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HISTÓRIAS DE PESCADOR

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Universidade de Brasília 2012 Faculdade de Comunicação Fotojornalismo Trabalho desenvolvido pela aluna Julia Lugon Ferreira Pedrosa, no 2o semestre de 2012, para a disciplina Fotojornalismo, ministrada pela professora Susana Dobal

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presentação

Construído em 1959, o Lago Paranoá é uma das opções de lazer dos brasilienses. Além das atividades como caiaque, lancha e Kitesurf, outra atividade tem se tornado popular entre os moradores: a pesca.

pertencentes à Bacia do Paranoá. Entretanto, não há uma legislação específica para a pesca no Lago Paranoá no Distrito Federal. O que há é um conjunto de regras utilizadas pela fiscalização da Polícia Militar.

A pesca passou a ser permitida no Lago em 2002. Antes, na tentativa de proteger a fauna local, a atividade era proibida. No final de 1999, porém, foi observado que a maioria dos peixes procurados para fins lucrativos eram espécies que não faziam parte da fauna nativa. Essas espécies, como a tilápia e a carpa, prejudicavam a qualidade da água do lago. Para resolver o problema, a solução mais simples foi permitir a pesca. Apesar dessas espécies exóticas prejudicarem a fauna nativa, elas não fazem mal ao ser humano. São, inclusive, frequentes nos pratos locais, como o tucunaré.

Para os pescadores profissionais, é preciso comprovar a profissão com cadastro em cooperativas de pescadores. Na pesca amadora, é permitido usar somente vara e molinete. A pesca de peixes exóticos é liberada e peixes da fauna local, como a traíra e o lambari, tem limite máximo de 15 kg mais um exemplar. Para os dois casos, é proibida a pesca em áreas recreativas, como o Pontão e clubes.

O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais (Ibama) possui uma série de regras para a pesca em lagos, rios e lagoas

Considerada para muitos uma atividade de lazer, a pescaria também dá origem a boas histórias. Este trabalho tem como objetivo contar as aventuras narradas com tanto orgulho por alguns pescadores do Lago Paranoá. Todas as histórias são reais. Pelo menos foi o que os pescadores disseram. 3


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Aqui se juntan cazadores, pescadores y otra manga de mentirosos - an么nimo

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eu silvino, a seu serviço

Aposentado do Banco Central e com 73 anos de idade, Silvino, ou “seu” Silvino, vai quase todas as quartas-feiras para debaixo da Ponte das Graças pescar. A atividade, que para ele se trata apenas de um hobbie, serve também como terapia. Contemplar o Lago Paranóa, que cerca parte da capital federal, apreciar o silêncio do lugar e simplesmente dedicar parte de seu tempo a pesca, dão ao Seu Silvino muita paz e tranquilidade. Assim, ele encontra um meio de fugir dos problemas cotidianos e um tempo para dedicar a si mesmo. Com quatro filhos, dois homens e duas mulheres, Seu Silvino parece descobrir a receita da vida. “Comigo é sem stress”, conta ele. “Agora você me diz, um dia 6

lindo como esse, um calor, e o pessoal faz o que? Fica preso no trânsito, reclamando, cansado e estressado. Vai estressado para o trabalho, terno, gravata, aquele ônibus lotato, volta pra casa e não dá atenção pra mulher, e pra quê? Pra morrer de um ataque cardíaco com 60 anos? Eu não. Prefiro ficar aqui, no meu cantinho, curtindo a minha pescaria”. A pesca, apesar de não servir como fonte de renda, é alimento. “Minha filha, você já comeu Tucunaré?”, pergunta ele. “Olha, Tucunaré e uma delícia! Dá demais aqui no Lago. Você abre ele, limpa, joga na panela com manteiga e come com farinha. Não tem coisa melhor nesse mundo. De vez em quando, eu consigo pescar vários aqui. Ai levo para

minha família comer. Eles adoram”. Seu Silvino conta que já pescou um tucunaré com mais de quatro kilos na beira do Lago. “Ele era enorme. Todo mundo da minha família comeu. Dá um prazer muito grande quando a gente pega alguma coisa. Eu não me importo muito com isso não, na verdade. Gosto mais é de passar um tempo aqui. Mas é bom levar alguma coisa pra casa, mostrar pra mulher que eu não estou na farra”, conta ele, sorrindo.

Silvino exibe o tucunaré que pescou à beira da Ponte das Garças


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Olhe bem, você ai me contando do seu pai que tem problemas no coração. Fale pra ele, diga que fui eu que disse, mas fale pra ele que isso daqui é o melhor remédio do mundo. Se ele vier pescar uma vez por semana, não vai ter problema nenhum pra mexer com o coração.”

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Vou te contar uma coisa. Se eu te disser que já pesquei 40 peixes em um só dia aqui nesse lago, com essa vara de pescar, você acredita? Olha, foi peixe pra todo mundo. Teve peixe o mês inteiro lá em casa. Hoje tá dando azar, só peguei um até agora. Essas coisas é muito de dia. Hoje o peixe não quer.” 11


Sujo? Esse lago é limpinho! Não tem nada poluído aqui não. Se você quiser entrar nessa água ai não tem problema nenhum. Olha, um dia vai até a segunda ponte pra você ver. Tem um monte de gente nadando na prainha que tem lá. Estaciona seu carro na grama, põe uma roupa de banho e aproveita.”

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Eu gosto de ficar aqui, olhando pra essa água, esperando meus peixes. É a minha terapia. Eu penso muito na minha vida aqui também. Eu gosto da minha vida. Fui casado com uma mulher no Espírito Santo e tive uma filha. Depois, com 26 anos, resolvi procurar um emprego melhor aqui em Brasília. Conheci outra mulher, me casei e tive três filhos, dois meninos e uma menina. Quando minha esposa de Espírito Santo descobriu ela ficou uma fera. A daqui também, quando soube que eu era casado com outra. Mas tudo se resolveu. Hoje, meus dois filhos moram em Miami, é uma beleza. Nessa vida, eu descobri que o que importa é a gente ser feliz. Sem arrependimentos.”

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Minha filha, ser jornalista pra quê? Pra subir o morro? Ficar fotografando tiro? Vai ser feliz. Vai pra América, minha filha! Casa com um americano!” 17


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ona olendina e seu marido

Casados há 48 anos, Dona Olendina e Wagner da Costa se conheceram no Rio de Janeiro. Juntos, vieram para Brasília trabalhar. Ela dava aula de português e ele, trabalhava na Universidade de Brasília, no departamento da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo. Aposentados, os dois sempre procuram atividades ao ar livre para se distrair durante o final de semana.

ou simplesmente aproveitar a vista. Com Dona Olendina e Wagner não poderia ser diferente. Geralmente, eles costumam aproveitar para caminhar no local, mas, com a chegada de dois amigos que visitarão Brasília, a tentativa do final de semana era aprender a pescar. Assim, eles fariam atividades diferentes com as visitas, que chegariam à cidade na outra semana.

Moradores da Asa Norte, o casal costuma ir com frequência para o Calçadão da Asa Norte. Localizado ao final da L2, em frente ao Lago Paranoá, o local, inaugurado em julho de 2011, possui 2 quilômetros de extensão. Lá, diversas famílias aproveitam o tempo para caminhar, pescar, andar de caiaque

Chapéus, filtro solar e uma vara de pescar antiga faziam parte do traje para o passeio. “Nem sabemos pescar, estamos aqui só pela brincadeira mesmo”, afirma Olendina. “Agora com esses nossos amigos vindo pra cá, estamos atrás de novidades, coisas diferentes para eles fazerem. Se der certo, quem sabe

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a gente não passa a pescar com mais frequência?”, conta Wagner, em tom de brincadeira. Sem ter ração, minhoca, ou qualquer outro tipo de alimentos para peixe, a solução foi levar a salsicha e o milho de casa. Ao final da manhã, sem conseguir pescar nada, o casal não saiu frustrado: “foi divertido ficar aqui. Agora eu sei que peixe não gosta mesmo de salsicha. Quem sabe da próxima vez”, comenta Dona Olendina, sem perder as esperanças de um dia ser uma pescadora do Lago Paranoá. Dona Olendina e Wagner da Costa contemplam o lago no Calçadão da Asa Norte


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Olha, não conheço muito isso de pescar não. Mas deve ser bom viu? Uma vez, eu ouvi a história de um homem que gostava tanto de pesca, que na lua de mel dele, ele largou a mulher no hotel e foi pescar! Acredita? A pobre coitada lá, esperando, e o homem atrás de peixe. Pescar deve ser bom mesmo.”

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Já pesquei uma vez lá no interior do Mato Grosso. Olha, foi uma coisa que eu não acreditei. Estava viajando com dois amigos, um deles comentou que ali havia um bom local de pesca. Fomos andando, entramos na fazenda e descobrimos o lugar. A gente tinha que pegar uma balsa, atravassar um rio. O melhor lugar de pesca de toda a região, com certeza. Era deserto, não tinha nada. Fomos parar em um sítio que não tinha iluminação, não tinha sinal telefônico, não funcionava nada. Era como nos séculos passados. Quando cara estava me falando que um determinado quarto do sítio dava muita cobra, bicho de tudo que é jeito, a gente ouve um barulhão vindo da cozinha. Chegando lá, o bujão de gás estava no chão, rolando. Era uma onça, que tinha tentado roubar, não conseguiu e acabou fugindo”.

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Bom, ai então resolvemos sair da casa para pescar. Entramos no barco e o dono da região contou que aquele caso que o homem foi engolido por uma sucurí, sabe desse caso? Foi super famoso, saiu em um monte de jornal. Era um grupo de médicos e um dentista. Eles saíram pra pescar. Em algum momento, o dentista desapareceu do resto do grupo. Não conseguiram encontrá-lo durante muito tempo, até que encontraram uma sucuri enorme. Ele havia sido completamente engolido pela sucuri. Enfim, esse caso aconteceu no sítio em que eu estava. Fiquei apavorado. Desde então, não tive mais vontade de pescar e entrar no meio do mato. Mas é uma boa história, uma história de vida interessante para contar.”

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leiton e o cheiro do maracujá

Cleiton Mello, 35 anos. É funcionário da clínica médica Sabin, na 914 sul. Depois do expediente, aproveitando a proximidade de seu trabalho com a Ponte das Garças, gosta de ir para lá para pescar. Deixa no carro a vara, uma cadeira de metal dobrável, farinha, maracujá e outros aparatos de pesca. Leva também uma sombrinha, para deixar em cima do porta mala aberto do carro. Assim, ele espera confortavelmente a tarde passar, à beira do lago. Começou a se envolver com a pesca no lago por conta dos amigos. “Muita gente que eu conheço vem pra cá”, comenta ele. “Aí fica tudo bem mais divertido. A gente estaciona o carro, abre uma cervejinha e fica aqui pescando, conversando...”, complementa. O grupo também costuma 26

pescar durante a noite. Acendem uma fogueira, levam cadeiras, agasalhos, e claro, os aparatos para a pesca. “De noite aqui fica muito bonito, dá pra ver capivaras passando enfileradinhas, bem na nossa frente. Acho melhor pra pescar. O tempo não está tão quente. A gente se queima muito com esse sol da tarde”, conta Cleiton. Naquele dia, Cleiton estava de folga do trabalho. Chegou mais cedo que os amigos, por volta de duas da tarde. O resto do grupo iria só ao anoitecer, para a pesca noturna. Mas ele não se importa de ir sozinho. Quase todos os dias há gente pescando perto da Ponte das Garças. Assim, caso haja algum problema, há quase sempre alguém presente, seja para ajudar com os equipamentos da

pesca, dividir alguma comida ou mesmo conversar. A Ponte das Garças não é o único local que Cleiton gosta de pescar. No início da segunda ponte, a ponte Costa e Silva, também possui um ótimo local para a pesca, segundo ele. “O problema de lá é que vai muita criança pra nadar na prainha, então pescar fica mais difícil. Não dá pra deixar anzol e linha perto de criança.”

Cleiton Mello prepara a massa de farinha com maracujá, utilizada como isca para pesca


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Para mim, a melhor isca que tem é a de maracujá. É a mais fácil de fazer e os peixes adoram. O secredo está na fruta. Você faz um montinho de farinha, água e maracujá. Quanto mais maracujá, melhor. Os peixes sentem o cheiro de longe.”

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Tenho amigos que já se meteram em várias confusões por causa de pesca. Um deles, uma vez, pegou um barco com mais duas pessoas e saiu pra pescar, lá no interior de Minas. Estava a noite e eles saíram. Foram bater, sem querer, na área de um criador de búfalos. Por causa do calor, eles estavam na água. E o pior é que os búfalos são bravos demais. Você não pode tentar assustar eles com o motor. Eles dão o troco. Passam por trás do seu barco e vao empurrando, pra afundar mesmo. Eles tiveram que passar a noite inteira lá, sem poder fazer nada. Mal podia mexer pra não assustar os animais.”

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Eu e meus amigos até que não aprontamosww muito não. Costumamos ficar tranquilos, só conversando e aproveitando o tempo pra pescar. Mas teve uma vez, não lembro direito porque, decidimos pegar uma capivara e assar a carne dela. A gente cozinhou ela aqui mesmo, muita gente já tinha trazido outras comidas e aproveitamos o que a gente tinha. A carne é bem macia, tenho vontade de comer de novo.”

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Ah, mulher sempre acha ruim né? A minha não fica muito satisfeita quando saio para pescar. Ela sempre acha que estou na farra, fazendo coisa errada. Mas eu sou tranquilo. Às vezes, quando sai coisa boa, levo uns peixes para ela. Um dia quero trazer ela pra cá, pra ela ver o que eu faço com meu tempo livre quando eu não estou em casa.”

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pesca de Vitória

Com sete anos de idade, Vitória sai com seu pai e sua avó para pescar. Os três saem de casa, em Santa Maria, no gol vermelho do pai, Ricardo, que dirige até o Calçadão da Asa Norte. A atividade é costume realizado pelo pai, que agora tenta ensinar a filha como utlizar a vara de pescar. Ele está acostumado com a pesca e vai em diversos outros locais, como a Ponte Costa e Silva e a Ponte das Garças, para pescar sozinho ou com os amigos. Na maioria das vezes, Ricardo faz tudo pela diversão. “Nem costumo levar muito peixe, geralmente só pego e solto. Quando é algum de um tamanho grande, aí sim eu levo pra casa”, conta ele. Apesar de realizar a atividade com frequência. 36

foi a partir deste ano que o pai de Vitória começou a levar a família para pescar nos finais de semana. Para ele, este é um bom momento de se divertir com a filha e levar a mãe para algum lugar diferente, fora do ambiente de casa. “Normalmente vem todo mundo da família, eu, a Vitória, a minha mãe, a minha esposa e minha cunhada. Hoje elas estavam muito cansadas e resolveram ficar em casa”, conta. Vitória adora o ambiente. Ela brinca com a vara de pescar, corre pelo Calçadão e observa o pai colocar a minhoca no anzol. A família, apesar de não levar almoço, levou salgadinhos e uma caixa de isopor com gelo, água, refrigerante e cerveja. Com as latinhas de cerveja do

pai, Vitória de diverte fingindo que as latas são carrinhos. Enquanto Ricado ensina a filha a pescar, Dona Maria, avó de Vitória, aproveita seu tempo para relaxar. Ela desce o pier e fica lá em baixo, vendo as pessoas passarem e aproveitando o momento em que está sozinha. Aproveitando a sombra improvisada feita por cobertores, ela também passa maior parte do tempo vigiando a neta e os pertences da família. Vitória se diverte pescando no Calçadão da Asa Norte com o pai e a avó no final de semana.


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Filha, pra você saber onde tem lugar de peixe, você tem que fazer o seguinte: fica olhando pro lago, e procura onde tem os patinhos, vê onde o pássaro voa perto e onde estão todos os bichinhos. É só colocar a vara lá que você pega um peixe na mesma hora.”

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Não acredito! Pesquei uma vara de pescar! Vem cá ver filha! Olha só o que o papai pescou pra você! Eu achava que era tudo lixo, mas tá aqui ó, uma vara presa junto todos esses galhos.”

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Às vezes é bom passar um tempo sozinha. Ficar aqui, olhando pra água. Gosto sempre de molhar meus pés. Parece que o problema da gente só vai embora quando a gente põe o pé na água.”

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Historia de Pescador  

Trabalho para a disciplina de fotojornalismo, ministrada pela professora Susana Dobal. Universidade de Brasília

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