar gracinha comigo, falou algo do tipo "eeeita, que gracinha". ASSÉDIO - Estava eu com uma amiga na calçada, caminhando até a orla, quando um cara num carro foi entrar em uma das ruas transversais à R. Industrial José Otávio Moreira no momento em que iríamos atravessas a tal rua. Ele simplesmente parou o carro na curva, colocou a cabeça pra fora da janela e ficou nos observando (olhando com cara de "quero te comer") e falando |

coisas ridículas. Não fiquei constrangida, porque quem foi o idiota foi ele. Pelo contrário, virei e joguei na cara dele o quão ridículo e machista ele era e segui meu caminho com minha amiga. Espero eu, ter deixado esse indivíduo constrangido, pois além dele, os carros que ele atrapalhou de transitar no rua quando parou ouviram tudo que falei. (CHEGADE FIUFIU) ASSÉDIO - No domingo 21.01.18 fui à praia da Jatiúca com umas amigas. Às 13h fui andando da praia em direção ao shopping e decidi ir pelo corredor/pela praça Vera Arruda para pegar um caminho mais curto. Quase não havia movimentação pelo caminho, com algumas exceções pontuais. Quase chegando no Stella Maris, vinha um homem sentido shopping-praia que passou por mim e começou a me cumprimentar cheio de intenções maliciosas. Eu não o conhecia então não dei nem conversa e passei direto. Ele insistiu e continuou falando comigo. Quando viu que eu não ia responder, ele parou, se voltou em minha direção e começou a gritar xingamentos. De canto de olho, percebi a movimentação dele e fiquei com medo de que ele me seguisse. Mas ao perceber que eu continuava ignorando a sua existência patética, ele me deixou em paz. PERSEGUIÇÃO - Eu tinha 12 anos, e nesse dia voltava da escola sozinha de tarde, umas 15:00 mais ou menos. Tinha um cara parado na frente do Anchieta, de onde eu saí. Quando passsei por ele notei que ele começou a andar atras de mim, olhei pra tras e ele deu um sorriso maldoso. FIquei desesperada! Aumentei o passo e entrei em uma banquinha de revistas que tinha onde


funcionava um lava a jato. Acontece que o homem tambem entrou lá. Nessa hora eu me tremi toda!!!

Não fiz um escândalo, mas o tal homem levou "acidentalmente" uma cotovelada nas costelas.

Quando viu que eu ia demorar lá ele saiu. Dei um tempo e sai tambem. Quando saí ele tava me esperando na frente fingindo que estava vendo alguma coisa... Voltei pra dentro e falei para o cara da banquinha o que tinha acontecido. Ele ficou saiu e falou com o cara "Ta mexendo com a menina , rapaz? VocÊ tá doido?" e me mandou ir embora, assegurando que nao ia deixar o tal cara sair de la... SAI CORRENDO! Nem lembro direito se agradeci... corri ate em casa chorando muito... nao sei como nao fui atropelada.

ASSÉDIO - Motoristas dando cantadas enquanto dirigem

ASSÉDIO - Parei na faixa para atavessar a rua, um homem passou por mim de carro, baixou o vidro, ficou falando qualquer coisa que fiz questão de não entender. Ele se distraiu, não viu que o carro da frente parou na faixa e bateu na tarseira dele. ASSÉDIO - 25/10/2014, a tarde estava voltando da faculdade, cansada, num ônibus razoavelmente cheio (com pessoas em pé, mas não a ponto de precisar ter contato físico extremo), estava em pé. Várias pessoas também iriam descer na mesma parada que eu, então formou-se um aglomerado maior próximo à porta. Quando eu já estava bem perto da porta o homem que estava atrás de mim se aproximou mais que o necessário e praticamente beijou o meu pescoço, por cima do meu cabelo (que estava solto), fiquei paralizada, mas não poderia deixar passar, não com tantas mulheres sofrendo violência diariamente sem condições de reagir.

ASSÉDIO - Estava parada no trânsito com a minha mãe e notei que alguns carros tinham batido duas faixas ao lado. Do carro da frente desceu um homem, aparentemente com muita raiva, e se dirigiu ao carro de trás onde tinha uma mulher. Ele gritava muito alto, e ela tentava responder à altura. Ele estava em pé, na janela dela, ela ainda sentada no banco do motorista. A discussão foi aumentando e vi o homem enfiar a mão pela janela e agredir a mulher. Os dois tinham carros de grandes e aparentavam ter dinheiro. Não foi barraco de gente "sem educação" , não... ASSÉDIO - Fui atravessar a rua e fiquei parada no canteiro esperando o sinal abrir. Um homem passou por mim me olhando, chamando de gostosa, se distraiu, não viu o sinal fechar e bateu no carro da frente. ASSÉDIO - Cruzei com um homem na esquina e ele disse que seria uma delícia chupar minha boceta todinha. ASSÉDIO = Por duas vezes, indo para o trabalho a pé as 8:00 da manha cruzei com um homem que ao se aproximar de mim ficou me secando e disse: 1- Essa daí eu não metia rola não, uma dessa eu chupava o cu! 2- Não lembro, mas tinha algo a ver com minha bunda também. Lembro de passar super constrangida e encolhendo o corpo de nojo, medo, raiva e insegurança. Não reagi. Acelerei o passo e fui para o trabalho. |


ASSÉDIO - Eu era muito criancinha, não faço ideia da idade, um homem passou de bicicleta se masturbando e mandando a gente olhar o pênis dele, isso foi na frente do meu prédio onde estavamos eu e algumas amigas jogando. ASSÉDIO - Acho que não tinha nem 8 anos quando estava no estacionamento do prédio brincando com minhas amigas, umas 5 acredito, e um homem bebado entrou dizendo que queria conversar com a gente. Saimos todas correndo e ele seguiu a gente até meu apartamento. Ele chegou a bater na porta e chamar por nós e meu pai foi atender e enxotou ele de lá. ASSÉDIO - Estava indo trabalhar, as 8:00, e no caminho passei por um homem que disse "Essa daí eu comia de 4 puxando os cabelos pra crescer e parecer com mulher de novo". Eu tinha o cabelo bem curto, quase estilo "Joãozinho". ASSÉDIO - Eu morava na Jatiúca desde os meus 7 anos de idade. Só comecei a ter a experiência de bairro mesmo depois que entrei na faculdade e comecei a usar o transporte público. Então como eu estudava a tarde sempre descia no ponto da Álvaro Calheiros já de noite. Sempre ficava meio que correndo pra chegar em casa pq não me sentia bem. O fato mais marcante mesmo rolou quando um cara me perseguiu do ponto de ônibus até o terreno baldio (que hj fica a farmácia Drogasil - ao lado do seu Jorge). O cara me perseguiu, tentou me tocar e tentou me levar para esse terreno (que era caminho pra minha casa). Enfim... Foi HORRIVEL! Graças a deusa não aconteceu o pior. Um motorista que estava passando na hora percebeu e parou no meio da rua e começou a |

buzinar pra assustar o cara. Ele fugiu com medo e eu entrei no carro desse rapaz que me levou até em casa. Fiquei um bom tempo descendo em outro ponto (o ponto do shopping Iguatemi) e meu pai ou .eu namorado iam me buscar lá Mudei bastante meus hábitos depois desse fato Foi péssimo, nojento Inclusive eu até tinha vezes que saia mais cedo da UFAL Pra evitar chegar pela noite, sabe? em outro detalhe Apesar de de ser uma rua movimentada A avenida Paulo Brandão Nogueira (que era a rua que eu morava) Era muiito esquisita a noite Principalmente na segunda feira que era o dia que muitos pontos comerciais estavam fechados Isso tem aproximadamente uns 8 anos que aconteceu Mas foi muito tenso Lembro até do nome do rapaz que me salvoh Se ele não tivesse feito aquilo não sei o que teria acontecido ASSÉDIO - Eu tinha uns 12 anos e morava na Alvaro Calheiros. Ia sempre sozinha comprar pão na João Davino e um dia um carro parou do meu lado e um cara me perguntou se eu não queria trabalhar de cabo eleitoral de um vereador já que eu tinha "um corpão". Eu tinha 12 ANOS! Fiquei apavorada, disse a minha idade e o cara insistiu que não tinha problema ja que eu patecia ser mais velha. O cara abriu a porta do carro e eu sai correndo aos prantos e ele terminou indo embora. A coisa que mais me entristece é que até hoje, aos 35 anos, eu lembro do short que estava usando ja que na epoca fiquei pensando que o cara tinha feito isso por conta do meu short e não por ele ser um babaca escroto. ASSÉDIO - Desde muito nova gosto muito de ir a praia e frenquento o P7. Sempre pegava essa rua para chegar a praia,


por ser uma reta só da minha casa. Uma vez um homem numa moto passou por mim, indo na mesma direção, parou lá na frente, sentou muito confortavelmente na calçada e começou a se masturbar enquanto eu passava por ele andando. Outra vez, foi um homem em um carro.Agora só vou a praia pela avenida principal.

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MA P AD EL O C A L I Z A Ç Ã O P R I N C I P A I SV I A SEP O N T O SD ER E F E R Ê N C I A

1 0

1 9

3 1 1

2 0 2 3

1 2 1 3 1 4 1 5

6

5 7

1

8

2 2 2 1

2

4

1 6

1 8

1 7 9

(Im)permanências e (in)seguranças da mulher na cidade - TFG  

Trabalho Final de Graduação intitulado (Im)permanências e (in)seguranças da mulher na cidade: pensando os espaços públicos a partir de uma p...

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