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REVISTA

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Prazer de ler sem pecado

Projeto de lei quer regularizar prostituição no Brasil

A famosa “rapidinha” em lugar público, é saudável e pode apimentar a relação

Prazer sexual, excitação ou perversão. Descubra o fetichismo

História do sexo

Novembro / 2013

Como os povos da Grécia, Roma e Egito antigo conviviam com o sexo R$ 12,00


Assine LuxĂşria E aproveite o prazer de ler...

pecado!


EDITORIAL Falar de sexo...

Para alguns, sexo não foi feito para comentar e sim para praticar. Na primeira edição da Luxúria, você vai perceber que é possível falar de prazer de maneira clara e inteligente, sem apelações. Nossa revista surgiu para mostrar que sexo não é um bicho de sete cabeças e pode ser tratado naturalmente, com mais conteúdo e menos baixaria. Pensamos em matérias que apontam o quanto a sexualidade está presente no nosso dia-a-dia, sem desdenhar o gosto de cada um, mas valorizá-lo em histórias que possam despertar a curiosidade e a vontade para fazer algo novo ou pouco conhecido. Nas páginas a seguir, você tem reportagens sobre prostituição, fetiche, mercado erótico, saúde, cultura sexy, entre outras. A matéria de capa traz a história do sexo, com um apanhado de como as civilizações gregas, egípcias e romanas praticavam e pensavam no prazer.

Por exemplo, os gregos sentiam um grande prazer através do toque. Para os romanos, o sexo era explícito, sem vergonha. E a infidelidade era algo considerado imoral para os egípcios. A maneira como esses povos tratavam a sexualidade, pode ser considerada diferente, mas em alguns pontos, até mesmo parecida de como pensamos nos dias de hoje.

Espero que gostem da nossa revista. Boa leitura e até a próxima edição. Abraços, Juliana Santos

Revista LUXÚRIA Editora Chefe Andreia Alevato

Editora

Juliana Santos

Reportagem

Amaury Gonçalves Danielle Amaral Diego Pinheiro Giovanna Manucelli

Juan Perazzo Juliana Santos Marcelo Mazetis Pedro Rigoldi

Diagramação Lucas Iglezia


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ÍNDICE 03 Editorial

06 Expediente

62 Xico Sá

07 Profissão: garota de programa

Projeto de lei quer regularizar a prostituição no Brasil.

10 Rapidinha

Um clima, um lugar e uma transa rápida em local público.

16 Saúde: O HPV

Como prevenir e remediar. E muitas informações sobre as DSTs no Brasil.

22 Sexo na gravidez

Pode? Como fazer? Descubra!

26 Terceira idade e sexo

Envelhecer com vida sexual ativa é possível e mais prazeroso do que se imagina.

30 A história do sexo

Sexualidade em Roma, Egito e Grécia antigos.

38 Mitos & Verdades

Descubra o que é fato e o que é mentira no mundo do sexo!

40 Aulas de sedução

Alunos aprendem a arte da sedução.

43 Fetiche

Misto de prazer e excitação, ainda desperta o preconceito das pessoas.

47 Mercado erótico

Entretenimento adulto atrai usuários e fica mais rentável.

51 Sexo e livros

Veja os melhores livros com conteúdo sexual.

55 CineMão

Por dentro dos cinemas eróticos.

58 Sexo é arte

Sarau erótico esquenta noite paulistana.


EXPEDIENTE Juliana Santos

Amaury Gonçalves Giovanna Manucelli

Paulistana, gosta de shows e de viajar. Adora animais e pensou até em ser veterinária, mas como é muito curiosa e fala pelos cotovelos, decidiu seguir na área de comunicação e não se arrependeu

Diego Pinheiro

Gosto de escrever crônicas, das telenovelas brasileiras, das músicas da Shania Twain, dos livros de Eliane Brum e sou perfeccionista Quando sinto vergonha, fico mais vermelha que um pimentão. Sou apaixonada pela vida, por queijo e por pessoas fofas. Passo a maior parte do meu tempo livre assistindo séries de TV ou ouvindo Nando Reis S2

Marcelo Mazetis

Juan Perazzo

Amante de seriados e games, procura soluções para os problemas nas frases de queridos personagens. Pare ce legal, mas rouba carros, assalta civis, vai a clubes de strip e vandaliz a geral no GTA!

Danielle Amaral

Tem uma queda por comunicação interna e rádio. Gosta de livros sobre Ditadura Militar Brasileira e Holocausto, além de romances com pitadas de drama.Adora fazer coisas novas

Louco por futebol, cinema e internet. Gosta de Tarantino, Spike Lee, Coppola e Scorsese. Vegetariano, corintiano e míope. Fácil encontrá-lo sem dinheiro, difícil sem um sorriso ou uma boa conversa

Descendente de avós e pais lituanos, sempre foi apaixonado por literatura, história e filosofia. Admira fotografias em preto e branco, tendo como exemplo os trabalhos do fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado

Pedro Rigoldi

Tem a leitura como uma de suas paixões. Acredita na força da educação para transformar a realidade do país. Acha que de todas as coisas estranhas que existem, nada é tão estranho como as relações humanas


Sexo

LEGISLAÇÃO

um jogo de poder

Legalizar ou não a prostituição no Brasil? Essa é uma das perguntas que circula na Câmara dos Deputados e que divide opiniões Por Amaury Gonçalves

Aprendi sozinha a ser prostituta. E não é apenas abrir as pernas e gemer falsamente. Eu escutava os desabafos dos meus clientes, gostava de conversar com eles, de saber o porquê procuravam uma garota de programa. Aprendi muito com eles. Não sinto falta dessa época e não voltaria a me prostituir.” Assim Raquel Pacheco descreve o seu trabalho no seu segundo livro O que Aprendi Com Bruna Surfistinha – Lições de uma vida nada fácil. O que ela mais queria era poder melhorar de vida. No Brasil se prostituir não é crime, já as casas de prostituição necessitam de legalização e fiscalização para garantir o pagamento de quem se prostitui. Pensando nisso o deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ) protocolou um projeto de lei n° 4.211/2012, conhecido como Lei Gabriela Leite, na Câmara dos Deputados para regulamentar a atividade das profissionais do sexo e tornar legais as casas de prostituição. Segundo a assessoria do deputado, ainda quando era candidato um grupo de prostitutas do Rio de Janeiro marcou uma reunião com o Jean e pediram que, caso fosse eleito apresentasse um projeto de lei para regulamentar o exercício da prostituição e garantir os direitos das prostitutas. Elas explicaram que procuraram por vários candidatos tanto da direita quanto da esquerda, porém os parlamentares recusaram-se defender a categoria. Quando Jean foi eleito, ele convocou uma nova reunião com as profissionais do sexo que debateram o tema e pontuaram as suas necessidades. O principal objetivo do projeto de lei é a regularização da profissão do sexo, garantir os direitos da categoria, diminuir a exploração sexual e fiscalizar as casas de prostituição que na maioria das vezes exploram aqueles que se prostituem. O exercício da atividade do profissional do sexo deve ser voluntario e diretamente remunerado, que só pode ser exercido por maiores de idade. O projeto também estabelece o direito à aposentadoria especial às prostitutas que contribuírem com a previdência por 25 anos. Revista Luxúria / Novembro 2013

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Foto: Zeca Ribeiro

LEGISLAÇÃO

O deputado Jean Wyllys, que levou para a Câmara o projeto de lei intitulado Gabriela Leite.

Não é a primeira vez que um projeto de lei como esse chega até a Câmera dos Deputados, em 2003 o ex-deputado federal Fernando Gabeira (PV-RJ) tentou tirar a proposta do papel, porém o projeto foi arquivado após ele ter saído da Câmara. O Brasil não é o primeiro país a discutir o tema. Em 2002 o governo mudou a lei e legalizou a prostituição na Alemanha, todas as profissionais do sexo tem assegurados os seus direitos trabalhistas, como férias e seguro-saúde; existem lugares em que elas trabalham com piso salarial e ganham comissão como se fossem comerciante.

O projeto de lei se intitula como Gabriela Leite, em homenagem a profissional do sexo de mesmo nome que é fundadora da grife Daspu, que também defende o direito das prostitutas. Apesar das casas de prostituição ser consideradas crime, elas continuam funcionando na ilegalidade e empregando milhares de mulheres, homens e travestis. A falta de dinheiro levou a estudante de farmácia Maria Aparecida, que tem um filho de 2 anos para o mundo da prostituição. “Minha família nunca pode dar as coisas que eu queria, com o tempo eu fui percebendo que os homens pagavam e presenteavam as mulheres em troca de prazeres sexuais. Tudo que faço é para melhorar a minha

Foto: Aline Matos / Flickr

“Tudo ao redor da prostituição é considerado como crime. Por esse motivo precisamos de um local digno e com segurança que possamos trabalhar, tanto as mulheres quanto os garotos e os travestis”, afirma a presidente da Associação de Prostitutas de Minas Gerais (Aprosmig), Cida Vieira, que trabalha como voluntaria na parte da manhã na associação, promovendo seminários sobre saúde, cidadania e o preconceito; fazendo programa na rua durante a noite.

Estado é preconceituoso, existe um falso moralismo porque é a própria sociedade que mantém as prostitutas nas ruas. Queremos ampliar as políticas públicas”.

De acordo com Cida com a provação do projeto a categoria terá respeito. “Queremos quebrar o preconceito existente na sociedade. No senado por exemplo, nós só temos o direito de votar e nada mais, por isso que lutamos em prol dos nossos direitos como cidadãs que somos”, diz a presidente da associação que acrescenta. “O 8

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Foto: Mídia Ninja / Flickr

LEGISLAÇÃO

acima: Cida Vieira – Presidente da Associação das Prostitutas de Minas Gerais, Cida Vieira, luta para reconhecimento da categoria; Abaixo: Vencedora do Miss Prostituta 2013, Marcelina Teixeira trabalha na área há seis meses.

vida e das pessoas que estão ao meu redor”, conta a estudante que se se prostitui sem a família saber.

“Quem vai fiscalizar isso? Alguém vai as duas horas da madrugada em cada casa de prostituição pra ver se o cafetão está pagando certo? Claro que não. Não vejo que algo irá mudar nada neste Brasil. Eu acho que este projeto está indo do nada a lugar nenhum”, declara Maria que acredita que a exploração continuará acontecendo.

Revista Luxúria / Novembro 2013

Dez candidatas disputaram o título de Miss Prostituta 2013, em setembro, nos shopping popular Uai de Minas Gerais. O evento além de pregar o respeito as diferenças ainda promoveu palestras, oficinas, shows e exposições. Os jurados avaliaram e elegeram a mineira Marcelina Gomes Teixeira, ou Camila como gosta de ser chamada, a jovem de 18 anos levou para casa o prêmio de R$ 1.200 reais. O festival é realizado pela Associação das Prostitutas de Minas Gerais (Aprosmig) e Associação das Travestis e Transexuais de Minas Gerais (Asstrav MG) que busca resgatar a identidade, autoestima e valorização das profissionais do sexo.

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Foto: Mídia Ninja/Flickr

Violência e falta de segurança é algo presente no dia a dia das profissionais do sexo. “Não tem segurança alguma, não tem para nós prostitutas, não tem para travestis não tem nem para ninguém, os policiais quando nos olham na rua perguntam o valor do programa. Muitos até ficam perto de onde estamos só para tirar uma casquinha. Uma vez estava com uma colega de trabalho e um guarda perguntou quanto eram as duas, no dia seguinte ele veio sem farda”, confessa Maria que já foi agredida por um cliente que queria transar sem paga.

MISS PROSTITUTA 2013


COMPORTAMENTO

O que é proibido é mais gostoso? Nem sempre! Sexóloga fala sobre os prós e contras da prática que, apesar de saudável, pode gerar consequências graves. Por Giovanna Manucelli

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Revista Luxúria / Novembro 2013


COMPORTAMENTO Durante uma tarde de sábado, a assistente de vendas Jéssica Sales, de 27 anos, estava preparando um lanche com o namorado na cozinha de casa. Encostada no balcão da pia viu o namorado sorrir enquanto a acariciava nas partes íntimas. Divertindo-se, a brincadeira evoluiu para uma rapidinha com direito a peças de roupa jogadas no chão. Uma alternativa, até então, normal para quebrar a rotina do casal, exceto pelo que estava acontecendo no cômodo ao lado. Enquanto os dois se entretiam na cozinha, o irmão mais novo de Jéssica, de 16 anos, disputava uma calorosa partida de videogame com os amigos na sala de casa. A única coisa que os separava era um corredor com menos de dois metros sem porta. “O medo de ser pega no ato fez com que eu quisesse aquilo mais do que qualquer outra coisa. É claro que só de imaginar meu irmão e os amigos dele me vendo daquele jeito, quase morro de vergonha, mas na hora a gente não pensa nisso, deixa o desejo dominar a gente e não mede as consequências” conta aos risos. De acordo com a psicóloga, sexóloga e educadora Lilian Santos Aldeia, a prática do sexo em lugares públicos ou que o risco de ser pego é muito grande, é um fetiche muito comum. “É algo que pode ser muito interessante para apimentar a relação”, explica. Lilian é especialista em sexualidade humana e conta que, a prática que vai além da intimidade de quatro paredes, pode se tornar prejudicial se for tratada como uma necessidade, uma muleta que o casal se apoia para obter prazer. O que, claro, não é o caso de Jéssica. A assistente de vendas diz que adora se aventurar com o namorado, mas faz isso só porque tem plena confiança no parceiro e quando tem certeza que não sairá prejudicada. Apesar de se divertir com o

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perigo, Jéssica acredita que o sexo em lugares públicos pode pegar muito mal. Gosta de brincar com o perigo, mas crê que existem lugares propícios para isso. Quando o tema é sexo em público, o assessor de imprensa Victor Oliveira, de 23 anos, é direto. “Proibido é sempre mais gostoso. Não vejo problema nenhum nisso, desde que não seja pego. Já fiz sexo em vários lugares públicos, e foi ótimo”. Quando questionado, coloca a “culpa” na vontade que sempre bate no lugar errado, o que, segundo ele, só faz aumentar o desejo. O assessor acredita que, desde que não faça mal a ninguém e não seja preso, é uma prática saudável e que leva a relação a um nível superior de prazer. Mas também deixa claro que não troca a intimidade de um quarto e o conforto de uma cama pela aventura do sexo em público. É algo para se fazer uma vez ou outra e não pode virar rotina. Além disso, ainda revela não se importar se estiver alguém por perto, ou até mesmo olhando. Ele quer mais é ser feliz. Victor Oliveira, com um olhar desconfiado cai na gargalhada ao lembrar de situações que passou. “Uma vez, eu estava com meu namorado em um parque, era fim de tarde e o ambiente começou a ficar propício, o clima esquentou e, quando estávamos quase para transar, apareceu um homem desconhecido e pediu para participar. Foi broxante e vergonhoso. Nos arrumamos e fomos embora na hora”. Depois de um momento de reflexão, se recorda de um momento que, jura ter sido uma de suas melhores experiências. Conta que foi ao cinema com o namorado e não tinham mais ingressos para assistir ao filme que queriam, então escolheram um filme aleatório e entraram na sala. Na sala, praticamente vazia, só conseguiam enxergar um casal na última fileira no

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COMPORTAMENTO canto esquerdo. Sentaram-se uma fileira a frente e no lado oposto. Depois de 30 minutos do início do filme ouviram gemidos vindos do casal. A mulher estava com a blusa levantada e fazendo sexo oral no companheiro. “Para falar a verdade, fiquei com vergonha por eles, mas continuei a ver o filme que, por sinal, estava chato demais. Só que passou um tempo e, com toda a minha falta de vergonha na cara, comecei a atiçar meu namorado”, ri novamente. Não demorou muito e estavam fazendo sexo na sala do cinema e com um casal os assistindo.

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Lilian explica que isto também tem uma parte de voyeurismo. O Voyeur é aquele que tem prazer em ser observado por alguém enquanto tem relações sexuais. Neste caso, ninguém foi pego no ato, até porque os quatro sabiam o que cada um estava fazendo. Além disso, a questão do exibicionismo e da prática do sexo em lugares públicos estão ligados. Em ambos os casos, a prática foi algo saudável que os casais fizeram para apimentar a relação. Jéssica por ter tido uma experiência mais comum e Victor Oliveira pode ter ultrapassado os limites da maioria, mas não houve prejuízos aos praticantes e nem às pessoas que estavam próximas.

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COMPORTAMENTO A sexóloga explica que este desejo é um tipo de fetiche e afirma ser saudável sim, mas deve-se tomar cuidado para que não se torne algo perigoso. A pessoa não pode deixar que tome conta da vida. “Há situações em que o indivíduo perde o emprego, ou pode acumular trabalho, além de esquecer compromissos, deixar de se alimen-

Cabe a cada um reconhecer os seus limites e do seu parceiro e saber até onde devem prosseguir para manter uma relação saudável, estável e feliz” tar ou gastar muito dinheiro”, exemplifica. E lembra-se de um casal de pacientes que acompanhou de perto e diz que nunca entendeu esse fetiche. “Meus casos, geralmente, são individuais, mas conheço um casal que fazia sexo nos lugares mais improváveis bem antes de se casarem”. A psicóloga relata que os problemas começaram depois do casamento, continuaram com a prática e não conseguiam usar a própria cama, quando faziam o rapaz não conseguia gozar e a mulher só chorava. Numa dessas, foram pegos

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COMPORTAMENTO e presos. A polícia teve que prendêlos em celas separadas, claro. Aquela sensação de serem pegos foi tão prazerosa que com o tempo começaram a fazer sexo em locais públicos justamente para serem pegos e, assim, surgiram outros fetiches. “até onde sei, a ficha deles na policia só tem esse tipo de infração. Eles marcam uma hora específica para se encontrarem durante o almoço ou após o trabalho para cometerem o ato”. Perde-se a conta de quantas vezes foram demitidos de empregos, não têm amigos, vida social, não se comunicam com parentes e, infelizmente, nunca se trataram. “Vivem uma vida sem prazer e sem cor. A partir do momento em que isso se tornou grave, você tem alguma esperança que eles tenham prazer? Até isso eles, provavelmente, não têm mais ou nunca tiveram. O fetiche é uma busca para o prazer, mas a partir do momento em que se torna um desvio, o prazer não é mais necessário”, afirma. Ainda, de acordo com a sexóloga, o casal tem que conhecer os limites um do outro. Uma relação de respeito, onde ambos sabem até quando e quanto podem suportar é o limite aceitável e prazeroso para o casal. Freud achava que fetiche era uma perversão, sim, alguns são sim, mas os outros são aqueles que dão o tempero na busca do prazer. Também existem aqueles que não acreditam que o sexo em lugares públicos seja saudável e, ainda, defendem o pensamento de que tudo tem um limite e, claro, existe um lugar específico para o sexo. É o caso da web design Cecília Lopes, de 25 anos. Cecília declara ser totalmente contra

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a prática. “Ninguém é obrigado a ver a intimidade dos outros”, explica. E completa “O mundo mudou e as pessoas perderam a noção de tudo. Estão ousando cada vez mais sem se importar com os outros e digo, principalmente, em relação ao sexo”. Acredita que expõem demais a intimidade deles e procuram os lugares mais inusitados a qualquer hora do dia sem, ao mínimo, analisar o impacto desses atos na vida dos outros. “Não acho isso bacana, tem um lugar certo pra isso”, enfatiza. Segundo a sexóloga, pessoas que mantêm esta prática, não possuem uma característica específica, mas existem alguns traços psicológicos que podem ser levados em consideração na maioria dos praticantes. A especialista deixa claro que o ser humano não deve ser rotulado, haja em vista que nosso comportamento é mutável, mas como diria Wilhelm Reich, psicanalista austríaco discípulo de Freud, pessoas com transtorno de ansiedade, compulsão sexual e exibicionismo, por exemplo, são mais propensas a desenvolver esses tipos de desejos. Deve-se levar em conta que é muito provável que esse tipo de comportamento seja consequência de algum tipo de transtorno. Àqueles que têm transtornos dos hábitos e dos impulsos, ou seja, realizam atos repetidos, sem motivação racional clara, incontroláveis, e que vão em geral contra os próprios interesses do sujeito ou de outras pessoas. Como muitas pessoas dizem que a vontade de transar acaba dominando suas ações, pode-se classificar como este CID-10, o que indica que o comportamento está associado a impulsos para agir. Sem contar que, quando o fetichista se torna escravo das próprias ações, pode adquirir ejaculação precoce, impotência ou dispareunia (sim, a pessoa pode ter

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COMPORTAMENTO

estas disfunções sexuais caso ela não consiga realizar seu desejo, ou seja, se não transar em local público a pessoa sente dores no sexo ou não consegue ficar ereto). Graças ao pudor e a vergonha, dois fatores que, geralmente, regulam o comportamento da sociedade, ver pessoas transando ao ar livre ou locais públicos é uma prática incomum e, muitas vezes, vista com maus olhos. Apesar de ser algo tão natural, infelizmente, ainda é um tabu na sociedade. Isso explica porque algumas pessoas acreditam que quem tem este tipo de comportamento tem algum desvio psicológico.

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Vale lembrar que tudo em excesso é prejudicial à saúde e, claro, não seria diferente com o sexo. Cabe a cada um reconhecer os seus limites e do seu parceiro e saber até onde devem prosseguir para manter uma relação saudável, estável e feliz. Uma rapidinha no horário do almoço, numa balada, ou em festa na casa de amigos, é sempre um jeitinho divertido de apimentar a relação, mas nada que possa causar desconforto às outras pessoas e, claro, ao casal em questão. Se não atrapalhar a vida da pessoa é algo interessante de se fazer e, ainda, apoia a prática de forma saudável.

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SAÚDE

O HPV, OUTRAS DOENÇAS E A DESINFORMAÇÃO O COMBATE AS DOENÇAS SEXUALMENTE TRANSMISSIVEIS CONTINUA SENDO UM DOS MAIORES DESAFIOS NA ÁREA DA SAÚDE. Por Pedro Rigoldi

S

egundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), as doenças sexualmente transmissíveis (DST) são consideradas um dos problemas de saúde pública mais comum no mundo todo. No Brasil, os casos mais frequentes sãoaids, sífilis, gonorreia, clamídia, herpes genital e HPV. Até junho de 2012, o Brasil tinha cerca de 656 mil casos registrados de Aids (condição em que a doença se manifestou), desde que a epidemia se iniciou em 1980 de acordo com o último Boletim Epidemiológico divulgado pelo Ministério da Saúde. O país apresenta uma das taxas mais altas do mundo de infecção por Papiloma vírus Humano (HPV), é o nome concebido para um grupo que possui mais de cem tipos de vírus. As estimativas da OMS é que no planeta, 290 milhões de mulheres tem algum tipo da doença. No Brasil, a cada ano, são registrados 685 mil casos da doença por pessoas que a contraíram através da relação sexual. Outra forma de contaminação é durante o parto (da mãe para o recém-nascido). .Os sintomas geralmente são verrugas de tamanhos diferentes. No homem, é mais comum na cabeça do pênis e na região do ânus. Na mulher, os sintomas surgem na região da vagina, do ânus e colo de útero. Tanto o homem quanto a mulher podem estar infectados sem apresentar sintomas. O alto número de casos da doença deve-se ao fato de a infecção do HPV se desenvolver de forma silenciosa no corpo humano.

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Atualmente, a rede do Sistema Único de Saúde (SUS) para identificação de HPV possui aproximadamente 6.900 postos, localizados em 2.807 municípios. São ofertados exames gratuitos de prevenção e checagem da doença, de acordo com as informações do Ministério da Saúde. Além de também poder ter acesso a informações pelo número do Disque Saúde. Qualquer sintoma dessa ou outra DST se recomenda a ida imediata ao médico.

Doenças Sexualmente transmissíveis: quais são? AIDS HPV HEPATITES VIRAIS LINFOGRANULOMA VENÉREO TRICOMONÍASE CANCRO MOLE DOENÇA INFLAMATÓRIA PÉLVICA (DIP) DONOVANOSE HTLV SÍFILIS

*FONTE: Ministério da Saúde

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SAÚDE

FOTO: Reprodução

Imagem de microscópio do vírus do HPV

A importância da camisinha

HPV NO HOMEM

Além de evitar uma gravidez indesejada, a camisinha é o método mais eficaz conhecido para evitar a transmissão de doenças sexualmente transmissíveis. O fato de ser um material impermeável contribui para sua eficiência. A distribuição é feita de forma gratuita em qualquer postode saúde da rede pública.

A doença no homem pode se manifestar de forma diferente em relação a mulher. Mesmo contaminado ele pode não apresentar os sintomas (não possuir verrugas nas partes intimas). De acordo com o Ministério da Saúde, o baixo número de casos registrados em homens com comparação com as mulheres deve – se ao fato da baixa procura deles por serviços de urologia. Os fatores como o preconceito e o desconhecimento são apontados como os principais.

“O USO DE PRESERVATIVOS DURANTE A

RELAÇÃO SEXUAL IMPEDE A TRANSMISSÃO DO VÍRUS.

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SAÚDE MÉDIA DE INFECÇÕES POR RELAÇÃO SEXUAL ANUALMENTE DE DST NO BRASIL SIFILIS: 937.000 GONORREIA: 1.541.000 CLAMÍDIA: 1.967.200 HERPES GENITAL: 640.900 HPV: 685.400 *Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS)

O HPV E O CÂNCER DE COLO DE ÚTERO Como uma das consequências, o vírus do HPV pode evoluir para câncer de colo de útero. A doença derivada do HPV é responsável por aproximadamente 90% dos casos registrados pelo Ministério da Saúde. É a segunda maior taxa de incidência entre os cânceres que atingem as mulheres, atrás apenas do de mama. Entre os fatores que aumentam as chances de desenvolvimento do câncer na mulher estão o tabagismo, número elevado de gestações, infecção por HIV e outras DST. Recomenda-se que as mulheres realizem o exame papanicolau. O procedimento consiste em retirar o material do colo uterino. O governo, a partir do ano que vem, vai oferecer e ampliar a faixa etária para a vacina da doença. Uma das principais ferramentas para o combate do vírus, a vacina também será aplicada em meninas dos 11 aos 13 anos. Receberão as duas primeiras doses para a imunização. A injeção só será aplicada com autorização dos pais. A expectativa que com a integração da vacina ao Sistema único de Saúde é que se consiga atingir 80% do público alvo, que representa aproximadamente três milhões de pessoas. Apesar desse tipo de medida preventiva, o Instituto Nacional de Câncer (Inca) avalia o surgimento de mais de 17 mil novos casos. Em 2011, cerca de 5 mil mulheres morreram no Brasil em decorrência da doença. Em seu site oficial, o Ministério da Saúde explica que a vacina estimula a produção de anticorpos para cada tipo do HPV. A proteção varia de acordo com o sistema imunológico da pessoa, isto é, da produção de anticorpos produzidos pela pessoa vacinada.

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A ADOÇÃO DA VACINA NÃO SUBSTITUI A REALIZAÇÃO FREQUENTE DO EXAME PREVENTIVO DE PAPANICOLAU

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SAÚDE

Consequências emocionais Qualquer tipo de doença pode causar consequências e conflitos numa pessoa, com as DST não é diferente. Para o psicólogo Fábio Passos, um acompanhamento psicológico é fundamental nesses casos. As reações que as pessoas podem apresentar são de choque, raiva, frustração, problemas obsessivos, além do medo. “De forma geral as reações mais frequentes são de ansiedade e depressão”, afirma. Passos ressalta a importância de familiares e amigos, pois ambos têm um papel fundamental no tratamento e consequentemente na recuperação do paciente. Para ele, a família e os amigos tem como função o suporte emocional, principalmente no combate de uma possível crença de que o enfermo possa ter em relação que estes se afastem dele. O portador pode apresentar diferenças de comportamento entre aqueles que possuem um acompanhamento emocional para aqueles que não dispõem. “As diferenças aparecem na intensidade dos conflitos emocionais. Um portador que obtém informações de como entender o surgimento e enfrentamento de suas questões emocionais, poderá ter uma qualidade de vida melhor daquele que não tem auxílio. Isto porque Revista Luxúria / Novembro 2013

o acompanhamento tem como objetivos ajudar a afrontar o estigma e isolamento associado às DST, dar informações claras e adequadas, reduzir as alterações emocionais por meio da leitura de alterações cognitivas e ensinar estratégias de autocontrole”. Para se cumprir os objetivos do tratamento, os procedimentos incluem o trabalho de alterar as crenças irracionais e os pensamentos inadequados que aparecem em pessoas com qualquer dificuldade emocional. Este procedimento chamase reestruturação cognitiva. Os pensamentos e crenças apresentados são antecipação de consequências negativas, maximização de eventos negativos e minimização dos positivos, ideia de culpa, uma excessiva preocupação pela saúde e generalização. Em alguns casos, a pessoa segue a lógica de que pode ser abandonada pelo parceiro, porque conhece um caso parecido. O psicólogo lembra que, na maioria dos casos que teve contato com pacientes infectados por DST que não havia cura, como aids, foi possível conscientizar a pessoa sobre sua situação e como era possível conviver com ela, e, consequentemente, uma melhora na qualidade de vida. 19


SAÚDE UM DOS MAIORES DESAFIOS CONSISTE EM COMBATER O ISOLAMENTO Apesar de existirem métodos para divulgação da prevenção e tratamento de HPV e outras DST, os sintomas, formas de transmissão e outras características ainda são desconhecidos por muitos brasileiros. É o caso de um casal de namorados infectadoscom a doença. Marcos e Gabriel. A recepcionista Gabriela, 20 anoscomentaque não tinha nenhuma informação sobre a doença e quando o médico me explicou sobre ela (HPV), o nome lhe pareceu estranho. Ela descreve que a notícia deixou a família muito assustada. Sua mãe mais triste e aflita do que ela própria. “Primeiramente ela confundiu HPV com AIDS e ficou desesperada”. Explicar como foi infectada causou o maior constrangimento na conversa. Em relação a seu pai, ela preferiu não contar sobre a doença temendo uma reação mais irritada e menos compreensiva.“Falar que estou doente por causa de uma relação sexual, parece ter soado para eles como uma forma irresponsável. Existe por parte das pessoas uma criminalização do sexo. E quando uma coisa dessas acontece (doença) devido a isso, a penalização pode até ser feita de forma silenciosa, mas ela acontece”.

Gabriela relata que o tratamento é “extremamente doloroso”. Recentemente passou pela cauterização que é feito pra matar a ferida que tem no colo do útero. “Depois desse procedimento tenho que usar durante 21 dias, dois tipos de medicamentos manipulados. São pomadas, uma para cicatrização e a outra para garantir a eficácia da cauterização. Depois desse período retorno ao médico e ele verifica se será necessário ou não o uso de mais medicamentos. Vou passar por exames preventivos durante dois anos.” Mãe de um filho de dois anos de idade ela fez um paralelo em relação ao conhecimento e prevenção do HPV e a gravidez. “Minha gestação não foi planejada, não fazia questão de usar preservativos ou qualquer outro tipo de situação da doença, nunca achei que poderia acontecer comigo. Única dica que digo para as pessoas é da prevenção. Não desejo que ninguém passe pelo que passei (gravidez indesejada) e estou passando (tratamento da infecção)”. O seu namorado, o promotor de venda Marcos, 21 anos também não tinha nenhum conhecimento sobre a doença. “Não fazia a mínima idéia do que poderia ser”. Como em muitos casos a doença pode não se manifestar nos homens, foi o que aconteceu com ele. Afirmou que não buscou e o tratamento e nem pretende fazer em um futuro próximo. “Não apareceu nenhuma diferença (se refere a lesões

Você sabia? - A bactéria que causa a gonorreia, uma das DST mais comuns no mundo, está se tornando resistente aos antibióticos atualmente disponíveis para tratar a doença; - Além de usar camisinha nas relações sexuais, não compartilhar seringas e outros objetos que furam ou cortam e fazer acompanhamento durante a gravidez, alguns cuidados com a higiene são importantes para se evitar a infecção de alguns tipos de hepatites virais;

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SAÚDE na região intima) e nem sintoma, acho que não existe a necessidade imediata de procurar um médico”. Sobre a reação de seus pais ou familiares. Marcos teve uma sua resposta muito parecida com a de sua namorada. Não revelou para os parentes que estava infectado, pois acredita que

pela personalidade forte de seus pais, eles não seriam muito compreensivos. Preferiu comentar com amigos próximos, já que segundo ele, são pessoas da mesma idade e assim compreendem melhor a situação.

A reportagem de Luxuria foi às ruas da cidade de São Paulo para verificar qual o grau de conhecimento das pessoas sobre o HPV. As perguntas consistiam em saber se a pessoa era capaz de explicar o que era a doença e outras informações sobre ela. E se acreditavam que a população ou grande parte tinha acesso e algum tipo de conhecimento sobre o tema. Do total de entrevistados, 55 % afirmaram não ter nenhum conhecimento sobre o assunto. Alguns desse percentual confundiram a sigla da doença com o vírus da Aids com o HPV, outros pensaram ser algum tipo de medicamento. Entre outras respostas destaca – se a afirmação de ser à primeira vez que ouviam essa palavra. Os que tinham conhecimento parcial do tema representam um total de 20%. Todos concluíram corretamente ao saber que se tratava de uma doença. Mas o conhecimento era limitado, esbarrando em questões como a forma de transmissão, os sintomas, se existia tratamento, as consequências e o agravamento que poderia causar. Entre as respostas, acreditava – se que o vírus poderia ser transmitido pelo ar. Aqueles que tinham conhecimento pleno representavam 35 % dos entrevistados. Souberam explicar a forma de transmissão, a maioria dos sintomas e suas consequências. A possibilidade de evoluir para um câncer de colo de útero foi uma das mais citadas. Abordaram o fato de ser uma das DST mais comuns no Brasil. O outro questionamento, cerca de 90 % dos entrevistados concluiu que faltam políticas publicas de conscientização e prevenção em todas as esferas do poder público (Municipal Estadual e Federal). A falta de informação em ambientes com grande maioria de jovens também foi apontada como uma das causas. Escolas e universidades foram as mais citadas como as responsáveis por falta de informação e abordagem. Os veículos de comunicação foram lembrados. O Rádio, televisão e internet foram os mais mencionados. Segundo os entrevistados a mídia poderia dispor parte de sua programação para conscientização na área de saúde. “Estariam cumprindo sua função social” foi uma das respostas mais pragmáticas.

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SEXO

Sexo durante a gravidez é saudável e não afeta o bebê Gestantes relatam três posições confortáveis e seguras para se relacionar com os parceiros Por Giovanna Manucelli

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SEXO Muitas gestantes e seus companheiros têm medo da relação sexual machucar o bebê ou, até mesmo, causar complicações durante a gestação. A espera de um filho traz muitas responsabilidades e novas experiências, mas muitos casais não sabem como lidar com isso. Para acabar de vez com as dúvidas, a Luxúria fala sobre mitos e verdades, além de apresentar os prós e contras do sexo durante a gravidez. A assistente de endoscopia e colonoscopia Raquel Leite, de 23 anos, acaba de entrar no sétimo mês de gestação e conta que, além do corpo, os hormônios também mudaram o organismo, sentimentos e o desejo. “Sou outra mulher. A gravidez modificou muito meu corpo e isso não é só perceptível aos olhos, minha libido está mais intensa e me sinto muito mais disposta, por mais incrível que pareça”, conta. Raquel Leite continua com a prática sexual, mas confessa tomar alguns cuidados. “Nunca tive medo de machucar o bebê durante o sexo, o que evito são posições que possam fazer pressão na barriga e incomodar o bebê”, justifica. Além disso, a assistente diz que segue as orientações Revista Luxúria / Novembro 2013

médicas e, ela e o marido, têm feito sexo com menor frequência que o normal. De acordo com o obstetra Mariano Tamura, o sexo durante a gravidez é saudável para a relação do casal e não causa nenhum mal ao bebê. Mas alerta que a relação sexual no final da gestação pode causar contrações no útero, o que não é recomendado para mulheres que correm o risco de ter um parto prematuro ou tiveram uma gravidez de risco. Isso porque durante o ato sexual, o corpo da mulher libera ocitocina, um hormônio responsável pelas contrações uterinas. O médico diz que grávidas que tiveram uma gestação saudável e optaram por um parto normal, a relação sexual é uma das indicações médicas e explica “o sêmen pode ajudar muito, graças a sua composição que possui a prostaglandina, uma substância que relaxa o colo do útero”. O obstetra ainda ressalta que é importante que a grávida tenha um acompanhamento profissional e se estiver tudo bem, a grávida poderá ter relações sem restrições durante os nove meses de gestação. Andrielly Beltrão, hoje com 18 anos, é amiga de Raquel e dedica seu tempo ao filho

Ryan de dois meses e aos cuidados da casa. As duas compartilham histórias, experiências e dúvidas sobre a gestação. Andrielly conta que a relação com o namorado, com quem se relaciona a 1 ano e 5 meses e mora junto a 10 meses, teve seus altos e baixos, mas sexo nunca faltou. “Antes de eu engravidar fazíamos sexo umas cinco vezes por semana, eu só estudava e ele trabalhava, então tínhamos tempo e disposição de sobra”, relata. Diferente de Raquel, Andrielly diz não ter tido nenhum tipo de orientação médica em relação ao sexo durante a gravidez, mas confessa que sentiu muito medo e, talvez, seja por isso que sentiu muita dor e desconforto toda vez que ela e o namorado tinham relações, e explica “se eu ficasse de barriga para baixo e em cima do meu namorado, o Ryan começava a se mexer muito e me chutar. Não conseguia ter relação porque eu ficava muito nervosa e com medo de machucar o bebê”. A mãe de Ryan diz que o corpo mudou muito e deixou um pouco da vaidade de lado, e que acha que isso pode ser ruim para a relação com o companheiro, mas acredita que ele 23


SEXO a entende. Conta que desde que o filho nasceu não sentiu necessidade de sexo e só se sentiu confortável de fazer novamente depois do primeiro mês do filho. “As mudanças no meu corpo, a falta de desejo e o cansaço por cuidar do meu bebê me fizeram esquecer um pouco desse meu lado mulher, mas meu namorado tem sido muito compreensivo. Além disso, estamos curtin-

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do muito o nosso filho”, esclarece. Segundo o ginecologista é comum que as mães percam o desejo pelo sexo, pois após o nascimento do bebê, é comum que haja uma diminuição na produção de hormônio feminino por conta da formação de leite, o que colabora para a queda da libido.

As amigas Andrielly e Raquel tiveram problemas como desconforto e dores durante a relação sexual, mas o obstetra afirma que este desconforto pode ser minimizado se as gestantes tentarem novas posições e aceitar o novo corpo que têm. Confira agora, algumas posições que minimizam o desconforto e a dor durante a relação sexual na gravidez:

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SEXO Posição colher A gestante tem que ficar deitada de lado e de costas para o parceiro encaixar o corpo atrás da companheira e penetrá-la por trás. Está posição é considerada uma das mais confortáveis pelas gestantes, por evitar que o peso da barriga afete a coluna. A dica é apoiar a barriga sobre um travesseiro, o que pode deixar o momento mais prazeroso e confortável. Posição sentada Nesta posição a gestante deve ficar sentada sobre o parceiro deitado. Os pontos positivos para está posição é que, além da grávida não sofrer pressão nenhuma na barriga, também tem total controle dos movimentos e até quando pode seguir com a penetração. A sugestão para a gestante que está nos últimos meses de gestação é apoiar-se nos joelhos, pois a posição pode tornar-se muito cansativa. Posição papai e mamãe adaptado O homem fica em cima da mulher, mas diferença está no tronco mais ereto, ou seja, ele não faz nenhum tipo de pressão sobre a barriga da parceira. A mulher pode colocar um travesseiro abaixo das nádegas para elevar a pelve e conseguir uma posição mais confortável para ela e o companheiro.

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MATURIDADE

Sexo na 3ª idade: menos frequente e mais intenso

Pelo menos é dessa forma que um casal, juntos há 35 anos, descrevem a prática sexual na sua melhor idade. Por Danielle Amaral O mesmo ponto de vista é levado em consideração A diminuição da atividade sexual, com o passar pelo seu companheiro Do Ceo, que além de levar em do tempo e com a chegada da terceira idade, é conta a redução da prática, que considera ser natural natural e não pode ser considerado um transtorno quando não se perde totalmente o interesse; ainda para a pessoa ou motivo para ficar desmotivado indica a dança, o esporte e a interação com a família e com a chegada dessa fase da vida. Pelo os amigos como formas de ter uma qualidade de vida contrário, essa redução deve mostrar um outro boa, já que essas atividades ajudam a ter mais vigor lado do relacionamento afetivo do casal, o do físico e ainda auxiliam na prevenção de doenças. Além companheirismo, da amizade e do entendimento, de manter o corpo e a mente em bom estado para que segundo a corretora de imóveis e aposentada, todo o resto funcione Clara Ornagh, de bem. 71 anos e que Você vai perdendo coisas, como: há 35 é casada O padrão de atividade com o aposentado a frequência da prática sexual e sexual que se tem na e ex-comprador ganhando outras como enxergar juventude não é um fator Oscar Do Ceo de obrigatório que deve ser 73. que a base para um bom relacionamento mantido com a chegada é além do amor, o respeito, carinho, da terceira idade e nem Clara, que deve sem tratado como junto com seu companheirismo é estarmos juntos” um problema, pois companheiro mudanças acontecem e frequenta o são essenciais para cada pessoa. Tanto que a questão baile no Clube Juventus na Moóca há 15 anos, da vida sexual ficar um pouco menos ativa que antes garante que o casal não perdeu por assim dizer o interesse sexual, mas não praticam sexo com tanta não é considerado um problema para o casal. “Ao frequência como quando eram jovens, pois o corpo contrário, compensamos isso com a companhia, com o fato de estarmos juntos, levando em conta não só o já não responde como antes. Porém, aprenderam sexo que é gostoso, mas sim a pessoa que está com a valorizar muito mais o sexo, que é muito mais você e assim o prazer”, esclarece Do Ceo. carinhoso e intenso, o que proporciona ao casal um prazer ainda maior.

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FOTO: Danielle Amaral / Revista Luxúria

Foto: Arquivo Pessoal

Geriatra Cláuber Faria Lahan

Dra. Ana, especialista em clínica médica

fazer uma avaliação, basta o paciente procurar especialistas no assunto como geriatras, urologistas, Segundo pesquisas realizadas pelo Instituto Brasileiro de ginecologistas e médicos clínicos. Cada especialista Geografia Estatística (IBGE- 2000), a população idosa do indicará o tratamento necessário para todo tipo de Brasil poderá ultrapassar 30 milhões de pessoas. Esse grupo situação, desde diminuição da atividade sexual por irá representar cerca de 13% da população nesse período problemas de saúde ou emocionais; perda do desejo e isso está relacionado, segundo o censo, há um aumento sexual, chamada tecnicamente por profissionais da da expectativa de vida das área de perda de Nesta faixa etária existe uma maior pessoas hoje em dia. Pois, libido, até formas de cada vez mais, especialidades prevalência de doenças crônicas, usar a maturidade ao médicas, tratamentos e seu favor. Segundo uso de medicamentos, perda do medicamentos estão sendo Laham, o mais desenvolvidos para esse cônjuge e dificuldades físicas que indicado é manterpúblico. se saudável com boa podem dificultar a vida sexual. Fatores alimentação, prática “Hoje, aproximadamente não relacionados à saúde física também de atividade física e a 11% dos brasileiros possuem prejudicam a conquista de uma vida própria manutenção da 60 anos ou mais e estão atividade sexual é um sexual saudável. A falta de convívio preocupados com a saúde, fator que retroalimenta estimativa e qualidade de social e a perda de privacidades são a libido. vida do que os idosos de exemplos que podem ser decisivos’’. antigamente”, afirma o “Nesta faixa etária geriatra Cláuber Faria Laham. existe uma maior Dra. Ana Lumi Kanaji Especialista em geriatria, área prevalência de doenças da medicina que estuda o crônicas, uso de medicamentos, perda do cônjuge e envelhecimento. dificuldades físicas que podem dificultar a vida sexual. Na medicina

Laham explica que há uma queda progressiva da atividade sexual entre idosos, que se acentua em algumas etapas da vida como a menopausa – período de transição em que a mulher, com idade em torno de 50 anos, passa da fase reprodutiva para a fase de diminuição das funções ovarianas, culminando com o fim dos ciclos menstruais – e a andropausa que acontece nos homens de uma forma mais lenta, com a queda na produção de testosterona. Para cada um desses casos, há médicos específicos para Revista Luxúria / Novembro 2013

Fatores não relacionados à saúde física também prejudicam a conquista de uma vida sexual saudável. A falta de convívio social e a perda de privacidades são exemplos que podem ser decisivos”, disse a médica Ana Lumi Kanaji, especialista em clínica médica, uma das especialidades da medicina que aborda as doenças não cirúrgicas dos pacientes adultos, com enfoque mais generalista e amplo, chamado em alguns países de Medicina Interna – que descreve quais são os fatores que podem potencializar a perda de libido na terceira 27


MATURIDADE

FOTO: Danielle Amaral / Revista Luxúria

idade. Além desses fatores, ela ainda menciona a depressão como um exemplo de doença que pode ocasionar a perda de libido, não só pelo fato de estar doente, como pelas medicações utilizadas para tratá-la que pode desencadear essa diminuição; o diabetes que traz alterações vasculares que causam disfunção erétil; e a incontinência urinária que muitas vezes pode causar vergonha, pois o indivíduo sente perda involuntária de urina pela uretra; e salienta que essas enfermidades e suas respectivas consequências não estão ligadas apenas aos idosos. Jovens e adultos também podem ser afetados.

Fatores psicológicos também influenciam na atividade sexual do casal, mas esses elementos são bem subjetivos, tendo em vista que cada parceiro tem uma razão pelo desinteresse no sexo. “Algumas vezes as razões vão desde a perda de atração no parceiro, medo de não ter um bom desempenho como antes, a

rotina e até a aceitação de assumir o papel apenas de pai e mãe, às vezes contribuem para a diminuição da relação sexual”, afirma a psicóloga Olga Inês Tessari.

Segundo a psicóloga, há dois tipo de pessoas que envelhecem, àquelas que compreendem as mudanças provenientes da idade e aceitam suas restrições, e aquelas que não admitem envelhecer. E explica que esses últimos costumam sofrer muito na medida em que envelhecem, porque o tempo não volta.

Formas que ajudam a manter a libido Procurar médicos especialistas no assunto -

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Geriatras; Urologistas; Ginecologistas; Clínicos; Psicólogos.

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Olga observou que houve um grande aumento do número de pacientes idosos no seu consultório, “a cada dez pacientes atendidos, três são idosos ” e acredita que a ascendência na procura desse público é devido a perda de preconceito, existente até pouco tempo atrás, de que psicólogo era coisa de doido; e a valorização da qualidade de vida que pode sim ser resgatada quando o idosos encaram a velhice com naturalidade respeitando suas limitações.

Psicológico e sociedade

Amigas que frequentam o baile do Clube Juventus

Medicamentos em geral - Anti-depressivos - Medicamentos para disfunção erétil - Remédios para incontinência urinária.

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Muitas vezes, a disfunção erétil e alguns problemas já citados são tratados com medicamentos, mas de acordo com Ana isso só não basta. “Devemos lembrar que os remédios específicos para disfunção erétil que são frequentemente prescritos de nada servem se não houver libido ou um ambiente propício para a relação sexual”. Por isso, sendo, multifatorial, a causa da disfunção erétil e a diminuição da prática sexual, a melhor recomendação, segundo a médica, é a abordagem do assunto durante uma consulta, depois passar por um controle de doenças, que exige um olhar atento para efeitos colaterais e troca de medicamentos quando necessário e termina com uma boa conversa sobre a vida social, familiar e afetiva do paciente, que independente de ter idade para ser avô pode sim ter vida sexual ativa.


MATURIDADE As formas de prevenção, indicados por Olga, não diferem das indicações de médicos especializados no assunto. Ela aconselha, tanto para os idosos casados ou solteiros, que busquem resgatar o namoro, passeios, fuga da rotina e o respeito às limitações características da idade. Para que dessa forma possam aproveitar essa fase da vida que pode e deve ser vivida positivamente, levando em conta que o principal é compreender que as mudanças decorrentes da idade devem ser tratadas sem embaraços e principalmente sem inseguranças. E é justamente dessa forma que pensa a secretária Izilda Nabesima de 55 anos, que há 4 anos encontrou no baile da terceira idade uma forma de voltar a ter vida social depois que se separou. Izilda considera que está na sua melhor idade e na melhor fase da sua vida, pois independente da idade consegue ter bom relacionamento com as pessoas, conhece e faz muito mais amigos e até dança muito melhor que antes, pois as distrações como a dança e o baile ajudaram nas modificações que sofreu com a chegada da idade. “Mesmo com as mudanças e a diminuição da atividade sexual, nessa fase da vida que a gente fica mais tranquila, diferente de como quando era jovem, eu posso dizer que a relação FOTO: Danielle Amaral / Revista Luxúria

sexual melhorou bastante, faço com menos frequência, mas faço mais intensamente”. As maneiras de driblar os efeitos da idade encontradas por Izilda se assemelham das descritas da corretora de imóveis Clara e da assistente administrativa Rosemeire Reale, de 53 anos que frequenta e até ajuda na organização do baile da terceira do Clube Juventus. Para Rosemeire os bailes trazem muitos benefícios para quem chega nessa “melhor idade”, além de melhorar o convívio social incentiva a auto afirmação da mulher e aumenta sua autoestima quando o assunto é sexo. “Não entendo a diminuição da relação sexual como um problema e sim como uma mudança natural que vai

“Não entendo a diminuição da relação sexual como um problema e sim como uma mudança natural que vai ocorrendo com as pessoas, nada será sempre constante como na juventude, mas isso não significa que o sexo não possa ser prazeroso e gostoso como antes.”

Rosemeire Reale, 53 anos

ocorrendo com as pessoas, nada será sempre constante como na juventude, mas isso não significa que o sexo não possa ser prazeroso e gostoso como antes”, afirmou Rosemeire.

Oscar e Clara, casal frequenta baile da terceira idade há 35 anos.

Prática de exercícios físicos - Caminhada - Natação - Dança

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Estudos, remédios, tratamentos, médicos e especialidades nos assuntos perda de libido e sexo na terceira idade já existem, o importante agora é continuar evoluindo na qualidade e expectativa de vida das pessoas, não vendo os idosos simplesmente pelo lado materno de avós e avôs, mas sim como pessoas que podem ter vida sexual ativa e prazer no sexo independente da idade; que possuem vida independente; restrições e vontades próprias.

Alimentação saudável

Manter o círculo social

- Saladas - Frutas - Verduras

- Família - Amigos - Parceiro (a)

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CAPA

Sexo tem história

Grécia, Roma e Egito: o sexo sendo visto como história nas três principais civilizações que o mundo já teve Por Marcelo Mazetis

A

de ostentação”, afirma o jornalista e historiador Claudio Blanc, escritor do livro Uma breve história do sexo.

O prazer, assim como qualquer outra atividade que pede em sua realização indivíduos ou até mesmo grupos, é um acontecimento do cotidiano cultural e histórico, ainda mais quando se imagina como os principais povos da antiga Grécia, Roma e Egito se manifestaram sobre o sexo, com seus rituais, tradições, leis e gostos.

relação entre sexo e humanidade em aproximadamente dez mil anos de história sempre foi de grande complexidade, pois envolve questões sociais, culturais, religiosas e psicológicas, construídas e determinadas com diferenças entre cada povo e época. As perspectivas mudaram na evolução das eras, os homens tratam o sexo como uma convenção, e assim o prazer virou uma forma 30

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CAPA Grécia

Os gregos desde o século IV a.C utilizam uma série de definições que significam os gestos e atos que existem por trás da palavra “sexo”, que atualmente se utiliza. O termo ta aphrodisia, por exemplo, é o termo mais comum em comparação ao sexo, que significa “prazeres do amor”, “relações sexuais, “atos de carne” ou “volúpias”. A facilidade dos gregos em aceitar certos comportamentos sexuais em comparação aos povos europeus da Idade Média é enorme. Era muito bem admitido igualmente que as más condutas no campo do sexo não tinham motivo para gerar escândalos, tanto é que nenhuma instituição da época determinava o que era permitido ou proibido, normal ou anormal. Os gregos acreditavam que as leis das cidades não eram de alcance devido a conduta sexual de cada homem, Claudio Blanc diz que basicamente “o homem era o domador na cama”, e não havia a chance de que isso criasse problemas.

cado o controle próprio em relação aos prazeres da carne, era recomendado através de grandes filósofos como Aristóteles a praticar o exercício da temperança, desconfiando de perfumes, imagens e sons, pois seus resultados podem relembrar uma coisa desejada. Na natureza, quando os animais se acasalam, o ato muda de acordo com as formas e o local em que os órgãos se situam, assim como a posição dos parceiros e a duração do ato e principalmente as estações do amor que revelam certos comportamentos, como, por exemplo, quando os elefantes podem até destruir a casa de seu líder ou os javalis que se preparam para a batalha antes de qualquer ato reprodutivo. Na Grécia se tinha como um comportamento natural da espécie humana não separar entre gêneros, homem e mulher, mas sim

Entre os gregos sempre houve grandes pensadores que definiam noções de como obter prazer, seja através do comportamento sexual, a sujeição que existe em uma relação para ser moralmente valorizado e o domínio que é preciso ter sobre si mesmo. “Para os gregos, mais importante que o conhecimento dos astros, das ciências, da retórica e das artes de bem conduzir sua casa e a cidade ou de bem navegar, é preciso conhecer sua morada interna, seu ethos”, diz a professora Dra. em filosofia Saly Wellausen, conhecida no meio acadêmico por seu trabalho em pesquisas sobre Michel Foucault. Para os gregos, só era possível sentir um grande prazer através do toque e o contato, seja com a boca, a língua e a garganta (nos prazeres alimentícios) como em outras partes do corpo (no prazer do sexo). Em toda a época da antiga Grécia era busRevista Luxúria / Novembro 2013

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CAPA na dinâmica do sexo e na intensidade dessa prática e a sua única divisão era em sua moderação. De acordo com o filósofo Michel Foucault, em seu livro A História da Sexualidade, “na doutrina cristã, a força excessiva do prazer encontra seu princípio na queda e na falta que marca desde então a natureza humana. Para o pensamento grego essa força é por natureza virtualmente excessiva e a questão moral consistirá em saber de que maneira enfrentar essa força, de que maneira dominála e garantir a economia conveniente dessa mesma força”. Os gregos dividam de modo estratégico a oportunidade do uso dos prazeres, são eles: a necessidade, o momento e o status. Necessidade: para os gregos o sexo por necessidade não serve para anular o prazer, mas sim para sustentar o desejo que existe

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pelo sexo. Isso impediria os excessos em se satisfazerem. Um fato curioso é que este povo tinha como costume praticar amor a não ser durante a noite. O motivo dessa precaução era a necessidade de se esconderem, pois viam no prazer uma atitude que não manifestava algo de bom nos homens, assim havia tempo para separar o sexo das práticas religiosas feitas na manhã seguinte. Diógenes Laércio, um historiador grego que viveu em meados do ano 230 d.C, era contra essa regra da sociedade da época e justamente por isso, ele provocava os hábitos da época se masturbando em plena luz do dia em locais públicos. Ele dizia que “se não há mal em comer, também não há em comer em público”. O momento consistia em um dos momentos mais oportunos e importantes na arte do sexo. Tratavase de praticá-lo quando fosse o momento certo, a idade não muito avançada, mas também não

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CAPA tão jovem. Outro aspecto do momento grego para fazer sexo era a descendência sadia, bem formada e saudável, a mudança do clima entre o úmido e seco, frio ou quente. Assim como a prática da necessidade ou do momento, ambas presentes em todas as épocas em que a humanidade viveu, a estratégia do status é a mais visível de se notar em todas as sociedades. Os gregos já definiam seus traços segundo a idade, a condição dos indivíduos e o grau de visibilidade da pessoa desejada, aspecto que daria uma boa reputação a quem conseguisse conquistar uma pessoa de status. Os gregos, justamente por não se importarem tanto na separação de gêneros, valorizavam as relações entre homens e rapazes, mesmo se o parceiro mais velho fosse casado com uma mulher. Foucault diz que essa atitude em nenhum momento da antiga história grega foi chamada de “homossexualidade”. Amar os homens mais jovens era uma prática permitida não só pelas leis da época, como também pela opinião pública. Mas assim como em qualquer jogo de intenções, seja em qualquer relacionamento, os jovens que fossem muito fáceis ou que demonstrassem muito interesse em outro homem era rejeitado. As coisas eram bem diferentes entre os gregos, o pensamento era que o desejo se manifestava nos dois gêneros, masculino ou feminino, mas a exceção era de se sentir atraído pelo jovem mais belo e honrado. Os gregos não pensavam que o homem precisasse de outra atitude para amar um homem numa relação. O interessante é o tipo de atenção que era dado ao modelo de relação que os gregos exerciam entre seus parceiros, trata-se de uma relação entre homens de idades completamente diferentes, o jovem era desejado, pois ainda sem uma formação completa como adulto, os elementos culturais da época

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indicavam este rapaz como um objeto erótico de alto valor. O homem mais velho que já tinha terminado sua formação e que já transmitia à sociedade um papel social, moral, era sexualmente ativo, enquanto o mais jovem agia passivamente, pois não tinha um status completo, o que dava a entender que precisava de apoio e conselhos. Essas relações de prazer que os gregos exerciam eram encaradas como parte natural de todos os homens, fator que não influenciava no matrimônio com sua esposa, pois se tinha como regra moral o homem separar suas dependências para um lado e de sua mulher de outro. O jogo de flerte que havia entre os homens era dado em espaços, que hoje seriam as ruas, lugares de reuniões ou nos centros esportivos, pois eram lugares livres, onde não seria tão descarado perseguir um rapaz. Por mais que houvesse todas essas regras ou até mesmo tantas exigências em algo que era visto como natural, assim como em qualquer iniciativa de se relacionar com outra pessoa, o jovem tinha total liberdade para escolher seu parceiro em suas preferências. Para que acontecesse o sexo propriamente dito, o pretendente teria que ser bom de conversa, deveria ser objeto de inveja sobre os rivais, prestigiar as qualidades e dar presentes ao amado, isso sem dizer que todo este ritual não era certeza de conquista, mas sim apenas para exibir o interesse do pretendente. O jovem deixava de ser alvo de prazer quando os sinais da idade começavam a chegar, como por exemplo, o nascimento da barba, que segundo Foucault “a navalha que a cortava devia romper o fio dos amores”. Curiosamente, os gregos valorizavam a relação sexual entre homens adultos e jovens

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No final do século XIX, foram feitas escavações na Itália que revelaram uma descoberta de diversos objetos eróticos e pinturas da época, até porque eram comuns esses materiais em decorações com cenas de sexo nas ruas. Ao contrário dos gregos, os romanos não buscavam teorias ou reflexões muito profundas sobre o sexo, era a liberdade dos homens em transar com prostitutas ou prostitutos, mas a única ressalva era o adultério, proibido e com pena de morte a quem o cometesse. Os romanos, apesar de a legislação punir os garotos de programa, pagavam muito para ter os jovens que desejavam. Segundo Claudio Blanc, “essa ação continuava entre os adolescentes para fugir da pobreza e da indigência”. Os garotos favoritos dos romanos vinham do Egito e Síria, por causa de sua aparência.

como uma representação de virilidade, onde se exercia o vigor e a resistência masculina, além dos exercícios e a caça que influenciasse o jovem a não ser efeminado. Já o sexo no casamento grego se mostrava pelo poder do homem na relação de mandar ou desmandar na mulher, seja em assuntos privados ou públicos. Assim como em certas sociedades presentes no século XX, os gregos viam, ironicamente, na mulher apenas um complemento do que o homem representava. A mulher tinha que ser totalmente submissa as autoridades de seu parceiro, tratando o sexo com respeito em seus privilégios de se reproduzir e assim ela teria que se mostrar digna de sua suposta importância para o chefe de uma família.

Roma

Na antiga Roma a cultura da sexualidade era, sem dúvida, mais adepta a liberdade dos prazeres que os gregos, pois o sexo era feito de modo explícito, sem nenhum tipo de vergonha ao olhar dos outros. 34

Durante o império, a prostituição chegou a ser tão comum que o dinheiro ganho pelos garotos acabou virando fonte de renda de Roma, e justamente por isso, mesmo com a sua proibição, o sexo por dinheiro continuou sendo uma das principais atividades da época. Mesmo sendo tão comum o sexo em Roma, não era com qualquer garoto que se poderia manter uma relação. Existiam os jovens livres que usavam um colar no pescoço para identificarem sua garantia como intocáveis, já escravos! A mulher que vendia seu corpo era vista, ironicamente, pelos romanos como uma necessidade para a segurança das mulheres de família, pois elas preservavam a moral e fidelidade, fazendo da prostituição uma garantia para a honra dos bons costumes. Embora vista com bons olhos pelos homens de Roma, o sexo por dinheiro era visto pelas mães como um perigo contra os filhos, pois isso incitavaos ao amor. Os antigos bordéis romanos eram conhecidos como “covil dos lobos”, isso porque as prostitutas imitavam lobos uivando para atrair seus homens. Essas mulheres, que também eram chamadas de lobas, Revista Luxúria / Novembro 2013


CAPA gostavam muito de beber e exibir sua sensualidade. Suas roupas, em sua maioria, eram curtas e com muitas cores misturadas, “eram lindas e andavam bem-vestidas e penteadas, cultivando, enfim, enorme poder de sedução”, afirma Claudio em seu livro. Outro aspecto da sexualidade em Roma foram os rituais religiosos, mais conhecidos como bacanais, porém na época não tinham nenhum apelo por prazer. Mas essa regra foi alterada quando a sacerdotisa Paculla Annia, em 188 a.C, deu cada vez mais apoio ao sexo dentro dos cultos. As orgias eram praticadas, em sua maioria, por homens, e quem se recusasse a participar poderia ser morto, mas justamente pelo alto número de pessoas assassinadas, os bacanais tiveram que ser proibidos.

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A obscenidade entre os imperadores de Roma são muitas, dois dos maiores exemplos históricos são: Calígula, que ao criar um bordel para ricos, obrigava as mulheres nobres se prostituírem, aonde chegou a incluir suas irmãs na venda de seus corpos. Outro exemplo é o imperador Nero, conhecido pelas suas perversões sexuais, seduzia adolescentes que eram amantes de mulheres casadas com homens da nobreza. O ponto extremo de sua loucura por sexo chegou quando tentou, por diversas vezes, transar com sua própria mãe, porém sem sucesso e extremamente furioso mandou matá-la. Entre as mulheres que governavam Roma, a imperatriz Valeria Messalina (17 – 48 d.C), teve sua fama de devassa percorrida em todo o império. Embora fosse apenas uma adolescente, já era casada com quatorze anos e ainda por cima gostava de participar em diversas orgias.

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CAPA Pelos diversos contos que se faziam em relação à Messalina, um dos mais inquietantes era o desafio feito por ela a uma famosa prostitua, e ganharia a competição quem fizesse sexo com o maior número de homens, onde a imperatriz saiu vencedora depois de transar com 25 homens.

conter. Gosto de ver os olhos agonizantes de uma amante que desfalece”.

Egito

Assim como na Grécia, o sexo tinha grande apelo quando se tinha desejo por uma pessoa de status, e em Roma não era diferente. Os gladiadores eram vistos como um objeto de alto valor sexual pelas mulheres, seu erotismo estava na brutalidade e cicatrizes que carregavam.

O Egito foi grande na visão otimista que tinha sobre o sexo e no modo como destacou a figura da mulher em sua sociedade. Para se ter uma ideia, não existia a palavra “virgem” no vocabulário egípcio, pois era permitido que a mulher tivesse relações sexuais antes de seu patrimônio sem que isso virasse motivo de desonra, por isso virgindade não fazia sentido para eles.

Por mais que as perspectivas de vida de um gladiador fosse muito curta, devido ao grande risco nas batalhas, despertavam a libido das jovens e de muitas mulheres ricas e respeitadas pela nobreza.

O que é interessante em relação aos gregos e romanos, no Egito a fidelidade era um valor muito sério a ser seguido, por esta razão, existiam práticas passageiras de testar o casamento antes de obter um compromisso definitivo.

O sexo, sem dúvida, foi tema de grandes descobertas da natureza humana, seja por sua utilidade na reprodução das espécies, na sua constituição por leis ou até mesmo pela simples busca por prazer que envolve a sexualidade.

A infidelidade era algo visto como uma atitude imoral, mas se isso acontecesse, a mulher tinha o direito de receber uma pensão do esposo adúltero, assim garantindo seus meios de sobrevivência. A única ressalva que permitia ao homem pedir separação era quando a mulher fosse estéril.

O poeta romano Ovídio (43 a.C – 17 d.C) foi o primeiro, e talvez o mais influente, a tratar o sexo sobre estas perspectivas, principalmente por colocar o homem e a mulher sobre o mesmo patamar, sem diferenciações que excluíram a mulher dos mesmos direitos que o sexo masculino desfrutava.

De fato, há muitas diferenças entre a mulher grega e a egípcia, principalmente quando se refere ao seu status. Nas tão famosas polis da Grécia, a

Seu pensamento, na época, foi considerado amoral pelas ideias sobre o respeito que se deveria ter ao seduzir uma mulher. Em seu livro Ars Amatoria, Ovídio diz que, nas mulheres “o prazer nasce sem provocação artificial; para que seja realmente agradável, é preciso que a mulher e o homem participem igualmente. Detesto os abraços nos quais nem um nem outro se entregam (eis por que eu tenho menos atração por meninos). Detesto a mulher que se entrega porque deve se entregar e que, não sentindo nada, pensa em seu tricô. O prazer que me concedem por obrigação não é agradável; eu não quero o dever de uma mulher. Quero ouvir palavras que me traduzam a alegria que ela sente, me pedindo para ir mais devagar e me 36

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CAPA que fosse visto como um cidadão sexualmente ativo. Era de costume a construção de estátuas que representassem os costumes de seus governantes, mas era expressamente proibido fazer obras de seus reis em posições eróticas. Se tal trabalho fosse descoberto, seria considerado um crime, justamente por essa questão, os artistas da época escondiam essas peças.

Michel Foucault (1926 - 1984), autor da trilogia A História da Sexualidade

mulher tinha seu espaço de ir e vir reduzido ao andar unicamente pela sua casa e não podiam sair sozinhas, sua função era apenas de reproduzir e cuidar da família. Porém no Egito, o professor Renato Duarte afirma que elas “podiam ocupar funções importantes, como médicas e até mesmo virar um faraó”. Embora a atividade do prazer fosse desmitificada de mitos ou preconceitos pelos egípcios, eles não se sentiam confortáveis ao tratar de assuntos sobre o sexo em locais explícitos, tudo era feito entre quatro paredes e portas fechadas. Os egípcios foram um dos primeiros povos antigos a utilizar a camisinha, ao contrário do que se pensa, essa artefato contraceptivo é datado de mais 2000 a.C. O preservativo era produzido com um pano feito de linho misturado com mel e fezes de crocodilo.

Nas antigas salas fúnebres dos reis do império egípcio, pinturas e gravuras representavam desenhos e símbolos eróticos com deuses fazendo sexo ou tendo ereções, isso porque existia entre eles a crença de que a pessoa quando morresse faria uma transição para outra vida. Acreditavam que seu túmulo era um portal e o sexo era parte desse ritual entre a vida e a morte, juntas em seu renascimento para um novo corpo. A ideia era de que o ato de prazer fosse a ligação com o que existe após a morte. Os rituais místicos que envolviam a sexualidade não ficavam apenas inseridos na hora da morte, mas também quando havia o nascimento. O deus Bes era a divindade que envolvia a mãe e o novo filho que viria ao mundo, essa crença era importante aos egípcios para afastar os espíritos do mal na hora do parto.

Há aproximadamente 1000 a.C, surgiu um artefato com imagens pornográficas que hoje seria de fácil comparação ao livro indiano Kama Sutra, chamado Papiros Eróticos de Turim, mostrando posições sexuais totalmente explícitas e obscenas.

O objetivo era o de criar um círculo protetor que envolvesse a mãe de boas energias e afastasse as ruins. Era necessário que a mulher que estivesse parindo usasse uma máscara que representasse o deus Bes e que tivesse tatuagens na barriga para a proteção do filho.

Até hoje se desconhece o real motivo da obra ser feita, se era um projeto para idealizar o deus Min (deus da fertilidade) ou um artigo de ajuda para engravidar. Mas o curioso é o comportamento que se tinha entre as pessoas do antigo Egito, em sua maioria homens e mulheres recalcadas, porém com um forte status aquele

Assim como Bes protegia a mãe e o filho gerado, os egípcios tinham a crença de que ele protegia as mulheres das doenças transmitidas sexualmente, isso se dava por imagens tatuadas nas partes mais eróticas da mulher.

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VOCÊ SABIA?

MITOS

& Na sociedade atual falar de sexo se tornou mais fácil. A palavra qu

Listamos alguns mitos e verdades sobre o sexo, uma das práticas mais antigas do mundo, mas que ainda gera dúvidas que serão esclarecidas pela pós graduada em educação sexual Neusa Pandolfo. Por Danielle Amaral

•Homens gostam mais de sexo do que as mulheres? Mito: Não é que homens gostem mais de sexo que as mulheres, isto está cabeça das pessoas. Os dois podem gostar igual, depende de cada um, mas os homens falam mais abertamente, por enquanto, porque as mulheres também estão mais liberais hoje em dia. •Solteiros fazem mais sexo do que casados? Mito: Apesar da liberdade que solteiros têm, os casados ainda saem na frente em relação a frequência sexual, pois eles costumam fazer sexo todos os dias, mesmo que com o tempo a tendência seja a diminuição. •Mulheres não gostam de sexo anal? Mito: Algumas mulheres podem até gostar do sexo anal, tudo vai depender da afinidade e relação do casal. Há mulheres que gostam mais, outras menos e há as que não gostam isso depende de cada uma. •Homens gozam mais fácil que mulheres? Mito: Não é que os homens gozem mais fácil que as mulheres, o que acontece é que quando eles começam a relação já estão excitados há algum tempo, o que facilita a ejaculação. Mas em uma relação a mulher já pode estar excitada antes da penetração, gozar e até ter um orgasmo em menos tempo. •O ponto G existe? Mito: Posso dizer que existe um ponto mais sensível na genitália que quando recebe estímulos causa a sensação de prazer na mulher, mas não são em todos os casos que se pode chamá-lo de ponto G. •Pílulas para o prazer feminino funcionam? Mito: Elas não agem diretamente na excitação da mulher, mas sim ajudam a melhorar a lubrificação da vagina e o relaxamento da musculatura, e é isso que faz a relação sexual prazerosa, claro que também conta o desejo e a vontade do casal. •Há dilatação do ânus na prática frequente de sexo anal? Mito: A prática regular do sexo anal não causa esse tipo de problema, mas o casal deve estar em posições agradáveis, evitar movimentos bruscos que possam incomodar a mulher, usar preservativo para evitar uma série de doenças que podem ser contraídas através do sexo anal e o uso do lubrificante na área ajuda a evitar alguns incômodos. •Vibrador pode dar choque? Mito: Vibradores convencionais vendidos em locais seguros

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e próprios para esses produtos não costumam dar choques e nem devem, pois um choque com esse tipo de equipamento podem ter consequências desastrosas, então na compra de um objeto assim procure lugares legais que certifiquem seus produtos como seguros. •Sexo anal muda a atividade intestinal? Mito: O sexo anal não modifica em nada a atividade intestinal, pelo menos não há nada que comprove. Muitas pessoas tem essa dúvida, pois em alguns casos acontece um certo desconforto abdominal, que pode estar relacionado há muitos fatores do próprio individuo não necessariamente ao sexo. •O tamanho do pênis diminui com a idade? Mito: Muitas pessoas tem essa impressão porque o pênis fica mais flácido com o envelhecimento assim como acontece com as outras partes do corpo. •Géis específicos recuperam a virgindade? Mito: Não existe gel que recupera a virgindade, até mesmo porque ela só pode ser recuperada com a reconstrução do hímen. Creme ou produto algum, pelo menos até agora, consegue reconstruí-lo. Para isso, hoje em dia há somente a cirurgia de reconstituição chamada de himenoplastia. •Usar vibradores com frequência pode alargar a vagina? Mito: Vibradores não alargam a vagina, em uma penetração eles têm o mesmo efeito que o pênis masculino. Dificilmente a vagina pode ser alargada, pois ela é revestida de uma pele muito elástica. •Lubrificante íntimo não traz riscos a saúde? Mito: O uso frequente de lubrificantes podem sim trazer riscos a saúde da mulher, pois esses produtos são produzidos para o uso externo, mas acabam entrando em contato com as paredes internas na hora da relação e assim alteram Ph da região íntima, prejudicam a atividade das bactérias naturais do corpo além de facilitar a entrada de microorganismos que causam infecções e outras doenças. •Sexo oral só oferece riscos a quem faz? Mito: O sexo oral sem camisinha oferece riscos para quem faz e para quem recebe também. Ambos ficam expostos às doenças sexualmente transmissíveis, quem faz tem um contato mais direto entre a saliva com a mucosa do órgão, mas isso não isenta os riscos de quem recebe, pois este também pode contrair alguma doença do parceiro como a herpes que é uma das mais comuns. •Deve-se evitar a relação sexual durante a menstruação? Mito: Não há nada que proíba o casal de manter relação durante o período menstrual, o importante é a utilização de camisinha porque a mulher fica mais vulnerável a bactérias que causam infecções e DST’s.

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VOCÊ SABIA?

VERDADES

ra que antes soava pejorativa e pesada, hoje é discutida abertamente. •Sexo faz bem para o coração e para a pele? Verdade: Fazer sexo é como praticar exercício físico você gasta calorias e movimenta muitas partes do corpo, e isso ajuda muito na saúde. •Tomar anticoncepcional diminui o desejo sexual? Verdade: Alguns anticoncepcionais, principalmente os que possuem maior dosagem hormonal, podem causar esse efeito, mas não é em todas as mulheres e não provoca a perda total da libido. •Fazer xixi depois da relação sexual diminui os riscos de infecção? Verdade: Isso acontece por que é feita uma limpeza no canal por onde sai a urina e isso ajuda a eliminar possíveis bactérias que restaram após a relação, tanto no homem quanto na mulher. •Dá para chegar ao orgasmo com sexo anal? Verdade: Para quem gosta do sexo anal e sente prazer com ele é possível sim, tudo vai depender do quanto excitante estiver a relação. •Mulheres sentem mais desejo na gestação? Verdade: Muitas mulheres sentem mais desejo na gestação, porque os órgãos genitais tem um aumento na circulação sanguínea fazendo com que elas sintam um pouco mais de excitação nessa região. Além da mudança que há na vida afetiva do casal, nessa fase eles ficam mais próximos. •Camisinha não protege contra todas as DST’s? Verdade: Se o parceiro possuir alguma ferida de DST, como por exemplo a sífilis que pode aparecer na virilha ou em outro local fora da proteção do preservativo, ao entrar em contato com o companheiro pode ocorrer a contaminação. •Sinais de DST’s podem aparecer em outras partes do corpo? Verdade: Normalmente elas aparecem na região íntima do homem e da mulher, mas algumas doenças como a herpes e o HPV também parecem na boca e garganta respectivamente. •As mulheres são mais suscetíveis a DST’s? Verdade: A vagina é uma região bem propensa à ação de microorganismos, pois é úmida e de difícil acesso na hora da higienização, por exemplo. Há pessoas que fazem a limpeza interna dessa região, mas nem sempre isso funciona além de muitas vezes trazer mais riscos do que benefícios, pois alguns produtos não podem ser usados internamente. •O pênis pode quebrar? Verdade: O casal deve tomar cuidado com posições muito extravagantes, pois o pênis tem duas paredes internas por onde

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passa a corrente sanguínea, bastante irrigada quando excitado, se essas paredes sofrerem impactos muito fortes elas podem se romper causando fraturas e muita dor, além de outras complicações. •Determinadas posições influenciam no prazer do casal? Verdade: Para influenciar no prazer tudo vai depender das preferências do casal. Há homens que preferem posições onde eles tem mais poder sobre o corpo da parceira, há mulheres que tem predileção por posições em que o clitóris seja estimulado ao mesmo tempo da penetração. •Relação sexual saudável tem um tempo certo para durar? Verdade: O tempo natural da penetração, por exemplo é de 7 à 12 minutos, porém o casal passa um pouco mais de tempo porque há as pré eliminares e tudo mais. Caso a ejaculação seja muito rápida é bom o parceiro procurar um médico, pois pode sofrer de ejaculação precoce. •Sexo oral com frequência pode causar infecção de urina? Verdade: O PH da vagina ao entrar em contato com o da saliva sofre alteração como irritação e a proliferação de germes causando a infecção. •Mulheres tendem a perder a lubrificação com o tempo? Verdade: Com o envelhecimento acontece a perda de hormônios que colabora com a falta de lubrificação natural trazendo incômodos na hora da relação. •Há diferentes tipos de orgasmo? Verdade: Há dois tipos o orgasmo clitoriano que costuma acontecer com a estimulação do clitóris que é mais fácil de ser estimulado e o orgasmo vaginal estimulado através da penetração, mas que é um processo mais difícil de acontecer porque o ponto principal é mais escondido. •É possível uma vagina não se adaptar a um pênis? Verdade: Apesar da vagina possuir elasticidade e lubrificação, algumas mulheres podem sentir incômodos na relação se o pênis for muito grande ou espesso demais, mas há casos e casos, pois existe mulheres que se sentem mais estimuladas com isso.

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SEDUÇÃO

Diploma de sedutor

FOTO: Flickr: Anita Barreto

Ainda há homens que não conseguem se relacionar por timidez ou falta de confiança, a solução para o problema: cursos de sedução Por Diego Pinheiro

Don Juan, Casanova e James Dean, o que eles, em sua singularidade, têm em comum? O poder da sedução! No dicionário Aurélio a palavra significa: “ato ou efeito de seduzir, de induzir ao mal ou a erro por meio de artifícios, de desencaminhar ou desonrar valendo-se de encantos e promessas: a sedução de uma pobre donzela. / Atração, encanto, fascínio; tentação: a sedução do ouro”. Já em Êxodo 22:16, “se alguém enganar alguma virgem, que não for desposada, e se deitar com ela, certamente a dotará e tomará por sua mulher”. No século XXI, muitos homens têm dificuldade para se aproximar das mulheres. E para resolver esse problema, eles podem se inscrever em cursos de sedução. 40

Assim como no filme Hitch, conselheiro amoroso, em que Will Smith vive um especialista em conquistar a mulher amada, no Brasil, há empresas e profissionais dedicados a ensinar aos homens como se conquistar uma mulher. O irônico é que a grande maioria sofria dos mesmos problemas que os atuais alunos. O coach em sedução Eduardo Santorini é exemplo de uma pessoa que não fazia sucesso com as mulheres. Durante sua adolescência era péssimo com as garotas. No colégio, apaixonado por uma menina chegou a passar meses planejando o que diria a ela e como seria bom namorá-la, escreveu cartas e comprou bombons, mas o resultado não foi como esperava. “Ela foi simpática, agradeceu, mas disse que não desejava namorar Revista Luxúria / Novembro 2013

D Al Ca


SEDUÇÃO FOTO: Arquivo Pessoal

Da esquerda para direita: Cliente com Bruno Giglio (camiseta branca), Alexandre Meirelles (de chapeu) e Gui Pinheiro, em festa no morro do Cantagalo, RJ.

Os cursos de sedução são muito famosos nos Estados Unidos graças aos filmes Don Juan e Alfie, o sedutor, que mostravam desde os comportamentos quanto os ensinamentos. Posteriormente, surgiu até um reality show chamado The Pickup Artist com um dos “precursores” das técnicas de sedução, Erik von Markovik conhecido pelo pseudônimo de Mystery. O Brasil, aos poucos, vem se modificando a isso. “Acredito que é apenas questão de tempo. Os Estados Unidos estão alguns anos na nossa frente no uso de certas tecnologias. No caso da dinâmica social, não é muito diferente. Nos últimos meses o interesse das pessoas no Brasil pelo assunto tem crescido bastante e acredito que é apenas uma questão de tempo até que

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FOTO: Eduardo Santorini

e queria se dedicar aos estudos. Menos de uma semana depois ela estava saindo com um cara do colégio”, diz Santorini, que hoje tem tanto sucesso com as mulheres que criou o site Atitude de Homem e é autor do livro Código da Atração no qual aborda os gatilhos que geram atração na mente feminina. “Derrubo alguns dos maiores mitos sobre relacionamentos que aprendemos errado durante nossas vidas e mostro o passo a passo para que o homem seja mais confiante, faça mais amizades e se torne irresistivelmente atraente para as garotas”. O administrador e coach Bruno Giglio trabalha na área da sedução há dois anos e integra a equipe da Social Arts juntamente com Alexandre Meirelles e Gui Pinheiro, uma das empresas que atua nesse ramo. A ideia surgiu quando o inglês Richard La Ruina, autor do livro A Arte Natural da Sedução, veio ao Brasil em 2011, passar uma temporada em Copacabana com clientes de diversos cantos do mundo e instrutores de Londres. “Eu já mantinha contato com ele pelo Facebook e vi em um post que ele precisava de uma ajuda com a ‘logística’ aqui no Rio, quais boates ir, em qual dia etc. Prontamente me candidatei em ser seu anfitrião. Após uma noitada memorável na boate Praia, Richard me convidou para passar dois meses morando na cobertura ajudando a treinar seus clientes. Richard viu

potencial no mercado brasileiro e decidiu montar uma equipe de instrutores no Brasil, da qual ele fez questão que eu fizesse parte. E assim começou minha ‘carreira’ como coach.”, conta Giglio e explica que os homens tem buscado o curso por ter medo de iniciar uma conversa com uma mulher ou manifestar suas intenções. “Alguns chegam a conviver anos ao lado de mulheres sob o falso pretexto da amizade, nunca tomando uma iniciativa e revelando seus reais desejos. O importante é que esse desejo, ao invés de reprimido, seja expresso o mais breve possível ao invés de se comportar como amiguinho”.

Santorini é autor de o Código da Atração e já treinou mais de 1100 alunos.

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SEDUÇÃO tenhamos um grande destaque sobre esse assunto por aqui”, afirma Santorini. Relacionamentos sempre são difíceis, o psicoterapeuta corporal Sergio Savian explica que as relações estão passando por uma profunda revisão, pois há um tempo aceita-se regras mais rígidas em que homens deveriam agir de uma forma e mulheres de outra, porém essa tese caiu. “Estas regras foram questionadas e a ordem antiga não funciona mais, produto disto é que passamos por uma fase em que continuamos jogando o jogo das relações, com mais liberdade, sem nos darmos conta do aumento de responsabilidade que essa nova situação propõe. Além disso, as novas tecnologias, sendo mal

utilizadas produz pessoas insensíveis. Gosto da frase de Einstein que diz: ‘tenho medo do dia que a tecnologia vai se sobrepor à interação humana. O mundo terá uma geração de idiotas’”, explica Savian. Sedução ainda pode deixar alguns com o olhar torto e o sentimento da dúvida, mas é algo essencial, pois dará o sabor ao relacionamento. A psicóloga Marcia Palis defende esse poder. “Muitos acreditam que a sedução está ligada a algo ruim ou prejudicial. Isso se deve à ligação da palavra às crenças e valores aprendidos sobre sexualidade. Ainda existem muitos préconceitos sobre esse assunto e essa palavra costuma ser entendida e carrega consigo certa ambiguidade. Ao mesmo tempo que significa encantamento e atração também remete a ideias de engano e mentira”.

Dica de sedutor Anote o que os especialistas em sedução aconselham Eduardo Santorini: “Uma dica simples e eficaz para ajudar com as mulheres: tenha amigas! Assim como primeiro aprendemos engatinhar, depois andar até começar a correr, na sedução é a mesma coisa. É essencial que o homem seja capaz de se socializar, tenha amigas, tenha uma vida social agitada e interessante. Este é o primeiro passo. Tendo essa parte resolvida, é hora de colocar um pouco de tempero e trabalhar o lado sedutor”. Bruno Giglio: “É muito importante ir para baladas, ficar sóbrio e desenvolver confiança de verdade e não ‘confiança líquida’. Balada não é o único ambiente onde pode-se conhecer uma mulher interessante, muito pelo contrário. Diariamente você sai de casa pra ir para o trabalho ou faculdade e vê uma infinidade de oportunidades passando na sua frente. Ou seja, abordar mulheres no dia a dia, aproveitar essas oportunidades de fazer um elogio sincero e fazer o dia dela mais feliz, é fundamental. Mas nada de cantada pronta ou de pedreiro. Um simples: ‘Olá, posso te dizer uma coisa? Te achei linda e precisava te falar isso!’ é mais que suficiente”.

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Sergio Savian: “Se você pretende ter um novo relacionamento é preciso sair da situação confortável de acomodação e aprender que o amor flui para quem tem coragem. Foque mais nos seus desejos e menos no que os outros esperam de você. Olhe e veja, escute e ouça. Perceba quem é a outra pessoa e se consulte para saber se você pode ou deseja lhe oferecer aquilo que ela quer”. Marcia palis: “Invista em você. Aprenda a se amar e admirar antes de querer ser amado e admirado por outra pessoa. Você não amaria alguém por quem não tivesse admiração, amaria? Pois bem, ninguém vai te amar se em primeiro lugar você não se descobrir e se enxergar como um ser maravilhoso e único desse Universo. Conheça-se e se goste do jeitinho que é. Eleve sua autoestima e acredite: esse é o passo mais importante para os relacionamentos afetivos de maior sucesso”.

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Fetiche: qual é o seu?

DESEJO

Alguns escondem o que fazem, outros assumem sem ressentimentos e o fetiche continua a gerar polêmica Por Juliana Santos

D

ifícil achar uma pessoa que fale abertamente sobre as suas experiências com fetiche, mas quando alguém decide falar, usa um nome fictício. É o caso da consultora de vendas Andrezza Palacios, que prefere usar esse pseudônimo para gerenciar sua página no Facebook e seu blog, batizados como Meus Fetiches. A gaúcha de Porto Alegre conta que sempre teve interesse no assunto, mas julgava algo diferente e anormal, quando decidiu aceitar o gosto por fetiches, passou a pesquisar sites e páginas em redes sociais sobre o tema, mas não encontrou. “Então resolvi criar uma página, de maneira despreocupada, apenas para postar imagens que gostava. Só não imagina que as pessoas tam-

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bém iriam curtir desta maneira. Com o passar do tempo, as pessoas foram pedindo contos e mais informações sobre fetiches. Criei o blog para expor novas ideias junto com o público que o acompanha”, conta. A página, criada há um ano, tem mais de 170 mil seguidores e junto com o blog vem conquistando esse público específico. “O blog foi criado a pedido dos seguidores, lá são postados contos e outros textos e histórias referentes a sexo, relacionamentos e fetiches. Muitas pessoas enviam relatos incríveis e isto tem sido uma grande fonte de crescimento pessoal”.

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DESEJO O que é o fetiche? Fetiche é um termo de origem francesa, mas em português significa feitiço. Do latim, factiticius (artificial, fictício) era utilizado para denominar objetos com poderes sobrenaturais ou mágicos. Desde 1887, o termo é empregado para descrever pessoas que ficam excitadas por apetrechos ou partes do corpo do parceiro. Para o psicólogo e pesquisador do Instituto Paulista de Sexualidade, Diego Henrique Viviani, a fantasia sexual e o fetiche andam juntos, mas há uma diferença. “O que separa a fantasia sexual do fetiche é que a fantasia sexual pode ser experimentada somente através do pensamento, sem ter a necessidade de que isso seja experimentado objetivamente, ao contrário do fetiche”, especifica o profissional. O fetiche caracteriza uma variação de usar um objeto para despertar o desejo sexual, mas não deve ser visto de forma negativa, pois muitas

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pessoas não notam seu grau de fetichismo, mas se sentem atraídas por determinadas roupas, partes do corpo, sapatos ou certas situações. Deve ser considerado preocupante quando a pessoa direciona o prazer sexual exclusivamente no objeto de desejo, nesse caso, chamado de parafilia. “Quando o fetiche se torna uma parafilia pode trazer sofrimento à pessoa e aos envolvidos, sendo assim a melhor solução é encontrar um tratamento adequado para conseguir ter uma vida sexual satisfatória e de qualidade”, sugere o psicólogo. A realização de um fetiche pode ser aceitável para a vida e o relacionamento de qualquer um, desde que não fuja as regras morais e legais. “Para o indivíduo que pratica pedofilia, necrofilia, zoofilia, entre outros. Com certeza, não me parece favorável”, avalia. (Saiba mais sobre os tipos de fetiche na página 46).

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DESEJO Aceitação e preconceito

Relatos e contos

Apesar de ser relativamente comum a realização de fetiche, o assunto não é bem aceito entre as conversas informais com amigos e familiares. “A maioria das pessoas tem preconceito, justamente por não entender o verdadeiro significado de fetiches”, desabafa a gaúcha Andrezza. Mas para ela, muitos escondem o que realmente querem. “Na verdade, todas as pessoas são mais ou menos fetichistas. Alguns em maior grau, só se realizam com determinado objeto ou outra variável, outros usam fetiches apenas como complemento sexual”.

O gosto pelo fetiche pode ser descoberto em livros, revistas, objetos ou até mesmo durante o sexo, ao arriscar uma nova posição, usar adereços diferentes e testar novas formas de prazer. Para muitos adeptos do fetichismo, o anonimato é essencial, principalmente ao relatar situações como da estudante Cristina (nome fictício), que teve uma experiência com um rapaz que ela saía e prefere não se identificar. Para ela, o fetiche é mais que usar um objeto, é construir um ‘enredo’ para o encontro. “Em 2011, decidi fazer uma surpresa para o meu ex-ficante. Descobri o local que ele guardava o carro perto do trabalho, fui até lá e deixei um envelope com um bilhete escrito: ‘estou te esperando a duas ruas daqui, me liga se quiser passar a noite comigo’. Dentro do envelope tinha uma caixinha perfumada com uma calcinha branca, porque achava sexy me ver de branco”.

Andrezza diz ter uma saída para as críticas. “Mudar de ideia só porque fulano não aprova é falta de personalidade. Respeito as reações sobre o assunto, mas meus gostos pessoais permanecem os mesmos”. E dá uma dica aos adeptos do fetichismo. “Acho que cada um tem que fazer aquilo que gosta e tem vontade, independente da opinião alheia. Quem vive sua vida é você mesmo. Se os outros reagirem bem ou mal, é problema deles”. Aceitação e preconceito

Cristina acredita que valeu a pena a loucura, mesmo sem ter continuado o relacionamento, ficou a história para contar. “Quando ele chegou

Apesar de ser relativamente comum a realização de fetiche, o assunto não é bem aceito entre as conversas informais com amigos e familiares. “A maioria das pessoas tem preconceito, justamente por não entender o verdadeiro significado de fetiches”, desabafa a gaúcha Andrezza. Mas para ela, muitos escondem o que realmente querem. “Na verdade, todas as pessoas são mais ou menos fetichistas. Alguns em maior grau, só se realizam com determinado objeto ou outra variável, outros usam fetiches apenas como complemento sexual”. Andrezza diz ter uma saída para as críticas. “Mudar de ideia só porque fulano não aprova é falta de personalidade. Respeito as reações sobre o assunto, mas meus gostos pessoais permanecem os mesmos”. E dá uma dica aos adeptos do fetichismo. “Acho que cada um tem que fazer aquilo que gosta e tem vontade, independente da opinião alheia. Quem vive sua vida é você mesmo. Se os outros reagirem bem ou mal, é problema deles”.

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DESEJO ao carro e viu o envelope, me ligou em seguida. Estava adorando a iniciativa. Fomos para o motel em carros separados e namoramos a noite toda. Foi uma delícia”. A gaúcha Andrezza revela ter realizado alguns fetiches, entre eles o Smoking Fetish, prazer sexual com pessoas que fumam. “Foi uma experiência à parte, nem boa nem ruim, apenas diferente”, declara. Sobre um fetiche difícil de realizar, ela comemora. “Encontrei a pessoa certa para realizar todos os meus fetiches, sem limites ou restrições, com confiança e plena entrega. Quando se tem isso, o céu é o limite”. No blog de Andrezza, os frequentadores podem contar como realizaram seus fetiches. “Cada história é especial e todas trazem um diferencial. Tem casais que gostam de saber o que outras pessoas acharam do que eles fizeram entre quatro paredes”, conta. Mas todas as histórias são avaliadas pela blogueira e algumas acabam não sendo postadas. “Não publico aquelas que realmente são muito fortes ou polêmicas demais. Prefiro o lado erótico e sensual do que apelações e palavras explícitas. O objetivo é estimular a imaginação e não cair na vulgaridade”.

Descubra qual o tipo de fetiche que desperta a excitação sexual em você Agorafilia - atração por transar em lugares abertos ou ao ar livre; Amaurofilia - excitação por ter um parceiro que use máscara ou tapa olho; Autoginefilia - prazer masculino em vestir roupas femininas; BBW - atração por mulheres obesas; Coreofilia - excitação sexual ao dançar, até chegar ao orgasmo dançando; Fisting - prazer sexual com a inserção da mão ou do antebraço na vagina ou no ânus; Infantilismo - prazer sexual em imitar crianças pequenas ou bebês; Maieusiofilia - excitação sexual por mulheres grávidas; Menofilia - prazer sexual por mulheres menstruadas; Nanofilia - atração sexual por anões; Odaxelagnia - excitar-se com mordidas; Periculofilia - prazer sexual por transar em locais que ofereçam risco/perigo; Pogonofilia - fetiche por barba; Urofilia - prazer sexual em urinar no parceiro ou receber dele o jato urinário. 46

Fetiche em contos

As histórias são variadas e cheias de detalhes. Abaixo, você pode conferir dois trechos de contos publicados no blog Meus Fetiches

Fui ao cinema com meu noivo, estava linda num vestido escuro e um casaco longo. Já fui sem calcinha para poder brincar no escurinho junto com ele… Mal nos sentamos, um homem ao meu lado tocou levemente minha perna. Minha primeira reação foi de espanto. Olhei pra ele com raiva e me deparei com um sorriso malicioso e olhar ardente. Fiquei imóvel, achando que meu noivo tivesse percebido. As luzes apagaram e o filme começou. Meu noivo devia estar gostando muito do filme e nem me deu atenção, eu também não fiz questão nenhuma de provocá-lo… Discretamente, coloquei meu casaco em meu colo, um sinal verde para que o estranho pudesse me tocar. Em seguida, senti os seus dedos me procurando por baixo do casaco. Ele foi direto em meu sexo, abri levemente as pernas para que ele pudesse ficar a vontade. E continuava olhando o filme, como se nada tivesse acontecendo. Comecei a ficar molhada. Seus dedos eram mágicos. Abri mais as pernas, ele enfiou os dedos em mim. Fazia movimentos discretos, fortes e enlouquecedores. Ele sabia como manipular uma mulher… Toda vez que relembro esta cena fico muito excitada”. (Conto enviado por Wanda O.R – 20/06/2013).

Esperaria o tempo que fosse preciso para tê-lo outra vez em meus braços, em minhas pernas… Aquele homem valia qualquer espera. Um dia desses, chegou o e-mail tão esperado: ele estava de volta. Assim que entrei no carro, encontrei-me com aqueles conhecidos olhos azuis e aquela voz grave dizendo que estava sentindo minha falta. Chegando ao motel, fui direto arrancar um beijo, que veio quente, molhado, de pura entrega. Ele puxou meus cabelos, beijou meu pescoço e deu um tapa na minha bunda pra mostrar quem é que manda ali… Deitada, olhos atentos, vejo ele se deliciar com gosto e me encher de vontade. Abre uma garrafa de espumante e enche uma taça. Bebe um gole e guarda um pouco na boca… Levanto a cabeça, pois sei que é hora de ganhar beijo de espumante… Adoro quando ele faz isso. Em seguida, joga um pouco da bebida em seu peito, fazendo escorrer pelo seu corpo e me dando um banho de espumante. Minha boca procura cada gota… Ele é minha sede. Minha calcinha vira algema improvisada numa barra de ferro junto à cama. Começa a me chupar novamente ao mesmo tempo em que coloca a camisinha. Sei que agora ele vai me fazer gritar… Minhas mãos amarradas não conseguem abraçá-lo… e essa sensação de submissão e entrega é que me faz ficar cada vez mais ligada a ele. Com uma das mãos, me toco num ritmo frenético, alcançando o orgasmo em minutos. Sem pudores…” (Conto enviado por Luciana M. em 25/09/2013). Revista Luxúria / Novembro 2013


FOTO: Diego Pinheiro / Revista Luxúria

MERCADO

Uma Disney para Adultos

Da bolinha explosiva aos vibradores, o mercado erótico cresce no Brasil e atrai cada vez mais pessoas em busca do prazer Por Diego Pinheiro Que entre quatro paredes vale tudo, quando o assunto é sexo, todos já sabem. Para isso, nada melhor do que apimentar a relação com alguns brinquedos eróticos, géis, fantasias e, porque não, próteses. Atualmente, há produtos tanto para o casal quanto para se curtir sozinho. Porém, para todo o prazer ainda há tabus que permanecem na sociedade, e o uso de produtos sensuais é um deles. Os brinquedos e demais itens para o deleite não são tão novos quanto se aparenta, algumas peças do período da pré-história foram encontradas e classificadas como as primeiras estatuetas eróticas, esculpidas em chifre de mamute pelos primeiros homens com a aparência semelhante ao corpo de uma mulher com os atributos bem avantajados, isso mostra que desde aquele tempo o sexo já era algo explorado. Há uma lenda de que a rainha Cleópatra foi a primeira mulher a usar um vibrador, porém ele tinha uma peculiaridade. A majestade ordenava que seus criados capturassem abelhas e as Revista Luxúria / Novembro 2013

colocassem dentro de um artefato de textura fina, desse modo, por meio dos zumbidos e a frenética movimentação que faziam ela conseguia estimular o clitóris. A origem do vibrador aconteceu no século XIX, naquele tempo as mulheres iam aos consultórios com “transtorno comportamental”, mais conhecida como “histeria”. Acreditava-se que a energia vital do útero se deslocava para outras partes do corpo causando os ataques. A solução para a cura era o médico fazer uma massagem vulvar até a mulher atingir o paroxismo histérico, em outras palavras, o orgasmo. Porém, os médicos sempre trataram a histeria como algo dissociado do prazer sexual. O primeiro vibrador, criado pelo médico norteamericano George Taylor, foi batizado como Manipulator e era movido a vapor. Na época, um alívio para os médicos que já estavam com as mãos e pulsos bem cansados. Só em 1880, o médico Joseph Mortimer Granville, patenteou o primeiro vibrador elétrico. Nos Estados Unidos, 47


MERCADO o aparelho se tornou o quinto mais vendido, anunciado em propagandas de jornais e revistas como algo apenas para uso clínico. Ganhou conotação sexual em 1920, quando começou a aparecer em cenas sexuais, perdendo ali a credibilidade de uso exclusivo para fins medicinais. Ele só voltou à cena em meados dos anos 1960, devido à revolução sexual. Em 30 de junho de 1966, Jon H. Tavel patenteou o vibrador sem fio alimentado apenas por pilhas: estava criado o primeiro brinquedo pessoal para as mulheres. Depois disso os vibradores e outros produtos eróticos começaram a se popularizar.

FOTOS: Diego Pinheiro / Revista Luxúria

Atualmente, o Brasil está em alta no setor. Dados divulgados pela Associação Brasileira de Entretenimento em Mercado Erótico (Abeme) a feira “Erótika Fair” é a quarta mais visitada do mundo e a primeira da América Latina. Em 2011, o entretenimento adulto movimentou R$ 26 bilhões e, em 2012, aumentou os lucros em 15%. Estão espalhadas por todo o Brasil diversas lojas de sex shop além das vendedoras autônomas que vão de casa em casa com a mala cheia de apetrechos. Algumas pessoas sentem curiosidade, mas não utilizam por medo ou por achar que podem causar algum problema. A sexóloga Kelly Viégas atua na área há cinco anos e conta que há muitos benefícios para quem deseja usar. “Entre eles a interação entre o casal, a descoberta de novas formas de prazer individual ou com parceiro, a percepção dos sentidos humanos, a descoberta dos jogos sensuais, aumento da libido, entre outros.”

Jéssica corre os olhos por alguns produtos em um Sex Shop

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MERCADO

FOTO: Diego Pinheiro / Revista Luxúria

O que antes era destinado apenas para os homens, hoje é muito mais procurado pelas mulheres. O sucesso de alguns produtos eróticos se deve muito ao livro Cinquenta Tons de Cinza, da autora E.L. James, que despertou nas mulheres o desejo de explorar mais a sexualidade. “Ele (livro) fala de sexo ousado, sem necessariamente haver amor, sem compromisso de vínculo. Despertou curiosidades, desejos reprimidos, mas também traz mensagens negativas sobre a submissão da mulher aos desejos de um homem poderoso. Mas trata-se, talvez, de um homem até imaturo sexualmente”, explica Ana. Atualmente, alguns vendedores autônomos começaram a ganhar mais clientes a cada dia. A autônoma, Maria Geane Medeiros, 44 anos, vende produtos eróticos há oito anos. Entusiasmou-se mais com as reportagens de ambulantes que progrediram financeiramente com as vendas. “Motivou-me mais a trabalhar vendo matérias de vendedoras que conseguiram crescer, elas fazem reuniões de casa em casa assim como eu e algumas têm até empresas”, conta Geane. Suas primeiras clientes eram garotas de programa, depois o público foi se diversificando, porém não são para todos que ela oferece seus produtos. “Não vendo para menores de idade por uma questão ética e por ser extremamente proibido, isso pode me complicar criminalmente e também não quero nenhum papai ou mamãe batendo na minha porta”, enfatiza Geane.

Os produtos comestíveis também são muito procurados, se eles causam algum problema à saúde isso ainda não foi divulgado, mas não se pode confiar cegamente em todos, é preciso conhecer bem as marcas antes de sair comendo tudo. “É necessário dar atenção ao uso dos produtos aromatizados, pois o consumidor que tem algum tipo de alergia não deve utilizar. Em caso de dúvida consulte um médico antes do uso”, alerta Kelly.

Vendendo prazer

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FOTO: Diego Pinheiro / Revista Luxúria

Há quem possa ficar viciado nos produtos eróticos e começar a trocar um relacionamento carnal pelo solitário. Mas, para pessoas sadias, física e psicologicamente, dificilmente isso irá acontecer. “Há casos raros de pessoas com problemas graves de saúde psíquica que se ‘apaixonam’ por bonecos sexuais”, explica a doutora em psicologia clínica, Ana Maria Zampieri. “Algumas mulheres em casos de relação sexual pobre, com anorgasmia (dificuldade de atingir o orgasmo), podem preferir os vibradores ao invés das relações sexuais com o marido ou parceiros porque estes não sabem estimulá-las adequadamente ou elas fingem que está tudo bem e não fazem uma ‘educação sexual’ entre eles para que descubram como se satisfazer reciprocamente”, complementa Ana.

As lojas de sex shop são os locais mais comuns para quem deseja ir à busca do prazer. Várias estão espalhadas pelo país com uma enorme variedade. O

Geane com uma pequena parte dos produtos que vende 49


MERCADO Veja a lista dos mais procurados nas lojas Géis Excitantes: do beijo ao sexo anal há diversos tipos para cada situação de R$17 a R$29 Bolinha explosiva: proporcionam agradáveis sensações, do gelado ao quente de R$12 a R$13 Prótese peniana: todos os tipos, cores, tamanhos para quem desejar um companheiro na solidão ou acompanhado de R$50 a R$87

Anel peniano: ajuda a manter a ereção, retardar a ejaculação e também permite uma total estimulação do clitóris R$45 a R$179 Vibradores: melhores amigos para uma mulher de R$ 57 a R$300 Fantasias: Para fazer na cama profissão que sempre quis de R$27 a R$150

*Preços da loja Parada Sex Store (www.paradasexstore.com.br)

empresário Ricardo Sastre, 32 anos, é proprietário de uma loja de produtos sensuais. A ideia veio de um amigo de infância que era dono de uma. “Em 2004 ele me disse que o mercado estava em alta e existiam poucas lojas. Com um dinheiro aplicado pedi para me ajudar a abrir uma. Ele deu dicas de atendimento, me apresentou para fornecedores e aulas de como funcionava cada produto. No primeiro mês eu já estava sabendo de tudo”, diz Sastre. Porém, é preciso saber cuidar do brinquedo, o mau uso e a falta de higienização podem fazer o usuário contrair doenças. “Se o produto não for fabricado dentro das normas do Ministério da Saúde e da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) a utilização incorreta poderá gerar problemas. O vibrador é um objeto individual e deve ser higienizado antes e depois de ser utilizado para evitar irritações e alergias de contato. Recomendase o uso de preservativo. É necessário adquirilos em lojas especializadas e com revendedores que ofereçam produtos aprovados pelo Ministério da Saúde e pela Anvisa e também que tenham passado por treinamento específico para revenda. Dessa forma, o consumidor receberá informações corretas quanto à utilização e produtos ideais”, informa Kelly. Liderança feminina As mulheres tomaram as rédeas e são as mais consumistas do setor erótico, os homens ainda são os mais envergonhados. “Geralmente elas têm mais iniciativa para apimentar o relacionamento e por incrível que pareça o homem é mais tímido para comprar ou entrar na loja”, diz Sastre. Geane possui clientes do sexo masculino. “Explico com 50

naturalidade, pois não tem nada que cause vergonha, ninguém use e nem faça. Eu vendo como se fosse um produto para se barbear.”, conta a vendedora. A assistente de compras Evellyn Nunes, 21 anos, conheceu os produtos eróticos por causa de uma colega que falava sobre a utilidade deles. “Tudo começou por causa de uma amiga mais velha que comentava comigo sobre uns ‘brinquedinhos’ que utilizou. Depois conheci um rapaz que adorava esses produtos, ele me apresentou alguns e eu adorei”, conta Evellyn que possui uma pequena coleção pessoal. “Eu tenho as sexy balls, um vibrador (carinhosamente apelidado de Bob), calcinha comestível, dadinhos do prazer, desenvolvedores clitorianos, géis e lubrificantes e os filmes pornôs que não podem faltar”. Enquanto algumas são adeptas ao uso, outras já não se familiarizam com os produtos sensuais. A assistente administrativa Jéssica Regina dos Santos, 23 anos, não é partidária em utilizá-los. “Não uso porque tenho vergonha, sou muito reservada na intimidade, preciso estar totalmente à vontade e confiante na relação, mas também acredito que seja falta de costume”, diz. Porém, muitas mulheres em conversas ficam curiosas em saber como é. “Já senti vontade, conversando com amigas sempre surge algo interessante. Talvez numa relação em que eu esteja mais confiante e disposta a agradar o companheiro até possa usar”, completa. Os produtos eróticos devem ser o tempero do prazer, tanto individual quanto acompanhado. Nada supri os cinco sentidos humanos: tato, paladar, visão, audição e olfato. Porém, não custa nada adicionar alguns ingredientes que deem um sabor mais picante para o sexo. Revista Luxúria / Novembro 2013


LITERATURA

Ela se tornou escrava sexual de vários homens

A Guerra do Peloponeso gerou a greve de sexo

Amor proibido apimenta essa história

Muito além dos Cinquenta Tons de Cinza O que antes era proibido por instigar à prática do adultério, agora é lido dentro de locais públicos sem nenhum constrangimento Por Amaury Gonçalves

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uem assistiu Gabriela, adaptação de Walcyr Carrasco feita em 2012, do romance Gabriela Cravo e Canela de Jorge Amado, que se passava na década de XX, deve lembrarse de quando a personagem de Malvina (Vanessa Giácomo) fez questão de ir até a livraria e comprar O Crime do Padre Amaro, livro escrito pelo português Eça de Queirós, que foi considerado uma obra à moral, por narrar de forma erótica a história de um padre que se apaixona por uma mulher.

das mulheres, que são as mais fiéis ao gênero. O fundador da psicanálise Sigmund Freud fez uma indagação que até hoje não obtivemos respostas. “Afinal, o que querem as mulheres?”. Será que foi através da literatura erótica que elas conseguiram demostrar os seus desejos? Será que o tempo conseguiu mesmo quebrar os tabus envolvendo o gênero erótico e pornográfico?

A trilogia Cinquenta Tons de Cinza, escrita pela inglesa Erika Leonard James, conquistou uma legião de leitoras e quebrou tabus referentes ao sexo, vendendo mais de 70 milhões de cópias em 2012, o que serviu de inspiração para outros autores que passaram a formular histórias com certo toque de erotismo. Cinquenta Tons de Cinza foi considerado o primeiro e-book a ultrapassar 1 milhão de downloads. O sucesso foi tanto que ganhou uma adaptação com estreia prevista para o dia 1° de agosto de 2014 nos Estados Unidos.

Uma das principais dúvidas dos leitores é saber identificar o gênero literário que muitas vezes se apresenta como erótico e outras como pornográfico. De acordo com o psicólogo e terapeuta sexual João Batista Pedrosa, o erotismo se apresenta através do estímulo sexual que pode aparecer de forma implícita. Já a pornografia vem de forma mais explícita, descritiva e visual. Entretanto o que encontramos nas prateleiras de livrarias e bibliotecas é algo que mescla tanto o erotismo quanto o pornográfico. “A noção do erotismo é relativo, pode depender das práticas culturais e do contexto que o estímulo é apresentado”, diz Pedrosa.

A literatura erótica ganha cada vez mais às mãos

Se pararmos para comparar a prática sexual

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LITERATURA na China, por exemplo, uma mulher que tenha o pé pequeno é considerado erótico e sensual. Entretanto, na nossa cultura ocidental os valores estéticos são reforçados por seios e nádegas bem volumosas, que são consideradas como sexy. Muitas vezes criticados por terem uma baixa qualidade no texto, sexo ainda é algo que vende. Como explicar o aumento nas vendas de livros que envolvem a libertinagem e os fetiches? “Leitura erótica atrai e excita muito as mulheres. Livros com histórias de amor, romantismo, paixão por um homem desejado, dominador e uma pitada de erotismo é um deleite para as mulheres. O que não acontece com a maioria dos homens que são atraídos por estímulos visuais, como os vídeos pornográficos”, diz o psicólogo. A estudante de engenharia Cinthya Rafaela define a obra de E. L. James uma obra de fácil compreensão destinada a mulheres de diversas faixas etárias. “Hoje em dia, as mulheres estão falando mais abertamente sobre sexo. Acho muito importante que autores escrevam sobre sexo, isso ajuda os jovens a falarem mais abertamente sobre o tema”, afirma a jovem que já leu a trilogia. “Eu acho que é apelação demais, não me sinto confortável para ler um livro desse dentro do metrô”, declara a estudante de história Elisabeth Martins, que confessa nunca ter se interessado pelo gênero. Muito antes desse modismo gerado com o sucesso de Cinquenta Tons de Cinza, os leitores do mundo todo já tinham as suas “histórias proibidas” escondidas no fundo da gaveta ou embaixo do

colchão, que só podiam ser lidas longe dos pais, por estimularem o apetite sexual.

Apoio histórico

A literatura erótica é mais antiga do que imaginamos, umas das primeiras obras a falar sobre sexo antigo foi escrita por Aristófanes, que através de Lisístrata (411 a.C) na qual narra a posição que as mulheres tomaram diante a Guerra do Peloponeso, cansadas de sofrer pelas perdas no campo de batalha. A protagonista Lisístrata decide liderar uma greve do sexo, na qual, elas lutam para suprirem os seus próprios desejos, obrigando Atenas e Esparto a assinarem um tratado de paz. Nos textos bíblicos também é possível encontra algumas passagens consideradas eróticas como este passo de Ezequiel, que narra à história de uma prostituta do Egito. “19 – A partir daí, ela só foi aumentando as suas prostituições, lembrando seu tempo de moça, quando era prostituta na terra do Egito. 20 – e se entregava apaixonadamente a seus homens que têm pênis como de jumentos e orgasmo como o de garanhões;” (Ezequiel, 23: 19-20). Já no século XVIII, quem mais se destacou foi o escritor francês Marquês de Sade, com a obra Os Cento e Vinte Dias de Sodoma, censurada por descrever suas práticas sexuais que incluíam a sadomia (sexo anal), bestialidade (sexo com animais), pedofilia (sexo com crianças), macrofilia (sexo com idosos) e coprofelia (sexo com fezes). Essa libertinagem deu origem ao termo sadismo que muito se assemelha com as obras de Sade. O gênero literário está recheado de livros eróticos. Em 1954 a francesa Anne Desclos, escreveu a

A triologia que conquistou os leitores em 2012

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A Bela Adormecida realiza os seus desejos

A libertinagem faz parte dessa literatura

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LITERATURA

Foto: Alexandre Virgílio

O escritor Estêvão Romane, descreveu a sua vida sexual em seu livro

História de O com o pseudônimo masculino. A submissão feminina é tema central da história que narra o dia a dia de “O”, que é levada para um castelo pelo seu amante René, onde ela se torna uma escrava sexual dele e de outros homens, porém, o que mais impressiona é que nada acontece sem a sua autorização. Nem os contos de fadas escaparam do erotismo, escrito nos anos 80 com o pseudônimo de A. N Roquellaure, Anne Rice trouxe ao leitor em sua trilogia A Bela Adormecida uma versão erótica do clássico imortalizado por Charles Perraul e os irmãos Grimm. Na versão de Anne, a Bela Adormecida desperta de seu sono profundo não com um beijo como estamos acostumados a ver nos desenhos e sim com a iniciação sexual da jovem, que se torna escrava sexual de seu príncipe encantado.

Abrindo horizontes

Muitos escritores passam ou já passaram pelo campo do erotismo. O escritor Estêvão Romane, que viveu um intenso amor em Nova York, até descobrir que a mulher que ele tanto amava era uma garota de programa. O jovem, na época com 21 anos, decidiu pôr um fim ao seu relacionamento e transforma a sua história em um livro autobiográfico que batizou de Eu Amei Victoria Blue. “As cenas de sexos na minha opinião foram as mais difíceis de escrever, tentei descrever tudo de forma que não parecesse vulgar, preservando a Revista Luxúria / Novembro 2013

As cenas de sexo na minha opinião foram as mais difíceis de escrever.

sensualidade”, diz o autor que relata com detalhes a sua sua vida sexual. Segundo Romane, o sua obra tem como função romper com alguns tabus presentes na sociedade que repodiam algumas coisas feitas durante o sexo, como por exemplo, o sexo anal. “Fiz questão de o primeiro capítulo ser bem forte, para mostrar logo para o leitor como era a personagem”. Porém, o que mais surpreendeu o escritor foi o fato da gaúcha de pele branca, olhos azuis, rosto bem delimitado e cabelos pretos tipo chanel ter inventado várias histórias. “Eu acredito que algumas histórias realmente aconteceram, mas pela necessidade de omiti o fato de ser uma garota de programa, ela inventava coisas da infância dela para me convencer”, relembra Romane, que viveu ao lado de Victoria por volta de oito meses. “Faça o que eu digo, mas nao faça o que eu faço” foi assim que a escritora Janaína Rico, teve a ideia de escrever o seu segundo romance, Apimentando, cuja heroína e uma sexóloga bemsucedida que ganha a vida escrevendo livro e dando palestas referente a relacionamentos, porém, ninguém sabe que essa mesma mulher que aparenta saber tudo sobre sexo, nunca tenha tido um orgasmo de verdade. Janaína conta que as mulheres são mais romantica que os homens, por esse motivo torcem tanto para o casal apaixonados terminem juntos. A escritora descreve por meio de suas personagens o poder que as mulheres têm e 53


LITERATURA

Essa coisa de mocinha que ficar esperando um príncipe já era.

FOTOS: Arquivo pessoal

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Foto: Arquivo pessoal

Janaína Rico colhe os frutos com as vendas de seus romances voltado para o público feminino

o quanto elas mudaram. “Essa coisa de mocinha que fica esperando um príncipe já era. O lance agora é um cara com pegada”, afirma a autora que é conhecida por escrever chick lit (livros feitos especialmente para as mulheres).

Saiba o que esses livros têm de interessante

A obra de E. L. James trouxe o debate para a mesa de conversa, porém o tabu envolvendo a literatura erótica não foi totalmente rompido. Durante séculos a família e o Estado ditavam regras a qual limitavam os desejos das mulheres que passaram a escrever romances eróticos com pseudônimos e a ler as escondidas. Agora imagine Cinquenta Tons de Cinza nas mãos da jovem Malvina!

Elisabete Aguiar Jornalista

Cristy Mowzakowski Analista funcional

“Proibida é um livro um pouco extenso e estimulante, mas de fácil leitura. A história não trata sobre amor e sim sobre o desejo que podem ser saciados. O final é surpreendente diferente dos romances quentes que estamos acostumados a ler.”

“O livro 100 Escovadas Antes de Ir Para Cama Dormir é muito interessante porque mostra como os adolescentes que não tem atenção dos pais pode se tornar um pervertido sádico.”

Guilherme Mendes Jornalista

Stephanie Schwarz Crítica de cinema

Samara Roque Estudante

“Sou apaixonado por livros, e crio que Belle – É Preciso Coragem Para perder a Inocência, seja um dos melhores do gênero. A obra narra a triste história de Belle que foi sequestrada e vendida como prostituta.”

“Noite na Taverna, não é somente e necessariamente erótico, mas tem personagens intensas e mais chocantes que livros puramente sexuais. É mais focado em vícios, envolvendo o amor, morte e álcool.”

“Indicaria O Doce Veneno do Escorpião por ser um erótico diferente, ele não foca somente no promiscuo, mas conta a vida de alguém do ramo da prostituição.”

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FOTO: Juan Perazzo / Revista Luxúria

LUXÚRIA NA RUA

A sobrevivência do Cine Privê A reportagem da Luxúria visita o ‘Cine Paris’, conhecido cinema privê no centro de São Paulo, e dá todos os detalhes da sessão Por Juan Perazzo

C

onhecida como a Cinelândia Paulista, a região entre o Largo do Paissandu e a Praça Julio Mesquita abrigou 30 cinemas em funcionamento na década de 60. Hoje, os cinemas do chamado Centro novo de São Paulo, estão velhos. Atualmente a cidade possui cinco cinemas de rua – o Espaço Itaú, Reserva Cultural, Marabá, Sabesp e o CineSesc – e apenas o Marabá fazia parte da antiga Cinelândia.

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Quem passa na frente desvia o olhar, ou olha discretamente com o canto do olho. Nem o grande movimento de pessoas no calçadão da Avenida São João intimida os frequentadores do Cine Paris República. Não há vendedores de pipoca e estudante não paga meia-entrada. Há cartazes de filmes com tarjas de censura, mas os nomes entregam do que se trata, Transando na chuva e Garagem das ordinárias são alguns dos títulos em cartaz.

A bilheteria é semelhante a de qualquer outro cinema, a única diferença é que só há uma garota atendendo. Ela explica que não preciso sair ao término de um filme, pois, na sequência, outro se iniciará sem intervalo. A moça que liberou a entrada estava impaciente como as que vendem ingresso em cinema de shopping, e, por isso, não explicou a política de saída já que, além de não ter tempo prédeterminado para sair, o cinema não tem horário de fechamento. 55


LUXÚRIA NA RUA

Cine República na chamada Broadway Paulistana em 1973

Após pagar R$ 11 a catraca é liberada, logo é possível ver a entrada da sala de exibição, que fica ao topo de uma escadaria, muito parecida com a de uma igreja. Só há uma única sala e ela funciona 24 horas por dia. Na metade da escada fica o banheiro, unissex. Um cheiro ruim disfarçado com algum produto de limpeza vinha do banheiro.

Por se tratar de uma construção datada de uma época que cinemas não eram anexos a 56

“Oi gato, é a primeira vez que você vem aqui?”, essa é a pergunta que todo mundo que entrava na sala ouvia. “Tá afim de um quete (sic)?”. E prosseguiu: “Meu nome é Monique e eu sou travesti daqui do cinema”. Após duas recusas Monique se desculpa e diz que estaria no fundo da sala. Ao entrar mais um homem, o ritual se repete, a abordagem e as duas perguntas. Ele recusa e senta e ela se afasta bem educada.

FOTO: Blog Ricardo Fidelius

Uma cortina preta e pesada separa a escada e a sala de exibição. Ultrapassando-a não se enxerga nada, literalmente. O cheiro fica ainda mais forte do que antes, pinho tentando esconder o misto de mofo com esperma, evidentemente sem sucesso. A locomoção é difícil, sento no local mais próximo da tela, por causa da iluminação, e por sorte, não vi ninguém por perto. Na tela, um clichê do pornô heterossexual, uma loira magra transando com um homem negro bem maior do que ela.

Passado os primeiros dez minutos, o cérebro se acostuma com a escuridão, e é possível ver o que acontece, ou pelo menos tentar. Excluindo um senhor que

era uma espécie de lanterninha do local, 15 pessoas dividiam uma sala com capacidade para 60. As pessoas não estavam próximas umas das outras, e davam mais atenção à saída ou chegada de alguém do que ao próprio filme.

FOTO: Blog Centro de SP

FOTO: Arquivo do Estado de São Paulo

shoppings centers, o Cine Paris não tem saídas de emergência, as cadeiras não são confortáveis, na verdade parece banco de igreja, mas com divisórias. Não há ar-condicionado, e nem se quer uma entrada de ar com exceção da porta de acesso. O termo ‘escurinho do cinema’ não é válido para o local. Não há nenhuma fonte de luz a não ser a da tela, que é de tamanho e qualidade inferior a dos cinemas modernos. O local é escuro a ponto de não saber o caminho a tomar e não há luzes de sinalização na escada.

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LUXÚRIA NA RUA Monique foi o único caso de prostituição presenciado dentro do cinema, e a única pessoa que transitava pela sala também. Os demais frequentadores ficavam quase estáticos, sempre observando quem entra e sai. E o movimento era grande. Tirando uns cinco que nem se mexiam, o entra e sai de clientes foi constante, e mesmo com a tentativa de manter a higiene do local em dia, a rotatividade de pessoas frustraria qualquer equipe de limpeza.

Se engana quem pensa que é ali que o sexo acontece. Quando alguém topa o convite de Monique, ela leva-o para o dark room. O local fica em frente ao banheiro e é uma salinha, sem iluminação nenhuma, onde tudo é permitido. O cheiro que sai dessa sala é mais forte do que de todos os outros ambientes do local, que conta com cabines individuais. As cabines individuais funcionam como um drive-thru da masturbação, literalmente. Elas ficam próximas à entrada e também funcionam durante 24 horas. Os clientes, que optam

por essa modalidade, pagam R$ 1 e têm o direito de ficarem 5 minutos em uma cabine que possui uma televisão em um canal pornográfico. Não é permitida a entrada de mais de uma pessoa por cabine. As cabines nem possuem tamanho para entrar mais de uma pessoa. Dentro da sala, não acontecia nada a não ser uma conversa bem cotidiana entre o lanterninha do cinema e Monique. “Eu não tenho paciência para novela, não tenho mesmo”, diz ela, e ele retruca: “Nem eu, só em novela pobre é feliz”. A conversa segue nesse tom. Os demais frequentadores seguem distantes, com intervalo de, pelo menos, três lugares entre um e outro. O homem que dormia, também não estava mais na sala.

FOTO: Blog Discreto

Os filmes em exibição são norte-americanos, e todos sem roteiro, ou seja, as cenas já se iniciam com os atores semidespidos. O filme que veio na sequencia iniciava em uma casa de praia. Duas loiras de biquíni lavavam uma Ferrari vermelha, elas se molham e o

dono aparece para consumar o ato. Enquanto o sexo rola solto na grande tela, um homem, com uma mochila e uma sacola dorme confortavelmente usando a sacola como travesseiro.

Cine Paris República às 13 horas

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CULTURA

Arte para maiores Evento reúne poesia, performances artísticas, teatro, música e erotismo Por Juan Perazzo

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U

m grupo de 20 pessoas aguarda de forma curiosa a abertura da Nossa Casa, local multifuncional de Pinheiros, zona oeste de São Paulo. O objetivo é assistir e participar do 14° Sarau Erótico organizado pelo Coletivo Yopará Integração. “Eu não conheço, fiquei sabendo pela internet e bateu uma curiosidade”, comenta o estudante de tecnologia da informação Rodrigo Lopes, que, acompanhado da namorada iam pela primeira vez em um evento envolvendo arte e erotismo. Assim como o estudante muitas pessoas debutavam no evento, que tem se tornado maior a cada edição. Ao todo 313 pessoas confirmaram presença na página do evento na internet, número bem superior às demais edições. É que pela primeira vez o site Catraca Livre divulgou a realização do sarau, trazendo um número grande de curiosos e amantes de arte erótica. Além do site, em julho o caderno Ilustrada da Folha de S. Paulo também deu espaço para o sarau. A Nossa Casa – Confraria das Ideias, atual sede do sarau, existe a pouco mais de um ano, e funciona como casa, ateliê, editora independente e entre outras características é o embrião de eventos teatrais, bazar, sarau, intervenções e exposições. “Aqui eu me sinto bem, entro em contato com a arte, é como se fosse um Éden Urbano”, exalta a psicanalista Milena Lisie, de 33 anos. A analogia é bem concebida e aceita pelas pessoas que estavam ali pela primeira vez, é o que acredita o estudante Felipe Ribeiro, “se eu soubesse que tinha um lugar bacana assim aqui na capital,

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CULTURA tinha visitado mais vezes”. Uma porta vermelha na rua Cardeal Arcoverde é a marca do local. Não há letreiro ou indicação. Do lado de dentro as paredes são como telas e exibem algumas obras de arte. Apesar de pequeno, às 22 horas o local comportava 140 pessoas, e a fila de entrada ainda não havia acabado. Uma área descoberta para os fumantes, pista com DJ para quem arrisca alguns passos de dança, pequeno palco para apresentações e um sofá compõe a área interna. A decoração: muito neon e um cheiro de incenso e

Aqui eu me sinto bem, entro em contato com a arte, é como se fosse um Éden Urbano Milena Lisie, 33 anos

cigarro. Uma mistura quase que equilibrada, mas bem forte. Fazem parte do cenário de tema burlesco, uma pequena exposição de desenhos eróticos, arte em manequim e um bar. A discotecagem é feita pela Dj Marina Caires, e o set é preparado para esquentar o ambiente, e abrir caminho para as performances artísticas e intervenções poéticas. A falta de luz deixa o ambiente mais aconchegante, o que, consequentemente, acaba com a inibição dos convidados que poucos sabem o que está por vir.

Por ser de tamanho modesto, o público fica bem próximo das atrações da casa, o que faz do ambiente um show democrático. A instalação cenográfica sempre atrai e desinibe quem está conhecendo a casa. “Eu não sabia o que esperar, fui surpreendida”, comenta a estudante Mayara Lins, que ficou sabendo do evento via redes sociais. É o que acontece com a maioria das pessoas que visita o sarau pela primeira vez. As estudantes Isadora Maldonado e Bruna Alencar aprovaram a primeira vez. “Eu escrevo poesia, gosto bastante de literatura e frequento saraus aqui em São Paulo, mas esse é a primeira vez”, comenta Bruna. “A primeira vez que me chamaram eu pensei que teria um monte de funkeira, gente pelada e principalmente seria estranho. Mas quem não conhece não pode falar, então decidi ir. Logo quando eu cheguei um cara recitou Carlos Drummond de Andrade e o Beto Kapeta interpretou um conto excelente. No mesmo instante peguei o tablet, comecei a buscar poesia e falei que queria participar. Depois disso eu não perdi uma edição”, conta Milena. A psicanalista frequenta o local desde as primeiras edições na Nossa Casa, e conta que o evento costuma receber muita gente, e a aprovação é grande. “Quando eu convido a resposta é quase automática. Credo Milena que horror, não faço essas coisas. Aí eu trago e a pessoa muda de visão. Aqui não é vulgar, é erótico.” Beto Kapeta e Amandy Loba Poeta, pseudônimo da dramaturga Amandy Costa González, 41, conceberam o Sarau Erótico 59


CULTURA Yopará em 2007. Ambos seguem como mestres de cerimônia e comandam democraticamente a festa. Ao longo da noite o publico se solta e as apresentações e improvisos se sucedem no palco. Em um dos esquetes da noite Milena interpreta uma psicanalista, Dra. Pandora, que ajudará um paciente com problemas psicológicos por causa da mãe, e precisa ser hipnotizado. Durante o tratamento ele revela fantasias sexuais. Os conteúdos variam entre tabus, inibição de desejos, fantasias e erotismo. “Nós [coletivo Yopará integração] também realizamos o sarau maldito e tem um para crianças que se chama Vaca Mirim”, comenta a idealizadora. A ideia é usar a arte para discutir e difundir assuntos diversos, usando a arte para colocar em pauta temas importantes, e utilizando temas cotidianos para deixar a arte em pauta. O objetivo foi alcançado. O sarau que era feito em um outro bar e inicialmente na Praça Dom Orione – no Bixiga -, hoje tem endereço, datas e público fixos. “Queríamos trabalhar com assuntos temáticos, e realizamos vários saraus temáticos, teve erótico, amor, malditos, loucura... e o erótico foi o que teve mais bis”, completa Amandy, explicando o surgimento das tendências do coletivo, que atualmente só realizam o Maldito e o Erótico. O público é bem variado, estudantes de humanas, exatas e biológicas. Mas é composto principalmente por universitários, artistas performáticos, atores escritores e poetas alternativos, além dos que se aventuram em baladas alternativas ou topam a insistência do convite de algum 60

amigo. Milena sempre tenta levar um conhecido “eu vivo convidando, mas as pessoas tem uma ideia errada, os amigos da balada eletrônica, do sertanejo não gostaram, disseram que outras baladas são mais eróticas” reconhece a psicanalista. O ambiente, as apresentações, a interação, o clima, quase tudo que compõe a noite do sarau surpreende os visitantes. “Eu gostei do público, é bem diferente do que eu imaginava e esperava”, assim o geofísico Marcelo Queiroz descreve suas primeiras impressões da Nossa Casa. Ele veio acompanhado de um amigo, e ambos revelaram o desejo de voltar já no próximo evento da Confraria, um bazar reunindo os mais variados expositores, brechós, lojas, vendedores autônomos e até quem fez uma limpa no seu

guarda-roupa, os itens vão de roupas usadas a quinquilharias e quadros. Clima de venda de garagem. “Imaginei algo mais vazio e desanimado, mas é bem cheio pra um sarau”, confessa Marcelo. O ambiente da Nossa Casa – Confraria das Ideias consegue proporciona uma interatividade intensa com o público. “Tem gente que quer participar, tem que ter o feeling para escolher, não vou chamar um cara que está estático” comenta a psicanalista. “Um amigo meu foi todo feliz, querendo participar e voltou para casa coberto de chocolate. Ficou feliz”, completa. A participação é facultativa, mas bastante comum ao longo das edições realizadas na Confraria. Muito mais que interagir durante as apresentações programadas, Revista Luxúria / Novembro 2013


CULTURA Encontros literários e saraus não são novidades para São Paulo. O Sarau da Cooperifa comemorou 11 anos em outubro desse ano e o Sarau do Binho já lançou livro com texto de 179 autores diferentes, entre outros como o Antene-se e o Roosevelt.O surgimento de encontros exclusivamente eróticos ainda é recente. Mas como todo movimento artístico começa pequeno, os integrantes esperam uma crescente. “Olha, fora de Sampa eu não conheço nada parecido, mas ao longo destes 6 anos surgiram vários saraus eróticos aqui, como inauguramos o sarau maldito este ano, esperamos que vários saraus malditos surjam a partir do ano que vem”, prevê Amandy Loba.

Serviço O Sarau acontece toda primeira terça-feira de cada mês. Cada edição tem uma temática erótica inédita, e as apresentações são únicas, graças ao improviso que o sarau permite. O preço da entrada é R$ 5 (couver artístico) até às 23h, após esse horário o preço sobre para R$10. A Nossa Casa fica na Cardeal Arcoverde número 1504, no bairro de Pinheiros. A casa abre após as 21h e não tem horário para terminar. A programação fixa conta com exposições de fotos, cenografia erótica, instalações e projeções experimentais, poemas e contos (com os mestres de cerimônia Beto Kapeta. Amandy Loba e Flor de Lótus), performances, discotecagem e exibição de filmes.

Poemas para que te quero o palco aberto deixa aumenta as possibilidades e deixa o publico se descobrir. “Adoro participar aqui, desde que vim pela primeira vez”, conta Milena, que já participou do Espaço Satyros e dos Parlapatões, mesmo sem ser atriz, “muita gente se descobre aqui” completa.

Durante o sarau além de apresentações artísticas e a exibição de filmes, a literatura e os contos sempre se destacam. Sem explicitar ou colocar o sexo em primeiro plano, as poesias se sobressaem pela sutileza e escolha das palavras. Além de convidados com poesias a tiracolo, há quem prepare algo ao longo da noite ou pesquise algo pertinente da internet, usando celulares ou tablets. Entre outras formas de arte, Amandy Loba Poeta, uma das idealizadoras e mestre de cerimônia, faz jus ao pseudônimo compondo e declamando seus poemas. O texto a seguir é uma de suas obras:

A sétima arte não é esquecida durante a noite do sarau erótico na Nossa Casa. A exibição de filmes é comum e com temática variada. O longa Shotbus, de 2005, foi escolhido para o 14° sarau. Ele conta a saga de Sofia, uma terapeuta de casais que nunca tiveram orgasmo. Quem conferiu o 15° sarau assistiu ao filme A Pervertida, do diretor italiano Tinto Brass. Outros filmes que fazem parte do catalogo da casa é O Sabor da melancia e pornô chanchadas brasileiras.

Cachimbo de antiquário, Guarda louça em seu covil. Adoece a grande safra Que degustamos em ondas de prazer E sem antever qualquer contato O objeto reluz, Transluz Batendo batentes ocas. O tempo ânsia o seu desgaste Premeditando a sua quebra Ilusões pagãs da coisa eterna Que paira além do coito. E a fumaça escapa do espaço Fazendo onda.

Revista Luxúria / Novembro 2013

Amandy Da Costa González 61


XICO SÁ

O

Amar é nunca saber do dia seguinte homem só tem duas obrigações na vida, quer dizer, três:

1) Amar e zelar pela mãe; 2) ir para a guerra se for preciso e, 3) principalmente, tornar um momento único o amor pelas mulheres que o encante, porque esta hora é mais religiosa, a mais bonita. Donde dou, qual um Tim Maia do amor, motivo, para justificar, solamente, o terceiro tópico desta crônica, a devoção pela nega, não nego, sigo, obsessivo sujeito, prático, por supuesto, sincero até o amarelado-brega-final do crepúsculo. Bora nessa. Episódio de hoje: No que concerne ao olho masculino nas visões matutinas. Vixe. Acordar diante de uma mulher, até mesmo quando você não a ama ainda, é a acontecência. Talvez não exista nada mais bonito. Talvez nem o ato do encorajado homem entrar para dentro do dia com sua calça pega-marreco tão curta para o tamanho da passada existencial e inevitável. Quando ela acorda, ela, só ela, aquelas marquinhas no corpo feitas pela noite, atrito de peixes que passeiam nos subterrâneos dos lençóis de modo a marcá-lá como se ela vivesse as 20 mil léguas submarinas do viejo Verne. Nada como uma mulher quando acorda. Ela acorda, eu morro, petite mort, como no gozo dos franceses. Vá entender gozar como morte. Pior é que eu entendo. Nada mais bonito do que uma mulher quando dorme e nada mais extraordinário quando uma mulher quando acorda. Os primeiros sinais… Uma mãozinha que arrisca o anestesiado esticamento… Uns incompreensíveis dizeres ainda do sonho, como se blasfemasse contra tudo e contra todos uns restos de filmes de Buñuel, o cara do obscuro objeto do desejo. Donde repito: os sonhos das belas mulheres são restos de filmes não usados pelos melhores cineastas mortos. Ela acorda, cabelos feitos algas doidas, o seu incômodo mais bonito; algum tédio diante da reabertura do mundo chato, ela se espreguiça, ossinhos que estalam sob a réstia do sol do mundo sério que atravessa a cortina, os barulhos do mundo, os mascates, o tiro no coco de Getúlio que ouvimos a cada manhã no Catete. Agora ouço o barulho do mijinho dela, música ao longe aqui do quarto. Paudurescência da aurora; ensaio um gozomemória, nostalgia precoce, como se a danada tivesse ido embora num teletransporte de fio terra; ela volta ainda mais manhosa, quase um gato a reinventar botes câmera lenta num sashimi da véspera. Ella Fitzerald, uma das peixas do seu aquário, está mais viva do que nunca. O pau toca a sua bundinha sem a pressa da foda, quase como fossem feitos um para o outro e tivessem todo o tempo do mundo. As almas já se entendem, os corpos quase, ela pensa “qualé a desse cara?”. Tudo uma coisa assim Manuel Bandeira, de quem roubo esse dizer todo da madruga. Arriamos, o cansaço matando lindamente os interesses imediatos. O estranhamento da manhã talvez não vos interesse. Amar é nunca saber do dia seguinte.

Xico Sá é escritor e jornalista, colunista da Folha, autor de “Chabadabadá – As Aventuras do Macho Perdido e da Fêmea que se Acha” e mais 10 livros. Na TV, participa do programa “Saia Justa” (GNT).

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Revista Luxúria / Novembro 2013


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