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Chaves Idosos mostram que o amor não envelhece Terceira Idade

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Valpaços Autossuficiência que vem da terra Em Foco

Fafe Misericórdia da diáspora portuguesa

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Em Ação

VOZDAS MISERICÓRDIAS

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União das Misericórdias Portuguesas

director: Paulo Moreira | ano: XXVIII | maio 2012 | publicação mensal

Santas Casas decisivas nos cuidados continuados

Emergência Alimentar Santas Casas já servem refeições

Ministro da Saúde garantiu a manutenção da rede nacional de cuidados continuados

A Misericórdia da Amadora inaugurou a sua unidade de cuidados continuados. Com capacidade para 30 pessoas em internamentos de média duração, a unidade já está com lotação esgotada. Presente naquela cerimónia, o ministro da Saúde, Paulo Macedo, garantiu a manutenção da rede nacional de cuidados continuados, na qual as Misericórdias têm tido um “papel ativo e decisivo”. Naquele mesmo dia começavam a ser

regularizadas as dívidas do Ministério da Saúde às Santas Casas. O ministro da Solidariedade e da Segurança Social, Pedro Mota Soares, também marcou presença na inauguração. Saúde, 16

Qualidade 8

Fundão 18

UMP promove programa de certificação

15 anos a formar talentos

O governo lançou o Programa de Emergência Alimentar e as Misericórdias responderam ao desafio. Dezenas já estão a apoiar pessoas que neste momento

não conseguem sequer assegurar as refeições. O VM foi conhecer as realidades da Santa Casa do Montijo e de Amarante. Destaque, 4 e 5

Debates na Calheta Em ação Santa Casa da Calheta, na Madeira, promove debates no âmbito do Dia da Misericórdia 10

Entrevista 24

Vítor Melícias em conversa com o VM


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panorama A FOTOGRAFIA espaço sénior

Mês de Maio, mês de Maria Não há entre nós quem nunca tenha recorrido ou implorado a proteção da Virgem nos momentos de aflição. É comum usarmos expressões como: “Valha-me Nossa Senhora!” ou “Mãe do Céu, valei-me!”, sempre que nos sentimos desamparados

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ês de Maio, mês de Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe. Creio que não há entre nós quem nunca tenha recorrido ou implorado a proteção da Virgem nos momentos de aflição. É comum usarmos expressões como: “Valha-me Nossa Senhora!” ou “Mãe do Céu, valei-me!”, sempre que nos sentimos desamparados, desprotegidos ou necessitados de conforto. Mas é comovente ver a fé com que um elevado número de peregrinos acorreu ao Santuário de Fátima no passado dia 13. Quantos, com tão grandes dificuldades, vêm de longe, implorar a proteção e pedir alívio para os seus males e das suas famílias. Que a todos, por intercessão de Maria, Deus conceda a Sua bênção. Entretanto, na Academia, os preparativos para o final do ano, bem como para as inscrições do próximo, estão em curso. Para este efeito, realizou-se uma reunião do Conselho Diretivo que decorreu com muito espírito de cooperação por parte dos professores que nela participaram em grande número. Na reunião se debateu a introdução das novas tecnologias nas inscrições, o que constitui uma mais-valia para a Academia. Durante este mês, esteve patente uma interessante exposição de iluminuras, na UMP, na Rua de Entrecampos. O passeio já anunciado a Alcobaça, foi muito bom e do agrado de todos os que nele participaram. O Grupo Cantares tem agendadas duas atuações: a Algés e ao Alto do Duque. O Grupo Coral prepara, entretanto, a sua atuação na Paróquia de Fátima, bem como a da Festa do final do ano letivo. Todas estas atividades nos proporcionam energia e boa disposição, duas das principais valências da nossa Academia.

Maria Deolinda Gonçalves

Academia de Cultura e Cooperação da UMP academiadecultura@ump.pt

A subir Bom país para mães

Portugal está no 15º lugar no índice dos melhores países para se ser mãe, de acordo com o relatório anual da organização Save The Children. O país desceu um lugar em relação a 2011.

Valongo Lucho Gonzalez visita idosos e crianças Lucho Gonzalez, atleta do Futebol Clube do Porto (FCP), fez recentemente uma visita de cortesia à Santa Casa da Misericórdia de Valongo. O futebolista esteve no lar de idosos e no Centro de Acolhimento Mãe d’Água. Segundo o provedor Albino Poças, “foram umas horas de imensa alegria e confraternização, tendo o atleta Lucho, que veio acompanhado da sua companheira, aproveitando para distribuir dezenas de autógrafos e manifestar toda a sua enorme simpatia”. A visita do futebolista do FCP teve lugar a 30 de Abril.

A Descer

Mais casais desempregados Em abril deste ano, o número de casais em que ambos estão registados como desempregados foi de 7.877, ou seja, mais 70,6% do que em abril do ano passado e mais 4,3% do que em março.

A Frase

Pedro Mota Soares Ministro da Solidariedade e Segurança Social

“As instituições sociais conseguem prestar um apoio de qualidade inquestionável no combate à exclusão social e são particularmente importantes na dinamização da economia.”

O Número

95

peregrinos em Torres Novas Como já vem acontecendo há cerca de dez anos, a Santa Casa da Misericórdia de Torres Novas acolheu, no passado dia 11 de Maio, um grupo de 95 peregrinos, vindos de Alcácer do Sal com destino à Fátima para as celebrações do 13 de Maio.

O Caso Redondo Homenagem ao antigo provedor A Santa Casa da Misericórdia de Redondo prestou uma homenagem ao antigo provedor. José Manuel Barahona Mira da Silva também acompanhou a criação da União das Misericórdias Portuguesas (UMP). A homenagem foi a 5 de Maio e contou com a presença do presidente emérito da UMP, padre Vítor Melícias. Em causa estava o meritório desempenho de funções exercidas nos órgãos sociais da instituição. Ao longo de quarenta e nove anos, José Manuel Barahona Mira da Silva ocupou os cargos de secretário da Mesa Administrativa (1963-1965), de provedor (1966-2002) e de presidente da Mesa da Assembleia Geral (2003-2011). O programa da homenagem começou na igreja da Santa Casa,

com uma missa celebrada pelo pároco António Sanches. No final da Eucaristia, o antigo provedor foi convidado a descerrar o seu retrato, que irá integrar a galeria dos beneméritos e provedores da Misericórdia de Redondo. De seguida, teve lugar uma sessão solene, no edifício da Assembleia Municipal de Redondo, em que os oradores traçaram a biografia, desde os bancos do Liceu e elogiaram a figura e a obra do

homenageado. Visivelmente grato, o antigo provedor encerrou a sessão afirmando: “Não sendo homem de muitas emoções, sentia-se comovido e agradecia a homenagem prestada”. Para o atual provedor da Misericórdia do Redondo, João Azaruja, “não se tratou de uma homenagem de circunstância, mas de um convicto reconhecimento público do que é ser exemplo da missão das Misericórdia ao longo de meio século.”

Homenageado foi provedor de 1966 a 2002


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ON-LINE Opinião

Certificação da qualidade A nossa escolha pelo EQUASS, em alternativa à opção que o Estado fez, implica um sistema de reconhecimento a nível europeu, garantia e certificação da qualidade dirigido às organizações que atuam no âmbito dos serviços sociais

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os últimos quatro anos, tem vindo a União das Misericórdias Portuguesas (UMP) a analisar e pronunciar-se sobre a implementação e a certificação da qualidade nas respostas sociais das Misericórdias, tendo tomado a iniciativa de avançar com o referido processo através do EQUASS- European Quality in Social Services, uma vez que não foi possível articular de forma concertada com a filosofia adotada pelo governo ao nível dos modelos de avaliação da qualidade. A principal razão pela recusa em adotar os manuais de qualidade apresentados pelo Instituto da Segurança Social (ISS) prende-se com o facto de estes não respeitarem as características individuais e sócio geográficas de cada Misericórdia, o que por sua vez atenta contra a sua identidade e cultura organizacional, pondo em causa a sua visão e, logo, comprometendo a sua missão. A nossa escolha pelo EQUASS, em alternativa à opção que o Estado fez, implica um sistema de reconhecimento a nível europeu, garantia e certificação da qualidade dirigido às organizações que atuam no âmbito dos serviços sociais, aplicando-se a todas as respostas sociais alvo de intervenção das Misericórdias. A implementação e certificação da qualidade deverá ser um processo faseado, tendo em conta o atual contexto socioeconómico e as consequentes dificuldades das Misericórdias. Por isso, a UMP realizou diligências, junto do POPH, para a abertura de candidaturas que ajudassem a minorar o esforço financeiro das Misericórdias neste processo, situação que ainda não foi decidida, nem se prevê que o seja brevemente. Não obstante, não podemos deixar de reiterar que, apesar da importância reconhecida da implementação e certificação da qualidade, é obviamente voluntária a sua adesão, pelo que às Misericórdias que entendam avançar com o processo a expensas próprias ou com suporte de outros financiamentos, sugerimos que contactem o Gabinete de Cooperação Estratégica de Acão Social (GCEAS) da UMP. As Misericórdias, com mais de 500 anos de vida, são obviamente um exemplo de qualidade de serviço. Esta capacidade de ter uma leitura, atualizada ao seu tempo, sobre a qualidade que imprimem nas suas ações obriga as Misericórdias de hoje, uma vez mais, a adaptarem-se ao seu tempo e olharem para estes processos como fundamentais para garantir o futuro.

Sangalhos Solidariedade e saúde entre gerações Hábitos saudáveis contribuem para uma maior qualidade de vida e consequente longevidade. Este foi o mote para o Dia do Movimento, que aconteceu a 5 de Maio no Pavilhão dos Desportos na Anadia. A Misericórdia de Sangalhos marcou presença no evento com a participação de utentes de todas as idades. A atividade visava também celebrar o “Ano Europeu do Envelhecimento Ativo e Solidariedade entre Gerações”.

Vila Viçosa Jogos estimulam socialização A Misericórdia de Vila Viçosa organizou, a 11 de Maio, os primeiros “Jogos do Idoso”. O evento visava estimular a socialização e diminuir a ociosidade, facilitando a integração dos idosos na comunidade e melhorando a sua qualidade de vida. A iniciativa reuniu cerca de uma centena de seniores e contou com dinâmicas de grupo, jogos de mesa, jogos tradicionais e atividades de expressão física, terminando com uma simbólica largada de balões.

Formação Melhorar competências técnicas e pessoais

Resende Nova estrutura para idosos

O Centro de Apoio a Deficientes de Santo Estêvão, resposta social da UMP, está a apostar na melhoria competências dos seus colaboradores. Em parceria com o IEFP, 54 colaboradores frequentaram um curso sobre “Prevenção e Primeiros Socorros” e está a realizar-se a segunda edição do curso “Comunicação Interpessoal e Assertividade”. “Prevenção de lesões no trabalho” e “Pedagogia da Interdependência” são formações que já decorreram.

A Santa Casa da Misericórdia de Resende inaugurou, a 19 de Maio, uma nova estrutura para acolhimento de idosos. O edifício custou cerca de um milhão e 500 mil euros, suportados na totalidade pela Misericórdia. Com 8 residências individuais e 11 de casal, o novo equipamento está preparado para receber pessoas a partir dos 65 anos. No mesmo dia, foi homenageado o provedor, José Dias Gabriel, cujo nome foi dado ao edifício.

SLIDESHOW

Reguengos de Monsaraz Com teleassistência Carlos Andrade

Membro do Secretariado Nacional da UMP

A Santa Casa de Reguengos de Monsaraz já tem a funcionar o serviço de teleassistência para os idosos das respostas sociais de apoio domiciliário (simples e integrado). Em conjunto com a União das Misericórdias Portuguesas e a Portugal Telecom, foram instalados cinco equipamentos numa primeira fase, estando já prevista a montagem de mais equipamentos para apoio de pessoas em situação de isolamento.


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DESTAQUE

Servir refeições para quem perdeu tudo

Bethania Pagin Têm em média 40 anos. O trabalho foi garante de uma boa vida, em que nada faltava lá em casa, até que o desemprego bateu-lhes à porta. O que dantes era tranquilidade e segurança é hoje memória. O presente é de privações que vão da entrega da casa ao banco à falta de comida em casa. Por isso procuram a Santa Casa da Misericórdia do Montijo, que integrou recentemente a rede solidária de cantinas sociais no âmbito do Programa de Emergência Alimentar (PEA) lançado pelo governo. Desde o primeiro dia de Maio que da cozinha central da instituição saem mais 80 refeições para os beneficiários desta medida governamental contra a fome. Nos primeiros dias havia uma placa a indicar o local para onde se deveriam dirigir os beneficiários do Programa de Emergência Alimentar na Misericórdia do Montijo. Mas quase 20 dias depois, a placa já está guardada: todos já conhecem bem o espaço.

Pela hora do almoço e ao fim da tarde, cerca de 45 pessoas dirigem-se às instalações da Santa Casa. A ementa é variada. As refeições distribuídas são as mesmas que são servidas aos utentes da instituição, com exceção de um único beneficiário: um bebé de seis meses. Para ele, as cozinheiras preparam uma refeição diferente e adequada às necessidades da tenra idade e o pai vai ligeiramente mais cedo buscar os alimentos. Sopa, um segundo prato de carne ou peixe com acompanhamento e fruta compõem a refeição fornecida. O protocolo assinado com a Segurança Social prevê um máximo de 80 refeições, mas se mais apoios houvesse, mais pessoas lá iriam. A responsável por este projeto naquela Misericórdia, Carmen Fevereiro, contou ao VM que todos os dias aparecem novas pessoas interessadas. Neste momento já são 20 em lista de espera. Para aquela responsável, o facto de haver tantas famílias necessitadas justifica o estreito

cruzamento de dados com outras instituições. Através do CLAS são referenciados os casos mais graves, mas para assegurar que a refeição é entregue a quem mais precisa, os dados são atualizados quase que diariamente. O desemprego dá acesso ao Programa de Emergência Alimentar, mas a partir de um certo valor o subsídio de desemprego inviabiliza o acesso a este apoio. Em jeito de exemplo, Carmen Fevereiro contou que a situação da maior parte das famílias é de tal maneira grave que são negadas refeições a pessoas com rendimentos mensais na ordem dos 30 euros. A larga maioria dos atuais beneficiários tem rendimento zero. Mas antes deste programa a Misericórdia do Montijo já tinha a funcionar uma cantina social que serve diariamente refeições para 40 pessoas. Contudo, refere a responsável, são públicos completamente diferentes, pelo que a instituição fornece as refeições em espaços diferentes. Os utentes da cantina social são pesso-

as referenciadas com problemas de pobreza prolongada, exclusão social, toxicodependência etc. Os beneficiários deste novo programa são pessoas que até muito pouco tempo atrás tinham uma boa vida e procurar ajuda alimentar através da Misericórdia é um gesto de desespero. Segundo Carmen Fevereiro, embora nem sempre seja possível fornecer refeições por causa do limite imposto pela Segurança Social, todos os que ali vão são encaminhados para outras entidades que também estão a trabalhar no sentido de apoiar esses “novos pobres”. A vergonha é mesmo muita, continuou, e por isso é tão importante a questão da confidencialidade dos dados. De acordo com o protocolo com a Segurança Social, as instituições que integram a rede solidária de cantinas sociais podem cobrar até no máximo um euro por refeição, mas a Misericórdia do Montijo não está a pedir qualquer valor aos que lá vão buscar alimentos. De acordo com o provedor, João Gaspar, a Santa Casa

As refeições distribuídas são as mesmas que são servidas aos utentes da instituição, com exceção de um único beneficiário: um bebé de seis meses.

Misericórdia do Montijo integrou recentemente a rede solidária de cantinas sociais. Desde o primeiro dia de Maio que da cozinha central da instituição saem mais 80 refeições

Instituições da rede solidária de cantinas podem cobrar até um euro por refeição, mas a Misericórdia do Montijo não está a pedir qualquer valor


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Novas Oportunidades em Lamego São 22 os colaboradores da Misericórdia de Lamego em processo de reconhecimento, validação e certificação de competências no âmbito do programa Novas Oportunidades. O processo deverá estar concluído em Julho.

Testemunhos

Beneficiários da cantina social

Carlos Gonçalves 53 anos

Em processo de divórcio, vive entre quatro paredes. Das três televisões que já teve, hoje não há uma única em casa. Se lhe saísse o Euromilhões, distribuía-o por quem o está ajudar. Não joga, porque não tem dinheiro. “Durante o mês de Fevereiro, comia sopa ao meio-dia e à noite. A Santa Casa salvou-me da fome.”

Nelson Correia 53 anos

Foi dos primeiros a usufruir da cantina social, já lá vão dois anos. Reformado por invalidez, vive sozinho. Cozinheiro durante 35 anos, hoje recebe uma refeição diária na Santa Casa de Amarante. “Bolachas, leite e pão foram o meu alimento durante muito tempo”. Montijo serve 80 refeições por dia

já andava há algum tempo a estudar a possibilidade de servir refeições, mas a necessidade de manter em ordem as contas era uma preocupação. “Sem apoios não teríamos condições”, afirmou. Cada refeição, continuou aquele responsável, custa cerca de 2,5 euros para a instituição. Atualmente a Santa Casa do Montijo apoia 68 idosos em lar, 40 em centro de dia e outros 120 em apoio domiciliário. Em creche e pré-escolar são 200 as crianças. Para todas essas pessoas, a Misericórdia prepara cerca de 700 refeições diárias. Para o efeito, foi construída há uns anos uma cozinha central – com 11 colaboradores que serve todos os equipamentos. Na mesma altura foi também criada uma lavandaria central onde é tratada toda a roupa dos utentes da instituição. Recorde-se que o Programa de Emergência Alimentar foi lançado pelo governo no distrito de Setúbal. Além do Montijo, também as Santas Casas de Almada e Barreiro estão a fornecer refeições.

Uma luz ao fundo do túnel Na Misericórdia de Amarante muitas pessoas encontraram a “luz ao fundo do túnel”. São beneficiários da cantina social e dos cabazes alimentares Vera Campos Uma refeição quente. Uma sopa. Um cabaz de bens alimentares essenciais. Uma palavra amiga. Um apoio que não se esquece. Na Santa Casa da Misericórdia de Amarante, homens, mulheres e crianças encontraram a “luz ao fundo do túnel”. São beneficiários da cantina social e dos cabazes

que a instituição providencia para famílias em situação de carência económica e social. “Tinha tudo e hoje não tenho nada. Nunca imaginei ter de pedir para comer. Tive tudo para ser um senhor, mas as drogas cruzaram a minha vida”. As palavras saem a custo. Os olhos baixam para esconder a tristeza. A vida destes homens nem sempre foi cinzenta. Tiveram bons empregos. Estudaram em bons colégios. Chefiaram a cozinha de grandes hotéis. Mas, por doença ou desemprego, viram o seu mundo desmoronar. Os lares não resistiram. A solidão passou a ser companhia diária. Cumprindo algumas das suas obras, a Misericórdia de Amarante dá

Pedro Pereira 34 anos

de comer a quem tem fome, de beber a quem tem sede, dá bons conselhos a quem os pede, corrige os que erram e consola os tristes. Atualmente, e enquanto é aguardado o encaminhamento de mais beneficiários por parte da Segurança Social, a Santa Casa de Amarante está a servir refeições, em cantina social, a cinco homens. No futuro, o provedor, José Augusto Silveira, espera que este número poderá aumentar para o máximo das 80 refeições diárias. Será suficiente? “Por agora é o que temos”, explica ao Voz das Misericórdias o provedor. Mas, sublinha: “Nunca deixaremos ninguém ir embora com fome”.

Desempregado desde Abril, pai de duas gémeas, vive atualmente sozinho. Aguarda atribuição do Rendimento Mínimo de Inserção. Ao fim de semana conta com o apoio de uma tia. “Assim que arranjar trabalho, deixo de procurar a Santa Casa de Amarante para dar lugar a outros”.

Ernesto Ricardo Costa 38 anos

Teve o mundo a seus pés. Frequentou bons colégios. Pertencia à classe média alta. Os pais, os pilares que tinha, partiram cedo. Perdeu-se no mundo das drogas. Está abstinente há oito anos. “A minha filha é a minha razão de viver, a única coisa que me faz sorrir”.


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DESTAQUE Testemunhos Beneficiários do cabaz

Elisa Oliveira 28 anos

Grávida do terceiro filho, tem em casa um ‘marido herói’. Uma grave depressão pós-parto impediu-a de ser mãe a 100 por cento. “A Santa Casa foi uma luz de ajuda”.

Paula Costa 38 anos

Vítima de violência doméstica, deixou a casa apenas com a roupa que trazia no corpo e no colo trouxe a filha de cinco anos. “A minha filha é a minha razão de viver. Tenho de lutar pelo seu futuro”.

Carla Coelho 30 anos

Tem vivido experiências de trabalho temporário no estrangeiro. Casada, com dois filhos, tem contado com o apoio dos pais. Ambos desempregados, “gostava de trabalhar na área administrativa”.

A assinatura dos atuais protocolos com as instituições sociais vai permitir o alargamento da rede de cantinas sociais em todo o país, garantindo o acesso a refeições diárias gratuitas e o anonimato das pessoas que a elas recorrerem. As cantinas funcionarão num regime preferencial de take away, permitindo que as refeições possam ser consumidas nas próprias habitações das pessoas. O provedor de Amarante lamenta, no entanto, que a distância de algumas freguesias ao centro não permita a quem precisa beneficiar do serviço. “São distâncias longas, lugares com fraca ou inexistente cobertura de rede de transportes, pelo que para alguns é impossível”. O provedor já interpelou a Segurança Social para a possibilidade de comparticipar na deslocação da refeição ao domicílio mas, por agora, “não há verba”. Todos os 18 concelhos do distrito do Porto contam com pelo menos uma entidade do setor solidário que vai desenvolver o programa de apoio alimentar numa lógica de proximidade, territorialização e eficácia da intervenção social dirigida, prioritariamente, aos grupos sociais mais vulneráveis. As 26 entidades que assinaram os respetivos protocolos foram seleciona-

das consensualmente entre os serviços do Centro Distrital da Segurança Social do Porto e a CDAAPAC (Comissão Distrital de Acompanhamento e Avaliação dos Protocolos e Acordos de Cooperação). Além da Misericórdia de Amarante, a rede de cantinas sociais no distrito do Porto conta também com as seguintes Santas Casas: Porto, Vila Nova de Gaia, Trofa, Santo Tirso, Maia, Lousada, Paços de Ferreira, Penafiel, Póvoa de Varzim, Vila do Conde, Marco de Canavezes, Baião e Felgueiras. Um cabaz, um abraço São mães e na Santa Casa da Misericórdia de Amarante encontraram uma mão amiga que lhes estende um cabaz de bens alimentares. Com a mercearia levam duas doses de palavras reconfortantes, duas embalagens de confiança, um litro de otimismo, um quilo de autoestima, um cabaz a transbordar carinho. Pela família, mas principalmente pelos filhos, procuraram na Misericórdia de Amarante a ajuda que lhes tem faltado. O desemprego continua, à semelhança dos beneficiários da cantina social, a ser o principal motivo de carência. Às dificuldades económicas, somam-se

problemas de foro psicológico que, nem sempre, são acompanhados na altura certa. “Lidamos com casos de depressão, de baixa autoestima, de violência doméstica. Encaminhamos as situações e, depois, muitas vezes, uma palavra faz mais do que uma caixa de antidepressivos”, conta Isabel Costa, diretora técnica da instituição. Mensalmente, várias famílias visitam a instituição e levam o arroz, o óleo, as massas e farinhas, o açúcar, o leite, a fruta e os iogurtes reforçados para os lares com crianças. A cada trinta dias a família é avaliada pela instituição, um processo que permite detetar quaisquer alterações às condições socioeconómicas do agregado. “Temos de ser muito rigorosos nos apoios. Podemos cancelar a atribuição de um cabaz, como reforçá-lo ou interrompê-lo temporariamente se a situação o justificar”, explica a diretora técnica. No futuro terão toda a rede ligada à Segurança Social, o que irá permitir conhecer mais ao pormenor a situação de cada beneficiário. Dezenas de Santas Casas estão a servir refeições no âmbito do Programa de Emergência Alimentar. Ver texto de opinião na página 22


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em ação

UMP promove programa certificação de qualidade UMP está a promover um programa de certificação de qualidade nas Santas Casas. As sessões de esclarecimento sobre esta iniciativa reuniram mais de 300 pessoas colo de cooperação com o Ministério da Solidariedade e Segurança Social. A qualidade, neste momento, não tem caráter obrigatório para as instituições, mas mesmo assim a utilização dos manuais do ISS continuam a ser alvo da atenção dos inspetores da Segurança Social. A maior parte das inspeções, continuou aquele responsável, apresenta no relatório final uma menção à inconformidade em relação aos manuais de qualidade do ISS. Ao mais alto nível governamental, referiu Carlos Andrade, a posição da UMP é aceite. “Do ministério aos centros distritais a referência aos manuais nas inspeções é desadequada”. Para a União das Misericórdias Portuguesas, os manuais do Instituto da Segurança Social não são completamente adequados às especificidades

Primeira sessão teve lugar em Lisboa

Para a UMP, os manuais do Instituto da Segurança Social não são completamente adequados às especificidades das Misericórdias

Bethania Pagin A União das Misericórdias Portuguesas (UMP) está a promover um programa de certificação de qualidade nas Santas Casas. As sessões de esclarecimento sobre esta iniciativa tiveram lugar em Lisboa, Viseu e Vila do Conde e reuniram mais de 300 pessoas. “Ganhamos capacidades, transparência e um maior entrosamento com a comunidade”. Foi assim que o responsável pelo projeto, o membro do Secretariado Nacional da UMP que coordena a área de ação social, Carlos Andrade, resumiu as vantagens da certificação de qualidade durante a reunião em Lisboa, na sede da União. O modelo a ser utilizado é do

EQUASS (European Quality Assurance for Social Services), utilizado pelo governo há uns anos no âmbito do Programa Arquimedes que visava certificar equipamentos sociais de apoio a pessoas portadoras de deficiência e de reabilitação. Ainda segundo Carlos Andrade, com o apoio da Associação Portuguesa para a Qualidade, foi possível encontrar um conjunto de indicadores que satisfizessem a UMP, mas também a EQUASS. Em causa estava uma reivindicação antiga da UMP: os manuais de certificação de qualidade do Instituto de Segurança Social (ISS). Ainda de acordo com Carlos Andrade, os manuais do ISS exigem mais das instituições do que o acordado em sede de proto-

Experiência no setor social

APQ representa EQUASS no país

Este programa de certificação da qualidade nas Misericórdias vai contar com a participação de duas entidades externas: Sinase e a AFID/Plataforma Social. Ambas têm experiência no trabalho junto de instituições de solidariedade social. O processo de certificação pode durar até 12 meses para o nível I (ver caixa ao lado) e tem durabilidade de dois anos. Internamento, este programa vai contar com a participação de Mariano Cabaço, mas também dos colaboradores do Gabinete de Ação Social da União das Misericórdias Portuguesas: Nádia Marques e Márcio Borges.

A Certificação da Qualidade dos Serviços Sociais (EQUASS Assurance – o nível 1 do sistema) corresponde a um sistema de garantia e controlo da qualidade que permite às organizações encetarem um processo de certificação externo, de reconhecimento a nível europeu, através do qual atestam a qual idade dos seus serviços junto de utentes e partes interessadas. Em Portugal, a representação do EQUASS é assegurada pela APQ (Associação Portuguesa para a Qualidade), que apoiou a União das Misericórdias Portuguesas ao longo deste projeto.

das Misericórdias. Em jeito de exemplo, destacou a utilização da lógica dos clientes presente naqueles documentos da Segurança Social. “Somos irmãos em Cristo. Esta é a lógica do serviço nas Santas Casas”. Por isso, a UMP tem vindo há uns anos a estudar o dossiê da certificação da qualidade e é assim que surge a utilização da norma EQUASS. Para apoiar as Misericórdias neste projeto, esteve em aberto a possibilidade de financiamento a 50 instituições no âmbito do Programa Operacional Potencial Humano (POPH). O eventual apoio ainda não está completamente descartado, mas por enquanto não há qualquer previsão sobre esta linha de apoio. O coordenador responsável por este programa na UMP é o diretor do Ceforcórdia, Mariano Cabaço, mas as certificações serão promovidas por duas entidades externas (ver caixas). Além das sessões de esclarecimento que tiveram lugar em Lisboa, Viseu e Vila do Conde, está marcada outra reunião, no dia 21 de Junho em Viana do Alentejo.


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Por uma doce causa A Santa Casa da Misericórdia de Torres Novas marcou presença nas “Noites do Castelo”, evento organizado pela autarquia, com a sua “barraquinha” de venda de bolos.

Paços de Ferreira celebra 100 anos

Adeus em Figueira de Castelo Rodrigo

Santa Casa da Misericórdia de Paços de Ferreira assinalou um século de existência. A cerimónia foi presidida pelo bispo do Porto, D. Manuel Clemente Paulo Sérgio Gonçalves A Santa Casa da Misericórdia de Paços de Ferreira assinalou, no passado dia 28 de Abril, um século de existência. A cerimónia foi presidida pelo bispo do Porto, D. Manuel Clemente, que apelou ao diálogo entre Estado e instituições da Igreja. Realçando o papel que as Misericórdias desempenham há 500 anos, D. Manuel Clemente aproveitou para apelar para que Estado e a instituições da Igreja concentrem esforços e permaneçam de mãos dadas para poder responder às situações de carência mais prementes. O provedor da Santa Casa da Misericórdia de Paços de Ferreira, Augusto Bismarck, salientou ao Voz das Misericórdias que, apesar das dificuldades financeiras que a instituição atravessa, o objetivo principal conti-

Santa Casa pacense presta apoio a cerca de 52 idosos

nua a ser “dar conforto e qualidade de vida aos utentes”. Atualmente, a instituição pacense presta apoio a cerca de 52 utentes em lar e oito em apoio domiciliário. Para angariar receitas que possam suportar nesta altura as despesas, a Misericórdia está a efetuar a recuperação dos pisos inferior e superior do antigo edifício do hospital – onde já funciona uma clínica com diversos serviços -, alargando para nove quartos com mais 14 camas. Na

forja está ainda, a construção de uma ala no atual edifício do lar, que terá capacidade para mais 15 camas. Brevemente, vão iniciar-se também as obras de recuperação do Villa Maria – edifício também conhecido como Casa da Coquêda. Com financiamento de fundos comunitários, o equipamento, continuou o provedor, vai ter, além de 14 camas, “uma sala multiusos, uma capela e sala de reuniões com cerca de 50 lugares sentados”. Este equipamento

orçado em cerca de 540 mil euros deverá arrancar até ao final do ano. Augusto Bismark reconhece que os tempos que se avizinham não são fáceis, mas, mantém esperança num futuro mais risonho. “As Miseric��rdias são uma das poucas saídas para evitar o isolamento dos idosos e por isso é necessário dar-lhes atividade para se manterem bem física e mentalmente”, ressalva. Além do bispo do Porto, diversas personalidades se associaram à comemoração do centenário da Misericórdia de Paços de Ferreira. Entre eles, Manuel de Lemos, presidente do Secretariado Nacional da União das Misericórdias. Durante a cerimónia, o responsável voltou a salientar o esforço que o Estado deve fazer, cumprindo com o estipulado, para que as respostas sociais possam continuar a ser dadas com eficácia e prontidão pelas Santas Casas. A representante da Segurança Social do Norte, Ana Cristina Venâncio, e o presidente da câmara municipal, Pedro Pinto, também marcaram presença. O autarca referiu que “uma casa com 100 anos constitui um património de todos e uma peça de arquitetura espiritual da cidade”.

Caminhada pela família em Vila Nova de Famalicão Misericórdia de Famalicão promoveu a II Caminhada – Dia da Família. O evento organizado pelo Lar S. João de Deus teve lugar a 12 de Maio e reuniu 150 pessoas A Santa Casa da Misericórdia de Vila Nova de Famalicão promoveu a II Caminhada – Dia da Família. O evento organizado, pelo Lar Jorge Reis, teve lugar a 12 de Maio e reuniu cerca de 150 pessoas. A iniciativa superou as expectativas da organização. Segundo comunicado da instituição, “a atividade, que teve início no ano passado, surgiu da necessidade de tornar mais abrangente o programa de atividades da Festa da Família, procurando através de práticas saudáveis, alargar à comunidade as vivências institucionais da Misericórdia de Vila Nova de Famalicão e particularmente do Lar Jorge Reis, estrutura residencial para idosos”. “No Ano Europeu do Envelhecimento Ativo e da Solidariedade entre

Evento reuniu 150 pessoas

Gerações consideramos que estas iniciativas se impõem cada vez mais como promotoras de saúde física, mas especialmente como momentos de convívio intergeracional. Aliás, este é um dos nossos principais objetivos, materializado no momento em que os residentes do Lar Jorge Reis acolhem os caminheiros aquando da chegada num agradável momento de familiaridade.” Ainda no âmbito do Dia da Família, a equipa do Lar São João de Deus organizou uma tarde convívio entre utentes, seus familiares e funcionários. A capela do acolheu a todos que decidiram juntar-se à festa e assistirem a uma missa. De seguida os convidados foram encaminhados a visitar uma exposição com trabalhos realizados pelos utentes no âmbito das atividades de trabalhos manuais e ainda houve espaço para um espetáculo de variedades. Um lanche convívio encerrou o programa da festa.

Faleceu o provedor da Santa Casa da Misericórdia de Figueira de Castelo Rodrigo. Fernando Carrilho Martins tinha 77 anos e era provedor desde 1974

Fernando Carrilho Martins

Faleceu recentemente o provedor da Santa Casa da Misericórdia de Figueira de Castelo Rodrigo. Fernando Carrilho Martins tinha 77 anos e as cerimónias de exéquias tiveram lugar a 21 de Maio. Fernando Carrilho Martins era membro de uma família numerosa (12 irmãos) e os pais viveram exclusivamente da lavoura. Em Outubro de 1960, iniciou funções docentes como professor de Matemática no Liceu da Covilhã. Em finais de 1982, foi eleito presidente da Câmara Municipal, cargo que exerceu durante dois mandatos. A partir do início de 1982 e até finais de 1990, foi Presidente da Assembleia dos Bombeiros Voluntários de Figueira de Castelo Rodrigo. Em Junho de 1974, foi eleito provedor da Santa Casa de Figueira de Castelo Rodrigo, tendo desempenhado essa função até a data do seu falecimento. Quando assumiu o cargo, recebeu da anterior gestão, o edifício do Hospital e uma Misericórdia sem outros recursos e com as contas em valores negativos bastante significativos para a altura. Em Agosto de 1976, deu-se a nacionalização dos hospitais concelhios. Perante a possibilidade de extinção da Santa Casa, Fernando Carrilho Martins deu seguimento à criação de estruturas de apoio à terceira idade e à infância. As cerimónias de exéquias tiveram lugar em Coimbra a 21 de Maio. À família e aos amigos, apresentamos os nossos mais sentidos pêsames.


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em ação

Calheta debate papel da Misericórdia A Santa Casa da Calheta organizou um ciclo de conferências, no âmbito das celebrações do Dia da Misericórdia, celebrado a 30 de Maio Alberto Pita A Santa Casa da Misericórdia da Calheta está a organizar um ciclo de conferências, no âmbito das celebrações da 23.ª edição do Dia da Misericórdia, que se assinala a 30 de Maio. As conferências acontecem em todas as quartas-feiras deste mês, pelas 19 horas (exceto na última, dia 30). São quatro encontros que trazem para debate temas como a solidariedade e o voluntariado, o envelhecimento, a ação da Misericórdia e a família. De acordo com Cecília Cachucho, provedora da Santa Casa da Misericórdia da Calheta, esta iniciativa visa promover o aprofundamento da cultura de misericórdia e passar uma mensagem de solidariedade. Por esse motivo, a organização escolheu para a abertura do ciclo de conferências o tema: “Da solidariedade ao voluntariado”. O orador convidado foi o padre José Maia, presidente da Direcção do Colégio Internato dos Carvalhos e antigo presidente da CNIS - Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade. A segunda conferência, no dia 9, abordou a questão do “Envelhecer com Coração, Alegria e Serenidade”. Dois enfermeiros especializados em

geriatria, Fátima Mendes e José Manuel Freitas, falaram sobre a importância de saber envelhecer. A conferência teve uma grande adesão da população em geral, sendo notória a presença de muitos jovens que quiseram conhecer as problemáticas do envelhecimento e saber o que pode ser feito para que se possa viver com maior conforto e envelhecer com alegria e serenidade. Esta é uma área particularmente importante para a Santa Casa da Misericórdia, uma vez que a instituição está vocacionada, especialmente, para o apoio aos mais velhos. Neste sentido, Cecília Cachucho explicou que, além do planeamento das atividades do quotidiano, são prestados diariamente cuidados básicos aos utentes, acompanhamento médico, de enfermagem, de nutricionista e de psicomotricista. O acompanhamento espiritual é também fundamental, realizando-se missa semanal nos lares, tendo o capelão a “preocupação” de chegar mais cedo, a fim de ouvir os idosos em confissão ou simples conversa. O trabalho da Santa Casa da Misericórdia é, contudo, bem mais vasto. E foi precisamente isso que o juiz Ferreira Neto disse, na terceira conferência, no dia 16, subordinada ao tema “A Acção da Misericórdia”. Ferreira Neto, que é voluntário e presidente da Mesa da Assembleia Geral desta Misericórdia, deu o seu testemunho, incidindo as suas palavras sobre a importância da instituição. O juiz refletiu ainda sobre o que significa a misericórdia

hoje, respondendo assim ao tema de fundo do ciclo de conferências. A quarta conferência, realizada no dia 23, abordou o tema “A família e desafios: presente e futuro”. A oradora foi a escritora Graça Alves, que trouxe para debate a importância das famílias se manterem ligadas aos seus idosos institucionalizados. Aproveitando o tema de debate, Cecília Cachucho disse que a Santa Casa vai empenhar-se em sensibilizar as famílias a visitarem mais os seus idosos. A provedora considera que é necessário reeducar os valores das famílias. “Temos de ir passando no quotidiano aqueles valores que são intrínsecos à solidariedade”, advogou. A Santa Casa da Misericórdia da Calheta tem dois lares - Lar da Nossa Senhora da Estrela, com 58 utentes, e Lar da Nossa Senhora da Conceição, com 26 utentes -, um centro de convívio (frequentado por cem utentes, por mês) e dá apoio ao domicílio a cerca de 250 pessoas. A instituição dá ainda apoio ao Centro Social do Pinheiro e é parceira na unidade local da rede regional de cuidados continuados. A sustentabilidade da instituição é assegurada pela comparticipação da Segurança Social, resultante de acordos de cooperação, pelas reformas dos utentes, pelas comparticipações das famílias e pelos donativos de benfeitores, para além de outras receitas próprias da instituição. Trabalham nesta Misericórdia cerca de 120 funcionários e colaboradores, contando ainda com o trabalho voluntário dos elementos que compõem os corpos sociais.

Calheta organizou quatro conferências

Receitas nas misericórdias

Torta de Bacalhau de Santo Estêvão

INGREDIENTES

MODO DE PREPARAção:

250g de bacalhau 1 cebola picada 3 dentes de alho picados 5 ovos l de leite 6 colheres mal cheias de farinha 1 chávena de café mal cheia de azeite fervido Salsa picada

Coze-se o bacalhau, desfia-se e pica-se na máquina. Põe-se numa taça a cebola, o alho e as gemas e bate-se bem. Mistura-se o bacalhau e o azeite. A seguir a farinha, o leite, a salsa e as claras batidas em castelo. Vai ao forno a cozer em tabuleiro untado com o azeite e polvilhado de farinha. Depois de cozido, desenforma-se sobre um pano, e recheia-se com maionese, picles e azeitonas picadinhas. Enrola-se e enfeita-se com maionese e azeitonas. Serve-se fria. Acreditem que é maravilhosa esta torta!

Preço:

DIFICUDADE:

€€€€€

,,,,,

Nota de redação: Esta receita foi enviada pelo Centro de Apoio a Deficientes Profundos Santo Estêvão, um equipamento da União das Misericórdias Portuguesas em Viseu.


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www.ump.pt Infância carenciada em Portugal Mais de 27% das crianças portuguesas vivem em situação de carência económica. Os dados são de 2009 e foram recentemente apresentados pela Unicef. O relatório ainda não inclui os efeitos da crise

Fafe celebra 150 anos com noite de gala Foi numa noite de gala que se encerrou o ciclo de comemorações dos 150 anos da Santa Casa de Misericórdia de Fafe, no último dia 25 de Maio

Hino foi apresentado pelas crianças

Alexandre Rocha Foi numa noite de gala que se encerrou o ciclo de comemorações dos 150 anos da Santa Casa de Misericórdia de Fafe, no último dia 25 de Maio. O Teatro-Cinema de Fafe acolheu o lançamento da mais recente obra do historiador Daniel Bastos, que compilou no seu livro a história completa da Misericórdia, desde a sua fundação até aos dias atuais. Antes, porém, duas performances executadas pelas crianças da Misericórdia emocionaram a repleta plateia. A cerimónia foi o ponto alto do calendário de atividades iniciadas no último dia 23 de Março, data precisa em que se registou os 150 anos da fundação da Misericórdia. Com o “levantar do pano” foi, pela primeira vez, apresentado publicamente o hino da instituição, num coro constituído pelas crianças do jardim-de-infância e salas de estudo da Misericórdia e funcionários da instituição, dirigidos pelo professor Martinho Fernandes e acompanhados ao piano por Simão Neto. “Vem e traz uma flor” é um dos versos marcantes do hino, cuja letra foi composta por uma idosa residente nos lares da Misericórdia de Fafe, Dona Laura Ramos Silva, infelizmente, já falecida, e também recordada naquela data. A segunda exibição da noite trouxe um pequeno recital de ballet, dirigido pela professora Alexandra Fonseca, onde participaram as crianças e uma bailarina a representar uma fada-madrinha que acolhe e protege, metáfora ideal para as funções desempenhadas pelas Misericórdias. Enquanto o palco era preparado para dar lugar à mesa de honra, inúmeros exemplares do livro de Daniel Bastos, “A Santa Casa da Misericórdia de Fafe, 150 anos ao serviço da Comunidade”, eram folheados pela plateia. Nas intervenções que se seguiram, o presidente da Assembleia Geral (AG) da Santa Casa, Artur Marques Mendes, destacou o seu sentimento de sorte e orgulho pela honra de estar à frente da AG num momento tão singular da sua história. O presidente do Secretariado Nacional da União das Misericórdias Portuguesas, Manuel de Lemos, dirigiu também os seus parabéns à Santa Casa, sublinhando o papel cada vez mais importante que as Misericórdias desem-

penham na primeira linha de combate ao estado de necessidade que assola um cada vez maior número de famílias por todo o país. Os nomes de algumas personagens particularmente especiais à Misericórdia de Fafe foram relembrados pela provedora, Maria Ribeiro João, sendo evocados nomes como o cónego Leite de Araújo, importante provedor da instituição nos anos 60. As curiosidades históricas deste longo percurso de século e meio da foram introduzidas por Beatriz Trindade, ao destacar o facto do surgimento da Misericórdia de Fafe dever-se à diáspora portuguesa, mais especialmente aos compatriotas emigrados no Brasil no século XIX. Responsável pelo prefácio da obra, a professora catedrática e diretora do Centro de Estudos das Migrações e das Relações Interculturais da Universidade Aberta de Portugal classifica-a como um “valioso contributo para o conhecimento da instituição, da cidade e do próprio fenómeno migratório português”. A comunidade emigrante fafense era de tal forma numerosa que se pôde cunhar a expressão “Fafe, cidade de brasileiros”, sendo hoje ainda identificável o inconfundível estilo arquitetónico que empreenderam nas suas “casas

de brasileiros”, caracterizadas pelas ricas fachadas revestidas de azulejos. Daniel Basto confidenciou como a sua obra foi sendo construída através da consulta exaustiva das inúmeras fontes históricas, livros, documentos de arquivos, jornais da terra, fotografias, que, ao longo de meses de trabalho culminaram no extenso volume, rico em números, estatísticas e ilustrações recolhidas durante este período. No seu

discurso o autor sintetizou esta história, explicando como foi no Rio de Janeiro que o comerciante José Florêncio Soares criou a comissão de subscritores fundadores. Estas vontades vindas do além-mar, em sintonia com o espírito voluntarioso inerente às Misericórdias, resultaram no lançamento da pedra fundamental do Hospital de São José, em 6 de Janeiro de 1859, obras que seriam inauguradas quatro anos mais

Hino da Santa Casa de Fafe Se vens connosco morar Vem e traz uma flor Se tu souberes respeitar, Também recebes amor! Deixa a tristeza lá fora Esvazia o coração Começa de novo agora, Põe de parte a solidão. Não queres voltar a sofrer? Deixa ’amargura pra trás Para que possas viver O teu futuro em paz. Aqui encontras carinho, Que lá fora ninguém te deu. Vem, viver neste cantinho, Que te vais sentir no céu.

Sempre de Anjos rodeados, Que não nos deixam sofrer. Nos nossos Jardins de Infância, Aprendemos a viver. Encontras a porta aberta, Não tenhas medo de entrar. Temos tudo à hora certa Para o nosso bem- estar! É fácil a adaptação, Basta apenas ter juízo. Se tiveres educação, Vens viver num Paraíso! Na Misericórdia de Fafe Convivemos com alegria É Fafe a nossa cidade Nossa linda freguesia!

tarde, a 19 de Março de 1863. Outra interessante curiosidade histórica é o facto do edifício em si ser uma cópia fiel do hospital da Beneficência Portuguesa erigido no tradicional bairro carioca da Glória, no Rio de Janeiro. Num passado mais recente, o 25 de Abril trouxe tempos mais tumultuosos para a Misericórdia, que viu o seu hospital nacionalizado. Mas foi na dificuldade que a instituição viu a oportunidade de reinventar-se, virando-se para a criação de inúmeros outros serviços para a população, como os infantários, centros de dia, entre outras valências. Atualmente a Misericórdia de Fafe atende a mais de 500 crianças nos seus infantários e ATL, presta assistência a quase 300 idosos, entre os institucionalizados e o seu apoio domiciliário, além de estender os seus cuidados a 40 deficientes. Para manter esta “máquina” em funcionamento, a Misericórdia emprega 215 trabalhadores, em consonância com a linha de pensamento de Manuel de Lemos, que vê o papel das Misericórdias a nível nacional como uma instituição que está na linha de frente no cuidado aos que mais necessitam, mas também como um organismo que é uma importante fonte geradora de empregos e dinamizador das economias locais.


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EM FOCO

Autossuficiência que Vinhos, produtos hortícolas e enchidos são a aposta da Santa Casa de Valpaços para garantir a subsistência

Patrícia Posse O vinho repousa nas cubas ou entre as paredes envidraçadas das garrafas. Fora da adega, são filas de cepas a perder de vista e uma ala de estufas destinadas à horticultura. Já o poeta transmontano, Miguel Torga, registava que “desde que o mundo é mundo que toda a gente ali governa a vida na lavoura que a terra permite”. A atividade agrícola na Santa

Casa da Misericórdia de Valpaços intensificou-se em 2005, com a chegada de Luís Sousa, vice-provedor e responsável pela produção agrícola. “Deixou de ser uma atividade de subsistência para ser uma atividade lucrativa e a pensar que, no futuro, as coisas venham a melhorar”, refere. A aposta começa agora a direcionar-se para a plantação de árvores de frutas e, mais tarde, poderá passar também pela produção de ovos. A maioria

das terras foi doada pelos utentes institucionalizados nos lares. É na comercialização dos vinhos que a Santa Casa granjeia maiores rendimentos que são, posteriormente, aplicados para dar resposta às necessidades das diferentes respostas sociais. Luís Sousa adverte que as vinhas envolvem “despesas bastante grandes” e prefere sublinhar que a “mais-valia está na inserção das pessoas, o que acaba por ser também uma obra de misericórdia”.

Os quatro hectares pejados de videiras na Quinta Nossa Senhora do Carmo, juntamente com duas vinhas em Fornos do Pinhal, rendem uma produção anual que ronda os 20 mil litros de vinho tinto e branco. A vindima, essa, pode demorar entre dois a três dias, contando com a força braçal de, pelo menos, uma dezena de pessoas. O primeiro vinho rotulado data de 2005, mas já anteriormente se produzia vinho a granel. “Este ano,

vamos aparecer no mercado com um vinho DOC [Denominação de Origem Controlada] chamado «Copofonia». Trata-se de um lote de 1300 garrafas”, revela o vice-provedor. Para já, «Formigueira», «Toca da Lebre» e «Sexta-Feira 13» são os vinhos em circulação. O primeiro foi o único vinho submetido até à data a um concurso, tendo arrecadado a medalha de prata. Além do consumo doméstico (nomeadamente para a confeção dos


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vem da terra dos seus utentes e angariar receitas com a sua comercialização

enchidos), os vinhos são absorvidos pelo mercado regional, embora haja “um foco bastante forte de comercialização no Minho”. “Estamos a vender para a Misericórdia de Valongo e estou apostado em divulgá-los nas Misericórdias todas”, garante Luís Sousa. O “Sexta-Feira 13” está associado a Montalegre, zona para onde também é escoado em “bastante” quantidade. O preço das bag-in-boxes está fixado nos cinco euros, já os vinhos regionais

e de mesa oscilam entre 1.65 e 1.80 euros. “Estamos apostados em produzir vinho, pensando que o mercado nos poderá dar essa preferência dada a afinidade que temos ao social. A pessoa que está a comprar uma garrafa de vinho de qualidade está a colaborar connosco, está a ajudar”, salienta. Hortícolas só para consumo A Santa Casa de Valpaços já conseguiu alcançar a autossuficiência na

parte hortícola, à exceção da cebola que exige um aumento de produção já este ano. “É tudo consumido internamente e aquilo que produzimos acaba por ficar mais barato do que se fôssemos comprar no mercado, associado ainda a uma qualidade in extremis”, realça o vice-provedor. Além da dúzia de túneis de estufas, a instituição dispõe ainda de um prédio com um hectare, adquirido recentemente. De inverno, a jornada de trabalho arranca às 8h e finda às 17h, enquanto no período de verão começa às 6h e termina às 12h30. “Temos que fazer todos os dias, mas as estufas são o que dá mais trabalho. Tem de se andar sempre em cima e mal se tira uma cultura é preciso plantar logo outra”, esclarece o encarregado do pessoal e responsável pela produção vitícola, Daniel Batista. A Santa Casa de Valpaços emprega quatro trabalhadores que se ocupam das terras e recruta alguma mão-de-obra sazonal. De março de 2011 a março deste ano, produziram-se 10 400 kg de couve penca, 9 200 kg de cebolas, 4 000 kg de tomate (volume que este ano deve crescer para os 12 mil), 1 700 kg de feijão, 1 500 kg de alface, 800 kg de espinafres, 680 kg de courgettes, 580 kg de alho francês, 570 kg de brócolos, 440 kg de pimentos, 320 kg de pepinos, 200 kg couve-flor, 120 kg de favas, entre outras culturas. Se por um lado, a produção beneficia de condições naturais privilegiadas (microclima e solos férteis), por outro, os responsáveis da Santa Casa não descuram as escolhas técnicas. “Se temos as estufas, é para dar rentabilidade. Fazemos correção intensiva para evitar a acidez dos terrenos. Para que a cultura que vem a seguir vingue e consigamos produções rentáveis é preciso ter os solos tratados e preparados. Temos tido grande êxito”, admite Luís Sousa. Outras Santas Casas também estão a apostar na produção de bens para gerar mais-valias. Ver texto ao lado

Fumeiro de qualidade Valpaços investe na confeção de fumeiro. ‘Compramos porcos em Agosto ou Setembro e acabamos de os criar. Assim, temos qualidade da carne’ Patrícia Posse A Santa Casa de Valpaços investe ainda na confeção do tradicional fumeiro de Trás-os-Montes. “Compramos porcos em agosto ou setembro e acabamos de os criar. Assim, temos qualidade da carne. Só no ano passado, a adquirimos onze porcos”, revela Luís Sousa. A matança ocorre entre os meses de dezembro e janeiro. O tempero das carnes tem a particularidade de utilizar o vinho produzido pela instituição. Depois, é das mãos das empregadas da cozinha que nascem alheiras, linguiças, bocheiras e salpicões. Os presuntos vão a salgar

durante um mês e, depois, são pendurados para secar. “Intensificamos um pouco mais a produção de enchidos, porque o comércio tem-se desenvolvido”, justifica o vice-provedor. Além do consumo doméstico, os enchidos são vendidos nos mercados regionais e procurados por “gente conhecida que está em Lisboa”. Sem manobras de promoção, a Santa Casa não tem dificuldades em conquistar a clientela pelos sabores mais genuínos. “As pessoas é que vêm ao nosso encontro e dizem que os enchidos são excelentes”, destaca. Contudo, a instituição não produz “conforme as solicitações” e por isso é que “muita gente fica sem o nosso fumeiro”. Mais Santas Casas apostam na produção de bens para gerar mais-valias. Nesta rubrica, já falamos sobre Macedo de Cavaleiros, Vila do Conde, Vila Verde, Ribeira de Grande e Vimeiro e continuaremos a falar sobre o assunto na edição de Junho.


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terceira idade

Um romance que ‘saiu a sério’

Exposição de iluminuras na sede da União

Às portas de completarem 80 anos, dois idosos da Santa Casa de Chaves decidiram casar, provando que “o amor não envelhece, morre criança”

Academia de Cultura da União das Misericórdias Portuguesas promoveu uma exposição com trabalhos de uma das suas 70 disciplinas: iluminuras Bethania Pagin

Ângelo e Carminda têm ambos 79 anos

Patrícia Posse O dia 11 de maio será sempre recordado com especial carinho por Ângelo e Carminda, pois foi nessa data que contraíram matrimónio no Lar de Santa Isabel, equipamento da Santa Casa da Misericórdia de Chaves em Vilar de Nantes. “Não estou nada nervosa. Sou uma rapariga muito calma”, assegurava a noiva, enquanto lhe retocavam a maquilhagem. Nascida em Chaves, Carminda Cunha, de 79 anos, não imaginava casar “com esta idade” e pela terceira vez. “Pensava mais no caixão, mas depois pensei que ainda é muito cedo para morrer. Agora, vamos é pensar em gozar a vida”, confidenciou. Rodeada por flashes e câmaras de televisão, Carminda mostrava-se alegre e bem-disposta, ainda que nenhum dos seus descendentes tenha comparecido.

“Tenho três filhas, que estão emigradas nos Estados Unidos, e dois rapazes. Os meus filhos não querem vir, não vêm. Estou muito feliz por ver tantas flores e tanta gente desconhecida.” De flor na lapela do fato cinzento e olhar vivo, Ângelo Guerra, 79 anos, esperava pela amada num dos corredores do lar. Sem sinais de nervosismo, o septuagenário desvendou as razões do coração: “gostei dela porque vi que era uma mulher que, mais ou menos, me servia. Foi ter comigo muitas vezes, cozinhou e limpou-me a casa. Ela é divertida e tem uma simpatia de um raio”, acrescentou. Aos olhos da noiva, Ângelo é tido como “muito bom rapaz”, mas “o dinheiro é o melhor amigo dele”. Uma questão de respeito O namoro começou antes das vindimas de 2009, depois de Carminda se ter deslocado a Vila Meã da Raia (Cha-

ves), aldeia onde Ângelo Guerra vivia. Foi Palmira Alves, 55 anos, quem os apresentou. “Quando vinha visitar o meu marido ao lar, a dona Carminda dizia-me que precisava de arranjar um companheiro e perguntou-se se não lhe arranjava um senhor na minha terra. Um dia, foi comigo para conhecer o senhor Ângelo.” Os dois conversaram e “lá se entenderam”. “Ela disse-me que tinha gostado muito dele e disse «Deus queira que dê para bem»”, revelou Palmira. Viúvo há cerca de três anos e sem filhos, Ângelo Guerra vivia sozinho e “gostava de uma companhia”. “Nessa altura, foi amor logo à primeira vista”, recordou. A sabedoria popular sentencia que “a distância das moradias não desune o amor dos corações” e, por isso, durante três anos, as visitas de Carminda tornaram-se assíduas. “Ela ia num táxi, que eu pagava, e depois

estava 15 ou 20 dias comigo e vinha outra vez para aqui [lar].” Por fim, a vontade de casar tornou-se unânime. “Namorámos bastante tempo e decidi casar porque não queria ser amigada. Ficava mal dizerem: «é amante». Assim, «é uma senhora casada». É mais bonito”, explica Carminda. A primeira a saber do enlace foi Palmira, mas recebeu a notícia com alguma surpresa. “Pensava que era a rir, afinal, saiu a sério. Os dois são livres, fazem bem.” Ao pedido de casamento sucedeu-se a mudança de Ângelo para o lar de Santa Isabel. De braços entrelaçados, o casal atravessou o refeitório e seguiu, em passadas tranquilas, para a sala onde teve lugar a cerimónia. De frente para o conservador do Registo Civil e perante os olhares dos outros idosos, Ângelo e Carminda professaram os votos e trocaram as alianças douradas.

A Academia de Cultura e Cooperação promoveu no início do mês de Maio uma exposição com trabalhos de uma disciplina inédita entre as universidades seniores: iluminuras. Durante uma semana, os trabalhos puderam ser vistos na sede da União das Misericórdias Portuguesas (UMP) em Lisboa. O professor é o também presidente do conselho de gestão da Academia, Luís Aires. Em conversa com o Voz das Misericórdias, aquele responsável contou que as iluminuras ganharam força entre os séculos XII e XIII. A sua principal característica era a cumplicidade entre texto e imagem, de modo a que os que não sabiam ler conseguissem compreender a mensagem. Em Portugal, o principal impulsionador das iluminuras foi D. Manuel. As iluminuras estavam ligadas às questões religiosas, cartografias, heráldicas, códices, livros de horas etc. Os originais eram realizados em pele, normalmente por monges copistas. As famílias nobres encomendavam muitos trabalhos e a cor azul era a mais desejada por causa da dificuldade em obter. O azul era normalmente extraído de insetos ou de pedras raras, provenientes de países longínquos. A disciplina de iluminuras na academia da UMP conta com 18 alunos. Ao todo, são 500 alunos a frequentar aulas proferidas por um grupo de 70 professores voluntários. O número de alunos diminuiu, contou Luís Aires. “A crise não ajuda”.

Iluminuras têm 18 alunos


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saúde

Santas Casas decisivas na rede de continuados

NÚMEROS

30

Camas A unidade de média duração da Santa Casa da Misericórdia da Amadora tem capacidade para 30 camas e já tem a lotação completamente esgotada

30

Empregos O funcionamento da unidade de cuidados continuados da Misericórdia da Amadora gerou a criação de 30 novos postos de trabalho naquele concelho.

476

Colaboradores Atualmente, a Santa Casa da Misericórdia da Amadora emprega cerca de 474 pessoas. A instituição está a completar 25 anos de existência em 2012.

135 Misericórdia da Amadora foi pioneira nos cuidados continuados

Ministro garantiu manutenção dos cuidados continuados e destacou papel ativo e decisivo das Misericórdias na rede Bethania Pagin A Santa Casa da Misericórdia da Amadora inaugurou recentemente a sua unidade de cuidados continuados (UCC). Com capacidade para 30 pessoas em internamentos de média duração, a unidade já está com lotação esgotada. Presente naquela cerimónia, o ministro da Saúde, Paulo Macedo, garantiu a manutenção da rede nacional de cuidados continuados, na qual as Misericórdias têm tido um “papel ativo e decisivo”. Naquele mesmo

dia começavam a ser regularizadas as dívidas do Ministério da Saúde às Santas Casas. Foi a 17 de Maio e também esteve presente o ministro da Solidariedade e Segurança Social, Pedro Mota Soares. O dia tem sabor a regresso, afirmou a provedora daquela instituição, Cristina Farinha. A Santa Casa da Amadora integrou a experiência-piloto que deu origem à Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados (RNCCI). Na altura, ali funcionava uma unidade de cuidados paliativos. Daí que, continuou a responsável, a Misericórdia espera um dia poder ver algumas camas convertidas em paliativos de modo a aproveitar o conhecimento adquirido ao longo do projeto experimental. Apesar de “a sustentabilidade ser uma preocupação diária”, a instituição assinou acordos e já está a receber 30 pessoas na nova unidade. Mateus Tavares e Ricardo Campos, respetivamente o primeiro e o último a darem entrada naquela UCC, representam, para Cristina Farinha, o estímulo para

continuar a trabalhar na área da saúde. Atualmente, para além da UCC, a Santa Casa da Amadora conta ainda com um centro de fisioterapia e uma clínica médica. Com 19 especialidades, a cada dez consultas privadas, os médicos dão uma de cariz social. A presidir aquela sessão, o ministro da Saúde afirmou que a rede de cuidados continuados é para continuar. Apesar de haver um plano de implementação com duração e dez anos, Paulo Macedo referiu que o crescimento da RNCCI vai depender das possibilidades do governo neste

Ministro destacou necessidade de investimentos na região de Lisboa e Vale do Tejo, onde se regista o menor número de camas momento de crise agravada. À margem da cerimónia de inauguração, o ministro destacou também a necessidade de investimentos na região de Lisboa e Vale do Tejo, que, neste momento, é onde se regista o menor

número de camas. A inauguração da UCC da Misericórdia da Amadora contou ainda com a presença do presidente da União das Misericórdias Portuguesas, Manuel de Lemos, do presidente da Câmara Municipal da Amadora, Joaquim Raposo, entre muitos outros representantes de entidades parceiras da Santa Casa anfitriã. A sessão solene foi encerrada pelos alunos da Escola Luís Madureira e da creche da Misericórdia no bairro Cova da Moura. Os pequeninos cantaram o hino da instituição para dezenas de convidados. A dívida do Ministério da Saúde às Misericórdias chegou a alcançar o montante de 39 milhões de euros. Os atrasos vinham desde Maio de 2011, mas neste momento, sabe-se que a maior parte das Administrações Regionais de Saúde já regularizou a situação junto das Santas Casas. Os atrasos referentes a 2011 equivalem a 20 milhões de euros. Recorde-se que recentemente também integraram a RNCCI as Santas Casas de Coruche e Alhos Vedros.

Camas As unidades das Misericórdias da Amadora, de Coruche e de Alhos vedros equivalem a um aumento de 135 camas na região de Lisboa e Vale do Tejo.

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Milhões A dívida do Ministério da Saúde às Misericórdias chegou a alcançar o montante de 39 milhões de euros. Os atrasos referentes apenas ao ano de 2011 equivalem a 20 milhões de euros.

1320

Vagas A região de Lisboa e Vale do Tejo tem, neste momento, cerca de 1350 camas na Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados.

50

Por cento A participação das Misericórdias na Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados equivale a cerca de 50 por cento do total de camas disponíveis.


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educação

Misericórdia do Fundão ensina música e dança

Há 15 anos a formar talentos Ao longo de 15 anos passaram mais de 2000 alunos pela Academia de Música e Dança da Misericórdia do Fundão. Entre nacionais e internacionais, já são 150 os prémios conquistados Paula Brito Batista Quando há 17 anos foi proposta a criação de uma escola de dança à Santa Casa da Misericórdia do Fundão, estavam todos longe de imaginar o alcance que o projeto ganharia, apesar de ousadia ser o lema que sempre se adequou a esta escola. “Somos ousados desde o início, imagine o que é dois anos depois de criarmos a academia avançarmos com um concurso de piano que hoje é reconhecido nacional e internacionalmente”, adianta Olga Silva, que faz parte do grupo de professores fundadores da Academia de Música e Dança do Fundão (AMDF). O objetivo inicial era criar uma escola de dança de referência na região. “Apresentámos a ideia que foi acolhida

de braços abertos” recorda João Correia, hoje diretor da academia. A partir daí, o projeto rapidamente passou à prática. “Logo nesse ano apresentámos uma candidatura para que a escola pudesse ter paralelismo pedagógico, o que só foi aceite no ano seguinte”. A 6 de Dezembro de 1996 chegou do Ministério da Educação (ME) a autorização provisória de funcionamento. Para além da dança, a academia começou, logo de início, com o ensino da música: piano, guitarra, acordeão, flauta transversal, violino e viola de arco foram os primeiros cursos instrumentais, a que hoje se juntam os de violoncelo, contrabaixo, saxofone, clarinete, trompa, trompete e percussão. Em 1996 a AMDF começou a ministrar o ensino articulado, e hoje tem protocolos com todos os agrupa-

mentos de escolas dos concelhos do Fundão e Penamacor. Em 2002 surge o pólo de Penamacor por iniciativa da câmara municipal e do Instituto Politécnico de Castelo Branco “fomos contactados para estabelecermos uma parceria com essas duas instituições, mostrámos total disponibilidade, pedimos autorização ao ME e hoje estamos em Penamacor com novas instalações, 60 alunos, e já começámos a receber alunos de Espanha”. Em 2004 chega a autorização definitiva de funcionamento da academia, e três anos depois é-lhe conferida autonomia pedagógica que “é o maior reconhecimento que uma escola pode ter”, esclarece João Correia. Outro dos reconhecimentos que a AMDF tem tido é a quantidade de prémios que os alunos têm obtido

nos diversos concursos nacionais e internacionais em que participam. “Neste momento já ultrapassamos os 150 prémios, o que em 15 anos dá uma média de dez prémios por ano”, acrescenta João Correia. Mariana Godinho estuda piano na Academia desde os sete anos e desde os nove que participa em concursos nacionais e internacionais. “Já fui a Espanha, Paris, Hungria e já ganhei alguns prémios”, sublinha com entusiasmo. Frequenta o 12º ano e quer continuar os estudos nesta área. “Já concorri à Universidade de Aveiro”, acrescentou. Ao longo destes 15 anos passaram mais de 2000 alunos pela Academia, e desses “pelo menos uma centena seguiu essa via o que é muito bom, temos vários que estão no estrangeiro a trabalhar ou a estudar, a tirar pós-

-graduações, mestrados, doutoramentos, nos EUA, Áustria ou Inglaterra” recorda João Correia. Pedro Rufino, professor de guitarra na AMDF, recorda aquele que é um dos seus alunos mais reconhecidos. “O Francisco Franco, que hoje anda pelo mundo a ganhar concursos, é um dos grandes guitarristas da atualidade”. As instalações são o principal problema que enfrenta a Academia, por isso quando questionado sobre a prenda que gostaria de receber neste décimo quinto aniversário, o diretor pedagógico, Carlos Branco, não hesitou em responder: “Uma escola integrada de ensino artístico com espaço próprio, ou seja, uma escola onde os alunos possam ter todas as disciplinas no mesmo espaço. O que temos atualmente é uma escola de ensino


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articulado em que os alunos têm as disciplinas artísticas na academia e o resto nas respetivas escolas”. O projeto para a criação de novas instalações chegou a ser elaborado mas perante o atual contexto económico que o país vive “parece-me impensável”, sublinha o provedor da Santa Casa da Misericórdia do Fundão. A Academia vai ter no entanto uma prenda de aniversário que “não sendo a que gostaríamos, vem minimizar o problema das instalações”. A Misericórdia do Fundão adaptou um dos seus mais emblemáticos edifícios às necessidades da Academia. “As obras estão prontas e no próximo ano letivo os alunos poderão usufruir das novas instalações, que têm um pequeno auditório e um conjunto de salas adaptadas às aulas de instrumento”. Outra das dificuldades com que se depara o projeto é a alteração das regras de financiamento. “Desde há um ano e meio que o Estado acabou com o contrato de patrocínio e o financiamento tem sido feito através do POPH (Programa Operacional de Potencial Humano), o que, desde logo, nos traz dificuldades acrescidas que se traduzem no atraso dos pagamentos e na dificuldade de enquadramento de algumas despesas”. Apesar de pouco usual, este equipamento da Santa Casa do Fundão tem um grande peso na vida da instituição. “São mais de 530 alunos e 39 professores”, mas do ponto de vista financeiro, a Academia “é autossuficiente e é financeiramente equilibrada”. Para além da vertente educativa e cultural, o provedor da Misericórdia fundanense destaca a vertente social da Academia na medida em que procura “que seja uma mais-valia nas respostas sociais da instituição. A Academia proporciona música e dança às crianças que frequentam o ATL e jardim-de-infância”. Os 15 anos da Academia estão a ser comemorados desde o início do ano letivo com um vasto programa de iniciativas designado “15 anos – 15 atos”, cujo ponto alto ocorreu no último fim-de-semana de Maio com três dias de intensa atividade musical no Fundão, nos quais foi possível assistir a variados concertos em diversos locais da cidade. A formação de público tem sido outra das conquistas da academia nestes 15 anos e são os próprios alunos que o notam, como refere Mariana Godinho: “Culturalmente as pessoas já aderem muito mais, gostam de ouvir e isso nota-se nos concertos”. Olga Silva recorda outra das grandes conquistas desta escola: “Se tivermos como missão criar gosto na juventude pelas artes, que tenham uma opinião crítica e oiçam outro tipo de música para além do habitual, então já valeu a pena”.

Correio do leitor Como contactar-nos: Correio Rua de Entrecampos, 9, 1000-151 Lisboa Email: jornal@ump.pt

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estante

A história de um monumento

O cinquentenário do Cristo Rei é o motor deste livro. Abordando o ambiente que se vivia em Portugal, foi dado enfoque à situação da Igreja A comemoração do cinquentenário do monumento a Cristo Rei é o motor deste livro. Referência turística, imagem repetida vezes sem conta em postais, pagelas e filmes, ícone de Lisboa e de Almada, este Cristo olha para a cidade “do lado de lá do rio” e abre os seus braços há 50 anos. “Cristo Rei: espiritualidade e história” é uma edição Lucerna/Principia. Segundo a autora, na introdução ao trabalho, o monumento a Cristo Rei, se é um ícone turístico, representa muito mais do que isso: é um monu-

mento à Paz, é um Santuário. O facto de Portugal ter sido poupado à guerra de 1939-1945 é passível de preito e agradecimento. Se esta obra nasceu da ideia do Patriarca de Lisboa num sentido de reparação, foi-lhe depois acrescentado este sentido de dever de agradecimento pela paz numa época em que a Europa e o mundo viveram uma guerra devastadora e fizeram – após o conflito – o gigantesco esforço da reconstrução. Abordando o ambiente que se vivia em Portugal, Maria João da Câmara refere ainda que foi dado enfoque à situação da Igreja, começando por dar uma panorâmica geral das relações entre a Igreja e o Estado. Mas a edição aborda também aspetos como a ideia da construção, a conceção do projeto, a angariação de fundos, a propaganda e a divulgação da obra. Com prefácio de D. José Policarpo.

Cristo Rei: espiritualidade e História Maria João da Câmara Lucerna, maio de 2009

Lista de livros

Guia das ONGD 2012 Vários Plataforma das ONGD, março de 2012

Contos da Páscoa João César das Neves Lucerna/Principia, Fevereiro de 2012

O Guia das ONGD 2012 apresenta as 67 Organizações Não Governamentais para o Desenvolvimento (ONGD) portuguesas associadas da Plataforma, oferecendo uma contextualização sobre estas organizações, nomeadamente sobre as suas áreas de trabalho, os países em que atuam, entre outras. Nele são também apresentados a história e o trabalho da Plataforma Portuguesa das ONGD. O Guia pretende ser uma referência do trabalho das ONGD portuguesas, principalmente numa época em que se verifica um contexto nacional de grandes dificuldades e desafios para todos os agentes que intervêm nas áreas da Cooperação para o Desenvolvimento, Educação para o Desenvolvimento e Ajuda Humanitária de Emergência. As ONGD têm sofrido com a constante indefinição da política pública de cooperação e com a incoerência das medidas tomadas perante a estratégia de 2005 que alegadamente está em vigor. Recorde-se que a União das Misericórdias Portuguesas é uma das organizações que integra a Plataforma das ONGD.

“Querem saber como este livro nasceu? Não vos vou contar a história banal em que estou em casa ou no autocarro a pensar, e depois no computador a escrever. […] Querem mesmo saber como este livro realmente nasceu? Tudo começou com Deus. Como podia começar de outra maneira? Deus, que tem uma imaginação infinita, inesgotável, incompreensível. Deus, que é a origem criadora de tudo o que existe. Deus, que cria sempre, em cada um dos instantes de uma eternidade que não tem tempo. Falar de tudo é falar de Deus. Se querem saber como este livro nasceu, temos de falar de Deus. Deus escreve continuamente pequenos artigos […]. Depois, toma cada uma dessas gemas e parte-a delicadamente em pedaços mais pequenos. Cada ensaio fica assim dividido em componentes semiocultas, separadas mas agrupadas, à espera. À espera no meio do tumulto da vida, no rumor do campo e da cidade. Foi assim que nasceu este livro.” É assim o prefácio de “Contos de Páscoa”, de João César das Neves. Uma edição da Lucerna.


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voz ativa Editorial

VM

Opinião

Voz das Misericórdias Órgão noticioso das Misericórdias em Portugal e no mundo

Paulo Moreira

paulo.moreira@ump.pt

Dar de comer e de beber Dar de comer a quem tem fome e dar de beber a quem tem sede são duas das 14 obras de misericórdia. Desde sempre, as Santas Casas foram cumprindo estas e as restantes 12 obras, à medida das suas possibilidades e das carências das populações

A

difícil situação social do país levou o governo a lançar o Programa de Emergência Alimentar, que teve uma larga adesão entre as Misericórdias. De facto, nos últimos meses, constatámos em inúmeras Misericórdias um aumento exponencial do número de pessoas e famílias que procuram as nossas instituições em busca de apoio para alimentação quotidiana. São geralmente cidadãos na casa dos 40 anos, que ainda há pouco tempo estavam inseridos no mercado de trabalho e tinham uma vida estruturada. Convivem mal com a nova situação, tentam muitas vezes esconder a sua nova realidade, que só envergonhadamente assumem. Precisam que lhes matem a fome e a sede e que os ajudem a recuperar alguma auto estima e esperança. Temos que ter para eles respostas mais ágeis, flexíveis e desburocratizadas. Podemos ir mais longe no apoio a este grupo, criando, por exemplo, um cabaz alimentar para entregar a famílias que não possam deslocar-se aos refeitórios do PEA, como já faz a Misericórdia de Amarante, e desenvolver um programa de hortas sociais prioritariamente destinado a famílias em situação de carência financeira. As experiências que existem até ao momento mostram uma grande adesão às hortas sociais e muitas Santas Casas poderão por em marcha projetos semelhantes, possibilitando alguma segurança alimentar às famílias, ajudando também à melhoria da auto estima desses agregados familiares, que têm assim uma ocupação de que retiram resultados palpáveis e úteis. Pode ser apenas o princípio. A existência de uma rede de hortas sociais pode levar-nos a sonhar com a criação de pontos de venda de produtos hortícolas e outros, criando uma verdadeira rede alternativa que possibilite um futuro melhor para inúmeras famílias que neste momento não veem, nem sentem nenhuma saída para as suas vidas.

Propriedade: União das Misericórdias Portuguesas Contribuinte: 501 295 097 Redacção e Administração: Rua de Entrecampos, 9, 1000-151 Lisboa Tels: 218 110 540 218 103 016 Fax: 218 110 545 e-mail: jornal@ump.pt Tiragem do n.º anterior: 13.550 ex. Registo: 110636 Depósito legal n.º: 55200/92 Assinatura Anual: Misericórdias Normal - €20 Benemérita – €30 Outros: Normal - €10 Benemérita – €20 Fundador: Dr. Manuel Ferreira da Silva Diretor: Paulo Moreira Editor: Bethania Pagin Design e Composição: Mário Henriques Publicidade: Paulo Lemos Colaboradores: Alberto Pita Alexandre Rocha Patrícia Posse Paula Brito Batista Paulo Sérgio Gonçalves Vera Campos Assinantes: Sofia Oliveira Impressão: Diário do Minho – Rua de Santa Margarida, 4 A 4710-306 Braga Tel.: 253 609 460

União das Misericórdias Portuguesas

José Augusto Silveira

Provedor da Misericórdia de Amarante

Mais solidariedade contra a fome

“Não devemos permitir que alguém saia da nossa presença sem se sentir melhor e mais feliz” Madre Teresa de Calcutá

No âmbito da convenção da Rede Solidária de Cantinas Sociais foi criado o PEA (Programa de Emergência Alimentar), cujo Protocolo de Cooperação foi já assinado com um grande número de Misericórdias e que vem ao encontro do definido no Protocolo de Cooperação para 2011-2012, assinado com as entidades representativas do setor social. Vem este programa dar a possibilidade das IPSS garantirem a um maior número de pessoas e/ou famílias que mais necessitem o acesso a refeições diárias gratuitas em todo o território continental. Sabendo, embora, que as IPSS e muito principalmente as Misericórdias já há muito respondem a esta necessidade é de reconhecer que se torna imprescindível mais este apoio, neste momento difícil para muitas famílias e de asfixia financeira de muitas Instituições. Abrangendo de uma forma mais intensiva as necessidades das pessoas nos grandes centros urbanos, diga-se, muitos carenciados ficam afastados deste serviço por residirem no interior, muito longe do local onde poderiam usufruir dessa mesma refeição. Para responder a este desiderato mais uma vez as IPSS e em especial as Misericórdias permanecem atentas e atuantes recorrendo à distribuição de cabazes com produtos alimentares que, no caso da Misericórdia de Amarante, é superior ao número de refeições distribuídas. Há estruturas no terreno no âmbito dos serviços dos Centros Distritais

da Segurança Social que permitem ir mais além no combate à fome que não é exclusiva de lugar algum. A interação com as IPSS que cobrem o território nacional, o aproveitamento de todos os circuitos dos serviços do apoio domiciliário e alguma autonomia dos responsáveis da Ação Social Local da Segurança Social tornariam esta medida mais solidária. Afinal, todos estamos imbuídos da vontade de não permitir que alguém saia da nossa presença sem se sentir melhor e mais feliz.

mas, e apesar de os efeitos do citado decreto se terem feito sentir após a Revolução, de facto, não foi assim. Também pensam, numa visão simplista, que antes, a educação sempre tinha sido diferenciada por género e que, depois, deixou de o ser. Aqueles que andam pelos 50 anos ou mais, recordam talvez os seus anos nalguma escola primária das que foram construídas na década de 40 a 50 do século passado, no âmbito dos Centenários da Fundação de Portugal e da Restauração, normalmente um edifício gémeo com entradas separadas por sexos e um longo e alto muro de granito que dividia os recreios.

Também não é verdade: existem muitos edifícios do mesmo género pelo país apenas com uma sala. Como recordo no meu livro “Entre o Tabu e o Sucesso. O caso da Educação Diferenciada por Género”, a coeducação sempre foi alternativa, por razões económicas, quando os alunos eram poucos quer no ensino primário, quer no secundário. Aliás, apenas em algumas capitais de distrito havia liceus femininos e masculinos. Por exemplo, em Famalicão, onde vivo, o Liceu Camilo Castelo Branco era misto. Outros, como o Liceu de V.N. Gaia ou o Alberto Sampaio, em Braga, optavam por turmas diferenciadas,

Correio VM Refletir sobre 40 anos de coeducação Embora possa passar despercebido, a 28 de Novembro deste ano, ocorre o 40º aniversário do Decreto–Lei nº 482 do Ministério da Educação Nacional presidido por José Veiga Simão que determinou “(…) para vigorar a partir do ano letivo de 1973-74, o restabelecimento da Coeducação no ensino primário e a sua instituição no ciclo preparatório do ensino secundário”. A maior parte das pessoas, incluídos os professores, estão convencidas que a mudança na organização escolar se deveu ao 25 de Abril,


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reflexão

Manuel Ferreira da Silva Historiador e fundador do VM

Na memória dos japoneses I

E o que mais apreciaríeis – perguntei – que vos enviássemos de Portugal? Resposta: livros, cartazes e lembranças do povo português para fazermos da nossa torre-farol um museu de coisas portuguesas. Era Portugal vivo na memória de japoneses.

Quando em 1993 me foi dada a honrosa oportunidade de participar ativa e interventivamente em três congressos internacionais a propósito da presença e acção de Portugal no Oriente, quando se celebravam 400 anos sobre a fundação da primeira Diocese criada no Japão FUNAI-OITA; Mercê de um denso trabalho de estudo que me tinha sido confiado, para e a pedido do então Instituto Cultural de Macau, a propósito da referida efeméride, e a que dei por título “O Sol que veio do Ocidente”; foi-me dada a feliz oportunidade de intervir nesses três congressos a propósito da efeméride em celebração e em três Universidades: Lisboa, Colónia e Tóquio. No caso do Japão, já referi em notas anteriores, a propósito da feliz e generosa recuperação e revitalização da Misericórdia de Macau, não posso deixar de dar mais um passo que também foi para mim da mais emocionante e significativa comoção. Tendo-se programado no complexo geral do Congresso de Tóquio uma longa e interessantíssima viagem de turismo e cultura pelo Japão, fomos parar a uma aldeia, lá muito no interior de uma densa floresta de bambus, mas na encosta de umas arribas entre rochas, a “YOKOSEURA”, onde fomos recebidos pelo chefe da aldeia, com o seu povo com bandeirinhas à portuguesa e, no mais acolhedor e familiar dos ambientes, como também sem qualquer complexo cerimonial. Chamou-me a atenção uma torre de madeira, sobranceira a uma ense-

ada por onde podiam acostar lorchas e pequenos barcos, mas com bandeira portuguesa no topo. Perguntei: “porquê a bandeira portuguesa?” Guardo e registo a resposta tal como a ouvi, e ainda sinto o seu eco com alguma emoção: “quando, no tempo das perseguições que fizeram tantos mártires no Japão, muitos dos quais foram missionários portugueses, e obrigaram tantos japoneses cristãos a fugir, grande parte deles foram acolhidos em Macau; e cordialmente, familiarmente. E lá se fixaram e mereceram fazer história, que ainda hoje é lembrada em significativos monumentos como são as ruínas da nobre Igreja de S. Paulo, onde muitos foram sepultados. Pois, agora que se avizinha o regresso – devolução de Macau à China, não se sabe como é que os portugueses vão ser aceites e tratados. Por isso, tomei – e à minha pessoal responsabilidade, mas de acor-

do com a minha aldeia, lembrado como foram recebidos em Macau os nossos antepassados, fugidos à perseguição por serem portugueses e…cristãos - a iniciativa de oferecer ao Leal Senado de Macau um espaço na nossa aldeia; para que lhes possa ser de refúgio, se precisarem; e por ser para eles o local mais discreto e menos distante para se sentirem acolhidos como se fossem família.” Quem, português de alma e sangue, não se emocionaria perante um gesto desta grandeza de generosidade? E à distância já de alguns séculos! Há memórias que não morrem, e o tempo, como a História, é que ressuscitam com elas, como foi o caso de YOKOSEURA. E o que mais apreciaríeis – perguntei – que vos enviássemos de Portugal? Resposta: livros, cartazes e lembranças do povo português para fazer-

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como se fez, até bastante tarde, com a Educação Física e os Trabalhos Manuais. Daí que o decreto fale de “restabelecimento” da coeducação e não de introdução da mesma, tendo em conta que sempre existiu, dependendo das condições demográficas. Passados 40 anos, vale a pena recordar e refletir sobre os argumentos e fatores dessa mudança de organização escolar: a) A experiência “francamente positiva” nas escolas onde tinha sido praticada a Coeducação, por força das circunstâncias ou por experiência pedagógica, e a de outros países onde se estava a generalizar com

resultados satisfatórios; b) A Igualdade: “A evolução social tende a situar homens e mulheres lado a lado com equivalência de direitos e deveres, na família, no trabalho e em geral na vida quotidiana”; c) A Socialização: “Convém pois que as crianças se habituem, desde os primeiros anos de escolaridade, a uma situação (…) em que rapazes e raparigas cresçam numa sã convivência”, o que leva a esperar “um maior equilíbrio para personalidade de cada indivíduo e uma melhor preparação para assumir o seu futuro papel na sociedade”; e) A esperança de que a Coeduca-

ção “ (…) valorizará o clima moral da escola,” e de que supusesse “uma maior aproximação entre mestres e alunos, bem como entre a escola e a família”; f) “Quando se verifiquem disparidades entre as linhas de crescimento psicológico dos dois sexos, um atento ensino individualizado será necessário e suficiente (…)” e com “(…) novas técnicas pedagógicas onde tenham lugar a participação ativa, o espírito criador e a atitude de colaboração” (Ministério da Educação Nacional, 1972). É certo que a Coeducação generalizada constituiu um instrumento de Igualdade, sobretudo no que

mos da nossa torre-farol um museu de coisas portuguesas. Era Portugal vivo na memória de Japoneses. Lembro ainda a memória dos quatro jovens príncipes cristãos do Japão, levados pelo Padre Alexandre Valignano, Visitador do Vaticano, para se informar como era verdade o progresso da Evangelização de S. Francisco Xavier e seus padres, para que merecesse criar-se já em tão pouco tempo a primeira diocese do Japão. E assim foi. E num próximo parque-jardim entre rochedos ao pé da torre, tinha o regedor feito construir um pequeno monumento lembrando o globo terrestre, com a indicação das viagens que fizeram do Japão a Portugal, e no regresso de Portugal ao Japão, os quatro jovens príncipes cristãos japoneses, a demonstrar em Portugal e ao Vaticano como era verdade real que o Japão já merecia ter um Bispo. E… surpresa das surpresas: fui mais tarde encontrar numa das salas da Biblioteca do Vaticano um majestoso painel figurativo, representando o cortejo de recepção que o Papa de então ordenou como deveriam ser acolhidos os príncipes-primícia da Igreja no Japão. Coisas da História! Coisas do Coração! Coisas e casos onde Portugal também entra! Tudo é para nosso orgulho e satisfação! Sempre valeu a pena ser como fomos, e fazer o que fizemos.

As cartas devem ser identificadas com morada e número de telefone. O Voz das Misericórdias reserva-se o direito de seleccionar as partes que considera mais importantes. Os originais não solicitados não serão devolvidos

se refere ao acesso das raparigas à escolaridade, mas será que os objetivos de Veiga Simão foram atingidos? Não é verdade que as raparigas continuam a não ter acesso aos mesmos postos e salários que os seus colegas? Porque será que os rapazes apresentam maiores índices de abandono e insucesso em todos os países da OCDE? Respeita-se ou tem-se em conta o ritmo de crescimento psicológico e diferente modo de aceder à aprendizagem dos dois sexos? O clima moral da escola melhorou, de facto? Estas são perguntas em que valeria a pena refletir ao fim destes 40 anos. Não talvez com o objetivo

de pôr em causa o status quo, mas para aprender e aprofundar na experiência e argumentos ideológicos, psicológicos, axiológicos, logístico/ económicos, pedagógicos e institucionais brandidos pelos partidários de cada um dos modelos, assim como nas conceções da sociedade e de género subjacentes a estas opções educativas. Maria Amélia Freitas Mestre em Ciências da Educação


Vila Nova de Famalicão Caminhada pela família Em Ação

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Academia Iluminuras expostas na UMP

Terceira Idade

Santo Estêvão Torta de bacalhau do centro da UMP

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Receita

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www.ump.pt Entrevista

Vítor Melícias, Presidente Honorário da UMP

Misericórdias foram a grande expressão de globalização da solidariedade As Misericórdias constituem um movimento presente em diversos países. Qual é, na sua opinião, o aspeto mais relevante dessa presença no mundo? Uma vez que a pergunta é formulada dessa maneira, direi que o que me parece mais relevante é o facto de as Misericórdias conservarem a sua vocação original e selo identitário do seu ADN, isto é, o serem instituições da sociedade civil, formas de participação e direto envolvimento de cidadãos motivados por um humanismo, cristão e fraternista, de carácter universal e orientação universalista, ou seja, de envolverem todos os que o desejam em favor de todos os que necessitam. Esta é, a meu ver, a marca essencial das associações ou irmandades de Misericórdia que, tal como em Florença em Maio de 1244 ou em Lisboa em 15 de Agosto de 1498, continua a definir o ideário e a praxis das que se vão criando ou reatualizando em Paris, no Luxemburgo, em Brasília ou em Menongue de Angola, no Maputo ou mesmo em Timor. No atual mundo em globalização pluripolar, é indispensável uma solidariedade localizada e com rosto humano. Ora as Misericórdias são isso mesmo. E essa é a sua força maior e incontornável contributo para a sociedade do futuro. Seria um exagero afirmar que as Misericórdias foram percursoras naquilo que hoje chamamos de globalização? De modo algum. A sua vocação originária de prática de todas as obras de misericórdia em relação e todo e qualquer necessitado, e em todos os tempos e lugares, é bem a expressão do sentido global e globalizador da humanidade: todos os homens são

Nesse sentido, não só contribuíram para disseminação dos valores básicos da cultura portuguesa, mas podem contribuir e muito para a consolidação dos ideais e das solidariedades da lusofonia. Lusofonia sem sentido de misericórdia e sem Misericórdias não é verdadeira lusofonia.

Vítor Melícias

irmãos. Mais, quando em necessidade são os primeiros de todos os irmãos, como diria S. Francisco de Assis, cujo ideário, aliás, teve influência determinante na fundação e expansão das Misericórdias. Seguramente que a mística franciscana de fraternidade universal, que o credenciado historiador Jaime Cortesão identifica com a mística dos Descobrimentos, é aquela mesma mística de misericórdia, que os frades de S. Francisco embarcavam nas naus e caravelas da 1ª globalização nesse grande Encontro de Povos e de Culturas, que deu novos mundos ao mundo e de um extremo ao outro enxameou de Santas Casas ou Casa de Misericórdia as novas terras em

favor das novas gentes que nelas se encontravam. Nas Ilhas oceânicas apenas descobertas e povoadas como no Norte de África, tal como no Brasil e em Macau ou na China e Japão ou ainda em Malaca e na famosa Goa, cuja Santa Casa maravilhava S. Francisco Xavier, as Misericórdias foram desde logo, ao lado da incipiente globalização do comércio e da implantação da fé, a grande expressão de globalização da solidariedade. Pena é que na nova globalização de hoje se esteja a mundializar a finança e o comércio e se desleixe aquela que deveria ser a vertente essencial, a mundialização da solidariedade e da sua mais nobre expressão que é a misericórdia.

A presença em países da diáspora portuguesa é inegável. Em que medida as Misericórdias poderão ter contribuído para a disseminação da cultura portuguesa? De facto, muito para além das Misericórdias de tradição italiana, as de padrão português ou leonoriano, isto é, as que se estabeleceram segundo o modelo de D. Leonor sob inequívoca influência italiana através do Cardeal de Alpedrinha, marcaram e marcam presença determinante não apenas nas diásporas portuguesas mas em todo o mundo lusófono. Aliás, penso mesmo que elas constituem uma das mais válidas e perenes manifestações da cultura lusófona assente nos valores do humanismo universalista e solidário.

Em Setembro deste ano, Portugal vai ser o anfitrião de mais um congresso internacional das Santas Casas. O que podemos esperar deste encontro? Que ele seja, como em tantas outras ocasiões, um encontro de gente solidária realmente movida pela solidariedade. Solidariedade criativa e proactiva. Solidariedade entre pessoas, entre povos e entre instituições. Surgidas em tempos que eram simultaneamente de expansão económica e de profunda crise social, as Misericórdias de Portugal e do Mundo devem aparecer neste congresso como voz da consciência coletiva em favor dos que, por mor da crise ou com o argumento nela, são as reais vítimas de um sistema sem coração, sem preocupação primeira pelas pessoas e, portanto, sem misericórdia. Devem, por isso mesmo e em obediência à sua identidade e vocação originária, aparecer em congresso internacional unidas, fortes e determinadas, sem medos nem preconceitos, a propor e dispor-se a praticar, contra toda a crise e em superação desta crise, toda as obra de misericórdia. Um dos aspetos mais graves da atual crise é ela ser, antes de mais, uma crise de valores e, designadamente, do essencial valor da solidariedade. Possa este congresso ser, pelo menos, um pequeno contributo para a cultura da solidariedade e da, como disse, sua mais nobre expressão, que é a misericórdia.


Voz das Misericórdias