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João Lourindo Raiz do Buieié

Júlia Boaventura


Dedico este livro aos moradores do Buieié, que tornaram esse trabalho possível e prazeroso, e, em especial, ao “seu” João, que se tornou mais do que uma simples fonte, revelando-se um amigo de coração incrivelmente sincero e aberto. Não poderia deixar de agradecer também aos meus pais, Lucilene e José, pelo amor e apoio incondicionais. Vocês são meu maior e melhor exemplo! A minhas irmãs de sangue, Nathália e Helena, e a minha irmã de coração, Maria Gabriela, pela afeição e amizade constantes. A toda minha família - avó, tios e primos - pelo afeto contínuo. Este livro é dedicado também à Lílian, Tamara, Bernardo e Bruno, que sempre estiveram ao meu lado; e aos amigos do Homogêneos, por tornarem a graduação divertida e leve. Agradeço especialmente à Marcela, por ter me incentivado a trabalhar com aquilo que eu amo: a fotografia. A minha orientadora, Laene, pela contribuição criativa e por ter me deixado tão livre para fazer o que eu realmente queria. E ao meu namorado, Eduardo, por ser um parceiro incrível e admirável, e por ter embarcado e acreditado neste projeto; e a toda sua família, da qual eu sinto fazer parte. Este livro é de todos vocês também! Muito obrigada!


Livro Fotodocumentário produzido no semestre 2013/2 como exigência para a conclusão do curso de graduação em Jornalismo pela Universidade Federal de Viçosa (UFV)

Autora Júlia Boaventura Orientadora Laene Mucci Daniel Fotografias Júlia Boaventura Textos Júlia Boaventura e Eduardo Nascimento Jr. Revisão Linguística Eduardo Nascimento Jr. Diagramação e Arte Júlia Boaventura


“Uma coisa medo de me Só se pode tografa se (UFV)

é clara em minhas fotografias: eu nunca tive apaixonar pelas pessoas que fotografei. [...] capturar de verdade a essência de quem se fovocê se tornar parte dele.” Federal de Viçosa Annie LeibovitzFe-


Índice 8

Buieié

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A raiz do Buieié

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João Lourindo revelado Júlia Boaventura


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Buieié Os caminhos disponíveis que nos levam até o Buieié - comunidade quilombo-

la de Viçosa, Zona da Mata mineira – não são dos mais fáceis. Se você sai da região central da cidade (como é o meu caso), precisará obrigatoriamente de um ônibus ou carro para chegar ao destino. Ao final, terão sido percorridos aproximadamente 14 quilômetros de irregulares estradas vicinais, compostas por muita terra e poeira nos dias quentes, ou muito barro escorregadio nos dias chuvosos. Além disso, não existe qualquer tipo de sinalização na estrada que guie você até a comunidade, somente quebra-molas (que fazem jus ao nome), buracos que surgem inexplicavelmente e alguns animais que insistem em atravessar na sua frente como se dissessem: “O forasteiro aqui é você. Esse lugar é meu”. Portanto, a forma mais fácil de chegar com segurança é contar com a boa vontade dos moradores e pedir-lhes que indiquem o caminho, mesmo correndo o risco de não compreender bem a informação e acabar em uma “rua” sem saída. Os terrenos da viagem, como já dito, são diversos: um pequeno trecho de asfalto e, a maior parte, em pedra, cascalho, terra, terra, poeira e mais terra, tudo isso banhado por uma onda de calor seco e inebriante mesmo nas primeiras horas da manhã. Mas não se pode reclamar de tudo, afinal: a paisagem verde que passa ligeira pelos olhos é um verdadeiro alívio para quem se acostumou com a vista cinzenta e fria da cidade. É possível sentir e ouvir a vida brotando de cada parte do lugar, das árvores ressecadas à relva fértil. 9


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A atenção ao trecho é algo imprescindível. Qualquer “cochilo” pode fazer com que você perca o rumo da estrada e caia em alguma das infinitas bifurcações do local - uma espécie de labirinto proposital para “esconder” a comunidade. Aqui, se perder é mais fácil do que se encontrar. Passados cerca de vinte minutos de trajeto, já é possível avistar os primeiros telhados disformes das casas que compõem o Buieié. A comunidade se divide em duas áreas principais: o “Buieié de Baixo” e o “Joãozinho”. O “Buieié de Baixo” é considerado a região mais moderna. Ainda que não haja calçamento, o local dispõe de uma pequena mercearia (que comercializa um pouco de tudo), alguns bares, uma igreja evangélica, além dos pontos finais do itinerário Centro x Violeira e da coleta de lixo. Nesse espaço, a presença de “forasteiros” é mais visível. Embora a maioria da população seja de negros, diversas famílias brancas, fugindo dos altos custos imobiliários do centro de Viçosa, adquiriram recentemente lotes e ali fizeram suas casas. A parte mais alta, o “Joãozinho”, chama atenção logo na chegada: ao final do caminho íngreme, o horizonte muda e um grande vale verde aparece como num passe de mágica. A estrada continua estreita, mas as laterais se alargam, um pequeno riacho passa por nossos pés (e algumas crianças brincam nas pedras e se refrescam naquelas águas incrivelmente límpidas). Tem-se a impressão de se estar adentrando um local completamente desconhecido da maioria dos viçosenses. Há algo convidativo no ar. Qualquer que seja o estado de humor no qual nos encontramos, ele automaticamente passa para alegria. E, embora não haja no “Joãozinho” nenhum estabelecimento comercial ou religioso (somente casas que abrigam as famílias mais antigas e tradicionais do lugar), uma vontade crescente, tranquila e sincera de ali estar toma conta do nosso corpo. 11


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Entretanto, não importa qual a região visitada: se você é “intruso”, os moradores logo notam sua condição e dirigem olhares curiosos e desconfiados sobre sua figura. Não é difícil entender o porquê disso: para uma comunidade que se acostumou a estar afastada de tudo e de todos, a presença de qualquer pessoa “de fora” é sempre marcada por um estranhamento inicial. Todavia, essa impressão de hostilidade logo se dissipa à medida que, em cada casa que entro, sou recebida com um sorriso aberto ou uma palavra amiga. Ouvindo os relatos de alguns moradores, consigo perceber que eles sentem que a cidade não demonstra qualquer tipo de atenção ou interesse pelas pessoas que ali vivem e que fazem parte da história e da construção do município. Quando lhes questiono sobre o que falta na comunidade, as repostas são claras e repetitivas: não existe rede de esgoto, o recolhimento do lixo é feito apenas na parte “baixa”, a iluminação é completamente escassa e não há sequer um posto de saúde e uma creche para atender às necessidades desses cidadãos. O aspecto mais impressionante de toda a comunidade, contudo, não é a falta de infraestrutura do lugar ou a precariedade dos serviços prestados, mas sim o apreço sincero e comovente que os habitantes têm pelo território em que vivem. No Buieié, a noção de propriedade vai muito além da simples posse de uma área. Existe também uma relação invisível, incorpórea, mas extremamente profunda dos moradores com o lugar, este marcado simbolicamente por suas histórias de vida, sua cultura e seu passado. Posto isso, não é difícil imaginar que nenhum residente queira abandonar ali, por mais contraditória que a situação possa parecer. Os nativos do Buieié veem o lugar como uma extensão de seus próprios corpos. Suas raízes estão ali fincadas e é ali que devem permanecer, lutando 12


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diuturnamente pela transformação positiva do que é seu. Eles não apenas vivem no Buieié. Lá, eles existem. E mesmo que esse sentimento com o território seja bastante arraigado, há uma generosidade e hospitalidade tremendas com os que estão ali de passagem: após a desconfiança preliminar, nenhum dos moradores mostra insatisfação ou incômodo com o visitante; ao contrário: infinitas vezes você é convidado para tomar um café, ficar para o almoço ou permanecer mais tempo nas casas. Além disso, a relação de amizade e de confiança existente entre os indivíduos dali é uma surpresa mais do que agradável. Não há muros que separam as propriedades. Apenas cercas vivas ou, quando muito, tronqueiras que podem ser facilmente abertas. É absolutamente comum ver crianças de colo sendo seguradas por senhoras idosas que, claramente, não são suas mães. Quando pergunto sobre o paradeiro da progenitora, descubro que ela mora em outra casa, bem longe daquela onde encontrei o bebê. Mais tarde descobre-se que, na verdade, a senhora que acolhe o garoto não é sequer sua parente próxima. Ao comentar isso com uma moradora, esta me diz, com um largo sorriso: “aqui, todo mundo é parente”. Tudo isso faz com que uma visitante como eu se sinta ainda mais parte do Buieié. E assim, a timidez é deixada de lado e sigo entrando nas casas como se já os conhecesse há muito tempo. E, durante uma das inúmeras visitas que fiz ao lugar, descubro uma figura encantadora e marcante, capaz de reunir todas essas características que, para mim, tornam essa comunidade deliciosamente encantadora: João Lourindo, um dos moradores mais velhos do local. Se o Buieié pode ser considerado como uma enorme família, seria bastante pertinente dizer que o “seu” João é o grande pai desse povo (e, em alguns casos, avô ou bisavô!). 13


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A raiz do Buieié Meu

primeiro encontro com João Lourindo ocorreu no quintal da casa de Maria Helena Mateus - moradora da parte alta do Buieié -, a qual eu visitava frequentemente em busca de informações sobre a comunidade. Sou informada que aquele senhor é um dos membros mais velhos do local e, portanto, uma excelente fonte. Não escapo do olhar desconfiado do senhor, que emposta a voz e me fita dos pés à cabeça. Quando Maria Helena explica o porquê de eu estar ali, tudo muda: sou novamente cumprimentada, meu nome é novamente perguntado e recebo um forte aperto de mão. E, já de cara, ele começa a me contar que acabava de chegar da “cidade” (Viçosa), onde havia ido verificar a possibilidade de se colocar um cruzeiro na parte mais alta do “Joãozinho”. No caminho, ele me explica inúmeras vezes a importância daquele cruzeiro: primeiro, por ser uma promessa que fez à falecida esposa; segundo, para trazer mais proteção a todo o Buieié; e, terceiro, porque seria uma excelente oportunidade de trazer os “irmãos” de Congado para se apresentarem ali. Obviamente, sou convidada a participar da inauguração numa data posterior. Na semana seguinte já não restam mais dúvidas: vou direto à casa de João, que fica um pouco mais afastada da parte “central” da localidade. Para se chegar até lá, é necessário entrar à esquerda e andar alguns bons passos. No amplo terreno há três casas: a primeira casa, à esquerda, é de Margarida, sobrinha de João Lourindo. A segunda, mais ao fundo, é de Aleixa, também sua sobrinha. E a terceira, ao lado direito, é a de João. 15


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Quando chego à porta e chamo por ele, sou recebida com um sonoro “Mas não é que você veio mesmo?”. A roupa que usa agora é mais simples do que aquela do primeiro encontro: uma calça jeans desgastada e uma camisa verde desabotoada na parte do peito, deixando à mostra um medalhão envelhecido de Nossa Senhora do Rosário. Nós pés, um par de chinelos comuns que rapidamente são deixados de lado. A partir desse momento, sou tratada por “Julinha” e passo a chamá-lo de “seu” João. Imediatamente, um banco rústico de madeira é retirado da cozinha, colocado do lado de fora da casa e sou convidada a me sentar. E ali se inicia uma das muitas tardes prazerosas que tive desde que comecei a visitar o Buieié. “Seu” João pede licença e vai até o seu quarto a fim de trazer o rádio para mais perto de nós. Segundo ele, o aparelho é um dos seus maiores companheiros. Enquanto ele se vira, passo a observar sua casa: o chão do alpendre é de terra batida e o telhado não possui forro. Mesmo assim, a limpeza do local é impecável: não se vê nenhum papel ou embalagem no chão. E quando isso ocorre, “seu” João rapidamente apanha a vassoura confeccionada com folhas e limpa o lugar. Segundo ele, o utensílio feito com suas próprias mãos e com folhas do seu quintal é muito “melhor do que qualquer outra vassoura comprada na cidade”. Enquanto o pequeno rádio alterna entre modas de viola caipira e sertanejo de raiz, sou convidada a conhecer o interior da moradia. Como a área externa, os cômodos também são de terra batida e igualmente asseados. São três quartos, todos com as paredes forradas de imagens sacras: Nossa Senhora Aparecida, São Sebastião, Jesus Cristo crucificado, e também alguns pretos-velhos. “Seu” João logo alerta: “Toda proteção é bem vinda, minha filha. Aqui só entra coisa boa. Coisa ruim fica lá pro lado de fora”. 19


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As janelas e as portas são todas de madeira rústica com fechamento de tramelas. E elas só ficam fechadas quando ele sai de casa. Do contrário, o lugar é muito bem iluminado pela luz natural que entra por todos os lugares possíveis. Quase me passa despercebido o enorme crucifixo na entrada da porta principal. Embora esse hábito tenha sido muito comum no interior de Minas Gerais, com o tempo e a “modernidade” o costume foi deixado de lado. Mas não aqui. E abaixo da cruz, pés de guiné, comigo-ninguém-pode e espadas de São Jorge conferem ainda mais proteção e vida ao ambiente. Uma imagem em específico faz com que “seu” João pare e me explique detalhadamente do que se trata. É um pequeno quadro, de cantos arredondados, que exibe a imagem de três pessoas: um João Lourindo mais novo, sua esposa Luíza e seu pai Miguel. É possível notar que sua voz torna-se um pouco trêmula: para ele, aquelas duas pessoas foram as mais significativas em sua vida, juntamente com sua mãe, Maria Teresa, que “agora mora lá em cima”. Novamente sou chamada a me sentar no banco colocado no alpendre. Impossível não reparar que aquele chinelo visto inicialmente nunca mais voltara aos pés. Ao perguntar, ele é taxativo: “Ah, minha filha. Eu não consigo ficar muito tempo calçado. Nem de chinelo, nem de sapato. Eu gosto é de ficar descalço, fui criado assim. Gosto mesmo é de sentir a terra nos meus pés”. Para alguém que é a raiz do Buieié, essa frase sintetiza tudo. Um fato muito interessante é que, passado pouco menos de uma hora, já me sinto em casa. E “seu” João faz questão de que todos que ali cheguem se sintam assim. Segundo ele, agora faço parte da “família”. Esse traço de generosidade pode parecer apenas como um bom costume. Mas, de fato, isso ocorre com uma força impressionante. E, assim, consigo me despir de qualquer traço de timidez 21


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ou sentimento de incômodo e passo a fazer perguntas sobre sua vida. Para minha surpresa, nenhuma resposta é escondida e nenhum rodeio é feito: “Meu nome é João De Deus Ferreira, mas todo mundo me conhece e chama de João Lourindo. Tenho 79 anos”. Espanto-me quando ele revela a idade. Seus braços ainda são muito fortes, a fala é rápida e certeira. Ao ver a surpresa que tinha me causado, ele imediatamente abre um largo sorriso, exibindo os dentes levemente amarelados, coisa de quem bebe muito café e chá: “Ah, minha Nossa Senhora! Não parece, não, Julinha? Mas já tô com 79. Faço 80 no dia 8 de março. Sou um dos três mais velhos daqui. Acima de mim, só o ‘seu’ Antônio e a ‘sá’ Isa, que são irmãos”. E ele continua: “Quando eu nasci, não conheci meus avós. Mas sei que essas terras são deles desde a época em que aqui era cativeiro de escravos. Então, só conheci os filhos deles [seus pais e seus tios]. Ah, mas isso aqui é meu lugar. Não saio daqui nunca. Nasci e cresci nesse lugar. E conheço aqui como a palma da minha mão. Pode estar o breu que estiver, nem preciso de lanterna. Consigo ir em qualquer lugar”, completa orgulhoso. Em momento algum é possível notar qualquer traço de angústia em suas falas. Saudosismo sim, principalmente quando pergunto sobre a esposa. Mas tristeza, nunca. Parece-me que “seu” João vê o passado como uma coisa boa, com o qual ele aprendeu e se fortaleceu. E isso transparece a cada momento. “Me casei com, mais ou menos, 35 anos. Antes disso, eu só trabalhava. Nunca sentei num banco de escola, não sei nem a primeira letra do ABC, mas educação eu tenho. Eu sei lidar com os outros, não sou bruto pra tratar as pessoas de qualquer jeito”, diz enfático. E continua seu relato: “Eu nunca tive filhos. Minha mulher, que Deus levou faz sete anos, era bem mais velha que eu. E ela trabalhava muito, era muito forte. E adorava um cachimbo!”, conclui, sorrindo. 25


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Embora viva sozinho, não se pode dizer que “seu” João seja um homem solitário. A família, numerosa, vive ao seu redor, seja nas casas próximas à dele, que abrigam sobrinhos e afilhados, ou os irmãos espalhados por outros cantos do Buieié. Além disso, a casa de João Lourindo é um ponto de encontro: raros foram os dias em que, durante minha visita, um amigo ou parente não apareceu para lhe pedir algo, ajudar em alguma dúvida ou para simplesmente “prosear”. E ele adora: “Ah, minha Julinha, eu adoro receber as pessoas. Graças a Deus e a Nossa Senhora do Rosário vem muita gente aqui. E faço questão de tratar todo mundo bem”. E isso ficou ainda mais nítido num fim de semana quando Dona Ilza e seu esposo, Camilo, vieram de Novo Silvestre para auxiliar “seu” João na capina do quintal e na lavagem de suas roupas. Já se aproximava das cinco horas e “seu” João estava inquieto. Na primeira pausa entre um assunto e outro, ele se levanta e lembra: “Tá na hora do café. Dá licença que eu vou cortar uma lenha ali”. Rapidamente, ele alcança um machado e começa a desferir golpes nas toras de madeira que ficam agrupadas debaixo de um pé de pitanga. Os movimentos são fortes e contínuos e um leve gemido pode ser ouvido. Como que para dissipar qualquer tentativa de ajuda que eu possa vir a oferecer, ele diz: “É, minha filha... cortar lenha é muito bom!”, sorri e desfere mais um golpe. Enquanto ele alimenta o fogão a lenha, passo a observar o quintal: enorme e de uma variedade inimaginável de plantas. “Seu” João, que havia saído da cozinha e agora lavava o copo de metal com sabão caseiro, percebe meu interesse. Coloca o copo sobre a chama e vem até mim: “Essa aqui é camomila. Bom demais pra fazer chá! Tem alecrim, erva-cidreira, guiné, macaé, boldo... Eu gosto muito de chá. Tomo todo dia de manhã, assim que acordo. Faz bem demais pro organismo”. 27


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E, sem que perguntasse nada, ele continua: “Ali tem laranja, limão, banana e manga. Ali atrás tem pitanga. Aqui é onde eu crio meus ‘capadinhos’ [porcos]. Aquele curralzinho é onde fica meu cavalo, que só vem pra cá de noite. Agora ele tá lá em cima, pastando”, aponta para um morro defronte ao seu quintal. “Aqui do lado da casa tem mais folhas de chá. Tentei plantar milho, mas minhas galinhas e os bois dos vizinhos comeram tudo! Mas vou plantar de novo”, completa. A água do café já estava fervendo. Ele me chama e me mostra o poço. A água que chega a sua casa é proveniente de uma mina próxima dali. Novo orgulho: “É água limpa, sem remédio, sem nada. Pode beber à vontade, minha filha”. “Seu” João retoma o caminho da cozinha para finalizar o café. Joga uma boa quantidade de pó na água fervente e adocicada e começa a despejá-la no coador, que está num grande suporte de madeira. À medida que as gotas caem, ele prepara uma mesa com uma enorme peça de queijo, uma rosca e os copos: “Vem Julinha, pega o café. Pega queijo também. E pão”. Diante do pequeno pedaço que tiro, ele logo retruca: “Mas ah meu Deus do céu, minha Nossa Senhora do Rosário... Só isso, Julinha? Come mais. Não vai ficar com fome na minha casa não. Aqui é pra comer muito. Anda, menina, pega mais! Eu gosto quando a visita come bem!”. Diante de tais apelos, me rendo e sirvo mais um pedaço de queijo. Retomo, então, meu lugar no banco e pergunto-lhe se viver ali não tem nenhuma dificuldade. Ele fica mais sério e começa a contar que numa certa vez, apareceram alguns oficiais de justiça empunhando papeis que informavam que aquela área deixaria de ser dele por enquadrar-se em usucapião. Para ele, foi esse aborrecimento que fez com que a esposa morresse. Mas “seu” João nunca se entregou: “que negócio é esse de 29


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‘campião’? Campeão pra mim é quem ganha as coisas, não quem tira. Tem gente que é ignorante, gosta de arrumar briga, mas eu não gosto disso não. Tem gente que acha que comanda o mundo, mas não é a gente que comanda o mundo não, é Deus. E graças a Ele e a Nossa Senhora do Rosário, fomos até o Fórum e conseguimos esclarecer tudo. Antes de meu pai morrer, ele me deu os papeis do terreno e me disse pra não dar isso a ninguém. E foi o que fiz. É, Julinha, tem muita gente maldosa nesse mundo”. Outro caso de conflito diz respeito a um morador próximo a ele. Segundo “seu” João, o rapaz insiste para que se derrube um eucalipto plantado no terreno próximo à residência: “olha só, minha filha. Vê se aquilo vai cair em algum lugar? Tá longe da casa, não vou cortar minha madeira não. Então é só isso que me perturba, no resto eu dou bem com todo mundo, graças a Deus.” “Seu” João é profundamente ligado ao lugar onde vive. E mesmo quando ainda trabalhava, sempre o fazia nos arredores. Trabalhou para fazendeiros durante muitos anos, desde os 15, mais ou menos, até aposentar (entre 60 e 70 anos): “Usava a enxada o dia inteiro, no sol quente. Batia pasto, fazia todo tipo de trabalho pesado de fazenda. A minha mulher também trabalhava nas fazendas do Buieié, na roça, capinando. Ah, minha filha, o trem não era fácil não, o trabalho era pesado mesmo. Podia tá chovendo canivete, mas a gente ia trabalhar. Das 6 da manhã até 6 da tarde. Ali no mato você comia ou bebia o que fosse, não tinha tempo de sair pra comer alguma coisa. Hoje em dia eu trabalho só pra mim, aqui em casa e na terra que eu tenho mais embaixo. Eu cuido dos meus porcos, planto as minhas verduras, cuido das galinhas... Eu gosto de serviço, não gosto de ficar parado não. E aqui sempre tem alguma coisa pra fazer. Se eu parar, eu adoeço.” 31


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Tanta vivacidade só tem uma explicação para ele: Deus. Para “seu” João, não há nada mais importante que o Criador e sua falange de santos. Todas as comemorações são realizadas em sua casa, como o dia de São Sebastião, em que boa parte da vizinhança se reúne, troca os adornos da imagem sacra, aglomerase na sala e faz a parte final da novena. Assim que as orações cessam, “seu” João apressa-se em pegar os foguetes e solta, um atrás do outro, aos gritos de “Viva São Sebastião”. Impossível não compará-lo a uma espécie de sacerdote. Impossível não se lembrar dos inúmeros “Pai João” da Umbanda. E o sincretismo é algo tão comum por ali que ninguém se importa com as diferenças religiosas. Havendo respeito, qualquer um pode chegar e pegar para si um pouco daquela proteção. “Seu” João raramente deixa a casa. Mas há algo que, basta mencionar o nome, é possível observar seu orgulho e disposição: o Congado. Ele não se lembra da primeira vez em que foi à festa, só sabe que foi há bastante tempo. A mulher o acompanhava. “Uma vez eu tava lá no Fundão [São José do Triunfo, distrito de Viçosa], dançando Congado, e na volta eu vim a pé, saí de lá era mais de meia noite. Eu vinha com meu pandeiro na mão, era um pedaço da noite, só eu e Deus. Quando eu saí do asfalto e entrei na estrada de terra, eu olhei pra baixo e vi um ‘cavaco’ de um lobo. Aí menina, o que que sucedeu? Eu ‘trupiquei’, quase caí de tanto medo, mas virei pro lobo e falei: ó bicho, você vai pro seu lado, eu vou pro meu. Aí eu peguei a estrada e vim embora. Desse dia pra cá eu nunca mais vim de noite.” Peço para que ele me mostre os apetrechos usados nas festividades. Ele rapidamente apanha o chapéu e coloca-o na cabeça. E começa a bater os pés como se ali começasse uma comemoração. “Ah, eu gosto demais dum Congado, Julinha. 35


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Eu e meus irmãos de congo sempre nos reunimos. Pouco tempo atrás foi em Guaraciaba. Você tinha que ver! Tinha seis grupos! Até os pequenos dançavam, me chamavam de ‘irmão’. É bonito demais, graças a Deus!” “Seu” João é um sujeito ímpar. Cativante no primeiro olhar, possui uma sabedoria fora do comum. Sabe a especificidade de cada planta do seu terreno. E não permite jamais que alguém lhe pague em troca de algumas verduras: “vem cá, Julinha. Olha o tanto de lobrobró [ora-pro-nobis] que tem aqui. Leva pra você. Mas não compra não. Se você comprar eu nunca mais deixo você vir aqui. Isso é coisa que se dá, não se compra”, diz enfático. Se “seu” João pudesse ser resumido em uma palavra apenas, seria coração. E do tamanho do mundo. Alguns amigos até reclamam com ele, dizendo que essa sua hospitalidade pode atrair aproveitadores. João Lourindo dá de ombros. Não há como mudar essa característica. Nem adianta tentar. Outra coisa é o status de viúvo. Todos os amigos que chegam a sua casa dizem que está na hora de se casar de novo. Ele apenas abre um enorme sorriso e diz: “Casar? Eu não. Vivo muito bem aqui com Deus. Se eu casar de novo, vou ter de comprar toucinho pra mulher. Não quero criar nenhuma outra não!”, brinca. Os pés permanecem descalços. A noite chegou e avança, e até então eu nem havia percebido. O rádio até agora não parou de tocar. Ainda há café e ele diz: “não vai comer mais não? Ah, minha Nossa Senhora do Rosário! Você não comeu nada, Julinha. Pega queijo, pega pão. Leva um leitão [abóbora] pra você.”. Quando digo que já é hora de partir, ele solta uma gargalhada e retoma: “O quê? Mas ah, minha Nossa Senhora... Pra que essa pressa, menina? Você mal chegou. Fica mais.”. E eu percebo que esse não é um simples pedido de educação. João Lourindo é assim. Um pai, um avô, um amigo. 37


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Mas é hora de voltar para casa. Despeço-me, e mesmo depois de caminhar alguns metros, ainda consigo avistar a figura de “seu” João na porta da casa, acenando repetidamente com a mão para mim, num gesto levemente desajeitado, mas com profundo entusiasmo. Coisa de gente simples e sincera, que ainda consegue enxergar nos menores detalhes a alegria e a coragem de seguir vivendo com satisfação e felicidade. E, dessa forma, a vida continua, revelando-se surpreendentemente bela e prazerosa.

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um livro fotodocumental que tem por objetivo retratar e revelar a vida cotidiana de João Lourindo, um dos moradores mais velhos da comunidade quilombola do Buieié, em Viçosa, Minas Gerais. Por meio de fotografias e um perfil literário sobre este personagem, o livro revela a personalidade cativante desse homem humilde, mas rico em sabedoria e encantamento com a vida.

João Lourindo: Raiz do Buieié  

Livro fotodocumentário produzido por Júlia Boaventura, estudante de Jornalismo da UFV, como exigência para a conclusão do curso de graduação...

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