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entrevista ORGANIC ANAGRAM INDUSTRIES

entrevista

piece of mind

CITYLIGHTS FANZINE

WE LOVE THE SONGS BECAUSE WE LIVE THE SONGS

piece of heart ESCARAVELHO RECORDS: DA PAIXÃO À EDIÇÃO

JUICY

RECORDS

#03


“puramente” artísticos e não tanto a marcas, mas até agora tem corrido bastante bem certo?

Dar vida a um objecto é algo especial. Seja um vinil, uma t'shirt ou um relógio, se a ideia partiu da nossa cabeça e durante dias, meses ou mesmo anos visualizámos aquele objecto, tê-lo finalmente à nossa frente é uma sensação única, particularmente quando está associado a um conceito ou marca que partiu também de nós. A Organic Anagram Industries (OA) faz tudo isto acontecer, com um brio e capacidade produtiva notáveis, especialmente tendo em conta que tudo parte da cabeça do Miguel. Decidimos entrevistá-lo para saber como é que esta magia orgânica acontece.

Eu colecciono prints por serem formas acessíveis de ter uma reprodução de qualidade de um objecto de arte. Não tenho muita paciência para apreciar imagens num ecrã, portanto é numa parede e com o hábito de ver imagens que estabeleço a paixão com dado desenho. Pessoalmente, não conhecia ninguém que apreciasse ou visse os prints como algo em que valia a pena investir tanto pelo prazer como pela possibilidade de estar a ficar com um pedaço de história, mas temos clientes fiéis de todos os lançamentos, e outras pessoas já me disseram que começaram a comprar outros prints por terem gostado dos que lançámos. Hoje em dia já está em queda, mas aquilo que se designou por poster art do novo milénio foi um movimento gigante, principalmente nos EUA, que acabou por se esgotar dada a quantidade de lançamentos com que abundou o mercado. É por isso que preferimos ir fazendo a nossa família do Print Club crescer devagar, com tempo para se apreciar cada lançamento e deixá-los respirar, trazendo artistas diferentes para o público que criámos. Sim, corre bastante bem, principalmente tendo em conta que não vendemos os prints em nenhum sítio físico, apenas através da promoção do nosso website e dos artistas, quando isso acontece.

Tendo já mais alguns anos volvidos com o projecto das Organic Anagram Industries, qual o balanço geral que fazes até agora? Já pensaste em reavaliar as coisas, ou se vale mesmo a pena todo o esforço? Olhando para trás, só posso constatar que valeu mesmo a pena! Praticamente tudo o que lançamos, esgota, e foi criada uma boa rede de pessoas em volta da marca, que têm orgulho em a usar na rua, que fala aos amigos, que querem envolver-se. Ainda não tive um daqueles momentos em ver coisas das Industries a serem usadas no cinema ou assim, mas é regular dizerem-me que viram uma ou duas pessoas em qualquer evento relacionado com a nossa cultura, a usar coisas da marca. O que eu respondo geralmente, é que metam conversa, pois certamente há-de haver algo em comum em quem se revê naquilo que fazemos. Por essa vertente da comunidade, claro que vale a pena o esforço. Com a internet estabelecemos uma rede mundial de pessoas (acho que só ainda não houve encomendas de África), que acabam por estar ligadas e que me influenciam por aquilo que fazem. Em termos de reavaliação, é constante. Não no sentido de estarmos com receio disto ou daquilo, mas de ver o próximo passo. O caminho é em frente. Estamos confortáveis no nosso espaço, pois não temos o problema de uma marca grande e a nossa imagem é bem gerida, por isso em termos de ambição é continuar a oferecer a mesma qualidade com que somos associados.

O teu penúltimo lançamento foi um livro, que quase coincidiu com o lançamento do nosso livro do Nuno Sousa na Juicy. Já tinhas tido algum conteúdo escrito da tua autoria editado antes? Bem, vou ter de alterar o registo, se é para falar só de mim! Sim, já tinha muita coisa publicada, mas não era ficção. Apesar de eu me orientar a fazer muitas coisas, a única coisa para que eu tenho jeito mesmo, é escrever. Tenho muitos escritos publicados em revistas de tudo: arte, moda, skate, streetwear, musica, design, artigos académicos, teses, recensões de livros, entre outras coisas. Aquelas histórias que se contam do escritor X não ser publicado até certa data são bem passíveis de acontecer. Em termos de revistas literárias, os meios são extremamente fechados e o volume de submissões injusto para quem escolhe e para quem escreve. No meu caso, apareceram coisas escritas em zines e uma ou outra revista, mas não estamos a falar de uma New Yorker ou Paris Review. É preciso muito para chegar lá, e faço intenção de provocar esse acontecimento, mas não agora, na minha idade actual. Também escrevo poemas, apesar de ter pouco de poeta, e vou sair em duas antologias, uma de poetas das Beiras, e outra de poetas Londrinos, ou seja, não podia haver nada mais antagónico. Em termos de livro, Slaughter/Memória é mesmo o meu primeiro lançamento, e por ser numerado e assinado com a dedicatória que queiram, é um óptimo investimento para o futuro. Estou só a brincar, é muitíssimo barato e é engraçado de ser ler, e seria bom pôr as últimas cópias disponíveis em boas mãos!

Como é o processo criativo na Organic Anagram Industries, vem tudo de ideias tuas? Como fazes as decisões de avançar com um produto e deixar o outro para mais tarde, ou nem sequer avançar de todo? Sim, tudo começa com uma ideia minha, a menos que seja um artista a contactar-nos para lançar algo no Print Club ou para desenhar alguma peça. Neste momento estamos autosuficientes, pois tudo o que lançamos é desenhado por pessoas próximas ou por mim, logo os únicos custos são de produção e ao não termos uma linha para lançar a cada temporada, fazemos tudo muito bem pensado. Em termos de adiamentos, há inúmeras coisas. No passado prendia-se geralmente com artistas, mas por vezes temos também problemas com fábricas que nos satisfaçam em termos de volume da encomenda, que terá de ser baixo. Já aconteceu querer fazer umas camisas com o padrão do nosso Wallpaper, iam ser cerca de 50, mas a fábrica que tinha a qualidade pretendida respondeu que só dava para fazer 5.000. É a vida, fecham-se umas portas, abrem-se umas janelas, e se for preciso mandam-se paredes abaixo para entrar sem chave. Há algumas fábricas e projectos independentes ligados à musica ou ao skate que nos contactam para produzircoisas, mas a realidade é que o fazem por não terem dinheiro, e como nós temos de ter as contas bem certinhas, ainda não lançámos nenhuma colaboração. Mas espero que as propostas continuem a chegar! Com o panorama económico mundial, tudo ficou mais difícil, e são raras as marcas de streetwear que conseguem pagar as contas e não ter empréstimos. Desde que começámos, são poucos os pontos de venda que ainda se mantém abertos, e poucas as marcas que realmente cresceram. Porquê as prints? Viste que havia um mercado a explorar nessa área? Normalmente associamos prints a projectos

Fala-me um pouco de como foi o processo de produção do teu livro. Como chegaste das ideias iniciais até ao design do objecto e por conseguinte ao produto final?

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Conheci um jovem que tinha um estúdio de design e de impressão que fez uns folhetos que me impressionaram ( jingajoga). Como eu costumo ter sorte na abordagem às pessoas (tenho um longo historial de ofertas e ‘desenrascanços’ de que me orgulho, por irem com a minha cara!), arranjámos um negócio em que eu só tinha de escrever e fornecer-lhe as indicações de como


queria o livro, que ele montava e imprimia-me tudo, e por um preço que tornaria o livro acessível. No processo de escrita, eu tomo imensas notas, sejam expressões, frases, ideias para o desenvolvimento da história ou sentimentos a explorar. Portanto, não consigo precisar o início dessas ideias, no entanto, ao saber conscientemente que estava a escrever um livro, demorei dois meses a escrever e a rever tudo. Foi enviar os materiais de anexo ao rapaz, ele montou quatro versões do livro segundo as minhas indicações e pouco tempo depois estava tudo a caminho. Como curiosidade, a história em Português que aparece no livro, ‘Memória’, submeti-a a uma revista literária que ia começar em Portugal, mas não foi aceite (vulgo rejeitada), por um motivo qualquer, com as devidas palavras de encorajamento. Resultado: eu vendi 80 livros na primeira semana sem os ter exposto em nenhuma loja e sem agente ou publicidade, e a revista ainda estou para a ver à venda. Acreditem em vocês, porque para não acreditar em nada já há muita gente.

conhecido meu desenhou umas t-shirts com o X-Watch na frente e vendeu aos amigos nos EUA. Eu falei com ele, adaptámos o desenho a um crewneck, pusemos o nosso logótipo nas costas e lançámos por eu achar que valia a pena, esteticamente. Simples e confortável.

Ambas as histórias presentes no livro parecem ter algumas mensagens subliminares de crítica à sociedade e de reflexão sobre os seus costumes, estou certo nesta análise?

Claro, eu digo tudo. Por esta altura já está o novo site lançado, o que é um projecto excitante, principalmente da parte da gestão, tornando tudo ainda mais eficaz. Com ele são lançados alguns projectos que estavam só em espera, nomeadamente três relógios de pulso que reflectem a nossa imagem, um print novo de um artista conhecido na cena do skate, com uma abordagem muito interessante. Vai estar disponível muito em breve ( já a caminho da fábrica) uma tote bag ecológica que vai ser vendida com um conjunto de autocolantes de marca exclusivos a esse lançamento. Vão sair duas t-shirts novas e um zipper que vai fazer muita gente feliz, dados os pedidos que temos relativamente ao nosso anterior, que esgotou. Estão dois artistas a trabalhar em dois lançamentos originais, que por ainda não estarem acabados não posso nomear, mas é uma ilustradora do Porto com um estilo muito próprio a fazer um mini-livro com jogos relacionados com o punk/hardcore, e o outro é um rapaz estupidamente talentoso com uma câmera, que tem estado a trabalhar no novo filme do Batman, a fazer um vídeo promocional à marca e a celebrar a nossa ligação ao skate através da tábua que lançámos. Tudo com preços muito acessíveis como de costume e com aquela paixão que só o DIY transmite. Em termos de coisas que estão faladas mas ainda são só navios aos longe, uma edição exclusiva para a marca de um álbum, uma tábua de skate nova e mais prints. Há também a ideia de montar um Organic Anagram Soundsystem, para passar hip hop em festas que as pessoas que nos apoiam frequentem. Estamos à espera de convites! E claro, entrem em contacto nem que seja só para falarem, estamos sempre à procura de novas propostas e oportunidades. Eu vou ter uma câmera nova e vou continuar a documentar as coisas no blog, por isso mostrem-me os vossos projectos, convidem-me para aberturas, estúdios, negócios, o que seja, que eu fico contente por ajudar.

Quais são os próximos lançamentos que estão planeados? Podes levantar o véu sobre alguma coisa?

Em questões de estilo, o trabalho de análise não deve ser feito pelo autor. No meu caso, eu tenho a minha personalidade literária bastante madura. Aquilo que se chama de ‘voz’, já a encontrei e sei como a explorar. Com a caneta, eu sou contido, sou analítico, tenho um gosto pelo que não é simples. Não estou a dizer que gosto de complicar ou tornar as coisas inacessíveis, pois eu quero que o maior público possível me leia e dê o seu tempo como bem empregue. Mas antes do ‘eu’ escritor, eu existo como leitor. E nisso sou fanático como sou por poucas coisas, excito-me a falar dos autores que gosto, exalto-me até, faço viagens por causa deles e dos sítios que pisaram, as terras que descreveram. O que eu faço quando escrevo é um diálogo com eles, que, coitados, já estão todos mortos e enterrados. Eu como leitor surpreendo-me com coisas que eu escrevo, não porque ache que é magnífico, mas porque acontecem realmente coisas estranhas no processo que me fazem duvidar que fui eu, com a minha mente, que criei certas coisas. É uma boa sensação. Só para não deixar a pergunta sem uma resposta directa, cada um pode tirar essas ilações à vontade, mas se reparares, há coisas feitas de propósito para evitar esses paralelismos. Nota que é impossível situar a acção de ambas as histórias no tempo (tanto pode ser uma coisa pré-histórica como passada hoje), das personagens sabe-se muito pouco acerca do seu passado, podendo apenas ser julgadas pelas suas acções actuais ou pela personalidade que está denotada no nome, entre outras coisas. Acredito que é possível encontrar muita coisa nas histórias, e é do meu interesse cultivar esse diálogo interno de quem lê, após fechar o livro. Uma das tuas anteriores edições foi uma camisola crewneck com o print do famoso “relógio straight edge”. Quiseste associar as OA Industries às ideias e mensagem do SxE? Não, aliás, poucas pessoas que compraram esse crewneck sabem o que é o straight edge ou que o X-Watch é um símbolo para esse movimento. Claro que essa é a associação que pessoas do nosso meio fazem, e há algumas que o usam como motivo de orgulho straight edge, mas enquanto imagem da marca, não é representativo. As outras duas pessoas envolvidas na marca neste momento estão longe de ser straights, nem eu queria colocar este projecto num nicho tão reduzido. Para contextualizar um bocado esse lançamento, basicamente um

www.organicanagram.com Death is a binding creature, reminder of what we all have in common. SPLIT 7” - OUT NOVEMBER 2011

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2 new tracks from Utopium 3 new tracks from Lifedeceiver plus a very special cover 40 exclusive coloured records PRE-ORDER NOW AT: WWW.JUICYRECS.COM


Uma fanzine. Um artefacto tão essencial nas subculturas underground e hoje em dia tão ignorado por tantos que de alguma forma fazem parte desses mundos. Mas não a Citylights Fanzine. Com apenas uma edição até à data que esgotou em poucas semanas, um design profissional, fresco, e um CD de oferta com uma excelente recolha da maioria do hardcore Português, as 2 miúdas por detrás desta zine claramente souberam marcar uma posição. A Juicy foi um dos seus primeiros entrevistados, e agora retribuímos a cortesia, com perguntas diferentes claro. Antes de mais, quem são as pessoas por detrás desta zine? Apresentem-se! Somos a Sofia e a Joana, ambas de Lisboa. Duas amigas de longa data, que partilham o gosto pelo hardcore e tudo o que gira em volta do mesmo. Acabámos por nos juntar para fazer a Citylights, porque as fanzines para além de fazerem todo o sentido para nós, dão-nos imenso gozo. Qual a vossa experiência a fazer coisas deste género? Já tinham criado ou escrito para zines no passado? Joana - em 2000 tive uma fanzine pessoal, a XunikaX, e pouco tempo depois, talvez um ano, surgiu a fanzine da sisterhood (X.Cute), onde todos os membros da sisterhood participaram. Esta foi a primeira experiência da Sofia na criação de uma fanzine. Posteriormente ainda tivemos um projecto as duas (Justxduet), mas que resultou essencialmente na organização de concertos. A Citylights tem um aspecto bastante profissional e cuidado, diferente de facto das típicas zines de hardcore e etc, do “corte e cola e fotocopia”…a estética da zine foi planeada de antemão, ou foi algo que foi evoluindo à medida que criavam os conteúdos? Sofia – Posso dizer que foi juntar o útil ao agradável. Fazendo diariamente o trabalho de designer/criativa, a parte estética, legível e funcional da fanzine passou a ser uma prioridade. O layout da fanzine não foi planeado em antemão, foi sim fluindo com o decorrer da coisa. Tínhamos os conteúdos definidos e ordenados e isso facilitou bastante o trabalho. No entanto contínuo a admirar as clássicas e carismáticas fanzines do corta&cola, imaginas, rabiscas num papel e tá a bombar. Vive tudo muito à base da criatividade, tem outro impacto. Joana – claro que o layout da fanzine tem o mérito total da Sofia. Felizmente isso não dependeu de mim, caso contrário estaríamos mesmo limitadas ao “corta e cola” que eu designs e layouts, sou um zero à esquerda! No final da zine colocaram uma ilustração “engenhosa” para mostrar como é fácil fazer uma zine, mas será assim tão fácil? Não perdem a paciência com o tempo que os entrevistados (como eu) demoram a responder às perguntas, e com os detalhes todos? Lá está, essa ilustração engenhosa é um exemplo da liberdade que tens para passar a tua mensagem da forma que quiseres, porque para nós é gratificante poder passar a palavra no HC, seja de que forma for. Não vemos a zine como trabalho chato, é uma cena que fazemos por gosto, aliás, sempre que nos juntamos para falar da zine acaba por ser sempre mais rambóia do que propriamente trabalho. Além disso não estabelecemos grandes limites de tempo para a publicação da zine, tudo flúi muito naturalmente, também dependendo do nosso tempo disponível. Por isso mesmo respeitamos os entrevistados que demoram… mas também não abusem! (eheheh)

Se bem percebi, a zine parte muito da colaboração de vocês as duas, mas há mais pessoas envolvidas, o João de Reality Slap na capa, outros a escrever textos de opinião…foi por convite? Deram os temas às pessoas ou disseram-lhes apenas para escrever algo? A zine tem cenas pré estabelecidas, e sim, agora pensando, acaba por ter um grande planeamento prévio, não é só o deixar fluir. Ou seja, achámos fixe a ideia de em cada zine ter uma participação de um(a) ilustrador/ pintor/ fotografo/ whatever para participar na capa, é uma forma de o artista divulgar o seu trabalho e cada zine acaba por ser diferente e ter um bocadinho de toda a gente “que é o Hardcore”. E isto revela-se também nas entrevistas da fanzine onde temos uma rubrica o “Ganha-Pão” que fala da profissão do pessoal da cena HC, entrevistas a bandas, a uma pessoa mais “do antigamente” para partilhar histórias e também uma editora/zine/promotora, enfim, incluir todas as vertentes que contribuem para este meio DIY. Esta é um bocado a linha geral da fanzine, não quer dizer que seja necessariamente assim em todos os números. Quanto aos textos, os conteúdos “ainda se estão a vestir” mas gostamos de ouvir opiniões, de partilhar alegrias e feelings. No 1º número falámos com alguns amigos para partilharem aquele que é para eles o melhor álbum de sempre. Se pensarmos, o que para nós é o clássico, o curriqueiro Youth of Today (de que o Rafael Madeira falou), para muitos miúdos que compraram a Citylights sem sequer saberem o que era uma fanzine, Youth of Today vai ser para eles a revolução que foi para nós há uns anos atrás. Toda a gente tem a liberdade para falar do que quiser, obviamente, se tivermos um tema e nos lembrarmos da pessoa ideal para o abordar, é o que possivelmente faremos. A Citylights é uma zine de todos para todos. Enviem-nos textos pessoais, reviews de um concerto a que tenham ido, duma viagem, um restaurante vegetariano fixe, o que quiserem. Como é ser uma rapariga no hardcore, particularmente em Portugal? Ainda sentem a “pressão do género”? Sinceramente, nenhuma de nós sente que haja qualquer tipo de pressão, e muito menos em Portugal. Não sei... vamos a concertos e vemos miúdas e miúdos a fazer stagedives, no singalong, a moshar, a conversar e a partilhar ideias. Está tudo Ok! Para participarem activamente, basta querer. PAGE 4/6


Porque motivo acham que há menos gente hoje em dia a começar projectos criativos como o vosso? Será culpa da Internet, que agora parece que é o bixo-papão para tudo? É mesmo, a Internet trouxe cenas fixes, mas também matou muitas delas. Neste momento não faço a mínima ideia se existem fanzines em Portugal ou não, aliás, indo ao Google, ele fala-te de uma ou duas, mas lá está, ou te lembras de fazer uma pesquisa na net e tens ali alguma informação, ou simplesmente não existem. A Internet alia-se à preguiça, facilita e as pessoas acabam por se acomodar. Afinal: imprimir, montar a fanzine, e fazê-la chegar às pessoas, dá muito mais trabalho do que criar eventos no facebook ou escrever num blog. É até curioso falar nisto, há um mês recebemos um email com uma encomenda de um rapaz em que pedia para a Citylights ser enviada por Correio Azul, para chegar antes dele ir de Férias e assim poder leva-la para ler. A portabilidade da fanzine é priceless ;) . Pergunta específica para a Sofia: e Reaching Hand? Disco editado por uma editora de fora, com boas reviews, e a banda acaba de repente…porquê esse fim súbito? Sofia - Reaching Hand, trabalhou com várias editoras, com a Uri Geller Records de Espanha, com a Chorus of One de Itália e com a Thorp Records dos Estados Unidos. Todas elas com pessoas brutais, com as quais ainda mantenho contacto. Tínhamos lançado a Demo’07 e o Threshold, foram feitas algumas tours, e um álbum estava a ser trabalhado para ser lançado pela Thorp Records no inicio de 2011. As coisas pareciam estar encaminhadas, mas aconteceu o que acontece com muitas bandas, desentendimentos e mudanças de objectivos que fizeram com que RH terminasse. “Nothing lasts forever, we’re moving on, a new path lies ahead of us so I’ll be gone”. Agora a questão que interessa mesmo: Quando sai a próxima edição? Vai haver reprint da primeira? A próxima edição está prevista para Novembro/Dezembro deste ano, se correr tudo bem vão haver Citylights no sapatinho ;) Em relação ao re-print da primeira edição vamos optar por não o fazer, foi uma edição “piloto” que correu bem, por isso vamos apostar em edições únicas, que tornam a Citylights mais apetecível. Mantenham-se atentos ao facebook, e deitem um olhinho às bancas nos concertos, ou encomendem para citylights.fanzine@gmail.com. Deixem-me umas palavras sábias, mas a sério. O hardcore é diferente de todos os outros estilos musicais. É mais do que música. Tem conteúdo, mensagem e atitude. Vamos continuar a marcar essa diferença: participar, ajudar e promover. A Citylights é a nossa contribuição. “Podes ter as roupas certas, podes ter os discos certos, mas se não for do coração, então não é Hardcore” X-Acto – Uma Só Voz

ESCARAVELHO RECORDS: DA PAIXÃO À EDIÇÃO (atenção: conteúdo metaleiro incluído) O que faz a Escaravelho Records na newsletter da Juicy Records? Uma editora de Death Metal em

parceria com uma editora de Punk/Hardcore?! Estará tudo doido?! Não! Estamos ambos em sintonia com a paixão pela música e a abertura a novas sonoridades! Estarás também tu em sintonia com esta forma de estar? Espero que sim. Os inícios nunca são muito diferentes de editora para editora, os motivos e orientações poderão ser muitos, mas tudo começa da paixão pela música, da vontade de fazer alguma coisa que se veja! Mesmo em géneros diferentes, o que nos motiva é a mesma coisa! Há os que tocam, cantam, grunhem, também há os que não fazem nada disso e trabalham na sombra tornando aquilo que se ouve em algo que também se vê e sente! Sim, vê e sente, é que ainda há por aí maníacos que curtem a “real thing” o Vinyl, o CD ou a bela da Cassete! Felizmente não é tudo mp3… há quem crie a Arte Sonora e há quem a torne real e físico! Eu pertenço ao segundo grupo e tenho o prazer de tornar real, aquilo que aprecio. A criação da Escaravelho remonta a um passado não muito longínquo, algures pelo meio de 2009 e após alguns mails trocados com um banda nacional de Death Metal, com o objectivo de comprar algum material, surge uma proposta vinda do nada! Mesmo naquela de atirar a massa à parede a ver se pega, a dita banda, da qual sou fã desde os meus inícios como Metaleiro, pergunta-me se não estaria interessado em criar uma sub-editora para lançar um vinil deles! Andava eu ainda a aprender a lidar com vinil e salta-me este coelho da cartola! Claro que sim! Poderia eu lá fazer outra coisa?! E assim pelos finais do mesmo ano, lá tinha um nome, uma ideia e um objectivo. Apesar de todos os pontos em comum, quantas editoras são formadas especialmente para editar a banda da qual o editor é fã? Acredito que não sejam assim tantas! O tempo foi passando e apesar das coisas andarem lentas pelo lado da banda, o ânimo e a vontade de começar iam crescendo do meu lado! Mãos à obra! Após umas mensagens, primeiro lançamento planeado, Diskord, banda Norueguesa de Death Metal Old School com referências progressivas! Soa estranho? Sim! É bom? Sem dúvida! Mais uns tempos passam, distribuição a tomar forma, contactos a serem criados, Utopium e LifeDeceiver, split 7’’, co-release entre bandas, Juicy e Escaravelho, soa bem? A nós sim! A vocês também esperamos! Lá se vão passando os anos, o mais difícil, como em tudo, é o início, depois tudo se faz naturalmente! Entretanto umas divagações artísticas vão tomando formas materiais e lá se vislumbra o lançamento inicialmente programado, da tal banda de Death Metal Nacional, que por acaso se chama Holocausto Canibal. Antes disso ainda temos o Split 7”, que faz a diferença num catálogo de sangue e violência salpicados de sexo. Utopium e LifeDeceiver, num papel semelhante ao da Escaravelho na newsletter da Juicy…a passar fronteiras e a quebrar barreiras! Grind on Fuckers! www.escaravelhorecords.com by: João Escaravelho PAGE 5/6


JUICY RECORDS / NEWSLETTER #03 Como já toda a gente deve saber por esta altura, a Juicy mudou-se para Londres no final do ano passado, não tanto em antecipação de crises financeiras e medidas de austeridade, mas mais por razoes pessoais. Agir em vez de ficar parado, tentar atingir os meus objectivos com uma mudança geográfica (e cultural), e também o facto de não concordar com muito do que vinha a acontecer socialmente e politicamente no meu país foram os verdadeiros motores da minha decisão. Entretanto, quase um ano volvido, os objectivos mantêm-se. Tudo não correu 100% como planeado (quando é que corre?), a Juicy andou mais devagar este ano, mas também amadureceu e fortaleceu. Com uma única edição até à data este ano, o livro do Nuno Sousa, que esgotou completamente e que nos permitiu doar 100€ à Fundação que decidimos ajudar, não podemos dizer que tenha sido um ano mau. E se acham que 100€ é pouco, pensem que com pouco mais de 2€ podem comer uma refeição na Índia. Apesar do ritmo lento, a vontade de fazer mais e melhor não esmoreceu, e afinal ainda somos uma editora discográfica (principalmente), por isso temos um novíssimo disco a sair agora em Novembro: split 7” de Utopium e Lifedeceiver. Mais um vinil, mais um split, mais uma vez a ajudar amigos e a apostar em duas bandas que por serem tão diferentes daquilo que temos vindo a fazer também acabam por ser prova da dinâmica e do quebrar barreiras e estereótipos que queremos que seja constante na Juicy. Temos menos coisas a serem editadas, mas temos mais projectos paralelos em ebulição: em breve teremos um Juicy Podcast, em que queremos não só fazer-te chegar uma selecção de boa música, mas também comunicar sobre ela, dialogar, questionar, tudo isto de uma forma interactiva que te permita ter uma intervenção pessoal em cada episódio. Mais informações em breve, e primeiro episódio do Podcast a sair em Dezembro. A Juicy Distro também voltou, mais discos da Deathwish e de novas editoras, tudo seleccionado a dedo e em quantirades limitadas. Colaborámos também com a André Goes To México, o projecto homónimo de clothing line do André que certamente irá ainda dar muito que falar, e que nos deu a oportunidade de pela primeira vez termos uma peça de merch. Teremos mais artigos a sair futuramente nesta colaboração, mas entretanto ainda podem apanhar uma shirt se forem à nossa loja online. Mas voltando a Portugal, e olhando para o estado actual do país, vejo que cada vez mais as coisas se complicam, e cada vez vejo mais jovens a quererem emigrar. Já várias pessoas me contactaram com a intenção de virem morar para Londres, e a todas eu digo: não tomem as decisões certas pelos motivos errados. Se há coisa que o hardcore e a música em geral me ensinou, é que os tempos difíceis são tempos criativos. Se o mundo vos dá merda, façam sumo de laranja. É nos maus momentos que o ser humano se deve reinventar, e reutilizar o input negativo do que se passa à nossa volta para criar um output positivo. Façam acontecer as vossas ideias e projectos, utilizando os meios que têm ao vosso alcance, e acima de tudo, não tenham medo de arriscar. Se pensam mudar toda a vossa vida, façam-no por vocês, não por um país que está em crise mas que também nunca vos deu nada e por isso não merece que vivam a vossa vida contrariados. Façam da vossa vida aquilo que querem que ela seja, em Portugal ou em qualquer outra parte do Mundo. “The poor man is not he who is without a cent, but he who is without a dream.” Um grande obrigado a toda a gente que colaborou comigo nesta newsletter (Miguel, Joana, Sofia, João, João Cordeiro), obrigado ao Fábio Verduras pelo trabalho incansável na Juicy TV, obrigado ao João Fonseca pela ajuda com a Distro (e que virá da Palestina com muitas experiências, e quem sabe um livro na calha), obrigado ao André pelas T’shirts e pelas lições de frisbee, e obrigado a ti, leitor, porque se estás a ler esta newsletter então significa que de alguma forma já cointribuíste para este projecto. Ema

“we love the songs because we live the songs” Em muito serve esta quote dos Give Up The Ghost para resumir o porquê da, cada vez mais, crescente emotividade sentimental na música. Por outras palavras e, em bom português, do porquê da música actual ter uma vertente bastante lamechas. A verdade, é que haveria de aparecer por aí um Elvis, um Little Richard, um Chuck Berry ou um James Brown e eles próprios deprimiriam quando ouvissem um “The Queen is Dead” ou uma “Creep” dos Radiohead. Bom, aposto que, pelo menos, já deram eles mesmos umas voltas no caixão. Na realidade, o tempo das “Tutti Frutis”, das “Shake, Rattle and Rolls” ou dos “Roll Over Beethovens”, já lá vai. O punk matou-os. Bom, talvez não tanto como, o questionável, hair-metal, ou o glam-rock dos anos 80, mas alguma coisa tinha de ser feita a esse respeito. E é, nesta época, nos anos 80 e a emergência do pós-punk, principalmente por intermédio de bandas britânicas como os Smiths ou os Joy Division, que se dá uma espécie de explosão de choro. Ou seja, para épocas específicas, ondas musicais especificas. Desde a emergência do blues, de grande índole libertária, passando pelo muito religioso gospel, indo ao romântico soul e r&b, passando igualmente pela libertinagem e alegria do rock & roll, até às explosões de vivacidade do metal e da política com o punk, chegamos a uma época em que é preciso dar voz à dor, à emoção, ao sentimento amoroso. Não no seu estado mais apaixonado, mas no seu estado mais negro. O mundo não é cor de rosa. Para muitos, é cinzento, é negro. A flecha do cupido não os atinge, o amor não os conforta. Abandonou-os. E, até então, não viam, na música, grande reflexo – salvo casos muito esporádicos, é claro, ou não tivesse existido um Otis Redding. Mas, o cerne da questão, é: passou a ser muito do negativismo amoroso que a música mais popular passou a ser feita. E, obviamente, também a música mais independente acabou por ser influenciada por este aspecto. O emo toma conta do punk. E, a verdade, é que é nesta altura que surgem as bandas mais sinceras, mais honestas. Afinal, a música, como qualquer arte, vem – ou deveria - do coração. E todos sabemos o quanto a dor é motivadora ou inspiradora para obras artísticas, nas suas diversas formas. E, é por isto, que os Smiths passam a ser a banda sonora dos broken-hearted’s. Que discos como o “Love Let me Go” dos More than Life eleva a banda a um estatuto de semi-deuses e que bandas como os Rites of Spring, os Embrace ou os Mineral formam pequenos nichos, pequenos cultos, dentro da música independente. Porque, tal como escreveu Wes Eisold um dia, estes miúdos viveram aquelas canções. Viveram aquelas letras. Amando-as, por isso. by: João Pedro Cordeiro


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