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JORNAL LABORATÓRIO DO CURSO DE JORNALISMO DO BOM JESUS/IELUSC

JOINVILLE, DEZEMBRO DE 2012 - EDIÇÃO 100 - GRATUITO Foto James Klaus

Bairros | PÁGINA 6

O desenvolvimento parou aqui

Estrada de acesso à Vigorelli indica descaso do governo Imprensa | PÁGINA 3

Jornal Primeira Pauta Completa 100 edições Reportagem especial apresenta principais momentos dessa trajetória

Geral | PÁGINA 8

Elo perdido no centro da maior cidade do Estado

Segurança | PÁGINA 7

Caos no sistema gera insegurança Vice presidente da Aprasc expõe versão da categoria sobre os ataques em SC

Moradores do centro vivem há décadas sem infraestrutura Foto Nayara Soethe

Cultura | PÁGINA 15

Turismo | PÁGINA 10

Um recorte da Bienal de Artes de São Paulo

Problemas no acesso à Cascata em Campo Alegre

Repórter do PP visita a 30º edição do evento e traz impressões contemporâneas

Esporte | PÁGINA 13

Pole Dance é encarado como esporte Praticantes da modalidade exaltam prática que vai além da sensualidade

Proibição de veículos no local prejudica opção de lazer no norte do estado

Assistência | PÁGINA 11

Mães lutam por mais direitos a especiais Associação de Mães de Crianças com deficiência quer auxílio do governo


02

Opinião

Joinville - Dezembro 2012 PRIMEIRA PAUTA

editorial

charge

Parabéns Primeira Pauta Quis o calendário de produção que os Laboratório, que é buscar temas não aboratuais estudantes tivessem a honra de pro- dados pelos jornais diários e tratá-los com duzir a edição de número 100 do Jornal profundidade. É o caso por exemplo da Primeira Pauta. Esse número é simbólico matéria “Elo Perdido” que identificou uma e indica o volume de edições produzidas comunidade localizada no centro de Joinnos doze anos que este jornal circula pela ville que, pasmem, não tem energia elétricidade. Para comemorar esta marca, nos- ca nem água encanada e está abandonada sos repórteres foram atrás dos estudantes pelo poder público. Isso sob a justificativa que ajudaram a construir de que a área é de preservaessa história. E foi na elação permanente. A área boração dessa matéria que precisa ser preservada, mas EDIÇÃO 100 aconteceram alguns dos a vida dessas famílias tamJornal laboratório momentos mais especiais bém, e não é compreensível dessa edição. O primeiro que o poder público conticumpre seu papel foi quando, ainda na etapa nue a se omitir diante dessa de experimentação de pesquisa, encontramos situação. A mesma realidade comprometido com a na biblioteca, encaderé encontrada na localidade comunidade nadas, todas a edições do da Vigorelli, onde os morajornal, desde maio do ano dores apenas ouvem falar do 2000, um momento único progresso, que passa as marem que encontramos na função de repór- gens dessa região. ter, por exemplo, na primeira edição, a enPor fim, essa edição ainda reserva gratas tão estudante Albertina Camilo que hoje surpresas, como o compromisso da repóré a editora chefe do segundo maior jornal ter Naiara Melchioretto em mostrar a luta de Joinville, o Notícias do Dia. Diversos das mães de crianças especiais para criar profissionais de destaque no mercado en- seus filhos com dignidade. O ano de 2012 saiaram suas primeiras matérias no Pri- trouxe muitos ensinamentos a toda essa meira Pauta. Entre eles Martín Fernandez, equipe que continuará, em 2013, com a repórter da Folha de São Paulo e Robson missão de honrar o agora, centenário JorBonim, repórter da Revista Veja. nal Primeira Pauta. Essa edição traz muitos exemplos de pautas que atingiram os objetivos do Jornal Boa Leitura! ACERVO COMPLETO. BIBLIOTECA DO IELUSC POSSUI encarte COM TODAS AS EDIÇÕES DO PRIMEIRA PAUTA DESDE MAIO DO ANO 2000

ombudsman

Jornal Laboratório do Curso de Comunicação Social - Jornalismo Associação Educacional Luterana Bom Jesus/Ielusc

EDIÇÃO 99 | Julho 2012 Contato com a redação Endereço: Rua Princesa Isabel, 438 - Centro CEP 89201-270 | Joinville | Santa Catarina

Telefone: (47) 3026-8000 - Fax: (47) 3026-8090 E-mail: jornalismoielusc@gmail.com

DIRETOR GERAL DO BOM JESUS/IELUSC | Silvio Iung DIRETOR DO ENSINO SUPERIOR | Paulo Aires COORDENADOR DO CURSO | Sílvio Melatti DISCIPLINA | Jornal Laboratório I PROFESSOR RESPONSÁVEL | Amanda Miranda EDITOR-CHEFE | Leandro Ferreira EDITOR DE FOTOGRAFIA | Natália Silva EDITORES | Andriele Pereira, Ednéa Anastácio, Juliana Gonçalves, Juliane Guerreiro e Mateus Pereira FOTÓGRAFOS | Ana Paula Padilha, Francine Rocha, James Klaus e Nayara Soethe DIAGRAMADORES | Aline Michalack, Johannes Halter, Luis Gustavo Varela, Oelen Del Puppo, Regiane Milke, Silvana Müller e Vagner Zimmermann CHARGE | Ednéa Anastácio REPÓRTERES | James Klaus, João Diego Leite, João Roberto Lima, Johannes Halter, Kauane Mello, Mikon Costa, Mateus Formigari, Naiara Melchioretto, Pamela Caetano, Patrícia Gagliotti, Priscila Hudler, Sabrina Idalêncio e Tatiane Vieira. IMPRESSÃO | A Notícia TIRAGEM | 3 mil exemplares

XXI Prêmio de Direitos Humanos de Jornalismo, MJDH - OAB/RS, 2004

Vi nascer o Primeira Pauta. Em 2000, era professor de Redação no Curso de Jornalismo do Bom Jesus/Ielusc. Volto para comentá-lo, às vésperas da edição 100. Parabéns a todos e todas que participaram e deram apoio às 99 edições. Sem a pressão das forças políticas e econômicas, e sem a necessidade de gerar lucro, o jornal laboratório pode e deve ser um espaço para ousar. Ir além das pautas convencionais, dizer o que outras mídias não dizem, trazer à tona o que submerge no “senso comum”. Compreender como se constrói uma sociedade profundamente desigual. Se para alguns é difícil aprender, mais difícil ainda é desaprender, desconstruir o pensamento, desintoxicar-se das obviedades. Nada mais ilusório do que as aparências. A edição 99 tem vários problemas, alguns esperados para um jornal laboratório, outros evitáveis com uma boa revisão. Há muitos erros ortográficos e gramaticais. Escrever bem é essencial à profissão. Há seis títulos que utilizam o recurso – desnecessário – de dois pontos. Na página 7, chega a ser redundante. “Câmara: vereadores de Joinville disputam a presidência do legislativo.” Ora, se são vereadores, onde exerceriam o mandato senão na Câmara? A matéria está, inclusive, defasada: “... e a realização do segundo turno pela frente, no dia 28 de outubro”.

O segundo turno já está às costas! Há outros enfoques mais adequados a um jornal mensal. Não quero me estender em excessivas singularidades. Mas não posso deixar de reparar que na página 16 a opção tenha sido por um título e arabescos em cor de rosa. Mesmo diante dos avanços e de tanta independência feminina, os clichês permanecem! E se a reportagem é sobre “mulheres empreendedoras”, entrevistar apenas uma é insuficiente. Seria importante comparar diferentes perfis e experiências. Na página 3, um toque de ousadia e plasticidade ao mostrar apenas as mãos do entrevistado. Coisas simples dão bons resultados! Para concluir, durmam e acordem com bons dicionários – etimológicos, gramaticais, ortográficos etc. Ler bons autores é imprescindível. E curar-se, com a máxima urgência, das ingenuidades políticas e dos preconceitos de gênero e classe. Muita humildade, nada de soberba. Viver para contar, eis um bom lema. Para isso, é preciso exercitar a paciência de ouvir. O tempo ensinará as outras respostas. Celso Vicenzi é jornalista, ex-professor do Bom Jesus/Ielusc e recebeu o Prêmio Esso de Ciência e Tecnologia (1985).


Especial

Joinville - dezembro 2012 PRIMEIRA PAUTA

03

Diagramação de Luis Gustavo Varela | Edição de Juliane Guerreiro

memória

Cem edições de experimentação

Com doze anos de história, jornal laboratório do Ielusc contribui para a formação de grandes profissionais Com uma história de mais de doze anos, o jornal Primeira Pauta, produzido pelos alunos da disciplina de Jornal Laboratório do curso de Jornalismo do Bom Jesus/Ielusc, chega à sua 100ª edição impressa. O PP surgiu em 2000, dois anos após a abertura do curso de Jornalismo na instituição e, entre polêmicas, destaques e informação, tem muita história pra contar. Celso Vicenzi, um dos professores responsáveis pela primeira edição do PP, lembra dos problemas que os alunos enfrentaram na produção dos quatro mil exemplares. “Os alunos estavam muito motivados, pois era justamente a primeira experiência para cada um deles e também a primeira para a instituição. Na época, não havia a facilidade tecnológica atual. Tudo era mais ‘artesanal’”, comenta. As pautas que compuseram a primeira edição, que teve a participação de 46 acadêmicos, consideraram o interesse da comunidade. As limitações na locomoção e acesso às fontes, o espaço do jornal e o tempo para a execução também foram fatores condicioFOTO ANA PADILHA

Albertina começou como estagiária de redação aos 18 anos

nantes. O prazo para a produção foi estourado e, com isso, mais um aprendizado. “Foi uma boa oportunidade para falar dos prazos de fechamento dos veículos de comunicação, do estresse das redações e da habilidade necessária para escrever rápido e com qualidade”, diz Vicenzi, que considera as outras 99 edições do PP uma oportunidade de melhorá-lo, pois, segundo ele, a “melhor reportagem é aquela que ainda não foi feita”. Desde 2004, quando passou a integrar o quadro de professores da instituição, Sílvio Melatti, atual coordenador do curso de Jornalismo, acompanha o PP. Por várias vezes professor da disciplina de Jornal Laboratório, Melatti não esconde o orgulho ao lembrar de edições anteriores. “Nós fizemos edições temáticas muito boas pelo conteúdo”, diz. O sucesso do jornal foi contemplado em 2004, quando recebeu o XXI Prêmio de Direitos Humanos do Jornalismo, concedido pelo Movimento de Justica e Direitos Humanos (MJDH), em disputa com jornais universitários de todo o país.

Os avanços gráficos são inquestionáveis. Conforme Melatti, a tecnologia é fator de peso para essa característica. “No início, as páginas eram montadas no PageMaker. Hoje, os recursos são melhores e o Primeira Pauta tem acompanhado o desenvolvimento gráfico dos outros jornais”, afirma o professor, que não defende a melhor qualidade também para os textos, pois a turma e o professor mudam e cada ano tem um padrão editorial diferente. “O espírito é não ter linha editorial, pois é um jornal laboratório. Houve anos que quem fazia o jornal era, em grande parte, profissionais da área e outros em que todos eram jovens em processo de aprendizado, o que permite qualidade de textos diferentes.” Em uma história de sucesso, no entanto, uma polêmica surpreendeu a todos em 2007. A matéria sobre receitas médicas concedidas de forma irregular trouxe a ética jornalística ao centro da discussão. Na edição 65, em outubro daquele ano, estava na capa o anúncio de uma matéria plagiada que não deu voz ao

contraponto. O fato gerou uma nota de repúdio da Secretaria Municipal de Saúde à matéria do Jornal Primeira Pauta e à acadêmica, assim como um processo judicial. Outro fato que marcou a história do PP para Melatti foi a procura, no ano passado, por uma clínica para publicar um anúncio no jornal. “O veículo cumpriu sua função, que é acadêmica, e foi além”, comenta. O que destaca a turma que participa atualmente da produção do Primeira Pauta, segundo o coordenador, é a boa distribuição. O sistema de controle adotado pela equipe promove maior popularidade do veículo, pois indica os locais de entrega das edições e o número de exemplares entregues. “Em vários pontos pedem reposição dos exemplares. Em outros anos, outras edições ficaram paradas na instituição, mesmo quando o número de cópias era menor”, lembra o professor, que viveu períodos em que eram produzidos somente 1000 exemplares, mas com a mesma dificuldade para a distribuição.

Atualmente editora-chefe do jornal Notícias do Dia de Joinville, Albertina Camilo de Castro Franco estava entre os alunos que participaram das primeiras edições do Primeira Pauta. Seus textos, que abordavam desde a vida de catadores de lixo até furtos de veículos, já davam uma pista de que não se tratava de uma iniciante no ramo. De fato, o primeiro contato com o jornalismo veio bem antes da faculdade. Nascida em São Ludgero, extremo sul de Santa Catarina, numa família de dez irmãos, Albertina começou aos 18 anos como estagiária de redação no jornal A Notícia, em Joinville. Aos seis anos, mudou-se para Joinville. O primeiro emprego foi aos 14, como aprendiz de costureira. Aos 17 foi morar sozinha. Ela

trabalhava como secretária quando viu o anúncio de estágio no jornal. “Comecei do zero. Logo no começo me botaram no fogo, com matéria para escrever”, lembra, destacando que aprendeu “com os antigos”. Alguns ainda hoje são colegas de trabalho. Do jornalismo não saiu mais. Do AN entrou e saiu para atuar em outras redações: no Jornal de Santa Catarina, Jornal Extra e o Jornal Estado. Os textos foram se aperfeiçoando. Quando entrou no curso de jornalismo, era editora de um caderno do AN. Inserida no mercado e com a prática da reportagem e edição na mão, foi atrás de uma faculdade. “Foram legais os debates e o contato com professores ‘cabeças’, estar no meio de

jovens com sonhos, curiosos para saber como é que era”, conta. “Busquei uma formação também por causa do respeito, valorização.” No entanto, Albertina diz que não aproveitou a faculdade como gostaria. O trabalho na edição tomava todo o tempo. Na época engravidou da terceira filha, hoje com 12 anos. “Levei quase dez anos para terminar a faculdade.” Durante esse período, a grade das disciplinas passou por mudanças, bem como as turmas. “Penso que os jovens que têm tempo para fazer a faculdade, devem aproveitar ao máximo. Quando é feito no seu tempo, acredito que é bem mais aproveitado.” Hoje com 49 anos e 30 de jornalismo, tudo o que ela olha pode virar pauta. “Não consigo desligar”, diz a editora que não descansa.

Editora-chefe do ND fez parte do jornal

Egresso em mídia nacional Em 20 de fevereiro de 2002, Robson Bonin, 29 anos, ingressou no curso de comunicação social do Bom Jesus Ielusc. Foram quatro anos dedicados ao estudo do jornalismo. Nesse período, Robson participou da produção do Primeira Pauta. Segundo ele, uma ótima experiência em sua vida. “Reveladora”, diz o jornalista, “me fez acreditar na grande reportagem e no jornalismo impresso como caminho”. Sua participação na produção do jornal foi intensa. Vários papéis foram desempenhados. “Fui repórter, editor e o primeiro coordenador do jornal. Não sei se a figura do coordenador ainda existe, mas fiquei na coordenação por dois semestres”. Uma das reportagens que mais marcou sua trajetória foi uma denúncia de precariedade do Hospital Municipal São José. “Publicamos a primeira edição colorida

do PP com uma grande reportagem sobre o drama dos pacientes. Encontrei uma fonte que me colocou no hospital como paciente e lá fiquei a madrugada toda ouvindo os dramas daquele hospital precário”, explicou. Robson Bonin iniciou sua carreira no jornal A Notícia, de Joinville, em janeiro de 2007. Logo após, se mudou para a sucursal de Brasília. Em outubro do mesmo ano, se tornou correspondente do jornal Zero Hora e dos jornais de Santa Catarina por dois anos. Depois, foi para a Rede Globo trabalhar no G1.com. Robson também passou períodos como setorista no Supremo Tribunal Federal, no Palácio do Planalto e no Congresso. Atualmente, o jornalista trabalha na revista Veja - há pouco mais de um ano - como repórter da sucursal de Brasília.

jornal em evolução FOTO ANA PADILHA

REPRODUÇÃO ARQUIVO PP

Desde a primeira edição, o jornal passou por mudanças gráficas em busca de clareza e ousadia na diagramação Maikon Costa maikonjornal@hotmail.com

Mateus Formigari mateusformigari2011@hotmail.com

Priscila Hudler priscila.hudler@gmail.com


04

Política

Joinville - Dezembro 2012 PRIMEIRA PAUTA

Diagramação de Johannes Halter | Edição de Juliana Gonçalves

Mensalão

Versões de crime, farsa e criminalização

Além das teses da promotoria e da defesa, há interpretações que revelam mais que a busca por Justiça

O

clima de torcida sob Acusação da promotoria o julgamento da Ação O conteúdo denunciatório da Ação Penal Penal 470, conhecida 470, como é chamado o caso, relata a forcomo “mensalão”, to- mação de quadrilha para compra de apoio mou conta do Brasil político com recursos públicos. Os crimes desde 2 de agosto. Os teriam acontecido durante o primeiro manveículos de comunicação mostraram cada dato do então presidente Luiz Inácio Lula da lance de forma espetacular. Os adjetivos Silva. Um elaborado plano de corrupção tedados pelo brasileiro aos réus são muitos. ria usado contratos com empresas do empreEnquanto os ministros do Supremo Tri- sário Marcos Valério para fazer lavagem de bunal Federal (STF) julgavam “o maior dinheiro público. Os documentos conteriam caso da história”, cada residência pôde valores com o adicional da compra dos votos acompanhar os melhores momentos do parlamentares e do pagamento de suborno caso no conforto do sofá. Agora, imagine para os intermediários do esquema. se a acusação fosse falsa e tudo não pasA versão defendida pelo Procurador-Gesasse, de fato, de um espetáculo. ral da República, Roberto Gurgel, sustenta É isso que defendem os autores do que esse plano mantinha a base do governo. livro “A outra tese do mensalão”. Eles “Tiveram por objetivo principal garantir um revelam uma ampla camprojeto de poder mediante a panha condenatória por compra de suporte político CRIMES DE ESTADO de outros partidos e finanmeio de jornais, revistas e emissoras. Os autores desciamento futuro de campaA acusação afirma mentem a tese principal nhas”, narra a acusação. Para a existência de um da acusação do Ministério isso, um núcleo do Partido complexo mecanismo Pùblico – esquema para a dos Trabalhadores (PT) – de corrupção entre a compra de parlamentares formado por José Dirceu, base aliada de Lula – e mostram documentos José Genoíno e Delúbio Soaque comprovam sua argures – usaria um sistema crimimentação. O livro não se noso composto por mais um tornou um best-seller, mas concorre por núcleo publicitário e outro financeiro. fora para explicar o caso. Porém, essa não A acusação constata ainda a utilização é a única versão divergente. do dinheiro para pagar dívidas de campanha Os 38 réus contaram com uma defesa do PT e seus aliados, além de repasses para de cerca de 150 advogados. A missão de- terceiros. A denúncia do MPF mostra que les: convencer os ministros da inocência o núcleo operacional cuidava dos contratos de seus clientes. No meio de campo, 500 e da distribuição do dinheiro. Fariam parte testemunhas davam suas versões sobre os dele funcionários públicos das instituições fatos. Aos ministros do STF coube anali- financeiras que intermediavam contratos e sar um arsenal com mais de 50 mil pági- empréstimos, além de pessoas dos partidos nas de autos. O resultado foram 25 réus envolvidos. Agências bancárias específicas condenados e 12 absolvidos de uma lista do Banco Rural eram usadas para saques vode sete crimes diferentes. lumosos com “laranjas”. Por meio das empresas publicitárias de Marcos Valério, o núcleo publicitário negoResumo cronológico ciaria com o governo. A acusação mostra que seus membros se esforçavam para con18 de maio de 2005 – É divulgada uma seguir tratamento privilegiado em licitações filmagem em que aparece o chefe do departada Câmara dos Deputados e do Banco do mento de contratações dos Correios na época, Brasil. Intermediários do plano de corrupMaurício Marinho, negociando licitações em ção auxiliariam para a concretização do retroca de suborno. passe dos contratos. Segundo Gurgel, o planejamento da qua9 de junho de 2005 – Congresso Nacional instala CPI dos Correios para investigar denúncia drilha aconteceu antes da posse de Lula em de corrupção relacionada a um suposto esque2002. “A suposta quadrilha teria funcionado ma do mensalão. a partir do ano de 2003, quando os crimes para as quais ela em tese se formou teriam 2006 – Processos de cassação na Câmara dos começado a ser praticados”. O esquema acaDeputados envolvendo o chamado mensalão baria após a denúncia do deputado Roberto condenam e absolvem parlamentares. Jefferson em 2005 sobre a existência de um “mensalão”. Curiosamente o estopim da his12 de abril de 2006 – O procurador-geral tória – a mesada de R$ 30 mil paga pelo goda República apresenta ao Supremo Tribunal verno aos aliados – não consta na acusação Federal (STF) denúncia contra 40 pessoas por do MPF, porque a tese foi abandonada pela envolvimento em um caso conhecido como promotoria devido à falta de provas. mensalão - Ação Penal 470. 2 de agosto de 2012 – Começa a maratona de depoimentos, análises e votos do julgamento da Ação Penal 470. Organiza-se uma grande cobertura midiática para o caso.

A última edição do Primeira Pauta contextualizou o escândalo do caso conhecido como mensalão.

06 Poder

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Ação Penal 470

Esquema de Caixa 2

Dinheiro do Estado é desviado por meio de contratos superfaturados.

Empresa vê vantagens em apoiar x partido e doa dinheiro para ele.

Empresas repassam o dinheiro do acordo ao partido x. O dinheiro está lavado.

Partido recebe o dinheiro e coloca em seu caixa financeiro.

Relatórios camuflam a lavagem de dinheiro feita por meio de corrupção.

Relatórios são falsificados para não aparecer o valor da doação ou a própria operação.

Dinheiro lavado é usado para comprar parlamentares.

Dinheiro não declarado é usado para pagar contas de campanha, dívidas dos diretórios e custos de campanha de alguns aliados.

Parlamentares comprados votam a favor do governo e seus projetos.

Crimes Envolvidos Art. 288 do Código penal Formação de quadrilha. De um a três anos de pena. Art. 317 e 333 do CP - Corrupção ativa e corrupção passiva. De um a doze anos de pena. Lei nº 9.613/98 - Lavagem de dinheiro. De três a dez anos de pena. Art. 312 do CP - Peculato. De dois a doze anos de pena.

Crimes envolvidos Lei 8.137/1990 - Sonegação fiscal. De dois a cinco anos de pena, mais multa. (Crime financeiro)

Lei nº 7492/86 - Gestão fraudulenta. De três a doze anos de pena. Lei nº 7492/86 - Evasão de divisas. De dois a seis anos de pena.

Ministros não caçam nazistas Outra versão sobre o caso contraria a denúncia do MPF. O assunto foi tema do livro “A outra tese do mensalão” dos jornalistas Raimundo Pereira, Lia Imanishi e Antônio Queiroz. Eles acreditam que há provas documentais de que o PT pegou empréstimos em bancos para financiar um caixa 2 eleitoral. Porém, rejeitam a principal tese do mensalão sobre a existência de um esquema para comprar apoio político de deputados. Eles afirmam que não existem provas suficientes para comprovar as acusações. De acordo com essa versão, deduções sem base material, inferência e transformação de indícios em provas dirigiram os trabalhos e preencheram lacunas da acusação. Possibilidades e não evidências fundamentaram os julgamentos. O papel de comprovação foi transferido para os denunciados e não ao acusador. Outro argumento questiona a teoria do domínio funcional do fato utilizada no julgamento dos reús. Essa teoria nasceu em 1939 e tinha o objetivo de condenar as autoridades da Alemanhã nazista sob a responsabilidade dos crimes cometidos durante a guerra. Eles argumentavam não saber da existência das atrocidades e essa teoria pôde condená-los.. A doutrina considera autor não apenas quem executa um crime, mas também quem teria a capacidade de decisão sobre a sua realização. Dessa forma, uma pessoa poderia ser condenada caso se deduza que era impossível que não soubesse da existência do crime. A respeito da acusação de corrupção, os

autores do livro consideram que houve crime eleitoral de caixa 2 e não crime de Estado. Caixa 2 é uma estratégia financeira utilizada para camuflar relatórios contábeis e fazer valores entrarem para um caixa fantasma. Essa prática configura crime de falsidade ideológica, o que é diferente de corrupção, lavagem de dinheiro ou compra de votos. Esse dinheiro vindo de empresas privadas era usado para pagar contas eleitorais do PT e fazer repasses para cobrir despesas de aliados. Os advogados dos réus criticaram a recusa do STF em desmembrar o caso. De acordo com o artigo 102 da Constituição, somente três dos julgados – João Paulo Cunha (PT), Valdemar Costa Neto (PR) e Pedro Henry (PP) – se encaixariam no julgamento exclusivo pela Suprema Corte. A defesa afirma que o direito à ampla defesa por meio das instâncias inferiores foi negligênciado ao julgar todos os réus com o foro especial. O PT afirmou, em nota do dia 16 de novembro, que o conteúdo da Ação Penal 470 representa a síntese de uma acusação político ideológica. Dessa forma, o MPF teria servido aos interesses de grupos políticos adversários ao então presidente Lula e da presidente Dilma Rousseff. “O STF faz política”, diz o documento destinado ao povo brasileiro, “e o fez ao julgar a Ação Penal 470. Fez política ao definir o calendário convenientemente coincidente com as eleições”. Segundo a nota, o STF deixou-se contaminar pela pressão dos inimigos do governo e não assegurou a isenção que deveria pautar seus julgamentos.


Política

Joinville - Dezembro 2012 PRIMEIRA PAUTA

Diagramação de Johannes Halter | Edição de Juliana Gonçalves

Tese coloca STF como vilão Uma terceira versão sobre a histó- outros partidos para induzir as acusações”. ria do mensalão aponta o julgamento do A maioria dos 11 ministros do STF foi inSTF como preparação de uma onda de dicada nos governos Lula e Dilma. Apesar criminalização dos movimentos sociais. disso, Serge diz que os membros do STF O principal defensor da tese é o membro tem claro qual lado defendem e quando da direção nacional do PT Serge Goulart, podem atacam os trabalhadores. ex-dirigente do Movimento das Fábricas O verdadeiro acordo da cúpula do goOcupadas – movimento presente em Join- verno para conseguir apoio era outro reveville com a fábrica Cipla até 2007. Segun- la o dirigente nacional do PT: “O combinado ele, o mensalão é uma invenção sem do para sustentar a base aliada consistia em lógica política. Apesar de não concordar pautar somente projetos que deixassem os com a forma de financiamento de campa- políticos e seus financiadores felizes, além nha por caixa 2 e com a orientação po- de lotear o Estado entre eles”. Ele cita o lítica da cúpula do PT e do governo, ele caso da reforma da previdência como acredita que não se pode admitir um jul- exemplo de projeto que não teve a necessigamento político pelo STF. dade de compra de votos. O dirigente argumenta que O dirigente petista reO objetivo do as condenações tem o oblembra que os projetos STF é desarmar jetivo de atingir as organique feriam os interesses os trabalhadores dos partidos da base aliazações populares. diante da crise da nunca foram pautados Segundo Serge, a crimieconômica nalização dos movimentos durante o governo Lula. sociais não é nova no Bra“Quero que me provem SERGE GOULART sil. Como exemplo, ele cita um só caso que fosse preDirigente nacional do PT os conflitos nas ocupações ciso comprar votos da base do Movimento dos Trabalhadores Sem aliada para aprovar algo”, indagou Serge Terra (MST) e durante as greves. “O ob- ao falar das ações dos governos Lula e Diljetivo do STF é desarmar os movimentos ma, “todos os projetos atendiam aos intepara que os governos apliquem no Brasil resses dos financiadores dos parlamentares medidas amargas diante da crise econômi- ou dos próprios deputados diretamente”. ca mundial”. Seminários e fóruns pautam Ele lembra que a reforma agrária nunca foi o assunto por todo o país. pautada no Congresso, apesar de ser De acordo com o uma cobrança popular histórica relatório divulgado dos movimentos. ano passado pelo MoComo proposvimento Nacional de ta para balancear Direitos Humanos, a discussão, Serge há uma lista extensa Goulart tem defende movimentos sociais dido a necessidade brasileiros que tivede realizar um enram suas ações transformadas contro nacional de trabaem crimes. Além do MST, estão na lista: lhadores em defesa do PT, da o Movimento das Mulheres Campesinas CUT e contra a criminalização do mo(MMC); o Movimento por Atingidos por vimento operário e popular. A proposta Barragens (MAB); a Coordenação das Or- também envolve a discussão sobre como ganizações Indígenas da Amazônia Brasi- anular as condenações contra militantes leira (COIAB); a Associação Brasileira de dos movimentos sociais seja por meio de Gays, Lésbicas e Transgêneros (ABGLT). projeto de iniciativa popular, projeto de Os alvos da nova etapa da criminaliza- lei ou medidas de anistia. ção descrita por Serge são as organizações Johannes Halter como o PT, a Central Única dos Trabahaltercontato@gmail.com lhadores (CUT), a União Nacional dos Estudantes (UNE), sindicatos, entidades estudantis e seus militantes. “O que aconteceu no STF foi um salto de qualidade na criminalização. Agora você poderá ser condenado porque luta por algo que o judiciário não está de acordo”. Goulart antecipa isso como munição para as instâncias inferiores basearem seus julgamentos. Dessa forma, não seriam necessárias provas incontestáveis, bastaria o magistrado usar a doutrina do domínio de fato e deduzir que existiu crime. De acordo com a análise de Serge, o julgamento do STF se baseia em acusações a partir da intuição pessoal e de caráter político do Procurador-Geral da República, Roberto Gurgel, e dos ministros. “O STF se refere constantemente ao PT como se fosse uma quadrilha criminosa”. Também destaca que a acusação que desencadeou o caso nunca foi provada. “A ficção científica de Roberto Jefferson foi abandonada. Então usaram o esquema de caixa 2 com

Criminalização dos movimentos sociais Movimentos sociais se mobilizam para cobrar ações do governo. Empresários consideram seus interesses ameaçados caso as cobranças sejam atendidas. Políticos financiados por esses empresários barram a aprovação das reivindicações e aprovam leis que as impessam. Também favorecem seus financiadores. Juízes são comprados ou têm ligação com os empresários. A lei então enquadra a luta dos movimentos sociais como crime. Militantes e movimentos sofrem perseguição política e jurídica: multas, prisões, restrições, regras limitadoras e abertura de inquéritos em várias lutas. Aparato de repressão do Estado polícia, exército, sistema penal - age contra movimentos e militantes. Repressão aos movimentos, assassinatos e coações são abafadas por meio de suborno.

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aliança PT e base aliada segundo Serge Goulart PT se alia com partidos comprometidos com interesses contrários aos dos movimentos. A aliança prevê o não atendimento das reivindicações populares que ferem os interesses dos partidos da base aliada. Parlamentares da base aliada dão sustentação ao governo federal. Governo apenas encaminha projetos e faz ações que atendam ou não contrariem os interesses desses partidos. O acordo consiste em o PT frear as reivindicações populares contrárias aos interesses dos financiadores dos parlamentares aliados. Em troca recebe o apoio deles na Câmara dos Deputados. As discussões do PT sobre alianças substituem as de programa em nome do “projeto nacional”.

Entrevista: Luiz Gustavo Rupp

O presidente do Centro dos Direitos Humanos (CDH) de Joinville, Luiz Gustavo Rupp, concedeu entrevista à reportagem do Primeira Pauta sobre a criminalização dos movimentos sociais. O advogado e professor relata uma agitação política iniciada durante a Operação Condor – repressão generalizada aos opositores das então ditaduras latinas – que tem como característica a transformação da luta por direitos em crime. Primeira Pauta - Qual o cenário que o senhor observa da criminalização dos movimentos sociais no Brasil? Luiz Gustavo - A primeira coisa é verificar o papel dos movimentos sociais diante do próprio Estado. Todos os direitos sociais existentes decorrem de greves e de uma série de movimentos ao longo dos últimos dois séculos. Porém, há também um movimento para obstruir essas conquistas. A criminalização acontece quando o próprio Estado, usando todo o seu aparato judiciário e policial, acaba combatendo os movimentos sociais. O Estado brasileiro acaba então atuando na defesa de uma ordem arcaica. Primeira Pauta - Quais as formas que a criminalização assume nesse conflito de interesses? Luiz Gustavo - A criminalização utiliza principalmente o sistema penal, por meio de uma legislação que prioriza mais a defesa da propriedade do que o direito à vida. Isso resulta em prisões, ameaças e perseguições. Em Joinville, o maior exemplo disso é a luta pelo transporte público. O que observamos são decisões judiciais que condenam criminalmente lideranças e pessoas por combater por um modelo diferente. A cidade também já teve situação parecida com o movimento das fábricas ocupadas. Isso tudo ocorre para inibir a luta dos trabalhadores e oprimidos de forma geral. Primeira Pauta - Como os últimos governos agiram em relação à cobranças históricas do campo e da cidade? Luiz Gustavo - Um dos aspectos negativos dos últimos governos foi o pouquíssimo avanço no que diz respeito à reforma agrária. Mas a repressão por parte deles foi pequena em compara-

ção com o governo do Fernando Henrique Cardoso. Um caso emblemático foi o dos petroleiros em 1995. Naquela greve o objetivo do governo era fazer exatamente a mesma coisa que a Margaret Thatcher fez na Inglaterra durante a greve dos mineiros (1984-1985): não apenas derrotar os trabalhadores, como também destruir os próprios sindicatos. É óbvio que, se você busca suprimir direitos dos trabalhadores, você vai enfrentar uma resistência por parte deles. Então é preciso acabar com essa resistência. O grande laboratório dessa prática foi a própria América Latina, com o Chile em 1973. Um golpe de Estado derrubou um governo democraticamente eleito e implantou a ditadura mais cruel do continente. O objetivo: implantar a política econômica neoliberal da Escola de Chicago, com privatizações, desmantelamento dos serviços públicos e ataque às organizações populares. Primeira Pauta - Quais as perspectivas para a solução dos problemas que esses homens e mulheres se dedicam para alcançar com lutas e debates? Luiz Gustavo - A perspectiva tem que ser dada pelos próprios sindicatos e movimentos organizados de um modo geral. Eles que tem que se organizar para levar esse combate até o fim. Boa parte do que está na Constituição até hoje não foi implantado, inclusive os direitos sociais. Então, se de um lado é necessário um combate no campo institucional, por outro lado os movimentos sociais têm que estar sempre alertas para garantir as ações de batalha de suas organizações. Cabe aos próprios movimentos estabelecer as estratégias políticas para garantir a efetivação e a ampliação de direitos.


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Diagramação de Silvana Müller | Edição de Juliana Nogueira foto James Klaus

Moradores e comerciantes aguardam soluções. Veranistas buscam lazer

Os antepassados Segundo o livro “Histórias dos Bairros de Joinville” (Fundação Cultural/1992), o povoamento desta região é relativamente antigo, data mais de 200 anos, embora estudos arqueológicos nos sambaquis comprovem a presença humana há mais de 5 mil anos. Todo a área é rica em vestígios deixados principalmente nestes sítios, sendo o principal deles o sambaqui Cubatãozinho, às margens do rio Cubatão e da rua João de Souza Melo Alvim ou Estrada da Vigorelli. Estudos realizados nos mais de 40 sítios arqueológicos de Joinville comprovam a prática da agricultura, da pesca e coleta de moluscos como forma de subsistência dos sambaquianos. Na localidade Vigorelli encontram-se os sambaquis Cubatão I, Cubatão II, Cubatão III, Cubatão IV, Ribeirão do Cubatão, Ponta das Palmas, Iririú, Guassu e Cubatãozinho, todos catalogados pelo Museu Arqueológico de Joinville.

Situação da Vigorelli está no limite

A beleza natural da localidade camufla problemas de infraestrutura, como a falta de energia elétrica

O

movimento intenso de turistas em busca de gastronomia, pescaria esportiva ou para se banhar nas águas da Baía da Babitonga dá à localidade um charme todo especial. Porém, o acesso não pavimentado, a inexistência de energia elétrica e a interdição do trapiche mostram a realidade do lugar. As águas da pequena praia joinvilense são próprias para banho, segundo análises quinzenais da Fundação do Meio Ambiente (Fatma), mas a presença de cães que circulam livremente pode oferecer riscos à saúde, embora essa situação esteja melhorando. Para a veranista joinvilense Alba Regina da Silva, aposentada de 56 anos e moradora do bairro Aventureiro, há alguns anos havia muito mais animais perambulando pela orla. Ela diz que adora a praia e prefere frequentá-la durante a semana, pois é mais tranquilo. “Sempre trago a família e amigos para curtir esse visual lindo da Baía da Babitonga. Meu marido adora se banhar nessas águas.”, diz. Alba também recomenda os restaurantes da região, que segundo ela, são limpos e têm uma proposta gastronômica à base de frutos do mar. O funcionamento adequado desses restaurantes só é possível graças ao uso de geradores de energia. Segundo Deisi Seiler, 19 anos, comerciante e filha do presidente da associação local, a falta de energia elétrica e o fraco sinal telefônico traz muitos problemas para toda a comunidade da Vigorelli. Ela comenta que existem moradores que vivem ali há mais de 40 anos, e até para pedir socorro em caso de emergência fica difícil, pois o celular só funciona em alguns pontos da praia. Outra moradora, Thais de Sousa, de 25 anos, diz que o gerador instalado em casa precisa de manutenção constantemente. Ela conta que teve que pagar R$ 1, 3 mil pelo conserto recentemente e agora deu problema novamente. Segundo Thais,

técnico disse que precisará trocar o motor do equipamento, o que custará mais R$ 1,8 mil. “Todo esse prejuízo pelo fato de não recebermos energia elétrica da rede pública. Dizem que não podem instalar postes por conta do Ibama, mas como a água encanada foi autorizada? Pagamos nossos impostos, como o IPTU. O governo deveria resolver essa situação de uma vez por todas”, desabafa. O pescador Antonio de Sousa, 51 anos, mora há 17 anos na Vigorelli e vive um dilema. Ele conta que devido à falta de energia elétrica, é complicado manter o pescado em condições adequadas. Devido a isso, procura atender somente as encomendas, pois se estocar, corre o risco de perder o que pescou. Diante dessa situação, resta procurar emprego fora da região. Mas aí o problema é o deslocamento. O transporte público até atende os moradores com a linha Vigorelli, mas o primeiro ônibus passa às 07h10 – segundo Antonio é tarde para quem precisa chegar ao Centro ou outros terminais - e o último ônibus passa às 17h50, segundo ele, muito cedo para quem trabalha em empresas ou no comércio. “Bastaria que a linha Cubatão, que funciona até mais tarde, viesse até à praia, não dá nem um quilômetro e os jovens daqui teriam opções de trabalhar em outras atividades”, diz ele. Tonho, como é conhecido, também comenta a falta de salva vidas na Vigorelli. Ele diz que estes treinam no local semanalmente, pois a água é limpa e fica perto da cidade, mas não há uma contrapartida para a comunidade. Questionado a respeito, o comandante operacional do Corpo de Bombeiros Voluntários de Joinville, Heitor Ribeiro Filho, diz que antes de dispor um destacamento para o local é necessário avaliar se não estaria, dessa forma, incentivando a ocupação numa área de preservação ambiental per-

manente, que é o caso da Vigorelli. “Recebemos a solicitação de salva vidas da comunidade, porém, a região está em processo judicial, não há uma decisão ainda. Nem sei se a Vigorelli é um balneário oficial, se eu colocar salva vidas lá, terei que colocar em todos os rios balneáveis de Joinville, é uma questão complicada”, diz o comandante. Sobre a segurança dos frequentadores da praia, outro problema que preocupa é o trapiche de 65 metros de comprimento por 2,20m de largura construído em 1979. Na época ele foi edificado com pilares e vigas de sustentação de concreto, e o tablado feito de madeira foi substituído por laje de concreto em 1984. Reformado pela prefeitura em 2004, choques provocados por embarcações abalaram a estrutura do píer, causando a interdição pela Defesa Civil em abril de 2012. Na época, o gerente da Secretaria de Infraestrutura (Seinfra), Thalles Vieira, disse que iria solicitar ao Patrimônio da União a construção de um píer flutuante e a demolição do atual que, segundo laudo técnico, é irrecuperável. A representatividade local da comunidade se dá através da Associação de Pescadores e Moradores da Vigorelli, que tem como presidente o comerciante Nelson Alberto Seil. Na questão de infraestrutura, os moradores são unânimes quanto à necessidade de um sistema de saneamento. A maior parte das 200 casas utiliza fossas de concreto ou sumidouro para não lançar o esgoto diretamente na baía, e assim, comprometer a qualidade da água. Outra questão é o trecho não pavimentado da estrada de acesso, muito utilizada para quem vai fazer a travessia marítima entre Joinville e São Francisco do Sul. O secretário Seno Luiz Morais de Oliveira, da Secretaria Regional do Jardim Paraíso, disse que os cerca de 800 metros não pavimentados do acesso à Vigorelli – e ao ferry boat que faz a travessia de 600

metros da baía - depende da liberação do Ibama. Ele diz que o asfaltamento da Vila Cubatão e a parte da estrada Vigorelli foi uma parceria entre o município e o Governo Estadual. Se o restante da via fosse asfaltado, economizaria muito com manutenção. “Instalamos 5,2 mil tubos ao longo da via, mas o trecho restante só sai com a autorização do Ibama. O mesmo serve para a instalação de postes e fios de telefone. Não pode ser feita nenhuma obra”, ressalta. A equipe do Primeira Pauta conversou com o Diretor-presidente da Fundação Instituto de Pesquisa e Planejamento para o Desenvolvimento Sustentável de Joinville (Ippuj), Vladimir Tavares Constante, que reiterou a necessidade de um processo de regularização fundiária. Ele disse ainda que fazer obras em área de preservação ambiental pode resultar em mais um processo contra o município, como a ação Civil Pública proposta pela Procuradoria da República e denunciada ao Ministério Público Federal em 1º de junho de 1999. Nos autos, a Fundação Municipal do Meio Ambiente (Fundema) constatou o aterro, desmatamento dos manguezais e supressão da vegetação em área protegida por lei. O processo tramita na Justiça sem data prevista para um parecer até o momento, conforme disse o presidente do Ippuj. Sobre esse assunto, o Diretor Executivo do Ippuj, Gilberto Lessa dos Santos, declarou que a saída para não prejudicar os moradores é fazer um levantamento socioeconômico para ver quem tem só uma residência e realmente vive ali há muito tempo, para regularizar a situação fundiária, definindo um perímetro para as casas. O restante da área pertenceria a um parque náutico, num misto de área pública e de moradia. James Klaus james_klaus@ymail.com


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Diagramação de Patricia Gaglioti | Edição de Leandro Ferreira

“Nosso modelo de segurança é arcaico”

Para Elisandro Lotin de Souza, vice-presidente da Aprasc, a sociedade deve discutir que tipo de modelo quer

A

população catarinense esteve apreensiva no último mês com os ataques criminosos que ocorreram no Estado. Ônibus foram incendiados, delegacias foram atingidas, e uma agente penitenciária morta. Ainda que a ligação entre os crimes não tenha sido comprovada, os fatos expõem a fragilidade da segurança pública. Elisandro Lotin de Souza, Policial Militar e presidente da Associação dos Praças Catarinenses (Aprasc), fala sobre a instabilidade da atividade policial e sobre o falido modelo de segurança brasileiro, que prepara o Policial Militar (PM) para ver a sociedade como seu inimio. Como está a situação da Polícia Militar depois dos ataques ao Estado? Nas duas semanas que foram o ápice dos ataques, nosso nervosismo era visível. Eu tenho uma arma particular que nunca usei, sempre deixava em casa, passei a levá-la comigo. O policial se vê com um alvo nas costas. A profissão por si só é estressante, nós trabalhamos com a parte da sociedade que ninguém quer, e isso é muito complicado. Com essa situação, o estresse triplicou. O meu medo era que matássemos alguém por engano. O estouro das motos, por exemplo, se confundem com tiros e em uma situação de estresse era possível que reagíssemos. Você falou sobre os policiais serem alvo nos ataques recentes. Existe alguma política de segurança da PM para garantir, por exemplo, que não se trabalhe onde se mora? Não existe. Temos um caso recente de um policial militar de Florianópolis que teve que sair do lugar onde morava e ir para outro local onde pudesse manter sua segurança pessoal, pois começou a receber ameaças. O Estado não o ajudou. E isso tem se intensificado nos últimos cinco anos. Cada vez mais somos alvos em potencial. Nós da Aprasc estamos exigindo do governo que tome providências contra isso, como uma legislação mais dura que possa inibir ações contra os policiais militares. O Secretário de Segurança do Estado afirmou que entende esses ataques como uma onda de efeito midiático. Você concorda? Com todo respeito ao secretário, mas é uma falta de tato político muito grande colocar a responsabilidade nos outros. Se ele é o secretário de segurança, ele quem tem, por dever de ofício, que evitar isso. O fato é que o Estado tem que agir dentro do presídio para que o preso se recupere e tem que dar condições para a segurança pública. Nós sugerimos algumas soluções no auge dos ataques. O primeiro passo era isolar os mandantes dos crimes; depois aumentar o efetivo nas ruas e nos presídios; as revistas teriam de se tornar diárias, uma vez de manhã e outra à tarde; distribuição do quite de proteção individual para o PM, com colete e pistola, que ficaria permanentemente com ele; e por fim, o Estado deveria abrir os cofres para investir em segurança. Exceto o

Fotos Patricia Gaglioti

aumento do efeivo, as outras medidas não foram tomadas. Os presídios cumprem a sua função social? Nunca. De jeito nenhum. Os nossos presídios são depósitos de pessoas, que um dia irão voltar para a sociedade, e ela ainda não acordou para isso. Nós estamos criando animais dentro dos presídios. O Brasil descumpre a lei de execução penal vergonhosamente. Cria-se uma lógica de que é preciso prender e prender, quando não basta prender sem recuperar o cara. Há uma previsão na lei para que isso seja feito, mas isso não é cumprido. Não se tem ideia, por exemplo, de quantas pessoas estão presas e poderiam estar cumprindo penas alternativas. Agora, aqui em Joinville, o juiz João Marcos Buch tem feito um papel fantástico e questionado isso. E os outros juízes desse país, estão onde? Cadê os políticos? Existe uma legislação específica para os policiais militares? O policial militar tem um estatuto e código penal militar próprio, o qual abrange polícia militar, exército, marinha e aeronáutica, e ele é muito rígido. Nós fizemos uma greve em 2008 que foi considera pelas autoridades como um levante contra o Estado e resultou em 22 expulsões da polícia militar e mais de mil policiais punidos. No entanto, com a criação da Aprasc há 10 anos, os militares passaram a ter maior representatividade e a associação passou a ter o respeito deles. Criamos uma conjuntura política que mesmo com essa legislação rígida, torna-se inviável segui-la a ferro e fogo. O que precisa ser feito é tornar os profissionais militares cidadãos. Muitos direitos que vocês têm, a nós é vedado, como a sindicalização. A legislação permite entidades associativas como a Aprasc, mas sindicato não. Nós não podemos falar em direitos humanos para o policial militar se ele não tem seus direitos humanos respeitados. Um exemplo claro: um PM pega uma pessoa com 20 kg de cocaína, leva para a delegacia, dependendo de como ele for enquadrado, assina um termo circunstanciado e sai, mas esse mesmo policial que prendeu a pessoa vai para o quartel, está sem o chapéu e pode ficar quatro dias preso. Isso é absurdo. O que a Aprasc prega é uma polícia de sociedade e não uma polícia de Estado, mas para que isso aconteça, a sociedade precisa debater segurança pública de forma séria. Nós já tivemos pequenos avanços na educação, na saúde, mas na segurança não. O nosso modelo é o mesmo modelo de 1808, quando Dom João VI aportou no Brasil. Como essa policia da sociedade agiria, por exemplo, em manifestações populares onde não se vê muito cuidado no diálogo com manifestantes? A polícia recebe ordens. Se eu não cumpro a ordem, o preso sou eu. Os órgãos de segurança pública e a polícia militar, preponderantemente, têm sido usados para atuar

Há 19 anos policial militar, Elisandro nunca matou ninguém

contra a sociedade. É isso que nós não queremos. Nós desejamos uma polícia que fundamentalmente dialogue com a população. Ao longo da história da Aprasc, temos tentado criar uma cultura de conversa, de análise da atuação da PM para com a sociedade. O melhor policial militar na concepção dos governantes é aquele que não pensa, é aquele que só recebe ordem e cumpre, mas nós temos feito esse debate a nível de Santa Catarina e Brasil, e isso já mudou muito.

rir esse policial na sociedade. Há algum modelo de segurança pública tido como ideal? Eu acho que o modelo ideal é o modelo que a sociedade quer. Modelos para gestão de segurança pública existem vários, cada país tem o seu. O modelo norte-americano é interessante, poderia ser analisado aqui, o europeu também. Mas eu penso que a sociedade tem que fazer esse debate, ela quem tem que criar a responsabilidade de decidir o modelo que quer.

O que é a desmilitariComo é a relação entre a zação? polícia militar e a polícia Desmilitarizar para civil? Ela pode compronós é trazer o policial Os nossos presídios são depósitos meter a segurança púpara a sociedade, claro blica? que com regras, nin- de pessoas, que um dia irão voltar Compromete. Apesar guém aqui está que- para a sociedade do discurso burocrático rendo virar baderneide que há uma tentativa ro. Mas o que achamos de junção (no sentido de é que o militarismo é complemento de funções), prejudicial tanto para a policia quanto o fato é que há sim uma divergência entre a popara a sociedade, porque é uma doutri- licia civil e a militar, e eu não estou dizendo algo na. Hoje talvez nem tanto, mas há 10, novo, isso já ficou evidenciado em algumas si15 anos ele era treinado para a guerra e tuações no Brasil todo. As bases da polícia civil prestava um serviço de segurança públi- e militar, os agentes e praças, se dão tranquilaca, a lógica é diferente. Quem faz curso mente, cada um cumpre seu papel sem problede táticas na PM, por exemplo, fica uma ma nenhum. As brigas entre as instituições se semana no mato, passando por todos os dão nas cúpulas e por poder. É um querendo tipos de humilhações possíveis, e depois mandar mais do que o outro, e obviamente a você pega esse cara para tratar de segu- sociedade é a prejudicada. rança pública. Naturalmente ele vai agir Patricia Gaglioti João Diego Leite de forma violenta. Então, quando fala- pstahlgaglioti@yahoo.com.br juandiego.rojo@yahoo.com.ar mos em desmilitarizar, falamos em inse-


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Diagramação de Aline Michalack | Edição de Ednéa Anastácio

Moradores do centro no Elo Perdido

Comunidade vive no morro do Mirante sem energia elétrica e sem água encanada em pleno século XXI

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a área conhecida como Comunidade Mirante, cerca de 19 famílias moram no final da rua Otto Lepper, no morro da Boa Vista, centro da cidade. Com quase nenhuma infraestrutura, falta de saneamento básico, pavimentação, transporte, água tratada e energia elétrica, os mais de 400 moradores passam por uma verdadeira prova de resistência. Atualmente, a área é de preservação ambiental e está acima da cota 40, que limita a construção de casas, mas na época em que a maioria dos moradores chegaram –há mais de 40 anos – essa regulamentação não existia. As dificuldades são muitas. Atividades simples como tomar banho, assistir TV, bem como receber correspondências – mesmo o carnê de Iptu – ou jornais, são um desafio pra quem vive no local. A faixa etária dos moradores varia entre crianças e idosos, como dona Genoveva Sabine Vicente, de 84 anos, 53 deles vividos na comunidade. Ela criou ali os oito filhos, á base de luz de velas ou lamparinas e banho em bacia, numa casa simples, mas, segundo ela, sempre limpa e sem deixar faltar comida na mesa. Nem a morte precoce do marido a fez desistir dos filhos e da vida. Natural de Camboriú, dona Genoveva perdeu a casa durante um temporal, não lhe restando outra alternativa a não ser morar com parentes em Joinville. Pouco tempo depois mudouse para a comunidade Mirante, na época uma plantação de bananeiras entrecortada por trilhas. Foram dois anos trabalhando como doméstica, 12 anos na Fabril Lepper e 14 anos na Consul, “sempre na produção e sem reclamar”, conta orgulhosa. A aposentada é vizinha da nora Ilda, Fotos: Nayara Soethe

cuja ajuda e supervisão são fundamentais, tinuação da rua da prefeitura– não será pois a saúde ficou debilitada após um en- mais reaberta. “Não é possível fazer obras farto. “Minha nora e meus filhos olham por ou melhorias em áreas de preservação ammim, pois já não posso mais lidar na plan- biental, o município pode ser denunciado tação e fazer serviços pesados”, diz. Mas al- e processado. Para aquela comunidade ali gumas tarefas simples, como tomar os sete é necessária uma regularização fundiária, medicamentos na hora certa, tornam-se di- e isso só é possível através da criação dessa fíceis. Ilda teme pela sogra nas madrugadas, lei de regularização. A lei de Ordenamento quando dona Genoveva acende velas para Territorial, que tramita na Câmara de Vetomar o remédio correto. “Tenho medo readores seria a saída, mas está em questão por ela, pois a casa é de madeira e, para ela, judicial. Enquanto isso, não pode nem coandar com pouca luz, ir ao banheiro, é ar- locar postes para levar energia elétrica para riscado”, comenta a nora. a região”, explica. Os problemas não param por aí. No epiApesar de todas as dificuldades, dona sódio do enfarto, a dificuldade para o socor- Genoveva brinca quando alguém lhe perro dos paramédicos à paciente foi enorme. gunta se a energia elétrica já chegou ao Mesmo quando um morador precisa sair morro, e ela responde: “Até os macacos do com o carro para uma emergência é com- zoobotânico, logo ali, têm luz à vontade. E plicado, já que nós, aqui, pagando a rua não conimpostos, estamos ta com ilumicomo corujas, tonação pública dos no escuro”, cone não recebe Pagamos nossos impostos em dia, mas ta a aposentada. manutenção Alguns morahá mais de um beneficios comuns que o povo lá de baixo dores possuem geano. Quando tem, como energia elétrica, água encanada e rador a diesel, cuja chove por um saneamento básico, nós não temos aqui. manutenção é cara longo período e constante. Os –fenômeno consertos podem comum na cidade- o problema aumenta. chegar até R$1.800. Outros utilizam batePara piorar, a encosta da rua Otto Lepper ria automotiva, que requer cargas periódisofreu um desmoronamento, estreitando cas que podem custar até R$ 20 a cada dez perigosamente a via, que acabou sendo fe- dias e é suficiente para no máximo alimenchada pela prefeitura. tar um pequeno televisor de sete polegaSegundo o diretor-presidente da Fun- das e uma lâmpada de 40 watts. Geladeira dação Instituto de Pesquisa e Planejamen- então, nem pensar. No máximo uma caixa to para o Desenvolvimento Sustentável de térmica de 60x50 cm, abastecida com gelo Joinville (Ippuj), Vladimir Tavares Cons- trazido da “civilização”, como eles mesmo tante, a entrada pela Otto Lepper –con- dizem. Outro problema é o banho. A água

disponível –limpa e abundante- é captada do morro da Boa Vista. Mas chuveiro, só frio. Aristides Cavalheiro, de 56 anos, é reciclador de materiais e diz não se importar com o banho frio. Natural de Curitibanos, oeste do estado, mora na comunidade há 32 anos e conta que é acostumado com o frio, mas faz ressalvas: “Eu vim da roça, sou acostumado com a simplicidade, mas meus netos e as crianças em geral sofrem para tomar banho nos dias frios. Aqui tem gente idosa com problemas pulmonares, e fica bem difícil, pois se pegar uma pneumonia não tem como socorrer rapidamente, morre tossindo”. Ele também aponta outras carências na região, como a falta de saneamento e transporte público. Aristides mora ao lado da casa da mãe, dona Isaura Melo, de 79 anos. Acostumada ao trabalho na roça em outros tempos, orgulha-se em ter uma pequena horta e um pomar com árvores frutíferas que produzem fruta-doconde, tangerina, banana-maçã, ameixa entre outras. “Eu quase não como as frutas, mas vem muitos pássaros, macacos, tudo que é bicho. O sagui é muito levado. Se deixar, ele entra e mexe nas coisas dentro de casa, fica mal acostumado mesmo”, conta, sorridente. Mas a vida de dona Isaura neste paraíso tem dias difíceis. Muito difíceis. A saúde dela não vai muito bem e nas emergências é necessário ser levada rapidamente de carro ao pronto socorro. Em média, precisa de auxílio médico três vezes ao mês. Em algumas ocasiões, mais que isso. Ela conta com a ajuda dos três filhos que moram na comunidade, mas um deles, Francisco, o mais velho, também enfrenta Da janela, a vista da zona sul


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Diagramação de Aline Michalack | Edição de Ednéa Anastácio

Aristides está há 32 anos na comunidade

Rádio de pilha é indispensável

Dona Genoveva e sua “geladeira”

Dona Isaura e o filho José: problemas de saúde

Energia elétrica não chega às casas

problemas sérios de saúde. José Cavalheiro, de 65 anos, é o terceiro filho de dona Isaura e também reclama do abandono das autoridades. Ele comenta que a comunidade até tentou formar uma associação de moradores para assim ter maior representatividade junto aos órgãos do governo e lutar por melhores condições. Mas a associação não foi adiante porque, segundo ele, faltou mais união em torno da causa. José também indigna-se pelo fato de pagar os impostos e taxa de recolhimento de lixo e receber tão pouco em troca. Lembra ainda da quantidade de candidatos que vieram à comunidade com promessas que nunca foram cumpridas e das vezes que os moradores foram até a prefeitura para pedir melhorias. Diz que foi tudo em vão. “Aqui já veio tudo que é assessor e candidato a vereador, a deputado, a prefeito, todos prometendo colocar os postes para trazer a luz para nós, arrumar a rua e outras promessas. Depois que se elegem nunca mais aparecem e não fazem nada que prometeram. Neste ano também veio um candidato a prefeito, não vou dizer quem é. Teve outro que assumiu e prometeu que até o fim do ano de 2012 resolveria. Até agora nada”, diz José. Outro morador, que não quer ser identificado, disse que há alguns anos um prefeito fez propostas de compra ou troca por outro imóvel e que alguns moradores aceitaram. Ele diz que o plano de agentes imobiliários é fazer um condomínio de luxo no local, tudo amparado pela Lei de Ordenamento Territorial (LOT) a ser aprovada. Mas a proposta da LOT acabou parando na justiça e está sendo discutida pela atual legislatura na Câmara de Vereadores e Conselho da Cidade (lei federal). A tese do morador é de que com a aprovação da LOT, projetos grandiosos que não atendiam às resoluções do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) ficariam dentro da lei, como também empreendimentos imobiliários em margens de rios e encostas de morros já demarcados, como é o caso da Comunidade Mirante e de outros 350 projetos que aguardam pela aprovação. Viver no centro da cidade em pleno século 21 sem infraestrutura mínima é uma arte. Aliás, falando em arte, a comunidade teve um morador ilustre no meio artístico catarinense e do país. O escultor Mario Avancini (1926-1992) nasceu em Rodeio em SC, era descendente de italianos e trabalhou por décadas no calçamento de ruas em Joinville. O trabalho pesado e a simplicidade faziam parte da vida de Avancini, que ficou conhecido como o poeta da pedra. Ele morou por muito tempo na comunidade. Os mais antigos lembram dele. Alguns chegaram a dividir o canteiro de obras com o artista. Apesar de todas as dificuldades que enfrenta, a Comunidade Mirante é um lugar encantador. A diversidade de árvores como jacatirão, ipê amarelo, guapuruvú, cedros, itaúba, canela, cafezal, Maria-mole,frutíferas entre outras plantas ornamentais, como orquídeas e bromélias produzem frutos e flores o ano todo. Mas na primavera e no verão, as borboletas, o canto dos pássaros e assobios dos saguis faz contraponto ao murmúrio da cidade, lá em baixo num ritmo frenético, mas na comunidade, tal qual um elo perdido no

tempo, a vida segue lentamente, onde a mata atlântica é respeitada, mesmo com o íntimo convívio humano. Isolados

Após o fechamento da rua Otto Lepper restou aos moradores um único acesso, pela rua Pastor Guilherme Rau, via que também acessa o zoobotânico, a RBS TV e o Miran te. Mais uma vez, a sorte não está a favor da comunidade, pois aos finais de semana e feriados essa rua fica congestionada, im pedindo o trânsito de quem quer que seja “Há dias atrás aconteceu uma discussão al porque o pessoal não conseguia passar com o carro e acabou em pancadaria. A coisa fo feia, briga mesmo! Tudo porque não tem ninguém para organizar o trânsito, man dar estacionar direito, não fechar a rua Como fica se alguém precisar descer daqui ou, pior, se uma ambulância, ou corpo de bombeiros, ou polícia precisar nos aten der? Simplesmente não tem como passar Antes até dava para fazer o caminho mais longo, aqui pela Otto Lepper, saindo lá na prefeitura. Mas e agora, que ela foi fechada? Acabamos isolados aqui!”, explica Negrito o filho mais velho de dona Genoveva. O diretor executivo do Ippuj Gilberto Lessa dos Santos diz que o acesso que fo fechado é irregular e que não há como fa zer contenção do barranco que desmoro nou na rua Otto Lepper. Ele também fala do projeto de um parque ecológico para a região, que será instalado de acordo com o plano de manejo do Morro da Boa Vista Esta ação definiria um perímetro limite para as casas remanescentes e através de um levantamento socioeconômico, resolveria as questões individuais, de acordo com o planejamento estabelecido pela Secretaria da Habitação. Ele ressalta ainda, que, por se tratar de uma Área de Proteção Permanen te (PPA), o município precisa de estudos e licenças ambientais específicas para fazer qualquer melhoria, e que se não proceder assim, estaria promovendo a ocupação irre gular da região. Infância difícil

Os netos de Aristides e outras crianças da comunidade percorrem diariamente cerca de 600 metros de estrada de chão até o ponto onde embarcam numa van escolar fretada. Não é preciso lembrar que nos dias de chuva é comum se molhar. Chegar à es cola intacto, seco, sem lama, é tarefa quase impossível. Algumas crianças estudam no Colégio Heriberto Hülse, no Germano Timm ou Geovani Faraco, e nenhum é perto para ir a pé. O gasto com transpor te é inevitável. Outra dificuldade é fazer as tarefas escolares à luz de velas. Elas tentam fazer o que for possível à luz do dia, mas ler um livro, escrever um texto ou resolver uma equação matemática na penumbra é com plicado. Muitos da comunidade não têm televisão, então a informação fornecida por noticiários só é possível através do rádio ou de telefones celulares com acesso a web, ou tro artigo de luxo. Constrangidas, algumas crianças evitam comentar com os colegas da escola sobre esse cotidiano “diferente” sem computador, videogame ou televisão.

James Klaus james_klaus@ymail.com


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Diagramação de Pamela Caitano | Edição de Juliane Guerreiro

Ponto turístico com destino incerto Cascata Paraíso, em Campo Alegre, divide opiniões entre moradores, proprietários e poder público FotoS: SaBRINA IDALENCIO

Paredões da cascata têm altura de 60 metros, mas sua profundidade, ainda incerta, inspira lendas no município

A

o passar pelo portão, a brisa leve traz o perfume dos eucaliptos. O verde enche tanto os olhos que as placas de “proibido carros” e a corrente proibindo-os soam sutis. Sim, os 150 metros de trilha até os cânions devem ser percorridos a pé ou de bicicleta. Em poucos minutos de caminhada é possível ouvir o barulho da queda d’água misturar-se ao canto dos pássaros. O espírito da cascata justifica o seu nome: Paraíso. No entanto, a tranquilidade que o local inspira não chega aos trâmites judiciais que definem o seu destino. Apesar de ser considerado patrimônio, trata-se de propriedade particular. A Prefeitura de Campo Alegre solicita na Justiça a desapropriação de pouco mais de 18 mil m² de área, o que corresponde à trilha de acesso e ao paredão da cascata. Um perito determinou o valor do local em R$ 175.845,25, dos quais R$ 67.993,50 já estão depositados pelo poder público. Em segunda instância, a desapropriação está garantida. A CRH Indústria e Empreendimentos Ltda, empresa proprietária do local, recorreu da decisão, alegando que o valor de mercado corresponde a quatorze vezes esse valor. Porém, ao ser procurada, disse preferir manter em silêncio as questões relacionadas à negociação da área. O caso tramita na Justiça em terceira instância. As águas que escoam pelos paredões de 60 metros são as mesmas que trazem a história do município. A cascata é o principal cartão postal de Campo Alegre e sua beleza é exaltada na letra do Hino Municipal. Locali-

zada a poucos metros da Prefeitura, fica bem no coração da cidade, sendo o ponto turístico mais visitado. É possível subir o paredão por uma trilha aberta no mato. Do topo, todo o centro da cidade pode ser contemplado. Antes de pertencer à CRH, o local ainda era terreno particular, mas servia de palco para a Festa do Pinhão, que envolvia toda a comunidade entre os idos de 1964 a 1993. Após essa data, a cascata passou a funcionar como sociedade recreativa da Tigre S/A. “Era necessário se inscrever muito tempo antes para conseguir passar um final de semana na cascata de Campo Alegre. No inverno, era o local mais concorrido”, relembra a ex-funcionária da Tigre, Ana Simões. Agora, a cascata não tem mais essa funcionalidade. Nos últimos meses, o assunto cascata incendiou as redes sociais. Por solicitação do Comtur (Conselho Municipal de Turismo), o local permanece fechado para carros e motos desde fevereiro deste ano. “A solicitação de fechamento para carros nasceu também de reclamações da comunidade e da constatação de abuso de som alto, vandalismo, agressões e até de garrafas quebradas dentro do leito do rio, colocando em risco a segurança dos visitantes”, esclareceu a secretária de Turismo, Marília Crispi de Moraes. Questionamentos a respeito da acessibilidade por parte de deficientes físicos também foram colocados. “Por enquanto, trata-se de propriedade particular. Portanto, as obras para facilitar o acesso ainda não podem ser viabilizadas”, diz Marília. Vários

equívocos pipocaram nas postagens, como alegações de que a Prefeitura paga aluguel da cascata, o que não procede. O engenheiro civil Gabriel, 33 anos, que pediu para não ter seu nome completo divulgado, é turista assíduo da cascata. “Deixei minha mulher ali na loja fazendo compras e vim aqui com a minha filha passear”, conta em pleno domingo nublado. Nem mesmo as raízes que prendem as rodas do carrinho da filha com poucos meses o fazem pensar em ter alguma obra no local. “Eu prefiro da forma como está o acesso, natural, mas para um cadeirante seria necessário um deck”. Gabriel preferia se deslocar até a cascata de carro, mas diz concordar com a proibição para evitar abusos. Ao ser questionado sobre o que o faria visitar mais a cascata, comentou que uma estrutura com mesas e cadeiras seria interessante. “Mesmo assim, penso que haveria mais lixo, mais depredação da natureza. Tudo tem os dois lados, assim como a proibição dos carros”. Já a auxiliar de escritório Érica Cruz, natural de Campo Alegre, 20 anos, acredita que o local deveria permanecer aberto desde que houvesse uma fiscalização. Para ela, o ambiente também poderia ser mais atrativo. “Por que não valorizar a maravilhosa vista que tem lá em cima do morro? Facilitar o acesso com uma escada seria legal, porque muitos não conseguem ou têm medo de subir do jeito que está”, sugere. “Acho importante servir de ponto de encontro, mas não da forma como ocorria com bebedeiras e brigas. Mas precisa ser mais do que um lugar que o pessoal chega, olha, e vai embora”, opina. Indústria e comércio não são pontos fortes do município que ainda mantém suas raízes econômicas na agricultura e na pecuária. Porém, o crescimento da área turística é notável nos últimos tempos. A cascata recebeu placas de sinalização da Prefeitura e também de advertências por parte do Corpo de Bombeiros. Lixeiras também fazem parte do cenário e a manutenção da área que o poder público pede desapropriação já é feita pelos servidores

municipais que cuidam da jardinagem e limpeza. No entanto, colocar uma pessoa para cuidar da segurança do local nunca esteve nos planos do atual governo, pois seria necessário contratar um funcionário que seria pago com dinheiro público. Além disso, escalar um policial efetivo para essa função parece um desperdício, já que há outras prioridades para a polícia no município. A empresa não se manifestou a respeito de novas intenções de retomar a construção de uma hidrelétrica na cascata, o que ocorreu em 2010 e foi rejeitado pelo Conselho de Desenvolvimento Econômico. O lugar é considerado área de parque pelo Plano Diretor, e a intenção contraria a legislação municipal vigente. Além disso, os conselheiros entenderam que o fluxo de água ficaria prejudicado. Entre as características físicas da cascata, até hoje é um mistério a profundidade do seu poço. Reza a lenda, relatada pelo historiador amador Marcio Augustin, que o poço da cascata é uma cratera de vulcão adormecido cuja profundidade nunca tenha sido alcançada por mergulhador nenhum a fôlego normal, sem aparelhos. “Todo mundo que estudou nas escolas do município já ouviu essa história de que a cascata era um vulcão”, comenta. A profundidade estimada é de 150 metros, mas ele questiona o método. “Jogaram uma corda de 80 metros com um ferro na ponta. O relato é de que não sentiam o fundo. Mas deve estar entre 80 e 100m de profundidade”, arrisca. Nos anos 40, funcionava na cascata a Cia Lorenz. A fábrica de amido de milho e fécula de batata era abastecida com energia das águas da cascata. Essa empresa tinha grandes tanques de decantação próximos a sede, onde ficavam ali os cereais depositados. Dali sobravam um composto que muitos colonos buscavam para servir como complemento na alimentação das criações ou até mesmo como fertilizante. Os prédios estão de pé até hoje, mas não entram na área que a Prefeitura está pedindo na ação. Sabrina Idalêncio sabrina.idalencio@hotmail.com

Entrada da cascata está fechada à correntes para veículos e o acesso é feito apenas a pé ou de bicicleta


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Diagramação de Silvana Müller | Edição de Juliane Guerreiro Foto Nayara soethe

No dia 21 de novembro, a Associação reuniu-se no Jardim Paraíso com a assistente social da Secretaria de Habitação para saber sobre os direitos na compra de imóveis. As reuniões são frequentes e mobilizam várias famílias

Famílias se unem para buscar direitos

Associação das Mães de Filhos com Deficiência pedem pensão para os pais e novas cadeiras de rodas

T

udo começou no dia seis de junho de 2011, na Praça da Bandeira, em Joinville. Um grupo de pais, mães e cuidadores de pessoas com algum tipo de necessidade especial se reuniu para criar uma associação, que busca a melhor qualidade de vida e a garantia dos direitos dos filhos especiais. Todas as terceiras quartas- feiras de cada mês a Associação das Mães de Filhos com Deficiência realiza reuniões às 14 horas no Centro de Direitos Humanos Maria da Graça Bráz. Também são realizados encontros alternados em bairros da cidade, como o Jardim Paraíso e o Morro do Meio. Cirlei Francisca Tariga é uma das idealizadoras e presidente da associação. Sua filha, Simone Tariga, tem 25 anos e é portadora de hidrocefalia. A principal reivindicação da associação é o direito de pensão para as mães ou para o cuidador de pessoas com qualquer tipo de necessidade especial ou acamados, assim como uma pensão para os filhos. Atualmente, o valor do beneficio para os portadores de necessidades especiais é R$ 622. Segundo Cirlei, a pensão iria melhorar o bem estar das mães e dos filhos. “Nós também somos trabalhadoras. Trabalhamos para os nossos filhos” afirma. A presidente acredita que a aposentadoria é um direito dos cuidadores porque a maior parte do tempo é dedicada ao familiar, o que impossibilita a realização de atividades remuneradas. Além disso, os pais não podem trabalhar pra acompanhar os filhos nas consultas do dia a dia. “Nós entregamos nossas vidas para os nossos filhos”, desabafa. O salário pago pela aposentadoria mal consegue suprir as necessidades básicas de uma família. A maioria das famílias tem de pagar a alimentação, medicamentos, água, luz, telefone e outras despesas. Cirlei pede que seja criada uma lei beneficiando as mães

com uma pensão, para que elas recuperem um pouco de sua dignidade, já que como ela comenta, as mães sofrem humilhação quando vão em busca de direitos. Segundo Sérgio Luiz da Silva, presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa com Deficiência (Comde), a questão da aposentadoria para as famílias não é impossível, porém, é difícil de ser aprovada. Em dezembro, o presidente participará da 3ª Conferência Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência, que acontecerá em Brasília. Na conferência, serão abordados temas como educação, trabalho, moradia, segurança, acesso à justiça, padrão de vida e proteção social adequada. Na reunião que aconteceu no dia 17 de novembro, na Escola Municipal Sylvio Sniecikovski, no bairro Jardim Paraíso, as mães escreveram cartas que serão encaminhadas ao Comde. Nas cartas, elas descrevem como é o dia a dia, qual a necessidade que o filho apresenta, qual é a renda familiar, o valor gasto pela família mensalmente e também porque precisam receber esse beneficio. A associação não recebe apoio de nenhum órgão público. A presidente afirma que a maioria das mães sofre de depressão e acabam se tornando dependentes dos filhos. Outro fator apontado por ela é a separação dos pais. É comum os casais se separarem depois de um tempo. Como as mães dão prioridade aos filhos, alguns maridos, não preparados, acabam abandonando o lar, deixando mãe e filho desamparados. Através da associação, mães como Edvirgens Vilam Chiski, 54 anos, descobriram seus direitos. Ela é mãe de Rafael Rachadel, 18 anos. Ele nasceu com falta de oxigênio no cérebro, por causa de uma gestação interrompida. A mãe conheceu o grupo em uma conversa com outras mães

participantes do Núcleo de Assistência Integral ao Paciente Especial (Naipe). “Hoje eu sei que eu tenho o direito às fraldas do Rafael, antes eu não sabia”, declara. Edvirgens é separada. A aposentadoria do menino é a renda da família. O sorriso que ameniza a dor Com um sorriso largo, olhinhos atentos e muita disposição para conversar, o pequeno Iudi Elimar Grave, cinco anos, conta que nos momentos de lazer gosta de brincar em frente ao computador. Ele nasceu com Atrofia Muscular Espinhal tipo II, uma doença rara, de difícil tratamento, sem cura, que o impede de andar. Inês Serafim Policarpo Grave, 33 anos, teve uma gravidez tranquila, todos os exames comuns foram feitos e não apresentaram qualquer anomalia. Quando Iudi veio ao mundo, aparentemente não apresentava nenhuma doença. Mas, aos poucos, dava sinal de que era diferente dos outros bebês. Ele não se mexia e também não engatinhava. Alguns médicos disseram à mãe que ele se mexia pouco porque ia adiantar o processo natural e começar a andar antes do tempo. Com um ano e três meses, uma médica comparou o menino com um bebê de meio ano e comentou a diferença entre o desenvolvimento dos dois. A partir desse momento, análises de sangue começaram a ser feitas em outras cidades até detectarem a doença, o que aconteceu três meses depois. A semana da família é agitada. Nas segundas, quartas e sextas-feiras, Iudi tem fisioterapia motora e respiratória na Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD). Na terça, ele passa por acompanhamento com uma terapeuta ocupacional, no mesmo local. As quintas-feiras

são destinadas para a conversa, mãe e filho têm acompanhamento com psicólogos. Há três anos, todas às quartas, quintas e sextasfeiras, Iudi vai para o Centro Educacional Infantil (CEI), localizado a poucos minutos de sua casa. Em sala de aula, uma professora, que não é especializada, mas treinada pela AACD o acompanha. Conforme o crescimento de Iudi, a cadeira de rodas é trocada. “Como ele tem esclerose na coluna, tem que ter a cadeira certa. Se ele não trocá-la, pode ter os órgãos internos comprometidos”, salienta a mãe. Ele e mais algumas crianças do bairro Jardim Paraíso iriam ganhar cadeiras novas, mas segundo Inês, as mães foram informadas que devido ao alto custo das cadeiras, elas serão entregues apenas no próximo ano. Iudi não é aposentado. A família luta na justiça para conseguir o benefício. O empecilho é a renda do pai, o único que trabalha na casa. “Quando eu apresento o contra cheque do meu marido eles dizem que o salário é bom, mas o salário limpo, já com os descontos, fica próximo dos R$ 1500. Essa é a nossa única renda. Só perguntam quanto meu marido ganha, mas, até hoje, ninguém perguntou o quanto nós gastamos”, desabafa. Inês participa com frequência das reuniões da associação. Ela conheceu o grupo este ano, através de uma mãe que já participava. “É muito bom participar da associação, pois é através dela que tomamos conhecimento dos nossos direitos, que muitas vezes nos são negados”, comenta. Ela conta que sempre convida outras mães a participar das reuniões. O incentivo acabou motivando outras mulheres a criarem associações em diferentes cidades. Naiara Melchioretto naymelchi@gmail.com


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Esporte

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Diagramação de Regiane Milke | Edição de Mateus Pereira

Onde a essência do futebol ainda vive

Popular nos bairros, o esporte amador resgata a paixão pela atividade dentro e fora dos campos

C

ercado por grandes emoções, o futebol profissional, perdeu a sua essência com o passar dos anos. Hoje, o que movimenta o esporte são as transações milionárias entre clubes. Em busca da fama, dinheiro e sucesso, muitos jogadores despontam como craques, mas veem seus planos acabarem por falhas na administração da carreira. Porém, o que é corriqueiro em grandes clubes, não acontece nos gramados da várzea. Neles não existe glamour, o reconhecimento vem apenas dos próprios companheiros. Se o futebol perdeu o rumo ao redor do planeta, a essência do jogo, pelo menos ali na várzea, ela persiste. Foi isso que motivou o assistente comercial Marcos Aurélio Carvalho, 36, a seguir os campeonatos disputados em Joinville e região. “Acompanho o futebol amador desde meus 20, 21 anos. Meu irmão formava times e me envolvi nesse ambiente”, conta. Mas foi somente em 2009 que Marcos estreitou os laços com o futebol de bairro. Após o convite de uma rádio, aceitou trabalhar voluntariamente como repórter nas competições locais. Em sua trajetória na cobertura do esporte, Marcos presenciou tristes episódios nos gramados de Joinville. “Já vi jogador receber para não jogar. Um dos atletas mais importantes do time, simplesmente não jogou nada porque o adversário precisava ganhar a partida. Todos em campo sabiam da situação, os companheiros queriam até bater nele. Foi uma grande decepção pra mim”, lamenta. Mas sua paixão pelo esporte não foi abalada. “Prefiro comentar sobre os belos gols e atitudes que acontecem no Campeonato, afirma. Devido à falta de informações do futebol local, Marcos criou um blog voltado ao assunto. “O próprio site da Liga demorava dias para ser atualizado, mesmo com as súmulas em mãos. Então, resolvi criar o blog e correr atrás das informações, ligan-

roberto dias borba

Entusiasta do esporte, Marcos Aurélio acompanha o futrebol amador desde os 20 anos. Há três, ele cobre as competiçõres na cidade e região de forma voluntária

do para os delegados das partidas”, conta. Ele nunca publicou uma propaganda em seu blog com a intenção de obter lucro, nem recebeu pagamento para cobrir o esporte na cidade. “É complicado receber patrocínio nesse meio, porque todos os interessados são envolvidos com algum time. Não vou passar credibilidade se elogiar um jogador se ele tiver alguma ligação com o meu patrocinador”, afirma. No mês passado, o repórter viajou por conta própria ao sul do Estado, para cobrir o Estadual de Amadores, que contou com duas equipes joinvilenses. Marcos recebeu o convite da diretoria do Estrela da Praia para viajar no mesmo ônibus da equipe, além de ficar no hotel dos atletas com as contas bancadas pelo clube. No retorno à Joinvildaniel pereira

Em 35 anos de dedicação ao esporte, Tecão já foi jogador, árbitro e preparador de goleiros. Hoje é técnico do Garuva

le, quem o convidou foi a comissão técnica na cidade a exercer a função. Quando se da Tupy, vice-campeã do torneio. Caso não identificou com a área, buscou uma escontasse com a ajuda dos clubes do Boa Vis- pecialização. “Fiz um treinamento para ta, Carvalho estava disposto a bancar o tra- técnicos em São Paulo, me formei para balho voluntário. poder coordenar um grupo”. Questionado se todo esse esforço sem Com um histórico de problemas ganhar dinheiro vale à pena, Marcos não cardíacos, o técnico protagonizou um dos pensa duas vezes. “É o prazer de acompa- momentos mais tensos da última temponhar, de estar junto rada. Em jogo válido pela see de ter minhas magunda partida das semifinais da Não resisti e térias lidas. Ano pasPrimeirona, o Pirabeiraba vencia voltei. Quem sado cheguei a largar o Garuva por 3x2 em casa, o que entra nesse o rádio por causa da levaria a partida para a prorrogameio se apaixona ção. Nos últimos dez minutos de minha família, pois tenho um filho de 6 partida, o Garuva conseguiu a e não anos que está cresvirada, o que colocaria a equipe quer sair cendo. Mas não renuma final novamente após 26 sisti e voltei. Quem anos de seu único título. NervoMARCOS AURÉLIO entra nesse meio se so com a situação, a pressão do repórter apaixona e não quer treinador subiu e o jogo teve que mais sair”, finaliza. ser paralisado, pois Tecão praticamente desmaiou à beira do campo. Sem um méEmoção como jogador e tÉCNICO dico presente no estádio, quem teve de ajudá-lo foi Da Silva, treinador adversáAntonio Carlos da Silva, o Tecão, é bas- rio. Com um pequeno detalhe, Da Silva é tante conhecido no futebol amador da re- nada menos que o irmão caçula de Tecão. gião. O técnico vice-campeão da Primeiro- Passado o susto, o experiente treinador foi na 2012 no comando do Garuva, conta com para o vestiário tentar se recuperar e nem um currículo com grandes vitórias e se orgu- viu o final do jogo, que recolocou o Garulha da carreira construída na várzea. “Estou va na decisão da elite joinvilense. há mais de 35 anos no futebol amador de A família dentro de campo não se reJoinville, fui jogador, também joguei nos ju- sume ao irmão rival. Para o treinador, os niores do Joinville e atuei como profissional próprios jogadores acabam formando no interior do Paraná. Mas como não tinha um laço dentro e fora de campo. “Eu me condições financeiras, fiz minha carreira no considero muito paizão, sou muito amigo amador aqui na cidade”, comenta. mesmo”, afirma. Tecão não esconde que se Como goleiro, Tecão conquistou nove fosse pelo dinheiro, não compensaria uma títulos no amador de Joinville. “Foi uma vida toda dedicada ao esporte amador. dedicação muito grande como jogador em “Faço isso por paixão. O futebol amador vários anos de carreira. Depois, não desisti faz parte da minha vida, sempre fez e semdos campos e segui a carreira de árbitro”, pre vai fazer.” conta. Antes de virar técnico, o ex-jogaJOÃO ROBERTO DE LIMA beto.redator@gmail.com dor virou treinador de goleiros, o primeiro


Esporte

Joinville - Dezembro 2012 PRIMEIRA PAUTA

Diagramação de Regiane Milke | Edição de Mateus Pereira

Mais que uma dança sensual

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Fotos: Francine Rocha

Pole dance une acrobacias, melhora o condicionamento físico e autoestima

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orça e resistência muscular, concentração, flexibilidade e redução de medidas. Os benefícios podem ser de qualquer esporte, mas apenas quem pratica pole dance fitness (em português: dança no poste e boa forma física) sabe o real estímulo de praticar uma modalidade que motiva e desafia a cada aula. Isso revela que a prática vai muito além da forma sensual que são apresentadas nas cenas do filme “Striptease” (1996), de Andrew Bergman, estrelado por Demi Moore e da dançarina Alzira, vivida por Flavia Alessandra na novela da TV Globo “Duas Caras”, de Aguinaldo Silva. A origem do pole dance está ligada ao mallakamb, uma forma de ioga praticado por homens e meninos em um poste de madeira desde o século XII na Índia. É semelhante também ao mastro chinês e a acrobacias aéreas do circo. A forma conhecida hoje vem da arte circense desenvolvida nos Estados Unidos na década de 1920. Em turnês de espetáculos, dançarinas Hoochi Coochi, como eram conhecidas, apresentavam-se em pequenas tendas. Depois disso, ele se desenvolveu, até que em 1950, ganhou apresentações em bares. O modo como é conhecido hoje foi registrado apenas em 1968, com uma performance de Belle Jangles, em um

clube no Oregon. A partir dos anos 1990, o esporte passou a ganhar novas formas, como o fitness, artístico, street e acrobático. Os movimentos são semelhantes, mas a música, figurino e tempo de cada um determinam a qual forma pertence. A professora Sabrina Lermen explica que ele está dividido em quatro módulos: básico (inclui giros, posições com pés no solo e movimento de transição), intermediário (início das inversões na barra e movimentos no alto na barra), avançado (movimentos com maior grau de dificuldade em cima da barra) e master (movimentos avançados que exigem muita flexibilidade e controle muscular). Somando todos os módulos, são aproximadamente 300 combinações de movimentos. Segundo ela, o aprendizado é progressivo e deve ser respeitado pelo instrutor. A professora alerta que pessoas com lesões nos membros superiores não podem praticar o esporte. “O pole dance arte e fitness é uma ginástica divertida para todas as idades e gêneros. É uma espécie de dança aliada à acrobacia, que você trabalha o corpo de forma integral e os resultados aparecem muito rápido”, conta ela, praticante de pole dance desde 2007 e que há dois anos possui um estúdio em Joinvil-

le. Suas alunas têm de 14 a 67 anos de idade, para o próximo ano ela pretende abrir turmas masculinas e infantis de pole dance fitness e artístico. As aulas duram em torno de uma hora, começam com muito alongamento e uma sessão de exercícios para aquecimento. Depois, começam as práticas na barra. De acordo com o site Pole Dance Brasil, são perdidas entre 350 a 450 calorias em uma aula aeróbica do esporte. Assim, perdendo gordura e ganhando massa magra. Acessórios ajudam na prática do pole dance. Shorts curtos e tops dão mais aderência da pele na barra, facilitando as travas, gomas também são usadas com essa finalidade. Cremes e pó a base de magnésio permitem que as mãos escorreguem por conta do suor e umidade, assim como a limpeza da barra de aço inox com álcool. Luvas e caneleiras evitam ferimentos e facilitam movimentos no alto da barra. Não são usados sapatos, tênis, sapatilhas ou meias. Esporte cresce no estado e país A modalidade se expande em todo o Brasil. Em novembro desse ano, o país recepcionou a 2ª Pole World Cup, que reuniu participantes de 20 países no Rio de Janeiro. A vencedora da categoria profissional internacional foi a russa Anastácia Skukhtorova e da nacional foi a carioca Bianca Santany. Em Santa Catarina, já existem estúdios em Joinville, Florianópolis, Jaraguá, Araranguá, Criciúma, Lages e São Bento do Sul. Meggie Caropreso queria abrir algo diferente em Jaraguá e em

conversa com uma amiga descobriu o esporte. Ela buscou a escola de Sabrina Lermenn, se especializou e há oito meses abriu seu próprio estúdio em Jaraguá. Hoje tem aproximadamente 30 alunas. TATIANE VIEIRA tati_fvieira@hotmail.com

ARQUIVO PESSOAL

Alunas de diversas idades frequentam a academia em Joinville

Pole Dance como esporte olímpico? De acordo com o dicionário Michaelis, esporte é: passatempo, divertimento, prática metódica de exercícios físicos, que consistem geralmente em jogos competitivos entre pessoas, ou grupos de pessoas, organizados em partidos. Então, o pole dance pode ser classificado nessa definição. Poderia se encaixar em modalidades da ginástica artística, que possui atividades em aparelhos como barra fixa, paralelas e assimétricas. A Federação Internacional de Ginástica (FIG) estabelece as normas e calendários para esse tipo de atividade. Para se tornar um esporte olímpico, o FIG teria que criar critérios de avaliação, códigos de pontuação, além de instruções para os atletas, técnicos e árbitros. Depende do FIG e do Comitê Olímpico Internacional aceitar o pole dance como nova modalidade na ginástica. Em 2008, pole dancers estadunidenses montaram um abaixo-assinado para que o esporte se tornasse uma modalidade olímpica nos Jogos Olímpicos de Verão de 2012, que aconteceram em Londres.

TATIANE VIEIRA tati_fvieira@hotmail.com


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Economia

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Diagramação de Naiara Melchioretto | Edição de Ednéa Anastácio

Contratada para ser Cliente Oculta Na busca pela qualidade do atendimento, lojas utilizam ���falsos” clientes para vender melhor

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a loja de calçados, ela pede à vendedora pela novidade da estação. Gasta um bocado de tempo provando sapatos, mas nenhum fica imune às críticas - ora a culpa é do preço, ora é do aperto nos dedos. Ainda que tudo esteja nos conformes, ela não entrou com a intenção de comprar alguma coisa. “Eu vou pensar”, conclui a visitante. Pede um cartão da loja e se despede.  O pequeno trecho é de um fim de semana de Pamela Nunes, 24 anos e cliente oculta desde os 22. Contratada por uma agência em São Paulo, ela tem a tarefa de, todo mês, se passar por cliente em lojas de três marcas em Joinville – duas de calçados e uma de fast food.   Começou a trabalhar nesse ramo há cerca de um ano e meio, quando, numa rodoviária em Brusque, foi informada de uma vaga por um rapaz que trabalhava como cliente oculto. Na ocasião ela estava fazendo uma pesquisa de campo para um outro trabalho. “A agência precisava de alguém pra fazer o trabalho em Joinville. Topei na hora”, relembra.  O treinamento levou apenas um mês. Nele recebeu algumas orientações, como, por exemplo, escolher pior horário possível para se comprar um lanche na unidade de fast-food (esse, sim, é comprado e o custo coberto pela agência).   Numa dessas visitas, se depara com somente metade dos caixas abertos. “Tem um fluxo muito grande na loja. Por que os caixas estão fechados?”, perguntou ao atendente e ouve a explicação de que seria por falta de funcionários. A conversa foi para o relatório, a ser enviado por e-mail para a agência.

 “A estratégia é hoje muito utilizada para a eficiência da comunicação da marca”

Como uma cliente exigente, a pessoa que é contratada analisa desde o atendimento até a qualidade do produto, dos serviços e a habilidade da vendedora

vendedora de uma operadora de celulares, no Centro. Neste trabalho, conta que também já foi “vítima”, quando um homem, bem vestido, a teria enchido de perguntas sobre a marca e depois agradeceu e foi embora. “Pouco depois, a minha supervisora o apresentou como sendo o gestor da operadora pra qual eu trabalho”, contou. “Hoje, quando vem cliente arrumado, associo àquela experiência e desconfio que seja um supervisor”, disse. “Às vezes não é nada, mas dá um medo. Coisa da nossa cabeça.” 

Vinícios Alves Neves

 Os banners ou painéis que anunciam as promoções e os brindes de lanche são fotografados e também vão para o relatório. “Por ser oculta, eu tenho que ser muito discreta. Daí a importância de ter uma boa câmera no celular”, comenta.   Outros pareceres também vão para o arquivo. Em como se sentiu dentro da loja e se voltaria lá, caso fosse de fato cliente. As observações passam por aspectos como organização, luzes, música ambiente, qualidade de atendimento, os preços e promoções. Tudo de acordo com o padrão dado às unidades que levam a bandeira da tal marca.   Pamela ganha por visita. “Para uma pessoa que não tem gastos altos, dá para viver disso”, ponderou. Mas ela tem outro emprego e, quando não está disfarçada de cliente, trabalha do “outro lado”, como

Fotos Ana paula padilha

Serviço é utilizado por franquias, na maioria das vezes

Estratégia O diretor comercial de uma grande empresa de varejo, Rafael Boettner, 37 anos, tem utilizado essa ferramenta para coletar dados e melhorar a gestão de vendas da empresa onde trabalha. As técnicas de coleta das informações tem sido aprimoradas constantemente.   Já existem   dispositivos no mercado com câmeras aclopadas em óculos ou em crachás.  Dessa forma, as filmagens podem ser feitas sem levantar suspeitas.   Rafael tem estudado essas técnicas e afirma que todo este  processo está em fase de evolução.   “Não adianta, porém,  apenas conseguir a informação. O êxito da operação depende da gestão das ações que serão tomadas após a coleta dos dados.  Se a empresa que contrata esses serviços não estiver focada neste objetivo, o valor investido na pesquisa poderá ter sido em vão”, comenta ele. “O cliente oculto se tornou uma estratégia difundida e muito adotada pelas empresas”, é o que diz o publicitário e empresário Vinícios Alves Neves.   No meio publicitário, a prática é tida como uma das etapas do planejamento de comunicação. Embora afirme que a atividade pode em alguns casos resultar em demissões e quebras de contratos, defende que a prática é mais utilizada “para incentivar do que para sacanear.”  “A estratégia é hoje muito utilizada para a eficiência da comunicação da marca”, argumenta.  Samanta Tavares, 28, é a publicitária que atua no setor de planejamento da empresa de Vinícios. Ocasionalmente ela se passa por

cliente oculta. “Vou para entender a percepção que o vendedor tem do produto. Analiso os argumentos do vendedor e observo outros clientes na loja.” O objetivo dela não é avaliar o atendimento. O trabalho não consiste em fazer um relatório avaliativo após a visita. “Eu tiro informações para me ajudar no planejamento, dar um direcionamento para a campanha. Identifico uma possível linguagem, algo que me dê argumentos na comunicação”, justifica.  A estratégia é recorrida de acordo com as demandas da marca. A ideia de ser oculta é o de obter uma pesquisa sem indução de resposta, e obtê-las de formas mais espontâneas possíveis.  De certa forma, os três anos de atuação na área influenciaram também suas atividades como compradora. Ela conta que, durante as compras, presta mais atenção a respostas e nas conversas paralelas. “Peguei o hábito de observar as pessoas”, revela Samanta . Na internet é possível encontrar empresas especializadas neste tipo de serviço. Nos sites, elas oferecem avaliação comercial e comportamental dos funcionários, consultoria para melhorar o atendimento e também treinamento. Exemplo disso é a empresa Cliente Oculto, que trabalha com todo esse suporte e tem como clientes a Nissan, Peujeot e a Toyota.

Priscila Hudler priscila.hudler@gmail.com


Cultura

Joinville - Dezembro 2012 PRIMEIRA PAUTA

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Diagramação de Vagner Zimmermann | Edição de Andriele Pereira

Bienal retrata arte contemporânea

Sem extravagância, a edição usou conjuntos de obras que buscam revelar um pouco de cada artista

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iminência é vista como algo que está a ponto de acontecer, como o que está suspenso, em vias de execução. Apresenta a poética entendida como discurso, como aquilo que se expressa, se cala, se modifica e ganha força comunicativa por meio da linguagem das artes. É assim que a organização define a mostra que acontece na cidade mais populosa do país que vai até nove de dezembro. Esculturas, instalações, objetos, vídeos e pinturas são alguns dos trabalhos que compõem a trigésima edição da Bienal de Artes, localizada no Parque do Ibirapuera, em São Paulo. Chamada de Iminência das Poéticas, a exposição que iniciou no dia sete de setembro e se estende até o dia nove de dezembro, conta com cerca de três mil obras de 111 artistas, sendo grande parte delas produzidas especialmente para a mostra. A olho nu, apenas pedaços de pano e pau velho, fotografias, rolos de barbante pendurados, tijolos enrolados em papel celofane, cordas e um penico no banheiro masculino. De acordo com a assessoria de imprensa da Bienal, a iminência das poéticas não possui um tema, mas um motivo. Referindo-se ao ponto de partida do qual se deduz uma série de perguntas sobre o tempo presente. As fotografias tiradas na estação de metrô da Rua 157, em Nova York, da artista canadense Moyra Davey, agradam os visitantes. Com o propósito de atualizar a Arte postal, gênero que surgiu nos anos 1960, Moyra enviou as imagens para a Bienal, via correio, com o propósito de fazê-las voltar a ser um pedaço de papel. Já as imagens feitas pelo holandês Hans Eijkelboom, retratam pessoas comuns usando as mesmas peças de roupas. A acadêmica de arquitetura, Rosana Magalhães, 27 anos, é de Belo Horizonte (MG) e visita pela primeira vez a Bienal de Artes. Ao se deparar com a exposição do holandês, Rosana comenta: “Estou

Foto: Kauane Mello

Pela primeira vez a Bienal de São Paulo teve um curador estrangeiro: Luis Pérez-Oramas propõe doze conceitos para a 30ª edição da Bienal de Artes, realizada no Ibirapuera

adorando conhecer estas obras. Esta, por exemplo, apesar de aparentar uma ideia simples do artista, conquista a atenção das pessoas, pois faz com que elas reconheçam nas fotos a sua própria maneira de se vestir.” A trigésima Bienal trouxe o agrupamento de obras através dos pontos em comum que relacionam um artista com outro. Este conceito foi baseado na constelação, que são os conjuntos de estrelas próximas umas às outras, e que ao observá-las percebemos certas organizações. A escolha dos artistas e obras da mostra foi feita com os curadores-associados André Severo e Tobi Maier e a cura-

dora-assistente Isabela Villanueva. Questões como multiplicidade, recorrência e mutabilidade das poéticas, aspectos fortemente presentes no mundo contemporâneo, estão privilegiados nesta edição. Na exposição, 23 artistas são brasileiros. Um deles é  Eduardo Berliner, que através da sua pintura reproduziu elementos mundanos. Já o artista Nino Cais levou o universo doméstico para os pisos do Ibirapuera. Utilizando de utensílios caseiros extraiu a poesia de sua relação física com objetos de uso comum. Na sua exposição é possível encontrar plantas, roupas, xícaras, bacias, panelas, vasos e toalhas, reordenando-os em composições

fotográficas e videográficas que mesclam a estranheza, afeto e ironia.  O visitante contempla em três andares de evento obras que desafiam o seu entendimento e que ao mesmo tempo andam paralelas com o cotidiano de cada ser. A arte é evidenciada em objetos em dimensões perfeitas, em amontoados de coisa nenhuma e exalam, sonorizam, tateiam cada particularidade do autor/ artista. A cidade cosmopolita acolheu gente de todo o mundo, de toda raça, de todo gênero, assim como as obras, que permitem a expressão da verdade. Kauane mello kauane_venturin@hotmail.com Foto: Kauane Mello

Instalação “Silence”, de David Moreno, ilustra as múltiplas vozes desta Bienal 


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Estilo

Joinville - Dezembro 2012 PRIMEIRA PAUTA

Diagramação de Vagner Zimmermann| Edição de Andriele Pereira

Japão na cidade das flores Evento sobre a cultura japonesa reúne fãs e adeptos de Joinville e região C

riaturas mitológicas, forma de lazer, para outros é um jovens de roupas e cabelos trabalho sério, que exige dedicação. coloridos, um grupo de A cosplayer Renata Melo conta que distintos cavalheiros e damas que para preparação de um bom cosplay aparentam ter saído da Europa do (em que o critério é a fidelidade século XIX, guerreiros armados de com o personagem), é necessário espadas e um exército de olhares investimento e paixão. “Gosto curiosos. O cenário, que parece de escolher os personagens que ser o plano de fundo de um dos tenham a ver com minha aparência inúmeros famosos física, ou que tenham a animes produzidos personalidade que eu me Gosto de em Tóquio, é, na identifique ou goste muito. escolher os verdade, a segunda Para as roupas, maquiagens personagens edição do evento que e adereços: muitíssima traz para Joinville um pesquisa!”. que tenham a pedacinho do Japão. Para se caracterizar, ver com minha O Hanamachi Renata importou alguns aparência física. - Cidade Flor, em itens, como a peruca que tradução literal do veio da China e a roupa Renata Melo cosplayer japonês - surgiu do comprada pelo ebay. desejo do idealizador A designer aprendeu a Roger Bezerra se maquiar conforme Candido de disseminar na cidade a personagem, comprou lentes e a cultura japonesa, que conquistou investiu ao todo mais de R$ 200 para fãs em todo o mundo por meio se transformar em Amane, do game dos animes, mangás, música e Dream Club, por um dia. jogos. No Brasil, diversos eventos A paixão pela cultura oriental, como o Anime Friends (maior da para alguns, não fica à mostra apenas América Latina), Ressaca Friends e nos dias de eventos. O visual kei, e as Anime Dreams, homenageiam esse lolitas góticas, são alguns dos estilos universo. usados no dia-a-dia inspirados nas Dentre o ideário da cultura pop, figuras que povoam os meios culturais as atrações como concurso de cosplay, do outro lado do planeta, há mais de sala de RPG, oficinas culturais, 18.500 km de distância. apresentações de artes marciais Para o estudante Ricardo Willhem e de bandas de J-rock, ganham Back, que tem expostas na pele destaque entre as centenas de otakus diversas figuras orientais, e é adepto joinvilenses. do visual kei, o Japão está mais no diaO que para alguns é apenas uma a-dia do que os ocidentais percebem.

“As pessoas estranham meu visual, como se o Japão fosse de outro planeta. Usamos tecnologia japonesa, comemos comida japonesa, usamos produtos japoneses o tempo todo e, nessa hora, ninguém percebe”. RPG: dos consoles para a mesa - Mestre, posso ser um meio-orc conjurador? - Role o dado de 20 lados para confirmar o crítico... À primeira vista, o diálogo pode parecer ininteligível. Mas para quem domina as técnicas do RPG de mesa, que mistura o conceito de teatro com as regras de um jogo, o recado é óbvio: a batalha tem tudo pra ser épica. Uma partida de RPG consiste em um grupo de jogadores e um narrador (também chamado de mestre), que conduzirá o grupo por entre os cenários, respeitando as regras (geralmente baseada em livros de sistemas), e as habilidades pré-determinadas para cada personagem. Os acontecimentos são narrados, e os jogadores imaginam tudo o que acontece. Quando um personagem precisa tomar uma atitude, o jogador em questão diz o que pretende fazer. O mestre analisa se a atitude é viável - baseado na ficha do personagem, onde estão os dados como força, resistência e inteligência - e em seguida, são jogados os dados. Dependendo do valor obtido, o ato é realizado com sucesso ou não.Pamela Caitano pamelacaitanos@hotmail.com

Glossário So Foto: Nayara ethe

Mariane Lopes, cosplayer da personagem Hinata Hyuuga, do anime Naruto.

Mangá: palavra usada para designar histórias em quadrinhos feitas no estilo japonês. No Japão, o termo designa quaisquer histórias em quadrinhos. Anime: qualquer animação produzida no Japão. Cosplay: é um hobby que consiste em fantasiar-se de personagens oriundos, em geral, de animes, mangás e games japoneses. Cosplayer: é a pessoa que pratica o cosplay. RPG (Role-playing game), jogo em que os jogadores assumem os papéis de personagens e criam narrativas colaborativamente. Otaku: termo usado no Japão e em outros países para designar um fã de determinado assunto. No ocidente, a palavra é utilizada como uma gíria para rotular fãs de animes e mangás. J-rock: abreviatura de Japanese Rock, é nicho musical japonês que abriga vários estilos. Visual kei: vertente do J-rock, surgiu nos anos 1980 como um movimento que mistura vários estilos, onde as bandas valem-se de roupas e maquiagens elaboradas e performances extravagantes. Lolitas góticas/Gothi Loli: é uma moda urbana japonesa popular entre adolescentes e jovens adultas, que vestem roupas inspiradas, em sua maioria, pela moda vitoriana, rococó ou edwardiana e frequentemente procuram imitar a aparência de bonecas de porcelana ou princesas.


Primeira Pauta 100