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APRESENTAÇÃO

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SUMARIO

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Moema, sabemos que você é da OFS, antropóloga e diretora do IBASE (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas). Fale-nos um pouquinho mais sobre você. Nasci quando o Brasil vivia sob a ditadura militar. Tive uma infância tranquila, filha de uma família de 6 irmãos, de classe média, na zona sul do Rio de Janeiro. No entanto, como meu pai era ateu e de esquerda, tive desde muito nova uma espécie de “convivência” (que não chegava, claro, a ser consciência) com a responsabilidade que todos nós temos – quer exercitemos ou não - com a construção de um mundo de justiça e igualdade. Minha mãe era católica e fomos criados na Igreja. Aos 14 anos, me tornei ateia. Estudei ciências sociais na UFRJ, em uma época de grande agitação política, de redemocratização do país. Comecei a militar em uma organização de esquerda aos 18 anos e, por isto, formada professora primária, dando aula em um bairro de periferia do Rio, saí de casa e fui morar em um conjunto habitacional, no subúrbio. Foi um período muito intenso o do final da ditadura: muitas coisas acontecendo, movimentos sociais se formando em todas as partes. Eu atuava no movimento de bairros e de professores. Participei, com a minha organização, da constituição do PT que, naquele momento, foi uma experiência muito radical e importante de criar um instrumento político capaz de articular e dar sentido às lutas locais e setoriais que aconteciam em todo o país. Militei ativamente nos movimentos por radicalização da democracia. Casei-me aos 23 anos e tive 3 filhos. Comecei a trabalhar no Ibase após o mestrado em antropologia, quando tinha nascido a minha terceira filha. Trabalhar com o Betinho, Herbert de Souza, foi uma experiência muito importante! Ele era uma pessoa de grande expressão pública e, ao mesmo tempo, era muito aberto, próximo, divertido. Tinha um compromisso com a vida impressionante. No Ibase trabalhei com diferentes iniciativas, entre as quais, especialmente a partir de 2003, atuei no processo Fórum Social Mundial. Durante um bom tempo da sua vida, você não era católica. Como foi essa mudança na sua vida e como conheceu o Franciscanismo? E como o Franciscanismo mudou a sua vida? A conversão é uma experiência estonteante! É um abrir-se a uma dimensão desconhecida. Um salto no escuro, vertiginoso. Responder a uma força irresistível. De repente, alguém muito maior que você se apresenta como Senhor, onde antes reinava o nada. É mesmo como um cego que de repente vê! A imagem de São Paulo me vem à mente porque acho que ele expressa de maneira maravilhosa, isto que é mais do que podemos dizer. A fé é extremamente exigente! Desafiante! Minha primeira “sensação” da existência de Deus aconteceu quando tive minha primeira filha. A maternidade, o parto, a presença de outra vida a partir da minha: tudo mágico, divino! Tudo www.jufrabrasil.org 6


simples, como a procriação de mais um serzinho vivo! Mas naquele momento, eu não dei o passo decisivo de entrar em contato com a transcendência. Parei na sensação. Achei que era emoção da maternidade.

Aos 32 anos, ainda ateia, comecei a participar de um grupo de Familiares de Alcoólicos (Alanon). Foi uma época muito difícil, eu estava muito perdida. Neste grupo, tive a imensa felicidade de conviver com mulheres que em meio a situações de grande dor e desespero em suas vidas, tinham uma força interior impressionante! Serenidade e firmeza, onde para mim reinava o caos. A convivência e o escutar. Ver de perto a fé. Assim, começou. E aí, um dia... Deus chegou. Como a força que move a vida. Como o sopro de felicidade. Como o hálito quente, que tira da escuridão e da morte. No começo, a gente só sabe que Deus É! Que está ali: em tudo. Ao mesmo tempo, surgem questões que angustiam: “se Deus é Amor, porque há o sofrimento do inocente?” Questões que os ateus podem atribuir ao acaso, ao nada ou ao absurdo. Aos poucos, comecei a procurar entender, aprender, me abrir mais a esta força. Foi um longo percurso: primeiro de volta para a Igreja Católica. Em seguida, comecei a estudar teologia na PUC, porque sentia necessidade de “entender”, pelo menos um pouco, aquela força vital e absoluta, a qual eu queria para sempre dedicar tudo que sou e faço! Encontrei os franciscanos há pouco tempo, em 2011... Muito depois desta história que acabei de contar! Conheci o Sinfrajupe, durante o

processo de preparação para a Rio+20. Eu integrava a secretaria da Cúpula dos Povos, que tinha uma coordenação formada por muitas entidades e organizações da sociedade civil, entre as quais o Sinfrajupe. Meu encontro com os franciscanos deve muito a uma reunião em Porto Alegre, durante o Fórum Social Temático, onde eu conheci a Zélia, da OFS de Belo Horizonte. Ela teve uma experiência semelhante a minha: foi militante por um longo período. Quando me falou da OFS abriu para mim um mundo novo. Encontrar São Francisco e Santa Clara foi uma bênção que deu sentido e um porto seguro, de onde partir e para onde voltar. São Francisco tem uma atualidade impressionante! Tem respostas a muitas das questões que, como militante, eu me colocava! Parece louco, né? Um santo do século XIII!! Mas esta é a força única deste santo que é referência para a humanidade, ou pelo menos para os que buscam paz, justiça e bem! Tenho tentado estudar tudo o que posso, fazer cursos, ler muito, conversar com irmãos e irmãs e refletir sobre a mensagem para hoje que vem do “Sol de Assis”. Isto é ainda mais relevante neste período em que todos nós, militantes da justiça socioambiental, enfrentamos momentos de muitas desilusões, dúvidas e incertezas na tentativa de avançar! As mensagens de fraternidade universal, da pobreza como liberdade, da não apropriação como base para a paz

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e da minoridade estão entre os elementos que mais me atraem. Hoje pretendo me dedicar a estudar, refletir e contribuir com elementos franciscanos para a Ecoteologia, que começa a se desenvolver na América Latina e em outras partes do mundo, como uma resposta/proposta cristã frente à crise que vivemos. Estamos inseridos numa sociedade extremamente capitalista, onde o "consumo" ilimitado engole a todos. Como trabalhar a consciência do cuidado com o nosso planeta? Esta é uma questão muito importante. Vocês tem toda razão: a lógica do consumo parece nos engolir, envolver todos os nossos sonhos, nossos projetos, nossos valores. A medida de nosso sucesso, de nossa aceitação, de nosso êxito. Pior ainda, este super estímulo ao consumo nos vem de todas as partes: da família, dos colegas, da escola/universidade e dos meios de comunicação de massa, com os quais convivemos intensamente!! Na nossa sociedade, em geral, convivemos mais com a televisão do que com qualquer membro da família! E a televisão apresenta entre os comerciais – seu principal programa – atrações que ajudam a “distrair”, ou seja, a tirar nossa atenção das coisas que realmente importam. Dany-Robert Dufour, filósofo francês, fala sobre este processo em um livro que tem um título bem sugestivo: “A arte de reduzir as cabeças: sobre a nova servidão na sociedade ultraliberal” (Cia de Freud Editora, Rio de Janeiro, 2003). No entanto, apesar do apelo e da sedução do consumo, este projeto gera uma eterna insatisfação, insaciedade crônica. Como seres humanos, somos chamados à transcendência, a dar sentido à existência. Por mais que a gente se “distraia”, o chamado vem e vem. E gera angústia. E, muitas vezes, sentimento de solidão. Acho que temos que partir exatamente daí, desta angústia existencial, se quisermos aumentar a consciência de nossa responsabilidade com a transformação, e restabelecer vínculos mais profundos com o todo da Criação: o capitalismo não tem uma proposta de felicidade. O consumo é insaciável! Cada vez que você compra um

computador ou um carro de última geração, tem outro mais atual entrando em fabricação! Não tem fim: não tem limite. Portanto, não tem saciedade nem felicidade. Acho que precisamos partir do sentimento de frustração e de falta de sentido que o consumo gera. Juntando isto com a reflexão sobre o custo social e ambiental do modelo: geração sistemática de uma massa crescente de pobres e miseráveis, que estão excluídos, porque o mercado não é para todos! Ao lado disto, a produção ilimitada de bens em um mundo de recursos limitados, leva inevitavelmente ao esgotamento do planeta. Desenvolver a “consciência política” necessária para assumir a responsabilidade que temos em construir um mundo de justiça e paz - é um processo complexo! Integra a reflexão política, mas também os sentimentos, o senso, a percepção, a intuição. Se queremos salvar a criação, dom de Deus, precisamos reacender o vínculo profundo que nos irmana com todo o criado. Mas, como em geral estamos muito “engolidos” pelo sistema, um discurso que não dialogue com o sentido e os sentimentos mais profundos que temos, não entrará em contato com nossa consciência “distraída”. A partir daí, existem diferentes possibilidades de atuação: alguns atuarão na política, nos movimentos sociais; outros encontrarão melhor forma de expressão através da arte ou da cultura. Não importa tanto o meio. Ao contrário, diferentes linguagens, práticas e iniciativas podem dialogar e se complementar. O importante é o envolvimento efetivo na busca de respostas! Tem-se falado muito de uma crise "civilizatória" múltipla. Você pode nos falar sobre isso? Em 2009, durante o Fórum Social Mundial que aconteceu em Belém, logo depois da explosão da “crise financeira mundial” de 2008, especialmente os movimentos indígenas da América Latina compreenderam antes de muitos de nós, a dimensão mais profunda da crise. Nossa

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civilização é tecida e construída sob a égide do mercado. O sistema capitalista se tornou hegemônico em todo o planeta, destruindo muitas outras formas de vida, economias e culturas que tinham valores distintos e vínculos diferenciados com o mundo, com a Natureza, com a Criação. Como vimos acima, no capitalismo o consumo ilimitado é necessário para que o sistema siga em funcionamento, para que o progresso aconteça, para que a economia se desenvolva. O processo de consolidação desta civilização passou pela afirmação da ciência como saber hegemônico e critério absoluto de verdade, pela ênfase no produtivismo, por uma separação e relação cada vez mais distante entre “cultura” e natureza, pela dessacralização do mundo. Estou falando de uma forma muito telegráfica sobre um processo complexo, disputado, de idas e vindas, com resistências múltiplas. É quase uma irresponsabilidade um resumo assim bruto, mas o que desejo deixar registrado é que vivemos sob a hegemonia de uma civilização que é incompatível com o planeta: com seus limites, com suas necessidades e direitos próprios, com o ritmo de regeneração a vida e da preservação da Natureza. Civilização que também é incapaz de lidar com as diferenças, com a diversidade. Ou seja, temos mais do que um simples somatório de crises: ambiental (da qual o aquecimento global é apenas um dos indícios); financeira (com as bolhas especulativas crescendo e estourando); social (com o crescimento do número absoluto de pobres e miseráveis e das desigualdades entre pobres e ricos), etc, etc. Temos problemas no cerne, nos princípios e valores que moldam a civilização do capital. Para nós, cristãos, talvez seja mais fácil compreender isto se lembrarmos do Evangelho de Mateus, quando Jesus diz: “Ninguém pode servir a dois senhores: ou vai odiar o primeiro e amar o outro, ou aderir ao primeiro e desprezar o outro. Não podeis servir a Deus e ao Dinheiro!”(6,24) . Ao optar por servir ao Dinheiro, esta civilização necessariamente entrará em ruptura com o projeto e com o Reino de Deus. Assim, reconceber nossa forma de ser e estar no mundo, como humanidade, como espécie Homo Sapiens, é vital se quisermos seguir habitando este planeta – o único de que dispomos. Para isto, precisamos aprender a conviver de forma respeitosa, integrada e harmoniosa com o todo Criado! A Jufra do Brasil tem buscado fortalecer a formação de seus jovens para um engajamento

pastoral, político e social através das Secretarias de AE e DHJUPIC. Para você, qual a importância de fortalecermos essa consciência de engajamento nos nossos jovens? A esta pergunta, acabamos tentados a responder com o clichê de que os jovens não são apenas o futuro, mas também o presente do mundo! Vocês sabem bem que a geração que hoje é jovem vive e viverá em um mundo de grandes desafios: riscos efetivos de uma crise ambiental de proporções desconhecidas; possibilidades de que o fosso entre os que têm demais e os que têm muito menos do que o necessário para viver se amplie, fragmentando a humanidade em hordas em disputa acirrada por recursos; risco de que o individualismo nos leve ao auto-isolamento crescente, à busca do efêmero, do superficial, do descartável nas relações humanas e amorosas, diminuindo nossa capacidade de compaixão, de solidariedade, de misericórdia. Nada disso deve nos assustar ou paralisar! O mundo não está hoje condenado a um destino cruel, como nunca esteve. A humanidade tem a possibilidade maravilhosa de escolher a vida... ou não! Já no Deuteronômio lemos este chamado eterno do Senhor: “Cito hoje o céu e a terra como testemunhas contra vós, de que vos propus a vida e a morte, a bênção e a maldição. Escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e teus descendentes amando o Senhor teu Deus(...)”(Dt 30,20). Somos desde sempre e para sempre chamados pelo Senhor a escolher a Vida. Mas, ao mesmo tempo, somos livres para não aceitar o convite. Para não seguir seu caminho. No entanto, há uma responsabilidade da qual nenhuma geração pode abrir mão: a de responder ao chamado do seu tempo! Podemos hoje, como puderam sempre as gerações anteriores, escolher seguir o projeto do Reino. Ou não! O engajamento, a atuação comprometida no mundo, na política, nas disputas reais de nosso tempo é a forma de dizer sim ao projeto de Deus. O Papa Francisco tem repetido isto de muitas formas. Cada um de nossos jovens e cada um de nós está convidado ao banquete da Vida! O engajamento na construção de um mundo de justiça e paz é nossa resposta positiva a este chamado. Nunca é cedo demais para começar: os desafios estão aqui e agora para todos e cada um de nós! Qual deve ser o nosso papel enquanto franciscanos na construção de uma sociedade mais justa e fraterna, onde inclusive a Criação precisa ser mais respeitada?

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Temos um papel muito relevante. A mensagem de São Francisco é muito atual. Temos como “traduzir” e refletir a partir do que foram não apenas as intuições mas as orientações, admoestações, a Regra de vida e o Testamento de São Francisco, formulando propostas e formas de atuação que podem ser respostas aos desafios de nosso tempo. Acho que devemos partir da mensagem de São Francisco entendida em sua profundidade, evitando todo o folclore, os estereótipos e a superficialidade. Isto exige de nós bastante dedicação e estudo: compreensão do tempo, das condições e da radicalidade das propostas e perspectivas francisclarianas. A partir daí, em fraternidade, em diálogo, buscar identificar em nossas áreas de atuação as melhores propostas. Acredito que como franciscanos/as estamos todos desafiados a este exercício. Muito já foi feito nos últimos anos, mas podemos e devemos fazer mais em encontrar e propor um jeito francisclariano de lidar com os desafios políticos, ecológicos e sociais de nossos tempos! Que mensagem você deixaria para a JUFRA, para todos os nossos jovens que querem se engajar na luta por um mundo melhor, por um outro ‘mundo possível’? Não desistam! Nunca!! Se fosse fácil juro que a gente já tinha feito! Não é fácil, mas é “possível e necessário”.

Há pouco tempo li um livro bastante conhecido de Viktor Frankl, psiquiatra criador da linha terapêutica conhecida como “logoterapia”, que me impressionou muito. Ele foi prisioneiro em vários campos de concentração durante a Segunda Guerra. Situação das mais extremas e desesperadoras pelas quais passou a humanidade. Em um trecho impressionante ele escreve assim: “Minha convicção pessoal é a de que a fé em Deus é incondicional ou não se trata realmente de fé em Deus. Sendo incondicional, a fé continuará viva mesmo diante do fato de seis milhões de pessoas terem sido vítimas do holocausto, mas se não for incondicional, ela sucumbirá diante de uma única criança inocente no leito de morte. Não podemos negociar com Deus, não podemos, por exemplo, dizer: ”Até seis mil ou mesmo um milhão de vítimas do holocausto mantenho minha fé em ti, mas de um milhão para cima nada mais pode ser feito; sinto muito, mas tenho que renunciar à minha fé.” (“A presença ignorada de Deus”, Ed Vozes, Petrópolis, RJ, 2013). Acho que da mesma forma que não podemos “negociar” a fé verdadeira, também não podemos desanimar diante das dificuldades de construir um mundo de justiça e paz!! Acredito que este seja o sentido profundo do mandamento: amai ao próximo! Assim, sendo cristãos e franciscanos/as, com humildade, confiança e fé, vamos lá, construir um “outro mundo possível”!

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Cidadão Franciscano proposta de vida apresentada por São Francisco de Assis na Idade Média abriu caminho para todos aqueles que vivem neste mundo e que desejam lutar por Paz e Bem. Embora tenham se passado 800 anos, há muita atualidade nessa proposta, especialmente quando analisamos o contexto em que estamos inseridos. A figura de São Francisco de Assis surge de forma significativa como aquele santo bondoso com os pobres, carinhoso com os animais e extremamente contemplativo, mas a espiritualidade franciscana não se resume a um Francisco distante da realidade em que vivia. São Francisco influenciou a política do seu tempo, a cultura, a sociedade e a religião. Quando o feudalismo entrava em decadência, as cidades começavam se formar, as atividades mercantis de troca e venda estavam se desenvolvendo, surgiam as universidades, Francisco pregava o Evangelho, questionando os modelos da sociedade burguesa. Falando de dignidade humana, assistência aos pobres, de paz, de fraternidade, Francisco denuncia pelo seu exemplo toda forma de desigualdade. Frei Marcelo, diretor do Instituto São Boaventura, vem em sua homilia do dia 04/10/2009 confirmar que São Francisco foi um homem encarnado em seu tempo, não isolado, mas um homem que foi capaz de encontrar-se com o outro, de olhar o próximo, de perceber o caminho que lhe conduzia a Deus. São Francisco que parece sempre debruçado sobre a rocha, contemplando a cruz, profundamente místico, não está muito distante de nós. Mas é importante desmistificar isso, para “encarnar” a realidade e aprender de forma catequética o modelo que foi e é Francisco, modelo de transformação de vidas e da sociedade. Fazendo uma reflexão acerca dos problemas sociais e políticos que Francisco enfrentou em sua época e o modo como agia diante deles, podemos dizer que ele foi um cidadão do seu tempo. Não foi egoísta a ponto de pensar apenas em si, mas foi atuante diante dos problemas sociais.

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Cidadão é o habitante da cidade no cumprimento dos seus deveres é um sujeito da ação, em contraposição ao sujeito de contemplação, omisso e absorvido por si e para si mesmo, ou seja, não basta estar na cidade, mas agir na cidade. São Francisco foi exemplo de cidadão no seu tempo, respeitou as leis e as autoridades, preocupou-se com a fome e as mazelas do seu povo, e tratava a criação com respeito. Francisco manteve uma relação direta de convivência e não de posse com cada ser da criação, tratava-se de um modo de ser e estar no mundo, não sobre as criaturas como quem as domina, mas de ser e estar junto com elas, usufruindo daquilo que era apenas para seu sustento. O franciscano deve desenvolver todo tipo de manifestação em defesa à vida, em todas as suas formas, seja por meio de debates, conferências, campanhas, e de gestos concretos, preocupando-se com todos os cidadãos que compõem a sociedade. Um dos maiores desafios do jufrista na atualidade é ser cidadão em um mundo tão cheio de desigualdades. Então, qual deve ser a nossa postura para que sejamos Cidadãos Franciscanos, comprometidos com nossa cidade, nossa nação, nosso planeta? De forma clara e objetiva, podemos listar algumas atitudes fundamentais em um cidadão franciscano: • Preocupar-se com a comunidade de forma solidária: buscar educação de qualidade para si e para toda a comunidade; exercer com dedicação o seu trabalho, oferecendo serviço de qualidade; manter-se informado com notícias sobre problemas da sociedade (saúde, educação, moradia, desemprego e destruição ambiental) e propagar de forma reflexiva estas informações, promovendo reuniões, debates, conferências, etc; e ajudar pessoas necessitadas, doentes, desabrigados, famintos e marginalizados. • Ser civicamente ativo, votar com consciência, escolhendo representantes que se preocupam com os interesses públicos, que cumpram as Leis e que sejam honestos; • Proteger o futuro da comunidade, reciclando o lixo e o eliminando de forma correta, economizando água e energia, entre outros. Tais atitudes parecem simples, mas ao longo do nosso dia a dia tornam-se complexas diante das várias realidades e contextos em que nos encontramos. Por isso, devemos ser audaciosos, corajosos e otimistas, a fim de assumir o nosso compromisso franciscano de vida enquanto cidadãos. Que possamos ser “sal da terra e luz do mundo”, sendo exemplo de cidadão assim como Francisco foi.

Referências: http://www.isb.org.br/imprensa/artigos/item/768-francisco-de-assis-um-homem-santo http://www.refeduc.com.br/institucionalunidades.vm?unidade=ref_saobernardino&id=75925894promove http://pt.wikipedia.org/wiki/Cidadania https://leonardoboff.wordpress.com/2013/06/02/a-atualidade-do-espirito-de-sao-francisco/

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Juventude Franciscana, Igreja e Sociedade vida em conjunto, que também podemos denominar de: agrupamentos sociais, sociedade, comunidade, fraternidade, é precondição para a existência humana, como também para a vivência da fé cristã. Não podemos viver isolados, a fé cristã não pode ser vivida fora da sociedade. O mundo é o palco de nossa existência e de nossas experiências, e pela nossa fé somos chamados a ser “sal da terra e luz do mundo” (Mt 5). O que isso significa? Isso significa que devemos ser atuantes no meio onde vivemos. Ser agentes de transformação, onde a transformação seja necessária, ser aqueles que, a partir de um grande ideal de vida, a luz de nossa fé, fazem deste palco um lugar de amor, solidariedade, justiça, paz e verdadeira fraternidade. Porém, sabemos bem que essa vivência por si mesma é permeada de desafios, sofrimentos, angústias, contradições. Vivemos também num mundo diverso, com diferenças culturais, sociais, políticas, teológicas, onde cada segmento muitas vezes defende pontos de vista distintos. E como harmonizar essas diferentes relações? Como distinguir, avaliar e decidir sobre o que defender? Um olhar crítico para essa realidade, o que implica voltar o olhar não só para os outros, como também para nós mesmos e para os lugares que ocupamos, é fundamental, e o primeiro passo, para que possamos encontrar uma resposta. Nesse contexto, a Igreja nos convida a uma reflexão, que também não deixa de ser uma autorreflexão: pensar, e fazer conhecer, sua relação com a sociedade. Essa reflexão se dá no seio da Campanha da Fraternidade com o tema: Fraternidade: Igreja e Sociedade; e o lema: Eu vim para servir (Mc 10,45). Nós, enquanto Jufra, dispomos a nos incluir nessa reflexão, pensando a relação da juventude, igreja e sociedade. É o que faremos aqui nesta sessão do Caderno de Formação. Não trazemos respostas, nem de todo esgotamos a reflexão, mas destacamos alguns pontos que consideramos importantes embasar as reflexões e iniciar esse grande período de diálogo, construção e sensibilização que é a Campanha da Fraternidade.

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CF istoricamente a Campanha da Fraternidade propõe temas que nos levam a refletir sobre dimensões importantes da vida a fim de nos posicionarmos critica e ativamente no que se referir a elas em nosso dia a dia. Vendo dessa forma, por si só ela já faz parte de uma proposta de relação da Igreja com a Sociedade. Assim, o tema da Campanha da fraternidade deste ano é muito mais que sugestivo, quando fala em “Igreja”, pois ela se coloca de forma mais enfática e expressiva à reflexão. É necessário, então, fazermos uma pequena observação de que Igreja é essa que estamos falando e buscando. Falamos da construção da Igreja, que com o Papa Francisco está tomando um rosto cada vez maior de “povo de Deus”, que caminha lado a lado com esse povo e não está alheia a sua realidade. Esta direção é resultado das propostas do Concílio Vaticano II, que muito bebeu da experiência latino-americana, tendo a potencial influência brasileira, de ser Igreja levando-as para toda a comunidade cristã. No Brasil, essas propostas foram bem acolhidas e privilegiadas nos seus diversos documentos, mas a prática ainda não é homogênea

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em todo território nacional, o que dá sentido à necessidade de campanhas para sempre nos lembrar de nossa direção e de nosso ponto de partida. Com a Campanha da Fraternidade deste ano vem a oportunidade de avaliarmos o que nós pensamos sobre a sociedade em que vivemos, pensarmos nossa participação nela como cristãos e como devemos dar um novo rosto para ela. E aos poucos nós vamos dando nossa contribuição na busca pela resolução dos problemas e questões que envolvem a sociedade e as relações da Igreja com ela. Uma importante direção de como deve se basear essa relação está no lema da campanha. O lema traz a mensagem do Evangelho que nos fala do serviço, da dedicação e da doação gratuita e sem restrição em favor do outro. Na Quinta-feira Santa quando recordamos que Jesus faz o gesto do lava pés temos o exemplo concreto que nos indica que a única coisa importante para nós é seguir o exemplo Dele: servir e não ser servido. É uma nova sociedade que Jesus projeta. A autoridade não é o exercício de poder, mas a qualificação para o serviço que se exprime na entrega de si mesmo para o bem comum.

JUFRA

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ós como Jovens Franciscanos inseridos nessa Igreja que aqui falamos, que aceitamos a mística do serviço como expressão do amor contido no Evangelho, e nos inserimos com maior paixão na vida do povo de Deus temos diversos exemplos e direcionamentos que nos

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ajudam a seguir o caminho proposto pela CF. Uma deles é a exortação de Francisco que nos diz e reforça o lema da CF: “Não vim para ser servido, mas para servir ( cf. Mt 20,28), diz o Senhor. Aqueles que foram constituídos acima dos outros se gloriem tanto deste ofício de prelado como se tivessem sido destinados ao ofício de lavar os pés dos irmãos. E se mais se perturbam por causa do ofício de prelado que lhes foi tirado do que por causa do ofício de lavar os pés, tanto mais ajuntam bolsas para perigo da alma” (Exortação de São Francisco, IV). Temos ainda nossas aspirações contidas na Carta de Guaratinguetá – “A Jufra que queremos ser” (2011) que, referindo-se à nossa relação com a sociedade, descreve: “reafirmamos ser presença desafiadora na sociedade, inserindo-nos no meio popular e assumindo-o, através da relação entre fé e vida, celebração e compromisso, humanidade e tecnologia. Queremos debater, articular e desenvolver trabalhos onde se faça ecoar nossa voz para denunciar todas as formas de opressão e injustiça, e participar das lutas para a construção de uma nova sociedade, a Civilização do Amor, baseada na prática da Justiça Social e da promoção da Paz”. CONCLUSÃO

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a sociedade atual as mudanças são tão profundas e constantes a ponto de se vislumbrar uma verdadeira mudança de época. É uma situação geradora de crises e angústias na vida pessoal, nas instituições e nas várias dimensões sociais. Vemos diversos problemas que afetam diretamente a vida da população brasileira: a demografia, a urbanização, a participação política, a economia, a pobreza, a exclusão, a violência, a degradação ambiental entre outros. Neste contexto de sociedade, nós como Corpo de Cristo, Igreja e jovens franciscanos estamos inseridos como agentes transformadores de realidades? Essas realidades que exploram e marginalizam o povo brasileiro. Nossa vida está sendo uma vida doada para a causa do Reino de Deus? Como, em nossa fraternidade, contribuímos para ampliar e fazer acontecer a relação da Igreja com a sociedade? Como avaliamos o desempenho de nossas paróquias e dioceses? Já observou quantas e quais são as pastorais que estão em atividade nelas? O que fazemos para mudar essa

realidade e contribuir com a construção de uma Igreja “povo de Deus”? Nós - Jufra, parte dessa Igreja e Eu indivíduo, somos chamados a ser essa conexão de Igreja e Sociedade. A Jufra quando está inserida em atividades com a Jornada Franciscana pelos Direitos Humanos e o Grito dos excluídos, e indivíduos quando assumimos nossa postura crítica diante das injustiças e nos lançamos nos universos: política, trabalho e educação, saúde, lazer, meio ambiente, etc. já fazemos algo. Mas recomecemos sempre! Precisamos fazer mais! É neste modelo que nós como franciscanos e, acima de tudo, como cristãos, somos chamados a adotar. A exemplo de Cristo, vivermos o amor libertador. Trata-se de viver de forma sempre atualizada, a missão de Jesus: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção, para anunciar a Boa Notícia aos pobres, enviou-me para proclamar a libertação aos presos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos, e para proclamar o ano da graça do Senhor” (Lc 4,18-19).

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O Diálogo Inter-Religioso “O diálogo religioso para os franciscanos não é mais um simples dado histórico, cultural, eclesial, mas é definitivamente Forma de Vida!” (Frei Vitório Mazzuco) termo “religião” origina-se do Latim “re-ligare”, o qual se relaciona à expressão “Re-ligar” Deus aos seres humanos. Leonardo Boff expõe no seu livro Nova Evangelização: Perspectivas dos Oprimidos (1991), da seguinte forma: “As religiões são re-ações à ação primeira de Deus. Elas são modos segundo os quais se recolhe a auto comunicação de Deus a suas criaturas. Elas são conduto da revelação de Deus para a humanidade, nas suas diferenças de tempo, de espaço, de modulação cultural...” Nesse contexto, temos as religiões como instrumentos de buscar a paz e a justiça, bem como outros valores morais que se destinam a dar sentido à vida. Francisco de Assis por excelência divulgou e promoveu a construção da paz e justiça no âmbito da Igreja Católica, como também em terras mulçumanas. Entretanto, no nosso cotidiano muitas vezes não é bem assim. Há muitos que propagam o preconceito e a discriminação contra outros grupos sociais e/ou religiosos, seja através da violência, da discórdia ou da intolerância, inclusive por meio de um discurso religioso que afirma que está fazendo isso em nome de Deus. A intolerância religiosa é um fato atual no Brasil e no mundo como podemos perceber nos noticiários, apesar da grande diversidade de crenças reunidas num só local.

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Constituição Brasileira diz que a liberdade de consciência e de crença é inviolável e que é garantida por lei a proteção aos locais de cultos e suas liturgias (art. 5º, VI). A Declaração Universal dos Direitos humanos diz que toda pessoa tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; este direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observância, isolada ou coletivamente, em público ou em particular (art. 18). www.jufrabrasil.org 18


Não dá mais para ver essa situação como algo natural ou esconder-se dentro do nosso “mundinho” de conforto, fingindo que a intolerância religiosa não é uma realidade presente e bem próxima de todos nós. Boff coloca ainda: “Hoje todas as culturas devem ser culturas civilizadas, quer dizer, culturas que renunciem a dominar as outras e que respeitem e acolham os valores das outras. O Evangelho se apresenta como alto fator de civilização na medida em que propicia a prática do amor, da fraternidade e a crença na filiação divina de todas as criaturas”. Hoje, não podemos continuar acreditando que só existe uma única forma de pensar ou de crer. Existem várias crenças e cada uma merece o respeito em prol de algo muito maior, que vai além do individualismo e por se tratar de tema de interesse coletivo. Daí a necessidade do diálogo inter-religioso e do respeito à diversidade religiosa na perspectiva da construção da paz. Não podemos aqui deixar de mencionar o histórico encontro de São Francisco de Assis e o sultão árabe Malik AL-Kâmil, parente de Saladino. Ocorreu em meados de setembro de 1219 quando a Ordem tinha adquirido estabilidade, Francisco seguiu para o Oriente. Este fato continua sendo um exemplo válido de um diálogo respeitoso entre os fiéis das mais variadas procedências. Assim, Francisco trilha um caminho que ultrapassa os limites não só territoriais como também os da intolerância e do ódio, já que ele, o pobrezinho de Assis, foi com a missão de pregar o Amor de Deus para com a humanidade através de seu Dileto Filho Jesus. O Santo de Assis rompeu com os esquemas culturais e religiosos de seu tempo, indo ao encontro daqueles que eram considerados não apenas dissidentes e diferentes, e de certo modo, como inimigos do seu credo. Soube ser irmão, dialogar, aprender deles e oferecer-lhes a proposta

de Jesus Cristo, como uma dádiva que poderiam acolher. Na Exortação Evangelii Gaudium, o Papa Francisco escreve “o diálogo inter-religioso é uma condição necessária para a paz no mundo e, por conseguinte, é um dever para os cristãos”. O Papa destaca que esse diálogo torna-se ainda mais importante nos dias atuais, seja porque o mundo tornou-se “menor” seja porque as migrações aumentam os contatos entre pessoas e comunidades de tradição, cultura e religião diferentes. Uma grande dificuldade para o diálogo entre as religiões é quando há fundamentalismo. Dom Francisco Biasin, membro da Comissão Episcopal para o Ecumenismo da CNBB, explica que quando a religião se torna motivo de guerra ou briga, se trai aquilo que é essencial da fé: o amor. Ainda na Evangelii Gaudium, o Papa Francisco exorta que, apesar dos obstáculos e fundamentalismos de ambos os lados, uma atitude de abertura, na verdade e no amor, deve caracterizar o diálogo entre as pessoas de diferentes religiões. Uma passagem do Evangelho que demonstra um sinal desse amor e filiação divina é o encontro de Jesus com a samaritana no poço de Jacó (João 4). “O simples pedido de Jesus é o início de um diálogo sincero, mediante o qual Ele, com grande delicadeza, entra no mundo interior de uma pessoa à qual, segundo os esquemas sociais, não deveria nem mesmo dirigir uma palavra.”, assim refletiu o Papa Francisco no ano passado por ocasião do Ângelus, na praça São Pedro. Que a exemplo de Francisco de Assis, possamos adentrar em territórios diferentes para propagar o Reino de Deus e acolher os marginalizados e excluídos, seja lá qual for a sua crença ou religião, para acima de tudo, buscar a paz e a justiça que a humanidade precisa.

Ecumenismo x Diálogo Inter-religioso O ecumenismo se dá com o respeito, o diálogo e a valorização das diversas pessoas de comunidades religiosas de denominação cristã. Seu valor se baseia na própria vontade de Jesus. O diálogo inter-religioso é o diálogo e a manifestação de fraternidade com pessoas e instituições de outras religiões não-cristãs. (Dom José Alberto Moura, CSS). www.jufrabrasil.org 19


Da vida de São Francisco, podemos tirar pistas do que seria o decálogo franciscano. 1 - TOMAR A INICIATIVA: “Nós, como primeiros, devemos pedir aos homens um colóquio, e não esperar que eles nos convidem a uma conversa.” (Paulo VI, ES, AAS 1964, 642) 2 - SER VOCÊ MESMO – Francisco exige dos irmãos que entrem em contato com outras religiões, que sejam simples e sinceros e confessem que são cristãos. (1Rg 16) 3 - CONFIAR NO OUTRO – Sem confiança e respeito diante dos homens e de suas convicções religiosas não há diálogo. 4 - COLABORAÇÃO MÚTUA – O espírito de colaboração e o sentimento de pertencer a mesma família humana apoiam a nossa missão franciscana em qualquer terreno. 5 - COMO INSTRUMENTO DA PAZ – Francisco foi ao sultão, não para combatê-lo, mas como instrumento da paz e o sultão, por sua vez, mostrou-se muito hospitaleiro, atencioso e respeitoso. 6 - AGIR PELA PALAVRA – Francisco distingue duas formas de diálogo: diálogo na vida e diálogo pela palavra (1Rg 16). No entanto prefere a primeira forma. 7 - NO MEIO DELES – Os irmãos e irmãs que participam do diálogo com heterodoxos, devem viver no meio deles, “estar com eles”, compartilhando suas condições de vida. Esta partilha é uma condição essencial para o diálogo franciscano. 8 - COMO IRMÃOS MENORES – Como menores, abster-se de ” rixas e disputas, submetendo-se a todos os homens por causa do Senhor” (1Rg 16,17). 9 - ANTES COMPREENDER DO QUE SER COMPREENDIDO – Em sua humildade e na disposição de escutar, Francisco aprendeu muito. O diálogo franciscano não é unilateral. Há de levar à conversão recíproca. 10 - O DIÁLOGO FRANCISCANO EXTRAI A SUA DINÂMICA DA ORAÇÃO – O diálogo com membros de outras religiões não é puro encontro em nível humano. É um presente de Deus, por isso deve estar enraizado na oração.

Referências: www.infojovem.org.br/infopedia/descubra-e.../dialogo-inter-religioso/. www.franciscanos.org.br/?livros=francisco-de-assis-o-ecumenismo-e-o-dialogo-inter-religioso. http://papa.cancaonova.com/primeiro-ano-de-francisco-o-dialogo-com-as-religioes/. http://www.cnbb.org.br/imprensa-1/internacional/13867-a-misericordia-e-maior-que-os-preconceitos-dissepapa-francisco. http://www.cnbb.org.br/comissoes-episcopais/ecumenismo/2774-ecumenismo-e-dialogo-interreligioso. BOFF, Leonardo. Nova evangelização: Perspectiva dos oprimidos. Petrópolis: Vozes, 1990. CURSO SOBRE O CARISMA FRANCISCANO- Movimentos Franciscanos, 1998.

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21 “O Filho de Deus se fez semelhante a nós em tudo, menos no pecado”.


O Franciscanismo e a Causa Social omo nos ensina a Tradição da Igreja e é ponto essencial da vida franciscana, todo homem e mulher tem a necessidade de uma vida social. Essa premissa é uma exigência fundamental de todo ser humano, sendo ele cristão ou não. Dessa forma a família humana vive um processo de mútua dependência no que se refere ao desenvolvimento de cada pessoa junto ao bem de sua comunidade, tendo claro que a pessoa é e deve ser o “princípio, sujeito e fim de todas as instituições sociais”. Partindo dessas afirmações, se todo ser humano deve buscar o bem comum, por consequência existe uma necessidade de viver em comunidade. Logo, surge então a seguinte pergunta: qual o compromisso com o bem comum que nós franciscanos e franciscanas devemos assumir junto à sociedade?

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“O Filho de Deus se fez semelhante a nós em tudo, menos no pecado”. O movimento franciscano não pode ser compreendido fora do itinerário que percorreu Jesus Cristo, pois em tudo Francisco e Clara buscaram imitá-lo. O caminho revelado por Jesus parte da realidade humana da ajuda aos mais necessitados, aos que tiveram fome, sede. Ele mesmo comeu com publicanos e pecadores e revelou o Amor de Deus a todos os homens e mulheres de seu tempo. Cristo nos exorta com sua vida a buscar o bem e a salvação de todo homem, principalmente daqueles

que são excluídos das mínimas condições de vida: os pobres, os aleijados, os mancos e os cegos, aqueles que não têm como retribuir. É desse ensinamento essencial de Nosso Senhor que nos vem a opção preferencial pelos pobres, implícita na fé cristológica naquele Deus que se fez pobre por nós, para enriquecer-nos com sua pobreza. E essa opção deve ser vivida por todos nós cristãos e cristãs que nos comprometemos em testemunhar nossa fé no mundo e no seio da sociedade contemporânea, tão necessitada de amor e justiça. Todo cristão é então convidado a seguir o exemplo de Jesus. E para nós, irmãos e irmãs franciscanos, ecoa a seguinte pergunta: qual deve ser o nosso compromisso com o bem comum e a justiça social? Nosso Pai Francisco, desde o início do seu processo de conversão, seguindo o exemplo de Jesus foi ao encontro dos pobres e leprosos prometendo nunca negar a nenhum deles o que pedissem por Amor de Deus. Sempre que se

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encontrava com os pobres e necessitados, Francisco tinha a certeza de estar com o próprio Cristo, Pobre e Sofredor, por isso ele segue com todas as forças o testemunho de Jesus, tornando a Vida franciscana um testemunho radical do Evangelho. Seguindo o exemplo de Nosso Senhor, o Pai Francisco e tantos outros franciscanos, no decorrer dos séculos, saíram de seu egoísmo e foram ao encontro dos mais necessitados, lutaram por um mundo melhor e até morreram combatendo as injustiças de seu tempo. E nós, pelo que lutamos na realidade atual onde estamos? Será que o mundo onde vivemos é um mundo perfeito onde todos vivem com Justiça e Paz, como num Paraíso? Infelizmente, não. No Brasil sofremos com uma desigualdade de renda gritante onde poucos têm muito, e muitos têm pouco. Apenas quinze famílias detêm o controle de cinco por cento de toda a riqueza produzida pelo País enquanto outros mais de dez milhões de pessoas vivem em uma situação de extrema miséria. Não é apenas a desigualdade que é o problema do país onde vivemos; ainda temos a violência, a falta de condições básicas de saúde e tantas outras problemáticas diante das quais não podemos fechar os olhos, deixando o nosso coração se perder em meio à chamada globalização da indiferença.

Mais do que procurar culpados, devemos sim ser uma alternativa, lutarmos contra essas desigualdades, protestando e mostrando nossa indignação. Ao adotarmos essas práticas seremos uma alternativa diante de tais problemas. Podemos e devemos, assim como Francisco, mudar o mundo com nosso testemunho de vida, buscando igualar-nos com alegria a todos os homens, especialmente aos mais pequeninos, para os quais e com os quais procuraremos criar condições de vida dignas de criaturas remidas por Cristo, irmãos e irmãs amados por Deus. O conteúdo da prática da justiça e da paz passa pela opção pelos excluídos e excluídas, mas implica ainda que tenhamos uma postura de não violência frente aos temas que envolvem a agressão, a exclusão e as injustiças. A vida de Jesus Cristo é o que Francisco de Assis tomou como sua Regra e Vida, o “cânon” da vida, segundo o qual nosso viver se defronta e confronta e que se traduz em práticas sociais de justiça e paz. Assim, Francisco ensina-nos então a nos comprometermos de forma radical à vida de Jesus, principalmente no compromisso com os mais necessitados, fazendo-se pobre com os pobres, num processo de ressurreição social e moral dos preferidos de Deus.

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A Presença no Mundo como sinal da Secularidade

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Juventude Franciscana do Brasil vive um momento privilegiado em razão da reformulação de suas Diretrizes de Formação, dando firme resposta à necessidade de compatibilização entre a espiritualidade e vida prática ao inserir mais concretamente no processo formativo do jovem franciscano temas relacionados aos Direitos Humanos, Justiça, Paz e Integridade com a Criação e à Ação Evangelizadora, assim como compor a Equipe de Formação com os Secretários desses serviços. Importante recordar, ainda, que no Congresso Extraordinário de reformulação do Estatuto e das Diretrizes de Formação, realizado em MogiMirim/SP, a JUFRA do Brasil reafirmou sua secularidade, conceito fundamental na vida de um jovem que opta por uma intensa vida fraterna, pastoral e sacramental, sem deixar de lado seus compromissos familiares, acadêmicos, profissionais e civis.

A conjugação destas duas escolhas aponta para a seguinte perspectiva: a maturidade presente nos jovens franciscanos quanto ao desejo de testemunharem no mundo o projeto de vida franciscano e a consciência de que tal objetivo deve passar por uma formação sólida e adequada. A Ordem Franciscana Secular, por sua vez, dentre as diversas secretarias de serviço que possui em sua composição, designa um irmão para a denominada “Presença no Mundo”, que justamente corresponde ao anseio e ao compromisso dos franciscanos seculares em desempenharem “o serviço para a edificação do Reino de Deus nas realidades terrestres” (art. 17.1. CGOFS). Este irmão torna-se responsável por coordenar as atividades nas mais diversas áreas que esta Secretaria pode abranger: diálogo inter-religioso, fé e política, ecologia, paz e todas as demais questões sociais, nas quais os franciscanos são convocados a optarem por “um relacionamento preferencial com www.jufrabrasil.org 24


os pobres e os marginalizados”, de modo a promoverem “a superação da marginalização e daquelas formas de pobreza que são fruto de ineficiência e de injustiça” (art. 19.2. CGOFS) A existência da Secretaria de “Presença no Mundo” na OFS, combinada com consolidação das Secretarias de “Ação Evangelizadora” e “Direitos Humanos, Justiça, Paz e Integridade com a Criação” na JUFRA, apontam para um caminho em comum traçado por estas duas instituições que, apesar de garantidas suas autonomias, cada vez mais dão passos de aproximação a partir da consciência de que a caminhada em conjunto com irmãos do mesmo carisma se torna mais leve e agradável. Portanto, com o firme propósito de se propor aos homens e mulheres de hoje um projeto no qual se alcance “um mundo mais fraterno e evangélico para a realização do Reino de Deus” (Regra, 14), JUFRA e OFS se comprometem, por meio de seus irmãos, a terem sempre em mente que “o serviço apostolado preferencial é o testemunho pessoal” (2 Cel 198), passando necessariamente pela formação de uma consciência madura acerca da secularidade, atributo inerente à nossa condição de vida. - Paz e Bem!

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Fazer o bem aos excluídos, um serviço necessário! Campanha da Fraternidade de 2015 nos convida a refletir a presença da Igreja na sociedade na perspectiva do serviço, como indica o lema “eu vim para servir” (Mc 10,45). No texto de Marcos (Mc 1,40-45) vemos uma forma especial de se viver a dimensão servidora da fé. Jesus se encontra com um homem leproso e o cura. A lepra deshumanizava a pessoa humana, tirava da sociedade, do contato, do afeto, da convivência, condições fundamentais para vida saudável. Jesus devolveu a humanidade aquele ser pois, sentiu compaixão, ou seja, assumiu a dor do outro. Fez desta dor, a sua dor, desta exclusão a sua exclusão. A compaixão manifestou-se no toque, no afeto e, posteriormente, na cura, sem que Jesus se preocupasse com a norma da pureza. Olhado, acolhido, acariciado o leproso sentiu-se humanizado. Venceu a doença física, e, em consequência, a exclusão social e religiosa. Os textos anteriores de Marcos já relatavam a comoção que Jesus causava por onde passava. “O ensinamento com autoridade”, aliado a cura, geravam uma grata surpresa nas pessoas (Mc 2,12). Isto porque Jesus as ajudava a entender o sentido das suas vidas e o seu lugar no Plano de Deus. Ensinava para libertar e não para fortalecer a opressão. As curas, sinais da presença do Reino, visavam devolver a dignidade às pessoas pela superação de um mal físico, mas com conotações religiosas e sociais. Muitos doentes eram vítimas de preconceito e suas doenças e limitações físicas tidas como consequência do pecado. Com estas duas atitudes Jesus interagia com a vida das pessoas e suas dificuldades e apontava para elas outras possibilidades para além de uma vida de exclusão e opressão. A admiração por Jesus era fruto do reconhecimento do bem praticado. No entanto, a opção de Jesus provocou a ira dos adversários. A ousadia em mexer na estrutura religiosa e social gerou perseguição (Mc 7, 1ss). Mas Ele foi fiel até o fim.

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O texto de Marcos traz para nós a pergunta pelos “outros” leprosos do nosso tempo e como a sociedade age diante deles. São muito bem descritos, com o termo “rostos sofredores”, no parágrafo 65 do Documento de Aparecida. O Para Francisco também menciona na Exortação Evangelli Gaudium ao falar das novas formas de pobreza (EG 210) e dos excluídos do nosso tempo (EG 53), fenômeno presente na sociedade e até mesmo nossas famílias. Estas atitudes decretam a morte das pessoas em três dimensões. Uma primeira é a morte social. As pessoas excluídas, que a sociedade rotula como derrotados, são considerados mortos socialmente, pois não produzem, não se relacionam, não trazem nem um bônus para a sociedade. Quando muito ela os tolera, e, se derem algum problema, lançam mão de políticas de higienização. São mortos sociais pois a eles é vedada a participação/interação na sociedade. A morte social conduz a uma segunda morte, a física. As pessoas vão morrendo aos poucos. O corpo não dá conta das moléstias, até mesmo porque dificilmente recebem um tratamento adequado. E o espírito não dá conta do desprezo, da falta de afeto e carinho. Aos poucos o fio da vida que segura se fragiliza e a morte vem antes do tempo. A morte social e física leva a uma terceira morte, a morte na memória ou histórica. Normalmente, na tradição cristã, rezamos por

nossos mortos, nossos entes queridos. A oração evoca a memória, a saudade. Personagens da história são lembrados com nomes de ruas, avenidas, praças e cidades. Contudo, alguns, que matamos socialmente e precipitamos a morte física, não tem nem direito a memória. Depois de morrerem são esquecidos. É a terceira morte. A morte na memória. No encontro com o leproso, na ousadia de tocar seu ser doente e impuro, segundo a tradição religiosa, Jesus está dizendo que a doença não é castigo e nem vontade de Deus. Com este gesto Jesus diz ainda que todo o excluído tem dignidade. Merece viver bem. Sugere que vá até o sacerdote para que seja declarado curado/puro “oficialmente”. Se a religião do tempo não cuidava e integrava os doentes ao menos tinha a prerrogativa de declarar uma cura. Jesus, com este gesto, nos provoca no sentido de lembrarmos que a pessoa humana tem primazia sobre toda a ação social. A sociedade está para a pessoa humana (DSI 106)). Uma sociedade que mata socialmente, fisicamente e na memória, também está morrendo. Cuidar dos excluídos é cuidar da sanidade da sociedade. Para os cristãos, acolher este princípio não é modismo ou atitude cosmética. É condição intrínseca à fé cristã (DAp 392). No serviço aos excluídos cumprimos o mandato de Jesus: “Eu vim para servir” (Mc 10,45).

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Ação evangelizadora enquanto ação social! Juventude Franciscana desenvolve uma missão valiosa, enquanto contribuição à ação evangelizadora da Igreja. O testemunho de muitos jovens permite este serviço evangelizador com criatividade e alegria. Seguem o princípio de que “jovem evangeliza jovem”, iluminados pela espiritualidade franciscana. Neste pequeno texto, buscamos aprofundar mais a compreensão da Ação Evangelizadora em um dos seus aspectos, a dimensão transformadora. A ação evangelizadora implica em anunciar Jesus e o Reino por ele proposto àquelas pessoas que ainda não o conhecem, ou então recuperar a proposta do Reino naqueles que perderam o sentido da fé (CNBB, 1995). É o ato de fé que impulsiona o jovem a sair de si. A fé em Deus, que se revelou plenamente em Jesus Cristo, motiva a anunciá-lo às outras pessoas, em outras realidades, para que essa experiência de graça seja ampliada. A ação evangelizadora tem sua centralidade no verbo “evangelizar”, o ato de levar a boa notícia do Reino (Mc 1,14) às pessoas. A missão de Jesus significou, em palavras e atos, esta boa notícia chegando às pessoas. E elas ficavam admiradas com a grata novidade (Mc 2,12). Foi o primeiro passo, de um longo processo, pois a admiração gerava a adesão e o compromisso com o Reino proposto, o discipulado (Mc 3,13). Existe outra dimensão da evangelização: ela chega às pessoas na perspectiva da transformação das suas vidas. Segue-se o princípio de “evangelizar para transformar”. A pessoa que conhece Jesus e sua proposta não permanece na passividade. Faz-se uma pessoa transformada, comprometida com o Reino anunciado pelo Mestre de Nazaré. Assim ocorreu com Francisco de Assis! A Boa Notícia ganhou transparência em sua vida e, ao conhecer “o Amor que não é Amado”, fez-se pleno de mudanças. Cabe lembrar que a transformação não fica na esfera pessoal. Ela se volta também para a realidade que carece de transformação, quando não é um espaço de vida justa e digna para todos. O Papa Francisco lembra que o anúncio do Reino deve provocar consequências sociais (EG 180). Pessoas transformadas compreendem a realidade transformada, segundo os critérios do Reino de Deus. Aí a evangelização assume também uma dimensão

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social: enquanto diálogo com as pessoas e intervenção na realidade. Diante disso, podemos lembrar o contexto social que Francisco de Assis vivia. A percepção da vida a sua volta o incomodou. As relações e valores edificados pela sociedade fez Francisco perceber o que destoava da Boa Notícia. Aquilo que para ele era revelado, agora “cantava e refletia” em suas novas palavras e ações.

O diálogo evangelizador dá-se com aqueles que estão com a vida fragilizada ou ameaçada, os rostos sofredores lembrados na Conferência de Aparecida (DAp 65). Evangelizar é estar presente junto a essas pessoas na perspectiva do serviço, pois muitas vezes o gesto de apoio, de carinho supera o discurso. É a caridade que transforma e liberta, por isso, evangeliza, torna o Reino de Deus presente no mundo (EG 176). A ação junto às pessoas compreende também a intervenção na realidade, quando esta não é favorecedora da vida, pois existe uma conexão íntima entre a evangelização e a promoção humana, que se deve exprimir e desenvolver em toda a ação evangelizadora (EG 178). É a dimensão profética da ação evangelizadora. Cabe cuidar das pessoas, das suas vidas. Mas é também responsabilidade do cristão estar atento para os ambientes e situações de ameaça à vida (EG 191). Ultimamente tem surgido um clamor referente ao espaço, onde a vida se desenvolve.

Somos convidados a escutar os clamores da mãe terra. A terra como casa (oikos) do ser humano está ameaçada. É necessário cuidar dessa casa, zelar pela sua integridade para que o tempo (cronos) em que estamos nela seja um tempo bom, mas com o compromisso de a deixarmos intacta para que as gerações futuras possam ali viver com dignidade. A Juventude Franciscana tem muitas contribuições a dar na ação evangelizadora da Igreja e não hesitar em fazer isto a partir do carisma franciscano. Francisco de Assis, fiel à sua regra de vida, o evangelho, ensinou a cuidar dos pobres e a zelar pela mãe terra; dimensões fundantes da evangelização. Foi fecundo nos seus ensinamentos. Confirmou aquilo que tomou como Regra de Vida: o Evangelho. Hoje, necessita-se fazer ressoar pelo mundo, com mais profundidade e significado, a seguinte frase de Francisco: "Tome cuidado com a sua vida, talvez ela seja o único evangelho que as pessoas leiam".

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A família e a Secretaria de IMMF

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s franciscanos seculares considerem a família como o âmbito prioritário para viver o próprio compromisso cristão e a vocação franciscana e nela deem espaço à oração, à Palavra de Deus e à catequese, empenhando-se no respeito à vida, desde a concepção, e em qualquer situação, até à morte. (Const. Gerais da OFS, art 24, n.1). “Ventre de alegrias e de provações, de afetos profundos e de relacionamentos por vezes feridos, a família é verdadeiramente «escola de humanidade” (cf. Gaudium et Spes, 52). É nessa “escola de humanidade” que se insere a missão dos Secretário(s) de Infância, Micro e Mini-franciscanos. Quando se trabalha com crianças e jovens, cabe a nós resgatar o valor da família e legitimá-la perante nossos irmãos mais novos, o que não é das tarefas mais fáceis. De partida temos que ter por base as proposições feitas no documento final do Sínodo sobre as Famílias no tocante aos aspectos socioculturais e desafios perante a nova realidade. Vale a pena dar uma olhada e começar a ruminar sobre o tema (http://www.vatican.va/roman_curia/synod/documents/rc_synod_doc_20141209_lineamenta-xivassembly_po.html).

Para nós, católicos, franciscanos, a família é uma instituição sagrada. Se não fosse, nosso Pai Seráfico teria aceitado que Luquésio e Buona largassem os votos que fizeram diante de Deus para ingressarem na vida religiosa. Temos que ter esta certeza e balizar nossos atos nos itens 7 e 18 do Manifesto da Jufra. Enquanto Secretários, talvez não sejamos dotados de preparo técnico, psicopedagógico para tal. Porém, devido ao serviço que assumimos e a “fragilidade” das famílias, não serão raras as vezes em que nos atribuirão o rótulo de segundo pai/mãe. Devemos ter o cuidado para, de fato, não roubarmos o lugar que não nos compete, ao passo em que devemos estar prontos para os conselhos a todo e qualquer instante e isso exige maturidade. www.jufrabrasil.org 30


O que fazer então? 1 – Demonstrar e dar carinho não é problema algum. Melhor seria se o ambiente (toda a fraternidade) fosse acolhedor. É bom que os adolescentes vivam e digam que se sentem família conosco. 2 – Nada de paternalismo/maternalismo. Há Secretários que chegam a assumir que determinada fraternidade não vive sem ele(a). Dê a vez a outros(as) irmãos e irmãs. Faça-os perceber o quanto nossa família é grande. 3 – Seja líder. É desafiadora essa missão, mas sem a presença de alguém que coordene gerase tumulto. A sempre doce e meiga Nossa Senhora também falou duramente com Jesus (Ex.: Quando ele se perdeu no templo / Bodas de Caná). Devemos admoestar os menores sempre que eles se distanciarem daquilo que estabelece a nossa proposta cristã e franciscana. 4 – Demonstre interesse por eles. Pergunte sobre a rotina escolar, seus resultados, assim como suas famílias e situações que já tenham partilhado. 5 – Seja parceiro da família deles. Ajude-os no processo de formação de seus filhos. Converse sempre que possível com eles. Promova encontros para conversarem em conjunto ou individualmente,

mas cuidado para não constranger / expor o(a) adolescente. 6 – Cuidado para não tocar em “feridas abertas”. Muitos deles passaram por situações delicadas na família e algumas foram tão traumáticas que nossos irmãozinhos têm receio de tocar em determinados assuntos. 7 – Ao abordarmos a nossa doutrina, é preciso ter cuidado na exposição dos temas, assim como ter sempre abertura ao diálogo. Temos que ser coerentes com o que acreditamos, mas é preciso primeiro ouvir a partilha das crianças e jovens, assim como suas opiniões, para depois orientá-los. Situações desafiadoras estão presentes em todas as famílias e eles, com certeza, também carregam essas inquietações e é preciso ajudá-los nessa compreensão. Não há uma fórmula e pode ser que alguém tenha alguma outra sugestão. Enquanto formadores de opinião, devemos ter em mente que nossa missão é formar cidadãos CRISTÃOS que tenham plena consciência de sua importância para a sociedade. Esperamos que entendam o real valor da família como se estabelece nas constituições da OFS. - Paz e Bem!

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Comunicação e Evangelização em Fraternidade

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uando falamos em comunicação no âmbito da nossa fé e de nossa Igreja, devemos ir além do simples conceito da palavra em si ou dos diversos meios que a promovem. Comunicação é antes de tudo a principal missão da Igreja, em obediência ao mandato deixado por Jesus Cristo antes de voltar aos céus: "Vão pelo mundo inteiro e anunciem a Boa Nova a toda criatura" (Mc 16,15); "vocês são as testemunhas..." (Lc 24,48) Evangelizar é comunicar o próprio Deus, a sua mensagem, o seu amor. Na realidade, comunicar é o jeito de Deus ser e agir, como nos diz João, no prólogo do seu evangelho: "Ninguém jamais viu Deus", mas “Ele se comunica em tudo que Jesus, na sua humanidade, diz e faz" (cf. nota de rodapé Jo 1,18). E Jesus tornou-se o modelo perfeito de comunicador para todo o gênero humano: expressava-se por meio de uma linguagem simples, valia-se das parábolas, aproximava-se afetuosamente de todas as pessoas e as acolhia (cf. Doc. 99 CNBB, n.44). Jesus comunicava o amor divino e a presença do Reino de Deus por palavras e atitudes. Francisco de Assis, no seu processo de conversão, foi descobrindo este modo especial de Deus se revelar: a partir de um sonho, deixa o seu plano de fama para servir o seu único Senhor; em oração, diante do crucifixo, assume a missão de reconstruir a Igreja, mesmo sem compreender inicialmente o verdadeiro sentido. Mas foi no encontro com o leproso que o rosto, o coração e a mensagem do Pai foram plenamente "comunicados" ao jovem Francisco, quando este compreende que assim deveria viver a partir daquele momento: "o leproso foi 'mediador de luz' para São Francisco de Assis, porque em cada irmão ou irmã em dificuldade, nós abraçamos a carne sofredora de Cristo" (Papa Francisco, Discurso no hospital São Francisco, JMJ Rio 2013). Francisco, após aquele dia, busca fazer do Evangelho a sua própria vida, na imitação e seguimentos dos passos e das atitudes de Jesus Cristo, comunicador do amor do Pai: ir ao encontro do outro, porque todos são filhos de Deus e, portanto, irmãos. Os franciscanos e franciscanas, de hoje e de todos os tempos, devem ser conscientes desta descoberta de Francisco: que a melhor forma de evangelizar, e ser evangelizado, é por meio do testemunho de vida e comunhão fraterna; deixarwww.jufrabrasil.org 32


se abraçar por Deus à medida que se abraça o irmão. A verdadeira comunicação brota do amor e gera fraternidade. Torna-se próximo quem se comunica, quem se doa, quem se aproxima do outro e o ajuda a se levantar... (cf. Papa Francisco citado em doc. 99 CNBB, n. 119).

A vivência da espiritualidade franciscana encontra na fraternidade o seu espaço privilegiado; os irmãos e irmãs são um presente de Deus, como afirmou São Francisco em seu Testamento: "o Senhor me deu irmãos". Por isso, todos os que admiram e seguem o carisma "francisclariano" são chamados a comunicar o amor de Deus como irmãos (fraternidade) e para os irmãos, priorizando o testemunho de vida como meio eficaz de comunicação. Quando palavra e vida, fé e testemunho, oração e ação não se encontram a própria Igreja perde credibilidade, como nos alertou Papa Francisco citando uma frase do "Poverello" (Francisco de Assis): "preguem sempre, e quando for preciso usem as palavras". (cf. Congresso Missionário Franciscano, Canindé 2013, n. 9). Hoje, quando se fala de comunicação, certamente pensamos em tantas e novas tecnologias que com rapidez e eficácia levam e trazem notícias e imagens, compartilham opiniões, promovem diversão e cultura entre as pessoas dos mais variados espaços geográficos. Vivemos no mundo dominado pelo "touch screen", onde "tudo" o que se deseja está a apenas um toque numa tela sensível. Porém, percebemos também que estes novos avanços trazem algo preocupante, e já bem visível: contatos e comunidades virtuais ameaçam tomar o lugar das relações humanas e comunitárias reais; e muitas vezes utiliza-se destes meios

rápidos de comunicação para disseminar o ódio, o preconceito e outros males. Afinal, o que pretendemos com este texto é trazer, neste espaço reservado ao serviço de comunicação da Juventude Franciscana, uma reflexão sobre esta realidade do ponto de vista da evangelização. Primeiramente, destacando que a fraternidade franciscana não vive para si mesma, mas, a exemplo de Francisco e Clara, é chamada a ser instrumento da paz e do amor do Sumo Bem. Usar como meio privilegiado e eficaz de anúncio o próprio testemunho de vida fraterna. Dizer que somos uma fraternidade é fácil; o desafio é ser de fato. É neste sentido que Santo Antônio exortava: "cessem as palavras, falem as ações". Que as pessoas de nosso tempo admirem-se e convertamse diante da nossa coerência, assim como no tempo das primeiras comunidades cristãs: "vejam como eles se amam...". O serviço da comunicação dentro e fora da fraternidade, na divulgação das atividades e no cuidado de preservar a história, é oportunidade para fortalecer as relações fraternas e assumir, pessoal e

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comunitariamente, a proposta cristã de "alegrar com os que se alegram, chorar com os que choram..." (Rm 12,15). Não pode haver fraternidade verdadeira quando não há comunicação, quando não mais se dialoga e, principalmente quando não mais se escuta o que o outro pensa ou sente. A insensibilidade é umas das maiores tentações em nossos dias e as nossas fraternidades, infelizmente, não estão livres deste mal: "passar horas trocando mensagens com pessoas distantes e não brindar com uma palavra sequer as pessoas do convívio próximo". Se, como cristãos e franciscanos, adotarmos em nosso agir as atitudes de Cristo, certamente

perceberemos, no seio de nossas fraternidades, tantos irmãos e irmãs "que querem e precisam ser tocados... Que anseiam em nos tocar para serem vistos, percebidos, amados". A exemplo de São Francisco, "deixemo-nos tocar e sermos tocados", a fim de que a nossa vida fraterna seja meio eficaz de comunicação perfeita entre o céu e a terra... (cf. Suellen Silva Simões - no site das Irmãs Franciscanas Alcantarinas). O amor de Deus nos dá a alegria de sermos irmãos, do próximo e de todas as criaturas; que esta alegria não fique aprisionada em nossas reuniões, mas seja comunicada ao mundo inteiro. (cf. EG 8)

Frei Erivelton Pereira de Passos, ofm (Assistente local da Fraternidade JUFRA Nossa Senhora das Graças, Floriano PI) - Coordenador da Assistência espiritual das fraternidades JUFRA no território da então Fundação Missionária Franciscana Nossa Senhora das Graças - Piauí, de 2004 a 2013; atualmente, assistente espiritual local da JUFRA de Floriano/PI.

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“É dando que se recebe!”

N

a oração atribuída a São Francisco chama-me a atenção a frase “É dando que se recebe”. Desperta certa curiosidade para a compreensão dela. Dar o quê? Receber o quê? Isso seria uma troca? A nossa fé cristã não se concretiza na troca de favores com Deus. Deus é o sumo bem, só ele é bom, é benevolente, é misericordioso, é amável... Deus não pode ser “comprado”. Ele nos amou primeiro (1Jo, 4,10), e isso já resume tudo. É por amor que enviou seu filho Jesus, que morreu na cruz para nos salvar. No entanto, refletindo um pouco mais veremos que dar, pode significar doar, servir gratuitamente, entregar, destinar, permitir... Para nós, jovens franciscanos, essa frase faz relembrar a vida do próprio Francisco de Assis, sempre disponível ao serviço e admoestava aos irmãos com relação a isso, não sejam irmãos moscas, aqueles que só se aproveitam das oportunidades, mas não realizam algo para/pelo outro. Por isso, somos chamados a “dar” o que estiver ao nosso alcance. E cada um de nós sabe o que pode dar, “ninguém é tão pobre que não tenha o que dar”. Do mais simples ao mais complexo, sim podemos dar o melhor de nós. Também pode ser um bom exercício de desapego, humildade e simplicidade. Mas o que ganhamos com isso? Na oração diz que é dando que se recebe, ou seja, primeiro precisamos fazer a nossa parte: ter a iniciativa de doar. O receber é consequência, quase um resultado daquilo que foi feito. E cada caso é único, quando, por exemplo, damos nossa atenção e carinho para alguém que necessita, alguém que talvez não vá fazer o mesmo por nós. Isso é amor, é dar gratuitamente sem esperar a troca. Porém, todos algum dia vamos precisar de um outro alguém na nossa vida, sem dúvida nenhuma esse momento irá chegar. Pois não somos autossuficientes. Mesmo aqueles que querem ser não conseguem. Não vivemos sozinhos. Sendo assim, gera-se na sociedade um bem: faço para você, que fará para outro, e esse outro para algum outro e assim sucessivamente... Acontece assim a “corrente do bem”. Ao compreendermos que é preciso primeiro realizar a ação de dar (doar); o receber será um resultado. Parece um pouco mais complexo, mas não é, quando fazemos isso por amor, uma vez que o maior mandamento que

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Jesus nos deixou foi “Amar, uns aos outros”, e todo aquele que ama vem de Deus e conhece a Deus (1Jo 4,7). Então o que precisamos doar é o nosso amor. Relacionando essa frase aos serviços seja, toda “doação” de coração fraterno faz crescer prestados à fraternidade, são constantes as doações. a “corrente do bem”. Por isso, TODOS NÓS Essas acontecem de várias maneiras: doação de DEVEMOS DOAR/ CONTRIBUIR/ SERVIR. tempo, de paciência, de dedicação, de Quando vemos a necessidade e o esforço companheirismo, de alegria, de força, de dinheiro, daqueles irmãos/ãs que viajam muitas vezes de de disponibilidade, de motivação. É preciso longe, passando mais de 12 horas para irem visitar alimentar cada vez mais em cada um de nós essa aquela fraternidade ou regional. Aqueles irmãos/ãs vontade de doar primeiro. Quando vemos algo se que passam a noite dedicando-se aos serviços da concretizando na fraternidade, alguém está doando Jufra. Aqueles que ficam “quase loucos”, buscando um pouco de si para aquela realização, e numa organizar e deixar agradável os encontros distritais, fraternidade não pode ser apenas um, são todos regionais ou nacionais. Todos estão doando e juntos que se doam mutuamente. Assim, colaborando para que o carisma franciscano, o consecutivamente, todos irão receber. “servir” seja em prol da paz e do bem, de uma Nas finanças da JUFRA, a compreensão da sociedade mais justa e fraterna. contribuição fraterna passa por esse crivo da Finalizo com pequenas perguntas para compreensão de dar/doar, de fazer a nossa parte reflexão: Compreendemos o sentido dessa frase: “é por amor. Por amor ao irmão/ã, por amor à dando que se recebe”? O que estamos “doando”? fraternidade, ao carisma, pois tudo que se realiza, Em que podemos servir? vem da doação que cada um faz. Por menor que

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10ª Edição do CNF da Jufra do Brasil

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