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ESTUDOS DE DESIGN Projecto de Investigação Final – Trabalho Escrito “A Responsabilidade na Comunicaçãoâ€? JosĂŠ Pedro CampeĂŁ

O Mundo Ocidental habituou-se a dar por garantidos determinados direitos que foram sendo conquistados ao longo do tempo, atravĂŠs de mudanças profundas na mentalidade e pensamento das nossas sociedades e que actualmente estĂŁo protegidos pelas Naçþes Unidas. Um desses direitos, contemplado na Declaração Universal dos Direitos Humanos, ĂŠ o direito Ă liberdade de expressĂŁo. Nas sociedades modernas e livres do mundo ocidental este direito ĂŠ exercido das mais variadas formas e nas diversas ĂĄreas que dĂŁo voz Ă s opiniĂľes e crĂ­ticas do dia-a-dia. Do YDVWRFRQMXQWRGHiUHDVSURĂ€VVLRQDLVSRGHPRVHQXPHUDU DOJXPDVSULYLOHJLDGDVFRPRRMRUQDOLVPRDĂ€FomRWHOHYLVLYD as campanhas de publicidade e de sensibilização, o cinema, a mĂşsica, a literatura, o teatro, as artes plĂĄsticas, e o design de comunicação, transversal Ă s ĂĄreas atrĂĄs mencionadas. Claro que dentro delas podemos destacar algumas variantes mais HVSHFtĂ€FDVTXHSRUYH]HVVHFUX]DPFRPRRGRFXPHQWiULRR cinema histĂłrico, a opiniĂŁo jornalĂ­stica e o design editorial que normalmente lida com os cartoons editoriais. Nos Ăşltimos anos tem-se acentuado a necessidade de, atravĂŠs destes meios, criticar alguns temas muito importantes que merecem, cada vez mais, medidas urgentes a nĂ­vel internacional. É o caso da pobreza, da fome, da SIDA, do aquecimento global e do terrorismo. Este Ăşltimo tornou-se particularmente temido e criticado desde os ataques de 11 de Setembro de 2001 nos EUA. Desde essa data, o clima de tensĂŁo entre o Ocidente, em particular os EUA, e o MĂŠdio Oriente agravou-se ainda mais com as guerras no AfeganistĂŁo e no Iraque, outros ataques na Europa e ainda ameaças de futuros ataques por parte de organizaçþes H[WUHPLVWDVTXHMXVWLĂ€FDPDYLROrQFLDHRyGLRSHOR2FLGHQWH em nome do IslĂŁo. Obviamente dentro da comunidade islâmica nĂŁo hĂĄ apenas fundamentalistas. HĂĄ tambĂŠm pessoas que sendo menos radicais condenam tais actos contra civis ocidentais. Ainda assim hĂĄ diversos lĂ­deres espirituais e atĂŠ polĂ­ticos que encorajam o crescente Ăłdio ao Ocidente e conseguem HĂ€FD]PHQWHOHYDUJUDQGHVPDVVDVGHSHVVRDVDHQFDUDUGH forma distorcida a prĂłpria religiĂŁo apoiando assim o terrorismo HPQRPHGH$OiFRQWUDRV´LQĂ€pLVÂľRFLGHQWDLV Esta realidade em que vivemos hoje foi precisamente o que PRWLYRXRMRUQDOGLQDPDUTXrV´-\OODQGV3RVWHQÂľDSXEOLFDUXP artigo, a 30 de Setembro de 2005, intitulado “Muhammeds DQVLJWÂľ ´$FDUDGH0DRPpÂľ 2DUWLJRFRQVLVWLDHPFDUWRRQV e um texto que criticava o fundamentalismo islâmico, e por outro lado a auto-censura que por vezes ĂŠ praticada pelo receio das reacçþes islâmicas. O jornal convidou cerca de

40 ilustradores dinamarqueses a interpretar MaomÊ usando a via do humor para passar a mensagem da crítica. De entre estes, 12 responderam, incluindo 3 do próprio jornal. Uma das FDULFDWXUDVÀQDLVIRLDPDLVSURYRFDWyULDGHWRGDVXPDYH] que retratava a cara do profeta MaomÊ com uma bomba, de rastilho aceso, escondida no seu turbante, dirigindo a crítica HVSHFLÀFDPHQWHDRWHUURULVPRHPQRPHGR,VOmR 2VFDUWRRQVTXDVHWRGRVHVFULWRVHPGLQDPDUTXrVWLQKDP um caråcter inofensivo e perfeitamente humorístico e alguns continham mesmo personalidades apenas conhecidas na Dinamarca. Contudo, foram assumidamente uma provocação com intenção de mostrar que deve haver o direito de poder VDWLUL]DUÀJXUDVUHOLJLRVDVPDVQmRWHQGRFRPRLQWHQomR ofender todos os islamitas em geral, e não prevendo REYLDPHQWHWRGDVDVFRQVHTXrQFLDVTXHGDtUHVXOWDUDP A decisão de publicar este artigo vem no seguimento de um escritor residente na Dinamarca não ter conseguido nenhum ilustrador que aceitasse trabalhar no seu livro para público infantil sobre o Corão e a vida do profeta MaomÊ, por medo de represålias vindas de islamitas. Estes cartoons provocaram grande indignação e revolta em todo o mundo islâmico. ,QLFLDOPHQWHDUHDFomRFRPHoRXGHIRUPDSDFtÀFD8PJUXSR de embaixadores de alguns países islamitas enviou uma carta DR3ULPHLUR0LQLVWURGD'LQDPDUFDDSHGLUPHGLGDVFRQWUDRV UHVSRQViYHLVSHORVFDUWRRQV23ULPHLUR0LQLVWURUHVSRQGHX explicando que a Dinamarca tem como um dos seus mais importantes princípios, a liberdade de expressão mencionando ainda que o Governo não controla nem censura um jornal que Ê livre e independente. 5DSLGDPHQWHDVUHDFo}HVÀ]HUDPVHVHQWLUHVFDODQGRGH tal maneira que, um pouco por todos os países islâmicos, se sucederam violentos protestos nas ruas. O resultado foi embaixadas incendiadas e mais de 150 pessoas mortas. Alguns dos responsåveis por tais mobilizaçþes de protestantes em fúria ameaçaram de morte os responsåveis pelos cartoons, oferecendo mesmo uma recompensa monetåria a quem os assassinasse. Em defesa da democracia e da liberdade de expressão vårios exemplos dos cartoons foram republicados por vårios jornais, sobretudo na Europa. 1RHQWDQWRHFRPRFRQVHTXrQFLDGHWRGDHVWDSUHVVmRYLQGD dos violentos protestos dos islamitas, a Europa retraiu-se e foise assistindo a pouco e pouco a uma auto-censura. (P-DQHLURGHRMRUQDO´-\OODQGV3RVWHQ¾SXEOLFRXQRVHX website duas cartas abertas a pedir desculpa aos islamitas por os terem ofendido, mesmo que sem intenção, ao publicar os cartoons de MaomÊ.


(P)HYHUHLURGHRMRUQDOLUDQLDQR´+DPVKDKUL¾RUJDQL]RX uma competição internacional de cartoons sobre o Holocausto, em resposta aos cartoons de MaomÊ, tendo como tema a ideia da negação do Holocausto. Esta competição tinha como intenção passar a ideia de que no Ocidente hå uma hipocrisia relativamente à liberdade de expressão, defendendo que na Europa existem tambÊm limites e tabus, e portanto seria impensåvel caricaturar determinados temas intocåveis, devido nomeadamente a leis que proíbem a negação do Holocausto. Tendo em conta a ameaça que esta competição representava de humilhar os defensores da liberdade de expressão na (XURSDRHGLWRUGHFXOWXUDGR´-\OODQGV3RVWHQ¾²SULQFLSDO UHVSRQViYHOSHORDUWLJRGRVFDUWRRQVGH0DRPp²GLVVHHP entrevista à CNN, que o seu jornal estava a tentar comunicar com o jornal iraniano e que iriam publicar os cartoons do Holocausto no mesmo dia em que eles os publicassem no Irão. No entanto, no mesmo dia, horas mais tarde, o seu superior, HGLWRUGRMRUQDOGHFLGLXTXHR´-\OODQGV3RVWHQ¾QmRLULD publicar nenhum cartoon do Holocausto, nem tinha intençþes de voltar a aceitar sugestþes suas para publicar cartoons a satirizar algo. Isto deu origem a uma crise no próprio jornal durante alguns meses. Na Alemanha, a Ópera de Berlim, temendo alguma reacção semelhante à que provocaram os cartoons, cancelou a continuação duma ópera muito antiga de Mozart devido à cena em que a cabeça decapitada de MaomÊ aparece juntamente FRPDVGHRXWUDVÀJXUDVUHOLJLRVDVFRPR-HVXV&ULVWRH%XGD (P)UDQoDRVUHVSRQViYHLVGDUHYLVWD´&KDUOLH+HEGR¾²TXH UHSXEOLFRXRVFDUWRRQVGH0DRPp²IRUDPDFXVDGRVGH difamação e levados a tribunal pela união islâmica francesa, que não ganhou o caso. O simples facto de terem ido a tribunal captou grande atenção e preocupação de vårias entidades artísticas e de comunicação europeias por aquilo TXHVLJQLÀFDYDHVWHMXOJDPHQWRSDUDDOLEHUGDGHGHH[SUHVVmR na Europa.

7RGRHVWHFRQà LWRFXOWXUDOHQWUHRFLGHQWDLV²GHIHQGHQGRD OLEHUGDGHGHH[SUHVVmR²HLVODPLWDV²DFXVDQGRRVRFLGHQWDLV GHWHUHPRIHQGLGRDVXDUHOLJLmR²SURYRFRXJUDQGHGHEDWHH fez com que as opiniþes divergissem em ambos os lados. Do lado Ocidental alguns críticos argumentaram que os cartoons de MaomÊ demonstraram xenofobia e foram mais um contributo para a exclusão social das minorias religiosas e culturais na Europa, e que descredibilizou a Dinamarca aos olhos da comunidade islâmica, que tinha em especial consideração os países nórdicos da Europa. Criticaram WDPEpPDIDOWDGHGLiORJRSRUSDUWHGR3ULPHLUR0LQLVWURGD Dinamarca, quando se recusou a reunir com os embaixadores islamitas. 3RURXWURODGRGHIHQVRUHVGRVFDUWRRQVFULWLFDUDPDUHDFomR da comunidade islâmica argumentando que Ê uma posição KLSyFULWDGHYLGRDYiULDVLQFRHUrQFLDVWDLVFRPRRIDFWRGRV meios de comunicação social årabes terem muitas publicaçþes anti-semitas, e ser estranho considerarem os cartoons blasfemos quando os ataques terroristas em nome do Islão não são igualmente condenados por esses mesmos islamitas.

Muitos criticam os islamitas pela ideia de superioridade HGHH[FHSomRTXHWrPHPUHODomRDRUHVWRGRPXQGR HQWHQGHQGRVHDTXL´H[FHSomR¾FRPRSRVLomRLQà H[tYHOGRV islamitas face ao facto de não saberem conviver, no mundo moderno, com o humor e a crítica, que por vezes ridiculariza DOJRQDVRFLHGDGH VHMDUHODWLYDPHQWHDUHOLJL}HVLGHRORJLDV SROtWLFDVHWF $OJXQVGHIHQGHPTXHRVLVODPLWDVQmRWrPR direito de se achar diferentes do resto do mundo, e de impor a ideia de que nada ligado ao Islão pode ser criticado, alegando que deve haver tolerância e respeito por qualquer opinião, porque se todas as culturas agissem como estes islamitas, ninguÊm podia criticar nada. 3DUDDOpPGHVWHVDUJXPHQWRVXPGRVPDLVVLPSOHVpRGH que o terrorismo em nome de Alå existe, de facto, e jå matou milhares de civis inocentes, em nome da dita guerra santa. Do lado Islâmico existem não apenas críticos fundamentalistas, mas tambÊm críticos que apoiam a liberdade de expressão e criticam os que são fundamentalistas e odeiam o Ocidente. 2VLVODPLWDVTXHFULWLFDPRVFDUWRRQVWrPWRGRRWLSRGH DUJXPHQWRVFRQWUDRVRFLGHQWDLV3DUDFRPHoDUSHORPRGR como interpretam o Corão, alegando que não Ê muito correcto UHSUHVHQWDUÀJXUDWLYDPHQWHRSURIHWD0DRPp0DVRTXHRV irrita Ê sobretudo a forma como alguns cartoons ilustraram HVWDÀJXUDUHOLJLRVDDOHJDQGRTXH0DRPpQmRHUDQHQKXP terrorista. No entanto, o ideal da não representação imagÊtica de MaomÊ Ê apenas uma interpretação errada, uma ideia falsa, não Ê uma regra da religião deles, sobretudo porque a História da Arte mostra que, ao longo de sÊculos, MaomÊ foi sendo representado de diversas formas, por vezes integralmente, outra vezes com a cara tapada. Ainda no sÊculo XX se encontram representaçþes picturais de MaomÊ, como por exemplo cartazes à venda em lojas. Muitos destes islamitas criticam o Ocidente pelo abuso do conceito de liberdade de expressão e democracia, alegando que esta liberdade não Ê absoluta, e que, como em tudo, hå regras e, sendo assim, hå que saber ter limites e respeitar as crenças dos outros. Alguns islamitas mais sensatos, tal como referi atrås, não colocam as culpas inteiramente no Mundo Ocidental e criticam o seu próprio povo. Neste sentido, alguns argumentam que RVRFLGHQWDLVFRQIXQGHPRYHUGDGHLUR,VOmRFRPR´,VOmR¾ praticado por extremistas como Bin Laden. Estes terroristas baseiam o seu combate com o Ocidente no Islão, mas isto não passa duma interpretação distorcida e completamente radical da verdadeira mensagem da religião, que Ê obviamente SDFtÀFDHFRQVHTXHQWHPHQWHFRQGHQDRDVVDVVtQLRGH inocentes. Muitos destes islamitas criticam os cartoons de MaomÊ como sendo uma forma insultuosa de fazer ver um determinado ponto de vista, o que Ê bem diferente de expressar uma opinião que depois pode ser, atravÊs do diålogo, analisada, defendida, e eventualmente aceitada ou rejeitada pelos LVODPLWDV3RURXWURODGRFULWLFDPRVSUySULRVLVODPLWDVTXH em vez de tentarem, tambÊm atravÊs do diålogo, fazer uma crítica construtiva, estão constantemente a dizer mal e não respeitam o estilo de vida liberal, democråtico, moderno, e por vezes ateu, das sociedades ocidentais, acusando-as de serem culturas corruptas. Estes mesmos islamitas menos


radicais relembram que um dos princípios que estå escrito no livro sagrado do Corão Ê o de que não podem insultar os deuses doutros povos, porque nesse caso estarão a insultar indirectamente o seu próprio deus. Muitos destes críticos apoiam a liberdade de expressão, DUJXPHQWDQGRTXHRVLVODPLWDVQmRWrPRGLUHLWRGHLPSRU os seus valores a povos com outros tipos de fÊ, e que a verdadeira liberdade de expressão Ê precisamente permitirse que seja dada qualquer opinião da forma que se quiser, mesmo que seja ofensiva. Contudo, a responsabilidade e sensibilidade Ê algo que deve estar sempre presente quando pensam no impacto que determinada publicação vai ter, não só nos leitores, mas na sociedade em geral.

Uma das piores críticas dos islamitas, e talvez aquela que atingiu e fragilizou com maior sucesso a nossa argumentação pela defesa da liberdade de expressão, foi uma crítica e VLPXOWDQHDPHQWHXP´FRQWUDDWDTXH¾QmRPDOSHQVDGRGHWRGR ²DFRPSHWLomRLQWHUQDFLRQDOGHFDUWRRQVGR+RORFDXVWR Tendo ou não razão em absoluto, uma coisa Ê certa, com esta acção estes iranianos conseguiram demonstrar que existe de facto auto-censura relativamente a alguns aspectos HVSHFtÀFRV FKDPHPRVOKHV´SRQWRVIUDFRV¾ QR0XQGR Ocidental. Mesmo sendo um tema que quase todo o mundo LGHQWLÀFDFRPRPXLWRGHOLFDGRHXPDPDQFKDQHJUDQD História da Humanidade, eles não deixam de ter alguma razão em criticar o Ocidente por tratar de forma diferente o direito a ridicularizar e negar o Holocausto. 3RURXWURODGRSHUFHEHVHTXHKiDOJXPGHVUHVSHLWRSHOR Holocausto no MÊdio Oriente uma vez que Israel tem inimigos um pouco por toda aquela região. E a posição de excepção HGH´WDEX¾GD(XURSDQRTXHGL]UHVSHLWRDULGLFXODUL]DUR Holocausto Ê compreensível porque o Holocausto Ê algo ainda muito presente na memória dos europeus, uma vez que se passou precisamente neste continente, e afectou directamente a Europa. A grande questão que temos que colocar em relação a tudo LVWRpVHGHIDFWRpH[DFWDPHQWHDVVLPFRPRHOHVDÀUPDP isto Ê se o mundo ocidental tem tantas restriçþes e autoFHQVXUDFRPRRVLVODPLWDVWrPSDUDHOHVPHVPRV&RPRp que nos auto-caracterizamos? Como Ê que criticamos a nossa própria cultura? Serå que não hå tambÊm cartoons que pegam em temas tão delicados como o Holocausto? E a religião? 6HUiTXHDVQRVVDVÀJXUDVHVtPERORVUHOLJLRVRVQXQFDVmR satirizados por nós próprios? Serå que não encontramos QHQKXPFDUWRRQVREUH-HVXV&ULVWRSRUH[HPSOR" Como podemos ver mais adiante em alguns exemplos, temas como estes são frequentemente abordados e criticados, da mesma forma que foram feitos os cartoons de MaomÊ para criticar o fundamentalismo no Islão. Esta Ê a nossa melhor resposta à critica dos islamitas. E PHVPRDVVLPFRQVHJXLPRVHQFRQWUDUH[HPSORVGHÀJXUDV relacionadas com o Holocausto usadas hoje em dia no mundo ocidental como forma de criticar algo, às vezes atravÊs do humor, outras vezes de forma mais sÊria. O humor Ê muitas vezes a estratÊgia escolhida pelas vårias åreas artísticas e de comunicação para criticar algo, mas Ê um erro confundir a estratÊgia com o assunto. Uma coisa Ê

o tema ou o assunto ser sÊrio, outra coisa bem diferente Ê a abordagem ser cómica. Talvez a razão pela qual se recorre tanto ao humor para criticar os maiores problemas do mundo tenha a ver com o facto de que jå basta a realidade nua e crua ter tantos problemas, que se um dia deixasse de existir a capacidade de usar o humor para nos rirmos, então a humanidade tal como a conhecemos deixaria de existir. O humor sempre existiu, Ê algo inerente ao ser humano, portanto não me parece provåvel que venha a existir um mundo como o que acabei de imaginar. Tal como não me parece provåvel que o ser humano deixe algum dia de criticar seja o que for, usando todas as ferramentas de comunicação que tem ao seu dispor ao longo dos tempos. Desde a mais remota Antiguidade o humor foi a grande ferramenta para derrotar ditaduras e ditadores, e ajudou tambÊm a exorcizar os medos das diferentes sociedades. Contam que mesmo nos campos de concentração da $OHPDQKDQD]LIRUDPHQFRQWUDGDVLQVFULo}HVKXPRUtVWLFDV assim, a grande gargalhada, estrepitosa e estridente como num novelo gigante, ao contrårio de uma avalanche, vai-se desfazendo atÊ se transformar num nó, na garganta ou no estômago, que nos golpeia forte, muito forte não para nos pôr ´.2¾PDVSDUDQRVDFRUGDUGHVHQKDQGRDSHQDVQRQRVVR URVWRXPDPDUJRHOHYHVRUULVRª²HQFHQDGRU5REHUWR0HULQR FDWiORJRGRž3RUWR&DUWRRQ²´ÉJXDFRP+XPRU¾

A forma mais inteligente que temos de responder ao fundamentalismo islâmico Ê precisamente continuar a exercer a liberdade de expressão quando criticamos algo. Os tais tabus e auto-censura de que eles nos acusam, se existem, estão pelo menos numa posição muito diferente da sociedade islâmica, uma vez que no Ocidente hå mais tolerância na forma como se lida com o que os outros dizem. Isto para não mencionar que Ê uma pråtica recorrente criticar e ser criticado, de qualquer forma e sobre qualquer assunto. A título PHUDPHQWHH[HPSOLÀFDWLYRVHDSDUHFHUDOJRDULGLFXODUL]DURX RIHQGHUDÀJXUDGH-HVXV&ULVWRRPi[LPRTXHDFRQWHFHpR Vaticano pronunciar a sua indignação, mas nunca chegamos DRSRQWRGHDVVLVWLUDPDQLIHVWDo}HVGHKLVWHULDHYLROrQFLDQDV ruas em nome da religião.

Estes acontecimentos fazem-nos lembrar o grande poder e impacto que os meios de comunicação podem ter, e por isso mesmo, enquanto designers de comunicação e defensores da OLEHUGDGHGHH[SUHVVmRWHPRVTXHWHUVHPSUHDFRQVFLrQFLD de que exercemos uma actividade em que de uma maneira ou doutra comunicamos uma mensagem e uma ideia, e portanto a forma como essa ideia Ê comunicada e a própria ideia que Ê FRPXQLFDGDWrPTXHVHUVHPSUHPXLWREHPSRQGHUDGDV 3RGHPRVHVWDUDIDODUGHFDUWRRQVHGLWRULDLVFRPRSRGHPRV estar a falar de um cartaz, ou de um outdoor, ou de uma FDSDGHUHYLVWDRXGHXPDIRWRJUDÀDQXPMRUQDORXGHXPD ilustração para a infância, ou de um anúncio televisivo, ou de um genÊrico de cinema, ou de uma capa de CD, não importa, seja qual for o meio, o suporte, o público, a mensagem, a årea HVSHFtÀFDGR'HVLJQGH&RPXQLFDomRRSDtVDVRFLHGDGHD região do planeta, temos que ter sempre os mesmos princípios Êticos, isto Ê, mesmo que se trate de uma crítica ao terrorismo, temos que encarar o nosso trabalho de forma responsåvel.


&ODURTXHWXGRLVWRpPXLWRUHODWLYRHQHPVHPSUHVHSUHYr RUHVXOWDGR SDUDREHPHSDUDRPDO GHXPDGHWHUPLQDGD mensagem, mas pelos menos temos que o fazer sempre de forma totalmente consciente. Isto implica sermos tolerantes ao ponto de perceber a relatividade das mesmas questþes consoante os valores pelos quais se guia cada cultura. Mesmo que eles estejam claramente errados em relação a alguns aspectos, temos que perceber que Ê o seu país e DVXDFXOWXUDHTXHHOHVQmRWrPDPHVPDFDSDFLGDGHGH avaliar uma crítica como no mundo ocidental. Temos que estar preparados para perceber quando Ê que algo, que para nós ocidentais pode não ter a mínima importância, pode eventualmente ser o oposto para outras culturas e por isso podemos, mesmo sem ter intenção, ofender alguÊm. 3RUPXLWRTXHRVWHPSRVPXGHPHSRUPXLWRJOREDOL]DGRTXH VHGLJDTXHHVWHPXQGRWHQKDÀFDGRQR6pFXOR;;DPHWiIRUD da Torre de Babel continua a ser perfeitamente adequada ainda hoje. Cada cultura tem os seus códigos e os seus valores culturais, e quando trabalhamos para ou sobre uma cultura que não a nossa, temos que ter isso em mente e tomar cada decisão com grande responsabilidade, adaptando-nos a uma cultura que não Ê a nossa. No dia-a-dia encontramos imensos exemplos de como tudo Ê UHODWLYRHSRUYH]HVHVSHFtÀFRSDUDFDGDFRQWH[WRJHRJUiÀFR Os sinais de trânsito são um bom exemplo de como as FXOWXUDVVmRGLIHUHQWHV0HVPRQDVOLQJXDJHQV´XQLYHUVDLV¾ encontramos pequenas diferenças nos pictogramas, nas cores usadas, entre outros. Outro exemplo Ê a roupa, se estivermos no ocidente e formos a um funeral, a cor preta Ê normalmente usada como símbolo de luto, mas por exemplo no mundo oriental irmos vestidos de preto a um funeral Ê sinónimo de insulto. A Cruz Vermelha Ê uma associação com símbolos diferentes em certas regiþes do mundo. $FUX]VXiVWLFDpXPGRVVtPERORVJUiÀFRVPDLVRGLDGRV DFWXDOPHQWH SHORPHQRVQRVSDtVHVRFLGHQWDLV SRUTXH associamos sempre este símbolo aos nazis. Mas a verdade Ê que a origem do símbolo Ê muito mais antiga que a primeira metade do SÊculo XX e teve imensas outras conotaçþes em GLYHUVRVFRQWH[WRVJHRJUiÀFRVYDULDQGRDRORQJRGHVpFXORV QDFRQÀJXUDomRHVLJQLÀFDGRFRQIRUPHDFXOWXUD &RPRHVWHVKiPXLWRVRXWURVH[HPSORVTXHFRQÀUPDPTXH este continua a ser um mundo muito plural, e o Design de Comunicação tem que saber lidar com essa pluralidade em todas as situaçþes, para não ofender ou simplesmente para QmRFRUUHURULVFRGHQmRSDVVDUHÀFD]PHQWHDPHQVDJHP pretendida.


ESTUDOS DE DESIGN 3URMHFWRGH,QYHVWLJDomR)LQDO²%LEOLRJUDÀD “A Responsabilidade na Comunicação” José Pedro Campeã

LIVROS: COTRIM, João Paulo – Livro André Carrilho – O Rosto do Alpinista. Assírio & Alvim, El Corte Inglés – Lisboa, 2007

ZAPATERRA, Yolanda – Livro Editorial design. Central Saint Martins College of Art & Design, Laurence King Publishing Ltd – Londres, 2007

FIELL, Charlotte & Peter – Livro Graphic Design Now. Taschen – Köln, 2005

MARCOS, Luís Humberto – Catálogo V PortoCartoon World Festival – Água com Humor. Museu Nacional da Imprensa, Edições ASA – Porto, 2003

MARCOS, Luís Humberto – Catálogo VI PortoCartoon World Festival – Desporto & Sociedade. Museu Nacional da Imprensa, Edições ASA – Porto, 2004

WEB: Ads of the World – http://adsoftheworld.com/ (Abril, 2008)

ConservaBlogs – http://conservablogs.com Ironic Surrealism II – http://conservablogs.com/velvethammer “Bloody Cartoons” http://conservablogs.com/velvethammer/2007/10/10/bloody-cartoons (Abril, 2008)

Dagbladet – http://www.dagbladet.no Her brenner de ambassaden http://www.dagbladet.no/nyheter/2006/02/04/456821.html (Abril, 2008)

Danish Cartoons of the Islam Prophet Mohammed – http://www.prophetcartoons.com (Abril, 2008)

Daryl Cagle's Professional Cartoonists Index – http://www.cagle.com Those Muhammad Cartoons http://www.cagle.com/news/Muhammad (Abril, 2008)


Design Observer – Writings on Design and Culture – http://www.designobserver.com What is Design For? A Discussion http://www.designobserver.com/archives/000190.html (Abril, 2008)

IMDb (The Internet Movie Database) – http://www.imdb.com Bloody Cartoons (2007) (TV) http://www.imdb.com/title/tt1209397 (Abril, 2008)

Jyllands-Posten – http://jp.dk E-avis – http://eavis.jp.dk Jyllands-Posten Epaper – Fredag den 30. september 2005 http://eavis.jp.dk/Arkiv/30-09-2005/demo/JP_04-03.html (Abril, 2008)

Rádio e Televisão de Portugal – http://www.rtp.pt Documentários – Democracia?: Cartoons Sangrentos http://tv1.rtp.pt/EPG/tv/epg-janela.php?p_id=23671&e_id=&c_id=1 (Abril, 2008)

The Ressabiator – http://ressabiator.wordpress.com Design como Moralismo http://ressabiator.wordpress.com/2005/09/06/design-como-moralismo Grande Poder, Grande Responsabilidade? http://ressabiator.wordpress.com/2008/04/02/grande-poder-grande-responsabilidade Livro de Código http://ressabiator.wordpress.com/2008/02/01/livro-de-codigo (Abril, 2008)

Why Democracy? – http://www.whydemocracy.net :K\'HPRFUDF\²ÀOPV²%ORRG\&DUWRRQV KWWSZZZZK\GHPRFUDF\QHWÀOP (Abril, 2008)

Wikipedia, the free encyclopedia – http://en.wikipedia.org Jyllands-Posten Muhammad cartoons controversy http://en.wikipedia.org/wiki/Jyllands-Posten_Muhammad_cartoons_controversy International Holocaust Cartoon Competition http://en.wikipedia.org/wiki/Iran_Holocaust_Cartoons_Contest Jyllands-Posten http://en.wikipedia.org/wiki/Jyllands-Posten (Abril, 2008) Wikipédia, a enciclopédia livre – http://pt.wikipedia.org Polêmica das caricaturas da Jyllands-Posten sobre Maomé http://pt.wikipedia.org/wiki/Polêmica_das_caricaturas_da_Jyllands-Posten_sobre_Maomé Morgenavisen Jyllands-Posten http://pt.wikipedia.org/wiki/Morgenavisen_Jyllands-Posten (Abril, 2008)


YouTube – http://www.youtube.com Why Democracy? - Bloody Cartoons (Part 1 of 6) http://www.youtube.com/watch?v=03OhSgLlETY Why Democracy? - Bloody Cartoons (Part 2 of 6) http://www.youtube.com/watch?v=BQP4QK834Rk&NR=1 Why Democracy? - Bloody Cartoons (Part 3 of 6) http://www.youtube.com/watch?v=SIdw2vIHbHI&feature=related Why Democracy? - Bloody Cartoons (Part 4 of 6) http://www.youtube.com/watch?v=Kie_rYz1AJQ&feature=related Why Democracy? - Bloody Cartoons (Part 5 of 6) http://www.youtube.com/watch?v=Bvvgl8U0hBs&feature=related Why Democracy? - Bloody Cartoons (Part 6 of 6) http://www.youtube.com/watch?v=rG2W-NI6afI&feature=related (Abril, 2008)

PODCASTS: HELLER, Steven – School of Visual Arts – MFA Designer as Author – Paul Rand Lecture Series. Steven Heller lectures on Design History. School of Visual Arts – Nova Iorque, 2006-2008 (http://design.schoolofvisualarts.edu/weblog/paulrand – http://design.schoolofvisualarts.edu)

TV: KJÆR, Karsten – Documentário Bloody Cartoons. Why Democracy? – Dinamarca, 2007 (Abrill, 2008 – RTP1)

projecto de investigação "A Responsabilidade na Comunicação"  

Projecto de investigação em que me debrucei sobre as diferentes interpretações que podem existir relativamente àquilo que uma mensagem trans...